Livrai-nos do mal

María Alejandra Acevedo Sánchez

Numa tarde, encontrava-se São João Bosco, que tinha profundo conhecimento das almas, percorrendo as avenidas da sua cidade natal, com o objetivo de conquistar almas para Deus. Eis que, naquele instante, avista, do outro lado da rua, um rapaz que sofria fortes tentações, pois estava sendo atormentado por uma multidão de demônios.

 De repente, o santo vê ao longe um outro menino que se aproxima do rapaz. Chegando ao seu encontro, todos os demônios que ali atormentavam o jovem fogem imediatamente. Ao contemplar esta cena, o homem de Deus se pergunta:

 — Que menino misterioso! Quem poderá ser, pois conseguiu enxotar todos os demônios! Será por acaso o Menino Jesus ou o Anjo da Guarda do pobre rapaz?

Talvez o leitor tenha pensado em idênticas perguntas.

 Nesse mesmo momento, aparece ao justo sacerdote o seu Anjo Custódio, que lhe pergunta:

— Gostarias de saber quem é aquele menino que conseguiu afugentar o esquadrão de demônios? Obtendo uma resposta afirmativa, o Anjo prossegue:

— Aquele menino é uma má amizade, que equivale a toda aquela presença diabólica. Assim, os demônios, ao verem o menino mau se aproximar, partiram tranquilos, sabendo que aquela amizade valia pelo trabalho de todos eles.

É o caso de dizer: “ Diz-me com que andas e dir-te-ei quem és”!

 

Diante do Divino Mestre

Bruna Almeida Piva

1º Ano Ciências Religiosas

Foram-lhe, então, apresentadas algumas criancinhas para que pusesse as mãos sobre elas e orasse por elas. Os discípulos, porém, as afastavam. Disse-lhes Jesus: Deixai vir a mim estas criancinhas e não as impeçais, porque o Reino dos céus é para aqueles que se lhes assemelham. E, depois de impor-lhes as mãos, continuou seu caminho.

Um jovem aproximou-se de Jesus e lhe perguntou: Mestre, que devo fazer de bom para ter a vida eterna? Disse-lhe Jesus: Por que me perguntas a respeito do que se deve fazer de bom? Só Deus é bom. Se queres entrar na vida, observa os mandamentos. Quais?, perguntou ele. Jesus respondeu: Não matarás, não cometerás adultério, não furtarás, não dirás falso testemunho, honra teu pai e tua mãe, amarás teu próximo como a ti mesmo. Disse-lhe o jovem: Tenho observado tudo isto desde a minha infância. Que me falta ainda? Respondeu Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende teus bens, dá-os aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me!

Ouvindo estas palavras, o jovem foi embora muito triste, porque possuía muitos bens. Jesus disse então aos seus discípulos: Em verdade vos declaro: é difícil para um rico entrar no Reino dos céus! Eu vos repito: é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus. A estas palavras seus discípulos, pasmados, perguntaram: Quem poderá então salvar-se? Jesus olhou para eles e disse: Aos homens isto é impossível, mas a Deus tudo é possível. (Mt 19, 13-26)

Nesta passagem do Evangelho, rica em significados, podemos notar duas interessantes disposições de alma: a das criancinhas e a do jovem rico. Aquelas aceitam e se deleitam com a divina influência do Salvador, e também Lhe dão alegria; este rejeita o convite para ser apóstolo, deixa Nosso Senhor, entristecendo-O. Nas duas ocasiões, Nosso Senhor demonstra uma bondade sem limites e um carinho comovente; porém, obtém duas reações opostas. Por quê?

Embora, aparentemente, os dois fatos nada tenham de comum entre si, analisando-os bem, vemos que decorrem de um só, mas fundamental, princípio de vida espiritual: a salvação não é fruto do esforço; não se santifica quem procura, diante de Deus, se apoiar em suas próprias obras e méritos. E é justamente esta a disposição de alma das criancinhas: “Quem é pequeno não se julga um colosso nem autossuficiente, mas dependente”.1 Tudo o que precisa, a criança pede aos pais; busca-os infalivelmente em suas dificuldades, não porque se julgue digna de ser atendida – porque não é capaz de nada sozinha –, mas porque só confia neles; não busca ser grande nem independente, mas somente amá-los, e ser por eles também amada; por mais que a castiguem, busca-os e os prefere entre todos os outros.

É o principal motivo pelo qual as criancinhas agradam tanto a Nosso Senhor: a confiança com que se aproximam d’Ele e a sua grande inocência, que as torna capazes de abandonar-se cegamente aos seus divinos cuidados.

Como terá sido o convívio do Redentor com aqueles pequeninos? Talvez Ele os tivesse abraçado, lhes imposto as mãos, concedendo saúde, força, sabedoria e graças incontáveis; e elas com sua vivacidade infantil, certamente fizeram um alvoroço em volta d’Ele…2

Eis, portanto, o que Ele nos quer dizer nesse Evangelho, quando afirma que se nos fizermos “como criancinhas” em nosso relacionamento com Deus, nosso Pai – e com Nossa Senhora, nossa Mãe –, somente assim, entraremos no Reino dos Céus.”

Bem outra, entretanto, foi a reação do moço rico ante o chamado do Divino Mestre. Vê-se que ele buscava se apoiar na prática dos Mandamentos, que dizia ter sempre observado: “Tenho observado tudo isto desde a minha infância”. Porém, isso não suficiente. Nosso Senhor queria dele algo mais, a única coisa que importa realmente: que ele Lhe entregasse o coração. A Infinita Misericórdia buscava não as boas obras somente, mas simplesmente o amor daquela alma. Algo tão natural e fácil para os pequeninos, mas que ele, tão “justo”, não soube dar.

Aquele jovem infeliz pediu a vida eterna; no fundo, achava que esta lhe seria concedida porque observava os artigos do decálogo e era, portanto, bom. Não esperava na misericórdia divina, mas em seu próprio esforço. Porém, nenhum homem pode merecer o Céu, porque “aos homens até isto é impossível.”

Não é verdade que se ele fosse como as criancinhas e dissesse; “Senhor, eu não mereço nada, mas, por compaixão, dai-me a vida eterna!”, teria certamente alcançado o Reino de Deus? Não teria ele sido incomparavelmente mais feliz escolhendo a via do amor, a via dos pequeninos?

Portanto, clara está a resposta à pergunta dos Apóstolos: “Quem poderá, então, salvar-se?” Os que se fizerem como crianças e, livres de toda a riqueza, se jogarem nos braços de Nosso Senhor, que sem dúvida é o melhor de todos os pais e nos ama infinitamente mais do que todos eles.

1 CLÁ DIAS, EP, João Scognamiglio. A inocência, a eterna lei… In: O inédito sobre os Evangelhos. Città del Vaticano-São Paulo: LEV; Lumen Sapientiæ, 2014, v.IV, p.415.

2 Cf. Ibid., p.414.

Chama de vigilância e oração

Ir. Ariane Heringer Tavares, EP

Lamparina_Arautos

Cortejo, cânticos, incenso… Termina uma cerimônia litúrgica. Os fiéis se retiram pervadidos de seriedade e alegria, como inebriados pelas graças que acabam de receber. Aos poucos o recinto sagrado se esvazia, as luzes se apagam e os homens cedem lugar aos Anjos. Agora, não mais as vozes, mas o silêncio fala. Em profunda solidão permanece ali, feito Hóstia, aquele mesmo Jesus que ensinava as multidões e curava os doentes, a quem obedeciam os ventos e as tempestades e cujo Coração não é senão uma fornalha ardente de caridade. Em sua companhia, apenas uma tênue luz permanece vigilante, numa espécie de oração contínua junto ao sacrário: a lamparina do Santíssimo Sacramento.

Na escuridão da noite, sua discreta e elegante chama bruxuleia em contínua vigilância, como se esforçando por manter seu fulgor em meio às trevas que a rodeiam. Às vezes, estala uma labareda, iluminando por um instante todo o ambiente; mais tarde, seu brilho diminui de tal maneira que parece estar a ponto de extinguir-se… Não obstante este aparente desfalecimento, ela volta a flamejar com uma intensidade ainda maior!

Este belo e simbólico objeto, que tantas vezes passa despercebido aos nossos olhos ao entrarmos numa igreja, representa bem as flutuações de nossa vida espiritual. Quando batizados, passamos a ser portadores da luz da graça santificante, que vem acompanhada das virtudes e dos dons.

Nas consolações, uma labareda de entusiasmo resplandece em nossa alma e ela parece tocar os Céus. Entretanto, este estado de espírito não costuma ser o habitual. Pelo contrário, com frequência vemo-nos imersos em tentações que nos convidam ao pecado. No meio delas, julgamos que o fogo se extinguirá, ou nos assustamos ao ver as figuras sombrias geradas pelo seu fraco bruxulear. Cabe-nos, então, fazer todo o esforço possível para manter a chama acesa, à espera do momento em que volte a cintilar com intenso fulgor.

— Como será isto possível?! — dirá alguém.

— Muito simples: rezando! — poder-se-ia retrucar.

Bem verdadeira esta resposta. Contudo, apenas a oração não basta. Lembremo-nos do conselho enunciado pelo Salvador: “Vigiai e orai para que não entreis em tentação” (Mt 26, 41). Dada a fragilidade da natureza humana após o pecado original, é indispensável a virtude da vigilância, que deve ser praticada não só para enfrentar os adversários externos de nossa vida espiritual — o demônio e mundo —, mas, sobretudo, a fim de vencer as solicitações da carne, pois nossas más inclinações e paixões desordenadas costumam ser ainda mais daninhas.

Assim, quando as trevas das tentações cercarem nossas almas, ameaçando consumi-las na escuridão do pecado, a chama de nossa piedade se manterá acesa, à semelhança da lamparina, confiando que recobrará forças e ânimo ao passar a provação. Porém, se a vigilância vier a faltar, difícil será que permaneçamos constantes na oração, sem a qual não há abismo em que o homem não seja capaz de cair.

Revista Arautos do Evangelho – out 2014

Humildade: o que é?

Ir. Ariane da Silva Santos, EP

Imaginemos uma bela catedral, cujos alicerces estão fundados em rocha sólida. No topo de sua cúpula, há uma pedra angular que sustenta toda a construção. Por um efeito extraordinário qualquer, com o passar do tempo, tanto a rocha que está sob os fundamentos quanto a pedra angular se transformam em dois lindos topázios… Tal é a humildade no conjunto das virtudes: ela é o fundamento e a pedra angular da vida espiritual. Ao contrário do que se poderia julgar, não é ela uma pedra bruta, mas sim o mais precioso esteio da santidade, “a melhor garantia da graça e das demais virtudes”, 1 a joia de grande valor com a qual se compra o Reino dos Céus!

Sim, pois, conforme ensina São Tiago em sua epístola, “Deus resiste aos soberbos e dá sua graça aos humildes” (Tg 4, 6). Uma vez que a graça é necessária para salvar-se, concluímos facilmente que a humildade é conditio sine qua non para obter a eterna bem-aventurança.

Mas, o que vem a ser propriamente a humildade? É a virtude que nos leva a reconhecer que a única coisa que possuímos são nossas faltas, e se algo de bom fizemos, foi por iniciativa e inspiração divina: “É Deus quem, segundo o seu beneplácito, realiza em vós o querer e o executar” (Fl 2, 13). Ela “nos inclina a coibir o desordenado desejo da própria excelência, dando-nos o conhecimento acertado de nossa pequenez e miséria principalmente em relação a Deus”. 2

A humildade nada tem de hipocrisia. Ela é “luz, conhecimento, verdade; não fingimento nem negação das boas qualidades que se recebeu de Deus. Por isso dizia admiravelmente Santa Teresa que a humildade é andar na verdade”, 3 aponta o Pe. Royo Marin. Enfim, é a humildade como uma tocha acesa que incessantemente deita seus fulgores sobre as almas, como observa Afonso Maria de Ligório: “os orgulhosos [estão] às escuras, pois mal conhecem o seu nada; a humildade é a luz que dissipa essas horríveis trevas”. 4

Quem se humilhar será exaltado

No Evangelho, encontramos narrada a célebre parábola do fariseu e do publicano. Ambos sobem ao Templo para rezar. O fariseu, inflado de orgulho, aproxima-se do altar e começa a dizer: “Graças te dou, ó Deus, que não sou como os demais homens, ladrões, injustos, e adúlteros; nem como o publicano que está ali” (Lc 18, 11). O publicano, no entanto, permanecendo à distância, batia no peito, nem sequer ousava erguer os olhos aos céus, e depositava a esperança de seu coração em Deus. 5 Bem podemos imaginar que o fariseu, no fundo de sua consciência, injuriava o publicano. Este, porém, reconhecia suas faltas e certamente rezava por aqueles que o perseguiam…

O publicano não estava preocupado com o que diriam a seu respeito, muito pelo contrário: ocultamente batia no peito, pedindo perdão a Deus, consciente de que tinha andado mal. É esta uma das características da humildade, como afirma São Tomás: “A humildade reprime o apetite, para que ele não busque grandezas além da reta razão”. 6 E mais adiante: “É próprio, pois, da humildade, como norma e diretriz do apetite, conhecer as próprias deficiências”. 7

Nosso Senhor conclui a parábola dizendo que o publicano voltou para sua casa justificado. Ainda que aos olhos dos outros ele continuasse sendo um cobrador de impostos, ladrão e até mesmo corrupto, aos olhos de Deus estava livre de qualquer mancha. Quanto ao fariseu… “Pobre fariseu! Não se dava conta dos males que despencavam sobre ele, pelo fato de procurar a glória onde não existia”. 8

Assim, por mais pecador que alguém seja e que tudo pareça estar perdido, olhar para o Céu e reconhecer-se miserável é o grande passo que atrai o beneplácito de Deus, pois “o Senhor ama o seu povo, e dá aos humildes a honra da vitória” (Sl 149, 4).

1 ROYO MARÍN. Teología de la salvación. Op. cit. p. 115.
2 ROYO MARÍN, Antonio. Teologia de la perfección cristiana. 11. ed. Madrid, BAC, 2006, p. 612: “nos inclina a cohibir el desordenado apetito de la propia excelencia, dándonos el justo conocimiento de nuestra pequeñez y miseria principalmente con relación a Dios”. (Tradução da autora)
3 Ibid. p. 613: “La humildad es luz, conocimiento, verdad; no gazmoñería ni negación de las buenas cualidades que se hayan recibido de Dios. Por eso decía admirablemente Santa Teresa que la humildad es andar en verdad”. (Tradução da autora)
4 SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO. A selva. Porto: Fonseca, 1928, p. 91.
5 Cf. CLÁ DIAS. João Scognamiglio. O pedido de perdão deve ser nosso frontispício de todas as nossas orações. Homilia. São Paulo, 21 mar. 2009 (Arquivo IFTE).
6 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. II-II, q. 161,a.1,ad 3.
7 Ibid. a. 2.
8 CLÁ DIAS. Quando é inútil rezar? In: O inédito sobre os Evangelhos. Op. cit. v. VI, p. 429.

Inicia-se uma nova era

Ir Mariana de Oliveira, EP

Com a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo a este mundo, “ iniciou-se um novo regime na história do povo eleito: a era da justiça inclemente estava terminada e começava a era da misericórdia. E esta, tão mais forte do que aquela!”.1

Verdadeiramente começou o tempo da misericórdia, no qual o Salvador vai traçando a ouro as letras da Nova Lei. Por exemplo, na Nova Lei não há mais a pena de talião que obriga a “pagar com a mesma moeda” os danos que um faz contra outro (cf. Lv 24, 17-22), mas ordena ser perdoado o homem que se arrepende de uma falha cometida contra o próximo (cf. Lc 17, 3). Um outro aspecto surpreende os ouvintes: “não vim chamar os justos, mas os pecadores” (Mc 2, 17). A Nova Lei extingue − de uma vez por todas − o desprezo vingativo pelo pecador, dando lugar ao perdão.

O Redentor, em várias ocasiões, dá a conhecer quanto era falsa aquela concepção humana de um Deus que repudiava, odiava e castigava de maneira irrevogável o indivíduo que houvesse cometido alguma falta, pois Ele assumira sobre Si os pecados dos homens (cf. I Pd 2, 24; II Cor 5, 19). Foi assim que surgiram as parábolas mais comoventes do Evangelho: a da ovelha perdida, a da dracma perdida e a do filho pródigo (cf. Lc 15, 4-32), nas quais Jesus deixa patente que veio para resgatar os perdidos, para curar os enfermos de coração, para perdoar os que voltam contristados por terem fugido da casa paterna. Nelas se revela “o perdão generoso que Deus concede ao pecador arrependido e a alegria que manifesta com sua conversão”.2 Eis a bondosa verdade contida nas parábolas e na vida do Divino Salvador!

O Divino Mestre manifestava de tantas maneiras sua bondade e os seus ensinamentos penetravam tão profundamente nas almas, que até os publicanos e os grandes pecadores se comprimiam em volta d’Ele para ouvi-lO. Muito longe de os afastar, Ele acolhia a todos e convertia grande número deles.3

Exemplos da vida do Redentor

É sobretudo em sua maneira de agir que Jesus mostra que o Altíssimo não quer o esmagamento dos homens, mas sim, mostra-lhes que “Deus nos criou para vivermos em íntima harmonia com a criação e para desfrutarmos da segurança que seu convívio proporciona”.4

Sentenças como “Meu filho, coragem! Teus pecados te são perdoados” (Mt 9, 2), ao paralítico, “Filha, a tua fé te salvou. Vai em paz e sê curada do teu mal” (Mc 5, 34), à mulher que sofria de uma doença há doze anos; ou à pecadora arrependida “perdoados estão os pecados. […] Tua fé te salvou; vai em paz” (Lc 7, 48.50), atraíam aqueles que reconheciam sua contingência e que, arrependidos, procuravam reconciliar-se com Deus.

O Redentor era repleto de clemência para com todos. Quão belo é encontrarmos no Evangelho que Ele, “movido de compaixão”, ressuscitou o filho da viúva de Naim (cf. Lc 7, 13-14); “tomado de compaixão” pela multidão abatida e sedenta de sobrenatural, rogou ao Pai que enviasse homens dignos de dar continuidade à obra de misericórdia por Ele começada, e que trabalhassem não no campo, mas nas almas (cf. Mt 9, 36); “cheio de compaixão” pelos cegos que pediram devolvesse-lhes a vista, atendeu o seu pedido (cf. Mt 20, 34)! Contudo, Ele, que não quer a morte do pecador, mas que ele volte, se converta e tenha vida (cf. Ez 18, 23), e é boníssimo para com os que se reconhecem culpados e desejam purificar-se das faltas, é Ele mesmo também pleno de santa cólera para com os empedernidos nos seus erros e, por amor a Deus, é capaz de expulsar à base de chicotadas os que têm o atrevimento de fazer da casa de seu Pai uma casa de negociantes, um covil de ladrões (cf. Jo 2, 15-17; Mt 21, 13).

O Senhor realmente “odeia o pecado” 5 e, odiando-o, almeja que o pecador rejeite a perversidade e também a abomine. “O Rei-Messias quer que o coração dos seus súditos lhe pertença totalmente”,6 e por isso Ele não repele, mas chama o pecador e, qual Bom Samaritano, sana as chagas abertas pelos ladrões – demônio, mundo e carne. Como Bom Pastor, limpa as imundícies dos rebeldes que se meteram no lodo e nos espinhais dos vícios. Enfim, como Bom Médico da humanidade, não somente cura, mas oferece o remédio que desfaz o vício e acalma a rebeldia. Ou seja, Nosso Senhor, por misericórdia, busca afastar de sua presença a iniquidade, e ao invés de coabitar com ela, Ele a arranca.

