Onde está o pulchrum?

Ir Denise Maria Paschoal Rocha, EP

3º ano de Ciências religiosas

Deus é a fonte da pulcritude e não pode criar seres contrários a Si. Portanto, todas as criaturas têm algum aspecto pelo qual refletem a beleza d’Ele.

Em tese, essa afirmação é facilmente aceita. Mas, se a aplicarmos a algo concreto, não será tão simples assim… Por exemplo, quem ousaria responder a esta questão que Plinio Corrêa de Oliveira levantou certa vez: onde está a pulcritude da barata?

Difícil, não é? Para alguns, causará até certo mal-estar só o fato de pensar nesse inseto… Mas Dr. Plinio, com seu perfeito senso de justiça, sabia dar a cada ser o devido valor. Assim, ao responder à referida questão, ele disse que a pulcritude da barata está na casca dela, no seu marrom furta-cor que até parece um verniz. Além disso, embora seja um inseto insignificante, ela é superior a uma pedra preciosa, pois possui vida e a pedra não. Tem, portanto, uma pulcritude ontológico-metafisica em algo superior a uma joia.

A cor da alma

Carolina Amorin Zandoná

2º ano de Ciências Religiosas

Certa vez Plinio Corrêa de Oliveira teceu o seguinte comentário a respeito de uma imagem de Nossa Senhora das Graças: “Esse branco corresponde à cor da alma de Nossa Senhora. A inocência da Sancta Virgo Virginum — que é inocente sem comparação com nada e com ninguém, acima de tudo, exceto de Nosso Senhor Jesus Cristo — se exprime nesse branco de um modo maravilhoso”.[1]

O caro leitor já pensou em meditar sobre as cores? É a isto que o convido, propondo-lhe como tema um desafio: se pudéssemos ver a alma de um Santo, de que cor ela seria?

Para não ficarmos apenas na teoria, voltemos nossa atenção a um exemplo concreto: a vidente de Lourdes, Santa Bernadette Soubirous.

Bernadette, uma pobre camponesinha, filha de um moleiro, com uma inteligência bem limitada e uma saúde muito débil, foi escolhida pela Santíssima Virgem para ser uma verdadeira heroína.

Bem poderíamos comparar a sua alma a um vermelho carmesim, simbolizando sua forte personalidade, decidida a propagar incondicionalmente a mensagem de Nossa Senhora, apesar de todos os revezes que se lhe apresentaram ao longo de sua curta vida. Todas as ingratidões, maus tratos e perseguições de que foi alvo eram, na verdade, elementos de santificação enviados pela Providência que acrescentaram ao vermelho carmesim de sua alma o esplendor áureo do heroísmo.

Somente na eternidade poderemos contemplar a glória e a vitória de todas as lutas dos santos que agora vislumbramos, considerando as cores de suas almas.

[1] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Porte régio e virginal. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano XVI, n. 188, nov. 2013, p. 19.

Por uma gota de dor, torrentes de graças

Luisa Gurgel

2º ano de Ciências Religiosas

Todo homem nasce com uma vocação específica. Entretanto, algo em comum é dado a todos: o chamado à santidade. E o que significa alcançar a santidade? Significa receber, como prêmio, a vida eterna no Céu, depois de uma vida santa de lutas bem travadas, com o auxílio divino.

Realmente, uma eternidade feliz é a melhor recompensa que qualquer um poderia receber. Porém, para alcançá-la, é necessário sofrer: “Militia est vita hominis super terram”. Por mais que se fuja da Cruz, ela é inerente à vida humana e é a única condição que Deus nos pede em troca do Céu. O que são dez, vinte, trinta, cem anos de sofrimento? Deus nos quer dar a alegria eterna, se aceitarmos o pouco de dor que Ele nos pede.

Saibamos, então, dar a gota que fomos chamados a dar e esperemos confiantes as torrentes de graças que a Providência deseja nos conceder, lembrando-nos das palavras de Plinio Corrêa de Oliveira: “A autêntica satisfação da vida é aquela sensação de limpeza de alma que se possui quando fitamos de frente a nossa cruz e dizemos SIM a ela”. 1

1 CORREA DE OLIVEIRA, Plinio. A exaltação da Santa Cruz em nós e fora de nós. Dr Plinio, São Paulo, ano 3, n. 30, set. 2000, p. 16.

O QUE É MAIS IMPORTANTE?

Ir. Letícia Gonçalves de Sousa, EP

Depois do pecado original, a natureza humana tornou-se mais tendente a buscar sua felicidade nas coisas materiais vinculadas facilmente aos sentidos do que naquelas ligadas ao espiritual. Quiçá seja este o motivo pelo qual o Divino Mestre perfumou as páginas do Evangelho com ensinamentos a respeito da grandeza do Reino do Céu a fim de que, encantados pela beleza deste, os homens perdessem o desejo de gozar desta terra passageira e corrompida.

Nosso Senhor também Se utilizou das parábolas do Reino para falar do caráter militante da Igreja: “quando é semeado, é a menor de todas as sementes. Mas, depois de semeado, cresce, torna-se maior que todas as hortaliças e estende de tal modo os seus ramos, que as aves do céu podem abrigar-se à sua sombra” (Mc 4, 31-32).

Assim sendo, facilmente podemos responder à seguinte pergunta: o que mantém viva, influente e em contínua expansão a Esposa Mística de Cristo? É a estirpe de almas que, escutando as divinas palavras de Nosso Senhor, avançam para fazer com que um dia venha a nós o reino do Pai. A maior arma de apostolado destes apóstolos não é outra senão a vida interior.

São Carlos Borromeu tem um sábio conselho neste sentido: “Não descuides de tua própria alma; se descuidares de tua alma, não poderás dar aos outros o que deves dar”.[1] Este é o segredo do desenvolvimento e da força dessa árvore sagrada, que um dia foi um grão de mostarda. Sua seiva é o auxílio da graça divina, e não a força humana. Portanto, se realizamos boas obras, “não devemos nos pôr a pergunta se os homens reconhecerão nossas realizações e nossas grandezas. Importa sabermos que Deus nos assiste, perscrutando no fundo das almas o amor com que O servimos”.[2]

Podemos dar muita glória a Deus em nossas ações de cada dia, desde que tenhamos as vistas postas no sobrenatural e, não apenas no concreto, sendo perfeitos “como o Pai celeste é perfeito” (Mt 5, 48). “Assim fez Cristo Jesus durante Sua vida pública: ocupadíssima, intensíssima, entretanto, sempre impregnada de oração e contemplação”.[3] Sigamos, pois, os seus passos.

[1] CARLOS BORROMEU, Santo. Sermão. In: COMISSÃO EPISCOPAL DE TEXTOS LITÚRGICOS. Liturgia das Horas. Petrópolis: Vozes; Paulinas; Paulus; Ave Maria; 2000, v. IV, p. 1436.

[2] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Santidade, o ideal de todo homem. In: Dr. Plinio.  São Paulo, Ano IV, n. 44, nov. 2001, p.10.

[3] CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O amor imperfeito de Maria e a preocupação naturalista de Marta. In: Arautos do Evangelho. São Paulo: Ano IX, n. 103, jul. 2010, p. 15.

“O precioso vinho espiritual da santidade”

Ir. Daniela Chacaliaza, EP

Imaginemos que fôssemos contratados para um novo emprego e ninguém nos explicasse o que deveríamos fazer; difícil seria poder exercê-lo com competência.  Ou, então, que comprássemos um aparelho eletrônico de manuseio complicado e que, dentro da caixa, não encontrássemos o manual de instruções. Certamente, nosso desapontamento não seria pequeno, pois quão difícil seria colocá-lo em funcionamento. Que alivio se achássemos um manual!

Na  vida quotidiana, vemos, com frequência, que os homens redigem manuais para facilitar o desenvolvimento dos afazeres humanos. Se isto é assim com os homens, não seria possível que o Criador do Universo, o nosso Pai Celestial, nos privasse de modelos para podermos exercer o papel mais importante desta vida: conquistar o Céu através da luta quotidiana.

Desta maneira, o Altíssimo nos deu um manual que, quando visto e lido através dos olhos d’Ele, é um farol que nos ensina a trilhar os caminhos da vida. Este guia é a natureza. Ora, toda a Obra da Criação foi feita para, de uma ou de outra forma, servir ao homem.

Pousemos, então, nosso olhar num fruto maravilhoso da terra que Deus quis utilizar como matéria para o Sacramento mais sublime: a uva que, depois de passar por certo processo, se transforma em vinho.

Ao analisar o procedimento que se realiza para obter um saboroso vinho, vemos que as uvas devem passar, por assim dizer, por certas circunstâncias difíceis: ao ser levadas ao lagar, elas são esmagadas — pisadas, literalmente —, para produzir esta bebida. Ademais, é um fato digno de ser considerado e ressaltado que não é em todo tempo que as uvas dão seus produtos mais insignes. Existe uma época específica do ano em que a videira dá seus melhores frutos. Curiosamente, enquanto os outros alimentos que a terra produz precisam de um terreno fértil, a boa videira prefere solo seco e pedregoso. Quer dizer, para obter um vinho de boa qualidade, é preciso a videira ter nascido em condições aparentemente adversas.

Assim também é o ser humano. Para florescerem heróis, muitas vezes, Deus permite e quer que estes passem, in tempore opportuno, pelas situações mais adversas e por dores tremendas. De fato, a História nos prova quão mais valiosos são os varões ou mulheres que foram submetidos pela Providência a terríveis sofrimentos e provações. Sendo esta terra um vale de lágrimas, é preciso que os homens passem pelas cruzes para alcançar o prêmio esperado.

“E, de fato, tal como o fruto da videira necessita ‘sofrer’ e ‘esperar’ para alcançar o requinte de seu próprio sabor, assim é o ser humano: para adquirir a plenitude de sua personalidade, não requer comodidades nem prazeres, mas padecimentos e docilidade à vontade divina. O sofrimento é, pois, um valioso bem para o homem. […] Com a dor, o ser humano sai de seu egoísmo, compreende a sua contingência e se abre para o sobrenatural. […] O sofrimento bem aceito produz o precioso vinho espiritual da santidade”.[1] E assim, seguindo o exemplo de Nosso Senhor Jesus Cristo, é pela cruz que o homem chegará à luz.

[1] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Editorial. Dr. Plinio, São Paulo, ano 14, n. 164, nov. 2011, p. 4.

Do mar estrela…

Maria Clara Joice Silvino

2º Ano Ciências Religiosas

Uma terrível tempestade assalta o pequeno barco que navega em meio à escuridão da noite. Parece que a embarcação irá soçobrar devido as enormes ondas e o navegador já não consegue mais controlar o timão, que gira descontroladamente de um lado para o outro.

Mas uma certeza enche de confiança o experiente navegante: as estrelas continuam a cintilar no céu, e quando as nuvens se dispersarem, a estrela da manhã indicará o norte.

O mar é este mundo e nós somos os navegantes. Neste mar, os ventos das contradições são furiosos; bravas as ondas do sucesso; repentinos os assaltos dos piratas que querem roubar os nossos méritos; muitos são os que naufragam. Como é possível chegar ao porto da bem- aventurança? A resposta nos dá São Bernardo: “Olha a estrela, invoca Maria”[1].

“Nossa Senhora – comenta o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira – é chamada, muito a propósito, de Estrela luminosíssima. Incontáveis astros reluzem no firmamento, porém Ela é o mais resplandecente de todos: ou seja, Maria é a mais luminosa das criaturas.”

“E por que é simbolizada pela estrela? Porque é durante a noite que cintilam as estrelas, e esta vida é para o católico uma noite, um vale de lágrimas, uma época de provação, de perigo e de apreensões. Na eternidade teremos o dia brilhante, porém na vida terrena teremos o escuro da madrugada. E nesta noite existe uma estrela que nos guia, que é a consolação de quem caminha nas trevas, olhando para o céu: Maria Santíssima, a mais fulgurante de todas as estrelas!”[2]

Sob a luz luminosíssima desta estrela não pereceremos. Porém, Maria não é só a estrela que nos guia, mas também o porto seguro que nos abriga nas tempestades desta vida. Olhando para esta estrela, não nos desviaremos; refugiando-nos neste porto de bonança, não naufragaremos nas tormentas, até chegarmos um dia à eterna bem-aventurança, onde receberemos a recompensa demasiadamente grande: contemplar para todo o sempre a luz desta estrela inextinguível.

[1] BERNARDO. Obras Completas. Madri: BAC, 1953. Vol. I. p. 205.

[2] Cfr. CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Conferência em 24/8/1965. In: CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Pequeno Ofício da Imaculada Conceição Comentado. São Paulo: Ipsis, 2010, v1, p.47.

 “Velhos”… como certos vinhos

Ir. Maria Beatriz Ribeiro Matos, EP

Nesta Terra herdada de Adão, tudo o que é material está irremediavelmente condenado a perecer: as flores murcham, os alimentos se deterioram, a saúde humana se gasta, os edifícios se transformam em ruínas… Só um fator é necessário: o tempo.

Entretanto, para algumas criaturas, como certos vinhos, o decorrer dos anos parece ter o efeito contrário. Cada uma de suas numerosas variedades fermenta em ritmo próprio e após um período de repouso – seja em barricas de carvalho, seja na própria garrafa meticulosamente acondicionada nas caves -, entra no seu período de maturação.

Para o champagne e outros vinhos, este pode ser muito curto. Mas os mais reputados tintos Borgonha ou Rioja, cujas características se forjam pela lenta interação entre o mosto fermentado e a madeira, ainda vão dar o melhor de si só depois de evoluir na garrafa por vinte e cinco, trinta ou cinquenta anos. E mesmo tendo atingido seu apogeu, podem manter por mais algumas décadas – e até séculos! – a excelência de seu buquê. Por isso se diz que o vinho quanto mais velho melhor!

Durante a fermentação, contudo, o perigo de o mosto converter-se em vinagre é grande, pois o ­álcool, ao entrar em contato com o oxigênio, se transforma com facilidade em ácido acético. Para que isto não aconteça, são necessários cuidados especiais e, sobretudo, deve-se respeitar o processo adequado para o tipo de vinho e a variedade que se deseja obter.

Imaginemos agora uma garrafa de vinho que, no frio e escuro silêncio da adega, pudesse sentir a cozinheira passar. Ela vai buscar na despensa alguns ingredientes para fazer o pão, escolhe os melhores queijos para servir, mas nem lança um olhar de desprezo em direção à adega. “Desta vez houve uma distração… na próxima ocasião serei escolhido!”, pensa o vinho da garrafa.

