Um sonho feito realidade

Ir. Elizabeth Veronica MacDonald, EP

A Basílica e Santuário Nacional de Nossa Senhora das Vitórias, nos Estados Unidos, é inegavelmente uma obra arquitetônica de grande categoria. Sua imponente fachada está revestida de mármore branco americano e seu interior é embelezado com 46 tipos de mármores vindos da Itália. A grande cúpula de 24 metros de diâmetro era, na época de sua construção, a segunda maior do país, superada apenas pela do Capitólio de Washington.

Suntuoso templo à Rainha do Céu

Rico em predicados artísticos, esse santuário representa uma calorosa expressão de amor à Santíssima Virgem e desperta a piedade em todos quantos cruzam o seu limiar. O pórtico principal recebe o peregrino com uma bela imagem de Nossa Senhora das Vitórias, anúncio da que, sob um baldaquino de colunas helicoidais de mármore vermelho espanhol, preside o altar-mor. Esculpida numa peça de mármore de quase três metros de altura, essa bela cópia da célebre imagem francesa foi pessoalmente abençoada pelo Papa Pio XI antes de ser enviada para a América.

Uma série de harmônicos detalhes deixa entrever as nobres disposições de alma do idealizador desse recinto sagrado: o Venerável Nelson H. Baker, conhecido e querido naquele pequeno recanto do Estado de Nova York como o pai dos pobres.

Foi do padre Baker a ideia de colocar imagens de Anjos — os fiéis executores da vontade da Rainha do Céu — em todos os pontos da igreja. Calcula-se que haja entre 1.500 e 2.500, no total. Devido ao seu empenho pessoal, os 200 esplêndidos vitrais retratam episódios da vida de Nossa Senhora. Ademais, querendo uma matéria ainda não tocada por mãos humanas para montar no transepto sul uma réplica da gruta de Lourdes, conseguiu uma rocha vulcânica do Monte Vesúvio.

Como foi possível, na terceira década do século passado, erguer numa pequena cidade industrial essa imponente igreja designada como um dos maiores santuários da América do Norte no decreto papal de elevação a basílica menor? O que levou o abnegado sacerdote e paladino dos pobres a erguer tão suntuoso templo à Rainha do Céu?

“Consagrarei minha vida ao vosso serviço”

Corria o ano 1874, quando Baker, então seminarista, encontrava-se em peregrinação no Velho Continente.

Ao entrar na Basílica de Notre-Dame-des-Victoires, em Paris, despertou-lhe a atenção a vivaz manifestação de piedade das pessoas ao seu redor; arrebatado pela imponderável atmosfera sobrenatural que ali reinava, caiu de joelhos diante de uma imagem de Nossa Senhora e tomou uma resolução: “Doravante, consagrarei minha vida inteira ao vosso serviço; devotarei todos os meus pensamentos e ações ao vosso nome; difundirei na América a devoção a Nossa Senhora das Vitórias”.1

Senso empresarial e filial confiança

Ao regressar à sua terra natal, Nova York, os bons propósitos formulados na longínqua França foram postos à prova. A primeira incumbência que recebeu após sua ordenação sacerdotal, em 1876, foi a de assistente do pároco de Limestone Hill, atual Lackawanna. A paróquia contava com uma igreja e dois grandes institutos: um para meninos órfãos, outro para indigentes, ambos atolados em dívidas.

Tendo sido nomeado, em 1882, pároco e superintendente dessas duas instituições, lançou-se decididamente à tarefa de dar-lhes uma sólida situação financeira, utilizando nesse empreendimento seu aguçado senso empresarial e sua filial confiança em Nossa Senhora. Conseguiu listas de nomes e endereços de senhoras católicas de todo o país, às quais enviou milhares de cartas, todas manuscritas, solicitando ajuda para o sustento das crianças sob os seus cuidados. Convidava-as a ingressar na Associação de Nossa Senhora das Vitórias, por ele fundada, dando um pequeno contributo anual.

Profundamente convencido de que qualquer obra destinada a remediar os males sociais deve ser antes de tudo um trabalho espiritual, ele não se cansava de pregar sobre a eficácia da intercessão de Nossa Senhora. “Maria tem o maior poder e onipotência no Céu: não apenas os Anjos a obedecem, mas até o próprio Deus. Pensa, então, o quanto pode Ela fazer na Terra, sendo tão poderosa no Céu”2 – escreveu certa vez aos seus colaboradores.

O padre Baker foi, portanto, um pioneiro no uso da mala direta para angariar fundos. E com excelentes resultados, pois em poucos anos as instituições caritativas de Limestone Hill encontravam-se livres das dívidas e em plena expansão. Formou-se no local uma verdadeira “cidade da caridade” que perdura até hoje.

Seu sonho se torna realidade

As intensas atividades apostólicas do padre Baker não arrefeceram em seu coração o anseio de edificar uma esplendorosa igreja em homenagem a Nossa Senhora das Vitórias. Muito pelo contrário, esse ardente desejo não fez senão aumentar ao longo das décadas, até começar a realizar-se em 7 de maio de 1921, nas vésperas de seus 80 anos de idade. Nesse dia, ele celebrou a última Missa na pequena e desgastada igreja paroquial, que logo em seguida foi demolida para ceder espaço ao novo edifício.

Com a segurança de quem nada pede para si próprio, dirigiu-se uma vez mais aos seus fiéis colaboradores, incentivando-os a dar cada qual o que podia para erguer um santuário em honra de Nossa Senhora. Donativos pequenos e grandes afluíram de todo o país.

O padre Baker trabalhou intensamente em estreita colaboração com o arquiteto franco-americano Emile Ulrich, que contava com bons contatos na Europa, e em apenas cinco anos seu sonho tornou-se realidade: um magnífico edifício sacro a rivalizar em esplendor com muitos de seus similares europeus, erguia-se no local da antiga paróquia.

Realizara-se também outro dos seus anseios: o preço total da construção foi pago na íntegra antes da consagração do santuário, que se deu em 25 de maio de 1926. E o padre Baker, como de costume, esquivava-se dos elogios por tão notável feito, dizendo com toda simplicidade que a diretora das obras tinha sido Nossa Senhora…

Dois meses após a consagração, o Papa Pio XI elevou a igreja à categoria de basílica menor.

Pelo fruto conhecereis a árvore

Os últimos anos de seu ministério sacerdotal foram para o padre Baker motivo de grande consolo, pois ele pôde constatar a graça divina atuando nas almas através do abençoado ambiente do templo.

A bela basílica exerceu, por exemplo, forte atração sobre numerosos operários do sul do país que, durante a crise econômica de 1930, se dirigiram a Lackawanna em busca de emprego na grande indústria metalúrgica ali existente. Tanto mais que, ao transpor o umbral, eles se deparavam com um bondoso sacerdote nonagenário que se interessava por suas necessidades materiais e espirituais, e levava muitos deles às águas do Batismo.

E até hoje, ao constante fluxo de peregrinos que visitam o santuário onde repousam seus restos mortais, o padre Baker oferece uma “esmola espiritual”: um convite para aproximar-se de Nossa Senhora.

A Basílica e Santuário Nacional de Nossa Senhora das Vitórias ilustra bem o ensinamento do Divino Mestre a propósito do grão de mostarda (cf. Lc 17, 6; Mt 17, 20): desde que haja almas com fé, Nossa Senhora age e agirá, produzindo maravilhas de crescente beleza e ousadia, pois a vitória está sempre com Ela.

1 RUBERTO, René. Father Baker, Folk Hero: Legendary Study of the Life of Nelson H. Baker, apud GRIBBLE, Richard. Father Nelson Baker and the Blessed Virgin Mary: A Lifetime of Devotion. In: Marian Studies. Dayton, OH. N.62 (2011); p.100.

2 BAKER, Nelson H., apud GRIBBLE, op. cit., p.112.

Revista Arautos do Evangelho dez 2015

Diante do Divino Mestre

Bruna Almeida Piva

1º Ano Ciências Religiosas

Foram-lhe, então, apresentadas algumas criancinhas para que pusesse as mãos sobre elas e orasse por elas. Os discípulos, porém, as afastavam. Disse-lhes Jesus: Deixai vir a mim estas criancinhas e não as impeçais, porque o Reino dos céus é para aqueles que se lhes assemelham. E, depois de impor-lhes as mãos, continuou seu caminho.

Um jovem aproximou-se de Jesus e lhe perguntou: Mestre, que devo fazer de bom para ter a vida eterna? Disse-lhe Jesus: Por que me perguntas a respeito do que se deve fazer de bom? Só Deus é bom. Se queres entrar na vida, observa os mandamentos. Quais?, perguntou ele. Jesus respondeu: Não matarás, não cometerás adultério, não furtarás, não dirás falso testemunho, honra teu pai e tua mãe, amarás teu próximo como a ti mesmo. Disse-lhe o jovem: Tenho observado tudo isto desde a minha infância. Que me falta ainda? Respondeu Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende teus bens, dá-os aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me!

Ouvindo estas palavras, o jovem foi embora muito triste, porque possuía muitos bens. Jesus disse então aos seus discípulos: Em verdade vos declaro: é difícil para um rico entrar no Reino dos céus! Eu vos repito: é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus. A estas palavras seus discípulos, pasmados, perguntaram: Quem poderá então salvar-se? Jesus olhou para eles e disse: Aos homens isto é impossível, mas a Deus tudo é possível. (Mt 19, 13-26)

Nesta passagem do Evangelho, rica em significados, podemos notar duas interessantes disposições de alma: a das criancinhas e a do jovem rico. Aquelas aceitam e se deleitam com a divina influência do Salvador, e também Lhe dão alegria; este rejeita o convite para ser apóstolo, deixa Nosso Senhor, entristecendo-O. Nas duas ocasiões, Nosso Senhor demonstra uma bondade sem limites e um carinho comovente; porém, obtém duas reações opostas. Por quê?

Embora, aparentemente, os dois fatos nada tenham de comum entre si, analisando-os bem, vemos que decorrem de um só, mas fundamental, princípio de vida espiritual: a salvação não é fruto do esforço; não se santifica quem procura, diante de Deus, se apoiar em suas próprias obras e méritos. E é justamente esta a disposição de alma das criancinhas: “Quem é pequeno não se julga um colosso nem autossuficiente, mas dependente”.1 Tudo o que precisa, a criança pede aos pais; busca-os infalivelmente em suas dificuldades, não porque se julgue digna de ser atendida – porque não é capaz de nada sozinha –, mas porque só confia neles; não busca ser grande nem independente, mas somente amá-los, e ser por eles também amada; por mais que a castiguem, busca-os e os prefere entre todos os outros.

É o principal motivo pelo qual as criancinhas agradam tanto a Nosso Senhor: a confiança com que se aproximam d’Ele e a sua grande inocência, que as torna capazes de abandonar-se cegamente aos seus divinos cuidados.

Como terá sido o convívio do Redentor com aqueles pequeninos? Talvez Ele os tivesse abraçado, lhes imposto as mãos, concedendo saúde, força, sabedoria e graças incontáveis; e elas com sua vivacidade infantil, certamente fizeram um alvoroço em volta d’Ele…2

Eis, portanto, o que Ele nos quer dizer nesse Evangelho, quando afirma que se nos fizermos “como criancinhas” em nosso relacionamento com Deus, nosso Pai – e com Nossa Senhora, nossa Mãe –, somente assim, entraremos no Reino dos Céus.”

Bem outra, entretanto, foi a reação do moço rico ante o chamado do Divino Mestre. Vê-se que ele buscava se apoiar na prática dos Mandamentos, que dizia ter sempre observado: “Tenho observado tudo isto desde a minha infância”. Porém, isso não suficiente. Nosso Senhor queria dele algo mais, a única coisa que importa realmente: que ele Lhe entregasse o coração. A Infinita Misericórdia buscava não as boas obras somente, mas simplesmente o amor daquela alma. Algo tão natural e fácil para os pequeninos, mas que ele, tão “justo”, não soube dar.

Aquele jovem infeliz pediu a vida eterna; no fundo, achava que esta lhe seria concedida porque observava os artigos do decálogo e era, portanto, bom. Não esperava na misericórdia divina, mas em seu próprio esforço. Porém, nenhum homem pode merecer o Céu, porque “aos homens até isto é impossível.”

Não é verdade que se ele fosse como as criancinhas e dissesse; “Senhor, eu não mereço nada, mas, por compaixão, dai-me a vida eterna!”, teria certamente alcançado o Reino de Deus? Não teria ele sido incomparavelmente mais feliz escolhendo a via do amor, a via dos pequeninos?

