Viveu feliz e morreu contente

Ir. Clotilde Thaliane Neuburger, EP

“Exultai no Senhor, ó justos” (Sl 32, 1); “Felizes aqueles cuja vida é pura, e seguem a Lei do Senhor” (Sl 118, 1). Estes e muitos outros ensinamentos dos Salmos poderiam ser citados, para mostrar o quanto a virtude e a verdadeira alegria andam sempre de mãos dadas.

O íntimo relacionamento entre ambas aparece especialmente visível no Santo cuja vida contemplaremos aqui: São Crispim de Viterbo. Com propriedade realçou São João Paulo II em sua homilia, ao canonizar este irmão leigo capuchinho do século XVII: “O primeiro aspecto de santidade que desejo fazer notar em São Crispim é o da alegria”.1

Consagrado desde criança a sua “Mãe e Senhora”

Ele veio ao mundo a 13 de novembro de 1668, em Viterbo, cidade então pertencente aos Estados Pontifícios, e dois dias depois foi batizado na Igreja de São João Batista, recebendo o nome do avô: Pedro. Seus pais, Ubaldo e Marzia Fioretti, eram de condição humilde, porém muito respeitados por sua conduta digna e piedosa.

Sendo Pedro ainda muito criança, o pai veio falecer, mas não sem antes confiar ao seu irmão Francisco a formação do pequeno. Marzia, por seu lado, empenhava-se em dar-lhe esmerada educação religiosa e moral.

Quando contava cinco anos de idade, ela o levou em peregrinação ao Santuário de Santa Maria della Quercia, a fim de consagrá-lo a Nossa Senhora. Lá chegando, ambos se ajoelharam diante da bela imagem e a mãe disse ao filho: “Estás vendo? Esta é a tua Mãe, e eu agora te entrego a Ela. Procura amá-La sempre de todo o coração e honrá-La como tua Senhora”.2 Tais palavras calaram tão fundo na alma do menino que, até o fim da vida, jamais deixou de dirigir-se à Virgem Santíssima sem chamá-la de “Mãe e Senhora”.

Melhor um santo magro, que um pecador forte

Desde a mais terna infância, comenta um de seus biógrafos, Pedro manifestou ter um temperamento extremamente dócil e agradável, acompanhado por uma alegria contagiante, qualidades estas que “demonstravam as mais vantajosas predisposições para avançar nas vias da virtude e pressagiavam sua futura santidade”.3

Com um pouco mais de idade, adquiriu o costume de fazer sacrifícios e penitências. Jejuava a pão e água nos sábados e nas vigílias das festas de Nossa Senhora — e assim continuou a fazer quando adulto —, mesmo se estava doente. Vendo a criança sempre franzina e com a saúde debilitada, o tio Francisco dizia com rude franqueza a Marzia que ela servia “para criar frangos, e não filhos, pois Pedro não crescia porque não comia”.4 A boa mãe, entretanto, nada contestava, pois conhecia bem as causas da fraqueza do menino…

Preocupado, o tio passou a vigiar pessoalmente a alimentação de Pedro. E logo descobriu que o problema estava no espírito de sacrifício do jovenzinho, e não na falta de alimentos. Desculpou-se, então, junto à cunhada, dizendo-lhe: “Deixa-o fazer o que quer, afinal é melhor ter em casa um magro santo, que um pecador forte”.5

Aos dez anos, já ajudava como coroinha nas Santas Missas e demais tarefas de sacristão. Nessa época foi estudar gramática com os padres jesuítas e trabalhava como sapateiro junto com seu tio Francisco, ofício que exerceu até os 25 anos. Com o dinheiro obtido costumava comprar no mercado da cidade as melhores e mais belas flores para depositá-las aos pés de sua “Mãe e Senhora”.

“Por que choras, minha mãe?”

Em 1693 uma terrível seca assolou grande parte da Itália. Os habitantes de Viterbo fizeram uma procissão penitencial para implorar a Deus misericórdia e o jovem sapateiro fez questão dela participar. No trajeto, tomou contato com alguns frades de hábito marrom, que caminhavam e rezavam com modéstia e compenetração angélica. Eram filhos de São Francisco de Assis, e seu virtuoso aspecto despertou na alma do rapaz o desejo de seguir a vida religiosa.

Seguro de haver encontrado sua vocação, pediu ao padre provincial para ser aceito numa das comunidades da ordem. Depois de examiná-lo bem, o superior entregou-lhe uma carta de admissão e encaminhou-o ao noviciado de Palanzana. Pedro a mostrava aos conhecidos e familiares, dizendo: “Adeus pátria, adeus parentes, adeus amigos, adeus a todos. Agora já sou filho do Seráfico Patriarca e meu lugar é entre os irmãos leigos capuchinhos”.6 Tal era sua alegria que ninguém ousava dissuadi-lo de ser religioso. Sem embargo, sugeriam-lhe, em vão, ingressar em outra ordem menos austera, na qual pudesse seguir a via sacerdotal.

Vendo sua mãe chorar, angustiada por sua partida, disse-lhe com muito respeito: “Por que choras, minha mãe? Não me consagraste a Deus e à Santíssima Virgem quando eu tinha apenas cinco anos? Como agora queres reter contigo aquilo que doastes? A doação foi feita de livre e espontânea vontade, e com minha anuência. Portanto, é preciso cumpri-la e resignar-se”.7

Um jovem franzino na austera vida capuchinha

Cheio de alegria juntou seus pertences e partiu para o noviciado, em companhia de outros quatro jovens aparentados com ele. No caminho, o demônio tentou atrapalhá-lo de diversos modos. Em determinado ponto do percurso, surgiu um feroz mastim avançando certeiro em sua direção. Sem vacilar, ele recorreu ao auxílio da Santíssima Virgem e o animal estancou como impedido por uma mão potente, e embrenhou-se numa vinha, desaparecendo dos seus olhares.

No dia 4 de julho daquele ano de 1693, chegaram ao convento de Palanzana. O mestre de noviços, vendo a mirrada compleição física de Pedro, concluiu que não estava em condições de suportar as austeridades da regra capuchinha, e decidiu rejeitá-lo. Pedro lançou-se a seus pés e suplicou que o recebesse. Afinal, depois de passar por diversas provas, o jovem conseguiu ser admitido.

Na festa de Santa Maria Madalena, 22 de julho, revestiu-se do hábito de São Francisco e, conforme o costume das ordens religiosas, adotou um novo nome: frei Crispim, em homenagem ao mártir São Crispim, padroeiro dos sapateiros.

Sua primeira ocupação foi cuidar da horta do convento, junto com outros irmãos leigos. Aceitando a incumbência com prontidão, trabalhava durante quatro ou cinco horas debaixo do Sol, com maior empenho e força que os demais, apesar de sua frágil compleição física. Para todos era edificante vê-lo executar suas tarefas, por mais árduas que fossem, não só sem reclamar, senão até com alegria.

“Frei Andorinha do Senhor”

Vendo-o mais maduro na vocação, o mestre de noviços deu-lhe novo encargo: acompanhar o irmão esmoler. No exercício da função, frei Crispim deu mostras de virtudes incomuns e de notável espírito evangelizador.

Antes de sair do convento, cantava o hino Ave Maris Stella e partia de rosário em punho. No caminho, catequizava a quem encontrava, obtendo de muitas pessoas uma verdadeira mudança de vida.

Em pouco tempo, o jovem religioso ficou conhecido pelas redondezas. Muitas pessoas acorriam a ele para entregar suas doações, pedindo em troca outra “esmola” ainda mais valiosa: a de suas palavras e orações. A cada um ele respondia com uma inocência ímpar; por vezes, dizia ao interessado para voltar daí a pouco, pois precisava antes conversar com sua “Mãe e Senhora”.

A confiança por ele despertada nos seus interlocutores era tal, que muitos saíam de sua presença com a certeza de já terem alcançado a graça almejada. Tanto que a piedade dos que eram beneficiados levava-os a cortarem pedaços de seu manto para guardá-los como relíquia.

Certa vez um irmão professo, de grande bondade e simplicidade, notou num recanto do convento um ninho de andorinhas e observou, admirado, com quanta alegria o casal se esforçava para alimentar seus filhotes. Associando aquela imagem à alegria com a qual frei Crispim se fatigava para suprir as necessidades dos seus irmãos de hábito, apelidou-o de “frei Andorinha do Senhor”.8

Provações e trabalhos durante o noviciado

Em meio às suas obrigações, nosso Santo não abandonava as penitências corporais e as mortificações, nas quais encontrava força sobrenatural para superar as insuficiências da humana natureza. Ora, como sói acontecer, o demônio aproveitou-se disso para tentá-lo a perder o ânimo.

Instilou-lhe o inimigo infernal pensamentos de que ele se penitenciava por amor-próprio e para não ser expulso da ordem e, portanto, não era o amor a Deus que o movia, mas o egoísmo. Tão grandes foram as provas que, apesar de nunca cair em má tristeza, sua fisionomia mudou: refletia a preocupação por pensar estar desagradando a Nosso Senhor e sua Santíssima Mãe.

Percebendo a trama diabólica, o mestre de noviços e seu confessor deram-lhe ordem formal, em nome da santa obediência, de recusar imediatamente tais escrúpulos provenientes do demônio. Frei Crispim obedeceu e logo recuperou a paz de alma, recobrando a serenidade de seu semblante.

Todos os noviços o tinham como modelo de perfeição religiosa e de caridade fraterna. A tal ponto que o próprio mestre de noviços dizia a seus subalternos: “Fazei como frei Crispim”.9

Em uma ocasião, um frade foi acometido de tuberculose. Temendo o contágio dos demais irmãos, decidiram os superiores mantê-lo separado da comunidade. Necessário era designar-lhe um bom enfermeiro. Conhecedores da caridade e presteza de frei Crispim, confiaram-lhe tal responsabilidade. O jovem dedicou-se com tanto amor e cuidado ao irmão doente, que arrancou deste a seguinte exclamação: “Este frei Crispim não é um noviço, mas sim um Anjo!”.10

Desempenhando os mais humildes ofícios

Tendo feito sua profissão perpétua, frei Crispim foi designado como cozinheiro do convento de Tolfa e para lá se dirigiu. Com sua chegada, mudou radicalmente o ambiente da cozinha. Erigiu ali um pequeno altar com uma imagem da Santíssima Virgem, à qual dirigia contínuas orações, e aplicou às coisas práticas a máxima de São Bernardo: a pobreza nunca deve excluir a limpeza. Todos os que entravam naquelas dependências ficavam edificados com a ordem e boa disposição que reinavam numa parte tão prosaica do convento.

Vários foram os outros conventos pelos quais o Santo passou nos seus cinquenta anos de vida religiosa: Monterotondo, Roma, Albano e Orvieto. Em cada um desempenhou os ofícios mais simples, com humildade e despretensão singulares. Qualquer que fosse a função recebida, a alegria e o espírito sobrenatural nunca o abandonavam. E não poucos foram os milagres operados por ele ainda em vida, como a cura de diversos doentes durante uma epidemia que grassou pela Itália, apenas tocando-os ou traçando sobre eles o sinal da Cruz com sua medalha de Nossa Senhora.

Prelados, nobres e sábios iam à sua procura para suplicar-lhe a cura da peste ou tão só para sentir o bom odor da santidade exalado por sua pessoa. O Cardeal de Tremoglie, Ministro da França, foi curado de grave doença ao comer um funghi especial que o Santo lhe dera, depois de apresentá-lo a Maria Santíssima com este fim. Até o próprio Papa Clemente XI deleitava-se em conversar com ele e o ia buscar em Albano, quando ali residia.

A paz e alegria da boa consciência

Em 1750, mesmo estando com a saúde muito debilitada e já acamado, sua habitual alegria não o abandonou. Havia regressado ao convento de Roma e não querendo atrapalhar a celebração da memória de São Félix de Cantalice, um capuchinho de sua devoção canonizado havia poucas décadas, frei Crispim declarou ao enfermeiro que só morreria depois dos dois dias dedicados à sua memória na época: 17 e 18 de maio. E, efetivamente, assim aconteceu: o Senhor o levou no dia 19, aos 82 anos.

Uma verdadeira multidão acorreu aos seus funerais. Todos imploravam graças ou procuravam obter alguma relíquia. Os milagres não tardaram em multiplicar-se. No coração de muitos de seus devotos, decerto, ressoava uma frase que ele repetia, quando lhe pediam para definir a santidade: “Quem ama a Deus com pureza de coração, vive feliz e morre contente”.11

Esta frase bem resume toda a sua vida!

De fato, só aquele que cumpre a própria missão é capaz de ter genuína alegria, pois está em paz com Deus. Leva na alma, ensina Mons. João Scognamiglio Clá Dias, “a paz verdadeira, a da boa consciência de quem pratica a virtude e dá as costas ao pecado”.12

1 SÃO JOÃO PAULO II. Homilia na canonização de São Crispim de Viterbo, 20/6/1982.

2 NIZZA, Bonifazio da. Vita del B. Crispino da Viterbo. Roma: Salomoni, 1806, p.2.

3 Idem, p.1.

4 Idem, p.7.

5 Idem, ibidem.

6 Idem, p.9.

7 Idem, ibidem.

8 BASSANO, Alessandro da. Vita del Servo di Dio F. Crispino da Viterbo: religioso laico professo dell’Ordine de’Frati Minori di S. Francesco Cappuccini. Venezia: Giovanni Tevernin, 1752, p.19.

9 CORDOVANI, Rinaldo. Crispino da Viterbo. Cenni biografici. In: Biblioteca Società. Viterbo. Vol. XXVII. Fasc. 4 (2008); p.5.

10 BASSANO, op. cit., p.21.

11 LANGA, OSA, Pedro. San Crispín de Viterbo. In: ECHEVERRÍA, Lamberto de; LLORCA, SJ, Bernardino; REPETTO BETES, José Luis (Org.). Año Cristiano. Madrid: BAC, 2004, v.V, p.428.

12 CLÁ DIAS, EP, João Scognamiglio. A santa alegria dos humildes. In: O inédito sobre os Evangelhos. Città del Vaticano-São Paulo: LEV; Lumen Sapientiæ, 2013, v.II, p.188-189.

Revista Arautos do Evangelho – Maio 2016

 

Obrigação de dar bom exemplo

Ir. Patricia Victoria Jorge Villegas, EP

Nada é tão eficaz na observância do mandamento divino de amar o próximo por amor a Deus, quanto um comportamento edificante e o exemplo de uma vida íntegra, com vistas à salvação eterna de nossos irmãos.

Quem assim age faz o papel de um eloquente arauto da verdade. Recordemos, a propósito, o fato ocorrido com o grande São Francisco de Assis, cuja preocupação primordial era instruir os homens pelo exemplo, mais que pelas palavras.

Certo dia, convidou ele um monge a acompanhá-lo em uma pregação. Após dar algumas voltas pelas ruas, retornavam ambos ao mosteiro sem ter pronunciado palavra. Surpreso, o companheiro perguntou-lhe: “Mas, e a pregação?”. Respondeu-lhe o Santo que o simples fato de dois religiosos se apresentarem com modéstia diante da população constituía já um sermão.1 São Francisco, com efeito, não se cansava de ensinar a seus primeiros seguidores: “Todos os irmãos devem pregar com as suas obras!”.2

Ao longo da História, muitos Santos deram às almas, pela simples presença, a esmola do bom exemplo. “Vi Deus num homem!”, exclamou um advogado de Lyon, referindo-se a São João Maria Vianney, ao ser interrogado sobre o que havia conhecido em Ars.3 Segundo narram as crônicas, um irmão leigo da Companhia de Jesus, saindo todos os dias para fazer compras, ganhou mais almas para Deus com suas conversações e bons exemplos do que muitos missionários com suas pregações.4 Convidado certo dia pelo Arcebispo de Évora a fazer uma pregação na catedral, São Francisco de Borja tentou esquivar-se, alegando cansaço e enfermidade, mas recebeu esta resposta: “Não quero que faça sermão, mas que suba ao púlpito e todos possam ver um homem que, por amor a Deus, abandonou tudo quanto tinha”.5

1 Cf. SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO. La dignidad y santidad sacerdotal. La Selva. Sevilla: Apostolado Mariano, 2000, p.306.

2 JOERGENSEN, Johannes. São Francisco de Assis. 3.ed. Petrópolis: Vozes, 1932, p.355.

3 Cf. JOÃO PAULO I. Discurso ao clero romano, 7/9/1978.

4 Cf. MUÑANA, SJ, Ramón de. Verdad y vida. 2.ed. Bilbao: El mensajero del Corazón de Jesús, 1948, t.II, p.577.

5 Idem, p.576-577.

Texto extraído da Revista Arautos do Evangelho – dez 2015  A importância do exemplo

O QUE É MAIS IMPORTANTE?

Ir. Letícia Gonçalves de Sousa, EP

Depois do pecado original, a natureza humana tornou-se mais tendente a buscar sua felicidade nas coisas materiais vinculadas facilmente aos sentidos do que naquelas ligadas ao espiritual. Quiçá seja este o motivo pelo qual o Divino Mestre perfumou as páginas do Evangelho com ensinamentos a respeito da grandeza do Reino do Céu a fim de que, encantados pela beleza deste, os homens perdessem o desejo de gozar desta terra passageira e corrompida.

Nosso Senhor também Se utilizou das parábolas do Reino para falar do caráter militante da Igreja: “quando é semeado, é a menor de todas as sementes. Mas, depois de semeado, cresce, torna-se maior que todas as hortaliças e estende de tal modo os seus ramos, que as aves do céu podem abrigar-se à sua sombra” (Mc 4, 31-32).

Assim sendo, facilmente podemos responder à seguinte pergunta: o que mantém viva, influente e em contínua expansão a Esposa Mística de Cristo? É a estirpe de almas que, escutando as divinas palavras de Nosso Senhor, avançam para fazer com que um dia venha a nós o reino do Pai. A maior arma de apostolado destes apóstolos não é outra senão a vida interior.

São Carlos Borromeu tem um sábio conselho neste sentido: “Não descuides de tua própria alma; se descuidares de tua alma, não poderás dar aos outros o que deves dar”.[1] Este é o segredo do desenvolvimento e da força dessa árvore sagrada, que um dia foi um grão de mostarda. Sua seiva é o auxílio da graça divina, e não a força humana. Portanto, se realizamos boas obras, “não devemos nos pôr a pergunta se os homens reconhecerão nossas realizações e nossas grandezas. Importa sabermos que Deus nos assiste, perscrutando no fundo das almas o amor com que O servimos”.[2]

Podemos dar muita glória a Deus em nossas ações de cada dia, desde que tenhamos as vistas postas no sobrenatural e, não apenas no concreto, sendo perfeitos “como o Pai celeste é perfeito” (Mt 5, 48). “Assim fez Cristo Jesus durante Sua vida pública: ocupadíssima, intensíssima, entretanto, sempre impregnada de oração e contemplação”.[3] Sigamos, pois, os seus passos.

[1] CARLOS BORROMEU, Santo. Sermão. In: COMISSÃO EPISCOPAL DE TEXTOS LITÚRGICOS. Liturgia das Horas. Petrópolis: Vozes; Paulinas; Paulus; Ave Maria; 2000, v. IV, p. 1436.

[2] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Santidade, o ideal de todo homem. In: Dr. Plinio.  São Paulo, Ano IV, n. 44, nov. 2001, p.10.

[3] CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O amor imperfeito de Maria e a preocupação naturalista de Marta. In: Arautos do Evangelho. São Paulo: Ano IX, n. 103, jul. 2010, p. 15.