Os anos se passam e a despensa vai sendo incessantemente reabastecida. A cozinheira se aposenta, uma mais jovem a substitui e, enquanto isso, o vinho permanece em sua garrafa, na estante, sem mudar de posição sequer. A camada de pó que a cobre se torna mais grossa e a rolha, ressequida e quebradiça.

Afinal, num dia como tantos outros, a porta da despensa se abre e escutam-se os passos de alguém dirigindo-se à adega. Como esta mesma cena se repetira durante tantos anos, o nosso vinho velho nem lhe dá importância: quem se interessaria por uma pobre garrafa esquecida num recanto empoeirado?

Contudo, logo escuta a voz do chefe da família dizer:

– Hoje é dia de grande festa! Há muito tempo tenho guardado um vinho especial à espera de que se requintasse.

E a garrafa sente uma mão que, cuidadosamente, a ergue e exclama:

– Agora, sim, está à altura!

O dono da casa, deixando o vinho tanto tempo guardado, lhe fez um mal ou um bem? Sem dúvida um bem, pois deu-lhe a oportunidade de atingir uma sublimidade inalcançável sem a espera.

Assim também nós. Quantas vezes nossas almas podem sentir-se como uma garrafa guardada em escura adega, para a qual Deus parece não Se dignar olhar!… Com frequência, ao atravessar circunstâncias difíceis e pedir auxílio ao Céu, podemos ter a impressão de que a Providência não nos ouve. Na realidade, quem suporta com fidelidade as esperas de Deus vai, como o bom vinho, galgando degraus rumo à perfeição.

Deve-se, porém, cuidar para que a alma não “se avinagre”, pois o espírito humano é frágil e fácil de se deixar abater pelo desânimo. Neste caso, o resultado da espera vai ser muito diferente do desejado…

Deus sabe o tempo de maturação adequado para todos. No momento oportuno Ele virá nos visitar. E não é que necessariamente tenhamos de estar “velhos” como certos vinhos. Na adega do Altíssimo há vetustos e complexos “borgonhas”, mas também “champagnes” de incomparável leveza, frescos “alvarinhos” e agrestes “chacolís”, e o Divino Despenseiro sabe esperar o tempo exato para cada um…

Revista Arautos do Evangelho – Janeiro 2016

O Reinado de Cristo na Terra

Ir Juliana Montanari, EP

Em nossa era, verifica-se uma preocupação constante: como alcançar uma sociedade perfeita? Fala-se muito de ordem, leis e direitos, mas a resposta não se restringe a isso. A solução encontra -se em algo muito mais profundo, régio e elevado, que bem podemos chamar de fonte da qual emanam todas as perfeições: A Santa Igreja Católica Apostólica e Romana.

A sociedade pode ser comparada a uma enorme construção. Para a edificação de um castelo, por exemplo, é necessário, mais que majestosas torres e altaneiras muralhas ou elegantes escadarias e magníficos salões, é necessário um sólido fundamento. Sem este, de nada valerá a construção, pois, na primeira tempestade, tudo desmoronará e se reduzirá a um amontoado pedras. Tendo uma base forte, o castelo atravessa os séculos, incólume a chuvas e intempéries. Estas só contribuirão para torná-lo mais belo, pois dar-lhe-ão a glória de ter resistido às piores situações. Ora, a sociedade tem como fundamento a Igreja Católica. Podemos contemplar, no passado, o esplendor e grandeza em todos os campos nos quais ela penetrou. Em contrapartida, encontramos nos dias atuais apenas os restos dessa civilização luminosa, pois ela ruiu quando seu fundamento lhe foi tirado. Tal realidade, muito esquecida na sociedade em que vivemos, merece grande importância.

Numa época como a nossa, em que as pessoas, guiadas pelo egoísmo e por falsas doutrinas, afastam-se da Religião, é difícil ter uma noção exata de como foi a Idade Média. Durante três séculos, a Igreja teve inteiro domínio sobre os povos do continente europeu e, sem dúvida, foi este “o período mais fecundo e sob muitos aspectos, mais harmonioso de todos os que a Europa conheceu até os nossos dias. Saindo das trevas invernais da época bárbara, a humanidade cristã viveu a sua primavera”.[1] A Igreja converteu aqueles bárbaros germanos em filhos de Deus e deles fez uma brilhante civilização. A sociedade era totalmente penetrada pela Fé e o Estado tinha a obrigação, antes de tudo, de prestar honra à Igreja, dar-lhe proteção e apoio.[2] Assim descreve o Papa Leão XIII a luminosa Cristandade Medieval:

Tempo houve em que a filosofia do Evangelho governava os Estados. Nessa época, a influência da sabedoria cristã e sua virtude divina penetravam as leis, as instituições, os costumes dos povos, todas as categorias e todas as relações da sociedade civil. Então a religião instituída por Nosso Senhor Jesus Cristo, solidamente estabelecida no grau de dignidade que lhe é devido, em toda parte era florescente, graças ao favor dos Príncipes e à proteção legítima dos Magistrados. Então o Sacerdócio e o Império estavam ligados entre si por uma feliz concórdia e pela permuta amistosa de bons ofícios. [3]

A hierarquia eclesiástica compunha-se de três graus: o Sumo Pontífice, os bispos e os párocos. A esta categoria, “por causa de sua condição sacral, era tida como a mais importante das classes sociais. Além de sua missão própria que é de salvar as almas, tinha sob sua responsabilidade duas atividades: a educação e a saúde pública”.[4] Desta forma, todo o povo era orientado e auxiliado pelo próprio clero. O desempenho do ensino era administrado por sacerdotes e bispos, e os nobres necessitavam de uma licença eclesiástica para lecionar, pois o ensino dizia respeito à ortodoxia e para isso era preciso estar sob a vigilância do clero.[5] Notando a importância de saber ler e escrever, não só para os trabalhos habituais mas, especialmente, para a difusão da Religião, a Igreja desenvolveu uma forma de alfabetizar a todos através das passagens bíblicas. O mito de que a Idade Média foi a era do atraso no que diz respeito aos estudos fica desmascarado, pois foi também neste período que se desenvolveu o livro, instrumento de cultura que substituiu os pergaminhos; bem como os estudos aprofundados de filosofia e teologia na Escolástica. [6] Além disso, todas as decisões eram resolvidas pelo soberano, que baseava-se na doutrina católica exposta claramente pela lógica cristã como nos explica Woods:

Se a Idade Média tivesse sido realmente um período em que as questões eram resolvidas pelo mero recurso aos argumentos de autoridade, esse rigor no estudo da lógica formal não faria sentido. O empenho com que se ministrava essa disciplina revela, pelo contrário, uma civilização que almejava compreender e persuadir. Para esse fim os professores procuravam alunos capazes de detectar as falácias lógicas e de formular argumentos logicamente sólidos. Foi a Idade da Escolástica.[7]

Quanto à saúde pública, sabe-se que a Igreja foi solícita em atender as necessidades dos enfermos, auxiliando-os não somente no campo espiritual, através dos Sacramentos, como também no campo físico, erigindo hospitais atenciosamente cuidados por religiosos, os quais dedicavam-se aos doentes com esmero e verdadeira caridade. De tal forma isto sucedeu que não somente o mundo cristão foi modificado, mas todo o comportamento global. Compreendendo que servir o próximo é servir a Deus, as ordens hospitaleiras atendiam os doentes, quem quer que fosse, de todos os lugares, sem exceção. Inclusive, foi esta “uma das razões que haviam levado os cristãos da Idade Média a chamar ‘Hospedagem de Deus’ ou ‘Casa de Deus’ não às igrejas, mas aos lugares onde se acolhiam e tratavam, gratuitamente, pobres, doentes, miseráveis”,[8] comenta a historiadora Régine Pernoud, fazendo alusão ao vocábulo francês hôtel-Dieu, hospital. No mesmo sentido, observa o Professor Plinio Corrêa de Oliveira:

Foi com os tesouros de dinheiro dados à Igreja, pela caridade, que se pôde estender, pelo continente europeu,  uma notável rede de hospitais. […] Tais frutos dependiam do fato de a Igreja estar cercada de prestígio pelo Estado e pelos poderosos de então, dando-lhe os meios de exercer uma grande ação. [9]

Encontrando o apoio do Estado, a Igreja pôde atuar em todos os campos:

impulsionou as ciências e o progresso técnico, aperfeiçoou as relações internacionais entre os estados, aboliu a escravidão, fez avançar no progresso social, elevou a condição da mulher, de tal modo que, no século XIV, a Europa havia ultrapassado de muito todos os outros continentes.[10]

Além dos deveres e direitos individuais, os medievais preocupavam-se mais com o bem comum do que com o próprio. Considerando-se ligado aos outros pela mesma Fé, o homem medieval sentia intensamente que tinha deveres para com a sociedade. Mais do que um meio indispensável para ganhar a vida, o trabalho tinha um valor altíssimo, pois criava condições para a prática das virtudes. Tanto os camponeses como o carpinteiro ou o padeiro executavam, com suas simples atividades, uma obra piedosa, pois operavam visando o bem alheio, e assim, preparavam-se para o Céu. A disposição do grupo de trabalhadores trazia a marca cristã da caridade fraterna. Havia muitas confrarias ou irmandades, ou seja, pessoas que trabalhavam juntas em convivência fraterna, como os arquitetos, os escultores, pedreiros, aparelhadores e amassadores de cal, para construir catedrais ou casas paroquiais. Joalheiros, curtidores, vendedores de peles e alfaiates reuniam-se e ofereciam à catedral um vitral que trazia embaixo uma vinheta, designando as ocupações de seu estado, feito por eles mesmos em louvor ao seu santo padroeiro ou à Virgem Mãe de Deus. Assim o trabalho, sob o olhar de Deus, se enobrecia. [11]

 “Assim na Terra como no Céu”: o Reinado de Cristo na Terra.

Sabemos que a vida nesta Terra diferencia-se profundamente da vida eterna, porém não são dois planos separados um do outro. Pelo contrário, possuem eles uma íntima relação: “Assim como a Escola Militar é o caminho para a carreira das armas, ou o noviciado é o caminho para o definitivo ingresso numa Ordem Religiosa, assim a terra é o caminho para o Céu”.[12] O anseio pela felicidade leva o homem a procurar na vida presente algum resquício do Reino que os espera no Céu. O próprio Nosso Senhor Jesus Cristo nos ensinou a pedir ao Pai Celeste: “Venha a nós o vosso Reino” (Mt 6, 10). Esta súplica, rezada todos os dias, há mais de dois mil anos Igreja Militante, roga que o Reino de Deus se estabeleça o quanto antes entre nós.

Porém, como seria isso possível tendo o próprio Nosso Senhor Jesus Cristo afirmado não ser deste mundo o seu Reino? (Cf. Jo 18, 36). Será uma contradição? Ou teria ensinado a pedir algo impossível de se alcançar?

De fato, como nos explica São Tomás,[13] Nosso Senhor disse: “O meu reino não é deste mundo”, e não “o meu Reino não está neste mundo”, ou seja, está neste mundo com a humanidade regenerada pela graça e não é um reino comum aos reis da Terra, mas, um reino divino, pois o seu poder vem do Céu. “É o reino da virtude, é o reino da santidade, é o reino do Evangelho”,[14] que só se “torna efetivo na terra, individual e social, quando os homens, no íntimo de sua alma, como em suas ações, e as sociedades em suas instituições, leis, costumes, manifestações culturais e artísticas, se conformam com a lei de Cristo”. [15]

O Reino de Deus se realiza na sua plenitude no outro mundo. Mas para todos nós ele começa a se realizar em estado germinativo já neste mundo. Tal como em um noviciado, já se pratica a vida religiosa, embora em estado preparatório; e em uma escola militar um jovem se prepara para o Exército… vivendo a própria vida militar. E a Santa Igreja Católica já é neste mundo uma imagem, e mais do que isto, uma verdadeira antecipação do Céu. [16]

Para o futuro, portanto, estão reservadas maravilhas jamais verificadas na História. A este mundo controverso, violento, que parece caminhar de paroxismo em paroxismo, sucederá uma nova era na qual florescerá a verdadeira sociedade cristã, ainda mais harmoniosa e bela que a sociedade medieval, pois terá a unção do perdão divino, única solução —  mas quão eficaz! — para os desregramentos humanos. Sob a égide desse perdão e alicerçada na Igreja, a sociedade, será verdadeiro espelho da fisionomia de Cristo, em que serão reunidas “todas as coisas, as que estão nos Céus e as que estão na Terra” (Ef I, 10).

[1] DANIEL-ROPS, Henri. A Igreja das catedrais e das cruzadas. Trad. Emérico de Gama. São Paulo: Quadrante, 1993, p. 11.

[2] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plínio. “Tempo houve em que a filosofia do Evangelho governava os Estados…”. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano I, n. 5, ago. 1998, p. 18.

[3] LEÃO XIII. Encíclica Imortale Dei, n. 28.

[4] CORREA DE OLIVEIRA, Plinio. As três Revoluções: Conferência. São Paulo, [s.d.]. (Arquivo IFTE).

[5] Loc. cit.

[6] Cf. PERNOUD, Régine. Idade Média : o que não nos ensinaram. 2. ed. Trad. Maurício Brett Menezes. Rio de Janeiro: Agir, 1978, p. 51.

[7] WOODS, Thomas E. Como a Igreja Católica construiu a civilização ocidental. Trad. Élcio Carillo. São Paulo: Quadrante, 2008, p. 54.

[8] PERNOUD. Op. cit. p. 141-142.

[9]CORRÊA DE OLIVEIRA. “Tempo houve em que a filosofia do Evangelho governava os Estados…” Op. cit.  p. 20.

[10]CLÁ DIAS, João Scognamiglio. A Igreja é imaculada e indefectível. Disponível em http://arautos.org.br.  Acesso em 13 set. 2012.

[11] Cf. DANIEL-ROPS. A Igreja das catedrais e das cruzadas. Op. cit. p. 300-303.

[12] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. A Cruzada do século XX.  In: Catolicismo. São Paulo: Ano I,  n.1, jan. 1951, p. 1.

[13] SÃO JOÃO CRISÓSTOMO apud SÃO TOMÁS DE AQUINO. Catena Áurea. Exposicion del Evangelio segun Juan. C. XVIII, v. 33-38.

[14] CLÁ DIAS. Deus nos ensina a pedir o que nos quer dar: Homilia. Op. cit.

[15] CORRÊA DE OLIVEIRA. A cruzada do século XX. Op. cit. p. 1.

[16] CORRÊA DE OLIVEIRA. A cruzada do século XX. Op. cit. p. 1.

Plinio Corrêa de Oliveira: O mestre do nosso fundador

Plinio Corrêa de Oliveira era um profeta de tal grandeza que, mesmo morto, de alguma forma era imortal. Um homem de sua estatura moral não poderia desaparecer nas brumas da História.

