Sede pobres!

Ir Letícia Sousa, EP

“Decapitai-o! Morte ao rei! Abaixo a monarquia! Viva a república!” Frases como essas retumbavam fortemente nas ruas de Paris nos anos da Revolução Francesa. O populacho acorria à capital por falta de pão e, estando lá, se unia aos revolucionários republicanos contra o Monarca e a nobreza.

Mas, essa situação, outrora protegida pelo lema “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, com o passar dos anos nos deixou uma incógnita: Será que a doce França conheceu melhores dias que os que antecederam a era do terror? Ou realmente a falta de pão, “causa” da revolta do povo, trouxe igualdade, pão e bens materiais para todos?

Acaso a afirmação de Nosso Senhor no Evangelho, “pobres sempre tereis entre vós” (Jo 12,8), foi apagada da bíblia que usavam os revolucionários nas terras da Filha Primogênita da Igreja? Pois, se não é assim, por que tentar estabelecer a nivelação de bens a todas as classes?

O problema, na realidade, não está em ter ou não ter bens materiais, riquezas, tesouros, e sim, ser ou não ser pobre de espírito, pois São Mateus no Evangelho frisou a profundidade da primeira bem-aventurança: “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 5,3).

Há um matiz esquecido pelos tempos atuais da necessidade desta pobreza ser de “espírito”. O autêntico pobre de espírito é aquele que reconhece que tudo vem de Deus, conformando-se com a administração Divina em dar a cada um conforme sua vontade.

O que de fato convém a todos é seguir, em graus diversos, o conselho do Divino Mestre: “Não vos aflijais, nem digais: Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos? São os pagãos que se preocupam com tudo isso. Ora, vosso Pai celeste sabe que necessitais de tudo isso. Procurai o Reino de Deus e sua justiça e o resto vos será dado por acréscimo” (Mt 6, 3 1-33).

“Nosso Senhor não me diz aqui de que as riquezas deste mundo vão ser dadas a mim como prêmio da minha piedade, não, não diz isso. Ele afirma que, se eu me entregar sinceramente à busca do Reino d’Ele, à perfeição, portanto, da santidade, vou receber essas riquezas na medida em que esta perfeição exija, na medida em que eu tenha necessidade delas, elas me virão às mãos”. [1]

Há momentos na vida terrena de Jesus em que realmente Ele critica o apego à riqueza material. O moço rico do evangelho, por exemplo, recusou um chamado tão sublime de Nosso Senhor: a ser apóstolo. “Moço rico, escolhido para ser Apóstolo, não quis. Por que não quis? Porque tinha muita riqueza e ele não quis vender tudo e distribuir aos pobres”. [2]

Entretanto, o que Cristo recomenda no evangelho não é que todos os homens vivam sem bens, mas que o principal objetivo seja buscar o reino de Deus que não é perecível.

Sigamos o exemplo de Nosso Senhor Jesus Cristo que, sendo a Riqueza, para nós se tornou pobre para nos enriquecer. Imitemos tantos santos na história que, seguindo os passos do Salvador, foram verdadeiramente pobres e, desta maneira, teremos os Céus abertos para nós, recebendo o cêntuplo já aqui nesta terra.

Acrescenta ainda nosso fundador Mons João Clá Dias que, não basta abandonar materialmente:

“Se o moço rico tivesse vendido tudo, dado aos pobres e seguido a Nosso Senhor, mas, se julgasse que ele era um grande homem porque tinha feito uma grande coisa, não adiantaria nada! Porque quando ele chegasse na hora de entrar no Céu, ele ia bater na porta da eternidade, mas as portas não iam se abrir, porque as portas não se abrem àqueles que são orgulhosos”. [3]

Portanto, peçamos a Maria Santíssima, Mãe da despretensão e da justiça, a graça de abandonarmos tudo que nos prenda a esta terra perecível e sermos pobres de espírito, e, assim, poderemos entrar nos Céus e o que precisarmos nesta terra nos será dado por acréscimo segundo o beneplácito Divino.

[1] CLA DIAS, Mons. João Scognamiglio. Meditação — 16/11/1992 (arquivo IFTE)

[2] Id. 2°Homilia 2 1/8/2007 (arquivo IFTE)

[3]  Ibid.

Deus Se oculta aos olhos de quem O ama? (cont)

Continuação do post anterior

Bruna Corrêa Salgado

A aridez espiritual, longe de ser sempre “sinal de falta de virtude, é, pelo contrário, em muitas ocasiões, efeito do amor especialíssimo que Deus tem àquelas almas que deseja elevar a grande perfeição, às quais quer pôr à prova e purificar dessa maneira”.1

Esta noite escura é um influxo de Deus na alma, que a purifica de suas ignorâncias e imperfeições habituais, tanto naturais como espirituais. […] Nela vai Deus em segredo ensinando a alma e instruindo-a na perfeição do amor, sem que a mesma alma nada faça, nem entenda como é esta contemplação infusa.2

É neste período que “mais facilmente nos purificamos das desordens de nossos afetos”3.

Podemos encontrar quatro razões pelas quais Deus prova a alma através das securas e aridezes: a primeira delas é para “nos desprender de tudo quanto é criado, até mesmo da doçura que se encontra na piedade, para aprendermos a amar a Deus só, e por Si mesmo”4. A segunda, para nos humilhar, mostrando-nos que não merecemos as consolações, que “são favores essencialmente gratuitos”.5 Outra razão é que com elas nos purificamos mais, “tanto das faltas passadas como das afeições presentes e de qualquer inclinação egoísta”.6 Por último, elas nos robustecem a virtude.7

Sendo assim, devemos confiar que “se Deus manda as provações, é com um fim determinado. Desde que o fim seja atingido, a provação perde a sua razão de ser”.8

Entretanto, essas são as horas em que Nosso Senhor está mais perto de nós, e com sua infinita bondade de Pai, nos diz:

Meu filho, chegou o momento da aridez e da dor, para provar se é capaz de ser fiel agora como o foi na alegria. Tudo lhe parece enfadonho, você tem a tentação de pensar continuamente noutra coisa, está fascinado por algo que não presta, e não lhe sai da cabeça. Estou lhe deixando longe do prazer que teve, porque desejo que você se dê inteiro. […] Mas tenha a convicção de que, depois da hora mais negra, semelhante à de uma morte, virá a ressurreição das alegrias de outrora, mais esplêndidas e maiores do que antes.9

Cornélio a Lápide, recordando um pensamento de São João Crisóstomo, afirma que “Deus costuma permitir que santos autores de grandes gestos heroicos sejam sujeitos a temores e tentações a fim de conservá-los na humildade e os obrigar a recorrer ao seu auxílio”.10 Esses períodos de provação fazem com que o homem se desapegue do que não é Deus, purificam a alma pelo sofrimento, movem-no a desejar o Céu e a perfeição que é o caminho para lá, contanto que ele tire proveito dessas provas para se voltar para Deus.11

Encontramos nas Sagradas Escrituras várias passagens nas quais Deus manda as provações a fim de nos emendarmos, pois Ele “jamais quer a morte do pecador, mas sim que se converta e viva” (Ez 33, 11). Assim, lemos no livro dos Provérbios: “Não desprezes, meu filho, as lições de teu Deus; nem te irrites quando Ele te repreender, pois o Senhor castiga aquele a quem ama, como a um filho querido” (Pr 3, 11-12). E São Paulo diz: “É para vossa emenda que sofreis a provação” (Hb 12, 7-10).

Quando o Menino Jesus desapareceu, Nossa Senhora e São José começaram logo a procurá-Lo e O encontraram-No templo. E nós, o que devemos fazer quando “percebemos que estamos sem graças sensíveis, sem aquilo que nos dava ânimo e sustentação para praticar a virtude?” Devemos “ir atrás do Menino Jesus, isto é, pôr-se à procura da graça sensível, quando ela se retirar […] [e] procurar Jesus no Santíssimo Sacramento”.12 Com efeito, “é nesses momentos preciosos que o Pai nos fala e nos ensina a ir ao encontro de seu Filho”.13

“Onde houver um tabernáculo, ali estará a origem de toda alegria, a solução de todos os males, a luz para qualquer caminho obscuro. Quem se aproxima do Santíssimo Sacramento e, mais ainda, quem comunga, recebe uma força espiritual superior às energias humanas”. 14

Quanto tempo passa Nosso Senhor sozinho no tabernáculo, à espera de alguém que se aproxime para rezar? Quantas vezes Ele não teria uma palavra a me dizer pelo simples fato de eu procurá-Lo nas horas das maiores angústias? E eu, entretanto, nem sequer pensei em buscá-Lo. Não fazemos ideia de que “ao receber nossa visita, Jesus estremece de alegria no Santíssimo Sacramento, ainda mesmo quando o seu visitante é um pecador, que Ele procura atrair a Si”. 15 Quando passamos diante do Santíssimo Sacramento, devemos pensar: “Lá está Ele preso. Ele sujeitou-Se a esta prisão porque quis, para ter a delícia de que eu fizesse diante d’Ele uma genuflexão dizendo, por exemplo, ‘Coração Eucarístico de Jesus, tende piedade de nós’”. 16

Que consolação [para] nós, com efeito, pensar que [Maria e José] compreendem experimentalmente os nossos sofrimentos e que cordialmente deles comparticipam! Que incentivo, sabermos que Deus não poupa os que mais ama e que muitas vezes a prova está longe de ser uma punição! 17

Em uma revelação à Santa Margarida Maria, Nosso Senhor, mostrando-lhe seu Coração ferido, disse-lhe: “Tenho uma sede ardente de ser amado pelos homens no Santíssimo Sacramento, e não encontro quase ninguém que se esforce, segundo o meu desejo, para Me desalterar, usando para comigo de alguma paga!”.18 O Divino Redentor, do fundo do tabernáculo, “clama a todos aqueles que sofrem, que estão necessitados, desgraçados: ‘Vinde a mim e Eu vos aliviarei’. […] É sempre o bom Pastor a amar suas ovelhas, a nutri-las com sua Carne e com seu Sangue”. 19

Como Bom Mestre, Ele aponta o caminho do Céu, sendo “sempre o Salvador em estado de imolação, oferecendo-Se sem cessar ao Pai, como o fez na Cruz, pela salvação dos homens”.20

E o que acontece ao término da prova?

Quando uma alma piedosa sai, por fim, duma rude provação e encontra diante dela […] Aquele a quem chorou como perdido, a sua surpresa manifesta-se por estas mesmas exclamações: Por que me tínheis Vós abandonado? Por que me deixastes na angústia de tantos receios, no horror de tentações aviltantes? Onde estáveis então? […]: “Estava no meio do teu coração”.21

Ou seja, lá estava Nosso Senhor, escondido em nosso interior, sustentando-nos durante a provação.

Concluímos com um comentário do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira a respeito da aridez:

[Nossa Senhora] nos promete tanta coisa! Ela não está no direito de pôr nossa alma a uma prova? Tem sentido que Ela não exponha nossa alma a uma prova? Essa prova tem que vir, e nós devemos desejá-la. Ela é dura, mas nós queremos mostrar a nossa gratidão. E não é só questão de mostrar, é exercitar, praticar. Nós queremos ser gratos […]. Então, às vezes […] as delícias se apagam. Por detrás das nuvens Nossa Senhora acompanha nossa alma. Ela está dentro de nós pela sua ação e pela sua graça; Ela está dentro de nós e nos ajuda. Nós também não percebemos. E nós pensamos que estamos andando sozinhos, que estamos abandonados. Perguntamos: haverá, neste abandono em que estou e que eu não sinto mais o paraíso de outrora, haverá para isso alguma culpa de minha parte? Oh Deus, se há, Deus foi tão bom para comigo que assim mesmo eu confiarei n’Ele! Há uma frase da Escritura que me agrada enormemente: Etiam si ambulavero in umbra mortis, non timebo mala (Sl 23, 4). Ainda que eu caminhe nas vias sombrias da morte, eu não temerei os males porque Deus é meu Pai e Ele me perdoará porque Nossa Senhora é minha Mãe e rezará por mim! É justo que Ele me prove. Quem sabe se é uma prova! E quem sabe se eu sendo fiel agora, eu faço com que os Anjos cantem no Céu! Eu me sinto só, abandonado, mas os Anjos cantam no Céu! Há coisas assim na nossa vida espiritual: nós vamos para frente, etc., e começa o demônio a tentar, começa a se empalidecer o horizonte de delícias no qual nós caminhávamos […] É o Pai […] que encheu de bens, mas agora quer uma prova de gratidão. E no caso concreto quer que o filho diga: “Não; o que vale não é o que eu, miserável, estou vendo nesse momento de provação. O que é verdade não é o que aparece nos meus olhos turbados por uma prova interior muito grande. É verdade o que ensina a Santa Igreja Católica Apostólica Romana, à qual eu quero ser fiel nas mais terríveis aridezes, à qual eu quero ser fiel nas mais terríveis provações. […] Seja como for, caminharei no escuro e nas trevas, poderei sentir-me abandonado por todos e até por Deus, mas Deus não me abandonará e não morrerá em minha alma a convicção de que a Mãe d’Ele reza por mim no Céu, que Ela pode tudo e que Ela consegue todos os perdões!22

1 GONZÁLEZ Y GONZÁLEZ. Op. cit. p. 216.
2 SÃO JOÃO DA CRUZ. Noite escura. L. II, c. 5, n. 1. In: Obras Completas. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 2002, p. 693-694.
3 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. A borrasca: um castigo ou uma graça? In: O inédito sobre os Evangelhos. Comentários aos Evangelhos dominicais do Tempo Comum. Ano B. Città del Vaticano – São Paulo: LEV, Lumen Sapientiae, 2014, v. IV, p. 186.
4 TANQUEREY. Op. cit. § 926, p. 441.
5 Loc. cit.
6 Loc. cit.
7 Cf. Ibid. p. 442.
8 BEAUDENOM. Op. cit. p. 388.
9 CORRÊA DE OLIVEIRA. O Sibarita, o herói e o Mártir do Gólgota. Op. cit. p. 17.
10 CORNÉLIO A LÁPIDE, apud CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Comentário à Liturgia do XIX Domingo do Tempo Comum. São Paulo, 10 ago. 2003. (Arquivo IFTE).
As matérias extraídas de exposições verbais – designadas neste trabalho, segundo sua índole, como conferências, palestras, conversas, homilias ou comentário à Liturgia – foram adaptadas para a linguagem escrita.
11 Cf. TANQUEREY. Op. cit. § 428, p. 210.
12 CLÁ DIAS. Como encontrar Jesus na aridez? Op. cit. p. 141.
13 Id. Eu sou o Pão vivo descido do Céu. In: O inédito sobre os Evangelhos. Op. cit. v. IV, p. 290.
14 WERNER, Carmela. Confiança, a regra de ouro. In: Arautos do Evangelho. São Paulo: Ano IX, n. 99, mar. 2010, p. 33.
15 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Intimidade com Jesus na Eucaristia. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano VI, n. 62, maio 2003, p. 25.
16 Loc. cit.
17 BEAUDENOM. Op. cit. p. 389.
18 SÃO PEDRO JULIÃO EYMARD. A Divina Eucaristia: Escritos e sermões. São Paulo: Loyola, 2002, v. V, p. 119.
19 Ibid. p. 120-121.
20 Ibid. p. 121.
21 BEAUDENOM. Meditação LXXVII. Jesus perdido e achado. In: Meditações afectivas e práticas sobre o Evangelho. Op. cit. p. 394.
22 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Conferência. São Paulo, 17 ago. 1985. (Arquivo IFTE).

Deus Se oculta aos olhos de quem O ama?

Bruna Corrêa Salgado

Poucos são os episódios que encontramos narrados nos Evangelhos a respeito da infância de Jesus, da vida oculta e submissa que levava junto a São José e Nossa Senhora em Nazaré. São Lucas conta o único fato que rompe o silêncio a respeito de Nosso Senhor até então: a viagem da Sagrada Família a Jerusalém pela Páscoa.

No caminho de volta, “São José e a Santíssima Virgem, não vendo o Menino a seu lado, creram, cada um por sua parte, que Ele ia em companhia do outro”, 1 julgando assim que estava na caravana. Porém, ao chegar o fim do dia, quando pararam “para passar a noite, os membros de cada família reuniram-se para compartilharem de um acampamento comum e foi só então que se pôde dar pela ausência de Jesus”.2 Aflitos, Maria e José começaram a procurá-Lo entre os parentes e conhecidos. Não O tendo encontrado, voltaram para Jerusalém à sua procura (cf. Lc 2, 44-45). Encontraram o Menino sentado no meio dos mestres, escutando e fazendo perguntas. Todos os que O ouviam estavam “maravilhados com sua inteligência e respostas”.3 “Ao vê-Lo, seus pais ficaram muito admirados e sua Mãe Lhe disse: ‘Meu filho, por que agiste assim conosco?” “Jesus respondeu: ‘Por que me procuráveis? Não sabeis que devo estar na casa de meu Pai?’” (Lc 2, 48-49).

Depois de percorrermos tão magnífica passagem do Evangelho, surge imediatamente a pergunta: por que o Divino Menino resolveu abandonar seus pais sem os avisar, deixando-os na ansiedade de reencontrá-Lo, pensando talvez que O tivessem perdido para sempre? Este fato não terá certa ligação com o que ocorre com muitas almas?

Para melhor compreendermos como esse episódio ocorrido com Nossa Senhora e São José também se apresenta na vida espiritual dos fiéis, consideremos as belíssimas pinturas de um grande artista do século XVII, Claude Lorrain cuja especialidade é pintar muros velhos, leprosos, escalavrados […] sobre os quais, porém, bate um sol magnífico”.4 E esses cenários parecem se transformar em imensas e suntuosas cortes.5

Tal como o Sol, age a graça divina na alma.

Ela é, digamos, a tinta celestial que Nosso Senhor utiliza, como se fosse um infinito Claude Lorrain da criação. […] Visto à luz da graça concedida por Deus, tudo o que é árido e difícil se torna belo. A perda desse momento de ver as coisas pode ocorrer por culpa nossa, porque cedemos aos nossos egoísmos, caprichos e manias. Ou por decisão de Deus que, nos seus insondáveis desígnios, deseja nos provar: depois de nos cumular com seus dons, de nos favorecer com maravilhosas situações à la pintura de Claude Lorrain, permite que tudo se apague de repente.6

Portanto, “há momentos de nossa existência nos quais temos a sensação de ter ‘perdido o Menino Jesus’, isto é, com ou sem culpa nossa, a consolação espiritual desaparece e nos sentimos desamparados”.7 Bem podemos compará-los aos dias que ora se apresentam claros e radiantes, ora nublados e tenebrosos: não vemos o Sol, mas ele continua brilhando atrás das nuvens.

Muitas vezes essas almas se julgam verdadeiramente abandonadas, mas não é propriamente o abandono, é a provação, qualquer que seja, a aridez, a frieza… Tudo é escuro e às vezes ela mesma se julga coberta de manchas, digna dos piores castigos. 8 “A variedade destes pensamentos é infinita, mas todos conduzem a uma conclusão semelhante: perdi Jesus, abandonou-me, não O tornarei a encontrar”.9

Afirma São Francisco de Sales:

Acontece algumas vezes que não encontramos consolação alguma nos exercícios do amor divino, de forma que, como cantores surdos não ouvimos a própria voz, nem podemos gozar da suavidade do nosso canto; mas, além disso, estamos cheios de mil temores, preocupados com mil ninharias com que o inimigo cerca o nosso coração, sugerindo-nos que talvez não sejamos agradáveis ao nosso mestre e que nosso amor é inútil ou ainda que é falso e vão, por não nos produzir consolação.10

Desse modo, “o demônio consegue persuadir uma pessoa de que ela pecou, embora se conserve inocente. Sobrevém-lhe então a tristeza, a sensação de abandono e miséria imaginando ter ofendido a Deus”.11 O homem fica tão horrorizado com a tentação, com a perda dessa sensibilidade que, em certas horas, ele próprio não sabe se é ou não amado por Deus.12

Ao tratar sobre as oscilações tão comuns à alma humana, González ressalta:

Umas vezes sente-se cheia de fervor e de consolações sensíveis na oração e nas demais obras do serviço divino, e outras, pelo contrário, vê-se mergulhada na maior insensibilidade e aridez de espírito, não encontrando prazer, nem gosto, senão tédio, fastio e desalento em todos os seus exercícios.13

“Deus permite essa situação. Ele retira de nós os auxílios sobrenaturais pelos quais a vida parece tão alegre, e nos vemos abandonados, tristes e sem força”.14 Eis aqui a grande aflição do coração humano que verdadeiramente ama a Deus e deseja ser por Ele amado! A alma se vê privada de consolações e gostos, cai no desalento, pensando que não há valor algum em tudo aquilo que faz; que perde tempo inutilmente, que não tem bom espírito nem verdadeira virtude, que não ama nem agrada a Deus, e que Deus a abandonou e afastou-a de Si.15

São João da Cruz mostra-nos três sinais pelos quais discernimos os períodos de aridez. O primeiro deles consiste em que não se tem mais gosto nem consolação nas coisas de Deus, nem tampouco nas coisas criadas. Disto decorre uma certa inquietação, a qual consiste no segundo sinal: a pessoa pensa não estar servindo a Deus, mas sim, voltando atrás no seu serviço. Isto acontece por causa do desgosto que se sente nas coisas espirituais. E, como terceiro sinal, a oração torna-se impossível, e, em lugar de pensar em Deus, a pessoa deseja a Deus,16 mas Ele parece esconder-Se.

Até mesmo grandes santos passaram por esses períodos tenebrosos! Assim comenta Tomás Kempis:

Nunca encontrei homem tão religioso e devoto, que não sofresse, às vezes, a subtração da graça e sentisse o arrefecimento do fervor. Nenhum santo foi tão altamente arrebatado e esclarecido que, antes ou depois, não fosse tentado. Porque não é digno da alta contemplação de Deus quem por Deus não sofreu alguma tribulação.17

Por exemplo, Santa Teresa de Jesus afirma “ter experimentado muitas vezes esse estado, mesmo naquela época em que o Senhor já havia elevado o seu espírito aos graus mais elevados da oração”.18 O mesmo aconteceu com Santa Joana de Chantal no fim de sua existência: “foi tal a intensidade, tal a amargura da sua aridez e desolação interior, que a sua vida não era senão um martírio ininterrupto e uma agonia continuada, mais penosa que a própria morte”.19

E o que não dizer da grande Doutora da Igreja, Santa Teresinha do Menino Jesus?

