Como nuvens ao sopro do Espirito Santo  

Ir Ariane Heringer Tavares, EP

Entre os homens, muitos há que se dedicam a observar com cuidado as maravilhas postas por Deus na criação. Alguns o fazem visando novas descobertas científicas; outros, deixam-se levar pela moção da graça e almejam encontrar nos seres visíveis uma representação palpável de realidades infinitamente superiores.

Com o intuito de seguir a trilha destes últimos, deixemos ­voar a nossa imaginação até o cume de um elevado monte. As ­primeiras luzes do dia emitem seus fulgores e nossos olhos, libertando-se das trevas da noite, começam a distinguir uma névoa que cobre de mistério o panorama que dali se ­divisa.

Aos poucos a claridade se torna mais intensa. A bruma se dissipa e a paisagem aparece em todo o seu esplendor. Que grandeza! Vales verdejantes cercados de penhascos rochosos e picos nevados aparecem diante de nós. Ao longe, descortina-se um céu de safira sobre o qual as nuvens se deslocam com suavidade.

Docilmente conduzidas pelo vento, por onde passam elas tamisam os raios do Sol, tantas vezes causticante, e quando carregadas, derramam a água que vivifica, mas também lançam raios justiceiros ou arremessam terríveis pedras de granizo. No inverno liberam suaves flocos de neve que caem silenciosamente sobre a terra, cobrindo-a com um branco manto de inocência. Dir-se-ia serem elas mensageiras de Deus, encarregadas de transmitir ao mundo sua alegria ou sua cólera. E, uma vez executada sua tarefa, esvanecem-se sem ruído, deixando o firmamento límpido e transparente, como se por ali não tivessem passado.

São as nuvens imagem das almas despretensiosas e flexíveis ao sopro da graça, sempre dispostas a deixar-se conduzir pela Divina Providência, dando-se por inteiro a Ela.

No harmônico conjunto dos seres criados, cada um de nós é chamado pelo Criador a desempenhar uma missão única e exclusiva. Ao receber a graça santificante com as águas batismais nossa alma é introduzida num plano superior ao da simples natureza humana e recebe um convite todo especial: “Não queres ser um príncipe na minha criação? Eu te concedo uma participação criada na minha própria vida. Com isso Eu habitarei em ti, e tu serás o templo no qual Eu viverei”.

Sem dúvida, em nosso caminho não faltarão lutas, renúncias e sacrifícios, mas devemos nos abandonar confiantes nas mãos da Providência, como nuvens ao sopro do Espírito Santo. Sob seus doces impulsos seremos elevados a um patamar sublime, ao cimo da santidade, ao ápice da união com Deus.

Revista Arautos do Evangelho Julho -2016

Lições das aves do céu 

Ir Maria Beatriz Ribeiro Matos, EP

Desafios, riscos e esforços estão constantemente presentes na vida desta Terra. E não só para os homens, como também para os animais. Para fazer face a tais obstáculos, a Divina Providência os beneficiou com admiráveis instintos, que podem trazer valiosas lições para nós. Por isso, já dizia o santo Jó: “Pergunta, pois, aos animais, e eles te ensinarão; às aves do céu, e elas te instruirão” (12, 7).

É o que acontece ao contemplarmos os majestosos “Vs” que, com a proximidade do inverno, cortam o azul do céu com seu vigoroso avanço. Eles são desenhados por bandos de aves migratórias, buscando um clima mais propício nas regiões setentrionais do globo. Durante a longa viagem elas mantêm esta característica disposição, na qual um dos pássaros vai à frente dos demais, bem no vértice da farpa.

Além de ser bela, esta disciplinada formação obedece a um princípio de sabedoria do Criador: cada bater de asas do líder do bando cria um vácuo que é aproveitado pelos que vêm logo atrás, fazendo-lhes economizar uma boa dose de esforço. O mesmo acontece, sucessivamente, com todos os outros integrantes. Deste modo, o empenho de quem está à frente serve de benefício para os que lhe seguem. A fim de melhor enfrentar os ventos, as correntes de ar e as agruras do deslocamento, numerosas aves se revezam nesta tarefa. Assim, depois de certo tempo mantendo tão fundamental posição, quem liderou o bando refaz suas forças ocupando um lugar diferente em que o esforço é bem menor.

Não é difícil compreender a lição que estas aves do céu nos têm a dar, sobretudo se recordamos que estamos em constante “migração” por este vale de lágrimas, que é a Terra.

Se de fato amamos a Deus, para Ele rumaremos com confiança e alegria, sem nos deixar abater pelas vicissitudes do caminho, e desejaremos igual felicidade para nossos semelhantes. Isto significa, com frequência, tomar a iniciativa de encorajá-los, conforme o ensinamento do Apóstolo: “Não nos cansemos de fazer o bem, porque a seu tempo colheremos, se não relaxarmos. Por isso, enquanto temos tempo, façamos o bem a todos os homens, mas particularmente aos irmãos na Fé” (Gal 6, 9-10).

Sem dúvida, quando as tempestades da tribulação desabam sobre alguém, uma palavra ou gesto de conforto pode aliviar o peso de seu infortúnio. Mais importante, porém, é estarmos preparados para enfrentar os escolhos e perigos da longa viagem e, quando necessário, nos adiantarmos com galhardia para abrir caminho, permitindo que os outros avancem mais decididamente rumo à Pátria Eterna.

Se formos generosos nesta tarefa, não temendo as dificuldades e os sofrimentos de quem é chamado a liderar, o nosso “bando” avançará sem experimentar as amarguras do egoísmo, a exemplo de Maria Santíssima que até nas terríveis horas da Paixão foi guia e sustentáculo da Igreja nascente.

Com o auxílio desta Mãe, que é a Fortaleza dos fracos, estaremos sempre animados e animando, e, quando atingirmos nosso destino final, receberemos a recompensa daqueles que, tendo “introduzido muitos nos caminhos da justiça, luzirão como as estrelas, com um perpétuo resplendor” (Dn 12, 3).

 Revista Arautos do Evangelho Jan. 2017

Livrai-nos do mal

María Alejandra Acevedo Sánchez

Numa tarde, encontrava-se São João Bosco, que tinha profundo conhecimento das almas, percorrendo as avenidas da sua cidade natal, com o objetivo de conquistar almas para Deus. Eis que, naquele instante, avista, do outro lado da rua, um rapaz que sofria fortes tentações, pois estava sendo atormentado por uma multidão de demônios.

 De repente, o santo vê ao longe um outro menino que se aproxima do rapaz. Chegando ao seu encontro, todos os demônios que ali atormentavam o jovem fogem imediatamente. Ao contemplar esta cena, o homem de Deus se pergunta:

 — Que menino misterioso! Quem poderá ser, pois conseguiu enxotar todos os demônios! Será por acaso o Menino Jesus ou o Anjo da Guarda do pobre rapaz?

Talvez o leitor tenha pensado em idênticas perguntas.

 Nesse mesmo momento, aparece ao justo sacerdote o seu Anjo Custódio, que lhe pergunta:

— Gostarias de saber quem é aquele menino que conseguiu afugentar o esquadrão de demônios? Obtendo uma resposta afirmativa, o Anjo prossegue:

— Aquele menino é uma má amizade, que equivale a toda aquela presença diabólica. Assim, os demônios, ao verem o menino mau se aproximar, partiram tranquilos, sabendo que aquela amizade valia pelo trabalho de todos eles.

É o caso de dizer: “ Diz-me com que andas e dir-te-ei quem és”!

 

Nostalgia do Paraíso

Ir. Patricia Victoria Jorge Villegas, EP

Deus é eterno e para Ele não existe o tempo. Ao admirar a obra dos seis dias — podemos imaginar —, o Divino Artífice considerou não apenas tudo o que acabara de criar, mas também as maravilhas a serem feitas pelos homens ao longo dos séculos. Quis Ele tornar Adão e seus descendentes partícipes da criação, dando-lhes inteligência e talento para, de alguma forma, completá-la por meio de sua arte e engenho.

Tomemos, por exemplo, o chocolate. Quem, ao comer um ótimo bombom não sente bem-estar, alegria e ânimo? Depois de um dia de árduo trabalho, um pouco de chocolate amargo ajuda a recuperar da fadiga e do desgaste emocional, pelas comprovadas propriedades energéticas do cacau, além de fazer bem para a saúde por causa dos flavonoides e outras substâncias benéficas que ele contém.

Produto do trabalho humano, o chocolate é feito da amêndoa do cacaueiro, torrada e fermentada. Esta árvore tropical, originária da bacia do rio Amazonas e da América Central, se cultiva hoje também por amplas zonas da África e da Ásia. Os habitantes daquelas regiões, na época pré-colombiana, usavam seu fruto para preparar uma bebida quente e amarga, de propriedades revitalizantes. Considerado alimento das divindades, o cacau era consumido pelas castas superiores daqueles povos.

Levado para a Europa pelos colonizadores espanhóis, acabou sendo objeto de aprimoramento em seu preparo e apresentação, tornando-se o chocolate especialidade de países como a Suíça, França, Bélgica e Holanda. Não poucos mosteiros, sobretudo os cistercienses, destacaram-se pela fabricação de chocolates artesanais, pois a Igreja é Mãe e sabe bem aproveitar as invenções dos homens — quando são boas! — para ajudar as almas.

No entanto, pode um alimento ter influência nas almas? Há no chocolate algo de especial para ele fazer parte da austera vida monástica, a ponto de haver em alguns conventos espaço para uma chocolataria, onde esta iguaria é produzida e degustada?

Sendo o homem composto de corpo e alma, é indispensável o físico auxiliar o espiritual. Assim como quando contemplamos um belo panorama marítimo nossos sentidos se deleitam com o movimento das ondas, a evolução dos peixes e gaivotas, o azul das águas, e depois nosso espírito se enche de considerações sobrenaturais a respeito do que contemplamos, de forma análoga, quando tomamos algum alimento ele causa certo efeito em nossa alma.

Por isso, ao entramos numa confeitaria e saborearmos uma trufa ou um éclair de chocolate, nosso espírito se predispõe subconscientemente, pelo deleite do paladar, a amar a perfeição em todas as coisas, de acordo com as palavras do Divino Mestre: “Sede perfeitos, assim como vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5, 48).

Deste modo, além do bem-estar que um chocolate de qualidade produz em nosso organismo, ele pode nos ajudar a lembrar da vida eterna e, em consequência, trazer uma nostalgia do Paraíso perdido: se formos santos nesta Terra, quantas maravilhas muitíssimo superiores a um apurado éclair ou a requintados bombons de licor, gianduia ou praliné poderemos degustar no Céu? Pois se são as obras humanas e terrenas tão aprazíveis, como serão as celestes?

Estamos aqui de passagem e devemos saber usar as mínimas oportunidades — como provar um chocolate… — para transcender ao mundo sobrenatural. Peçamos a Nossa Senhora que nos ajude a elevar nossos corações às grandezas que nos esperam no Céu onde, junto com os Anjos e os Bem-aventurados, gozaremos da felicidade eterna.

Onde está o pulchrum?

Ir Denise Maria Paschoal Rocha, EP

3º ano de Ciências religiosas

Deus é a fonte da pulcritude e não pode criar seres contrários a Si. Portanto, todas as criaturas têm algum aspecto pelo qual refletem a beleza d’Ele.

Em tese, essa afirmação é facilmente aceita. Mas, se a aplicarmos a algo concreto, não será tão simples assim… Por exemplo, quem ousaria responder a esta questão que Plinio Corrêa de Oliveira levantou certa vez: onde está a pulcritude da barata?

Difícil, não é? Para alguns, causará até certo mal-estar só o fato de pensar nesse inseto… Mas Dr. Plinio, com seu perfeito senso de justiça, sabia dar a cada ser o devido valor. Assim, ao responder à referida questão, ele disse que a pulcritude da barata está na casca dela, no seu marrom furta-cor que até parece um verniz. Além disso, embora seja um inseto insignificante, ela é superior a uma pedra preciosa, pois possui vida e a pedra não. Tem, portanto, uma pulcritude ontológico-metafisica em algo superior a uma joia.

A paz que o mundo ignora

Ir. Lucía Ordóñez Cebolla, EP

Encontrava-se um cartuxo, certa vez, cavando no exterior do seu convento quando, inesperadamente, deparou-se com um vulto. Era o corpo de um monge ali enterrado fazia muito tempo, mas que se conservava incorrupto, como se estivesse vivo, a ponto de haver jorrado sangue fresco dele quando o irmão bateu-lhe com sua pá. Cheio de emoção, o religioso correu para comunicar o milagre ao padre superior, o qual, sem perder a serenidade, lhe disse: “Voltai a fechar a cova”.

Tal episódio, que chegou até nós conservando o anonimato de seus protagonistas, bem poderia ter-se dado na Cartuxa onde faleceu seu santo fundador – o Êremo de Santa Maria da Torre, na Calábria -, pois faz parte da regra serem enterrados sem mais caixão do que seu próprio hábito e sem mais epitáfio do que uma cruz.