Portanto, clara está a resposta à pergunta dos Apóstolos: “Quem poderá, então, salvar-se?” Os que se fizerem como crianças e, livres de toda a riqueza, se jogarem nos braços de Nosso Senhor, que sem dúvida é o melhor de todos os pais e nos ama infinitamente mais do que todos eles.

1 CLÁ DIAS, EP, João Scognamiglio. A inocência, a eterna lei… In: O inédito sobre os Evangelhos. Città del Vaticano-São Paulo: LEV; Lumen Sapientiæ, 2014, v.IV, p.415.

2 Cf. Ibid., p.414.

Convite

Os Arautos do Evangelho cordialmente lhe convidam a comparecer à VIII Romaria ao Santuário de Aparecida promovida pelo Apostolado do Oratório nos próximos dias 12 e 13 de agosto.

Acorramos com alegria para venerar a Mãe de Deus, agradecer-Lhe os favores recebidos durante o ano e apresentar-Lhe os nossos pedidos.

PROGRAMAÇÃO

12 de agosto, 6ª feira

18h – Missa na Basílica Velha, presidida pelo Reitor do Santuário.

19h – Procissão Luminosa, da Basílica Velha até a Basílica Nova.

Sexta-feira, a partir das 13h às 16h: Mostruário, projeção do vídeo, entrega de lembranças e atendimento às delegações no Auditório Padre Noé Sotillo (em frente da Casa do Pão, subsolo do Santuário).

13 de Agosto, sábado

08h – Terço na Tribuna Papa Bento XVI, com a presença da cópia da Imagem de Nossa Senhora Aparecida e animação do Coro Internacional dos Arautos do Evangelho.

10:30 – Missa presidida pelo Cardeal Arcebispo de Aparecida Dom Raymundo Damasceno.

Sábado, a partir das 06:00 até 16:00: Mostruário, projeção do vídeo, entrega de lembranças e atendimento as delegações no Auditório Padre Noé Sotillo (em frente da Casa do Pão).

Para mais informações entre em contato através do telefone (11) 2973-9477 ou pelo whatsapp: (11) 98872-1366

Pugnacidade e contemplação

Diana Compasso de Araújo

A origem do Mosteiro de Santa Maria da Vitória, marco do gótico português quatrocentista, remonta a uma promessa feita à Santíssima Virgem por Dom João I, rei de Portugal, e seu condestável São Nuno de Santa Maria Álvares Pereira. Lutavam eles em Aljubarrota, em agosto de 1385, para afirmar ante Castela e Leão a independência do reino lusitano e, embora seus guerreiros se encontrassem em situação de inferioridade diante da poderosa cavalaria rival, o combate desfechou-se numa brilhante vitória.

Fruto do voto feito por eles naquela ocasião, surgiu uma das mais belas, famosas e simbólicas edificações da história portuguesa, hoje conhecida em todas as partes como Mosteiro da Batalha, em alusão a tão importante acontecimento.

Visto em seu conjunto, o prédio parece condensar em seus muros robustos e maciços a pugnacidade de uma geração de guerreiros cheios de fé, destemidos e curtidos em mil pelejas heroicas. A austeridade das formas é realçada pelas dimensões grandiosas e o tom dourado das pedras gastas pelo tempo. A fachada principal revela traços tão marcantes do espírito militar que nos parece ver ali refletida a personalidade de um cavaleiro: equilíbrio, decisão e combatividade…

O pórtico de entrada, entretanto, é mais suave e ladeado por sólidos contrafortes de monumental altura, que manifestam a própria contingência, enquanto conduzem os olhares e o espírito para o alto. O fino rendilhado de seus arcos e colunas atrai o visitante para o interior do beligerante edifício, onde claustros e jardins desvendam o coração contemplativo da construção, habitada durante séculos por religiosos dominicanos.

Há, pois, no Mosteiro da Batalha faíscas de luta renhida e aroma de piedosa contemplação, uma robustez que harmoniza o indestrutível com a delicadeza do ornato. E esta conjunção de opostos que se complementam em perfeita unidade nos convida a nós, homens e mulheres do século XXI, a enfrentarmos as dificuldades diárias, confiando no auxílio da graça.

A história do mosteiro evoca, assim, a esperança no socorro infalível d’Aquela que é Mãe da Divina Graça e que nos trará a vitória. Os que lutam revestidos com a áurea armadura da fé e munidos com o exercício das virtudes, depois do combate alcançarão a recompensa dos heróis: a palma do triunfo, a glória eterna, o reino da bem-aventurança. A estes se poderá dizer: “ainda um pouco de tempo — sem dúvida, bem pouco —, e o que há de vir virá e não tardará. Meu justo viverá da fé. Porém, se ele desfalecer, meu coração já não se agradará dele. Não somos, absolutamente, de perder o ânimo para nossa ruína. Somos de manter a fé, para nossa salvação!” (Hb 10, 37-39).

O DESEJO QUE SÓ SE SATISFARÁ NA ETERNIDADE

Ir Maria Beatriz Ribeiro Matos, EP

Os últimos raios tênues de sol em um sábado de fevereiro indicavam que o astro rei logo cederia lugar às trevas da noite. Uma muda e desapercebida melancolia já se fazia sentir, quando o céu se cobriu de um magnífico dégradé: o dourado se mesclou com tons róseos e avermelhados, que, por sua vez, deram lugar a um azul-marinho. As plantas, antes iluminadas por uma luz dourada, agora refletiam um discreto lilás. Quase uma delicadeza do sol, querendo compensar, com a beleza de sua saída,as horas em que se ausentaria.

Uma Irmã andava pelo pátio contemplando embevecida esse espetáculo, quando se deparou com um jovem cabisbaixo. O que fazia ele por ali? Por que não entrara na igreja com seus familiares?

— Sou ateu.

— Ateu? — redarguiu a religiosa. — Tão jovem… Não foi educado na fé? Ou então, como a perdeu? Olhe para a natureza, não precisa ir muito longe: olhe o pôr-do-sol! Como essa maravilha seria possível sem um Ser Todo-poderoso por detrás?

— Não… Esse é um fenômeno comum e facilmente explicado pela ciência.

Nesse momento, os familiares do rapaz saíram da igreja e chamaram-no para ir embora. Este não é um caso isolado na sociedade atual. A teologia, contudo, não se intimida diante da comprovação racional da existência de Deus. Pelo contrário, reúne em si séculos de tradição e pensamento que podem dar ao homem a única e ideal solução para suas inquietações. Com efeito, afirma o grande Santo. Agostinho que nosso coração foi feito para Deus e inquieto ele está até que não repouse no Senhor.

  1. À luz da razão conhece-se a existência, mas não a essência divina

Deus não seria Deus, porém, se pusesse na alma humana a sede do infinito e a inquietação, quando não o encontra, e não pusesse ao alcance os meios para que todos chegassem a conhecê-lo.

Ora, aqui o próprio Santo Tomás de Aquino apresenta uma objeção: o homem é um composto de espírito e matéria, e, por causa desta seu conhecimento, parte do sensível: é a clássica afirmação de Aristóteles, adotada pelo Aquinate e por São Boaventura, que em sua obra Itinerarium Mentis a Deo assim se expressa:

O homem, chamado de microcosmos, tem cinco sentidos como cinco portas, pelas quais entra em nossa alma o conhecimento de todas as coisas que existem no mundo sensível. Com efeito, pela vista,entram os corpos sublimes: os luminosos e os demais colorados, pelo tato, os corpos sólidos e terrestres; pelos sentidos intermediários, os corpos intermediários, como os aquosos pelo paladar, os aéreos pela audição, e pelo olfato os evaporáveis que têm algo da natureza úmida, algo da aérea, algo da ígnea ou quente, como se pode ver no fumo que dos aromas se desprende’.

Contudo, Deus é puro espírito e, sendo incorpóreo, não pode ser captado pelos nossos sentidos, de onde se poderia concluir que pela nossa razão não podemos chegar ao conhecimento de Deus. Com sua clareza específica, o Doutor Angélico continua sua exposição, respondendo ele próprio sua oposição.

O conhecimento que se obtém através do sensível não pode chegar a conhecer todo o poder de Deus. Consequentemente, tampouco pode ver sua essência. Mas, como são efeitos dependentes d’Ele como causa, nesse sentido podemos partir dos efeitos para saber que Deus existe2.

Portanto, aqui está o ponto de equilíbrio: nesta terra podemos conhecer a existência e até algo da essência divina, mas somos incapazes de conhecer positivamente o que constitui a própria deidade (quididade). Por ora somos quais morcegos que, incapazes de ver o sol, permanecem constantemente imersos na escuridão, e o sol, indiferentemente, brilha sobre ele. O sol existe e é real, mas o morcego não tem em sua natureza capacidade para vê-lo. Entretanto, tem notícia de sua existência ao sentir o calor.

  1. Dos efeitos à Causa: as criaturas, um reflexo do Criador

Conforme acima mencionado, partindo dos efeitos, portanto, das criaturas, podemos remontar à Causa, o Criador. Em primeiro lugar, a primeira prova que engloba todas as outras é o princípio do mundo. Hoje em dia há muitos adeptos a teorias que defendem a independência da origem do mundo de um Ser Criador. Ora, em todas as soluções apresentadas, há logo de início um erro que vai contra o procedimento normal da natureza: nunca um ser inferior dá origem ao superior, mas sim o contrário. Por isso, era impossível que o mundo passasse espontaneamente a existir sem uma Mente por trás.

Além disso, ainda o grande São Boaventura afirma que as coisas criadas formam uma escada que nos conduzem a Deus, um magnífico caminho que começa à tarde, na penumbra da irracionalidade dos primeiros graus da criação — são os vestígios de Deus —, continua pela manhã, no alvorecer das criaturas inteligentes, nas quais a alma do próprio caminhante se integra, e, por fim, termina no meio-dia, no Princípio Primeiro, isto é, na alegria do conhecimento de Deus e na reverência de sua majestade 3.

O que, porém, Deus deixa entrever através do criado que nos faz vislumbrar como Ele é? Vemos nas criaturas sucessivos graus de perfeição, participação da Perfeição infinita, ou seja, divisamos seus atributos: a Beleza, a Bondade, a Verdade, a Onipotência ademais de um longo cortejo de perfeições.

O itinerário da mente a Deus, não há homem, ciente das verdades reveladas ou não que seja incapaz de fazê-lo. São Paulo, em sua carta aos romanos, repreende-os duramente, afirmando causa de sua imoralidade sua recusa de subir a “escada” natural rumo a Deus:(falta alguma pontuação, algo nesta frase.

Porquanto o que se pode conhecer de Deus eles o leem em si mesmos, pois Deus lho revelou com evidência. Desde a criação do mundo, as perfeições invisíveis de Deus, o seu sempiterno poder e divindade, se tornam visíveis à inteligência, por suas obras; de modo que não se podem escusar.

Porque, conhecendo a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças. Pelo contrário, extraviaram-se em seus vãos pensamentos, e se lhes obscureceu o coração insensato. Pretendendo-se sábios, tornaram-se estultos. Mudaram a majestade de Deus incorruptível em representações e figuras de homem corruptível, de aves, quadrúpedes e répteis. Por isso, Deus os entregou aos desejos dos seus corações, à imundície, de modo que desonraram entre si os próprios corpos. Trocaram a verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram à criatura em vez do Criador, que é bendito pelos séculos. Amém! (Rm 19-25)

  1. Quem é Deus?

Chegamos quase ao fim do presente texto sem podermos responder com sucesso a questão que planteávamos desde o início. Ponderamos como a criação reflete o Criador, vimos que chegamos a uma pálida noção de como Ele é, mas não dissemos quem Ele é.

Para compreender a Deus, segundo a razão própria e íntima de Deidade, é preciso uma revelação sobrenatural; só a fé divina nos permite aqui embaixo conhecer obscuramente o mistério da vida íntima de Deus, mas, para saber com evidência o que é a Deidade, não há outro meio senão vê-la imediatamente, como os bem-aventurados4.

Convido-o, leitor, a compartilharmos no Céu da visão que teremos de Deus, pois, neste mundo,vivemos apenas na esperança de ver o que pela fé acreditamos. “Hoje vemos como por um espelho, confusamente; mas então veremos face a face. Hoje conheço em parte; mas então conhecerei totalmente, como eu sou conhecido” (iCor 12,13).