[…] era um braseiro de amor a Deus, mas sua alma passou por longos períodos de aridez. Em certas ocasiões essas penas espirituais a afligiam até mesmo durante o cântico do Ofício. Entretanto, nas mais diversas provações, ela se mantinha serena, e já no fim de sua vida, devorada por tentações contra a fé, ela resistia de modo admirável e completo.20

A aridez espiritual, longe de ser sempre “sinal de falta de virtude, é, pelo contrário, em muitas ocasiões, efeito do amor especialíssimo que Deus tem àquelas almas que deseja elevar a grande perfeição, às quais quer pôr à prova e purificar dessa maneira”.21

Continua no próximo post

1 SÃO BEDA, apud SÃO TOMÁS DE AQUINO. Catena Aurea. Exposición del Evangelio de San Lucas. C. II, v. 42-50: “San José y la Santísima Virgen, no viendo al Niño a su lado, creyeron cada uno por su parte que iría en compañía del otro” (Tradução da autora).
2 FILLION. Jesus Cristo segundo os Evangelhos. Op. cit. p. 87.
3 CLÁ DIAS. Op. cit. p. 136.
4 Ibid. p. 33.
5 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Feerias de sol, belezas de Deus. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano III, n. 22, jan. 2000, p. 32-33.
6 Ibid. p. 34.
7 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Como encontrar Jesus na aridez? In: O inédito sobre os Evangelhos. Comentários aos Evangelhos dominicais. Advento, Natal, Quaresma e Páscoa. Solenidades do Senhor que ocorrem no Tempo Comum. Ano C. Città del Vaticano-São Paulo: LEV; Lumen Sapientiae, 2012, v. V, p. 140-141.
8 Cf. BEAUDENOM, Léopold. Meditação LXXVI. Jesus perdido e achado. In: Meditações afectivas e práticas sobre o Evangelho. Porto: Educação Nacional, 1936, t. I, p. 362-363.
9 Ibid. p. 369.
10 SÃO FRANCISCO DE SALES. Nas provas da vida interior, nas enfermidades da alma e do corpo, etc. In: HUGUET, S. M. (Org.). Pensamentos consoladores de São Francisco de Sales. 2. ed. São Paulo: Salesiana, 1926, p. 131-132.
11 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. “Senhor, atende-me na tua justiça!”. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano IX, n. 97, abr. 2006, p. 13.
12 Cf. Loc. cit.
13 GONZÁLEZ Y GONZÁLEZ, Emilio. A perfeição cristã: segundo o espírito de São Francisco de Sales. Porto: Figueirinhas. [s.d.], p. 215.
14 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. O Sibarita, o herói e o Mártir do Gólgota. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano VI, n. 68, nov. 2003, p. 17.
15 Cf. GONZÁLEZ Y GONZÁLEZ. Op. cit. p. 216.
16 Cf. STINISSEN, Wilfried. A noite escura segundo São João da Cruz. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2001, p. 13-14.
17 KEMPIS, Tomás. Imitação de Cristo. 3 ed. Petrópolis: Vozes, 2003, p. 113.
18 GONZÁLEZ Y GONZÁLEZ. Op. cit. p. 217.
19 Ibid. p. 217.

O que é a oração?

Ir Lays Gonçalves de Sousa, EP

missa_tabor

Para muitos, a oração é meramente a recitação de palavras decoradas ou lidas. Entretanto, ela possui um sentido mais profundo e sobrenatural: é “o diálogo do homem com Deus”1, a “elevação da mente a Deus”2.

A oração, o diálogo com Deus, é um bem incomparável, porque nos põe em comunhão íntima com Deus. Assim como os olhos do corpo são iluminados quando recebem a luz, a alma que se eleva para Deus é iluminada por sua luz inefável. Falo da oração que não é só uma atitude exterior, mas que provém do coração e não se limita a ocasiões ou horas determinadas, prolongando-se dia e noite, sem interrupção.3

O homem pode converter um simples trabalho em oração, pois qualquer ato de virtude, quando realizado por um motivo sobrenatural, é considerado como tal.4

Não devemos orientar o pensamento para Deus apenas quando nos aplicamos à oração; também no meio das mais variadas tarefas […] é preciso conservar sempre vivos o desejo e a lembrança de Deus. E assim, todas nossas obras, temperadas com o sal do amor de Deus, tornar-se-ão um alimento dulcíssimo para o Senhor do universo. Podemos, entretanto, gozar continuamente em nossa vida do bem que resulta da oração, se lhe dedicarmos todo o tempo que nos for possível. 5

“Vinde a Mim, vós todos que estais aflitos sob o fardo de vossos pecados, e Eu vos aliviarei” (Mt 11, 28). Bem sabe o Divino Mestre quais são nossos combates neste vale de lágrimas e o quanto o jugo de nossas debilidades nos fatiga e deprime. Deseja Ele que, por meio da oração, depositemos nossa confiança no seu poderoso auxílio para, assim, esmagar nossas fraquezas e edificar um templo espiritual agradável aos seus olhos.

É próprio à natureza humana alimentar-se, uma vez que, sem os nutrientes necessários, acaba por desfalecer. O mesmo ocorre com a alma, a qual, para subsistir, precisa de um alimento espiritual que a robusteça e anime. Esse nutriente divino é a oração conforme atesta Santo Agostinho: “A oração é ainda o alimento da alma, porque assim como o corpo não se pode sustentar sem alimento; sem a oração não se pode conservar a vida da alma. Como o corpo, pela comida, assim a alma do homem é conservada pela oração”.6

O que há de mais elevado no homem não é o corpo, mas a alma, visto que o corpo definha e se corrompe, e a alma, no entanto, é imortal. Hélas! Como somos zelosos em sustentar o corpo e relaxados no dever de vivificar a alma!

Se soubéssemos tomar a oração como remédio para nossa fraqueza, muito mais faríamos para a glória de Deus.

A oração é, portanto, a força dos fracos e socorro daqueles que caem no abismo do pecado, vencedora dos incrédulos, fortaleza dos Santos, verdadeiro vigor da alma. O mais forte dos guerreiros, ornado da mais preciosa armadura, será considerado como incapacitado para a guerra se não souber dobrar os joelhos e com humildade recorrer Àquele de quem procede toda vitória. Esse é o tesouro que nos “concede todas as graças pedidas, vence todas as forças do inimigo; […] transforma os cegos em iluminados, os fracos em fortes, os pecadores em santos”.7

Logo, quem não recorrerá a tão valioso dom? “Que há no mundo mais excelente que a oração? Que coisa mais útil e proveitosa? Que coisa mais doce e mais suave? Que coisa mais alta e mais sublime em toda nossa religião cristã?”8

1 SÃO JOÃO CLÍMACO. In: LOARTE, José Antonio. El tesoro de los Padres: Selección de textos de los Santos Padres para el tercer milenio. Madrid: Rialp, 1998, p. 345. (Tradução da autora).
2 SÃO JOÃO DAMASCENO, apud ROYO MARÍN, Antonio. La oración del cristiano. Madrid: BAC, 1975, p. 4. (Tradução da autora).
3 PSEUDO-CRISÓSTOMO. A oração é a luz da alma. In: COMISSÃO EPISCOPAL DE TEXTOS LITÚRGICOS. Liturgia das horas. São Paulo: Vozes; Paulinas; Paulus; Ave Maria; 2000, v. II, p. 58.
4 Cf. ROYO MARÍN. Op. cit. p. 4.
5 PSEUDO-CRISÓSTOMO. Op. cit. 58.
6 SANTO AGOSTINHO, apud SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO. Op. cit. p. 22.
7 SÃO LOURENÇO JUSTINIANO, apud SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO. A Oração. Trad. Henrique Barros. 24. ed. São Paulo: Santuário, 2012, p. 47.
8 SANTO AGOSTINHO, apud RODRIGUES, Afonso. Exercícios de perfeição e virtudes cristãs. Trad. Pedro de Santa Clara. 4. ed. Lisboa: União Gráfica, 1947, p. 8. v. II.

Pode a justiça conviver com a misericórdia?

Ir Mariana de Oliveira, EP

Pode acaso a justiça coabitar com a misericórdia? Ou a severidade com a bondade? Como pode ser que em Deus, a quem sabemos uno e simples, isto ocorra?

Quando se anda mata adentro se veem muitas sombras e luzes projetarem-se no chão rústico. O Sol pode estar a pique, entretanto, as folhas impedem de vê-lo e na floresta só se percebe que ele existe devido a estes desenhos que se formam com os raios filtrados pelas brechas nos galhos das árvores. Quem não sabe que existe uma ramagem em cima, não sabe explicar o porquê de não estar vendo o Sol, mas apenas tênues raios incidindo sobre o solo e se interpondo à sombra. 1Tentemos, então, de alguma forma, compreender a justiça e misericórdia de Deus, divisando as ramagens que estão no alto, cientes de que nada acontece de avulso ou contraditório, pois a mão divina que a rege é perfeita e inerrante.

É compreensível que dúvidas como “Deus pode ser justiceiro e igualmente misericordioso?” ou “bom e severo?” pululem na mente do homem, pois, assim como ninguém pode, por exemplo, possuir um temperamento extrovertido e ao mesmo tempo tímido, assim também somos tendentes a aplicar a Deus as regras que regem a natureza humana.

A intensidade do amor de um pai por seu filho é muito grande, sobretudo quando aquele é reto. Como deverá agir o bom pai para educar a criança? Acaso será castigando-a a cada pequena travessura cometida? Ou, talvez, fazendo com que o menino nunca conheça o humilhante castigo, cobrindo-o de carícias, mesmo quando ele pratique uma ação reprovável? Ou, então, usando da bondade, sempre que possível, e da severidade nos tempos oportunos? Evidentemente, quanto mais o pai souber equilibrar estes dois elementos, mais amado e respeitado será aos olhos do filho.

Com efeito, o segredo da boa educação e do relacionamento equilibrado da família é, exatamente, a justaposição da bondade com a severidade nos devidos momentos. Ora, se esta união entre justiça e misericórdia se dá tão comumente dentro da vida familiar, ela bem pode ser o reflexo de uma harmonia mais excelsa, ou seja, aquela existente em Deus, que usa de tais atributos para melhor formar o homem.

É muitíssimo divulgada a ideia: “Deus é Bom e, portanto, pode-se ‘andar errante’, pois Ele é misericórdia e perdão”… É bem verdade que Ele é a Misericórdia. Ele, de fato, é o Perdão… Mas será que o Senhor, justamente por sua eterna misericórdia e seu desejo de perdoar, não pode “chacoalhar” com mão forte o homem, para que este entenda que sua ternura quer envolver os corações que verdadeiramente O amem, e para despertar aqueles que parecem dormir à beira do abismo do pecado e da morte eterna?

Esvanecendo toda insegurança, o Doutor Angélico explica: “a obra da justiça divina pressupõe a obra da misericórdia e nela se fundamenta”,2 pois a misericórdia não é senão a raiz de todo obrar divino. E, bem longe de se opor à justiça, a misericórdia é a sua plenitude, uma vez que a justiça se limita a dar o que se deve a quem merece, mas a misericórdia dá muito mais do que se merece, sobrepassando toda proporção exigida.3

“Na verdade, a justiça e a misericórdia não somente não são contrárias entre si, como também se harmonizam […] maravilhosamente em Deus”.4 Em outros termos, é íntima a conciliação entre a misericórdia e a justiça em Deus.5

É o que constatamos ao analisar alguns casos descritos no Antigo Testamento, em que o personagem merecia ser exterminado e, por causa de uma ação um pouco mais relevante, o Altíssimo Se compadeceu e atenuou a pena. Um exemplo surpreendente disto é o rei Acab, que procedeu repetidas vezes de modo péssimo durante o seu reinado, cometendo crimes e abominações sem nome. No entanto, quando foi ameaçado por Deus, humilhou-se, provocando a compaixão do Senhor, que lhe diminuiu a punição (cf. I Re 21, 21-29). Este e tantos outros episódios ressaltam que, desde sempre, o fogo da misericórdia esteve ardente, e ao Senhor aprouve, já naquela época, fazer sentir o seu benfazejo calor através de pequenas faíscas. A chama seria, mais tarde, acesa pelo próprio Deus Humanado.

É verdade que, na maioria dos casos, mostrava-Se Ele bem severo com as desobediências. Porém, uma coisa é certa: a bondade estava regendo sempre seu proceder, e enquanto uma mão batia, a outra animava à mudança de vida e à boa disposição para receber o Salvador, promessa que se manteve inabalável, apesar de todas as infidelidades do povo.

Quanto amor pelos homens tem Aquele que não precisa dos homens para ser glorificado, mas desejou, por pura misericórdia, levá-los à participação da sua própria divina vida, fazendo-os co-herdeiros com seu Filho (cf. Rm 8, 17)!

1 Cf. CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Cólera e misericórdia. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano XIV, n. 154, jan. 2011, p. 25.
2 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Op. cit. I, q. 21, a. 4.
3 Cf. Ibid. a. 3, ad 2; a. 4.
4 ROYO MARÍN. Op. cit. p. 177-178. (Tradução da autora).
5 Cf. Ibid. p. 108.

Entre Deus e os homens…

Irmã Mariana Morazzani Arráiz, EP

Criado para as alegrias do eterno convívio com Deus, o homem procura naturalmente o infinito, o bem íntegro, a verdade absoluta. Esta aspiração, infundida em seu próprio ser a fim de facilitar as relações entre ele e o Criador, nem os piores crimes ou os fugazes e enganosos prazeres desta vida conseguem apagar. Numa palavra, a paz e a felicidade autênticas só podem ser encontradas em Deus. O grande Santo Agostinho descreveu tal anelo da alma humana, em célebre e poética frase: “porque nos fizeste para Ti, inquieto está o nosso coração enquanto em Ti não repousar”. 1

“O homem se transformou em criminoso”

Todavia, se o pecado original e a expulsão do Paraíso não fizeram desaparecer esta sede de infinito, o homem começou a experimentar as terríveis consequências de sua desobediência: apreensões, incerteza, dor, sofrimento, tendência a praticar o mal, desamparo em uma Terra sobre a qual não tinha mais o domínio, e na qual a sua natureza sentia-se apequenada e ameaçada pela justa cólera de um Deus ofendido. “De filho de Deus, o homem se transformou em criminoso. Extinguiu-se nele a vida sobrenatural. Passou a ser um condenado à morte e à perda do Céu, um ser débil, enfermiço, fatigado, devastado interiormente por problemas e lutas cruciantes”. 2 Continue lendo

O que importa é glorificar

Ir Ariane da Silva Santos, EP

“Não a nós, ó Senhor, não a nós, ao vosso nome, porém, toda a glória” (Sl 113, 9), canta o Salmista, sintetizando, em poucas palavras, o desejo que anima o coração dos justos. Nenhum outro sinal é tão revelador da santidade de alguém quanto esse infatigável anseio de direcionar a Deus os louvores recebidos, e de procurar a máxima glória d’Ele em todas as coisas.

Com efeito, se até mesmo os seres inanimados glorificam a Deus pelo fato de existirem — “os céus publicam a glória de Deus, e o firmamento anuncia a obra das suas mãos” (Sl 18, 3) — muito mais deveriam glorificá-lo os homens, criados à sua imagem e semelhança, e “realmente filhos de Deus e co-herdeiros com Cristo” (Rm 8, 17) pelo Batismo ! Contudo, enquanto as outras criaturas invariavelmente louvam a Deus, os homens nem sempre querem cumprir com essa obrigação, por causa do orgulho. E muitas vezes trocam “a sua glória pela estátua de um touro que come feno”… (Sl 105, 20).

São João Batista é um modelo exímio da prática da restituição, virtude que resume em si a humildade, a gratidão e o desejo de servir a Deus. Sua vida não foi senão um desdobramento de fidelidades, restituindo em grau supremo tudo aquilo que recebeu de Deus, desde o primeiro contato com Ele através da voz de Maria, ainda no claustro materno. Comentam alguns teólogos que, nesse momento, pela excelência arrebatadora da voz de Nossa Senhora, a vida divina foi transmitida a São João Batista. O fato de ele ter saltado no ventre de Santa Isabel significa que lhe foi apagada a mancha do pecado original, como se ele tivesse sido batizado.[1] A partir de então, inúmeras outras graças lhe foram sendo concedidas em função dessa graça primeira, como comenta o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira:

Vê-se que Nossa Senhora comunicou aí, misteriosamente, o espírito d’Ela a São João Batista. E tudo quanto ele fez na vida dele era uma decorrência dessa graça inicial, e que pelos rogos d’Ela foi constantemente intensificada, até chegar ao auge, quando ele morreu. E aí nós podemos ver São João Batista enquanto asceta austero, enquanto pregador do Cordeiro de Deus que viria e, depois, como herói que enfrenta Herodes e morre como mártir sublime de grandeza e de serenidade.1

Foi ele um “um facho ardente de amor a Deus”, que só viveu para a realização de sua missão, tendo somente “Deus diante dos olhos”.2

Não buscava os vestidos preciosos do mundo quem havia desprezado o próprio mundo; nem esperava uma comida opulenta quem pisoteava as delícias do mundo. Que necessidade tinha dos preciosos trajes do mundo a quem estava revestido com a veste da justiça? Que alimentos delicados da terra poderia desejar quem se banqueteava com as palavras divinas, aquele para quem o verdadeiro alimento era a lei de Cristo?3

E, de correspondência em correspondência, de entrega em entrega, quis diminuir para que crescesse a glória d’Aquele a quem os céus e a terra não puderam conter.

Com toda certeza, São João Batista diminuiu em vida, mas cresceu para a eternidade e para todas as eras vindouras, tornando-se o arquétipo de humildade cuja luz brilha diante dos homens e os leva a glorificar a Deus! (cf. Mt 5, 16)

Aprendamos com ele a estar constantemente indicando aos outros a verdadeira Luz, para, no final de nossa vida, proclamarmos com todas as fimbrias de nossa alma:

Eu sou vosso, Senhor, nem devo pertencer senão a Vós; a minha alma é vossa, e não deve viver senão para Vós; a minha vontade é vossa, e não deve amar a ninguém senão por vosso amor; o meu amor é vosso, e não deve visar senão a Vós. Devo amar-vos como meu primeiro princípio, porque vim de Vós; devo amar-vos como meu fim supremo e meu repouso, porque fui criado para Vós; devo amar-vos mais do que ao meu ser, porque este ser subsiste por Vós; devo amar-vos mais do que a mim próprio, porque vos pertenço e resido em Vós.4

1 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Conferência. São Paulo, 11 set. 1967. (Arquivo IFTE).
2 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Conferência. São Paulo, 17 nov. 1972.
3 CROMACIO DE AQUILEYA. Comentarios al Evangelio de San Mateo, apud LA BIBLIA COMENTADA POR LOS PADRES DE LA IGLESIA. Madrid: Ciudad Nueva, 2004, p. 84: “No buscaba los vestidos preciosos del mundo quien había despreciado el mismo mundo; ni aguardaba una comida opulenta quien pisoteaba las delicias del mundo?¿Que necesidad tenía de los preciosos trajes del mundo quien estaba ataviado con la vestidura de la justicia? ¿O que alimentos delicados de la tierra podía desear quien se apacentaba con las palabras divinas, aquel para quien el verdadero alimento era la ley de Cristo?” (Tradução da autora)
4 SÃO FRANCISCO DE SALES. Tratado do amor de Deus. 3 ed. Porto: Apostolado da Imprensa, 1958.

Quem se exaltar será humilhado

Ir. Ariane da Silva Santos, EP

Muitos julgam, erroneamente, que o orgulho é apenas mais uma paixão sem grandes implicações para a salvação das almas. Mas a realidade é bem mais séria, como assevera o Pe. Garrigou-Lagrange: “todos os pecados e a condenação eterna vêm de um fundo maldito que procura a si mesmo e que é oposto a Deus”. 1

Quem vive procurando a si mesmo em tudo o que faz, torna estéreis todas as suas obras — isto é, não produz frutos sobrenaturais e, muitas vezes, nem sequer naturais — e, no dia juízo, não receberá nenhuma recompensa de Deus. Assim nos ensinou Nosso Senhor Jesus Cristo quando, referindo-Se aos fariseus, que jejuavam e oravam só “para serem vistos pelos homens” (Mt 6, 5), recriminou-os dizendo: “Em verdade Eu vos digo, já receberam sua recompensa” (Mt 6, 16).

Ademais, Deus não só abandona o orgulhoso como também, em certos casos, o repele, como ressalta a profecia de Isaías: “O Senhor dos exércitos terá um dia (para exercer punição) contra todo ser orgulhoso e arrogante, e contra todo aquele que se exalta, para abatê-lo” (Is 2, 12). E o Eclesiástico evidencia quão repugnante é este vício diante de Deus: “Assim como sai um hálito fétido de um estômago estragado […] assim é o coração dos soberbos” (Eclo 11, 32). Também Jesus manifestou de modo taxativo sua aversão ao orgulho, ao censurar os fariseus e escribas: “Ai de vós escribas e fariseus! Sois semelhantes aos sepulcros caiados: por fora parecem formosos, mas por dentro estão cheios de ossos, de cadáveres e de toda espécie de podridão” (Mt 23, 13).

O Pe. Royo Marín explica a esse respeito:

Cristo perdoou toda classe de pecadores (ladrões, adúlteros, etc.), mas rechaçou com indignação o orgulho e obstinação dos fariseus. A História confirma continuamente os dados bíblicos: quantos pretensos “super-homens” que não queriam inclinar-se ante Deus pagaram caro seu orgulho, morrendo sem sacramentos e com manifestos sinais de condenação! 2

Exemplo paradigmático é a morte do ímpio Voltaire, ocorrida a 30 de maio de 1788, quando ele contava 84 anos de idade. Eis a chocante narração de Lenôtre:

Sua dor arrancava-lhe urros. Ele queimava; seu ventre parecia abrasado por um fogo interior. […] Às vezes era visto de mãos juntas, com os olhos perdidos no céu, submerso em uma profunda meditação. Quando era assim surpreendido, logo se levantava, se arrebatava e contorcia-se em horríveis convulsões…

No sábado, 30 de maio [de 1788], dia de sua morte, os doutores Lorry e Thierry chegaram às dez horas da noite. […] Ele estava imóvel e sem pulso. Fizeram-lhe uma massagem vigorosa. Voltaire abriu os olhos e sussurou: “Deixem-me morrer”. Alguns instantes depois, lançou um grito enorme. Um grito tão terrível que a enfermeira Roger pensou morrer de pavor e a outra enfermeira, Bardy, adoeceu por vários meses.