Diante do Divino Mestre

Bruna Almeida Piva

1º Ano Ciências Religiosas

Foram-lhe, então, apresentadas algumas criancinhas para que pusesse as mãos sobre elas e orasse por elas. Os discípulos, porém, as afastavam. Disse-lhes Jesus: Deixai vir a mim estas criancinhas e não as impeçais, porque o Reino dos céus é para aqueles que se lhes assemelham. E, depois de impor-lhes as mãos, continuou seu caminho.

Um jovem aproximou-se de Jesus e lhe perguntou: Mestre, que devo fazer de bom para ter a vida eterna? Disse-lhe Jesus: Por que me perguntas a respeito do que se deve fazer de bom? Só Deus é bom. Se queres entrar na vida, observa os mandamentos. Quais?, perguntou ele. Jesus respondeu: Não matarás, não cometerás adultério, não furtarás, não dirás falso testemunho, honra teu pai e tua mãe, amarás teu próximo como a ti mesmo. Disse-lhe o jovem: Tenho observado tudo isto desde a minha infância. Que me falta ainda? Respondeu Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende teus bens, dá-os aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me!

Ouvindo estas palavras, o jovem foi embora muito triste, porque possuía muitos bens. Jesus disse então aos seus discípulos: Em verdade vos declaro: é difícil para um rico entrar no Reino dos céus! Eu vos repito: é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus. A estas palavras seus discípulos, pasmados, perguntaram: Quem poderá então salvar-se? Jesus olhou para eles e disse: Aos homens isto é impossível, mas a Deus tudo é possível. (Mt 19, 13-26)

Nesta passagem do Evangelho, rica em significados, podemos notar duas interessantes disposições de alma: a das criancinhas e a do jovem rico. Aquelas aceitam e se deleitam com a divina influência do Salvador, e também Lhe dão alegria; este rejeita o convite para ser apóstolo, deixa Nosso Senhor, entristecendo-O. Nas duas ocasiões, Nosso Senhor demonstra uma bondade sem limites e um carinho comovente; porém, obtém duas reações opostas. Por quê?

Embora, aparentemente, os dois fatos nada tenham de comum entre si, analisando-os bem, vemos que decorrem de um só, mas fundamental, princípio de vida espiritual: a salvação não é fruto do esforço; não se santifica quem procura, diante de Deus, se apoiar em suas próprias obras e méritos. E é justamente esta a disposição de alma das criancinhas: “Quem é pequeno não se julga um colosso nem autossuficiente, mas dependente”.1 Tudo o que precisa, a criança pede aos pais; busca-os infalivelmente em suas dificuldades, não porque se julgue digna de ser atendida – porque não é capaz de nada sozinha –, mas porque só confia neles; não busca ser grande nem independente, mas somente amá-los, e ser por eles também amada; por mais que a castiguem, busca-os e os prefere entre todos os outros.

É o principal motivo pelo qual as criancinhas agradam tanto a Nosso Senhor: a confiança com que se aproximam d’Ele e a sua grande inocência, que as torna capazes de abandonar-se cegamente aos seus divinos cuidados.

Como terá sido o convívio do Redentor com aqueles pequeninos? Talvez Ele os tivesse abraçado, lhes imposto as mãos, concedendo saúde, força, sabedoria e graças incontáveis; e elas com sua vivacidade infantil, certamente fizeram um alvoroço em volta d’Ele…2

Eis, portanto, o que Ele nos quer dizer nesse Evangelho, quando afirma que se nos fizermos “como criancinhas” em nosso relacionamento com Deus, nosso Pai – e com Nossa Senhora, nossa Mãe –, somente assim, entraremos no Reino dos Céus.”

Bem outra, entretanto, foi a reação do moço rico ante o chamado do Divino Mestre. Vê-se que ele buscava se apoiar na prática dos Mandamentos, que dizia ter sempre observado: “Tenho observado tudo isto desde a minha infância”. Porém, isso não suficiente. Nosso Senhor queria dele algo mais, a única coisa que importa realmente: que ele Lhe entregasse o coração. A Infinita Misericórdia buscava não as boas obras somente, mas simplesmente o amor daquela alma. Algo tão natural e fácil para os pequeninos, mas que ele, tão “justo”, não soube dar.

Aquele jovem infeliz pediu a vida eterna; no fundo, achava que esta lhe seria concedida porque observava os artigos do decálogo e era, portanto, bom. Não esperava na misericórdia divina, mas em seu próprio esforço. Porém, nenhum homem pode merecer o Céu, porque “aos homens até isto é impossível.”

Não é verdade que se ele fosse como as criancinhas e dissesse; “Senhor, eu não mereço nada, mas, por compaixão, dai-me a vida eterna!”, teria certamente alcançado o Reino de Deus? Não teria ele sido incomparavelmente mais feliz escolhendo a via do amor, a via dos pequeninos?

Portanto, clara está a resposta à pergunta dos Apóstolos: “Quem poderá, então, salvar-se?” Os que se fizerem como crianças e, livres de toda a riqueza, se jogarem nos braços de Nosso Senhor, que sem dúvida é o melhor de todos os pais e nos ama infinitamente mais do que todos eles.

1 CLÁ DIAS, EP, João Scognamiglio. A inocência, a eterna lei… In: O inédito sobre os Evangelhos. Città del Vaticano-São Paulo: LEV; Lumen Sapientiæ, 2014, v.IV, p.415.

2 Cf. Ibid., p.414.

Convite

Os Arautos do Evangelho cordialmente lhe convidam a comparecer à VIII Romaria ao Santuário de Aparecida promovida pelo Apostolado do Oratório nos próximos dias 12 e 13 de agosto.

Acorramos com alegria para venerar a Mãe de Deus, agradecer-Lhe os favores recebidos durante o ano e apresentar-Lhe os nossos pedidos.

PROGRAMAÇÃO

12 de agosto, 6ª feira

18h – Missa na Basílica Velha, presidida pelo Reitor do Santuário.

19h – Procissão Luminosa, da Basílica Velha até a Basílica Nova.

Sexta-feira, a partir das 13h às 16h: Mostruário, projeção do vídeo, entrega de lembranças e atendimento às delegações no Auditório Padre Noé Sotillo (em frente da Casa do Pão, subsolo do Santuário).

13 de Agosto, sábado

08h – Terço na Tribuna Papa Bento XVI, com a presença da cópia da Imagem de Nossa Senhora Aparecida e animação do Coro Internacional dos Arautos do Evangelho.

10:30 – Missa presidida pelo Cardeal Arcebispo de Aparecida Dom Raymundo Damasceno.

Sábado, a partir das 06:00 até 16:00: Mostruário, projeção do vídeo, entrega de lembranças e atendimento as delegações no Auditório Padre Noé Sotillo (em frente da Casa do Pão).

Para mais informações entre em contato através do telefone (11) 2973-9477 ou pelo whatsapp: (11) 98872-1366

Plinio Corrêa de Oliveira: O mestre do nosso fundador

Plinio Corrêa de Oliveira era um profeta de tal grandeza que, mesmo morto, de alguma forma era imortal. Um homem de sua estatura moral não poderia desaparecer nas brumas da História.

Mons. João Clá Dias dedica a seu amado pai, modelo e guia, uma valiosa coleção sobre sua profética figura. Esta coleção em cinco volumes é uma versão ampliada da tese que Mons João defendeu para a obtenção do grau de Doutor em Teologia pela Universidade Pontifícia Bolivariana de Medellín, por meio da qual se quis facilitar ao grande público a compreensão deste homem que atravessou o século XX de ponta a ponta, e marcou de forma indelével os séculos vindouros.

Este oportuno estudo representa um inigualável contributo para a compreensão da própria pessoa e da mentalidade de Mons. João, que é o fundador dos Arautos do Evangelho, e das características essenciais do carisma dessa Associação Internacional de Direito Pontifício.

Encomende já sua coleção pela internet:

www.arautos.org/domdesabedoria

ou

pelo telefone (11) 2971-9040

Doce presença de Jesus Cristo sobre a Terra

Bruna Almeida Piva

Encontramos no Evangelho inúmeras passagens que narram milagres feitos por Nosso Senhor Jesus Cristo. Vemos cegos, coxos, paralíticos e leprosos sendo curados, e até mesmo alguns, como Lázaro e a filha de Jairo, sendo ressuscitados pela misericórdia do Salvador.

Conhecendo tão estupendos milagres, quantos de nós já desejamos ardentemente viver na mesma época de Nosso Senhor, para assim alcançar d’Ele algum prodígio semelhante! Quantos de nós já ansiamos, ao menos, poder tocar em sua túnica e receber assim alguma graça especial… Porém, apesar desses desejos serem inteiramente legítimos, estamos enganados se pensamos que essas graças somente são alcançadas por aqueles que tiveram o privilégio de estar junto a Jesus Cristo no tempo de sua vida terrena.

Corpus_Christi_ArautosCerta vez, o Profº Plinio Corrêa de Oliveira comentou que ele não compreenderia se Nosso Senhor, em sua infinita misericórdia, houvesse partido para o Céu e deixado, de alguma maneira, de estar presente sobre a face da terra. 1 De fato, Ele não o fez, pois na quinta-feira anterior ao seu Sacrifício, deixou-nos o inestimável e magnífico tesouro da Santíssima Eucaristia. “Seu Coração Eucarístico nos deu a presença real de seu Corpo, Sangue, Alma e Divindade. Ele está presente por toda a terra, em todos os tabernáculos onde há hóstias consagradas, desde as mais belas catedrais até as missões mais longínquas e pobres. Ali está Ele como doce companheiro de nosso exílio, à nossa espera, com pressa para nos salvar, desejando que lhe peça”. 2

Com efeito, Nosso Senhor está todo nesse excelso sacramento em Corpo, Sangue e Alma, e em Divindade. A hóstia que vemos no altar é o próprio Cristo, presente da mesma forma que estava entre seus apóstolos e discípulos, apesar de nossos sentidos não poderem percebê-Lo.

Outro obséquio é de podermos receber este preciosíssimo Sacramento na Comunhão, graça superior até mesmo à que recebeu Santo Estevão quando criança, ao ser abraçado por Nosso Senhor, ou à que obteve o Apóstolo São João, ao recostar-se sobre o Sagrado Coração de Jesus na última Ceia. Pois, ao comungarmos, Cristo não só nos abraça, mas nos possui inteiramente, não só nos faz reclinar a cabeça sobre seu peito, mas põe seu Coração junto ao nosso; e nossa alma, nesse celestial encontro, se reveste da alvura e santidade do próprio Senhor Jesus.

“Nosso Senhor não podia inclinar-se mais a nós, os mais pobres, os mais necessitados e miseráveis, não podia demonstrar mais o seu amor quando, no momento supremo de privar-nos de sua presença sensível, quis deixar-se a Si mesmo entre nós, sob os véus eucarísticos”. 3

Portanto, quando nos sobrevier o desejo de estar pessoalmente diante de Nosso Senhor Jesus Cristo, de progredir nas vias da virtude, ou quando quisermos alcançar d’Ele alguma graça, não sintamos que Ele está longe de nós, mas nos aproximemos do Santíssimo Sacramento, e certamente obteremos tais favores com a mesma eficácia – ou até maior, pelo mérito da fé – do que se estivéssemos na frente de Nosso Senhor da mesma forma que os Apóstolos.

Diante de tanto consolo e amor que encontramos nesse insigne sacramento, grande é a vontade de passar a eternidade inteira desfrutando de seus benefícios. Ora, sabemos que eles nos são concedidos enquanto ainda vivemos nesta terra. Continuaremos nós a recebê-los no Céu? Ou será da vontade de Nosso Senhor que essas graças sejam recebidas somente pelos homens em estado de prova?

Neste sentido, Monsenhor João explica que, uma vez que o sacramento visa produzir a graça, de acordo com o que a forma e a substância simbolizam, não faz sentido que haja comunhão ou qualquer outro sacramento no Céu 4, pois a graça existirá em nossa alma de maneira estável e permanente. Recebemos nessa vida a presença eucarística real de Nosso Senhor em nossa alma para que Ele nos santifique, nos torne semelhantes a Ele, e nos fortaleça contra todo mal; no Céu isso não será necessário, pois o veremos face-a-face e o possuiremos em tempo integral.

Ademais, segundo os teólogos católicos 5, não haverá Missa Sacramental na Eternidade. Haverá a Missa Mística: “Nosso Senhor Jesus Cristo passará a eternidade enquanto homem, de dentro de Sua humanidade, oferecendo [ao Pai], como Sumo Sacerdote, […] a glória do Sacrifício oferecido por Ele. […] Nós teremos constantemente no Céu a Missa sendo celebrada misticamente, […] e nós estaremos eternamente participando deste oferecimento feito por Nosso Senhor”. 6

Contudo, apesar da visão beatífica ser o maior prêmio que Deus poderia conceder aos homens justos, o que está presente no Santíssimo Sacramento é o próprio Autor da Graça. “É, portanto, algo que vale mais do que toda a ordem da Criação, vale mais do que, inclusive, a ordem da Graça. Juntemos todas as graças que a humanidade recebe, receberá e recebeu; todas as graças que existem em Nossa Senhora não dão, nem de longe, o que está numa partícula consagrada: a recapitulação do Universo (cf. Ef 1, 10) num pedaço de pão”. 7

Diante de tão inefável dom, o que podemos fazer para agradecer a Deus, ou ao menos, para Lhe conceder alguma alegria, por tanta bondade? Certamente, está fora do alcance de qualquer ser humano agradecer-Lhe dignamente; porém, Ele nada pede de nós a não ser que sejamos devotos da Sagrada Eucaristia, tanto quanto se possa ser. Comunguemos frequentemente, com as devidas disposições; visitemos as igrejas e capelas nas quais Ele se encontra exposto; entreguemo-nos por inteiro a Ele, com tudo quanto somos e possuímos, e Lhe daremos a melhor recompensa, em busca da qual Ele aceitou ser morto e crucificado: a nossa salvação.


1 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. A presença de Cristo entre os homens na sua vida terrena e na Eucaristia. Revista Dr. Plinio. São Paulo. Ano VI. n. 63 (Junho, 2003); p. 23.
2 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Conferência. São Paulo. Arquivo IFTE.
3 CLÁ DIAS, João Scognamiglio apud MORAZZANI ARRÁIZ, Teresita. Aula de Teologia Sacramental no Instituto Filosófico-Teológico Santa Escolástica – IFTE. Caieiras, 2015. (Apostila).
4 Cf. Ibidem.
5 Ibidem.
6 Ibidem.
7 Ibidem.

Aquele que portava Cristo no seu coração (cont)

Continuação do post anterior

Ir. Clara Isabel Morazzani Arráiz, EP

“Procuro aquele que morreu por nós!”

Entretanto, se as cartas deste insigne doutor manifestam toda a riqueza de seu ensinamento teológico, uma outra ainda, aquela enviada aos romanos, deixa entrever o sublime ardor de sua alma, elevada aos píncaros da mais pura mística. Tendo-lhe chegado a notícia de que os fiéis de Roma procuravam interpor toda sua influência para afastar dele a mortal condenação, apressou-se em dirigir-lhes, desde Esmirna, uma comovedora súplica: “Tenho escrito a todas as Igrejas e a todas elas faço saber que com alegria morro por Deus, contanto que vós não mo impeçais. Suplico-vos: não demonstreis por mim uma benevolência intempestiva. Deixai-me ser alimento das feras, porque, através delas, pode-se alcançar a Deus. Sou trigo de Deus: que seja eu triturado pelos dentes das feras para tornar-me puro pão de Cristo!

Instigai, ao contrário, os animais para que neles encontre o meu sepulcro e nada reste de meu corpo para não ser pesado a ninguém, depois de adormecer. Então serei verdadeiro discípulo de Cristo, quando o mundo não mais vir sequer o meu corpo. Suplicai a Deus por mim, que por este meio me torne uma hóstia para Deus. […]

Que nada, tanto das coisas visíveis quanto das invisíveis, segure o meu espírito, a fim de que eu possa alcançar a Jesus Cristo. Que o fogo, a cruz, um bando de feras, os dilaceramentos, os cortes, a deslocação dos ossos, o esquartejamento, as feridas pelo corpo todo, os duros tormentos do diabo venham sobre mim para que eu ganhe unicamente a Jesus Cristo! […]

Procuro aquele que morreu por nós: quero aquele que por nós ressuscitou. Meu nascimento está iminente. Perdoai-me, irmãos! Não me impeçais de viver, não desejeis que eu morra, pois desejo ser de Deus. […]

Vivo, vos escrevo, desejando morrer. Meu amor está crucificado. Não há em mim um fogo que busque alimentarse da matéria, apenas uma água viva e murmurante dentro de mim, dizendo-me em segredo: ‘Vem para o Pai!’ […]

Se for martirizado, vós me quisestes bem. Se for rejeitado, vós me odiastes.” 7

Expressões de tão heroica caridade só poderiam brotar de um coração tomado pela graça do martírio de maneira superabundante. Com efeito, assim nos explica São Tomás de Aquino: “Entre todos os atos de virtude, o martírio é aquele que manifesta no mais alto grau a perfeição da caridade. Porque tanto mais se manifesta que alguém ama alguma coisa, quanto por ela despreza uma coisa amada e abraça um sofrimento. É evidente que entre todos os bens da vida presente aquele que o homem mais preza é a vida e, ao contrário, aquilo que ele mais odeia é a morte, principalmente quando vem acompanhada de torturas e suplícios por medo dos quais ‘até os próprios animais ferozes se afastam dos prazeres mais desejáveis’, como diz Agostinho. Deste ponto de vista, é evidente que o martírio é, por natureza, o mais perfeito dos atos humanos, enquanto sinal do mais alto grau de amor, segundo a palavra da Escritura: ‘Não existe maior prova de amor do que dar a vida por seus amigos.’”. 8

Um lutador resignado só pode ser traidor

Esta excelência da caridade que pervadia o interior de nosso santo, só tendia a crescer à medida em que se sucediam as etapas da viagem que o aproximavam da tão almejada meta. Embarcando no porto de Dirraquio — sempre sob o olhar vigilante dos guardas, os quais ele mesmo chamava de “dez leopardos”, a causa dos maus tratos que lhe infligiam — enfrentou uma longa travessia, bordejando o sul da Itália e, por fim, desembarcou em Óstia, a 20 de dezembro do ano 107, último dia das festas públicas que se celebravam em Roma.

Na orgulhosa metrópole dos imperadores comemorava-se ainda o triunfo de Trajano sobre os dácios. Durante 123 dias haviam-se prolongado os espetáculos nos quais morreram 10.000 gladiadores e 12.000 feras. O bispo Inácio era esperado com ansiedade pela turba pagã, pois as vítimas ilustres e de aspecto venerável exerciam maior atração nos jogos circenses. Por isso, os soldados para lá conduziram-no sem demora. Os cristãos receberam-no às portas da cidade, com manifestações de sincera admiração e respeito. Alegravam-se ao vê-lo, mas lamentavam, ao mesmo tempo, que lhes fosse arrebatado tão cedo. Rogaram-lhe, então, que obtivesse de Deus o favor de que algumas relíquias suas lhes fossem deixadas após o martírio. Embora contra sua vontade — pois ele desejava ser devorado por inteiro — o santo varão acedeu bondosamente em fazer-se cargo de pedido tão filial.

Arrastando suas cadeias, Inácio atravessou as ruas pavimentadas da capital do império: ao longe podia divisar os imponentes muros do Coliseu dominando o vale, circundado pelos montes Palatino, Esquilino e Célio. Aquele edifício representava para ele o termo de seus anelos, a realização de suas esperanças mais íntimas, a consumação de seu holocausto. Caminhava apressadamente, não com a resignação de um condenado, mas impelido pelos ardores de entusiasmo que não mais cabiam dentro de sua alma, convicto de que o lutador resignado é traidor. Aquele edifício servir-lhe-ia de túmulo e de altar, ao passo que seria o pedestal de onde seu espírito voaria ao céu.