Esta ordem religiosa, fundada por São Bruno em 15 de agosto de 1084, atravessou os séculos sem sofrer mudança nos seus estatutos: “numquam reformata quia numquam deformata – nunca foi reformada, porque nunca foi deformada”.2 Até hoje, seus conventos brilham por uma mesma forma de vida contemplativa, na qual a austeridade da penitência, o silêncio, o trabalho manual e a oração comunitária se fundem, transformando a vida dos seus integrantes num holocausto de agradável perfume que se evola até Deus.

O local onde São Bruno viveu seus últimos anos encontra-se numa região montanhosa, regada por rios e pequenos lagos. Em certas estações do ano, a neblina e o frio realçam e enaltecem o envolvente mistério do lugar. Dificilmente se encontram no mundo paragens como esta, onde a vontade de voltar o espírito a Deus em oração desponte de maneira tão intensa e profunda. Nos seus jardins há, sem dúvida, uma discreta ação do Espírito Santo, convidando-nos a elevar a mente rumo às montanhas eternas.

Entretanto, longe de destacar-se do resto da Igreja militante, a Cartuxa da Serra de São Bruno, embebida sobremaneira do carisma de seu fundador, rege a vida da cidadezinha que a circunda, visto que, embora radical no seu afastamento do mundo, a ordem impregna com sua sacralidade os que por ela se deixam influenciar.

– É a primeira vez que estais vindo? – perguntou-nos um ­montanhês da região – Pois voltareis, porque São Bruno atrai, ele vos puxa!

E assim foi. Apenas alguns minutos de passeio pelos bosques que circundam o mosteiro bastaram para descobrir quanto pode falar o silêncio sem precisar de palavras e quanto a solidão leva a conviver com o próprio Deus. Neste ambiente pervadido de graças, até o rigor do trabalho e da penitência se dulcifica no contato com o mundo sobrenatural, incomparavelmente superior àquele que apalpamos.

Depois de haver conhecido esta Cartuxa, pudemos compreender melhor as palavras proferidas pelo Divino Mestre: “Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada” (Lc 10, 42)… As almas que se deixam arrebatar pela contemplação “são a mola oculta, o motor que dá impulso, nesta Terra, a tudo ­quanto diz respeito à glória de Deus, ao Reino de seu Filho e ao cumprimento perfeito da vontade divina”.

Uma lápide do museu da Certosa di Santo Stefano, pertencente ao mesmo complexo religioso, resume tudo o que ali se experimenta, numa belíssima frase de São Bruno: “Aqui, pela fadiga do combate, Deus dá aos seus atletas a desejada recompensa, isto é, a paz que o mundo ignora e a alegria no Espírito Santo”.

Revista Arautos do Evangelho, Março 2016

Quando Deus conduz um homem…

Ir. Maria Beatriz Ribeiro Matos, EP

3ª ano de Ciências Religiosas

Belo erguia-se o castelo de Kerlois, da família Keriolet, de elevada linhagem da Bretanha. Nascido o único filho varão em 1602, o horizonte familiar começa a se toldar, pois o menino, chamado Pierre, logo se revelou indisciplinado e desobediente.

Mandaram-no para ser educado com os jesuítas. Ali sua diversão era roubar o chapéu e o manto dos alunos e debicar dos sacerdotes. Seus pais, aflitos, tentavam reconduzi-lo ao bom caminho, ora com castigos, ora com afagos. Tudo se mostrava inútil! Despediram-no de casa.

Errante, pobre e orgulhoso, Pierre foi parar na rua. Entretanto, quando soube da morte do pai, exultou de alegria: estava rico! Voltando ao castelo, esbanjava seus bens numa vida dissoluta, e nada o amedrontava. Nem mesmo os vários avisos recebidos da Providência.

Numa noite de tempestade, Pierre dormia quando um raio atingiu sua cama: a metade em que ele estava ficou intacta e a outra em chamas. Irado, ele apanhou a pistola e atirou para o Céu, em desafio a Deus que se “atrevia” a ameaçá-lo.

Certo dia, foi a uma cidade vizinha com uns amigos para se divertir. No caminho, foram assaltados e espancados. Ficando gravemente ferido, ele fez uma promessa a Nossa Senhora de Liesse: visitaria seu santuário se não morresse. Passado o perigo, foi-se a piedade de Pierre. Apenas rezava todos os dias três Ave- Marias, sem saber por que o fazia…

Em outra ocasião, sonhou que descia uma rampa vertiginosa, ouvindo risos estridentes, blasfêmias e zombarias, cada vez mais próximas: estava no inferno. Assustado, despertou, decidido a mudar de vida, e ingressou na Cartuxa… onde morou oito dias!

De volta ao século, a vida de antes não o contentava mais e tornou-se ainda pior. Até que soube das ursulinas de Loudun — caso famoso em toda a França —, que, sem culpa própria, ficaram possuídas pelo Maligno. Quanto mais elevado fosse o posto da religiosa na hierarquia conventual, mais demônios tinha no corpo. Já havia alguns meses que se faziam contínuos exorcismos.

Todas as pessoas receavam acercar-se da cidade, Pierre quis mostrar sua bravura e, por orgulho, para lá se dirigiu. Ao deparar-se com a capela do mosteiro, decidiu entrar: viu uma religiosa debatendo-se no chão e vociferando, não obstante as ordens do exorcista. O jovem julgou ser este um espetáculo atraente e divertido, e sentou-se no fundo da igreja. A possessa voltou-se para ele e disse:

— Oh, meu amigo, que fazes aqui?

Ante o assombro dos assistentes, Pierre não se espantou:

— Vim para meus afazeres…

— Sim, para teus afazeres — respondeu o demônio num tom

sarcástico — Tu nem sabes o que estás fazendo!

Pierre gostou desta primeira experiência e se propôs voltar. Por nove dias nada de extraordinário aconteceu. No décimo dia, entretanto, como o demônio não saía, o padre lhe perguntou:

— Por que te recusas a sair?

— É porque Ela não me dá permissão, até que aquele homem se converta!

A possessa voltou-se e apontou para Pierre que, desta vez, ficou terrificado!

O demônio pôs-se a blasfemar e a acusar a justiça de Deus, por ter Ele condenado tantos anjos por um só pecado e por querer perdoar aquele homem abominável:

— Ó miserável, eu julgava possuir-te e te levava ao inferno, até que fizeste a Nossa Senhora de Liesse aquele voto que nunca chegaste a cumprir. Ingrato e indigno das prodigalidades desta Virgem! Blasfemador e ateu! É possível que tal homem receba misericórdia? Ó injustiça divina!

Pierre estava vencido. Arrependeu-se no mesmo momento e fez uma confissão pública. No outro dia; prosternado na igreja, expiando seus pecados, Pierre viu começar novo exorcismo. O demônio, furioso por tal perda, não se continha:

— Ele está em tal estado que, se continua assim, estará tão alto no Céu como esteve fundo no inferno conosco.

— Quem trabalha tão poderosamente para sua salvação? — perguntou o sacerdote.

— É a Virgem Maria, a grande amiga deste homem! — respondeu o demônio.

Pierre passou a ser ardente devoto de sua Benfeitora e foi ordenado sacerdote por vontade expressa d’Ela, tornando-se ele próprio exorcista, pelo que o demônio sempre esbravejava por obedecer a quem antes lhe servira. Em seu túmulo, uma frase resume sua vida: “Aqui jaz Pierre de Keriolet, conquista de Maria. Ela o tornou seu fiel e zeloso servidor”.

“Já não sou eu que vivo”

Ir. Maria Teresa Ribeiro Matos, EP

O confessor, que muito conhecia e admirava Catarina, não sabia o que pensar sobre o que esta dizia em sua última confissão. No princípio, achava tratar-se simplesmente de um exagero de expressão, próprio à nacionalidade de ambos, mas a santa de Siena continuava de modo sério:

— É verdade, Padre. Posso dizer que estou privada de meu coração. O Senhor me apareceu, abriu-me o peito do lado esquerdo, e o levou consigo.

Tentou então o Padre dissuadi-la, dizendo ser impossível continuar viva sem tal órgão. Ela, porém, retrucava dizendo que para Deus nada é impossível, e que estava convencida de não possuir mais o coração.

De fato, tempos antes, em um dia no qual a santa rezava com grande fervor o salmo de Davi: “Ó meu Deus, criai em mim um coração puro, e renovai-me o espírito de firmeza”, (Sl 50, 12) lhe havia parecido o Divino Mestre, e, tendo aberto o peito dela, tirou-lhe o coração. Daí fazer tal afirmação com tanta certeza.

E, assim, viveu sem o órgão vital durante certo tempo. Um dia, porém, estava ela na capela da Igreja dos frades pregadores, onde costumavam reunir-se as irmãs da Penitência de São Domingos. Terminada as orações, todas se retiraram. Catarina, contudo, ficou sozinha rezando. Quando já ia sair, uma forte luz a envolveu, e lhe apareceu o Senhor, tendo nas mãos um coração humano resplandecente. O Redentor se aproximou dela, abriu-lhe o peito e disse:

— Caríssima filha, como no outro dia tomei teu coração, dou-te pois agora o meu.

Catarina tomada de uma grande alegria sentia em seu interior as palavras de São Paulo: “Eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim” (Gl, 2, 20).

E no seu peito ficou para sempre a cicatriz da sublime ferida. 1

1 Cf. UNDSET, Sigrid. Santa Catarina de Siena. Trad. Maria Helena Amoroso Lima Senise. Rio de Janeiro: Agir, 1956, p. 91.

Os nossos maiores benfeitores

Ir Clotilde Neuburger, EP

No primeiro dia da criação, Deus fez a luz. Certamente este trecho não se refere à luz material, pois esta seria criada no quarto dia. Do que se trata, então? Como ensina São Tomás de Aquino, esta seria uma outra “luz” imensamente superior: a formação da criatura espiritual, os Anjos.

Apesar de muito se ouvir falar deles, nem todos têm um exato conhecimento da finalidade para qual eles foram criados. E, com relação a nós, humanos, em que nos ajudam e favorecem?

Todas as criaturas de Deus, sejam Anjos, homens, animais ou seres inanimados, têm relação entre si, porém, mais especialmente os Anjos para com os homens. Na verdade, ao criá-los, Deus não teve em vista somente a Sua glória extrínseca. Em Sua infinita Providência, outorgou-lhes todo o governo sobre estes mesmos homens, para ajudá-los neste vale de lágrimas e guiá-los em seu percurso rumo à eternidade.

Tanto é assim que, segundo afirma Santo Agostinho, não podemos considerar duas sociedades separadas, uma dos Anjos e outra dos homens, pois se assim fosse, estes nada teriam a ver com aqueles, e vice-versa.

Anjos e homens formam uma só sociedade, que se entrelaça e se inter-relaciona. Mons João Clá Dias comenta que “os Anjos são muito mais exemplos para os homens do que os próprios homens são exemplos para outros homens.”

Mas nesta nossa relação com os Anjos, quais são os benefícios que eles nos trazem? Os teólogos costumam reduzi-los a doze:

  1. Repreendem nossas faltas.

Muitas vezes, quando sentimos uma dor de consciência por termos feito algo de errado, é um anjo que nos está admoestando.

  1. Ajudam a nos livrar do pecado.
  2. Afastam os obstáculos que atrapalham nosso progresso espiritual.

Eles nos amparam e nos dão forças para evitar certas ocasiões e más companhias que impedem nosso progresso.

  1. Fazem-nos evitar as tentações.
  2. Instruem-nos.

Eles iluminam nossa inteligência e fortalecem nossa vontade para praticarmos o bem e a virtude, afastando-nos do caminho do mal.

  1. Revelam-nos, ocasionalmente, segredos.

Por exemplo: Podemos sentir, dentro de nós, uma inspiração para rezarmos por alguém que está passando por dificuldades. É o Anjo revelando-nos que aquela pessoa está necessitando de orações.

  1. Consolam-nos.

Às vezes estamos em uma situação de grande provação e, de repente, sentimos dentro da alma uma consolação. São os Anjos.

  1. Fortalecem-nos.
  2. Guiam-nos à Pátria Celeste.
  3. Expulsam e vencem nossos inimigos.

Os Anjos, quando se aproximam de nós, fazem com que os demônios fujam espavoridos.

  1. Suavizam as tentações.
  2. Rezam por nós e apoiam as nossas orações.

Inúmeras vezes fazemos uma oração sem grande valor e obtemos um resultado enorme. Não nos enganemos! São os Anjos que se uniram às nossas orações, dando-lhes força.