O Dr. Tronchin, que presenciou seus últimos instantes, afirmou: “Que morte! Não posso pensar nela sem tremer!”. 3

Podemos entender nesse sentido as palavras do Divino Redentor: quem “se exaltar será humilhado” (Lc 14, 11). Os que viveram atolados no orgulho sofrerão a pior das humilhações quando forem excluídos da mesa do Reino de Deus, à voz do Juiz: “Afastai-vos de Mim, malditos! Ide para o fogo eterno destinado ao demônio e aos seus anjos” (Mt 25, 41).

1 GARRIGOU-LAGRANGE, Réginald. Le trois âges de la vie intériure prélude de celle du ciel. 7. ed. Paris: Du cerf, 1938. v. I, p. 633-634: “[…] il faut rappeler souvent que tous les péchés et le damnation éternelle viennent d’un fond maudit qui se recherche soi-même et qui opposé à Dieu”. (Tradução da autora)
2 ROYO MARÍN, Antonio. Teología de la salvación. 3. ed. Madrid, BAC, 1965, p. 115: “Cristo perdonó en el acto a toda clase de pecadores (ladrones, adúlteros, etc.), pero rechazó con indignación el orgullo y obstinación de los fariseos. La historia confirma continuamente los datos bíblicos: cuántos pretendidos ‘superhombres’ que no querían inclinarse ante Dios pagaron caro su orgullo, muriendo sin sacramentos y con manifiestas señales de reprobación!”. (Tradução da autora)
3 LENÔTRE, G. Existences d’Artites, apud CLÁ DIAS, João Scognamiglio (Org.). Despreocupados… rumo à guilhotina. São Paulo: Brasil de Amanhã, 1993, p. 230.

A luz primordial

Emilly Schnorr

Cada homem foi chamado a contemplar a Deus e a refletir suas perfeições de um modo próprio e característico. Segundo o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, este chamado melhor se expressa no conceito de “luz primordial”.1

No que consiste esta luz? “Todo homem nasceu para louvar a Deus. Esse louvor se faz pela contemplação de certas verdades, virtudes e perfeições divinas. A ‘luz primordial’ é a aspiração existente na alma de cada pessoa para contemplar a Deus de um modo próprio”.2

Esta contemplação, por sua vez, se traduz numa virtude específica que a alma deve espelhar. “A ‘luz primordial’, portanto, é a virtude dominante que uma alma é chamada a refletir, imprimindo nas demais sua tonalidade particular. Em outras palavras, seria o pórtico pelo qual uma pessoa entra, para depois amar todas as perfeições de Deus”.3

Porém, deve-se considerar a luz primordial enquanto abarcando todas as outras virtudes. O Prof. Plinio Corrêa de Oliveira combatia muito os erros dos que a julgavam independente e isolada das demais:

A “luz primordial” é sempre um complexo de virtudes, como o cavalheirismo, por exemplo, que não consiste apenas na justiça ou na fortaleza, mas compreende as outras virtudes: é um determinado modo de prudência, de justiça, etc. A “luz primordial” é um complexo de virtudes ordenadas e coordenadas entre si, conforme um princípio fundamental.4

Quando a pessoa consegue discernir sua “luz primordial”, descobre a virtude que dará unicidade a seu chamado; como se fosse um raio a brilhar em sua vida, indicando o norte para o qual ela melhor alcançará a Deus. “Conforme afirma Dr. Plinio, no momento em que a pessoa chega a explicitá-la para si mesma, encontra sua via de santificação e, nela, a paz interior”.5

Santa Teresinha do Menino Jesus foi um exemplo claro nesse ponto. De acordo com o que ela mesma narra, ansiava por ser apóstolo, mártir, sacerdote, guerreiro, profeta e doutor6. Mas como ela conciliaria tantas aspirações aparentemente contraditórias?

Tomando em consideração o corpo místico da Igreja, não me identificava em nenhum dos membros descritos por São Paulo, por outra, queria identificar-me em todos eles. A caridade deu-me a chave de minha vocação. Compreendi que se a Igreja tinha corpo, composto de vários membros, não lhe faltava o mais necessário, o mais nobre de todos. Compreendi que a Igreja tinha coração, e que o coração era ardente de amor. Compreendi que só o amor fazia os membros da Igreja atuarem, e que se o amor se extinguisse, os Apóstolos já não anunciariam o Evangelho e os Mártires se recusariam a derramar seu sangue… Compreendi que o amor abrange todas as vocações, alcançando todos os tempos e todos os lugares… Numa palavra, é eterno…7

Foi, portanto, na consideração do amor misericordioso que esta santa encontrou a chave de sua vocação específica e o fundamento da “Pequena Via” por ela iniciada.

Erroneamente podemos pensar que a “luz primordial” é reservada aos santos. Ao contrário, por ser ela um dom de Deus, foi concedida a todos os homens para habilitá-los a refletir as perfeições divinas. Ou seja, desde aquele indivíduo menos agraciado até no mais dotado que possa existir na História da Humanidade, ela estará presente.

Mons. João Clá tece um brilhante comentário a esse respeito:

À maneira de um ponto na superfície de um espelho, cada pessoa recebe do Sol de Justiça um raio de luz sobrenatural ímpar. E somente ela pode e o deve refletir cada vez mais nesta vida, até espelhá-lo sem defeito na eternidade. Assim, esse conceito pode ser aplicado à afirmação do salmista: “in lumine tuo videbimus lumen” – “na tua luz veremos a Luz” (Sl 36, 10).8

Daí resulta que cada alma tem um matiz irrepetível, que a torna, em algum ponto, superior a todas as outras.

________________________________________
[1] Cf. CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Amor a Deus e “luz primordial”: Palestra. São Paulo, 15 abr. 1988. (Arquivo IFTE).
[2] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. “Luz primordial” e discernimento. In: Revista Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei, n. 54, set. 2002. p. 4. (Editorial).
[3] CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O dom de sabedoria na mente, vida e obra de Plinio Corrêa de Oliveira. Op. cit. p. 310-311.
[4] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. A “luz primordial” e as potências da alma, apud CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O dom de sabedoria na mente, vida e obra de Plinio Corrêa de Oliveira. Op. cit. p. 311.
[5] Ibid. p. 312.
[6] Cf. SANTA TERESINHA DO MENINO JESUS. Op. cit. p. 211.
[7] Ibid. p. 213.
[8] CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O dom de sabedoria na mente, vida e obra de Plinio Corrêa de Oliveira. Op. cit. p. 312.

O poder de intercessão de São José

Ir. Cintia Louback, EP
2º Ano Ciências Religiosas

Há certos homens, ao longo da História, cuja grandeza ultrapassa qualquer lenda. Homens que parecem ser objeto de uma especial predileção de um Deus comprazido em adornar suas almas com o brilho das virtudes e de raríssimos dons.

Desde toda a eternidade, quando a Encarnação do Verbo foi determinada pela Santíssima Trindade, Deus Pai quis que a chegada de seu Filho ao mundo fosse revestida com a suprema pulcritude que convém a um Deus. Apesar dos aspectos de pobreza e humildade com os quais haveria de se mostrar, Ele deveria nascer de uma Virgem concebida sem pecado original, reunindo em si as alegrias da maternidade e a flor da virgindade. Mas era indispensável a presença de alguém capaz de assumir a figura de pai perante o Verbo de Deus feito homem. Para isso, bem podemos aplicar as palavras ditas pela Escritura sobre o Rei Davi: “O senhor procurou um homem segundo seu coração”. Este homem foi São José.

Para formarmos uma ideia de quem foi São José, precisamos considerar que ele foi esposo de Nossa Senhora e pai adotivo do menino Jesus. O esposo deve ser proporcionado à esposa. Ora, quem é Nossa Senhora? Ela é, de longe, a mais perfeita de todas as criaturas, a obra-prima do Altíssimo. Se somarmos as virtudes de todos os anjos, de todos os santos e todos os homens até o fim do mundo, não teremos sequer uma pálida ideia da sublime perfeição da Mãe de Deus. O homem escolhido para ser o esposo dessa excelsa criatura devia possuir uma virtude maior que a dos antigos patriarcas. Eis a grandeza de alma que devia ter o Esposo da Mãe de Deus!

Sua missão, como pai do Menino Jesus, consistiu em ser a imagem de Deus Pai aos olhos do próprio Filho de Deus! Na simplicidade da vida cotidiana, São José exercia como chefe da Sagrada Família, uma verdadeira autoridade sobre o Filho de Deus.

Quem iria responder às perguntas de Deus? Esta graça só foi concedida a São José, varão humilde e puro. Imaginemos o Menino Jesus parado diante dele e indagando como fazer tal coisa. E São José, mera criatura, ciente de que é Deus quem pergunta, dá o conselho! Consideremos São José como modelo de castidade e de força; um varão de santidade inimaginável, no qual Deus reuniu, como num sol, tudo quanto os demais santos juntos têm de luz e esplendor. Todas as glórias se acumularam neste varão incomparável.

Houve, também, no Antigo Testamento um personagem chamado José, filho do Patriarca Jacó que chegou a ser vice-rei do Egito. Em tempo de fome, o Faraó mandava os egípcios se dirigirem ao sábio José para que ele distribuísse os alimentos, dizendo-lhes: “Ide a José”! Da mesma maneira, podemos ouvir a voz de Deus que nos diz durante nossas dificuldades: “Ide a José”! Assim como José foi vice-rei do Egito e o mais importante do reino depois do Faraó, Deus constituiu São José, vice-rei da Igreja, quer dizer, senhor e cabeça de sua casa, custódio e administrador de todos os seus bens.

Quem poderá calcular o poder de intercessão de São José junto à Maria Santíssima e a seu Divino Filho? Seu patrocínio e poder de intercessão são superiores aos de todos os demais santos, sem dúvida alguma. São José tudo pode diante do Divino Redentor. Certamente, Jesus, que lhe foi submisso durante sua vida terrena, seguirá sendo-lhe obediente por toda a eternidade…

Imploremos, sempre, sua poderosa intercessão!

Bondade Infinita

Ir Isabel Sousa, EP
3º Ano Ciências Religiosas

Deus contemplou toda sua obra, e viu que tudo era muito bom” (Gn 1, 31). Poderíamos imaginar o júbilo de Deus ao contemplar as maravilhas por Ele criadas: o fulgurante céu estrelado, a elegante movimentação das ondas do mar, o colorido das aves e das flores, a força decidida das feras… “tudo era muito bom”. De fato, toda a obra da criação é boa justamente por ser um reflexo do Altíssimo e pela qual mais facilmente o homem pode transcender ao Criador.

Ensina-nos a Teologia, que Deus ao amar algo, infunde neste a bondade. Não é sem razão que um dos atributos de Deus é a Bondade Infinita que “compreende todas as bondades, sendo o bem de todos os bens”.1Inúmeras são as páginas das Sagradas Escrituras nas quais se revelam tão profundamente a Bondade de Deus,’ “O Senhor é indulgente, é favorável, é paciente, é bondoso e compassivo” (Sl 102, 8). Mesmo no Antigo Testamento, onde o Senhor todo-poderoso se revestia da armadura das vinganças e era temido como o Deus dos exércitos, a manifestação de Sua bondade estava presente: “Com quem é bondoso vos mostrais bondoso, com homem íntegro vos mostrais íntegro” (II Sm 22, 26).

Entretanto, foi no Novo Testamento que a Bondade se manifestou prodigiosamente aos homens com a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo à terra. Qual coração, podendo escutar e presenciar as divinas palavras emanadas dos lábios divinos do Redentor não se comoveria com o apelo do Redentor: “Amai-vos uns aos outros, como eu vos tenho amado”? (Jo 13, 34). Somente uma Bondade infinita amaria os homens, tanto os santos como os pecadores, a ponto de verter todo o sangue no madeiro da Cruz. “Que glória, que triunfo, que fastígio atingira Nosso Senhor Jesus Cristo com sua Paixão! Que humilhação nos infernos, esmagados pelo erro de ignorar a força invencível do Bem!”.2 Nosso Senhor Jesus Cristo venceu o império de satanás pela Bondade suprema! Bondade esta tão vergonhosamente rejeitada pelos Anjos decaídos.

Se pensássemos que a Bondade de Deus foi manifestada somente no Sacrifício do Calvário, enganamo-nos a nós mesmos. Quis Ele depositar em nossas mãos o auxílio onipotente d’Aquela que é considerada a Aurora e Esplendor da Igreja Triunfante, o maior reflexo da bondade de Deus aos homens: Maria Santíssima !

Quantas não foram as conversões realizadas na História através de sua intercessão! O famoso judeu convertido ao catolicismo, Ratisbonne, após a magnífica aparição da Virgem, proclamava e repetia inúmeras vezes com ardor: “Como Ela é o bondosa!”. Dando a entender que, com tal intensidade de benquerença manifestada por Maria Santíssima, até mesmo pedras brutas e enraizadas no pecado se comovem e abraçam o verdadeiro e reto caminho.

Conta-se que, no século passado, um membro de uma organização anticatólica converteu-se e, poucos instantes antes de sua morte, confessou-se. Como os demais membros desconfiassem que este tivesse revelado os segredos de tal organização, encarregaram outro adepto a fim de aniquilarem o sacerdote que o havia confessado.

O futuro assassino, fingindo que iria confessar-se, obrigou o sacerdote a contar-lhe os segredos que lhe haviam sido revelados. O digno sacerdote, porém, sendo fiel ao seu estado, disse-lhe que não lhe contaria nada e se fosse necessário matá-lo podia fazê-lo, mas apenas pedia uns minutos para invocar o auxílio de “nossa Mãe”. Ao escutar as palavras “nossa Mãe” o perverso assassino prorrompeu em pranto, pedindo a confissão para que pudesse realmente ser considerado filho de Mãe tão santa e boa.

Se mesmo os criminosos, afastados da Igreja, são objetos da Bondade da Virgem, que se dirá daqueles que se consagram a Ela? Caminhando neste vale de lágrimas”, contemplar a bondade de Deus nos dá verdadeiro alento e alegria. Portanto, não cessemos de admirar tamanho tesouro, mas saibamos apelar a essa Bondade Suprema em todas as dificuldades que nos são oferecidas, por meio d’ Aquela que é a Auxiliadora dos Cristãos e Consoladora dos Aflitos. Se soubermos nos apresentar a Ela como verdadeiros filhos, embora fracos, Ela nos conduzirá à visão bem-aventurada da Bondade Infinita. Ela é o caminho seguro, “pois é o caminho traçado pela mão mesma de Deus”.3

Recorramos a Ela e como seus filhinhos, lancemo-nos a seus pés e aos seus braços com uma perfeita confiança, em todos os momentos e em todos os acontecimentos invoquemos a esta Mãe tão santa e boa. Imploremos o seu amor materno, tenhamos um coração de filho e esforcemo-nos por imitar as suas virtudes.4

1 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma contra os gentios. Livro I c. XL. le 2.
2 CLA DIAS, João Scognamiglio. O inédito sobre os Evangelhos. Comentários aos Evangelhos dominicais. Ano C. Cittá del Vaticano! São Paulo: L.E. Vaticana/ Lumen Sapientiae, 2012, v. V, p. 263.
3 ROSCHINI, Gabriel. Instruções Marianas. Trad. José Vente São Paulo: Edições Paulinas, 1960. p.308.
4 SÃO FRANCISCO DE SALES. Filotéia ou Introdução à devota. Trad. de José de castro. 8°ed. São Paulo: Vozes, 1958. p. 116.

Istmo que conduz à misericórdia divina

Irmã Clara Isabel Morazzani Arráiz, EP

Como a proa de um navio singrando os mares, assim emerge a ilha de Noirmoutier nas águas do Atlântico, não longe da desembocadura do Loire.

Separada do continente por um estreito braço de mar, em 1770 descobriu-se ser possível chegar até ela a pé, durante a maré baixa, percorrendo um trajeto de uma légua através do fundo emergido do oceano. Todavia, o longo e incerto caminho era apenas transitável durante curtos períodos, e só os mais audaciosos se aventuravam a fazer a travessia.

Não era a coragem, entretanto, uma qualidade rara nos habitantes de tal região da França, os quais sempre se destacaram por um caráter arrojado e combativo, aliado a uma fé sincera, robusta e inabalável.

Em 1793, quando o Terror assolou a França, esse povo manteve-se fiel às suas crenças. A religião tornou-se, nas vésperas da Revolução, o seu mais prezado bem. “Que o mundo mude em torno deles, que a sociedade seja abalada, a monarquia derrubada: os camponeses […] não se comoverão fora da medida. Mas que deitem a mão sobre suas igrejas, seus calvários, seus padres, então os veremos levantar-se, prontos para tudo: para a morte, para o martírio”. 1

Em janeiro do ano seguinte, os patriotas apoderaram-se de Noirmoutier pela segunda vez e massacraram toda a guarnição, bem como grande parte da população civil. Todos os sacerdotes foram fuzilados e muitas das igrejas foram arrasadas até o solo. Durante os meses seguintes, dominados pelo Terror, a ilha chegou a contar mais de 1.200 vítimas.

Um lírio nascido durante a tempestade

Foi nessa atmosfera de perseguição que veio ao mundo a filha de Anne Mourain e Julien Pelletier, em Noirmoutier, a 31 de julho de 1796, como um lírio de inocência brotado em meio à tempestade.

No mesmo dia do seu nascimento, os pais batizaram-na em segredo, dando-lhe o nome de Rosa Virgínia. Só no ano seguinte, após a chegada do primeiro sacerdote à ilha, pôde ela receber a bênção de um ministro sagrado, confirmando a validez do Sacramento que de forma tão simples recebera.

A infância da pequena Rosa foi marcada a fundo pelos acontecimentos. Seus pais, originários de Soullans, haviam se transferido para Noirmoutier, em 1793, devido às suspeitas levantadas por sua dedicação aos sacerdotes ameaçados daquela cidade. De outro lado, todos os religiosos que exerciam seu ministério na ilha, e com os quais a menina estava em assíduo contato, eram autênticos confessores da fé e tinham enfrentado inúmeras tribulações, por amor à Igreja.

Tais personagens adquiriam aos olhos de Rosa Virgínia uma luz especial, como só o sofrimento pode dar, gravando de forma indelével em seu infantil coração o valor e a dignidade do sacrifício e do heroísmo. Estas impressões exerceram grande influência no desenvolvimento de sua personalidade e, sobretudo, na inteira aceitação com a qual mais tarde correspondeu ao chamado da Providência.

“Deverei dobrar-me, mas serei religiosa!”

Com efeito, a voz de Deus fez-se ouvir bem cedo no fundo de sua alma pura e generosa. Em 1807, pouco depois da Primeira Comunhão, Rosa ouviu com nitidez, em seu interior, o chamado às vias da perfeição. Sabia, porém, que para atingir esse objetivo precisaria vencer rudes batalhas, entre as quais a mais árdua de todas seria travada contra um adversário terrível: seu temperamento.

Possuía ela um caráter muito vivo, que a conduzia, por vezes, a certos excessos, na impertinência das respostas e no desejo de fazer a própria vontade. Entretanto, sua consciência logo a levava ao arrependimento da falta cometida e a repará-la com penitências.

Um companheiro mudo — e quão eloquente! — influía também no espírito sensível da pequena, causando-lhe salutar impressão: o mar… Passeando pela costa, extasiava-se na contemplação do imenso tapete aquático, cujas ondas sucessivas arremetiam-se furiosamente contra os rochedos. A vida, que se abria diante dela, parecia-lhe um oceano encapelado, cheio de riscos e de incertezas, contra os quais só prevaleceria quem soubesse combater.

A luta sem trégua contra os próprios defeitos provinha dessa concepção aguerrida da existência e da deliberação irrevogável de realizar o ideal já proposto, como ela mesma confessou a uma das irmãs, a quem fora confiada sua educação: “Bem sei que precisarei dobrar-me, mas serei religiosa”. 2

Deus prova a quem ama

Deus prova desde muito cedo aqueles que ama. Não faltou na infância e adolescência de Rosa Virgínia tal sinal de predileção: em 1805 perdeu sua irmã preferida, Vitória Emília, e no ano seguinte o próprio pai.

A morte de Julien Pelletier fez recair sobre a viúva o peso da formação dos filhos. À vista das dificuldades encontradas, deliberou ela voltar para Soullans e confiar os estudos de Rosa Virgínia a uma amiga de infância, Madre Pulchérie Chobelet, fundadora da Associação Cristã, destinada à educação da juventude, em Tours. A menina, então com dez anos, teve de abandonar sua querida ilha de Noirmoutier e separar-se da família.

O ambiente do educandário estava bem longe de proporcionar-lhe as consolações da intimidade do lar, pois Madre Pulchérie tratava as alunas com excessiva severidade. No entanto, Deus servia-Se dessa situação para moldar a alma de Rosa, preparando-a para sua grande missão. Antes de tornar-se fundadora e superiora, era-lhe necessário exercitar-se na obediência e aceitar as humilhações como meio eficaz de dobrar a própria vontade; obedecer com verdadeira submissão, para depois mandar com autoridade autêntica.

O sonho se transforma num convite

Não obstante, o maior fruto da estância em Tours foi a explicitação de sua vocação. Próximo do local onde vivia, um edifício de muros austeros intrigava o espírito da jovem, causando-lhe inexplicável atração. Era o Refúgio de Nossa Senhora da Caridade, pertencente à congregação fundada por São João Eudes para acolher moças decaídas ou em situação de risco, desejosas de reparar as quedas passadas e encetar nova vida.

O carisma da instituição ia de encontro às aspirações do coração da adolescente, que ardia por conquistar almas para Jesus. Seu sonho de vida religiosa transformara-se agora num convite claro para entregar-se a Deus dentro desta obra de São João Eudes.

Em 20 de outubro de 1814, Rosa Virgínia Pelletier ingressou como postulante no Refúgio de Tours. Logo nos primeiros meses, a jovenzinha de 18 anos surpreendeu a comunidade, demonstrando possuir uma maturidade bem superior à que se poderia esperar de sua jovem idade. Recebeu, então, a incumbência de ensinar o catecismo às penitentes, isto é, às jovens ali recolhidas para se emendarem. Desempenhou com sucesso a função, dando largas ao entusiasmo de sua apostólica alma.