“Desejaria ser triturado como o trigo”

Uma numerosa multidão acorrera ao Coliseu para presenciar o sangrento espetáculo e se deliciar com o destroçamento do corpo do mártir. Este, sereno e alegre, não manifestou a menor vacilação quando as grades foram abertas e entrou no vasto anfiteatro, à espera do trágico momento em que as bestas ferozes fossem soltas. As vaias e os escárnios daqueles pagãos para ele nada significavam. Pelo contrário, eram-lhe uma razão a mais para crer na invisível coorte de bem-aventurados a esperá-lo com uma palma e uma coroa.

Ouve-se um hurra na turbamulta, sucedido por silêncio e um grande suspense: os famintos leões irromperam na arena e, impetuosos, avançaram sobre a pura e inocente vítima para devorá-la. Entretanto, com a majestade e império que possuem as almas tomadas pelo Espírito Santo, o mártir estancou-as a meio caminho, com um simples gesto de mão. Num movimento solene, ajoelhou-se e, elevando os braços ao céu, clamou em alta voz: “Senhor, aqueles que me acompanharam e que são também vossos filhos, pediram-me que rezasse a fim de que algo lhes sobre deste martírio, para estímulo de sua fé. Eu, porém, desejaria ser triturado como o trigo para vos ser oferecido como hóstia pura. Senhor, fazei a vontade deles e também a minha, eu vos peço”.

Após a oração, assistida com estupefação pela horda criminosa e pagã e pelas feras, com respeito, eis que ainda mais grandioso e nobre gesto permitiu a estas últimas sair de seu miraculoso encantamento e dar vazão aos instintos de sua voraz natureza.

Em poucos minutos, lá entravam os gladiadores a agrilhoar aqueles animais que acabavam de saciar seu bestial apetite com as carnes de um novo serafim. A arena vazia, o espetáculo terminado, retirou-se vagarosa e frustrada a assistência. Que demonstração de fé e de nobreza haviam presenciado!

“Põe-me como um selo em teu coração”

Os cristãos por ali ainda permaneceram à espera do cair do sol. E quando o manto da noite passou a cobrir a cidade de Roma, penetraram na arena à procura das poeiras tornadas relíquias ao serem embebidas pelo sangue daquele que agora os precedia na glória celeste.

Um milagre! Encontraram intactos um fêmur e o coração! Tomados de sobrenatural entusiasmo, caminharam sem medir distâncias, rumo às catacumbas e depois de algumas horas, constataram, à luz das lamparinas, outro milagre: num círculo, as veias e artérias do coração do santo mártir, constituíam as célebres palavras: Iesus Nazarenus, Rex iudeorum.

Inácio, o Teóforo, o portador de Deus, atestara seu nome com aquele comovedor prodígio. Seu coração amante fora subjugado e modelado pelo Amado, segundo aquele pedido do Cântico: “Põe-me como um selo em teu coração” (Ct 8, 6). Nem as tribulações, nem as correntes, nem os suplícios, nem a própria morte o haviam podido separar do amor de Cristo. Por sua santa vida, rica em pregações, em caridade e exemplos, assemelhara-se ao Divino Mestre, imitando-o enquanto verdadeiro Pastor das ovelhas. Por sua generosa entrega levada ao extremo da imolação, alcançara para sempre aquela “única coisa necessária” (Lc 10, 42): o convívio eterno com Aquele a quem só procurara na Terra, Jesus!

A este santo varão de Deus bem poderiam ser aplicadas as belas palavras de um autor medieval: “Forte é o amor, que tem poder para privarnos do dom da vida. Forte é o amor, que tem poder para restituir-nos o gozo de uma vida melhor. Forte é a morte, poderosa para despojar-nos do revestimento deste corpo. Forte é o amor, poderoso para nos roubar os despojos da morte e no-los entregar de novo.

Forte é a morte, a ela o homem não pode resistir. Forte é o amor que pode vencê-la, embotar-lhe o aguilhão, travar-lhe o ímpeto, quebrantar-lhe a vitória.” 9

E uma vez mais caiu a noite sobre a grandiosa mole do Coliseu. As areias do circo pagão, regadas pelo sangue daquele que portara a seu Redentor no peito, transformaramse de novo em campo arado e fértil, de onde germinariam muitos outros filhos da Esposa Mística de Cristo.


1)CRISTIANO, Año. BAC, Madrid, 2006, v. X, p. 426-434.
2 ) Carta aos Magnésios, in Liturgia das Horas. São Paulo: Paulus, 2000, v. III, p. 473.
3 ) Carta a São Policarpo, ibidem. São Paulo: Paulus, 2000, v. III, p. 510.
4 ) CRISTIANO, Año. Ibidem, p. 429.
5 ) BUTLER, Alban. Vidas de los Santos de Butler. México: John W. Clute S.A. 1968, v. I, p. 220-224.
6) Carta aos Esmirnenses, in Liturgia das Horas. São Paulo: Paulus, 2000, v. III, p. 122.
7 ) Carta aos Romanos, ibidem. São Paulo: Paulus, 2000, v. III, p. 289290,293-294.
8 ) Suma Teológica II-II q.124 a.3
9) Tratados de Balduíno da Cantuária, in Liturgia das Horas. São Paulo: Paulus, 1999, v. IV, p. 59-60.
Revista Arautos do Evangelho – Outubro 2007

Pulchrum, o que é?

Ir. Juliane Vasconcelos Almeida Campos, EP

Muitas vezes se relaciona beleza com imagem. Mas estas são distinguíveis, apesar de não separáveis totalmente: há conceitos belos e imagens feias. Pode-se dizer belamente a verdade, mas esta só termina de convencer quando é mostrada e não apenas dita. Também se pode fazer belamente o bem e dizê-lo, mas no fazer já o está mostrado iconicamente. Porque é consistente e real o ser no qual o homem crê e seu princípio também é pessoal. 1

E apesar da filosofia moderna kantiana haver reduzido a beleza a um elemento puramente subjetivo, enquanto propriedade do ser, o pulchrum está intimamente ligado aos atributos transcendentais: ao verdadeiro, porque agrada aquilo que é conhecido pelo intelecto, e ao bem porque o objeto do belo satisfaz o apetite sensível. Porém, hoje em dia nota-se que, infelizmente, tornou-se natural ao homem não mais degustar o pulchrum do verum como, por exemplo, um pensamento lógico de um São Tomás, que emite uma beleza que não é literária, senão que é a beleza inerente à ideia ou à verdade que ele põe em evidência, é a beleza do pensamento puro, do conteúdo relacionado à ideia. A beleza da ideia verdadeira é um esplendor que reflete o lado espiritual do homem, como um cristal que, absorvendo a luz, cria a ilusão de que a luz que mora nele o faz um foco de luz. Portanto, o ponto terminal do verum em plenitude, nessa consideração, é o pulchrum. Mas o belo é, também, um tipo de amor que não pode ser destacado do bonum como elemento deste amor. E é por isso que o pulchrum não é senão o splendor veritatis e o splendor bonitatis. 2

Este seria um título autônomo do amor que faz ver a bondade e a verdade das coisas, ou seja, o pulchrum dá uma facilidade especial para amar. Quando se diz que Deus repousou contemplando as suas obras, eram estas mesmas voltando-se para Ele, num ato de religião, cuja beleza é a do efeito que se volta à sua causa. Esse modo de ver o pulchrum é algo que penetra no homem ― libertando-o de seu egoísmo ―, ao qual ele se rende amorosamente, deliciosamente, como num êxtase. Sai de si mesmo, de sua pequenez e se entrega à grandeza e plenitude, como um filho que readquire seu pai, encontrando-o no Absoluto. É uma contemplação estética das mais altas, pois depois de fazer toda espécie de analogias da coisa e chegar à sua beleza, a contempla em Deus, como a Beleza em si. É uma emoção estética que termina substancialmente num ato de caráter religioso e metafísico, ainda que inconsciente. É um profundo pensamento, que através dos esplendores naturais ali contemplados, se chega ao conhecimento do amor de Deus, a uma experiência transcendental do Absoluto. 3

Deus, portanto, se manifesta como uma “fornalha”, luminosa e incandescente, como luz iluminadora, que é o Belo, e como calor vivificante, que é o Bem. Ele é simples e sua luminosidade e incandescência se identificam. “O Bem e o Belo se fundem na indivisibilidade. Então, o prazer de ver a Beleza e as alegrias que saciam de possuir o Bem se compenetram; a inteligência e o amor se liquefazem na unidade do êxtase”.4 Contemplando o Belo, o homem torna-se bom, assim como se torna belo amando o Bem.

1) LLACH ACI, María Josefina. Otra mediación: la belleza, otro lenguaje: la imagen. Em: Revista Teología. Buenos Aires. No. 92 (Abr., 2007); p. 66.
2) CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Coletânea de conferências sobre o Pulchrum. São Paulo: s.n., 1966-1984. s.p.
3) Ibid., s.p.
4) DE BRUYNE, Edgar. L’Esthétique du Moyen Âge. Louvain: L’Institute Supérieur de Philosophie, 1947. p. 123.

“Pulchrum”: o encontro com a transcendência absoluta em nossos dias. Revista Lumen Veritatis. n. 14. Jan-Mar 2011

O Olhar de Nosso Senhor Jesus Cristo – parte II

Continuação do post anterior

Estando os apóstolos perplexos com as palavras de Jesus sob a impossibilidade de um rico entrar no reino dos céus, “fixando neles seu olhar, disse-lhes Jesus: o que para os homens é impossível, para Deus é possível” (Mt 19, 26.). Tal olhar deve ter sido impregnado de bondade e afeto, com o intuito de incutir-lhes confiança na onipotência Divina.

Outra ocasião onde se nota especialmente o amor de Jesus pelos homens, é na multiplicação dos pães, quando Ele diz ter pena da multidão (cf. Mt 15, 32). O professor Plinio Corrêa de Oliveira diz ser inconcebível que o Divino Mestre tenha proferido essa frase com os olhos fechados. Se seus olhos não estivessem abertos quando andava ou fazia pregações, teria atraído as multidões? Claro está que se assim o quisesse, teria tocado as almas mesmo sem dirigir-lhes o olhar. Porém, não procedeu dessa maneira, e foi seu olhar que as atraiu.9

São Jerônimo comenta outro aspecto do olhar do Divino Mestre, quando expulsa os vendilhões do Templo:

Dentre todos os milagres que Cristo fez, este me parece mais admirável: que um só homem, naquela época ainda desprezível, tenha podido, a golpes de um simples chicote, expulsar tão numerosa multidão. É que, de seus olhos, irradiava como que um fogo celestial e, em sua face, brilhava a majestade da divindade.10

O olhar de Nosso Senhor é tão rico em expressões que poderia ser escrito um evangelho dos “olhares magníficos, esplendorosos; dos olhares suaves, doces ou tristes; dos olhares de esperança, dos olhares de perplexidade, dos olhares de indagação, dos olhares de ordenação e planejamento; dos olhares de justa censura e punição”.11

Um dos episódios onde mais se manifesta o ardente desejo da salvação das almas é o episódio do moço rico. Conta São Marcos que um jovem aproximou-se de Jesus e perguntou o que deveria fazer para alcançar a vida eterna. “Jesus, pondo nele os olhos, mostrou-lhe afeto e disse-lhe: ‘Uma coisa te falta; vai, vende quanto tens, dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; depois vem e segue-me’” (Mc 10, 21).

Mas ele, entristecido porque possuía muitos bens, retirou-se desgostoso (cf. Mc 10, 22). Como deve ter sido esse olhar de Jesus? Nosso Senhor lhe convidava para que desse um passo a mais, rumo a uma entrega completa. Porém, ele rejeitou a graça que lhe batia à porta e preferiu ficar com os bens que passam, a abraçar os que não passam… O que terá sido receber um olhar de afeição do próprio Deus?

Esse olhar que a alguns atraía e a outros rechaçava, espargia tal integridade, retidão e virtude, que para poderem consumar suas atrocidades, os algozes tiveram de vendar-Lhe os olhos (Cf. Lc 22, 64). Sobre esta passagem, comenta o professor Plinio Corrêa de Oliveira:

Que noite tremenda se fez para o mundo quando o olhar d’Ele se extinguiu! Noite na qual se teria vontade de pedir a Deus a morte. Pois, uma vez que alguém se habituou ao convívio daquele olhar, tendo este se apagado, nenhum sentido restaria para se continuar a viver no mundo.12

Entretanto, este olhar se reveste de pedido de clemência quando, flagelado e coroado de espinhos, Jesus é apresentado ao povo por Pilatos: Ecce Homo. “Nessa ocasião, Nosso Senhor não proferiu nenhuma palavra, permaneceu num majestoso silêncio”… 13Seus olhos, porém, solicitavam um pouco de amor, um pouco de afeto, um pouco de pena, e para consumar o sofrimento do Homem-Deus, eles nada receberam…

O Redentor foi julgado e condenado à crucifixão. Para isso, foi obrigado a carregar a cruz até o lugar onde iria ser pregado. Porém, estando exausto devido ao peso da cruz, aos açoites e à perda de sangue, os soldados temeram que Ele não aguentasse chegar ao Calvário, empurraram um homem para ajudar Jesus. Seu nome era Simão e a única coisa que se sabe dele é que era de Cirene. Por ser a cruz instrumento de irrisão e chacota, Simão recusou-se a ajudar. Porém, devido às ameaças dos algozes, teve de fazê-lo.

Quando ele apanhou a cruz, Nosso Senhor, flagelado, seguramente dirigiu-lhe um olhar de gratidão. Simão terá sentido que esse olhar o penetrava completamente. Experimentava algo único em sua vida, pois ninguém o havia olhado assim: um olhar extraordinário, repassado de afeto e reconhecimento. “Um diálogo mudo se estabelece entre o Homem-Deus e o Cirineu. Nosso Senhor lhe diz: ‘Meu filho, é por você que eu sofro. Você me vê no auge do abandono, da desgraça, no último ponto do desprezo humano. Mas olhe para Mim’”.14

Simão, extasiado de felicidade, auxiliou o Divino Mestre a levar a cruz. Por fim, chegaram ao cimo do Calvário, Simão ajudou Nosso Senhor a deitar a cruz no chão e, mais uma vez, Nosso Senhor lhe terá dirigido um olhar de agradecimento. Como terá sido esse olhar de gratidão do próprio Deus?!

Pode-se imaginar a felicidade daqueles que na Terra conheceram pessoalmente Nosso Senhor, que passaram perto d’Ele e para quem Ele olhou! Depois de contemplar esse olhar, o que mais? As belezas mais insignes nesta Terra não significam nada para quem apreciou esse olhar! Um olhar que contém tudo: é a melhor ideia que nesta Terra se possa ter da Visão Beatífica!

A felicidade suprema consiste em permanecer unido a esse olhar, tanto nos momentos de alegria, de glória, de entusiasmo, quanto nos momentos em que a dor se faz presente, e amá-Lo, apesar de muitas vezes todas as circunstâncias parecerem contrárias! Para isso é preciso lutar, tendo sempre presente esse olhar que continuamente brada: Vencereis! Vencereis! Vencereis! Confiando nesta promessa de perdão de todas as faltas e misérias, feita pelo olhar por excelência, do Homem por excelência, Cristo Jesus, pode o homem encontrar forças para vencer as tribulações da vida terrena, a fim de chegar à Pátria celestial, à qual se referiu o Apóstolo: “os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou (Is 64, 4), o que Deus tem preparado para aqueles que o amam” (1 Cor 2, 9).

9 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. O sacrossanto olhar de Jesus. Op. cit. p. 20.
10 SÃO JERÔNIMO. In: Math., L. III, c.21, v.15, apud SÃO TOMÁS DE AQUINO. III, q. 44, a.3, ad.1.
11 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. E seremos repletos de grandeza… Op. cit. p. 17.
12 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. O sacrossanto olhar de Jesus. Op. cit. p. 20.
13 Loc.cit
14 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plínio. O exemplo de Simão Cirene. In: Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei. n. 48. mar. 2002. p. 20.

Gaspar, Baltasar e Melchior: reis ou magos?

A Epifania, mais conhecida como Festa dos Reis Magos, foi objeto de grandes comemorações, desde os primórdios da Igreja. O nosso Bolo de Reis é uma reminiscência dessa solenidade, a qual não ficava limitada ao âmbito litúrgico. Mas, como surgiu ela? É o que nos relata a revista francesa “L’Ami du Clergé”, num de seus primeiros números, atualmente já histórico.

Como os pastores dóceis à voz do anjo, apressamonos a ir à gruta de Belém, onde adoramos o Deus que promete o Reino dos Céus a quem imitar sua infância.

Mas eis que outra festa, toda feita de alegria e esperança, nos reconduz ao abrigo do Salvador para celebrar sua Epifania, sua manifestação, aos homens, de que Ele é amor e caridade. Imaginemos estar na véspera dessa antiga solenidade. Os sinos tocam seus acordes mais argênteos, as crianças e os anciãos pobres, com um inocente cântico, vão pedir, em nome da Virgem Maria, uma parte do bolo servido na festa dos Reis: a “parte de Deus”.

O jejum, nos primeiros tempos do Cristianismo

Na vigília dessa festa, os primeiros cristãos costumavam jejuar. Somente os orientais, porém, conservaram esse costume, por causa do Batismo solene que nos seus ritos é conferido nessa noite por eles denominada de “o dia das santas luzes”.

Por volta do século XI, julgou-se no Ocidente que um austero jejum não era compatível com as alegrias da Natividade do Senhor, cuja comemoração se prolongava até a festa da Epifania. E assim, o jejum foi abrandado. O júbilo não se limitou à supressão do jejum, pois, segundo escreveu Guilherme, Bispo de Paris, no século XIII acendiam-se fogueiras nas praças públicas, como na vigília da festa de São João Batista.

Já no século IV, a festa da Epifania era tão importante que — de acordo com o relato de Amien-Marcellin, autor pagão — o imperador Juliano, vindo de Paris e passando pelo Delfinado, não ousou faltar ao Ofício divino nesse dia, por medo de tornarse suspeito de apostasia. Alguns anos mais tarde, o imperador Flávio Valente, infectado de arianismo, teve receio de não ser mais considerado príncipe cristão se não fosse visto pessoalmente no Santo Sacrifício celebrado nesse dia. No seu elogio a São Basílio, São Gregório Nazianzeno descreve a impressão causada ao César romano pela munificência das cerimônias litúrgicas, bem como a majestade de São Basílio no altar e o pavor que ele, imperador, sentiu, pelo menosprezo de suas ricas oferendas.

Quem eram os Reis Magos

Os Magos — qualificativo que designa homens sábios e conhecedores de astronomia — eram ricos e poderosos. Grande número de autores lhes atribui o título de reis, e a Igreja justifica essa opinião, apresentando a adoração dos Magos como o cumprimento desta profecia de Davi: “Os reis de Társis e das ilhas Lhe trarão presentes, os reis da Arábia e de Sabá oferecer-Lhe-ão seus dons” (Sl 71,10).

O autor Sandini observa acertadamente que, com seus camelos, os Magos puderam viajar da Arábia a Jerusalém num prazo de oito dias; os cinco dias que faltam para chegar à data da adoração — a qual, segundo Santo Agostinho e São Tomás, ocorreu no 13º dia após o nascimento do Menino Deus — são mais que suficientes para os preparativos da viagem e o encontro com o rei Herodes. Fixando a festa da Epifania em 6 de janeiro, a Igreja parece confirmar essa opinião já tão antiga.