1 SÃO BOAVENTURA. Itinerario de la mente a Dios. Capítulo 2, parágrafo 3. (Tradução pessoal).

2 S. Th. I, q.12, a.12

3 Cf. SÃO BOAVENTURA. Itinerario de la mente a Dios. Capítulo 1, parágrafos 2 e 3.

4 GARRIGOU-LAGRANGE. Les perfections divines. 4.ed. Paris: G. Beauchesne et ses fils, 1936. p. 41. (Tradução pessoal)

As três ofertas

 Ir Patricia Rivas, EP

3º ano de Ciências Religiosas

Conta-se, nas crônicas da Ordem dos Menores, que, certa vez, Nosso Senhor apareceu a São Francisco de Assis, pedindo-lhe três ofertas. Ao que o santo respondeu: “Não tenho nada para oferecer, porque já me entreguei todo a Vós, e tudo o que me pertence vos pertence. O único que tenho é esta túnica e esta corda, que também são vossas”.

Nosso Senhor insistiu, dizendo-lhe que colocasse a mão no peito e tirasse daí uma oferta. São Francisco obedeceu, e tirou de seu peito uma moeda de ouro tão brilhante como nunca vira antes. Entregou-a a Nosso Senhor, que lhe ordenou repetir o gesto, e, pela segunda vez, o Santo encontrou uma moeda. Faltava apenas a terceira oferta. Nosso Senhor mandou o monge fazer o mesmo pela terceira vez e, assim, completaram-se  as três ofertas pedidas.

Nosso Senhor então lhe explicou que as três moedas simbolizavam a dourada obediência, a preciosa pobreza e a formosa castidade. São Francisco então declarou que em nada lhe remordia a consciência pelo fato de guardar tais moedas no peito…

No dia de nosso Juízo, quando formos cobrados por Deus, poderemos dizer como este grande Santo que tudo o que temos guardado conosco em nada nos remorde a consciência?

 

O valor de uma crase

Ana Laura de Oliveira Bueno

Dir-se-ia que interpretar é — apreender o sentido verdadeiro de um texto. Assim, embora haja muitas maneiras de se interpretar uma frase, nem sempre as interpretações conferem com o que o texto quer dizer, podendo ser contraditórias e até mesmo absurdas. Deste ponto de vista, podemos considerar a estreita relação existente entre as interpretações corretas, o perfeito entendimento do que se lê e o bom conhecimento das áridas regras gramaticais.

Tomemos como exemplo a conhecida e belíssima frase do Gênesis que, por trás de uma crase, esconde um verdadeiro tesouro teológico: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança” (Gn 1, 26). Considerando que imagem é aquilo que procede de um objeto real em que pode ou não haver igualdade, é manifesto que se encontra no homem certa semelhança de Deus, semelhança esta que deriva de Deus como de seu modelo. No entanto, não é uma semelhança de igualdade, uma vez que o modelo ultrapassa infinitamente o modelado. Assim, se diz que há no homem uma imagem de Deus, não perfeita, mas imperfeita.

A preposição a, com efeito, indica certa distância, isto é, o homem jamais poderia ser chamado de “a imagem de Deus” sem o acento grave, pois isto cabe única e exclusivamente a Nosso Senhor Jesus Cristo, Imagem do Pai, idêntica a Ele em substância, Imagem perfeita de Deus. Do homem se diz que é à imagem por causa da imperfeição da semelhança.

Assim, aquele que desconsiderar o valor da pequenina e “insignifcante’ crase pode estar sujeito a interpretar um absurdo e deixar passar essa oportunidade de contemplar o infinito abismo existente entre o Primogênito de toda criatura, a Imagem, e as meras criaturas, feitas à sua imagem, por sua bondade.

Lembremo-nos, portanto das valiosas regras gramaticais, sempre eficazes e importantíssimas a quem quer interpretar corretamente um texto.

Plinio Corrêa de Oliveira: O mestre do nosso fundador

Plinio Corrêa de Oliveira era um profeta de tal grandeza que, mesmo morto, de alguma forma era imortal. Um homem de sua estatura moral não poderia desaparecer nas brumas da História.

Mons. João Clá Dias dedica a seu amado pai, modelo e guia, uma valiosa coleção sobre sua profética figura. Esta coleção em cinco volumes é uma versão ampliada da tese que Mons João defendeu para a obtenção do grau de Doutor em Teologia pela Universidade Pontifícia Bolivariana de Medellín, por meio da qual se quis facilitar ao grande público a compreensão deste homem que atravessou o século XX de ponta a ponta, e marcou de forma indelével os séculos vindouros.

Este oportuno estudo representa um inigualável contributo para a compreensão da própria pessoa e da mentalidade de Mons. João, que é o fundador dos Arautos do Evangelho, e das características essenciais do carisma dessa Associação Internacional de Direito Pontifício.

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Radiante aurora da salvação

Ir. Patricia Victoria Jorge Villegas, EP

Imaginemos um panorama marítimo nas últimas horas da madrugada. Ainda é noite. O luar prateado se reflete nas águas e as estrelas coruscam com um brilho especial, como se quisessem prolongar sua presença ante o amanhecer que chega. O oceano se afigura misterioso e o silêncio da natureza que dorme é apenas interrompido pelo estrondear das ondas.

Inexoravelmente, os astros noturnos começam a se esvanecer e uma réstia de luz avermelhada surge no horizonte. Pouco a pouco o firmamento vai-se tingindo de rosa e laranja, as trevas se diluem e a aurora começa a despontar. Os peixes põem-se a pular com vivacidade e os pássaros enchem os ares com seus gorjeios. Todas as criaturas se rejubilam. É mais um belo dia que manifesta seus resplendores matutinos. Uma feeria de cores transforma a paisagem num maravilhoso espetáculo, que atinge o ápice de sua magnificência quando nasce o Astro Rei.

Ora, algo semelhante ao alvorecer passou-se na História. Durante milênios o mundo esteve imerso nas trevas do paganismo e do pecado. Apenas algumas almas justas reluziam como estrelas, lembrando as promessas da Aliança: o Sol de Justiça haveria de vir para libertar os homens dos grilhões do mal e da morte. Mas, quando se daria isto?

Os primeiros lampejos deste Sol cintilaram sobre a humanidade quando veio à luz Maria Santíssima. A terna Menina nascida da fé de São Joaquim e Sant’Ana transformou a noite da História em radiante aurora. As sombras fugiam e a criação exultava com a vinda d’Aquele para quem todas as coisas foram feitas: “tudo foi criado por Ele e para Ele” (Col 1, 16).

A Natividade de Maria marcou o início da vitória do bem sobre o mal. Invisível para a grande maioria dos homens na Terra, este augusto acontecimento deve ter sido, entretanto, “saudado pela alegria de todos os Anjos do Céu, acompanhada, talvez, da felicidade experimentada, aqui e ali, pelas almas retas. Adaptando as palavras de Jó (3, 1-9), poder-se-ia assim exprimir esse sentimento de júbilo: ‘Bendito o dia que viu Nossa Senhora nascer, benditas as estrelas que A viram pequenina, bendito o momento em que seus pais verificaram que havia nascido a criatura virginal chamada a ser a Mãe do Salvador!'”.

Por intercessão d’Ela Jesus manifestou publicamente sua divindade por primeira vez, no milagre das Bodas de Caná. Também foi Maria quem manteve os Apóstolos unidos e confiantes no Cenáculo, para receberem o Espírito Santo e darem início à expansão da Igreja. E hoje, transcorridos dois milênios,é por meio d’Ela que nosso mundo, pervadido outra vez pelas sombras da impiedade, poderá ser reconduzido às sendas da virtude e do bem.

Revista Arautos do Evangelho – Setembro 2015

Quem é Deus?

Laura Compasso de Araujo

2º Ano Ciências religiosas

Essa é a pergunta que habita naturalmente no coração do ser humano. Fruto do senso do divino em sua alma, todo homem tem o desejo de saber quem é esse Ser Absoluto, quem é esse Governador Universal que rege todas as coisas. Tanto é assim que, em todos os lugares, em todas as épocas e povos, houve o desejo de entrar em contato com o sagrado e a manifestação de algum culto religioso. Embora todos se fizessem essa pergunta,  muitos encontraram a resposta errada, caindo em idolatria. Enquanto uns adoravam deuses falsos,  o próprio Deus declarava Quem Ele é ao povo eleito.

Aquele que É

Deus Respondeu a Moisés: “EU SOU AQUELE QUE SOU”. E ajuntou: “Eis como responderás aos israelitas: Aquele que se chama EU SOU envia-me junto de vós. (cf. Ex 3, 14)

O Catecismo da Igreja Católica nos ensina que devemos humildemente admirar essa resposta divina, sabendo que, ao revelar seu nome misterioso de Iahweh, “Eu sou Aquele que é” ou “Eu sou Aquele que SOU” ou também “Eu sou Quem sou”, Deus declara quem Ele é e com que nome se deve chamá-lo. Este nome divino é misterioso como Deus é mistério. Ele é ao mesmo tempo um nome revelado e como que a recusa de um nome. Desse modo, exprime-se a realidade de Deus como Ele é, infinitamente acima de tudo o que podemos compreender ou dizer: ele é o “Deus escondido” (Is 45,15), seu nome é inefável, e ele é o Deus que se faz próximo dos homens.1

São Tomás de Aquino, um luzeiro no firmamento da Santa Igreja e na Teologia, afirma que, para sabermos Quem é Deus, precisa-se usar as vias da negação e da analogia; ou seja, comparação. Imaginemos, então, o universo como o conhecemos. Estrelas, planetas, galáxias e outros corpos celestes que talvez o ser humano nunca conheça. Diante dessa grandeza e dessa imensidade ficamos estupefatos e nos sentimos pequenos, minúsculos até. Mas o que é o universo perto de seu Criador? Grande é o Senhor e sumamente louvável, insondável é Sua grandeza (51, 144,3). Deus é infinitamente maior que o universo, o qual perto dEle, não é senão uma mera criatura;“nas suas mãos estão as profundezas da Terra, e os cumes das montanhas lhe pertencem. Dele é o mar, ele o criou, assim como a terra firme, obra de suas mãos.” (Sl 94, 4-5)

A Infinidade de Deus

Alguns dos atributos de Deus possuem esse adjetivo: infinito. Então é a Bondade Infinita, a Beleza Infinita, a Perfeição Infinita. Em que consiste essa infinidade  de Deus?

O mesmo São Tomás explica que, em algo material, a infinidade é uma imperfeição, já que a matéria é delimitada por uma forma e, se fosse uma forma infinita, seria quase uma matéria sem forma, uma imperfeição. No entanto, Deus não é matéria. E uma forma não restringida a uma matéria é mais perfeita, expressa mais sua amplitude, porque subsiste por si. Aquele que é sumamente formal, o Ser divino que não está contido em algo, é infinito e perfeito em razão disso.2

Ademais, o intelecto humano estende a intelecção ao infinito, e sinal disso é que, posta ao seu conhecimento alguma quantidade finita, ele pode pensar em outra maior. Ora, essa ordenação do intelecto para o infinito seria inútil, caso não existisse alguma coisa inteligível infinita, que deve ser a maior de todas.3 Sendo o homem criado por Deus e para Deus, um dos melhores exemplos da infinidade de Deus é a própria alma humana, que tende sempre ao infinito e ao absoluto.

A hierarquia como reflexo da infinidade e da imensidade de Deus

A partir destas considerações, é possível chegar à conclusão de que esses atributos de Deus explicam a existência de tantos seres diferentes no mundo. Qualquer pessoa com o uso da razão pode chegar à conclusão de que a igualdade absoluta não existe, em nenhum aspecto do universo, em nenhum campo da vida humana, entre nenhum animal ou vegetal, nem entre os anjos, nem mesmo entre as pedras. O Professor Plinio Correa de Oliveira, grande pensador católico do séc. XX, desenvolve a ideia de que para haver reflexo de Deus na criação, não seria possível esse reflexo se dar em uma criatura só, porque sendo Deus infinito, ela seria Deus. Então a necessidade de uma multiplicidade de criaturas, diferentes e ordenadas, para ser mais perfeita a expressão da infinidade e da imensidade de Deus. Todos os seres existem em cadeia, numa inter-relação constante, constituindo uma única e bela ordem na qual superiores e inferiores são necessários uns para os outros.4

A presença de Deus

Como se pôde observar, o conceito de infinidade pressupõe o de ubiquidade. Vimos que, sendo Deus infinito, não pode ser contido em nenhum lugar, pois assim estaria limitado. No entanto, se não podemos afirmar que Deus está em algum lugar específico, tampouco podemos afirmar que não está em nenhum lugar. Decorre daí a conclusão de que Ele está em todos os lugares e em todas as coisas: a ubiquidade de Deus. Assim afirma o salmista: “para onde irei, longe de vosso Espírito? Para onde fugir, apartado de vosso olhar? Se subir até os céus, ali estareis; se descer à região dos mortos, lá vos encontrarei também”. (Sl 138, 7-8)

Não pensemos que todas as coisas são “partículas” de Deus, mas sim que tudo, sendo criatura Sua, não pode fugir de Seu olhar e é sustentado na existência pelo Criador. Saber disso é de grande importância para o ser humano, que, vivendo com isto presente, pensaria duas vezes antes de praticar qualquer ato. Assim nos dá exemplo São Francisco de Sales, que vivia tão compenetrado da presença de Deus que, estando sozinho ou na companhia de outros, sempre tinha uma postura digna, modesta e solene. Costumava dizer que não sentia constrangimento algum diante de reis ou príncipes, pois estava habituado a encontrar-se na presença de um Rei muito maior, que lhe inspirava respeito.5

Ao nos darmos conta de tanta grandeza, talvez nos sintamos pequenos e retraídos diante de Deus Criador e Onipotente. Grande engano! Lembremo-nos que Ele se fez homem e quis habitar entre nós. Nosso Senhor Jesus Cristo está dia e noite à nossa espera no sacrário. O Deus infinito que está em todos os lugares, está ali não só como Sustentador e Criador, mas em Corpo, Sangue, Alma e Divindade! Não rejeitemos dom tão excelso! Que cresçamos na devoção a Nosso Senhor Sacramentado, e lhe agradeçamos por tanto amor que manifestou por nós.