Mons. João Clá Dias dedica a seu amado pai, modelo e guia, uma valiosa coleção sobre sua profética figura. Esta coleção em cinco volumes é uma versão ampliada da tese que Mons João defendeu para a obtenção do grau de Doutor em Teologia pela Universidade Pontifícia Bolivariana de Medellín, por meio da qual se quis facilitar ao grande público a compreensão deste homem que atravessou o século XX de ponta a ponta, e marcou de forma indelével os séculos vindouros.

Este oportuno estudo representa um inigualável contributo para a compreensão da própria pessoa e da mentalidade de Mons. João, que é o fundador dos Arautos do Evangelho, e das características essenciais do carisma dessa Associação Internacional de Direito Pontifício.

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A virtude dos verdadeiros apinistas

Luísa Gurgel –  1º ano de Ciências Religiosa

Há uma virtude muito importante e sobre a qual existem conceitos muito deturpados atualmente: a seriedade.

Julga-se que seriedade é sinônimo de mau-humor, falta de educação, antipatia ou algo do gênero. Entretanto, Plinio Corrêa de Oliveira define esta virtude da seguinte forma: “A seriedade é a disposição de alma de uma pessoa que está profundamente penetrada pela Fé Católica e que está penetrada, portanto, da gravidade das coisas da vida humana, como tudo passa, como tudo se desfaz e que, afinal de contas, eterno é só Deus, bom é só Deus. E que toda a nossa vida deve ser orientada para Deus Nosso Senhor, para a glória d’Ele, para a vitória d’Ele”.

Tendo o homem sido criado para conhecer, amar e servir a Deus e, mediante isto, alcançar a vida eterna, deve viver pensando neste fim último, como sempre fizeram aqueles que nos precederam com o sinal da Fé.

Imitemos os grandes santos, tomando as atividades práticas como realidades às quais temos que nos dedicar como grandes alpinistas, ou seja, com os olhos postos nos píncaros mais altos.

A serena e irreversível vitória da Fé

Ir. Clara Isabel Morazzani Arráiz, EP 

Poucos há que não tenham ouvido falar das catacumbas de Roma, e muitos já as percorreram. Trilhadas diariamente por milhares de visitantes, essas galerias subterrâneas exercem misteriosa atração e produzem nos peregrinos uma impressão profunda e inesquecível.

Em meio à penumbra desses estreitos labirintos, escavados alguns com mais de 20 m de profundidade, o observador atento é surpreendido a cada passo pelas cavidades retangulares abertas ao longo das paredes, sobre as quais, por vezes, encontram-se inscrições, nomes ou desenhos: são as sepulturas dos cristãos, muitos deles mártires, dando eloquente testemunho de um passado heroico, selado com o sangue daqueles que nos antecederam na Fé.

Em diversos pontos os corredores dilatam-se, dando lugar a exíguos aposentos, decorados com rudimentares afrescos, e em cujo centro vê-se um altar. Reina no ambiente um imponderável de piedade e recolhimento, cortado apenas pela voz do guia: “Esta sala servia de capela e sobre este altar os Papas celebravam a Missa!”.

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O monte do príncipe dos profetas

Ir. Juliane Vasconcelos Almeida Campos, EP

Do alto do Carmelo a voz de Elias parece ecoar ainda hoje, prenunciando uma era mariana que virá como chuva benfazeja para fecundar a aridez espiritual de nossos dias.

Bela e altaneira ergue-se no solo sagrado da Terra Santa uma emblemática cadeia montanhosa que evoca grandes lances do passado e aponta para um futuro de glória. Seu nome? Monte Carmelo.

Na região que circunda o imponente conjunto de rochedos há inúmeras grutas, uma das quais, conforme a tradição recolhida pelos Padres da Igreja, abrigou o grande profeta Elias, cujas “palavras queimavam como uma tocha ardente” (Eclo 48, 1).

Ele foi “um príncipe entre os profetas, verdadeiro condutor do povo de Deus. Lutou contra os erros do seu tempo, nummomento em que a nação eleita estava muito deteriorada, e salvou-a da ruína. Escolhido para dirigir o povo de Deus num momento de hecatombe, ele concentrou em si todo o espírito que o Criador queria dar à nação judia a ser ressurgida. Nesse espírito derivado da Providência Divina foi formada uma rede de eleitos, sendo o mais famoso deles Eliseu, que pediu o duplo espírito de Elias, e o obteve”.1

Dominando a planície de Esdrelon com notável presença, carregada de significado, destaca-se ao sul do Monte Carmelo uma das suas principais elevações, o El-Muhraqa. Com mais de 500 m de altitude, divisa-se daquele ponto um grandioso panorama que chega até o mar. É ali que as Sagradas Escrituras situam o famoso episódio narrado no Primeiro Livro dos Reis (cf. I Rs 18, 19-39), no qual Elias vence os falsos profetas de Baal “com uma prece simples, cheia de beleza”.2

Também a tradição nos revela ser nessa região que Elias e Eliseu se reuniam com seus discípulos. E, séculos depois, naquelas paragens se aglutinou um grupo de monges que constituiu os primórdios da Ordem do Carmo, a qual considera Elias como pai e fundador, e deu início a um filão de devoção a Nossa Senhora, algumas centenas de anos antes do nascimento da Virgem.

Muito simbolicamente, depois da seca imposta a Israel como punição por sua prevaricação, Elias vislumbrou “uma pequena nuvem do tamanho da palma da mão” (I Rs 18, 44) que subia do mar, prenúncio da caudalosa chuva que se aproximava para cessar o castigo e, segundo grande número de exegetas, pré-figura d’Aquela que traria para a humanidade as águas regeneradoras da Redenção: Maria Santíssima.

À Mãe de Deus – a Virgem e Flor do Carmelo – bem podem ser aplicadas as palavras de Isaías, o profeta da Encarnação por excelência: “O deserto e a terra árida regozijar-se-ão. A estepe vai ­alegrar-se e florir. Como o lírio ela florirá, exultará de júbilo e gritará de alegria. A glória do Líbano lhe será dada, o esplendor do Carmelo e de Saron; será vista a glória do Senhor e a magnificência do nosso Deus” (Is 35, 1-2).

Tendo sido arrebatado em “um carro de fogo” (II Rs 2, 11), Elias “deve voltar e restabelecer todas as coisas” (Mt 17, 11). Assim, hoje como ontem, do alto do Monte Carmelo sua voz parece ecoar o prenúncio de uma era mariana que virá como chuva benfazeja, para fecundar o solo árido de nossos dias, tão afastados de Cristo e de sua Mãe Santíssima.

1 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Santo Elias. In: Dr. Plinio. São Paulo. Ano XII. N.136 (Jul., 2009); p.2.

2 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Santo Elias, Profeta. In: Dr. Plinio. São Paulo. Ano XIII. N.148 (Jul., 2010); p.14.

Revista Arautos do Evangelho – Julho-2015

A vil indiferença

Ir. Letícia Gonçalves de Sousa

Deus, em sua infinita bondade, quis dar aos Anjos o sublime e inexprimível dom de vê-Lo face a face. Mas as grandes graças só se obtêm mediante provas equivalentes ao prêmio prometido.

Foi o que sucedeu aos Anjos. Seres de inteligência tão elevada, de conhecimentos tão profundos e rápidos foram submetidos aos insondáveis desígnios divinos, a algo não cognoscitivo à própria mente angélica. Era uma prova de amor ao Altíssimo. Estariam todos dispostos a isso?

“Eu vi satanás cair do Céu como um relâmpago” (Lc 10,18), diz Nosso Senhor no Evangelho. Houve Anjos que se revoltaram e São Miguel os lançou no inferno, na mansão da desgraça incessante, total e inexpiável.

Ora, alguns Anjos não amaram o bem como deveriam. Acometidos pelo mal da indiferença, da indecisão e da moleza, tentando criar uma atmosfera de falsa paz, uniram-se à revolta. Perderam, assim, a luz, comprando também a morte eterna. São os chamados demônios dos ares.

Segundo Plinio Corrêa de Oliveira “são os demônios que não iniciaram a revolta, mas que se deixaram arrastar, e que, como tais, enquanto sendo menos super-péssimos, não foram desde logo lançados no inferno, só vão ser lançados no fim do mundo. Esses ficam pelos ares, não diretamente tentando para a ofensa a Deus, mas criando um estado de espírito propício para o pecado”.1

Estes são os demônios que mais tentam aos religiosos. Como estes  lutam por trilhar o caminho da perfeição, torna-se difícil ao demônio do inferno tentar diretamente ao pecado.  Então, entram em ação os demônios dos ares, criando um estado de espírito medíocre e indolente diante do grandioso panorama da vocação. Assim, pela falta de radicalidade dos bons,  frustram-se os grandes planos de Deus.

Exemplo contrário nos deram os Anjos fiéis. O total amor ao Bem se transformou em indignação e ódio contra o mal e, consequentemente, redundou num ato de suma fidelidade. Tenhamos, pois, um amor ardente e íntegro ao Bem para que a vil indiferença não nos conduza à nossa própria ruína!

CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Conferência. São Paulo, 21 jul. 1974. (Arquivo IFTE).

A gema que simboliza o azul do céu

Ir. Isabel Cristina Lins Brandão Veas, EP

Nos últimos capítulos do Apocalipse, São João nos convida a imaginar a Jerusalém Celeste, o “tabernáculo de Deus com os homens” (21, 3), edificado sobre um conjunto de colunas translúcidas e coloridas, cujo brilho decorre da glória divina. E, ao descrever mais adiante os muros que a rodeiam, o Evangelista faz notar que “os alicerces da muralha da cidade eram ornados de toda espécie de pedras preciosas” (21, 19).

Levando em consideração que nas Sagradas Escrituras nenhum detalhe é supérfluo, poderíamos deter nossa atenção em qualquer um dos preciosos minerais sobre os quais se sustenta a feérica construção e, refletindo sobre seu significado mais transcendente, chegar a elevadas conclusões. Nenhum deles, entretanto, parece estar tão carregado de simbolismo quanto a safira, que São João menciona como o segundo fundamento da nova Jerusalém.

Embora esta gema apresente variações róseas, lilases, verdes e até douradas, sua cor típica é o azul. Um azul lindíssimo, às vezes suave, às vezes mais profundo, que parece concentrar em cada uma dessas pedras a vasta gama de tonalidades que é possível se admirar no céu. Dir-se-ia, sem lugar a dúvidas, tratar-se do mais belo azul que existe em toda a ordem da criação.

Contemplar uma safira serena os ânimos agitados, desperta sentimentos de pureza, harmonia e temperança, e afugenta o mal. Santa Hildegarda de Bingen atribui a esta pedra a virtude de favorecer a inteligência e não falta quem lhe outorgue o poder de conceder a sabedoria.

O azul da safira a correlaciona também, de modo singular, com a ideia de nobreza. Ela figurava nas insígnias de altos cargos eclesiásticos e era usualmente empregada na confecção de ornamentos reais. A coroa do Império Austríaco, por exemplo, conservada no Tesouro Imperial de Viena, é encimada por uma safira de tamanho generoso, que simboliza “o nexo entre o Sacro Império e o Céu”.1

Nada, porém, supera o fato de ser esta a gema que melhor representa certos aspectos da alma de Maria Santíssima, Rainha do Céu e da Terra, à qual a Igreja chama de “Cælica Sapphiri – Safira Celestial”. 2 Se a esmeralda é imagem da esperança e o rubi, do amor a Deus, a safira nos recorda a suavidade e a compaixão da Virgem Serena, que “está disposta a nos obter o perdão de seu Divino Filho, mesmo para nossas piores faltas; alcança-nos as graças necessárias para nossa emenda, nossa salvação, e, assim, brilharmos diante d’Ela por toda a eternidade”.

1 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. A mais bela coroa do mundo. In: Dr. Plinio. São Paulo. Ano XV. N.176 (Nov., 2012); p.32.

2 COMISSÃO DE ESTUDOS DE CANTO GREGORIANO DOS ARAUTOS DO EVANGELHO. Liber Cantualis. São Paulo: Salesiana, 2011, p.135.

3 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Razão de nossa serenidade. In: Dr. Plinio. São Paulo. Ano VIII. N.91 (Out., 2005); p.44.

Revista Arautos do Evangelho, Maio-2015

Agitação: o extremo oposto da contemplação

Ir. Ariane Heringer Tavares, EP

Após o pecado original e o consequente enfraquecimento da natureza humana, a inquietação do espírito pode derivar-se da desordem das paixões, fascinadas por algo que não é lícito. Mas, há outro fator: “o demônio, vosso adversário, anda ao redor, como um leão que ruge, buscando a quem devorar” (I Pe 5, 8). Inúmeras vezes, é ele quem provoca na alma estados de perturbação, aguçando ainda mais as más tendências. Como Lúcifer e seus sequazes não cumpriram a finalidade para a qual foram criados, por se terem revoltado contra Deus, buscam a todo custo a mesma desgraça para os homens com o intuito de privá-los das alegrias da eterna contemplação.

São Francisco de Sales qualifica o frenesi como o maior mal que pode sobrevir à alma, depois do pecado:

Porque assim como as perturbações e sedições interiores de uma república a arruínam por completo e a embaraçam a ponto de que não possa resistir ao estrangeiro, assim o nosso coração, estando perturbado e inquieto em si mesmo perde a força de conservar as virtudes que tinha adquirido e ao mesmo tempo o meio de resistir às tentações do inimigo. [1]Com efeito, o demônio procura exacerbar essa debilidade, utilizando-se da agitação constante, especialmente propagada com a Revolução Industrial.

Revolução Industrial: a embriaguez da agitação

É inegável que o desenvolvimento da tecnologia e da ciência geram inúmeros benefícios e facilidades para a sociedade contemporânea. Com efeito, seria um absurdo se, ainda nos dias atuais, as cirurgias fossem realizadas sem o uso de anestésicos, se para o envio de uma carta fossem utilizados os famosos “pombos-correio” ou, para deslocar-se de um país para outro, não houvesse outro meio senão empreender uma longa viagem marítima ou a cavalo.

Entretanto, muitas vezes, pelo mau uso de tais tecnologias e máquinas, surgem problemas bastante complexos, cuja existência talvez nem seria cogitada em épocas anteriores. Um efeito devastador desse mau uso foi o fato de esse espírito prático, fortemente tendente à velocidade, à agitação e, consequentemente, ao esquecimento do sobrenatural, ter penetrado na alma humana e afetado todo o seu modo de ser.