Em contrapartida, isto suscitava um ódio violento da parte dos que se tinham por necessários: “Quem é este homem que profere blasfêmias ? Quem pode perdoar pecados senão unicamente Deus?” (Lc 5, 21). Sim, eles tinham razão, unicamente Deus pode perdoar os pecados! E aquele Homem diante do qual se encontravam era Deus, capaz de perdoar as fraudes de todos eles, se lhe pedissem perdão.

Ó misericórdia, tão ausente nos corações dos homens daquele tempo! Como foi difícil a tarefa do Salvador, convencendo seus escolhidos de que Deus não era o carrasco que imaginavam, pois, se até no relacionamento social a bondade estava depauperada, e era quase nula tanto mais era difícil para eles imaginá-la no Criador!

Continua no próximo post.

1 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. A Cruz, centro e ápice da História. In: O inédito sobre os Evangelhos. Comentário aos Evangelhos dominicais. Solenidades e festas que podem ocorrer em domingo, Quarta-Feira de Cinzas, Tríduo Pascal, outras festas e memórias. Città del Vaticano-São Paulo: LEV; Lumen Sapientiae, 2013, v. VII, p. 213-214.
2 FILLION, Louis-Claude. Jesus Cristo segundo os Evangelhos. Trad. Aureliano Sampaio. Porto: Civilização, 2007, p. 281.
3 Ibid. p. 281-282.
4 RATZINGER, Joseph. Dios y el mundo. Trad. Rosa Pilar Blanco. Barcelona: Galaxia Gutenberg, 2005, p. 73. (Tradução da autora).
5 ROYO MARÍN, Antonio. Dios y su obra. Madrid: BAC, 1963, p. 89. (Tradução da autora).
6 FILLION. Op. cit. p. 154.

UMA MANEIRA DE EDUCAR O HOMEM

Ir. Mariana de Oliveira, EP

“Nenhum povo recebeu tanto carinho, a nenhum outro revelou os seus preceitos” (Sl 147, 9). Com essas palavras se refere o salmista à nação de Israel com a qual Deus estabeleceu um forte vínculo. O Todo-Poderoso Se manifestava incessantemente aos israelitas; estes O adoravam por ser Ele seu Deus, e era tal a reverência prestada a seu supremo poder, que o povo não tinha outro soberano senão o próprio Criador do Universo. No entanto, nem todos se recordam quando começou, como e para onde confluía esse especialíssimo convívio.

Depois do pecado, a Promessa e o povo eleito

O relacionamento de Deus com o homem existe desde quando os nossos primeiros pais, Adão e Eva, foram criados. Ao soprar naquele boneco de barro (cf. Gn 2, 7), Deus não só lhe infundiu a vida, como depositou nele uma semente muito mais preciosa que a vida: o desejo de gozar do convívio divino. “Esta aspiração, infundida em seu próprio ser a fim de facilitar as relações entre ele e o Criador, nem os piores crimes ou fugazes e enganosos prazeres desta vida conseguem apagar. Numa palavra, a paz e a felicidade autênticas só podem ser encontradas em Deus”. 1

E mesmo depois da horrível queda original, este vínculo de relacionamento não foi extinto, mas subsistiu num único “fio”− se assim podemos dizer −, que se chamou Aliança. Aliança ou Promessa que não rompeu o expresso desejo do Altíssimo de que aquele casal desse origem a uma vasta descendência, e esta, por sua vez, se multiplicasse (cf. Gn 1, 28) e se preparasse para receber dignamente o Grande Libertador que haveria de nascer de sua linhagem (cf. Gn 3, 15).

Os Patriarcas

Promessa não sepultada com o pecado de Adão, foi ela revigorada pelo próprio Deus, ao longo das gerações, a homens que bem podem ser chamados “picos da cordilheira” da história israelita. A linhagem desta plêiade de varões iniciou-se com os Patriarcas, aos quais seguiram os Juízes. Assim foi, por exemplo, com Noé, depois do Dilúvio, quando lhe disse: “Vou fazer uma Aliança convosco e com vossa posteridade” (Gn 9, 9).

A Abraão, o autêntico genitor do povo judeu, o Senhor também reafirma a Aliança primeira: “Tornar-te-ei extremamente fecundo, farei nascer de ti nações e terás reis por descendentes. Faço aliança contigo e com tua posteridade, uma aliança eterna, de geração em geração, para que eu seja o teu Deus e o Deus de tua posteridade” (Gn 17, 6-7).

Igualmente a Isaac, fruto da Promessa feita a Abraão, o Todo-Poderoso assegura: “Eu estou contigo e te abençoarei, porque é a ti e à tua posteridade que darei toda esta terra, e cumprirei o juramento que fiz ao teu pai Abraão. Multiplicarei tua posteridade como as estrelas do céu, dar-lhe-ei todas estas regiões, e nela serão benditas todas as nações da terra” (Gn 26, 3-4). Em Jacó, ou Israel, o juramento atingiu seu pináculo: “os israelitas foram fecundos e multiplicaram-se; tornaram-se tão numerosos e tão fortes, que a terra ficou cheia deles” (Ex 1, 7).

Na descendência de Israel nasce Moisés, um “pico” vistoso e agradável aos olhos do Senhor, chamado a livrar os hebreus do pesado jugo egípcio. Assim poderíamos percorrer do começo ao fim a história da nação israelita e encontrar, em todas as épocas, promissoras e consoladoras palavras do Altíssimo.

“Convinha, pois, que aquele povo do qual Cristo haveria de nascer pudesse dispor de alguma especial santificação”. 2 Fica patente: Deus não abandonava aqueles homens, ao contrário, mostrava agrado por tê-los escolhido como ancestrais do Salvador e por esta razão Se manifestava com tanta frequência: “Não é porque sois mais numerosos que todos os outros povos que o Senhor Se uniu a vós e vos escolheu; ao contrário, sois o menor de todos. Mas o Senhor ama-vos e quer guardar o juramento que fez a vossos pais” (Dt 7, 7-8).

O normal seria que o povo de Israel, objeto de tantos cuidados, fosse ao menos grato a seu Supremo Benfeitor e andasse na justiça ante seu divino olhar. Porém, não foi isso que sucedeu…

Ingratidão perante a generosidade divina, no Antigo Testamento

Depois do pecado, o homem se tornou fraco para o bem e inclinado ao mal e, à maneira de um carro desgovernado que tromba em postes e rola na via, os filhos de Eva chocam-se com suas más tendências. Caso não as refreiem, despencam nos abismos do pecado.

Pois bem, este “Deus que Se preocupa com o [homem] e quer sua felicidade”, 3 que abre o mar para dar passagem aos hebreus (cf. Ex 14, 16.21-22), que alimenta seu povo em pleno deserto com pão e carne à vontade (cf. Ex 16, 13), que lhe sacia a sede, fazendo irromper água das rochas (cf. Ex 17, 6), que o guia no deserto e ameniza o calor do dia com uma coluna de nuvem e o frio da noite com uma coluna de fogo (cf. Ex 13, 21-22), recebe em retribuição queixas, desobediências, traições. O povo de Israel, testemunha de numerosos desvelos sobrenaturais, lamenta a falta de água, reclama do maná, chamando-o de “miserável alimento” (Nm 21, 5), e, por fim, trai o único e verdadeiro Deus, idolatrando um bezerro de metal fundido, exclamando: “Eis ó Israel, o teu deus que te tirou do Egito” (Ex 32, 4).

Afirma um velho adágio latino: “Corruptio optima, pessima – a corrupção do ótimo é o péssimo”. A eleição divina que pairava sobre aquele povo, da qual os israelitas eram cientes e outrora fora contemplada com amor e reconhecimento, passou a ser vista por alguns com indiferença; por outros, como objeto de humilhação. E, inclusive, de revolta, pois por detrás dessas lamúrias no deserto se ocultava um avassalador desejo de voltar à escravidão do Egito, sob as ordens de um rei tirano, e abandonar o caminho rumo à Terra Prometida guiados pela mão de Deus. Quem não distingue a falta de amor que tomava conta daqueles hebreus de cerviz dura? Podia o Todo-Poderoso ficar de “braços cruzados”, enquanto sua porção escolhida especialmente para receber a salvação do mundo prevaricava e transmitia, através das gerações, a corrupção?

Os filhos de Israel precisavam de correção para seu procedimento, pois era muito grave continuar retribuindo com ingratidões tantos afetos. Por isso, o Criador dá outro colorido ao convívio com suas criaturas, Ele castiga os desobedientes a fim de que o povo inteiro não O despreze. 4 O fortíssimo Senhor dos exércitos afirma que é um “Deus zeloso” (Dt 5, 9), revela que quer a obediência enlevada a seus decretos, além de Se mostrar extremamente irado com a iniquidade: “Se não Me escutardes e não guardardes os meus mandamentos, […] minha alma vos abominará” (Lv 26, 14.30);

Entra em vigor o regime ou reino da justiça, pois, “sem ela, seria a anarquia, a luta entre os interesses rivais, a opressão dos fracos pelos fortes, o triunfo do mal”. 5 Sem ela, a desobediente raça dos hebreus não seria jamais perpetuada, porque a tibieza na qual estava submersa era suficiente para que Deus a fizesse desaparecer, com o fim de não escandalizar os gentios. À justiça − cujo objetivo principal é dar a cada um o que lhe é devido, 6 ou seja, dar o prêmio ao bom e o castigo ao mau −, “compete […] retificar os atos humanos”. 7

Ressaltamos aqui mais algumas passagens das Escrituras, para compreendermos melhor como ficaram, no quadro da história do povo bem-amado, as novas cores da justiça que o Senhor pintou segundo sua perfeição.

Quando, por exemplo, declarou: “Não cometerás adultério” (Dt 5, 18), fez perecer o filho da união ilegítima de Davi (cf. II Sm 12, 14). E se havia decretado que somente aos levitas competia exercer as funções sacerdotais e tocar nas coisas santas, e que nenhum outro poderia fazê-lo (cf. Nm 18, 7), não foi certíssimo ferir de morte a Oza, quando este teve a temeridade de aproximar-se da Arca da Aliança e segurá-la, sem ser levita? (cf. II Sm 6, 7)

Da mesma maneira, quando ordenou “Não pronunciarás em vão o nome do Senhor, teu Deus” (Dt 5, 11), não foi lícito castigar quarenta e dois rapazes que zombaram de Eliseu, o portador da palavra de Deus, enviando dois ursos para tragá-los (cf. II Re 2, 23-25)? Igualmente exigiu: “Não terás outros deuses diante de minha face” (Ex 20, 3). E se não andardes nos meus caminhos, seguindo meus preceitos, Eu vos enviarei terríveis flagelos, vos entregarei à espada, vos farei sucumbir ante vossos inimigos, povos estranhos vos dominarão e não lhes podereis resistir (cf. Lv 26, 14-38). Não era, pois, sumamente justo e digno de um Deus cuja palavra é eterna entregar ao domínio dos reis da Assíria (cf. II Re 17, 22-23), da Babilônia (cf. II Re 25, 1-11), dos Persas e Medos (cf. II Cr 36, 20), e da Grécia aqueles judeus que se afastaram de sua Aliança, venderam-se ao pecado e dobraram seus joelhos aos baals (I Mac 1, 1-43)?

Comprovamos, assim, como Deus não poupava a justiça para corrigir os israelitas, atuando em suas vidas tanto como Senhor e Rei, quanto como Educador. O Altíssimo não lhes manifestava a Boa-nova da salvação sem exigir-lhes a obediência exímia aos decretos que havia dado. Tinha Ele a finalidade de compenetrá-los e prepará-los para o cumprimento da Promessa, isto é, para o nascimento do Messias.

1 MORAZZANI ARRÁIZ, Mariana. Entre Deus e os homens. In: Arautos do Evangelho. São Paulo: Ano XIII, n. 147, mar. 2014, p. 24.
2 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. I-II, q. 98, a. 4.
3 MARTÍNEZ SIERRA, Alejandro. Antropología Teológica fundamental. Madrid: BAC, 2002, p.13. (Tradução da autora).
4 Cf. SANTO IRINEU. Tratado contra as heresias. In: COMISSÃO EPISCOPAL DE TEXTOS LITÚRGICOS. Liturgia das Horas. Petrópolis: Vozes, Paulinas, Paulus, Ave Maria, 2000, v. II, p. 172.
5 TANQUEREY, Adolphe. Compêndio de Teologia Ascética e Mística. § 1038 .Trad. João Ferreira Fontes. 6. ed. Porto: Apostolado da Imprensa, 1961, p. 492.
6 Cf. COLLIN, Enrique. Manual de Filosofía Tomista. Trad. Cipriano Montserrat. 2. ed. Barcelona: Luis Gili, 1951, v. II, p. 264.
7 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Op.cit. II-II, q. 58, a. 2.

A RAIZ DE TODOS OS MALES

Ir. Ariane da Silva Santos

No dia a dia, diversas vezes nos deparamos com atitudes que não dão glória a Deus. Qual a raiz de tantas inclinações para o mal, de tantos desejos desordenados e de tantos outros defeitos da natureza humana? O orgulho, que, desde a queda de nossos primeiros pais, alastrou-se pelo mundo como uma peste no meio do jardim. Esse vício é a raiz de todos os pecados e por isso o homem necessita combatê-lo constantemente, sem que possa ver-se livre dele “senão meia hora após a morte”, 1 comenta Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias.

Contudo, antes ainda da queda de Adão, outro ato de orgulho havia causado a perdição eterna de outros seres, superiores ao homem na ordem da Criação.

Os anjos pecaram porque quiseram ser como Deus

“Non serviam! ― Não servirei! Subirei até o alto dos Céus, estabelecerei o meu trono acima dos astros de Deus, sentar-me-ei sobre o monte da aliança! Serei semelhante ao Altíssimo!” (Is 14, 13-14). Este odioso brado de revolta ― inspiração de todos os gritos de insubmissão da História ― fez-se ouvir no Céu. Era Lúcifer, o anjo que portava a luz. Tal era sua excelência que a Igreja aplica a ele as palavras de Ezequiel: “Tu és o selo de semelhança de Deus, cheio de sabedoria e perfeito na beleza; tu vivias nas delícias do paraíso de Deus e tudo foi empregado para realçar a tua formosura!” (Ez 28, 12-12).

Se Lúcifer estava assim tão perto de Deus, qual o motivo de tamanha revolta?

Segundo vários autores, fora revelado aos anjos que o Verbo Eterno Se uniria à natureza humana, “elevando-a assim até o trono do Altíssimo; e uma mulher, a Mãe de Deus, tornar-se-ia medianeira de todas as graças, seria exaltada por cima dos coros angélicos e coroada Rainha do universo”. 2

Tal revelação foi, no fundo, uma prova para todos os anjos. E alguns não quiseram aceitar, “pecaram por orgulho; manifestaram-se, ipso facto, desejosos de se nivelar com Deus, pois Lhe negaram a plena e suprema autoridade”. 3

Lúcifer quis ultrapassar o mistério que seu entendimento não alcançava… Julgou que o Senhor ignorava a superioridade da natureza angélica ao preferir unir-Se a um ser tão inferior a Si. E ao constatar que ele, o arquétipo dos Anjos, ver-se-ia na obrigação de adorar um homem ― ainda que divino ―, rebelou-se. Como observa São Bernardo, “aquele que do nada fora tirado, comparando-se, cheio de altivez, pretendeu roubar o que pertencia ao próprio Unigênito do Pai”. 4

Entretanto, o Arcanjo São Miguel, levantando-se como uma labareda da contrarrevolução e da fidelidade aos desígnios do Altíssimo, bradou: “Quis ut Deus?” E “houve no Céu uma grande batalha. Miguel e seus anjos tiveram de combater o Dragão. O Dragão e seus sequazes travaram combate, mas não prevaleceram. E já não houve lugar no céu para eles” (Ap 12, 7-8).

Arrastando consigo a terça parte dos anjos, Lúcifer foi precipitado no inferno, tornando-se o príncipe das trevas. “Como caístes, ó astro resplandecente, que na aurora brilhavas? A tua soberba foi abatida até os infernos” (Is 14, 11-12). Eis o castigo do orgulho!

São Miguel Arcanjo, por sua vez, foi elevado à mais alta hierarquia celeste, tornando-se o condestável dos exércitos angélicos, o baluarte da Santíssima Trindade. Eis o prêmio da humildade!

Com os homens, dá-se o mesmo?

Leia no próximo post.

1 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O fariseu e a pecadora. In: O inédito sobre os Evangelhos. Comentários aos Evangelhos dominicais. Tempo Comum. Ano C. Città Del Vaticano-São Paulo: LEV; Lumen Sapientiae, 2012, v. VI, p. 151.
2 MORAZZANI ARRÁIZ, Pedro Rafael. Quem como Deus? In: Arautos do Evangelho. São Paulo: n.69, set. 2007, p.19.
3 CORRỆA DE OLIVEIRA. Plinio. O adversário. In: Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei, n. 56, nov. 2002, p. 30.
4 SÃO BERNARDO. Homilia sobre las excelencias de la Virgen Madre. In: Obras completas. Madrid: BAC, 1953, I. p. 215: “Aquel que, habiendo sido formado ángel de la nada, comparándose, lleno de soberbia, a su Hacedor, pretendía robar lo que es proprio del Hijo de Dios”. (Tradução da autora)

O Discípulo Amado

Ir. Carmela Werner Ferreira, EP

Quem percorre as palpitantes páginas do Evangelho não demora muito para comprovar com quanto acerto o profeta Simeão predisse o futuro dAquele que trazia em seus braços: “Eis que este Menino está posto para ruína e ressurreição de muitos em Israel e para ser sinal de contradição. Assim se descobrirão os pensamentos escondidos nos corações de muitos” (Lc 2, 34-35). De fato, a cada passagem vemo-Lo objeto do mais sincero amor e das mais declaradas antipatias; não se encontra diante dEle quem assuma uma posição de neutralidade.

Assim, ao inexprimível enlevo que conduziu os reis magos a Belém, seguiu-se a fúria ardilosa de Herodes. As entusiasmadas manifestações das multidões perante os prodígios do Homem-Deus eram simultâneas aos pérfidos conciliábulos do Sinédrio, e as mostras de gratidão e reconhecimento dadas por Maria Madalena foram acompanhadas pela inveja de Simão fariseu e a avareza de Judas Iscariotes. Essas posições bem delineadas continuarão a ser assumidas pela humanidade, ao longo da História, diante da figura adorável do Verbo Encarnado e assim será até o grande dia em que Ele vier no esplendor de Sua glória julgar os vivos e os mortos.

Entretanto, não foi por falta de amor de Jesus que muitos O rejeitaram. As sagradas narrativas da Escritura demonstram a que extremo Jesus levou a bondade e misericórdia pelas almas que se abriram à Sua pregação. E dentre as figuras que emergem no Evangelho, uma há que se destaca como o depositário das divinas afeições e prodigalidades de Jesus: é João Evangelista, o apóstolo virgem, o Discípulo Amado.