1 Catecismo da Igreja Católica, ed. Loyola, 2011, p. 65, 206.

2 Summa Theologica 1, q.7, a. 1.

3 Suma contra os gentios, Livro 1, c. XLII, 8.

4 Revista Dr. Plinio, n° 117, dezembro de 2007. A hierarquia na criação, p. 11.

5 ITTA, IFAT. Deus… Quem é Ele?. Instituto Lumen Sapientiae, São Paulo, 2012, p. 50.

O Orgulho de São Francisco?

Ir. Maria José Vicmary Feliz Gómez

Avisado da vinda de São Francisco, todo o povo o esperava, desde muito cedo, às portas da cidade. Muitos tinham ido, ainda na escuridão da noite, na esperança de obter os melhores lugares e, assim, ficar mais próximo do santo na sua passagem. Alguns rezavam o terço, outros faziam as mais diversas promessas, desejosos de receber a graça de algum convívio…

– Quem sabe ele olha em nossa direção? – exclamavam com entusiasmo alguns dos presentes.

– Ou melhor! Quem sabe conseguimos algum cumprimento? – comentavam outros.

De repente, entre aplausos, exclamações e grande alegria, São Francisco entrou no povoado. Aqueles que se encontravam mais perto aproximaram-se dele para oscular- lhe o hábito, as mãos e os pés, sem encontrar da parte do santo nenhuma resistência. Porém, o frade que o acompanhava julgou que, aceitando tais honras, São Francisco pecava contra a virtude da humildade. Foi tão forte a tentação que, finalmente, confessou seus pensamentos ao santo.

– Estas pessoas, meu irmão, nenhuma coisa fazem à altura da honra que deveriam render – respondeu-lhe São Francisco.

Ao ouvir essa resposta, o frade ficou ainda mais escandalizado, pois não entendeu as palavras do santo. Então, vendo sua perplexidade, São Francisco disse-lhe:

– Meu irmão, esta honra que me vedes aceitar, não a atribuo a mim, senão que a transfiro a Deus, pois d’Ele é, e eu fico no mais profundo do meu nada. Eles lucram com isto, pois reconhecem e honram a Deus na sua criatura.

Que Nossa Senhora nos conceda a graça de nunca perder a oportunidade de glorificar a Deus através dos modelos de virtude que a Divina Providência coloca diante de nossos olhos, para que, assim, de enlevo em enlevo, galguemos a montanha da admiração e nos transformemos naqueles mesmos que admiramos.

A virtude dos verdadeiros apinistas

Luísa Gurgel –  1º ano de Ciências Religiosa

Há uma virtude muito importante e sobre a qual existem conceitos muito deturpados atualmente: a seriedade.

Julga-se que seriedade é sinônimo de mau-humor, falta de educação, antipatia ou algo do gênero. Entretanto, Plinio Corrêa de Oliveira define esta virtude da seguinte forma: “A seriedade é a disposição de alma de uma pessoa que está profundamente penetrada pela Fé Católica e que está penetrada, portanto, da gravidade das coisas da vida humana, como tudo passa, como tudo se desfaz e que, afinal de contas, eterno é só Deus, bom é só Deus. E que toda a nossa vida deve ser orientada para Deus Nosso Senhor, para a glória d’Ele, para a vitória d’Ele”.

Tendo o homem sido criado para conhecer, amar e servir a Deus e, mediante isto, alcançar a vida eterna, deve viver pensando neste fim último, como sempre fizeram aqueles que nos precederam com o sinal da Fé.

Imitemos os grandes santos, tomando as atividades práticas como realidades às quais temos que nos dedicar como grandes alpinistas, ou seja, com os olhos postos nos píncaros mais altos.

A serena e irreversível vitória da Fé

Ir. Clara Isabel Morazzani Arráiz, EP 

Poucos há que não tenham ouvido falar das catacumbas de Roma, e muitos já as percorreram. Trilhadas diariamente por milhares de visitantes, essas galerias subterrâneas exercem misteriosa atração e produzem nos peregrinos uma impressão profunda e inesquecível.

Em meio à penumbra desses estreitos labirintos, escavados alguns com mais de 20 m de profundidade, o observador atento é surpreendido a cada passo pelas cavidades retangulares abertas ao longo das paredes, sobre as quais, por vezes, encontram-se inscrições, nomes ou desenhos: são as sepulturas dos cristãos, muitos deles mártires, dando eloquente testemunho de um passado heroico, selado com o sangue daqueles que nos antecederam na Fé.

Em diversos pontos os corredores dilatam-se, dando lugar a exíguos aposentos, decorados com rudimentares afrescos, e em cujo centro vê-se um altar. Reina no ambiente um imponderável de piedade e recolhimento, cortado apenas pela voz do guia: “Esta sala servia de capela e sobre este altar os Papas celebravam a Missa!”.

Refúgio seguro para celebrar os sagrados mistérios Continuar lendo

O silêncio: o grande conselheiro

Ir. Gabriela Victoria Silva Tejada

É noite e, no cume da montanha, reina a mais negra escuridão, apenas cortada pelos pálidos reflexos da lua que, por entre espessas camadas de nuvens, rasgam por alguns momentos as trevas. É noite escura, as estrelas quase não brilham, parecem mudas no firmamento à espera de grandiosos acontecimentos que lhes anunciem a vitória. No alto da montanha, uma altiva e imponente construção parece desafiar a noite com suas torres e ameias belamente talhadas na pedra. É um magnífico castelo, uma fortaleza antiquíssima, uma relíquia da Cristandade.

Apesar de ser meia-noite, uma luz brilha com intensidade incomum no recinto sagrado do castelo; no altar-mor seis velas iluminam um riquíssimo crucifixo de mármore encrustado de pedras preciosas e os brilhos multicolores que destas se espargem à luz das velas são refletidas com particular beleza na prateada lâmina de uma espada, que honrosamente repousa em cima do altar. Ao seu lado, a imagem da Virgem das Batalhas olha com predileção a uma figura, que de joelhos, passa horas desta noite escura em silêncio e oração.

É um cavaleiro, ou melhor , será ” armado cavaleiro” se passar com heroica piedade a noite de vigília de armas. Reina o mais profundo silêncio no Castelo, na montanha e quase se poderia dizer que em toda a face da Terra. O mundo inteiro parece conter a respiração para assim admirar, no mais profundo silêncio, este intrépido penitente. Sua oração, embora silenciosa, comove os Anjos que ali o observam e o protegem, afugentando os demônios que parecem não suportar tanta quietude. E é na negrura da noite que este mesmo silêncio começa a falar ao coração do jovem cavaleiro.

Sem ainda compreendê-lo completamente, o cavaleiro levanta ao céu uma fervorosa oração e agradece, com filial afeto, ao Pai do Céu por lhe conceder conhecer os mistérios da cavalaria, não em um campo de batalha, mas no profundo silêncio de uma noite de oração. Seu espírito, antes ávido de glórias passageiras e mundanas, acaba de ser iluminado pela fé e busca não mais a sua própria glória, mas a de Deus; não mais os efêmeros aplausos da nobreza, mas sim, os méritos com que são coroadas as virtudes; não a conquista de praças e fortalezas, mas a coroa da gloriosa santidade que só os verdadeiros soldados de Cristo conquistam.

A aurora ainda não chegou, a escuridão da noite se recusa a dissipar-se; os pálidos raios do sol ainda não venceram a batalha do amanhecer e este jovem cavaleiro permanece ainda de joelhos diante do Tabernáculo. Os fantasmas da noite não o desanimaram, o silêncio e a obscuridade fortaleceram-no em seus propósitos de santidade, e a Virgem Imaculada, qual terna e bela mãe, protegeu seu espírito contra as frivolidades da idade.

E o que diz o silêncio? O silêncio fala de Deus e da Virgem, que certamente dali o observam com predileção. O silêncio narra as gloriosas batalhas dos mártires cujas relíquias são veneradas há séculos e, ensina-lhe o segredo de tais virtudes heroicas. O silêncio fá-lo recordar os prodigiosos feitos de seus antepassados​​, e as tremendas lutas que travaram para gloriosamente conquistar a coroa da eterna bem-aventurança. Também ele deverá se esforçar para obter a glória de seus antepassados ​​e a virtude dos santos. No silêncio da noite, o cavaleiro analisa o seu futuro na defesa da fé e da Igreja: as guerras e batalhas, os perigos e ameaças da vida de campanha, as aventuras e dificuldades enfrentadas durante as guerras, os infortúnios e derrotas que ocorrem quando se é covarde e medíocre, a tristeza e desolação que assola o inconstante e indisciplinado. As horas se passaram, mas o humilde cavaleiro persiste em sua vigília e estes e muitos outros pensamentos sussurram ao seu ouvido o silêncio …

Este cavaleiro se lembrará por toda a vida que aprendeu mais no silêncio da vigília de armas do que nas mais gloriosas e sangrentas batalhas, e que o segredo da vitória não está no meio da agitação de armas, mas sim naquela paz e, que iluminado pela graça se entrega nas mãos da Providência, para que Ela o sustente, o guie e o conduza à morada eterna …

Quiçá, quem está lendo estas poucas linhas sorri ao terminar de fazê-lo e, julgue – não sem uma forte dose de “senso comum” – que esses belos pensamentos pertencem infelizmente ao passado, e só podem figurar nas páginas de alguma ” Catena Aurea”, incapazes de fazer eco no meio do buliço da sociedade hodierna.

Para uma sociedade tecnológica como a nossa, onde como outros Baals, os ídolos da modernidade levantam seus altares em todos os lugares, arrastando a humanidade inteira – cada vez mais pragmática e ateia – para os abismos da irracionalidade, parece loucura querer falar em silêncio … Para os homens de hoje, não há tempo para pensar, meditar e muito menos para se calar. A humanidade caminha escravizada por um exército tão atrativo como perigoso, composto por agentes cada vez mais numerosos: telefones, televisores, computadores, telefones celulares, smartphones, iPods, tablets … e um sem fim de componentes tecnológicos capazes de aterrorizar a alma de qualquer pobre medieval que pudesse contemplá-los, e que têm cruelmente substituído as formas mais orgânicas de relacionamento humano.

Este exército virtual conquistou as mentes humanas, quase que imperceptivelmente, e alterou drasticamente os costumes da sociedade, relegando à “idade da pedra” as antigas e amenas tertúlias entre amigos, as acaloradas discussões nas praças, as tradicionais conversas de família, as meditações de um monge, as boas leituras de um jovem em uma tarde de inverno e até mesmo as inocentes brincadeiras de crianças, por intermináveis ​​e odiosos videogames, chats, twitters e tudo o mais que estão ainda por ser inventados, eliminando completamente os momentos plácidos e necessários de silêncio que possuía a humanidade.

De fato, o esplendor e fecundidade escondidos no silêncio são um precioso tesouro que a humanidade precisa redescobrir e verdadeiramente praticar para alcançar os picos mais altos da santidade. Ele é a autêntica força na formação espiritual das almas, e dá seus frutos na vida religiosa; que podem ser, perfeitamente, aplicados à vida secular dos católicos no século XXI.

