Experiência Mística – exclusiva dos grandes místicos?

Irmã Maria Cecília Seraidarian,EP

O termo experiência, do latim experientia, tem vários significados, porém, a maioria deles possui em comum o fato de referir-se a uma apreensão imediata de uma realidade ou de “processos internos”. Filosoficamente, experiência tem dois sentidos fundamentais: como confirmação ou possibilidade de confirmação empírica de dados e como vivência de algo “dado”, antes de qualquer reflexão ou predicação. A experiência pode, portanto, designar a apreensão de “evidências” de caráter não-natural, isto é, místicas . Neste último caso, a experiência, o fato de ter “sentido”, “provado”, é fundamental para tornar crível o testemunho de quem fala do sobrenatural, de Deus . A palavra mística, do grego mystikós (o que concerne aos mistérios), por sua vez, pode ser definida como a atividade espiritual que procura efetuar a união da alma com a divindade. O contato com o divino, para o neoplatonismo, provoca uma iluminação interior que permite conhecer o ser da realidade divina . A mística é a união da alma com o seu Primeiro Princípio.

Experiência mística seria propriamente uma experiência do divino, o encontro com o divino de pessoa a pessoa; é um “sentir” a presença de Deus, um sentir-se tocado por Ele no mais íntimo. Esse “sentir” dá a certeza de que é Deus mesmo quem fala. A mística possui um extraordinário poder revelador, prefigurando a própria visão beatífica . É distintivo da experiência mística, ademais de unir o homem ao Absoluto, uma forma de conhecimento espiritual que não se deixa apreender conceitualmente nem se traduz em palavras . Outro elemento constitutivo da experiência mística é a absoluta manifestação, a absoluta iniciativa divina, que penetra no ser humano transformando-o, ampliando seus limites, fazendo-o apreender diretamente e sem mediações a presença do Infinito .

Sao_Joao_da_cruzSão João da Cruz, ao descrever as purificações da alma nas noites escuras e a posterior luz que a invade, elevando o espírito a um sentir divino, estranho e alheio a todo modo humano, assim se expressa: “a alma virá a ter um novo senso e conhecimento divino, muito abundante e saboroso, em todas as coisas divinas e humanas, que não pode ser encerrado no sentir comum e no modo de saber natural; porque então tudo verá com olhos bem diferentes de outrora, – diferença essa tão grande, como a que vai do sentido ao espírito” . Acrescenta, ainda, que esse conhecimento místico e amoroso ilumina a vontade e, ao mesmo tempo, fere e ilustra o entendimento, infundindo certo conhecimento e luz divina, com tanta delicadeza e suavidade, que a vontade se afervora extraordinariamente .

Composto de corpo e alma, matéria e espírito, inseparáveis , o ser humano necessita das exterioridades para, através de uma ação harmônica e complementar dos sentidos e da inteligência, conhecer o mundo. Ou seja, é pelos sentidos que se dá o conhecimento natural. O conhecimento sobrenatural ou místico não tem necessidade de passar pelos sentidos, é uma comunicação direta de Deus no fundo da alma. É uma espécie de iluminação que, atuando sobre a inteligência, vontade e sensibilidade, transporta o espírito humano para uma ordem metafísica e sobrenatural. A impressão causada pela experiência do divino proporciona uma clareza especial de visão, produzindo um amor que eleva a pessoa acima do seu próprio nível e a enche do desejo de dedicação, tornando-a entusiasmada e ansiosa por entregar-se .

A duração dos fenômenos místicos pode variar; geralmente eles são muito curtos, algo à maneira de um relâmpago ou flash, entretanto, deixam na alma marcas indeléveis. Nesse sentido, Santa Teresa, tratando das manifestações da “Sacratíssima Humanidade” de Jesus Cristo, afirma: “E, embora seja com tanta presteza, que a poderíamos comparar à de um relâmpago, fica tão esculpida na imaginação esta imagem gloriosíssima, que tenho por impossível que se lhe tire até que a veja onde sempre a possa gozar” . Longe de ser uma “via extraordinária”, exclusiva dos grandes místicos experimentais, a mística faz parte da experiência transcendente comum, “ordinária”. Sem “sentir” a proximidade do Ser Absoluto – causa primeira e fim último de todas as coisas –, sem “experimentar” a possibilidade de unir-se a Ele, o ser humano ficaria abalado em sua certeza axiológica e ontológica, perderia a noção do seu próprio ser.

Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura

Irmã Clarissa Ribeiro de Sena, EP

jesuítas

As figuras exponenciais que encontramos no nascedouro das grandes nações brilham, em geral, pelo agressivo e implacável heroísmo, conquistando a celebridade ora em guerras justas, ora em inqualificáveis rapinas. Entretanto, um personagem entrou para a História do Brasil não em um carro de triunfo puxado por prisioneiros e vencidos, nem os hinos de guerra celebraram sua vitória, nem as armaduras foram sua vestimenta. Serviu-lhe de traje a túnica branca de sua inocência; constituía-lhe o cortejo pacífico uma raça que tirara da vida selvagem e defendera contra o cativeiro, e uma nação inteira que ajudara a construir para a maior glória de Deus. Trata-se do Beato José de Anchieta, Apóstolo do Brasil.

Muito se discute a atuação missionária da Igreja durante o período das grandes conquistas, em particular na América. Acusam-na de ter promovido – ou, ao menos, não ter impedido – o genocídio dos indígenas, ter destruído sua religião e aniquilado sua cultura. Entretanto, ressalvadas as falhas e pecados que neste vale de lágrimas acompanham toda obra humana, uma visão imparcial dos fatos nos mostra a prodigiosa obra não só religiosa, mas também civilizadora e social da Igreja junto às populações nativas.No afã de reunir as ovelhas dispersas sob a égide de um só Pastor, a Igreja Católica “não subtrai coisa alguma ao bem temporal de nenhum povo, mas, pelo contrário, fomenta e assume as qualidades, as riquezas, os costumes e o modo de ser dos povos, na medida em que são bons; e assumindo-os, purifica-os, fortalece-os e eleva-os”.

Isto se passa porque, ao levar um povo ao conhecimento do verdadeiro Deus e à prática das virtudes cristãs, a Igreja acrescenta a seus dons naturais os dons sobrenaturais. Assim, não destrói suas qualidades próprias, mas as sublima, posto que “a graça não suprime a natureza, mas a aperfeiçoa”. É o que assinalou Bento XVI em sua viagem ao Brasil:

O que significou a aceitação da fé cristã para os povos da América Latina e do Caribe? Para eles, significou conhecer e acolher Cristo, o Deus desconhecido que os seus antepassados, sem o saber, buscavam nas suas ricas tradições religiosas. Cristo era o Salvador que esperavam silenciosamente. Significou também ter recebido, com as águas do batismo, a vida divina que fez deles filhos de Deus por adoção; ter recebido, outrossim, o Espírito Santo que veio fecundar as suas culturas, purificando-as e desenvolvendo os numerosos germes e sementes que o Verbo encarnado tinha lançado nelas, orientando-as assim pelos caminhos do Evangelho.”

Esta obra deve-se, sobretudo, ao labor de dedicados religiosos –– especialmente franciscanos e jesuítas –– que, abandonando a Europa, aventuraram-se pelas terras do Novo Mundo. Segundo expressão do Padre Anchieta, aportavam “os expedicionários em busca de ouro para as arcas do Rei, e o padre em busca de almas para o tesouro do céu”. De onde lhes vinha tal zelo apostólico?

 

Após Sua gloriosa ressurreição, Jesus aparece aos onze discípulos reunidos e lhes outorga um mandato: “Ide, pois, e ensinai a todas as nações; batizai-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ensinai-as a observar tudo o que vos prescrevi”. Estava assim delineado o caráter missionário da Igreja Católica.

Animados por este espírito, os jesuítas chegaram ao Brasil em 1549, na armada que trazia o primeiro Governador-geral da Colônia, Tomé de Sousa. Foram designados para esta missão o Padre Manuel da Nóbrega, outros três padres e dois irmãos. Em contraste com a exuberante beleza da terra, os religiosos encontraram um lastimável panorama espiritual: privados de qualquer assistência religiosa, os colonos portugueses haviam caído em um completo desregramento moral; nas aldeias, achavam-se os índios arraigados aos piores vícios –– a antropofagia, a embriaguez e a poligamia. Ainda outros fatores vinham agravar o quadro: a animosidade entre conquistadores e nativos, a cobiça daqueles, e a desconhecida língua destes.