Assim, chegamos à seguinte conclusão: o fato de termos recebido de Deus um Anjo da Guarda pessoal é um presente incomparável. Devemos ter para com ele uma amizade pessoal, que nos faça um só com ele. Nunca nos deixemos iludir, pensando estar sozinhos ou nos imaginando capazes de praticar qualquer ato bom, sem o auxílio da graça e dos Anjos.

bem-feitores

A cor da alma

Carolina Amorin Zandoná

2º ano de Ciências Religiosas

Certa vez Plinio Corrêa de Oliveira teceu o seguinte comentário a respeito de uma imagem de Nossa Senhora das Graças: “Esse branco corresponde à cor da alma de Nossa Senhora. A inocência da Sancta Virgo Virginum — que é inocente sem comparação com nada e com ninguém, acima de tudo, exceto de Nosso Senhor Jesus Cristo — se exprime nesse branco de um modo maravilhoso”.[1]

O caro leitor já pensou em meditar sobre as cores? É a isto que o convido, propondo-lhe como tema um desafio: se pudéssemos ver a alma de um Santo, de que cor ela seria?

Para não ficarmos apenas na teoria, voltemos nossa atenção a um exemplo concreto: a vidente de Lourdes, Santa Bernadette Soubirous.

Bernadette, uma pobre camponesinha, filha de um moleiro, com uma inteligência bem limitada e uma saúde muito débil, foi escolhida pela Santíssima Virgem para ser uma verdadeira heroína.

Bem poderíamos comparar a sua alma a um vermelho carmesim, simbolizando sua forte personalidade, decidida a propagar incondicionalmente a mensagem de Nossa Senhora, apesar de todos os revezes que se lhe apresentaram ao longo de sua curta vida. Todas as ingratidões, maus tratos e perseguições de que foi alvo eram, na verdade, elementos de santificação enviados pela Providência que acrescentaram ao vermelho carmesim de sua alma o esplendor áureo do heroísmo.

Somente na eternidade poderemos contemplar a glória e a vitória de todas as lutas dos santos que agora vislumbramos, considerando as cores de suas almas.

[1] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Porte régio e virginal. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano XVI, n. 188, nov. 2013, p. 19.

Uma devoção antiga e sempre nova ( cont )

CONTINUAÇÃO DO POST ANTERIOR

Um Papa recente consagrado a Maria

Esta forma de devoção a Maria não seria, contudo, um tanto acrônica e pouco adequada para os dias atuais?

Não é o que pensa um dos Papas mais recentes, que exerceu seu longo pontificado sob um lema indubitavelmente mariano: Totus tuus. Na Encíclica Redemptoris Mater, São João Paulo II ensina: “a espiritualidade mariana, assim como a devoção correspondente, tem uma riquíssima fonte na experiência histórica das pessoas e das diversas comunidades cristãs que vivem no seio dos vários povos e nações sobre toda a face da Terra. A este propósito, é-me grato recordar, dentre as muitas testemunhas e mestres de tal espiritualidade, a figura de São Luís Maria Grignion de Montfort, o qual propõe aos cristãos a consagração a Cristo pelas mãos de Maria, como meio eficaz para viverem fielmente os compromissos batismais. E registro ainda aqui, de bom grado, que também nos nossos dias não faltam novas manifestações desta espiritualidade e devoção”.

Por ocasião de sua visita ao Santuário de Jasna Gora, em 1979, o mesmo Papa João Paulo II explica melhor em que consiste esta consagração. Referindo-se ao “ato de total servidão à Mãe de Deus” promovido pelo Primaz da Polônia em 1966, explicou ele: “O ato fala de ‘servidão’ e esconde em si um paradoxo semelhante às palavras do Evangelho, segundo as quais é necessário perder a própria vida para a encontrar (cf. Mt 10, 39). O amor constitui, de fato, a consumação da liberdade, mas, ao mesmo tempo, ‘o pertencer’ – isto é, o não ser livre – faz parte da sua essência. Mas este ‘não ser livre’ no amor não é entendido como escravidão, mas sim como afirmação de liberdade e como consumação dela. O ato de consagração na escravidão indica, portanto, singular dependência e confiança sem limites. Neste sentido a escravidão (a não liberdade) exprime a plenitude da liberdade, do mesmo modo que o Evangelho fala da necessidade de perder a vida para a encontrar na sua plenitude”.

 São João Paulo II nos convida, assim, parafraseando São Paulo (cf. Rm 8, 21), a participar da gloriosa liberdade dos escravos de Maria.

Escravidão que liberta, liberdade que escraviza

Um ano depois da visita do pranteado Pontífice a Jasna Gora, num artigo escrito para o jornal Folha de São Paulo, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira sintetizava tal paradoxo com estas palavras: “Há uma escravidão que liberta, e há uma liberdade que escraviza”.

Denunciava ele a radical inversão de valores na mentalidade do homem moderno “alforriado” da obrigação de cumprir os Mandamentos de Deus e da Igreja: “Para uns é livre quem, com a razão obnubilada e a vontade quebrada, impelido pela loucura dos sentidos, tem a faculdade de deslizar voluptuosamente no tobogã dos maus costumes. E é ‘escravo’ aquele que serve à própria razão, vence com força de vontade as próprias paixões, obedece às leis divinas e humanas, e põe em prática a ordem”.

Ora, prossegue ele, para aqueles que à Santíssima Virgem se consagram livremente como “escravos de amor”, Ela obtém “as graças de Deus que elevem as inteligências deles até a compreensão lucidíssima dos mais altos temas da Fé, que deem às vontades deles uma força angélica para subir livremente até esses ideais, e para vencer todos os obstáculos interiores e exteriores que a eles indebitamente se oponham. […] Para todos os fiéis, a ‘escravidão de amor’ é, pois, essa angélica e suma liberdade com que Nossa Senhora os espera no umbral do século XXI: sorridente, atraente, convidando-os para o Reino d’Ela, segundo sua promessa em Fátima: ‘Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará'”.

 A sagrada escravidão a Maria : Síntese do culto mariano

Além do culto de veneração, de amor, de gratidão, de invocação e de imitação, deve-se à Virgem Santíssima, como Rainha de todo o universo, um culto de escravidão. Este último ato de culto mariano sintetiza admiravelmente todos os outros dos quais temos tratado.

O escravo fiel à sua Rainha, se realmente o é, antes de tudo A venera, reconhecendo sua excelência única. Em segundo lugar, A ama e faz o que agrade a Ela, evitando tudo o que A moleste. Está pleno de gratidão em relação a Ela pelos grandes favores que lhe tem concedido. Está pleno de confiança em sua Rainha, pois sabe que Ela conhece, pode e quer socorrê-lo em tudo o que necessite. O servo fiel à sua Rainha, por último, se de fato o é, trata de imitá-La já que A reconhece como seu modelo ideal.

Eis, portanto, como o ato de escravidão sintetiza todos os outros atos de singular culto que devemos a Maria Santíssima, Mãe de Deus, Mãe dos homens, Corredentora do gênero humano, dispensadora de todas as graças divinas, modelo insuperável de nossa vida.

15 SÃO JOÃO PAULO II. Redemptoris Mater, n.48.

16 SÃO JOÃO PAULO II. Homilia e Ato de Consagração a Nossa Senhora, no Santuário Mariano de Jasna Gora, 4/6/1979.

17 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Obedecer para ser livre. In: Folha de São Paulo. São Paulo. Ano LIX. N.18.798 (20 set. 1980); p.3.

18 Idem, ibidem

19 Idem, ibidem.

Uma devoção antiga e sempre nova

Ir. Lucilia Lins Brandão Veas, EP

Um dos temas mais atraentes dentro da piedade católica é, sem dúvida, Nossa Senhora. Qual devoto seu, ao falar d‘Ela, não sente uma inefável experiência de seu amor? Quem a Ela recorreu e deixou de ser atendido?

A devoção à Santíssima Virgem aflorou nos corações dos fiéis desde os primórdios da Igreja. Já nos albores do Cristianismo, era Ela objeto de grande veneração, de atos de amor e de confiança, como o comprovam os mais antigos ícones e ternos cânticos da Igreja primitiva. Aliás, pode-se afirmar que a devoção à Mãe de Deus foi transmitida pelos próprios Apóstolos, pois não parece concebível que tenha havido um istmo de silêncio entre eles e os primeiros Padres da Igreja, os quais não deixam de mencioná-La em seus escritos.

Considerada por eles “o venerando tesouro de todo o orbe”,1 Nossa Senhora constituiu para os cristãos uma imagem perfeita de Nosso Senhor Jesus Cristo e um canal seguro para se chegar a Ele. Como põe em realce Mons. João Scognamiglio Clá Dias, “ambos, Mãe e Filho, inseparáveis, são a arquetipia da criação, a causa exemplar e final em função da qual todos os outros homens foram predestinados”.

Cada vez que alguém A louva, Ela glorifica Jesus

Analisemos por este prisma a narração de São Lucas no início de seu Evangelho.

Ao ser visitada pelo Arcanjo São Gabriel, proclama a Virgem Maria: “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em Mim segundo a tua palavra” (1, 38). E Santa Isabel, ao ouvir pouco depois a saudação de sua prima, exclama: “Bendita és Tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. Donde me vem esta honra de vir a mim a Mãe de meu Senhor? […] Bem-aventurada és Tu que creste, pois se hão de cumprir as coisas que da parte do Senhor Te foram ditas!” (1, 42-43.45).

 A Virgem Maria é, desta forma, proclamada “bendita” e “bem-aventurada” porque creu, proclamou-Se escrava do Senhor e tornou-Se a Mãe do Messias, restituindo imediatamente a Deus o louvor recebido: “Minha alma glorifica o Senhor, […] porque olhou para sua pobre serva. Por isto, desde agora, Me proclamarão bem-aventurada todas as gerações” (1, 46.48).

E é sempre assim: cada vez que alguém A louva, Ela glorifica, ato contínuo, seu Divino Filho. Venerá-La é, portanto, um ótimo meio de glorificar Jesus, como sempre ensinou o Magistério da Igreja e foi reafirmado pelo Concílio Vaticano II: “de modo nenhum [a devoção a Nossa Senhora] impede a união imediata dos fiéis com Cristo, antes a favorece”.

Origem da escravidão a Nossa Senhora

Fica patente, então, que a prática da escravidão a Nossa Senhora teve seu ponto de partida no mais sublime acontecimento da História: a Encarnação do Verbo, quando o próprio Deus Se fez Homem, submetendo-Se a Ela (cf. Lc 2, 51). E ao ouvirmos o Apóstolo atestar que Cristo “aniquilou-Se a Si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-Se aos homens” (Fl 2, 7), compreendemos que Ele quis que isto se desse n’Ela, deixando-nos seu divino exemplo e convidando-nos a imitá-Lo.

Logo no início da História da Igreja encontramos documentos que exaltam a santidade da Mãe de Deus, mencionam seu papel de Medianeira, dão-Lhe o tratamento de Senhora e, pouco mais tarde, o título de Rainha da criação.4 Em manifestações de veneração como estas vê-se, em gérmen, os fundamentos da devoção a Ela que culmina na consagração como escravo de amor.

Santo Efrém de Nísibe foi o primeiro Padre da Igreja de que se tem notícia a proclamar-se servo de Maria.5 Muitos outros o seguiram nesta luminosa trilha da consagração de amor. Objetos dos séculos V e VI encontrados em diversos lugares do Império Bizantino – anéis, correntes, moedas, entre outros – possuem inscrições nas quais a pessoa que o portava se denomina “Servo da Mãe de Deus”.

No século VII, vemos Santo Ildefonso de Toledo declarar: “Se sou vosso servo, é porque vosso Filho é meu Senhor. Vós sois minha Soberana, porque sois a Escrava de meu Senhor. Sou servo da Serva de meu Senhor, porque Vós, minha Soberana, sois a Mãe de meu Senhor”.

E ainda: “Para demonstrar que estou a serviço do Senhor, dou como prova o domínio que sua Mãe exerce sobre mim, porque servir à sua Escrava é servir a Ele. […] Com que entusiasmo desejo ser servo desta Soberana! Com que fidelidade quero submeter-me a seu jugo! Com que perfeição tento ser dócil a seus mandatos! Com que ardor procuro não subtrair-me a seu domínio! Com que avidez desejo estar sempre no número de seus verdadeiros servos! Seja-me, pois, concedido servi-La por dever e, servindo-A, merecer seus favores e poder ser sempre seu irrepreensível servo”.

Na Irlanda, entre os séculos IX e XII, há notícias de que tão grande era a honra de designar-se servo de Maria, que este título tornou-se nome próprio, usado inclusive por membros da família real.9 Um só, de Oriente a Ocidente, era o pulsar do coração dos católicos em relação à Mãe de Deus: tornar-se seu escravo, eis uma das mais sublimes e inefáveis honras.

A voz da graça, que inspirava tanto ilustres varões quanto a gente simples a se consagrarem à Virgem Maria como escravos, não poderia deixar de tocar vários dos Sucessores de Pedro. No início do século VIII, encontramos o Papa João VII a proclamar-se servo de Maria; vários outros, posteriormente, assim se denominaram, entre eles: Nicolau IV, Pio II, Paulo V, Alexandre VIII, Clemente IX, Inocêncio XI.

