Cápua: preciosa lição de vida espiritual

AnibalIrmã Clara Isabel Morazzani Arráiz, EP

Aníbal foi um excelente general, astuto e ao mesmo tempo ousado. No entanto, no momento mais dramático de sua grandiosa campanha militar, faltou-lhe a prática de uma importantíssima virtude.

Roma, a invencível, a poderosa, tremia… Num só dia perdera o escol de seus soldados e de sua cavalaria; deixara sobre o campo de batalha 50 mil mortos e vira cair nas mãos de seus inimigos mais de 10 mil prisioneiros. A soberba rainha das nações sofrera o maior desastre militar de toda a sua história. E a derrota não se limitava a estas conseqüências: era de temer- se que o adversário, alentado pela recente vitória, alcançada de forma tão fulminante, continuasse sua marcha triunfal até as portas da Cidade Eterna, derrubando sua supremacia e mudando completamente os rumos do Ocidente.

Quem era o contendor que ousava opor resistência ao glorioso avanço das legiões romanas, levando sua audácia ao extremo de desafiá-las no coração de seu poderio? Quem era este que, num golpe estratégico magistral, se aventurara a frear a colossal força de Roma e agora a mantinha numa humilhante incerteza?

Aníbal e a campanha contra Roma

Havia já muitos anos, uma rivalidade surgira entre as duas potências da Antigüidade: Roma e Cartago. Não poupara a primeira, em seu ímpeto conquistador, os territórios da segunda situados nas ilhas de Sicília, Córsega e Sardenha, ocasionando a Primeira Guerra Púnica. Se Roma havia conseguido ampliar suas fronteiras, comprara ao mesmo tempo uma inimiga irreconciliável que nutria um profundo desejo de vingança.

Em Cartago, entre os mais acirrados na oposição a Roma, achava-se a dinastia dos Barca, cujo chefe, Amílcar, distinguira-se por sua coragem e determinação ao longo das campanhas militares na Península Ibérica. Conta a tradição que ele obrigou seu filho Aníbal, de nove anos, a jurar diante dos altares dos deuses ódio eterno aos romanos.

Pode-se dizer que a partir daí a vida de Aníbal não foi mais que o estrito cumprimento de sua promessa. Educado por seu pai nas rudes façanhas da guerra na Hispânia, o jovem descendente dos Barca reunia predicados aparentemente contraditórios: sabia aliar a astúcia à energia, o maior dos entusiasmos a um cálculo frio e sagaz; era ao mesmo tempo o melhor dos peões e o mais hábil dos cavaleiros, o primeiro no ataque e o último na retirada.

Após a morte de seu pai e de seu cunhado, o exército cartaginês o elegeu general quando tinha apenas vinte e um anos. Aníbal revelou-se um excelente estrategista, demonstrou logo seu gênio improvisador nos combates e realizou verdadeiras proezas. Rompendo a trégua temporária que havia entre Cartago e Roma, atacou várias cidades pertencentes a esta na Hispânia, saindo sempre vencedor.

Em 218 decidiu pôr em prática o sonho temerário de tomar Roma e destruir por completo sua primazia. Os romanos conheciam as intenções do jovem general e o esperavam no marcom uma numerosa frota; entretanto Aníbal, temendo ser derrotado numa batalha naval onde a superioridade de seus inimigos era patente, preferiu levar suas tropas por terra através da Hispânia e da Gália. Reuniu um exército de 100 mil guerreiros com 37 elefantes, transpôs o Ródano, os Pirineus e os Alpes, estes últimos cobertos de neve e cheios de perigos e obstáculos. Grande parte dos soldados pereceu ao longo da viagem, mas o general não se intimidou, e recrutou gauleses para reparar as perdas sofridas.

Seu avanço militar pela Itália foi marcado por uma série de êxitos extraordinários. Chegando a Ticino, venceu o cônsul Cornélio Cipião e pouco mais tarde, em Trébia, infringiu uma vergonhosa derrota à legião comandada por Semprônio. No ano seguinte, obteve nova vitória às margens do lago Trasímeno, contra as forças lideradas pelo cônsul Flamínio. Com a chegada da notícia dessa batalha, o terror espalhou-se em Roma. Quinto Fábio Máximo, eleito ditador, pôs a cidade em estado de defesa e reuniu às pressas um novo contingente com o intuito de conservar ao menos a capital.

Não obstante essas medidas de prudência tomadas por Fábio Máximo, o general púnico conseguiu atrair os cônsules Terêncio Varrão e Paulo Emílio a uma batalha em Cannas, em campo aberto, como era bem do seu gosto, pois sempre vencia nesse tipo de combate. Aníbal dispôs seus africanos, gauleses e íberos em ordem de batalha, armados de longas espadas e afiados alfanjes. A luta foi encarniçada. De ambos os lados, os guerreiros combateram heroicamente, mas Aníbal, apesar da inferioridade numérica de seu exército, saiu vencedor. Como afirmamos acima, Roma sofreu aí a pior derrota da história da República e viu cair sob os golpes dos cartagineses a fina flor de sua força combatente.

O exército cartaginês se detém em Cápua

Após a batalha de Cannas, muitos contemporâneos pensaram que Roma chegara ao fim de sua glória, e alguns de seus aliados italianos, julgando- a perdida, decidiram unir-se a Cartago. A queda da capital parecia uma conseqüência natural do avanço cartaginês.

Entretanto, deu-se o inesperado: ao invés de lançar-se sobre a cidade no momento em que ela se achava indefesa e sem coordenação militar, Aníbal preferiu retirar-se para Cápua (uma das cidades que lhe haviam aberto as portas) a fim de ali passar o inverno e conceder um merecido descanso às suas tropas. Sem dar ouvidos às sugestões de seus oficiais, de logo invadir Roma, e aos acertados avisos de seu lugar-tenente Maarbal que lhe dizia: “Tu sabes vencer, Aníbal, mas não aproveitar da vitória”, ele deixou-se ficar em Cápua, gozando de uma vida ociosa e devassa. Seus soldados, que estavam no auge do furor bélico, ficaram de repente sem motivação por verem o próprio chefe abandonar seus objetivos para dedicar- se ao descanso, e entregaram-se aos prazeres de uma vida fácil, a ponto de, entre os romanos, dizer-se que eles “tendo entrado homens, saíram transformados em mulheres”.

Era o toque de finados do sonho cartaginês: Aníbal cometera um erro irreparável. Ao facilitar o repouso e o relaxamento de seus valentes, concedendo-lhes tudo quanto quisessem, julgava que eles adquiririam assim um redobrado vigor para se jogarem de novo sobre o adversário. Entretanto, o resultado foi precisamente o contrário: de tanto descansar no meio dos prazeres, eles amoleceram e perderam o desejo de vencer. A inação dos cartagineses em Cápua deu aos romanos oportunidade de reagrupar suas forças e iniciar uma hábil contra-ofensiva, hostilizando a retaguarda africana e cortando-lhe o aprovisionamento. Aníbal jamais chegaria a entrar em Roma.

Profunda lição de vida espiritual

Após ter cruzado toda a Península Ibérica, transposto os Alpes e enfrentado vitoriosamente os poderosos exércitos romanos, o enérgico general africano sucumbiu em Cápua. O que, exatamente, teria acontecido?

“Finis coronat opus” (o fim coroa a obra), diz o provérbio latino. Aníbal confiou demais nas suas próprias forças e já deu a vitória por obtida quando pouco lhe faltava para alcançar o termo final. Sem ter atingido o seu objetivo último, todas as suas lutas anteriores ficaram tremendamente destituídas de brilho e até mesmo, de certo modo, sem sentido.

Ele foi um excelente general, astuto e ao mesmo tempo ousado. No entanto, no momento mais dramático de sua grandiosa campanha militar, faltou-lhe praticar a virtude que dispõe a razão a discernir em qualquer circunstância nosso bem, e a escolher os meios adequados para realizá-lo: a prudência.
“O homem prudente vigia seus passos” (Pr 14,15), afirma a Sagrada Escritura. São Tomás, citando Aristóteles, ensina que a prudência é a “regra certa da ação” 1 . Ela é chamada “auriga virtutum” (o cocheiro, ou o portador, das virtudes), porque conduz as outras virtudes, indicando-lhes a regra e a medida. Graças à prudência, aplicamos sem erro os princípios morais aos casos particulares e superamos as dúvidas sobre o bem a fazer e o mal a evitar 2 .
Onde falhou Aníbal? Tivesse ele sido prudente, teria considerado quanto risco havia em entregarem-se, ele e seus soldados, aos devaneios das paixões que Cápua oferecia, desviando-se assim de primordial, a conquista de Roma. A ele — que era pagão e desconhecia os salutares preceitos da moral cristã — teriam bastado os ensinamentos de Aristóteles, o qual previne os imprudentes contra o risco dos prazeres desregrados: “O deleitável e o triste pervertem no coração o conceito da prudência” 3 .