A máquina — a “alma” de quase toda técnica — tende a sujeitar inteiramente a seu ritmo mecânico todo o trabalho humano. E mais do que o trabalho as diversões, a vida de família, toda a existência. Em todos os domínios, o homem vai se utilizando cada vez mais largamente da máquina, e aceitando adaptar-se a ela, para fruir as vantagens que ela proporciona. Nestas condições, a influência da máquina tende a penetrar nas esferas mais delicadas e mais altas da vida humana, isto é, tende a criar um estilo de vida, um modo de conceber os problemas e de os resolver, uma mentalidade enfim, inteiramente mecanizada. Homens estandardizados, com ideias e gostos padronizados, imersos num estado de espírito de um tédio sombrio, displicente, pesado, cheio de fadiga, interrompido apenas pelas excitações delirantes do cinema, da televisão, do rádio, ou das “torcidas” esportivas.[2]

Até o século XIX, podia-se afirmar que a maior parte das pessoas ainda levava uma vida muito estável, penetrada, em muitos aspectos, pelos costumes tradicionais e carregados de simbolismo das civilizações anteriores. Contudo, o surgimento das indústrias e a realização de tantos avanços científicos e tecnológicos contribuiu decisivamente para que se operasse uma mudança radical nas mentalidades e no modo de viver de toda sociedade. O “progresso” e o “desenvolvimento”, tão difundidos desde o final do século XVIII, prometiam uma era de paz e segurança, na qual o homem seria o rei absoluto de si mesmo e de suas ações.

Essa brusca transformação da cultura e dos ambientes causada pela Revolução Industrial exerceu uma profunda ação sobre as tendências humanas, pois “os ambientes [o mesmo pode ser aplicado à cultura], na medida em que favorecem os costumes bons e maus, podem opor à Revolução as admiráveis barreiras de reação; ou […] podem comunicar às almas as toxinas e as energias tremendas do espírito revolucionário”, [3] que incentivam a revolta das paixões.

Com as tendências amortecidas, torna-se mais fácil ao homem a aderência aos fatos que se concretizam depois. Por isso, ao longo do processo de industrialização, rapidamente se consolidou e difundiu o mito de que o homem, por si só, era capaz de produzir coisas extraordinárias e numerosas, independentes de Deus. O otimismo contaminou de tal maneira os espíritos que despertou neles uma crescente apetência de fruição e um verdadeiro horror ao recolhimento e ao sacrifício.

Pode-se acrescentar ainda a ação do demônio que, aproveitando-se deste estado de espírito reinante, começou a propagar a ideia de que a máquina e a velocidade podem proporcionar ao ser humano a plenitude do gozo, dando a entender que “a excitação era a única forma de gozar a vida”.[4]

O desejo da novidade passou a ser, então, o dogma da sociedade contemporânea, levando o homem a se cansar rapidamente das coisas, querendo continuamente substituí-las por outras, o que o tornou incapaz da estabilidade e, portanto, do estado espírito exigido pela contemplação. Esta, junto com muitas outras práticas da Religião, foi sendo cada vez mais relegada a um segundo plano, até se dissociar completamente da vida cotidiana:

No fundo, tratava-se de um laicismo que não consistia apenas em silenciar os temas referentes a Deus e ao mundo sobrenatural, mas em apresentar uma visão das atividades do homem diante da qual a Religião era considerada uma coisa com la quale o senza la quale il mondo va tale e quale[com a qual ou sem a qual o mundo continua tal e qual].[5]

Quebrava-se assim, de forma mais ou menos explícita, a necessidade da relação que deve existir entre as criaturas contingentes e o Criador, resultando no mundo pragmático e materialista de nossos dias.

De fato, aquilo que satanás promete, é exatamente o que vai tirar: as promessas de paz e segurança. Basta frequentar qualquer um dos grandes centros urbanos do mundo contemporâneo: em vez de paz, encontra-se agitação; em vez de realização, frustração e infelicidade quase irreversíveis. A alma que voluntariamente se entrega a este estado de espírito se expõe a receber constantes influências malignas.

[…] há um barulho, um ruído ensurdecedor no mundo que seduz as pessoas e estas, em tais condições, não escutam a suave voz do Divino Mestre. Esse barulho, embora possa ser tomado no sentido material da palavra, antes de tudo significa o tumulto das paixões humanas desordenadas que nos levam a agir e a nos movimentarmos de maneira igualmente desordenada. Donde uma espécie de perturbação difusa nas grandes cidades, uma agitação da vida moderna e seus acontecimentos, que embriagam e fascinam imensa parcela dos habitantes dos maiores centros urbanos. Ora, enquanto houver numa alma esse deleite com o tumultuar do século, algo da delicada voz de Nosso Senhor Jesus Cristo não chegará até ela. Nesta sua lamentável surdez irão esbarrar e se deter as inspirações da graça.[6]

Como diz a Sagrada Escritura: “Non in commotione Dominus” (Vulgata: III Rs 19, 11) — “O Senhor não está na agitação”— e nem pode ser causa dela.

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[1] SÃO FRANCISCO DE SALES. Introdução à vida devota. 5.ed. Porto: Porto Médico, 1948, p.270.
[2] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Vida mecânica, vida natural. In: Catolicismo. São Paulo, n. 55, jul. 1955, [s. p.].
[3] Id. Revolução e Contra-Revolução. 5. ed. São Paulo: Retornarei, 2002, p.85.
[4] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Notas Autobiográficas. São Paulo: Retornarei, 2010, v.II, p.103.
[5] Ibid. p.107.
[6] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. O partido de Jesus e o do mundo. In: Dr. Plinio. São Paulo: ano XI, n. 118. jan. 2008, p. 12.

Fazer tudo com espírito sobrenatural

Ir. Ariane Heringer Tavares, EP

Quem se dispõe verdadeiramente a seguir os passos de Nosso Senhor Jesus Cristo, não caminha, mas voa nas vias da virtude. E justamente por isso, faz de sua vida um contínuo sacrifício de louvor, desejando antecipar cada vez mais o dia em que o convívio com a Santíssima Trindade será eterno. A vida dos santos nos dá prova que, independentemente da vocação à qual foram chamados, ao longo de sua caminhada neste vale de lágrimas, não sabem senão falar com Deus ou de Deus para todos os que os rodeiam.

Santa Teresinha do Menino Jesus, como mestra de noviças no Carmelo de Lisieux, tinha um profundo zelo pela boa formação de suas subalternas, não perdendo nenhuma ocasião de dar-lhes algum ensinamento por meio de palavras e, principalmente, de exemplos. Certa vez em que a comunidade se ocupava com a lavagem das roupas, tocou o sino que indicava o término das funções e convidava todas à oração. Porém, como ainda faltasse muito por ser feito, a superiora julgou conveniente prolongar os trabalhos por mais algum tempo. Santa Teresinha, então, observando que uma das noviças trabalhava com especial ardor, aproximou-se dela e perguntou: “‘Que estais fazendo?’ ‘Eu lavo’, respondeu ela. ‘Está bem, mas interiormente deveis fazer oração; este tempo é do Bom Deus, não temos o direito de tomá-lo’”. 1

Este fato mostra claramente como uma alma verdadeiramente contemplativa pode, mesmo em meio às atividades mais corriqueiras do dia-a-dia, estar em contínua comunicação com Deus, rendendo-Lhe glória. É o que se passava em grau eminente com a Santíssima Virgem, que ao girar, por exemplo, a maçaneta de uma porta, dava mais glória a Deus do que muitos outros santos no momento de seu martírio.2

Tal vigor de alma não pode ser concebido sem se tomar em consideração a vida sobrenatural. O papel da graça consiste exatamente em iluminar a inteligência, em robustecer a vontade e em temperar a sensibilidade de maneira que se voltem para o bem. De sorte que a alma lucra incomensuravelmente com a vida sobrenatural, que a eleva acima das misérias da natureza decaída, e do próprio nível da natureza humana.3

É o que também se passava inúmeras vezes com outra Santa Teresa, a grande reformadora do Carmelo, que, apesar de suas frequentes viagens e trabalhos relativos à fundação de novos conventos, nutria uma intensa vida interior, que era a alma de todo o seu agir. Um dia, preparava ela deliciosas e frescas panquecas que seriam servidas no almoço do convento. Enquanto as fritava, seus pensamentos se elevaram a tão alto patamar que, de repente, viu-se objeto de um êxtase que a deixou transfigurada e extremamente luminosa. O mais interessante foi que, mesmo durante uma tão intensa comunicação sobrenatural, nenhuma panqueca se queimou. Pelo contrário, acabaram ficando ainda mais perfeitas e suculentas. Esse é um “belo símbolo do equilíbrio entre a contemplação e a ação. Quem deseja fazer boas ‘panquecas’ em matéria de apostolado, reze fervorosamente; se orar, o apostolado dará bons frutos; sem oração, os frutos serão menores ou nulos”. 4

Há, porém, da parte de alguns, uma desculpa frequentemente utilizada para deixar de lado o recolhimento: a famosa falta de tempo ou o excesso de ocupações, que preenchem os horizontes do homem, sobretudo na sociedade contemporânea.

Conta-se que Dom Chautard,5 um ilustre monge trapista, autor de “A Alma de todo apostolado”, certa vez foi abordado pelo primeiro ministro da França, Benjamin Clemenceau,6 que o indagou a respeito de como conseguia encontrar tempo para fazer tanta coisa. O religioso, com muita simplicidade, respondeu: “Acrescente às minhas ocupações diárias a celebração da Missa, a leitura do breviário, outras tantas práticas de vida de piedade, e então sobra tempo para as demais atividades”.7 A resposta impressionou profundamente o primeiro ministro, que não imaginava que o fato de acrescentar atos de piedade aos afazeres diários poderia fazer sobrar mais tempo para estes.

É, portanto, um “erro funesto pensar que o espírito prático é o oposto do contemplativo, gerando a falsa ideia de que a piedade de uma pessoa realizadora e dinâmica deve diminuir na proporção de suas obras, e que o tempo por ela dedicado à oração prejudica seus empreendimentos”.8

1 SANTA TERESA DE LISIEUX. Conselhos e lembranças. 4. ed. Trad. Carmelitas Descalças do Carmelo do Imaculado Coração de Maria e Santa Teresinha. São Paulo: Paulus, 1984, p. 71.
2 Cf. SÃO LUÍS MARIA GRIGNON DE MONTFORT . traité de la vraie dévotion à la Sainte Vierge, n. 222. In: Œuvres Complètes. Paris: Du Seil, 1996, p. 638.
3 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Revolução e Contra-Revolução.5.ed.São Paulo: Retornarei, 2002 p.131.
4 Id. Santa Teresa: alma de rara grandeza. In: Dr. Plinio. São Paulo: ano IX, n. 103, out. 2006, p. 29.
5 Jean-Baptiste Chautard (*1858 – †1935), cisterciense trapista, abade do mosteiro de Sept-Fons (França).
6 Jorge Benjamin Eugênio Clemenceau. Político, escritor e médico francês. (*1841 – †1911).
7 CHAUTARD, Jean-Baptiste apud CORRÊA DE OLIVEIRA. Santa Teresa: alma de rara grandeza. Op.cit. p. 28.
8 CORRÊA DE OLIVEIRA. Santa Teresa: alma de rara grandeza .5.ed.São Paulo: Retornarei, 2002 p. 28.

Um altíssimo chamado… para todos!

Bruna Almeida Piva

No calendário litúrgico, o mês de novembro se inicia com a Solenidade de Todos os Santos, instituída no século IX, a fim de louvar e festejar a multidão dos justos: “aqueles que habitam a Jerusalém Celestial, canonizados ou não, bem como os vivos que se encontram na graça de Deus e conservam sua amizade”.1

Porém, para que servem aos santos nossos elogios? Que lhes importam as honras terrenas, enquanto o próprio Deus os glorifica? 2 De fato, nossos louvores não são necessários a eles, mas o são a nós mesmos, pois intercedem por nós ao Pai, e sua lembrança nos estimula e incita a “gozarmos de sua tão amável companhia e de merecermos ser concidadãos e comensais dos espíritos bem-aventurados, de unir-nos ao grupo dos patriarcas, às fileiras dos profetas, ao senado dos apóstolos, ao numeroso exército dos mártires, ao grêmio dos confessores, aos coros das virgens, de associar-nos, enfim, à comunhão de todos os santos e com todos nos alegrarmos”.3 É, portanto, uma festa que nos convida à santidade.

Em nossa busca pela felicidade e realização, não podemos ter ambição mais bela e mais nobre do que a de ser santos. E muito enganado estaria quem pensasse ser esse chamado feito somente a uma minoria de almas seletas, que um dia são elevadas à glória dos altares. Com o auxilio da Graça, todos somos feitos para essa imensa, criteriosa, sábia, mas ousada aventura, na qual ordenamos nossa alma para Deus, a purificamos e embelezamos, dispondo-a à bem-aventurança eterna, à corte celestial onde um assento nos está reservado.4

Diante de tão alto chamado, quais são as nossas disposições de alma? Estamos dispostos a abandonar o pecado e abraçar as vias da virtude rumo à santidade? Ou será que, diante da assembleia dos justos que nos deseja e aguarda, somos indiferentes e nos esquivamos? Se temos boas disposições, agradeçamos a Deus que no-las concedeu e peçamos perseverança em nossos bons propósitos; se nos sentimos fracos e débeis ante tão grande batalha, roguemos aos santos do Céu que nos concedam sua força e coragem, proteção e auxílio.

Entretanto, seja qual for nossa disposição ou vocação, o caminho é o mesmo: o amor. “Amai a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo”, recomendava insistentemente Nosso Senhor Jesus Cristo em suas pregações. E também São João da Cruz ensinava: “No entardecer desta vida, sereis julgados segundo o amor”.5 O amor nos faz grandes aos olhos de Deus, e somente por amor somos capazes de abandonar nossos vícios e realizar os sacrifícios, grandes ou pequenos, que a santidade exige.

Que, nesta Festa de todos os Santos, a Santíssima Virgem e todos os bem-aventurados nos alcancem de Deus o amor mais puro e ardente que a natureza humana possa ter em relação a Ele, e, consequentemente, a santidade plena, pois “é na esperança de podermos viver, de batalhar pela nossa santificação e de morrer na paz de Deus, confiantes em Nossa Senhora, agradecendo a Ela porque nos obteve graças para nos tornarmos outros heróis na Fé e príncipes do Céu, que devemos atravessar nossos dias nesta terra de exílio”.6

1 EDITORIAL. Todos são chamados à santidade. Dr. Plinio. São Paulo, ano 7, n. 80, nov. 2004, p. 4.
2 Cf. Bernardo, Santo. Dos Sermões. In: LITURGIA das Horas: Segundo o rito romano. Tradução para o Brasil da segunda edição típica. São Paulo: Ave-Maria, 2000, v. 4, p. 1421.
3 Loc. cit.
4 Cf. CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Santidade, o ideal de todo homem. Dr. Plinio, São Paulo, ano 6, n. 44, nov. 2001, p. 8-10.
5 JOÃO DA CRUZ, Santo apud CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Op. cit., p. 10.
6 Loc. cit.