Jesus conclama os primeiros apóstolos

João foi o mais jovem dos apóstolos e teria por volta de vinte anos quando encontrou Jesus, após ter sido discípulo de João Batista. A juventude transcorria-lhe serena entre as práticas do ofício de pescador e o culto ao Deus de Israel. Seu coração preservado das inebriantes mentiras do pecado e dotado das puras inclinações inerentes à inocência fizera dele o objeto da divina predileção de Jesus.

O convite deu-se num dia de laboriosa atividade pesqueira na região de Cafarnaum. Após ter inaugurado o Colégio Apostólico chamando Pedro e André, Jesus “viu outros dois irmãos, Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, que estavam numa barca juntamente com seu pai Zebedeu, consertando as suas redes. E chamou-os. Eles, deixando imediatamente a barca e o pai, seguiram-No” (Mt 4, 21-22).

Tem-se todos os elementos para crer que São João Evangelista fora um menino com vigorosos traços contemplativos, os quais foram a causa de sua imediata consonância com o Salvador. O mesmo Deus que o chamava naquele dia havia preparado sua alma, desde os primeiros lampejos do uso da razão, para esse supremo encontro.

Ao lado do Mestre

O Discípulo Amado gozou do convívio com Jesus durante toda a Sua vida pública, viu o alvorecer da História da Salvação desenrolar-se diante de seus olhos e abeberou-se dos ensinamentos do Mestre na mais excelente das fontes: a Sua Pessoa sagrada. Ó feliz apóstolo, que teve a alma modelada pela presença redentora de Cristo! Eis o exemplo mais puro das santas veredas do discipulado!

Na sequência das portentosas manifestações de Jesus, vemos São João constantemente a Seu lado, servindo-O muito de perto. Ele maravilhou-se com o primeiro milagre em Caná, sentiu seus braços arquearem-se sob o peso dos cestos repletos de pães que o Mestre havia multiplicado por compaixão da multidão faminta; viu os aleijados e leprosos lançarem longe suas amarras em meio a cânticos de ação de graças e esquecerem-se num só momento anos inteiros de atrozes sofrimentos. Seus olhos encontravam-se com os de Jesus após tudo isso e sua alma grata reconhecia interiormente estar diante do Messias, o Esperado das Nações.

Nos momentos de oração, quando o Salvador se retirava para o alto das montanhas, ele O admirava nos divinos colóquios com o Pai, e adentrava a indizível atmosfera de bênçãos que envolvia aquelas supremas conversações. Era-lhe impossível não amar um tão grande Deus feito homem e, sobretudo, recusar as manifestações do amor inesgotável que Jesus lhe devotava.

Lembremo-nos aqui de seu caráter veemente que lhe mereceu, com seu irmão Tiago, o cognome de Boanerghes, que significa “os filhos do trovão” (Mc 3, 17). Sem deixar de se manifestar ardoroso, ia-se acrescentando à sua personalidade aquela doçura que é propriamente o sinal indelével de um seguidor de Cristo. Como veremos, esta suavidade de espírito marcou-o profundamente, porque Jesus havia-lhe reservado, ademais, a mais benfazeja das companhias.

Quinze anos de celestial convívio com Maria

Tendo acompanhado Jesus no Monte da Transfiguração e no Horto das Oliveiras, foi durante a agonia do Senhor que as garras da tibieza vieram arranhar-lhe a fidelidade. De fraquezas indesculpáveis como a de não acompanhar Jesus por uma hora sequer em meio a Suas mortais tristezas e fugir por medo dos soldados dos pontífices e fariseus, originou-se um perdão restaurador. A vergonha de tê-Lo abandonado afligiu sua alma, antes que a todos os outros, e seu espírito contrito, no qual soprava a graça do arrependimento, o armou de santa coragem e o conduziu aos pés da Cruz.

No doloroso momento em que se consumava o deicídio, Jesus teve ainda duas alegrias: a de levar Consigo, para o Reino dos Céus, o Bom Ladrão e ver voltar com humildade o filho que, horas antes, pousara a cabeça sobre Seu peito e ouvira o pulsar do Coração abrasado de amor pelos homens.

A João, que livrava naquele momento o Colégio Apostólico da completa deserção e representava toda a humanidade, foi concedido o maior dos tesouros: “Jesus, vendo Sua mãe e, junto dEla, o discípulo que amava, disse a Sua mãe: ‘Mulher, eis o teu filho’. Depois disse ao discípulo: ‘Eis a tua mãe’, E, desde aquela hora, o discípulo recebeu-a na sua casa” (Jo 19, 26-27).

É isto tudo quanto sabemos pela Revelação acerca do período bendito que a Santíssima Virgem permaneceu ainda nesta Terra. A mais sólida tradição no-lo aponta como tendo sido de quinze anos, aproximadamente. Ela esteve em Jerusalém até a dispersão dos apóstolos e depois na Ásia Menor, a região onde São João exerceu sua missão evangelizadora. É em Éfeso que o peregrino encontrará a “Casa de Maria”, uma singela construção venerada desde tempos imemoriais como a derradeira moradia da Rainha dos Céus. Se àqueles tijolos fosse dada a faculdade de falar, quantas maravilhas eles teriam a nos dizer…

Uma réplica definitiva

O Discípulo Amado já havia exercido longos anos de atividades apostólicas quando surgiu, em meio aos cristãos de seu rebanho, a heresia gnóstica. Esta foi a mais terrível inimiga da divindade de Cristo, pela qual cristãos dissimulados afirmavam ser mais importante e louvável o conhecimento adquirido que a santidade de vida. A virtude era — diziam — uma aspiração para os menos capacitados, um anelo desprezível para quem já atingiu os elevados páramos da inteligência. Como conseqüência dessa nefasta influência, ficava subentendido que cada um poderia levar a vida moral pecaminosa que quisesse, desde que evoluísse na compreensão da pura doutrina. Sobretudo, negavam a Pessoa divina de Jesus, interpretando num plano natural toda a transcendência da Revelação.

Foi de tal maneira sagaz e sorrateira a ação dos gnósticos, que para discernir o teor de sua maldade e a gravidade de seus efeitos, era preciso ter convivido longamente com aquele Deus feito homem que ressuscitou-Se a Si mesmo e a Quem os mares e o céu obedeciam.

Num período em que todos os demais apóstolos já haviam selado sua entrega a Cristo com o próprio sangue, o único dos doze que ainda pelejava era também o único que tinha autoridade para replicar: “O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com os nossos olhos, o que temos contemplado e as nossas mãos têm apalpado no tocante ao Verbo da vida – porque a vida se manifestou, e nós a temos visto; damos testemunho e vos anunciamos a vida eterna, que estava no Pai e que se nos manifestou – o que vimos e ouvimos nós vos anunciamos” (1 Jo 1, 1-3)

É esta peculiar circunstância histórica que torna os escritos de São João — seu Evangelho, as três Epístolas e o Apocalipse, redigidos na última década do primeiro século — a rocha firme sobre a concepção da Pessoa de Cristo destinada a fulgurar por todo o sempre.

A primazia do amor

Compreender São João Evangelista é no fundo compenetrar-se que “Deus é amor” (1 Jo 4, 8). A caridade pregada por ele é a mais perfeita fonte de santidade, a mais segura garantia contra o pecado e a mais excelente marca da filiação divina. Quando lemos no Apocalipse a admoestação feita à igreja de Éfeso: “Mas tenho contra ti que deixaste o teu primeiro amor” (Ap 2, 4), enchemo-nos de confusão, porque quiçá mais que para ela, essa palavra valha para nós. A humanidade, que se verga sob a dura tirania da escravidão ao pecado, esqueceu-se da insuperável felicidade da inocência batismal. No momento em que o amor materno da Santíssima Virgem nos obtiver aquela graça de compunção que restaurou a fidelidade de São João, nós também acorreremos aos pés da Cruz e gozaremos outra vez do “primeiro amor” e da sublime intimidade com o Coração de Cristo.

Revista Arautos do Evangelho – dez 2007

Aquele que portava Cristo no seu coração (cont)

Continuação do post anterior

Ir. Clara Isabel Morazzani Arráiz, EP

“Procuro aquele que morreu por nós!”

Entretanto, se as cartas deste insigne doutor manifestam toda a riqueza de seu ensinamento teológico, uma outra ainda, aquela enviada aos romanos, deixa entrever o sublime ardor de sua alma, elevada aos píncaros da mais pura mística. Tendo-lhe chegado a notícia de que os fiéis de Roma procuravam interpor toda sua influência para afastar dele a mortal condenação, apressou-se em dirigir-lhes, desde Esmirna, uma comovedora súplica: “Tenho escrito a todas as Igrejas e a todas elas faço saber que com alegria morro por Deus, contanto que vós não mo impeçais. Suplico-vos: não demonstreis por mim uma benevolência intempestiva. Deixai-me ser alimento das feras, porque, através delas, pode-se alcançar a Deus. Sou trigo de Deus: que seja eu triturado pelos dentes das feras para tornar-me puro pão de Cristo!

Instigai, ao contrário, os animais para que neles encontre o meu sepulcro e nada reste de meu corpo para não ser pesado a ninguém, depois de adormecer. Então serei verdadeiro discípulo de Cristo, quando o mundo não mais vir sequer o meu corpo. Suplicai a Deus por mim, que por este meio me torne uma hóstia para Deus. […]

Que nada, tanto das coisas visíveis quanto das invisíveis, segure o meu espírito, a fim de que eu possa alcançar a Jesus Cristo. Que o fogo, a cruz, um bando de feras, os dilaceramentos, os cortes, a deslocação dos ossos, o esquartejamento, as feridas pelo corpo todo, os duros tormentos do diabo venham sobre mim para que eu ganhe unicamente a Jesus Cristo! […]

Procuro aquele que morreu por nós: quero aquele que por nós ressuscitou. Meu nascimento está iminente. Perdoai-me, irmãos! Não me impeçais de viver, não desejeis que eu morra, pois desejo ser de Deus. […]

Vivo, vos escrevo, desejando morrer. Meu amor está crucificado. Não há em mim um fogo que busque alimentarse da matéria, apenas uma água viva e murmurante dentro de mim, dizendo-me em segredo: ‘Vem para o Pai!’ […]

Se for martirizado, vós me quisestes bem. Se for rejeitado, vós me odiastes.” 7

Expressões de tão heroica caridade só poderiam brotar de um coração tomado pela graça do martírio de maneira superabundante. Com efeito, assim nos explica São Tomás de Aquino: “Entre todos os atos de virtude, o martírio é aquele que manifesta no mais alto grau a perfeição da caridade. Porque tanto mais se manifesta que alguém ama alguma coisa, quanto por ela despreza uma coisa amada e abraça um sofrimento. É evidente que entre todos os bens da vida presente aquele que o homem mais preza é a vida e, ao contrário, aquilo que ele mais odeia é a morte, principalmente quando vem acompanhada de torturas e suplícios por medo dos quais ‘até os próprios animais ferozes se afastam dos prazeres mais desejáveis’, como diz Agostinho. Deste ponto de vista, é evidente que o martírio é, por natureza, o mais perfeito dos atos humanos, enquanto sinal do mais alto grau de amor, segundo a palavra da Escritura: ‘Não existe maior prova de amor do que dar a vida por seus amigos.’”. 8

Um lutador resignado só pode ser traidor

Esta excelência da caridade que pervadia o interior de nosso santo, só tendia a crescer à medida em que se sucediam as etapas da viagem que o aproximavam da tão almejada meta. Embarcando no porto de Dirraquio — sempre sob o olhar vigilante dos guardas, os quais ele mesmo chamava de “dez leopardos”, a causa dos maus tratos que lhe infligiam — enfrentou uma longa travessia, bordejando o sul da Itália e, por fim, desembarcou em Óstia, a 20 de dezembro do ano 107, último dia das festas públicas que se celebravam em Roma.

Na orgulhosa metrópole dos imperadores comemorava-se ainda o triunfo de Trajano sobre os dácios. Durante 123 dias haviam-se prolongado os espetáculos nos quais morreram 10.000 gladiadores e 12.000 feras. O bispo Inácio era esperado com ansiedade pela turba pagã, pois as vítimas ilustres e de aspecto venerável exerciam maior atração nos jogos circenses. Por isso, os soldados para lá conduziram-no sem demora. Os cristãos receberam-no às portas da cidade, com manifestações de sincera admiração e respeito. Alegravam-se ao vê-lo, mas lamentavam, ao mesmo tempo, que lhes fosse arrebatado tão cedo. Rogaram-lhe, então, que obtivesse de Deus o favor de que algumas relíquias suas lhes fossem deixadas após o martírio. Embora contra sua vontade — pois ele desejava ser devorado por inteiro — o santo varão acedeu bondosamente em fazer-se cargo de pedido tão filial.

Arrastando suas cadeias, Inácio atravessou as ruas pavimentadas da capital do império: ao longe podia divisar os imponentes muros do Coliseu dominando o vale, circundado pelos montes Palatino, Esquilino e Célio. Aquele edifício representava para ele o termo de seus anelos, a realização de suas esperanças mais íntimas, a consumação de seu holocausto. Caminhava apressadamente, não com a resignação de um condenado, mas impelido pelos ardores de entusiasmo que não mais cabiam dentro de sua alma, convicto de que o lutador resignado é traidor. Aquele edifício servir-lhe-ia de túmulo e de altar, ao passo que seria o pedestal de onde seu espírito voaria ao céu.

“Desejaria ser triturado como o trigo”

Uma numerosa multidão acorrera ao Coliseu para presenciar o sangrento espetáculo e se deliciar com o destroçamento do corpo do mártir. Este, sereno e alegre, não manifestou a menor vacilação quando as grades foram abertas e entrou no vasto anfiteatro, à espera do trágico momento em que as bestas ferozes fossem soltas. As vaias e os escárnios daqueles pagãos para ele nada significavam. Pelo contrário, eram-lhe uma razão a mais para crer na invisível coorte de bem-aventurados a esperá-lo com uma palma e uma coroa.

Ouve-se um hurra na turbamulta, sucedido por silêncio e um grande suspense: os famintos leões irromperam na arena e, impetuosos, avançaram sobre a pura e inocente vítima para devorá-la. Entretanto, com a majestade e império que possuem as almas tomadas pelo Espírito Santo, o mártir estancou-as a meio caminho, com um simples gesto de mão. Num movimento solene, ajoelhou-se e, elevando os braços ao céu, clamou em alta voz: “Senhor, aqueles que me acompanharam e que são também vossos filhos, pediram-me que rezasse a fim de que algo lhes sobre deste martírio, para estímulo de sua fé. Eu, porém, desejaria ser triturado como o trigo para vos ser oferecido como hóstia pura. Senhor, fazei a vontade deles e também a minha, eu vos peço”.

Após a oração, assistida com estupefação pela horda criminosa e pagã e pelas feras, com respeito, eis que ainda mais grandioso e nobre gesto permitiu a estas últimas sair de seu miraculoso encantamento e dar vazão aos instintos de sua voraz natureza.

Em poucos minutos, lá entravam os gladiadores a agrilhoar aqueles animais que acabavam de saciar seu bestial apetite com as carnes de um novo serafim. A arena vazia, o espetáculo terminado, retirou-se vagarosa e frustrada a assistência. Que demonstração de fé e de nobreza haviam presenciado!

“Põe-me como um selo em teu coração”

Os cristãos por ali ainda permaneceram à espera do cair do sol. E quando o manto da noite passou a cobrir a cidade de Roma, penetraram na arena à procura das poeiras tornadas relíquias ao serem embebidas pelo sangue daquele que agora os precedia na glória celeste.

Um milagre! Encontraram intactos um fêmur e o coração! Tomados de sobrenatural entusiasmo, caminharam sem medir distâncias, rumo às catacumbas e depois de algumas horas, constataram, à luz das lamparinas, outro milagre: num círculo, as veias e artérias do coração do santo mártir, constituíam as célebres palavras: Iesus Nazarenus, Rex iudeorum.

Inácio, o Teóforo, o portador de Deus, atestara seu nome com aquele comovedor prodígio. Seu coração amante fora subjugado e modelado pelo Amado, segundo aquele pedido do Cântico: “Põe-me como um selo em teu coração” (Ct 8, 6). Nem as tribulações, nem as correntes, nem os suplícios, nem a própria morte o haviam podido separar do amor de Cristo. Por sua santa vida, rica em pregações, em caridade e exemplos, assemelhara-se ao Divino Mestre, imitando-o enquanto verdadeiro Pastor das ovelhas. Por sua generosa entrega levada ao extremo da imolação, alcançara para sempre aquela “única coisa necessária” (Lc 10, 42): o convívio eterno com Aquele a quem só procurara na Terra, Jesus!

A este santo varão de Deus bem poderiam ser aplicadas as belas palavras de um autor medieval: “Forte é o amor, que tem poder para privarnos do dom da vida. Forte é o amor, que tem poder para restituir-nos o gozo de uma vida melhor. Forte é a morte, poderosa para despojar-nos do revestimento deste corpo. Forte é o amor, poderoso para nos roubar os despojos da morte e no-los entregar de novo.

Forte é a morte, a ela o homem não pode resistir. Forte é o amor que pode vencê-la, embotar-lhe o aguilhão, travar-lhe o ímpeto, quebrantar-lhe a vitória.” 9

E uma vez mais caiu a noite sobre a grandiosa mole do Coliseu. As areias do circo pagão, regadas pelo sangue daquele que portara a seu Redentor no peito, transformaramse de novo em campo arado e fértil, de onde germinariam muitos outros filhos da Esposa Mística de Cristo.


1)CRISTIANO, Año. BAC, Madrid, 2006, v. X, p. 426-434.
2 ) Carta aos Magnésios, in Liturgia das Horas. São Paulo: Paulus, 2000, v. III, p. 473.
3 ) Carta a São Policarpo, ibidem. São Paulo: Paulus, 2000, v. III, p. 510.
4 ) CRISTIANO, Año. Ibidem, p. 429.
5 ) BUTLER, Alban. Vidas de los Santos de Butler. México: John W. Clute S.A. 1968, v. I, p. 220-224.
6) Carta aos Esmirnenses, in Liturgia das Horas. São Paulo: Paulus, 2000, v. III, p. 122.
7 ) Carta aos Romanos, ibidem. São Paulo: Paulus, 2000, v. III, p. 289290,293-294.
8 ) Suma Teológica II-II q.124 a.3
9) Tratados de Balduíno da Cantuária, in Liturgia das Horas. São Paulo: Paulus, 1999, v. IV, p. 59-60.
Revista Arautos do Evangelho – Outubro 2007

Aquele que portava Cristo no seu coração

Ir. Clara Isabel Morazzani Arráiz, EP

Quem já teve a oportunidade de viajar para Roma e conhecer seus antiquíssimos monumentos — obras-primas da inteligência e da capacidade de nossos ancestrais — certamente terá experimentado uma forte atração ao deparar com o anfiteatro Flaviano, mais conhecido pelo nome de Coliseu.

Sólido e bem edificado, com suas galerias de arcos tipicamente romanos, ele atravessa os séculos, insensível ao tempo, como imagem de um passado que poucos sabem admirar. Com efeito, hoje em dia o Coliseu é objeto da incessante curiosidade dos turistas que o visitam durante todo o ano. Muitos formam intermináveis filas para nele ingressar, com o desejo de fotografá-lo e depois vangloriar-se de ter estado num dos locais mais famosos do mundo; outros percorrem-no com o mero intuito de constatar seu valor artístico e estrutural; poucos são, porém, os que para lá se dirigem na intenção de rezar.