Mas o Cristianismo vai muito além. Na Suma, o grande São Tomás disserta sobre a prudência de modo completo e profundo. E é muito claro ao afirmar que ela se perde, não tanto por distrações ou esquecimentos, mas, sobretudo, quando é enleada pelas paixões: “A prudência não desaparece diretamente pelo esquecimento. Ela, ao invés, corrompe-se pelas paixões” 4 .
Deste fato histórico passado na antiqüíssima cidade itálica tiramos, sem dúvida, uma preciosa lição. Ele é útil tanto para quem adotou o estado religioso quanto para os cristãos que vivem na sociedade. A entrega a um vício, a uma paixão, por pequena, fugaz e sem importância que pareça, é sempre uma imprudência que pode arruinar anos de uma bem-levada vida devota. Pode destruir uma empresa, um casamento ou uma família, uma juventude brilhante ou uma respeitável maturidade. Quantas “Cápuas” não terão destituído da coroa da dignidade pessoas que passaram uma existência inteira na observância dos melhores preceitos morais, levando-as até a terem vergonha de si mesmas?

O exemplo da derrota do infeliz Aníbal e, sobretudo, os sábios ensinamentos da Santa Igreja, são um sério e irrecusável convite a todos nós, no sentido de nunca fraquejarmos na prudente vigilância e no combate às más paixões. Além disso, nunca será demais recordar que nenhuma virtude pode ser estavelmente praticada sem o precioso auxílio da graça. Mas esta jamais será recusada àqueles que a pedem com insistência e confiança, sobretudo quando pela intercessão de Maria Santíssima. Sejamos prudentes e confiantes, e não haverá “Cápua” a nos desviar do caminho da eterna salvação.

1) Suma Teológica II-II, q. 47, a. 2.
2) Cf. CIC n. 1806.
3) In VI Ethic.
4) Suma Teológica, II-II q. 47, a. 16.

Santa Maria Madalena – porque muito amou…

tangere
Thaliane Neuburger

“Ama et quod vis fac”, ou seja, ama e faze o que quiseres. Frase ousada de Santo Agostinho, porém inteiramente teológica, por ser a caridade a virtude essencial, sem a qual, as demais virtudes carecem de valor 1 . O próprio São Paulo assim inicia seu nobre, distinto e angélico cântico sobre a rainha das virtudes: “Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver caridade sou como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine. Mesmo que eu tivesse o dom da profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência; mesmo que tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tiver caridade, não sou nada. Ainda que distribuísse todos os meus bens em sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tiver caridade, de nada valeria!” (1Cor 13, 1-3).

Diversos autores afirmam que a caridade supera em beleza, valor e essência a todas as demais virtudes, inclusive a própria Fé e Esperança pelo fato de Deus constituir-Se no seu objeto primário e principal 2 , e porque estas não ultrapassarão os umbrais da eternidade, enquanto que “a caridade jamais acabará” (1Cor 13, 8).

Segundo São Tomás , o progresso na vida sobrenatural consiste, essencialmente, na perfeição da caridade 3 . Ela é a virtude que nos une diretamente a Deus conforme no-lo demonstra o discípulo amado: “Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele” (1Jo 4, 16). Disto procede a supremacia do amor: porque as demais virtudes somente preparam e iniciam essa união, mas quem a realiza de modo pleno é a caridade 4 .

Por outro lado, o Apóstolo São Paulo mostra-nos que “o amor de Cristo nos pressiona” (2Cor 5, 14). Mas, no que consiste esse “pressionar”? Vejamos o que nos explica o Revmo. Monsenhor João Clá:

“É um modo de exprimir a força que tem o amor de Nosso Senhor por nós; este amor é transformante, infunde bondade e faz com que sejamos aquilo que jamais seríamos pelos nossos esforços ou natureza; é um amor que faz com que eu dê em relação ao Bem que é Ele, aquilo que eu nunca conseguiria dar por meu esforço. (..) Ele nos confisca [pois] é um amor tão superior, exuberante, rico, transbordante e incomensurável, que uma vez manifestado, torna-se impossível, de nossa parte, não vivermos para Ele” 5 .

Estes foram os efeitos do amor do Divino Mestre em Santa Maria Madalena, “que foi cativada e transformada pela força deste amor, a tal ponto que depois de uma vida de vícios e desvarios, atingiu tão eminente grau de admiração e enlevo por Nosso Senhor Jesus Cristo e, sobretudo, foi tão amada por Ele que obteve a restauração da inocência” 6 .

Voltemo-nos, pois, para sua vida e veremos as grandes maravilhas operadas por Deus naquela alma.

Maria Madalena nasceu de uma família muito digna, talvez a mais rica de Israel. Possuindo, desde pequena, uma aparência privilegiada, sua mãe tinha o costume de colocá-la sentada encima de uma almofada na janela, para que todos pudessem admirar sua beleza e seu bom comportamento. As ruas daquela época eram estreitas e os que por ali transitavam viam-na, conversavam um pouco com ela e, encantados, elogiavam tão extraordinária menina. Elogios estes, que serviram para dar início a um processo que a levaria a cometer os piores pecados, porque, “quando a pessoa não sabe se defender dos elogios e restituí-los a Deus, isso produz na alma um estrago tremendo” 7 , pois, o “orgulho leva à impureza” 8 . Foi justamente o que aconteceu com a jovem Maria Madalena.

Com a perda dos pais, deu-se a divisão da vasta herança. Coube a Lázaro — sendo o primogênito — herdar todas as terras e propriedades que possuíam em Jerusalém, assumindo com isso o encargo social e político da família. Marta, por sua vez, ficou em Betânia e viu-se obrigada a administrar as propriedades do irmão. Restou à Maria — por ser a caçula — o castelo que a família possuía em Mágdala, cidade muito mundana da época, devido à sua localização às margens do Mar da Galiléia.

Chegando a idade das paixões que rejeitam todo freio; quando a presença de toda pessoa honesta e séria resulta-lhe pesada” e sendo Maria Madalena “muito adulada e muito bela, circundada de adoradores, desfrutando ao respirar o incenso agradável dos elogios e sobretudo o perfume embriagante do prazer, fugiu da companhia de sua irmã” 9 , aos quinze anos, para estabelecer-se em Mágdala. No entanto, em pouco tempo, “começou a levar uma vida afastada dos Mandamentos da Lei de Deus, tornando-se, assim, uma pecadora” 10 .

Em certo momento chega a Mágdala rumores de estupefação, admiração e entusiasmo pelo grande profeta: Jesus Nazareno. Muito dada a estar de acordo com as notícias de acontecimentos mais recentes, Maria decidiu reunir uma caravana e ir ao encontro daquele, do qual todos comentavam. Quando chegaram ao lugar onde o Divino Mestre se encontrava, Ele “a viu, a olhou e a curou” 11 , e, sobretudo, infundiu em sua alma graças superabundantes, operando assim sua conversão. Abandonando tudo o que tinha e todos os antigos amigos que a levaram ao pecado, seguiu a Nosso Senhor.

Entretanto, após passar um longo período acompanhando a Jesus juntamente com as outras Santas Mulheres, sentiu um desejo de voltar à Mágdala e à sua antiga vida. A pretexto de buscar algumas coisas, embora Marta e as outras insistissem à que não retornasse, ela decidiu ir e lá chegando retomou a sua vida de pecado.

Um dia, estando Nosso Senhor a pregar perto de Cafarnaum, dá-se o reencontro. Aquele Divino Olhar recai sobre Maria, mas desta vez, “esse olhar do Salvador e essa palavra penetrante mudaram seu coração mais dolorido que endurecido. Em seguida, ela seguiu a Jesus e não O deixou mais” 12 .
Algum tempo depois, o Divino Mestre é convidado para jantar em casa de um fariseu. Maria Madalena rompendo as praxes da época — as quais proibiam a entrada de mulheres durante os banquetes — foi até Jesus para assim manifestar publicamente seu arrependimento e seu amor por Aquele que a havia transformado. Ali entrando, permaneceu aos pés do Salvador, e lhe ofertou o que de mais precioso possuía: suas lágrimas que, como sinal de penitência, lavaram aqueles Sagrados Pés; em seguida enxugou-Os com seus próprios cabelos; beijou-Os e por último, Os ungiu com o mais precioso perfume. Atos simbólicos de “seu coração que ela se empenhava em lançar todo inteiro no coração do Mestre” 13 . Tal veneração e escravidão mereceu como recompensa do Salvador as seguintes palavras: “seus numerosos pecados estão perdoados, porque ela muito amou” (Lc 7, 47) e “em verdade vos digo: onde quer que for pregado em todo o mundo o Evangelho, será contado para sua memória o que ela fez” (Mc 14, 9).