Deus Se oculta aos olhos de quem O ama? (cont)

Continuação do post anterior

Bruna Corrêa Salgado

A aridez espiritual, longe de ser sempre “sinal de falta de virtude, é, pelo contrário, em muitas ocasiões, efeito do amor especialíssimo que Deus tem àquelas almas que deseja elevar a grande perfeição, às quais quer pôr à prova e purificar dessa maneira”.1

Esta noite escura é um influxo de Deus na alma, que a purifica de suas ignorâncias e imperfeições habituais, tanto naturais como espirituais. […] Nela vai Deus em segredo ensinando a alma e instruindo-a na perfeição do amor, sem que a mesma alma nada faça, nem entenda como é esta contemplação infusa.2

É neste período que “mais facilmente nos purificamos das desordens de nossos afetos”3.

Podemos encontrar quatro razões pelas quais Deus prova a alma através das securas e aridezes: a primeira delas é para “nos desprender de tudo quanto é criado, até mesmo da doçura que se encontra na piedade, para aprendermos a amar a Deus só, e por Si mesmo”4. A segunda, para nos humilhar, mostrando-nos que não merecemos as consolações, que “são favores essencialmente gratuitos”.5 Outra razão é que com elas nos purificamos mais, “tanto das faltas passadas como das afeições presentes e de qualquer inclinação egoísta”.6 Por último, elas nos robustecem a virtude.7

Sendo assim, devemos confiar que “se Deus manda as provações, é com um fim determinado. Desde que o fim seja atingido, a provação perde a sua razão de ser”.8

Entretanto, essas são as horas em que Nosso Senhor está mais perto de nós, e com sua infinita bondade de Pai, nos diz:

Meu filho, chegou o momento da aridez e da dor, para provar se é capaz de ser fiel agora como o foi na alegria. Tudo lhe parece enfadonho, você tem a tentação de pensar continuamente noutra coisa, está fascinado por algo que não presta, e não lhe sai da cabeça. Estou lhe deixando longe do prazer que teve, porque desejo que você se dê inteiro. […] Mas tenha a convicção de que, depois da hora mais negra, semelhante à de uma morte, virá a ressurreição das alegrias de outrora, mais esplêndidas e maiores do que antes.9

Cornélio a Lápide, recordando um pensamento de São João Crisóstomo, afirma que “Deus costuma permitir que santos autores de grandes gestos heroicos sejam sujeitos a temores e tentações a fim de conservá-los na humildade e os obrigar a recorrer ao seu auxílio”.10 Esses períodos de provação fazem com que o homem se desapegue do que não é Deus, purificam a alma pelo sofrimento, movem-no a desejar o Céu e a perfeição que é o caminho para lá, contanto que ele tire proveito dessas provas para se voltar para Deus.11

Encontramos nas Sagradas Escrituras várias passagens nas quais Deus manda as provações a fim de nos emendarmos, pois Ele “jamais quer a morte do pecador, mas sim que se converta e viva” (Ez 33, 11). Assim, lemos no livro dos Provérbios: “Não desprezes, meu filho, as lições de teu Deus; nem te irrites quando Ele te repreender, pois o Senhor castiga aquele a quem ama, como a um filho querido” (Pr 3, 11-12). E São Paulo diz: “É para vossa emenda que sofreis a provação” (Hb 12, 7-10).

Quando o Menino Jesus desapareceu, Nossa Senhora e São José começaram logo a procurá-Lo e O encontraram-No templo. E nós, o que devemos fazer quando “percebemos que estamos sem graças sensíveis, sem aquilo que nos dava ânimo e sustentação para praticar a virtude?” Devemos “ir atrás do Menino Jesus, isto é, pôr-se à procura da graça sensível, quando ela se retirar […] [e] procurar Jesus no Santíssimo Sacramento”.12 Com efeito, “é nesses momentos preciosos que o Pai nos fala e nos ensina a ir ao encontro de seu Filho”.13

“Onde houver um tabernáculo, ali estará a origem de toda alegria, a solução de todos os males, a luz para qualquer caminho obscuro. Quem se aproxima do Santíssimo Sacramento e, mais ainda, quem comunga, recebe uma força espiritual superior às energias humanas”. 14

Quanto tempo passa Nosso Senhor sozinho no tabernáculo, à espera de alguém que se aproxime para rezar? Quantas vezes Ele não teria uma palavra a me dizer pelo simples fato de eu procurá-Lo nas horas das maiores angústias? E eu, entretanto, nem sequer pensei em buscá-Lo. Não fazemos ideia de que “ao receber nossa visita, Jesus estremece de alegria no Santíssimo Sacramento, ainda mesmo quando o seu visitante é um pecador, que Ele procura atrair a Si”. 15 Quando passamos diante do Santíssimo Sacramento, devemos pensar: “Lá está Ele preso. Ele sujeitou-Se a esta prisão porque quis, para ter a delícia de que eu fizesse diante d’Ele uma genuflexão dizendo, por exemplo, ‘Coração Eucarístico de Jesus, tende piedade de nós’”. 16

Que consolação [para] nós, com efeito, pensar que [Maria e José] compreendem experimentalmente os nossos sofrimentos e que cordialmente deles comparticipam! Que incentivo, sabermos que Deus não poupa os que mais ama e que muitas vezes a prova está longe de ser uma punição! 17

Em uma revelação à Santa Margarida Maria, Nosso Senhor, mostrando-lhe seu Coração ferido, disse-lhe: “Tenho uma sede ardente de ser amado pelos homens no Santíssimo Sacramento, e não encontro quase ninguém que se esforce, segundo o meu desejo, para Me desalterar, usando para comigo de alguma paga!”.18 O Divino Redentor, do fundo do tabernáculo, “clama a todos aqueles que sofrem, que estão necessitados, desgraçados: ‘Vinde a mim e Eu vos aliviarei’. […] É sempre o bom Pastor a amar suas ovelhas, a nutri-las com sua Carne e com seu Sangue”. 19

Como Bom Mestre, Ele aponta o caminho do Céu, sendo “sempre o Salvador em estado de imolação, oferecendo-Se sem cessar ao Pai, como o fez na Cruz, pela salvação dos homens”.20

E o que acontece ao término da prova?

Quando uma alma piedosa sai, por fim, duma rude provação e encontra diante dela […] Aquele a quem chorou como perdido, a sua surpresa manifesta-se por estas mesmas exclamações: Por que me tínheis Vós abandonado? Por que me deixastes na angústia de tantos receios, no horror de tentações aviltantes? Onde estáveis então? […]: “Estava no meio do teu coração”.21

Ou seja, lá estava Nosso Senhor, escondido em nosso interior, sustentando-nos durante a provação.

Concluímos com um comentário do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira a respeito da aridez:

[Nossa Senhora] nos promete tanta coisa! Ela não está no direito de pôr nossa alma a uma prova? Tem sentido que Ela não exponha nossa alma a uma prova? Essa prova tem que vir, e nós devemos desejá-la. Ela é dura, mas nós queremos mostrar a nossa gratidão. E não é só questão de mostrar, é exercitar, praticar. Nós queremos ser gratos […]. Então, às vezes […] as delícias se apagam. Por detrás das nuvens Nossa Senhora acompanha nossa alma. Ela está dentro de nós pela sua ação e pela sua graça; Ela está dentro de nós e nos ajuda. Nós também não percebemos. E nós pensamos que estamos andando sozinhos, que estamos abandonados. Perguntamos: haverá, neste abandono em que estou e que eu não sinto mais o paraíso de outrora, haverá para isso alguma culpa de minha parte? Oh Deus, se há, Deus foi tão bom para comigo que assim mesmo eu confiarei n’Ele! Há uma frase da Escritura que me agrada enormemente: Etiam si ambulavero in umbra mortis, non timebo mala (Sl 23, 4). Ainda que eu caminhe nas vias sombrias da morte, eu não temerei os males porque Deus é meu Pai e Ele me perdoará porque Nossa Senhora é minha Mãe e rezará por mim! É justo que Ele me prove. Quem sabe se é uma prova! E quem sabe se eu sendo fiel agora, eu faço com que os Anjos cantem no Céu! Eu me sinto só, abandonado, mas os Anjos cantam no Céu! Há coisas assim na nossa vida espiritual: nós vamos para frente, etc., e começa o demônio a tentar, começa a se empalidecer o horizonte de delícias no qual nós caminhávamos […] É o Pai […] que encheu de bens, mas agora quer uma prova de gratidão. E no caso concreto quer que o filho diga: “Não; o que vale não é o que eu, miserável, estou vendo nesse momento de provação. O que é verdade não é o que aparece nos meus olhos turbados por uma prova interior muito grande. É verdade o que ensina a Santa Igreja Católica Apostólica Romana, à qual eu quero ser fiel nas mais terríveis aridezes, à qual eu quero ser fiel nas mais terríveis provações. […] Seja como for, caminharei no escuro e nas trevas, poderei sentir-me abandonado por todos e até por Deus, mas Deus não me abandonará e não morrerá em minha alma a convicção de que a Mãe d’Ele reza por mim no Céu, que Ela pode tudo e que Ela consegue todos os perdões!22

1 GONZÁLEZ Y GONZÁLEZ. Op. cit. p. 216.
2 SÃO JOÃO DA CRUZ. Noite escura. L. II, c. 5, n. 1. In: Obras Completas. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 2002, p. 693-694.
3 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. A borrasca: um castigo ou uma graça? In: O inédito sobre os Evangelhos. Comentários aos Evangelhos dominicais do Tempo Comum. Ano B. Città del Vaticano – São Paulo: LEV, Lumen Sapientiae, 2014, v. IV, p. 186.
4 TANQUEREY. Op. cit. § 926, p. 441.
5 Loc. cit.
6 Loc. cit.
7 Cf. Ibid. p. 442.
8 BEAUDENOM. Op. cit. p. 388.
9 CORRÊA DE OLIVEIRA. O Sibarita, o herói e o Mártir do Gólgota. Op. cit. p. 17.
10 CORNÉLIO A LÁPIDE, apud CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Comentário à Liturgia do XIX Domingo do Tempo Comum. São Paulo, 10 ago. 2003. (Arquivo IFTE).
As matérias extraídas de exposições verbais – designadas neste trabalho, segundo sua índole, como conferências, palestras, conversas, homilias ou comentário à Liturgia – foram adaptadas para a linguagem escrita.
11 Cf. TANQUEREY. Op. cit. § 428, p. 210.
12 CLÁ DIAS. Como encontrar Jesus na aridez? Op. cit. p. 141.
13 Id. Eu sou o Pão vivo descido do Céu. In: O inédito sobre os Evangelhos. Op. cit. v. IV, p. 290.
14 WERNER, Carmela. Confiança, a regra de ouro. In: Arautos do Evangelho. São Paulo: Ano IX, n. 99, mar. 2010, p. 33.
15 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Intimidade com Jesus na Eucaristia. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano VI, n. 62, maio 2003, p. 25.
16 Loc. cit.
17 BEAUDENOM. Op. cit. p. 389.
18 SÃO PEDRO JULIÃO EYMARD. A Divina Eucaristia: Escritos e sermões. São Paulo: Loyola, 2002, v. V, p. 119.
19 Ibid. p. 120-121.
20 Ibid. p. 121.
21 BEAUDENOM. Meditação LXXVII. Jesus perdido e achado. In: Meditações afectivas e práticas sobre o Evangelho. Op. cit. p. 394.
22 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Conferência. São Paulo, 17 ago. 1985. (Arquivo IFTE).

Deus Se oculta aos olhos de quem O ama?

Bruna Corrêa Salgado

Poucos são os episódios que encontramos narrados nos Evangelhos a respeito da infância de Jesus, da vida oculta e submissa que levava junto a São José e Nossa Senhora em Nazaré. São Lucas conta o único fato que rompe o silêncio a respeito de Nosso Senhor até então: a viagem da Sagrada Família a Jerusalém pela Páscoa.

No caminho de volta, “São José e a Santíssima Virgem, não vendo o Menino a seu lado, creram, cada um por sua parte, que Ele ia em companhia do outro”, 1 julgando assim que estava na caravana. Porém, ao chegar o fim do dia, quando pararam “para passar a noite, os membros de cada família reuniram-se para compartilharem de um acampamento comum e foi só então que se pôde dar pela ausência de Jesus”.2 Aflitos, Maria e José começaram a procurá-Lo entre os parentes e conhecidos. Não O tendo encontrado, voltaram para Jerusalém à sua procura (cf. Lc 2, 44-45). Encontraram o Menino sentado no meio dos mestres, escutando e fazendo perguntas. Todos os que O ouviam estavam “maravilhados com sua inteligência e respostas”.3 “Ao vê-Lo, seus pais ficaram muito admirados e sua Mãe Lhe disse: ‘Meu filho, por que agiste assim conosco?” “Jesus respondeu: ‘Por que me procuráveis? Não sabeis que devo estar na casa de meu Pai?’” (Lc 2, 48-49).

Depois de percorrermos tão magnífica passagem do Evangelho, surge imediatamente a pergunta: por que o Divino Menino resolveu abandonar seus pais sem os avisar, deixando-os na ansiedade de reencontrá-Lo, pensando talvez que O tivessem perdido para sempre? Este fato não terá certa ligação com o que ocorre com muitas almas?

Para melhor compreendermos como esse episódio ocorrido com Nossa Senhora e São José também se apresenta na vida espiritual dos fiéis, consideremos as belíssimas pinturas de um grande artista do século XVII, Claude Lorrain cuja especialidade é pintar muros velhos, leprosos, escalavrados […] sobre os quais, porém, bate um sol magnífico”.4 E esses cenários parecem se transformar em imensas e suntuosas cortes.5

Tal como o Sol, age a graça divina na alma.

Ela é, digamos, a tinta celestial que Nosso Senhor utiliza, como se fosse um infinito Claude Lorrain da criação. […] Visto à luz da graça concedida por Deus, tudo o que é árido e difícil se torna belo. A perda desse momento de ver as coisas pode ocorrer por culpa nossa, porque cedemos aos nossos egoísmos, caprichos e manias. Ou por decisão de Deus que, nos seus insondáveis desígnios, deseja nos provar: depois de nos cumular com seus dons, de nos favorecer com maravilhosas situações à la pintura de Claude Lorrain, permite que tudo se apague de repente.6

Portanto, “há momentos de nossa existência nos quais temos a sensação de ter ‘perdido o Menino Jesus’, isto é, com ou sem culpa nossa, a consolação espiritual desaparece e nos sentimos desamparados”.7 Bem podemos compará-los aos dias que ora se apresentam claros e radiantes, ora nublados e tenebrosos: não vemos o Sol, mas ele continua brilhando atrás das nuvens.