O Coliseu, teatro de crueldades

O imperador Vespasiano, invejoso da afetuosa lembrança que o povo guardava a respeito de César Augusto e sabendo que este, antes da sua morte, prometera construir um imenso anfiteatro que excedesse em esplendor todos os edifícios do mundo, concebeu a idéia de realizar este plano e assim rivalizar em fama com aquele seu predecessor. No segundo ano após sua ascensão ao trono (72 d.C.), Vespasiano iniciou sua obra. Entretanto, também a ele não seria dado ver o objeto de suas ambições, e a morte colheu-o antes de ser completada a construção, que só seria dedicada no ano 80 d.C., por seu filho Tito. Este último teve grande parte na ereção do anfiteatro, empregando nos trabalhos aproximadamente 50 mil prisioneiros, trazidos de sua vitoriosa campanha na Judéia.

Construída especialmente para ser palco daqueles jogos de gladiadores que os romanos tanto apreciavam, a gigantesca mole estava, porém, reservada para servir de quadro a combates de fé e de heroísmo muito mais gloriosos do que desprezíveis eram aqueles espetáculos pagãos! Se os divertimentos do Coliseu deixaram uma mancha no passado por causa das horríveis cenas de crueldade ali representadas, outros fatos, sob o ponto de vista sobrenatural, constituem uma das mais belas páginas da história da Santa Igreja.

Pedestal de bem-aventurados

É com espírito de piedade que deve penetrar no Coliseu o verdadeiro peregrino católico. Bastará permanecer em silêncio por um curto tempo, para perceber os imponderáveis e inverossímeis de fé, força e coragem que habitam sob essas numerosas arcadas. É evocativo esse edifício, no qual cada pedra tem um belo fato para contar e até as gramas e os musgos mais recentes desejariam dizer uma palavra sobre aquele passado feito de sangue, dor e glória. Contemplando mais detidamente essa arena, outrora pedestal de tantos bem-aventurados, podemos ainda divisar os compartimentos onde as feras eram mantidas na fome. Vê-se também ao lado destes as celas que aprisionaram os que hoje constituem uma verdadeira legião, no gozo da visão beatífica. Essas veneráveis ruínas, nas quais refulge um misterioso brilho sobrenatural, parecem cantar, ao longo dos séculos, a célebre frase latina: sine sanguine non fit remissio; lembrando aos homens que, para ser verdadeiros discípulos de Jesus Cristo, é necessário primeiro segui-Lo até as ignomínias do Calvário para depois participar do triunfo da ressurreição. Sim, foi sobre essas pedras benditas, banhadas de sangue católico, que nasceram as raízes da era em que a filosofia do Evangelho dominou sobre todos os povos.

Ouçamos, pois, atentos, um dos emocionantes feitos que esses valos, essas muralhas e arcadas têm a nos narrar.

Inácio, o Teóforo

Corria o ano 106 da era cristã. O imperador Trajano festejava sua vitória sobre Decébalo, rei da Dácia. Querendo manifestar seu reconhecimento aos deuses, a quem atribuía seu recente sucesso, Trajano organizou uma perseguição contra os cristãos que negassem a existência dessas divindades. Entre os condenados estava um venerável ancião, presa de grande valor, — pois se tratava do bispo de uma das cidades de maior importância naquela época — varão que gozava de muita estima e autoridade entre os fiéis da Ásia Menor, por ter sido discípulo do evangelista São João e designado pelo próprio São Pedro para assumir o cargo naquela Igreja: Inácio de Antioquia.

Segundo uma antiga tradição, o primeiro encontro entre o imperador e Inácio dera-se quando este último, sabendo da passagem do césar por sua diocese, fora apresentar-se voluntariamente a ele. Submetido a um interrogatório no qual Trajano tratou-o de “espírito malvado”, respondeu o santo com majestade: “Ninguém pode chamar a Teóforo de espírito malvado”. “Quem é o Teóforo ou portador de Deus?” perguntaram-lhe. “É aquele que leva a Cristo em seu peito…” Instado pelo imperador para que se explicasse mais sobre essa afirmação, o homem de Deus declarou: “Está escrito: ‘Habitarei e andarei no meio deles’” (2 Cor 6, 16). Assim, por essas palavras, ele mesmo dava testemunho de um milagre que viria a ser confirmado após o seu martírio.

Trajano ordenou, pois, que Inácio fosse acorrentado e conduzido a Roma, sob a custódia de dez soldados, para ali ser lançado às feras no anfiteatro Flaviano.

Dolorosa viagem, desfile triunfal

Grande foi a consternação dos fiéis ao conhecerem a sentença que recaíra sobre seu amado pastor. Ele, pelo contrário, regozijava-se e não deixava de dar graças a Deus por ter sido achado digno de tão grande misericórdia. Já antes da partida, embarcando no porto de Selêucia, a notícia de sua detenção espalhara-se por aquelas regiões e de todas as partes acorriam os cristãos para vê-lo passar e dar um último adeus àquele que os precederia no Reino dos Céus. A dolorosa viagem viu-se, então, transformada em verdadeiro desfile triunfal. Em Esmirna, o bispo São Policarpo, acompanhado de seu rebanho, acolheu-o com manifestações de homenagem e respeito. Também as comunidades de Éfeso, Trales e Magnésia foram-lhe ao encontro em grande multidão, desejosas de pedir sua bênção e testemunhar os padecimentos daquele atleta de Cristo. Ele, de seu lado, não esquecera a missão que o Senhor lhe confiara e continuava a exercer seu ministério, apesar de ter as mãos apertadas por grilhões. A muitos batizou pelo caminho, a outros edificou pelas suas palavras cheias de unção, e a um número incontável inflamou na caridade, arrastando-os com seu exemplo a acompanhá-lo no martírio.

Seu zelo incansável levou-o a escrever sete cartas, dirigidas àquelas mesmas Igrejas que tão fervorosamente o haviam recebido. Seus escritos, verdadeiros tesouros de doutrina e espiritualidade, podem ser considerados como “a segunda formulação doutrinária cristã”. 1

Zeloso pregador da doutrina

Uma de suas principais preocupações estava na união que os fiéis deviam manter com Jesus Cristo, através da legítima hierarquia: bispos e presbíteros. Assim, exortava ele na carta aos magnésios: “Esforçai-vos por ficar firmes na doutrina do Senhor e dos apóstolos, para que tudo quanto fizerdes tenha bom êxito na carne e no espírito, pela fé e pela caridade, no Filho, no Pai e no Espírito, no princípio e no fim, com vosso digno bispo e a bem entretecida coroa espiritual de vosso presbitério, juntamente com os diáconos agradáveis a Deus. Sede submissos ao bispo e uns aos outros como, em sua humanidade, Jesus Cristo ao Pai, e os apóstolos a Cristo e ao Pai e ao Espírito, para que a união seja corporal e espiritual.” 2 Em outra passagem, aconselhava a seu amigo Policarpo: “Tem cuidado pela unidade, pois nada há de melhor.” 3

Ao bispo de Antioquia é devida a honra de ter dado à Santa Igreja, por primeira vez, o glorioso título de católica: “Onde estiver o bispo, ali estarão também as multidões, da mesma forma que onde estiver Jesus Cristo, ali estará a Igreja Católica”. 4

Também foi ele o defensor de um ponto que só viria a ser elevado à categoria de dogma séculos mais tarde: o parto virginal da Santa Mãe de Deus. Assim escreveu aos efésios: “ao príncipe deste mundo foi ocultada a virgindade de Maria, seu parto e também a morte do Senhor”. 5 Aos seus caros esmirnenses também afirmava: “Crendo de igual modo que verdadeiramente nasceu da Virgem, foi batizado por João ‘para que nele se cumprisse toda a justiça.’” 6

A doutrina de Inácio era clara e segura; ele a haurira dos lábios daquele discípulo a quem tantos mistérios haviam sido revelados ao repousar a cabeça sobre o peito do Verbo Encarnado e nos longos anos de convivência com Maria Santíssima.

Continua no próximo post


1)CRISTIANO, Año. BAC, Madrid, 2006, v. X, p. 426-434.
2 ) Carta aos Magnésios, in Liturgia das Horas. São Paulo: Paulus, 2000, v. III, p. 473.
3 ) Carta a São Policarpo, ibidem. São Paulo: Paulus, 2000, v. III, p. 510.
4 ) CRISTIANO, Año. Ibidem, p. 429.
5 ) BUTLER, Alban. Vidas de los Santos de Butler. México: John W. Clute S.A. 1968, v. I, p. 220-224.
6) Carta aos Esmirnenses, in Liturgia das Horas. São Paulo: Paulus, 2000, v. III, p. 122.

A causa de nossa santificação: o sofrimento

Raphaela Nogueira Thomaz

Muito diferente d’Aquela Divina Figura que os Apóstolos contemplaram no Tabor, estava Nosso Senhor Jesus Cristo pregado na Cruz, com os braços abertos para atrair a Si a Humanidade inteira. Enquanto Homem-Deus, padeceu os mais atrozes tormentos, sendo abandonado, desprezado e humilhado. Talvez, até os que haviam sido objeto de Sua maior compaixão, clamavam por Sua morte.

Tudo parecia irremediavelmente perdido. Entretanto, dessa divina tragédia floriu gloriosa a Santa Igreja, nascida do flanco aberto deste Cordeiro sem mácula: o próprio objeto de irrisão dos algozes acabou por ser o manancial de onde surgiu para eles a salvação.

Dizem os teólogos que bastaria um simples gesto ou uma gota de sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo oferecidos a Deus-Pai para operar a Redenção. No entanto, Ele preferiu derramar Seu Preciosíssimo Sangue até a morte. E, desse modo, deu uma lição de conformidade com a dor para que cada homem tivesse completamente a coragem de carregar o seu próprio sofrimento. De fato, o sofrimento, sendo um dom admirável de Deus para que o homem, auxiliado pela graça, tempere e eleve sua personalidade, constitui o caminho necessário para a nossa santificação.

É o que assegura Mons João Clá Dias:

Desde que eu aceite o sofrimento que Deus me manda, desde que eu aceite o drama que passa por minha vida, com integridade de alma e com resignação… Ele, Nosso Senhor, não tem nenhuma falha e não há nada que se possa dizer: “Foi por causa de tal defeito que isso aconteceu…” Não. Ele assumiu sobre si todos os nossos pecados, e Ele sofre tudo isso por causa nossa. Ele sofre para nos dar a vida, Ele morre para nos libertar da morte. E, entretanto, sabemos perfeitamente que Ele, passando por tudo isso, recebe depois a glória que Ele tem enquanto homem, porque enquanto Deus, Ele é Senhor absoluto de todas as coisas, mas enquanto homem, Ele conquista esse poder sobre todas as coisas pelo seu sofrimento, pelo seu tormento.

Portanto, quando a cruz nos apanhar no caminho da nossa vida – será uma doença grave, será um desastre familiar, será o ter que enfrentar o drama destes contra aqueles, será inclusive, ter a desilusão: eu criei para mim um sonho que, de repente, se desfez, se quebrou – aceitar isto com humildade, aceitar isto com resignação, significa estar comprando o prêmio que virá.1

Evidentemente, sem o auxílio da graça, o ser humano não pode suportar retamente e em sua totalidade os esforços e sacrifícios que a vida impõe. Peçamos à Santíssima Virgem, cuja existência foi pervadida de sofrimentos e que culminaram no Calvário, para que possamos corresponder à graça de sermos capazes de uma inteira conformidade com a dor.

1 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Homilia do dia 21/03/2008 (Arquivo IFTE).

O HOMEM QUE NÃO VENDEU SUA ALMA

Ir. Juliane Campos, EP

Lembro-me de, quando ainda bem menina, ter assistido a um filme, já antigo para aquela época, que me chamou muito a atenção pela força de seu título: “O homem que não vendeu sua alma”. Em minha mentalidade infantil surgiu uma interrogação: então um homem pode vender sua alma? Como seria isso? Infelizmente, não tardou muito para eu começar a entender que, ao longo da história, não poucos foram os homens que venderam sua alma, sua consciência, sua honra… Por interesses pessoais, para adequar-se aos costumes muitas vezes decadentes dessa ou daquela sociedade, ou por tantos outros motivos, quanta gente deixou-se levar pela venalidade, caindo na corrupção e no erro!

Assim, quem seria esse “homem que não vendeu sua alma”, merecendo que sua memória se perpetuasse até mesmo por meio de um filme? Rica em detalhes, a película trazia a história de São Tomás Mórus. Vejamos um pouco quem foi este notável santo. Continue lendo

Viver na presença de Deus

Ir Cíntia Louback, EP

2º Ciências Religiosas

Quando alguém nos faz uma pergunta, tentamos transmitir ao máximo o que sabemos. Entretanto, há algo que muitas vezes nos deixa com dúvidas e com dificuldade de explicitar: falar a respeito de Deus. Quanto mais nos aprofundamos sobre o assunto, mais interrogações surgem.

Recorrendo as Sagradas Escrituras, onde está contida toda palavra revelada pelo próprio Deus, encontramos o episódio da sarça ardente em que Deus se revela a Moisés dizendo: “Eu sou aquele que Sou” (Ex. 3, 4). Contudo, esta resposta do próprio Deus nos deixa pensativos. Apelando aos doutores da Igreja, encontramos o que nos ensina Santo Tomás a respeito dessa frase: que Deus sempre foi, é e sempre será.

No entanto, nossa natureza humana não se contenta somente com essa explicação e e tenta aprofundar um pouco mais. De fato, quando tomamos conhecimento que algo existe, sentimos uma lógica curiosidade em saber quem é ou o que é. Todavia, bem sabemos que Deus é um Ser infinito, ao qual não conseguimos atribuir nenhuma qualidade, e que, para conhecê-lo, podemos fazê-la de duas formas: uma pela via negativa, ou seja, dizendo tudo aquilo que Ele não é, e pela via das afirmações, atribuindo-Lhe as perfeições das criaturas. E da posse de todos os bens, resultam os atributos de Deus que Santo Tomás expõe na Suma Teológica:

Pode-se demonstrar como Deus não é, afastando dele o que não lhe pode convir, como: ser composto, estar em movimento, etc., Assim, pergunte-se primeiro sobre a simplicidade de Deus, pela dele se exclui a composição. Como, por exemplo, nas coisas corporais, as simples são as menos perfeitas e fazem parte das outras, pergunte-se em segundo, sobre sua perfeição; em terceiro, sobre sua infinidade; em quarto, sobre sua imutabilidade; e em quinto, sobre sua unidade.1

Estando agora um pouco mais entrosados no assunto, detenhamos-nos em um de seus atributos, que é a imensidade divina.

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Sonhos das mil e uma noites

Ir. Carmela Werner Ferreira, EP

Quem de nós, ao menos nos tempos de nossa infância, nunca imaginou um marajá indiano ou uma princesa persa, vestidos esplendidamente, ornados com as mais finas jóias e pérolas, passeando pelos ares sobre um tapete voador? Um tapete que obedecesse à voz de comando de seu nobre dono e que se alçasse aos céus com elegância e leveza? Se é certo que os tapetes não possuem capacidade de voar, não é menos certo que eles têm um poder precioso: o de levar a sensibilidade humana a viajar pelos altos páramos do mundo do belo.

Quando começou a história da tapeçaria? Impossível saber. Não há registro nos anais da História, de quem foi o homem em cuja alma Deus acendeu pela primeira vez o desejo de entrelaçar fios coloridos para produzir algo de belo. Mas pode-se dizer que esse desconhecido foi — para quem sabe ver as coisas — um dos grandes benfeitores da humanidade.

Acomodando-nos confortavelmente sobre um imaginário tapete voador, retrocedamos quarenta séculos, para tentar conhecer um pouco da história dessas maravilhas criadas pelo homem para adornar pisos e paredes, alegrar os olhos e extasiar as mentes.

Caminhando pelos países do Oriente Médio e norte da África, encontraríamos tapetes lindos em muitos locais. Vários indícios históricos deixam entrever em que medida os tapetes faziam parte da vida diária de diversos povos, inclusive nômades.

Por pinturas encontradas em túmulos egípcios, pode-se constatar que, por volta de 2.000 a.C., já existia no país a arte da tapeçaria. Também nos deparamos com referências a ela na “Ilíada”, de Homero, e em vários autores clássicos. Na Sagrada Escritura, a arte de tecê-los é mencionada desde o Êxodo.

A peça mais antiga que se conhece, descoberta nos montes Altai, no sul da Sibéria, data do ano 500 a.C., e é surpreendentemente parecida com os tapetes de hoje. É admirável o grau de perfeição que a tapeçaria foi conquistando desde então, sobretudo na Pérsia.

A grande riqueza e variedade de desenhos, combinada com uma imensidade de cores, forma peças tão belas que poderíamos perguntar: “Mas é para se pisar realmente?” De fato, o encanto produzido pelos tapetes nos nobres europeus era tão grande que, não se conformando em colocá-los no chão de seus palácios, eles os utilizavam como toalha nas mesas de reunião.

É interessante notar como as cores assumem um papel mais que decorativo e que, em cada tapete, dependendo da combinação, toda uma concepção das belezas criadas por Deus está expressa de forma admirável. A isso acrescentemos o esmerado trabalho de tecelagem, que envolve ao mesmo tempo muita técnica e matéria-prima cuidadosamente preparada: lã, seda e algodão, além de tintas naturais que, com o passar dos séculos, foram se aprimorando, até alcançar as incontáveis variações atuais.

Nós, após o conturbado século XX, tão cheio de inovações tecnológicas e no qual a máquina assumiu cada vez mais espaço na vida de todos, dificilmente acreditaríamos que, durante o século XVI — considerado a época do apogeu da tapeçaria no Irã — a confecção de uma autêntica peça persa pudesse levar até cinco anos para ser concluída.

Isso porque, nas hábeis mãos dos artesãos, cada nó era dado com grande exatidão e os desenhos cuidadosamente elaborados. Em cada uma das seis regiões da Ásia onde a tapeçaria se desenvolveu de forma relevante — Pérsia, Turquia, Cáucaso, Turquestão, Índia e China — os tapetes foram adquirindo peculiaridades próprias e fizeram transparecer, em diferentes matizes, aspectos de cada lugar e, mais ainda, de cada povo. Quiçá a Providência tenha colocado na alma destes povos, capazes de tal arte, algo que, refletindo suas perfeições, brilhará de maneira especial quando eles se converterem a Cristo Nosso Senhor e suas almas forem trabalhadas pela graça do Batismo.

Revista Arautos do Evangelho out 2002

Contemplar os mistérios divinos

Ir. Ariane Heringer Tavares, EP

Em quantas ocasiões tivemos a oportunidade de contemplar o mar, algo tao misterioso, imenso e impactante! Às vezes tranquilo, deixando-se acariciar pelo sol; às vezes, demonstrando uma majestosa força no ímpeto de suas ondas. Quem de nós poderia afirmar que, colocado diante de tal grandeza, não se sente pequeno e impotente? Se isso acontece em relação a uma criatura mineral, tão abaixo da natureza humana, mais ainda se passa em relação aos mistérios divinos.