O monte do príncipe dos profetas

Ir. Juliane Vasconcelos Almeida Campos, EP

Do alto do Carmelo a voz de Elias parece ecoar ainda hoje, prenunciando uma era mariana que virá como chuva benfazeja para fecundar a aridez espiritual de nossos dias.

Bela e altaneira ergue-se no solo sagrado da Terra Santa uma emblemática cadeia montanhosa que evoca grandes lances do passado e aponta para um futuro de glória. Seu nome? Monte Carmelo.

Na região que circunda o imponente conjunto de rochedos há inúmeras grutas, uma das quais, conforme a tradição recolhida pelos Padres da Igreja, abrigou o grande profeta Elias, cujas “palavras queimavam como uma tocha ardente” (Eclo 48, 1).

Ele foi “um príncipe entre os profetas, verdadeiro condutor do povo de Deus. Lutou contra os erros do seu tempo, nummomento em que a nação eleita estava muito deteriorada, e salvou-a da ruína. Escolhido para dirigir o povo de Deus num momento de hecatombe, ele concentrou em si todo o espírito que o Criador queria dar à nação judia a ser ressurgida. Nesse espírito derivado da Providência Divina foi formada uma rede de eleitos, sendo o mais famoso deles Eliseu, que pediu o duplo espírito de Elias, e o obteve”.1

Dominando a planície de Esdrelon com notável presença, carregada de significado, destaca-se ao sul do Monte Carmelo uma das suas principais elevações, o El-Muhraqa. Com mais de 500 m de altitude, divisa-se daquele ponto um grandioso panorama que chega até o mar. É ali que as Sagradas Escrituras situam o famoso episódio narrado no Primeiro Livro dos Reis (cf. I Rs 18, 19-39), no qual Elias vence os falsos profetas de Baal “com uma prece simples, cheia de beleza”.2

Também a tradição nos revela ser nessa região que Elias e Eliseu se reuniam com seus discípulos. E, séculos depois, naquelas paragens se aglutinou um grupo de monges que constituiu os primórdios da Ordem do Carmo, a qual considera Elias como pai e fundador, e deu início a um filão de devoção a Nossa Senhora, algumas centenas de anos antes do nascimento da Virgem.

Muito simbolicamente, depois da seca imposta a Israel como punição por sua prevaricação, Elias vislumbrou “uma pequena nuvem do tamanho da palma da mão” (I Rs 18, 44) que subia do mar, prenúncio da caudalosa chuva que se aproximava para cessar o castigo e, segundo grande número de exegetas, pré-figura d’Aquela que traria para a humanidade as águas regeneradoras da Redenção: Maria Santíssima.

À Mãe de Deus – a Virgem e Flor do Carmelo – bem podem ser aplicadas as palavras de Isaías, o profeta da Encarnação por excelência: “O deserto e a terra árida regozijar-se-ão. A estepe vai ­alegrar-se e florir. Como o lírio ela florirá, exultará de júbilo e gritará de alegria. A glória do Líbano lhe será dada, o esplendor do Carmelo e de Saron; será vista a glória do Senhor e a magnificência do nosso Deus” (Is 35, 1-2).

Tendo sido arrebatado em “um carro de fogo” (II Rs 2, 11), Elias “deve voltar e restabelecer todas as coisas” (Mt 17, 11). Assim, hoje como ontem, do alto do Monte Carmelo sua voz parece ecoar o prenúncio de uma era mariana que virá como chuva benfazeja, para fecundar o solo árido de nossos dias, tão afastados de Cristo e de sua Mãe Santíssima.

1 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Santo Elias. In: Dr. Plinio. São Paulo. Ano XII. N.136 (Jul., 2009); p.2.

2 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Santo Elias, Profeta. In: Dr. Plinio. São Paulo. Ano XIII. N.148 (Jul., 2010); p.14.

Revista Arautos do Evangelho – Julho-2015

A pátria da dor e da misericórdia

  Ana Laura de Oliveira Bueno – 1° ano de Ciências Religiosas

Eis o lugar onde os minutos são séculos intermináveis, onde a dor e a expiação se misturam à alegria e à consolação da esperança de poder ver a Deus num face a face eterno: o caro leitor certamente já concluiu que se trata da Igreja padecente.

De fato, ninguém merece o Céu facilmente. O purgatório é a pátria da justiça rigorosa e, ao mesmo tempo, é a pátria da infinita misericórdia de Deus: pois, para nós é uma grandíssima misericórdia encontrar, após a morte, um lugar de expiação e apesar do grande rigor da justiça divina, consola-nos a ideia de que no purgatório deve haver consolações e alegrias.

Alegrias? Pode haver neste estado onde almas, inclusive santas, passam anos num fogo expiatório – semelhante ao da negra prisão do inferno – por pecados veniais alguma alegria autêntica?

São Francisco de Sales é quem nos vai dizer que as alegrias e as consolações que de fato existem no purgatório são um bálsamo suavizante para as almas. No tocante a este assunto, o Bispo e Doutor da Igreja sintetizou alguns pontos a respeito das almas padecentes:

  1. As almas do purgatório estão numa contínua união com Deus e perfeitamente submissas à vontade d’Ele. Não podem deixar esta união divina e nunca podem contradizer a divina vontade, como infelizmente acontece conosco, neste mundo;
  2. Elas se purificam com muito amor e com muito boa vontade, porque sabem que é esta a vontade de Deus. Sofrer para fazer a vontade de Deus é uma alegria para elas.
  3. Elas querem ficar à maneira que Deus quer e quanto tempo Ele quiser.
  4. Elas são impecáveis e não podem experimentar nem o mais leve movimento de impaciência, nem cometer uma imperfeição sequer.
  5. Amam a Deus mais do que a si próprias e mais que todas as coisas e com amor muito puro e desinteressado.
  6. As almas são consoladas pelos Anjos.
  7. Elas estão seguras da sua salvação e com uma segurança que não pode ser confundida.
  8. As amarguras que experimentam são muito grandes, mas numa paz profunda e perfeita.
  9. Se, pelo que padecem, estão como numa espécie de inferno, quanto à dor, é um paraíso de doçura, quanto à caridade, mais forte do que a morte.

Com efeito, há uma esperança da salvação certa, não obstante o grande sofrimento, mormente no escuro e fundo purgatório. E a nós, filhos e filhas daquele que não admite pequenas concessões e é absolutamente intransigente em relação aos pecados veniais, vale sempre a máxima: “Sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito”. Ou seja: nossa santidade deve ser tal, que não se concebe sequer que esperemos passar por um longo purgatório! Em nossas almas não deve haver espaço para semi-fidelidades, semi-virtudes e pequenas concessões, mas antes devem ser receptáculos de um desejo radical de entrega completa ao sofrimento nesta terra de exílio e de uma cega confiança em Nossa Senhora, que abaterá todas as nossas misérias se estivermos em consonância com Ela, levando-nos ao convívio completo e eterno pelo qual tanto e tanto almejamos.

Peçamos, pois, esta graça, pela intercessão de nossos santos padroeiros e das santas almas do purgatório: retidão absoluta e santidade levada até as últimas consequências!

                            

 

O primeiro sábado do mês…

Ir. Mariella Emily Abreu Antunes

Nas aparições de Fátima em 1917, Nossa Senhora anunciou que, para impedir as calamidades por Ela profetizadas, viria postular a consagração da Rússia ao seu Imaculado Coração e a Comunhão reparadora aos primeiros sábados. Esta promessa cumpriu-se no dia 10 de dezembro de 1925, quando a Santíssima Virgem apareceu aos pastorinhos com o Menino Jesus, e Ele lhe disse:

— Tem pena do Coração de tua Santíssima Mãe, que está coberto de espinhos que os homens ingratos a todos os momentos lhe cravam, sem haver quem faça um ato de reparação para tirá-los!

Nossa Senhora então mostrou seu Imaculado Coração à vidente, dizendo-lhe:

— Vê, minha filha, o meu Coração cercado dos espinhos que os homens ingratos a todos os momentos Me cravam, com blasfêmias e ingratidões. Tu, ao menos, vem Me consolar. Diz que todos aqueles que, durante cinco meses, no primeiro sábado, se confessarem, receberem a Sagrada Comunhão, rezarem um terço e Me fizerem quinze minutos de companhia, meditando num dos mistérios do Rosário, com o fim de Me desagravar, Eu prometo assisti-los na hora da morte com todas as graças necessárias para a salvação de suas almas.

Meses depois, apareceu-lhe novamente o Menino Jesus perguntando se ela estava divulgando a devoção. A Irmã Lúcia respondeu que a Superiora lhe punha muitos obstáculos para isso e que o Confessor havia dito que tal devoção não seria nenhuma novidade para a população de Portugal, pois muitas pessoas já comungavam aos primeiros sábados em honra a Nossa Senhora, completando um número de quinze sábados em atenção aos quinze mistérios do Rosário.

Ouvindo isso, o Menino Jesus ponderou:

— É verdade que muitas almas praticam essa devoção, mas o fazem apenas com o intuito de receber as graças que lhes são prometidas. Agradam-Me mais os cinco sábados com fervor e com o desejo de desagravar o Coração de minha Mãe, do que os quinze sábados com tibieza, egoísmo e presunção…

Eis aí uma divina queixa de Nosso Senhor em favor de sua Santíssima Mãe. Cabe-nos, agora, a pergunta: em qual categoria de almas devotas me encontro?

Reunião com os Anjos?

Ir Bruna Almeida Piva

Conta-se que, no século XVIII, ingressou na Ordem dos dominicanos um jovem muito fervoroso, que nos fulgores das graças primaveris era constantemente assistido por seu superior. Qualquer função que devesse desempenhar, ou qualquer dificuldade que encontrasse, estava ali seu encarregado para auxiliá-lo ou ensinar-lhe os pontos da regra.

Certa vez, porém, o superior entrou em retiro, ficando o pobre noviço obrigado a passar um longo período sem a ajuda de seu protetor.

Passados alguns dias, as graças iniciais que costumavam inundá-lo começaram a rarear, as provações e tentações comuns da vida religiosa passaram a visitá-lo com mais frequência. Atordoado e inexperiente em meio ao desconhecido mundo espiritual, pensava haver perdido a vocação, ter sido abandonado pela Providência, ou mesmo ter cometido algum pecado grave… No entanto, pedir auxílio ao encarregado ser-lhe-ia impossível até o término do retiro.

O que fazer? Como resolver tamanho impasse?

Os dias foram correndo, e chegou um momento em que o noviço já não aguentava mais: decidiu pedir um conselho ao superior. Acabado o último ato em conjunto do dia, o cântico da Salve Rainha, dirigiu-se rapidamente à cela do religioso e bateu à porta, um tanto aflito. O superior porém, sem sequer abrir a porta respondeu:

– Agora não! Estou ocupado!

Um encarregado ocupado, durante um recolhimento? O que estaria acontecendo? Teria o jovem se enganado, atribuindo ao seu protetor virtudes que na verdade não possuía? Sua necessidade de um apoio espiritual, porém, era muito grande; optou por insistir mais uma vez:não desistiria facilmente, viu-se obrigado a atendê-lo. Abriu um pouquinho a porta e, por uma fresta, perguntou-lhe o que desejava.

– Perdão, mas… preciso da ajuda do senhor! Estou passando por uma dificuldade assim…

– Não se preocupe – interrompeu-o o superior – Quero que veja uma coisa.

Abriu, então, por inteiro a porta da sua cela e o noviço não pôde acreditar no que estava vendo: inúmeros Anjos ao redor da mesa onde trabalhava o superior. Este, notando a perplexidade do jovem, explicou-lhe:

Anjos_arautos— Estes são os Anjos da guarda de todos os meus subalternos. Eles me comunicam as provações e necessidades espirituais de cada um para que eu tome alguma providência, lhes escreva uma carta ou os chame para uma conversa e, assim, os ajude no que for preciso. E não por acaso, está também aqui no meio deles, o seu Anjo da guarda que acaba de narrar-me as dificuldades que lhe atormentam…

Diante de tão grande santidade de seu superior e de um tão sublime milagre, dissipou-se na alma do noviço toda e qualquer sombra da provação que lhe afligia, e ele pode, assim, seguir sua vocação religiosa, rezando aos santos Anjos da guarda sempre que as dificuldades e dúvidas se lhe apresentavam.

Vemos nesse belo fato a importância da devoção aos nossos celestes Protetores que não hesitam em nos auxiliar sempre, especialmente quando invocamos sua ajuda.