Muitas vezes essas almas se julgam verdadeiramente abandonadas, mas não é propriamente o abandono, é a provação, qualquer que seja, a aridez, a frieza… Tudo é escuro e às vezes ela mesma se julga coberta de manchas, digna dos piores castigos. 8 “A variedade destes pensamentos é infinita, mas todos conduzem a uma conclusão semelhante: perdi Jesus, abandonou-me, não O tornarei a encontrar”.9

Afirma São Francisco de Sales:

Acontece algumas vezes que não encontramos consolação alguma nos exercícios do amor divino, de forma que, como cantores surdos não ouvimos a própria voz, nem podemos gozar da suavidade do nosso canto; mas, além disso, estamos cheios de mil temores, preocupados com mil ninharias com que o inimigo cerca o nosso coração, sugerindo-nos que talvez não sejamos agradáveis ao nosso mestre e que nosso amor é inútil ou ainda que é falso e vão, por não nos produzir consolação.10

Desse modo, “o demônio consegue persuadir uma pessoa de que ela pecou, embora se conserve inocente. Sobrevém-lhe então a tristeza, a sensação de abandono e miséria imaginando ter ofendido a Deus”.11 O homem fica tão horrorizado com a tentação, com a perda dessa sensibilidade que, em certas horas, ele próprio não sabe se é ou não amado por Deus.12

Ao tratar sobre as oscilações tão comuns à alma humana, González ressalta:

Umas vezes sente-se cheia de fervor e de consolações sensíveis na oração e nas demais obras do serviço divino, e outras, pelo contrário, vê-se mergulhada na maior insensibilidade e aridez de espírito, não encontrando prazer, nem gosto, senão tédio, fastio e desalento em todos os seus exercícios.13

“Deus permite essa situação. Ele retira de nós os auxílios sobrenaturais pelos quais a vida parece tão alegre, e nos vemos abandonados, tristes e sem força”.14 Eis aqui a grande aflição do coração humano que verdadeiramente ama a Deus e deseja ser por Ele amado! A alma se vê privada de consolações e gostos, cai no desalento, pensando que não há valor algum em tudo aquilo que faz; que perde tempo inutilmente, que não tem bom espírito nem verdadeira virtude, que não ama nem agrada a Deus, e que Deus a abandonou e afastou-a de Si.15

São João da Cruz mostra-nos três sinais pelos quais discernimos os períodos de aridez. O primeiro deles consiste em que não se tem mais gosto nem consolação nas coisas de Deus, nem tampouco nas coisas criadas. Disto decorre uma certa inquietação, a qual consiste no segundo sinal: a pessoa pensa não estar servindo a Deus, mas sim, voltando atrás no seu serviço. Isto acontece por causa do desgosto que se sente nas coisas espirituais. E, como terceiro sinal, a oração torna-se impossível, e, em lugar de pensar em Deus, a pessoa deseja a Deus,16 mas Ele parece esconder-Se.

Até mesmo grandes santos passaram por esses períodos tenebrosos! Assim comenta Tomás Kempis:

Nunca encontrei homem tão religioso e devoto, que não sofresse, às vezes, a subtração da graça e sentisse o arrefecimento do fervor. Nenhum santo foi tão altamente arrebatado e esclarecido que, antes ou depois, não fosse tentado. Porque não é digno da alta contemplação de Deus quem por Deus não sofreu alguma tribulação.17

Por exemplo, Santa Teresa de Jesus afirma “ter experimentado muitas vezes esse estado, mesmo naquela época em que o Senhor já havia elevado o seu espírito aos graus mais elevados da oração”.18 O mesmo aconteceu com Santa Joana de Chantal no fim de sua existência: “foi tal a intensidade, tal a amargura da sua aridez e desolação interior, que a sua vida não era senão um martírio ininterrupto e uma agonia continuada, mais penosa que a própria morte”.19

E o que não dizer da grande Doutora da Igreja, Santa Teresinha do Menino Jesus?

[…] era um braseiro de amor a Deus, mas sua alma passou por longos períodos de aridez. Em certas ocasiões essas penas espirituais a afligiam até mesmo durante o cântico do Ofício. Entretanto, nas mais diversas provações, ela se mantinha serena, e já no fim de sua vida, devorada por tentações contra a fé, ela resistia de modo admirável e completo.20

A aridez espiritual, longe de ser sempre “sinal de falta de virtude, é, pelo contrário, em muitas ocasiões, efeito do amor especialíssimo que Deus tem àquelas almas que deseja elevar a grande perfeição, às quais quer pôr à prova e purificar dessa maneira”.21

Continua no próximo post

1 SÃO BEDA, apud SÃO TOMÁS DE AQUINO. Catena Aurea. Exposición del Evangelio de San Lucas. C. II, v. 42-50: “San José y la Santísima Virgen, no viendo al Niño a su lado, creyeron cada uno por su parte que iría en compañía del otro” (Tradução da autora).
2 FILLION. Jesus Cristo segundo os Evangelhos. Op. cit. p. 87.
3 CLÁ DIAS. Op. cit. p. 136.
4 Ibid. p. 33.
5 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Feerias de sol, belezas de Deus. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano III, n. 22, jan. 2000, p. 32-33.
6 Ibid. p. 34.
7 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Como encontrar Jesus na aridez? In: O inédito sobre os Evangelhos. Comentários aos Evangelhos dominicais. Advento, Natal, Quaresma e Páscoa. Solenidades do Senhor que ocorrem no Tempo Comum. Ano C. Città del Vaticano-São Paulo: LEV; Lumen Sapientiae, 2012, v. V, p. 140-141.
8 Cf. BEAUDENOM, Léopold. Meditação LXXVI. Jesus perdido e achado. In: Meditações afectivas e práticas sobre o Evangelho. Porto: Educação Nacional, 1936, t. I, p. 362-363.
9 Ibid. p. 369.
10 SÃO FRANCISCO DE SALES. Nas provas da vida interior, nas enfermidades da alma e do corpo, etc. In: HUGUET, S. M. (Org.). Pensamentos consoladores de São Francisco de Sales. 2. ed. São Paulo: Salesiana, 1926, p. 131-132.
11 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. “Senhor, atende-me na tua justiça!”. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano IX, n. 97, abr. 2006, p. 13.
12 Cf. Loc. cit.
13 GONZÁLEZ Y GONZÁLEZ, Emilio. A perfeição cristã: segundo o espírito de São Francisco de Sales. Porto: Figueirinhas. [s.d.], p. 215.
14 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. O Sibarita, o herói e o Mártir do Gólgota. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano VI, n. 68, nov. 2003, p. 17.
15 Cf. GONZÁLEZ Y GONZÁLEZ. Op. cit. p. 216.
16 Cf. STINISSEN, Wilfried. A noite escura segundo São João da Cruz. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2001, p. 13-14.
17 KEMPIS, Tomás. Imitação de Cristo. 3 ed. Petrópolis: Vozes, 2003, p. 113.
18 GONZÁLEZ Y GONZÁLEZ. Op. cit. p. 217.
19 Ibid. p. 217.

Nossa Senhora Aparecida

Letícia Costa
1º ano de Ciências Religiosas

Aparecida… Nome que traz à mente de todo brasileiro a doce lembrança da Santíssima Virgem. Lembrança da demonstração de amor e predileção dEla por esta terra de Santa Cruz.

Há 298 anos, três pescadores lançavam suas redes no Rio Paraíba, com a esperança de apanharem peixes e, assim, atender ao pedido feito pela Câmara Municipal. Estupefatos, retiraram apenas um pequeno objeto, do qual notaram faltar uma parte. Novamente lançando as redes, recolheram das águas a parte que faltava e perceberam tratar-se de uma imagem da Mãe de Deus.

Logo após a milagrosa pesca, a devoção espalhou-se com impressionante rapidez. Incontáveis milagres sucederam desde então, dentre os quais podemos citar a história de um homem sem fé e com ódio da Santa Religião que partiu de Cuiabá (MT) com a intenção de entrar na igreja montado em seu cavalo e derrubar a Virgem do altar que ocupava. Qual não foi a surpresa do malfeitor quando, ao chegar às escadarias do local, viu-se impedido de avançar, pois as patas do cavalo ficaram presas nas pedras!

Entretanto, no ano de 1978, a pequena imagem foi alvo de uma brutal profanação por um membro da religião protestante. Tomado de ódio, o rapaz esperou que a atenção de todos os que estavam na Antiga Basílica se voltasse à Santa Missa, que estava sendo celebrada naquele momento, para só então atacar o nicho onde se conservava a imagem e agarrá-la. Na tentativa de fugir em posse dela, foi derrubado por guardas da Basílica. Deu-se então o triste incidente: caindo ao chão, a imagem partiu-se em pedaços.

Após um árduo trabalho de restauração, a imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida foi novamente levada à Basílica para veneração dos fiéis.

Justamente esse título “da Conceição”, tão esquecido pela maioria das pessoas, é que nos dá um aspecto importante da devoção. O professor Plinio Corrêa de Oliveira, grande devoto da Santíssima Virgem, em uma conferência de 12 de outubro de 1970, afirma: “exatamente a partir do aparecimento dessa imagem, um século inteiro antes da definição dogmática, foi o Brasil colocado sob o patrocínio da Imaculada Conceição. Isso indica um chamado especial da Mãe de Deus para nossa Pátria e é motivo de imenso júbilo para todos os brasileiros devotos da Santíssima Virgem”.

Vê-se nisso que Ela quis, não só mostrar sua presença junto a nós, mas também indicar que tem desígnios especiais para o país. Além disso, é um sinal de como devemos ser devotos mais fervorosos de tão boa Mãe, que quis que o Brasil fosse consagrado a um de seus maiores atributos. Reflitamos, pois, neste 12 de outubro, como temos correspondido à tão pródiga demonstração de afeto dAquela que é a mais perfeita das criaturas, e peçamos a graça de amá-La sempre mais.

É possível sentir Jesus na Comunhão?

Bruna Almeida Piva

Eucaristia

Nosso Senhor Jesus Cristo está verdadeiramente presente no Santíssimo Sacramento. Porém, não O está sensivelmente, ou seja, não O podemos ouvir, ver ou tocar, pois está oculto sob as sagradas espécies. Deus assim quis para que, pelos méritos da fé, obtivéssemos a salvação eterna.

Imaginemos se isto não fosse assim, e se Nosso Senhor Se fizesse perceptível aos nossos sentidos; se nós pudéssemos ver, por exemplo, “um pequeno movimento de sua mão divina, e observar seu pulso, considerando que ali pulsa o Sagrado Coração de Jesus, uma vez que a pulsação do Coração se reflete nas veias”[1]; ou se pudéssemos ouvir sua santa voz, grave, séria e muito suave ao mesmo tempo, nos dizendo palavras de consolação, ou mesmo de correção. Que respeito, que júbilo, que alegria não teríamos em relação a esse sublime Sacramento!

Ora, Nosso Senhor está na Hóstia; nós não O vemos, mas cremos. Ao chegar a hora da comunhão na Santa Missa quantas vezes pensamos: “Agora vou comungar, e Jesus vai estar realmente presente em mim. Será que Ele não vai me dizer nada?” Sim! No interior de nossas almas, Ele dirá: “Meu filho, quando dois estão juntos, um sente o outro. Será que quando Eu estou em ti não sentes nada? Ouve a linguagem silenciosa de minha presença, que não te fala aos ouvidos. Presta atenção em Mim! Eu estou em ti, a graça te fala. Tu não sentes nada?”[2]

Já dizia um sábio sacerdote do século XIX: “Voz de Cristo, voz misteriosa da graça que ressoais no silêncio dos corações, vós murmurais no fundo das nossas consciências palavras de doçura e de paz”.[3] É um silêncio que diz muito mais que mil palavras; “é algo que comunica luz, amor, força. E permanece em nossa alma, embora para muitos pareça ser passageiro”.[4] Apesar de não O podermos perceber através dos sentidos, Ele não deixa de nos falar à alma, e de nos enriquecer com Sua presença. A cada comunhão que, pelos rogos de Maria Santíssima, recebemos, a inteligência se torna mais perspicaz para os assuntos da fé, o amor a Deus e ao sobrenatural cresce, e nossas forças para vencer as tentações e fazer sacrifícios, assim como a vontade de lutar contra nossos pecados e más inclinações, se multiplicam por si mesmas.[5]

Nesta vida, pode nos ser uma provação o fato de não podermos ver a Nosso Senhor na Eucaristia. Porém, se ficarmos firmes na fé, e formos ardorosos devotos desse sublime Sacramento, na vida futura isso nos será motivo de grande alegria, como diz São Pedro: “Deste modo, a vossa fé será provada como sendo verdadeira,mais preciosa que o ouro perecível, que é provado no fogo, e alcançará louvor, honra e glória, no dia da manifestação de Jesus Cristo. Sem ter visto o Senhor, vós o amais. Sem o ver ainda, nele acreditais. Isso será para vós fonte de alegria indizível e gloriosa, pois obtereis aquilo em que acreditais: a vossa salvação”. (I Pd 1, 7-9)

Sejamos assíduos frequentadores das Santas Missas, fervorosos “ouvintes” das misteriosas vozes divinas que clamam em nós, seja em meio às consolações ou durante as provações, e, no Céu, poderemos, enfim, ver, sentir e até mesmo abraçar a Nosso Senhor Jesus Cristo durante toda a Eternidade.

________________________________________
[1] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. A Eucaristia, eixo da piedade católica. Dr. Plinio, São Paulo, n. 156, mar. 2011, p. 30.
[2] Cf. Loc. cit.
[3] SAINT-LAURENT, Thomas de. O livro da Confiança. São Paulo: Teixeira, [s. d.], p. 9.
[4] CORRÊA DE OLIVEIRA. Op. cit., p. 30.
[5] Cf. Loc. cit.

Que venha o Reino de Cristo e o Reino de Maria!

Caroline Fugiyama Nunes

Das profundas trevas do pecado, entregue à mercê de sua própria concupiscência e paixões desenfreadas, parecia estar a humanidade regida pelo “príncipe” das trevas, ou seja, o demônio. Após longos séculos de gemidos, à espera de um Libertador, Deus enviou ao mundo seu Filho Primogênito em resgate desta humanidade extraviada de seu único Senhor e Deus.

