A Beleza da Luta

Ir Maria Cecilia Lins Brandão Veas,EP

Quando nos detemos na consideração da obra da criação, encantamo-nos ao ver Deus dispensar com abundância seus dons a todas as criaturas, fazendo-as reflexos d’Ele. “Deus contemplou toda a sua obra, e viu que tudo era muito bom” (Gn 1, 31) e a seguir “assim foram acabados os céus, a terra e todo seu exército”.(Gn 2, 1)

Com efeito, a Terra já havia sido destinada a ser o campo de batalha dos heróis valorosos do Altíssimo, ou seja, a Terra dos justos e fiéis que marcariam a História e povoariam os Céus. Porém, como termos certeza desta verdade?

Deus criou os céus e a terra para serem campos de batalha, na grande trama da História. Sim, o Céu, o lagar de paz, foi onde se travou a primeira e grande luta decisiva entre São Miguel e Lucifer. (Cf. Apo 12, 7) Aí está o foco de nossa consideração: a beleza da luta e do sofrimento inerente à vida.

Uma das clássicas definições de São Tomás alude à beleza, como sendo “aquilo que agrada à visão ”. Assim, poderia alguém objetar: “A vida não tem beleza, pois a ninguém agrada ver os crimes, catástrofes e males que quase inevitavelmente pululam a existência humana. A vida só será bela quando houver um agradável bem-estar isento de esforços, onde tudo favoreça os instintos”. Quem assim pensasse, deixaria patente seu pensamento terreno, longe dos parâmetros sobrenaturais, pois “a razão da beleza não se encontra em si mesma; devemos referir-nos à Causa formal de toda beleza, ao mesmo Deus”.1

Quando somos submetidos a sucessivas provas, muitas das quais tão árduas que julgamos não haver mais solução, devemos nos recordar que, neste momento, a Divina Providência, Maria Santíssima, os Anjos e Bem-aventurados do Céu, veem e ajudam-nos, agradados por estarmos trilhando o mesmo caminho de Nosso Senhor, que não quis outra coisa senão humilhar-Se e fazer-Se “obediente até a morte, e morte de cruz”. (Fl 2, 8) Aí está o objeto principal da beleza da luta: somos olhados com carinho por Deus, e a Ele somos agradáveis.

Poucas pessoas contemplam a beleza da vida sob este aspecto. Mas esta é a realidade: “a vida do homem sobre a terra é uma luta” (Jó 7, 1) e segundo Plinio Corrêa de Oliveira “viver é realizar a harmonia em si, colocá-la em torno de si, e batalhar para harmonizar, coordenar e concatenar todas as coisas”. Esta batalha, profundamente salutar, enche-nos de gáudio por podermos retribuir, de algum modo, o ser que de Deus recebemos, e os bens de que somos objetos durante toda vida. É uma luta que nos leva à prática da virtude, nos une intimamente a Deus, mas que não é igual para todos, nem na mesma intensidade; cada alma é uma, e para cada qual, o sofrimento comporta diversos graus.

Observaram os alemães que, quando ainda imatura, nenhuma criança agrada-se com o sabor da cerveja, por seu amargor peculiar. Porém, com o passar dos anos, vão aprendendo a degustar esta saborosa bebida e, quando adultos, são grandes entusiastas dela. Assim, é a vida. Nenhum sofrimento ultrapassa nossas forças físicas, morais ou psicológicas, conforme reza o ditado latino: “Deus qui ponit pondus, suponit manus” — Deus, quando põe um peso, sustenta com sua mão. Assim, todos os sofrimentos nos são proporcionados e permitidos por Deus de acordo com as nossas disposições.

E não nos esqueçamos: se somos profundamente provados, é porque a Divina Providência nos julga aptos para tal, pois “o alimento sólido é para os adultos, para aqueles que a experiência já exercitou na distinção do bem e do mal. (Hb 5, 14)

Grandes são as dificuldades e duros os caminhos nos diversos campos de nossa ação. Sentimos sempre a incerteza dos males e ameaças de todos os lados. Como resistir? Como não soçobrar? Com o estandarte da confiança, nunca deixando- nos abater pelo desânimo, com a certeza de que pela cruz, chega-se à luz. Nossa Senhora superará todos os sofrimentos que, embora amargos, nos fazem crescer interiormente.

Essa é a beleza da luta, “luta árida, luta sem beleza sensível, nem poesia definível. Luta em que se avança por vezes na noite do anonimato, na lama do desinteresse ou da incompreensão, sob a tempestade e o bombardeio desencadeado pelas forças conjugadas do demônio, do mundo e da carne. Mas luta que enche de admiração os Anjos do Céu e atrai as bênçãos de Deus.”1

1SÃO TOMÁS DE AQUINO, STh. I, q5, a.4,
2 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. A verdadeira glória só nasce da dor. In:Catolicismo. n.78, jun. 1957.

Uma ideia sobre “A Beleza da Luta

  1. Poucas pessoas contemplam a beleza da vida sob este aspecto.
    Deus criou os céus e a terra para serem campos de batalha, na grande trama da História.

    Faço do texto minhas palavras!!

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