Estando o Mestre em Betânia, Maria despreocupava-se de todos os assuntos da casa e permanecia aos Seus pés, ouvindo-O e admirando-O. Tinha o pensamento unicamente posto no Salvador, já que guardava um delírio de amor a Ele e não se interessava por outra coisa, a não ser o Mestre, que para ela era tudo 14 . Por esta razão, recebeu esse elogio: “Maria escolheu a melhor parte e esta não lhe será tirada” (Lc 10,42). Ou seja, desde que a pessoa se ponha a amar, o demônio não consegue tirar nada e “ninguém rouba aquilo que o amor constrói” 15 .

O Senhor concedeu imensos benefícios a Maria Madalena e distinguiu-a com sinais de predileção, infamou-a totalmente de amor por Ele e tornou-se íntimo dela.

Uma das características do enlevo é fazer com que o enlevado saia de si e se fixe em algo que lhe é superior 16 , por isso, Santa Maria Madalena “se une a Ele em todos os estados pelos quais Ele faz passar sua humanidade. Ela se une a Jesus vivendo (…), a Jesus sofrendo (…) a Jesus morrendo e a Jesus morto” 17 , de tal maneira, que acompanhou o Divino Mestre até na hora suprema do “Consummatum est”, quando todos O abandonaram. Mostrando que o enlevo verdadeiro é aquele que está disposto até ao holocausto, se isso for necessário, em favor do Amado.

Quando mataram a Nosso Senhor, ela — em contraposição aos discípulos, os quais “tinham fechado as portas do lugar onde se achavam, por medo dos judeus” (Jo 20,19) — ia por todos os cantos, proclamando que haviam cometido um crime infame contra o Mestre, pois Este não tinha feito outra coisa senão o bem. Atraindo para si, o ódio de todo Sinédrio.

Sendo “a que mais fervorosamente amava o Senhor, (…) não podia conter-se de desejo de adorar e perfumar Seu sagrado Corpo” 18 . Por isso, já na madrugada do domingo, quando uma dama não podia estar andando pelas ruas, ainda sem o sol ter nascido, com verdadeiro empressement desejava chegar o quanto antes ao túmulo, para assim venerar o Corpo Daquele que era o objeto absoluto de seu encanto. Estava de tal modo inebriada de amor, que neste ato de “imprudência” nem sequer se preocupava com os guardas, nem com a pesada laje a ser removida.

Chegando ao túmulo, encontrou-o aberto e os soldados não estavam mais lá. Aproximou-se e não viu o Sagrado Corpo do Redentor, julgando que o tivessem roubado. Sua primeira preocupação foi a de informar aos Apóstolos, demonstrando a pureza de seu amor todo feito de sabedoria e amor à hierarquia. Saiu correndo rumo ao Cenáculo. “Com seu ardor sem medida, Madalena contagiou os Apóstolos, e estes, associando-se aos mesmos sentimentos de amor, temor e esperança, partiram cheios de ânimo” 19 . São Pedro e São João entraram na gruta, constataram que de fato o corpo não estava ali e saíram. Ela ficou, pois não possuia outro desejo a não ser o de empregar todos os meios para saber onde colocaram o Divino Corpo de seu Mestre. Estando nesta aflição, aparecem dois Anjos. Estes lhe dirigem a palavra, interrogando-a sobre o porquê de seu pranto. Ela, tomada de zêlo, afirma: “Levaram o meu senhor e não sei onde o puseram” (Jo 20, 13), declarando, com isso, sua posição de escrava e incitando-os, respeitosamente, a dizer onde é que puseram o Corpo ou a indicar onde ele pudesse estar. O amor é cheio de educação, de elegância; o amor, quando é autêntico e puro, leva a um trato elevadíssimo 20 .

Tendo dito isto, ela se volta para trás, e sem dar-se conta vê Nosso Senhor em pé, contudo, não O reconhece. E Nosso Senhor lhe pergunta: “Mulher, por que choras? Quem procuras?” (Jo 20,15). Jesus disse isto para fazer aumentar ainda mais o seu amor, pois este é passível de crescimento, ou de diminuição . E quanto mais a pessoa explicita o amor que tem, mais nele cresce. Por esta razão, era conveniente que Madalena externasse seu entusiasmo e enlevo.

Então, Jesus disse: Maria! (Jo 20, 16). Bastou que o Salvador pronunciasse seu nome para que ela O reconhecesse. Imediatamente, atira-se aos pés de Nosso Senhor. Este, porém, a impede, para que sua Fé e Caridade atingissem um grau mais eminente. Maria obedece de imediato, por se tratar de uma ordem de ‘seu Senhor’.

Quer dizer, ela procurava o Corpo, e o que encontrou? Encontrou o próprio Nosso Senhor Jesus Cristo. Este é, justamente, o fruto do amor. Quando a pessoa deseja com muito amor, devoção, enlevo, e sobretudo, com labaredas de entusiasmo, especialmente quando se trata de algo ligado a Deus, recebe mais do que aquilo que procura. O Criador sempre concede muito mais do que se pede.

Durante as perseguições, Maria Madalena juntamente com seus irmãos foram postos em um barco à deriva que chegou em Marselha no sul da França onde pregou a doutrina de Cristo e converteu um bom número de pessoas.
Morreu em um local solitário nas montanhas de Sainte-Baume, onde vivia em contemplação e penitência.

Concluamos com as palavras cheias de veneração sobre Santa Maria Madalena de São Francisco de Sales : “Ainda que não a honremos como virgem, se levarmos em conta a eminentíssima pureza que guardou depois de sua conversão, deve ser chamada arqui-virgem, porque, uma vez purificada na fogueira do amor sagrado, recebeu tão excelente castidade, e tão perfeita caridade, que depois da Mãe de Deus, ela foi quem mais amou a Jesus Cristo. Amou-O com os serafins, e ao amá-Lo foi mais admirável que eles, pois os serafins obtêm o amor sem dificuldades e conservam, mas esta santa o adquiriu com grandes suores e cuidados e o conservou com temor e solicitude” 21 .

1 Cf. ROYO MARÍN, A. Teología de la perfeccíon cristiana. Madrid: BAC, 2006.
2 Cf. Clá Dias, João. Homilia sobre o enlevo. Caieiras: Igreja Nossa Senhora do Rosário, 9/5/2010.
3 Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica, II-II q.184, a.1.
4 Cf. ROYO MARÍN, op. cit., ibidem
5 Clá Dias, João. Homilia sobre Santa Maria Madalena. Caieiras: Igreja Nossa Senhora do Rosário, 22/07/2008, p.1-2
6 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Inocência e penitência. In: Dr. Plinio. São Paulo: Agosto, N.17, p.4, 1999.
7 CLÁ DIAS, João , op. cit., p.3
1 CLÁ DIAS, 2006, p.5(Arquivo IFTE)
8 OLLIVIER, P. Les amitiés de Marie. L’Ami du clergé. Paris: Mai, n. 20, 8v., p.328, 1896.
9 CLÁ DIAS, 2008, p.4(Arquivo IFTE)
10 OLLIVIER, P. Les amitiés de Marie. L’Ami du clergé. Paris: Mai, n. 20, 8v., p.329, 1896.
11 OLLIVIER, P. Les amitiés de Marie. L’Ami du clergé. Paris: Mai, n. 20, 8v., p.329, 1896.
12 OLLIVIER, P. Les amitiés de Marie. L’Ami du clergé. Paris: Mai, n. 20, 8v.,330, 1896.
13 Cf.CLÁ DIAS, 2006(Arquivo IFTE)
14 CLÁ DIAS, 2008, p.4(Arquivo IFTE)
15 Cf. CLÁ DIAS, 2010(Arquivo IFTE)
16 MAITRIER, J. Petit sermon pour la féte de Sainte Marie-Madeleine. L’Ami du clergé. Paris: Juillet, n.28, 4v., 433-435, 1892.
17CLÁ DIAS, 2008, p.13(Arquivo IFTE)
18 CLÁ DIAS, 2008, p.15(Arquivo IFTE)
19 Cf. CLÁ DIAS, 2008(Arquivo IFTE)
20 Cf. CLÁ DIAS, 2008(Arquivo IFTE)
21 SALLES, F. Obras Selectas. Madrid: BAC, 1953, 1v, p.432-433

THE WILL AND THE GOOD IN BEING

paisagemKYLA MARY ANNE MACDONALD

“In the Thomistic synthesis, the good has an extraordinary importance. St. Thomas conceives it as the motive of creation and the end of the created” 1 .