Sendo os homens seres limitados e contingentes, não podem abarcar, com sua inteligencia, todas as realidades sobrenaturais, sobretudo aquelas que tangem diretamente ao Ser por excelência que é o próprio Deus. Com razão, ensina a doutrina da Igreja: “De Deus sabemos muito melhor o que não é do que aquilo que é”.1 De fato, para colocar em palavras humanas o inefável mistério divino, valemo-nos de metáforas e analogias seja pela via positiva — atribuindo a Deus qualidades dos seres criados em grau máximo e infinito — ou pela via negativa — excluindo d’Ele qualquer imperfeição.

Pela via positiva, distinguem-se em Deus nove atributos: perfeição, bondade e beleza infinitas, imutabilidade, imensidade e ubiquidade, infinidade, eternidade, unicidade e simplicidade; a respeito da qual discorreremos agora.

Que Deus é absolutamente simples, o ensinou o Papa Inocêncio III no IV Concílio de Latrão, sendo doutrina reafirmada em concílios posteriores:

Cremos e confessamos firmemente que um só é o verdadeiro Deus eterno e incomensurável, imutável, incompreensível, onipotente e inefável, Pai e Filho e Espírito Santo: três pessoas, mas uma só essência, substância ou natureza absolutamente simples”. (DH 800)

Se analisarmos o mundo que nos cerca, comprovaremos que tudo o que existe recebeu o ser em um determinado momento. Assim, uma mesa não passa a existir sem a ação do marceneiro. Além disso, não seria difícil perceber que todas as coisas criadas estão em contínuo movimento: passam-se os meses e as estações; nascem uns, morrem outros… Por sua vez, todas as criaturas corpóreas são compostas de matéria e forma que as determina. No homem, por exemplo, a alma dá forma e vida ao corpo. Segundo Fílon de Alexandria, um corpo sem alma não passa de um mero cadáver. Se analisamos bem, constatamos que todas as criaturas são de natureza composta, seja por essência e existência, potência e ato ou matéria e forma.

Ao contrário do que acontece no mundo visível, onde todas as coisas são formadas por partes ou compostas de seres diferentes, em Deus não há partes nem composição, pois Ele é puro Espírito.2 Ele é absolutamente simples, incompatível com toda composição, multiplicidade e matéria, sejam ela físicas, metafísicas ou lógicas. Dizer que Deus é simples equivale a afirmar que Ele está infinitamente acima de todo o criado, não contendo em si nenhuma mescla de potência posto que, como ensina o Doutor Angélico, Deus é “ato puríssimo”3, sendo por consequência forma pura. Ainda que em diversas passagens da Sagrada Escritura haja alusões ao braço poderoso do Senhor e às maravilhas realizadas por sua mão direita, não significa que Deus tenha um corpo e, portanto, matéria. Somos nós que atribuímos tais características a um Ser puramente espiritual para podermos compreender melhor sua maneira de operar. N’Ele não se distinguem nem sequer essência e existência já que Ele mesmo revelou: “Eu sou aquele que sou”. (Ex 3,14) Com efeito, Deus é espírito perfeitíssimo e puríssimo e, portanto, indivisível e simplíssimo.

Dada a fragilidade de nosso intelecto, não somos capazes de abarcar a fundo essa doutrina que só se tornará inteiramente clara nos céus onde, iluminados pela luz da glória, veremos a Deus face a face “como Ele é (Jo 3, 2). Entretanto, a Providência deseja que, já nesta terra, possamos vislumbrar algo de sua simplicidade impressa nas criaturas, sobretudo nos homens, criados à sua imagem e semelhança.

Com frequência na história dos santos podemos encontrar fatos que revelam, de forma especial, algum aspecto de Deus. Ora será a caridade, ora a obediência; aqui a pobreza, lá a magnificência, de acordo com o bem que deve ser difundido naquele momento. Mas, como é possível criaturas compostas manifestarem a simplicidade absoluta de Deus?

Claro está que não se trata de representá-la essencialmente e sim de forma analógica. Em geral, as almas virtuosas são simples uma vez que são desprovidas das complicações provenientes dos vícios. Sendo assim, essas almas são um terreno fértil para a ação da graça e atendem com inteira doçura aos chamados divinos, sejam eles interiores ou exteriores através do universo criado.

Para que possamos compreender melhor, tomemos por exemplo Santa Teresinha que vivia muito simplesmente a vida ordinária de uma doente grave, mas sempre alegre e satisfeita. Na enfermaria do convento, em uma cama, inclinava-se para contemplar o pôr-do-sol, alegrava-se com a vista das estrelas no céu e um dia, quando mudaram a posição da cama exclamou: “ Oh! Como estou contente! Poder admirar a folhagem rubra da vinha virgem”.

De tal forma essa simples visão da natureza — se considerada apenas com os olhos humanos — elevava a alma de Santa Terezinha à contemplação d’Aquele que é a Suma Beleza que, apesar dos grandes sofrimentos da alma e do corpo, estava sempre alegre.

Se queremos ser simples e contemplar a glória de Deus, não só admiremos, mas imitemos as virtudes dos santos. Como dizia o grande Santo Agostinho: “O que é seguir senão imitar?”4 Ser-nos-á, assim, assegurada a felicidade da pátria celeste onde, com os Anjos e todos os santos, entenderemos facilmente os inefáveis mistérios divinos.

1 ROYO MARÍN, Antonio. Dios y su obra. Madrid: BAC, 1963, p. 45.
2 INSTITUTO TEOLOGICO SAO TOMÁS DE AQUINO .- 1NSTITUTO FILOSÓFICO ARISTOTÉLICO TOMISTA. Deus… Quem é Ele? São Paulo. Lumen Sapientiae. 2012. p.41.
3 TOMÁS DE AQUINO, Santo. Suma teológica. I. q.2. a3.
4 AGOSTINHO, Santo. De sancta Virgin. 27 (PL 40, 441): “Quid est enim sequi, nisi imitan?”

O cálice da obediência

Ir. Juliane Campos,EP

O sofrimento que tanto causa horror ao homem moderno é um dos meios mais eficazes de conferir celebridade. É o que encontramos nestas linhas sobre Santa Rita.

A obediência é uma das virtudes mais difíceis de serem praticadas, pois obedecer significa contrariar a própria vontade para fazer a de outrem, mortificando de modo especial a natureza humana, que recebeu de Deus a liberdade.

A História nos revela inúmeros belos exemplos de obediência. O mais sublime, sem dúvida, é o de Jesus, o qual, para redimir o gênero humano, “fez-se obediente até a morte, e morte de cruz”.

Abaixo do Salvador, o mais excelso modelo de obediência é Maria Santíssima, a perfeita discípula de seu Filho Divino, nesta como em todas as outras virtudes.

Convido o leitor a passear comigo, neste artigo, pela vida de uma santa que sorveu desde menina o cálice da obediência, seguindo o exemplo supremo de Jesus e excelso de Maria: Santa Rita de Cássia. Sua festa se celebra no dia 22 de maio. Ela é invocada especialmente como protetora das causas impossíveis, pelo motivo que o leitor verá adiante.

Menina privilegiada

Embora já de avançada idade, Antonio Mancini e sua esposa, Amanta, não cessavam de rogar a Deus, confiante e insistentemente, a bênção de terem um filho que lhes alegrasse o lar. Viviam eles na pequena aldeia de Rocca Porena, em Cássia, na Úmbria.

Para atender às preces desse piedoso casal, realizou Deus o primeiro “impossível” da vida de Santa Rita: seu nascimento no dia 22 de maio de 1381. Era uma encantadora menina. E desde sua mais tenra idade, a Divina Providência começou a manifestar especiais desígnios a seu respeito. Segundo narra uma tradição, enquanto ela dormia na cestinha que lhe servia de berço, com frequência apareciam umas raras abelhas brancas que esvoaçavam em torno dela e depositavam suavemente mel em seus lábios, sem feri-la ou despertá-la. Um dos camponeses vizinhos, presenciando a cena por primeira vez, quis afastar os insetos com a mão aleijada que tinha. No mesmo instante sua mão ficou curada.

Depois da morte de Santa Rita, essas mesmas abelhas brancas começaram a aparecer anualmente no mosteiro das agostinianas, onde ela passou os últimos anos de sua vida. Lá chegavam na Semana Santa e permaneciam até o dia 22 de maio. Depois se retiravam, para retornarem na Semana Santa seguinte. Até hoje podem ser vistos pelos peregrinos os buraquinhos feitos por elas nas paredes do mosteiro.

Infância marcada pela piedade e obediência

Desde pequena, demonstrava Rita grande inclinação para a piedade. Seus pais, apesar de não saberem ler nem escrever, ensinaram-lhe o Catecismo e a história de Jesus. Dedicava-se com grande gosto à oração, meditava sempre sobre a Paixão de Nosso Senhor. Não sabia ler nem escrever. Entretanto, “lia” continuamente o mais magnífico de todos os livros: o Crucifixo.

Além de ser especialmente devota de Nossa Senhora, escolheu como padroeiros São João Batista, Santo Agostinho e São Nicolau de Tolentino. Procurava abster-se de brinquedos e travessuras próprias à idade infantil, como mortificação para consolar a Jesus Crucificado.

O maior anseio de sua alma era ser religiosa. Exatamente neste ponto, exigiu dela a Providência um enorme ato de obediência, aceitando um estado de vida oposto ao chamado religioso que sentia na alma. Com apenas 12 anos de idade, foi obrigada pelos pais a contrair matrimônio com o noivo por eles escolhido, chamado Paulo Ferdinando.

Sofrimentos na família

O marido logo revelou-se um homem agressivo, de mau gênio, beberrão e dissoluto, o que fazia Rita sofrer tremendamente. Ela, entretanto, não só lhe foi sempre fiel, como também suportou tudo isso com extrema paciência, durante 18 anos, sempre rezando e oferecendo esta espécie de martírio pela conversão dos pecadores, sobretudo de seu detestável marido.

E mais uma vez o “impossível” se realizou na vida dessa mulher exemplar. Teve ela, afinal, a alegria de ver o esposo converter-se e pedir-lhe perdão por todos os maus tratos e pela vida devassa que havia levado. Quão oportuna foi esta conversão! Pouco tempo depois de reconciliar-se com Deus, pelo Sacramento da confissão, Paulo Ferdinando foi assassinado por alguns dos maus companheiros que tivera.

Os filhos do casal, dois gêmeos, então com 14 anos, juraram vingar a morte do pai. Vendo Santa Rita quanto os filhos haviam herdado as más tendências do pai, e temendo pelo destino eterno dos dois, dirigiu a Deus uma súplica: preferia ver seus filhos mortos a seguirem o caminho da perdição. Logo demonstrou o Pai de Misericórdia seu comprazimento com essa súplica de uma mãe verdadeiramente católica. Em menos de um ano, os dois ficaram doentes e faleceram, perdoando os assassinos de Paulo Ferdinando.

Entrada na vida religiosa

Viúva, sem filhos, livre de tudo que poderia atá-la ao mundo, Rita desejava fazer-se religiosa. Pediu para ser aceita no mosteiro das freiras agostinianas de Cássia, onde sempre quisera ter estado. Mas — oh decepção! — a superiora lhe disse que infelizmente não podiam aceitar viúvas na congregação, a qual era destinada apenas a virgens. Imagine-se sua desilusão e tristeza ao voltar para casa!… Mas ela era uma mulher santa. Enquanto tal, em vez de deixar-se abater ou desanimar, decidiu seguir com mais ardor ainda do que antes sua vida de oração e penitência.

Acorreram em seu auxílio seus padroeiros, Santo Agostinho, São João Batista e São Nicolau de Tolentino, obtendo da Medianeira de todas as graças a realização de mais um “impossível” em favor de sua protegida.

Conta-se que numa noite, estando ela imersa em oração, apareceram-lhe estes três Santos e convidaram-na a segui-los. Em êxtase, ela os acompanhou. Quando voltou a si, estava dentro do mosteiro das agostinianas… Havia entrado lá milagrosamente, pois todas as portas e janelas encontravam-se perfeitamente fechadas.

Na manhã seguinte, a madre superiora reconheceu nesse prodigioso fato uma clara indicação da vontade divina e decidiu acolher Rita como noviça nessa santa congregação.

Obediência recompensada pelo milagre

Já revestida do hábito, a nova religiosa foi um exemplo de virtude para todas as suas irmãs de vocação. Dos três votos da religião, aquele em que mais se esmerava era o de obediência, fazendo sempre a vontade das outras em tudo, até mesmo no que poderia parecer ridículo e insensato. Por exemplo, a superiora mandou-lhe regar todos os dias uma parreira que já estava seca e morta. A obediente freira cumpriu rigorosamente a ordem durante um ano. Uma vez mais o que parecia impossível se realizou: do tronco morto brotaram sarmentos que cresceram e produziram flores e frutos! Existe ainda essa “videira de Santa Rita”, que produz uvas de um sabor especial, as quais amadurecem em novembro.

Partícipe das dores de Jesus coroado de espinhos

Durante a Quaresma de 1443, o grande pregador Santiago de Monte Brandone fez em Cássia um magnífico sermão sobre a Paixão de Jesus, destacando sobretudo o episódio da coroação de espinhos. Depois de ouvir esse sermão, Santa Rita sentiu-se tomada do desejo de participar dos sofrimentos de Nosso Senhor nesse lance de sua Paixão.

Rezando diante de seu crucifixo, viu espargir-se dele suavemente uma luz, e um espinho desprender-se da coroa e cravar-se em sua fronte, provocando-lhe uma ferida que a fez sofrer durante seus últimos 15 anos de vida. Além de exalar mau odor, essa provocava-lhe muitas enfermidades. Assim, teve ela atendido deu desejo de ser verdadeiramente partícipe das dores de Jesus coroado de espinhos.

Morte santa, a recompensa

Santa Rita teve uma morte santa, sendo obediente à vontade de Deus até o fim.

Estando já muito enferma, pediu a Jesus um sinal de que seus filhos estavam no Céu. Em meio a um rigoroso inverno, recebeu uma rosa colhida no jardim de sua antiga casa, em Rocca Porena… Pediu um segundo sinal e, no fim do inverno, recebeu um figo, também de seu jardim. Com a realização desses dois “impossíveis”, Deus, por assim dizer, mostra seu comprazimento em que essa grande Santa seja invocada como a “Advogada dos impossíveis”.

No dia 22 de maio de 1457, voou para o Céu a bela alma de Santa Rita.

A chaga de sua fronte transformou-se em uma mancha vermelha como um rubi, de onde se exalava uma agradável fragrância. Sua cela ficou iluminada por uma luz celestial e os sinos, sozinhos, repicaram num toque de júbilo e glória.

Foi velada na igreja, aonde acorreu uma multidão de pessoas para vê-la e venerá-la. De seu santo corpo emanava um tal perfume que nunca foi enterrado. Permanece incorrupto até hoje, exposto à veneração dos fiéis no convento de Cássia.

Mensagem de Santa Rita para os dias atuais

Qual é a mensagem que esta grande Santa nos transmitiria nestes dias em que vivemos?

Creio que a resposta está nas palavras proferidas pelo Papa São João Paulo II ao saudar os devotos de Santa Rita que faziam uma peregrinação jubilar 1:

“É uma mensagem que brota de sua vida: a humildade e a obediência foram o caminho que Rita percorreu para uma semelhança cada vez mais perfeita com Cristo crucificado. O estigma que brilha em sua fronte é a autenticação de sua maturidade cristã. Na cruz com Jesus culminou o amor que já havia conhecido e expressado de modo heroico em seu lar e mediante a participação nas vicissitudes de sua cidade.

Seguindo a espiritualidade de Santo Agostinho, fez-se discípula do Crucificado e ‘especialista em sofrimento’, aprendeu a compreender as penas do coração humano. Deste modo, Rita se converteu na advogada dos pobres e dos desesperados, obtendo inumeráveis graças de consolo e fortaleza aos que a invocam nas mais diversas situações.”

Que Santa Rita de Cássia nos ajude a compreender os desígnios de Deus para cada um de nós individualmente, e a sorver até a última gota o cálice da obediência à sua vontade santíssima, ao longo de nossa existência.

1 São João Paulo II. Saudação aos peregrinos. 20 de maio de 2000

Revista Arautos do Evangelho n.17. maio 2003

Não basta união, é preciso unidade

Fahima Akram Salah Spielmann

Antes de partir ao Pai, quis o Divino Salvador nos deixar uma expressiva imagem do grau de adesão que se deve ter a Ele:

Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. Todo ramo que não der fruto em mim, Ele o cortará; e podará todo o que der fruto, para que produza mais fruto. Vós já estais puros pela palavra que vos tenho anunciado. Permanecei em Mim e eu permanecerei em vós. O ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira. Assim também vós: não podeis tampouco dar fruto, se não permanecerdes em Mim. Eu sou a videira; vós, os ramos. Quem permanecer em Mim e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem Mim nada podeis fazer. Se alguém não permanecer em mim será lançado fora, como o ramo. Ele secará e hão de ajuntá-lo e lançá-lo ao fogo, e queimar-se-á. Se permanecerdes em Mim, e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis tudo o que quiserdes e vos será feito. Nisto é glorificado meu Pai, para que deis muito fruto e vos torneis meus discípulos. Como o Pai me ama, assim também Eu vos amo. Permanecei no meu amor. Se guardardes os meus mandamentos, sereis constantes no meu amor, como também eu guardei os mandamentos de meu Pai e permaneço no seu amor. Disse-vos essas coisas para que a minha alegria esteja em vós, e a vossa alegria seja completa. (Jo 15, 1-11. Grifo da autora).

Vendo Nosso Redentor nos impelir insistentemente a permanecermos n’Ele, perguntamo-nos qual seria o motivo de tamanho desejo de incorporação?

Explica-nos o admirável Padre Garrigou-Lagrange 1que, nessa metáfora, Cristo quis deixar expresso que o único meio de comunicação da seiva, ou do influxo da vida da graça, nos vem unicamente d’Ele, asssim como a cabeça é a única que tem a potência de comunicar aos membros o influxo vital. Separar-se d’Ele é sujeitar-se à morte.

De fato, encontramos quarenta vezes o verbo “permanecer” no Evangelho do discípulo amado e vinte e três em sua primeira epístola, sempre assinalando a nossa obrigação de procurarmos a mais íntima união com Cristo.

A esse respeito, em discussão contra os pelagianos, o II Concílio de Milevitano e o Cartaginense de 418 assinalaram a absoluta dependência que possuem os cristãos em relação a Cristo, uma vez que Ele não disse “sem mim pouco podeis fazer”, mas sim “nada podeis fazer”; ou seja, desde os membros em potência até os que os são em ato, se esfriarem nas suas relações com a Cabeça, afrouxando os vínculos de união, a consequência só poderá ser uma: a infrutuosidade (D 227).

Ademais, Cristo nos atesta que não basta “fazer com”, mas é necessário permanecer n’Ele, com Ele e por Ele, para produzir realmente frutos. É o inovador princípio de íntima união trazida por Jesus, que não deve se abranger, mas sim transformar em unidade.

Como nos atesta a teologia, todos os cristãos “têm de aspirar a uma presença íntima; presença que se realiza mediante a graça, que é a seiva que os vivifica sobrenaturalmente”,2 e que os faz produzir bons frutos de santidade.

