O senso do ser

Ir. Juliane Vasconcelos Almeida Campos, EP

A ideia fundamental que é ponto de partida para todas as outras ideias de um ser inteligente é que ele existe. Seria impossível ao homem conceber qualquer ideia se não tivesse o apoio da ideia de que algo é, pois, ignorando o que é o ser, não saberia que algo é. Ser e essência ― o quid, o que a coisa é ― são, portanto, as duas primeiras concepções do intelecto, pressupostos de todas as demais ideias. O homem é, portanto, a única criatura entre as materiais ― racional e espiritual ― que, além de existir, sabe que existe, por possuir uma intuição, uma noção que é anterior até mesmo a este elementar conhecimento intelectual de si mesmo. Segundo o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, “de fato há algo anterior: a matéria-prima para a noção de ser é inata.1 Ela se desperta no contato com a realidade. É um conhecimento germinativo primeiro, é o conhecimento que o ser tem de que ele é. E algo, que não é ele, é também. Tem a capacidade de refletir: ele se conhece e conhece a coisa, e refletindo desenvolve o primeiro conhecimento”.2 Esta noção é chamada de senso do ser. Este não exige nem mesmo o pleno uso da razão ― funciona como um hábito existencial ―, e só a partir dele será possível chegar a todos os outros conhecimentos.

Assim, quando a criança está ainda no berço, com suas primeiras percepções, investigando o que existe, com um olhar perscrutador, está no alvorecer do seu senso do ser posto já em movimento, conhecendo. Tal noção de ser é sumamente substanciosa para o homem, como alimento próprio à sua inteligência, pois é o que lhe permite conhecer todas as coisas, garantindo-lhe a sanidade mental, uma vez que se não fossem verdadeiras e reais suas apreensões, ele não poderia fazer o uso reto de sua razão. O mesmo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira chega a afirmar:

No espírito humano as regras da lógica são subconscientes. A lógica não faz senão explicitar essas regras. Um homem que não tivesse essas regras invisceradas, como coisas conaturais a seu espírito, seria louco. Um espírito pode ser extremamente primitivo e, ao mesmo tempo, inteiramente lógico. No subconsciente humano cabem tesouros de filosofia, de conhecimento, que, embora implicitamente, são condições para a sanidade mental.3

Esses estímulos iniciais e espontâneos do ser humano, enquanto racional, lhe dão segurança na busca dos objetivos aos quais foi destinado. Por exemplo, se forem dadas algumas bolinhas de cores diferentes a um bebê, para brincar, ele vai escolher a que mais lhe agrada; depois escolherá outra e assim sucessivamente. É a busca instintiva do verdadeiro, do bem e do belo que o levará a escolher uma das bolinhas como a principal, que para ele será a melhor e mais bonita. São os reflexos que antecedem a capacidade de julgar conforme princípios claros e estabelecidos.4 E a criança sabe que a bola não é ela e que uma bola não é a outra. Tem inatos os princípios de identidade e contradição: “o que é, é; o que não é, não é” e “o que é, não é o que não é”.5

Tal conhecimento já começa a manifestar-se quando o bebê abre seus olhos para a luz, distinguindo seu ser do de sua mãe; percebendo que o chocalho é real e verdadeiro, pois escuta seu barulho, que o leite é branco e lhe satisfaz a sensação de fome, sendo por isso bom, que a luz e as cores são atraentes e belas, entretendo-o e fazendo com que ele queira conhecer e aprender mais e mais. Tem ele uma intuição de que sempre há algo mais para conhecer, para além daquela realidade que vê e apreende experimentalmente, ainda sem compreender conceitualmente qualquer expressão abstrata e formal. Em nenhuma época se aprende tanto como quando se é criança, e esta não dissocia o entreter-se do compreender. “Neste nosso mundo de seres ao qual ela acaba de aportar, o ser do homem desabrocha e exclama por consonância com a verdade, bondade e beleza dos seres que observa”.6

Sem saber ainda nenhum conceito metafísico, está a criança ordenadamente conhecendo cada ente em suas propriedades transcendentais ― res, unum, aliquid, verum, bonum, pulchrum ―, seguindo a lógica de seu processo dedutivo, de modo instintivo pelo seu senso do ser. Para o Fr. Garrigou-Lagrange, OP,7 a primeira apreensão intelectual leva precisamente ao ser inteligível das coisas sensíveis. Enquanto a vista alcança o real material, a forma e a cor, a inteligência o alcança como real inteligível. Assim como o ouvido alcança o real como sonoro, e o paladar percebe o mais ou o menos gostoso, a inteligência o capta como real inteligível e verdadeiro. Tem assim, em seu primeiro contato com as coisas, uma primeira noção confusa do ser e do verdadeiro. A partir daí, a inteligência busca o que excede aos sentidos e à imaginação: as razões de ser das coisas, seu porquê, sua causa. Por exemplo: por que um relógio se movimenta, razão que nenhum animal pode perguntar-se.

Deste modo, nossa inteligência, desde o primeiro contato com o real inteligível, compreende que o verdadeiro é o que é, e o juízo verdadeiro é aquele que é conforme com a realidade.

1) O conceito “inato” é empregado neste artigo no sentido de uma percepção intuitiva inerente ao próprio ser humano ― mesmo não tendo ainda ideias concebidas ―, supondo o pleno desenvolvimento do uso da razão para sua perfeita intelecção. De modo que, se falta a um indivíduo a sanidade mental, ser-lhe-á inteiramente impossível tomar consciência desta intuição, que se desperta no contato com as realidades e circunstâncias exteriores.
2) CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. O alvorecer do senso do ser. São Paulo, 4 maio 1988. Palestra. (Arquivo IFAT).
3) Id. Considerações sobre o processo humano. São Paulo, 1973. Conferência. (Arquivo IFAT).
4) Cf. CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Os dois filhos da parábola, e os dois outros. Arautos do Evangelho, São Paulo, ano 4, n. 45, set. 2005, p. 7-8.
5) Para mais detalhes, ver: GARRIGOU-LAGRANGE, Réginald. El sentido común: la filosofía del ser y las fórmulas dogmáticas. Buenos Aires: Desclée de Brouwer, 1945, p. 148-149.
6) CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O primeiro olhar da inteligência. Lumen Veritatis, São Paulo, ano 3, n. 12, jul./set. 2010, p. 14.
7) Cf. GARRIGOU-LAGRANGE. Op. cit. p. 330-332.

Lumen Veritatis – Vol. 6 – Nº 22 – Janeiro a Março – 2013

“Ó MORTE, ONDE ESTÁ TUA VITÓRIA?”

Ir. Thaynara Ramos Siedlarczyk, EP

Nos dias conturbados em que vivemos, as ondas de violência tornam a morte um acontecimento frequente, quer seja nos lugares onde há guerras declaradas, quer seja nas zonas “pacíficas” em que “o homem é um lobo para outro homem”.1 Perante essa perspectiva, o que pensar da morte? Entre outras coisas, nela sempre podemos encontrar, ao menos, duas marcas de Deus: uma, deixada por sua infinita justiça; outra, traçada por sua inesgotável misericórdia.

É verdade que, em muitos casos, a morte se apresenta com o aspecto de tragédia. A erupção de vulcões, terremotos, tsunamis, desabamentos, e tantas outras desordens da natureza que com espantosa assiduidade têm visitado o planeta nos últimos anos, disseminam a morte por onde passam e deixam a impressão de um justo castigo pelas iniquidades dos homens. Realmente, quantas dessas desgraças não aconteceriam se os homens obedecessem e amassem mais ao Criador do universo? Quantas tristezas, dores e aflições seriam poupadas aos homens, se soubessem dizer não ao pecado, o qual traz consigo não só funestas consequências espirituais, como também temporais!

Entretanto, se procurarmos nessa mesma realidade os vestígios da misericórdia de Deus, não nos será difícil encontrá-los. A começar pelo temor que tais calamidades suscitam nas consciências adormecidas, incitando-as à emenda de vida. O medo nem sempre propicia a conversão, mas quantas vezes é este o elemento usado por Deus para tocar corações que há muito se afastaram d’Ele! Ao ver a morte ceifar a vida alheia, muitos se põem o problema: e se fosse eu, estaria preparado? E inclusive entre os que são levados para a eternidade, quantos não recebem uma última graça que os leva a uma contrição perfeita e, portanto, a reatar a amizade com Deus? Que multidão de almas não se salvam nesse instante, pelo simples fato de terem rezado com fé a Ave-Maria, suplicando a intercessão da Mãe de Deus “agora e na hora da nossa morte?”

Assim sendo, até mesmo nessa época tão conturbada da História, o triunfo do Redentor sobre a morte continua a produzir gloriosos frutos de vida. E todos os que n’Ele colocam sua esperança bem podem exultar em uníssono com o Apóstolo: “Graças, porém, sejam dadas a Deus, que nos dá a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo!” (I Cor 15, 57).

1 PLAUTUS, Titus Maccius. Asinaria, II, 4, 88. In: Comedias. Madrid: Gredos, 1992, v.I, p.138.

Pode a justiça conviver com a misericórdia?

Ir Mariana de Oliveira, EP

Pode acaso a justiça coabitar com a misericórdia? Ou a severidade com a bondade? Como pode ser que em Deus, a quem sabemos uno e simples, isto ocorra?

Quando se anda mata adentro se veem muitas sombras e luzes projetarem-se no chão rústico. O Sol pode estar a pique, entretanto, as folhas impedem de vê-lo e na floresta só se percebe que ele existe devido a estes desenhos que se formam com os raios filtrados pelas brechas nos galhos das árvores. Quem não sabe que existe uma ramagem em cima, não sabe explicar o porquê de não estar vendo o Sol, mas apenas tênues raios incidindo sobre o solo e se interpondo à sombra. 1Tentemos, então, de alguma forma, compreender a justiça e misericórdia de Deus, divisando as ramagens que estão no alto, cientes de que nada acontece de avulso ou contraditório, pois a mão divina que a rege é perfeita e inerrante.

É compreensível que dúvidas como “Deus pode ser justiceiro e igualmente misericordioso?” ou “bom e severo?” pululem na mente do homem, pois, assim como ninguém pode, por exemplo, possuir um temperamento extrovertido e ao mesmo tempo tímido, assim também somos tendentes a aplicar a Deus as regras que regem a natureza humana.

A intensidade do amor de um pai por seu filho é muito grande, sobretudo quando aquele é reto. Como deverá agir o bom pai para educar a criança? Acaso será castigando-a a cada pequena travessura cometida? Ou, talvez, fazendo com que o menino nunca conheça o humilhante castigo, cobrindo-o de carícias, mesmo quando ele pratique uma ação reprovável? Ou, então, usando da bondade, sempre que possível, e da severidade nos tempos oportunos? Evidentemente, quanto mais o pai souber equilibrar estes dois elementos, mais amado e respeitado será aos olhos do filho.

Com efeito, o segredo da boa educação e do relacionamento equilibrado da família é, exatamente, a justaposição da bondade com a severidade nos devidos momentos. Ora, se esta união entre justiça e misericórdia se dá tão comumente dentro da vida familiar, ela bem pode ser o reflexo de uma harmonia mais excelsa, ou seja, aquela existente em Deus, que usa de tais atributos para melhor formar o homem.

É muitíssimo divulgada a ideia: “Deus é Bom e, portanto, pode-se ‘andar errante’, pois Ele é misericórdia e perdão”… É bem verdade que Ele é a Misericórdia. Ele, de fato, é o Perdão… Mas será que o Senhor, justamente por sua eterna misericórdia e seu desejo de perdoar, não pode “chacoalhar” com mão forte o homem, para que este entenda que sua ternura quer envolver os corações que verdadeiramente O amem, e para despertar aqueles que parecem dormir à beira do abismo do pecado e da morte eterna?

Esvanecendo toda insegurança, o Doutor Angélico explica: “a obra da justiça divina pressupõe a obra da misericórdia e nela se fundamenta”,2 pois a misericórdia não é senão a raiz de todo obrar divino. E, bem longe de se opor à justiça, a misericórdia é a sua plenitude, uma vez que a justiça se limita a dar o que se deve a quem merece, mas a misericórdia dá muito mais do que se merece, sobrepassando toda proporção exigida.3

“Na verdade, a justiça e a misericórdia não somente não são contrárias entre si, como também se harmonizam […] maravilhosamente em Deus”.4 Em outros termos, é íntima a conciliação entre a misericórdia e a justiça em Deus.5

É o que constatamos ao analisar alguns casos descritos no Antigo Testamento, em que o personagem merecia ser exterminado e, por causa de uma ação um pouco mais relevante, o Altíssimo Se compadeceu e atenuou a pena. Um exemplo surpreendente disto é o rei Acab, que procedeu repetidas vezes de modo péssimo durante o seu reinado, cometendo crimes e abominações sem nome. No entanto, quando foi ameaçado por Deus, humilhou-se, provocando a compaixão do Senhor, que lhe diminuiu a punição (cf. I Re 21, 21-29). Este e tantos outros episódios ressaltam que, desde sempre, o fogo da misericórdia esteve ardente, e ao Senhor aprouve, já naquela época, fazer sentir o seu benfazejo calor através de pequenas faíscas. A chama seria, mais tarde, acesa pelo próprio Deus Humanado.

É verdade que, na maioria dos casos, mostrava-Se Ele bem severo com as desobediências. Porém, uma coisa é certa: a bondade estava regendo sempre seu proceder, e enquanto uma mão batia, a outra animava à mudança de vida e à boa disposição para receber o Salvador, promessa que se manteve inabalável, apesar de todas as infidelidades do povo.

Quanto amor pelos homens tem Aquele que não precisa dos homens para ser glorificado, mas desejou, por pura misericórdia, levá-los à participação da sua própria divina vida, fazendo-os co-herdeiros com seu Filho (cf. Rm 8, 17)!

1 Cf. CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Cólera e misericórdia. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano XIV, n. 154, jan. 2011, p. 25.
2 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Op. cit. I, q. 21, a. 4.
3 Cf. Ibid. a. 3, ad 2; a. 4.
4 ROYO MARÍN. Op. cit. p. 177-178. (Tradução da autora).
5 Cf. Ibid. p. 108.

O que importa é glorificar

Ir Ariane da Silva Santos, EP

“Não a nós, ó Senhor, não a nós, ao vosso nome, porém, toda a glória” (Sl 113, 9), canta o Salmista, sintetizando, em poucas palavras, o desejo que anima o coração dos justos. Nenhum outro sinal é tão revelador da santidade de alguém quanto esse infatigável anseio de direcionar a Deus os louvores recebidos, e de procurar a máxima glória d’Ele em todas as coisas.

Com efeito, se até mesmo os seres inanimados glorificam a Deus pelo fato de existirem — “os céus publicam a glória de Deus, e o firmamento anuncia a obra das suas mãos” (Sl 18, 3) — muito mais deveriam glorificá-lo os homens, criados à sua imagem e semelhança, e “realmente filhos de Deus e co-herdeiros com Cristo” (Rm 8, 17) pelo Batismo ! Contudo, enquanto as outras criaturas invariavelmente louvam a Deus, os homens nem sempre querem cumprir com essa obrigação, por causa do orgulho. E muitas vezes trocam “a sua glória pela estátua de um touro que come feno”… (Sl 105, 20).

São João Batista é um modelo exímio da prática da restituição, virtude que resume em si a humildade, a gratidão e o desejo de servir a Deus. Sua vida não foi senão um desdobramento de fidelidades, restituindo em grau supremo tudo aquilo que recebeu de Deus, desde o primeiro contato com Ele através da voz de Maria, ainda no claustro materno. Comentam alguns teólogos que, nesse momento, pela excelência arrebatadora da voz de Nossa Senhora, a vida divina foi transmitida a São João Batista. O fato de ele ter saltado no ventre de Santa Isabel significa que lhe foi apagada a mancha do pecado original, como se ele tivesse sido batizado.[1] A partir de então, inúmeras outras graças lhe foram sendo concedidas em função dessa graça primeira, como comenta o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira:

Vê-se que Nossa Senhora comunicou aí, misteriosamente, o espírito d’Ela a São João Batista. E tudo quanto ele fez na vida dele era uma decorrência dessa graça inicial, e que pelos rogos d’Ela foi constantemente intensificada, até chegar ao auge, quando ele morreu. E aí nós podemos ver São João Batista enquanto asceta austero, enquanto pregador do Cordeiro de Deus que viria e, depois, como herói que enfrenta Herodes e morre como mártir sublime de grandeza e de serenidade.1

Foi ele um “um facho ardente de amor a Deus”, que só viveu para a realização de sua missão, tendo somente “Deus diante dos olhos”.2

Não buscava os vestidos preciosos do mundo quem havia desprezado o próprio mundo; nem esperava uma comida opulenta quem pisoteava as delícias do mundo. Que necessidade tinha dos preciosos trajes do mundo a quem estava revestido com a veste da justiça? Que alimentos delicados da terra poderia desejar quem se banqueteava com as palavras divinas, aquele para quem o verdadeiro alimento era a lei de Cristo?3

E, de correspondência em correspondência, de entrega em entrega, quis diminuir para que crescesse a glória d’Aquele a quem os céus e a terra não puderam conter.

Com toda certeza, São João Batista diminuiu em vida, mas cresceu para a eternidade e para todas as eras vindouras, tornando-se o arquétipo de humildade cuja luz brilha diante dos homens e os leva a glorificar a Deus! (cf. Mt 5, 16)

Aprendamos com ele a estar constantemente indicando aos outros a verdadeira Luz, para, no final de nossa vida, proclamarmos com todas as fimbrias de nossa alma:

Eu sou vosso, Senhor, nem devo pertencer senão a Vós; a minha alma é vossa, e não deve viver senão para Vós; a minha vontade é vossa, e não deve amar a ninguém senão por vosso amor; o meu amor é vosso, e não deve visar senão a Vós. Devo amar-vos como meu primeiro princípio, porque vim de Vós; devo amar-vos como meu fim supremo e meu repouso, porque fui criado para Vós; devo amar-vos mais do que ao meu ser, porque este ser subsiste por Vós; devo amar-vos mais do que a mim próprio, porque vos pertenço e resido em Vós.4

1 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Conferência. São Paulo, 11 set. 1967. (Arquivo IFTE).
2 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Conferência. São Paulo, 17 nov. 1972.
3 CROMACIO DE AQUILEYA. Comentarios al Evangelio de San Mateo, apud LA BIBLIA COMENTADA POR LOS PADRES DE LA IGLESIA. Madrid: Ciudad Nueva, 2004, p. 84: “No buscaba los vestidos preciosos del mundo quien había despreciado el mismo mundo; ni aguardaba una comida opulenta quien pisoteaba las delicias del mundo?¿Que necesidad tenía de los preciosos trajes del mundo quien estaba ataviado con la vestidura de la justicia? ¿O que alimentos delicados de la tierra podía desear quien se apacentaba con las palabras divinas, aquel para quien el verdadero alimento era la ley de Cristo?” (Tradução da autora)
4 SÃO FRANCISCO DE SALES. Tratado do amor de Deus. 3 ed. Porto: Apostolado da Imprensa, 1958.

A raiz de todos os males (cont)

Ir Ariane da Silva Santos, EP

No post anterior, foi analisada a figura de Lúcifer e seus sequazes que por um ato de insubmissão foram expulsos do Céu, agora consideraremos o homem.

“Sereis como deuses…”

Deus criou Adão em estado de justiça original e o introduziu no Paraíso. Enquanto permaneceu inocente, o homem viveu feliz naquele lugar de delícias, em companhia de Eva, tendo, entretanto, de obedecer à ordem que o Senhor lhes havia dado: “Não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal; porque no dia em que dele comeres, morrerás indubitavelmente” (Gn 2, 17).