Iluminados pela graça e deixando-se guiar pelo misterioso meteoro, assim como outrora o povo de Deus no deserto, os Magos puseram-se a caminho para conhecer o rei dos Judeus cuja estrela acabava de lhes aparecer.

A notícia de um rei recém-nascido pôs Jerusalém em polvorosa. Reuniram-se sacerdotes e doutores, consultaram-se as profecias e logo Belém foi designada como sendo a cidade natal do Desejado das Nações.

Felizes por essa informação, os Magos sentiram redobrar sua fé. Mal ultrapassaram as muralhas da Cidade Santa, a estrela novamente os precedeu em seu caminho para finalmente deter-se em cima do lugar onde estava o adorável Menino.

Segundo a opinião mais comum, foi no próprio estábulo onde Jesus nasceu que eles se prosternaram ante Aquele que, do fundo de seu presépio, os tinha atraído do Oriente, chamando a Si, nas pessoas deles, todos os povos da gentilidade.

A Tradição conservou-nos os nomes venerados dos três Reis Magos, dos quais a Catedral de Colônia se ufana de possuir as relíquias: Melchior, augusto ancião, ofereceu ouro ao Rei Jesus; Gaspar, no fulgor da juventude e da beleza, ofereceu incenso, para proclamar sua divindade; e Baltazar, de cor muito morena, ofereceu ao Salvador mirra, testemunho de sua imortalidade.

Origem do “Bolo de Reis”

Não se pode omitir, nesta resenha, o festim do “Bolo de Reis”. Sua origem remonta ao século XIV. Naquela época era costume fazer nas igrejas representações teatrais dos mistérios de nossa fé.

Encontra-se num registro da igreja de Santa Madalena, em Besançon (França), a narração de como se representava a Epifania.

Alguns dias antes da festa, os cônegos escolhiam um dentre eles ao qual davam o nome de rei, porque ele deveria fazer o papel do Rei dos Reis. Colocava-se para ele um trono no coro, e uma palma lhe servia de cetro. Ele era o celebrante já desde as primeiras vésperas. Na Missa, três cônegos — o primeiro vestindo uma dalmática branca, o segundo uma vermelha e o terceiro uma negra, cada qual com uma coroa na cabeça e uma palma na mão, e seguidos de três pagens que carregavam os presentes — saíam da sacristia e, cantando o Evangelho, desciam para a parte inferior da igreja, precedidos por uma estrela de fogo. Depois subiam ao coro e, chegando ao trecho do Evangelho no qual se diz que os Magos adoraram o Salvador, eles iam até o altar, prosternavam-se diante do celebrante e lhe ofereciam seus presentes. Retiravam-se em seguida pelo lado oposto àquele pelo qual tinham vindo.

Tanto na véspera quanto no dia de Epifania, terminado o Ofício, o “cônego-rei” oferecia aos seus confrades, que compunham “sua corte”, uma refeição durante a qual ele era tratado como rei.

A fava no Bolo de Reis

No que diz respeito à eleição de um rei, os leigos não quiseram ficar atrás dos eclesiásticos. Cada família desejou ter seu rei, cuja escolha era feita pela sorte. Os bolos faziam parte dos banquetes de nossos antepassados. Inventou-se um especial para a Epifania, contendo uma fava. Quem recebia o pedaço no qual esta se encontrava, era proclamado rei.

Esse monarca de um dia tinha por corte sua família e seus amigos. E como sua soberania se exercia à mesa, foi necessário assinalar-lhe alguma distinção durante as refeições. Assim, em sua honra, todos aclamavam quando ele bebia: “O rei bebe, viva o rei!”

* * *

Esta forma de celebração perdura ainda em nossos dias em vários países da Europa, constituindo uma das festas litúrgicas comemoradas amplamente na esfera temporal.

L’Ami du clergé, Ano 2, No. 1, 1/1/1880 In: Revista Arautos do Evangelho n.61. jan 2007.

A conformidade à vontade Divina

Ir.Kyla Mary Anne MacDonald,EP

A vontade humana tem uma tendência para a autossuficiência e egoísmo, entretanto, devido à dinâmica de seu próprio ato — amor — é também feita para a entrega, conformidade e, em consequência, união. Como afirma São João da Cruz, o amor faz o amante semelhante ao amado; ou seja, ao amar a Deus, a alma conforma-se inteiramente a Ele:

“Quando falamos de união da alma em Deus, não nos referimos à união substancial sempre permanente, mas à união e transformação da alma em Deus por amor, só realizada quando há semelhança de amor entre o Criador e a criatura. Por esse motivo, dar-lhe-emos o nome de união de semelhança, assim como a outra se chama de união essencial ou substancial. Esta é natural, aquela é sobrenatural, e se consuma quando as duas vontades, a da alma e a de Deus, de tal modo se unem e conformam que nada há em uma que contrarie a outra. Assim, quando a alma tirar de si, totalmente, o que repugna e não se identifica à vontade divina, será transformada em Deus por amor”1.

Assim, se o mais perfeito amor de Deus implica na conformidade à sua vontade, os dois pecados mais graves que abalaram a ordem criada — o pecado dos anjos e o pecado original do homem — foram caracterizados pela expressa não-conformidade à vontade de Deus.

Explica São Tomás que o definitivo aperfeiçoamento ou perdição dos anjos se deu num só ato da vontade, de modo imediato e permanente, que é apropriado à natureza angélica, “despertando” em Deus a manifestação de sua perfeita justiça, mas “o homem por sua natureza não foi feito para atingir, de imediato, sua última perfeição, como acontece ao anjo. Por isso, deve percorrer um caminho mais longo do que o do anjo para merecer a bem-aventurança2. Devido à essa debilidade da razão, a vontade humana é mutável e chega às conclusões através de deliberação ou ensinamento. O processo de aperfeiçoamento pode implicar em repetitivas quedas como também em repetitivos arrependimentos e perdões; possibilidade esta não acessível à natureza angélica.

Assim, devido à diferença entre as naturezas angélica e humana e essa aparente falta de dotes superiores, o pecado original dos homens suscitou não apenas a justiça de Deus, mas também sua infinita misericórdia até então nunca revelada. Deus utilizou a extrema debilidade da vontade humana para sua maior glória e efetuou no gênero humano o seu maior dom: o da Redenção – resgatando-o do pecado original, conforme diz São Paulo: “Deus encerrou a todos esses homens na desobediência para usar com todos de misericórdia” (Rm 11,32).

Na sabedoria divina, a misericórdia da Redenção não foi executada num só ato, mas na vida inteira de Jesus Cristo. Ao se fazer carne, o Verbo não somente morreu por nós, senão também habitou entre nós. Antes de derramar todo seu sangue pela humanidade, Ele nos deixou um exemplo claríssimo de que a vida humana deve ser empregada em obras; de maneira especial, a obra da vontade por amor. Seu amor O levou a submeter, a cada momento, sua vontade humana à vontade do superior, apesar de ser ao mesmo tempo Deus. Vê-se isso desde sua divina infância, no relacionamento com seus pais: “Em seguida, desceu com eles a Nazaré e lhes era submisso” (Lc 2,51). Na sua vida pública: “(…) o Filho do Homem veio, não para ser servido, mas para servir” (Mt 20,28). “Desci do céu não para fazer minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (Jo 6,38).

No célebre “Diálogo”, o Pai Eterno dirigiu essas palavras a Santa catrina de Sena:

(…)Para fazer desaparecer do homem a morte de sua desobediência, em minha clemência providenciei, entregando-vos meu Filho unigênito com grande sabedoria, para que assim reparasse vosso dano. Impus-lhe uma grande obediência a fim de que o gênero humano se livrasse do veneno que se difundira no mundo pela desobediência de vosso primeiro pai. Assim, como que cativo de amor e com verdadeira obediência, correu com toda a rapidez, correu à ignominiosa morte sacratíssima, deu-vos a vida, não pelo vigor de sua humanidade, mas da divindade.3

A reparação do pecado original foi, então, do mesmo gênero que a culpa. Adão tinha pecado por desobediência e orgulho; Cristo expiou por meio da humilde obediência ao Pai, evidenciada no testemunho de São Paulo: “Sendo ele de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens. E, sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-se ainda mais, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz” (Fl 2, 6-8).

Este empenho de Jesus Cristo de submissão voluntária à vontade do superior é o mais convincente exemplo que possa haver. Se não fosse Ele verdadeiro homem, não tomaríamos como uma atitude possível de ser imitada. Se Ele não fosse ao mesmo tempo verdadeiro Deus, sua submissão não teria essa tão comovente qualidade. São Tomás assinala que, sendo possuidor de duas naturezas distintas — natureza divina e natureza humana — Jesus Cristo possuiu duas vontades distintas: uma divina e outra humana4. Ele enquanto Deus era igual ao Pai e enquanto homem era perfeitamente impecável e livremente submeteu sua vontade humana em obediência à vontade divina do Pai, impossibilitando-nos duvidar da conveniência do homem pecador fazer o mesmo.

1SÃO JOÃO DA CRUZ. Subida do Monte Carmelo.Obras Completas. 5. ed. Petrópolis: Vozes, 1998.
2SÃO TOMÁS DE AQUINO. S.T. I, q.62 a.5
3SANTA CATARINA DE SENA. Diálogo.In: Liturgia das Horas. Segundo o Rito Romano. Ofício Divino renovado conforme o decreto do Concílio Vaticano II e promulgado pelo Papa Paulo VI. Tradução para o Brasil da segunda edição típica. Petrópolis: Vozes, 1999, v.4.p.403.
4 S.T. III q.18, a.1.

Aos leitores do blog

Glória a Deus no mais alto dos Céus, e paz na terra aos homens de boa vontade” (Lc. 2, 14)! Foram essas as palavras harmoniosas e iluminadas que Anjos cantaram, anunciando aos homens o nascimento do Salvador.

Após ouvirem as palavras dos Anjos, os pastores, sentindo na alma uma imensa alegria, rumaram a Belém e encontraram uma gruta intensamente iluminada. Aí estava um Menino de celestial beleza, envolto em panos, deitado numa manjedoura. A seu lado, Maria e José, silenciosos e penetrados de indizível piedade, devoção, enlevo e ternura adoravam o Salvador do mundo.

Neste Santo Natal, aproximemo-nos também do presépio, ajoelhemo-nos e deixemo-nos penetrar por essa atmosfera de graças e bênçãos oriundas do Divino Infante. E, com o coração contrito e humilhado, mas transbordante de confiança, imploremos ao Menino Jesus, por meio da Santíssima Virgem, que, desde já e para sempre, faça sua paz reinar dentro e em torno de nós.

Com toda estima, desejamos aos caros leitores do nosso blog um Santo Natal e um Ano Novo repleto de esperança, proteção e verdadeira felicidade!

A onipotência suplicante junto à Onipotência divina

Ir Cássia Thaís Costa Dias de Arruda, EP

Deus, sendo Onipotente, não tem necessidade de nenhum dos seres que criou. E também não precisaria ter criado Nossa Senhora para que as suas graças fossem comunicadas aos homens, salvando as almas por meio d’Ela. Como está acima de tudo, o Altíssimo poderia ter disposto as coisas de outro modo.

Entretanto, uma vez que Deus A criou por um ato libérrimo de sua vontade, e a cumulou de uma torrente de graças, que “sobrepujou não só a de cada um em particular, mas a de todos os Santos reunidos1, Deus lhe conferiu o império sobre todo o universo, de sorte que entre Ela e Deus, há “uma mediação de poder, e não apenas de graça, pela qual Deus executa todas as suas obras e realiza todas as suas vontades por intermédio de sua Mãe”. 2

Em virtude de sua maternidade divina, há entre a Santíssima Virgem e o Padre Eterno “certa unidade de parentesco e como que um consórcio jurídico”. 3 Esta íntima ligação entre Maria e a Trindade faz com que a sua súplica seja poderosa e eficaz. Ademais, Nosso Senhor Jesus Cristo, recebendo de Maria a natureza humana, dava a Ela todos os direitos maternos, “ao qual corresponde em Cristo uma como que obrigação de conceder-lhe o que Ela pede4 Por este motivo, Santo Efrém a Maria suplicava dizendo:

Em ti espero que conseguirei o que anseio […], pois em ti tens o querer e o poder, porque, ainda que de modo inexplicável, tu engendraste a um da Trindade; tens com o que persuadir e mover; mãos nas quais o levaste de maneira inefável, peitos com cujo leite virginal o alimentaste […]. 5

Recorramos aos Evangelhos para compreendermos a fundo a realidade desta questão.

Celebravam-se bodas em Caná da Galiléia, e achava-se ali a mãe de Jesus. Também foram convidados Jesus e os seus discípulos. Como viesse a faltar vinho, a mãe de Jesus disse-lhe: “Eles já não têm vinho”. Respondeu-lhe Jesus: “Mulher, isso compete a nós? Minha hora ainda não chegou”. Disse, então, sua mãe aos serventes: “Fazei o que Ele vos disser”. […] Jesus ordena-lhes: “Enchei as talhas de água”. Eles encheram-nas até em cima. “Tirai agora, disse-lhes Jesus, e levai ao chefe dos serventes.” E levaram. (Jo 2, 1-8).

Não havia sido comunicado a Maria que o vinho da festa acabara. Não estando Ela sentada à mesa –– fazia parte do costume judaico que, nos banquetes, as mulheres ficassem separadas dos homens, supervisionando o serviço de mesa ou preparando os alimentos 6 ––, percebeu a difícil situação na qual se encontravam os nubentes, e seu compassivo coração, não podendo presenciar embaraçosa cena, decide intervir junto ao seu Divino Filho. Julgava Ela ser esta a ocasião preparada pela Providência para Jesus finalmente revelar ao mundo o seu segredo messiânico.

Nosso Senhor, possuindo o conhecimento perfeitíssimo de todas as coisas, sabia da dificuldade pela qual aquele novo casal estava passando, mas queria servir-se da aflição deles para “instruir seus discípulos e associar Nossa Senhora à sua obra, mostrando o papel decisivo da mediação de sua Mãe”. 7 Depois de afirmar não ter ainda chegado o momento dos milagres, Cristo transforma a água em vinho e deixa marcado para a História que, “apesar de não haver chegado a hora, por uma palavra dos lábios da Mãe, Ele nos atenderá”. 8

Deus “concedeu-lhe plenos poderes a fim de nos valer”. 9 Ela é “o ponto de convergência e de espargimento de todas as graças divinas”. 10 Todos os pedidos feitos através d’Ela são agradáveis aos olhos de Deus, pois só Ela encontrou graça diante d’Ele, como declarou o Arcanjo São Gabriel no momento da Anunciação: “Não temas, Maria, pois achaste graça diante de Deus” (Lc 1, 30).

Posta por Deus ao alcance de todos os homens, a Virgem Imaculada obtém do Pai tudo aquilo que só com as nossas orações jamais conseguiríamos alcançar. Invocar o socorro de Maria significa obter os favores celestes, pois assim está determinado pela Providência: tudo o que precisamos, haveremos de receber por intermédio da Auxiliadora dos Cristãos. Afinal, “quem é aquele que pediu socorro a esta doce Soberana e ela não o atendeu? […] Quem jamais solicitou vosso poderoso patrocínio e por [ela] foi desamparado? Tal caso nunca se deu e nunca se há de dar”. 11

Eia, pois, Advogada nossa”, ensina a Igreja, a todos os seus fiéis, a invocar esse auxílio. Ao advogado cabe interceder por seus clientes até que o juiz se torne favorável à sua causa. Esta é a tarefa que a Santíssima Virgem exerce por meio de suas súplicas.

Alguém poderia pensar que seria mais lógico pedir, de uma só vez, auxílio a todos os santos que estão no Céu, pois tendo eles já alcançado a bem-aventurança eterna, também têm o poder de rogar pelos homens junto a Deus. Um pedido feito em coro não seria mais eficaz do que o feito por uma só? Não é assim que as coisas se dão no Céu. Como afirma o Santo Padre, o Papa Pio VII, “as preces dos demais bem-aventurados se apoiam unicamente na benignidade divina; as de Maria, em certo maternal direito. Por isso, acercando-se ao trono de seu divino Filho, pede como advogada, ora como serva, impera como Mãe”. 12 A este respeito, dirige Santo Efrém uma belíssima prece à Rainha de todos os santos, que comprova como já naqueles séculos era reconhecida a suprema prelazia dos rogos de Maria. “Por isso, acudo somente a tua eficacíssima proteção, oh! Senhora, Mãe de Deus! […] Tu, como nenhum outro, tendes livre acesso para com aquele que de ti nasceu”. 13

Tão grande é, portanto, o poder de intercessão da Imaculada, que com razão Ela é exaltada pela Igreja com sendo a “Onipotência suplicante”. Todas as esperanças de reconciliação se encontram em Maria: Ela é uma “rainha onipotente, porque pode tudo junto d’Aquele que tudo pode, e que A constituiu Medianeira de todas as suas graças”. 14

1 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Pequeno Ofício da Imaculada Conceição Comentado. Op. cit. p. 58.
2 Ibid. p. 53.
3 “seguiéndo-se de aqui entre María y el Padre celestial cierta unidad parental y como un consorcio jurídico” (ALASTRUEY, Gregório. Tratado de la Virgen Santisima. Madrid: BAC, 1956. p. 777. Tradução da autora).
4 “al cual corresponde en Cristo una como obligación de concederle lo que Ella le pide” (Loc. cit. Tradução da autora).
5 “en ti espero que conseguiré lo que ansío […], pues en ti tienes el querer y el poder, porque, aunque de modo inexplicable, tú engendraste a uno de la Trinidad; tienes con qué persuadir y mover; manos en las que le llevaste de manera inefable, pechos con cuja leche virginal le alimentaste…” (SANTO EFRÉM apud ALASTRUEY, Gregório. Op. cit. p. 767. Tradução da autora).
6 TUYA, Manuel. Bíblia comentada. Madrid: BAC, 1964, 999-1000.
7 AQUINO, Maria Teresa de Melo. Maria no Novo testamento. Aula de Mariologia no Instituto Filosófico-Teológico Santa Escolástica-IFTE. Caieiras, 2011. (Folha guia).
8 Loc. cit.
9 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Pequeno Ofício da Imaculada Conceição Comentado. Op. cit. p. 395.
10 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Medianeira onipotente. In: Revista Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei, n. 56, Nov. 2002. p. 36.
11 SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO. Glórias de Maria. Aparecida: Santuário, 1987. p. 117.
12 “las preces de los demás bienaventurados se apoyan únicamente en la benignidad divina; las de María, en cierto maternal derecho. Por eso, acercándose al trono de su divino Hijo, pide como abogada, ora como sierva, impera como Madre” (PIO VII apud ALASTRUEY, Gregório. Op. cit. p. 770. Tradução da autora).
13“por eso acudo a tu sola eficacísima protección, ¡oh Señora, Madre de Dios!… Tú como ningún otro, tienes gran confianza (libre acceso) con aquel que de ti nació” (SANTO EFRÉM apud ALASTRUEY, Gregório. Tratado de la Virgen Santisima. Madrid: BAC, 1956. p. 770. Tradução da autora).
14 CORREA DE OLIVEIRA, Plinio. Medianeira onipotente. Op. cit. p. 36.

Olhai as aves do céu…

Emelly Tainara Schnorr

Se Deus tem tanto zelo por uma ave, criatura irracional, incomparavelmente maior é seu desvelo pelos homens, criados à sua imagem e semelhança, filhos seus pelo Batismo.

Para ensinar os homens a confiar na Providência, quis Deus criar na natureza imagens palpáveis da sua infalível benevolência, como as aves do Céu. Elas “não semeiam nem ceifam, nem recolhem nos celeiros”, mas o Pai celeste as alimenta. Ora, pergunta Jesus, “não valeis vós muito mais que elas?” (Mt 6, 26).