E a força e a plenitude dessa permanência, assegura Monsenhor João, somente encontraremos no amor.3

Cristo prossegue com uma increpante sentença àqueles que optarem por desligar-se da Cabeça, pois, além de perderem a vida, terão o seu castigo: “se alguém não permanecer em mim, será lançado fora, como o ramo. Ele secará, e hão de ajuntá-lo e o lançá-lo ao fogo, e queimar-se-á” (Jo 15, 6).

Além dessa significativa analogia, em outras duas ocasiões, encontramos o Evangelista usar uma imagem, que se não fosse da autoria de Cristo não nos seria creditada, que é a união de Cristo com a sua Igreja sob a entranhada imagem da unidade entre as Pessoas da Santíssima Trindade.4

Em uma primeira circunstância, temos o Divino Mestre ensinando o modo pelo qual, ainda nessa vida terrena, podemos levar essa união ao seu auge: “O que come minha carne, e bebe o meu sangue permanece em Mim e Eu nele. Assim como o Pai que vive me enviou, e Eu vivo pelo Pai, assim o que me comer a Mim, esse mesmo também viverá por Mim, e de minha própria vida” (Jo 6, 55-58).

Contudo, ainda que a comunhão seja sob as espécies físicas, é através da graça, a qual usa de instrumento as espécies, que obtemos a nossa incorporação a Cristo, e assim se torna possível, mesmo depois de consumida a Eucaristia, dizer que quem come a carne de Cristo permanece n’Ele, e Ele na pessoa.

Nesse sentido, entendemos o que dizia São Paulo ao advertir alguns cristãos que participavam da Eucaristia: “Porventura o cálice da bênção, que nós benzemos, não é a comunhão do sangue de Cristo? E o pão que partimos não é a participação do corpo de Cristo? Visto que há um só pão, nós, embora muitos, formamos um só corpo, porque participamos todos dum só e mesmo pão” (1Cor 10, 16-17).

Por esse motivo, ousam os teólogos afirmarem que o principal efeito da Eucaristia é a unitas Corporis Mystici,5 ou seja, a união da Cabeça com o corpo.

Noutra passagem, no momento solene antes de consumir seu holocausto, sabendo Jesus que deixaria os seus, quis pedir ao Pai, compondo a emocionante oração sacerdotal, rogando para seus membros máxima união à semelhança entre Eles, a ponto de se transformar em unidade: “que eles sejam todos um, como Tu, Pai, o és em Mim e Eu em Ti, para que também eles sejam um em Nós […],que sejam um, como Nós somos um: Eu neles e Tu em Mim, para que sejam consumados na unidade” (Jo 17, 20-23. Grifos da autora).

Sabemos que a união entre o Pai e o Filho é substancial. São os dois uma única essência, sem deixar, ao mesmo tempo, de haver distinção pessoal. Sao Pessoas sempre unidas entre si, de maneira que onde está uma Pessoa, aí também está a outra.

Do mesmo, modo através da graça, Cristo está em nós como Ele está no Pai, ainda que seja de maneira acidental e não substancial como na Santíssima Trindade. E, assim como a união entre as Divinas Pessoas não destrói sua natureza, a nossa união com Cristo não destrói a nossa personalidade, mas a enaltece.6

Enumerar as passagens onde Cristo manifesta seu desejo de união, poderíamos deixar para uma outra oportunidade; entretanto, podemos entrever que, da parte da Cabeça, não há outro anseio do que a mais perfeita união com os seus membros, baixando de sua alta dignidade e se identificando com eles (Cf. Mt 25, 45; At 9, 5).

Com base nisso, podemos entender o que nos dizia o Apóstolo “não sou eu quem vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gal 2, 20), pois no cristão passa a existir uma autêntica vivência de Cristo, a ponto de haver “mais semelhança entre o cristão e Cristo, do que entre o cristão e Deus”.7

Há, portanto, em Cristo o desejo de unir-se a seu Corpo da forma mais íntima possível, e apesar de haver vários membros, quer Ele que formemos uma só unidade. O problema está em sermos membros flexíveis, unidos por Ele, com Ele e n’Ele, para, dessa forma, alcançarmos a plenitude do Corpo.

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[1] GARRIGOU-LAGRANGE, Reginald. Op. cit. p. 142-145.
[2] “[cristianos] han de aspirar a una presencia íntima; presencia que se realiza mediante la gracia, que es la savia que los vivifica sobrenaturalmente” (SAURAS, Emilio. Op. cit. p. 55. Tradução da autora).
[3] CLÁ DIAS, João Scognamiglio. A Igreja é uma, Santa, Católica e Apostólica. Op. cit.
[4] Deve-se advertir que o sentido, ainda que seja próprio, é usado de forma análoga.
[5] SÃO TOMÁS DE AQUINO. Summa Theologiae. III q. 73, a. 3, ad1.
[6] SAURAS. Emilio. Op. cit. p. 52.
[7] “Más semejanza hay entre el cristiano y Cristo que entre el cristiano y Deus” (SAURAS, Emilio. Op. cit. p. 191. Tradução da autora).

O pintor do sobrenatural

Irmã Carmela Werner Ferreira, EP

Cai a tarde na bela Florença. Por suas estreitas ruas entrecruzam-se mercadores ávidos de lucro e artistas sedentos de celebridade, e difunde-se pelos ares um burburinho irrequieto, envolvendo desde discussões sobre o preço do trigo até acaloradas polêmicas sobre o mérito de um novo estilo de fachada. Ao longe, ouve-se alguém declamar trechos de Dante, e o som de melodias de alaúde indica a presença de um trovador.

É a vida renascentista do Quattrocento palpitando nas artérias da cidade, onde os gênios da escultura, arquitetura, pintura e literatura disputam o espaço nas calçadas, enquanto anseiam por um lugar de destaque no firmamento dos grandes da arte.

A poucas quadras de distância desse ambiente humanista, uma realidade bem diversa circunda outro talento. No silêncio claustral do Convento de São Marcos, instalado no alto de um andaime e sussurrando orações, um frade traça com pulso firme desenhos na parede e pinta com tintas de extasiante colorido, elaboradas por ele mesmo segundo receitas ensinadas pelos antigos. Suas destras mãos configuram anjos, Madonnas, santos e personagens bíblicos, compondo cenas que edificam e suscitam admiração.

Não ignoram seus confrades o valor de seu estro, nem sua predileção pelos anjos, que sabe pintar com perfeição. Por isso, chamam-no com afeto pelo cognome com o qual passaria para a História: Fra Angélico.

Vocação religiosa e artística

Guido di Pietro Trosini — esse era seu nome antes de se tornar religioso — nasceu no vilarejo agrícola de Vicchio di Mugello, nas proximidades da capital da Toscana. A cronologia do venerado pintor é bastante incerta, devido à escassez de fontes documentais, razão pela qual os estudiosos situam seu nascimento entre os anos de 1387 e 1400.

Sua infância transcorreu no povoado natal e a certa altura de sua juventude mudou-se com sua família para Florença. Antes de completar vinte anos, inscreveu-se na oficina artística da Companhia de São Nicolau, onde aprendeu em pouco tempo os segredos da iluminura e da pintura sobre tábua com o célebre Lorenzo Monaco.

Ao lado do pendor artístico, não tardou a revelar-se a vocação religiosa, que ele sentiu com clareza durante uma pregação do Beato João Dominici, na Igreja de Santa Maria Novella. Esse dominicano de reconhecida verve e santidade foi o instrumento da graça para conclamar o jovem Guido às fileiras dos frades pregadores, indicando-lhe, por sua força persuasiva e exemplo pessoal, o caminho de vida evangélica traçado por São Domingos de Gusmão.

Pouco depois dessa prédica, ei-lo às portas do Convento de São Domingos, em Fiesole, pedindo para ser admitido. Levou consigo seu irmão Bento, e ambos foram recebidos com júbilo pela comunidade. Por guardar enlevada lembrança da figura de João Dominici, quis também chamar-se João na vida consagrada, e experimentou nesse convento as alegrias primaveris que costumam inundar a alma dos noviços.

O carisma da ordem projetado nas telas

Seguiram-se os anos de estudos filosóficos e teológicos, os quais fariam dele um profundo conhecedor da doutrina cristã, tomista ardoroso e sacerdote de sólida piedade. Nesse período, o prior do convento, o futuro Arcebispo Santo Antonino de Florença, teve uma intuição certamente inspirada pelo alto, ao compreender que os dotes artísticos de Frei João constituíam um eficaz auxílio para a pregação da Palavra de Deus. Percebeu não ser necessário afastá-lo da paleta e dos pincéis para o cumprimento de sua vocação; pelo contrário, incentivou-o a projetar nas telas a riqueza do carisma de sua Ordem. E ele soube fazê-lo melhor que ninguém.

Com efeito, a existência de Fra Angélico e toda a sua obra artística estão alicerçadas na espiritualidade dominicana. Convencido de que o mesmo sopro do Espírito Santo que animava os irmãos de hábito no púlpito deveria impulsionar seu pincel, ele abraçou o ideal de pregar pelas imagens, como os demais faziam pela palavra. “Se o pintor dominicano queima horas no ateliê, é por pura necessidade espiritual, por querer ser consequente com sua vocação religiosa”, comenta um dos seus biógrafos. 1 Sem partir desse pressuposto, nunca o entenderemos por completo nem apreciaremos todo o esplendor de seu legado.

Na harmoniosa alternância entre as obrigações da vida comunitária e o apostolado através da arte, a obra desenvolvida pelo frei pintor foi muito ampla e fecunda. Ela costuma ser dividida em três grandes fases, relativas aos anos transcorridos nas cidades onde viveu: Fiesole, Florença e Roma.

Primeiros anos em Fiesole

O período fiesolano (1420-1438), é o mais extenso. A significativa lista de obras realizadas nesses dezoito anos abrange desde encomendas para igrejas célebres, e para o próprio convento dominicano, até pedidos de famílias abastadas, desejosas de decorar com esplendor as capelas dos seus palácios. Entre as obras mais importantes dessa época contam-se A descida da Cruz, feita em colaboração com o mestre Lorenzo Monaco, a qual hoje se encontra no Museu de São Marcos, em Florença; A Anunciação, conservada no Museu do Prado, de Madri; e A Coroação da Virgem, atualmente no Louvre, Paris.

Fra Angélico foi por três vezes prior do convento dominicano de Fiesole, fundado pelo Beato João Dominici com o objetivo expresso de promover a reforma da Ordem incentivada por Santa Catarina de Sena. Sua atuação, portanto, seja como superior religioso, seja como pintor, tende a valorizar a essência da espiritualidade dominicana, a observância da Regra, e contém uma nota de austeridade que nunca se ausentará de suas composições. Mesmo nas telas de grande magnificência, onde abundam o ouro e ambientes apalaciados, os personagens permanecem sóbrios, despretensiosos e alheios aos atrativos materiais.

Fiesole, contudo, representa tão somente a primeira etapa da trajetória de Frei João, e certamente aquela de que guardaria as mais ternas recordações. Outros e maiores eram os planos que o Senhor lhe reservara, a serem cumpridos não mais no retiro de uma pequena vila toscana, mas no coração turbulento da Cidade do Lírio Vermelho.

Os afrescos do convento de São Marcos

Falar de Florença na época em que nela viveu o Angélico acaba conduzindo, cedo ou tarde, a falar da família Médici. E ela cruzou também pela vida de nosso beato e da comunidade dominicana quando um de seus próceres, o poderoso conde Cosme, pediu com insistência ao Papa Eugênio IV para confiar a esses frades tão virtuosos certo convento abandonado, no intuito de revitalizar um espaço que lhe parecia muito aproveitável. O pontífice acedeu, e no ano de 1438 chegaram da vizinha Fiesole vários religiosos dessa ordem para impulsionar os trabalhos de reconstrução e implantar em Florença uma reforma espiritual da qual ela bem necessitava. Fra Angélico encontrava-se entre eles.

Do antigo convento — reconstruído sob o patrocínio de Cosme de Médici — pouco restou além do nome de São Marcos. Conforme as novas paredes iam sendo concluídas, tornavam-se campo de ação para o frade pintor. Deslumbrado com os dotes do jovem artista, dispôs-se o potentado a financiar as não pequenas despesas materiais dos afrescos; e como dar esmolas não lhe custava nenhum sacrifício financeiro, Frei João pôde realizar sem dificuldades um magnífico trabalho.

O período florentino de Fra Angélico (1439-1445) esteve todo dedicado à pintura do Convento de São Marcos, o qual constitui sua obra magna e o maior tesouro que nos deixou. Para a dedicação da igreja conventual, acorreu inclusive o Sumo Pontífice, o qual ficou admirado ao percorrer as celas dos frades: todas eram decoradas com magníficas pinturas murais retratando cenas do Evangelho. Estupefato diante de tamanho talento, Eugênio IV convocou Frei João para embelezar o Vaticano. E o santo pintor não podia deixar de aceitar essas incumbências, inclusive porque, como aponta um autor, a Igreja não o convoca para um mero labor artístico, mas “solicita sua contribuição para contra-arrestar a força do Humanismo pagão”. 2

Em Roma, convocado pelo Papa

Assim se inicia o período romano (1445-1455), entremeado por uma estância de três anos (1450-1452) na sua saudosa Fiesole e algumas curtas estadas em Orvieto. Devem-se a seu incomparável gênio várias obras no Palácio Apostólico, como os afrescos da Capela Nicolina — assim chamada em honra do sucessor de Eugênio IV — que retratam a vida de Santo Estêvão e de São Lourenço e constituem uma das maiores preciosidades dos Museus Vaticanos. Infelizmente, as pinturas executadas na Capela do Santíssimo Sacramento e no gabinete de trabalho do Sumo Pontífice foram desfeitas no século XVI.

Durante sua permanência em Roma, o Papa Eugênio IV, ofereceu-lhe o Arcebispado de Florença. Por humildade, ele recusou e sugeriu para essa alta dignidade seu confrade Santo Antonino. Essa sugestão, acolhida sem hesitação pelo Pontífice, não poderia ter sido mais feliz.

Preparava-se Fra Angélico para ornar a Basílica de Santa Maria sopra Minerva, adjacente ao convento no qual residia em Roma, quando o Senhor o chamou a Si, no dia 18 de fevereiro de 1455. Sua morte foi serena, tal como a vida, e os contemporâneos não só elogiaram suas telas e afrescos, mas souberam apreciar-lhe também a virtude, a ponto de deixar consignado na lápide do pintor: “Mereceu a glória mais por sua caridade do que por sua arte”. O mesmo diríamos nós, pois, embora não o tenhamos conhecido em vida, podemos admirar suas obras, e estas testemunham que, mais do que um artista, Fra Angélico foi um santo.

O espírito triunfa sobre a matéria

Detenhamo-nos por alguns instantes nas encantadoras pinturas deste mestre do pincel e penetremos na atmosfera sobrenatural que ele, como ninguém, soube criar. Os personagens transcendem de tal modo as debilidades de nossa natureza decaída que quase diríamos serem isentos da mancha original. “Seus afrescos e retábulos”, afirma o professor Plinio Corrêa de Oliveira, “retratam homens para os quais esta vida terrena é antecâmara da celestial. Ele reproduz em suas pinturas pessoas imbuídas de uma luz, claridade e leveza inexistentes no cotidiano real”. 3

Nelas refulgem as virtudes da temperança e da castidade em grau eminente, muito bem expressas na leveza dos gestos, na modéstia dos modos e nos rostos. São figuras, acrescenta o mesmo autor, “dotadas de um fulgor vindo de dentro para fora e que ilumina todo o seu ser. Porque o espírito é claro, enquanto a matéria é opaca. A intenção do artista é exatamente representar essa irradiação do espírito”. 4

Os célebres anjos possuem expressões límpidas e apresentam-se prontos a percorrer as vastidões siderais para cumprir alguma determinação divina. São espíritos pacíficos, não submetidos à lei da gravidade, transmissores de uma mensagem simples, mas carregada de bênçãos e alegrias. Eles nos falam do Céu, onde poderemos ouvir as melodias de seus instrumentos de ouro e gozaremos a ansiada visão beatífica, da qual já participam. E nos sugerem que só alguém com igual temperança e o mesmo senso das harmonias poderia retratá-los tão bem assim.

Fra Angélico não conheceu a inveja, ou, mais provavelmente, teve grandeza de alma para rejeitar este vício a ponto de viver e pintar como se ele não existisse. Até mesmo o insuspeito Hegel, surpreso por encontrar tanta candura, haveria de confessar: “Fra Angélico criou uma obra que nunca foi superada na profunda sinceridade de sua concepção”. 5

Contemplar sua pintura é, em suma, receber uma alta e sublimada lição de espírito católico, na qual descobrimos uma representação do gênero humano talvez distante do que é, mas muito próxima do que deveria ser.

Alma medieval em plena Renascença

À semelhança de um botão de rosa, o qual, cortado da roseira, ainda abre graciosamente suas pétalas longe das raízes, pode-se afirmar que o Beato de Fiesole possuiu uma alma medieval quando havia já terminado a Idade Média. Os críticos de arte mostram-se unânimes sobre este particular: “A pintura de Fra Angélico foi definida expressão duma inspiração religiosa tipicamente medieval, uma pintura duma serenidade que não conhece turbações e que nasce num ambiente paradisíaco continuamente inundado de luz”. 6

Com efeito, não se nota em suas pinturas diáfanas aquela exaltação do elemento humano, característica dos notáveis da Renascença, e muito menos a intemperança com a qual estes procuraram exprimir a todo custo, em obras pouco recatadas, fruições terrenas muito intensas que produzem ao mesmo tempo delícias e dilacerações.

Não, Fra Angélico não participava deste espírito, porque sua união com Deus o fazia compreender que o homem só é grande quando é humilde, e toda alegria humana deve ser reflexo do gáudio sobrenatural proveniente do estado de graça e de uma vida virtuosa.

Sua conduta pessoal se harmonizou com a concepção artística; em ambas ele se mostra “perfeitamente puro e casto, humilde e luminoso”. 7 Este é o aspecto pelo qual ele mais se distancia dos seus contemporâneos. “Com exceção de Fra Angélico”, afirma um historiador, “não há talvez um artista desta época que, ao lado de cenas evangélicas, não tenha nas suas obras muitas outras de sentido oposto”. 8

Técnica prodigiosa e arrojada

Em contrapartida — e aqui o paradoxo realça mais o seu gênio —, Fra Angélico está na vanguarda de todo o progresso pictórico logrado até então: “Não ficou insensível às grandes inovações artísticas e a tudo aquilo que estava acontecendo ao exterior dos muros do mosteiro”. 9 Ele traçava em perspectiva com mais qualidade que todos os outros seguidores de Giotto, e até vestia lindamente seus anjos segundo os padrões dos famosos tecidos produzidos em Sena.

Quem estuda sua pintura encontra vestígios de uma crescente assimilação das inovações estilísticas da época: “Este avanço progressivo das novas formas, que se descobrem paulatinamente em sua pintura, demonstra que foi receptivo à lição cultural de sua sociedade e de seus colegas”. 10 Atento às descobertas e incrementos dos coetâneos, e ele próprio um descobridor de primeira linha, Fra Angélico compreendeu o proveito a ser tirado das novas possibilidades e invenções, para a maior eficácia do apostolado.