The Aristotelian concept of the universe is one of order. Transferred into Thomistic thought, the resultant concept of the universe is one in which each part has some relation to each other part, inasmuch as all parts are ultimately linked with the Creator-God. It is thus that the purpose of the will emerges in light of its object.

THE GOOD

It is in the first part of his Summa Theologica, in which St. Thomas treats of God and the divine attributes, that he first touches upon the idea of goodness. A superlative and causative goodness is imputed to God in the description of His essential perfection and being. Referring to Aristotle‟s Metaphysics, St. Thomas states that God is called universally perfect since He cannot lack any perfection that is found in any other genus. For by reason of His being effective cause, He possesses all that the effect possesses. Continuing, he expounds:

God is existence itself, of itself subsistent. Consequently, He must contain within Himself the whole perfection of being. (…)

Now all created perfections are included in the perfection of being, for things are perfect precisely so far as they have being after some fashion. It follows therefore that the perfection of no one thing is wanting to God. This line of argument, too, is implied by Dionysius (loc. cit.) when he says that “God exists not in any single mode, but embraces all being within Himself, absolutely, without limitation, uniformly”; and afterward he adds that He is the very existence to subsisting things 2 .

This excerpt not only demonstrates the relation between being and perfection but also shows that a relation exists between created things, in their particular degrees of being and perfection, and God. This relation, in addition to being that of cause and effect, is one of a certain similarity: “all created things, so far as they are beings, are like God as the first and universal principal of being” 3 . It follows, as a consequence, that: “Every being that is not God, is God’s creature. Now every creature of God is good (1Tim 4:4): and God is the greatest good. Therefore every being is good” 4 .

The infinite being and goodness of God is, therefore, represented in His work, His creation. However, creatures have but finite being and goodness; no one creature can adequately reflect the divine likeness. For this purpose, the existence of a multiplicity and variety of creatures are required 5 . It is important to note that the excellence of the divine agent is seen, therefore, in the totality of his work and not completely in any individual part. The resultant variety or distinction among creatures signifies unequal degrees of perfection, and where there are degrees of perfection there is necessarily a hierarchical order. In this order, plants are more perfect than minerals, animals above plants and man being the most perfect among animals 6 .

This scale of greater and lesser perfection among created entities is nothing other than a scale of greater or lesser participation of being. Living things have more being than things that merely exist without life. That which understands surpasses life without understanding 7 . By virtue of the concept of all being as good, the universe is likewise conceived as the ordination of distinct levels of goodness according to their participation in the good 8 . Yet even seen thus, the most profound root is that of being; to have goodness, above all, is to have being 9 .

The human person finds himself on the pinnacle of the material universe, ─ perfectissimum in tota natura (De Pot., I,29,3) ─ since he is endowed with the highest level of being which comprises intelligence and free will 10 . Among creatures, only an intelligent, personal being that is devoid of all material ─ angelic nature ─ can surpass human nature 11 . Yet in contrast with all created nature which has being in varying degrees, God is pure being, in such a way that He is His own being 12 . Being as a nature is present only in God 13 . In other words, this signifies that God is a necessary being, without need of cause, while all creatures are contingent beings in relation to God. Applying this principle to the goodness of God and creatures, God is His goodness while the goodness of creatures is a finite participation of the infinite goodness which is God 14-15 .

This decidedly Theo-centric view of the ontological goodness of the universe illustrates the fundamental metaphysical optimism which characterizes the philosophy of St. Thomas. Chesterton identifies the primary target of these arguments as being the Manichean philosophy in its various manifestations. One such school assigns the production of the material world to an evil spirit, rendering all nature and being within it essentially evil, while the good spirit resides in an entirely separate spiritual world. Other developments present a different shade of dualism: God is the sole creator, but he creates and wills both good and evil in the world in a sort of equal and parallel position, in which neither can claim primacy 16 .

In contrast, St. Thomas maintains that while God is the supreme and essential good that is the cause of all being and first principle of all good, there cannot be a supreme evil that is the first principle of all evil, since its very being would imply some good 17 . Evil, in the metaphysical sense, does not have positive existence, but can only be considered in a negative sense as the privation of good in the same way that darkness is but lack of light 18 . This concept will later be reconciled with the spectrum of moral good and evil, but for the present the ontological good is significant as we consider in its appetitive sense, as an object of the will.

THE WILL IN THE GENUS OF APPETITE

We have thus far considered the good as being. This is, in effect, to consider good as a transcendental of being, thereby sharing ─ with oneness and truth ─ the same identity as being. But although the transcendentals are in reality the same as being, they are not identical in concept 19 . In what sense, then, is the notion of good distinct from that of mere being in Aristotelian and Thomistic thought?

Aristotle begins his Nichomachean Ethics with a definition of the good as that toward which all things tend: quod omnia appetunt. Thus, goodness refers to the relation between being and the appetite in the universal sense. In other words, goodness carries a nuance of meaning which the term being, alone, does not, namely, the aspect of appetibility 20 .
Accordingly, the very criterion of what is good is its appetibility. “Everything is good so far as it is desirable, and is a term of the movement of the appetite” 21 .

Given the metaphysical principle that every form elicits an inclination 22 , “appetition in general is a universal occurrence, existing in both inanimate and animate beings” 23 . Since the good exists in varying degrees in all levels of being, it stands to reason that this appetition is likewise of unequal degrees. “All things in their own way ─ says St. Thomas ─ are inclined by appetite towards good, but in different ways” 24 .

In following, St. Thomas traces the presence of appetite throughout the various levels of being. Minerals or inanimate things and plants are inclined to good naturally and without knowledge; this inclination is called natural appetite. The next level is that of irrational animals which although without knowledge of the good in itself, apprehend some particular good by means of the senses, and the inclination which follows is duly named sensitive appetite. The most perfect inclination to what is good occurs in beings that have knowledge of the reason of goodness, goodness in its universal sense; in them this inclination is called rational appetite or will 25 .

Appetites are aptly divided, then, into those of beings with knowledge and beings without. Clearly, appetition follows apprehension; therefore, a higher level of apprehension determines a superior type of appetition, as the following explanation illustrates:

As forms exist in those things that have knowledge in a higher manner and above the manner of natural forms; so must there be in them an inclination surpassing the natural inclination which is called the natural appetite. And this superior inclination belongs to the appetitive power of the soul, through which the animal is able to desire what it apprehends, and not only that to which it is inclined by its natural form 26 .

The irrational and hence inferior form of apprehension and inclination would hold little import for man if it were not for the fact that in the scale of being, each successively superior level possesses the potencies of the levels inferior to it, upon which something further has been added. Thus, sensitive nature includes natural or vegetative nature, and the human soul contains a spiritual nature in addition to all the preceding natures 27 . Considering that man´s position on the graduated scale of being is precisely at the intermediate point between the corporal and the spiritual world, between angels and brutes 28 , this accounts for an impressive diversity of natures at once present in the human being, rendering him the most complex of all beings, a composite of spiritual and corporal. St. Thomas 29 attests to this fact, stating that the human soul exists on the border of the spiritual and corporal worlds and for this reason, it possesses the potencies of both one and the other order.

As diverse as these various vegetative, sensitive and rational potencies are ─ the vegetative and sensitive being corporal and the rational being spiritual, they are all present within the human soul, united as it is to the body as its one substantial form 30 . The vegetative or nutritive nature present in man involves only corporal functions over which the intelligence and will have no direct dominion. Much more significant to our study, then, is the presence of sensitive life in man, since this, in addition to his spiritual nature implies two distinct faculties of knowledge, sense and intellect. These faculties, being endowed with distinct means of knowing, give rise to the correspondingly diverse sensitive appetite and the will 31 . In St. Thomas´ own words: “Since what is apprehended by the intellect and what is apprehended by sense are generically different; consequently, the intellectual appetite is distinct from the sensitive” 32 .