Devido à grandeza da obra por realizar e a escassez de operários, uma nova leva de missionários foi enviada ao Brasil em 1553. É nela que encontramos o Padre Anchieta. Alguns anos antes, ainda estudante na Universidade de Coimbra, a leitura das cartas que São Francisco Xavier escrevia do Oriente determinou seu ingresso na Companhia de Jesus, desejoso de seguir o exemplo do Apóstolo das Índias na dedicação pela glória de Deus e bem dos homens; queria também ser missionário. Tal anseio não deixaria de ser atendido.

Desde os primeiros dias em terras brasileiras, aplicou-se a aprender a língua indígena com tanto proveito que em seis meses já a dominava. Antes do ano de 1556, redigiu sua “Gramática da língua mais usada na costa do Brasil”, facilitando a aprendizagem do idioma local pelos missionários recém-chegados da Metrópole. Dedicou-se também a escrever, em tupi, obras destinadas à catequese, entre elas: “Diálogos da Fé”, “Instrução para o batismo”, “Instrução para assistência aos índios em perigo de morte” e um “Confessionário”. Pôs, assim, nas mãos dos missionários do Brasil, e também do Paraguai, valiosos instrumentos de apostolado.

Fato pitoresco –– e que revela o desejo de tornar a doutrina católica acessível à compreensão e cultura dos “brasís”, como costumava chamar os nativos –– é que, em um de seus catecismos, o Padre Anchieta enumera, entre as consequências do pecado original na obra da criação, a agressividade das cobras e das onças .

Segundo o método adotado pelos jesuítas, foram-se criando casas e seminários ― localizados estrategicamente entre as vilas portuguesas e as aldeias indígenas ― onde eram instruídas as crianças indígenas e os filhos dos colonos; ao mesmo tempo, formaram-se, em pontos não muito isolados do interior, núcleos destinados aos adultos, onde a catequese se fazia pela prédica, pelo exemplo e pelas pompas do culto; não se olvidava, entretanto, dos aldeamentos mais distantes para onde, sempre que possível, eram enviados missionários. Por toda parte, mas especialmente nas aldeias, poderíamos surpreender o Padre Anchieta rodeado por uma coorte de crianças ou adultos ― brancos, mamelucos e índios ― ávidos por escutá-lo. Isto nas principais capitanias da época, desde a Bahia até São Vicente, passando pela Guanabara e Capitania do Espírito Santo. Nos últimos anos de vida, ninguém conhecia melhor que Anchieta o litoral brasileiro.

Suas pregações eram entremeadas de versículos e imagens da Sagrada Escritura; não deixava, contudo, de refletir as circunstâncias locais. Sabia adaptar-se a seus ouvintes e mencionava, por exemplo, com a devida aplicação parenética, quedas de cavalo e picadas de cobra. Outra nota característica de seu apostolado foi a atividade poética e musical, já que boa parte de sua poesias se destinava ao canto, tanto nas funções sagradas como para serem disseminadas entre o povo; compôs também dramas sacros em tupi, para a edificação e entretenimento nas aldeias cristãs. A Eucaristia e a Virgem Maria ― suas duas mais ternas devoções ― eram os principais temas de suas composições, além de histórias bíblicas próprias a instruir os índios nas verdades evangélicas. Desta forma, elevava as almas para os ideais sublimes do cristianismo. Tão prodigioso era o efeito destes cânticos sobre os indígenas, que o Padre Nóbrega assegurava ser possível atrair só com a música todos os índios da América.

Sobre os frutos desta empresa, comenta Bento XVI: “A sabedoria dos povos originários levou-os felizmente a formar uma síntese entre as suas culturas e a fé cristã que os missionários lhes ofereciam. Daqui nasceu a rica e profunda religiosidade popular, em que aparece a alma dos povos latino-americanos”.

Mas se a finalidade que norteava a ação do Padre Anchieta em sua missão era primordialmente religiosa, não deixava de ter imensa repercussão para o progresso social. Segundo palavras de João Paulo II, “em todo este ingente esforço despendido por ele, […] havia uma visão e um espírito: a visão integral do homem resgatado pelo sangue de Cristo; o espírito do missionário que tudo fez para que os seres humanos dos quais se aproxima para ajudar, apoiar e educar, atinjam a plenitude da vida cristã”.