Várias de suas pinturas são obras-primas do Primeiro Renascimento e influenciaram em larga medida as subsequentes gerações de pintores, por encerrarem o que de melhor se conseguira até então atingir. O Juízo Final, afresco do Convento de São Marcos, ostenta uma técnica prodigiosa e é a mais arrojada obra em perspectiva da época. Também sua privilegiada capacidade para exprimir os sentimentos religiosos é tomada como ponto de referência.

Deve-se mencionar ainda a beleza das tintas, feitas em circunstâncias bem diversas das atuais, abundantes em recursos tecnológicos. Produtos do engenho do Angélico, apresentam arrebatadora variedade cromática, empregada com ousadia e bom gosto. Sua predileção pelo azul é manifesta, e ele sabe explorá-lo nas suas diversas tonalidades, sobretudo o azul da Alemanha, o índigo e o azul ultramar. A matéria-prima desta tinta era o lápis-lazúli, elemento muito raro e valioso naquela região, e enobrecido ainda mais pelo uso ímpar que o artista soube dar-lhe. Verdadeiramente, este homem espiritual, esquecido das coisas terrenas, soube fazê-las melhor que muitos artistas de seu século, atentos a toda novidade, mas olvidados das coisas de Deus.

O São Tomás da pintura
“Se não tivesse sido dominicano”, Fra Angélico “não teria sido o artista que foi”. 11 Esta observação de um de seus biógrafos encontra plena justificativa na obra de nosso Bem-aventurado, o qual se abeberou nas fontes da Suma Teológica para plasmar sua concepção do homem, da existência e da eternidade, antes de dar-lhe vida por meio do pincel: “Frei João assentará toda a sua obra pictórica sobre esta fundamentação doutrinária da escolástica de São Tomás de Aquino”. 12

É realmente palpável a consonância entre as pinturas de Fra Angélico e o pensamento do Doutor Angélico, a ponto de se poder dizer que o primeiro transpôs para o campo artístico a doutrina do segundo. Esta reversibilidade, síntese maravilhosa de espírito cristão, rendeu a Frei João de Fiesole o título de São Tomás da pintura, pois o pintor alcançou, no seu campo específico de atuação, uma genialidade semelhante à do teólogo.

Hoje, passados quase seis séculos da partida de Fra Angélico para o Céu, a melhor maneira de conhecê-lo continua sendo contemplar suas telas e afrescos, e perceber nessas artísticas obras a louçania de sua fé, a inocência de sua alma e a pureza de um coração que amou a Deus sobre todas as coisas. Sem dúvida alguma, sua obra está fixada nos galarins da imortalidade e da glória, e permanecerá para sempre como “um hino de ação de graças onde o universo parece atravessado pelos raios dourados do amor do Criador”. 13

1 ITURGÁIZ, OP, Domingo. El Angélico: pintor de Santo Domingo de Guzmán. Salamanca: San Esteban, 2000, p.91.
2 Idem, p.92.
3 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. O pintor do sobrenatural. In: Dr. Plinio. São Paulo. Ano VI. N.60 (Março 2003); p.32.
4 Idem, p.33.
5 HEGEL, George W. F., apud DÍAZ FERNÁNDEZ, José María. Beato Angélico o Juan de Fiésole. In: ECHEVERRÍA, L., LLORCA, B., BETES, J. (Org.). Año Cristiano. Madrid: BAC, 2003, v.II, p.377.
6 NESTI, Riccardo. Florença: história, arte, folclore. Firenze: Becocci, 1996, p.42.
7 DANIEL-ROPS, Henri. A Igreja da Renascença e da Reforma. São Paulo: Quadrante, 1996, t.1, v.4, p.190.
8 Idem, p.191.
9 NESTI, op. cit., p.42.
10 ITURGÁIZ, op. cit., p.89.
11 GUIMARÃES FILHO, Luis. Fra Angélico. Rio de Janeiro: A noite, 1937, p.198.
12 ITURGÁIZ, op. cit., p.52.
13 LUCAS-DUBRETON, Jean. A vida quotidiana em Florença no tempo dos Médicis. Lisboa: Livros do Brasil, s.d., p.215.

Parai e vede se há dor semelhante à minha dor

Lucía Pérez Wheefock

É impossível não sentir profunda emoção ao contemplar alguma expressiva imagem da Mater Dolorosa e meditar estas palavras do Profeta Jeremias, que a piedade católica aplica à Mãe de Deus: “Ó vós todos que passais pelo caminho, parai e vede se há dor semelhante à minha dor” (Lm 1, 12).

A esta meditação nos convida a Liturgia do dia 15 deste mês, dedicado a Nossa Senhora das Dores.

Quatro grandes privilégios

“Não te esqueças dos gemidos de tua mãe” (Eclo 7, 29). É grato imaginar que este preceito do Espírito Santo tenha inspirado aos cristãos dos primeiros séculos uma veneração especial pelos sofrimentos da Mãe de Deus e nossa.

A este respeito, Santa Isabel de Hungria (+1231) relata ter sido beneficiada por uma aparição na qual São João Evangelista lhe revelou que, justamente no dia da partida da Virgem Maria para o Céu, ele teve uma visão de como foi o encontro d’Ela com seu Divino Filho.

Nesse primeiro encontro — narrou São João — o Redentor e sua Mãe conversaram sobre os sofrimentos que ambos suportaram no Calvário. No final, a Virgem Maria pediu a Jesus graças e privilégios especiais para todos aqueles que, na terra, se lembrassem e se compadecessem dos gemidos, das lágrimas e das dores que Ela padeceu, em união com Ele, para nossa Redenção. E seu Divino Filho atendeu prontamente esse pedido, concedendo-Lhe quatro grandes favores:

Primeiro: quem invocar a Virgem Maria por suas dores e prantos terá a ventura de fazer verdadeira penitência de seus pecados antes de morrer.

Segundo: terá a proteção e o amparo de Nossa Senhora das Dores em todas as adversidades e trabalhos, especialmente na hora da morte.

Terceiro: quem, por memória das dores e prantos de Nossa Senhora, incluir em seu entendimento também as da Paixão, receberá no Céu um prêmio especial.

Quarto: e obterá dessa Soberana Senhora tudo quanto pedir para sua salvação e sua utilidade espiritual.

Como progrediu essa devoção

Já no séc. IV alguns insignes doutores da Igreja — Santo Efrém, Santo Ambrósio e Santo Agostinho — teceram comoventes considerações sobre as dores de Maria. No fim do séc. XI, outro doutor da Igreja, Santo Anselmo, propagava a devoção a Nossa Senhora das Dores. Muitos monges beneditinos e cistercienses faziam coro com ele nessa propagação. No século seguinte, o grande São Bernardo de Claraval, também doutor da Igreja, levou mais longe a prática dessa devoção. A todos esses se juntaram os ardorosos frades servitas, já no séc. XIII.

Em decorrência desse aumento de devoção, logo floresceram esplêndidos monumentos artísticos e literários em louvor à Mãe das Dores. Um deles — o hino Stabat Mater, composto por Iacopone de Todi por volta de 1300 — foi adotado na Liturgia e desperta nos ouvintes os melhores sentimentos de ternura e compaixão para com a Virgem sofredora: “Estava a Mãe dolorosa aos pés da Cruz, lacrimosa, da qual o Filho pendia…”

No campo das imagens sagradas, destacam-se as da “Piedade”: a Mãe dolorosa e lacrimosa contemplando o corpo sacratíssimo do Filho que jaz inerte em seus braços virginais. E as da “Soledade”: o Filho já foi sepultado, a Mãe não tem mais nem sequer o cadáver para contemplar, em suas mãos resta apenas um sudário!

Em 1423, para reparar os ultrajes dos hereges hussitas que, com sacrílego furor, desfiguravam as imagens de Nosso Senhor e da Virgem Santíssima, o Concílio Provincial de Colônia instituiu a comemoração litúrgica das Dores de Maria. Três séculos depois, em 1727, o Papa Bento XIII inscreveu-a no Calendário Romano, estendendo a celebração para a Igreja no mundo inteiro.

Atualmente, a Liturgia cultua Nossa Senhora das Dores no dia 15 de setembro, data estabelecida pelo Papa São Pio X em 1913.

As Sete Dores de Maria

As sete dores, as sete tristezas ou as sete espadas… O relato dos Santos Evangelhos forneceu à piedade popular os elementos para formar a coleção dos sete grandes padecimentos da Virgem Mãe.

“Uma espada transpassará tua alma” (Lc 2, 35), profetizou Simeão a Maria, no Templo. Esta foi sua primeira grande dor. Seguem-se depois as demais, na ordem cronológica do Evangelho: a fuga para o Egito, a perda do Menino Jesus no Templo, a ida para o Calvário, a Crucifixão de Nosso Senhor, a descida da Cruz, e o sepultamento.

Durante certo tempo, a memória de Nossa Senhora das Dores se comemorava sob o título de celebração das Sete Dores de Maria, introduzida na Liturgia em 1668, por iniciativa da Ordem dos Frades dos Servos de Maria (Servitas). Essa Ordem goza do privilégio de um Prefácio próprio para a comemoração litúrgica de 15 de setembro, no qual se faz esta comovedora oração a Deus Pai, uma verdadeira obra-prima de piedade e teologia:

“Vós, para restaurar o gênero humano, em sábio desígnio, associaste benignamente a Virgem a vosso Filho Unigênito; e Ela que, pela ação fecundante do Espírito, tinha-se tornado a Mãe d’Ele, por novo dom de vossa bondade tornou-se sua auxiliar na Redenção; e as dores que Ela não sofreu ao dar ao mundo seu Filho, sofreu, gravíssimas, para fazer-nos renascer em Vós.”

Revista Arautos do Evangelho n.45 set 2005

O pecado

Anna Luiza Cendon Finotti

Deus submeteu à prova nossos primeiros pais1 a fim de merecerem o céu. No entanto, eles não permaneceram fiéis ao transgredirem o mandato divino 2 e,“ao lermos o Gênesis, entristece-nos a história do primeiro pecado do homem” 3 (Cf. Gen 3, 1-24), pois é a fonte dos desequilíbrios de toda a humanidade. O homem, criatura nobre de Deus, ficou, assim, desfigurado pelo pecado e sujeito às más tendências.

Entretanto, “antes de sentenciar os sofrimentos aos quais a natureza humana estaria sujeita na terra de exílio, Deus nos prometeu a vinda de um Salvador, […]garantindo-nos o perdão”. 4 Igualmente, deu-nos o sacramento do Batismo que apaga o pecado original e “nos eleva muito acima da nossa natureza humana para nos tornarmos verdadeiros filhos e herdeiros da Santíssima Trindade” 5.

Contudo, quando pecamos afastamo-nos novamente de Deus e rompemos com essa amizade, pois, como tão bem define Santo Agostinho, o pecado constitui uma aversio a Deo et conversio ad creaturas, afastar-se de Deus e um voltar-se a criatura.

Por qual motivo, então, permitiu Deus o pecado? Entre outras razões, explica Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP:

[…] em primeiro lugar, a fim de nos enviar um Salvador que operasse a Redenção. Por isso, na Liturgia da Vigília Pascal se canta “ó culpa tão feliz que há merecido a graça de um tão grande Redentor”. Em segundo lugar, para evitar o amolecimento e a tibieza dos justos. […] Por último, porque permitindo o mal Deus quer um bem superior que dele resulta acidentalmente.6

E essa fraqueza do homem, por onde muitas vezes ele prefere o mal ao bem, é ainda uma consequência do pecado original. O próprio São Paulo descreve esta luta interior:

Não entendo, absolutamente, o que faço, pois não faço o que quero; faço o que aborreço. E, se faço o que não quero, reconheço que a lei é boa. Mas, então, não sou eu que o faço, mas o pecado que em mim habita. Eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita o bem, porque o querer o bem está em mim, mas não sou capaz de efetuá-lo. Não faço o bem que quereria, mas o mal que não quero. Ora, se faço o que não quero, já não sou eu que faço, mas sim o pecado que em mim habita. Encontro, pois, em mim esta lei: quando quero fazer o bem, o que se me depara é o mal. Deleito-me na lei de Deus, no íntimo do meu ser. Sinto, porém, nos meus membros outra lei, que luta contra a lei do meu espírito e me prende à lei do pecado, que está nos meus membros. (Rm 7, 15-23).

É nessa constante luta que vive o homem sobre a terra. Dela saem vitoriosos e alcançam a felicidade eterna aqueles que, com o auxílio da graça, souberem observar as Leis de Deus e renunciar a todo pecado.7

O pecado é algo horroroso e as palavras do Beato João Paulo II bem o confirma: “Aquilo que se opõe mais diretamente à caminhada do homem em direção a Deus é o pecado, o perseverar no pecado, enfim, a negação de Deus.”

Acrescenta Mons. João:

A gravidade da ofensa se mede sobretudo pela dignidade da pessoa ofendida. Uma agressiva bofetada desfechada por alguém a seu igual merece uma penalidade muito menor do que uma outra, da mesma intensidade, desferida contra uma grande e representativa personalidade. O castigo sempre deverá ser aplicado em proporção à categoria do ofendido. Ora, se a pessoa ultrajada é infinita, o castigo só poderá ser eterno; tanto mais que, para reparar o pecado, quis o Verbo de Deus encarnar-Se e sofrer todos os tormentos da Paixão.8

Os pecados dos homens fazem sofrer o Sagrado Coração de Jesus, tão sensível às ingratidões recebidas. Disso são testemunhas inúmeras revelações privadas, como por exemplo, nesta em que Ele dirigiu a Santa Maria Margarida as seguintes palavras:

Eis este Coração que tanto amou os homens até se consumir para testemunhar seu amor. E como reconhecimento só recebe da maioria ingratidões por suas irreverências e sacrilégios, e pelas friezas e desprezos que têm para comigo neste Sacramento de amor. E o que é para Mim ainda mais sensível são corações consagrados a mim que também procedem da mesma maneira. 9

Como não se compadecer do Coração de Jesus continuamente atormentado pelos pecados dos homens? Dia e noite o Senhor Jesus é abandonado no Santíssimo Sacramento, em todos os instantes os homens pecam, e como outros tantos Pilatos, Caifás e Herodes, condenam o Justo à morte. Não há minuto na face da Terra em que o Sagrado Coração não seja alvo de novos escárnios e bem dizia Santa Teresa de Jesus: “Não há coração que não sofra por tantas calamidades, mesmos os nossos que são tão ruins…”10, e ainda São Luís Maria Grignion de Monfort exclama: “Não é melhor para mim morrer do que Vos ver, meu Deus, todos os dias, tão cruelmente ofendido?”.11

1 TANQUEREY, Adolphe. Compêndio de Teologia Ascética e Mística. Porto: Apostolado da Imprensa, 1961, p. 34.
2 Cf. ROYO MARÍN, Antonio. Somo hijos de Dios. Madrid: BAC, 1977, p. 10; TANQUEREY, loc. cit.
3 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Paz! Onde estás?. In: O inédito sobre os Evangelhos. Città del Vaticano: LEV, 2012, v. V, p. 101.
4 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Entre o perdão e a perseverança Deus prefere o quê?. In: O inédito sobre os Evangelhos. Città del Vaticano: LEV, 2012, v. VI, p. 342.
5 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Pertencemos à família de Deus!. In: O inédito sobre os Evangelhos. Città del Vaticano: LEV, 2012, v. V, p. 411.
6 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Até na hora da aparente derrota, o Sumo Bem sempre vence. In: O inédito sobre os Evangelhos, op. cit. v. V, p. 253.
7 Cf. CCE n.2015.
8 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O pobre e o rico. In: O inédito sobre os Evangelhos, op. cit. v. VI, p.379.
9 DUFOUR, Gerard. Na Escola do Coração de Jesus com Margarida Maria. São Paulo: Edições Loyola, 2000, p.87.
10 SANTA TERESA DE JESUS. Caminho de perfeição. In: Obras Completas. São Paulo: Loyola, 2002, c.XXXV, n. 4, p. 408.
11 SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. La oración abrasada. In: Obras. Madrid: BAC, 1953, p.599.

Lembra-se de sua Primeira Comunhão?

Ir. Carmela Werner Ferreira, EP

Outro dia, fazíamos Missão Mariana num bairro da Capital paulista. Era comovente ver como a Imagem Peregrina do Imaculado Coração de Maria tocava a alma de cada morador dos lares em que era acolhida. A um, fazia Ela um convite para voltar às práticas religiosas; a outro, para mudar de vida; a um terceiro, para abandonar um determinado vício.

Um fato pequeno mas significativo deu-se na residência de uma menina de 12 anos, a qual se mostrou visivelmente emocionada ao contemplar a fisionomia da Rainha dos Corações. Após algum tempo de oração, crivou-nos ela de perguntas: Quem são os Arautos do Evangelho? O que significa este símbolo? Como vivem vocês?

Ela, por sua vez, relatou animadamente as atividades que exercia na Paróquia, como acolitava as Missas aos domingos, sua participação nas obras de caridade, a catequese… Quando falava sobre a catequese, parou um instante, pensativa, e exclamou:

— Vai demorar para eu fazer minha Primeira Comunhão… só no fim do ano!

Disse isto com uma fisionomia de tristeza, como se o “fim do ano” fosse tardar uma eternidade para chegar.

Com pena para mim, tive que interromper a conversa, pois precisávamos visitar ainda muitos outros lares. Entretanto, suas últimas palavras me ficaram gravadas na mente e despertaram-me doces recordações. Que saudades de minha Primeira Comunhão!

O leitor também, certamente, guarda na memória a recordação e as emoções de sua Primeira Eucaristia. É um dia dourado esse! Um dia de alegria e de serenidade, frutos do Preciosíssimo Sangue de Jesus que se recebe pela primeira vez.

A Santa Igreja tem especial cuidado em preparar bem as almas infantis para esse acontecimento tão grande e tão santo. Entre muitos outros ensinamentos, lembra-lhes Ela estas sublimes palavras do Divino Mestre: “Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós mesmos” (Jo 6, 53).

Após receber o Sacramento da Reconciliação e renovar as promessas do Batismo, o neo-comungante se aproxima do altar. Saberá ele quantos e quão extraordinários efeitos produzirá em sua alma a Sagrada Eucaristia?

O primeiro deles, e o principal, é que Ela aumenta a união da alma com Cristo, ao entrar nesta para servir-lhe de alimento. Além disso, amplia, conserva e renova a vida da graça, recebida pelo Batismo.

Todos sabem que, quanto mais sincera e profunda for uma amizade, menor será o risco de um amigo ofender o outro. Pois bem, a Comunhão purifica os desejos e afetos, concentrando-os todos em Jesus Eucarístico, e assim preserva a alma dos pecados.

Um dos mais belos efeitos da Eucaristia talvez seja o de fortalecer e aprofundar a unidade do Corpo Místico de Cristo, ou seja, da Igreja. Não é verdade que os fiéis de todas as partes do mundo se sentem mais unidos à Igreja, e, portanto, ao Papa, quando recebem a Santa Comunhão?

São incontáveis os dons concedidos pelo Deus de infinita generosidade aos homens que acorrem ao Banquete Eucarístico com boas disposições de alma, isto é, humilde e fervorosamente.

Como fazer para ter essas boas disposições ao comungar?

O meio mais eficaz é rezar a Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento, pedindo que Ela prepare nossos corações para receber bem o Corpo de Cristo; que em todas as nossas Comunhões Ela nos ajude a repetir com sinceridade e fervor: “Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei uma só palavra e minha alma será salva.” E que, por fim, Ela própria apresente a Jesus nossos atos de adoração, de reparação, de agradecimento e de súplica.