Uma ordem religiosa de servos

Significativa foi também a aprovação pontifícia da Ordem dos Servos de Maria – os servitas -, fundada em 1233. Como testemunham os anais desta instituição, seu nome foi inspirado pela Santíssima Virgem ao povo: “Desde o início da nossa ordem, isto é, quando nossos ilustres primeiros pais se reuniram em comunidade para dar-lhe início, logo passaram a ser popularmente chamados pelo nome de ‘frades Servos da Bem-Aventurada Virgem Maria’, sem que eles soubessem de onde e de quem viera tal nome. Daí se deduz que, no princípio, de nenhum outro eles receberam esse nome a não ser de Nossa Senhora mesma, a Bem-Aventurada Virgem Maria, mediante a voz do povo, o qual, inspirado por Deus, aprovava e aclamava tal nome que não fora inventado por mente humana”.

O documento continua: “Como Nossa Senhora não quisera que a origem da ordem fosse propriamente atribuída a algum homem, da mesma forma era justo que o nome da ordem dos seus frades não fosse escolhido e dado por outro, a não ser por Ela mesma e seu Filho. Foi, pois, vontade de Nossa Senhora que esse nome por Ela escolhido se tornasse comum na boca do povo”.

O fato de atribuir o nome de Servos de Maria a um conjunto de varões, que edificavam por seu novo modo de vida, demonstra bem quanto o povo tinha em boa conta tal predicado e comprova que o fazer-se servo de Nossa Senhora, consagrando-Lhe a própria vida, era um costume já bastante difundido naquela época, muito compreensível para almas imbuídas de fé.

Harmonia entre doutrina e piedade popular

Ao longo dos tempos foi aumentando o número de pessoas convidadas pela graça a se consagrarem a Nossa Senhora na qualidade de escravos de amor, sem que a teologia tivesse especial preocupação em explicitar a doutrina a Ela referente. Isto é normal, uma vez que tudo indica que as realidades concernentes a Maria foram antes confiadas ao coração amante e simples do povo cristão, mais que ao raciocínio da teologia especulativa. É o que diz um conceituado estudioso na matéria: há certas coisas muito mais perceptivas ao abrasado amor de filho do que ao frio entendimento de um sábio.

Quando, porém, a ortodoxia desta devoção começou a ser posta em dúvida, não faltaram sábios com coração de filhos que a souberam demonstrar com método, clareza e sólidos embasamentos doutrinários. Entre estes podemos citar São Bernardo, Santo Alberto Magno, São Boaventura, Ricardo de São Lourenço e, sobretudo, São Luís Maria Grignion de Montfort. Apoiando-se no privilégio da maternidade divina concedido a Nossa Senhora, na sua plenitude de graças, no amor a Ela dispensado pela Santíssima Trindade e nas honras prestadas pelo Filho de Deus à sua Mãe terrena, demonstraram eles a legitimidade teológica do ato de consagração como escravo de amor a Maria.

Em 1595, uma concepcionista espanhola, madre Inês Batista de São Paulo, fundou em Alcalá de Henares a Confraria dos Escravos da Mãe de Deus, primeira associação formada com o objetivo explícito de incentivar e praticar a escravidão mariana, que, naquele então, se difundia por todo o continente europeu. E coube ao Cardeal Bérulle, fundador da Sociedade do Oratório, a glória de introduzi-la na França.

O padre Olier, fundador do Seminário e Sociedade de São Sulpício, de Paris, propagou-a ainda mais, impregnando com seu perfume a escola francesa de espiritualidade, na qual se formaria São Luís Grignion de Montfort. Este Santo, com seu Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem, vincou definitivamente a consagração como escravo de amor a Jesus por Maria: “quanto mais uma alma se consagrar a Maria, mais consagrada estará a Jesus Cristo. Eis porque a perfeita consagração a Jesus Cristo nada mais é que uma perfeita consagração à Santíssima Virgem”.

Muitos há, todavia, que se assustam com a palavra escravo e argumentam que nos primeiros séculos se usava a expressão servo de Maria – servus Mariæ, em latim – para significar esta entrega total, inteira, fiel e cheia de confiança do próprio ser a Nossa Senhora. Ora, ambos os termos podem ser usados indistintamente, pois a palavra latina servus14 tem o mesmo sentido que a palavra escravo, usada com muito mais frequência a partir de São Luís Grignion.

Continua no próximo post.

1 SÃO CIRILO DE ALEXANDRIA. Homilia IV: MG 77, 991.

2 CLÁ DIAS, EP, João Scognamiglio. Predestinada desde toda a eternidade. In: O inédito sobre os Evangelhos.

Città del Vaticano-São Paulo: LEV; Lumen Sapientiæ, 2013, v.VII, p.16.

3 CONCÍLIO VATICANO II. Lumen gentium, n.60.

4 Inúmeros são os documentos antigos que se referem a Maria Santíssima sob estes títulos e privilégios. Para mencionar apenas alguns, citamos: cf. SÃO SONFRÔNIO DE JERUSALÉM. In SS. Deiparæ Annuntiationem. Oratio II, c.XXI: MG 87, 3242; HESÍQUIO DE JERUSALÉM. In Præsentatione Domini et Salvatoris nostri Iesu Christi. Sermo I: MG 93, 1470; SÃO GERMANO DE CONSTANTINOPLA. In Præsentatione SS. Deiparæ. Sermo I, c.IX-X: MG 98, 302-303; In Annuntiationem SS Deiparæ: MG 98, 322; SÃO METÓDIO DE OLIMPOS. Sermo de Simeone et Anna quo die Dominico in templo occurrerunt, ac de Sancta Deipara, c.V: MG 18, 359.

5 Cf. SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. Tratado da verdadeira devoção à SantíssimaVirgem, n.152. 15.ed. Petrópolis: Vozes, 1987, p.147.

6 ROSCHINI, OSM, Gabriel María. La Madre de Dios, según la fe y la teología. 2.ed. Madrid: Apostolado de la Prensa, 1958, v.II, p.370.

7 SANTO ILDEFONSO DE TOLEDO. De Virginitate Perpetua S. Mariæ, c.XII: ML 96, 106.

8 Idem, 107-108.

9 Cf. WATERTON, FSA, Edmund. Pietas Mariana Britannica. A History of English Devotion to the Most Blessed Virgin Marye Mother of God. London: St. Joseph’s Catholic Library, 1879, p.20.

10 AUTOR INCERTO. Legenda da origem da Ordem dos Servos da Bem-Aventurada Virgem Maria, c.VII, n.32. In: Ordo Servorum Mariæ: http:// servidimaria.net.

11 Idem, ibidem.

12 Cf. MARÍN-SOLA, Francisco. La evolución homogénea del dogma católico. Madrid: BAC, 1952, p.405.

13 SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT, op. cit., n.120, p.119.

14 “Servus est res — O servo é coisa”, prescrevia o antigo Direito Romano.

Sede pobres!

Ir Letícia Sousa, EP

“Decapitai-o! Morte ao rei! Abaixo a monarquia! Viva a república!” Frases como essas retumbavam fortemente nas ruas de Paris nos anos da Revolução Francesa. O populacho acorria à capital por falta de pão e, estando lá, se unia aos revolucionários republicanos contra o Monarca e a nobreza.

Mas, essa situação, outrora protegida pelo lema “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, com o passar dos anos nos deixou uma incógnita: Será que a doce França conheceu melhores dias que os que antecederam a era do terror? Ou realmente a falta de pão, “causa” da revolta do povo, trouxe igualdade, pão e bens materiais para todos?

Acaso a afirmação de Nosso Senhor no Evangelho, “pobres sempre tereis entre vós” (Jo 12,8), foi apagada da bíblia que usavam os revolucionários nas terras da Filha Primogênita da Igreja? Pois, se não é assim, por que tentar estabelecer a nivelação de bens a todas as classes?

O problema, na realidade, não está em ter ou não ter bens materiais, riquezas, tesouros, e sim, ser ou não ser pobre de espírito, pois São Mateus no Evangelho frisou a profundidade da primeira bem-aventurança: “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 5,3).

Há um matiz esquecido pelos tempos atuais da necessidade desta pobreza ser de “espírito”. O autêntico pobre de espírito é aquele que reconhece que tudo vem de Deus, conformando-se com a administração Divina em dar a cada um conforme sua vontade.

O que de fato convém a todos é seguir, em graus diversos, o conselho do Divino Mestre: “Não vos aflijais, nem digais: Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos? São os pagãos que se preocupam com tudo isso. Ora, vosso Pai celeste sabe que necessitais de tudo isso. Procurai o Reino de Deus e sua justiça e o resto vos será dado por acréscimo” (Mt 6, 3 1-33).

“Nosso Senhor não me diz aqui de que as riquezas deste mundo vão ser dadas a mim como prêmio da minha piedade, não, não diz isso. Ele afirma que, se eu me entregar sinceramente à busca do Reino d’Ele, à perfeição, portanto, da santidade, vou receber essas riquezas na medida em que esta perfeição exija, na medida em que eu tenha necessidade delas, elas me virão às mãos”. [1]

Há momentos na vida terrena de Jesus em que realmente Ele critica o apego à riqueza material. O moço rico do evangelho, por exemplo, recusou um chamado tão sublime de Nosso Senhor: a ser apóstolo. “Moço rico, escolhido para ser Apóstolo, não quis. Por que não quis? Porque tinha muita riqueza e ele não quis vender tudo e distribuir aos pobres”. [2]

Entretanto, o que Cristo recomenda no evangelho não é que todos os homens vivam sem bens, mas que o principal objetivo seja buscar o reino de Deus que não é perecível.

Sigamos o exemplo de Nosso Senhor Jesus Cristo que, sendo a Riqueza, para nós se tornou pobre para nos enriquecer. Imitemos tantos santos na história que, seguindo os passos do Salvador, foram verdadeiramente pobres e, desta maneira, teremos os Céus abertos para nós, recebendo o cêntuplo já aqui nesta terra.

Acrescenta ainda nosso fundador Mons João Clá Dias que, não basta abandonar materialmente:

“Se o moço rico tivesse vendido tudo, dado aos pobres e seguido a Nosso Senhor, mas, se julgasse que ele era um grande homem porque tinha feito uma grande coisa, não adiantaria nada! Porque quando ele chegasse na hora de entrar no Céu, ele ia bater na porta da eternidade, mas as portas não iam se abrir, porque as portas não se abrem àqueles que são orgulhosos”. [3]

Portanto, peçamos a Maria Santíssima, Mãe da despretensão e da justiça, a graça de abandonarmos tudo que nos prenda a esta terra perecível e sermos pobres de espírito, e, assim, poderemos entrar nos Céus e o que precisarmos nesta terra nos será dado por acréscimo segundo o beneplácito Divino.

[1] CLA DIAS, Mons. João Scognamiglio. Meditação — 16/11/1992 (arquivo IFTE)

[2] Id. 2°Homilia 2 1/8/2007 (arquivo IFTE)

[3]  Ibid.

Na origem de grandes conversões

Ir. Patricia Victoria Jorge Villegas, EP

Não raras vezes, percorrendo as páginas da hagiografia e da História da Igreja, encontramos o bom exemplo na raiz das mais estupendas conversões. Nesses casos, o fulgor das virtudes de algum grande Santo serve a Deus como instrumento para ferir com seu dardo de amor a alma daqueles que deseja atrair inteiramente para Si.

A vida de Santo Ambrósio está coalhada de fatos magníficos, porém a “mais preciosa pedra de sua coroa de glória é a conversão de Santo Agostinho”. Repleto da sabedoria do mundo, mas longe da de Deus, Agostinho errava pelas vias do pecado e da heresia, tendo aderido à doutrina dos maniqueus. Conhecia alguns pontos da doutrina católica, mas não se deixava comover.

Mudando de Roma para Milão, ali encontrou o Bispo Ambrósio. “Tu me conduzias a ele sem eu o saber, para eu ser por ele conduzido conscientemente a Ti”,1 escreveu mais tarde em suas Confissões. As palavras de Ambrósio prendiam a atenção de Agostinho, mas seu conteúdo não o preocupava. Com o tempo, ele foi abrindo o coração aos ensinamentos do Bispo, até decidir procurar argumentos que demonstrassem a falsidade do maniqueísmo: “A fé católica não me parecia vencida, mas para mim ainda não se afigurava vencedora”.2

Entretanto, o que de fato o levou a aderir à verdadeira Religião foi o exemplo do santo Bispo de Milão: “Gostava não só de ouvir seus sermões, mas também de passar horas inteiras em seu gabinete, em silêncio, vendo esse homem de Deus trabalhar ou estudar”.3 Finalmente, declara Santo Agostinho: “Desde então comecei a preferir a doutrina católica”.4 Afirma o Papa Bento XVI: “Da vida e do exemplo do Bispo Ambrósio, Agostinho aprendeu a crer e a pregar”.5

Algo semelhante ocorreu na conversão de São Justino. Depois de percorrer em vão as escolas filosóficas mais em voga no seu tempo, em busca de conhecer a Deus, ele encontrou a verdade ao contemplar a serenidade e destemor dos mártires avançando rumo ao suplício. Este espetáculo fê-lo reconhecer a autenticidade e superioridade da Religião cristã.6 Eis o testemunho do próprio Santo: “Pelas obras e pela fortaleza que os acompanham, podem todos compreender que este – Jesus Cristo – é a Nova Lei e a Nova Aliança”.7

1 SANTO AGOSTINHO. Confissões. L.V, c.13, n.23.

2 Idem, c.14, n.24.

3 BECCARI, Luiz Francisco. Destemido defensor da Igreja. In: Arautos do Evangelho. São Paulo. Ano III. N.36 (Dez., 2004); p.36.