Endowed with these distinct potencies that reflect his composition of matter and form ─ in this case, soul and body ─, man is thus admirably equipped to live in a universe of which every part is made up of matter and form. For while the sensory perception is suited to capture the particular and individual aspect of things that present themselves in matter, the intellect is adapted to extract from this knowledge the universal, purely abstract* aspect which is reserved in the form of a given object 33 .

The will comes into play in response to an object that is represented to it by the intellect as good, just as the sensitive appetite desires only the good that one or other sense has captured. As a spiritual potency, the will is capable of desiring purely spiritual goods, such as knowledge and virtue. But the will would not be a human faculty and would be of little use to man in the material world if it were not also able to choose between things that exist as material singulars. But even so, it desires these according to some reason of the universal aspect of good (bonum in universali): either as an end (bonum honestum), or a means towards that end (bonum utile), and if successful, it rejoices in them as a good attained (bonum delectabile) 34 . Thus, the will´s essential disposition emerges, fixed in the desire for good and an absolute incapacity of desiring evil:

From this, the will cannot escape, and since all action is nothing more than a manifestation of nature, in all action which is fruit of the will can be seen the mark of the good and its influence. (…) To want evil, would be, truly, not to want, given that to want is, by definition, the seeking for the good, being the manifestation of an appetite of the good naturally executed. It could be said: The will does not want the good because it wants; it wants the good because it is: To want the good, for the will, is to be 35 .

1 FORMENT, Eudaldo. Id a Tomás : Principios fundamentales del pensamiento de Santo Tomás. p.29. [On line]. [Consulted: 12 Nov., 2008]. “En la síntesis tomista tiene una importancia extraordinaria el bien. Santo Tomás lo concibe como motivo de la creación y como fin de lo creado”.
2 ST. THOMAS AQUINAS. Summa Theologica I, q. 4., a. 2. “Deus est ipsum esse per se subsistens, ex quo oportet quod totam perfectionem essendi in se contineat.[...]. Omnium autem perfectiones pertinent ad perfectionem essendi, secundum hoc enim aliqua perfecta sunt, quod aliquo modo esse habent. Unde sequitur quod nullius rei perfectio Deo desit. Et hanc etiam rationem tangit Dionysius, cap. V de Div. Nom., dicens quod Deus non quodammodo est existens, sed simpliciter et incircumscripte totum in seipso uniformiter esse praeaccipit, et postea subdit quod ipse est esse subsistentibus”.
3 Ibid., I, q. 4, a. 3. “Et hoc modo illa quae sunt a Deo, assimilantur ei inquantum sunt entia, ut primo et universali principio totius esse”.
4 Ibid., I, q. 5, a. 3. “Omne ens quod non est Deus, est Dei creatura. Sed omnis creatura Dei est bona, ut diciter 1 Ti4,4: Deus vero est maxime bonus. Ergo omne ens est bonum”.
5 SANTO TOMÁS DE AQUINO. Suma contra los gentiles. L. II, c. 45.
6 GILSON, Étienne. El tomismo. 4a. ed. Pamplona: Universidad de Navarra, 2002. p. 205-206.
7 FORMENT, Op. Cit., p. 45.
8 Ibid., p. 30.
9 GILSON, Étienne. Elementos de una metafísica tomista del ser. [On line]. In: Espiritu, No. 41 (1992). [Consulted : 9 Feb., 2009].
10 RODRÍGUES, Victorino. Temas clave de humanismo cristiano. Madrid: Speiro, 1984. p. 19. Rodrigues outlines the key principles of the special dignity of human nature: “Hence the superior dignity of man above the other beings of this world: as much by reason of his quasi generic factor (to subsist in himself with, moreover, an ultra-temporal projection, due to the natural immortality of the human soul) as by reason of his quasi specific factor (rational and free). (“De ahí la superior dignidad del hombre sobre los demás seres de este mundo: tanto por parte de su factor cuasi genérico (subsistir por sí, con proyección, además, ultratemporal, debida a la inmortalidad natural del alma humana) como por parte de su factor cuasi específico (racional y libre).) p.261.
11 SANCHEZ DE LEON, Pilar. 30 Temas de iniciación filosófica. Bogotá: Universidad de la Sabana, 1990. p. 92.
12 GILSON, Étienne. Elementos de una metafísica tomista del ser, Op. Cit., p. 18.
13 OWENS, Op. Cit., p. 48.
14 GILSON, Étienne. A filosofia na idade média. 2a. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007. p. 659-663.
15 Ibid., p. 663. This is far from the pantheistic interpretation that creatures are part of God and are, therefore, God, as Gilson explains: “To participate in the pure act or in the perfection of God is to possess a perfection that pre-existed in God, and which, in fact is found in Him without having been either augmented or diminished by the appearance of the creature which reproduces it in a limited, finite manner. To participate is not to be part of that of which is participated, it is to owe one‟s being and receive it from another being, and the fact of receiving from another is exactly what proves that one is not the other”. (Personal translation)
16 CHESTERTON, G.K. St. Thomas Aquinas. [On line]. [Consulted: 12 Nov., 2008].
17 ST. THOMAS AQUINAS. Summa Theologica I, q. 49, a. 2.
18 Ibid., q. 48, a. 1.
19 GARDEIL, H.D. Introduction to the Philosophy of St. Thomas Aquinas: Metaphysics. St. Louis: Herder Book, 1967. p. 126. Vol. 4.
20 Ibid., p. 142, 143.
21 St. THOMAS AQUINAS. Summa Theologica I, q. 5, a. 6. Nam bonus est aliquid, inquantum esta appetibile, et terminus motus appetitus.
22 GARDEIL, H.D. Introduction to the Philosophy of St. Thomas Aquinas: Psychology. St. Louis: Herder Book, 1956. p. 197. Vol. 3.
23 GARDEIL, H.D., Introduction to the philosophy of St. Thomas Aquinas: psychology, Op. Cit., p. 79.
24 ST. THOMAS AQUINAS. Summa Theologica I, q. 59, a. I. “Omnia suo modo per appetitum inclinantur in bonum, sed diversamode”.
25 Ibid.
26 ST. THOMAS AQUINAS. I, q. 80, a. 1. “Sicut igitur formae altiori modo existunt in habentibus cognitionem supra modum formarum naturalium, ita oportet quod in eis sit inclinatio supra modum inclinationis naturalis, quae dicitur appetitus naturalis. Et haec superior inclinatio pertinet ad vim animae appetitivam, per quam animal appetere potest ea quae apprehendit, non solum ea ad quae inclinatur ex forma naturali”.
27 GARRIGOU-LAGRANGE, Reginald. Reality: A Synthesis of Thomistic Thought. St. Louis: Herder, 1950. p. 184.
28 SERTILLANGES, A. D. Foundations of Thomistic Philosophy. St Louis: Herder, 1931. p. 199.
29 ST. THOMAS AQUINAS. Summa Theologica I, q. 77, a. 2.
30 KRETZMANN, Norman. Philosophy of mind. In: The Cambridge Companion to Aquinas. Op. Cit., p. 131.This is an important factor in understanding the human soul as a “microcosm” in which all elements of the cosmos are represented. “In a theory that recognizes the soul of a plant as a merely nutritive first intrinsic principle of life, and the soul of a nonhuman animal as a nutritive + sensory principle of that sort, it comes as no surprise that the soul of a human
being is to be analyzed as nutritive + sensory + rational. Aquinas thinks of the human soul not as three nested, cooperating substantial form, however, but as the single form that gives a human being its specifically human mode of existence, including potentialities and functions, from its genetic makeup on to its most creative talents”.
31 GARDEIL, H.D. Introduction to the Philosophy of St. Thomas Aquinas : Psychology. Op. Cit., p. 198, 199.
32 ST. THOMAS AQUINAS. Summa Theologica I, q. 80, a. 2. “Quia igitur est alterius generis apprehensum per intellectum et apprehensum per sensum, consequens est quod appetitus intellectivus sit alia potentia a sensitivo”.
33 GILSON. A Filosofia na Idade Média. Op. Cit. p. 666 – 668.
* Ibid., p. 666-668. Since an in-depth description of the process of abstraction is outside of the scope of this study, see this passage for an overview of the respective functions of agent intellect and possible intellect in the process of rendering intelligible the sensible species.
34 GARDEIL, H.D. Introduction to the Philosophy of St. Thomas Aquinas : Psychology. Op. Cit., p. 199.
35 SERTILLANGES, A. D. Santo Tomas de Aquino II. Buenos Aires : Desclée de Brouwer. p. 213 – 214. (Personal translation). “A esto no puede la voluntad escapar, y como toda acción no es en el fondo más que una manifestación de la naturaleza, en toda acción fruto de la voluntad se podrá ver La marca del bien y su influencia. (…) Querer el mal, será, en verdad, no querer, puesto que querer es, por definición, La búsqueda del bien, al ser la manifestación de un apetito del bien realizado naturalmente. Se podrá decir: La voluntad no quiere el bien porque quiere; quiere el bien porque ella es: Querer el bien, para ella es ser”.
* This necessity is not equivalent to coercion, and is not incompatible with freedom. Davies explains that for St. Thomas, “it is not against will that one should be drawn to what one‟s nature needs for its fulfillment. This kind of necessity is, he thinks, essential to will, just as the being drawn of necessity to truth is needed for the intellect to be itself. (DAVIES, Op. Cit., p. 177.)