Além de nos dar alento nas dificuldades da existência, essa passagem do Evangelho nos facilita contemplar uma das infinitas facetas do Autor da vida, pródigo para com suas criaturas. E nos permite vislumbrar misteriosos reflexos da Eterna Sabedoria ao criar as multidões de aves que “voam sobre a superfície da Terra, debaixo do firmamento dos Céus” (Gn 1, 20). Pois Deus não só lhes dá de comer da farta mesa da natureza, como também predispôs o organismo de todas elas, segundo as diferentes espécies, proporcionando a cada qual os recursos ideais para procurar sua própria nutrição.

Um atraente exemplo disso nos é oferecido pelo pica-pau, uma das mais curiosas aves do céu. Ele não tem plumagem exuberante nem canto mavioso, mas desperta a admiração de quem tem a agradável surpresa de encontrá-lo, quase sempre solitário, firmemente aprumado no tronco da árvore.

Graças à peculiar disposição das quatro garras de suas patas — duas voltadas para trás e duas para frente — e à cauda rígida, na qual se apoia, este ruidoso habitante das florestas consegue manter-se a prumo em elegante posição, enquanto martela as árvores à procura de alimento. O bico, bem mais forte que das outras aves, lhe permite passar o dia inteiro nesse laborioso forrageio, em extraordinária velocidade, fazendo ressoar pela mata o “toc-toc-toc” característico de sua presença.

Como é próprio a todas as obras saídas das mãos d’Aquele que é a Perfeição, essa intensa atividade diária não causa dores nem incômodos à pequena ave, pois sua cabeça é guarnecida por uma estrutura cartilaginosa que funciona como amortecedor, protegendo o cérebro contra o impacto de tantas vibrações. A todo esse rico mecanismo natural do simpático marteleiro, acrescenta-se uma apurada capacidade auditiva: ele consegue ouvir o ruído dos insetos e larvas que se abrigam no oco das árvores. Por isso a perfura sempre no lugar certo e captura as presas fazendo uso de sua pontiaguda língua cujo comprimento chega a ser até cinco vezes maior que o bico!

Eis alguns elementos de perfeição da espécie dados pelo Pai celeste ao pica-pau para garantir sua subsistência. Cada um deles nos faz ver um traço da insondável ciência e da infinita bondade de Deus, e nos traz à mente a indagação do Eclesiástico: “Quem será capaz de relatar as suas obras? Quem poderá compreender as suas maravilhas?” (Eclo 18, 2-3).

* * *

Dessa incompreensível maravilha reportemo-nos ao ensinamento de Nosso Senhor Jesus Cristo e confiemos na ilimitada dadivosidade de Deus, que nunca nos desampara. Pois se tal é seu zelo por uma ave, criatura irracional, incomparavelmente maior é seu desvelo pelos homens, criados à sua imagem e semelhança, filhos seus pelo Batismo, chamados a glorificá-Lo, amá-Lo e servi-Lo de modo livre e consciente, na vida terrena e por toda a eternidade.

Entretanto, nos momentos de incerteza e aflição extremas, não nos limitemos a contemplar as aves do céu. Juntemos as mãos em fervorosa prece e dirijamos nosso olhar filial e confiante Àquela que, entre mil outros títulos, é chamada também Mãe da Divina Providência. Por meio d’Ela, o governo de Deus sobre nós se faz “com uma plenitude de carinho, de comiseração, de afeto, que esgota de modo completo tudo quanto o homem possa imaginar”.1 Depois de experimentar essa ação maternal, brota na alma fiel uma pergunta que mais expressa amor do que desejo de saber, verdadeiro hino de gratidão e louvor: “Que é o homem, Senhor, para Vós, para dele assim Vos lembrardes, e o tratardes com tanto carinho?” (Sl 8, 5).

1CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Nossa Senhora, Mãe da Divina Providência. In: Dr. Plinio. São Paulo. Ano X. N.116 (Nov., 2007); p.26.

O olhar do Homem-Deus

Raphaela Nogueira Thomaz

Afirmava o Papa Pio XII que tudo se reflete nos olhos: não só o mundo visível, mas também as paixões da alma. “Mesmo um observador superficial”, dizia o Pontífice, “descobre neles os mais variados sentimentos: cólera, medo, ódio, afeto, alegria, confiança ou serenidade”.1

Com efeito, quando duas pessoas conhecidas se encontram na rua e se cumprimentam, basta se fitarem para saber como o outro se encontra. E, se um deles perceber indícios de estar o amigo passando por dificuldades, procurará em seguida ajudá-lo. Pois, em certas circunstâncias, um olhar revela mais do que mil eloquentes palavras.

Ora, se tanta profundidade há no olhar das meras criaturas, o que dizer do Homem-Deus?

Dos olhos de nosso Salvador, diz São Jerônimo, “irradiava um como que fogo celestial e
em sua face brilhava a majestade da divindade
”.2 Eles eram, com certeza, riquíssimos em expressão, brilho e até colorido, transmitindo ao interlocutor uma inesgotável torrente de imponderáveis, cuja fonte só podia ser divina.

O olhar de Jesus, escreve Plinio Corrêa de Oliveira, era “muito sereno, quase aveludado… No fundo, porém, revelando uma sabedoria, retidão, firmeza e força que nos enchem ao mesmo tempo de encanto e de confiança”.3

Ora, transcorridos mais de dois mil anos desde que Cristo iluminara a Terra com sua presença, ter-se-á fechado definitivamente para nós a possibilidade de contemplar aqueles olhos que fitavam cheios de amor os seus coetâneos, convidando-os a penetrar nos abismos de seu Sacratíssimo Coração?

Cada povo tende a considerar a figura humana de Nosso Senhor de acordo com a própria vocação. Assim, o espírito sereno, despretensioso e acolhedor do povo português leva-o a notar em Jesus especialmente sua paternal solicitude e afeto.

No país do qual o Brasil herdou a Fé, raras são as imagens do Redentor que manifestam a cólera divina ou aquela forma de dor lancinante, tão habitual nos crucificados e Nazarenos da vizinha Espanha. As pinturas e esculturas portuguesas, ainda que representem uma cena da Paixão, refletem sempre a doçura e paciência com que Jesus aceitou os maiores tormentos para nos salvar. E esse é justamente o traço que mais impressiona na imagem do Senhor Santo Cristo dos Milagres venerada na ilha São Miguel, do arquipélago dos Açores.

Esculpida há três séculos, ela representa o momento em que Nosso Senhor, com as faces marcadas pelos maus tratos dos soldados romanos, era apresentado por Pilatos a um populacho que gritava: “Crucifica-O! Crucifica-O!” (Jo 19, 6).

Aos que desta imagem se aproximam, comove-lhes especialmente seu olhar, porque a expressão desse Ecce Homo reflete uma bondade e desejo de perdoar inefáveis, e convida até os mais empedernidos pecadores a se beneficiarem do manancial da misericórdia divina.

Os olhos do Santo Cristo dos Milagres não evocam tanto o Jesus onipotente que multiplicou os pães e os peixes ou atemorizou os vendilhões do templo, mas Aquele que, no início de sua agonia, pedia a companhia de Pedro, João e Tiago, por estar sentindo uma tristeza mortal (cf. Mt 26, 38). Através dessa imagem, Nosso Senhor mostra às almas o que lhes falta para serem puras, enquanto lhes suplica que deixem de ferir sua Sagrada Face com pecados e imperfeições.

Diante de tanta bondade, a alma lusitana, como a de todos os filhos da Santa Igreja, é convidada a permanecer unida ao Coração Divino, aconteça o que acontecer. Lembrando que, embora às vezes possa parecer distante, Jesus sofreu por nós ao ponto de Se julgar abandonado pelo Pai no alto da Cruz, para nos obter a salvação.

1 PIO XII. Alocução, 12/06/1954.
2 SÃO JERÔNIMO. In Matth., L.III, c.21, vers.15, B166: ML 26, 152.
3 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. O sacrossanto olhar de Jesus. In: Dr. Plinio. São Paulo. Ano VII. N.70 (Jan., 2004); p.19.

A lição das formigas

Emelly Tainara Schnorr

Frágeis, pertinazes e prudentes, dão as formigas aos homens uma grande lição de sabedoria, vivendo em uma sociedade onde reina a harmonia e a paz.

Quando conseguimos nos afastar por alguns momentos do corre-corre rotineiro e deixamos a selva de concreto de nossas cidades para nos aproximarmos mais da natureza, sua beleza e ordenação nos convidam a nos deleitarmos com um mundo de paz e serenidade e a aprendermos muitas lições…

Falta-nos tempo para admirar o Sol que se levanta para nos trazer o dia, espalhando sobre o céu cores belas e variadas. Sem nunca deixar de fazer seu percurso com constância e pontualidade, brilha ele até o momento de retirar-se, para ceder lugar à rainha da noite, a Lua. E quando a abóboda celeste já está coberta com o noturno manto escuro, cintilam as preciosas estrelas, jamais se chocando umas com as outras, mantendo sempre impecável disciplina.
A mesma ordenação vemos refletida no reino animal: desde os maiores, passando pelos mais espertos, até os mais inofensivos, cada um manifesta um modo de vida regrado e uniforme, seguindo com retidão os impulsos de seus instintos naturais.

Pois é para admirar um humilde inseto que convidamos nosso leitor a deixar suas preocupações por uns instantes. Observemos as formigas, “animais pequenos na terra que, entretanto, são sábios, muito sábios” (Pr 30, 24).

Apesar de não apresentar uma formosa figura, elas provocam encantamento pela perfeição de sua vida em sociedade. Não é raro uma criança, ao brincar no jardim de sua casa, encontrar um formigueiro e pisá-lo, ficando espantada por ver a quantidade de insetos que correm desesperados pela “tragédia” sucedida… Quantos caminhos e galerias são descobertos debaixo da terra! Como um lugar tão diminuto serve de alojamento para tantas formiguinhas? E mais assombroso ainda é ver tudo tão bem organizado e dividido, havendo, até mesmo, repartições com câmaras e salões.

Ali vivem as formigas em completa harmonia, ajudando-se mutuamente. Muito raro é encontrar alguma sozinha, sempre marcham em conjunto na busca do alimento, formando verdadeiros cortejos. E é tal a união entre elas, que uma, ao passar do lado da outra, nunca segue seu caminho sem parar para “cumprimentar” sua companheira.

Chama também a atenção a pertinácia com que estes miúdos insetos desempenham seus trabalhos: independente do tamanho e do peso dos alimentos — muitas vezes superiores à sua estatura —, nunca desanimam ou desistem, seguindo sempre adiante, com ímpeto e rapidez.

Se pensamos nas desordens e extravios existentes no mundo dos homens, desconhecidos no universo das formigas, é possível que sintamos tristeza. E com razão, pois estando o homem dotado de inteligência e vontade, possuindo um forte instinto de sociabilidade que lhe dá o anseio — até mesmo a necessidade — de conviver com os outros, e contando ainda com o auxílio da graça, por que vemos tanto egoísmo e violência na sociedade?

Ah… se o homem se lembrasse mais do Criador de todas estas maravilhas, seus instintos ficariam mais ordenados! Se amasse ele a Deus sobre todas as coisas e ao próximo segundo o amor que Ele tem por cada um (cf. Jo 13, 34), como seria diferente o mundo no qual vivemos!

A isso nos convida a imagem da tenaz formiguinha carregando o seu pesado fardo. Pois não é verdade que ela faz lembrar Nosso Salvador subindo ao alto do Calvário carregado com o peso dos nossos pecados, sem demonstrar uma fímbria de cansaço ou desânimo?

Não é sem razão que a Escritura aconselha a dirigirmos nossa atenção a este humilde inseto: “Vai, ó preguiçoso, ter com a formiga, observa seu proceder e torna-te sábio: ela não tem chefe, nem inspetor, nem mestre; prepara no verão sua provisão, apanha no tempo da ceifa sua comida” (Pr 6, 6-8).

Contudo, não devemos restringir este conselho tão só às nossas labutas físicas e terrenas, mas, sobretudo, às espirituais, que tangem ao serviço da Santa Igreja, para a implantação do Reino de Cristo em todo o orbe da Terra.

Apoiando-nos somente em nossas próprias forças, porém, jamais alcançaremos a meta. Para atingi-la, devemos recorrer às armas da oração com a mesma pertinácia das formigas, pois é por meio das graças através dela obtidas que nos advirá a fortaleza necessária para abandonarmos o caminho do egoísmo e abraçarmos o da virtude. Só assim se estabelecerá de novo a paz, a benquerença e a harmonia entre os homens.

Redescubra a beleza da fé no novo livro de Mons João Clá Dias: O inédito sobre os Evangelhos

Considerando as leituras da Liturgia da Palavra na Santa Missa um incomparável meio de formação exegética, doutrinária e moral, Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias, EP, Presidente da Associação Arautos do Evangelho, oferece uma visualização nova, inédita nestes comentários litúrgicos.

A coleção “L’inedito sui Vangeli” é uma publicação conjunta internacional em quatro línguas da Librería Editrice Vaticana e os Arautos do Evangelho. O livro será lançado no próximo dia 28 de novembro, em Roma. Durante o ato será apresentado o Volume V da coleção -que comenta os Evangelhos dos domigos do Advento, Natal, Quaresma e Páscoa, e das Solenidades do Senhor no Tempo Ordinário do Ano C, e o volume VI, que comenta os Evangelhos dos Domingos do Tempo Ordinário do Ano C.

“Encontramos caracterizada com frequência nestas páginas a solução aos problemas espirituais do homem do século XXI”, afirma o Cardeal Rodé na apresentação que faz do livro.

http://es.gaudiumpress.org/content/42013-Libro-del-Presidente-de-los-Heraldos-del-Evangelio-sera-lanzado-en-Roma

“Repreende o justo e ele te amará”(Pr 9,8)

Davi é repreendido pelo profeta Natã - Catedral de Colônia, Alemanha.

Davi é repreendido pelo profeta Natã - Catedral de Colônia, Alemanha.

María del Pilar Perezcanto Sagone

Quem gosta de ser repreendido? O homem, naturalmente, foge da repreensão, ainda que posteriormente, ele perceba ter sido esta benéfica para sua alma. Então, surge o problema: de que maneira devemos aceitar as repreensões que recebemos para que estas nos santifiquem? Discorramos um pouco acerca deste tema tão decisivo para nossa salvação eterna.

Possivelmente, a maior dificuldade do homem concebido no pecado original apresenta-se quando sente em si uma forte e agradável atração oposta ao dever, acompanhada de uma espécie de cegueira por onde a pessoa não discerne claramente o mal encerrado naquilo que a seduz.

Ora, posto nesse estado de atração, não há nada que o homem mais deteste do que ouvir falar em virtude, em obediência aos Mandamentos e castigos.1 Entretanto, ainda que o homem não goste de ser desviado daquele caminho ao qual sua concupiscência o conduziu, deve escutar estas paternais palavras que Deus lhe dirige: “Meu filho, não desprezes a correção do Senhor, nem te espantes de que ele te repreenda, porque o Senhor castiga aquele a quem ama, e pune o filho a quem muito estima” (Pr 3,11,12). É uma verdadeira prova do amor que Deus nos tem o fato de que nos repreenda, pois diz a Escritura: “Aquele que poupa a vara quer mal a seu filho; mas o que o ama corrige-o continuamente” (Pr 13,24). O que seria de nós se não tivéssemos uma mão afetuosa que nos impede de cair no abismo?

Uma das maneiras de fazer transparecer o amor do superior para com súdito é corrigir-lhe e admoestá-lo de suas faltas para que possa emendar-se. O superior que ama verdadeiramente seu filho espiritual lhe deseja o bem, agindo como verdadeiro pai. 2

São João Clímaco compara, com muita unção, a crueldade de alguém que retira o pão das mãos de um menino faminto, com a daquele que tem obrigação de corrigir e não o faz. Este último causa dano não só a seu próximo mas também a si próprio. Ver-se-á, por essa omissão, privado dos méritos e benefícios do cumprimento desse dever e acabará por escandalizar os que constatam sua negligência.3

Mas, cabe-nos perguntar: Quem tem o dever de corrigir? São Tomás nos responde: Esta obrigação é de todos para com todos, 4 mas se intensifica quando Deus põe a nosso cuidado certas almas.

O próprio Salvador nos deixou este ensinamento: “Se teu irmão tiver pecado contra ti, vai e repreende-o entre ti e ele somente; se te ouvir, terás ganho teu irmão” (Mt 18, 15). São Tomás afirma que corrigir o próximo, desde que se presuma que será bem aceito, constitui uma verdadeira obrigação, ligada à virtude da caridade.5 Por isso, a correção fraterna é uma das maiores obras de misericórdia que podemos praticar em relação ao próximo.6 Nosso Senhor não está somente nos aconselhando, mas está nos dando um mandato: “repreende-o “. Ele deixa claro que todos têm esta obrigação moral: “O que vos mando é que vos ameis uns aos outros”. ( Jo 15, 17)

Entretanto, no cumprimento deste fundamental dever não podemos deixar que penetre nas nossas almas qualquer fimbria de orgulho, pois devemos exercê-lo por amor a Deus. Claramente no-lo diz Monsenhor João Clá Dias: “Evidentemente, na aplicação deste preceito, não se deve agir com alguma paixão, por menor que seja. A isenção de ânimo é fundamental. Toda caridade deverá ser empregada na delicadíssima tarefa da reconciliação.7

Contudo, em muitas ocasiões apesar da correção ser ouvida com ressentimento, pois atinge o amor-próprio, a consciência daquele que soube repreender corretamente fica em paz pela tranquilidade do bem realizado. Quem admoesta o próximo, não pelo exagerado gosto de corrigir — que é a mais vil das vaidades —, mas com o verdadeiro desejo de incentivar o progresso espiritual, esse sim é que ama seu irmão.8

Para mostrar melhor esta atitude, Monsenhor João a exemplifica dizendo que na vida de todos os dias, não é difícil acontecer que saiamos de casa distraidamente com algum desalinho em nossa apresentação: meias de cores diferentes, roupa mal colocada, etc. Basta que, por caridade, alguém nos advirta, para nós nos manifestarmos cheios de gratidão; se, pelo contrário, ninguém nos avisasse, ficaríamos ressentidos. Ora, com mais razão devemos agradecer a quem nos admoesta pela nossa falta de virtude, sobretudo naquilo que possa vir a constituir escândalo.9

Quem possui a Sabedoria, quando corretamente repreendido, torna-se agradecido sem jamais guardar qualquer ressentimento. Ao contrário, quem se lamenta por ser admoestado, não possui a sabedoria, pois na repreensão é que se mostra o valor do homem.10

Lembremo-nos, entretanto, de que o ato de virtude de chegar a amar àquele que nos repreende só pode ser fruto de uma graça. Saibamos pois, abrir nosso coração para toda e qualquer repreensão vinda de Deus através daqueles que nos mostram, de uma ou outra maneira, os nossos defeitos. Desta maneira alcançaremos a finalidade para a qual fomos criados: ver a Deus face a face.

1 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Alma feita de harmonias. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano X, n. 114, set. 2007, p. 8.
2 RODRIGUEZ, Alonso. Ejercicio de Perfección y virtudes cristianas. Madrid: Testimonio, [s.d]. p. 1636.
3 CLA DIAS, João Scognamiglio. A correção fraterna, uma opção ou um dever? In: Arautos do Evangelho. São Paulo. n. 81, set. 2008. p. 11. 40p. cit. q.33, a.2.
4 S. Th. II-JI, q.33, a.3.
5 Loc. cit.
6 ROYO MARIN, Antonio. Espiritualidad de los seglares. Madrid: BAC, 1967. p. 335.
7 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Op. cit. p. 11.
8 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Quem encontra um amigo fiel, descobre um tesouro! — II In. Dr. Plinio. São Paulo: Ano XIII, n. 149, ago. 2010, P. 22.
9 CLA DIAS, João Scognamiglio. Op. cit. p. 12.
10 “CORRÊA DE OLIVEIRA, Op. cit. p. 22.