Cada um dos numerosos núcleos formadas pelos jesuítas no litoral e zona contígua tornou-se uma vila, e foi um método seguro e prático de fazer muito suavemente a passagem da vida da taba para a urbana. Entre todos os arraiais que se fundaram, o mais famoso e característico da ação dos missionários nesta parte do continente foi o que se constituiu em Piratininga. Foram atraídos para lá importantes chefes indígenas que, com seus parentes, estabeleceram-se no local escolhido pelos religiosos. Outro fator favorecia a aproximação dos índios destes aldeamentos: perseguidos pelos caçadores de escravos, eles encontravam um refúgio seguro junto aos missionários.

Começaram pela construção de uma capela de taipa, e de casas cobertas de palha e cercadas de ripas; as moradias se alinhavam formando praças e ruas, convenientemente aplainadas. Ergueu-se também o primeiro colégio dos jesuítas no Novo Mundo, inaugurado com uma missa celebrada no dia 25 de janeiro de 1554, festa da conversão de São Paulo, o Apóstolo das Gentes. Desta coincidência proveio o nome do colégio que se acabava de fundar, e, mais tarde, da grande cidade brasileira que ali nascia. O jovem José de Anchieta, contando apenas vinte anos, foi o esteio deste colégio. Sendo o único a possuir a formação necessária, ensinava as “Humanidades” aos estudantes da Companhia, e o catecismo e primeiras letras às crianças indígenas, pois elas recebiam, além da educação religiosa, a conveniente instrução primária.

Os missionários exerceram também um importante papel de mediadores entre colonos e nativos, sanando discórdias e ódios entre as duas raças. Fato característico deu-se nas aldeias de Iperoí, em uma contenda entre os portugueses e a tribo dos Tamoios, aliada aos franceses que procuravam conquistar a baía de Guanabara. Escreve o Padre Anchieta em uma de suas cartas que, vendo a inquietação que se espalhava por toda a capitania, o Padre Manuel da Nóbrega determinou ir em pessoa tratar as pazes com os índios, levando como intérprete o então Irmão José de Anchieta. Entregando-se à Divina Providência, foram “como homens morti destinatos, não tendo mais conta com morte nem vida que quanto for mais glória de Jesus Cristo e proveito das almas, que Ele comprou com sua vida e morte”.

Tendo passado por inúmeros perigos –– sobretudo no período em que Anchieta ficou só, como refém dos tamoios –– conseguem finalmente restabelecer a concórdia. E não só: por sua conduta, o jovem religioso havia conquistado o respeito dos principais das aldeias, e usado de seu cativeiro como ocasião para novas conversões. Foi ali que, nas areias da praia, escreveu seu conhecido poema à Virgem Maria.

Seu apostolado foi muito fecundo. Tantos frutos devem-se não a um físico robusto –– ao contrário, era de saúde débil, o que, ironicamente, determinou sua vinda para a fatigante missão do Brasil –– ou apenas a seu talento e gênio natural, mas a um profundo amor a Deus. É o que ele mesmo relata na carta de 1 de junho de 1560, enviada ao Geral da Companhia, Padre Diogo Laínes:

“Quase sem cessar, andamos visitando várias povoações, assim de índios, como de portugueses, sem fazer caso de calmas, chuvas e grandes enchentes de rios, e muitas vezes de noite por bosques muito escuros socorremos aos enfermos, não sem grande trabalho, seja pela aspereza dos caminhos, como pela incomodidade do tempo. […].” Mas nada é árduo aos que têm por fim somente a glória de Deus e a salvação das almas, pelas quais não duvidarão dar a vida.

Passaram-se os séculos e a sociedade hodierna encontra-se não menos necessitada de santos missionários que a de outrora. Possa o exemplo do Beato José de Anchieta ser um estímulo, nos dias atuais, aos evangelizadores chamados a reconduzir tantos filhos pródigos à casa Paterna, cooperando para que “o desígnio de Deus, que fez de Cristo o princípio de salvação para todo o mundo, se realize totalmente”.

BIBLIOGRAFIA

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