“Morte” da metafísica: raiz da separação da Fé e Razão

Sol06Irmã Juliane Vasconcelos Almeida Campos, EP

Na observação e conhecimento da natureza e do que existe, São Tomás 1 , em seu realismo, desenvolve suas consagradas vias para o conhecimento de um Ser Absoluto, que ele chama Deus. Ao raciocinar em função da relação de causas e efeitos, evidencia que o efeito pode representar a causa, ainda que analogicamente, de maneiras diversas. Por exemplo: a fumaça representa o fogo pelo que denomina vestígio, pois é como o movimento de alguém que passou e já não é. Mas o efeito pode representar a causa também na semelhança com a forma dela, como o fogo gerado que representa o gerador, o que seria uma representação de imagem.

Nesta perspectiva metafísica da Philosophia perennis, o Ser Absoluto deixa seus vestígios, de modo análogo a pegadas, nos efeitos que guardam menor relação com ele; e deixa sua imagem ― imago Dei ― naqueles que têm relação causal mais estreita com ele 2 , sendo, além de sua causa, seu fim último, atraindo-os para si, como é o caso dos seres inteligentes. É por isso que diz Dionísio: “Deus converte tudo para si” 3 .

estrelasExiste, assim, um desejo natural interno ― desiderium naturale ―, uma busca deste Ser Absoluto, no qual todos os seres se fundamentam e que tudo mantém em seu próprio ser 4 . O princípio de causalidade é o que permite ao homem elevar-se a tal causa absoluta e primeira de todas as coisas. É este o movimento espontâneo em uma criança quando contempla, por exemplo, o firmamento e as estrelas. Logo compreende as palavras do salmista: “Narram os céus a glória de Deus, e o firmamento anuncia a obra de suas mãos” (Sl 18,2). “O primeiro olhar da inteligência sobre o céu estrelado conduz a Deus e faz vislumbrar sua grandeza” 5 . Pode-se dizer, então, que este primeiro olhar da inteligência humana sobre o real já contém, ainda que confusamente, “toda a verdade que a sabedoria filosófica descobrirá, que se elevará ao conhecimento do Ser supremo, Verdade primeira, o qual, segundo a Revelação se chama ‘Aquele que é’” 6 .

Nesse sentido, pode-se afirmar que esta busca do Absoluto no homem é inerente ao seu próprio ser. Tinha razão quando afirmava São João Damasceno que “o conhecimento de que Deus existe está naturalmente inserido em todos” 7 . Por isso, o homem sempre teve o desejo de conhecê-lo conscientemente, tornando-se necessária sua explicitação racional. E quando, pelo raciocínio, o homem chega à contemplação de tal Absoluto ― que já estava em si mesmo, de maneira transcendental e intrínseca ―, ele se dá conta de que este era o objeto de seu desejo, sob o nome de felicidade, a qual perseguia como fim último.

Ora, a modernidade irrompeu na História como algo novo e libertador, numa ruptura com todo o patrimônio da humanidade vindo do passado. A revolução científica dos séculos XVI-XVIII parecia desvendar um novo panorama de conhecimento para o homem. O racionalismo de Descartes ― considerado por muitos como o pai da filosofia moderna ―, pôs em descrédito tudo o que não fosse comprovado cientificamente, colocando a metafísica da causalidade entre parênteses. Assim, até a própria filosofia, antes tida e havida como a ciência da razão, do pensamento e da transcendência, a “scientia rerum per altissimas causas”, passa a ser pensada segundo o método experimental científico.

Mas Descartes e os que o seguiam ainda “pensavam metafisicamente”, apesar do racionalismo e da desfiguração da metafísica escolástica. Por esta razão, costuma-se apontar para o fato de a filosofia moderna ter surgido, realmente, com a fundamentação crítica da filosofia tradicional, e de Kant ter sido justamente aquele que colocou em dúvida a possibilidade da metafísica 8 . Porém, a metafísica se ocupa das coisas divinas 9 , tendo por fundamento o princípio de causalidade, o qual ― ontológica e intrinsecamente ―, era o equilíbrio da razão e do ser humanos. E o que fez Kant foi tentar desmontar seus argumentos lógicos, eliminando-a do panorama filosófico. Consequentemente, uma vez “morta” a metafísica da causalidade, iniciou-se um processo que culminou ― na perspectiva metafísica do Ser Absoluto ― com Nietzsche, decretando a “morte” do próprio Deus.

A partir de Kant, a questão religiosa tornou-se um dos pontos centrais da mudança de reflexão da filosofia, e ele a fundamenta na razão prática 10 . Contrariando tudo o que veio antes e separando a Razão da Fé, afirma que a filosofia não tem nenhuma relação com a religião, pois sua função seria apenas a de mostrar que não podemos saber se Deus existe ou não. Ele crê que a razão especulativa não leva a nenhuma crença, mas sim ao agnosticismo, uma vez que os argumentos tradicionais vão mais além da experiência humana. E sustenta que as provas especulativas da existência de Deus são insuficientes, sendo impossível o pensamento metafísico. Para Kant, a única prova da existência de Deus é “uma prova prática ou moral, que produz a fé moral, cuja certeza é subjetivamente suficiente ainda que insuficiente objetivamente (Crítica da Razão Prática, Parte I, Livro II, cap. II, 5)” 11 . A crítica kantiana e pós-kantiana subverteu, assim, as provas tradicionais da existência de Deus e a objetividade dos princípios racionais.

Kant considera que o conceito tradicional de metafísica transformou-se, na Idade Média, em algo de tal modo extrínseco e em si confuso, que não se chega absolutamente ao ponto em que a metafísica mesma ou o μετά, em seu sentido próprio, passem a ser um problema filosófico, por causa da união entre Fé e Razão. Por isso, em sua concepção crítica elimina a Fé de seu pensamento, e se atém à tarefa de questionar a concepção dogmática do que chama de “filosofia primeira”, buscando em seu interior um impulso para “transformar a metafísica mesma em problema” 12 .

Porém, sua “problematização” se reduz a responder às inquietudes filosóficas com a mera receptividade dos sentidos. Deste modo, segundo suas concepções, as noções que se tem a respeito do homem e da natureza, da vida e da morte, ou acerca do livre-arbítrio, da alma e de Deus permanecem completamente desconhecidos em si mesmos, porque não se pode ― em virtude da limitação dos sentidos ―, provar sua existência. Para Kant, não assiste ao homem nenhum direito de ser positivo a respeito de coisa alguma, e é mister pôr de parte todos os dogmas. “É interessante notar quão positivo pode ser este filósofo em sua enunciação do ponto de vista positivo. Kant acredita profundamente no testamento racional da descrença. Mata o dogma com espada dogmática” 13 .

Kant distingue as ideias (puros conceitos da razão) e as categorias (conceitos intelectivos puros) como conhecimentos de espécie, origem e uso diversos, e afirma que essa distinção é importante elemento para a fundamentação de uma ciência que deva conter o sistema de todos esses conhecimentos a priori; sem essa distinção “a metafísica é absolutamente impossível ou, ao sumo, não passa de tentativa desordenada e imperfeita, sem conhecimento dos materiais que se manuseiam e da aptidão dos mesmos para serem aplicados desta ou daquela maneira, que se propõe apenas construir um castelo de cartas” 14 . Considera que se a Crítica da Razão Pura não houvesse conseguido outra coisa senão distinguir essa lacuna metafísica, já teria sido uma grande contribuição para a filosofia.

Com a demolição da metafísica especulativa, feita por Kant, e, em consequência desta, o traslado do religioso ao espaço extrarracional e extrametafísico do sentimento que a ela se seguiu na evolução filosófica, abriu-se uma fossa insalvável entre a nova concepção metafísica e a religião, pois esta nova concepção passa a ser mera razão teorética, sem acesso a nenhum Deus. E religião não tem lugar no espaço da ratio 15 . Dá-se a ruptura entre Fé e Razão, e o Absoluto passa a ser uma mera ideia intuitiva.