Oração: condições para ser atendido

oração ArautosIrmã Ana Rafaela Maragno,EP

O homem, em sua debilidade, não pode, sem a graça, alcançar certos favores, mas poderá obtê-los através da oração, pois “o Espírito vem em auxílio à nossa fraqueza; porque não sabemos o que devemos pedir, nem orar como convém, mas o Espírito mesmo intercede por nós com gemidos inefáveis” (Rm 8, 26).

A oração deve estar presente em todos os dias da nossa peregrinação terrena; assim jamais haverá de nos faltar o necessário quando pedirmos socorro. Pode ser que a espera se prolongue, que não haja consolações interiores, ou mesmo sensação de completo abandono, na qual o Céu parece toldado por densas nuvens escuras. Sejam quais forem essas situações, estejamos certos de que nunca devemos desanimar nem desistir. Do mesmo modo como não nos esquecemos de tomar alimento, para manter o vigor e a saúde do corpo, assim também não devemos negligenciar a oração, para que nossa alma, faminta, não venha a desfalecer.

Não obstante, existe um problema. Sabemos, pelo Espírito Santo, o que devemos pedir. Mas, como enunciar essas súplicas e quais as condições para torná-las infalíveis diante de Deus?

As condições para ser atendido

“Se permaneceis em mim e minhas palavras permanecerem em vós, pedireis tudo o que quiserdes e vos será feito” (Jo 15, 7). Nosso Senhor promete de maneira clara, em inúmeras circunstâncias de sua vida terrena a onipotência da oração. “Pedi e se vos dará. Buscai e achareis. Batei e vos será aberto. Porque todo aquele que pede, recebe. Quem busca, acha. A quem bate abrir-se-á” (Mt 7, 7-8). Quem colocaria em dúvida o juramento do Divino Salvador? Quem ousaria contradizê-Lo?

Alguém poderia contestar, com argumentos pouco convincentes, mostrando que, em muitas ocasiões, essa promessa não se cumpriu e inúmeros pedidos pareceram não ter chegado nunca aos ouvidos de Deus. O Apóstolo São Tiago responde a essa objeção: “Pedis e não recebeis, porque pedis mal” (Tg 4, 3).

Ora, se a prece mal feita não é atendida, quais são os requisitos necessários para a infalibilidade da oração? Quatro são, segundo São Tomás, as condições para obtermos aquilo que pedimos: “por nós mesmos, pedir coisas necessárias à salvação, devotamente e com perseverança”.1

“Por nós mesmos”

Quando alguém pede algo em favor de si próprio, já possui a disposição para receber a graça, mas, se intercede por outro, nem sempre este terá a alma aberta para acolhê-la e poderá colocar obstáculos à ação de Deus, como bem expressa Royo Marín: “Deus respeita a liberdade do homem, e não costuma conceder suas graças a quem não quer recebê-las”.2 Isto não significa que rezar pelo próximo seja ineficaz, mas, sim que não teremos certeza da utilidade da oração na vontade daquele por quem pedimos, pois, “a promessa foi feita, não para os que rezam para outros, mas para os que rezam para si mesmos: Dar-se-vos-á”.3

“Coisas necessárias à salvação”

Ao solicitar de Deus a graça da eterna salvação ou dos meios que a ela conduzem, Ele nunca deixa de atender, pois deseja-a mais do que nós mesmos e é Ele mesmo quem nos inspira os anelos de santidade. Contudo, por falta de sabedoria, nem sempre pedimos o que nos convém em ordem à felicidade eterna, donde o Criador, em sua infinita Bondade, não poderá nos conceder algo que venha a prejudicar a prática da virtude, pois, como diz Santo Agostinho “o que é útil ao doente, o médico sabe melhor do que ele.4

“Se não recebes, é porque pedes uma pedra. Porque, se é certo que és filho, não basta isso para receber, antes, a qualidade de filho é obstáculo para receber se, sendo filho, pedes o que não te convém, pelo contrário, também te garante que não podes receber quando peças o que não te convém. Não peças, pois, nada mundano; pede tudo espiritual, e infalivelmente receberás. […] Porque também vós – nos diz o Senhor –, que sois pais, esperais que vossos filhos vos peçam; e, se vos pedem algo inconveniente, lho negais; assim como, naturalmente, lhes concedeis o conveniente. […] Se com este espírito te aproximas de Deus e lhe dizes: “se não recebo, não me retiro”, indefectivelmente receberás. Isto sim, com a condição de que peças o que está bem te dê Aquele a quem o pedes e que te convenha a ti, que pedes.”5

“Devotamente e com perseverança”

Explica o “Doutor da oração”6, comentando o trecho citado de São Tomás, que na palavra “devotamente” o Doutor Angélico encerrou todas as condições que se requerem por parte do sujeito que ora; isto é, humildade, confiança e perseverança, sem deixar de rezar até o instante da partida deste mundo para encontrar o Supremo Bem, objeto dos anelos nas orações fervorosas feitas nesta Terra. Outro ponto é a insistência na oração.

Vejamos separadamente cada uma destas condições.

  • Humildade
    “Deus resiste aos soberbos, mas dá sua graça aos humildes” (Tg 4, 6). É próprio ao presunçoso contar consigo mesmo, depositando sua segurança nas capacidades que tem, sejam elas reais ou imaginárias, e confiando em suas próprias forças. Possui uma venda nos olhos e não quer pedir para ver a luz. O humilde, pelo contrário, reconhece que toda sua energia vem de Deus e nada pode sem Nosso Senhor Jesus Cristo.

    Deus, diz a Escritura, “apaga a memória dos orgulhosos” (Eclo 10, 21), mas desdobra-se sobre os humildes, em atenções e ternuras, e sempre está pronto para derramar com abundância os tesouros de sua liberalidade.

    Uma vez curvados ante a divina majestade, com o espírito despretensioso como o publicano da parábola (Cf. Lc 18, 9-14), devemos esperar com inteira confiança as graças pedidas. Ninguém, ao pedir um favor a outrem, crê não poder recebê-lo, pois, do contrário, não se atreveria a tentar conseguir o esperado. Se assim acontece entre os homens, como duvidar de Deus?

  • Confiança
    Apraz a Deus nossa fé em sua misericórdia, porque deste modo reconhecemos sua bondade, manifestada ao criar-nos e ao conceder-nos tantos dons. Abandonando-nos completamente nas mãos do Criador podemos esperar grandes coisas, pois sua indulgência é uma fonte inesgotável e nossa confiança pode ser comparada a um vaso vazio: quanto maior for este, maior será sua capacidade de receber e, em consequência, maior o número de graças de que será cumulado.7

    Essa confiança cega em Deus deverá ser conservada mesmo nas ocasiões de aridez espiritual, nas quais não parecem ser ouvidas nossas súplicas favoravelmente. Contudo, é preciso permanecer, segundo o conselho do Apóstolo, “esperando contra toda esperança” (Rm 4, 18). Assim, a oração tornar-se-á mais agradável à Divina Providência, pois nela reconhecemos nosso nada e calcamos a inclinação de auto-suficiência, inerente à natureza humana decaída, para esperar unicamente os bens que de Deus provêm.

  • Perseverança
    Esta confiança caminha sempre intimamente unida a outro valor: a insistência na súplica. Em certos casos, Deus não atende nossa prece com a rapidez que nós desejaríamos, para provar nossa fé e esperança. Dada a inconstância consequente do pecado, Deus experimenta nossas disposições, para não sermos levados por qualquer vento dos sentimentos ou arrastados pelas ondas das paixões, mas darmos frutos na perseverança (Cf. Lc 8, 15).

    Com efeito, muitas vezes, nos momentos de fervor, estamos animados por um desejo ardente, acompanhado da vontade de rezar e da certeza da obtenção da graça solicitada; entretanto, aparentemente recusado o primeiro pedido, – porque não é o momento oportuno de Deus conceder, ou mesmo porque Ele quer coroar nossa alma com o mérito da pertinácia –perdemos o entusiasmo inicial e abandonamos logo a oração.

    Ao dirigir a palavra a uma pessoa, ninguém, após tê-la chamado uma primeira vez sem obter resposta e nem mesmo a sua atenção, desiste de falar-lhe novamente. Ao contrário, repete o apelo, até esta lhe prestar ouvido. Se assim agimos nas relações humanas, porque razão não insistir na prece feita a Deus? Ele nos acolhe antes mesmo de formularmos nossa petição, e não deixará de atender com largueza.

    “Não sabemos quantas vezes quererá Deus que repitamos nossa oração para obter o que pedimos. Em todo caso, a demora mais ou menos prolongada ordena-se a nosso maior bem: para redobrar nossa confiança n’Ele, nossa fé, nossa perseverança”.8

    É preciso bater à porta divina até ela nos ser aberta. Cabe dizer que, quanto mais a demora se prolongue, maior será o dom, quando ele vier. Deus sabe dispor a ocasião adequada para derramar seus favores. “Quando Deus tarda em intervir é por razões mais altas e porque certamente nos dará com superabundância”.9

    “Deixai que Ele vos instigue a multiplicar vossas orações, não as atendendo senão depois do centésimo pedido. Ele disse que é preciso rezar sempre, deixai-o comportar-se em relação a vós de maneira a que rezeis sempre. Crede que isso vos será vantajoso”.10

    Pedir a perseverança final

    Quando devemos rezar? Sempre. Não há época, lugar e circunstâncias nas quais possamos dispensar a oração e nos abster da prática dela. Ela nos deverá acompanhar de modo contínuo até o momento de nossa morte, para o qual devemos implorar, sobretudo, a graça da perseverança final. Quantos são os pecadores arrependidos que tornaram a pecar, por não terem sido assíduos na oração! “Quem começa a orar deixa de pecar, quem deixa de orar começa a pecar”.11Salomão pediu a sabedoria e sua súplica agradou ao Senhor (Cf. 1 Re 3, 10), mas, no fim de sua vida, desviou-se seu coração e transgrediu a Lei de Deus (Cf. 1 Re 11, 4-10), porque não havia pedido a perseverança.

    A vida do homem sobre a Terra é uma constante luta! (Cf. Jó 7, 1) E ai dos que não persistem na oração! Durante todo o tempo de nosso combate é preciso ter essa poderosa arma nas mãos. Ela nos torna robustos e alcança-nos o prêmio da vitória!

    Teremos a certeza de que “se nossa oração reúne as condições que acabamos de mostrar, obterá infalivelmente, mais cedo ou mais tarde, o que nela pedimos a Deus. De fato, na prática obtemos muitíssimas coisas de Deus sem reunir todas estas condições, por um efeito superabundante da misericórdia divina. Mas, reunindo estas condições, obteríamos sempre, infalivelmente, – pela promessa divina e fidelidade de Deus em suas palavras –, inclusive aquelas graças que, como a perseverança final, ninguém pode merecer senão somente impetrar”.12

  • 1 “Ut sciliset pro se petat, necessaria ad salutem, pie et perseveranter” (SÃO TOMÁS DE AQUINO. Summa Theologiae. II-II, q. 83, a.15, ad 2. Para as citações da Suma Teológica, neste trabalho será sempre utilizada a tradução das Edições Loyola).
    2 “Dios respeta la libertad del hombre, y no suele conceder sus gracias a quien no quiere recibirlas” (ROYO MARÍN, Antonio. Teología de la Perfección Cristiana. 11. ed. Madrid: BAC, 2006. p.426. Tradução da autora).
    3 SANTO AFONSO DE LIGÓRIO. Op. cit. p. 57.
    4“Quid enim infirmo sit utile magis novit medicus quam aegrotus” (SANTO AGOSTINHO, apud SÃO TOMÁS DE AQUINO. S.Th. II-II, q. 83, a.15, ad 2).
    5 “Si no recibes, es porque pides una piedra. Porque, si es cierto que eres hijo, no basta eso para recibir; más bien la cualidad de hijo es obstáculo para recibir si, siendo hijo, pides lo que no te conviene, al contrario, también te garantiza que no puedes recibir cuando pidas lo que no te conviene. No pidas, pues, nada mundano; pide todo espiritual, e infaliblemente recibirás. […] Porque también vosotros – nos viene a decir el Señor –, aunque sois padres, esperáis que os pidan vuestros hijos; y, si os piden algo inconveniente, se lo negáis; así como, naturalmente, les concedéis y procuráis lo conveniente. […] Si con este espíritu te acercas a Dios y le dices: ‘Si no recibo, no me retiro’, indefectiblemente recibirás. Eso sí, a condición que pidas lo que está bien te dé Aquel a quien se lo pides y que te convenga a ti que lo pides” (SÃO JOÃO CRISÓSTOMO. Homilía 23, 4. In: Obras de San Juan Crisóstomo: Homilías sobre el Evangelio de Mateo. 2. ed. Madrid: BAC, 2007. p. 479. Tradução da autora).
    6 SANTO AFONSO DE LIGÓRIO. Op. Cit. p. 63.
    7 Ibid. p. 73.
    8 “No sabemos cuántas veces querrá Dios que repitamos nuestra oración para obtener lo que pedimos. En todo caso, la dilación más o menos prolongada se ordena a nuestro mayor bien: para redoblar nuestra confianza en El, nuestra fe, nuestra perseverancia” (ROYO MARÍN, Antonio. Nada te turbe, nada te espante. 2. ed. Madrid: Palabra, 1982. p. 115. Tradução da autora).
    9 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. A Ressurreição de Lázaro. In: Arautos do Evangelho. São Paulo, n. 39, mar. 2005. p. 9.
    10 “Laissez-le donc vous pousser à multiplier vos prières, en ne les exauçant qu’après la centième demande. Il a dit qu’il faut toujours prier, laissez-le se conduire à votre égard de manière à ce que vous priiez toujours. Cela vous sera avantageux, croyez-le” (BOUCHAGE, F. Pratique des vertus. 2. ed. Paris: Gabriel Beauchesne, 1918. Vol. III. p. 380. Tradução da autora).
    11 SANTO AGOSTINHO apud SPIRAGO, Francisco. Catecismo Católico popular. Trad. Artur Bivar. 6. ed. Lisboa: União, 1958. p. 291.
    12 “Si nuestra oración reúne las condiciones que acabamos de señalar, obtendrá infaliblemente, más pronto o más tarde, lo que en ella pedimos a Dios. De hecho, en la práctica obtenemos muchísimas cosas de Dios sin reunir todas estas condiciones, por un efecto sobreabundante de la misericordia divina. Pero, reuniendo esas condiciones, obtendríamos siempre, infaliblemente, – por la promesa divina y fidelidad de Dios a sus palabras – incluso aquellas gracias que, como la perseverancia final, nadie absolutamente puede merecer sino solamente impetrar” (ROYO MARÍN, Antonio. Nada te turbe, nada te espante. Op. cit. p. 115. Tradução da autora).

    Beleza: o eco da voz de Deus

    Santo AgostinhoIrmã Carmela Werner Ferreira, EP

    Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde Te amei! Estavas dentro e eu fora Te procurava. Precipitava-me eu disforme, sobre as coisas formosas que fizeste. Estavas comigo, contigo eu não estava. As criaturas retinham-se longe de Ti, aquelas que não existiriam se não estivessem em Ti. Chamaste e gritaste e rompeste a minha surdez. Cintilaste, resplandeceste e afugentaste minha cegueira. Exalaste perfume, aspirei-o e anseio por Ti. Provei, tenho fome e tenho sede. Tocaste-me e abrasei-me no desejo de tua paz” (Santo Agostinho, Confissões X).

    Quis Deus, em sua sabedoria eterna, estabelecer para as criaturas racionais um estado de prova. Anjos e homens deveriam ser submetidos a uma situação por onde escolhessem a Deus por si próprios antes de O gozarem definitivamente.

    Rejeitando a supremacia do ser que os tirara do nada, eles ambicionaram o cetro do universo e atraíram sobre si o rigor da justiça divina. Assim se explica a expulsão de nossos primeiros pais do Paraíso, que de modo bem diverso ao dos anjos, ainda receberam a promessa da redenção. Era preciso que transcorressem os séculos e os milênios a fim de que os “degredados filhos de Eva” compreendessem profundamente as consequências do primeiro pecado e de seus pecados atuais para enfim restituírem ao Senhor a glória e supremacia que Lhe é devida.

    Aqui caberia uma indagação. Tendo Deus castigado a humanidade pecadora com os sofrimentos da vida presente, e condicionado sua salvação à fé que viesse a manifestar, não se esperaria d’Ele alguma manifestação que confirmasse seus servos obedientes nas vias que abraçaram?

    A resposta de Santo Agostinho, neste trecho de Confissões, é clara. Deus Se comunica com seus filhos de diversas formas, desde o Antigo Testamento, e sobretudo depois da Encarnação. Poderíamos citar as Escrituras, os profetas, os fenômenos da natureza e os prodígios sobrenaturais como manifestações antigas da presença e vontade divinas. Já no regime da graça, temos especialmente os Sacramentos, a tradição, os carismas religiosos e os Papas, que se afiguram como eficazes manifestações da ação divina no mundo e na História.

    Entretanto, para os homens de nossa sociedade pós-moderna, profundamente ateia e anticatólica, estas formas significam pouco ou quase nada. Não se interessam pelas ciências sagradas, não reconhecem a missão salvífica da Igreja e nem sequer a divindade de Cristo. Como Deus poderia se comunicar com eles?

    Da mesma forma pela qual atuou na alma do Doutor da Graça: a beleza! Através de perfeições eminentemente superiores às humanas — as sobrenaturais — porém, traduzidas em tipos humanos, em cerimônias, em formas litúrgicas e em obras de arte, a humanidade contemporânea pode ouvir os ecos da voz de Deus. Se corresponder a este chamado, ela exclamará qual o Bispo de Hipona: “Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde Te amei!”

    “SOU CRISTÃO”

    martirJuliana Montanari

    Fazer tal afirmação, nos dias atuais, não causa tantas contrariedades como nos antigos tempos, em que incontáveis mártires deram suas vidas com derramamento de sangue, e regaram o solo para que esta afirmação pudesse perdurar pelos séculos futuros. De fato, ao olharmos para o passado, quanto sangue, suor e lágrimas foram necessários para que hoje se pudesse dizer com toda propriedade e ufania que somos filhos de Nosso Senhor Jesus Cristo e da Santa Igreja.

    Nos primeiros séculos, os imperadores romanos infligiam aos cristãos torturas as mais cruéis possíveis, pensando assim que acabariam com a verdadeira religião. No entanto, quanto mais os justos vertiam sangue, mais faziam a Igreja florescer, pois, vendo a coragem com que os mártires entregavam-se nas mãos dos carrascos e das feras por amor a Cristo Jesus, e a audácia com que increpavam seus algozes, multidões se convertiam. Segundo a famosa frase de Tertuliano, “o sangue dos mártires era a semente de cristãos”.

    Assim, aconteceu nas cidades de Lyon e Vienne, onde o enorme crescimento de cristãos, fez aumentar o ódio do cruel imperador Marco Aurélio, determinando que, nestas duas cidades da Gália, aquele que se apresentasse como cristão, por lei, deveria ser morto. Entre o povo se espalhava inúmeras calúnias contra os cristãos, que os tornavam mal vistos nos mercados, nas ruas e nas praças públicas. O furor desta população se manifestou principalmente contra um diácono chamado Santo, natural de Vienne que exercia seu ministério na cidade de Lyon. Conseguiram prendê-lo e levaram-no ao tribunal. Como era estrangeiro interrogaram-no: “Qual é o seu nome?”. Ele respondeu: “Sou cristão”.