Se nossos primeiros pais tivessem sido fiéis a este preceito, Deus os confirmaria na graça e todos os seus descendentes nasceriam também em estado de justiça. Depois de concluir o curso de sua existência no Paraíso, entrariam na felicidade perfeita, na bem-aventurança eterna. Ademais, tinham eles outras prerrogativas:

Não havia para o homem a possibilidade de morte, nem de enfermidade. Devido à sujeição das forças inferiores à razão, reinava nele uma completa tranquilidade de espírito, porque a razão humana não era perturbada por nenhuma paixão desordenada. Pelo fato de sua vontade estar submissa a Deus, ele dirigia tudo para Deus, como seu fim último, e nisso consistiam sua justiça e sua inocência. 1

Contudo, Eva deixou-se enganar pelas palavras da serpente: “Oh, não! Vós não morrereis! Mas Deus bem sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão, e sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal!” (Gn 3, 4-5). Como a soberba já ofuscava o espírito de Eva, ela tomou o fruto, comeu-o e ofereceu-o ao seu marido, que também o comeu. “A sedução da mulher, embora precedesse o pecado de ação, foi, entretanto, subsequente a um pecado de orgulho interior”,2 ensina São Tomás de Aquino. E nesse mesmo sentido, afirma Santo Agostinho: “Não se deve imaginar que o tentador teria conseguido vencer o homem se no espírito dele não tivesse surgido antes um sentimento de orgulho, o qual ele deveria reprimir”.3

Ainda a respeito do pecado original, o Aquinate explica:

A primeira desordem do apetite humano consistiu em desejar, de forma desordenada, algum bem espiritual. Mas não o teria desejado desordenadamente se o tivesse feito na medida estabelecida pela lei divina. Logo, o primeiro pecado foi o desejo de um bem espiritual, fora da medida conveniente. E isso é próprio da soberba. Por conseguinte, o primeiro pecado do primeiro homem foi manifestadamente a soberba. 4

“A soberba precede à ruína; e o orgulho, à queda” (Pr 16, 18), ressalta o livro dos Provérbios. E foi o que sucedeu ao homem: perdeu todos os dons da graça que de Deus havia recebido, e foi expulso do Paraíso para este vale de lágrimas.

Podemos, assim, constatar uma estreita semelhança entre o pecado dos anjos e o dos homens:

Bem se pode afirmar que o pecado de nossos primeiros pais foi diabólico, pois, na sua essência, foi idêntico ao dos anjos maus. E isso pode ser dito também do vício de orgulho pelo qual somos levados a amar-nos mais a nós mesmos do que a Deus.5

Como castigo, toda a humanidade nasce com a mancha original e sofre suas mazelas, tendo de comer o pão com o suor de seu rosto (cf. Gn 3, 19).

Foi desse modo que o homem iniciou sua luta sobre a terra, tendo de enfrentar não só as adversidades da vida, mas, sobretudo, os vícios da alma. Nesta batalha, os verdadeiros heróis são aqueles que vencem seu próprio orgulho. Ao longo da História, muitos saem vitoriosos, pois sabem confiar em Deus mais do que em si mesmos. Muitos outros, entretanto, são derrotados e, em consequência, sofrem terríveis desastres.

1 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Compendium theologiae. L.I, C. 186.
2 Id. Suma Teológica. I, q. 94, a. 4, ad 1.
3 SANTO AGOSTINHO. De Genesi ad litteram. L. XI, c. 5; ML 34, 432.
4 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica, II-II, q. 163, a. 1.
5 SOLERA LACAYO, Rodrigo Alonso. Foram Adão e Eva enganados pela serpente? In: Arautos do Evangelho. São Paulo. n. 131, Nov. 2012, p. 22.

Luta no Céu, luta na Terra

Ir. Isabel Sousa, EP

Percorrendo os anais da História, facilmente deparamos-nos com verdadeiras epopeias bélicas, pugnas e pelejas admiráveis que deixaram um fulguroso rastro para os séculos vindouros, seja na linha da virtude da fortaleza manifestada por alguns durante o combate, como também a repulsa ao orgulho e mediocridade de outros. Tais situações foram um pálido reflexo e prolongamento de uma primeira batalha ocorrida nos primórdios da criação: “Houve uma grande batalha no céu” (Ap 12,7), narra o Livro Sagrado. E São João, referindo-se à raça da maldita serpente, declara: “E já não houve lugar para eles nos céu” (Ap 12,8).

Com efeito, a revolta dos Anjos rebeldes e, como decorrência, o brado de São Miguel, deram início à batalha que cada homem deverá desempenhar durante sua peregrinação terrena para alcançar a glória no Céu: “A vida do homem sobre a terra é uma luta” (Jó 7,1).

Entretanto, o combate dos homens não é uma luta física, mas espiritual. “Pois não é contra homens de carne e sangue que temos de lutar, mas […] contra os príncipes deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal (espalhadas) nos ares” (Ef 6,12).

A fim de que os homens pudessem mais facilmente manifestar o heroísmo a que são chamados a ter, Deus incumbiu os Anjos de os auxiliarem, como afirma São Paulo: “Não são todos os Anjos espíritos ao serviço de Deus, que lhes confia missões para o bem daqueles que devem herdar a salvação?” (Hb 1,14), e em outro lugar: “Deus confiou a seus anjos que te guardem em todos os teus caminhos” (Sl 90,11).

De fato, por serem os Anjos puros espíritos e superiores aos homens em poder e força 1, a eles devemos não só recorrer nas dificuldades, mas ter a alma constantemente voltada para esse mundo angélico, pois sendo ininterruptas as pugnas contra Satanás e seus sequazes, também o auxílio celeste não pode faltar.

Nesse sentido, atesta o Professor Plinio Correa de Oliveira: “Têm os olhos abertos para os Anjos, aqueles que têm os olhos abertos contra Satanás; e só têm os olhos abertos contra Satanás aqueles que nunca fecharam os seus olhos para os Anjos”2

Na expulsão dos Anjos decaídos, teve papel preponderante o glorioso São Miguel Arcanjo. “Ele defendeu a Deus e Deus quis servir-Se dele como seu escudo”.3 Este príncipe da milícia celeste era considerado na Idade Média o primeiro dos cavaleiros; “o Cavaleiro Celeste, perfeitamente leal como um cavaleiro deve ser, forte idealmente como deve ser um cavaleiro, puro como um anjo e vitorioso como deve ser o cavaleiro”.4

Nas grandes e terríveis pugnas da era atual bem podemos imaginar como será a atuação de São Miguel. “Deus quer que ele seja o escudo dos homens contra o demônio; Deus quer que ele seja o escudo da Santa Igreja Católica contra o demônio. Mas um escudo que não é meramente escudo: é gladio também. Ele não se limita a defender, mas ele derrota, ele precipita no inferno”.5

Nós devemos, portanto, considerá-lo como o nosso fiel “aliado natural nas lutas” e jamais temer o adversário.6 A exemplo dele, “tomemos por couraça a fé e a caridade, e por capacete a esperança da salvação” (1Ts 5,8), e não cessemos de bradar: “Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus, o Dominador, o que é, o que era e o que deve voltar” (Ap 4,8).

1 Cf. ROYO MARÍN, Antonio. Dios y su obra. Madrid: BAC, 1963. p. 365.
2 CORREA DE OLIVEIRA, Plinio. Conferência. So Paulo, 15 jul. 1982. (Arquivo IFTE).
3 Id. São Miguel Arcanjo, modelo do perfeito cavaleiro. Conferência. So Paulo, 28 set. 1966. (Arquivo IFTE)
4 Loc. cit.
5 Loc. cit
6 Loc. cit.

Não basta união, é preciso unidade

Fahima Akram Salah Spielmann

Antes de partir ao Pai, quis o Divino Salvador nos deixar uma expressiva imagem do grau de adesão que se deve ter a Ele:

Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. Todo ramo que não der fruto em mim, Ele o cortará; e podará todo o que der fruto, para que produza mais fruto. Vós já estais puros pela palavra que vos tenho anunciado. Permanecei em Mim e eu permanecerei em vós. O ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira. Assim também vós: não podeis tampouco dar fruto, se não permanecerdes em Mim. Eu sou a videira; vós, os ramos. Quem permanecer em Mim e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem Mim nada podeis fazer. Se alguém não permanecer em mim será lançado fora, como o ramo. Ele secará e hão de ajuntá-lo e lançá-lo ao fogo, e queimar-se-á. Se permanecerdes em Mim, e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis tudo o que quiserdes e vos será feito. Nisto é glorificado meu Pai, para que deis muito fruto e vos torneis meus discípulos. Como o Pai me ama, assim também Eu vos amo. Permanecei no meu amor. Se guardardes os meus mandamentos, sereis constantes no meu amor, como também eu guardei os mandamentos de meu Pai e permaneço no seu amor. Disse-vos essas coisas para que a minha alegria esteja em vós, e a vossa alegria seja completa. (Jo 15, 1-11. Grifo da autora).

Vendo Nosso Redentor nos impelir insistentemente a permanecermos n’Ele, perguntamo-nos qual seria o motivo de tamanho desejo de incorporação?

Explica-nos o admirável Padre Garrigou-Lagrange 1que, nessa metáfora, Cristo quis deixar expresso que o único meio de comunicação da seiva, ou do influxo da vida da graça, nos vem unicamente d’Ele, asssim como a cabeça é a única que tem a potência de comunicar aos membros o influxo vital. Separar-se d’Ele é sujeitar-se à morte.

De fato, encontramos quarenta vezes o verbo “permanecer” no Evangelho do discípulo amado e vinte e três em sua primeira epístola, sempre assinalando a nossa obrigação de procurarmos a mais íntima união com Cristo.

A esse respeito, em discussão contra os pelagianos, o II Concílio de Milevitano e o Cartaginense de 418 assinalaram a absoluta dependência que possuem os cristãos em relação a Cristo, uma vez que Ele não disse “sem mim pouco podeis fazer”, mas sim “nada podeis fazer”; ou seja, desde os membros em potência até os que os são em ato, se esfriarem nas suas relações com a Cabeça, afrouxando os vínculos de união, a consequência só poderá ser uma: a infrutuosidade (D 227).

Ademais, Cristo nos atesta que não basta “fazer com”, mas é necessário permanecer n’Ele, com Ele e por Ele, para produzir realmente frutos. É o inovador princípio de íntima união trazida por Jesus, que não deve se abranger, mas sim transformar em unidade.

Como nos atesta a teologia, todos os cristãos “têm de aspirar a uma presença íntima; presença que se realiza mediante a graça, que é a seiva que os vivifica sobrenaturalmente”,2 e que os faz produzir bons frutos de santidade.

E a força e a plenitude dessa permanência, assegura Monsenhor João, somente encontraremos no amor.3

Cristo prossegue com uma increpante sentença àqueles que optarem por desligar-se da Cabeça, pois, além de perderem a vida, terão o seu castigo: “se alguém não permanecer em mim, será lançado fora, como o ramo. Ele secará, e hão de ajuntá-lo e o lançá-lo ao fogo, e queimar-se-á” (Jo 15, 6).

Além dessa significativa analogia, em outras duas ocasiões, encontramos o Evangelista usar uma imagem, que se não fosse da autoria de Cristo não nos seria creditada, que é a união de Cristo com a sua Igreja sob a entranhada imagem da unidade entre as Pessoas da Santíssima Trindade.4

Em uma primeira circunstância, temos o Divino Mestre ensinando o modo pelo qual, ainda nessa vida terrena, podemos levar essa união ao seu auge: “O que come minha carne, e bebe o meu sangue permanece em Mim e Eu nele. Assim como o Pai que vive me enviou, e Eu vivo pelo Pai, assim o que me comer a Mim, esse mesmo também viverá por Mim, e de minha própria vida” (Jo 6, 55-58).

Contudo, ainda que a comunhão seja sob as espécies físicas, é através da graça, a qual usa de instrumento as espécies, que obtemos a nossa incorporação a Cristo, e assim se torna possível, mesmo depois de consumida a Eucaristia, dizer que quem come a carne de Cristo permanece n’Ele, e Ele na pessoa.

Nesse sentido, entendemos o que dizia São Paulo ao advertir alguns cristãos que participavam da Eucaristia: “Porventura o cálice da bênção, que nós benzemos, não é a comunhão do sangue de Cristo? E o pão que partimos não é a participação do corpo de Cristo? Visto que há um só pão, nós, embora muitos, formamos um só corpo, porque participamos todos dum só e mesmo pão” (1Cor 10, 16-17).

Por esse motivo, ousam os teólogos afirmarem que o principal efeito da Eucaristia é a unitas Corporis Mystici,5 ou seja, a união da Cabeça com o corpo.

Noutra passagem, no momento solene antes de consumir seu holocausto, sabendo Jesus que deixaria os seus, quis pedir ao Pai, compondo a emocionante oração sacerdotal, rogando para seus membros máxima união à semelhança entre Eles, a ponto de se transformar em unidade: “que eles sejam todos um, como Tu, Pai, o és em Mim e Eu em Ti, para que também eles sejam um em Nós […],que sejam um, como Nós somos um: Eu neles e Tu em Mim, para que sejam consumados na unidade” (Jo 17, 20-23. Grifos da autora).

Sabemos que a união entre o Pai e o Filho é substancial. São os dois uma única essência, sem deixar, ao mesmo tempo, de haver distinção pessoal. Sao Pessoas sempre unidas entre si, de maneira que onde está uma Pessoa, aí também está a outra.

Do mesmo, modo através da graça, Cristo está em nós como Ele está no Pai, ainda que seja de maneira acidental e não substancial como na Santíssima Trindade. E, assim como a união entre as Divinas Pessoas não destrói sua natureza, a nossa união com Cristo não destrói a nossa personalidade, mas a enaltece.6

Enumerar as passagens onde Cristo manifesta seu desejo de união, poderíamos deixar para uma outra oportunidade; entretanto, podemos entrever que, da parte da Cabeça, não há outro anseio do que a mais perfeita união com os seus membros, baixando de sua alta dignidade e se identificando com eles (Cf. Mt 25, 45; At 9, 5).

Com base nisso, podemos entender o que nos dizia o Apóstolo “não sou eu quem vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gal 2, 20), pois no cristão passa a existir uma autêntica vivência de Cristo, a ponto de haver “mais semelhança entre o cristão e Cristo, do que entre o cristão e Deus”.7

Há, portanto, em Cristo o desejo de unir-se a seu Corpo da forma mais íntima possível, e apesar de haver vários membros, quer Ele que formemos uma só unidade. O problema está em sermos membros flexíveis, unidos por Ele, com Ele e n’Ele, para, dessa forma, alcançarmos a plenitude do Corpo.

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[1] GARRIGOU-LAGRANGE, Reginald. Op. cit. p. 142-145.
[2] “[cristianos] han de aspirar a una presencia íntima; presencia que se realiza mediante la gracia, que es la savia que los vivifica sobrenaturalmente” (SAURAS, Emilio. Op. cit. p. 55. Tradução da autora).
[3] CLÁ DIAS, João Scognamiglio. A Igreja é uma, Santa, Católica e Apostólica. Op. cit.
[4] Deve-se advertir que o sentido, ainda que seja próprio, é usado de forma análoga.
[5] SÃO TOMÁS DE AQUINO. Summa Theologiae. III q. 73, a. 3, ad1.
[6] SAURAS. Emilio. Op. cit. p. 52.
[7] “Más semejanza hay entre el cristiano y Cristo que entre el cristiano y Deus” (SAURAS, Emilio. Op. cit. p. 191. Tradução da autora).

A luz primordial

Emilly Schnorr

Cada homem foi chamado a contemplar a Deus e a refletir suas perfeições de um modo próprio e característico. Segundo o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, este chamado melhor se expressa no conceito de “luz primordial”.1

No que consiste esta luz? “Todo homem nasceu para louvar a Deus. Esse louvor se faz pela contemplação de certas verdades, virtudes e perfeições divinas. A ‘luz primordial’ é a aspiração existente na alma de cada pessoa para contemplar a Deus de um modo próprio”.2

Esta contemplação, por sua vez, se traduz numa virtude específica que a alma deve espelhar. “A ‘luz primordial’, portanto, é a virtude dominante que uma alma é chamada a refletir, imprimindo nas demais sua tonalidade particular. Em outras palavras, seria o pórtico pelo qual uma pessoa entra, para depois amar todas as perfeições de Deus”.3

Porém, deve-se considerar a luz primordial enquanto abarcando todas as outras virtudes. O Prof. Plinio Corrêa de Oliveira combatia muito os erros dos que a julgavam independente e isolada das demais:

A “luz primordial” é sempre um complexo de virtudes, como o cavalheirismo, por exemplo, que não consiste apenas na justiça ou na fortaleza, mas compreende as outras virtudes: é um determinado modo de prudência, de justiça, etc. A “luz primordial” é um complexo de virtudes ordenadas e coordenadas entre si, conforme um princípio fundamental.4

Quando a pessoa consegue discernir sua “luz primordial”, descobre a virtude que dará unicidade a seu chamado; como se fosse um raio a brilhar em sua vida, indicando o norte para o qual ela melhor alcançará a Deus. “Conforme afirma Dr. Plinio, no momento em que a pessoa chega a explicitá-la para si mesma, encontra sua via de santificação e, nela, a paz interior”.5

Santa Teresinha do Menino Jesus foi um exemplo claro nesse ponto. De acordo com o que ela mesma narra, ansiava por ser apóstolo, mártir, sacerdote, guerreiro, profeta e doutor6. Mas como ela conciliaria tantas aspirações aparentemente contraditórias?

Tomando em consideração o corpo místico da Igreja, não me identificava em nenhum dos membros descritos por São Paulo, por outra, queria identificar-me em todos eles. A caridade deu-me a chave de minha vocação. Compreendi que se a Igreja tinha corpo, composto de vários membros, não lhe faltava o mais necessário, o mais nobre de todos. Compreendi que a Igreja tinha coração, e que o coração era ardente de amor. Compreendi que só o amor fazia os membros da Igreja atuarem, e que se o amor se extinguisse, os Apóstolos já não anunciariam o Evangelho e os Mártires se recusariam a derramar seu sangue… Compreendi que o amor abrange todas as vocações, alcançando todos os tempos e todos os lugares… Numa palavra, é eterno…7

Foi, portanto, na consideração do amor misericordioso que esta santa encontrou a chave de sua vocação específica e o fundamento da “Pequena Via” por ela iniciada.

Erroneamente podemos pensar que a “luz primordial” é reservada aos santos. Ao contrário, por ser ela um dom de Deus, foi concedida a todos os homens para habilitá-los a refletir as perfeições divinas. Ou seja, desde aquele indivíduo menos agraciado até no mais dotado que possa existir na História da Humanidade, ela estará presente.

Mons. João Clá tece um brilhante comentário a esse respeito:

À maneira de um ponto na superfície de um espelho, cada pessoa recebe do Sol de Justiça um raio de luz sobrenatural ímpar. E somente ela pode e o deve refletir cada vez mais nesta vida, até espelhá-lo sem defeito na eternidade. Assim, esse conceito pode ser aplicado à afirmação do salmista: “in lumine tuo videbimus lumen” – “na tua luz veremos a Luz” (Sl 36, 10).8

Daí resulta que cada alma tem um matiz irrepetível, que a torna, em algum ponto, superior a todas as outras.

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[1] Cf. CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Amor a Deus e “luz primordial”: Palestra. São Paulo, 15 abr. 1988. (Arquivo IFTE).
[2] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. “Luz primordial” e discernimento. In: Revista Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei, n. 54, set. 2002. p. 4. (Editorial).
[3] CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O dom de sabedoria na mente, vida e obra de Plinio Corrêa de Oliveira. Op. cit. p. 310-311.
[4] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. A “luz primordial” e as potências da alma, apud CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O dom de sabedoria na mente, vida e obra de Plinio Corrêa de Oliveira. Op. cit. p. 311.
[5] Ibid. p. 312.
[6] Cf. SANTA TERESINHA DO MENINO JESUS. Op. cit. p. 211.
[7] Ibid. p. 213.
[8] CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O dom de sabedoria na mente, vida e obra de Plinio Corrêa de Oliveira. Op. cit. p. 312.

O olhar de Nosso Senhor Jesus Cristo

Beatriz Alves dos Santos

Um olhar… À primeira vista, um simples vocábulo, mas que, muitas vezes, exprime mais do que mil palavras! Um olhar: um universo de riquezas! Nele se exprime o que há de mais íntimo no ser humano: a alma.

Analisando a estreita união entre a alma e o olhar, entende-se a capacidade de atração de algumas fisionomias, cujo olhar denota inocência, sacralidade e elevação e, em sentido oposto, a penumbra espiritual que transparece de modo inevitável nos indivíduos fora da graça de Deus…

Porém, se o olhar de qualquer ser humano tem essa força de manifestação e essa riqueza de matizes, como terá sido o olhar do mais sublime dos homens: o de Nosso Senhor Jesus Cristo?