4 SANTO AGOSTINHO, op. cit., L.VI, c.5, n.7.

5 BENTO XVI. Audiência geral, 24/10/2007.

6 Cf. RUÍZ BUENO, Daniel (Ed.). Actas de los mártires. 5.ed. Madrid: BAC, 2003, p.303.

7 SÃO JUSTINO. Diálogo com Trifón, XI, apud RUÍZ BUENO, op. cit., p.303.

Texto extraído da Revista Arautos do Evangelho dez 2015

Por uma gota de dor, torrentes de graças

Luisa Gurgel

2º ano de Ciências Religiosas

Todo homem nasce com uma vocação específica. Entretanto, algo em comum é dado a todos: o chamado à santidade. E o que significa alcançar a santidade? Significa receber, como prêmio, a vida eterna no Céu, depois de uma vida santa de lutas bem travadas, com o auxílio divino.

Realmente, uma eternidade feliz é a melhor recompensa que qualquer um poderia receber. Porém, para alcançá-la, é necessário sofrer: “Militia est vita hominis super terram”. Por mais que se fuja da Cruz, ela é inerente à vida humana e é a única condição que Deus nos pede em troca do Céu. O que são dez, vinte, trinta, cem anos de sofrimento? Deus nos quer dar a alegria eterna, se aceitarmos o pouco de dor que Ele nos pede.

Saibamos, então, dar a gota que fomos chamados a dar e esperemos confiantes as torrentes de graças que a Providência deseja nos conceder, lembrando-nos das palavras de Plinio Corrêa de Oliveira: “A autêntica satisfação da vida é aquela sensação de limpeza de alma que se possui quando fitamos de frente a nossa cruz e dizemos SIM a ela”. 1

1 CORREA DE OLIVEIRA, Plinio. A exaltação da Santa Cruz em nós e fora de nós. Dr Plinio, São Paulo, ano 3, n. 30, set. 2000, p. 16.

Você conhece Lucius Amarus?

Ir Cecilia Maria Almeida, EP

Quem de nós, acompanhando as notícias e contemplando o cenário político-social do Brasil e do mundo, no terá ouvido algumas (ou muitas!) vezes as palavras “fraude”, “propina”, “operação lava-jato”. “impeachment”… O que pensar disso, senão que vivemos num mundo de LARÁPIOS?

LARÁPIO… Para os jovens leitores que não sabem o significado desta palavra aqui está a simples definição segundo o dicionário da Língua Portuguesa: indivíduo que furta; ladrão.

Mas qual será a origem deste termo tão incisivo?

A palavra LARÁPIO tem origem interessante: havia em Roma um juiz que vendia sentenças. O juiz se chamava Lucius Amarus Rúfilus Apius. Quando proferia suas sentenças assinava: L.A.R. Apius. Daí surgiu o termo LARÁPIO.

Mas será que LARÁPIOS são apenas aqueles que violam o 7º mandamento da Lei de Deus no tocante aos bens alheios? Pode em nosso meio existir também LARÁPIOS? Não seremos nós também um deles? Vejamos o que nos diz nosso Fundador Mons. João Clá Dias a respeito:

“Humildade é aquela virtude que nos faz ter uma visão clara, equilibrada a respeito do que somos, temos, podemos. Não é uma visão diminuída a respeito de si próprio, é uma visão equilibrada. E, portanto, não é uma exacerbação do juízo que se faz a respeito de si mesmo. Isto é fruto da virtude da temperança. Quem tem humildade e mansidão é pequenino, este é pequenino.

E os que são mansos e humildes recebem estas coisas que os sábios e os entendidos não recebem, porque os “sábios”, entre aspas!, os “entendidos “, entre aspas!, são aqueles que se julgam muito mais capazes do que na realidade. São aqueles que atribuem a si o que pertence a Deus e, portanto, são uns ladrões,  ladrões de Deus. São “teolarápios “, roubam a Deus. Essa é a realidade. E esse é todo o orgulhoso. É um ladrão de Deus, cleptomaníaco de Deus, “teoclepto”, aí está. 1

O início do ano é um tempo propício para um sério exame de consciência. E se percebermos em nós algo do tal Lucius Rufus, não percamos a confiança, pois Mons. João Clá Dias ademais de nos alertar nos dá o remédio para a cura deste mal:

O que é preciso é tomar essa posição de filho da Igreja e de Nossa Senhora, não reservando nada para si, restituindo tudo, reportando tudo, servindo desinteressadamente até o último ponto, depois dizendo:

‘“Eu sei que eu não sou apenas um servo inútil, mas que eu sou um servo infiel, que eu não fiz tudo quanto deveria fazer. Mas ao menos essa tristeza de não ter chegado até o limite, Nossa Senhora preencha com sua misericórdia e com minhas lágrimas, de maneira a chegar até o limite’. Esse é o programa da fidelidade. […] Pedir a Nossa Senhora que nos comunique uma centelha da alma d’Ela, através de São Luís Grignion, um pouco do espírito de Elias, do espírito de São Luís Grignion, de maneira tal que queiramos ser isso como ideal de nossa vida: o servo bom e fiel que foi filho em toda linha e que restituiu tudo aquilo que tinha de restituir.

Essa posição é o suco da pequena via — tenho certeza disso — do filho amoroso, desinteressado, abrasadamente amoroso. Este é o tal amor que move as criaturas, é a mola do universo. […]2

Como alcançar esta graça da restituição, a qual consiste essencialmente em atribuir a Deus os dons d’Ele recebidos? Nossa Senhora é a garantia. Deixemo-La agir na alma e ” Ela nos ensinará a glorificar ao Senhor por ter contemplado o nosso nada e, como resultado, nosso espírito exultará de paz e alegria (cf. Lc 1, 47).”3

1 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Homilia. Mairiporã, 2008.

2 Id. Conversa, 1970

3 Id. O precursor e a restituição. In: Arautos do Evangelho. São Paulo: Ano IV, n. 37, jan. 2005, p. 11.

O primeiro apóstolo dos últimos tempos (cont)

Continuação do post anterior

Ir. Juliane Vasconcelos Almeida Campos, EP

Em 1693 dirigiu-se a Paris, a fim de preparar-se para o sacerdócio. Deixava para trás a terra natal e a família, e quis percorrer a pé os mais de 300 km que o separavam da capital francesa. Este será invariavelmente seu modo de viajar, seja em peregrinação, seja em missão.

Já nesse remoto século XVII, Paris exercia sobre seus visitantes fascinante atração. Ao entrar na cidade, o primeiro sacrifício feito por Luís foi o da mortificação da curiosidade: estabeleceu um pacto com seus olhos, negando-lhes o lícito prazer de contemplar as incomparáveis obras de arte parisienses. Assim, quando partiu, dez anos depois, nada havia visto que satisfizesse seus sentidos.

Começou os estudos no seminário do padre Claude de la Barmondière, destinado a receber jovens pouco afortunados. Com a morte deste religioso, Montfort se transferiu para o Colégio Montaigu, dirigido pelo padre Boucher. A alimentação ali era muito deficiente e suas penitências tão austeras que lhe abalaram a saúde e o levaram ao hospital. Todos acreditavam que morreria, tão grave era seu estado, mas ele nunca duvidou da cura, pois sentia não haver chegado sua hora. E, de fato, logo se restabeleceu.

Quis a Divina Providência obter-lhe os meios para terminar os estudos no Pequeno Seminário de Saint-Sulpice. O diretor daquela instituição, conhecedor da fama de santidade do seminarista, “encarou como uma grande graça de Deus a entrada deste jovem eclesiástico na sua casa. Para prestar a Deus ações de graças, mandou rezar o Te Deum”.9 Entretanto, tratava-o com muito rigor, para pôr à prova suas virtudes; começou então para nosso Santo uma via de humilhações, que se prolongou ao longo de toda a sua vida.

Por fim, sacerdote!

Executava com a maior perfeição possível as funções que lhe eram designadas, quer nos serviços mais humildes ou nos estudos, quer na ornamentação da igreja do seminário ou como cerimoniário litúrgico, no serviço do altar.

Suas primeiras missões remontam a esta época. Algumas eram feitas internamente, para aumentar a devoção de seus confrades; outras consistiam em aulas de catecismo ou pregações, para pessoas de fora do seminário. “Possuía um raro talento para tocar os corações”: às crianças falava de Deus, da bondade de Maria, dos Sacramentos que precisavam receber; aos adultos pedia que santificassem seu labor com as mentes postas no Céu.

Esforçava-se por comunicar a prática da escravidão de amor a Nossa Senhora a seus condiscípulos e estabeleceu no seminário uma associação dos escravos de Maria. Todavia, não faltaram opositores que o taxaram de exagerado. Aconselhado pelo padre Louis Tronson, superior de Saint-Sulpice, passou a designar esses devotos como “escravos de Jesus em Maria”,11 e vai ser esta expressão que mais tarde ficará consignada no seu Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem.

“À medida que a aurora do sacerdócio despontava no horizonte, Luís Maria sentia mais do que nunca a necessidade de separar-se da Terra a fim de se recolher completamente em Deus”.12 Foi ordenado em 5 de junho de 1700, dia de Pentecostes, e quis celebrar sua primeira Missa na capela de Maria Santíssima, situada atrás do coro da Igreja de Saint-Sulpice, tantas vezes ornada por ele durante os anos passados no seminário. Blain, seu amigo e biógrafo, resumiu em quatro palavras suas impressões sobre aquele espetáculo sobrenatural: era “um anjo no altar”.

De Nantes a Poitiers

O espírito sacerdotal do padre Luís Maria sentia insaciável sede de almas e as missões em terras distantes o atraíam sobremaneira. Perguntava-se: “Que fazemos nós aqui […] enquanto há tantas almas que perecem no Japão e na Índia, por falta de pregadores e catequistas?”.

No entanto, tinha Deus outros planos para seu missionário naquele momento. Designado para exercer o ministério na comunidade de eclesiásticos Saint-Clément, em Nantes, na qual se pregavam retiros anuais e conferências dominicais para o clero da região, dirigiu-se para onde o mandava a obediência. Seu coração, porém, se dividia entre o desejo da vida oculta e recolhida e o apelo às missões populares, que tanto o atraíam.

Uma feliz experiência missionária em Grandchamps, nos arredores de Nantes, foi decisiva para tornar patentes seus dotes como evangelizador. Algum tempo depois, o Bispo de Poitiers o chamou para trabalhar no hospital desta cidade, pois uma curta permanência sua anterior por lá deixara tal rastro sobrenatural, que os pobres internos o solicitavam para capelão. Foi também nesta cidade que conheceu Catherine Brunet e Maria Luísa Trichet, com quem fundaria mais tarde, em Saint-Laurent-sur-Sèvre, as Filhas da Sabedoria.

Bênção papal: missionário apostólico

A ação missionária de São Luís Grignion acabou por despertar ciúmes, intrigas e até perseguições por parte dos que o deveriam defender, obrigando-o a regressar a Paris. Iniciava-se, assim, um longo caminho de dor que haveria de continuar nas subsequentes missões por ele empreendidas. A autenticidade de suas palavras e de seu exemplo despertavam tantas incompreensões e calúnias que o missionário decidiu peregrinar a Roma, a pé, a fim de procurar junto ao Papa uma luz que desse o rumo de sua vida. “Tanta dificuldade em fazer o bem em França e tanta oposição de todos os lados”15 o levaram a pensar se não seria mesmo o caso de exercer seu ministério num outro país.

Recebido com extrema bondade por Clemente XI, este o encorajou a continuar exercendo seu trabalho missionário na própria França. E para “lhe conferir mais autoridade, deu ao padre Montfort o título de Missionário apostólico”. 16 A pedido do Santo, concedeu o Pontífice indulgência plenária a todos os que osculassem seu Crucifixo de marfim, na hora da morte, “pronunciando os nomes de Jesus e Maria com contrição dos seus pecados”.