1 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. I, q.2, a.3; q.45, a.7.
2 2 ROMERO-BARÓ, José M. La huella de Dios en la naturaleza: una aproximación trinitaria. Em: Science and Religion: Global Perspectives. Programa do Metanexus Institute. [Em linha]. Philadelphia, USA (Jun., 2005); p.6. [Consulta: 10 Nov., 2008].
3 DIONISIO. De div. nom. C.4 § 10: MG 3,708. Citado por SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. I-II, q.109, a.6.
4 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. I, q.12, a.8.
5 GARRIGOU-LAGRANGE, Réginald. El sentido común: la filosofía del ser y las fórmulas dogmáticas. Buenos Aires: Desclée de Brouwer, 1945. p.335.
6 Ibid., p.332.
7 SÃO JOÃO DAMASCENO. De Fide Orthodoxa, 1, 1, 3 – PG 94, coll. 789, 793. Citado por GILSON, Étienne. Elementos de filosofía cristiana. Madrid: Rialp, 1970. p.58.
8 HEIDEGGER, Martin. Os conceitos fundamentais da metafísica. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006. p.64.
9 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma contra los gentiles. L.I, c.4.
10 MONDIN, Battista. Introdução à filosofia. 16a. ed. São Paulo: Paulus, 2006. p.93-94.
11 GARRIGOU-LAGRANGE, Réginald. Dios: la existencia de Dios. 2a. ed. Madrid: Palabra, 1980. p.28; 44.
12 HEIDEGGER, Op. Cit., p. 54.
13 THOMAS, Henry. Perfil biográfico: Immanuel Kant. Em: KANT, Immanuel. Fundamentação da metafísica dos costumes e outros escritos. São Paulo: Martin Claret, 2008. p.134-135.
14 KANT, Immanuel. Prolegômenos: a toda metafísica futura que possa apresentar-se como ciência. São Paulo: Nacional, 1959. p.103.
15 RATZINGER, Joseph. El Dios de la fe y el Dios de los filósofos. [Em linha]. [Consulta: 20 Jun., 2009].

O desenvolvimento da vida espiritual

STeresa_dAvilaIrmã Maria Cecília Seraidarian, EP

Em sua Teologia da Perfeição Cristã, o Pe Royo Marín (1968, p 273) salienta que :

Cada alma segue seu próprio caminho rumo à santidade sob a direção e o impulso supremo do Espírito Santo. Não há duas fisionomias inteiramente iguais no corpo nem na alma. Contudo, os mestres da vida espiritual tem tentado diversas classificações atendendo às disposições predominantes das almas, que não deixam de ter sua utilidade ao menos como ponto de referência para precisar o grau aproximado de vida espiritual em que se encontra uma determinada alma. (…)

São três, parece-nos, as principais classificações que foram propostas ao longo de toda a história da espiritualidade cristã: a clássica das três vias: purgativa, iluminativa e unitiva; a do Doutor Angélico, baseada nos três graus de principiantes adiantados e perfeitos; e a de Santa Teresa de Jesus em seu genial Castelo interior ou livro das Moradas.

A obra de Santa Teresa de Jesus, Castelo interior ou Moradas, é tomada como exemplo pela maioria dos autores de vida espiritual, pois explica de modo excelente as fases da vida cristã rumo à santidade, baseando-se nos graus de oração. Esta Doutora da Igreja compara a alma a um castelo e os diversos graus da vida espiritual, aos aposentos desse castelo: “consideremos nossa alma como um castelo, feito de um só diamante ou de limpidíssimo cristal. Neste castelo existem muitos aposentos, assim como no céu há muitas moradas” (1981, p. 19).

Santa Teresa divide o desenvolvimento da vida espiritual em sete moradas:

a) Primeiras Moradas (ibidem, p. 19-37) – considera a beleza de uma alma em estado de graça e lamenta aquelas almas que jamais entram no castelo, ficam ao redor dele, obstinadas no pecado. Afirma ainda que a porta de entrada desse castelo é a oração. Trata da hediondez de uma alma em estado de pecado mortal e da importância da humildade e do conhecimento de si mesmo, através do conhecimento de Deus. Adverte também sobre as artimanhas do demônio para impedir que as almas progridam dessas primeiras moradas para as seguintes. Nesse estágio, as almas desejam não ofender a Deus e praticar boas obras, no entanto, estão ainda absorvidas pelo mundo.

b) Segundas Moradas (ibidem, p. 41-49) – aqui as almas já se preocupam em servir a Deus, fogem das distrações fúteis e buscam uma vida de oração e recolhimento, embora com muitas quedas e falhas. Têm aversão ao pecado mortal, porém, pouco cuidado em evitar as ocasiões. Sofrem por sentirem cada vez mais claro o chamado de Deus e não terem ânimo suficiente para se entregarem inteiramente. Nesta fase, a Santa encoraja-as a não desanimarem diante dos ataques do demônio mas serem humildes e se confiarem à Misericórdia Divina, a fim de perseverarem.

c) Terceiras Moradas (ibidem, p. 53-68) – nestas moradas as almas passam a ter mais oração e recolhimento, evitam os pecados veniais e fazem penitência. Quando são provadas pelo Senhor com securas e aridezes, desanimam porque ainda são débeis. Aconselha a estas almas a fuga das ocasiões e a perseverança na humildade e na oração, sem fazer caso de provações ou de consolações.

d) Quartas Moradas (ibidem, p. 71-95) – é nesta etapa que ocorre a transição da ascética para a mística. As tentações trazem benefícios e são ocasião de mérito. Tem-se o início das orações contemplativas. Santa Teresa ressalta a importância de crescer no amor, condição para progredir às moradas seguintes.

e) Quintas Moradas (ibidem, p. 99-130) – a Santa Doutora descreve longamente a união da alma com Deus na oração contemplativa. A experiência mística é intensificada e aumentam as purificações passivas. As almas experimentam grande amor ao próximo e têm necessidade de muita vigilância para não cair nas sutilezas do demônio.

f) Sextas Moradas (ibidem, p. 133-224) – nesta fase as almas recebem grandes favores e padecem terríveis provações; Deus opera maravilhas naqueles que alcançam estas moradas. O amor a Deus é levado até o esquecimento de si mesmo. Os fenômenos místicos se multiplicam. As almas têm desejo de unir-se intimamente a seu Senhor, abandonando esta vida.

g) Sétimas Moradas (ibidem, p. 227-260) – Perfeição – dá-se o “matrimônio espiritual”, a união transformante em que a alma se faz uma com Deus, sente em si a inabitação da Santíssima Trindade. As almas atingem um estado de paz e tranqüilidade inalteráveis, preocupam-se unicamente com a glória de Deus.

Diante dessa impressionante descrição de Santa Teresa de Jesus, um dos luminares da mística experimental, percebe-se o belo mas árduo caminho a percorrer para alcançar a santidade, uma vez que é preciso arrancar da alma todo o apego às coisas terrenas e o apego a si mesmo para poder seguir a Nosso Senhor Jesus Cristo (Lc 9, 23): “se alguém quer vir após mim, renegue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me” (BÍBLIA SAGRADA, 1996). Sem um constante auxílio de Deus, que com sua graça atrai as almas, sustenta-as e faz avançar nas vias da santidade, não seria possível ao homem chegar à perfeição por suas próprias forças.

Deus me vê

Deus e a criacao1Irmã Teresita Morazzani Arráiz, EP

Quando contemplamos, num belo anoitecer de verão, a abóbada celeste, percebemos miríades de estrelas que aos poucos vão se acendendo aqui, lá e acolá. Na verdade, além das que vemos, existem milhões e milhões de outras que só com a ajuda de boas lunetas conseguiríamos ver. E ainda resta um número quase incontável que nem sequer a ciência, com todos os seus recursos, logrou ainda observar.

Pois bem, mesmo sendo o universo tão imenso a ponto de nos parecer sem limites, há um Ser superior a isso tudo, que tudo criou, tudo governa e tudo vê: Deus infinito. Ele está presente em tudo, não há lugar onde Ele não possa estar, como diz o Salmista: “Tu me envolves por todo lado e sobre mim colocas a tua mão. Onde eu poderia ocultar-me do teu Espírito? Para onde poderia fugir da tua presença? Se subir até os céus, Tu lá estás; se descer ao mundo dos mortos, ali Te encontras” (Sl 138, 5.7-8). Também lemos nos Atos dos Apóstolos que em Deus “vivemos, nos movemos e existimos” (At 17, 28).