Primeiramente, deve-se considerar a grandeza do Homem-Deus. A esse propósito, comenta o professor Plinio Corrêa de Oliveira:

Nosso Senhor deveria ter tido um poder tal que, quando Ele passava, as flores se voltavam para Ele; os animais vinham prestar-Lhe homenagem; os animais daninhos saíam fugindo; as plantas e as ervas se estendiam à procura dos pés d’Ele para, pelo menos, serem calcadas por Ele; as brisas iam de encontro a Ele. No considerar o olhar d’Ele, as águas se refletiam e estremeciam de alegria!1

O Divino Salvador deve ter sido de tal beleza, que os que O viam ficavam atordoados de admiração! Segundo narra a beata Ana Catarina Emmerich em uma de suas visões privadas, o Divino Mestre tinha “a fronte alta e larga, e o rosto belo e ovalado. O cabelo, de um castanho-avermelhado e não áspero, singelamente repartido desde o alto da cabeça, caía-lhe sobre os ombros. A barba, não sendo comprida, era aparada em ponta e repartida na altura do queixo”.2 Conta a Tradição que seus os olhos eram cor castanho claro, e irradiavam uma bondade imensa, capaz de levantar do pecado os piores criminosos, e arrasar com intransigência os mais empedernidos de coração.

Pode-se imaginar que, à medida que Jesus pregava, a cor de seus olhos se modificava. Quando, por exemplo, seu ardente zelo pela glória do Pai se manifestava, é de se acreditar que seus olhos mudavam para um tom castanho escuro e, ao perdoar, clareavam-se, dando ao pecador a impressão de estar mergulhando num oceano de perdão… Como imaginar o olhar do Homem-Deus?

É ainda o professor Plinio Corrêa de Oliveira quem imagina ser este “um olhar muito sereno, aveludado, que revelava, entretanto, uma sabedoria, retidão, firmeza e força” 3 inigualáveis. E acrescenta:

“Um olhar que contém tudo o que há de mais celeste, de dignidade, de meiguice, de bondade, de perdão e sabedoria a perder de vista. Todas as perfeições da ordem do universo estão contidas no olhar de Nosso Senhor Jesus Cristo, de maneira que Ele tem estados de alma que correspondem a todas as belezas da criação”. 4

Considerando todas as grandezas humanas que a História apresenta, todos os sábios, todos os santos, os grandes pensadores, os pregadores, os magnatas, todos os reis, todas as perfeições do Céu, da Terra e do mar, toda a variedade da fauna e da flora, todas os atos heróicos dos grandes homens da história, tudo é nada em comparação com um olhar de Jesus!5 “O que são os vitrais das catedrais, o que são as estrelas do Céu, o que são os reflexos do Sol sobre as águas dos oceanos, em comparação simplesmente com um minuto em que se pudesse fitar o Vosso olhar!?”.6

Àqueles que se aproximavam implorando perdão, Nosso Senhor lhes deitava um olhar de suma misericórdia; àqueles, porém, que queriam pôr obstáculos à sua missão redentora, lançava um olhar de indignação, como se pode encontrar em todo o capítulo 23 do Evangelho de São Mateus, em suas pugnas com os fariseus.

Verdadeiramente, em toda a sua vida pública, Nosso Senhor quis fazer o bem a todos que com Ele se encontravam. Entretanto, fica claro, pela narração apostólica, que diante do olhar de Nosso Senhor Jesus Cristo, não há terceira posição: ou se tem admiração ou se tem ódio. Ver-se-ão agora alguns exemplos, onde nitidamente aparecem essas duas atitudes.

Exemplos evangélicos

Percorrendo as riquíssimas páginas dos Sagrados Evangelhos, encontram-se inúmeras passagens onde o olhar de Jesus se faz especialmente notar. Já em seu nascimento, Deus quis que os olhos do infante Jesus recaíssem em algo que fosse o resumo de todas as maravilhas do universo: o olhar de Nossa Senhora. O Menino-Deus viu a face esplendorosa de Maria, sua Mãe, discerniu sua alma e seu Imaculado Coração.

Não se pode com palavras explicar, nem com o entendimento humano compreender a alegria que a puríssima Virgem teve no instante do nascimento de Jesus […]. Prostrando-se diante d’Ele com profundíssima reverência, disse: Bene veneris, Deus meus, Domine meus et Filius meus – Sejas bem-vindo, meu Deus, meu Senhor e meu Filho. E assim O adorou, e beijou seus pés como a Deus, a mão como a seu Senhor, e a face como a seu Filho.7

E então, “pode-se supor que o Divino Infante sorriu. Ele desejou um afeto de mãe quando abriu os olhos para este mundo; e quis um carinho materno quando os fechou”.8

A Virgem Santíssima cuidou com todo amor e carinho de seu Filho e, à medida que o tempo passava, o Menino Jesus crescia e se fortalecia (Cf. Lc 2, 40). Porém, dos trinta anos de vida oculta em Nazaré, pouco se conta nos Evangelhos. No entanto, pode-se afirmar, sem dúvida, que a casa de Nazaré transformou-se num relicário de olhares, onde somente os Anjos puderam contemplar…

Contudo, de sua vida pública, registram-se uma série de olhares que passaram para a História pela pluma dos evangelistas.

Continua no próximo post.

1 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Todas as belezas reunidas num Homem: Conferência, São Paulo: [s.d]. (Arquivo IFTE).
2 EMMERICH, Ana Catarina. A Paixão de Jesus Cristo. São Paulo: Paulus, 2004. p. 246.
3 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. O Sacrossanto olhar de Jesus. In: Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei, n. 70, jan. 2004. p. 19.
4 Id. O olhar de Nosso Senhor Jesus Cristo: Conferência. São Paulo: [s.d.]. (Ver Anexos, FOTO 2)
5 Loc. cit.
6 Id. E seremos repletos de grandeza… In: Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei, n. 49, abr. 2002. p. 18-19.
7 “No se puede con palabras explicar ni con entendimiento humano comprender el gozo que la purísima Virgen tuvo en aquel punto del nacimiento de Jesús. […].postrándose delante de Él con profundísima reverencia, dicen que dijo: Bene veneris, Deus meus, Domine meus et Filius meus: Bien seáis venido, mi Dios, y mi Señor, y mi Hijo. Y así Le adoró, y besó los pies como a Dios, la mano como a su Señor y el rostro como a su Hijo” (TRUYOLS, Andres F. Vida de Nuestro Señor Jesucristo. 2 ed. Madrid: BAC. 1954. p. 47.)
8 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. O Quadrinho: presença de uma mãe. In: Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei. n. 119, fev. 2008. p. 8.

A dor

Anna Luiza Cendon Finotti

Quando Deus criou o homem, ademais de todas as maravilhas que lhe concedeu no Paraíso, cumulou-o de bens sobrenaturais.

As qualidades sobrenaturais concedidas ao primeiro homem foram: a graça santificante, as virtudes teologais e os dons do Espírito Santo. Deus punha sua complacência em habitar no homem como num magnífico santuário por Ele mesmo ornado. Sua vinda sensível ao Paraíso Terrestre, de que nos fala a Escritura, era um símbolo dos dulcíssimos e invisíveis liames de amizade que existiam entre o homem em estado de graça e o Criador.1

Ou seja, o ser humano foi criado num estado magnífico, com graças especialíssimas. Sua alma estava toda propensa ao bem, possuía a própria vida divina, as virtudes teologais: fé, esperança e caridade, e ainda os dons do Espírito Santo: ciência, inteligência, sabedoria, prudência, fortaleza, temor, piedade, conselho e fortaleza. Além disso, Deus concedeu-lhe também os dons preternaturais.

Enquanto os dons sobrenaturais faziam sentir sua benéfica influência sobretudo na parte racional do homem, os dons preternaturais cumulavam de perfeição a parte sensível. Eram estes em número de três:integridade, imortalidade, impassibilidade.2

O dom de integridade ordenava inteiramente a natureza humana. “Esse dom especialíssimo fazia com que todas as inclinações e os impulsos da natureza estivessem em harmonia com a lei divina”3. Pelo dom imortalidade os homens não passariam pela morte, “depois de uma permanência mais ou menos prolongada no Paraíso Terrestre, seriam transladados definitivamente ao céu sem passar pelo transe terrível da dor, da enfermidade”.4

E finalmente pelo dom de impassibilidade o homem estava isento de qualquer mal-estar, pois este “lhe proporcionava a isenção de dores e sofrimentos. Sem perturbação orgânica, psicológica, o homem gozava de uma felicidade perfeita. Nada perturbava sua paz e tranquilidade.5

Pelo pecado nossos primeiros pais foram expulsos do Paraíso e privados desses privilégios e assim o sofrimento, a morte, as doenças tornaram-se companheiros da humanidade tisnada pelo pecado original.6

Desde os seus primeiros instantes, vê o homem erguer-se diante de si o espectro da dor. Não há escritor, por mais profundo ou por mais banal, que não tenha descrito, entre atônito e temeroso, o terrível combate entre o homem e a dor. A existência humana nada mais é do que uma luta entre o homem e a dor. Luta trágica, luta terrível, em que a dor sempre vence o homem.7

A dor física e dor moral

São João Paulo II, em sua Carta Apostólica Salvifici Doloris, afirma ser o sofrimento “algo essencial à natureza humana. […] parece pertencer à transcendência do homem; é um daqueles pontos em que o homem está, em certo sentido, ‘destinado’ a superar-se a si mesmo; e é chamado de modo misterioso a fazê-lo”.8 A natureza humana por ser um composto de corpo e alma não sofre apenas dores físicas, mas sobretudo dores morais.

O homem sofre de diversas maneiras, que nem sempre são consideradas pela medicina, nem sequer pelos seus ramos mais avançados. O sofrimento é algo mais amplo e mais complexo do que a doença e, ao mesmo tempo, algo mais profundamente enraizado na própria humanidade. É-nos dada uma certa ideia quanto a este problema pela distinção entre sofrimento físico e sofrimento moral. Esta distinção toma como fundamento a dupla dimensão do ser humano e indica o elemento corporal e espiritual como o imediato e ou direto sujeito do sofrimento. Ainda que se possam usar até certo ponto como sinônimas as palavras “sofrimento” e “dor”, o sofrimento físico dá-se quando, seja de que modo for, “dói” o corpo; enquanto que o sofrimento moral é “dor da alma”.9

Das mais variadas formas o homem pode sofrer fisicamente —doenças, fome, acidentes, frio, e quantas outras coisas, independente da idade, raça ou condição social — e, na maioria das vezes, esses são acompanhados de sofrimentos morais. Para melhor compreendermos a ligação que há entre um sofrimento e outro, transcrevemos aqui um exemplo dado por Mons. João Scognamiglio Clá Dias: um lutador de karatê, quando está em uma competição recebe toda espécie de pancadas e isso lhe causa dor. Entretanto, se ele tem o apoio da torcida, ainda que seu corpo sofra em decorrência dos golpes que leva, por assim dizer em sua alma ele não sofre porque sente a adesão e o estímulo da torcida. Por outro lado, pode uma pessoa sofrer na alma sem ter recebido nenhuma pancada, por exemplo, um inocente que se vê objeto de todo tipo de calúnia e humilhações.10

Podemos relembrar também outro caso, ocorrido com o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira e que muito o impressionou. Certa feita, encontrava-se num restaurante e enquanto esperava o que havia pedido, passou a analisar os circunstantes. No meio de tantas pessoas dissipadas e agitadas com os seus problemas, admirou-se ao ver um homem sério e reflexivo, sentado num canto do recinto, tomando seu lanche a sós. Qual seria o motivo deste estado de espírito tão pouco frequente em nossos dias? Sua indagação foi respondida quando chegou o dono do estabelecimento e pôs-se a conversar com dito personagem:

— Oh!que bom vê-lo por aqui! Mas, onde estão seus amigos?

— Pois é… Eles sempre estavam comigo, mas depois que perdi minha perna, todos me abandonaram…

Assim, Dr. Plinio compreendeu que aquele estado de espírito provinha do abandono em que o homem se encontrava. Era uma “dor de alma” profunda consequente de um acidente físico. Nesta situação o que mais lhe fazia sofrer: o fato de estar sem perna ou sem amigos? Se ele estivesse fisicamente dolorido, mas houvesse quem lhe confortasse a alma, não seria para ele uma alegria? Por outro lado, se possuísse o físico perfeito, mas fosse considerado um pária na sociedade, não seria melhor a primeira situação? Isso ocorre pois o instinto de sociabilidade no ser humano é profundamente mais forte do que o instinto de conservação. Inúmeros são os que preferem arriscar a própria vida a serem considerados como covardes pelos demais.11

O sofrimento bem aceito é “o que mais eleva a alma de uma pessoa. Nesta terra não há individuo mais indigente do que aquele a quem Deus não manda dores”.12 A partir dessa compreensão da dor podemos admirar melhor o que afirma Dom Chaudard em seu livro A alma de todo apostolado: o sofrimento é o oitavo sacramento,13 tal é o seu valor aos olhos de Deus.

Sofrer, todos sofrem, o grande problema está no modo como se enfrenta a dor pois, “as mesmas misérias levam alguns para o céu e outros para o inferno”.14 No alto do Calvário, encontramos a mais bela lição nessa matéria: Três homens estão crucificados. O do centro, Nosso Senhor Jesus Cristo, nos dá o mais belo exemplo: sofre como inocente pelos pecados alheios. Ao lado direito de Jesus, o Bom Ladrão sofre como penitente, mas do lado esquerdo do Divino Redentor, o mau ladrão sofre como um condenado.15

1 CAMPANA, op. cit. p. 24.
2 Ibid. p. 26. (Grifo da autora)
3 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. No sofrimento, a raiz da glória. In: O inédito sobre os Evangelhos, op. cit. v. V, p. 323.
4 ROYO MARÍN, Antonio. Nada te turbe. Madrid: Palabra, 1982, p. 15. (Tradução da autora)
5 FORMENT, Eudaldo. Id a Tomás: Principios fundamentales del pensamiento de Santo Tomás. Pamplona: Fundacion Gratis Datæ, 2005, p. 69. (Tradução da autora)
6 Cf. CCE 1264.
7 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Na Academia Jackson de Figueiredo. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano IX, n. 94, Jan. 2006, p. 5.
8 JOÃO PAULO II. Salvifici doloris, n.2.
9 Ibid. n.5.
10 CLÁ DIA, João Scognamiglio. Palestra. São Paulo, 30 dez.2001. (Arquivo do IFTE)
11 Cf. Id. O Sermão da Montanha. In: O inédito sobre os Evangelhos, op. cit. v. VI, p. 85.
12 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. PLINIO CORREA DE OLIVERIRA: Notas Autobriográficas. São Paulo: Retornarei,2008, v. I, p. 294.
13 Cf. CHAUTARD, OSCO, Jean-Baptiste. A alma de todo apostolado. São Paulo: FTD, 1962, p. 112
14 SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO. A prática do amor a Jesus Cristo. Aparecida: Santuário, 2004, p. 56.
15 Cf. SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. Carta circular a los amigos de la Cruz.n.33.In: Obras. Madrid: BAC, 1953, p.245.

Um Mandamento Novo

Emelly Tainara Schnorr

“O pecado é uma falta contra a razão, a verdade, a consciência reta; é uma falta ao amor para com Deus e para com o próximo, por causa de um apego perverso a certos bens. Fere a natureza do homem e ofende a solidariedade” (CCE 1849). Esta sábia definição deixa claro que as desordens e crimes existentes no mundo têm sua raiz unicamente no pecado.

Por causa dele, vemos como os homens se endureceram e se fecharam no egoísmo, esquecendo-se de Deus e de seus santos preceitos. Em consequência, a humanidade se afastou do benéfico caminho do bem e da virtude, caindo nas piores selvajarias e crueldades.

Egoísmo de Caim: o caminho seguido pela humanidade

Ao contemplarmos as páginas bíblicas, nos primórdios da humanidade, logo após a queda de nossos primeiros pais, vemos um atentado contra o primeiro e maior Mandamento da Lei divina, que nos manda amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos (Cf. Mt 22, 37).

Depois de terem sido expulsos do Paraíso, Adão e Eva tiveram dois filhos: Caim e Abel (Cf. Gn 4, 1-2). Ambos cresceram sob o olhar dos pais, que se esmeravam em passar-lhes todos os ensinamentos recolhidos no Jardim do Éden. No entanto, Adão e Eva espantavam-se com a diferença entre eles: Caim, o mais velho, era orgulhoso e violento, enquanto Abel era justo e piedoso.1

Com o passar do tempo, o primogênito se tornou agricultor, e o segundo, pastor de ovelhas. Após alguns anos, decidiram oferecer sacrifícios a Deus. O inocente Abel ofertou as primícias de seus rebanhos e a carne mais suculenta das vítimas, merecendo o agrado de seu Criador. Caim ofereceu os frutos da terra que não lhe faziam falta e estes foram rejeitados pelo Senhor. Inflamou-se de cólera e inveja contra seu irmão, culminando no primeiro fratricídio da História (Cf. Gn 4, 3-8).

Por que Caim agiu desta maneira?

[O seu] interior era todo feito de egoísmo. Caim mantinha-se cumpridor dos horários e dos deveres porque ele queria a atenção de Eva; ele queria ouvir Adão dizer dele: “Que filho bom eu tenho!”. Ele queria o elogio, o incenso, o consolo de ser benquisto e bem-visto. No fundo, ele fazia todas as coisas por amor-próprio. Este amor-próprio levou-o a matar o irmão. Por quê? Porque esse amor-próprio fazia parte do maligno. […] Egoísta, filho do pecado e levando as marcas do pecado dentro dele. Era um homem que fazia as coisas por puro interesse. 2

Portanto, Caim procedeu deste modo por causa de seu egoísmo e porque não tinha verdadeiro amor a Deus; somente amava a si próprio, tendo como resultado a falta de amor ao próximo. Assim sendo, suas obras se tornaram más, a ponto de matar seu irmão. O próprio Nosso Senhor declarou a Santa Catarina de Sena a respeito das maléficas conseqüências que o egoísmo traz: “[…] O egoísmo, que é a negação do amor pelo próximo, constitui-se como razão e fundamento de todo mal. Ele é a raiz dos escândalos, do ódio, da maldade, dos prejuízos causados aos outros”.3

Porém, esse episódio não teve o seu término em Caim; através dele, delineava-se o horrendo caminho de egoísmo para onde a humanidade rumaria. Pois, se corrermos os olhos nas Sagradas Escrituras, nelas encontraremos inúmeros fatos nos quais transparece a carência de amor ao próximo nos homens, e o quanto eles se afundaram na egolatria após a queda original. O vício e o pecado reinavam sobre o mundo e a humanidade necessitava de uma renovação que desse sentido à existência do homem.

Uma nova luz brilha no mundo inteiro: um mandamento novo

Numa insignificante gruta, junto à cidade de Belém, nasceu um Menino, trazendo a solução para mundo. Ele veio não só para reparar as mazelas humanas, mas também dar um novo rumo à humanidade, como nos indica Clá Dias: “Já em seu nascimento, numa singela manjedoura, aquele Divino Infante reparava os delírios de glória egoística sofregamente procurada pelos pecadores. Ele se encarnava para fazer a vontade do Pai e, assim, dar-nos o perfeitíssimo exemplo de vida”.4

Emanavam dele afabilidade, doçura, um desejo enorme de fazer o bem, uma sede ardente de perdoar, atraindo a todos e incutindo-lhes confiança.Cristo ia promovendo uma renovação dos costumes e modos de ser dos homens de todas as condições, de todos os tempos e nações: “Nosso Senhor Jesus Cristo […] pregou no mundo o amor ao próximo. E, sobre esta base inteiramente nova, Ele renovou a Terra, a tal ponto que a história ficou dividida em dois grandes períodos: a era anterior ao nascimento d’Ele e a Era Cristã”.5

Assim foi durante toda a sua vida terrena: um abismo de bondade, amor e misericórdia. Entretanto, poderíamos pensar que isso só cabe a Deus realizar, e não aos homens. Ora, se o Divino Mestre deixou-nos um exemplo a seguir, quer dizer que esse é o caminho pelo qual devemos trilhar: “Amou a cada um de nós para que nos amássemos uns aos outros”.6

Mas qual é este caminho? A lei mosaica era muito precisa: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças” (Dt 6, 5); e: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Lv 19, 18). Porém, Jesus ampliou esse preceito quando disse: “Dou-vos um novo mandamento: Amai-vos uns aos outros. Como eu vos tenho amado, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros” (Jo 13, 34). Por este novo mandamento, mostrava que não bastava amar ao próximo, mas era necessário amar como Ele amava: em função de Deus e despretensiosamente.

