A conformidade à vontade Divina

Ir.Kyla Mary Anne MacDonald,EP

A vontade humana tem uma tendência para a autossuficiência e egoísmo, entretanto, devido à dinâmica de seu próprio ato — amor — é também feita para a entrega, conformidade e, em consequência, união. Como afirma São João da Cruz, o amor faz o amante semelhante ao amado; ou seja, ao amar a Deus, a alma conforma-se inteiramente a Ele:

“Quando falamos de união da alma em Deus, não nos referimos à união substancial sempre permanente, mas à união e transformação da alma em Deus por amor, só realizada quando há semelhança de amor entre o Criador e a criatura. Por esse motivo, dar-lhe-emos o nome de união de semelhança, assim como a outra se chama de união essencial ou substancial. Esta é natural, aquela é sobrenatural, e se consuma quando as duas vontades, a da alma e a de Deus, de tal modo se unem e conformam que nada há em uma que contrarie a outra. Assim, quando a alma tirar de si, totalmente, o que repugna e não se identifica à vontade divina, será transformada em Deus por amor”1.

Assim, se o mais perfeito amor de Deus implica na conformidade à sua vontade, os dois pecados mais graves que abalaram a ordem criada — o pecado dos anjos e o pecado original do homem — foram caracterizados pela expressa não-conformidade à vontade de Deus.

Explica São Tomás que o definitivo aperfeiçoamento ou perdição dos anjos se deu num só ato da vontade, de modo imediato e permanente, que é apropriado à natureza angélica, “despertando” em Deus a manifestação de sua perfeita justiça, mas “o homem por sua natureza não foi feito para atingir, de imediato, sua última perfeição, como acontece ao anjo. Por isso, deve percorrer um caminho mais longo do que o do anjo para merecer a bem-aventurança2. Devido à essa debilidade da razão, a vontade humana é mutável e chega às conclusões através de deliberação ou ensinamento. O processo de aperfeiçoamento pode implicar em repetitivas quedas como também em repetitivos arrependimentos e perdões; possibilidade esta não acessível à natureza angélica.

Assim, devido à diferença entre as naturezas angélica e humana e essa aparente falta de dotes superiores, o pecado original dos homens suscitou não apenas a justiça de Deus, mas também sua infinita misericórdia até então nunca revelada. Deus utilizou a extrema debilidade da vontade humana para sua maior glória e efetuou no gênero humano o seu maior dom: o da Redenção – resgatando-o do pecado original, conforme diz São Paulo: “Deus encerrou a todos esses homens na desobediência para usar com todos de misericórdia” (Rm 11,32).

Na sabedoria divina, a misericórdia da Redenção não foi executada num só ato, mas na vida inteira de Jesus Cristo. Ao se fazer carne, o Verbo não somente morreu por nós, senão também habitou entre nós. Antes de derramar todo seu sangue pela humanidade, Ele nos deixou um exemplo claríssimo de que a vida humana deve ser empregada em obras; de maneira especial, a obra da vontade por amor. Seu amor O levou a submeter, a cada momento, sua vontade humana à vontade do superior, apesar de ser ao mesmo tempo Deus. Vê-se isso desde sua divina infância, no relacionamento com seus pais: “Em seguida, desceu com eles a Nazaré e lhes era submisso” (Lc 2,51). Na sua vida pública: “(…) o Filho do Homem veio, não para ser servido, mas para servir” (Mt 20,28). “Desci do céu não para fazer minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (Jo 6,38).

No célebre “Diálogo”, o Pai Eterno dirigiu essas palavras a Santa catrina de Sena:

(…)Para fazer desaparecer do homem a morte de sua desobediência, em minha clemência providenciei, entregando-vos meu Filho unigênito com grande sabedoria, para que assim reparasse vosso dano. Impus-lhe uma grande obediência a fim de que o gênero humano se livrasse do veneno que se difundira no mundo pela desobediência de vosso primeiro pai. Assim, como que cativo de amor e com verdadeira obediência, correu com toda a rapidez, correu à ignominiosa morte sacratíssima, deu-vos a vida, não pelo vigor de sua humanidade, mas da divindade.3

A reparação do pecado original foi, então, do mesmo gênero que a culpa. Adão tinha pecado por desobediência e orgulho; Cristo expiou por meio da humilde obediência ao Pai, evidenciada no testemunho de São Paulo: “Sendo ele de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens. E, sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-se ainda mais, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz” (Fl 2, 6-8).

Este empenho de Jesus Cristo de submissão voluntária à vontade do superior é o mais convincente exemplo que possa haver. Se não fosse Ele verdadeiro homem, não tomaríamos como uma atitude possível de ser imitada. Se Ele não fosse ao mesmo tempo verdadeiro Deus, sua submissão não teria essa tão comovente qualidade. São Tomás assinala que, sendo possuidor de duas naturezas distintas — natureza divina e natureza humana — Jesus Cristo possuiu duas vontades distintas: uma divina e outra humana4. Ele enquanto Deus era igual ao Pai e enquanto homem era perfeitamente impecável e livremente submeteu sua vontade humana em obediência à vontade divina do Pai, impossibilitando-nos duvidar da conveniência do homem pecador fazer o mesmo.

1SÃO JOÃO DA CRUZ. Subida do Monte Carmelo.Obras Completas. 5. ed. Petrópolis: Vozes, 1998.
2SÃO TOMÁS DE AQUINO. S.T. I, q.62 a.5
3SANTA CATARINA DE SENA. Diálogo.In: Liturgia das Horas. Segundo o Rito Romano. Ofício Divino renovado conforme o decreto do Concílio Vaticano II e promulgado pelo Papa Paulo VI. Tradução para o Brasil da segunda edição típica. Petrópolis: Vozes, 1999, v.4.p.403.
4 S.T. III q.18, a.1.

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