Analisando o agir de Deus no decorrer da História, pode surgir em nosso espírito a seguinte questão: por que teria Deus permitido que houvesse na obra da criação o pecado? Não teria sido melhor criar um mundo onde este não existisse, e no qual todos fossem, portanto, santíssimos e perfeitos? Teria Deus errado ao criar este mundo?

Quão infeliz e errado estaria quem assim pensasse! Partindo do princípio de que tudo o que Deus faz é perfeito, tendo ele criado um mundo onde houve o pecado, era o que havia de melhor e mais santo.

Nossa_Senhora Joao_cla_diasAfirmam os teólogos que se não tivesse havido o pecado de nossos primeiros pais, o Verbo Eterno não teria tomado nossa mesma carne. E concluem que, embora o pecado tenha sido um mal, significou uma grande vantagem para o homem. Por isso, a Liturgia canta no Sábado Santo: “O felix culpa, quae talem ac tantum meruit habere Redemptorem!” — “Ó culpa tão feliz que há merecido a graça de um tão grande Redentor!”. 1 Quer dizer, sem a culpa original não teríamos a felicidade de possuir o próprio Deus Encarnado como nosso Salvador.

Devemos, então, reconhecer que a Encarnação do Verbo é a o episódio culminante da História da humanidade, que a dividiu em dois: um antes e um depois.

Quiçá, sem a Encarnação e a Redenção não teríamos provas tão palpáveis do extremo e ilimitado amor de Deus por nós. Maior prova de amor do que esta jamais houve e nem haverá. Tal magnífica obra de bondade e misericórdia não teria seu esplendor e não se poria tão em manifesto aos homens, como o foi tendo havido o pecado. E, sobretudo, não teríamos uma Mãe e Advogada agindo em nosso favor ― pecadores que somos ―, como medianeira entre Deus e os homens, Maria Santíssima.

Segundo Garrigou-Lagrange: “a encarnação do Verbo fortifica, assim, grandemente, a nossa fé, nossa esperança, nossa caridade, nos dá o exemplo de todas as virtudes e, sobretudo, é o princípio, na santíssima alma de Jesus, de um ato de amor redentor, que agrada mais a Deus do que todos os pecados podem desagradar-lhe. […]. Verdadeiramente, podemos, com uma profunda gratidão, dizer como São Paulo: “Deus que é rico em misericórdia, pelo grande amor com que nos amou, e estando nós mortos pelos nossos delitos, nos deu vida por Cristo, por cuja graça haveis sido salvos”. 2

Portanto, mais do que uma mera reparação, a Encarnação e a Redenção foram por onde o verdadeiro Reino de Deus foi triunfalmente trazido à face da Terra: “eis que o Reino de Deus está no meio de vós” (Lc 17, 21).

E este Reino se mantém entre nós pela presença de seu Corpo Místico, do qual todos os batizados fazem parte como membros vivos: a Santa Igreja Católica Apostólica Romana. “Ela reluz tudo quanto há n’Ele, quando visto na sua autenticidade […]. Ver a Santa Igreja Católica é ver Nosso Senhor Jesus Cristo” 3. É nela que estão entesourados os benefícios da Redenção; é por sua influência “que nascem todas as condições para uma sociedade virtuosa” 4 fazer cumprir nesta Terra o pedido de todos os cristãos há dois mil anos: “seja feita a vossa vontade, assim da Terra como no Céu” (Mt 6, 10).

Entretanto, se por culpa dos próprios homens que se deixam levar por suas “leis contraditórias” este pedido ainda não se realizou em sua perfeição nesta Terra, o mistério de amor da Redenção nos leva a crer que dia virá em que seus frutos atingirão a plenitude e a graça fará aquilo que a natureza por si mesma não é capaz: “onde abundou o pecado, superabundou a graça” (Rm 5, 20). E se Cristo quis vir ao mundo para trazer a salvação e a graça por meio de Maria Santíssima, é também por Ela que Ele quer reinar nos corações dos homens.

Adveniat Regnum Christi, adveniat Regnum Mariae!

1 LITURGIA DA RESSURREIÇÃO DO SENHOR. Vigília Pascal. In: MISSAL ROMANO. Trad. portuguesa da 2a. ed. típica para o Brasil realizada e publicada pela CNBB com acréscimos aprovados pela Sé Apostólica. 9. ed. São Paulo: Paulus, 2004. p. 275.

2 GARRIGOU-LAGRANGE, Réginald. El Salvador y su amor por nosotros. Trad. José Antonio Millán. Madrid: Rialp, 1977. p. 170.

3 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. O Patriarcado e o Sagrado Coração de Jesus: Conferência. São Paulo, 11 jan. 1986. (Arquivo IFTE).

4 Loc. cit.

O segundo Fundador

Irmã Luciana Niday Kawahira, EP

São Francisco e São Boaventura,

São Francisco e São Boaventura,

Ao entardecer do dia, enquanto o Sol deitava seus últimos raios no horizonte, um frade franciscano escrevia no recolhimento de sua cela. Habituado tanto a travar disputas na Universidade quanto a apresentar-se voluntariamente para lavar pratos e panelas, ou a partir cheio de zelo para pregar, naquele momento encontrava-se ele escrevendo a vida de seu Fundador, a pedido de seus irmãos de vocação.

Vindo de longe, ali chegou um dominicano — cognominado o Doutor Angélico — que resolvera visitar seu amigo. Entretanto, deteve-se junto à porta, sem coragem de interrompê-lo. Com uma admiração própria às almas virtuosas, sussurrou ao ouvido de quem o acompanhava: “Retiremo-nos e deixemos um Santo escrever a vida de outro Santo”. 1

Tal foi um dos memoráveis encontros entre estas duas grandes figuras do século XIII, que brilharam não só por sua ciência teológica, mas, sobretudo, pela grandeza de alma: São Tomás de Aquino e São Boaventura, de cujas virtudes heroicas, forjadas na escola de São Francisco de Assis, contemplaremos alguns traços a seguir.

Entre o Céu e a Terra

Por volta do ano de 1221, o casal João da Fidanza e Maria Ritelli foi obsequiado pela Providência com um filho. Introduziram-no logo no seio da Igreja Católica, pelas águas regeneradoras do Batismo, e deram-lhe o mesmo nome do pai. Vivia em Bagnoregio, antiga cidade dos Estados Pontifícios, localizada no alto de uma colina. Continue lendo

O caminho de dor anuncia a vitória

Ir. Rafela Grossi, EP
1º Ano de Ciências Religiosas

S_Joao_Batista

Muitos já devem ter ouvido falar de cristãos que morreram por não quererem negar a Religião Católica. Não será que cometeram uma imprudência com tal atitude? Devemos analisar, antes de tudo, o seguinte: qual era o objetivo de suas entregas? Por quem arriscavam a vida? O que os levava a superar o próprio instinto de conservação?

Voltemos a atenção sobre um comentário de Santa Teresinha do Menino Jesus: “O amor nutre-se de sacrifícios. Quanto mais a alma se nega às exigências da natureza, tanto mais robusta e abnegada se torna sua ternura”. Sendo assim, podemos considerar o sacrifício do martírio como uma prova sublime de amor e de entrega a Nosso Senhor Jesus Cristo. Pois Ele próprio disse: “Ninguém tem um maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos (Jo 15, 13). Quando a alma está arrebatada de fervor pela Igreja Católica, nada a impede de derramar seu sangue, até a última gota, para que o Nome de Jesus seja glorificado. O seu único desejo é lutar em defesa da Igreja e de realizar as obras mais heroicas: percorrer a Terra e implantar em todas as partes a gloriosa Cruz de Cristo; anunciar o Evangelho no mundo inteiro, até nas mais longínquas ilhas; enfim, fazer de sua existência um contínuo holocausto a serviço da Causa Católica, sem importar-se com as opiniões alheias e o perigo de vida a que se expõe por realizar tal ato, porque sabe que depois de ter abraçado e osculado a sua cruz receberá do Divino Mestre a coroa da vitória, reservada àqueles que renunciaram a si mesmos para seguir os passos do seu Bem-Amado.

Com efeito, um exemplo de abnegação e entrega podemos observar na história de São João Batista. Sendo ele chamado a preparar o caminho do Salvador, anunciou ao povo judeu a necessidade de uma conversão sincera e realmente frutuosa. A sua única preocupação era a de cumprir a vocação para a qual fora chamado e levar os corações a se purificarem para receber dignamente o Messias. Ele produzia um choque em muitos, pois era inteiramente reto, simples e eloquente. E bradava em todos os lugares: “Fazei penitência.”

Ora, Herodes, o tetrarca, repreendido por ter tomado Herodíades, mulher de seu irmão Felipe, como esposa e por causa de todos os crimes que praticara, mandou encarcerar o Batista. Já tinha os planos preparados para matá-lo; contudo, temia a multidão que considerava João como profeta.

Na festa do aniversário de Herodes, a filha de Herodíades dançou em sua presença, o que lhe agradou enormemente… então, disse à moça:
– Prometo com juramento dar-te tudo o que me pedires!

Sendo instigada por sua mãe, que também possuía um ódio mortal a João, a moça declarou o seu pedido:
– Dá-me, num prato, a cabeça de João Batista!

O rei, como cumprimento de seu juramento, mandou seus servos até o cárcere para decapitar João. Trouxeram, então, a cabeça e a entregaram à moça que logo após deu à sua mãe.

Analisando este fato, alguém poderia se perguntar: que glória teve João Batista morrendo sozinho num cárcere? Por que entregou sua vida tão facilmente e sem resistências? Isso não é uma loucura? Não seria melhor arrepender-se de tudo e ser libertado?

Ora, nada é mais nobre e mais bonito, nada revela mais integridade de alma do que aceitar sofrer por Nosso Senhor Jesus Cristo. Quando uma alma resolve abraçar a dor, barreiras enormes são abatidas, dificuldades aterrorizantes caem por terra e se abre o caminho para a visão beatífica. De fato, João verteu o seu sangue em união com o Cordeiro de Deus, que logo seria também imolado no Calvário. Como um herói, enfrentou Herodes e morreu mártir, dando um exemplo sublime de grandeza e de serenidade.

Assim sendo, quando Deus nos oferecer cruzes e perplexidades difíceis de enfrentarmos, saibamos seguir os exemplos dos Santos, abraçando a dor com entusiasmo e ufania.

A bem-aventurança de ser rico: uma realidade ou uma utopia?

Ir. Maria Cecília Veas, EP

Conta-se que Turenne, quando tinha apenas seus sete anos, desapareceu de casa. Ao pôr-se a procurá-lo, seu pai encontrou-o reclinado aos pés de um canhão. Querendo assustá-lo, talvez para reparar o susto que dera na família, o pai gritou-lhe:

– Cuidado, inimigo!

E para surpresa do pai, o pequeno, pondo-se de pé, com uma prontidão única, exclamou:

– Onde está, para que eu possa combatê-lo?

De fato, era um homem de valor, ainda que em potência, digno, já revelando o que foi no futuro: o grande general das tropas de Luís XIV.

Realmente, a esta posição de luta, nenhum homem escapa, conforme tão bem expressou Jó, no momento em que bebia a taça amarga do sofrimento: “acaso não é uma luta a vida do homem sobre a terra?” (Jó 7, 1) Portanto, se há luta, há inimigos, e existem em abundância. Mas, não precisamos ir longe para procurá-los. Basta olharmos em nosso interior para logo percebemos as misérias herdadas do pecado original, um verdadeiro campo no qual temos de travar a primeira batalha. E os males olham-nos como a dizer: “Ao combate! Ou tu lutas, ou te tragamos!” E a alma começa o doloroso percurso da vida.

Ora, para as almas verdadeiramente justas, a vida é um combate não apenas para não serem tragadas pelo torvelinho do infortúnio, mas é para tornarem-se agradáveis a Deus na luta contra o mal. Que mal?

Ensina-nos a teologia que os principais inimigos do homem são: o demônio, o mundo e a came. Para fortes inimigos, tal seria que Deus não dispusesse de fortes auxílios.

A vida de perfeição fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo nada mais é que um precioso contributo para se alcançar a salvação. Os votos de castidade, pobreza e obediência são os auxílios por onde o homem subtrai-se da herança do pecado, que são as concupiscências, para se tomar digno herdeiro do Reino dos Céus.

Como é-nos impossível discorrer sobre cada um dos votos que um religioso professa em tão poucas linhas, trataremos apenas da pobreza, enquanto lenitivo das paixões que nos prendem aos bens da Terra, não prescindindo do auxílio da graça.

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riqueza_Certa feita, enquanto Santa Gema apreciava algumas joias postas sobre a escrivaninha, apareceu-lhe por primeira vez seu Anjo da Guarda, luminoso e radiante que lhe dirigiu a palavra: “uma filha de Deus é tão rica que não precisa de joias passageiras”.

Por estas palavras, entendeu que se tratava de meros objetos insignificantes, carregadas de um vazio, conforme diz o Eclesiastes: “vaidade das vaidades, tudo é vaidade”. (Ecl 1, 2) E a partir deste dia, nunca mais se enfeitou.

Que bela lição para nós! Desprender-se daquilo que nos envaidece. Pois bem, esta também é uma forma de praticarmos a virtude da pobreza.

Conforme reza a teologia, a pobreza obriga ao religioso a três coisas fundamentais1:

1º Não possuir nada como próprio.

Sob o ponto de vista tratado, cabe-nos aqui um exame de consciência. Quantas vezes apropriamo-nos dos dons que Deus nos deu para glorificação d’Ele? Com razão exclama o Apóstolo: “o que tens que não tenhas recebido?” Tudo o que Deus pôs a serviço do homem, a criação que o rodeia, é um presente para que dela se use.

Ora, a diferença que vai entre as qualidades naturais de alguém, físicas ou psicológicas, e as criaturas, está apenas no sujeito em que residem. Estas estão no universo, aquelas; no homem. Portanto, a mesma razão existente para nos desprendermos dos bens temporais, vale para nos desapegarmos de nós mesmos, valendo o princípio de que “nosso corpo está ferido de morte”, e sendo passageiro não há porque dele nos apegarmos. “Porque nada trouxemos ao mundo, como tampouco nada poderemos levar. Tendo alimento e vestuário, contentemo-nos com isto”. (1 Tm 6, 7-8)

2° Não dispor de nada sem autorização

Aqui cabe outra aplicação. Se um religioso incorre no pecado contra o roubo, quando se apropria de um objeto sem autorização, do mesmo modo todo homem incorre no roubo a Deus, alegando seu o que a Ele pertence.