O amor assim praticado renova-nos. Por ele seremos homens novos, herdeiros do Novo Testamento […]. Este amor, irmãos caríssimos, renovou também os antigos justos, os Patriarcas e os Profetas. E depois renovou os santos Apóstolos. É ainda o mesmo amor que renova presentemente todos os povos, e congrega todo o gênero humano que se espalha pelo universo, fazendo dele o povo novo. […] A renovação advém da prática do mandamento novo. […]
Ouvem e guardam este ensinamento: “Dou-vos um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros. Não como se amam os corruptores, nem mesmo como se amam os homens enquanto homens, mas como se amam os homens enquanto são deuses e todos filhos do Altíssimo”.
7

Portanto, é a isso que Nosso Senhor nos convida: ter um amor pelo próximo levado a um alto grau, a ponto de, se for preciso, um dar a vida pelo outro. Sejamos santos, amando-nos uns aos outros por amor a Deus.

1 BERTHE, Augustin. Relatos Bíblicos. Trad. António Carlos de Azeredo et al. Braga: Civilização, 2005. p. 24.
2 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Homilia da 5ª feira, da I Semana do Tempo do Natal. Caieiras, 5 jan. 2006. (Arquivo IFTE). As matérias extraídas de exposições verbais – designadas neste trabalho, segundo sua índole, como “conferências”, “palestras” ou “homilias” – foram adaptadas para a linguagem escrita.
3 SANTA CATARINA DE SENA. O Diálogo. Trad. João Alves Basílio. 8. ed. São Paulo: Paulus, 2004. p. 38.
4 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Paz! Onde estás? Op. cit. p. 12.
5 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. A Igreja: formadora de uma civilização. In: Revista Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei, n. 41, ago. 2001. p. 16.
6 SANTO AGOSTINHO DE HIPONA. A Ceia do Senhor. Trad. José Augusto Rodrigues Amado. Coimbra: Coimbra, 1952. Vol. IV. p. 85.
7 Ibid. p. 82-83.

Um convite à admiração

Ir. Mariella Antunes, EP
4° Ano Ciências Religiosas

No meio de uma fria noite de inverno, longe de qualquer penumbra de luz, um violento estampido de canhão acorda os soldados exaustos pela longa batalha do dia anterior. Por um forte bradar do general, convocando-os à luta, os batalhões se formam antes mesmo do nascer do sol. Recomeça a guerra. Que sentimentos não pulsam nos corações destes varões que estão dispostos a dar a vida em prol da Santa Igreja instituída por Nosso Senhor Jesus Cristo?

Um dos soldados, com uma arma na mão direita e o Rosário da Santíssima Virgem na esquerda, recita em voz alta os mistérios gloriosos para infundir ânimo e a certeza da vitória em seus companheiros. Outro entoa hinos de louvores Àquela que é “terrível como um exército em ordem de batalha” (Cant 6, 10)

De súbito, um forte vento afasta a neblina da noite, e torna-se possível a visualização do nascer do astro rei, o Sol. Que consolo para aquelas almas fatigadas que lutaram na escuridão! Porém, mais do que um consolo, eles podem, por alguns instantes, afastarem-se daquele problema atual para contemplar a obra de arte por excelência; como afirmam alguns teólogos: o nascer do Sol é delineado pelos próprios Anjos.

Imaginemos Luis XIV, o rei sol na sua grandeza. Longe de repelir os camponeses que dele se acercavam, atraía-os convidando a admirar sua magnanimidade. Assim é também o astro rei: grande e imponente, não repele, mas atrai tanto a admiração que um poeta, vendo sua grandeza e poder para emprestar a cada objeto uma beleza que ele, de si, jamais haveria de ter, exclamou: “O Soleil! toi sans qui les choses ne seraient que ce qu ‘elles sont” – Oh, sol! Sem ti as coisas não seriam senão o que elas são. 1

Ah, se as cores e as formas pudessem falar, se a harmonia gradual das tonalidades diversas no céu produzissem sons, que bela sinfonia! Nossa natureza gosta daquilo que eleva a alma, nossos olhos gostam de contemplar aquilo que ultrapassa nossos sentidos.

Erguendo o olhar para além das brumas que caracterizam a vida neste vale de lágrimas, podemos também fixar nossa atenção em Maria, a Estrela que anunciou o Sol da justiça, Jesus Cristo nosso Salvador. A esta luz devemos nos entregar, pois por meio das graças que d’Ela se emanam, é que seremos verdadeiramente aquilo para o qual Deus nos chamou. Com efeito, cheios de gratidão bem poderíamos dizer: “O luz!, eu vos seguirei custe o que custar: pelos vales, montes, desertos e ilhas; pelas torturas, pelos abandonos e olvidos, pelas perseguições e tentações, pelos infortúnios, pelas alegrias e triunfos. Eu vos seguirei de tal maneira que, mesmo no fastígio da glória, não me incomodarei com ela, porque só me preocuparei convosco. Eu vos vi, e até ao Céu não desejarei outra coisa, porque, uma vez, vos contemplei”. 2

Não desprezemos as belezas naturais, antes tiremos delas lições para nossa vida. De fato, elas são um reflexo de nosso Criador e, ao contemplarmos um nascer de sol, bem podemos fazer a seguinte consideração: “Deus, Pai de toda a luz, soberanamente bom e belo, Sua beleza atrai nosso entendimento, para que O contemple, e Sua bondade atrai nossa vontade para que O ame. Como Belo, ao encher nosso entendimento de delícias, derrama seu amor em nossa vontade; como Bom, ao encher nossa vontade de seu amor, excita nosso entendimento a contemplá-Lo. O amor nos provoca a contemplação e a contemplação o amor; de onde se segue que o êxtase e o arrobamento dependem totalmente do amor; porque é o amor que move o entendimento à contemplação e a vontade à união”. 3

1ROSTAND, Edmund. Himne au Soleil. In: Chantecler. Paris: Fasquelle, 1928, P. 26.
2 CORREA DE OLIVEIRA, Plinio. Na vossa luz veremos a luz. In: Dr. Plinio. Sao Paulo, Ano VII, n. 80, p. 36.
SAO FRANCISCO DE SALES. Tratado del amor de Dios. In: Statveritas.com.ar. p. 9

Sede perfeitos, assim como vosso Pai celeste é perfeito

Yolaynet Encarnación Cuevas

No Concílio Vaticano I, a Igreja declarou como dogma de fé que Deus pode ser conhecido pela luz natural da razão humana, através das coisas criadas (cf. DH 3026). É neste sentido que Tomás de Aquino apresenta cinco vias com que se pode chegar ao conhecimento de Deus. Na quarta via, o Doutor Angélico recomenda analisar os graus de perfeição.1 Na criação observam-se os minerais, plantas e animais,com as belezas e perfeições próprias a cada grau. Assim, contemplar uma construção gótica, um nascer do sol ou escutar o suave cântico dos pássaros ajudam a elevar a mente ao Criador.

Da mesma forma, explica Plinio Corrêa de Oliveira, baseando-se em São Tomás, que há nobres e plebeus, grandes e pequenos, ricos e pobres, mais inteligentes e menos para o benefício não só dos superiores, mas também dos inferiores já que o menor ao receber auxílio do maior, vê neste uma imagem de Deus Altíssimo, e a dedicação do menor tem algo de devotamento ao próprio Deus. Deste modo, foi dado a cada criatura humana o dom de refletir algumas das infinitas perfeições divinas.2

Por conseguinte, São Tomás de Aquino assevera que toda a bondade e perfeição, parcialmente distribuídas nas criaturas, está em Deus unificado de modo pleno e universal.3 Igualmente, São Paulo pregou aos Hebreus: “Enquanto a lei elevava ao sacerdócio homens sujeitos às fraquezas; o juramento, que sucedeu à lei, constitui o Filho, que é eternamente perfeito. “(Hb 7, 28).

O Aquinate usa os termos ato e potência para provar que Deus é a Perfeição absoluta.4 Ele explica que algo é perfeito enquanto está em ato. O homem encontra-se em ato em certos aspectos e em outros em potência. Por exemplo, um jovem pode ser aluno em ato e professor em potência, pois está estudando sobre alguma ciência que logo poderá ensinar. Sem embargo, Deus é diferente, porque ele não pode crescer em conhecimento, pois sabe tudo; não pode se tornar mais forte, uma vez que já é perfeitíssimo. Portanto, Deus é ato puro, é a Perfeição infinita. Com efeito, em uma das aparições à Santa Maria Faustina Nosso Senhor Jesus Cristo afirmou: “Eu sou santo, três vezes santo e sinto aversão ao menor pecado”.5

Para propagar os ensinamentos do divino Mestre ao mundo contemporâneo, Paulo VI declara que todos nós somos chamados à santidade (cf. LG 40). Plínio Correa de Oliveira explica que a perfeição moral é a santidade. E esta é a prática em grau heroico das três virtudes teologais — Fé, Esperança e Caridade —, das quatro cardeais e bem como os mandamentos, que são as virtudes aplicadas a cada circunstância concreta.6

Ao unir essas ideias, podemos chegar à conclusão de que Nosso Senhor quer que O imitemos, fazendo-nos um convite: ” sede perfeitos, assim como vosso Pai celeste é perfeito.” (Mt 5, 48). Portanto, busquemos sempre realizar todas as nossas ações, seja para o nosso bem ou para o dos outros, com a maior perfeição e façamos o firme propósito de nunca ofendê-Lo e, com a ajuda da graça, cumprir a vontade divina.

1TOMÁS DE AQUINO, São. Suma Teológica I, q.2 a. 3, ad 2.
2 CORREA DE OLIVEIRA, Plinio. Um reflexo da perfeição divina. Dr. Plinio, São Paulo, ano 12, n. 98, mai 2006, p. 23,.
3TOMÁS DE AQUINO, São. Suma Contra os Gentios I, c. 28.
4TOMÁS DE AQUINO, São. Op. cit., I, q. 4, a. 1.
5MARIA FAUSTINA, Santa. Diario de Santa María Faustina Kowaiska. Stockbrigde: Manan Press, 2010, p. 607.
6 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. A perfeição no homem, nas nações. Dr. Plinio, São Paulo, ano 7, n. 73, abr. 2004, p. 13.

A Beleza da Luta

Ir Maria Cecilia Lins Brandão Veas,EP

Quando nos detemos na consideração da obra da criação, encantamo-nos ao ver Deus dispensar com abundância seus dons a todas as criaturas, fazendo-as reflexos d’Ele. “Deus contemplou toda a sua obra, e viu que tudo era muito bom” (Gn 1, 31) e a seguir “assim foram acabados os céus, a terra e todo seu exército”.(Gn 2, 1)

Com efeito, a Terra já havia sido destinada a ser o campo de batalha dos heróis valorosos do Altíssimo, ou seja, a Terra dos justos e fiéis que marcariam a História e povoariam os Céus. Porém, como termos certeza desta verdade?

Deus criou os céus e a terra para serem campos de batalha, na grande trama da História. Sim, o Céu, o lagar de paz, foi onde se travou a primeira e grande luta decisiva entre São Miguel e Lucifer. (Cf. Apo 12, 7) Aí está o foco de nossa consideração: a beleza da luta e do sofrimento inerente à vida.

Uma das clássicas definições de São Tomás alude à beleza, como sendo “aquilo que agrada à visão ”. Assim, poderia alguém objetar: “A vida não tem beleza, pois a ninguém agrada ver os crimes, catástrofes e males que quase inevitavelmente pululam a existência humana. A vida só será bela quando houver um agradável bem-estar isento de esforços, onde tudo favoreça os instintos”. Quem assim pensasse, deixaria patente seu pensamento terreno, longe dos parâmetros sobrenaturais, pois “a razão da beleza não se encontra em si mesma; devemos referir-nos à Causa formal de toda beleza, ao mesmo Deus”.1

Quando somos submetidos a sucessivas provas, muitas das quais tão árduas que julgamos não haver mais solução, devemos nos recordar que, neste momento, a Divina Providência, Maria Santíssima, os Anjos e Bem-aventurados do Céu, veem e ajudam-nos, agradados por estarmos trilhando o mesmo caminho de Nosso Senhor, que não quis outra coisa senão humilhar-Se e fazer-Se “obediente até a morte, e morte de cruz”. (Fl 2, 8) Aí está o objeto principal da beleza da luta: somos olhados com carinho por Deus, e a Ele somos agradáveis.

Poucas pessoas contemplam a beleza da vida sob este aspecto. Mas esta é a realidade: “a vida do homem sobre a terra é uma luta” (Jó 7, 1) e segundo Plinio Corrêa de Oliveira “viver é realizar a harmonia em si, colocá-la em torno de si, e batalhar para harmonizar, coordenar e concatenar todas as coisas”. Esta batalha, profundamente salutar, enche-nos de gáudio por podermos retribuir, de algum modo, o ser que de Deus recebemos, e os bens de que somos objetos durante toda vida. É uma luta que nos leva à prática da virtude, nos une intimamente a Deus, mas que não é igual para todos, nem na mesma intensidade; cada alma é uma, e para cada qual, o sofrimento comporta diversos graus.

Observaram os alemães que, quando ainda imatura, nenhuma criança agrada-se com o sabor da cerveja, por seu amargor peculiar. Porém, com o passar dos anos, vão aprendendo a degustar esta saborosa bebida e, quando adultos, são grandes entusiastas dela. Assim, é a vida. Nenhum sofrimento ultrapassa nossas forças físicas, morais ou psicológicas, conforme reza o ditado latino: “Deus qui ponit pondus, suponit manus” — Deus, quando põe um peso, sustenta com sua mão. Assim, todos os sofrimentos nos são proporcionados e permitidos por Deus de acordo com as nossas disposições.

E não nos esqueçamos: se somos profundamente provados, é porque a Divina Providência nos julga aptos para tal, pois “o alimento sólido é para os adultos, para aqueles que a experiência já exercitou na distinção do bem e do mal. (Hb 5, 14)

Grandes são as dificuldades e duros os caminhos nos diversos campos de nossa ação. Sentimos sempre a incerteza dos males e ameaças de todos os lados. Como resistir? Como não soçobrar? Com o estandarte da confiança, nunca deixando- nos abater pelo desânimo, com a certeza de que pela cruz, chega-se à luz. Nossa Senhora superará todos os sofrimentos que, embora amargos, nos fazem crescer interiormente.

Essa é a beleza da luta, “luta árida, luta sem beleza sensível, nem poesia definível. Luta em que se avança por vezes na noite do anonimato, na lama do desinteresse ou da incompreensão, sob a tempestade e o bombardeio desencadeado pelas forças conjugadas do demônio, do mundo e da carne. Mas luta que enche de admiração os Anjos do Céu e atrai as bênçãos de Deus.”1

1SÃO TOMÁS DE AQUINO, STh. I, q5, a.4,
2 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. A verdadeira glória só nasce da dor. In:Catolicismo. n.78, jun. 1957.

A grandeza do sublime e a humildade

Ir. Patricia Victoria Jorge Villegas,EP

No decorrer da História, os povos europeus foram demonstrando um agudo senso do maravilhoso. Almejavam enlevar, entusiasmar e aumentar no espírito humano as apetências pelo divino. Tal anseio natural pelo belo havia sido posto por Deus nas almas para prepará-las e dirigi-las a fim de receberem os auxílios sobrenaturais da graça.

Ora, nos séculos XII e XIII a cultura europeia foi marcada por um crescente gosto pelo maravilhoso, culminando com o gótico; arte que explicitou todo o amor a Deus que consumia as inocentes almas dos medievais.

Reza a lenda que um sultão árabe foi aprisionado durante as cruzadas e transportado para França. Como ele havia dado a palavra de honra de não fugir, deixaram-no que passeasse por toda a cidade de Paris para conhecê-la. Ao deparar com o pórtico de uma abadia, onde moravam frades, interrogou a quem o acompanhava: “Quem a construiu?”. E apontando para os religiosos respondeu-lhe: “Foram eles”. Ele os olhou e desconcertado perguntou: “Mas como homens tão humildes podem construir monumentos tão altivos?”.

Se tivéssemos o privilégio de percorrer a cidade de Paris daquela época como o fez esse prisioneiro árabe, ficaríamos estupefatos com tantas maravilhas e a mesma indagação nos perturbaria a mente. E após termos conhecido ao menos três dessas imponentes construções concluiríamos: “Sim! Eram homens humildes, mas com grandes almas, desejosas de grandezas!”.

Realmente os medievais eram profundamente sérios e estavam constantemente imbuídos pelo sobrenatural. Inspirados por moções divinas, procuravam reproduzir, nesta terra, reflexos daquilo que na eternidade contemplaremos no Paraíso Celeste.

Assim era era São Luís, rei da França: repleto deste espírito e possuidor de um perfeito equilíbrio de alma. Um verdadeiro varão católico que cumpriu com radicalidade os mandamentos de Deus e lutou pela causa católica em uma das cruzadas, deixando-nos uma lembrança de sua personalidade: a Sainte-Chapelle.

Admirável, incomparável e de uma beleza perfeita, a Sainte-Chapelle foi construída por este rei santo para conter uma das maiores preciosidades da Cristandade: a coroa de espinhos do Divino Redentor. Uma capela feita de cristal — um relicário! — onde os vitrais não se restringem apenas a uma função estética de permitir a entrada da luz, mas constituem um verdadeiro tratado de teologia ilustrada, pois neles estão representados os principais fatos da Bíblia. As cores alegres e diáfanas infundem na alma uma certa harmonia; a altura do teto eleva os pensamentos e aumenta os horizontes para o conhecimento das verdades sobrenaturais. Ao entrar nela um pecador arrebatado pela graça sente-se impelido a enveredar pelo caminho do arrependimento, da conversão e do perdão. Quem nela entra sente a grandeza de Deus, sendo atraído a Ele. Ela é a obra-prima da temperança, harmonizando os extremos do homem e equilibrando sua alma.

Entretanto, a civilização hodierna, com seus atrativos e seduções, procura ofuscar o maravilhamento pelas obras dos séculos áureos da Cristandade, aumentando o gosto pela desordem e pelo pecado. Deste modo, as coisas sobrenaturais e retas correm o risco de serem esquecidas.

Imploremos ao Divino Espírito Santo que nos conceda a graça de aprendermos a degustar as coisas sublimes, retas e elevadas que na Terra nos falam do céu.1

1 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Sabor das coisas celestiais. In: Revista Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei, n. 86, maio 2005, p. 34.

Até o deserto floresce!…

Fahima Spielmann

Se a alma confiar em Deus e perseverar, as areias se transformarão em formosas flores. E quanto mais longa tiver sido a aridez, tanto maior será a fecundidade.

Infecundidade, fastio, desolação, abandono, aridez, perigo… Interrompamos aqui esta lista de enfadonhos substantivos para qualificar uma obra tão emblemática saída das mãos de Deus: o deserto.

Talvez o leitor esteja se perguntando como pode ser possível encontrar alguma simpatia ou atração em tanto calor e areia. Para desvendar esta incógnita, comecemos por recordar que a criação não é fruto do acaso e se deitarmos um olhar menos superficial sobre o mundo em torno de nós, veremos que todas as coisas remetem a uma realidade mais alta.

Escolhido pelo Criador como cenário de peregrinação do povo judeu por quarenta anos, o deserto bem pode simbolizar uma situação pela qual todos devem passar, por desígnio da Providência, tendo em vista o próprio crescimento espiritual: a provação ou a aridez. Em quaisquer desses estados, a alma tem a impressão de serem infrutíferos todos os seus esforços; o avançar na virtude, que antes parecia ter asas, aos poucos vai se tornando mais lento; o caminhar se transforma num arrastar-se que parece sem proveito ou efeito algum. No panorama, nenhuma nuvem condescende em fazer-lhe sombra para protegê-la do sol causticante. Todas as lutas e obstáculos a enfrentar, que antes a entusiasmavam, agora se lhe afiguram como algo pesado e até insuportável! E quando desponta nesse deserto espiritual alguma expectativa de alívio, como um verdejante oásis na imensidão inóspita, ela logo se esvai, deixando na alma a sensação de encontrar-se em meio a uma tempestade, não de areia, mas de confusão interior.