Fortalecido pela bênção papal e com o Crucifixo afixado no alto do cajado que o acompanhava nas missões, Grignion voltou às terras gaulesas e, impertérrito, sem nada temer das perseguições ou contrariedades, continuou semeando por toda parte o amor à Sabedoria Eterna e a Nossa Senhora, e a excelência do Santo Rosário. Converteu populações inteiras, mudou costumes licenciosos no campo, nas cidades e aldeias, levantou Calvários, restaurou capelas e combateu o espírito jansenista, tão disseminado na época.

No entanto, foi pouco compreendido por muitos eclesiásticos seus contemporâneos e viu desencadear-se sobre si uma onda de interdições. Prosseguia sua missão, sem desanimar, sendo acolhido pelos Bispos das Dioceses de Luçon e La Rochelle, na Vandeia, região que reagirá, no fim daquele século, à impiedade difundida pela Revolução Francesa, sem dúvida como fruto de sua semeadura.

Olhar posto no futuro…

Seria um erro, contudo, considerar São Luís Grignion apenas como um excelente missionário na França do século XVIII. Com o olhar posto no futuro, sua fogosa alma tinha por meta estender o Reino de Cristo, por meio de Maria, e para isto servia-se de uma forma de evangelização que hoje não poderia ser mais atual: “ir de paróquia em paróquia, catequizar os pequeninos, converter os pecadores, pregar o amor a Jesus, a devoção à Santíssima Virgem e reclamar, em voz alta, uma Companhia de missionários a fim de abalar o mundo através do seu apostolado”.

Num élan profético, previu ele a vinda de missionários que, por seu inteiro abandono nas mãos da Virgem Maria, satisfariam os mais íntimos anseios do Coração de seu Divino Filho: “Deus quer que sua Santíssima Mãe seja agora mais conhecida, mais amada, mais honrada, como jamais o foi”.19 Não obstante, se perguntava: “Quem serão estes servidores, escravos e filhos de Maria?”.20 Serão eles, afirmava, “os verdadeiros apóstolos dos últimos tempos, aos quais o Senhor das virtudes dará a palavra e a força para operar maravilhas”. Antevia que seriam inteiramente abrasados pelo fogo do amor divino: “sacerdotes livres de vossa liberdade, desapegados de tudo, sem pai, sem mãe, sem irmãos, sem irmãs, sem parentes segundo a carne, sem amigos segundo o mundo, sem bens, sem obstáculos, sem cuidados, e até mesmo sem vontade própria”.

São Luís Maria Grignion de Montfort não foi senão o precursor desses apóstolos dos últimos tempos. Modelo vivo dos ardorosos missionários que prognosticava, manteve a certeza inabalável de que, quando se conhecesse e se praticasse tudo quanto ele ensinava, chegariam indefectivelmente os tempos que previa: “Ut adveniat regnum tuum, adveniat regnum Mariæ”23 — Para vir o Reino de Cristo, venha o Reino de Maria. Reino este que, em germe, já habitava em sua alma, tornando-o o primeiro apóstolo dos últimos tempos.

9 BLAIN, op. cit., p.77.

10 GRANDET, Joseph. La vie de Messire Louis-Marie Grignion de Montfort, prêtre, missionnaire apostolique, composée par un prêtre du clergé, apud LE CROM, op. cit., p.93.

11 SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. Traité de la vraie dévotion à la Sainte Vierge, n.244. In: OEuvres Complètes. Paris: Du Seuil, 1966, p.651.

12 LE CROM, op. cit., p.97.

13 BLAIN, op. cit., p.99.

14 LE CROM, op. cit., p.102.

15 BLAIN, op. cit., p.174.

16 LE CROM, op. cit., p.184.

17 Idem, ibidem.

18 Idem, p.107.

19 SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT, Traité de la vraie dévotion à la Sainte Vierge, op. cit, n.55, p.520.

20 Idem, n.56, p.520.

21 Idem, n.58, p.521.

22 SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. Prière Embrasée, n.7. In: OEuvres Complètes, op. cit., p.678.

23 SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT, Traité de la vraie dévotion à la Sainte Vierge, op. cit, n.217, p.635.

O primeiro apóstolo dos últimos tempos

Ir. Juliane Vasconcelos Almeida Campos, EP

Corria o ano de 1716. A missão em Saint-Laurent-sur-Sèvre — que seria a última! — começara em princípios de abril. Consumido pelo trabalho, o dedicado pregador foi acometido por uma pleurisia aguda, mas não cancelou o sermão prometido para a tarde da visita do Bispo de La Rochelle, Dom Étienne de Champflour, em 22 de abril, no qual falou sobre a doçura de Jesus. Contudo, teve de ser levado do púlpito quase agonizante…

Passados alguns dias, pressentindo a morte que já previra para aquele ano, ele pediu que, quando o pusessem no ataúde, lhe fossem mantidas no pescoço, nos braços e nos pés as cadeias que usava como sinal de escravidão de amor à Santíssima Virgem. Em 27 de abril, o enfermo ditou seu testamento e legou sua obra missionária ao padre René Mulot. Continue lendo

Arma sem a qual não há vitória

Ir. Lays Gonçalves de Sousa, EP

A vida do homem sobre a Terra é uma constante luta” (Jó 7, 1). Não há um só homem que, em meio às circunstâncias da vida, não encontre batalhas tenebrosas e inimigos vorazes a enfrentar.

No entanto, é realmente impossível entrar numa guerra sem conhecer as táticas desta; não se estaria à altura de um verdadeiro cavaleiro. Foi, sem dúvida, em vista disso que quis Nosso Senhor instituir o Sacramento da Confirmação que nos faz verdadeiros soldados de Cristo.

 Assim, a Santa Mãe Igreja, neste Sacramento, reunindo todas as tradições antigas, envia seu representante para armar, numa magnífica cerimônia, o jovem cavaleiro de Jesus Cristo.

Meu filho, vós deveis ser um soldado vencedor; vossa carreira deve ser uma longa seguidilha de vitórias. Eis aqui vossos inimigos: o demônio, a carne e o mundo. Eis aqui vossas armas: a vigilância, a mortificação e a fé. Atleta de Deus, filho de tantos heróis, é sob o olhar de todos estes nobres vencedores, sob o olhar dos Anjos e de vossa Mãe que vós ides combater. Sede digno do nome que vós levais”. [1]

Uma vez feito combatente, fortalecido e robustecido pelo inapreciável dom do Espírito Santo, mas conhecedor dos riscos pelos quais passará durante os conflitos de sua peregrinação terrena, o homem depositará sua confiança na arma que lhe é oferecida pelo Supremo General. Qual é esta arma?

 “Orai sem cessar” (I Ts 5, 17), eis a ordem de comando para se obter o triunfo final. “A oração, que move de certo modo a própria vontade de Deus a fim de nos conceder suas graças, é uma força incomparavelmente mais formidável que todas as máquinas de guerra que se tenha inventado ou possa inventar o homem”. [2]

Possuindo essa artilharia tão possante e valiosa, que poderá temer a milícia de Cristo? Se queremos ser fiéis soldados de Cristo e não quisermos sucumbir durante a batalha e, quiçá, sairmos dela vergonhosamente derrotados, recorramos ininterruptamente a essa milagrosa “metralhadora” de graças, a qual nos concede a vitória nessa vida passageira e, em consequência, na eternidade. “A oração […] é a mais poderosa arma para nos defendermos dos nossos inimigos. Quem não se serve dela está perdido”. [3]

[1] GAUME, apud MORRAZZANI ARRAIZ, Teresita. Aula de Teologia Sacramental no Instituto Filosófico-Teológico Santa Escolástica – IFTE. Caieiras, [s.d.]. (Apostila).

[2] ROYO MARÍN, Antonio. Teología de la Caridad. 2.ed. Madrid: BAC, 1963, p. 16. (Tradução da autora).

[3] SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO. A Oração. Trad. Henrique Barros. 24. ed. São Paulo: Santuário, 2012. p. 22.

As três rosas de inverno

Ir. Mariana de Oliveira

No gélido mês de dezembro, a cidade de Edimburgo fica coberta de floquinhos de neve; nenhuma cor na natureza, com exceção dos elegantes, altaneiros e sempre verdes pinheiros. Flores, frutos, animais? Nem pensar! Tudo nesse mês cessa para que todas as atenções se voltem para um grande acontecimento: o Natal.

A alegria já começa a tomar conta dos habitantes, os quais saem, o quanto antes, para comprar enfeites, bolas coloridas, luzes e presentes para colocá-los debaixo da árvore de Natal. Entretanto, não são todos os que sentem esse santo prazer…

Numa casa bem afastada, vivia um homem chamado Jacob Grimm, de idade perfeita, fortuna perfeita e azedume perfeito… Todos lhe tinham medo; só o aspecto melancólico de sua casa toda de ébano, já despertava um arrepio; Mr. Grimm não era feio, mas seus traços refletiam muita severidade. Não tinha amigos, não por falta de tentativa, pois muitos tentavam superar o receio e iniciavam uma conversa, mas pouco depois o assunto morria. Não sorria porque há tempos não sabia o que era se sentir feliz.

O que será que angustiava aquele coração que parecia de pedra? Há dez anos, Mr. Grimm perdera a mãe, uma santa mulher que ficara viúva quando o pequeno Jacob contava três meses e lhe ensinara tudo sobre a verdadeira Religião. Porém, a dor de perdê-la foi para o jovem, de somente vinte anos, irreparável. Desde daquele dia, Mr. Grimm nunca mais falou nada sobre Deus, sobre a Virgem e sobre o Céu. Vivia frustrado e o Natal para ele era um tormento pois lembrava-se mais de sua mãe do que propriamente do nascimento do filho de Deus. Entretanto, do Céu, sua mãe lhe preparava um Natal diferente naquele ano…

No dia 23 de dezembro, a neve foi mais clemente e deixou o Sol brilhar por quase toda manhã. Aproveitando os raios benfazejos do astro rei, Mr. Grimm sentou-se na sacada e por lá ficou acariciando seu gato, quando, subitamente, ouviu uma vozinha pueril, cantando uma alegre canção natalina, que, curiosamente, sua mãe cantava. A pequena sem titubear abriu o portão da casa de Mr. Grimm e, naquela terra dura pela neve, colocou um pequeno grãozinho e saiu. No dia seguinte, a mesma, não mais menina, agora jovem, como por magia, entrou novamente no “jardim” e depositou, sem perceber que estava sendo vigiada por Mr. Grimm, um outro grão. O proprietário não tinha forças para mandar a jovem embora, ela parecia com alguém… Quando já escurecia, no meio de uma feroz nevasca, a jovem que se tornara uma senhora luzidia, aproximou-se, e, deitando a terceira semente no gélido solo, chamou-o:

— Grimm!

Fora de si de júbilo, Mr. Grimm reconheceu a voz de sua mãe, e imediatamente exclamou:

— Mamãe!

Desceu ao jardim e, no meio da neve, três rosas lindas estavam cravadas: uma rubra, em cujas pétalas lia-se o nome de Jesus, outra dourada, com o nome de Maria, e, por fim, uma branca contendo o nome de José. Mr. Grimm emocionado procurava por sua mãe em todos os cantos, mas não via ninguém… Desesperado, observou novamente as três rosas e debaixo das mesmas descobriu um bilhete. Abriu-o e reconheceu a letra de sua querida mãe:

Se deixares que estas três rosas brotem e alegrem o teu coração, tu me verás um dia.”

Como um toque de sino…

Ir. Adriana María Sánchez García, EP

Blém! Blém! Blém!

Toca o sino da capela do palácio. Acompanham-no outros maiores, bem como os das igrejas dos arredores. Dali a pouco, os bordões das basílicas também começam a soar. Por toda a redondeza o som se espalha, como um belo carrilhão, proclamando a grande notícia: nascera o primogênito real!

Se era assim que em muitos reinos do passado se anunciava a ricos e pobres, a grandes e pequenos, a chegada de um novo herdeiro, bem poderíamos falar, por analogia, de um sino magnífico que tocou na História marcando o fim da Antiga Lei e o começo da era da graça, ao nascer o Salvador, o Filho Unigênito de Deus! E até hoje, ao comemorarmos tão magno acontecimento, soam novas badaladas deste místico sino convidando-nos a­ ­contemplar um dos maiores mistérios da nossa Fé.

Através dos apelos da graça, Deus fala conosco a todo instante. Porém, só O ouvimos “no recolhimento, na paz e no silêncio. Sua voz é tão suave que nosso interior deve estar completamente em silêncio; é uma doce melodia. A linguagem de satanás é barulhenta: ela é agitada, impulsiva, perturbadora e abrupta”.

Se criarmos as condições para escutar sua voz, Deus nos convidará a amá-Lo mais, seja infundindo em nossos corações o desejo de praticar a virtude ao ver um bom exemplo, seja enriquecendo-nos com sentimentos de piedade ao entrarmos num ambiente sagrado, seja fazendo ecoar em nosso interior palavras de repreensão por alguma má atitude ou de advertência diante de ocasiões próximas de pecado.

