Pode a justiça conviver com a misericórdia?

Ir Mariana de Oliveira, EP

Pode acaso a justiça coabitar com a misericórdia? Ou a severidade com a bondade? Como pode ser que em Deus, a quem sabemos uno e simples, isto ocorra?

Quando se anda mata adentro se veem muitas sombras e luzes projetarem-se no chão rústico. O Sol pode estar a pique, entretanto, as folhas impedem de vê-lo e na floresta só se percebe que ele existe devido a estes desenhos que se formam com os raios filtrados pelas brechas nos galhos das árvores. Quem não sabe que existe uma ramagem em cima, não sabe explicar o porquê de não estar vendo o Sol, mas apenas tênues raios incidindo sobre o solo e se interpondo à sombra. 1Tentemos, então, de alguma forma, compreender a justiça e misericórdia de Deus, divisando as ramagens que estão no alto, cientes de que nada acontece de avulso ou contraditório, pois a mão divina que a rege é perfeita e inerrante.

É compreensível que dúvidas como “Deus pode ser justiceiro e igualmente misericordioso?” ou “bom e severo?” pululem na mente do homem, pois, assim como ninguém pode, por exemplo, possuir um temperamento extrovertido e ao mesmo tempo tímido, assim também somos tendentes a aplicar a Deus as regras que regem a natureza humana.

A intensidade do amor de um pai por seu filho é muito grande, sobretudo quando aquele é reto. Como deverá agir o bom pai para educar a criança? Acaso será castigando-a a cada pequena travessura cometida? Ou, talvez, fazendo com que o menino nunca conheça o humilhante castigo, cobrindo-o de carícias, mesmo quando ele pratique uma ação reprovável? Ou, então, usando da bondade, sempre que possível, e da severidade nos tempos oportunos? Evidentemente, quanto mais o pai souber equilibrar estes dois elementos, mais amado e respeitado será aos olhos do filho.

Com efeito, o segredo da boa educação e do relacionamento equilibrado da família é, exatamente, a justaposição da bondade com a severidade nos devidos momentos. Ora, se esta união entre justiça e misericórdia se dá tão comumente dentro da vida familiar, ela bem pode ser o reflexo de uma harmonia mais excelsa, ou seja, aquela existente em Deus, que usa de tais atributos para melhor formar o homem.

É muitíssimo divulgada a ideia: “Deus é Bom e, portanto, pode-se ‘andar errante’, pois Ele é misericórdia e perdão”… É bem verdade que Ele é a Misericórdia. Ele, de fato, é o Perdão… Mas será que o Senhor, justamente por sua eterna misericórdia e seu desejo de perdoar, não pode “chacoalhar” com mão forte o homem, para que este entenda que sua ternura quer envolver os corações que verdadeiramente O amem, e para despertar aqueles que parecem dormir à beira do abismo do pecado e da morte eterna?

Esvanecendo toda insegurança, o Doutor Angélico explica: “a obra da justiça divina pressupõe a obra da misericórdia e nela se fundamenta”,2 pois a misericórdia não é senão a raiz de todo obrar divino. E, bem longe de se opor à justiça, a misericórdia é a sua plenitude, uma vez que a justiça se limita a dar o que se deve a quem merece, mas a misericórdia dá muito mais do que se merece, sobrepassando toda proporção exigida.3

“Na verdade, a justiça e a misericórdia não somente não são contrárias entre si, como também se harmonizam […] maravilhosamente em Deus”.4 Em outros termos, é íntima a conciliação entre a misericórdia e a justiça em Deus.5

É o que constatamos ao analisar alguns casos descritos no Antigo Testamento, em que o personagem merecia ser exterminado e, por causa de uma ação um pouco mais relevante, o Altíssimo Se compadeceu e atenuou a pena. Um exemplo surpreendente disto é o rei Acab, que procedeu repetidas vezes de modo péssimo durante o seu reinado, cometendo crimes e abominações sem nome. No entanto, quando foi ameaçado por Deus, humilhou-se, provocando a compaixão do Senhor, que lhe diminuiu a punição (cf. I Re 21, 21-29). Este e tantos outros episódios ressaltam que, desde sempre, o fogo da misericórdia esteve ardente, e ao Senhor aprouve, já naquela época, fazer sentir o seu benfazejo calor através de pequenas faíscas. A chama seria, mais tarde, acesa pelo próprio Deus Humanado.

É verdade que, na maioria dos casos, mostrava-Se Ele bem severo com as desobediências. Porém, uma coisa é certa: a bondade estava regendo sempre seu proceder, e enquanto uma mão batia, a outra animava à mudança de vida e à boa disposição para receber o Salvador, promessa que se manteve inabalável, apesar de todas as infidelidades do povo.

Quanto amor pelos homens tem Aquele que não precisa dos homens para ser glorificado, mas desejou, por pura misericórdia, levá-los à participação da sua própria divina vida, fazendo-os co-herdeiros com seu Filho (cf. Rm 8, 17)!

1 Cf. CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Cólera e misericórdia. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano XIV, n. 154, jan. 2011, p. 25.
2 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Op. cit. I, q. 21, a. 4.
3 Cf. Ibid. a. 3, ad 2; a. 4.
4 ROYO MARÍN. Op. cit. p. 177-178. (Tradução da autora).
5 Cf. Ibid. p. 108.

Uma ideia sobre “Pode a justiça conviver com a misericórdia?

  1. A justiça de Deus é uma de Suas perfeições, devemos ser filhos da Cruz, heroi da Cruz, amarmos tanto a justiça de Deus, mas nós não podemos esquecer, Deus para poder ser misericordioso invadindo o terreno da justiça concedeu uns orvalhos de misericordia, Deus criou seu Divino Filho pai da Misericordia e deu a seu Divino Filho uma mãe, que é a Mãe de misericordia (Vida Doçura, Esperança nossa. Nós devemos avançar com a resolução, por maiores que sejam os sofrimentos , no meio de tudo isso conservar a luz da misericordia dentro da fulgurancia da justiça, aí encontraremos um equilibrio pelos quais seremos os grandes lutadores que nós devemos ser.

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