Chegado o dia da admissão ao noviciado, no qual a postulante vestiria o branco hábito da Congregação, era também costume tomar um novo nome. A escolha de Rosa Virgínia recaiu sobre Santa Teresa de Jesus, a quem muito admirava. Contudo, a superiora era de opinião diferente e, no intuito de dar-lhe uma lição de humildade, objetou: “Vós quereis o nome de uma tão grande santa? Pretendei igualar-vos a ela, pobre e pequena aspirante à perfeição religiosa?”. E sentenciou: “Ide procurar, na Vida dos Santos, o nome mais humilde e oculto”. 3 Rosa obedeceu sem murmurar e elegeu como padroeira Santa Eufrásia, uma religiosa de vida muito apagada.

Em qualquer ocasião, Irmã Maria Eufrásia era de uma flexibilidade excepcional em relação às superioras. Nos momentos de recreio, porém, revelava sua jovialidade, desdobrando-se em delicadezas para com as irmãs idosas, e irradiando em torno de si a alegria transbordante de sua alma. “Não posso lembrar-me dela sem que se renove em mim a doce reminiscência das virtudes heroicas, que a vi praticar como noviça, dando às Madres veteranas a esperança de ser a glória e a honra de nossa Congregação”, 4 escreveu uma de suas companheiras.

Superiora do Refúgio de Tours

Após sua profissão religiosa, em 1817, Irmã Eufrásia recebeu o delicado encargo de Mestra das penitentes. Dotada de um equilibrado carisma de direção, não receava juntar-se às suas subalternas nas conversas e passeios, engenhando-se em distraí-las. Quando, todavia, se tratava da Lei de Deus, mostrava-se tão severa e inflexível que elas preferiam qualquer penitência a um só olhar de reprovação da mestra. “Ela tinha um quê de imponente e ao mesmo tempo de atraente, que lhe ganhava todos os corações”, 5 comenta um de seus confessores.

Deste modo, amada e respeitada, adquiriu grande ascendente dentro da comunidade, a ponto de, em 1825, reunido o Capítulo para a escolha de uma nova Superiora, ter sido eleita por unanimidade, antes de completar 29 anos!

A elevação ao cargo lhe contundia a humildade e os propósitos de obediência. Entretanto, a consideração de seu próprio nada não a impedia de exercer a autoridade com firmeza, como se patenteou em sua decisão de instituir as Madalenas.

Durante os anos de experiência entre as penitentes, ela constatara com pesar que muitas dessas jovens, sinceramente convertidas, desejavam completar sua emenda de vida abraçando o estado religioso. Sem embargo, não encontravam nenhum Instituto que as aceitasse. Por isso, a Santa via a urgência de erigir uma Congregação, sufragânea do Refúgio, destinada a acolher tais vocações.

Muitos foram os obstáculos apresentados pelo Conselho da Comunidade quando Madre Maria Eufrásia lhe participou o projeto de fundação. Não obstante, convicta de estar seguindo uma inspiração do Espírito Santo, declarou: “Vós me nomeastes Superiora: sou indigna, estou confusa; mas enfim, já que sou a Superiora, fundaremos as Madalenas”. 6

Em breve, a nova obra tomou vida e o número de vocações ultrapassou as expectativas da Fundadora.

O Bom Pastor de Angers

O ousado empreendimento ficava, porém, muito aquém da insaciável sede de almas de Madre Maria Eufrásia, cujas realizações nunca pareciam estar à altura dos próprios anseios apostólicos. Dir-se-ia ser a Terra por demais estreita para a medida de seu zelo, pois sua ardorosa alma participava, em algo, do infinito amor de Jesus pelos pecadores.

Deus, no entanto, alimentando-lhe tais desejos no coração, não deixaria de propiciar os meios para que se cumprissem. Em 1829, as irmãs de Tours foram convidadas a abrir um Refúgio na cidade de Angers, e instalar-se no antigo prédio do Bom Pastor. Tomada de viva alegria, Madre Eufrásia logo aceitou e deslocou-se até lá, a fim de organizar o mosteiro nascente.

Os primeiros meses foram duros, devido à falta de recursos materiais; mas, vencidos esses embaraços, iniciou-se para o Refúgio do Bom Pastor a “era dos milagres”: 7 choveram donativos, as vocações se multiplicaram e ergueu-se uma bela capela.

Estabelecida em Angers a nova comunidade, a santa Madre acalentava o sonho de ampliar a atuação da ordem para além das fronteiras da França e da Europa. Todavia, o fato de cada mosteiro da congregação possuir autonomia administrativa gerava falta de unidade, apresentando muitas dificuldades à expansão da obra.

Havia a imperiosa necessidade de dar às noviças uma formação uniforme, sob uma única autoridade, de modo a manter a coesão entre as diversas fundações no mundo inteiro. Era preciso reunir todas as casas sob um único generalato.

A oportunidade apresentou-se em 1833, por ocasião da abertura de um mosteiro em Le Mans. Com a aprovação do Bispo de Angers e o acordo unânime do Capítulo, ficou determinado que a nova fundação permaneceria dependente da Casa-Mãe de Angers, a cuja Superiora a nova comunidade deveria obediência.

A mesma Constituição foi aplicada, nos anos seguintes, a outras fundações, e o generalato tornou-se um fato consumado na ordem, à espera da aprovação de Roma. Esta chegou no dia 3 de abril de 1835, por um Breve Apostólico, no qual o Papa Gregório XVI declarava a Superiora de Angers, Madre Geral de todos os mosteiros da Congregação de Nossa Senhora da Caridade do Bom Pastor.

Filha da Santa Igreja Católica Apostólica Romana

Nos dois anos de expectativa da aprovação pontifícia, muitos sofrimentos se abateram sobre Madre Eufrásia, devido à acérrima oposição do Refúgio de Tours, por parte dos padres eudistas, e de numerosos Bispos, em cujas dioceses as casas da congregação estavam instaladas.

Os fatos, contudo, não demorariam em dar razão à fundadora: a Obra do Bom Pastor se desenvolveu prodigiosamente, espalhando-se pelos cinco continentes, de maneira tal que, ao falecer, ela deixava 110 mosteiros, onde viviam em harmonia irmãs professas, noviças, Madalenas, Penitentes e outras tantas categorias de jovens, num total de quase 20 mil filhas espirituais.

Em 24 de abril de 1868, após longa enfermidade, suportada com admirável paciência, Madre Eufrásia entregou a alma a Deus. Naquele rosto sofrido e inânime, no qual pouco restava da juvenil beleza, refletia-se, entretanto, o espírito de uma verdadeira esposa de Nosso Senhor Jesus Cristo, filha fiel da Igreja, na qual não houve fraude. Seu derradeiro holocausto fora o epílogo vitorioso e feliz de uma nobre existência, vivida apenas para a glória do Altíssimo.

União entre os pecadores e a divina misericórdia

Apraz muitas vezes ao Criador envergonhar os sábios do mundo (cf. I Cor 1, 27-28), escolhendo criaturas fracas sob o ponto de vista humano para a realização de grandes obras. Não obstante, em outras ocasiões, Ele Se gloria em chamar a seu serviço pessoas de natureza muito bem dotadas, cujas qualidades sublima, derramando com abundância sua graça sobre elas.

Rosa Virgínia Pelletier pertence a esta segunda categoria de almas. Viva e intrépida, de porte elegante e formosa fisionomia, na qual se refletiam uma alma clara e um raciocínio lógico e perspicaz, representava ela, em seus primeiros anos, o protótipo da jovem francesa. Ao calor dos raios do amor divino, a menina temperamental transformou-se na “mulher forte” (Eclo 26, 2), de espírito maduro e têmpera férrea, como tão bem o expressam as seguintes palavras, pronunciadas por Pio XI durante a reunião geral da Sagrada Congregação dos Ritos, de 31 de janeiro de 1933, em que foi aprovada sua beatificação:

“Nada lhe falta do que se chama grandeza humana e que se multiplica indefinidamente, quando essa grandeza se consagra não a coisas humanas ou de iniciativas caducas, mas a coisas sobrenaturais, celestes, divinas. Nada lhe falta: nem o esplendor dos grandes e vastos pensamentos, nem os exemplos de vontade operosa e criadora; há nela um verdadeiro talento organizador, uma força, uma perseverança de vontade cônscia e vitoriosa de todos os obstáculos e dificuldades”. 8

Semelhante à sua ilha natal de Noirmoutier, Santa Maria Eufrásia soube ser o istmo entre a multidão de almas isoladas pelo pecado, ou açoitadas pelo mar das tentações, e o continente seguro e acolhedor da misericórdia divina. Também contra ela abateram-se os vagalhões da adversidade, da aridez, da perseguição e da angústia, sem, no entanto, lograr abalá-la; antes, conservou sempre um equilíbrio admirável, uma nobre e imutável serenidade, certa de poder contar com a benevolência de Deus.

1BILLAUD, Auguste. La guerre de Vendée. Fontenay-le-Comte: Lussaud, 1972, p.11.
2 GEORGES, CJM, Emile. Sainte Marie-Euphrasie Pelletier. Paris: P. Lethielleux, 1942, p.11.
3 Idem, p.31.
4 MADRE MARIA DE SANTO ESTANISLAU KOSTKA BEDOUET. Lettre a Soeur Marie des Anges Vallois, apud PEDREIRA DE CASTRO, CM, Jerônimo. Santa Maria Eufrásia Pelletier. Petrópolis: Vozes, 1941, p.47.
5 PORTAIS, Ch. La vénérable Mère Marie de Sainte Euphrasie Pelletier, apud GEORGES, op. cit., p.41.
6 ACTES DU PROCES DE CANONISATION: Positio, super virt., apud GEORGES, op. cit., p.50.
7 MADRE MARIA DE SANTA EUFRÁSIA PELLETIER. Entretiens et Instructions de la Réverende Mère Marie de Sainte Euphrasie Pelletier, Fondatrice du Généralat de la Congrégation du Bon Pasteur d’Angers, precédés d’une notice sur sa vie, apud GEORGES, op. cit., p.71.
8 PIO XI. Decreto di tutto, de 31/01/1933, apud PEDREIRA, op. cit., p.355.

Revista Arautos do Evangelho n.124 abril 2012

A rainha e a princesa das flores

Irmã Mary Teresa Mac Isaac, EP

A rosa é a rainha das flores. Ora, onde há uma rainha é natural que exista também uma princesa. A qual das perfumadas “damas” do reino vegetal caberá tal dignidade?

Quem se deleita em permitir que a imaginação voe pelo universo do belo, decerto terá alguma vez representado em sua mente uma rainha perfeita.

Possuirá essa personagem arquetípica, sem dúvida, uma fisionomia reluzente de elevação e ternura, um nobilíssimo porte, realçado pela formidável beleza do vestido e pelas raras joias com que se adorna. Sua morada será um palácio de conto de fadas, repleto de maravilhas quase paradisíacas. E haverá naturalmente junto a ela uma imaginária princesa, digna filha dessa soberana perfeita, tão extraordinariamente formosa e distinta como sua mãe.

Esta inocente distração traz por certo ao espírito uma alegria, reflexo do gáudio que teve o Padre Eterno ao criar o homem, arquetípico microuniverso da criação. Amou-o de tal maneira que quis formá-lo à sua própria imagem e semelhança (cf. Gn 1, 26), e lhe deu para governar e guardar as maravilhas da natureza mineral, vegetal e animal (cf. Gn 2, 15).

Ora, em cada um desses planos da criação Ele pôs seres de maior ou menor grau de beleza, perfeição ou utilidade. Nesse sentido, a ametista é mais rara e valiosa que o granito; a arara é mais bonita que o corvo; o pavão, mais nobre que o avestruz; o leão, rei dos animais, ultrapassa em força e majestade todos os outros. E assim por diante.

No universo das flores, Deus criou uma tão excelsa que vem a ser considerada “rainha”: a rosa. Entretanto, será ela a única a presidir este mundo de perfumes e cores? Não haverá toda uma “corte” de nobres flores ornando-a e acompanhando-a? Não haverá uma “princesa das flores” que participe especialmente da sua beleza e dignidade?

Como tudo o que o Criador faz é perfeito, deve existir no mundo ao menos uma flor que exerça tão gracioso papel. E deixando mais uma vez solta a nossa imaginação, nos atrevemos a apontar para uma delas: o brinco-de-princesa.

Pelo seu formato e colorido, que lembram uma joia toda feita de pedras preciosas, poderíamos pensar que Deus a criou como modelo para o brinco de uma princesa formosa e distinta, como a filha da nossa imaginária rainha.

Mas indo um pouco mais longe caberia se perguntar: não terá pensado nela a Providência ao criá-la como sendo a “princesa das flores”?

Revista Arautos do Evangelho n.128. jan 2014

A grandeza do sublime e a humildade

Ir. Patricia Victoria Jorge Villegas,EP

No decorrer da História, os povos europeus foram demonstrando um agudo senso do maravilhoso. Almejavam enlevar, entusiasmar e aumentar no espírito humano as apetências pelo divino. Tal anseio natural pelo belo havia sido posto por Deus nas almas para prepará-las e dirigi-las a fim de receberem os auxílios sobrenaturais da graça.

Ora, nos séculos XII e XIII a cultura europeia foi marcada por um crescente gosto pelo maravilhoso, culminando com o gótico; arte que explicitou todo o amor a Deus que consumia as inocentes almas dos medievais.

Reza a lenda que um sultão árabe foi aprisionado durante as cruzadas e transportado para França. Como ele havia dado a palavra de honra de não fugir, deixaram-no que passeasse por toda a cidade de Paris para conhecê-la. Ao deparar com o pórtico de uma abadia, onde moravam frades, interrogou a quem o acompanhava: “Quem a construiu?”. E apontando para os religiosos respondeu-lhe: “Foram eles”. Ele os olhou e desconcertado perguntou: “Mas como homens tão humildes podem construir monumentos tão altivos?”.

Se tivéssemos o privilégio de percorrer a cidade de Paris daquela época como o fez esse prisioneiro árabe, ficaríamos estupefatos com tantas maravilhas e a mesma indagação nos perturbaria a mente. E após termos conhecido ao menos três dessas imponentes construções concluiríamos: “Sim! Eram homens humildes, mas com grandes almas, desejosas de grandezas!”.

Realmente os medievais eram profundamente sérios e estavam constantemente imbuídos pelo sobrenatural. Inspirados por moções divinas, procuravam reproduzir, nesta terra, reflexos daquilo que na eternidade contemplaremos no Paraíso Celeste.

Assim era era São Luís, rei da França: repleto deste espírito e possuidor de um perfeito equilíbrio de alma. Um verdadeiro varão católico que cumpriu com radicalidade os mandamentos de Deus e lutou pela causa católica em uma das cruzadas, deixando-nos uma lembrança de sua personalidade: a Sainte-Chapelle.

Admirável, incomparável e de uma beleza perfeita, a Sainte-Chapelle foi construída por este rei santo para conter uma das maiores preciosidades da Cristandade: a coroa de espinhos do Divino Redentor. Uma capela feita de cristal — um relicário! — onde os vitrais não se restringem apenas a uma função estética de permitir a entrada da luz, mas constituem um verdadeiro tratado de teologia ilustrada, pois neles estão representados os principais fatos da Bíblia. As cores alegres e diáfanas infundem na alma uma certa harmonia; a altura do teto eleva os pensamentos e aumenta os horizontes para o conhecimento das verdades sobrenaturais. Ao entrar nela um pecador arrebatado pela graça sente-se impelido a enveredar pelo caminho do arrependimento, da conversão e do perdão. Quem nela entra sente a grandeza de Deus, sendo atraído a Ele. Ela é a obra-prima da temperança, harmonizando os extremos do homem e equilibrando sua alma.

Entretanto, a civilização hodierna, com seus atrativos e seduções, procura ofuscar o maravilhamento pelas obras dos séculos áureos da Cristandade, aumentando o gosto pela desordem e pelo pecado. Deste modo, as coisas sobrenaturais e retas correm o risco de serem esquecidas.

Imploremos ao Divino Espírito Santo que nos conceda a graça de aprendermos a degustar as coisas sublimes, retas e elevadas que na Terra nos falam do céu.1

1 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Sabor das coisas celestiais. In: Revista Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei, n. 86, maio 2005, p. 34.

A palavra de Deus em música – conclusão

Irmã Kyla Mary Anne MacDonald, EP

Os beneditinos e os ouvidos do coração

Já nos primórdios da Igreja, então, o cântico sempre fez parte do culto, nas mais diversas ocasiões, onde quer que os fiéis se reunissem (cf. I Cor 14, 26). No entanto, como a era dos mártires deu lugar à era dos monges, a arte do canto litúrgico encontrou o local ideal para seu cultivo: os mosteiros. São João Cassiano, o eremita do Egito que introduziu o ideal do monaquismo na Gália, com o estabelecimento da Abadia de São Vitor, em Marselha, ensinava: “Nós, com frequência cantamos os salmos, de maneira que podemos continuamente crescer em compunção”. 19

O monaquismo que proliferou inicialmente na Europa Ocidental imitou de perto o monaquismo do deserto, do Oriente. Contudo, encontrou sua própria nota distintiva com a fundação dos beneditinos, em Subiaco, no século VI, e, por esta razão, São Bento é aclamado Pai do monaquismo ocidental.

Exerceu ele — de quem se pode dizer ter aplicado o dom romano do direito e da ordem às instituições monásticas — a mesma influência aperfeiçoadora sobre o canto sacro. O próprio São Gregório tinha sido monge antes de ocupar o sólio pontifício, e foi sua afinidade pessoal com os beneditinos que lhe deu um conhecimento completo dos modos do canto litúrgico, os quais serviram como matéria-prima do canto gregoriano. Os sábios beneditinos, por sua vez, historicamente tomariam a liderança na sua interpretação, preservação e restauração.

Para os beneditinos, assim como o trabalho era realizado em comum, era natural que sua tarefa primeira, o “trabalho de Deus” — como São Bento chama o Ofício Divino —, também devesse ser partilhado em comunidade, e era a clave de sua espiritualidade e de sua vida diária. Em sua regra, São Bento admoesta: “estejamos sempre atentos ao que diz o profeta: ‘Servi ao Senhor com temor’; e também: ‘Cantai sabiamente’ e ‘Na presença dos anjos, cantarei a Vós’. Portanto, consideremos como devemos nos comportar na presença de Deus e de seus anjos e, desta forma, participemos do ofício de maneira que a mente esteja de acordo com a voz”. 20

É curioso o fato de o canto sacro ter florescido e adquirido sua forma mais perfeita em um ambiente onde, para favorecer a contemplação, os monges “deveriam ser zelosos em manter sempre o silêncio”. 21 O canto, que preenchia a maioria das horas de vigília, evidentemente não quebrava o silêncio interior dos monges, mas era consonante com ele e, de fato, fruto dele.

Ausculta, o fili […] et inclina aurem cordis tui22 — “Ouve, filho, e inclina os ouvidos de teu coração” é a exortação de abertura da regra beneditina. Silêncio que abre os ouvidos do coração para a voz não pronunciada da graça e torna a alma mais perceptiva para os significados mais profundos das palavras. Comenta o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira que os aspectos imponderáveis existentes no som musical ajudam a revelar este aspecto imponderável da palavra e “põem em foco uma porção de coisas que o sentido literal da palavra não diz”. 23

A palavra de Deus em música

Ao atingir o século XII, os beneditinos, em seu aperfeiçoamento do canto sacro, tiveram grandes discernimentos sobre a “oculta afinidade” entre palavra, música e alma, considerada por Santo Agostinho, como foi visto. Santa Hildegarda de Bingen via a palavra e a música como uma representação mística da união da natureza humana e divina, na Encarnação: “a palavra designa o corpo, mas a música manifesta o espírito. Porque a harmonia do paraíso proclama a divindade do Filho de Deus, e a palavra faz conhecer sua humanidade”. 24

São Bernardo mostra como os ouvidos corporais estão relacionados aos ouvidos do coração, ensinando dever o canto “agradar o ouvido a fim de mover o coração”. 25 O Doutor Melífluo — ele próprio autor de grande número de hinos em estilo gregoriano — afirma que os cânticos devem ser, acima de tudo, resplandecentes com a verdade, de maneira que a melodia “não deve obscurecer o significado do texto, mais propriamente, deve fazê-lo frutífero”. 26

No século XIII, São Tomás de Aquino combinaria suas habilidades musicais — as quais ele desenvolveu durante sua formação juvenil com os beneditinos de Monte Cassino — com sua extraordinária capacidade dominicana de ensinar, para compor, ambas, as melodias e as palavras de alguns dos mais valiosos hinos eucarísticos da Igreja. Para ele, “um hino é o louvor a Deus com cântico; um cântico é uma exultação da mente habitando nas coisas eternas, irrompendo na voz”. 27 Sua obra prima, Lauda Sion Salvatorem, melodicamente encerra toda a doutrina da Igreja relativa à Eucaristia.

O canto gregoriano, então, consistindo tão somente de palavras com uma única linha melódica, “traz o ‘ouvido do coração’ muito perto da palavra divina, com a finalidade de ouvi-la diretamente”. 28

Pio XII elogia esta qualidade do canto gregoriano: “Pela íntima aderência das melodias às palavras do texto sagrado, esse canto não só se enquadra a este plenamente, mas parece quase interpretar-lhe a força e a eficácia, instilando doçura na alma de quem o escuta; e isso por meios musicais simples e fáceis, entretanto, permeados de tão sublime e santa arte, que em todos suscitam sentimentos de sincera admiração”. 29

O componente musical do canto gregoriano possui ricos instrumentos de expressão a fim de colocar o texto em alto relevo, quase se tornando um com as palavras, como demonstra D. Dominic Johner: “A música gregoriana, todavia, não é meramente uma música de ornamento; ela não descreve o texto como uma guirlanda cinge uma coluna, sem conexão íntima com ela. O canto pode também tornar o texto interpretativo, expressivo e explanativo. Com frequência traz suas graduações até o ponto exato em que uma interpretação declamatória do texto cresce em calor e enfatiza aquela palavra que marca seu clímax. […] Tornar-se-á evidente que o canto une de modo perfeito o texto e a melodia, e que há uma íntima relação, uma união de espírito, entre eles”. 30

Um dos meios pelos quais o canto gregoriano revela o significado textual é através do uso da ordem das notas, ascensões, descidas e intervalos, cada um dos quais desempenha um determinado papel na interpretação do tema cantado. D. Johner ainda esclarece que os intervalos maiores e ascendentes denotam maior envolvimento da sensibilidade do que os intervalos menores e descendentes. Deste modo, uma frase melódica composta principalmente de segundas e terças — padrão predominante na maioria dos cantos — estabelece um ambiente de moderação e serenidade, com uma grande capacidade para a expressão de reverência e terna confiança. Em contraste, um intervalo de quarta cria um impacto mais forte; ascendendo, é portentoso, festivo. Para o intervalo de quinta é reservada a expressão das mais profundas experiências do espírito, seja tristeza, serena felicidade ou fé profunda e admiração. 31

Em momentos fugazes, a linha melódica do canto parece até mesmo interromper a dimensão verbal e levantar voo em puro jubilus, uma expressão musical de uma alegria além das palavras, que tipicamente ornamenta uma palavra como Alleluia. Esta forma de vocalização livre é, na pena de Santo Agostinho, “a voz do coração irrompendo em alegria, e procurando também expressar sentimentos cujo significado talvez nem compreenda. […] Quando somos jubilosos? Quando glorificamos algo que não pode ser expresso”. 32

Expressão do sobrenatural: tônico das almas

Para São Gregório Magno, o canto sacro pode de fato preparar o coração para a ação de Deus: “Através da voz da salmódia, quando é entoada com a força do coração, um caminho está preparado para o Senhor onipotente, de modo que Ele possa derramar na mente atenta os mistérios da profecia ou a graça da compunção. […] Quando Lhe cantamos, abrimos um sendeiro para que Ele possa vir à nossa alma e inflamar-nos, pela graça de seu amor”. 33 O primeiro monge Papa também compreendeu que certos sons musicais podem favorecer este encontro, em uma natureza humana tão inclinada a ater-se aos aspectos temporais e materiais da existência.