Por mais absurda que possa parecer a afirmação, este é um dos mais belos momentos da vida de alguém! Pois se a alma confiar em Deus e perseverar, as areias se transformarão em formosas flores. E quanto mais longa tiver sido a aridez, tanto maior será a fecundidade quando aprouver à Divina Providência irrigar a alma, pois “as grandes esperas são exatamente o prelúdio dos grandes dons de Deus”.1

Isto se verifica em desertos como o do Atacama, no Chile, o de Sonora, na América do Norte, ou o do Kalahari, no Sul da África. Estéreis durante quase todo o ano, as raríssimas chuvas com as quais são beneficiados fazem desabrochar neles numerosas flores de singular beleza, cujas sementes jaziam sob o solo durante meses ou anos. Imagem da alma que, em meio às agruras da vida, oferece a Deus suas dificuldades, prossegue seu combate confiando contra todas as aparências, persevera com firmeza verdadeiramente cristã e se renova ao receber algumas gotas de graça.

Entretanto, as graças cairão em torrentes se para tal concorrer um simples querer d’Aquela que a piedade católica chama de Maria fons. Ela, mais do que uma fonte encontrada por um sedento no deserto, é a Medianeira do manancial das graças, Cristo Jesus, e deseja nos conceder a água viva por Ele prometida à samaritana: “O que beber da água que Eu lhe der jamais terá sede. A água que Eu lhe der virá a ser nele fonte de água, que jorrará até a vida eterna” (Jo 4, 14).

Saibamos recorrer a Ela em nossos momentos de aridez, sem jamais perder a esperança de que no areal das debilidades de nossa alma sempre poderão vicejar novos frutos de virtude. Ao longo de nosso peregrinar terreno rumo ao Jardim celeste, nunca nos esqueçamos desta consoladora verdade: pela intercessão de Maria, não só a boa semente produz cem por um em nossa seara, mas até o deserto floresce!…

1CORRÊA DE OLIVEIRA. Plinio. Conferência. São Paulo, 23 mar. 1970.

Viver de amor

Raphaela Nogueira Thomás

Quando se ama, o amor como que governa a vontade, e esta se inclina ao objeto amado. Assim, toda ação do homem, indiferentemente considerada, é impulsionada pelo amor. O agir, coordenado simplesmente pelo sabor da ação, não existe. É necessário ressaltar que Santo Agostinho define que há dois amores; ou seja, ou há o amor a Deus – e às demais criaturas em função deste – ou há o amor a si, até o esquecimento de Deus. 1

Em se tratando da natureza humana, a capacidade que esta possui de amar é limitada e, pelo mesmo, estará sempre procurando o bem existente em algo, para nele repousar. Ora, não dedicando esse amor ao que realmente deveria ser o objeto dele, acaba-se por desenfrear-se nas mais absurdas e caóticas ações, procurando o que, de si, não pode trazer tranqüilidade de alma.

Há, entretanto, almas que, ricas em generosidade, entendem o fundamento do verdadeiro amor como querendo devotá-lo só e exclusivamente ao serviço de Deus, resolvendo por consagrar-se inteiramente a Ele. Um dos níveis, por assim dizer, desta consagração é o estado de virgindade, em que a alma quer de tal forma se entregar, que oferece a Deus o holocausto de seu próprio ser, nas sendas puras e intactas da via religiosa.

O Pe. Royo Marín assim correlaciona a virgindade ao amor: “Jamais alguém é casto senão por amor; e a virgindade não é aceitável nem expansiva senão ao serviço do amor”. 2

Por outro lado, o amor a Deus se concretiza no amor ao próximo e no serviço aos outros; isto é, faz com que, literalmente, vivamos por amor. É o que Santa Teresinha propriamente personificou em sua Pequena Via e, de modo particular, em um de seus poemas “Vivre d’Amour”:

Viver de amor é banir todo o temor!
Toda lembrança das faltas do passado.
De meus pecados não vejo na minha alma nenhuma marca,
Pois num instante o amor tudo apagou.
Chama divina, ó doce fornalha,
Em teu seio eu fixo minha habitação;
E em tuas labaredas canto à vontade:
Eu vivo de amor!
3

Nisso se centra retamente a virgindade e, longe de diminuir o amor aos demais, dilata-o ao infinito, com inteiro desinteresse e caridade fraterna. E da mesma forma que consideramos pura uma água saída do mais profundo das entranhas da Terra, também é puro o amor que, saído do mais profundo do coração humano, se eleva a Deus e de lá, em veio límpido e cristalino, desce, como do alto de uma montanha, sobre todas as criaturas.

1SANTO AGOSTINHO DE HIPONA. A cidade de Deus, L. XIV, c.28 1998, p.298
2ROYO MARÍN, Antonio. La vida Religiosa. 2.ed. Madrid: BAC, 1965.
3TERESA DE LISIEUX apud PLINIO CORREA DE OLIVEIRA Revista Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei, n.111. jun. 2007.

Brilho fugaz da luz celestial

Fahima Spielmann

A Providência criou nesta Terra de exílio uma porção de coisas fugazes ótimas — que deixariam de ser ótimas se não fossem fugazes —, para nos dar uma tinta do Céu.

“Gemendo e chorando neste vale de lágrimas” — eis nossa condição, tão bem expressa na Salve Rainha, oração que poderia ser qualificada como a prece da esperança em alcançar a bem-aventurança do Céu, anseio de todo ser humano sob o jugo das labutas e sofrimentos (cf. Gn 3, 17-19).

Junto a esse desejo de obter a verdadeira felicidade, dir-se-ia haver também na alma do homem algo como que saudades de um Céu por ele ainda desconhecido. E tais sentimentos o auxiliam a coibir suas más inclinações, pois ao recordar o prêmio eterno a que seus atos concorrem, refreiam-se os desvarios de sua natureza decaída.

Conhecendo, desde toda a eternidade, esse insaciável anseio, excogitou Deus, em sua sabedoria e bondade, dar ao homem criaturas que lhe recordassem a fugacidade desta vida e a perenidade da outra, estimulando-o a praticar o bem, na esperança de ver finalmente satisfeitas suas mais altas aspirações.

Uma destas criaturas é o simpático beija-flor. Rasgando os ares com seu bico semelhante a uma lança, fende ele os céus disposto a tudo enfrentar para alcançar sua meta, à primeira vista muito pequena: a corola de uma flor. Esta delicada ave nos ensina, assim, a nos contentarmos com o “pouco” que encontramos nesta vida, enquanto Deus nos prepara para o “muito” que nos dará na futura.

Devemos possuir o jubiloso equilíbrio que tanto transparece no beija-flor. Distante de qualquer depressão ou frenesi, sai ele de flor em flor, aparentemente tomado pela alegria de estar cumprindo a finalidade para a qual foi criado.

Aspecto peculiar a este regozijo é sua agilidade. Nesta vivacidade, ele “fica parecido a uma joia preciosa que Deus criou para o homem poder olhar e nunca segurar, e ter o encanto da coisa fugidia que passa, a qual, neste vale de lágrimas, é para nós uma esperança do Céu. Quer dizer, ele foi feito para ser fugaz. A Providência criou nesta Terra de exílio uma porção de coisas fugazes ótimas — que deixariam de ser ótimas se não fossem fugazes —, para nos dar uma tinta do Céu. […] Deus teve pena de nós e nos mandou um vaga-lume do Céu para a Terra, para acender e apagar, fazendo-nos entender algo do Céu”. 1

Se o beija-flor fosse passível de felicidade, desbordaria de contentamento ao ver-se realizando, com suas reações variadas e saltitantes, o fim para o qual foi criado: ser para o homem um brilho fugaz da luz celestial.

1CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Uma joia dotada de asas. In: Dr. Plinio. São Paulo. Ano XV. N.174 (Set., 2012); p.34.

Deus nunca abandona o seu povo

Fahima Spielmann

Diz uma intrigante máxima: “se as paredes falassem…”. Entretanto, testemunhas mais eloquentes que as paredes são as constelações do céu que há milênios assistem ao obrar de Deus na História. História esta, definida não somente pelo ‘sim’ de homens-chaves, que trazem consigo a consignação de rumos decisivos, como também pelo ‘não’ que fecha atrás de si desígnios providenciais.

Na Idade Média, o fruto de um ‘sim’ que marcou os céus da História foi o movimento reformador de Cluny que se ergueu do silêncio contemplativo dos claustros beneditinos.

Enquanto tudo na ordem civil pareceria desabar; invasões bárbaras de um lado, guerras tolas de outro, analogamente a barca de Pedro parecia submergir neste pavoroso drama. Vergonhosas tramas eram armadas para disputar a dignidade pontifícia, onde a simonia (compra ou venda de realidades espirituais) e o nicolaísmo ( relaxamento de costumes dos clérigos) tentavam afundar a Esposa Mística de Cristo.

Havia neste tempo muitos mosteiros, em sua maioria herança espiritual de São Bento, pai do monaquismo ocidental, espalhados pelo mundo cristão, onde os monges, antes atletas da santidade, imbuídos de disciplina, agora afundavam em matéria de costume, provocando inúmeros desentendimentos entre si; cada um com seu próprio e nefasto relaxamento.

Não podendo mais tardar a intervenção da Providência, surge Cluny como sopro do Espírito Santo. Bernon, zeloso abade beneditino, diante dessas catástrofes, sem cambalear entre o sossego da condescendência e as possíveis inimizades, lançou-se na luta para o restabelecimento da antiga severidade da Ordem de São Bento em seu mosteiro, despertando, assim, a disciplina adormecida nas almas daqueles infelizes relapsos.

Com a doação de um castelo que este santo e intrépido abade recebeu, iniciou-se aí, em 910, o mosteiro de Cluniacun, inicialmente com doze monges sob o cajado de São Bernon. Pouco a pouco o espírito de Cluny tomaria conta da Europa. Após a direção de São Bernon sucederam outros santos superiores, como Santo Odon (927-942), Santo Aymard (942-948) São Maïeul (948-994) e depois Santo Odilon (994-1049). Já nesta época, trinta e sete mosteiros em toda a Europa já tinham aderido à reforma cluniacense.

Em seguida, com São Hugo, segundo seu carisma, foi concluída a construção de uma magnífica abadia. Aquelas paredes cantavam luxo e austeridade.

Não só a reforma monacal e a do Papado foram obras de Cluny, mas também o impulso dado às artes, à literatura e à cultura em geral para toda a civilização medieval. O papa emérito Bento XVI assim descreveu: “Os monges cluniacenses se dedicaram com amor e grande cuidado à celebração das Horas litúrgicas, ao canto dos Salmos, a procissões tão devotas quanto solenes e, sobretudo, à celebração da Santa Missa. Promoveram a música sacra; quiseram que a arquitetura e a arte contribuíssem para a beleza e a solenidade dos ritos; enriqueceram o calendário litúrgico de celebrações especiais, como, por exemplo, no começo de novembro, a comemoração dos fiéis defuntos,[…] incrementaram o culto a Nossa Senhora”.1

A vida de Cluny era a perfeita observância da regra beneditina com todas as suas exigências. O ora et labora de São Bento foi como nunca vivido em busca do cumprimento do preceito divino: “Sede perfeitos, assim como vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5, 48).Considerando que tudo o que se poderia dar a Deus era “fraco” e insuficiente, conciliou-se, de forma magnífica, a pompa e a austeridade, resultando disto a sacralização da ordem temporal; não só nas construções, mas, sobretudo, no modo de ser dos monges. “A obra de Cluny visou sacralizar o mundo temporal, elevando-o a uma dignidade muito semelhante à da Igreja”.2

Depois de tal fulgor, será que novamente Deus repousará em sono profundo e deixará o mundo afundar, helás, em um pior sufrágio que o anterior?

Não! Uma vez que a Igreja de Deus sempre está em contínuo progresso, Cluny serviu apenas de gérmen para o que se desdobrará no futuro. Lembremo-nos das esperançosas palavras de Nossa Senhora em Fátima: « Por fim, meu Imaculado Coração triunfará ››.

O que é o Coração de Maria? Plinio Correa de Oliveira explica: “É um órgão do seu corpo imaculado, mas que simboliza a mentalidade de Nossa Senhora. E quando Ela afirma que seu Coração triunfará, quer dizer que sua mentalidade triunfará. O triunfo da mentalidade da Mãe de Deus significa que virá uma época, na qual, muito mais do que na nossa, os santos vão dirigir a humanidade. Nossa Senhora governá-la-á através de seus santos; porque eles vão influenciar os Reis, os Papas, os grandes e pequenos desta Terra, e levar a todos para Deus. Será o Reino de Maria”.3

Esperemos confiantes tão desejada época, rezando, servindo e lutando pela causa da Santíssima Virgem em todos os momentos de nossa vida.

1 BENTO XVI. Catequese 11 de novembro de 2009
2 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Palestras. São Paulo, 12.fev.76. In: Aula de Teologia Espiritual.
3 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. São Raimundo de Peñafort, símbolo de uma época. In: Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei, n.166, jan. 2012. p.15.

Liberdade e disciplina

Ir. Flávia Cristina de Oliveira, EP

Sob influência das ideias da Revolução Francesa, cujo lema era: liberdade, igualdade e fraternidade, a humanidade passou a buscar desnorteadamente uma liberdade desenfreada e mal concebida, com a ilusão de que encontraria a felicidade. Segundo esse princípio, “a liberdade e a igualdade produziam a fraternidade, desde que os homens fossem inteiramente livres de fazer tudo quanto quisessem, fossem totalmente iguais – não houvesse nenhum superior nem inferior –, eles se sentiriam completamente irmãos. Então, a fraternidade seria uma flor nascida dessa dupla semente da liberdade e da igualdade”.1Assim sendo, o indivíduo inteiramente livre seria aquele que fizesse tudo o que há de mais deleitável, sem que ninguém o impedisse.

Vejamos alguns exemplos. Um menino que naturalmente, pela tenra idade, gosta muito de brincar. E para se distrair toma, por hábito, reunir-se com seus companheiros para lutar com espadinhas feitas de taquara, e com as mesmas fingem furar um o olho do outro. A mãe do menino, logo que vê tal brincadeira, toma providências para que ela não se repita e inclusive ameaça de punição àquele que for apanhado em tal brincadeira.

Agora perguntamos: A mãe, tendo esta atitude, agiu tiranicamente impedindo que as crianças fizessem aquilo que a elas parecia muito agradável e suprimiu-lhes a liberdade?

A resposta no-la dá Plinio Correa de Oliveira: “Numa idade extremamente jovem, a criança faz coisas que não são racionais, ela é vítima da tirania da falta de maturidade. Para defendê-la contra essa tirania, os pais obrigam-na a fazer uma coisa ou outra”, e desta forma protegem a liberdade da criança. “É uma proibição na aparência; de fato é uma garantia da liberdade”.2

O mesmo se aplica, por exemplo, em um acontecimento muito frequente nas grandes cidades: o suicídio. Há pessoas que param sobre uma ponte ou viaduto e ficam analisando; em determinado momento sobrevêm-lhes a tentação de se lançar do alto da mesma para se livrar dos problemas da vida, de uma crise ou qualquer outra coisa do gênero. Muitas vezes, a pessoa, levada por um desespero, acaba se atirando mesmo. Para evitar tais ocorrências, existem policiais cuja função é segurar o indivíduo que tenta se suicidar. O fato de a pessoa se lançar da ponte não é um ato de liberdade, mas uma debilidade, uma fraqueza da natureza humana que, face às dificuldades da vida, não tem força para enfrentá-las. Por isso o policial que impede uma pessoa de suicidar-se garante-lhe a liberdade, pois lhe assegura a vida.

Sustenta Dr. Plinio: “proibir uma pessoa de fazer uma coisa que é contra o bom senso, contra a razão, é uma defesa da liberdade”.3 Assim, é errôneo o princípio de liberdade cujo objetivo consiste em afirmar que a liberdade é uma possibilidade dada ao homem pela qual ele pode optar pelo bem ou pelo mal, e que, portanto, o próprio pecado é um ato de liberdade. Ora, Nosso Senhor Jesus Cristo afirma “todo aquele que comete pecado é escravo do pecado” (Jo 8, 34).

A este respeito esclarece o Pe. Royo Marín:

É grande erro, com efeito, crer que a faculdade ou poder de pecar pertença à essência da liberdade. Pelo contrário, essa defectibilidade da liberdade humana que lhe põe nas mãos o triste privilégio de poder pecar, é um grande defeito e imperfeição da mesma liberdade, que afeta unicamente às criaturas defectíveis […]. A faculdade de poder pecar não é liberdade, mas sim depravação, libertinagem e, em definitivo, triste e vergonhosa escravidão.4

Onde se encontra então esta liberdade extremamente procurada? A liberdade consiste em que o homem siga aquele primeiro impulso que o incita invariavelmente para o bem5. De acordo com o ensinamento de Leão XIII, em sua encíclica Libertas praestantissimum:

Tal é a lei natural, a mais eminente de todas, escrita e gravada no coração de cada ser humano, pois a própria razão humana ordena fazer o bem e proíbe pecar. Mas esta prescrição da razão humana só pode ter força de lei porque é voz e intérprete de uma razão mais elevada, à qual se devem submeter nosso espírito e nossa liberdade (D 3247).

Imaginemos uma gaivota que, após ter levantado voo sobre o mar, aproxima-se das águas para capturar o peixe; mas uma vez apanhado sua presa, tenta voar novamente, mas não consegue, pois foi enredada por um pescador. Imediatamente vem-nos a ideia de que a liberdade da gaivota ficou impedida. Neste caso houve uma real coerção da liberdade, pois é próprio à gaivota alimentar-se dos peixes e levantar voo, sendo este o seu primeiro impulso natural e ordenado para o qual Deus a criou.

Fazendo um paralelo com a gaivota constatamos o que ocorre com o homem. A alma humana tem uma série de primeiros movimentos bons que o inclinam à prática da virtude e, portanto, ao cumprimento da vontade de Deus, assim como a gaivota, por um impulso animal, anseia por voar. De maneira que:

A dignidade do homem exige que ele proceda segundo a própria consciência e por livre adesão […] O homem atinge essa dignidade quando, libertando-se das escravidões das paixões, tende para o fim pela livre escolha do bem e procura a sério e com diligente iniciativa os meios convenientes (VS 42).

Assim sendo, “o homem verdadeiramente livre não é aquele que faz tudo quanto lhe passa pela cabeça, inclusive o mal, mas é o homem que aceita o seu primeiro impulso bom, o segue sempre e não admite embaraços que venham tolher este impulso”.6

Além de seguir este impulso, ele precisa enfrentar uma luta árdua, pois está dito: militia est vitam homines super terram (Jó 7, 1), a vida do homem sobre a Terra é uma constante luta contra as más tendências e obstáculos que procuram afastá-lo deste ideal. Por isso, Deus nos deu uma lei e conforme ponderou o Papa João Paulo II: “Modelada por Deus, a liberdade do homem não só não é negada pela obediência à lei divina, mas apenas mediante essa obediência, ela permanece na verdade e é conforme à dignidade do homem […]” (VS, 42).

1 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plínio. O verdadeiro conceito de liberdade. In: Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei. n. 163, out. 2011. p. 10. Este autor será, daqui em diante, referido apenas como Dr. Plinio, no texto.
2 Ibid. p.11.
3 Loc. cit.
4 “Es un gran error, en efecto, creer que la facultad o poder de pecar pertenezca a la esencia de la libertad. Al contrario, esa defectibilidad de la libertad humana que le pone en las manos el triste privilegio de poder pecar, es un gran defecto e imperfección de la misma libertad, sino depravación, libertinaje y, en definitiva, triste y vergonzosa esclavitud” (ROYO MARIN, Antonio. Jesucristo y la vida cristiana. Madrid: BAC, 1961. p. 167. Tradução da autora).
5 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. A liberdade e a virtude. In: Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei. n. 163, out.  2011. p. 22.
6 Ibid. p. 23.

   

A paz de Cristo: um objetivo inatingível?

Irmã Maria Angélica Iamasaki, EP

Paz! Paz! Poucas palavras são tão repetidas quanto esta em nossos dias, ante a inclemência de guerras, revoluções, discórdias políticas, violência urbana, desunião familiar e atrocidades provocadas pelo acirramento de ódios étnicos.

Todos a desejam, dela muito se fala e se escreve, por toda parte se propõem meios para alcançá-la, mas… quem sabe dizer precisamente o que é paz? Para uns, ela consiste na ausência de qualquer confronto, físico ou ideológico, mesmo se obtida à custa da renúncia a princípios morais ou a importantes parcelas das próprias convicções. Para outros, viver em paz supõe fugir da realidade em busca de um utópico equilíbrio de espírito, alheio ao que se passa a seu redor. Não faltam também aqueles que a identificam com valores parciais, embora nobres, como o silêncio, a segurança ou o respeito à natureza.