Se conhecesses o dom de Deus

Ir Nágela Shayenne da Silva Pinheiro, EP

Certa vez, o grande pintor e escultor Michelangelo esculpiu uma estátua que representava Moisés. A imagem era de tamanho e espessura naturais e o olhar, idêntico ao do modelo. Tão real parecia que, ao contemplá-la, não se conteve e bradou: “Parla! Perché non parli?” (Fala! Por que não falas?) Ele foi capaz de fazer uma escultura perfeita, mas nela não conseguiu injetar a vida. [1]

Valendo-nos da metáfora acima, poderíamos dizer que todo homem, ao nascer, é uma estátua de Deus, pois não passa de mera criatura dotada de vida racional. Entretanto, “Deus, por sua infinita bondade, ordenou o homem a um fim sobrenatural, isto é, a participar dos bens divinos que sobrepujam totalmente a inteligência da mente humana, pois, em verdade, ‘nem o olho viu, nem o ouvido ouviu, nem o coração do homem provou o que Deus preparou para os que O amam.” (1 Cor 2, 9) (Dz 1789).

Este fim sobrenatural dado por Deus àqueles que Ele criou como “sua imagem e semelhança” (Gn 1, 26) é a participação do homem na sua vida divina.

Infinitamente superior a este escultor, é Deus que deseja comunicar sua própria vida aos homens, criados livremente por Ele, para fazê-los, no seu Filho único, filhos adotivos (cf. CCE 54).

Mas, infelizmente o homem não permaneceu fiel às exigências impostas por sua elevação gratuita à ordem sobrenatural. Nosso primeiro pai, Adão, constituído “em santidade e justiça” (Dz 788), possuía a ciência infusa e o dom da integridade, pelo qual nenhum sofrimento o afetaria e passaria desta vida à eternidade sem passar pela morte. Ademais, tinha em altíssimo grau as virtudes e os dons do Espírito Santo.

Contudo, o varão predileto recebeu de Eva o fruto proibido e o comeu. Estava consumado o pecado original. No mesmo instante, foi ele despojado de todos os privilégios paradisíacos e abriu-se uma era de pobreza, de cativeiro, de cegueira e de opressão para todos os seus descendentes. Fecharam-se as portas do Céu para a humanidade, restando apenas dois destinos: limbo ou inferno.[2]ida

Todavia, séculos depois:

Deus enviou o seu anjo Gabriel a uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um homem que se chamava José, da casa de Davi e o nome da virgem era Maria. O Anjo disse-lhe: “Eis que conceberás e darás à luz um filho e lhe porás o nome de Jesus”. Maria perguntou ao anjo: “Como se fará isso, pois eu não conheço homem?” Respondeu-lhe o anjo: ‘O Espírito Santo descerá sobre ti, e a força do Altíssimo te envolverá com a sua sombra. Por isso, o ente santo que nascer de ti será chamado Filho de Deus. Então, disse Maria: “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra’ (Lc 1, 26-28.31.34-35.37)

Neste mesmo instante, o Filho de Deus, por obra do Espírito Santo, encarnou-Se nas puríssimas entranhas desta Virgem Santíssima, sem deixar de ser verdadeiro Deus e verdadeiro homem.

A divina justiça exigia uma reparação; por isso, tendo Se encarnado, quis Ele assumir sobre Si os crimes e misérias de toda a humanidade. Iniciou-se, deste modo, a redenção do gênero humano.[3]

A Segunda Pessoa da Santíssima Trindade veio habitar entre nós (cf. Jo 1, 14) para que todos pudessem ter vida, e não uma vida meramente natural, mas sim a sobrenatural, a graça. Deus quis nos divinizar, conforme afirma São Tomás.[4]

Explica Monsenhor João Clá Dias que isso se dá não à maneira de um reboco em uma parede, que não a modifica no seu interior, mas como se alguém injetasse ouro nos tijolos, a ponto de se poder dizer “parede de ouro”. Esta figura, segundo o referido autor, é pobre para exprimir o que se passa em uma alma quando lhe é infundida a vida divina.[5]

E é através da instituição dos Sacramentos feita pelo Divino Redentor que o homem pode usufruir dos benefícios que Deus lhe reservou desde toda a eternidade.

Atualmente postos em uma crise de decadência moral e dos costumes, os cristãos desconhecem os sacramentos – batismo, crisma, eucaristia, penitência, unção dos enfermos, ordem e matrimônio –, julgando muitas vezes serem práticas familiares, ou até mesmo supersticiosas, não compreendendo os benefícios, as graças que por meio deles são dispensadas e os auxílios que eles proporcionam para os combates espirituais que todo batizado trava ao longo de sua vida.

Vive-se em um  mundo ávido de paz exterior, mas que não orienta e direciona as almas para um píncaro de perfeição que traria consigo a solução de muitos problemas.

 [1] Cf. CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Eternidade feliz. In: O inédito sobre os Evangelhos. Comentários aos Evangelhos dominicais. Domingos do Advento, Natal, Quaresma e Páscoa, Solenidades do Senhor que ocorrem no Tempo Comum – Ano A. Città del Vaticano-São Paulo: LEV; Lumen Sapientiae, 2013, v. I. p. 111.

[2] Cf. CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Jesus prega em Nazaré. In: O inédito sobre os Evangelhos. Comentários aos Evangelhos dominicais. Domingos do Advento, Natal, Quaresma e Páscoa, Solenidades do Senhor que ocorrem no Tempo Comum – Ano C. Città del Vaticano-São Paulo: LEV; Lumen Sapientiae, 2012, v. VI. p. 43.

[3] Cf. SÃO PIO X. Catecismo Maior. Goiás: Serviço de Animação Eucarística Mariana, 2005, p. 325.

[4] Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. I-II, q. 112, a.1.

[5]Cf. CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O Batismo que conquistou nosso Batismo. In: O inédito sobre os Evangelhos. Op. cit. p. 169.

Diminuto reflexo da Inocência

Ir. Ariane Heringer Tavares, EP

Ao passearmos por um jardim, é frequente nos depararmos com singelas cenas que nos encantam. Será um pássaro colorido bicando frutas e levando alimento para o ninho; será uma abelha a extrair o néctar das flores; ou, ainda, uma fileira de disciplinadas formigas carregando provisões para o inverno. Poucas descobertas, entretanto, são tão agradáveis quanto encontrar uma joaninha sobre as folhas de um arbusto, adornando-o qual pedra preciosa.

Embora pertença à família dos rudes besouros, a graciosa aparência deste diminuto inseto pouco tem em comum com a maior parte deles. Simpática, delicada e de cores brilhantes, quase ninguém se contenta em admirá-la apenas com os olhos… E ao nos aproximarmos, ela não opõe resistência: com suavidade, passa da pétala de uma flor à mão de quem a contempla embevecido.

Apesar de seu aspecto insignificante, a joaninha tem um importante papel na agricultura, pois se alimenta das pragas que costumam atacar as lavouras. Uma bela lenda medieval põe em realce esta qualidade, narrando um fato acontecido quando as plantações de certa região da Inglaterra estavam sendo devastadas por pulgões.

Os camponeses, homens religiosos e confiantes no auxílio da Providência, resolveram fazer uma promessa à Santíssima Virgem, implorando que os livrasse daquela terrível peste. E Nossa Senhora, que nunca deixa de ouvir as súplicas de seus filhos, logo os atendeu de maneira singular: apareceram nos campos nuvens de joaninhas que, seguindo a ordem de seus instintos, exterminaram os nocivos parasitas e salvaram a colheita.

Diz-se que daí provém o seu nome em inglês: Ladybug, ou seja, inseto de Maria, na forma abreviada de Our Lady. Sua denominação em alemão, Marienkäfer, cuja tradução é besouro de Maria, também recorda esta piedosa história. E um canto tradicional sueco a chama de jungfru Marias nyckelpiga, que quer dizer serva da Virgem Maria.

Não obstante, mesmo se deixamos de lado esta encantadora e conhecida legenda, não é difícil percebermos que esta minúscula criatura reflete com candura um aspecto do Autor de toda grandeza. “Quem tem a alma feita para adorar a Deus, está apto também para admirar tanto as coisas maiores como as menores criadas por Ele, encantando-se ao contemplar o Sol, mas também ao olhar para a terra e ver um bichinho”… nossa joaninha!

Se, ao considerarmos uma águia real, de imediato nos vem à mente a majestade do Senhor, que do alto governa e domina a obra de suas mãos, ao vermos a joaninha nos lembramos de que o Altíssimo é também a Inocência, que promete o Reino dos Céus aos pequeninos e Se compraz em revelar-lhes os mistérios de sua sabedoria.

Revista Arautos do Evangelho – Agosto 2015

A vil indiferença

Ir. Letícia Gonçalves de Sousa

Deus, em sua infinita bondade, quis dar aos Anjos o sublime e inexprimível dom de vê-Lo face a face. Mas as grandes graças só se obtêm mediante provas equivalentes ao prêmio prometido.

Foi o que sucedeu aos Anjos. Seres de inteligência tão elevada, de conhecimentos tão profundos e rápidos foram submetidos aos insondáveis desígnios divinos, a algo não cognoscitivo à própria mente angélica. Era uma prova de amor ao Altíssimo. Estariam todos dispostos a isso?

“Eu vi satanás cair do Céu como um relâmpago” (Lc 10,18), diz Nosso Senhor no Evangelho. Houve Anjos que se revoltaram e São Miguel os lançou no inferno, na mansão da desgraça incessante, total e inexpiável.

Ora, alguns Anjos não amaram o bem como deveriam. Acometidos pelo mal da indiferença, da indecisão e da moleza, tentando criar uma atmosfera de falsa paz, uniram-se à revolta. Perderam, assim, a luz, comprando também a morte eterna. São os chamados demônios dos ares.

Segundo Plinio Corrêa de Oliveira “são os demônios que não iniciaram a revolta, mas que se deixaram arrastar, e que, como tais, enquanto sendo menos super-péssimos, não foram desde logo lançados no inferno, só vão ser lançados no fim do mundo. Esses ficam pelos ares, não diretamente tentando para a ofensa a Deus, mas criando um estado de espírito propício para o pecado”.1

Estes são os demônios que mais tentam aos religiosos. Como estes  lutam por trilhar o caminho da perfeição, torna-se difícil ao demônio do inferno tentar diretamente ao pecado.  Então, entram em ação os demônios dos ares, criando um estado de espírito medíocre e indolente diante do grandioso panorama da vocação. Assim, pela falta de radicalidade dos bons,  frustram-se os grandes planos de Deus.

Exemplo contrário nos deram os Anjos fiéis. O total amor ao Bem se transformou em indignação e ódio contra o mal e, consequentemente, redundou num ato de suma fidelidade. Tenhamos, pois, um amor ardente e íntegro ao Bem para que a vil indiferença não nos conduza à nossa própria ruína!

CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Conferência. São Paulo, 21 jul. 1974. (Arquivo IFTE).

À Vossa proteção recorremos…

Ir Mariella Antunes

Numa madrugada fria, do rigoroso inferno da longínqua Rússia, enquanto subia a encosta da montanha principal da região do Tykrapshol, o trem Marie se desviou de sua rota normal e atrasou o horário de sua chegada, deixando muitos em grande aflição. O que poderia ter acontecido?

– Eu acredito e posso dar o meu testemunho. Foi um milagre! Um milagre! –  exclamava o motorista do trem ao ser interrogado pelos seus superiores.

Qual o motivo que o fez parar no meio do percurso? Todos estavam surpresos e queriam saber o que tinha ocorrido, mas o motorista não parava de repetir a frase acima.

Que “milagre”seria esse? E que “testemunho” ele poderia dar?

Ao seguir pelos trilhos, em uma considerada velocidade, o maquinista, Jorge Krash, viu diante do trem uma grande sombra que ofuscava o farol esquerdo, parecendo fazer sinal para diminuir a velocidade e parar a máquina. O senhor Krash julgou que estava tendo alguma falsa impressão e que as altas horas da noite estavam influenciando e despertando sua imaginação. Prosseguiu o percurso como se nada tivesse acontecido.

Minutos depois, a mesma sombra apareceu novamente, fazendo sinais ainda mais rápidos. Isso se repetiu por mais três vezes. Não podendo mais conter-se, viu que não poderia ser apenas imaginação e começou a diminuir a marcha até o trem parar. Todos os passageiros, assustados com a repentina parada, correram às janelas para ver o que tinha se passado. Para sua surpresa constatou que a “grande sombra” era produzida pelas frágeis asas de uma borboleta…

Depois de certificar-se que era só isso que estava acontecendo, o motorista subiu novamente no vagão para recomeçar o caminho. Enquanto acionava os botões de partida, um dos passageiros deu um forte grito:

— Alto! Não avance, se não morremos todos!