Por isso, não devemos dispor de nossas qualidades para aparecermos bem à glória mundana! Façamos tudo somente para Deus, porque no momento oportuno Ele nos exaltará (1 Pd5, 6), se a obra feita, de fato, mereça o louvor.

3° Viver pobremente a exemplo de Cristo

Nosso Senhor Jesus Cristo convida-nos constantemente a não mergulharmos no apreço pelas coisas terrenas, e disto deu-nos o exemplo com sua vida: escolheu para nascer não um rico palácio, senão uma gruta; não quis uma cidade importante, preferindo os pequenos subúrbios de Belém; não quis ser conhecido senão após trinta anos de vida oculta. Quando os fariseus O desprezavam no Sinédrio ou O difamavam, Ele não se incomodou por tentarem tirar-Lhe a glória diante do povo; ao ser elogiado remetia ao Pai. No momento da morte ,não temeu o castigo ignominioso, derramou até a última gota de seu Preciosíssimo Sangue, e não se apegou ao seu maior tesouro, Maria Santíssima, legando-A ao discípulo amado.

Levando tudo às últimas consequências, o Redentor cumpriu sua missão: estava restabelecido para o homem o Reino da Graça, do perdão.

E nós o que damos por Nosso Senhor? Somos capazes de desprendermos inteiramente das coisas fúteis para abraçarmos a via da graça, do sobrenatural?

Cuidemos, portanto de não nos apegarmos a esta terra, pois “o mundo é toda atração que o conjunto das criaturas exerce para desviar desse ponto que é a graça santificante”2.Ouçamos, isto sim, a voz do Divino Mestre que sussurra em nosso interior: “Filho, a minha graça é um dom precioso; ela não sofre mistura de coisas estranhas, nem consolações mundanas. […] Não podes ao mesmo tempo, tratar comigo e deleitar-te em coisas transitórias.3

Não desanimemos, pois, se é verdade que os inimigos estão tão próximos de nós, é bem verdade que os tesouros e as verdadeiras riquezas residem também no interior de nossa alma, desde que nunca a maculemos: “temos este tesouro em vasos de barro”. (2 Cor 4, 7)

Daí entendermos este aspecto sublime da pobreza, que caracteriza a verdadeira riqueza: abandonarmos o nada, para possuirmos aquilo que é tudo: a graça, o Reino dos Céus, o próprio Deus.

1 ROYO MARÍN, Antonio. Teología de la perfección cristiana. Madrid: BAC, 1998, p. 862-863.
2 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Apud. João Scognamiglio Clá Dias. Reuniões de formação sobre a Graça —1996, São Paulo, p. 66.
3 TOMÁS DE KEMPIS. Imitação de Cristo. Livro III, cap. 53

Doce presença de Jesus Cristo sobre a Terra

Bruna Almeida Piva

Encontramos no Evangelho inúmeras passagens que narram milagres feitos por Nosso Senhor Jesus Cristo. Vemos cegos, coxos, paralíticos e leprosos sendo curados, e até mesmo alguns, como Lázaro e a filha de Jairo, sendo ressuscitados pela misericórdia do Salvador.

Conhecendo tão estupendos milagres, quantos de nós já desejamos ardentemente viver na mesma época de Nosso Senhor, para assim alcançar d’Ele algum prodígio semelhante! Quantos de nós já ansiamos, ao menos, poder tocar em sua túnica e receber assim alguma graça especial… Porém, apesar desses desejos serem inteiramente legítimos, estamos enganados se pensamos que essas graças somente são alcançadas por aqueles que tiveram o privilégio de estar junto a Jesus Cristo no tempo de sua vida terrena.

Corpus_Christi_ArautosCerta vez, o Profº Plinio Corrêa de Oliveira comentou que ele não compreenderia se Nosso Senhor, em sua infinita misericórdia, houvesse partido para o Céu e deixado, de alguma maneira, de estar presente sobre a face da terra. 1 De fato, Ele não o fez, pois na quinta-feira anterior ao seu Sacrifício, deixou-nos o inestimável e magnífico tesouro da Santíssima Eucaristia. “Seu Coração Eucarístico nos deu a presença real de seu Corpo, Sangue, Alma e Divindade. Ele está presente por toda a terra, em todos os tabernáculos onde há hóstias consagradas, desde as mais belas catedrais até as missões mais longínquas e pobres. Ali está Ele como doce companheiro de nosso exílio, à nossa espera, com pressa para nos salvar, desejando que lhe peça”. 2

Com efeito, Nosso Senhor está todo nesse excelso sacramento em Corpo, Sangue e Alma, e em Divindade. A hóstia que vemos no altar é o próprio Cristo, presente da mesma forma que estava entre seus apóstolos e discípulos, apesar de nossos sentidos não poderem percebê-Lo.

Outro obséquio é de podermos receber este preciosíssimo Sacramento na Comunhão, graça superior até mesmo à que recebeu Santo Estevão quando criança, ao ser abraçado por Nosso Senhor, ou à que obteve o Apóstolo São João, ao recostar-se sobre o Sagrado Coração de Jesus na última Ceia. Pois, ao comungarmos, Cristo não só nos abraça, mas nos possui inteiramente, não só nos faz reclinar a cabeça sobre seu peito, mas põe seu Coração junto ao nosso; e nossa alma, nesse celestial encontro, se reveste da alvura e santidade do próprio Senhor Jesus.

“Nosso Senhor não podia inclinar-se mais a nós, os mais pobres, os mais necessitados e miseráveis, não podia demonstrar mais o seu amor quando, no momento supremo de privar-nos de sua presença sensível, quis deixar-se a Si mesmo entre nós, sob os véus eucarísticos”. 3

Portanto, quando nos sobrevier o desejo de estar pessoalmente diante de Nosso Senhor Jesus Cristo, de progredir nas vias da virtude, ou quando quisermos alcançar d’Ele alguma graça, não sintamos que Ele está longe de nós, mas nos aproximemos do Santíssimo Sacramento, e certamente obteremos tais favores com a mesma eficácia – ou até maior, pelo mérito da fé – do que se estivéssemos na frente de Nosso Senhor da mesma forma que os Apóstolos.

Diante de tanto consolo e amor que encontramos nesse insigne sacramento, grande é a vontade de passar a eternidade inteira desfrutando de seus benefícios. Ora, sabemos que eles nos são concedidos enquanto ainda vivemos nesta terra. Continuaremos nós a recebê-los no Céu? Ou será da vontade de Nosso Senhor que essas graças sejam recebidas somente pelos homens em estado de prova?

Neste sentido, Monsenhor João explica que, uma vez que o sacramento visa produzir a graça, de acordo com o que a forma e a substância simbolizam, não faz sentido que haja comunhão ou qualquer outro sacramento no Céu 4, pois a graça existirá em nossa alma de maneira estável e permanente. Recebemos nessa vida a presença eucarística real de Nosso Senhor em nossa alma para que Ele nos santifique, nos torne semelhantes a Ele, e nos fortaleça contra todo mal; no Céu isso não será necessário, pois o veremos face-a-face e o possuiremos em tempo integral.

Ademais, segundo os teólogos católicos 5, não haverá Missa Sacramental na Eternidade. Haverá a Missa Mística: “Nosso Senhor Jesus Cristo passará a eternidade enquanto homem, de dentro de Sua humanidade, oferecendo [ao Pai], como Sumo Sacerdote, […] a glória do Sacrifício oferecido por Ele. […] Nós teremos constantemente no Céu a Missa sendo celebrada misticamente, […] e nós estaremos eternamente participando deste oferecimento feito por Nosso Senhor”. 6

Contudo, apesar da visão beatífica ser o maior prêmio que Deus poderia conceder aos homens justos, o que está presente no Santíssimo Sacramento é o próprio Autor da Graça. “É, portanto, algo que vale mais do que toda a ordem da Criação, vale mais do que, inclusive, a ordem da Graça. Juntemos todas as graças que a humanidade recebe, receberá e recebeu; todas as graças que existem em Nossa Senhora não dão, nem de longe, o que está numa partícula consagrada: a recapitulação do Universo (cf. Ef 1, 10) num pedaço de pão”. 7

Diante de tão inefável dom, o que podemos fazer para agradecer a Deus, ou ao menos, para Lhe conceder alguma alegria, por tanta bondade? Certamente, está fora do alcance de qualquer ser humano agradecer-Lhe dignamente; porém, Ele nada pede de nós a não ser que sejamos devotos da Sagrada Eucaristia, tanto quanto se possa ser. Comunguemos frequentemente, com as devidas disposições; visitemos as igrejas e capelas nas quais Ele se encontra exposto; entreguemo-nos por inteiro a Ele, com tudo quanto somos e possuímos, e Lhe daremos a melhor recompensa, em busca da qual Ele aceitou ser morto e crucificado: a nossa salvação.


1 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. A presença de Cristo entre os homens na sua vida terrena e na Eucaristia. Revista Dr. Plinio. São Paulo. Ano VI. n. 63 (Junho, 2003); p. 23.
2 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Conferência. São Paulo. Arquivo IFTE.
3 CLÁ DIAS, João Scognamiglio apud MORAZZANI ARRÁIZ, Teresita. Aula de Teologia Sacramental no Instituto Filosófico-Teológico Santa Escolástica – IFTE. Caieiras, 2015. (Apostila).
4 Cf. Ibidem.
5 Ibidem.
6 Ibidem.
7 Ibidem.

Em pleno século XX, uma profecia…

Bruna Almeida Piva

Podemos notar, ao longo de toda a História, diversos acontecimentos de suma importância que mudaram definitivamente o rumo da história.

O mais extraordinário e esperado de todos os tempos foi, indubitavelmente, a Encarnação de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele instaurou, na terra, a nova Era da Graça, onde a justiça cedeu lugar à misericórdia; a Lei Judaica à Lei do Amor; o Reino do Pecado ao Reino do Perdão.

Um outro acontecimento, bem mais antigo, mas também muito relevante, foi o grande dilúvio enviado por Deus à terra. Como os homens daquela época haviam abandonado o bom caminho e se pervertido em abomináveis pecados, a Providência, como justo castigo, fez com que chovesse abundantemente sobre a face da terra, inundando-a por vários dias. Entre todos os homens, somente Noé e sua família, sendo bons e justos, foram salvos em uma arca e desse modo a humanidade foi renovada.

Poderiam ser citados aqui outros exemplos, mas bastam esses para perceber que, apesar de serem diferentes e terem ocorrido em épocas distintas, há entre eles, e também entre os acontecimentos mais importantes da História, um ponto em comum: ambos foram profetizados. Apesar de avisados e alertados por Deus de que tais fatos ocorreriam, muitos homens se saíram mal por não terem acreditado nos avisos divinos. E, nos dias atuais, Deus, por meio de sua Mãe Santíssima, prometeu-nos mais um extraordinário acontecimento.

Em 1917, Nossa Senhora apareceu a três pastorinhos em Fátima, no dia 13 dos meses de maio a outubro, com o objetivo de fazer-lhes revelações e uma grande profecia. Ela pediu sacrifícios pela conversão dos pecadores, a consagração da Rússia ao seu Imaculado Coração e a devoção ao Santo Rosário, como condição para que não se iniciasse outra guerra mundial, além das revelações sobre o inferno. Entretanto, a mais importante mensagem trazida por Ela foi a seguinte: haverá “guerras e perseguições à Igreja. Os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer e várias nações serão aniquiladas. Por fim, o Meu Imaculado Coração triunfará”.

Nota-se nessas palavras que a Santíssima Virgem anunciou um grande castigo à humanidade, uma vez que “os homens se esqueceram de Deus e dos seus Mandamentos, vivendo como se Ele não existisse”1. Com efeito, “o Senhor corrige a quem ama e castiga todo aquele que reconhece por seu filho” (Hb 12, 6), Mas, como boa Mãe, que fere, mas também cuida da ferida (Cf. Jó 5, 18), Nossa Senhora também promete o triunfo final de seu Sapiencial e Imaculado Coração, que trará a vitória e a paz aos que Lhe permanecerem fieis.

Mas, como será esse triunfo de Nossa Senhora? O Professor Plinio Corrêa de oliveira, grande devoto de Maria Santíssima, comenta: “[…] quando Ela afirma que seu Coração triunfará, quer dizer que sua mentalidade triunfará. O triunfo da mentalidade da Mãe de Deus significa que virá uma época, na qual, muito mais do que na nossa, os santos vão dirigir a humanidade. Nossa Senhora governá-la-á através de seus santos; porque eles vão influenciar os Reis, os Papas, os grandes e pequenos desta Terra, e levar a todos para Deus. Será o Reino de Maria”2.

Sem sombra de dúvida, uma época em que a terra terá como rainha a própria Mãe de Deus será realmente extraordinária. Não que Nossa Senhora ainda não seja Rainha desta terra, pois é verdade de fé que, quando subiu aos Céus, Ela foi coroada por Deus como Rainha do Céu e da Terra, mas, no Reino d’Ela, todos haverão de reconhecê-La e honrá-La verdadeiramente como Rainha e Mãe – o que muitos, hoje em dia, não o fazem -, e Ela poderá fazer todo bem possível a seus amados filhos e súditos, e conduzi-los ao seu Divino Filho.

Ora, diante dessa maravilhosa promessa, resta somente uma dúvida: quando se dará essa esperada vitória?

A esse respeito, em 1982, o Santo Padre João Paulo II comentou: “O convite evangélico à penitência e à conversão, expresso com as palavras da Mãe, continua ainda atual. Mais atual mesmo do que há sessenta e cinco anos atrás. E até mais urgente”3. Também em 1950, o Papa Pio XII disse em um pronunciamento: “Já passou o tempo em que se podia duvidar de Fátima”4. Portanto, com base nessas sábias palavras papais, e considerando a crescente decadência da humanidade no pecado e o fato de que já se passaram 98 anos, ou seja, quase um século desde que essa promessa foi feita, é de se imaginar que esses grandes acontecimentos estejam muito próximos, e que a humanidade está, de fato, prestes a presenciar o nascimento de uma nova era histórica.

Portanto, “se não faltaram preocupações e sofrimentos, se ainda há motivos de apreensão pelo futuro da humanidade, conforta-nos o que a ‘Senhora vestida de branco’ prometeu aos pastorinhos: ‘Por fim, meu Imaculado Coração triunfará!’.”5

1 Voz de Fátima. Fátima, 13 de agosto de 1996.
2 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. São Raimundo de Peñafort, símbolo de uma época. In: Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei, n.166, jan. 2012. p.15.
3 Insegnamenti di Giovanni Paolo II, Libreria Editrice Vaticana, 1982, v. 2, p. 1575.
4 Pio XII. 8 de Maio de 1950.
5 Palavras do Papa Bento XVI, Regina Caeli de 14 de Maio de 2006.