Quando nos sentimos angustiados, tomados pela agitação e sem serenidade de alma, podemos ter a certeza de que não é uma voz sobrenatural que está falando conosco. A dissipação, a velocidade das máquinas e o espírito de frenesi e de competição, que dominam o mundo moderno, impedem-nos de entrar em contato com Deus. Pior, fazem com que nos esqueçamos d’Ele.

É ao oposto deste estado de espírito que o Menino Jesus nos convida no Natal. Ele nos atrai ao recolhimento, pede que deixemos de lado as atividades que d’Ele nos afastam e renovemos nossa vida espiritual. Que, como um toque de sino, o término deste ano anuncie a chegada de uma nova etapa de nossa existência, na qual fiquem para trás os momentos em que, fechados às moções da graça, nos deixamos levar por nossos impulsos e más inclinações.

Peçamos, não só ao Divino Infante, mas a todos os Anjos e Santos do Céu, que a partir deste Natal eles nos façam ouvir sua voz e adoremos com especial afeto o Redentor posto no Presépio, lembrando-nos de que este terno Menino está disposto a renascer em nosso íntimo para transformar-nos por inteiro. Ele que, enquanto Deus, nos criou a cada um de nós, sem nada termos feito para merecê-lo, e Se faz Homem na Noite Santa para nos redimir.

Comuniquemo-nos com Ele por meio da oração e estejamos atentos às suas palavras. “Oxalá que ouças hoje a sua voz: não endureçais os vossos corações” (Sl 94, 7-8), nos recorda o Salmo. Abramos nossa alma para que o Menino Jesus aí nasça e permaneça para sempre. Assim, também nós seremos como sinos, a ressoar o seu amor e a despertar, com nosso exemplo, bons sentimentos naqueles que nos cercam.1

UM SANTO NATAL A TODOS OS NOSSOS LEITORES!

1 Revista Arautos do Evangelho, Dezembro – 2015

Pedidos ousados ou conformados?

Bruna Almeida Piva 

1º ano Ciências Religiosas

Em um reino distante, um monarca muito santo sobressaía aos olhos de Deus e do povo por sua admirável bondade.

Certo dia, desejoso de ter algum contato mais próximo com sua gente, decidiu passear pelas pequenas estradas do reino, levando toda a comitiva real.

Ora, já próximo ao fim do percurso, em meio aos últimos clamores de admiração e entusiasmo do povinho fiel, seus olhos pousaram sobre uma criança, um menininho que o fitava pasmo de admiração. Muito condescendente, ordenou que parassem a carruagem e dirigiu-se a ele, dizendo:

– Meu pequeno súdito, a quem quero como a um filho, peça-me algo: diga-me o que queres e eu te darei.

O menino pensou bem e disse:

– Majestade, eu quero um amendoim!

Tomado de surpresa e decepção, o rei, que podia e desejava dar àquele pequenino qualquer maravilha, dirigiu-se a um servo que o acompanhava para que desse a ele um amendoim, e retirou-se para o seu castelo.

O fato causa em muitos certa indignação e inconformidade. Todavia, muitas vezes fazemos nós mesmos o papel dessa criança. Tendo como Pai, não um rei temporal, mas o Deus Onipotente, muitas vezes Lhe dirigimos somente preces inúteis e pequenas, ou mesmo não O invocamos…

Um verdadeiro absurdo! Aquele que por nós Se fez Homem, morreu numa Cruz e ressuscitou, não nos daria qualquer graça, por mais alta e ousada que fosse? Quem disse: “Pedi e recebereis, procurai e achareis, batei e ser-vos-á aberto”, não nos atenderá?

O menino pediu ao rei um amendoim e obteve; mas nós podemos obter de Deus tudo: pediremos somente “um amendoim”?

Com efeito, sem deixar de recorrer a Ele também nas pequenas dificuldades, peçamos: Nossa Senhora dos pedidos ousados, rogai por nós!

“O precioso vinho espiritual da santidade”

Ir. Daniela Chacaliaza, EP

Imaginemos que fôssemos contratados para um novo emprego e ninguém nos explicasse o que deveríamos fazer; difícil seria poder exercê-lo com competência.  Ou, então, que comprássemos um aparelho eletrônico de manuseio complicado e que, dentro da caixa, não encontrássemos o manual de instruções. Certamente, nosso desapontamento não seria pequeno, pois quão difícil seria colocá-lo em funcionamento. Que alivio se achássemos um manual!

Na  vida quotidiana, vemos, com frequência, que os homens redigem manuais para facilitar o desenvolvimento dos afazeres humanos. Se isto é assim com os homens, não seria possível que o Criador do Universo, o nosso Pai Celestial, nos privasse de modelos para podermos exercer o papel mais importante desta vida: conquistar o Céu através da luta quotidiana.

Desta maneira, o Altíssimo nos deu um manual que, quando visto e lido através dos olhos d’Ele, é um farol que nos ensina a trilhar os caminhos da vida. Este guia é a natureza. Ora, toda a Obra da Criação foi feita para, de uma ou de outra forma, servir ao homem.

Pousemos, então, nosso olhar num fruto maravilhoso da terra que Deus quis utilizar como matéria para o Sacramento mais sublime: a uva que, depois de passar por certo processo, se transforma em vinho.

Ao analisar o procedimento que se realiza para obter um saboroso vinho, vemos que as uvas devem passar, por assim dizer, por certas circunstâncias difíceis: ao ser levadas ao lagar, elas são esmagadas — pisadas, literalmente —, para produzir esta bebida. Ademais, é um fato digno de ser considerado e ressaltado que não é em todo tempo que as uvas dão seus produtos mais insignes. Existe uma época específica do ano em que a videira dá seus melhores frutos. Curiosamente, enquanto os outros alimentos que a terra produz precisam de um terreno fértil, a boa videira prefere solo seco e pedregoso. Quer dizer, para obter um vinho de boa qualidade, é preciso a videira ter nascido em condições aparentemente adversas.

Assim também é o ser humano. Para florescerem heróis, muitas vezes, Deus permite e quer que estes passem, in tempore opportuno, pelas situações mais adversas e por dores tremendas. De fato, a História nos prova quão mais valiosos são os varões ou mulheres que foram submetidos pela Providência a terríveis sofrimentos e provações. Sendo esta terra um vale de lágrimas, é preciso que os homens passem pelas cruzes para alcançar o prêmio esperado.

“E, de fato, tal como o fruto da videira necessita ‘sofrer’ e ‘esperar’ para alcançar o requinte de seu próprio sabor, assim é o ser humano: para adquirir a plenitude de sua personalidade, não requer comodidades nem prazeres, mas padecimentos e docilidade à vontade divina. O sofrimento é, pois, um valioso bem para o homem. […] Com a dor, o ser humano sai de seu egoísmo, compreende a sua contingência e se abre para o sobrenatural. […] O sofrimento bem aceito produz o precioso vinho espiritual da santidade”.[1] E assim, seguindo o exemplo de Nosso Senhor Jesus Cristo, é pela cruz que o homem chegará à luz.

[1] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Editorial. Dr. Plinio, São Paulo, ano 14, n. 164, nov. 2011, p. 4.

A irmã enlevada da inocência

Ana Laura de Oliveira Bueno 

 1º ano de Ciências Religiosas

Imaginemo-nos diante do encontro mais espantoso da História: o Divino Salvador e Judas, o traidor dos traidores. “É a Verdade Eterna e subsistente, encarnada, que olha para um homem falso. Nosso Senhor o fita e lhe diz: ‘Judas, é com um ósculo que trais o Filho do Homem?’ e recebe com paciência aquele beijo imundo, acompanhado provavelmente de um mau odor asqueroso, verdadeiro cheiro do inferno”.1  A austeridade delicada e divina de Nosso Senhor transparece em seu olhar que penetra  Judas até o mais profundo de sua alma.

É a dor de um Deus que se depara com o silêncio covarde ante a pungente pergunta feita a um pecador empedernido.

De fato, o que mais doeu em seu Sacratíssimo Coração não foi o pecado de traição, mas a rejeição do perdão oferecido, a negação da misericórdia infinita, que depois o levou ao delírio, até cometer o suicídio.

Assim sendo, busquemos sempre este perdão que Ele está ávido em nos conceder. Apesar da evidência das nossas próprias misérias, nunca nos desesperemos, confiando na mesma misericórdia que nos tirou do lodo do pecado.

Diante da fraqueza e debilidade, como afirma Mons João Clá Dias, o que mais agrada a Deus, é oferecer um coração contrito: “Meu Deus, eu errei, eu pequei, eu não deveria ter feito o que fiz, eu aqui, agora me entrego nessa humilhação”.2 Desse modo, o Reino de Maria será composto de almas contritas, será a vitória dos contritos junto aos inocentes. A contrição,  irmã enlevada da inocência, olha para a inocência para pedir perdão.3 E, pela intercessão do Imaculado Coração de Maria desejoso de perdoar, Deus fará transbordar a sua misericórdia.

1 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Obra-prima da piedade católica. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano V, n.46, jan. 2002, p. 35.

2 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Conferência. São Paulo, 19 abril 1994. (Arquivo IFTE).

3 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Conferência. São Paulo, 05 jan. 1974. (Arquivo IFTE).

Perfeita união

Ir. Letícia Gonçalves de Sousa,EP

Nosso Senhor Jesus Cristo, tendo uma missão redentora, poderia, desde a mais tenra idade, ter-Se manifestado plenamente aos homens como um profeta, como um rei, como o Messias esperado. Entretanto, quis Ele viver ocultamente durante trinta anos na casa de Nazaré, onde somente Maria e José O adoravam, em íntima contemplação e comunicação sobrenatural. Se Ele veio para conviver e ensinar aos homens, por que pregou só no fim de sua vida, durante três anos? Não era mais conveniente que dedicasse mais tempo ao apostolado entre o povo? Não fez Ele mais bem aos homens estando entre eles do que na casa de Nazaré?

As grandes missões devem ser precedidas por grandes momentos de contemplação, nos quais a oração e o silêncio burilam a alma para todas as formas de heroísmo. Cristo, sendo Deus, não precisava de momentos para recolher sua alma, pois constantemente via a face do Pai. Porém, como verdadeiro Mestre, deixou-nos este exemplo: durante nossa existência terrena, devemos nos dedicar primeiro à vida interior e depois às obras de apostolado.

Cabe-nos ressaltar ainda que, no decorrer dos anos de vida pública, Jesus dedicava longas horas para a oração e o recolhimento, e o mesmo aconselhava aos apóstolos, a fim de edificarem a Igreja com base neste princípio: “Jesus obrigou seus discípulos a entrar na barca e a passar antes d’Ele para a outra margem, enquanto Ele despedia a multidão. Feito isso, subiu à montanha para orar na solidão. E, chegando à noite, estava lá sozinho” (Mt 14, 22-23). São João Crisóstomo comenta a este respeito: “Despedida a multidão, sobe para orar, porque a oração exige repouso e silêncio. Não é todo aquele que ora que sobe ao monte, senão só o que reza bem e busca a Deus na oração”.[1]

Em outra ocasião, “retirou-se Jesus com eles para um lugar chamado Getsêmani e disse-lhes: Assentai-vos aqui, enquanto Eu vou ali orar” (Mt 26, 36). Assim o fez “para ensinar aos discípulos que na oração devem buscar a solidão”.[2] E em diversas circunstâncias assim agiu: antes do início de sua vida pública, retirando-se quarenta dias para o deserto (Cf. Mc 1, 12-13); antes de entrar em cidades onde exerceria muitas atividades apostólicas (Cf. Mt 14, 23) e, sobretudo, antes da Paixão; indo para o Horto das Oliveiras, onde passou a noite em oração (Cf. Lc 22, 39-45).

Vida ativa de Cristo

“Seria ingenuidade, ou pelo menos pobreza de senso comum, imaginar que a vida oculta de Jesus transcorrida num completo isolamento, fechada entre quatro paredes, sem a possibilidade do menor contato com a sociedade ao seu redor”.[3] Os fins da Encarnação exigiam que Nosso Senhor fosse manifestando-Se paulatinamente ao longo dos anos. Por isso, fatos como a perda e o encontro do Menino discutindo com os doutores da Lei comprovam sua missão apostólica desabrochando aos olhos dos homens.

Mais tarde em plenas atividades pastorais, Jesus dedicava-Se intensamente à salvação das almas:

Jesus percorria toda a Galileia, ensinando nas suas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino, curando todas as doenças e enfermidades entre o povo.  Sua fama espalhou-se por toda a Síria: traziam-lhe os doentes e os enfermos, os possessos, os lunáticos, os paralíticos. E ele curava a todos. Grandes multidões acompanharam-no da Galileia, da Decápole, de Jerusalém, da Judéia e dos países do outro lado do Jordão (Mt 4, 23-25).