Esse passageiro pôde de sua janela avistar uma grande pedra que havia se despregado da montanha e obstruía a passagem pelos trilhos. Nesse momento, todos compreenderam que aquela repentina parada tinha sido uma intervenção da Divina Providência. Se o trem tivesse continuado com a velocidade anterior, teria batido fortemente contra a pedra, ocasionando um grave acidente, uma explosão e, consequentemente, a morte de todos os passageiros.

O senhor Krash, convicto da proteção de seu anjo da guarda, o qual sempre invocava antes de suas viagens, confirmou que o motivo que o fizera parar, tinha sido a sombra de uma borboleta posta ali para salvá-los.

Essa é uma bela história que, embora  ilustrada, pode explicar vários fatos do nosso dia-a-dia

Muitas vezes, quando algum pressentimento ou uma forte tentação perturbam o nosso interior, logo concluímos: “coisa do demônio!”. Entretanto, quando temos uma boa inspiração, praticamos uma bela ação ou sentimos uma forte inclinação a praticar a virtude, julgamos que isso decorre de nós mesmos e nos esquecemos dos grandes guardiães que Deus nos concedeu com a missão de nos guiar desde o momento da nossa concepção até a Vida Eterna. Na Epístola aos Hebreus, encontramos que todos os anjos são espíritos a serviço de Deus, o qual lhes confia missões em favor dos herdeiros da salvação eterna (cf. Hb 1,14).

Ao longo da História, podemos comprovar como a Divina Providência quer a salvação de cada um dos homens e como Ela age para comunicar e realizar seu plano para humanidade. Por isso, Deus utiliza-se de criaturas como instrumento e envia seus Anjos que, como mensageiros celestes, executam Sua vontade e se relacionam com os homens. Como diz São João da Cruz: “Os anjos, além de levar a Deus notícias de nós, trazem os auxílios divinos para nossas almas e as apascentam como bons pastores […] amparando-nos e defendendo-nos dos lobos, os demônios”.1

Os seres angélicos são puros espíritos dotados de personalidade, de inteligência e de vontade, de poder superior aos dos homens e que servem a Deus de um modo mais próximo e estável. O Catecismo nos ensina que “Jesus anuncia em termos graves que ‘enviará seus anjos, e eles erradicarão de seu Reino todos os escândalos e os que praticam a iniquidade, e os lançarão na fornalha ardente’ (Mt 13, 4 1-42) de punição dos condenados, a qual é eterna e durará para sempre” (CCE 1034). Sendo essas criaturas mais perfeitas – o espiritual é maior do que o material – a Providência criou esses serem em maior quantidade que os homens e que toda e qualquer criatura material: “Milhares de milhares O serviam e centenas de milhares assistiam ante seu trono” (Dn 7,10).

Assim, os Anjos, mais especialmente o nosso Anjo da Guarda, estão sempre ao nosso lado e, como que, nos olham do Céu aguardando que busquemos o auxílio deles e os convoquemos para estarem entre nós. Saibamos, pois, recorrer a esses intercessores celestes nesta grande batalha do homem que é a face da Terra, até chegarmos um dia, pela misericórdia Divina e a intercessão de Maria Santíssima com sua Corte Angélica, à Vida Eterna.

1 SÃO JOÃO DA CRUZ. In: Revista Arautos do Evangelho, n. 58, p. 35.

Uma decisão, uma vitória

Ir. Juliana Montanari

Cheiro de pólvora, cadáveres por todo o terreno. Um dos capelães do exército francês durante a Primeira Guerra Mundial conta que, numa trincheira, doze soldados discutiam qual seria a decisão a tomar. A maioria optava por se render, pois a tática adotada até então, de avançar de trincheira em trincheira até o campo do adversário, trouxera um resultado desolador: de trinta soldados, agora sobrava apenas uma dúzia. No entanto, para alcançarem o território alemão faltavam somente cinco trincheiras. Os mais entusiasmados, porém poucos, queriam enfrentar os tiros das metralhadoras, mesmo sabendo que provavelmente não chegariam vivos. Ante a possibilidade de serem encontrados pelos inimigos e mortos na trincheira, preferiam morrer em campo aberto. Depois de rápida discussão, um curto silêncio se fez, à espera da decisão do mais velho, pois o comandante da tropa já havia perecido:

No entanto, o  decano, aterrorizado por ver a morte tão perto e a grande responsabilidade pela vida daqueles soldados, sentou-se sem saber o que fazer e disse:

– Escolham um comandante entre vocês, pois não tenho coragem de assumir tal decisão.

Surpreendidos com a resposta, todos voltaram-se para trás e viram um soldado que até aquele momento não havia dado sua opinião. Calado e de joelhos, rezava o rosário. Quem era ele? Um seminarista, que, por lei, estava servindo o exército francês. Admirados, perguntaram sua idade.

– Vinte e dois anos –  respondeu.

Os demais entreolharam-se e concluíram ser ele o mais novo. Por unanimidade, os soldados declararam:

– A partir de agora, serás o nosso comandante. Estamos às ordens!

Levantando-se, o jovem soldado gritou:

–  Avante! Se for da vontade de Deus, morramos como corajosos!

A decisão foi imediatamente cumprida. Todos se lançaram no campo a correr, com os fuzis às costas, até a trincheira seguinte. Colocando as mochilas no peito como escudo, chegaram com alguns ferimentos à barricada, mas salvos. Apenas um ficou para trás: era o mais velho que, por falta de proteção, morreu com um tiro no peito e dois na cabeça…

Lembremo-nos que todos  os nossos atos serão julgados por Deus. Como comentou nosso fundador Mons. João Clá Dias em muitas ocasiões, pode ser que, em determinado momento, a Providência exija de nossa parte um passo decisivo. O que faremos nessa hora? O que dizer àqueles que, talvez, dependerão de nossa atitude ou de nossa palavra? Não façamos como o pobre decano desta história que não recorreu ao auxílio do Céu. Mas, cheios de confiança, unamos nossas ações às de Nossa Senhora e peçamos que Ela atue em nós. Assim, muito mais que salvar a própria vida, como fizeram esses soldados, estaremos conquistando a pátria celeste!

Como o cedro do Líbano…

Ir. Adriana María Sánchez García, EP

Nas regiões montanhosas do Oriente Médio próximas ao Mar Mediterrâneo, Deus convida o homem a contemplar uma beleza natural inteiramente mítica. Encontram-se ali paisagens cheias de mistério e poesia que parecem saídas de uma lenda, nas quais se erguem os famosos cedros-do-líbano. Árvores frondosas e majestosas, cuja folhagem se mantém sempre verde, podem alcançar os 40 m de altura e viver por séculos, atravessando incólumes invernos e verões.

Estes imponentes vegetais suportam bem a seca, mas necessitam da luz e do calor solar para se desenvolverem plenamente. Daí sua preferência pelos cumes dos montes, onde costumam formar florestas puras ou mistas com abetos-da-cilícia, pinheiros-larícios ou algumas espécies de juniperus, por exemplo. Quando se encontram em meio a outras espécies, os cedros levantam-se altaneiros acima delas, levando-nos a pensar naquela plêiade de almas que se sublimam por sua fidelidade e, destacando-se no cenário da História, apontam para o Céu: os Santos.

À semelhança dos cedros, também eles crescem sob a ação do Sol de Justiça, Jesus Cristo, e à medida que progridem na perfeição vão distanciando seu coração das coisas da Terra para fixá-lo nas maravilhas do Céu. Com as raízes bem fundadas na prática dos Mandamentos e na frequência aos Sacramentos, resistem não só às aridezes da vida espiritual, como também às tempestades das provações: “elevar-se-ão como o cedro-do-líbano. Plantados na casa do Senhor, nos átrios de nosso Deus hão de florir” (Sl 91, 13-14).

Ora, se tão excelente árvore representa os justos, com mais razão ainda simboliza Maria, a Rainha de todos os Santos, a quem Se aplica aquela passagem do Eclesiástico: “Elevei-me como o cedro-do-líbano” (24, 17).

Para melhor compreendermos este elogio bíblico, é mister lembrar que a madeira do cedro, aromática e incorruptível, foi utilizada pelo rei Salomão para revestir o interior do Templo de Jerusalém, como descrevem as Sagradas Escrituras: “Dentro do edifício o cedro era esculpido de coloquíntidas e flores abertas; tudo era de cedro; não se via a pedra” (I Rs 6, 18).

De forma análoga, Deus quis construir para Si um Templo esplendoroso e imaculado: desde toda a eternidade, Ele predestinou Maria Santíssima para ser a Mãe do seu Filho Unigênito e A preparou para esta missão, preservando-A da corrupção do pecado e ornando-A de inúmeras graças e privilégios, cujo agradável perfume atrai os bons e afugenta os maus.

A expressiva figura do cedro aplicada a Maria está consignada pela Igreja no belo texto do Pequeno Ofício da Imaculada Conceição, cuja recitação permite aos fiéis exaltar as grandezas de Nossa Senhora e, ao mesmo tempo, experimentar as ¬doçuras de sua maternal bondade. Por isso, ao chamá-La de “Cedro da pureza rara”,1 nesta oração, temos a certeza de que Ela, embora elevada acima de todas as criaturas, Se compadece de cada um de seus filhos e sobre eles Se debruça para alçá-los ao Céu. Pois, se foi Ela o “caminho pelo qual o Altíssimo desceu aos pequeníssimos”, é também Ela “o caminho pelo qual os pequeníssimos podem subir ao Altíssimo”!2

1 CLÁ DIAS, EP, João Scognamiglio. Pequeno Ofício da Imaculada Conceição comentado. 2.ed. São Paulo: ACNSF, 2010, v.I, p.243.

2 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Ladainha de invocações a Nossa Senhora. In: Opera Omnia. Reedição de escritos, pronunciamentos e obras. São Paulo: Retornarei, 2011, v.III, p.411.

 Revista Arautos do Evangelho –  Junho – 2015

Os frutos do recolhimento

Ir Ariane Heringer Tavares

Para que um mestre desempenhe com propriedade o ofício de ensinar, um conferencista realize com sucesso sua exposição, ou ainda um sacerdote obtenha  excelentes frutos espirituais com suas homilias e retiros, é indispensável que haja antes um período de preparação e estudo que os proporcione  um conhecimento mais amplo a respeito daquilo que transmitirão,  podendo, assim, satisfazer a sede de conhecimento dos seus discípulos. Já afirmava São Pio X a respeito das aulas de catecismo as quais, mesmo em meio às inúmeras ocupações pontificais, fazia questão de ministrar: para uma hora de catecismo são necessárias duas horas de estudo.[1] E isto sendo a maior parte dos ouvintes crianças…

No campo humano isto se entende sem muita dificuldade visto que conhecemos as limitações de nossa natureza. Mas,  o Homem-Deus também teria necessidade desta preparação para poder exercer bem sua missão salvadora?

De dentro dos próprios relatos bíblicos, brota-nos a resposta: segundo a narração de São Lucas, Jesus começou a exercer o seu ministério somente por volta dos trinta anos de idade (Cf. Lc 3, 23). Antes disso, porém, viveu na humilde casa de Nazaré, crescendo em graça e santidade, apenas diante de Deus, Nossa Senhora, São José, e algumas almas privilegiadíssimas que, de vez em quando, se encontravam com a Sagrada Família nas estradas da Judéia.

Devido à sua natureza divina, Jesus não necessitava desta vida contemplativa como preparação para seu ministério. Contudo, ao assumir uma natureza como a nossa, tornou-Se nosso modelo e quis demonstrar, através de seus próprios atos, o imenso valor do recolhimento. É como uma arca em que se guarda aquilo que se pensou e que se sentiu, para, no momento oportuno, saber manifestar aos demais por meio de palavras e bons exemplos.

E isto se manifestou de maneira ainda mais enfática quando o Espírito O conduziu ao deserto, onde permaneceu quarenta dias e quarenta noites em oração e penitência, contemplando o grandioso e terrível panorama de sua missão salvadora e obtendo forças para beber o cálice de terríveis sofrimentos que o Pai lhe havia destinado.

 Se estes foram os sublimes exemplos deixados pelo próprio Deus, quanta lição devem deles tirar todos os que desejam que seu apostolado produza plenamente seus frutos!

 

 

[1] SÃO PIO X apud CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Subiremos ao Céu em virtude da Ascenção. O inédito sobre os Evangelhos. Comentários aos Evangelhos Dominicais. Advento, Natal, Quaresma e Páscoa – Ano B. Città del Vaticano – São Paulo: LEV; Lumen Sapientiae, 2014, Op.cit., v. III, p. 359.