Por exemplo, uma peça musical convencional termina na nota tônica, dando um sentido de conclusão. A melodia do canto gregoriano, em contraste, quase sempre não faz esta resolução final na última nota, evocando um sentido do infinito, de eternidade. Ademais, pela extrema leveza de seu movimento, o canto gregoriano é interpretado da maneira a mais espiritual possível, embora permaneça dentro do domínio dos sentidos, pois, como comenta D. Mocquereau, ele “toma emprestado o mínimo possível do mundo material e se move, invisivelmente; ele avança, porém, imponderavelmente”. 34

Estas sugestões de imaterialidade e eternidade ecoam no canto gregoriano, e, quando assimilado ao longo do tempo pela alma, podem ajudar na formação de um estado de espírito correspondente e salutar. Para o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, ouvir canto gregoriano “lembra o aspecto penitencial, adverte contra o vazio das coisas terrenas, contra o mentiroso dos élans excessivos do próprio homem. Assim é o gregoriano. Das alegrias exultantes do Te Deum aos recolhimentos solenes do Tantum ergo, é a música que tem essa qualidade incomparável de exprimir a atitude perfeita, o exato grau de luz da alma reta e verdadeiramente inocente quando se coloca diante de Deus”. 35

Depois de haver feito o leitor passear pelos panoramas do canto gregoriano, o qual coloca a alma na dimensão do sagrado tão distinto do mundo em que vivemos, ao terminar queremos deixar-lhe um conselho: “Procure ter seu temperamento no estado do espírito do canto gregoriano, e terá encontrado uma via certa para a sua santificação”. 36

19 SÃO JOÃO CASSIANO. Collationum. Coll.I, c.17: ML 49, 507
20 SÃO BENTO. Regula. C.XIX: ML 66, 475-476.
21 Idem, c.XLII, 669.
22 Idem, Prol., 215.
23 CORRÊA DE OLIVEIRA, Palestra, op.cit.
24 SANTA HILDEGARDA DE BINGEN. Scivias sive Visionum ac Revationum. L.III, v.13: ML 197, 735-736.
25 SÃO BERNARDO DE CLARAVAL. Epistolæ. Ep.CCCXCVIII, n.2: ML 182, 610.
26 Idem, 611.
27 SÃO TOMÁS DE AQUINO. In Psalmos Davidis expositio. Proemium.
28 HERBERT, Rembert. Entrances: Gregorian chant in Daily Life. New York: Church, 1999, p.11.
29 PIO XII. Musicæ sacræ, 25/12/1955, n.3.
30 JOHNER, OSB, Dominic. The Chants of the Vatican Gradual. Collegeville (MS): St. John’s Abbey, 1940, p.10.
31 Cf. JOHNER, OSB, Dominic. A New School of Gregorian Chant. New York, Cincinnati: F. Pustet, 1925, p.252; 256; 294.
32 SANTO AGOSTINHO. Enarrationes in Psalmos. In Psalmo XCIX, n.4-5: ML 36, 1272.
33 SÃO GREGÓRIO I. Homiliæ in Hiezechihelem Prophetam. L.I, hom.1, n.15: ML 76, 793.
34 MOCQUEREAU, OSB, André. Le Nombre Musical Grégorien. Tournai: Desclée, 1932, v.I, p.112.
35 CORRÊA DE OLIVEIRA, Cântico da alma inocente, op. cit., p.3435.
36 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Dístico. In: Liber Cantualis: Hymni et cantica sacra. São Paulo: Artpress, 1989, s.p.

A palavra de Deus em música – continuação

Irmã Kyla Mary Anne MacDonald, EP

Um novo impulso à unificação da música sacra

Uma tradição medieval relativa ao santo também mostra a multissecular crença de que o canto gregoriano lhe foi divinamente inspirado e explica o motivo de ser ele representado, muitas vezes, com uma pomba ao ouvido, e transcrevendo uma música que lhe está sendo ditada.

“Foi enquanto considerava o fascínio exercido pela música profana que Gregório foi levado a se perguntar se ele não poderia, como Davi, consagrar a música ao serviço de Deus. Uma noite, teve uma visão na qual a Igreja lhe aparecia sob a forma de uma musa, escrevendo suas melodias e reunindo seus filhos sob as dobras de seu manto. Sobre este manto estava escrita a arte da música, com todas as formas de seus tons, notas, neumas, e vários compassos e harmonias. Ele rezou para que Deus lhe desse o poder de recopilar tudo o que tinha visto. Ao acordar, uma pomba apareceu e ditou-lhe as composições musicais com as quais ele enriqueceu a Igreja”. 6

São Gregório usou este especial dom artístico para proporcionar um complemento decisivo ao trabalho de outros que o antecederam na música litúrgica — notadamente Santo Ambrósio7 —, dando uma harmonia final e unificada ao canto da Igreja em Roma, e impulsionando a sua implementação universal em toda a Europa Ocidental, causa que seria levada adiante por grandes homens depois dele, em particular Carlos Magno.

O assunto música sempre foi importante para a Igreja. Toda a Idade Média — bem como o mundo antigo antes dela — foi marcada por um grande interesse pela compreensão da influência dessa arte sobre a alma. O canto gregoriano, que atingiu seu auge por volta do século XIII, representa o fruto de um longo processo de explicitação e de aprimoramento.

“Canticum novum” na Igreja

Desde os tempos antigos, o povo louvava a divindade com cânticos. Na verdade, observa o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, a alma humana “procura a música para exprimir seus mais altos anelos, seus mais altos desejos, suas mais altas expressões”. 8 Santa Hildegarda de Bingen reconhece esta inclinação, afirmando que, em estado de perfeição original, Adão no Paraíso, antes da queda, cantava em vez de falar, e em sua voz “havia o som de todas as harmonias e suavidades de toda a arte musical”. 9

Era natural que com o estabelecimento do Cristianismo um novo cântico viesse caracterizar o culto litúrgico da Igreja. Os primeiros patrocinadores da salmodia e da hinologia cristãs não olhavam senão para o Homem-Deus como o inspirador deste canticum novum, pois, após a Última Ceia, “o próprio Senhor, um professor nas palavras e mestre nos fatos, […] saiu do Monte das Oliveiras com os discípulos, depois de cantar um hino”.110

Quando se deu a assinatura do Edito de Milão, pelo Imperador Constantino, foi permitido que o culto público dos cristãos florescesse e os fiéis encontraram no canto uma bela maneira de expressar e inspirar o amor a Deus, a contrição, as súplicas, ajudando a alma a louvar o Criador.

Contribuições de três mundos antigos — a teoria musical grega, a língua e as regras da métrica literária romanas e os livros sagrados dos judeus — se uniram para desenvolver uma arte sacra inteiramente nova, visando ajudar os textos sagrados a inspirar os corações daqueles que os ouviam.

Um elo entre o mundo dos sentidos e do espírito

Durante os primeiros séculos do Cristianismo, os Padres da Igreja viram na música e, sobretudo, no canto, um elo entre o mundo dos sentidos e o do espírito que poderia ajudar o homem no processo de transcendência espiritual. A esse respeito, as palavras de São João Crisóstomo são significativas: “Nada desperta tanto a alma, dando-lhe asas, deixando-a livre da terra, liberando-a da prisão do corpo, ensinando-a amar a sabedoria e rejeitar todas as coisas desta vida, como a melodia concordante e o cântico sacro”. 11

Misteriosa era, porém, a questão de como a palavra cantada obtinha maior entrada na alma do que a palavra falada. Santo Agostinho observa: “sinto que o nosso espírito se move mais religiosa e ardentemente para a chama da piedade com aquelas letras sacras, quando assim são cantadas, do que se não fossem cantadas deste modo”; refletindo mais sobre este mistério, não é capaz de explicá-lo inteiramente: “todos os afetos do nosso espírito, cada um segundo a sua diversidade, têm na voz e no canto as suas próprias medidas, não sabendo eu qual é a oculta afinidade com essas melodias que os desperta”. 12

A perspectiva medieval da música é também demonstrada por Boécio: “a música é de tal forma parte de nossa natureza que nós não podemos passar sem ela, mesmo que queiramos”. 13 Para ele, os ouvidos são vistos como uma vereda direta para a alma, a qual é altamente suscetível às influências da música. 14

Parte da eficácia da música na conquista do acesso à alma foi atribuída à sua inata qualidade de agradar. Ela eleva a expressividade das palavras no cântico, tornando-as de mais fácil recordação ao ouvinte. São Nicetas chamava a música sacra de “remédio, suficientemente poderoso na cura das feridas do pecado, embora doce o suficiente ao paladar, por sua virtude. Por isso, quando um salmo é cantado, é doce ao ouvido. Penetra na alma porque é agradável. É facilmente retido, se é repetido com frequência”. 15

É ainda Santo Agostinho quem testemunha ter sentido, em si, tais benefícios, referindo-se à música da Igreja como uma das mais poderosas influências para sua conversão. Suas palavras uma vez mais sublinham como a alma é iluminada pelo que captam os ouvidos: “Quanto chorei ouvindo vossos hinos, vossos cânticos, os acentos suaves das harmonias que ecoavam em vossa Igreja! Que emoção me causavam! Fluíam em meu ouvido, destilando a verdade em meu coração”. 16

Antes da difusão dos livros, quando a fé literalmente vinha através do ouvido (cf. Rm 10, 17), os cânticos eram também importantes instrumentos didáticos de doutrina. Santo Atanásio, no Oriente, por exemplo, e Santo Hilário de Poitiers, no Ocidente, fortaleceram as populações, contra os males do arianismo, escrevendo hinos os quais refutavam seus erros. Deste modo, as verdades da Fé eram fácil e afetuosamente assimiladas, atingindo um público muito maior do que as palavras escritas, porque, como ressalta a historiadora Régine Pernoud, “naquele tempo, se nem todos aprendiam a ler, todos aprendiam a cantar”. 17

Defensor do valor pedagógico da arte sacra, São Gregório Magno assim escreveu para dissuadir as atividades iconoclastas de um de seus bispos: “O que a Escritura é para os letrados, as imagens são para os ignorantes; […] elas são para o povo a sua leitura”. 18 Porém, em terras onde apenas começavam a experimentar a Civilização Cristã, o esplendor dos vitrais e outras artes visuais tardariam em aparecer. Discerniu ele, então, estarem as melodias do canto gregoriano preparadas para fluir sobre as almas de seus ouvintes com toda sua grandeza, exercendo o mesmo tipo de influência educativa que as outras artes.

Continua no próximo post

6 DONAHOE, Daniel Joseph. Early Christian Hymns: Translations of the Verses of the most notable Latin writers of the Early and Middle Ages. New York: Grafton, 1908, p.88.
7 Atribui-se a Santo Ambrósio a primeira sistematização da música da Igreja, a composição de numerosos hinos e a origem dos quatro primeiros modos, conhecidos como os “autênticos” modos. A tradição também atribui a adição dos outros quatro modos, conhecidos como os modos “plagais” a São Gregório, e nestes oito modos ou escalas foi composta toda a música gregoriana da Igreja (Cf. TERRY, Richard R. Catholic Church Music. London: Greening, 1907, p.54).
8 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Palestra. São Paulo, 13 jun. 1982.
9 SANTA HILDEGARDA DE BINGEN. Epistolarum Liber. Ep. XLVII: ML 197, 220.
10 SÃO NICETAS DE REMESIANA. Opusculum de psalmodiae bono. Op.II, c.3: ML 68, 373.
11 SÃO JOÃO CRISÓSTOMO. Expositio in Psalmos. In Psalmum XLI, n.1: MG 55, 156.
12 SANTO AGOSTINHO. Confessionum. L.X, c.33, n.49: ML 32, 799-800.
13 BOÉCIO. De Musica. L.I, c.1: ML 63, 1171.
14 Cf. Idem, 1169.
15 SÃO NICETAS DE REMESIANA, op.cit., c.1, 372.
16 SANTO AGOSTINHO, op.cit., L.9, c.6, n.14, 769.
17 PERNOUD, Régine. Pour en finir avec le Moyen Age. Paris: De Seuil, 1977, p.54.
18 SÃO GREGÓRIO I. Registri Epistolarum. L.XI, Epist.XIII: ML 77, 1128.

A palavra de Deus em música

Irmã Kyla Mary Anne MacDonald, EP

Imersos na agitação do mundo atual, sempre absorvidos pela pressa, pela velocidade e pelo ruído, talvez não nos seja tão fácil conceber um ambiente diferente. Entretanto, convidamos o leitor a parar um pouco agora, e imaginar…

Imaginar um mosteiro, com um claustro austero, silencioso, acolhedor e elevado, por onde circulam alguns monges, sem pressa e recolhidos, dirigindo-se a uma capela iluminada apenas pela luz tamisada por uns belos vitrais coloridos.

Estes valorosos homens, tendo abandonado tudo para o serviço da Religião, dedicam sua vida ao trabalho, ao estudo e à oração. E como forma de externar o amor transbordante de seus corações, habitados pela graça, se unem em uma só voz para dirigir-se a Deus. Em uníssono, entoam hinos e cânticos que enchem o templo sagrado de melodias suaves e apaziguantes…

Já estará nosso leitor com o estado de espírito pronto para compreender qual é este estilo de canto e suas origens, para admirar a misteriosa riqueza e a elevada qualidade que fizeram dele o cântico sacro por excelência.

O canto gregoriano

O canto gregoriano é uma forma de música diferente de qualquer outra executada, hoje, no Ocidente. Distinto da polifonia, ele é uníssono e sua perfeição é atingida quando uma única voz se faz ouvir, mesmo sendo grande o conjunto que o entoa.

Em contraste com outros estilos musicais, nos quais um compasso regular e ritmado pode ser logo percebido, o canto gregoriano é caracterizado por seu ritmo livre, parecendo flutuar no ar, liberto do tempo, em um movimento ascendente e descendente que convergiram rumo à perfeição assemelhado às ondas do mar.

Enquanto a música comum e corrente, de modo geral, é composta em uma escala maior ou menor, dando-lhe características distintas de tristeza ou alegria, os oito modos do gregoriano transmitem uma gama mais sutil de expressão, num equilíbrio perfeito, parecendo sempre evitar os extremos emocionais dramáticos.

Estas são apenas algumas das razões pelas quais, para ouvidos pouco acostumados a ele, o canto gregoriano pode dar, à primeira vista, a impressão de ser monótono. Contudo, ao deixar-se levar por sua harmonia, a pessoa é tocada pela força singular de uma forma de canto que traz consigo séculos de sabedoria e reflete gerações de talentos religiosos que convergiram rumo à perfeição de suas melodias — suas “inspiradas modulações”, 1 na expressão do Papa João Paulo II.

Assim, apesar de uma aparência simples, carrega dentro de si, como observa o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, uma formidável riqueza, “uma potencialidade quase inexaurível de gerar civilizações e maravilhas em qualquer parte do mundo. É a força da inocência aliada à graça, que transformou, por exemplo, os pântanos e vales mefíticos da antiga Europa em jardins salpicados de vida e de cor, onde, entre arvoredos e lagos lindíssimos, avantajam-se grandiosas abadias, imponentes castelos e majestosas catedrais. Uma Europa ‘gregorianizada’”. 2

Poder de mover as almas

Um dos mais ilustrativos exemplos do poder transformador deste canto o temos na conversão dos anglos. A iniciativa do Papa São Gregório I, o Magno, de penetrar na ilha dominada por estes bárbaros foi marcada pelas seguintes palavras: “o louvor de Deus Criador deve ser cantado naquelas terras”. 3 Sob sua direção, Santo Agostinho de Cantuária entrou na Grã-Bretanha, em cortejo com 40 outros beneditinos, entoando as “solenes e tocantes melodias que lhes havia ensinado Gregório, seu pai espiritual e pai da música religiosa”. 4 O celestial canto dos recém-chegados foi decisivo para a conversão do povo, em pouco tempo.

Tal episódio, um entre tantos no processo de “gregorianização” da Europa Ocidental, mostra que o Papa — cujo nome deu origem à denominação deste estilo musical — possuía uma profunda compreensão de como a música pode mover as almas com mais eficácia do que conseguem as simples palavras. Aqueles cantos eram a mais sobrenaturalizada das músicas e, no entanto, foram capazes de cativar bárbaros e camponeses completamente ignorantes em coisas espirituais e não habituados a refinados sons.

É o que ficou registrado na História: Gregório I “compôs com grande trabalho e destreza musical os cantos que são cantados em nossa Igreja e por toda a parte. Por este meio, ele influenciava mais efetivamente os corações dos homens, elevando-os e animando-os; e, na verdade, o som de suas doces melodias conduziu não apenas homens espirituais à Igreja, mas até mesmo os rudes e insensíveis”. 5

Continua no próximo post.

1 BEATO JOÃO PAULO II. Lettera agli artisti, 04/04/1999, n.7.
2 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Cântico da alma inocente. In: Dr. Plinio. São Paulo. Ano V. N.57 (Dez., 2002); p.34.
3 SÃO BEDA. Historiam Ecclesiasticam Gentis Anglorum. L.II, c.1. In: Opera Historica. London: Oxford University, 1896, p.80.
4 CONDE DE MONTALEMBERT. Les moines d’Occident depuis saint Benoît jusq’à Saint Bernard. Paris: J. Lecoffre, 1866, v.III, p.363.
5 LEÃO IV. Letter to the Abbot Honoratus. Collectio Britannica, apud BÄUMER, OSB, Suitbert. Histoire du Bréviare.Paris: Letouzey et ané, 1905, t.I, p.345, nota.

Viver de amor

Raphaela Nogueira Thomás

Quando se ama, o amor como que governa a vontade, e esta se inclina ao objeto amado. Assim, toda ação do homem, indiferentemente considerada, é impulsionada pelo amor. O agir, coordenado simplesmente pelo sabor da ação, não existe. É necessário ressaltar que Santo Agostinho define que há dois amores; ou seja, ou há o amor a Deus – e às demais criaturas em função deste – ou há o amor a si, até o esquecimento de Deus. 1

Em se tratando da natureza humana, a capacidade que esta possui de amar é limitada e, pelo mesmo, estará sempre procurando o bem existente em algo, para nele repousar. Ora, não dedicando esse amor ao que realmente deveria ser o objeto dele, acaba-se por desenfrear-se nas mais absurdas e caóticas ações, procurando o que, de si, não pode trazer tranqüilidade de alma.

Há, entretanto, almas que, ricas em generosidade, entendem o fundamento do verdadeiro amor como querendo devotá-lo só e exclusivamente ao serviço de Deus, resolvendo por consagrar-se inteiramente a Ele. Um dos níveis, por assim dizer, desta consagração é o estado de virgindade, em que a alma quer de tal forma se entregar, que oferece a Deus o holocausto de seu próprio ser, nas sendas puras e intactas da via religiosa.

O Pe. Royo Marín assim correlaciona a virgindade ao amor: “Jamais alguém é casto senão por amor; e a virgindade não é aceitável nem expansiva senão ao serviço do amor”. 2

Por outro lado, o amor a Deus se concretiza no amor ao próximo e no serviço aos outros; isto é, faz com que, literalmente, vivamos por amor. É o que Santa Teresinha propriamente personificou em sua Pequena Via e, de modo particular, em um de seus poemas “Vivre d’Amour”:

Viver de amor é banir todo o temor!
Toda lembrança das faltas do passado.
De meus pecados não vejo na minha alma nenhuma marca,
Pois num instante o amor tudo apagou.
Chama divina, ó doce fornalha,
Em teu seio eu fixo minha habitação;
E em tuas labaredas canto à vontade:
Eu vivo de amor!
3

Nisso se centra retamente a virgindade e, longe de diminuir o amor aos demais, dilata-o ao infinito, com inteiro desinteresse e caridade fraterna. E da mesma forma que consideramos pura uma água saída do mais profundo das entranhas da Terra, também é puro o amor que, saído do mais profundo do coração humano, se eleva a Deus e de lá, em veio límpido e cristalino, desce, como do alto de uma montanha, sobre todas as criaturas.

1SANTO AGOSTINHO DE HIPONA. A cidade de Deus, L. XIV, c.28 1998, p.298
2ROYO MARÍN, Antonio. La vida Religiosa. 2.ed. Madrid: BAC, 1965.
3TERESA DE LISIEUX apud PLINIO CORREA DE OLIVEIRA Revista Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei, n.111. jun. 2007.

Confiança, a regra de ouro

Ir. Carmela Werner Ferreira, EP

As horas difíceis são também as horas da Divina Providência, nas quais Ela atua no fundo das almas e ali obra prodígios não menores que os narrados pelos Livros Sagrados ou pela História da Igreja.

Ergue-se na cidade de Petrópolis um edifício de harmoniosas proporções, conhecido pelo nome de Palácio Rio Negro. Célebre por ter servido como residência oficial de verão aos presidentes da República Velha, o prédio reassumiu em 1997 este honroso papel no panorama nacional. A distinção e o bom gosto de seus salões nos falam de recepções memoráveis, jantares de gala e negociações diplomáticas de alto interesse para o País.