    Estupefatos com tal resposta, perguntaram: “Qual é sua pátria?”. Santo respondeu: “Sou cristão”. Confusos e com muito ódio perguntaram: “Qual é o seu ofício, e o que faz?”. Sem temor e com toda convicção, replicou mais uma vez: “Sou cristão”. E a todas as perguntas que lhe faziam, respondia jubilosamente somente com essas palavras: “Sou cristão!”.

    Esta afirmação ressoou aos ouvidos dos carrascos como sinal de condenação, que indignados e furiosos açoitaram Santo com lâminas de bronze incandescentes, de modo que seu corpo tomou-se uma única chaga, perdendo o aspecto humano. Como ainda lhe restara vida, o imperador mandou estendê-lo sobre o potro (cavalo de madeira em que se torturavam os condenados), mas qual não foi sua surpresa quando, tendo acabado esse suplício, o corpo de Santo recuperou-se miraculosamente voltando à forma normal.

    Por fim, levaram o diácono Santo e mais um companheiro, que também aderira ao cristianismo, ao anfiteatro onde foram flagelados, arrastados pelas feras, sentados em cadeiras de ferro em brasas e, permanecendo firmes na fé, foram por fim degolados. Para os imperadores, acabar com a existência de um cristão era uma pseudo vitória, mas “para a Igreja de Cristo era mais um mártir e no céu mais um santo”.1

    Este sangue gloriosamente derramado trouxe muitos frutos para a Igreja, pois, o ardente desejo de derramarem todo seu sangue em defesa da Fé, fez com que não só eles recebessem a coroa da glória eterna, mas também muitos outros que, vendo o exemplo destes mártires, se converteram, e os que haviam apostatado covardemente, movidos por um verdadeiro arrependimento, confessaram novamente a fé e foram também martirizados.

    Alguém poderia objetar, dizendo que seria melhor que eles vivessem para expandir o Reino de Deus. Porém, a ideia de serem apóstolos de outra maneira nem lhes passava pela cabeça, pois “o exemplo heróico do martírio dos primeiros cristãos atraiu para a Fé muito mais gente do que se eles não tivessem oferecido suas próprias vidas, de modo que morrendo, eles faziam mais apostolado que vivendo”.2 Muitas pessoas perseveraram ao longo dos séculos, entraram para a Igreja e se santificaram em virtude desse exemplo, como São Santo, santo não só pelo nome, mas também pelo modelo de vida.

    Quão grandioso é, depois de dois mil anos, sentir-se incorporado ao santos mártires na mesma Fé e como irmãos na grande família cristã. Sejamos, pois, imitadores destes magníficos exemplos, e se no futuro tivermos que sofrer por causa do nome de Cristo, glorifiquemos a Deus que nos deu o exemplo máximo do martírio morrendo na Cruz, confiantes de que, se permanecermos firmes na Fé, receberemos a coroa da glória que nos espera!

    1CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Na avenida dos becos sem saída, a vitória de Cristo Triunfador: Conferência. São Paulo, 3O jun. 1993. (Arquivo IFTE).
    2CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Organização e sabedoria na Igreja das catacumbas: Conferência. São Paulo, 1O jul. 1982. (Arquivo IFTE).

    Beauty in the liturgy

    _DSC9111Irmã Monica Erin MacDonald,EP

    The liturgical celebration of the Eucharist, height of Christian worship, “the summit towards which the activity of the Church is directed (…) and fount from which all her power flows” * , is a synthesis and apex of religious expression in its diverse aspects. The powerful experience within in the Liturgy, which culminates in mystical union in the Eucharist, arouses a consideration of the celebration in its artistic and transcendental dimension. It encompasses not only the spiritual faculties, the understanding and the will, but also the sensitive faculties: internal and external senses, passions and affections 2 . Clearly, the liturgical act employs diverse means of communication that encompass the entire human person 3 , in a celebration of the Divine. It is at once a moment of festive exultation in which the faithful speak through, words, music and gestures, while at the same time a moment of silent contemplation, an ecstasy of admiration and awe, wherein the spirit is receptive to Divine communications. The course of the liturgical celebration encompasses time, space and symbolic forms that harmonize in a synthesis of beauty. It constitutes, at the same time, the greatest mystical journey possible in the human experience, leading to a destination of mystical union in communion.

    In this epoch of pragmatism, industrialization and globalization, the Liturgy takes on a new dimension as a reservoir of pulchrum, intense symbolism and call to transcendence. If a “world without beauty” – today’s world – is immersed in conflict and horror, one finds within the liturgical celebration an oasis of the true expression of verum and bonum in a harmonious contemplation of beauty. The Liturgy, regardless of its accidental transformations throughout the ages, has persistently remained a bulwark of the transcendental in the human experience. In its symbolism and mystical composition, it fulfills the complex needs of the human soul, in its invariable search for the Absolute.

    LITURGICAL BEAUTY

    The Liturgy, veritatis splendor, is intrinsically associated with beauty 4 . Beauty has a unique ability to attract and open the human spirit, in a more effective way than abstract ideas or doctrines. Navone 5 speaks of our incapacity to live without beauty, manifested in the most basic needs of the mind and heart. He emphasizes beauty as a call to transcendence, for that which attracts us by its beauty and goodness, implicitly calls us beyond, to a beauty and goodness even greater 6 . The Eucharistic Celebration, in its resplendent conjugation of sights, sounds and smells, is an efficacious instrument in captivating the human spirit, attracting it through beauty to the Supreme Good. In it, contrasting elements are harmoniously combined: words and silence, gesture and stillness, light and darkness. In the beauty of the mysteries celebrated, man experiences pulchrum, as the splendour of verum and bonum.

    Clearly, a consideration of the beauty within the Liturgy brings to light some metaphysical aspects. The Concluding document of the General Assembly,Via Pulchritudinis points out the role of beauty in its relation to the true and the good.

    Beauty itself cannot be reduced to simple pleasure of the senses: this would be to deprive it of its universality, its supreme value, which is transcendent. Perception requires an education, for beauty is only authentic in its link to the truth – of what would brilliance be, if not truth? – and it is at the same time “the visible expression of the good, just as the good is the metaphysical expression of beauty‟ 7 .

    Since Kant, philosophy has, to a great extent, reduced the conception of beauty to a merely subjective element, depriving it of its ontological dimension. However, according to the philosophia perennis, beauty is a transcendental property of being; that is, a perfection found in all things, without exception. According to Saint Thomas 8 , the transcendentals are unum, bonum, verum, pulchrum – unity, goodness, truth, and beauty. When a being is what it should be, that is, when it possesses truth in its essence, it is also good, and, depending on the sphere to which it belongs, beautiful, holy, noble and useful 9 . Since the transcendentals are aspects of being, they form a union with it, so inseparable among themselves that the lack of care with one would be a catastrophe for the others, as Von Balthasar 10 points out.

    Plato called beauty the splendour of truth, and Saint Augustine defined it as the splendour of order 11 . In the Thomistic vision it is seen as the splendour of truth and goodness 12 . For Saint Thomas, beauty is the synthesis of three fundamental qualities, “Beauty includes three conditions, integrity or perfection (…); due proportion or harmony; and lastly, brightness, or clarity”*. Integrity is related to unity, proportion to goodness, and clarity to truth.

    The Greek word for beautiful, kalos, interestingly comes from the Greek verb kaleo, which means, “to call”. The beautiful, the good, attracts us evoking happiness and delight 13 . The Greek philosophers, conscious of the relationship between the good and the beautiful, combined the two concepts in one phrase: kalokagathía, or beauty-goodness. On this point Plato writes: “The power of the Good has taken refuge in the nature of the Beautiful‟ 14 . Beauty is then, the center of all motivation, decision and human action, for we do not act without being motivated by the attractiveness of a specific good 15 .

    Hans Urs Von Balthasar 16 affirmed that in a world without beauty, the good loses its force of attraction, and truth, its cogency. He bases his profound reflection on beauty in the consideration of God as the font of all beauty, and all created beauty as a reflection of this beauty. Beauty is not just an external form; rather it is a light that radiates from within, an exterior form of the interior. Something is beautiful when it radiates splendor, the reverberation of a hidden light, splendour of the being. The synthesis of the truth and good produce a light that infiltrate to the exterior, an illumination that attracts and fascinates. Von Balthasar 17 employs the terms kabôd, dóxa, glória as synonymous of this beauty, for this scriptural term defines this luminosity that is a manifestation of the Divine splendour. “Beauty is the word that shall be our first. Beauty is the last thing which the thinking intellect has the courage to approach, since only it dances as an uncontained brilliance around the double constellation of the true and the good and their inseparable relation to one another 18 ”.

    The manifold interpretations of beauty throughout the ages enrich our perspective in a consideration of its multifaceted role within the human experience. What becomes insistently clear is that beauty intrinsically moves the entire person “spirit and heart, intelligence and reason, creative capacity and imagination 19 ”. Beauty has the capacity to lower the barriers of our egoism in such a way that when we are touched by it, we are overcome and liberated from our selfishness as though from a prison. With the barriers of egoism struck down, one leaves oneself, and in this liberation comes an ecstasy in which one gives oneself, not in an oppressive way, but as a true donation of oneself. It possesses a dynamism that fulfils the deepest of human yearnings for it invites one to leave the transient and ordinary, to rise to the Transcendent and Mystery, ultimately seeking the source of all beauty, God 20 .

    The beauty of the Liturgy is a beauty that transcends us 21 . It is a beauty that speaks through the simplicity and originality of its symbols, but also through the splendour and nobility of its ritual. It is a beauty that is revealed gradually, demanding time and attentiveness to be entirely disclosed. It is a beauty that leads to contemplation through the synthesis of its diverse manifestations. It cannot be denied that within the Liturgy the aesthetic sentiment and activity is copiously engaged in the music, choreography, art and architecture 22 . The timeless passage of Saint Augustine seems to reflect the yearnings of contemporary man, aptly fulfilled in the multiple dimensions of the liturgical experience, in which the five senses are touched and overcome by the experience of Beauty so ancient, Beauty so new.

    Late have I loved You, O Beauty so ancient, O Beauty so new, too late have I loved You! Behold, You were within me and I was outside, and it was there that I sought You. Deformed as I was, I ran after those beauteous things that You have made. You were with me, but I was not with You, for those things kept me far from You, which, unless they existed in You, would have no being. You have called. You have cried out and pierced my deafness. You have poured forth Your light. You have shone forth and dispelled my blindness. You have sent forth Your fragrance, and I have inhaled and panted after You. I have tasted You, and I hunger and thirst for You. You have touched me, and I am inflamed with the desire for your peace 23 .

    Liturgical beauty is truly an epiphany of the true and the good in today’s world, lifting man in his entirety to transcend the physical realities. Particularly through its symbolism, the Liturgy manifests its splendour and diversity.

    * Sacrosanctum Concilium, 10
    2 VAGAGGINI, Cipriano. El sentido teológico de la liturgia. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos,1959. p. 278.
    3 BENEDICT XVI. Sacramentum Caritatis, 40. [On line]. [Consulted: 19 Mar., 2009]
    4 Ibid., p. 35.
    5 NAVONE, John J. Em busca de uma teologia da beleza. Tradução Elizabeth Leal F. Barbosa. São Paulo: Paulus, 1999. p. 41.
    6 Ibid., p. 83.
    7 CONCLUDING DOCUMENT of the General Assembly. The Via Pulchritudinis, II.I. Privileged Pathway for Evangelisation and Dialogue. [On line]. [Consulted: 25 Nov., 2008]
    8 NICOLAS, Marie-Joseph. Vocabulário da Suma Teológica. In: Suma Teológica. 2a.ed. São Paulo: Loyola, 2003. p. 101.
    9 STEIN, Edith. Ser finito y ser eterno: ensayo de una ascensión al sentido del ser. México: Fondo de Cultura Económica, 1994. p. 334.
    10 VON BALTHASAR, Hans Urs. Gloria. Una estética teológica. La percepción de la forma. Madrid: Encuentro, 1985. p.15.
    11 PANELLA, Federico L. La Belleza en la Liturgia. In: Phase. Barcelona. No .253, 2003. p. 9.
    12 FORTE, Bruno. A porta da beleza: por uma estética teológica. Aparecida: Idéias & Letras, 2006. p. 34-35.
    * SAINT THOMAS AQUINAS, Summa Theologica, I q.39, a.8.
    13 NAVONE, Op Cit., p. 83.
    14 JOHN PAUL II. Letter to Artists, 3 [On line]. [Consulted: Mar. 19, 2009]
    15 NAVONE, Op. Cit., p. 40.
    16 VON BALTHASAR, Op. Cit., p. 23.
    17 Ibid., p. 40.
    18 VON BALTHASAR, Op. Cit., p. 22. (Personal translation)
    19 CONCLUDING DOCUMENT of the General Assembly, Op. Cit. II.3.
    20 Ibid., II.3.
    21 MARINI, Piero. Liturgy and Beauty. [On line]. [Consulted: 19 Mar., 2009]
    22 VAGAGGINI, Op. Cit., p. 289.
    23 SAINT AUGUSTINE. On Christian Doctrine. Chicago: Encyclopedia Britannica, 1952. p. 297-298.

    A princesa africana

    S Teresa JulianaIrmã Lucía Ordoñez Cebolla, EP

    “Morreu tendo vivido setenta e dois anos sem mancha de pecado mortal”. Esse magnífico epitáfio resume a vida de uma africana, nobre por seu sangue, mas muito mais pela virtude de sua alma.
    Era o ano de 1676, quando os olhos de Tshikaba contemplaram pela primeira vez a luz deste mundo. Nascida na África Ocidental, às margens do Golfo da Guiné, era a última dos quatro filhos de uma família de reis. Bem cedo, demonstrara inteligência incomum e, por isso, comentava-se ser ela quem governaria após a morte de seus pais.

    O reino de Tshikaba era pagão e seus habitantes adoravam o Sol. Ansiosos, aguardavam as primeiras luzes do alvorecer para saírem ao encontro do astro-rei com cantos e aclamações rituais. Mas Tshikaba era uma menina diferente das outras. Reflexiva e contemplativa, indagava o sentido de todas as coisas ao seu redor, procurando responder à pergunta que surgia invariavelmente no seu interior: quem comanda e mantém esta natureza tão exuberante e repleta de beleza? Sem ela perceber, a sede insaciável do Absoluto brotava do mais profundo de sua alma inocente.

    Angustiada em seu pueril intelecto, foi interrogar seu irmão, o qual apenas soube lhe dizer que a “Estrela da Manhã” era, indiscutivelmente, a grande divindade à qual era preciso adorar. Insatisfeita e cheia de perplexidades, foi interrogar o rei:

    — Papai, o astro que cultuamos está no céu como todos os outros. Nada o diferencia, a não ser seu brilho. Alguém o pôs lá; e esse alguém tem de ser muito mais poderoso do que o Sol. É esse Ser misterioso que procuro e desejo conhecer, porque só Ele deve ser adorado!

    O pai não teve resposta para dar à menina, inspirada pelo sopro da graça.

    Um propósito aos nove anos

    Tshikaba gostava de caminhar pelo campo entregando-se às suas meditações. Em um dos seus passeios, sentou-se para descansar um pouco, perto da nascente de um rio. Ao contemplá-la, perguntava-se: “Quem será esse Ser desconhecido que colocou aqui esta fonte?”.

    De repente, a menina levantou os olhos e viu, extasiada, ao lado do manancial, uma Senhora de pele alva como a neve, carregando nos braços um belíssimo Menino que, sorrindo, acariciava a cabeça da princesa moreninha. Ali, por fim, o Divino Infante — o verdadeiro Deus tão almejado — lhe revelou Seus segredos e Sua Mãe Santíssima lhe falou a respeito de Sua vida. Que terão dito? Tshikaba preferiu manter silêncio, mas a partir desse encontro sua vida mudou completamente.

    Mais tarde, seu irmão Juachipiter lhe disse terem decidido seus pais que seria ela quem os sucederia no governo, ao que a pequena respondeu: “Saiba que não irei me casar com ninguém deste mundo. Eu só quero saber de um Menino branco que conheci!”.

    Tshikaba tinha apenas nove anos de idade.

    Seqüestrada providencialmente

    Algum tempo depois, saiu ela novamente a passear pelo campo. Nesse dia, porém, decidiu fazer outros caminhos, a fim de conhecer novas paisagens. Andando sem rumo, acabou por se perder, e nada do que via lhe era conhecido. Por fim, sentou-se junto a uma árvore, de onde podia avistar o mar.

    Contemplando a vastidão do panorama, percebeu não muito longe a silhueta de um barco se aproximando. Era um navio espanhol. Imersa em sua constante preocupação, sentiu, de repente, que alguém a agarrava pelo braço. Um jovem desconhecido, sem dizer palavra alguma, a obrigava a segui-lo. Ela, dócil como toda criança, acompanhou-o, pensando que talvez ele pudesse ajudá-la a resolver o enigma que a atormentava.

    O estranho visitante a conduzia cada vez para mais perto da costa. Quando quis perguntar-lhe quais eram suas intenções, não pode fazê-lo: tinha desaparecido. Assustada, olhou para frente e notou que o navio acabava de aportar. Tshikaba queria correr, mas suas pernas não lhe obedeciam. A tripulação, ao vê-la adornada com jóias e braceletes, logo percebeu tratar-se de uma menina com sangue real. E aqueles homens do mar a levaram para a nave, que logo retomou sua rota em direção à Espanha.

    A pequena princesa, vendo sua terra natal se distanciar aos poucos, sentiu vontade de jogar-se nas águas, mas a Senhora do manancial apareceu a seu lado, dando-lhe consolo e coragem. Tshikaba tinha sido levada por um desígnio de Deus!

    No percurso, ao passar pela cidade de São Tomé, os próprios marinheiros a batizaram, dando-lhe o nome de Teresa. Isto não lhe causou estranheza, pois, já na fonte, a alvíssima Senhora assim a chamara. O batismo era, no fundo, uma confirmação das promessas que Ela lhe fizera.

    Assim, terminada a viagem, aos dez anos de idade, Teresa chegava ao porto de Sevilha.

    Escalando a sagrada montanha do sofrimento

    Da capital andaluza levaram-na a Madri, pois, sendo uma princesa, tinha de ser apresentada primeiramente ao rei. Carlos II acolheu-a com benignidade, e entregou- a aos cuidados do Marquês de Mancera, outrora vice-rei do México, com o encargo de lhe dar formação esmerada, começando por evangelizá-la.

    No continente europeu, iniciou-se para Teresa outra etapa de sua vida: a cruz e o sofrimento seriam doravante seus companheiros inseparáveis, como o foram para Nosso Senhor, o Menino branco que a cativara e que ela já adorava como Deus.

    Os nobres da casa de Mancera tratavam a pequena africana como a uma verdadeira filha, mas logo isso despertou inveja em toda a criadagem. Não foram poucos os maus-tratos e humilhações que Teresa teve de enfrentar. Mas ela tudo suportava com mansidão e paciência, indo se refugiar aos pés de uma comovedora imagem do Ecce Homo que havia num pequeno oratório do jardim. Ali, o próprio Cristo, chagado e ultrajado, Se encarregava de lhe mostrar as belezas incomparáveis do sofrimento, e ela compreendeu que no contato com a Cruz de Nosso Senhor a alma se purifica, as fraquezas são vencidas e se encontram forças para prosseguir na via da perfeição.