O modo de Deus estar presente na criação

Ensina-nos o grande São Tomás de Aquino que existem três modos de Deus estar presente na obra da Criação. Primeiro, por potência, influxo ou poder, pois tudo está submetido a seu domínio; se Ele “cochilasse” um instante, tudo voltaria ao nada. Segundo, por presença, visão ou conhecimento, pois tudo está patente e como que descoberto a seus olhos; nada Lhe escapa, nem sequer os mais ocultos pensamentos. Terceiro, por essência ou substância, pois Ele está em tudo, como causa de seu ser.

Falando em termos mais específicos, existem outras presenças de Deus, como a inabitação na alma do justo, realizada através da graça. Também a presença pessoal ou hipostática, única e exclusivamente de Cristo, pela qual sua humanidade adorável subsiste na própria pessoa do Verbo Divino. Por isso Ele é pessoalmente Deus, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade encarnada. Temos, ademais, a presença sacramental ou eucarística, na qual Jesus Cristo está realmente presente sob as espécies do pão e do vinho.

Há, por fim, a presença de visão ou manifestação, que é a do Céu. Deus está presente em toda parte, porém, não Se deixa ver em todo lugar, mas somente no Céu. Só na Visão Beatífica Ele Se manifesta face a face aos bem-aventurados.
Lembremo-nos dia e noite do olhar de Deus

Portanto, Deus está presente em toda parte e constantemente nos vê.
Oh! quantos crimes seriam evitados, quantos problemas seriam resolvidos, quantas lágrimas seriam enxugadas,quantas aflições seriam suavizadas se a humanidade tivesse consciência do olhar de Deus sempre pousando sobre nós! “Deus está no Templo santo e no Céu tem o seu trono, volta os olhos para o mundo, seu olhar penetra os homens” (Sl 10.4).

Estamos aflitos, necessitando de uma palavra de conforto e ânimo para superar algum obstáculo? Precisamos de um coração com o qual possamos nos abrir? Ou de um amigo a quem falar? Por que não recorrer ao melhor dos amigos, ao mais suave, compreensivo e cheio de compaixão, que é o próprio Deus? Ele nos conhece até o fundo e sabe tudo de que precisamos; seu Divino Coração arde em desejos de ajudar e consolar as almas abatidas e de aliviar as costas carregadas de fardos: “ Vinde a Mim todos vós que estais cansados e oprimidos, que Eu hei de aliviar-vos” (Mt 11,28).

Queremos servir a Deus com mais amor e perfeição? Lembremo-nos de seu olhar dia e noite. Certa vez Santo Inácio de Loiola, vendo um de seus irmãos trabalhar de modo relaxado, perguntou-lhe:
— Irmão, para quem trabalhas?
— Para Deus — respondeu-lhe ele.
— Se me dissesses que trabalhas para um homem, eu compreenderia tua moleza, mas isso é imperdoável quando se trabalha para Deus.

São Francisco de Sales vivia tão compenetrado da presença de Deus que, estando sozinho ou em sociedade, conservava um porte digno, modesto e grave. Costumava dizer que não sentia constrangimento algum na frente de reis ou príncipes, pois estava habituado a encontrar-se na presença de um Rei muito maior que lhe inspirava respeito.

A oração torna a vida mais leve, suave e amena

A oração freqüente é um meio eficaz para nos recordar a presença de Deus. É tão fácil — durante nossos afazeres, no trabalho, na escola ou em casa, andando pela rua, dirigindo no trânsito ou já deitado para o descanso — fazer uma prece, uma jaculatória que seja, a Deus, ao Sagrado Coração de Jesus e oferecer-Lhe os problemas, pedir-Lhe ajuda e proteção!

Caro leitor, eu o convido a fazer isso diariamente, com amor e confiança, e você verá que aos poucos sua vida irá se tornando mais leve, suave e amena.

Diz Jesus no Evangelho: ‘Pedi e ser-vos-á dado; procurai e encontrareis; batei e hão de abrir-vos” (Lc 11.9). Por que desprezamos essa promessa proferida por lábios divinos e que nos dá a garantia absoluta de sermos ouvidos? Poder-se-ia dizer que Nosso Senhor como que Se inclina do Céu sobre a terra, à espreita de que Lhe façamos pedidos, desde os mais simples até os mais ousados, para ter Ele a alegria de atender-nos e encher-nos de dons e graças.

O exemplo de dois santos

Davi encontrava força e consolo em pensar que o Senhor conhecia seus sofrimentos, e exclamava cheio de confiança: “Ainda que atravesse vales tenebrosos, de nenhum mal terei medo porque Tu estás comigo” (Sl 22, 4).

Efrém era um jovem que se entregara a todo tipo de vícios. Porém, reconhecendo seus desvios, arrependeu-se e retirou-se à solidão. Um dia veio até ele uma mulher de costumes pouco recomendáveis, para tentá-lo. O homem de Deus prometeu-lhe fazer tudo quanto ela quisesse, com a condição de que primeiro ela o seguisse. Mas a infeliz, vendo que o santo a conduzia a uma praça pública, disse-lhe que não teria coragem de dar-se em espetáculo. Respondeu-lhe Santo Efrém: “Tens vergonha de pecar diante dos homens e não te envergonhas de pecar diante de Deus que tudo vê e tudo conhece?!” Estas palavras tocaram profundamente a pecadora; ela mudou de conduta e levou até o fim de seus dias uma vida santa.

Deus nos fez herdeiros e merecedores do Céu

Havia antigamente na Alemanha o costume de pintar um “olho de Deus” nas igrejas, nas escolas ou nas casas, para lembrar ao povo que o olhar do Altíssimo nos acompanha a cada passo de nossa existência. Esse hábito salutar perdeu-se de todo e atualmente muitas pessoas vivem no esquecimento quase completo de Deus.

Imaginemos um artista que esculpisse uma belíssima estátua e recebesse de um anjo o poder de infundir nessa sua obra a própria vida humana dele. A estátua começaria a mover-se e a conversar, teria desejos e apetências, as potências da alma desabrochariam nela e a veríamos dotada de personalidade, mentalidade, espírito. O escultor ficaria encantado e deitaria todo o seu amor e seu desvelo na educação desse seu “novo filho”. Preocupar-se-ia com sua instrução, ele mesmo lhe daria aulas e faria dele um jovem perfeito e acabado.
Como deveriam ser a gratidão e a reciprocidade desse ser tão aquinhoado? Não é necessário dizer…

Porém, um belo dia o pai nota que seu filho está diferente, algo nele mudou. Aos poucos, ele foi deixando de ser aquele menino dócil, afável, carinhoso e desejoso de aprender; agora está revoltado, não quer mais saber de seu benfeitor, chega até a desprezá-lo e responder-lhe com rudeza; por fim, toma a atitude de não lhe dirigir mais a palavra e nem sequer olhá-lo. O pobre pai tenta atrair o jovem a si por meio de redobrado afeto e de apelos a seu amor de outrora, mas… em vão!

Que ingratidão monstruosa! — diria alguém. Pois bem, esta metáfora nos dá apenas uma pálida idéia de nosso procedimento quando voltamos as costas para Deus, O rejeitamos, esquecemo-nos d’Ele e nem mesmo nos lembramos de que continuamente está Ele a nosso alcance, desejando nos favorecer e nos prodigalizar seu carinho e sua misericórdia infinita.

Ele escolheu-nos dentre uma multidão infinita de seres possíveis, tirou-nos do nada, deu-nos a vida, infundiu em nós uma alma racional dotada de inteligência, vontade e sensibilidade, encheu-nos de dons naturais e, como se tudo isso fosse pouco, nos deu o Batismo, fazendo-nos viver da própria vida d’Ele. Está sempre à nossa disposição no Sacramento da Eucaristia, esperando ser recebido por nós e nos beneficiar com seu convívio todo feito de doçura e suavidade. E nós, como correspondemos a essa torrente infinita de bondade, a esse amor que O levou a entregar-Se e morrer crucificado como vil malfeitor para redimir-nos e nos fazer herdeiros e merecedores do Céu?

“Oxalá ouvísseis hoje a sua voz: não endureçais os vossos corações” (Sl 94, 7-8). Voltemos nosso coração e toda a nossa vida para Aquele que Se voltou todo para nós e sua vida nos deu. Façamos d’Ele o centro de nossa existência e Ele, a rogos de sua e nossa misericordiosíssima Mãe, um dia nos acolherá na eterna bemaventurança.