Entretanto, pouco conhecida é a história de uma jovem que habitou essa mansão no final do século XIX: Francisca do Rio Negro, nona filha de Manuel Gomes de Carvalho Filho, Barão do Rio Negro, e de Emília Gabriela Teixeira Leite de Carvalho. A vida admirável desta aristocrata nascida nos anos de prodigalidade do ciclo do café contém lances dignos de figurar nas melhores páginas da hagiografia católica. Um desses episódios, comovente e rico em exemplos, cabe-nos hoje considerar.

Uma alma magnânima nascida em berço de ouro

Dada a importância social e a opulência de sua família, Francisca do Rio Negro veio ao mundo em berço de ouro. Possuía já nos primórdios o que para muitos constitui a ambição de toda a vida: fortuna, prestígio e beleza. Este ponto de partida deu-lhe a oportunidade de experimentar a grande verdade do Livro Sagrado: “Vi tudo quanto se faz debaixo do sol, e eis: tudo vaidade e vento que passa” (Ecl 1, 14). Como fruto de sua magnanimidade, sentia em si um apelo para elevados ideais e superiores dedicações, não podendo compreender uma existência empregada apenas a serviço de seus próprios interesses.

Assim, sob os auspícios do Papa São Pio X, deu início em Roma a uma Congregação religiosa feminina destinada a impetrar graças em favor do Sumo Pontífice e dos sacerdotes: a Companhia da Virgem. A missão de fundadora, para a qual Deus chama almas fortes, exigiu dela não pequena disposição de confiar contra todas as aparências de fracasso.

No seu horizonte interior não cabia a desconfiança

Madre Francisca de Jesus, como era chamada em religião, ainda não terminara de alicerçar a obra nascente quando se viu atingida pelo mal de Basedow. Tal enfermidade, da qual veio a falecer, prostrou-a por doze anos e minou-lhe a saúde a ponto de tornar impossível sua permanência à frente da comunidade.

A esse estado de extrema debilidade — a doença abalou, inclusive, seu sistema nervoso —, somaram-se não poucas penúrias materiais que comprometeram seriamente a existência da recém-fundada Congregação. Muitas irmãs, desacoroçoadas pelo infortúnio, abandonavam a vocação, num triste cortejo de deserções. A cada dia o contingente do mosteiro diminuía, sem que a fundadora pudesse abandonar o leito para tomar medidas capazes de reverter o quadro.

Madre Francisca se encontrava imersa em aflitiva situação: além de enferma, via-se diante de uma comunidade depauperada e incapaz de levar às últimas consequências o ideal abraçado outrora com ânimo e fervor. Era a derrocada de seus santos anseios, o fracasso de anos inteiros de integral dedicação!

Sem perder a calma nem se levar pelo amor-próprio, ao qual não dava entrada em sua alma, permanecia ela em sua cela, perseverante na oração. À vista dos insucessos, seu fervor não esmoreceu, nem seu horizonte interior, habituado à contemplação dos mistérios divinos, foi tisnado por um só pensamento de desconfiança em relação ao Deus de Quem, em última análise, emanava a permissão para que tudo isso acontecesse.

De repente, abre-se uma avenida luminosa

Os sofrimentos de Madre Francisca foram particularmente atrozes no dia 28 de outubro de 1922, e quando ela se perguntava se ainda conseguiria suportá-los, lhe sobreveio a consideração dos padecimentos muitíssimo maiores do HomemDeus em Sua Paixão. Nesse momento — fato prodigioso! —, apareceu delineada na parede da cela a Sagrada Face de Nosso Senhor Jesus Cristo crucificado. Ato contínuo, ela se encontrou inundada de paz, acrescida da sobrenatural certeza de estar cumprindo em tudo os desígnios do Redentor e de sua Santa Mãe.

Essa maravilhosa manifestação da bondade divina infundiu na alma da fundadora um aumento de forças para prosseguir com resignação sua via de dores. E não só ela, mas também as demais freiras se sentiram robustecidas, a ponto de superarem o estado de penúria e prestarem naquele convento, por longos anos, muitos serviços à causa de Deus.

Grande e profícua fora a confiança de Madre Francisca, pois a situação que parecia encerrar-se num beco sem saída, abriu-se de repente numa avenida luminosa, de heroísmos, esperanças e realizações. O modo como isso se deu, porém, não consistiu numa sequência de ostensivos triunfos sobre as adversidades, mas em esforços e sacrifícios premiados pelas bênçãos de Deus. Muitas vezes, Ele Se compraz em não retirar por completo as agruras do caminho de seus filhos, mas em pedir deles um novo ato de confiança a cada passo.

Habituemo-nos a ver todas as coisas em Deus

Os cristãos fervorosos que, como Francisca do Rio Negro, se empenham em seguir muito de perto os passos do Cordeiro, oferecem à Igreja um eloquente testemunho do poder da graça sobre as almas. Embora não tenham experimentado a felicidade de contemplar a figura do Mestre caminhando pelas ruas de Cafarnaum, pregando na barca ou curando os enfermos, o intenso comércio com o sobrenatural modela o seu interior segundo a mais perfeita compreensão das palavras proferidas um dia por Jesus em Israel: “Não vos preocupeis com o que é preciso para a vossa vida” (Lc 12, 22), ou ainda: “Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados. Não temais” (Lc 12, 7).

Ao calor dessas divinas promessas, os justos adquirem a entranhada certeza de estarem orientando suas existências em função de uma realidade toda feita de predileção, mais elevada do que a terrena. Sabemse instrumentos para a exaltação do Criador, mesmo quando não alcançam vislumbrar de imediato a forma em que isso será realizado. Eles parecem repetir, pela alegre aceitação tanto das bonanças como das borrascas, as palavras que Madre Francisca escolheu por sua divisa: “Faça-se! Aleluia!”. 1

Atingir esse heroico grau de abandono à Providência Divina é privilégio de uns poucos, mas todos quantos se consideram discípulos do Bom Pastor devem ter certeza de que Ele nos conduz por caminho seguro (cf. Sl 22, 3), conhece nossas necessidades (cf. Lc 12, 30), e é incomparável nos desígnios a nosso respeito (cf. Sl 39, 6).

Daí que o padre Garrigou-Lagrange, eminente dominicano que foi diretor espiritual e biógrafo da Madre Francisca, nos convide a receber com ânimo generoso todos os acontecimentos da vida presente: “Habituemo-nos pouco a pouco a ver, na penumbra da fé, todas as coisas em Deus: os sucessos agradáveis, como sinal de Sua bondade; os acontecimentos adversos e imprevistos, como um apelo a subir mais alto, como graças ocultas, purificadoras, às vezes muito mais preciosas que as próprias consolações. São Pedro estava mais próximo de Deus quando estendia seus braços para ser crucificado, do que no cume do Tabor”. 2

O exemplo de São Pedro

Almas pode haver que não sintam em si essa generosa disposição interior. A elas cabe aplicar a justa admoestação que, com um timbre de voz perpassado de compaixão, Nosso Senhor fez a São Pedro: “Homem de pouca fé, por que duvidaste?” (Mt 14, 31).

Mas é importante lembrar-lhes também o quanto o Príncipe dos Apóstolos teve seus impulsos interiores transformados pela ação do Espírito Santo, depois de Pentecostes. Já não se turbava ante as maiores contrariedades, pregava com denodo no Templo (cf. At 3) e escrevia às ovelhas de seu rebanho: “Descarregai sobre Ele todas as vossas preocupações, porque Ele cuida de vós” (I Pd 5, 7).

Renovado pelo sopro do Paráclito, era ele impelido a não contemplar a realidade da vida presente com a pusilanimidade dos dias antigos, mas a descobrir a cada passo — até nos maiores sofrimentos — os desígnios que a benevolência de Cristo lhe reservara: “Se sois ultrajados por causa do nome de Cristo, bem-aventurados sois” (I Pd 4, 14).

Sob esse prisma sobrenatural, de confiança nos desígnios de Deus e na ação do Espírito Santo, a vida humana reveste-se de extraordinário significado, passando a ser como um turíbulo capaz de alçar incenso odorífico ao trono da Santíssima Trindade. E tanto mais alto chegará o sacrifício de louvor, quanto mais confiante for o “sim” da alma aos ditames da Providência: “É quanto exijo dos meus servidores; tal será a prova de que Me amam”, disse o Senhor a Santa Catarina de Sena. 3

Bondade inesgotável de Jesus

Abandonar-se nos braços da Providência constitui uma obra de amor, só realizável por aqueles que se deixam conquistar por Jesus. No decorrer de Sua vida pública, numerosos são os exemplos dos que passavam a esperar do Divino Mestre o rumo para seus destinos, apoiados na bondade inesgotável da qual Ele dava provas.

Ao paralítico estendido no leito, Nosso Senhor deitou um olhar cheio de comiseração, e disse: “Filho, tem confiança, são-te perdoados os pecados” (Mt 9, 2). E em seguida o curou. À mulher enferma, impelida por sua fé a tocar-Lhe a orla do manto, exclamou: “Tem confiança, filha, a tua fé te salvou” (Mt 9, 22).

Também as criancinhas, conduzidas por suas mães, lançam-se nos braços de Cristo e auscultam as pulsações daquele Coração cujas delícias consistem em estar com os filhos dos homens. Mais adiante, encontramos Zaqueu em cima da árvore, disposto a trocar os lucros ilícitos pela amizade de Cristo. E nem sequer os gregos estão alheios a essa presença arrebatadora, pois eles se aproximam de Filipe e lhe imploram: “Queremos ver Jesus!” (Jo 12, 21).

Todos recebem a cura do corpo e do espírito, sentindo-se alvo de uma ternura desconhecida, que dissipa as trevas e afugenta as angústias. Mais ainda, o ímpeto de um amor tão excelente transforma os critérios daquelas almas, trocando a figura de um Senhor ao Qual se serve, pela de um Pai a Quem se ama: “Pai nosso que estais no Céu” (Mt 6, 9).

Pois bem, quem hoje assim se apresenta diante do Redentor, também tem abertas diante de si as portas do seu Coração. Como quando vivia sobre a terra, Ele Se debruça sobre as nossas debilidades e nos trata com essa indizível misericórdia, dando-nos motivo para d’Ele esperar tudo quanto necessitamos, certos de que Quem por nós ofereceu Sua própria vida nada nos negará.

As “armas da luz”

Muitas são as razões para incentivar-nos à confiança. A Eucaristia constitui, certamente, a maior delas, por ser “fonte e centro de toda a vida cristã”, 4 alimento da vida sobrenatural no mundo. Onde houver um tabernáculo, ali estará a origem de toda alegria, a solução de todos os males, a luz para qualquer caminho obscuro.

Quem se aproxima do Santíssimo Sacramento e, mais ainda, quem comunga, recebe uma força espiritual superior às energias humanas, prefigurada pelo pão levado por um Anjo ao profeta, no deserto: “Elias levantou-se, comeu e bebeu e, com o vigor daquela comida, andou quarenta dias e quarenta noites, até Horeb, a montanha de Deus” (I Rs 19, 8). Não sem razão, afirma São Pedro Julião Eymard: “A virtude característica da contemplação da Eucaristia e da Comunhão — união perfeita a Jesus — é a força”. 5

Apesar desse auxílio, a debilidade ainda pode persistir na nossa natureza decaída. Daí que hereges como os albigenses e os jansenistas tenham difundido um sentimento de desespero, dedicando-se a espalhar a crença de ser o pecado um mal irremediável, próprio a nos afastar definitivamente de Deus. Nada mais enganoso! Quem pode sustentar que o Preciosíssimo Sangue derramado no madeiro não é suficiente para expiar todas as nossas faltas?

Na penumbra do confessionário, quando o penitente declina suas culpas ao ministro de Cristo e recebe a absolvição, derramam-se sobre ele, uma vez mais, os méritos do Sacrifício do Mártir do Gólgota, restituindo-lhe a graça, os dons e virtudes tal como ele os possuía no dia do Batismo. Uma paz suave e difícil de ser descrita se segue ao perdão. Tudo foi apagado!

Compadecido ainda da nossa orfandade, e desejando revelar-nos o lado materno de Sua Divindade, o Senhor nos ofereceu o tesouro que Lhe era mais caro: Maria, sua Mãe, cujo poder de intercessão foi assim exaltado por São Bernardo: “Se A segues, não te desviarás; se recorres a Ela, não te desesperarás. Se d’Ela te lembrares, não cairás no erro. Se Ela te sustenta, não te precipitarás. Nada temerás se te protege; se te deixas levar por Ela, não te fatigarás; com seu favor, chegarás a porto”. 6

As “armas da luz” (Rm 13, 12), das quais São Paulo nos recomenda fazer uso, não são apenas essas aqui enunciadas. Enumerá-las é quase impossível; escapam a qualquer cálculo, pertencem à “multiforme graça de Deus” (I Pd 4, 10). Cumprenos, isto sim, recebê-las com proveito e nelas confiar, agradecidos pelo fato de Deus nos conceder muito mais do que pedimos e merecemos: “Exorto-vos a não receberdes a graça de Deus em vão” (II Cor 6, 1).

Regra de ouro nos nossos dias

Atravessamos dias obscuros, inegavelmente. Onde caem nossos olhos, ali pairam o erro, a violência, o egoísmo e o pecado, na maioria das vezes em situações tão complexas a ponto de redundarem em fracasso as melhores iniciativas para revertê-las.

Esta realidade não impede nem dessora a atuação da graça. Pelo contrário, devemos lembrar-nos de que as horas difíceis são também as horas da Divina Providência, nas quais Ela atua no fundo das almas e ali obra prodígios não menores que os narrados pelos Livros Sagrados ou pelos apaixonantes volumes da História da Igreja.

Nos nossos dias, a confiança tende a se afirmar cada vez mais como a regra de ouro, o farol das almas fiéis que não negam seu testemunho de ufania, mas empenham-se em transmitir ao homem de hoje a certeza da bondade de Nosso Senhor. E, junto com ela, a palavra com a qual o Mestre instruiu seus mais íntimos amigos: “Tende confiança! Eu venci o mundo!” (Jo 16, 33).

1GARRIGOU-LAGRANGE, OP, Réginald. Madre Francisca de Jesus. São Paulo: Tipografia Beneditina Santa Maria, 1940, p.32.
2GARRIGOU-LAGRANGE, OP, Réginald. La Providencia y la confianza en Dios. 2.ed. Buenos Aires: Desclée de Brouwer, 1942, p.133.
3SANTA CATARINA DE SENA. Diálogo sobre a Divina Providência. 8.ed. São Paulo: Paulus, 2004, p.222.
4 Lumen Gentium, n.11.
5 SÃO PEDRO JULIãO EYMARD. A Divina Eucaristia. São Paulo: Loyola, 2002, v.I, p.97.
6 SÃO BERNARDO DE CLARAVAL. Sermo II in Laudibus Virginis Matris. In: Obras Completas. 2.ed. Madrid: BAC, 1994, v.II, p.639.

Ele veio para todos…

Ir. Clara María Morazzani, EP

Sábios e iletrados, ricos e pobres, reis e pastores têm seu lugar de dileção aos pés do Menino Jesus.

Quem se aproxima, em espírito, da manjedoura na Gruta de Belém, encontra um Menino tenro, mas cheio de vida e de luz. Contemplando-O com os olhos da fé, fica-se abismado ao considerar que ali está o próprio Deus feito homem. Sim, esse mesmo Menino mais tarde estará curando leprosos, devolvendo a vista a cegos, fazendo andar paralíticos, ressuscitando mortos ou acalmando tempestades. No final de sua vida, Ele será desprezado pelas multidões, injuriado, flagelado e pregado numa cruz. Mas ressuscitará ao terceiro dia de forma gloriosa, subirá aos céus e se sentará à direita do Pai como rei triunfante supremo. É assim que Ele deverá vir, pela segunda vez, no dia do Juízo Final, para julgar os vivos e os mortos.

Veio para os pobres…

Em sua primeira vinda, quis Jesus manifestar-Se aos homens revestido de nossa fraqueza, como débil e indefesa criança, padecendo fome, sede, frio e em tudo se assemelhando à nossa humana condição.

Junto ao presépio, encontraremos os pastores. Homens rudes e humildes, ocupados apenas na guarda noturna de seus rebanhos, viram-se, de repente, circundados por uma claridade divina que os encheu de grande temor. Mas logo, animados pelas tranquilizadoras palavras do anjo, correram para aquela feliz gruta onde, com grande reverência, aproximaram-se para adorar o Menino envolto em pobres panos e reclinado sobre míseras palhas.

… e para os ricos

Erroneamente, porém, poderia alguém pensar ter Ele vindo só para os simples pastores e as pessoas menos abastadas. Para desfazer essa ideia por demais simplificada e unilateral, bastaria permanecer mais alguns dias junto ao Menino e ser surpreendido por um séquito real cheio de cores, pompa e majestade.

De onde procedia aquela longa, misteriosa e rica caravana, composta de guerreiros fortes e audazes, de pajens vestidos de seda, avançando ao som de trombetas e ao rufar compassado dos tambores? O que significava essa “inundação de camelos e dromedários” (Is 60, 6) carregados de riquezas, previstos com tanta antecedência pelo profeta Isaías? Quem seriam esses três soberanos à procura do “Rei dos judeus que acabava de nascer”? (Mt 2, 2).

Chamavam-se Melquior, Gaspar e Baltazar e, segundo a tradição, representavam as três raças da família humana. O Evangelho nos conta serem eles provenientes do longínquo e enigmático Oriente, tendo viajado até a Judeia guiados por uma estrela.

E aqui nos aparece o primeiro traço do extraordinário chamado que lhes foi feito. Aos pastores se manifesta visivelmente um anjo de luz, revelando por palavras a grande alegria do nascimento do Salvador. Àqueles reis, porém, essa mesma notícia é comunicada pelo aparecimento de uma maravilhosa estrela acompanhada de uma voz interior a tocar suas almas. Assim no-lo explica São Tomás, citando o grande Papa Leão: “Além da imagem que estimulou o olhar corporal, o raio ainda mais luminoso da verdade instruiu até o fundo os seus corações no que concernia à iluminação da fé” 1.

Fé levada até o heroísmo

Bem se poderia aplicar neste caso o famoso ditado francês: noblesse oblige (a nobreza impõe obrigações). Daqueles Magos, até então mergulhados nas trevas do paganismo, a Providência exigiu um heroísmo de fé que não foi pedido aos pastores, herdeiros das promessas messiânicas do povo eleito. Quanto drama havia naquela viagem! Alertados pelo súbito fulgor de uma estrela, os Reis Magos abandonam sem hesitação a calma e o conforto de seus palácios para lançar-se em longa viagem cheia de fadigas e perigos, através de desertos e montanhas…

E tanto esforço, para quê? Para ir prostrar-se em adoração diante de um menino recém-nascido! A extrema pobreza na qual Se lhes apresentou Aquele a quem buscavam com santo afã, em nada abalou a sobrenatural certeza vincada em seus corações, de ser Ele o Rei dos reis. Afirma o Doutor Angélico: “Deve-se dizer como Crisóstomo diz: ‘Se os Magos tivessem vindo procurar um rei terrestre, teriam ficado decepcionados, por terem enfrentado sem motivo as dificuldades de um caminho tão longo’. E assim, nem O teriam adorado, nem Lhe teriam oferecido presentes. ‘Mas, porque procuravam o Rei do Céu, mesmo não vendo n’Ele nada da majestade real, O adoraram satisfeitos unicamente com o testemunho da estrela’. Viram um homem e nele reconheceram Deus. E ofereceram presentes adequados à dignidade de Cristo: ‘Ouro, como a um grande rei; incenso, utilizado nos sacrifícios divinos, como a Deus; e mirra, com a qual são embalsamados os corpos dos mortos, indicando que iria morrer pela salvação de todos’” 2.

Deste modo, os três Reis nos ensinaram quais os presentes mais agradáveis ao Menino-Deus, por ocasião da festa da Epifania: o ouro fino e puro das boas obras, praticadas com desinteresse e pureza de intenção; o incenso perfumado das orações feitas com sincera piedade e devoção; e a mirra dos sofrimentos e sacrifícios suportados ao longo de nossa vida com verdadeiro amor e alegre resignação.

Jesus está à espera de todos nós

Apresentemos, então, com os Magos, nossas modestas ofertas aos pés do berço onde dorme sereno o pequeno Rei vindo para nos redimir. Ele está à espera de todos nós, de todos os homens de boa vontade que queiram seguir seus passos. Esta é a lição que nos deu já no começo de sua existência terrena: “A salvação que Cristo iria trazer concernia a todo tipo de homens, pois, como diz a Carta aos Colossenses: ‘Em Cristo não há mais homem e mulher, grego e judeu, escravo e homem livre’, e assim quanto às outras diferenças. E para que isto estivesse prefigurado no próprio nascimento de Cristo, Ele se manifestou a homens de todas as condições. Pois, como diz Agostinho: ‘Os pastores eram israelitas, os magos pagãos; aqueles estavam perto, estes longe; uns e outros se encontraram na pedra angular’. Havia ainda entre eles outro tipo de diversidade: Os magos eram sábios e poderosos, os pastores, ignorantes e de condição humilde” 3.

E São Leão Magno exclama: “Que todos os povos representados pelos três Magos adorem o Criador do universo; e Deus não seja conhecido apenas na Judéia mas no mundo inteiro, a fim de que por toda parte ‘o seu nome seja grande em Israel!’ (Sl 75, 2)”4.

Se contemplarmos Jesus com olhar admirativo e cheio de fé, veremos que esse é o Menino dos contrários harmônicos. Ele veio para todos: pobres humildes, reis majestosos. Ele está à disposição de toda e qualquer classe social, de toda e qualquer cultura, de toda e qualquer raça. Ele veio para salvar a todos.

1) Suma Teológica III, q. 36, a. 5.
2 ) Idem, III, q. 36, a. 8.
3 ) Idem, III, q. 36, a. 3.
4 ) São Leão Magno, Sermo 3 in Epiphania Domini.

Não te é lícito!

Irmã Maria Teresa Ribeiro Matos, EP

A verdade é invencível porque sua força provém do próprio Deus. Por mais que ela sofra aparentes derrotas, sempre acaba por triunfar.

Non licet tibi” — “Não te é lícito” (Mc 6, 18). As graves palavras do Precursor ressoavam nos ouvidos de Herodes Antipas, lembrando-lhe quanto desagradava ao Céu sua incestuosa união com Herodíades, a esposa de seu irmão Filipe.

E quando, a instâncias de Salomé, os lábios de São João Batista foram para sempre calados pela espada do verdugo, dir-se-ia que essas recriminações haveriam de cessar definitivamente. Entretanto, não foi assim: o rei criminoso viveria até o fim de seus dias atormentado pela lembrança do profeta que continuava a interpelá-lo: “Non licet tibi”!