A maior ou menor relação desses conceitos com a paz é inegável. Contudo, todos eles se desviam da essência desse bem fundamental para a sociedade, restringindo seu escopo e profundidade à realização de algum legítimo desejo pessoal.

Ora, “quem não sabe o que procura, não sabe o que encontra”, diz bem a propósito a sabedoria popular.

O que é a paz?

Para o cristão, a paz representa muito mais do que a simples inexistência de luta armada. Ela “não é ausência de guerra, nem se reduz ao estabelecimento do equilíbrio entre as forças adversas, nem resulta duma dominação despótica”, 1 lembra o Concílio Vaticano II.

Com razão afirmou Santo Agostinho ser ela um bem tão nobre que, ainda quando considerada apenas sob o ponto de vista terreno, “habitualmente nada se ouve com maior complacência, nada se deseja de mais atraente, enfim, nada se consegue de mais belo”. 2

Não existe paz sem o Criador, pois, ela “comporta uma exigência moral; além disso, tem relação com Deus: é de ordem transcendental e de ordem teologal”

No clássico ensinamento desse insigne Padre da Igreja, que marcou a teologia ocidental e vem ecoando na Cristandade por mais de quinze séculos, encontramos que a paz é a tranquilidade da ordem: “A paz do corpo é a ordenada complexão de suas partes; a da alma irracional, a ordenada calma de suas apetências. A paz da alma racional é a ordenada harmonia entre o conhecimento e a ação. […] A paz dos homens entre si, sua ordenada concórdia. A paz de casa é a ordenada concórdia entre os que nela mandam e os que obedecem; a paz da cidade, a ordenada concórdia entre governantes e governados. […] A paz de todas as coisas, a tranquilidade da ordem”. 3

Uma bela imagem de ordem — o principal elemento da definição agostiniana — é-nos oferecida pela harmonia sideral. Os astros, quais incontáveis joias refulgentes, preenchem a vastidão do firmamento de maneira singularmente ordenada e bela, dando a impressão de que na gigantesca abóbada celeste impera uma soberana paz. E não podia ser de outra forma, pois Deus “criou os céus com sabedoria” (Sl 135, 5).

Vemos, pois, que quando cada elemento de um conjunto encontra-se em seu devido lugar, cumprindo sua finalidade específica e proporcionando às demais criaturas o melhor de si, origina-se uma harmoniosa tranquilidade, fruto da reta disposição das coisas segundo sua natureza e de acordo com um determinado fim.

Não é qualquer tranquilidade, portanto, que merece ser chamada de paz, mas apenas aquela resultante da ordem. A pseudopaz instaurada com base em alguma situação desordenada, cedo ou tarde ruirá. A partir do momento em que os seres — quaisquer que sejam eles — deixam de agir conforme as regras da ordem, a paz esvanece.
São Tomás de Aquino, na questão da Suma dedicada à paz, mostra como ela está relacionada com o desejo do bem, uma vez que a ordenação interior do homem tende com veemência àquilo que lhe traz felicidade: “A verdadeira paz não pode existir senão com o desejo de um bem verdadeiro, porque todo mal, mesmo sob a aparência de bem pela qual satisfaz parcialmente o apetite, encerra muitas deficiências, e por causa delas o apetite permanece inquieto e perturbado. A verdadeira paz, portanto, só pode existir no bem e entre os bons. Logo, a paz dos maus é aparente e não verdadeira”. 4

Sendo Deus o único Ser capaz de saciar a apetência de infinito do homem, e uma vez que a ordem da criação foi instituída por Ele, podemos concluir não existir paz sem o Criador, pois ela “comporta uma exigência moral; além disso, tem relação com Deus: é de ordem transcendental e de ordem teologal”. 5

A santidade, meio mais eficaz de instaurar a paz

A filial submissão aos desígnios de Deus torna o homem de tal modo equilibrado e fortalecido na virtude, que ele, em consequência, pacifica tudo a seu redor. Onde está um santo, ali há grande paz, porque ele ordena todas as coisas de acordo com o estado de seu interior. Com efeito, a santidade possui mais eficácia na instauração da paz do que os tratados diplomáticos, quase sempre todos condicionados a uma política volúvel, instável e nem sempre ordenada. E os justos desejam ser pacíficos pelo mais elevado motivo: o de serem chamados filhos de Deus (cf. Mt 5, 9).

Em seu livro Jesus de Nazaré, o Papa Bento XVI ressalta que “a inimizade com Deus é o ponto de partida de toda corrupção do homem; superá-la é o pressuposto fundamental para a paz no mundo. Só o homem reconciliado com Deus pode estar reconciliado e em harmonia também consigo mesmo; e somente o homem reconciliado com Deus e consigo mesmo pode difundir paz em seu redor e em todo o mundo”. 6

Na base do ensinamento do atual Pontífice está a repulsa ao pecado, o qual exclui qualquer forma de paz. Nesse sentido, a explicação oferecida pelo Doutor Angélico mostra como uma falsa paz pode enganar o homem, se ele não goza da perfeita união com Deus: “Ninguém é privado da graça santificante a não ser em razão do pecado, razão pela qual o homem se afasta do verdadeiro fim e estabelece o fim em algo não verdadeiro. Assim sendo, seu apetite não adere principalmente ao verdadeiro bem final, mas a um bem aparente. Por esta razão, sem a graça santificante não pode haver verdadeira paz, mas somente uma paz aparente”.7

Portanto, o empenho de estar em ordem com o Criador é condição essencial de qualquer forma de paz. Sem isso, prevalecem os interesses pessoais e os egoísmos, fonte das disputas.

A paz na terra é consequência da paz com Deus

Na Santa Ceia, Nosso Senhor deu-nos como herança um dom precioso: “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não vo-la dou como o mundo a dá” (Jo 14,27).

A paz na Terra é consequência natural da paz com Deus, como deixou consignado o Beato João XXIII: “Em última análise, só haverá paz na sociedade humana se essa estiver presente em cada um dos membros, se em cada um se instaurar a ordem querida por Deus. Assim interroga Santo Agostinho ao homem: ‘Quer a tua alma vencer tuas paixões? Submeta-se a quem está no alto e vencerá o que está embaixo. E haverá paz em ti, paz verdadeira, segura, ordenadíssima. Qual é a ordem dessa paz? Deus comandando a alma, a alma comandando o corpo’”. 8

E o Papa Bento XVI, após ressalvar a relevância dos fatores de ordem cultural, política e econômica para se obter a paz, acrescenta: “Mas, em primeiro lugar a paz deve ser construída nos corações. De fato é neles que se desenvolvem sentimentos que podem alimentá-la ou, ao contrário, ameaçá-la, enfraquecê-la, sufocá-la. Aliás, o coração do homem é o lugar das intervenções de Deus. Portanto, ao lado da dimensão ‘horizontal’ das relações com os outros homens, revela-se de importância fundamental, nesta matéria, a dimensão ‘vertical’ da relação de cada um com Deus, no qual tudo tem o seu fundamento”. 9

Ensina-nos o Doutor Angélico que há no ser humano três classes de ordem: consigo mesmo, com Deus e com o próximo. 10 Donde decorrem três tipos de paz: do homem consigo mesmo, ou paz interior; do homem com Deus, decorrente de sua inteira submissão à vontade divina; e do homem com os seus semelhantes, que consiste em viver em concórdia com todos. A paz numa coletividade será a resultante da concórdia entre os indivíduos que a compõem; a concórdia entre as várias colectividades de uma nação equivale à sua paz interna. E, por fim, a concórdia entre as nações corresponde à tão sonhada paz internacional.

Com razão escreveu São Tomás: “A justiça produz a paz indiretamente, removendo-lhe os obstáculos. Mas a caridade a produz diretamente, porque ela é, por sua própria razão, causa da paz”.11 E a Constituição pastoral Gaudium et spes nos oferece este belo ensinamento: “A paz é assim também fruto do amor, o qual vai além do que a justiça consegue alcançar. A paz terrena, nascida do amor do próximo, é imagem e efeito da paz de Cristo, vinda do Pai. Pois o próprio Filho encarnado, Príncipe da Paz, reconciliou com Deus, pela Cruz, todos os homens; restabelecendo a unidade de todos num só povo e num só corpo, extinguiu o ódio e, exaltado na Ressurreição, derramou nos corações o Espírito de amor”. 12

A paz de Cristo no reino de Cristo

Em sua Encíclica Ubi arcano, o Papa Pio XI valeu-se de uma fórmula em extremo acertada, a qual permanece até nossos dias como o paradigma a ser atingido não só pelos cristãos, mas por toda a humanidade: “A paz de Cristo no reino de Cristo”. 13

Quando, na Santa Ceia, o Senhor transmitiu os últimos ensinamentos aos Apóstolos, deu-nos como herança um dom precioso: “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não vo-la dou como o mundo a dá” (Jo 14, 27). Mais tarde, ao aparecer no Cenáculo e encontrar os discípulos amedrontados e pusilânimes, suas primeiras palavras foram: “A paz esteja convosco!” (Jo 20, 19). Ainda outras vezes falou Jesus sobre a paz, mas sempre com uma nota muito peculiar: a sua paz, e não outra qualquer.

Distinta das fruições do mundo, caracterizadas pela agitação que imprimem na alma, a paz de Cristo aquieta as paixões desordenadas e conduz ao “gozo perfeito do bem supremo, que une e pacifica todos os anseios”. 14 Ela “reside nas profundezas da alma”, 15 incita a praticar a justiça unida à caridade e ensina a paciência. Quem possui essa paz ama o direito e a autoridade. Ela não se alimenta de bens perecíveis, mas de realidades sobrenaturais, nem se perturba com as maiores desgraças, porque está fundada sobre a rocha firme da fé.

Dizemos com propriedade ser essa a paz de Cristo porque, antes d’Ele, o mundo vivia nas trevas do paganismo em que vigoravam atrocidades de todos os tipos, prevalecendo a máxima: homo homini lupus — o homem é lobo do homem. Por isso, Santo Efrém de Nisibi pôde afirmar que “no nascimento e na morte de Jesus de Nazaré, o Céu e a Terra se fundem num abraço de paz”. 16

Quanto ao reino messiânico instituído pelo Divino Mestre, este se distingue substancialmente de todos os reinos terrenos, porque jamais existiu um soberano dotado da capacidade de governar o interior de seus súditos. Tal privilégio pertence ao Homem-Deus, que não deseja imperar apenas no exterior, mas sim renovar o âmago de suas criaturas: “Dentro de vós meterei meu espírito, fazendo com que obedeçais às minhas leis e sigais e observeis os meus preceitos” (Ez 36, 27).

Se fecharmos as portas da alma ao suave jugo de Jesus, e deixarmos nela penetrar o pecado, abandonaremos a paz de Cristo e o reino de Cristo. É por se terem “miseravelmente separado de Deus e de Jesus Cristo” que os homens caíram no abismo de males da I Guerra Mundial, acentuou em sua encíclica Ubi arcano o Papa Pio XI. E acrescentou: “Já que foram renegados os preceitos da Sabedoria cristã, não há motivo para admirar-se de que os germes da discórdia — semeados por toda parte como em solo bem preparado — tenham produzido esse execrável fruto de uma guerra que, longe de enfraquecer pelo cansaço os ódios internacionais e sociais, alimentou-os mais abundantemente pela violência e pelo sangue”. 17

A Igreja é a grande propulsora da paz

Tocante é o relato do Evangelista São Lucas sobre a comoção de Nosso Senhor no Domingo de Ramos, quando Se aproximou da Cidade Santa e chorou sobre ela, dizendo: “Oh! Se também tu, ao menos neste dia que te é dado, conhecesses o que te pode trazer a paz!… Mas não, isso está oculto aos teus olhos” (Lc 19, 42). Ele, o “Príncipe da paz” (Is 9, 5), que viera a este mundo para salvar, é recusado até pelos seus. Portador de divinas soluções para todas as desordens da humanidade, é desprezado por não dar assentimento ao pecado dominante nos corações orgulhosos de uma geração má e perversa.

A nós, porém, filhos da Santa Igreja, a paz de Cristo não é um objetivo inalcançável, porque não está velado aos nossos olhos Quem a pode comunicar. Embora tenha ascendido gloriosamente aos Céus, Ele está presente em seu Corpo Místico, a Santa Igreja Católica, defensora intrépida do direito, da vida, da justiça e da caridade. Ou ainda, como a qualificou o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, “a depositária da Verdade, e Arca dos Sacramentos, inestimável obra-prima de Deus”. 18

Convicto de ser a Igreja a grande propulsora da paz, comenta esse eminente líder católico: “Só as virtudes que a Igreja ensina, e por meio dos Sacramentos ajuda a praticar, é que são realmente o fundamento da paz. E, assim, a virtude só vencerá onde vencer a Santa Igreja de Deus. Em outros termos, não haverá verdadeira paz senão na medida em que houver um triunfo da Santa Igreja. […] A exaltação da Santa Igreja, isto é, que a Igreja seja reconhecida por todos os povos no reinado universal que de direito lhe cabe sobre o mundo inteiro, é este o grande anelo que deve estar indissoluvelmente ligado a todos os nossos anseios de paz”. 19

Que a humanidade tenha, portanto, os olhos fixos na Igreja e ponha amorosamente em prática seus sapienciais ensinamentos, eis o meio seguro de extirpar todas as desordens, individuais e sociais, que campeiam pelo mundo afora e são causa das discórdias, guerras, violências e tantos outros males que afligem o mundo atual. À Santa Igreja se aplica com propriedade a profecia de Isaías: “Eis o que diz o Senhor: vou fazer a paz correr para ela como um rio” (Is 66, 12).

1CONCÍLIO VATICANO II. Gaudium et spes, n.78.
2SANTO AGOSTINHO. A cidade de Deus. l.19, c.11.
3Idem, 1.19, c.13.
4SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica, II-II, q.29, a.2, ad.3.
5HENRY, OP, Antonin-Marcel. Introdução e notas ao Tratado da Caridade. In: Suma Teológica. São Paulo: Loyola, 2004, v.V, p.406, nota a.
6RATZINGER, Joseph. Gesù di Nazaret. Città del Vaticano: Libreria Vaticana, 2007, p.110.
7SÃO TOMÁS DE AQUINO, op. cit., II-II, q.29, a.3, ad.1.
8JOÃO XXIII. Pacem in terris, n.164.
9BENTO XVI. Mensagem no 20º aniversário do Encontro Interreligioso de oração pela paz, convocado por João Paulo II, 20/9/2066.
10Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Super Evangelium Ioannis, c.14, lect.7.
11Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica, II-II, q.29, a.3.
12CONCÍLIO VATICANO II, op.cit., ibidem.
13PIO XI. Ubi arcano, 23/12/1922.
14Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica, II-II, q.29, a.2, ad.4.
15PIO XI, op. cit., ibidem.
16SANTO EFRÉM DE NISIBI, apud ODEN, Thomas C. (Ed.). La Biblia comentada por los padres de la Iglesia y otros autores de la época patrística. Evangelio según San Lucas. Madrid: Ciudad Nueva, 2006, v.III, p.82.
17PIO XI, op. cit., ibidem.
18CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Opus justitiæ pax. In: O Legionário. São Paulo. N.434. (5/1/1941); p.2
19CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Justitia et pax. In: O Legionário. São Paulo. N.517. (9/8/1942); p.2.

O Espírito da Alegria

Mariana Iecker Xavier Quimas de Oliveira

O teólogo Marie-Michael Philipon 1 afirma que o Espírito Santo é quem nos faz encontrar, em Deus, gozo e deleite, lembrando a famosa a enumeração dos frutos do Espírito Santo dada por São Paulo aos Gálatas (Gl 5, 22-23): caridade, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, longanimidade, mansidão, fé, modéstia, continência e castidade.

Os frutos do Espírito Santo se distinguem das virtudes do mesmo modo que uma potência difere do ato. Por esta razão são chamados “frutos”, pois o fruto é aquilo que a planta produz ao atingir o auge de seu desenvolvimento e que traz em si certa suavidade e deleite.

A princípio, os atos das virtudes muitas vezes são difíceis e exigem esforço, assim como o fruto que ainda não está maduro e que deixa os dentes embotados. No entanto, quando já se está adestrado na prática da virtude, repete-se com facilidade e prontidão estes atos; estes são os frutos. Em consequência disso, nem todos os atos de virtude são merecedores do nome “fruto”, somente aqueles que são acompanhados de certo deleite espiritual.

Trata-se, contudo, de um gozo espiritual, que pode dar-se ainda em atos virtuosos que, como a paciência e a longanimidade, se exercem em situações aflitivas. É uma satisfação para o espírito não se sentir perturbado e conservar a paz e tranquilidade da alma em meio às penalidades”. 2

Uma vez que os frutos do Espírito Santo advêm da prática assídua da virtude, é correto afirmar que a alegria é um fruto do Espírito Santo, no sentido que procede da virtude. É importante esclarecer que a verdadeira alegria não consiste na virtude; esta é apenas o fundamento de um edifício muito mais excelente do que a virtude, que é o próprio Deus e n’Ele a vida da graça. “A alegria […] vem da paz de consciência. Quando eu estou em ordem com Deus, estou em ordem com os seus mandamentos, estou, portanto, dentro da graça de Deus, eu estou na alegria“, 3 explica Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias

Pondera São Tomás 4 que os atos de todos os demais dons que orientam para o bem se reduzem à caridade, à alegria e à paz. A alegria figura nesta enumeração seguindo a caridade, pois, como já foi visto, aquela procede desta, de sorte que quem ama se alegra de estar unido ao amado, “a alegria é a presença e a posse daquele a quem se ama”. 5 A este respeito, parafraseando um dito famoso de Dona Lucilia Corrêa de Oliveira, 6 podemos afirmar convictamente que alegrar-se é estar juntos, olhar-se e querer-se bem.

Apesar de tudo, alegre

Acabamos de ver que os frutos do Espírito Santo são exercidos até mesmo em situações aflitivas e dramáticas. São um sopro do Divino Espírito que dão paz e tranquilidade à alma em meio às dificuldades, conforme afirma São Paulo em sua primeira carta aos Tessalonicenses (I Ts 1, 6): “Vós vos tornastes imitadores nossos, e do Senhor, acolhendo a Palavra com a alegria do Espírito Santo, apesar de tantas tribulações“. Portanto, aquela ideia hipotética de bem-aventurança terrena não tem fundamento, pois a felicidade não pressupõe a ausência de sofrimento; a alegria é fruto da caridade, do Espírito Santo, mas não do bem-estar terreno. 7 Analisemos um fato narrado pelo Professor Plinio Corrêa de Oliveira na Folha de São Paulo:

“Vindo uma vez São Francisco de Perusa para Santa Maria dos Anjos com frei Leão, em tempo do inverno, e o grandíssimo frio fortemente o atormentasse, […] frei Leão perguntou-lhe: Pai, peço-te, da parte de Deus, que me digas onde está a perfeita alegria. E São Francisco assim lhe respondeu: Quando chegarmos a Santa Maria dos Anjos, inteiramente molhados pela chuva e transidos de frio, cheios de lama e aflitos de fome, e batermos à porta do convento, e o porteiro chegar irritado e disser: Quem são vocês? E nós dissermos: Somos dois dos vossos irmãos, e ele disser: Não dizem a verdade; são dois vagabundos que andam enganando o mundo e roubando as esmolas dos pobres; fora daqui: e não nos abrir […] então, se suportarmos tal injúria e tal crueldade, tantos maus tratos, prazenteiramente, sem nos perturbarmos e sem murmurarmos contra ele […], nisso está a perfeita alegria. E se ainda, constrangidos pela fome, pelo frio e pela noite batermos mais, chamarmos e pedirmos pelo amor de Deus com muitas lágrimas que ele nos abra a porta e nos deixe entrar, e se ele mais escandalizado disser: Vagabundos importunos, pagar-lhes-ei como merecem; e sair com um bastão nodoso e nos agarrar pelo capuz e nos atirar ao chão e nos arrastar pela neve e nos bater com o pau de nó em nó; se nós suportarmos todas estas coisas pacientemente e com alegria, pensando nos sofrimentos de Cristo Bendito, os quais devemos suportar por seu amor: ó irmão Leão, escreve que aí e nisso está a perfeita alegria”
. 8

Pareceria um paradoxo considerar este testemunho partindo do princípio que a alegria deriva do encontro e da posse de um bem; como encontrar alegria em meio a tal situação, onde parece não haver bem nenhum? Do ponto de vista meramente natural, realmente seria impossível. Entretanto, não se pode olvidar que a alegria é algo inteiramente transcendente e sobrenatural.