Há nos evangelhos, diversas passagens em que as atividades pastorais e zelo pelas com as almas transbordavam do Sagrado Coração de Jesus: “Reuniu-se tal multidão, que não podiam encontrar lugar nem mesmo junto à porta. E Ele os instruía” (Mc 2, 2). Percorrendo as cidades, curou e ensinou a todos: “Ao amanhecer, Ele saiu e retirou-Se para um lugar afastado. As multidões O procuravam e foram até onde Ele estava e queriam detê-Lo, para que não as deixasse”. Mas, o Salvador manifestava seu zelo também por outras almas que deveriam se converter pelo contato com Ele: “É necessário que Eu anuncie a boa nova do Reino de Deus também às outras cidades, pois essa é a minha missão” (Lc 4, 42-43).

Todas as virtudes em Jesus Cristo se harmonizam em grau máximo, de forma sublime. Assim, em sua vida, tanto o obrar quanto o contemplar são perfeitos e se completam. As narrações evangélicas souberam retratar este arco gótico, como vemos nesta passagem: “Entretanto, espalhava-se mais e mais a sua fama e concorriam grandes multidões para ouvi-Lo e serem curadas das suas enfermidades. Mas Ele costumava retirar-Se a lugares solitários para orar” (Lc 5, 16).

Nosso Redentor faz milagres nas cidades de dia e dedica a noite para a oração. E continua: “Mas Ele se retirava ao deserto para orar”, para dar a entender aos bons pregadores que não abandonem inteiramente a vida ativa, por amor à contemplativa, e a não desprezar os gozos da contemplação por uma atividade excessiva, senão que bebam na quietude da contemplação o que derramaram falando, ocupados com o próximo.[4]

Assim sendo, a vida ativa de Cristo não é contrária à contemplativa, e sim, um complemento. Exemplo para nós: nossa vida ativa deve ser um transbordamento de algo que se contemplou e se pôs em obras. A união entre ação e contemplação é superior a qualquer uma considerada separadamente.[5]

[1] JOÃO CRISÓSTOMO, Santo apud TOMÁS DE AQUINO, Santo. Catena Aurea in Marcum, VI, v. 45-52.

[2] JOÃO DAMASCENO, Santo apud TOMÁS DE AQUINO, Santo. Catena Aurea in Mateum, II, v. 36-38.

[3] CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Eles viram, mas não entenderam.  In: Arautos do Evangelho. São Paulo: Ano VI, n. 61, jan 2007, p. 10.

[4]  GREGÓRIO DE NISSA, Santo apud TOMÁS DE AQUINO, Santo. Catena Aurea in Lucam, V, v. 12-16.

[5] Cf. ROYO MARÍN, Antonio. Teología de la perfección cristiana. Madrid: BAC, 2006, p.707.

A “oitava Palavra” de Jesus

Ir. Mariana Morazzani Arráiz, EP

Barrabás, famoso ladrão e assassino, o pior criminoso que Israel conhecera, encontra- se encarcerado na Torre Antônia, em Jerusalém. Era então costume entre os judeus, por ocasião da Páscoa, conceder a liberdade a algum preso, em memória da saída dos israelitas do cativeiro no Egito. O procurador romano na Judeia, Pôncio Pilatos, propõe dois nomes para o povo escolher: Barrabás ou Jesus.

Símbolo da ilegalidade, motivo de terror para todos, cujo aprisionamento constituía o alívio e a segurança da região, o maior malfeitor da época é contraposto Àquele que perdoava os pecados, curava leprosos, cegos e paralíticos, ressuscitava mortos e andara “por toda a parte, fazendo o bem” (At 10, 38)?

Ora, qual a gratidão suscitada por tantos ensinamentos, favores e milagres? O populacho, a uma voz, prefere Barrabás…

Surpresa e pânico do bandido

Podemos conjecturar a reação do chefe da prisão ao receber a ordem do magistrado romano de liberar naquele mesmo dia o terrível bandido.

— Soltar esse homem por causa de um absurdo costume judaico? Esse criminoso vai repetir suas loucuras! Vão se arrepender… Mas, enfim, cabe-me só cumprir ordens. Vamos!

Desce até o calabouço do Pretório e introduz a chave na fechadura de uma cela. Rangendo, abre-se a porta do repugnante recinto e o carcereiro chama:

— Barrabás!

Com os cabelos desalinhados, o olhar desvairado e cheio de terror, balbucia o delinquente:

— Vou ser crucificado?!

— Não! Fora daqui! — responde o guarda com rudeza e desgosto.

— Mas… o que vão fazer comigo?

— Fora!

Saindo, trêmulo, ainda indaga:

— O que aconteceu?

— Estás livre! Vá para a rua!

— Eu, livre? Eu, que já sentia as cordas nas minhas mãos e experimentava prematuramente a asfixia da crucifixão pela qual iria morrer! Eu, solto depois de tudo o que fiz? Eu, Barrabás, homicida detestado por todo o mundo?… Vou cobrir um pouco a cabeça para não ser reconhecido na rua… Preciso me disfarçar para sair, pois podem me matar. Mas… estou livre! Será possível? Eu me apalpo e vejo que… é verdade!

Sem rumo fixo, caminha aturdido pelas ruas de Jerusalém quando, de repente, escuta não muito longínquo o lúgubre rufar de tambores:

— O que é isso? O anúncio de uma crucifixão? Estão levando alguém para o suplício!

Experimentando um calafrio de pavor, suspira:

— Poderia ter sido eu… Oh, horror!

Continua em direção à turbamulta, que está quase chegando no Monte Calvário. Ao se aproximar, percebe a identidade do condenado: é Jesus de Nazaré… e vai ser crucificado!

A “oitava Palavra”

Se uma graça fulgurante de arrependimento rasgasse a sordidez de sua alma endurecida e nela penetrasse, Barrabás, cheio de compunção, ter-se-ia lançado aos pés de Nosso Senhor Jesus Cristo, já deitado sobre o madeiro da Cruz.

Nesse momento, o Divino Redentor estaria experimentando em suas divinas mãos e adoráveis pés as inenarráveis dores ocasionadas pela perfuração dos pregos. Mas isso não O impediria de pousar seu sacratíssimo olhar na figura horrenda daquele a quem a perfídia dos homens tinha preferido a Ele, Jesus, o Filho de Deus, a Beleza Infinita.

Sob o influxo de tal graça, o criminoso, ajoelhado, diria:

— Senhor, eu deveria estar sendo crucificado e não Vós! Vós ireis morrer por mim quando sou eu, infame, merecedor desse castigo por meus pecados! Senhor, perdão por tanta maldade! Senhor, eu me arrependo, detesto meus crimes e quero me assemelhar a Vós!

E o Salvador teria pronunciado aí a primeira das Palavras, que não mais seriam sete, como registram os Evangelhos, mas oito; de seus divinos lábios brotaria esta manifestação de poder, bondade e amor infinitos:

— Meu filho, vá porque teus pecados estão perdoados! Vá porque soubeste aceitar as graças de penitência e de arrependimento que Eu mesmo para ti suscitei! Vá e não peques mais!

Somos também “barrabases”

A História não conta qual foi o destino de Barrabás uma vez fora da prisão. Ignoramos se continuou na esteira dos crimes e desvarios que o caracterizavam, enchendo novamente de sobressalto e pavor o povo que clamara por sua libertação, ou se houve uma conversão semelhante à que acabamos de imaginar.

Uma coisa é certa: a cada ano, na liturgia da Semana Santa, ao ser mencionado o nome do bandido na leitura da Paixão segundo São João, vibram os corações e ardem em desejos de vingar e reparar tamanha ignomínia.

É justo, porém, descarregarmos toda a nossa ira sobre o terrível criminoso, esquecendo que fomos nós também “barrabases” em algum momento da vida? Não ofendemos brutalmente o Coração de Jesus ao cometer um pecado ou ao apegar- -nos a um vício? E não agimos como o povo judeu escolhendo o famoso malfeitor, ao trocar a obediência aos Mandamentos por uma transgressão grave e voluntária à Lei?

Se alguma vez pecamos gravemente contra algum Mandamento da Lei de Deus, somos comparáveis a Barrabás e àqueles que o preferiram a Jesus! Deveríamos estar sendo crucificados, quando é Ele, ao contrário, que sofre por nós! Que terrível verdade: ao pecar, prefiro Barrabás como meu amigo e crucifico a Jesus em minha alma!

Em vista disso, o que farei? Formular essa pergunta é fruto de uma graça que parte de Jesus em direção a mim. Diante dela só cabe uma súplica à Mãe do perdão e da divina graça, cujos rogos me obtiveram esse benefício:

“Oh, Virgem Santíssima, minha Mãe, dai-me a convicção de que só existem dois caminhos: um é o de Barrabás e outro, o de Jesus.

“Quando vosso Divino Filho voltar no fim dos tempos para exercer o julgamento de todos os homens, reunidos no Vale de Josafá e não mais no Pretório de Pilatos, a humanidade estará dividida entre os que O quiseram crucificar e se entregaram ao pecado, e aqueles que aceitaram o convite de seu divino e arrebatador olhar, e quiseram viver sempre na sua graça e na prática da virtude.

“Pelos méritos infinitos da Paixão, fazei que eu esteja entre estes últimos!

“E se tiver a desgraça de Vos ofender, que eu me aproxime, com toda pressa, do Sacramento da Penitência e possa, arrependido e humilhado, ouvir aquela ‘oitava Palavra’ dirigida ao hipotético Barrabás convertido: ‘Vá, meu filho, minha filha, teus pecados estão perdoados!'”.

Adaptação da palestra pronunciada por Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP, em 27/5/1990 – Revista Arautos do Evangelho, Março-2015

Santo Isaac Jogues, mais do que um mártir

Ir. Ana Bruna de Genaro Lopes – 3º ano de Ciências Religiosas

10 de janeiro de 1607 foi o dia escolhido por Deus para nascer um filho que haveria de sofrer por Ele não só um martírio, mas dois.

Isaac Jogues nasceu em Orleáns, França. No seminário jesuíta recebeu, juntamente com a teologia e filosofia, o ardor missionário e o desejo do martírio, ao ouvir os relatos do Pe. João de Brebeuf sobre as recentes missões no Canadá.

Logo após a ordenação, o Pe. Isaac foi designado para a missão na Nova-França —  Canadá — e para lá partiu em 1636. Em Quebéc, ele dividia seu tempo entre o estudo da língua, o cuidado dos enfermos, e a catequese de preparação para o batismo.

Por volta de 1642, os índios iroqueses, aliados aos holandeses, iniciaram uma guerra, atacando ferozmente a tribo dos hurões, que estava sob o domínio francês. Durante a luta, Pe. Jogues se ofereceu para atravessar o rio Hudson a fim de levar uma mensagem à cidade. No meio do caminho, foi capturado numa emboscada dos iroqueses e levado para um horrível cativeiro. Ao longo de treze meses, foi alvo dos piores horrores: serraram-lhe um dedo e arrancaram-lhe outro com os dentes; tiraram-lhe todas as unhas. Muitas vezes batiam em seu corpo com machados incandescentes e cortavam-lhe pedaços de carne, além de outros incontáveis suplícios. O santo passava a noite estirado no chão, com o corpo cheio de feridas e coberto de insetos.

Apesar de seu desejo de permanecer ali para converter o povo e sofrer, foi resgatado por um capitão holandês que o levou de volta a Quebéc. Para se recuperar desse martírio, voltou à França em 1643. Estava irreconhecível. Quando chegou diante de seu superior, o Padre Reitor, este lhe perguntou:

— Vós chegastes a conhecer na Nova-França o Pe. Jogues?

— De maneira muito íntima, meu reverendo pai — respondeu ele.

— Que bom! Poderia dar-me notícias suas? Ele ainda está neste mundo ou, como alguns afirmam, já foi queimado pelos índios?

— Não, meu pai, ele ainda vive, pois é bem este que está diante de vós e vos pede que o abençoe…

Embora o sobrevivente tivesse dois dedos mutilados, o Papa Urbano VII lhe concedeu celebrar a Santa Missa, afirmando: “Não é conveniente que o mártir de Cristo não possa beber o Sangue de Cristo”.

Todavia, no coração do Pe. Jogues, ardia o desejo de cumprir sua missão e repetia, unido a seus companheiros: “Sentio me vehementer impelii ad moriendum pro Christo”.

Poucos meses depois, voltou a Quebéc, tendo como objetivo apaziguar o relacionamento entre iroqueses e hurões a fim de continuar seu apostolado. Durante um período de paz transitória, foi enviado aos iroqueses. Exultava em seu interior: “Ter-me-ia por feliz se o Senhor quisesse completar meu sacrifício no mesmo lugar em que o começou!”

Aos olhos humanos, a missão neste hostil território foi o pior dos fracassos; porém, aos olhos d’Aquele que conhecia Isaac desde toda eternidade, era o tempo do cumprimento da missão. Após quatro semanas de incessantes torturas, no dia 18 de outubro de 1646, com um golpe de machado, o Pe. Isaac Jogues sofreu seu segundo e definitivo martírio e cumpriu seu último voto: unir-se inseparavelmente a Deus.