Há nesta passagem evangélica um exemplo paradigmático da luta entre o bem e o mal na face da Terra. De um lado está o rei adúltero, orgulhoso, sensual e egoísta, lutando por satisfazer seus vícios e interesses; de outro, uma alma de inquebrantável retidão, disposta a defender a Lei do Altíssimo, com o preço de seu sangue se preciso fosse. Na aparência, a vitória foi do primeiro; mas, na realidade, nem o cárcere nem o patíbulo conseguiram silenciar a força da verdade proclamada com destemor por quem era justo.

Mais de um milênio após esse episódio, tendo a Igreja civilizado as nações e estabelecido sua influência espiritual sobre elas, uma voz serena e firme como a do Precursor fez-se ouvir na Inglaterra, recordando a um rei tirano os limites do poder real: a de São Thomas Becket.

O início de uma contenda

Era o dia 1º de outubro de 1163. Começava na abadia de Westminster o sínodo convocado pelo rei Henrique II para debater questões concernentes ao governo da Igreja na Inglaterra. O monarca não concordava com o privilegium fori do clero e, ademais, não admitia que súditos seus fossem excomungados sem o consentimento real. Queria, ademais, que fossem restauradas outras prerrogativas desfrutadas por seus antecessores normandos.

Todos os Bispos eram unânimes quanto à impossibilidade de ceder a tais pretensões do soberano. Mas quem se levantaria para enfrentá-lo? Cabia ao Arcebispo de Canterbury, Primaz da Inglaterra, a difícil tarefa.

Thomas Becket, que ainda havia pouco era Chanceler Real e grande amigo de Henrique II, assumiu o grave encargo. No momento oportuno, levantou-se e explicou ao rei a independência do poder espiritual em relação ao temporal, discorreu sobre o caráter sagrado do sacerdócio e, afinal, alegou os antigos direitos que possuíam os Bispos de julgar e punir os membros do clero.

O monarca encolerizou-se. Interrompendo as palavras do prelado, exigiu que todos aceitassem sem condições as propostas por ele feitas. São Thomas Becket respondeu que obedeceriam salvo ordine suo, isto é, na medida em que as regras por ele ditadas fossem lícitas para um clérigo. Ao ouvir isto, o rei se retirou irado, sem dizer sequer uma palavra de despedida.

Harmonia entre os dois poderes

A contenda entre os Bispos ingleses e seu monarca não resultava excessivamente incomum naqueles conturbados séculos. Os limites da separação dos poderes temporal e espiritual, estabelecida pelo próprio Cristo — “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mt 22, 21) —, não estavam bem definidos ainda, trazendo, como consequência, frequentes e acirrados conflitos.

Por ser a Igreja uma sociedade visível, constituída por homens, muitos soberanos da época arrogavam-se o direito de nomear Bispos, legislar sobre a organização interna da Esposa de Cristo, dispor de suas rendas ou governar livremente sobre os membros do clero, obviando a circunstância de serem pessoas sagradas.

Ora, é justamente a independência do poder civil que permite à Igreja desempenhar seu labor em favor da sociedade, criando condições que tornam a Terra aprazível e habitável, bem como iluminando o poder temporal — rigorosamente soberano, na sua esfera — com uma luz celeste que o eleva, consolida e nobilita.

A Igreja necessita da ação do Estado sobre a sociedade, mas este jamais conseguirá alcançar com plenitude seu objetivo se não estiver em perfeito acordo com aquela. Da harmonia entre os poderes espiritual e temporal resulta que Deus jamais é tão bem servido como quando César se porta como seu filho; e César jamais é tão grande como quando é filho de Deus.

Essa era a grande verdade que respaldava a atitude do Arcebispo de Canterbury, e que o orgulhoso rei Henrique não queria admitir.

Nove cláusulas inaceitáveis

Tomando conhecimento do acontecido em Westminster, o Papa Alexandre III enviou mensageiros a São Thomas Becket, recomendando-lhe que, pela paz da Igreja, procurasse entrar em entendimento com o rei. Mas o monarca, ferido em seu amor-próprio, exigia uma retratação pública perante todos os Bispos e barões do reino.

O Palácio de Clarendon, nas proximidades da atual Salisbury, foi o lugar escolhido para tal encontro, que se realizou no dia 13 de janeiro de 1164, em um ambiente de demonstrações de fúria do rei e ameaças dos barões.

Desejando o soberano deixar ali bem assentadas as bases de seu domínio sobre a Igreja, mandou redigir uma lista completa das normas cuja imposição ele tinha em mira. Eram as tristemente conhecidas Constituições de Clarendon, compostas por dezesseis cláusulas.

Grande choque teve o Arcebispo quando leu o texto. Algumas dessas cláusulas atribuíam ao poder real decisões até então de competência da autoridade eclesiástica, outras atentavam contra a liberdade da Igreja. Assim, por exemplo, os Bispos passavam a depender da aprovação do soberano para sair do reino. Precisavam também de uma autorização de Henrique II para excomungar qualquer alto funcionário ou oficial do rei. Não podiam, nas causas eclesiásticas, apelar ao Papa como última instância. Quando ficava vacante uma sé episcopal ou uma abadia, esta caía em poder do soberano. Ele auferia todos os seus rendimentos e benefícios até tomar posse o novo titular, cuja eleição seria feita na capela real e com o consentimento do rei, ao qual o novo Bispo ou abade devia jurar lealdade como vassalo.

O Primaz da Inglaterra não podia de forma alguma aceitar essas constituições que de tal modo subjugavam o poder espiritual ao temporal. Apenas cinco das dezesseis cláusulas, concernentes de fato ao governo civil, eram, de fato aceitáveis, e foram posteriormente admitidas pelo Papa.

O julgamento de Northampton

O rei, porém, não pensava do mesmo modo. Estava decidido a submeter a Igreja a suas pretensões e, para isso, decretou a ruína de quem com tanta força se opunha a elas. Acusando-o de falsos delitos jurídicos e financeiros, ademais de perjuro por não aceitar as Constituições de Clarendon — que havia prometido aceitar sem conhecer seu conteúdo —, o eclesiástico foi intimado a comparecer diante da corte reunida em Northampton, no mês de outubro de 1164.

Ante as inusitadas denúncias, o Arcebispo pediu a Henrique um tempo para aconselhar-se com seus irmãos no episcopado e preparar sua defesa. “Atua sem temor”, disse-lhe seu confessor Robert de Merton, “escolheste servir a Deus no lugar do rei. Continua assim e Deus não te decepcionará”.1

Thomas compreendera a fundo a luta na qual se engajara, e estava disposto a levá-la até o fim. Entretanto, a maioria dos Bispos, temendo perder as boas graças do soberano, insistiam com o Primaz para que cedesse perante o rei e renunciasse a seu cargo.

O Arcebispo de Canterbury, entretanto, fazendo valer sua primazia, proibiu os Bispos de tomarem parte no julgamento, caso este chegasse a se realizar, e ordenou que excomungassem qualquer um que usasse de violência com ele.

Dirigiu-se então ao castelo real de Northampton, onde, após o Primaz apresentar sua defesa, o rei reuniu o Conselho para decidir sua sorte. Sentado em outro aposento, Thomas Becket aguardava com calma e segurança a sentença.

Segundo um conceituado biógrafo, o Arcebispo foi condenado provavelmente à prisão perpétua. “Porém a sentença nunca foi declarada, porque quando uma comissão se apresentou para dar-lhe conhecimento, cada um foi passando para outro a incumbência, ninguém a aceitou”.2

Seis anos de exílio e tratativas

Vendo que havia sido decretada sua ruína, São Thomas Becket decidiu fugir do país. Numa noite chuvosa, depois de várias peripécias, cruzou o Canal da Mancha e foi refugiar-se na França, onde o rei Luís VII o acolheu solicitamente.

Logo depois se dirigiu para Sens, onde se encontrava temporariamente o Papa Alexandre III. Este o recebeu com total benevolência, aprovou sua conduta e reafirmou a condenação das Constituições de Clarendon. Também lhe concedeu o hábito da Ordem de Cister, que muito almejava, passando o santo Arcebispo a residir na abadia de Pontigny, onde compartilhou a frugal vida dos monges cistercienses e retomou o estudo de teologia, principalmente das Sagradas Escrituras.

Enquanto isso, transcorreram quase seis anos de intrincadas atividades diplomáticas e de tentativas de reconciliação, ora promovidas pelo Pontífice, ora pelo rei da França. Chegar a um acordo não era fácil, pois, como escrevia São Thomas ao Papa, se prevalecessem as exigências do monarca inglês, “a autoridade da Sé Apostólica na Inglaterra desapareceria completamente ou seria reduzida a quase nada”.3

Henrique II, por seu lado, reconhecia que, caso continuasse com sua política de oposição à Igreja, teria de sofrer penas canônicas. “Sei que lançarão um interdito sobre meu reino, mas não posso eu, que sou capaz de tomar uma fortaleza por dia, aprisionar um clérigo que ponha em interdito minha terra?”4 , inquiriu a um legado papal.

O temor a Deus não havia ainda se extinguido por inteiro na alma de Henrique e, finalmente, após inúmeras ameaças da parte do Sumo Pontífice, resolveu fazer um acordo com o Arcebispo. Autorizou-o a voltar para sua Diocese, sem consentir, porém, em dar-lhe o beijo de paz.

De volta à Pátria

Triunfal foi a acolhida do povo de Canterbury, no dia 2 de dezembro de 1170, a seu saudoso pastor. Ele, entretanto, estava convencido de que a paz não seria duradoura. Como ensina Santo Agostinho, “a paz é a tranquilidade da ordem”.5 Se não prevalecesse a ordem posta pelas leis de Deus e da Igreja, não existiria verdadeira paz.

No dia seguinte, três mensageiros chegaram a Canterbury da parte dos Arcebispos Roger, de York, Gilbert, de Londres, e Jocelin, de Salisbury, os quais mandavam pedir a revogação da excomunhão lançada sobre eles, por terem procedido à cerimônia de coroação do filho do rei, contrariando proibição expressa do Arcebispo Primaz e do próprio Vigário de Cristo. Thomas mandou responder-lhes que uma pena imposta pelo Papa só por ele poderia ser abolida.

A resposta fez reacender a cólera de Henrique II, já incomodado com a comovida recepção brindada pelo povo a seu legítimo Prelado. A cada dia, acentuava-se na corte o clima de inimizade contra o Arcebispo. Um biógrafo de Thomas Becket afirma que o rei, arrebatado de fúria, excitava seus cortesãos com frases como esta: “Que coleção de ociosos covardes tenho em meu reino, os quais permitem que um clérigo de baixa extração zombe vergonhosamente de mim!”.6 Alguns deles, decidiram ouvi-lo…

Na tarde de 29 de dezembro, quatro cavaleiros se apresentaram em Canterbury como vindos “da parte do rei” e foram recebidos pelo Arcebispo num salão contíguo à catedral. Um deles interpelou o eclesiástico em termos agressivos, pela sua recusa em absolver os clérigos e monges excomungados.

— A sentença não foi minha, mas do Papa. Que os interessados se dirijam a ele para pedir o perdão — respondeu Thomas.

— Digo-te o que o rei disse: foste suficientemente louco para excomungar seus oficiais.

A estas palavras, relativas aos anátemas lançados por São Thomas contra os barões que haviam se apropriado das terras da Diocese, o Arcebispo levantou-se, replicando:

— Castigarei qualquer um que viole os direitos da Sé Romana ou da Igreja de Cristo.

A vitória da verdade

Os cavaleiros, furiosos, retiraram-se para pegar as armas, enquanto alguns monges e servidores do destemido Prelado, vendo o grande perigo que ele corria, conseguiram a custo levá-lo para a catedral.

Era a hora do cântico das Vésperas e o templo estava cheio. Após o cortejo dos monges e do santo Arcebispo, penetraram furiosos ali os cavaleiros armados e, com as espadas desembainhadas, precipitaram-se sobre este último.

— Absolve os Bispos! — gritou um deles.

Investiram então, de espada em punho, contra o indefeso ministro de Deus. O primeiro golpe atingiu os ombros de Thomas, e os seguintes feriram-lhe a cabeça. Seu cruciferário, tentando desviar com o braço um dos golpes, recebeu uma forte lesão que lhe rompeu até os ossos. “Estou disposto a morrer por meu Senhor. Que meu sangue salve a liberdade da Igreja e a paz”7, exclamou o mártir, de joelhos. Um novo golpe o prostrou morto por terra, com os braços estendidos, como se estivesse rezando.

Estava tudo acabado?

Pelo contrário! A força da verdade, que levara João Batista a triunfar sobre Herodes Antipas, uma vez mais seria vitoriosa. O túmulo de Thomas Becket tornou-se centro de peregrinação, e entre os inumeráveis devotos que acorreram à sua sepultura encontrava-se o próprio Henrique II que, depois de ter pedido perdão ao Papa e renunciado às Constituições de Clarendon, se dirigira a Canterbury para pedir clemência ao santo mártir.

Invencível é o poder da verdade. O erro e o mal encontram seu dinamismo na natureza humana decaída pelo pecado, aliada ao demônio. A força da verdade, porém, está em algo infinitamente superior: o próprio Deus. Ele jamais nega sua graça àqueles que lutam por seu nome. Assim, por mais que a verdade sofra aparentes derrotas, no fim é sempre vencedora, porque sua fonte é o Deus eterno e imortal.

1 KNOWLES, David. Thomas Becket. Madrid: Rialp, 1980, p.148
2 Idem, p.151.
3 Idem, p.180.
4 Idem, p.184.
5 SANTO AGOSTINHO. A cidade de Deus. L.XIX, c.13.
6 KNOWLES, op.cit., p.205.
7 AUBE, Pierre. Thomas Becket. Madrid: Palabra, 1994, p.334.

Adorarás o Senhor teu Deus

Yolaynet Encarnación Cuevas

Lê-se no Antigo Testamento que as pessoas, ao observarem os astros do céu, a abóbada estrelada ou a água impetuosa, ficavam cativadas por sua beleza , tomando-os  por deuses (cf. Sb 13, 2-4). Devido à grandeza de cada um dos elementos da criação, o pensamento humano, ao meditá-los, se eleva. Entretanto, vários povos se extraviaram por não  terem reconhecido o Artífice a partir de suas obras (cf. Dt 4, 15). Por esta razão, Moisés proibiu os judeus de levantarem os olhos e adorarem o sol e a lua,. Isso nos mostra que ante o “Criador do céu e da terra“, como rezamos no Credo, a atitude imediata do homem é de adoração.

O Pe. Antonio Royo Marin, OP explica que a adoração é ” o ato externo da virtude da religião pelo qual se testemunha a honra e reverência merecida pela excelência infinita de Deus, e a completa submissão a Ele“.1 Este excelso nível de louvor também é conhecido como latria. Em seu sentido absoluto só pode ser oferecida a cada uma das Pessoas da Santíssima Trindade. Relativamente esse culto também é dado à Eucaristia, às partículas autênticas do Lignum Crucis (Santo Lenho) e às outras relíquias da sagrada paixão, já que essas últimas têm impregnadas o preciosíssimo Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo.2

Ao adorar a Deus, o homem reconhece sua miséria e a grandeza do Dono de tudo o que existe. Referindo-se a esse nada das criaturas, pergunta Santo Agostinho: “Que merecimentos poderiam Vos apresentar o céu e a terra para que no princípio os tivésseis criado? […] Que me digam o que eles mereceram para receber de Vós esse ser3 E depois conclui: “Nenhuma coisa diante de Vós poderia merecer o dom da criação, visto que não existia para merecê-lo“.4

Neste sentido, Tomás de Aquino enumera as razões pelas quais nunca devemos nos excluir da adoração que é devida a Deus.5 No entanto, essas também nos ajudam a entender porque o ser humano é dócil para reverenciar ao seu Senhor. Na vida comum, qualquer tipo de dignidade merece certo reconhecimento por parte da sociedade. Por esse motivo, se uma pessoa não concede ao presidente de um país o respeito que lhe é devido, é considerado um traidor. Desse modo, isso acontece com Deus, mas em um nível infinitamente maior, já que Ele é superior a todos. Assim diz o Salmo: “Deus é grande e digno de louvor” (Sl 95, 4).

Se todos os nossos bens materiais e espirituais nos vêm de Deus, conclui São Tomás de Aquino que seríamos muito ingratos se não reconhecêssemos o que d’Ele recebemos e não O adorarmos. Em relação a essa gratidão, Santo Agostinho expressa que todos nós devemos ao Sumo Bem sermos muito bons, já que é Ele quem nos quis chamar à existência.6

Por outro lado, a adoração tem um grande relacionamento com o primeiro mandamento. Esse preceito diz: “Adorarás o Senhor teu Deus e O servirás” (Dt 6, 13). Dessa maneira, Deus Pai exigiu de Moisés e do povo de Israel o que por justiça Lhe corresponde e indistintamente o exige de todas as gerações futuras. O Catecismo da Igreja Católica explica que todas as pessoas são criadas à imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1, 26), e que,por este motivo, têm a vocação de manifestar Deus pelo seu agir (cf. CCE 2085).

Em suma, devemos ser zelosos para que nosso coração e nossa reverência sejam totalmente para Aquele que merece que “se dobre todo joelho nos céus, na terra e nos abismos” (Fl 2, 10). Tomemos o excelso exemplo de Maria Santíssima que, através de suas palavras no Magnificat, nos leva a ter um verdadeiro espírito humilde e grato ante as grandes misericórdias de nosso Deus e não cessa de O adorar.

1 ROYO MARÍN, Antonio. Teología Moral para Seglares. 3. ed. Madrid: BAC, 1964, v. I, p. 284.
2 Ibid. p. 285.
3 SAN AGUSTÍN. Confissões. L. XIII, c. 2, a. 2. (Tradução da autora).4 SAN AGUSTÍN. Confissões. L. XIII, c. 2, a. 3. (Tradução da autora).
5 SANTO TOMÁS DE AQUINO. A luz da Fé. Lisboa: Verbo, 2002, p. 153.
6 SAN AGUSTÍN. Confissões. L. XIII, c. 2, a. 2.

A menina que morreu de felicidade

Ir. Michelle Víccola, EP

Beata imelda Lambertini

Em sua gloriosa trajetória, a Igreja, Esposa Mística de Cristo, tem suscitado incontáveis falanges de santos, e assim continuará até a consumação dos séculos.

Percorrendo o magnífico firmamento constituído pelos heróis e heroínas que gravaram na História a indelével marca de sua santidade, nos encantamos ao ver um São Tomás de Aquino, cujos ensinamentos iluminaram seu tempo e os séculos posteriores; Santa Zita, humilde empregada doméstica durante quase meio século; Santa Teresa de Ávila que, inflamada de amor, deu novo vigor à vida monástica; já em nossos dias, São Pio de Pietrelcina, o grande apóstolo do confessionário. E, maravilhados, nos perguntamos: será a santidade privilégio de algumas grandes almas como essas?

Claro que não! Todos nós, sem exceção, a ela somos chamados. Os santos canonizados nos servem de exemplo, como quem diz: “Se eu pude, com a graça de Deus, alcançar a perfeição, por que não poderá também você?”

A tocante história da Beata Imelda nos mostra de modo especial como a santidade é um dom gratuito de Deus, e este a ela nos chama em qualquer idade.

Consagrada a Nossa Senhora no próprio dia do nascimento

Essa angelical menina nasceu no ano de 1322 em Bolonha (Itália). Seu pai, Egano Lambertini, pertencia à alta nobreza e desempenhou cargos importantes como o de governador de Bréscia e o de embaixador na República de Veneza. A par de grande habilidade, prudência e valor militar, distinguiu-se também por sua profunda fé e amor aos pobres. Sua mãe, Castora, da nobre família Galuzzi, rogava com ardorosa fé a Nossa Senhora a graça de ter ao menos um filho. Após rezar inúmeras vezes o Rosário nessa intenção, obteve por fim o favor pelo qual tanto ansiava: o nascimento de uma bela menina!

Assim que os olhos de sua filha abriram-se para este mundo, Castora tomou-a nos braços e ofereceu-a à Santíssima Virgem: “Ó Senhora, uma filha mais bela Vós não podíeis terme dado! Eu Vo-la ofereço, tomai-a por inteiro”. A Virgem Maria aceitou com agrado esse oferecimento. A pequena Imelda cresceu em idade e virtude sob os cuidados de sua piedosa mãe que lhe dispensou uma esmerada formação religiosa.

As recreações próprias à infância não a atraíam. Do que ela gostava mesmo era conversar sobre Deus e as coisas sobrenaturais. Passava longas horas ajoelhada diante de um pequeno altar que ela mesma adornava e floria.

A voz de Deus não tardou a inspirar-lhe no fundo da alma o desejo de abandonar o mundo e consagrar-se totalmente ao seu serviço.

Monja exemplar, com apenas dez anos!

Naquela época era comum a admissão de crianças em conventos, seja por vontade própria, seja por iniciativa da família. Assim, aos oito anos de idade, Imelda Lambertini foi admitida como oblata no mosteiro dominicano de Santa Maria Madalena di Val di Pietra, onde se preparava para ingressar no noviciado.

Dois anos depois, numa singela cerimônia íntima, teve a felicidade de receber o hábito de São Domingos. Bem sabia a santa menina que esse inapreciável dom lhe pedia, em contrapartida, um redobramento de fervor. Tomando aquele ato com profunda seriedade, Imelda tornou-se modelo para todas as irmãs. Só pelo fato de vê-la passar com alegria, modéstia e humildade, as religiosas sentiam-se confirmadas em sua vocação.

O que ela mais amava era Jesus Sacramentado. Sua alma inocente exultava de gozo ao considerar que no sacrário estava presente aquele mesmo Jesus nascido da Virgem Maria, que em Belém fora colocado numa manjedoura, e por amor a nós fora crucificado e morto, mas triunfante ressuscitara ao terceiro dia!

A monja-menina passava horas junto ao sacrário. Apenas surgia uma oportunidade, lá estava ela imóvel, com os olhos fixos no tabernáculo, a fisionomia iluminada por uma intensa claridade. As religiosas se admiravam do fervor e piedade de sua infantil companheira e, maravilhadas, concluíram que sobre aquela alma pairava um especial desígnio da Providência.

E eu, quando poderei comungar?