A alegria cristã

“O homem, a mulher quando caem numa situação de penúria, de sofrimento, de angústia, de drama tem dois caminhos diante de si: um é a tristeza pela situação em que se encontra, outra é a alegria. ‘Mas, escute, alegria? Alegria numa situação dessas? Isso é sinônimo de loucura.’ É sinônimo de loucura desde que a pessoa não esteja pondo a sua alegria em Cristo Jesus. Porque se ela está sofrendo aquilo por um desígnio de Deus, e se ela está sofrendo aquilo por permissão de Deus, é sinal de que a vontade de Deus é que ela sofra“. 9

O verdadeiro cristão deve seguir o modelo do Divino Mestre na agonia do Horto das Oliveiras e no sacrifício do Calvário chegando ao auge do sofrimento com um amor incondicional ao Pai. “É misterioso, Ele está coberto de dores, mas se percebe n’Ele uma congruência, um vigor, uma coerência, uma resignação que me levam a dizer: nunca um homem foi tão invejável como o Homem-Deus no auge de sua tristeza“. 100

É por isso que nas igrejas costuma-se colocar Cristo bem no alto e na atenção de todos. Porque ali está a verdadeira alegria [em] considerar a cruz como um mérito, como um dom de Deus. […] A pessoa batizada passa por dramas, mas olhando, fixando a atenção bem no olhar […] vê-se um brilho por onde a pessoa tem uma substância, um suporte que em certo momento pousa a graça de Deus, um toque do Espírito Santo, enche a pessoa de ânimo e passa por aquela situação com outro estado de espírito“. 11

É necessário ver a vida sempre de dentro dos olhos de Deus, procurando o bem maior que Ele pretende quando permite as tribulações, seja para nos provar na fé, ou simplesmente para nos premiar com mais méritos no Céu. Precisamos considerar que todos os prazeres da vida passam com a morte e o único que levaremos desta Terra quando levantarmos voo rumo ao céu é o amor a Deus.

“O bom católico […] compreende o valor do sofrimento, do qual os pseudo-felizes tanto fogem. De fato, a dor é para a alma humana o que é o fogo para um metal que deve ser separado da ganga e purificado: sofre-se, porém com resignação e dignidade. Isso dá à alma uma tranquilidade, uma harmonia, uma força que não há prazer que pague. Oh, o bem estar da dor cristã!” 12

Esse é o verdadeiro espírito da alegria!

1PHILIPON, Marie-Michael. Los dones del Espíritu Santo. 2.ed. Madrid: Palabra, 1983, p. 59.
2 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Pequeno Ofício da Imaculada Conceição: Comentado. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2011, v. II, p. 235.
3 Id. Homilia do XIV domingo do Tempo Comum. Op. cit.
4 SÃO TOMÁS DE AQUINO. S. Th. I-II, q. 70, a. 3.
5 PHILIPON. Los dones del Espíritu Santo. Op. Cit. p. 59: “La alegría es la presencia y la posesión de aquél a quien se ama” (Tradução da autora).
6 “Viver é estar juntos, olhar-se e querer-se bem” apud CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Dona Lucilia. São Paulo: Artpress, 1995, v. II, p. 267.
7 Claro está que este tema está sendo desenvolvido de maneira didática para a maior compreensão, mas a alegria é uma só, vista apenas de vários ângulos diferentes: um fruto da caridade, do Espírito Santo. Portanto, aquele mesmo fogo de amor a Deus que produz a alegria, nos faz passar por cima de todas as aflições sem que a elas prendamos o coração, pois para quem ama verdadeiramente a Deus, Ele é o único bem realmente lhe importa.
8 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. A perfeita alegria. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano I, n. 3, jun. 1998, p. 24-25.
9 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Homilia do III domingo do Advento. Caieiras, 13 dez. 2009. (Arquivo IFTE).
10 CORRÊA DE OLIVEIRA. A verdadeira felicidade. Op. cit. p. 17.
11 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Homilia do III domingo do Aadvento. Caieiras, 14 dez. 2008. (Arquivo IFTE).
12 CORRÊA DE OLIVEIRA. A verdadeira felicidade. Op. cit. p. 17.

Amor: Fruto da Caridade

Mariana Iecker Xavier Quimas de Oliveira

Todo ser busca, com afinco, o bem e deste encontro decorre a alegria. Mas, qual bem pode nos trazer alegria a ponto de saciar todo desejo e não dar margem a nenhum tipo de decepção? São Tomás esclarece que, muito além de ser uma simples paixão, a alegria é o fruto mais arrebatador do amor a Deus, pois “o amor é o primeiro movimento da potência apetitiva do qual resulta o desejo e a alegria.1

Segundo Pe. Royo Marín, O.P.2, para que um objeto seja a causa de alegria e felicidade perfeita para o homem, ele deve resumir em si quatro condições essenciais: ser o bem supremo que não compita com outro maior; excluir toda e qualquer mescla de mal; saciar por completo todas as aspirações do coração humano; e, por último, ser estável, ou seja, que uma vez obtido não possa ser perdido. Segundo este moralista, tais requisitos não são cumpridos por nenhum dos seres criados, sejam eles dinheiro, fama, glória, beleza, etc.; essa tese é confirmada taxativamente pela Santa Mãe Igreja (CCE 1723): “a verdadeira alegria não está nas riquezas ou no bem-estar, nem na glória humana ou no poder, nem em qualquer obra humana por mais útil que seja, como as ciências, a técnica e as artes, nem em outra criatura qualquer, mas apenas em Deus, fonte de todo o bem e de todo amor“.

O Pe. Royo Marín dá as razões: as riquezas, por exemplo, além de fomentarem progressivamente o desejo de mais fortunas, não excluem certos infortúnios como enfermidades e mortes, e podem ser perdidas por qualquer eventualidade. Similarmente, as honras, a fama e o poder são instáveis, pois cessam após a morte. Quem, por exemplo, se lembra hoje das personalidades que encheram os jornais de há um século? Ademais, saúde, beleza, força, enfim, dentre todos os bens corpóreos, nenhum deles são bens supremos, pois o corpo é a parte inferior do homem, além do que também findam com a morte. Neste sentido, Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias dá um interessante depoimento:

Eu conheci pessoas riquíssimas em minha vida. Viajando de lá para acolá, conheci reis de petróleo, conheci magnatas de grandes fortunas: deprimidos, cheios de tiques nervosos, […] porque a qualquer momento podia ser que acontecesse isto, acontecesse aquilo, que perdesse isso, perdesse aquilo. Eles não se davam conta que iriam perder tudo na hora da morte, porque […] passariam para a eternidade sem levar nada.3

Tampouco a ciência preenche as condições necessárias para ser a razão da alegria humana, pois esta pode ser perdida pelas doenças mentais, além de não saciar o homem, a ponto de o próprio Sócrates afirmar: “Só sei que nada sei”.

Por fim, o Pe. Royo Marín ousa dizer que nem sequer na virtude – no sentido estrito da palavra – pode consistir o gozo perfeito, posto que não pode ser completa nesta Terra, nem é estável já que pode-se perdê-la pelo ímpeto das paixões.

Definitivamente: o único que pode nos fazer felizes é Deus. É como aconselha Tomás Kempis em sua obra “Imitação de Cristo”: “Tende por vã toda consolação que venha da criatura. A alma que ama a Deus despreza tudo abaixo de Deus. Só Deus, eterno e imenso, preenche tudo, Consolação da alma e verdadeira Alegria do coração4”.

E realça L. Desiato que “não adianta procurá-la [a felicidade] dando uma volta pelo mundo, ela está dentro de nós, no sorriso de uma Presença”5 ; e é, também, o que reconhece o Bispo de Hipona: “quando busco a Vós, Deus, busco a vida bem-aventurada6” .

Quando nós colocamos um amor meramente humano, quando nós colocamos a esperança meramente humana, quando nos aferramos a qualquer coisa puramente natural, aí vem a decepção. Por quê? Porque quando nós entregamos o nosso coração, nós estamos à procura de um infinito, de um Ser absoluto, de Deus. E muitas vezes nós, por equívoco, acabamos colocando nossa esperança em algo que não é Deus, e isso não nos traz o saciar deste anseio que eu levo dentro da minha alma, que é o anseio de Deus. O único ser que apaga este fogo, este anseio de felicidade que é de felicidade infinita – eu quero esta felicidade infinita porque eu fui criado para ela –, o único ser [que a sacia] é Deus, é Nosso Senhor Jesus Cristo, é a Religião, é ter a graça de Deus.7

Para vermos como a alegria verdadeira só se encontra no âmbito sobrenatural, tomemos a figura de Napoleão Bonaparte.

[Ele foi] um homem que fez uma carreira brilhante, galgou imediatamente, em pouco tempo, o posto de imperador da Europa. Era cultuado por todos, aplaudido por todos… […] ele teve uma vida de triunfos magníficos. Pois bem, Napoleão Bonaparte quando perguntaram a ele qual foi o dia mais alegre, mais feliz da vida dele, ele disse que foi o dia da Primeira Comunhão.8

O que permanece no amor, permanece em Deus e Deus nele(I Jo 4, 16)

Contudo, a alegria é produzida pela obtenção de um bem presente, pois, de outro modo, seria apenas um desejo; e o Catecismo da Igreja Católica (CCE1718) afirma que este, por assim dizer “instinto natural”, Deus o pôs na alma humana a fim de atrair-nos a Ele. Mas, sendo Deus infinito, como poderia o homem obter a Deus? Esta resposta, a dá, de forma magistral, o Doutor Angélico:

[A caridade] produz no homem a perfeita alegria. Com efeito, ninguém tem verdadeiro gáudio se não vive na caridade. Porque qualquer um que deseje algo, não goza nem se alegra nem descansa enquanto não o obtém. E nas coisas temporais ocorre que se apetece o que não se tem, e o que se possui se despreza e produz tédio; mas não é assim nas coisas espirituais. Pelo contrário, quem ama a Deus o possui, e por isso o ânimo de quem O ama e O deseja n’Ele descansa.9

Portanto, só a caridade nos dá a possibilidade de possuir a Deus, pois como afirma São João: “Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele” (I Jo 4, 16). A caridade dilata o nosso coração para que, já nesta Terra, possamos abarcar um pouco mais do que nossa capacidade humana conseguiria, a infinitude do Criador.

Acrescenta ainda Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias:

O modo de participarmos de Nosso Senhor Jesus Cristo e permanecermos n’Ele e na alegria d’Ele, é […] estar participando daquilo que Ele é. O que Ele é? Ele é a Alegria. Ouçam como soa mal: “Deus é a depressão. Deus é o desânimo. Deus é a tristeza”. Alguém dirá: “Você é um louco. Fora daí!” Porque se há algo que eu não posso dizer é isso. Mas eu posso dizer: “Deus é a Alegria!” E Ele, portanto, quer transferir a nós essa alegria. Como recebemos essa alegria? É permanecendo no amor d’Ele, é permanecendo n’Ele, é obedecendo as leis morais que Ele pôs.10

Ora, Deus é amor e é alegria; logo, para se ter alegria é preciso ter amor a Ele.

1 SÃO TOMÁS DE AQUINO. S. Th. II-II, q. 28, a. 4.
2 ROYO MARÍN, Antonio. Teología Moral para seglares. Madrid: BAC, 1961, v. I, p. 26.
3 CLÁ DIAS, Joã o Scognamiglio. Homilia do III domingo do Advento. Caieiras, 13 dez. 2009. (Arquivo IFTE).
4 KEMPIS, Tomás de. Imitação de Cristo. L. II, c. 5: “Totum vanum existima, quidquid consolationis occurrit de aliqua creatura. Amans Deum anima, sub Deo despicit universa. Solus Deus æternus et immensus, implens omnia, solatium animæ et vera cordis lætitia” (Tradução da autora).
5 DESIATO, L. Storia dell’eremo. Turim: [s. n.], 1990, p. 72: “Non serve cercala in giro per il mondo, essa è dentro di noi, nel sorriso di una Presenza” (Tradução da autora). Esta afirmação é fundamentada por Leão XIII: Deus se encontra presente em todas as coisas e está nelas: por potência, enquanto estão sujeitas ao seu poder; por presença, enquanto todas estão descobertas e patentes aos seus olhos; por essência, porque se encontra em todas como causa de seu ser (S. Th. I, q. 8, a. 3). Mas na criatura racional, Deus se encontra de outra maneira; ou seja, enquanto é conhecido e amado, uma vez que é próprio da natureza amar o bem, desejá-lo e buscá-lo. Finalmente, Deus, por meio da sua graça, está na alma do justo de uma forma mais íntima e inefável, como em seu templo; e disso se segue aquele amor mútuo pelo qual a alma está intimamente presente em Deus, e está nele mais do que pode suceder entre os amigos mais queridos, goza dele com a mais regalada doçura. LEÃO XIII, Encícica Divinum illud manus, n. 10: “Dios se halla presente a todas las cosas y que está en ellas: por potencia, en cuanto se hallan sujetas a su potestad; por presencia, en cuanto todas están abiertas y patentes a sus ojos; por esencia, porque en todas se halla como causa de su ser (S. Th. I, q.8, a.3.). Mas en la criatura racional se encuentra Dios ya de otra manera; esto es, en cuanto es conocido y amado, ya que según naturaleza es amar el bien, desearlo y buscarlo. Finalmente, Dios, por medio de su gracia, está en el alma del justo en forma más íntima e inefable, como en su templo; y de ello se sigue aquel mutuo amor por el que el alma está íntimamente presente a Dios, y está en él más de lo que pueda suceder entre los amigos más queridos, y goza de él con la más regalada dulzura” (Tradução da autora).
6 SANTO AGOSTINHO. Confessionum L.X, c. 20, n. 26: ML 32, 791: “Cum enim te Deum quæro, vitam beatam quæro” (Tradução da autora).
7 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Homilia do III domingo do Advento. Caieiras, 14 dez. 2008. (Arquivo IFTE).
Id. Homilia do III domingo do Advento. Caieiras, 13 dez. 2009. (Arquivo IFTE).
8 ANDRIA, Pedro de. Los mandamientos comentados por Santo Tomas de Aquino. 2. ed. Mexico: Tradición, 1981, p. 12: “[La caridad] produce en el hombre la perfecta alegría. En efecto, nadie posee en verdad el gozo si no vive en la caridad. Porque cualquiera que desea algo, no goza ni se alegra ni descansa mientras no lo obtenga. Y en las cosas temporales ocurre que se apetece lo que no se tiene, y lo que se posee se desprecia y produce tedio; pero no es así en las cosas espirituales. Por el contrario, quien ama a Dios lo posee, y por lo mismo el ánimo de quien lo ama y lo desea en El descansa” (Tradução da autora).
9 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Homilia da quinta-feira da IV semana do Tempo Pascal. Caieiras, 6 maio 2010. (Arquivo IFTE).

Enviai, ó Senhor, vosso Espírito

Maria Cecília Lins Brandão Veas

Panfletos e noticiários que transmitem últimos acontecimentos os há em abundância. Mas, onde encontrarmos subsídios que nos comuniquem o fim último e a realização suprema da existência dos homens? Assim sendo, pareceu-nos oportuno tecermos, neste artigo, esta realidade oculta, mas sublime, que encerra em si a grandeza dos arcanos de Deus: a conquista do Reino dos Céus, iniciado na Terra com a inabitação da Santíssima Trindade na alma.

Tendo a serpente entrado no Paraíso, penetrou com ela o veneno de morte fatal, que Adão e Eva sorveram como a mais ordinária bebida. Insidioso, o demônio saíra vencedor, não na totalidade, mas em larga medida. E eis que as gerações procedentes, manchadas pela culpa original, lutariam desfalecidas por esta terra de exílio, à espera do Salvador. Durante séculos, a História conheceu um de seus mais lânguidos, desolados e pungentes períodos, nos quais eram constantes as penitências, jejuns e preces que, na economia da graça, se erguiam aos Céus.

No momento determinado, entretanto, a Salvação se dignou vir das alturas. O Filho Unigênito de Deus, encarna-se triunfando vitorioso sobre o príncipe da morte, sublimando a obra de suas mãos. As portas do Céu reabrem-se, e é iniciado o Reino da graça e da benção, para o qual Deus chama a cada alma, renovando o convite feito a Adão: “Meu filho, eu te dei a condição de homem, não queres ser mais? Não queres ser um príncipe na minha criação? Eu te concedo uma participação criada na minha própria vida. Eu habitarei em ti, e tu serás templo no qual Eu viverei. Far-te-ei meu herdeiro”. 1 E no momento em que as águas batismais recaíram sobre nossas cabeças, ingressamos no imenso cortejo de almas ousadas que galgam à Pátria Celeste.

Mas, as consequências do pecado original vociferam em nosso interior: concupiscências, desejos desenfreados, intemperanças, frequentemente tomam-nos por inteiro levando-nos a empregar os esforços, onde lucro algum lograremos obter: o pecado. Por isso, pensaria alguém: “Ser herdeiros do reino Céus? Haverá o que sobrepuje mais profundamente a capacidade humana?” A resposta o Salvador a deu, quando exortou aos seus discípulos: “O que é impossível aos homens é possível a Deus”. (Le 18, 27)

É indubitável o fato de a vida ser dura e repleta de dificuldades. Porém, ai dos que agravam o exílio nesta Terra, fechando as janelas de sua alma que dão para o Céu! O que, pois, deveria estar ao alcance de nossa consideração, senão o imenso amor que Deus manifesta constantemente aos homens? As Três Pessoas Divinas incorrem infalivelmente ao nosso encalço: o Pai adota-nos como filhos, no Batismo; o Filho torna nosso irmão e redime-nos; o Espírito Santo santifica-nos. “É esta a grande obra de amor de Deus ao homem, e é o Espírito Santo o Amor essencial no seio da Trindade Santíssima”. 2

A Graça Santificante infundida em nossas almas no momento do Batismo, misteriosamente eleva-nos à natureza divina, tomando-nos dela partícipes. Ora, “esta realidade criada, que é a Graça Santificante, leva sempre consigo, inseparavelmente, outra realidade absolutamente divina e menada, que não é outra coisa senão o mesmo Deus, uno e trino, que vem inabitar no fundo de nossas almas3. De fato, “aos que chamou, também os justificou”, (Rm 8, 28) unindo-Se intimamente, como Pai e como Amigo.

O que é um bom filho senão a glória do Pai, e o que é um verdadeiro amigo senão aquele que devota fidelidade? Se a meta suprema da inabitação Trinitária é fazer-nos participantes do mistério da vida divina, transformando-nos em Deus 4, por que vivemos indiferentes à essas realidades?

Cada alma constitui uma província de eleição no Reino de Deus. E a fim de levarmos a cabo essa missão, o próprio Espírito Santo auxilia-nos constantemente com o bafejo de seus dons. Neste sentido, canta a Igreja no Veni Sancte Spiritus: Doce Hóspede da Alma. “Quando o Espírito vem e possui totalmente a alma com seus conselhos, instruções e impulsos de amor, nos comunica por meio de nossos pensamentos a voz do Senhor, ilumina nossa inteligência, inflama a vontade”. 5 Eis, pois, a chave de ouro da santidade!

Nada é mais bonito na Terra do que ver diretamente nas almas a santificação delas operada pelo Espírito Santo”. 6 Com as chamas do intenso amor, o Paráclito inculca quais as veredas que a alma deve trilhar para alcançar o píncaro da santidade. Muitos são os carismas, e inúmeras as vocações. Porém, se há algo que não se extingue, indiferente do chamado, é a luta contínua para efetivar a santificação. E tomando o leme de nossas almas, o Espírito Santo como que sopra no interior de nossas almas dizendo: “Você não está lutando por si, você está lutando por Mim, e lutando por Mim, o patrão de sua luta sou Eu” 7.

Assim consignou Nosso Senhor a Santa Catarina de Siena: “O Espírito Santo é o patrão das naves fundadas à luz da santíssima fé, conhecendo por ela, que o mesmo Espirito Santo, será quem as governe”. 8 Como um navegante que se subjuga às ordens do capitão, abandonemo-nos ao sopro do Espírito Santo, para bem chegarmos ao cais da eternidade. Somente assim estaremos devidamente preparados para o grande dia de nosso encontro com Deus.

Não nos esqueçamos, porém, que qualquer falta grave expulsa implacavelmente o Guia de nossas almas. “Não sabeis que sois templos de Deus, e que o Espirito de Deus habita em vós?.” (1Cor 4, 17) Esmeremo-nos, pois, ardentemente em manter em nosso templo o Divino Espírito. Invoquemo-Lo, sobretudo quando as rajadas do infortúnio afligirem nossas almas, para que perscrute o nosso coração derramando a abundância de seus dons, de maneira a transformar-nos por completo.