A gema que simboliza o azul do céu

Ir. Isabel Cristina Lins Brandão Veas, EP

Nos últimos capítulos do Apocalipse, São João nos convida a imaginar a Jerusalém Celeste, o “tabernáculo de Deus com os homens” (21, 3), edificado sobre um conjunto de colunas translúcidas e coloridas, cujo brilho decorre da glória divina. E, ao descrever mais adiante os muros que a rodeiam, o Evangelista faz notar que “os alicerces da muralha da cidade eram ornados de toda espécie de pedras preciosas” (21, 19).

Levando em consideração que nas Sagradas Escrituras nenhum detalhe é supérfluo, poderíamos deter nossa atenção em qualquer um dos preciosos minerais sobre os quais se sustenta a feérica construção e, refletindo sobre seu significado mais transcendente, chegar a elevadas conclusões. Nenhum deles, entretanto, parece estar tão carregado de simbolismo quanto a safira, que São João menciona como o segundo fundamento da nova Jerusalém.

Embora esta gema apresente variações róseas, lilases, verdes e até douradas, sua cor típica é o azul. Um azul lindíssimo, às vezes suave, às vezes mais profundo, que parece concentrar em cada uma dessas pedras a vasta gama de tonalidades que é possível se admirar no céu. Dir-se-ia, sem lugar a dúvidas, tratar-se do mais belo azul que existe em toda a ordem da criação.

Contemplar uma safira serena os ânimos agitados, desperta sentimentos de pureza, harmonia e temperança, e afugenta o mal. Santa Hildegarda de Bingen atribui a esta pedra a virtude de favorecer a inteligência e não falta quem lhe outorgue o poder de conceder a sabedoria.

O azul da safira a correlaciona também, de modo singular, com a ideia de nobreza. Ela figurava nas insígnias de altos cargos eclesiásticos e era usualmente empregada na confecção de ornamentos reais. A coroa do Império Austríaco, por exemplo, conservada no Tesouro Imperial de Viena, é encimada por uma safira de tamanho generoso, que simboliza “o nexo entre o Sacro Império e o Céu”.1

Nada, porém, supera o fato de ser esta a gema que melhor representa certos aspectos da alma de Maria Santíssima, Rainha do Céu e da Terra, à qual a Igreja chama de “Cælica Sapphiri – Safira Celestial”. 2 Se a esmeralda é imagem da esperança e o rubi, do amor a Deus, a safira nos recorda a suavidade e a compaixão da Virgem Serena, que “está disposta a nos obter o perdão de seu Divino Filho, mesmo para nossas piores faltas; alcança-nos as graças necessárias para nossa emenda, nossa salvação, e, assim, brilharmos diante d’Ela por toda a eternidade”.

1 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. A mais bela coroa do mundo. In: Dr. Plinio. São Paulo. Ano XV. N.176 (Nov., 2012); p.32.

2 COMISSÃO DE ESTUDOS DE CANTO GREGORIANO DOS ARAUTOS DO EVANGELHO. Liber Cantualis. São Paulo: Salesiana, 2011, p.135.

3 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Razão de nossa serenidade. In: Dr. Plinio. São Paulo. Ano VIII. N.91 (Out., 2005); p.44.

Revista Arautos do Evangelho, Maio-2015

A sublime escala da oração (cont)

Ir. Lays Gonçalves de Sousa

Continuação do post anterior

recolhimento infuso é o quinto grau da oração, sendo o primeiro da escala contemplativa. Ela se caracteriza pela união do entendimento com Deus, no qual se abandona as coisas exteriores para entrar no íntimo da alma. A pessoa “sente um recolhimento suave que a chama ao interior”,[20] desejando estar a sós com Deus.

 Tenho para mim que Sua Majestade a concede a certas pessoas que já vão abrindo mão das vaidades do mundo. Não digo por obras – pois alguns, em virtude de seu estado, não o podem fazer – mas o desejam. Desta maneira, Sua Majestade convida as pessoas, de modo particular, a estarem atentas ao seu interior. Havendo então correspondência, Sua Majestade não se limitará a dar-lhes somente esta graça. Começa apenas a chamá-las a coisas mais altas.[21]

 Ela recebe nessa etapa uma “admiração deleitosa que dilata a alma e a enche de gozo e alegria ao descobrir em Deus tantas maravilhas de amor”.[22] Ademais, compreende sem esforço os mistérios de Deus, como as palavras do Evangelho, o que com anos inteiros de estudo não poderia conseguir.

Para não retroceder no caminho, deverá romper com todas as bagatelas que a prendem à terra e entregar-se com toda a alma à vida interior, mortificando os sentidos e insistindo no amor ardente a Deus.

Um dos mais célebres graus da oração é a quietude, na qual a alma atinge o sobrenatural. Consiste em um sentimento íntimo da presença de Deus que cativa a vontade e enche o corpo de suavidade e deleites inefáveis. “A alma fica suspensa de tal sorte que parece estar fora de si”.[23]

A diferença fundamental entre a oração de quietude e o recolhimento infuso é que o recolhimento infuso era como um convite de Deus a reconcentrar-se no interior da alma onde quer Ele comunicar-se. A quietude vai mais longe: começa dar à alma a posse, o gozo fruitivo do soberano Bem.[24]

Nesta fase, a alma encontra o perfeito equilíbrio entre ação e contemplação, pois, embora tenda ao silêncio e ao repouso, por não encontrar obstáculos no entendimento, pode perfeitamente praticar obras ativas.

Admiráveis são os efeitos santificadores que a oração de quietude produz, a saber: uma grande liberdade de espírito que dilata a alma, um temor filial, grande confiança na eterna salvação, amor à mortificação e aos trabalhos, profunda humildade, desprezo dos deleites terrenos e um crescimento em todas as virtudes.

Santa Teresa aconselha às almas que alcancem este elevado grau de piedade a fugir das ocasiões de ofender a Deus, pois são como criancinhas que começam a alimentar-se, e se vierem a afastar-se do leite materno, acabarão por sucumbir.

Empenho-me tanto neste aviso de não se porem em ocasiões de pecado, porque o demônio faz mais questão de ganhar uma destas almas do que muitíssimas outras não favorecidas pelo Senhor com iguais mercês. É que estas almas podem acarretar-lhe grande prejuízo, atraindo outras atrás de si e, provavelmente, produzirão muitos frutos na Igreja de Deus. Basta, aliás, ao inimigo ver o particular amor que Sua Majestade lhes mostra, para que ponha tudo em jogo, com o objetivo de perdê-las, mesmo sem outras razões. Deste modo, são muito combatidas e, se vierem a transviar-se, será para elas muito maior a perdição do que para outras almas.[25]

Poucas são as almas que, após chegarem a esse patamar, avançam na escala da oração. Muitas, depois de terem sido objeto da predileção de Deus, a abandonam completamente. Por este motivo, não poderá a alma se acovardar julgando-se incapaz de subir esta montanha sagrada. “Tenhamos fé: Aquele que dá os bens, dará também graça para que, no momento em que o demônio principiar a tentar-nos sobre este ponto, logo entendamos e tenhamos força para resistir”.[26] A oração de quietude é como uma faísca de amor a qual, desde que não seja extinta por culpa própria, começa a incendiar a alma a ponto de produzir verdadeiras labaredas de caridade, beneficiando os mais fracos. Ela é a garantia de que Deus escolheu tal alma para grandes feitos.

união simples é um grau intensíssimo da oração contemplativa na qual todas as potências da alma estão cativadas e absortas em Deus. “É lavor sem fadiga, alegria que não se deixa perceber, um regozijar sem se compreender de quê”.[27] Nesse período a alma goza da certeza inquebrantável de estar unida plenamente a Deus, acompanhada de uma ausência de distrações, o que nos graus anteriores não acontece.

Estando assim a alma a buscar a Deus, sente-se quase desfalecer completamente, numa espécie de desmaio, com grande e suave ternura. Vê que lhe vão faltando o fôlego e todas as forças corporais, de modo que nem pode menear as mãos, a não ser a muito custo. Os olhos fecham-se involuntariamente, ou, se conservados abertos, a pessoa nada enxerga. Se lê, não acerta com as letras, nem atina em reconhecê-las; vê os caracteres, mas, como o intelecto não ajuda, não consegue ler, ainda que queira. Ouve, porém, não entende o que ouve, de modo que os sentidos de nada lhe servem. […] É impossível falar: não atina com uma só palavra e ainda que atinasse, não teria alento para pronunciá-la. Toda força exterior se perde e se concentra nas da alma.[28]

Fortíssimos e inesperados impulsos invadem a alma, abrasando-a nas chamas do divino amor, a ponto de, ao escutar o nome de Deus, subitamente acender-se em seu coração um ímpeto insaciável e devorador. “A alma arde de desejos de que lhe rompam as ataduras do corpo para voar livremente a Deus”.[29]

O oitavo grau é a união extática. A magnitude de união mística ultrapassa os limites da fragilidade humana, e, como consequência, sobrevêm os êxtases, os quais consistem numa fraqueza corporal que suspende os sentidos internos e externos. Em tais arroubamentos, é impossível resistir, tornando-se patente que:

Não somos senhores do corpo nem capazes, por conseguinte, de o deter quando Sua Majestade assim o quer. Ao contrário, verificamos, por muito que nos pese, que existe acima de nós alguém mais poderoso, e que tais graças são dádivas suas, enquanto de nossa parte nada, absolutamente nada, podemos fazer. Imprime-se, então, muita humildade na alma.[30]

Os êxtases místicos produzem uma energia sobrenatural que faz a alma chegar à prática heroica das virtudes, ao ponto de estar disposta a tudo sofrer pelo Objeto amado. “É preciso que a alma seja resoluta e corajosa, muito mais do que nos estados precedentes, para arriscar tudo – venha o que vier – e, entregando-se a Deus, deixar-se guiar de bom grado por suas mãos aonde Ele quiser”.[31]

união transformante é o último e mais alto grau da oração, também conhecida como união consumada. É ela um prelúdio antecipado e preparação imediata para a glória celeste. O Doutor Místico, São João da Cruz, define esta oração como a plena transformação no Amado, tantas vezes desejada nos graus anteriores, na qual a alma é posta no mais fundo do amor divino, transformando-se no próprio Deus, sem deixar, porém de ser criatura. “A alma mais parece Deus do que propriamente alma”.[32]

Magníficos dons nos concede este orvalho celeste: uma morte total do egoísmo, preocupando-se somente com a glória de Deus, um grande desejo de ser crucificado com Nosso Senhor Jesus Cristo, gozo por ser perseguido e caluniado, paz e quietude imperturbáveis na qual o demônio não consegue penetrar. “Este é o mais alto estado que nesta vida se pode chegar”.[33]

Esse longo percurso da oração não é um estado extraordinário reservado apenas para alguns. Pelo contrário, os mais altos cumes da santidade deveriam ser a via normal de todo batizado. Contudo, poucos são aqueles que buscam atingir essa perfeição, como adverte São João da Cruz:

Ó almas chamadas e criadas para estas grandezas! Que fazeis? Em que vos ocupais? Vossas pretensões são baixas e vossas posses, miséria. Ó miserável cegueira de alma; com tanta luz estais cegos, e com vozes tão altas, surdos. […] Recebendo tantos bens, vos tornais ignorantes e indignos.[34]

[20] SANTA TERESA DE JESUS. Castelo interior ou Moradas. Op. cit. p.88.

[21] Ibid. p. 88.

[22] ROYO MARÍN. Teología de la perfección cristiana.Op. cit. p. 716. (Tradução da autora).

[23] SANTA TERESA DE JESUS. Livro da vida. Op. cit. p. 71.

[24] ROYO MARÍN. Teología de la perfección cristiana.Op. cit. p. 718. (Tradução da autora).

[25] SANTA TERESA DE JESUS. Castelo interior ou Moradas. Op. cit. 93.

[26] Id. Livro da vida. Op. cit. p. 73.

[27] Ibid. p. 135.

[28] Ibid. p. 139.

[29] ROYO MARÍN. Teología de la perfección cristiana.Op. cit. p. 729. (Tradução da autora).

[30] SANTA TERESA DE JESUS. Livro da vida. Op. cit. p. 153.

[31] Ibid. p. 152.

[32] SÃO JOÃO DA CRUZ, apud ROYO MARÍN. Teología de la perfección cristiana. Op. cit. p. 741. (Tradução da autora).

[33] Ibid. p.744. (Tradução da autora).

[34] Ibid. p. 761. (Tradução da autora).