Sempre que a comunidade reunia-se na capela para a Missa conventual, Imelda contemplava, extasiada, todas aquelas que se aproximavam da mesa eucarística para a Comunhão. Surgia-lhe interiormente esta interrogação: “Como se pode continuar vivendo nesta terra após ter recebido o próprio Deus? Meu Jesus, quando poderei também eu ter a alegria de Vos receber?”

Naquele tempo, não era permitido às crianças comungar, mas nem por isso era menos ardoroso seu desejo de receber a Eucaristia. Encontrando-se com o confessor ou com a Madre Superiora, repetia sempre a mesma pergunta:

— Quando poderei comungar?

Mostrava-se obediente e resignada ante a resposta invariável de que era preciso “esperar ainda um ano”, mas suspirava cada vez mais pelo raiar do dia que seria para ela, sem qualquer dúvida, o dia mais feliz de sua vida, o da Primeira Comunhão.

Morreu de felicidade…

Na madrugada de 12 de maio de 1333, véspera da festa da Ascensão do Senhor, os sinos tocaram alegremente, chamando as religiosas para o cântico do Ofício Divino. Acabada a salmódia, o sacerdote iniciou a celebração da Santa Missa. Na hora da Comunhão, de joelhos no fundo da igreja, Imelda acompanhava com ardorosos desejos a movimentação das monjas que recebiam a sagrada Hóstia e retornavam recolhidas a seus lugares. De seu coração brotou a mais ardente súplica:

— Meu Jesus, dizem-me que, pelo fato de ser criança, não posso ainda comungar… Mas Vós mesmo dissestes: “Deixai vir a Mim os pequeninos”. Eis que Vos peço, Senhor: vinde a mim!

Jesus, em seu terno amor aos inocentes e humildes de coração, não resistiu a esse apelo: uma Hóstia destacou-se do cibório, elevou-se no ar e, traçando um rastro luminoso por onde passava, foi pousar sobre a cabeça de Imelda! O ministro de Deus, vendo nesse prodigioso fato uma clara manifestação da vontade divina, tomou a Hóstia e deu-lhe a Comunhão.

Ela fechou os olhos, inclinou suavemente a cabeça e permaneceu absorta num profundo recolhimento. Terminou a Missa, passou-se longo tempo, mas a pequena religiosa não fazia o menor movimento, e ninguém se atrevia a perturbar aquela paz beatífica, aquele êxtase em que ela se encontrava, convertida num tabernáculo vivo de Deus. Por fim, a Madre Superiora tomou a decisão de chamá-la, e qual não foi a surpresa de todos ao verificar que a menina não respondia…

Imelda estava morta, seu coração não resistira a tanta felicidade!

* * *

Em 1826 o Papa Leão XII confirmou e estendeu para toda a Igreja o culto que havia séculos se prestava a ela em Bolonha. E São Pio X a proclamou, em 1908, padroeira das crianças que vão fazer a Primeira Comunhão. Seu corpo virginal permanece incorrupto e pode ser venerado na capela de São Sigismundo, em Bolonha. Sua memória litúrgica é celebrada no dia 12 de maio.

Beati mortui qui in Domino moriuntur (Bem-aventurados os que morrem no Senhor). Ó Beata Imelda, morrestes no Senhor! Concedei a nós, peregrinos nesta terra, que vosso luminoso exemplo de amor faça nascer em nossos corações uma fome eucarística inextinguível e que, saciados com o Pão dos Anjos, possamos um dia cantar eternamente convosco a glória de Jesus que morreu por nós na Cruz e Se fez nosso alimento espiritual até a consumação dos séculos.

Revista Arautos do Evangelho n.53 Maio 2006

Ninguém luta sem vigilância, nem vence sem oração

Ir. Aline Karolina de Souza Lima

“Vigiai e orai, para não cairdes em tentação; pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca” (Mt 26, 41). Após o pecado original, a natureza humana ficou corrompida e o homem sujeito às sugestões diabólicas – como afirma São Pedro “O vosso adversário, o diabo, anda em derredor como um leão que ruge, procurando a quem devorar.” (IPd 5, 8-9) – e às más inclinações.

Essa recomendação de Nosso Senhor aos três Apóstolos inicia-se com a vigilância, pois não basta somente a oração, ela precisa estar unida à vigilância, pois “o espírito está pronto, mas a carne é fraca” (Mt 26, 41).

De fato, ao longo de toda a História, inúmeros povos e nações perderam o fervor e caíram na tibieza. Qual foi a causa dessa decadência?

As grandes vocações não decaíram repentinamente. A causa de sua ruína encontramos na falta de vigilância, abrindo brechas em suas almas por negligencia ou por não terem afastado daquilo que sabiam ser nocivo ao estado de amizade com Deus.

Para que uma torre nunca possa ser destruída, ela precisa de dois elementos: fortaleza e fundamento. Para uma alma nunca sucumbir é indispensável que ela se faça forte pela vigilância e se fundamente na piedade. “Um cofre sem fechadura de nada vale. Assim também, uma alma sem vigilância fica à mercê do inimigo. Por isso Jesus insiste tanto nesta virtude, à qual deve sempre complementar uma autêntica piedade”.1Plinio Correa de Oliveira aconselhava:

Cumpre, pois, termos uma vigilância continuamente voltada para nossa vida interior. Importa sermos desconfiados contra nós mesmos […]. Se não combato a pequena lacuna, a armadilha quase imperceptível, dentro em pouco estarei na voragem de uma tentação sob a qual posso sucumbir
.2

Afinal, “o que é ser vigilante? [Ser] vigilante é não permitir que nada se apresente para roubar o estado de graça em que se vive”.3 Ela nada mais é que a precaução contra os obstáculos que nos impedem de atingir o nosso fim último, isto é, servir, glorificar a Deus aqui na Terra e gozar de seu convívio por toda eternidade.

Entretanto, outra virtude que auxilia a vigilância é a previdência, “se alguém não deseja ser derrotado em nenhuma circunstância, o remédio é ser continuamente previdente, pois, do contrário, num belo momento ele não prevê o perigo, este cresce de modo súbito e o estrangula”4.

Há uma virtude da qual procedem a vigilância e a previdência: a prudência. Ela nos esclarece como agir diante do risco, pois “esta é uma virtude moral sobrenatural que inclina a nossa inteligência a escolher, em qualquer circunstância, os melhores meios para atingir os nossos fins, subordinando-os ao nosso fim último”.5

Se se apresentam ocasiões de pecado, deve-se pensar, em primeiro lugar: Deus não pode ser ofendido de nenhuma maneira. E em segundo lugar, fugindo da perversidade, a alma se vê livre para voar nas vias da perfeição e alcançar a vida eterna; do contrário, ela correrá risco de jamais contemplar a face de Deus. Assim, o fato de refletir na hora incerta da morte e que a qualquer momento podemos deparar-nos com o Justo Juiz ajuda-nos a ser vigilantes. “Ficai preparados! Pois na hora em que menos pensais, virá o Filho do Homem” (Lc 12, 40).

Nao olvidemos, porém, que a prudência, vigilância e previdência não sobrevivem sem vida interior. A oração é para as virtudes como o ar é para os pulmões. Mesmo que sucumbamos à tentação por debilidade, podemos nos levantar da queda mais ufanos e cheios de ânimo, contanto que rezemos e voltemos confiantes os olhos para Aquela que é o escudo inquebrantável de batalha, Maria Santíssima. Rezando a Ela, o homem não se assusta com a proximidade do perigo, mas o enfrenta, recobra o ânimo e parte para novas lutas. Com Maria, ele sabe que está sendo assistido por Deus e por isso, maiores vitórias lhe estão reservadas já aqui na Terra, e no Céu uma glória extraordinária.6

Cumpre, pois, praticar os ensinamentos do Divino Mestre: “Vigiai e orai, para não cairdes em tentação; pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca” (Mt 26,41).

1 [1] CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O inédito sobre os Evangelhos. Comentários aos Evangelhos dominicais. Ano C. Città del Vaticano/São Paulo: L.E.Vaticana/Lumen Sapientiae, 2012, v. VI, p. 269.
[2] EDITORIAL. A necessária virtude da previdência. In: Dr Plinio. São Paulo: Ano IX, n. 95, fev. 2006, p. 4.
[3] CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O pecado não produz a felicidade verdadeira: Homilia da 3ª Feira da XXII semana do Tempo Comum. São Paulo, 2 set. 2003.
[4] EDITORIAL. A necessária virtude da previdência. In: Dr Plinio. São Paulo: Ano IX, n. 95, fev. 2006, p. 4.
[5] MARAGNO, Ana Rafaela. Aula de Religião no Colégio Arautos do Evangelho Internacional – Monte Carmelo. Caieiras, 13 jun. 2011. (Apostila).
[6] Cf. EDITORIAL. Loc. Cit.

O peixe mudo nos prega a fé na Eucaristia

Ir. Lucía Ordóñez, EP

Naquele dia de julho de 1348, a chuva caía em abundância no vilarejo de Alboraya, na região de Valência (Espanha). Numerosos relâmpagos, seguidos de trovões aterradores, acentuavam ainda mais o perigo do forte aguaceiro. Sentado junto a uma janela, o pároco preparava a homilia da Missa dominical, certo de que não seria interrompido, pois, pensava ele, ninguém se atreveria a sair de casa naquelas condições.

Assim, não foi sem grande surpresa que viu aproximar-se apressadamente o moleiro de Almàssera, aldeia vizinha.

— O que há, meu filho?

Afresco da Paróquia de Almàssera representa o encontro das Sagradas Partículas

— Padre, precisamos do senhor com toda urgência! Um pobre doente de Almàssera está quase morrendo e implora o Santo Viático!

O pároco teve um momento de hesitação. Sair com o Santíssimo Sacramento naquela furiosa tempestade parecia ser uma grande imprudência. Por outro lado, seu coração de sacerdote amante da Eucaristia não podia deixar um paroquiano morrer sem levar-lhe esse conforto na hora extrema. Respondeu, pois, com decisão:

— Vamos, meu filho!

Revestiu-se de sobrepeliz e estola, tirou do sacrário a teca com várias Hóstias, montou a mula que o moleiro lhe oferecia e o seguiu em direção à casa do agonizante.

Afrescos da Paróquia de Almàssera representa a perda das Sagradas Partículas

Para chegar até Almàssera, era necessário atravessar a vau um pequeno rio chamado Carraixet. Essa travessia, que era incômoda em condições normais, tornava-se muito perigosa nas épocas de chuva.

Entretanto, conseguiram passar sem grande dificuldade e chegaram a tempo de atender em confissão o paroquiano moribundo e dar-lhe o Santíssimo Sacramento.

Na volta, porém, o Carraixet tinha transbordado, a violência da correnteza derrubou da mula o sacerdote, a teca caiu de suas mãos e foi arrastado para longe. E nela restavam ainda três Hóstias consagradas!

Ao pároco de Alboraya não faltava energia nem coragem. Lançou-se a nado, na tentativa de recuperar de imediato a preciosa teca. A notícia do desastre espalhou-se rapidamente, e muitos camponeses das redondezas acorreram para ajudá-lo. Após várias horas de afanosa busca, a teca foi encontrada, mas vazia e sem a tampa.

Cheios de fé e de amor a Nosso Senhor Sacramentado, aqueles camponeses, em vez de desanimar, redobraram seus esforços. A nado uns, margeando o rio outros, prosseguiram na procura até chegar à sua desembocadura no mar.

Ali foram testemunhas de um estupendo milagre. Extasiados, viram três grandes peixes envoltos numa luz resplandecente, imóveis no tumulto das águas, com as cabeças levantadas e segurando cada um em sua boca uma das preciosíssimas Hóstias.

Prostraram-se de joelhos e ali ficaram em adoração ao Santíssimo Sacramento, enquanto um deles foi a toda pressa levar ao pároco a boa notícia. Este não tardou a chegar, já revestido de sobrepeliz, estola e capa pluvial, e acompanhado de uma multidão de homens, mulheres e crianças. Só então os peixes saíram do lugar onde estavam, para pôr-se ao alcance das mãos do sacerdote.

Na Paróquia de Almàssera se
conserva ainda hoje a teca na qual
eram transportadas as Hóstias

Enquanto a multidão cantava hinos de louvor a Deus Sacramentado, ele recolheu as três Hóstias e as colocou num rico cálice. Em seguida, uma jubilosa procissão conduziu o Rei dos Reis de volta à igreja de Alboraya. Ali o pároco celebrou uma solene Missa de ação de graças, após a qual fez ao Bispo de Valência, Dom Hugo de Fenollet, o relato do prodigioso acontecimento. Este mandou averiguar a veracidade dos fatos por meio do depoimento das testemunhas perante o notário eclesiástico.

Em memória desse milagre foram construídas duas capelas, uma perto do local havia caído o pároco e outra junto ao mar. A teca recuperada das águas foi dada de presente à igreja de Almàssera. Em um belíssimo cibório foi gravada a cena dos três peixes segurando as santas Hóstias, com a seguinte inscrição:

Quis divina neget Panis Mysteria quando muto etiam piscis praedicat ore fidem?
— Quem poderá negar o divino Mistério do Pão Eucarístico, quando a fé nele nos é pregada até pelo peixe mudo?

A expressividade do silêncio

Gabriela Victoria Silva Tejada (1º ano de Ciências Religiosas)

Ao percorrermos as páginas das Sagradas Escrituras, deparamo-nos com inúmeras recomendações e importantíssimas afirmações dadas pelo próprio Espírito Santo a fim de nos ensinar o caminho certo para chegar à Pátria Celestial. Detenhamo-nos em um aspecto dos conselhos que nos apresentam os livros sapienciais: “Não te apresses em abrir a boca; […]que tuas palavras sejam, portanto, pouco numerosas.” (Ecl 5,1) e “ […] o homem sábio guarda silêncio” (Pv 11,12) Não obstante, o ditado popular resumiu em: “A palavra é de prata e o silêncio é de ouro”.

Qual é a grandeza do silêncio? O que o torna superior à palavra?

Primeiramente, o silêncio não pode ser considerado somente no seu aspecto negativo – exclusão de palavras, pois o silêncio também fala. Esta verdade é oferecida pela própria experiência, pois, em inúmeras ocasiões de nossa vida, deixamos transparecer o que acontece dentro do nosso interior através, não só de palavras, mas também do silêncio. Com ele afirmamos, negamos, consentimos, reprovamos e mostramos a nossa alegria ou recriminação em relação a algo. O próprio Nosso Senhor Jesus Cristo, na hora da crucificação, depois de dirigir aquelas extraordinárias palavras ao bom ladrão, ofereceu um frio silêncio ao mau ladrão, que teve mais expressividade do que um colossal discurso. 1

O silêncio é um extraordinário instrumento capaz de transmitir, em várias ocasiões, mais ideias do que as próprias palavras. Referindo-se ao Espírito Santo afirma o Padre Plus:2Fala sem articular palavras, e todos ouvem seu divino silêncio (…) Sem necessidade de estar atento, ouve a menor palavra dita no mais íntimo do coração.” Ou seja, o silêncio é perfeitamente interpretado por Deus, sendo um dos meios que Ele mais usa para relacionar-se com as suas criaturas e revelar-lhes maravilhas que apenas podem ser entendidas na sacralidade e tranquilidade próprias ao silêncio.

Para viver de Deus, com Ele e para Ele, as pessoas, sempre que possível, abandonam o bulício do mundo e abraçam o isolamento. 3 São Jerônimo conta que Davi, em sua infância, fugia da agitação da cidade e buscava a solidão dos desertos. E as Escrituras nos contam que Judite tinha, na parte mais elevada de sua casa, um quarto recolhido onde permanecia enclausurada com suas fiéis servas (Jt 8, 5).

Mas o que são estas maravilhas que Deus nos revela através do silêncio? O que ele diz em nossos corações? A que nos convida? Certa ocasião, Monsenhor João Clá Dias esclareceu a seus filhos espirituais:

O que diz o silêncio?[…] Escute-me porque o timbre de minha voz é grave e suave. Escute-me porque o que tenho a dizer eleva a alma, descansa e entretém. Escute-me porque minhas palavras põem em sua alma um certo refrigério, uma certa luz, uma certa paz que você havia esquecido que existe e que agora quando fala com você, o chama para maravilhosas solidões de que já havia perdido a lembrança e as saudades. À força de falar com o silêncio, você mesmo começa a ser um daqueles que, pelo silêncio, fala, o seu silêncio interior faz ouvir palavras e você começa a entender, a dizer dentro de si mesmo que não é uma recordação que isso traz, é uma esperança, são os dias vindouros que o aguardam “.4

São João da Cruz nos lembra: “Uma palavra pronunciou o Pai, que foi seu Filho, e esta fala sempre em eterno silêncio, e em silêncio há de ser ouvida pela alma5. E assim, as virtudes serão praticadas mais facilmente conforme afirma São Rafael Arnaiz:

É o silêncio que nos faz humildes, que nos faz sofridos; que, ao termos sofrimentos, nos faz contar somente a Jesus para que Ele também, no silêncio, nos cure sem que os outros saibam […] O silêncio é necessário para a oração. Com o silêncio é difícil faltar com a caridade; com ele se agradece, mais do que com palavras, o amor e carinho de um irmão […]”6

E São Bernardo declara: “É o silêncio guardião da religião, nele está nosso vigor“.7

Portanto, o silêncio é indispensável para escutar a Deus e acolher a sua comunicação. Ele nos convida a permanecer em um estado de espírito profundo, claro e elevado para que, ouvindo seus sábios conselhos, vivamos santamente em um convívio digno e sublime, não só com os homens, mas principalmente com Aquele que nos criou.

1 Cf. Id. Devoção ao sagrado Coração de Jesus. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano XIV, n. 155, feb. 2011, p. 10.
2 PLUS, SJ, Raúl. Cristo en nosotros. Barcelona: L. Religiosa, 1943, p. 153.
3 Cf. Imitação de Cristo, Liv. I, c. 20, m.1.
4 CLÁ DIAS, Jõao Scognamiglio.A seriedade e o silêncio que proclamam: Retiro. São Paulo, jul. 2002.
5 Obras Completas, BAC, Madrid, 1946, p. 1200.
6 SAN RAFAEL ARNÁIZ. Hermano Rafael Arnáiz Barón Obras completo. Burgos: Monte Carmelo, 2002, p. 291.
7 Cf. SAN BERNARDO DE CLARAVAL. Domenica prima post octavam Epiphaniae. Sermo 2, 7. “silentium scilicet, custos religionis, et in quo est fortitudo”

A vida, um sopro que passa…

Ir Maria Teresa Ribeiro Matos, EP

Para ninguém se apresenta como novidade o qualificativo desta Terra como um vale de lágrimas. A vida com suas repetições e rotinas – noite e dia, sol e chuva, frio e calor, trabalho e descanso, saúde e doença, gáudios e tristezas – nunca constituirá um paraíso só de delícias.

Tudo nesta Terra é passageiro, “a vida do homem não é mais do que um sopro” (Sl 61,10), cantava o salmista. Assim sendo, o homem que coloca demasiada esperança em si mesmo e nas coisas desse mundo, todas perecíveis, facilmente cai na desilusão.

É o que nos diz Cecília Meirelles em seu poema: “Anda o sol pelas campinas/ e passeia a mão dourada/ pelas águas, pelas folhas…/ Ah! tudo bolhas/ que vêm de fundas piscinas/ de ilusionismo… – mais nada. […] Porque a vida, a vida, a vida,/ a vida só é possível/ reinventada”1 .

A escritora não foi a primeira a descrever o desencanto das coisas terrenas. Há mais de três mil anos já descrevia essa situação o mais poderoso e mais sábio dos monarcas que Israel conheceu, o Rei Salomão, no livro do Eclesiastes.

Vaidade das vaidades, diz o Eclesiastes, vaidade das vaidades! Tudo é vaidade. Que proveito tira o homem de todo o trabalho com que se afadiga debaixo do sol? Uma geração passa, outra vem; mas a terra sempre subsiste. O sol se levanta, o sol se põe; apressa-se a voltar a seu lugar; em seguida, se levanta de novo. O vento vai em direção ao sul, vai em direção ao norte, volteia e gira nos mesmos circuitos. Todos os rios se dirigem para o mar, e o mar não transborda. Em direção ao mar, para onde correm os rios, eles continuam a correr. Todas as coisas se afadigam, mais do que se pode dizer. A vista não se farta de ver, o ouvido nunca se sacia de ouvir. O que foi é o que será: o que acontece é o que há de acontecer. Não há nada de novo debaixo do sol. Se é encontrada alguma coisa da qual se diz: Veja: isto é novo, ela já existia nos tempos passados. Não há memória do que é antigo, e nossos descendentes não deixarão memória junto daqueles que virão depois deles.

Eu, o Eclesiastes, fui rei de Israel em Jerusalém. Apliquei meu espírito a um estudo atencioso e à sábia observação de tudo que se passa debaixo dos céus: Deus impôs aos homens esta ocupação ingrata. Vi tudo o que se faz debaixo do sol, e eis: tudo vaidade, e vento que passa (Ecle 1, 2-14).

Entretanto, há uma solução para esse dissabor da vida. A própria autora do poema no-la descreve ao dizer: “A vida só é possível reinventada”.

No que consiste, então, essa reinvenção da vida? Em reinventar o seu conceito. Vejamos os diversos modos de vê-la.

Se considerarmos que o fim último do ser humano se cumpre nesta Terra e que tudo acaba com a morte, que não existe uma realidade superior além da que constatamos com nossos sentidos, então realmente tudo é vaidade, tudo é ilusão!

Mas outra é a certeza que nos dá a fé católica: o homem está nesta Terra apenas como peregrino, sua existência aqui é uma preparação para a verdadeira vida que se inicia após sua morte, e que é eterna. Assim sendo, tudo o que o homem faz, sente e quer tem uma repercussão na eternidade e nada constitui uma repetição tediosa e sem sentido, mas sim um mérito ou demérito conquistado para a vida futura.

Ademais, Deus, Pai providente, está sempre orientando e agindo na História da humanidade. Eis uma bela reinvenção da vida: contemplar o agir de Deus, seja na natureza — como um belo pôr de sol ou uma suave nevada —, seja na alma de nossos semelhantes, como, por exemplo, a candura de uma criança inocente ou o desvelo carinhoso de uma mãe. Atentos a essas maravilhas proporcionadas pelo Altíssimo, abstraimo-nos do material e corriqueiro da vida e desvendamos, assim, o verdadeiro sentido dela.

Reinventada deste modo, a vida se tornará não só possível, mas também bela e atraente.

1MEIRELES, Cecília. Flor de poemas. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1972, p. 94.