Dessa necessidade vem a prece que há séculos reza a Santa Igreja: Emitte Sputum tuum, et renovabis faciem terrae.

“Ou seja, antes de tudo, a face dessa nossa “terra” interior, da nossa própria alma, pode ser renovada de um instante para outro, por uma graça do Espírito Santo. Igualmente por uma particular intervenção d’Ele, há de ser regenerada a face do mundo, através do apostolado de autênticos católicos, inspirados pela Sabedoria divina, cheios de força e valor para enfrentar os inimigos da fé, assim como para atrair e fazer o bem a todos que devam pertencer à Santa Igreja”. 9

1 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Harmonia: Uma criatura de Deus. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano XII, n. 137, ago. 2009, p. 20.
2 ROYO MARÍN, Antônio. El gran desconocido. Madrid: BAC, 2004, p. 71.
3 Ibid. p. 70.
4 Ibid. p. 76.
5 SAO BERNARDO. Obras Completas, y. IV. BAC: Madrid, 2006, serm. 2, 6.
6 CORREADE OLIVEIRA, Plinio. Nossa Senhora do Rosário, uma festa de glória! In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano XV, n. I75, out. 2012, p. 18-19.
7 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Memórias: Palestra. São Paulo, 17 set. 1989. (Arquivo IFTE)
8 SANTA CATALINA DE SIENA. Obras de Catalina de Siena. 3. ed. Madrid: BAC, 2002. p. 406.
9 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Emite Spiritum tuum et creabuntur. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano XII, n.134, maio. 2009, p. 4.

Santificador e guia da Igreja Católica

Elen Coelho

Inquietava-se a Santa Carmelita de Lisieux ao sentir que sua alma aspirava a outras vocações que transpunham os claustros de seu Carmelo. Almejava por todas as vocações: queria morrer em um campo de batalha em defesa da fé como um guerreiro ou um Zuavo Pontifício, ardia em desejo de derramar todo o seu sangue sofrendo os piores tormentos como um mártir dos primeiros tempos do cristianismo, desejava ser sacerdote para poder consagrar e distribuir o Santíssimo Corpo de seu divino Esposo, queria sair por toda a terra para apregoar as glórias de seu Bem-amado como os apóstolos, os profetas e os doutores.

Confessara então, que todos esses seus desejos lhe eram um verdadeiro martírio até que procurando uma resposta aos seus anseios, abriu as Cartas de São Paulo e encontrou um trecho no qual diz o Apostolo que nem todos podem ser tudo ao mesmo tempo: “São todos apóstolos? São todos profetas? São todos doutores? Fazem todos milagres? Têm todos a graça de curar? Falam todos em diversas línguas? Interpretam todos? Aspirai aos dons superiores. E agora, ainda vou indicar-vos o caminho mais excelente de todos”( 1 Cor 12, 29-31).

A resposta lhe pareceu clara, porém não satisfizera seus objetivos. Perseverou na leitura e deparou-se com outro versículo onde explicava o Apóstolo que todas as vocações não são nada sem o amor. Desta forma, compreendera afinal sua vocação e em um transporte de entusiasmo exclamou: “Ó Jesus, meu amor, minha vocação encontrei-a afinal: minha vocação é o amor. Sim, encontrei o meu lugar na Igreja […]. No coração da Igreja, minha Mãe, serei o amor… Assim, serei tudo… O meu sonho se realizará”.1

O que ardentemente procurava Santa Teresinha do Menino Jesus era algo que pudesse unificar e realizar todas as aspirações de sua alma identificando-se em todos os carismas que compõe o Corpo Místico de Cristo.

Contudo, essa busca nos põe diante de outro panorama, se uma alma ante seus díspares anseios pode harmonizá-los ao abrir-se à caridade, muito mais todos os carismas existentes dentro da Santa Igreja encontram sua unificação Naquele que é designado dentro da Trindade como o Amor.

Deus Pai ao se contemplar em sua natureza e divindade, imediatamente gera outra Pessoa Divina: o Filho, que é o Seu Pensamento o Seu Verbo. E o Pai e o Filho ao se contemplaram mutuamente e se verem inteiramente idênticos, “o Pai ama o Filho, e O quer por inteiro e é um amor infinito, é um amor tão forte, tão forte, que encontra um eco no Filho, […] não tem o que pôr nem tirar, a tal ponto que é um amor só. Esse amor o que é? Tão forte que é uma Pessoa.2 É a terceira Pessoa da Santíssima Trindade que, pelo amor, faz com que a união entre os membros da Esposa Mística de Cristo seja parecida com a que se desenrola no convívio Trinitário, sendo Ele a Alma da Igreja.3

Pois, assim como no princípio Deus criou um boneco de barro e inspirou-lhes nas narinas um sopro de vida e o homem se tornou um ser vivente, (Gn 2, 7) também, quis Deus que a Sua nascente Igreja recebesse, no dia de Pentecostes, uma alma que lhe desse plena vida e ação. “Pentecostes constituiu, sem dúvida, o último ato de fundação da Igreja […] Do mesmo modo que Deus modelou o corpo do homem e, logo após lhe insuflou o espírito, Cristo formou o Corpo de sua Igreja com estrutura apostólica e, em seguida, lhe infundiu em Pentecostes o Espírito Santo em pessoa”.4

Por conseguinte, pode-se claramente afirmar: “A alma da Igreja é a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, o Defensor prometido e enviado, que a santifica e enriquece pela ação de Sua graça e Seus dons, impedindo que Ela venha a sucumbir, ou até mesmo enlanguescer sob os reiterados ataques de seus adversários.”5

Toda a diversidade de membros que existe dentro da Santa Igreja encontra sua unificação pela ação do Espírito Santo: os que estão dentro da hierarquia eclesiástica, os religiosos e os leigos. Portanto, dentro da Igreja estão inteiramente consonantes os carismas: os franciscanos com sua específica doçura e humildade, o ardor e a lógica dos Jesuítas e a ousadia e a clareza de um Dominicano, e assim por diante.

Desse modo, o Divino Paráclito atende ao desejo do Salvador: “Para que todos sejam um, assim como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, para que também eles estejam em nós e o mundo creia que tu me enviaste. Dei-lhes a glória que me deste, para que sejam um, como nós somos um” (Jo 17, 21-22).

Também é função do Espírito Santo acompanhar cada fiel conferindo-lhe graças para sua perseverança e todos os auxílios para alcançar a glória eterna. Esse auxílio foi prometido por Nosso Senhor e o vemos registrado nas Sagradas Páginas do Evangelho e nas Epístolas Paulinas: “É anunciado como o Advogado que ajudará aos discípulos (Jo 14,16) habitando em seu interior como em um templo (I Cor 3,16) e unindo-os em um mesmo corpo (ICor 12,13). Ele os ensinará o anunciado por Jesus (Jo 14,26), os guiando- a verdade completa (Jo 15,13). Ele será seu defensor ante os tribunais (Mt 10,20), quem os fortalecerá no testemunho (I Cor 12,3). […] Ele fará dos cristãos moradas de Deus (Ef 2,21). E o auxílio dos cristãos em suas fraquezas (Rm 8,26) e é quem suscita no interior dos corações essa exclamação: ‘Abbá, oh Pai!’”6

Tudo o que existe na Barca de Pedro é movido e governado pelo Paráclito. Ele acompanha a cada passo. A esse respeito, teceu um belo comentário o prof. Plinio Correa de Oliveira: “Ao ver as coisas da Igreja, sentia eu uma impressão curiosa. Mais do que uma instituição, Ela me parecia uma alma imensa que se expressa através de mil aspectos, que possui movimentos, grandezas, santidades e perfeições, como se fosse uma só grande alma que se exprimiu através de todas os templos católicos do mundo, todas as liturgias, todas as imagens, todos os sons de órgão e de todos os dobrares de sinos. Essa “alma” chorou com os Réquiens, se alegrou com os bimbalhares da Páscoa e das noites de Natal; ela chora e se alegra comigo.[…] Depois vim a saber que “aquilo” que eu percebera era o Espírito Santo, a alma da Igreja”.7

Desta forma, concluímos que, mediante a assistência do Espírito Santo, a Santa Igreja Católica Apostólica e Romana pode levar a cabo com toda a perfeição sua missão santificadora, o Evangelho pode ser pregado por todos os povos, os papas podem, com toda segurança, transmitir seus ensinamentos. Surgem, então, novos carismas para fazer resplandecer mais uma faceta da Esposa de Cristo e o incessante florescimento de novas almas santas tornando-A assim “toda gloriosa, sem mácula, sem ruga, sem qualquer outro defeito semelhante, mas santa e irrepreensível.” (Ef 5, 27)

1SANTA TERESINHA DO MENINO JESUS. História de uma alma. 24. ed. São Paulo: Paulus, 2005, p. 214.
2 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Curso de Formação: Palestra. São Paulo, 17 set. 2002. (Arquivo IFTE).As matérias extraídas de exposições verbais — designadas neste trabalho, segundo sua índole, como “conferências”, “palestras”, “conversas” ou “homilias” — foram adaptadas para a linguagem escrita.
3ROYO MARIN, Antonio. El gran desconocido. Madrid: BAC, 2010.
4SAYES, José Antônio. La Iglesia de Cristo: Curso de Eclesiologia. 2. ed. Madrid: Palabra,2003 .p. 14 1-142.
5MORAZZANI ARRÁIZ, Clara Isabel. E renovareis a face da terrra… In: Arautos do Evangelho. São Paulo,n.77, maio. 2008. p.23.
6 CASERO LASANTA, Pedro Jesús, El Espírito Santo Alma de la Iglesia; Jubileu año 2000 . Salamanca: San Esteban, 2000.p.72-73. (Tradução da autora)
7CORREA DE OLIVEIRA, Plinio. Espírito Santo, alma da Igreja. In: Dr. Plinio. São Paulo: n.74, maio. 2004. p.4.

Um guerreiro bem armado

Esther Pinales

O século XVI foi, sem dúvida, um dos mais agitados na história eclesial. A Europa, desde a revolta de Martinho Lutero e o surgimento dos sofismas e heresias de Zwinglio, Calvino, Henrique VIII e outros, viveu horas trágicas com agitações profundas, extensas e violentas no campo religioso e até mesmo no social.

A luminosidade, os encantos e a beleza do pensamento do homem medieval quebraram-se, abrindo passo à renascença, “a qual caminhava orgulhosa dos inegáveis talentos dos homens suscitados na ocasião em que ela se desenvolveu. Laica, voltada para os prazeres da Terra, tisnada de neo-paganismo” (PCO, 05/08/78).

Lamentável era a situação do Clero e das ordens religiosas, algumas em franca decadência. No ar, sentia-se a grande corrupção de costumes e a liberdade das más tendências; cristãos vivendo como pagãos e negando praticamente o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo: rebeliões, sacrilégios e escândalos cobriram todo o continente europeu.

No entanto, Deus na Sua Providência misericordiosa, jamais abandonou nem abandonará a sua Igreja. É o que em diversas ocasiões nos ensina Monsenhor João Clá Dias. Fato surpreendente e admirável! Sempre nas horas mais calamitosas e de maior corrupção e misérias morais e heresias, surgem extraordinários santos e heróis.

No século da revolta protestante (XVI), Deus suscitou um Inácio de Loyola, uma Santa Teresa de Ávila, São Caetano Thiene, São Jerônimo Emiliano, São Felipe Neri, Santo Antonio Zacarias, São Luis Gonzaga, e uma série de bem-aventurados. Nesta formosa constelação, como resposta do céu à heresia que negava a santidade da igreja, brilha também a figura singular de Roberto Belarmino.

Este santo foi um dos mais valentes defensores da Igreja Católica, Apostólica e Romana contra os ataques dos protestantes. Seus livros são tão sábios e cheios de argumentos convincentes que um dos mais famosos chefes protestantes exclamou ao ler um deles: “Com escritores como este, nós estamos perdidos, não há como responder-lhe”.

São Roberto nasceu em Itália, na cidade de Montelpuciano, Toscana, no ano 1542. A sua mãe era irmã do Papa Marcelo II. Conta-se que já em terna idade o menino Roberto dava mostras de possuir uma inteligência superior à dos seus companheiros e uma memória prodigiosa. Ele recitava de cor muitas páginas em latim do poeta Virgílio, como se as estivesse lendo.

Em resposta à sua entrega a Deus, lê-se em suas memórias: “Num instante, quando mais desejoso eu estava de conseguir cargos honoríficos, de repente me veio à mente a rapidez com que passam os bens da terra e a conta que todos nós vamos ter que dar a Deus, e me produziu o ideal de entrar na vida religiosa”. Roberto foi recebido na Ordem dos Jesuítas em Roma no ano 1560; ele entrava na companhia para escapar de cargos honoríficos tais como ser bispo ou cardeal, pois as regras dos jesuítas na época proibiam ambas as posições. Mas os planos da divina providência eram outros. Roberto negava-se aceitar tão alto cargo dizendo que os regulamentos da companhia de Jesus proibiam aceitar a títulos elevados da Igreja. O Papa respondeu-lhe que ele tinha o poder para dispensá-lo, e por fim lhe mandou, sob pena de pecado mortal, aceitar o cardinalato.

Os protestantes (evangélicos, luteranos, anglicanos, entre outros) tinham publicado uma série de livros contra a Fé Católica, e estes não encontravam como se defender. Então, o Sumo Pontífice solicitou ao santo preparar os sacerdotes para enfrentar os inimigos da Religião e a dirigir os jovens seminaristas, entre eles São Luis Gonzaga.

Ele fundou um curso que se chamava “Las Controversias”, para ensinar seus alunos discutir com os adversários e escreveu o CATECISMO RESUMIDO, o qual foi traduzido em 55 línguas e 300 edições.

Morreu no dia 17 de Setembro de 1621, e o Sumo Pontífice Pio XI o declarou Santo em 1930, e Doutor da Igreja em 1931.

Peçamos a São Roberto Belarmino um ardente desejo de conhecer, amar e defender a Doutrina Cristã.

“Repreende o justo e ele te amará”(Pr 9,8)

Davi é repreendido pelo profeta Natã - Catedral de Colônia, Alemanha.

Davi é repreendido pelo profeta Natã - Catedral de Colônia, Alemanha.

María del Pilar Perezcanto Sagone

Quem gosta de ser repreendido? O homem, naturalmente, foge da repreensão, ainda que posteriormente, ele perceba ter sido esta benéfica para sua alma. Então, surge o problema: de que maneira devemos aceitar as repreensões que recebemos para que estas nos santifiquem? Discorramos um pouco acerca deste tema tão decisivo para nossa salvação eterna.

Possivelmente, a maior dificuldade do homem concebido no pecado original apresenta-se quando sente em si uma forte e agradável atração oposta ao dever, acompanhada de uma espécie de cegueira por onde a pessoa não discerne claramente o mal encerrado naquilo que a seduz.

Ora, posto nesse estado de atração, não há nada que o homem mais deteste do que ouvir falar em virtude, em obediência aos Mandamentos e castigos.1 Entretanto, ainda que o homem não goste de ser desviado daquele caminho ao qual sua concupiscência o conduziu, deve escutar estas paternais palavras que Deus lhe dirige: “Meu filho, não desprezes a correção do Senhor, nem te espantes de que ele te repreenda, porque o Senhor castiga aquele a quem ama, e pune o filho a quem muito estima” (Pr 3,11,12). É uma verdadeira prova do amor que Deus nos tem o fato de que nos repreenda, pois diz a Escritura: “Aquele que poupa a vara quer mal a seu filho; mas o que o ama corrige-o continuamente” (Pr 13,24). O que seria de nós se não tivéssemos uma mão afetuosa que nos impede de cair no abismo?

Uma das maneiras de fazer transparecer o amor do superior para com súdito é corrigir-lhe e admoestá-lo de suas faltas para que possa emendar-se. O superior que ama verdadeiramente seu filho espiritual lhe deseja o bem, agindo como verdadeiro pai. 2

São João Clímaco compara, com muita unção, a crueldade de alguém que retira o pão das mãos de um menino faminto, com a daquele que tem obrigação de corrigir e não o faz. Este último causa dano não só a seu próximo mas também a si próprio. Ver-se-á, por essa omissão, privado dos méritos e benefícios do cumprimento desse dever e acabará por escandalizar os que constatam sua negligência.3

Mas, cabe-nos perguntar: Quem tem o dever de corrigir? São Tomás nos responde: Esta obrigação é de todos para com todos, 4 mas se intensifica quando Deus põe a nosso cuidado certas almas.

O próprio Salvador nos deixou este ensinamento: “Se teu irmão tiver pecado contra ti, vai e repreende-o entre ti e ele somente; se te ouvir, terás ganho teu irmão” (Mt 18, 15). São Tomás afirma que corrigir o próximo, desde que se presuma que será bem aceito, constitui uma verdadeira obrigação, ligada à virtude da caridade.5 Por isso, a correção fraterna é uma das maiores obras de misericórdia que podemos praticar em relação ao próximo.6 Nosso Senhor não está somente nos aconselhando, mas está nos dando um mandato: “repreende-o “. Ele deixa claro que todos têm esta obrigação moral: “O que vos mando é que vos ameis uns aos outros”. ( Jo 15, 17)

Entretanto, no cumprimento deste fundamental dever não podemos deixar que penetre nas nossas almas qualquer fimbria de orgulho, pois devemos exercê-lo por amor a Deus. Claramente no-lo diz Monsenhor João Clá Dias: “Evidentemente, na aplicação deste preceito, não se deve agir com alguma paixão, por menor que seja. A isenção de ânimo é fundamental. Toda caridade deverá ser empregada na delicadíssima tarefa da reconciliação.7

Contudo, em muitas ocasiões apesar da correção ser ouvida com ressentimento, pois atinge o amor-próprio, a consciência daquele que soube repreender corretamente fica em paz pela tranquilidade do bem realizado. Quem admoesta o próximo, não pelo exagerado gosto de corrigir — que é a mais vil das vaidades —, mas com o verdadeiro desejo de incentivar o progresso espiritual, esse sim é que ama seu irmão.8

Para mostrar melhor esta atitude, Monsenhor João a exemplifica dizendo que na vida de todos os dias, não é difícil acontecer que saiamos de casa distraidamente com algum desalinho em nossa apresentação: meias de cores diferentes, roupa mal colocada, etc. Basta que, por caridade, alguém nos advirta, para nós nos manifestarmos cheios de gratidão; se, pelo contrário, ninguém nos avisasse, ficaríamos ressentidos. Ora, com mais razão devemos agradecer a quem nos admoesta pela nossa falta de virtude, sobretudo naquilo que possa vir a constituir escândalo.9

Quem possui a Sabedoria, quando corretamente repreendido, torna-se agradecido sem jamais guardar qualquer ressentimento. Ao contrário, quem se lamenta por ser admoestado, não possui a sabedoria, pois na repreensão é que se mostra o valor do homem.10

Lembremo-nos, entretanto, de que o ato de virtude de chegar a amar àquele que nos repreende só pode ser fruto de uma graça. Saibamos pois, abrir nosso coração para toda e qualquer repreensão vinda de Deus através daqueles que nos mostram, de uma ou outra maneira, os nossos defeitos. Desta maneira alcançaremos a finalidade para a qual fomos criados: ver a Deus face a face.

1 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Alma feita de harmonias. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano X, n. 114, set. 2007, p. 8.
2 RODRIGUEZ, Alonso. Ejercicio de Perfección y virtudes cristianas. Madrid: Testimonio, [s.d]. p. 1636.
3 CLA DIAS, João Scognamiglio. A correção fraterna, uma opção ou um dever? In: Arautos do Evangelho. São Paulo. n. 81, set. 2008. p. 11. 40p. cit. q.33, a.2.
4 S. Th. II-JI, q.33, a.3.
5 Loc. cit.
6 ROYO MARIN, Antonio. Espiritualidad de los seglares. Madrid: BAC, 1967. p. 335.
7 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Op. cit. p. 11.
8 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Quem encontra um amigo fiel, descobre um tesouro! — II In. Dr. Plinio. São Paulo: Ano XIII, n. 149, ago. 2010, P. 22.
9 CLA DIAS, João Scognamiglio. Op. cit. p. 12.
10 “CORRÊA DE OLIVEIRA, Op. cit. p. 22.