    Por essa época, a jovenzinha manifestava forte entusiasmo pela vida religiosa, e revelou seu anseio aos marqueses. Sem colocarem oposição alguma, eles designaram o cavaleiro Diego Gamarra para encontrar um mosteiro no qual Teresa pudesse cumprir sua vocação. Este percorreu inúmeros conventos, porém sempre encontrava dificuldades e reticências para fazer admitir a pequena princesa, vinda de tão longínquas terras. Ela redobrou suas orações e penitências, implorando a Deus que, se realmente Ele a quisesse para Si, derrubasse todos os obstáculos que contra isso se levantavam.

    Finalmente a Providência compadeceu-se de Teresa e Diego Gamarra conseguiu seu ingresso no Convento de Santa Maria Madalena, das Dominicanas da Penitência, em Salamanca; porém, apenas como terciária da ordem e servente da comunidade. Contente, ela abraçou essa humilhação na paz de espírito e na mansidão, conformada em nunca chegar a ser uma autêntica religiosa.

    Serviço incondicional

    Disposta a tudo, Teresa entrou no mosteiro para servir incondicionalmente às suas irmãs. Mas, em determinado momento, foi tomada por uma terrível provação: será que Deus realmente a queria ali? Não seria melhor voltar para a África e, como rainha, ser propulsora da fé cristã? A madre superiora, pessoa muito virtuosa, logo percebeu o estado espiritual de Teresa. Quando se lhe apresentou a oportunidade, interrogou-a. Vendo a bondade e o carinho da madre, a adolescente abriu-lhe a alma, reafirmando seu mais firme propósito de ser uma verdadeira religiosa.

    Oito meses depois, o bispo de Salamanca autorizava Teresa a pronunciar os votos solenes, numa cerimônia que ele mesmo presidiria. Assim, no dia 29 de junho de 1704, aos 28 anos de idade, Teresa Juliana de São Domingos — confirmada para sempre na sua vocação — professava como terciária da Ordem Dominicana.

    Acabada a cerimônia, Irmã Teresa caiu de joelhos ante o sacrário, transbordante de contentamento. Em meio às lágrimas de consolação, apareceu-lhe São Domingos de Gusmão, seguido de uma celestial comitiva, convidando-a a fazer os votos em suas próprias mãos! Após esta “profissão celeste”, seu Pai e Fundador a abençoou e desapareceu. As promessas da Senhora do manancial se cumpriam de forma total e completa!

    Fazendo frente às bombas, pela devoção a São Vicente

    Seria no quotidiano da vida monacal que aquela mítica princesa de um reino distante daria as melhores demonstrações de acrisolada virtude. Encarregaram-na de cuidar dos enfermos com as doenças mais repugnantes e aconselhar os atribulados, o que ela fazia com sobrenatural disposição. Tinha, ademais, o dom místico de discernir, pelo odor, as pessoas impuras, e isto a levava a mortificar seu próprio corpo, implorando a Deus que elas rompessem com o pecado. Era em extremo obediente, e sua vida de perfeição era exigida pelo próprio Céu: cada vez que cometia uma falta, apareciam Maria e Jesus para repreendê-la.

    Sua fama de santidade espalhou-se rapidamente pela cidade inteira. Incontáveis salmantinos acudiam ao locutório do convento para expor-lhe seus problemas. Ela a todos recebia cheia de amabilidade, aconselhando a uns, obtendo por suas preces a saúde de outros, e até prevendo perigos ameaçadores.

    Certa vez foi protagonista de um fato portentoso. Durante a Guerra de Sucessão, que naquela época sacudia a Espanha, a cidade de Salamanca estava sendo bombardeada. Irmã Teresa apressou-se a pôr numa janela do mosteiro uma estampa de São Vicente Ferrer, do qual era grande devota, para dele obter protecção contra qualquer ataque. E o resultado foi tão feliz que não só preservou seu mosteiro de todo dano, mas também, em breves minutos, espalhou-se a paz na cidade inteira.

    Voando rumo à Pátria Celestial

    Fazia já algum tempo que Irmã Teresa Juliana de São Domingos padecia de um tumor no joelho, quando, no outono de 1748, sofreu um forte ataque de paralisia. Estava ferida de morte, e a Providência lhe reservara para o período derradeiro a glória das grandes provações. Incertezas, dúvidas, aflições e o abandono dos homens tomaram-na inteiramente. Assim transcorreram seus últimos dias nesta terra, até que em 6 de Dezembro de 1748 recebeu os Sacramentos e entregou sua bela alma ao Redentor.

    No dia seguinte, os sinos do convento de Santa Maria Madalena anunciavam o seu falecimento. Contam testemunhas de sua morte que, no momento de partir para a eternidade, sua pele ficou por alguns momentos alva como a neve. Ao mesmo tempo, seu corpo exalava um excepcional perfume.

    Assim, a princesa africana — conhecida por todos com o carinhoso nome de La Negrita —, após ter escalado na terra os altos cumes da virtude, era elevada aos píncaros da perfeita união com Deus.

    Beati mortui qui in Domino moriuntur. Admirável é a morte dos justos na presença do Senhor!

    Confiar e abandonar-se nas mãos Deus

    divina_prov

    Fahima Akram Salah Spielmann

    A existência de Deus é a primeira entre todas as verdades nas quais os fiéis devem acreditar: “Creio em Deus Pai todo-poderoso”, rezamos no início do Credo. Essa verdade de Fé pode ser comprovada todas as vezes que contemplamos a ordem e as leis que regem a natureza e o universo. Ninguém é tão insensato para imaginar que toda essa harmonia é fruto do mero acaso.

    Conforme nos ensina o Catecismo “Deus criou o universo livremente, com sabedoria e amor. O mundo não é o produto duma necessidade, dum destino cego ou do acaso” (Catecismo, 54). Assim, “tudo o que Deus criou Ele o governa e cuida pela sua Providência”, afirma o Concílio Vaticano I. Mas, em que consiste a Providência Divina?

    A criação não saiu totalmente acabada das mãos de Deus. Foi criada in statu viae, ou seja, em estado de caminhada para uma perfeição maior a ser atingida. A disposição pela qual Deus conduz a sua criação em ordem a essa perfeição chama-se Providência Divina (cf. Catecismo, 302).

    Embora a Providência dirija todas as criaturas para o fim que lhe convém pelos meios adotados a esse fim, Ela se ocupa mais especialmente da criatura humana, a quem redimiu pelo Preciosissímo Sangue de seu Filho. “Entregai todas as vossas solicitudes ao Senhor, pois ele cuida de vós” (1P 5,7).

    Nosso Senhor Jesus Cristo pede-nos um abandono filial à Providência do Pai Celeste, que cuida das menores necessidades dos seus filhos: “Não vos inquieteis, dizendo: Que havemos de comer? Que havemos de beber? […] Bem sabe o vosso Pai celeste que precisais de tudo isso. Procurai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça e tudo o mais vos será dado por acréscimo” (Mt 6, 31-33).

    E por mais que o homem se levante contra essas mãos que o tiraram do nada, a Providência Divina nunca o abandona, como vemos de modo paradigmático no Livro da Sabedoria (Sb 14,1-6), a exemplo de um homem que quer navegar movido pela cobiça e se lança ao mar em um navio feito de madeira de péssima qualidade, e só não perece porque a Providência abre caminho no mar e conduz o timão. Assim Ela faz conosco, dirigindo-nos com fortaleza e suavidade, porque respeita a natureza e as inclinações de cada um dos seres, sem os violentar, operando no fundo da sua substância como se agissem sozinhos.

    Contudo, muitas vezes o Divino Governo se manifesta por caminhos inescrutáveis, sobretudo em certas sendas, que talvez por seu esplendor, são obscuras aos nossos olhos. Deus pode na sua onipotente Providência tirar um bem das consequências dum mal (mesmo moral), causado pelas criaturas. É a história de José que foi vendido como escravo pelos irmãos: “Não, não fostes vós — disse José a seus irmãos — que me fizestes vir para aqui. Foi Deus. […] Premeditastes contra mim o mal: o desígnio de Deus aproveitou-o para o bem […] e um povo numeroso foi salvo” (Gn, 45, 8; 50, 20).

    Apesar de crermos firmemente que Deus é o Senhor do mundo e da história, muitas vezes, porém, os caminhos da sua Providência são-nos desconhecidos. Só no fim, quando acabar o nosso conhecimento parcial e virmos Deus “face a face” (1 Cor 13, 12), é que nos serão plenamente conhecidos os caminhos pelos quais, mesmo através do mal e do pecado, Deus terá conduzido a criação ao seu fim último. Portanto, cabe ao homem diante das circunstâncias adversas confiar e abandonar-se nas mãos Deus, exercitando algumas virtudes: a penitência, a humildade, adquirida depois da queda; o reconhecimento que se faz mais intenso e mais vivo porque o perdão foi imenso, etc. Lê-se no Livro dos Salmos: “Pois não ouvirá quem fez o ouvido? O que formou o olho não verá? Aquele que dá lições aos povos não há de punir, ele que ensina ao homem o saber… O Senhor conhece os pensamentos dos homens” (Sl 93, 9-11).

    Sendo Deus o Senhor soberano dos seus planos serve-Se, para a realização dos mesmos, do concurso das criaturas. Isto não é um sinal de fraqueza, mas da grandeza e bondade de Deus onipotente. É que Ele não só permite às suas criaturas que existam, mas confere-lhes a dignidade de agirem por si mesmas, de serem causa e princípio umas das outras e de cooperarem, assim, na realização do seu desígnio.

    Podemos citar o grande Apóstolo dos Gentios, São Paulo: de perseguidor dos cristãos a pregador de Cristo. De tal maneira, ele se deixou levar pela Providência Divina para realizar os desígnios de Deus que dizia: “Porque quando me sinto fraco, então é que sou forte” (2 Cor 12,10), ou seja, ele possuía a clara noção de que o governo divino ordena tudo para um bem superior. “O sumo abandono nas mãos de Deus é sentir-se miserável, sentir-se quebrado, sentir-se arrasado e nessa hora dizer: ‘ Ah! Afinal, agora eu posso dizer que sou mais forte do que nunca!” 1
    Saibamos compreender que as criaturas nada podem sem o seu Criador e muito menos atingir o seu fim último, sem a ajuda da Divina Providência.

    1 CLÁ DIAS, João. Homilia da XI Semana do Tempo Comum. São Paulo: Mairiporã, 23 Jun. 2007. (Arquivo IFTE).

    Abba e a filiação divina

    Irmã Clarissa Ribeiro de Sena, EP

    “Aproximemo-nos da manjedoura na gruta em Belém e contemplemos um Menino reluzente de vitalidade, sabedoria e graça. A diplomacia divina não podia haver elaborado melhor forma para remediar todos os males trazidos pelo pecado. Um Homem-Deus… […] Ali está Quem não só nos abriu as portas do Céu, mas também nos elevou à categoria de filhos de Deus”(CLÁ DIAS).
    NSJC1
    Pela Encarnação e Redenção, não apenas foi reparado o pecado de nossos primeiros pais em que amizade com Deus tinha sido abalada, mas o homem foi reintegrado à ordem sobrenatural, e elevado ao mais alto grau de união com Deus a que pode chegar uma criatura: a filiação divina.

    Este novo relacionamento entre Deus e os homens encontra-se bem caracterizado em um sugestivo termo utilizado por escritores sagrados: Abba. Qual é a sua vinculação com a filiação divina?

    Muito decidora é a passagem em que os discípulos pedem a Jesus que lhes ensine a rezar. Como observa Von Balthasar, por muito particular que fosse a intimidade de Nosso Senhor com o Pai, Ele não ensina seus discípulos a rezarem de maneira distinta à que Ele mesmo faz; ao contrário, instrui-os a invocá-lo como Pai ― Ἀββά.

    O vocábulo ἁββά ― um semitismo lexical ― é usado apenas três vezes no Novo Testamento: em Mc 14,36; Rm 8,15 e Gl 4,615.

    Nas três ocorrências, Ἀββά aparece na função de vocativo, indicando uma interpelação a Deus. Seu uso, com esta finalidade, não é registrado em nenhuma passagem do Antigo Testamento, nem nos textos extra-bíblicos. Os autores atribuem este silêncio a um fator linguístico: a origem da palavra ἁββά.

    Em aramaico, ἁββά, é originário do linguajar infantil, com o significado de “papai”. No período pré-cristão, recebeu um sentido mais amplo, sendo utilizado também pelos filhos e filhas adultos. Chegou a substituir, nos textos hebraicos, a expressão “meu pai”, significando também “seu pai” e “nosso pai”; suplantou, ademais, a forma determinada do substantivo “pai”. Contudo, apesar destes desenvolvimentos, não se olvidou sua procedência de um balbucio infantil. Assim, aplicar a Deus um termo tão corriqueiro e familiar, talvez tenha soado um tanto desrespeitoso aos compatrícios de Jesus. O mesmo não ocorreu com São Marcos, que não hesitou em colocá-lo nos lábios do Divino Mestre.

    horto 150Nos Evangelhos, a invocação Ἀββά, está atestada expressamente somente na perícope da Oração no Horto que nos oferece São Marcos. Contudo, afirmam vários autores que é a palavra aramaica Ἀββά, que subjaz nas várias versões gregas da palavra “Pai”, usada por Jesus ― segundo o testemunho unânime dos Evangelhos ― para dirigir-se a Deus em todas as suas orações. Portanto, “quando Jesus se dirigia a Deus chamando-o “Pai”, utilizava o termo arameu Abba”.

    Os exegetas fundamentam esta afirmação na oscilação das formas da interpelação a Deus como Pai apresentadas pela tradição: “Encontramos, de um lado, a forma grega correta do vocativo πάτερ , acompanhado de pronome pessoal em Mateus (πάτερ μον), e, do outro lado, o nominativo com artigo (ὁ πάτερ) como vocativo. Chama especial atenção que numa só e mesma oração encontramos lado a lado πάτερ e ὁ πάτερ vocativo, a saber em Mt 11.25s par. Lc 10.21”.
    Esta variação aponta para um Ἀββά, subjacente que, como visto anteriormente, era usado tanto como interpelação, quanto como o estado determinado “o pai”, ou como a forma com o sufixo da primeira pessoa (“meu pai”, “nosso pai”).

    Outro fato reforça esta hipótese: o testemunho de Rm 8,15 e Gl 4,6 que revela o uso de Ἀββά, nas comunidades cristãs primitivas, costume pressuposto por São Paulo tanto em suas próprias comunidades (Gálatas), quanto naquelas não fundadas por ele (Romanos). Para Kittel, o Ἀββά ὁ Πάτερ presente nas duas epístolas, evoca uma reminiscência litúrgica, possivelmente o início do “Pai-Nosso”. Tal proposição é corroborada pelo verbo χράζω que, segundo Kuhn, tem o “sentido de clamor extático na assembléia da comunidade”. Este uso litúrgico justificaria a familiaridade com a palavra Ἀββά em regiões tão distantes da Palestina. De qualquer forma, a subsistência de um termo de origem aramaica em ambientes estranhos a esta língua, parece indicar ser este um eco da voz do próprio Jesus.

    Este é um termo que expressa a peculiar, afetuosa e entranhada relação entre Jesus e o Pai. E é deste invulgar relacionamento, que o Salvador quis fazer partícipes os seus.

    O uso de Ἀββά nas cartas paulinas também denota uma experiência, por parte dos primeiros cristãos, da familiaridade com o Pai proclamada e vivida por Jesus; nas duas epístolas, Ἀββά ὁ Πατήρ é mencionado como manifestação do relacionamento filial dos romanos e gálatas com Deus.

    Ἀββά! Em uma simples palavra, encontra-se contida tão insigne realidade: pelos méritos de Cristo, somos filhos de Deus! Não nos esqueçamos, porém, de que noblesse oblige. Se Deus assim nos convida a tal intimidade consigo, cabe, de nossa parte, uma resposta à altura. Que esta não seja como a de Adão e Eva no Paraíso; mas semelhante à de Jesus no Horto das Oliveiras ― que antepõe a vontade do Pai à sua ― e a dos discípulos de Roma e da Galácia, convocados por Paulo a viver segundo a fé em Jesus Cristo. Desta forma, poderemos unirmo-nos a eles, e dizer com toda propriedade: Ἀββά ὁ Πατήρ!

    A Montanha na qual Deus quis morar

    Qual seria essa Montanha na qual quis Deus habitar para sempre, prevista pelo Salmista no Antigo Testamento, e que teria um lugar único na obra da Salvação da Humanidade?

    Beatriz Alves dos Santos

    Quem viveu em alto de montanha pôde, sem dúvida, contemplar variados espetáculos da natureza. Ora é o Sol nascendo, começando a colorir o dia com seus primeiros raios dourados, parecendo renovar todas as coisas; ora é o ocaso, no qual o astro rei cede o lugar à rainha da noite, a Lua, encerrando o dia com cores fortes e vibrantes, numa despedida que não é senão um “até amanhã”.

    MontanhasOutras vezes, as nuvens cobrem ou enfeitam o céu formando desenhos que alimentam a imaginação dos observadores. Mais sugestiva situação talvez seja quando a névoa envolve o panorama como um manto, deixando descobertos apenas os picos dos montes, fazendo-nos evocar o belo trecho do Pequeno Ofício da Imaculada Conceição: “E cobri como névoa a Terra toda”.

    Tem sua beleza também o céu inteiramente límpido — “céu de brigadeiro”, dizem os aviadores —, quando no horizonte infindo a terra e o céu se encontram, quiçá simbolizando um ósculo entre o tempo e a eternidade…

    * * *

    Ao longo da História, Deus escolheu o alto dos montes para Se manifestar aos homens: no Sinai, entregou a Moisés as tábuas da Lei; as Bem-Aventuranças foram ensinadas pelo Divino Mestre no “Sermão da Montanha”; para transfigurar-Se ante três de seus discípulos, Cristo elegeu o Tabor; e no Calvário ofereceu-Se ao Pai como o Cordeiro sem mancha, para a Redenção do gênero humano.

    E séculos antes de vir ao mundo o Homem Deus, havia já cantado o Salmista: “Monte de Deus é o monte de Basã, monte elevado é o monte de Basã. Por que tendes inveja, montes elevados, do monte que Deus escolheu para morar? O Senhor vai morar nele sempre” (Sl 68, 16-17).

    * * *

    Qual seria essa montanha na qual quis Deus habitar para sempre, prevista já no Antigo Testamento?

    São Luís Grignion de Montfort, na sua famosa Oração Abrasada proclama: “Qual é, Senhor Deus de verdade, essa montanha misteriosa de que nos dizeis tantas maravilhas, senão Maria, vossa diletíssima Esposa, cuja base pusestes sobre o cimo das mais altas montanhas? Fundamenta ejus in montibus sanctis” (Sl 87, 1).

    É Maria, a Mãe de Deus, esse elo entre o tempo e a eternidade, entre a pequenez do ser humano e a infinitude de Deus que n’Ela Se fez homem para comunicar aos homens sua divindade. Ensina-nos a Igreja, num lindo hino da piedade católica: “Maria mons, Maria fons, Maria pons”. Maria é a montanha (mons) de todas as virtudes, a fonte (fons) da qual seu divino Filho faz jorrar todas as graças, a ponte (pons) que permite atravessar todos os abismos.

    Portanto, apesar dos defeitos e lacunas inerentes à condição humana, nada devemos considerar como motivo de aflição, pois é Nossa Senhora a mais excelsa de todas as mães. A compaixão d’Ela vale mais do que os castigos merecidos por nossos delitos; e se nossos pecados constituem um abismo, sua clemência é uma verdadeira montanha.

    Habitantes de um “vale de lágrimas”, galguemos essa Montanha de misericórdia na qual Deus Se compraz maravilhosamente, certos de que por intercessão d’Ela alcançaremos a Bem-Aventurança eterna.