Revista Arautos do Evangelho n.17 maio 2003

A presença de Nosso Senhor entre os homens

Ir. Carmela Werner Ferreira, EP

Um dos pontos essenciais de nossa espiritualidade é a devoção à Eucaristia. Ao longo dos séculos, o “Divino Prisioneiro” — amorosa designação dada a Jesus Sacramentado por grandes santos em alusão à sua permanente presença no sacrário — tem derramado incontáveis graças sobre todos os que d’Ele se aproximam, consolando os corações, fortificando os ânimos e dulcificando os amargos sofrimentos inseparáveis de nossa vida neste vale de lágrimas. Cumprem-se de maneira admirável e maravilhosa as palavras do Senhor: “Eis que estarei convosco, todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28, 20). Qual não deve ser a nossa correspondência e fidelidade para com um Deus que, chegando a extremos de amor, deixa-se como alimento para as almas e faz-se presente em todos os tabernáculos?

E que presença maravilhosa! Encanta nossas vidas, como quando visitamos a igrejinha de pacato vilarejo e vemos ajoelharem-se ante o altar as pessoas do lugar. Ou nos faz sentir tomados de enorme respeito e inundados de sacralidade, ao contemplarmos Nosso Senhor Sacramentado num templo esplendoroso, como, porexemplo, a Basílica de São Marcos, de Veneza. Jóia incrustada numa das mais belas cidade do mundo, ponto para onde convergem todos os olhares dos que visitam a antiga República Sereníssima, fazendo sair do fundo de nossas almas a espontânea exclamação: “Oh! Ali está Ele em Corpo, Sangue, Alma e Divindade. Que magnífico!”

É acerca do Santíssimo Sacramento que se deu o episódio seguinte, num mosteiro beneditino espanhol. Os piedosos monges se prepararam com muito fervor para uma festa litúrgica e o sacristão, ao arrumar na noite anterior os ornamentos necessários, esqueceu-se de um círio aceso dentro de um armário.

Não é difícil imaginar o susto dos monges ao chegarem pela manhã na capela e encontrarem o armário queimado, derretidos os cálices de prata e uma cruz de bronze que estavam nele depositados. Removendo as cinzas, encontraram, ainda incandescente, uma caixa de prata que servia de sacrário, na qual haviam sido guardadas três partículas consagradas. Esfriaram-na com água e colocaram-na sobre o altar-mor, não sabendo o que havia acontecido com o precioso conteúdo.

Abrindo a caixa, depararam-se com os corporais totalmente convertidos em cinza, aparecendo, entretanto, intactas e sem a menor queimadura, as três partículas consagradas. Oh milagre admirável! Oh resplendoroso poder do Criador do céu e da terra! Imagine-se o espanto dos monges ao verificarem esse milagre que tinham diante dos olhos! Ao saber do fato, o Sumo Pontífice recomendou-lhes que mantivessem com grande entusiasmo e alegria as partículas, a fim de que “os devotos se confirmem em sua devoção, e os que não o são sejam excitados sinceramente à devoção e à firmeza da Fé”
(Antonio Corredor Garcia, O.F.M, Prodigios Eucarísticos, Apostolado Mariano, Sevilla

Revista Arautos do Evangelho n.11 nov 2002

O PRÍNCIPE DA PAZ

Ir. María Lucilia Paula Morazzani Arráiz, EP

“Darei paz à vossa terra, e vosso sono não será perturbado. Afastarei da terra os animais nocivos, e a espada não passará pela vossa terra.” (Lv 26,6).

Essa era a paz considerada como um dos maiores dons oferecidos por Deus ao povo eleito, no Antigo Testamento, e o que mais era por ele desejado. Conturbados pelos temíveis efeitos do castigo que lhes coube pelo pecado original; não só a morte, privações e enfermidades, mas também o próprio nomadismo impedia-lhes possuir uma existência serena. A intranquilidade se lhes apresentava como um terrível tormento. Faltava-lhes, portanto, esse elemento essencial constitutivo da paz, ou seja, a tranquilidade, pois, como define Santo Agostinho: “A paz é a tranquilidade da ordem” 1

Por isso ansiavam por esta paz, obra exclusivamente divina a seus olhos, que lhes seria concedida como prêmio à sua fidelidade: “Senhor, proporcionai-nos a paz! Pois vós nos tendes tratado segundo o nosso procedimento” (Is 26,12).

O ideal do varão justo, amado por Deus, era o do homem pacífico: “…aqueles que têm conselhos de paz, estarão na alegria” (cf. Pr 12,20), e este receberia como recompensa, a plenitude dessa paz: “Aqueles que confiam nele terão inteligência da verdade, e os que são fiéis ao seu amor, descansarão unidos a ele; porque a graça e a paz são para os seus escolhidos” (cf. Sb 3,9).

Ora, tendo o homem rompido com a justiça, a paz tinha desaparecido da face da terra e era preciso que alguém viesse devolvê-la para que, finalmente, se realizasse aquilo de que falara o rei profeta: “A misericórdia e a fidelidade se encontraram juntas, a justiça e a paz se oscularam” (Sl 84,11). O profeta Jeremias antevira esse Libertador esperado, portador da tão almejada paz messiânica, aplicando-lhe estas palavras: “Bem conheço os desígnios que mantenho para convosco – oráculo do Senhor -, desígnios de prosperidade e não de calamidade, de vos garantir um futuro e uma esperança.” (Jr 29,11).

Seu nascimento não foi coberto de pompas e glória, mas nasceu pobre, numa gruta nos arredores de Belém.( cf Lc 2, 7) Não era – como sonhavam os judeus – a figura do Messias dominador que vinha arrebentar as pesadas cadeias do jugo romano e exterminar todos os seus inimigos ao fio da espada. Não. Foi um tenro menino que ocultou sob as debilidades da infância, o poder de um Deus. É verdadeiramente o “Príncipe da Paz”, prometido por Isaías ( cf Is 9,6), que veio trazer à terra um oceano de bem e de amor, capaz de transmitir a felicidade plena ao universo inteiro e a mil mundos, caso existissem. Os arautos de seu advento não foram outros que os anjos do céu, que transmitiram a boa nova cantando um hino de paz: “Glória a Deus no mais alto dos Céus, e paz na terra aos homens de boa vontade” (Lc 2,14).

Ao longo de sua vida pública, Jesus foi todo amor e misericórdia e fazer o bem era o seu lema. Ele não veio para condenar, mas para perdoar, para aliviar nossas costas dos fardos, e trazer ao mundo uma economia da graça totalmente nova. Sobre a cidade de Jerusalém, Ele chorou soltando esta pungente lamentação: “Se tu conhecesses ainda o que te pode trazer a paz” (Lc 19,42). Chamou bem-aventurados os pacíficos ( Mt 5,9) e ordenou a seus discípulos: “Em toda casa em que entrardes, dizei primeiro: Paz a esta casa!”(Jo, 10,5), para publicar a anistia e a remissão geral de todos os pecados.

Após a última ceia, antes de partir para o Pai, quando se preparava para derramar todo o seu Sangue como preço de nossa Redenção, deixou aos seus um precioso legado que os sustentaria em meio às tribulações que se aproximavam: “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não vo-la dou como o mundo a dá. Não se perturbe o vosso coração, nem se atemorize!” (Jo 14,27).

A tranquilidade e o equilíbrio, que foram arrebatados ao homem depois do pecado, foram-lhe restituídos com aquela saudação: “A paz seja convosco” (Jo 20,19) empregada por Cristo, vitorioso sobre a morte, ao aparecer milagrosamente no meio de seus discípulos.

Assim, a paz entre Deus e os homens foi maravilhosamente estabelecida pela morte e ressurreição do próprio filho de Deus, o Verbo Eterno feito carne, que se submeteu, obediente ao que o Pai, em sua justiça, ordenou. Mais tarde, São Paulo tornou pública essa pacificação dizendo: “Justificados, pois, pela fé temos a paz com Deus, por meio de Nosso Senhor Jesus Cristo.” (Rm 5,1).

Entretanto, percorrendo com os olhos o mundo de nossos dias, encontramo-lo no extremo oposto da paz. No interior dos corações penetrou o tédio, a apreensão, a angústia e a frustração, por não falar do verme roedor do orgulho e da sensualidade. A instituição da família tornou-se uma peça de museu. As nações se digladiam umas com as outras, sem levar em conta o direito alheio. Em síntese, não há paz individual, nem familiar, nem mundial.

Mais uma vez na história, o povo anda na escuridão e jaz nas trevas mais pavorosas. A humanidade parece andar às apalpadelas e torna-se premente a necessidade de uma luz que a ilumine e guie, qual nova estrela de Belém.

Por esta razão, nossos corações se voltam à Rainha da Paz a fim de suplicar sua poderosa intercessão para que o Divino Espírito Santo, repetindo o milagre de Pentecostes, volte a atear em todos os corações o fogo da caridade. Que Ele faça novamente florescer a virtude na terra, para que os homens procurem a Deus de toda a alma, orientem seus passos nas pegadas d’Aquele que se apresentou como sendo “o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6) e tomem como fonte de conhecimento e modelo a ser imitado Àquele que disse: “Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração” (Mt 11,29) Teremos assim, uma sociedade impregnada de santidade, reflexo da sublimidade de Deus. Uma sociedade onde a força e a comiseração, a majestade e a bondade, a seriedade e a suavidade andarão juntas e se oscularão. Quanta doçura! Quanta ordem! Que paz!

Realizar-se-á afinal aquela profecia de Isaías: “Ah! Se tivesses sido atento às minhas ordens! Teu bem-estar assemelhar-se-ia a um rio, e tua felicidade às ondas do mar; tua posteridade seria como a areia, e teus descendentes, como os grãos de areia; nada poderia apagar nem abolir teu nome de diante de mim.” (Is 48,18-19). E no mundo reinará, como nunca antes, a paz de Cristo no Reino de Cristo.

1SANTO AGOSTINHO. Cidade de Deus.Trad. Oscar Paes Leme. 9ª ed. Editora São Francisco. Bragança Paulista, 2006. Parte II, p.403

Um Mandamento Novo

Emelly Tainara Schnorr

“O pecado é uma falta contra a razão, a verdade, a consciência reta; é uma falta ao amor para com Deus e para com o próximo, por causa de um apego perverso a certos bens. Fere a natureza do homem e ofende a solidariedade” (CCE 1849). Esta sábia definição deixa claro que as desordens e crimes existentes no mundo têm sua raiz unicamente no pecado.

Por causa dele, vemos como os homens se endureceram e se fecharam no egoísmo, esquecendo-se de Deus e de seus santos preceitos. Em consequência, a humanidade se afastou do benéfico caminho do bem e da virtude, caindo nas piores selvajarias e crueldades.

Egoísmo de Caim: o caminho seguido pela humanidade

Ao contemplarmos as páginas bíblicas, nos primórdios da humanidade, logo após a queda de nossos primeiros pais, vemos um atentado contra o primeiro e maior Mandamento da Lei divina, que nos manda amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos (Cf. Mt 22, 37).

Depois de terem sido expulsos do Paraíso, Adão e Eva tiveram dois filhos: Caim e Abel (Cf. Gn 4, 1-2). Ambos cresceram sob o olhar dos pais, que se esmeravam em passar-lhes todos os ensinamentos recolhidos no Jardim do Éden. No entanto, Adão e Eva espantavam-se com a diferença entre eles: Caim, o mais velho, era orgulhoso e violento, enquanto Abel era justo e piedoso.1

Com o passar do tempo, o primogênito se tornou agricultor, e o segundo, pastor de ovelhas. Após alguns anos, decidiram oferecer sacrifícios a Deus. O inocente Abel ofertou as primícias de seus rebanhos e a carne mais suculenta das vítimas, merecendo o agrado de seu Criador. Caim ofereceu os frutos da terra que não lhe faziam falta e estes foram rejeitados pelo Senhor. Inflamou-se de cólera e inveja contra seu irmão, culminando no primeiro fratricídio da História (Cf. Gn 4, 3-8).

Por que Caim agiu desta maneira?

[O seu] interior era todo feito de egoísmo. Caim mantinha-se cumpridor dos horários e dos deveres porque ele queria a atenção de Eva; ele queria ouvir Adão dizer dele: “Que filho bom eu tenho!”. Ele queria o elogio, o incenso, o consolo de ser benquisto e bem-visto. No fundo, ele fazia todas as coisas por amor-próprio. Este amor-próprio levou-o a matar o irmão. Por quê? Porque esse amor-próprio fazia parte do maligno. […] Egoísta, filho do pecado e levando as marcas do pecado dentro dele. Era um homem que fazia as coisas por puro interesse. 2

Portanto, Caim procedeu deste modo por causa de seu egoísmo e porque não tinha verdadeiro amor a Deus; somente amava a si próprio, tendo como resultado a falta de amor ao próximo. Assim sendo, suas obras se tornaram más, a ponto de matar seu irmão. O próprio Nosso Senhor declarou a Santa Catarina de Sena a respeito das maléficas conseqüências que o egoísmo traz: “[…] O egoísmo, que é a negação do amor pelo próximo, constitui-se como razão e fundamento de todo mal. Ele é a raiz dos escândalos, do ódio, da maldade, dos prejuízos causados aos outros”.3

Porém, esse episódio não teve o seu término em Caim; através dele, delineava-se o horrendo caminho de egoísmo para onde a humanidade rumaria. Pois, se corrermos os olhos nas Sagradas Escrituras, nelas encontraremos inúmeros fatos nos quais transparece a carência de amor ao próximo nos homens, e o quanto eles se afundaram na egolatria após a queda original. O vício e o pecado reinavam sobre o mundo e a humanidade necessitava de uma renovação que desse sentido à existência do homem.

Uma nova luz brilha no mundo inteiro: um mandamento novo

Numa insignificante gruta, junto à cidade de Belém, nasceu um Menino, trazendo a solução para mundo. Ele veio não só para reparar as mazelas humanas, mas também dar um novo rumo à humanidade, como nos indica Clá Dias: “Já em seu nascimento, numa singela manjedoura, aquele Divino Infante reparava os delírios de glória egoística sofregamente procurada pelos pecadores. Ele se encarnava para fazer a vontade do Pai e, assim, dar-nos o perfeitíssimo exemplo de vida”.4

Emanavam dele afabilidade, doçura, um desejo enorme de fazer o bem, uma sede ardente de perdoar, atraindo a todos e incutindo-lhes confiança.Cristo ia promovendo uma renovação dos costumes e modos de ser dos homens de todas as condições, de todos os tempos e nações: “Nosso Senhor Jesus Cristo […] pregou no mundo o amor ao próximo. E, sobre esta base inteiramente nova, Ele renovou a Terra, a tal ponto que a história ficou dividida em dois grandes períodos: a era anterior ao nascimento d’Ele e a Era Cristã”.5

Assim foi durante toda a sua vida terrena: um abismo de bondade, amor e misericórdia. Entretanto, poderíamos pensar que isso só cabe a Deus realizar, e não aos homens. Ora, se o Divino Mestre deixou-nos um exemplo a seguir, quer dizer que esse é o caminho pelo qual devemos trilhar: “Amou a cada um de nós para que nos amássemos uns aos outros”.6

Mas qual é este caminho? A lei mosaica era muito precisa: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças” (Dt 6, 5); e: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Lv 19, 18). Porém, Jesus ampliou esse preceito quando disse: “Dou-vos um novo mandamento: Amai-vos uns aos outros. Como eu vos tenho amado, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros” (Jo 13, 34). Por este novo mandamento, mostrava que não bastava amar ao próximo, mas era necessário amar como Ele amava: em função de Deus e despretensiosamente.

O amor assim praticado renova-nos. Por ele seremos homens novos, herdeiros do Novo Testamento […]. Este amor, irmãos caríssimos, renovou também os antigos justos, os Patriarcas e os Profetas. E depois renovou os santos Apóstolos. É ainda o mesmo amor que renova presentemente todos os povos, e congrega todo o gênero humano que se espalha pelo universo, fazendo dele o povo novo. […] A renovação advém da prática do mandamento novo. […]
Ouvem e guardam este ensinamento: “Dou-vos um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros. Não como se amam os corruptores, nem mesmo como se amam os homens enquanto homens, mas como se amam os homens enquanto são deuses e todos filhos do Altíssimo”.
7

Portanto, é a isso que Nosso Senhor nos convida: ter um amor pelo próximo levado a um alto grau, a ponto de, se for preciso, um dar a vida pelo outro. Sejamos santos, amando-nos uns aos outros por amor a Deus.

1 BERTHE, Augustin. Relatos Bíblicos. Trad. António Carlos de Azeredo et al. Braga: Civilização, 2005. p. 24.
2 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Homilia da 5ª feira, da I Semana do Tempo do Natal. Caieiras, 5 jan. 2006. (Arquivo IFTE). As matérias extraídas de exposições verbais – designadas neste trabalho, segundo sua índole, como “conferências”, “palestras” ou “homilias” – foram adaptadas para a linguagem escrita.
3 SANTA CATARINA DE SENA. O Diálogo. Trad. João Alves Basílio. 8. ed. São Paulo: Paulus, 2004. p. 38.
4 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Paz! Onde estás? Op. cit. p. 12.
5 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. A Igreja: formadora de uma civilização. In: Revista Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei, n. 41, ago. 2001. p. 16.
6 SANTO AGOSTINHO DE HIPONA. A Ceia do Senhor. Trad. José Augusto Rodrigues Amado. Coimbra: Coimbra, 1952. Vol. IV. p. 85.
7 Ibid. p. 82-83.

Martinho da Caridade

Irmã Maria Teresa Ribeiro Matos, EP

As vastidões do Novo Mundo deslumbravam o homem europeu no longínquo despontar do século XVI. Terras férteis, abundantes riquezas naturais e a esperança de um futuro promissor tornaram-se em pouco tempo uma atração irresistível para os fidalgos ibéricos, que viam nas Américas uma oportunidade de expandir a Igreja de Deus, os domínios do Rei e abrilhantar a honra da sua estirpe.

O entusiasmo que os animava não carecia de fundamento, pois Deus parecia sorrir aos bravos expedicionários, soprando vento favorável nas velas de suas frágeis naus e coroando com o êxito temerárias empresas, movidas muitas vezes pelo desejo de conquistar almas para Cristo, mas muitas outras também por motivos bem menos elevados.

O que reservava a Providência para essas terras infindas, habitadas por povos das mais diversas índoles? O que desejava Ela para aqueles nativos, ora pacíficos, ora belicosos, ora de temperamento selvagem, ora dotados de cultura e técnicas muito desenvolvidas? Algo mais elevado que qualquer consideração política ou sociológica: dar-lhes o tesouro da Fé, a Celebração Eucarística, a graça santificante infundida através dos Sacramentos.

Fruto da heroica ação dos missionários, logo começaram a surgir no Novo Continente Santos dos mais ilustres, que perfumavam com o bom odor de Jesus Cristo os novos domínios e faziam expandir neles, pela oração ou pelo apostolado, as sementes do Reino. Pensemos, por exemplo, na Lima quinhentista.

Nela conviviam Santa Rosa, terciária dominicana, hoje padroeira da América Latina, São João Macías, evangelizador infatigável, ou esse modelo de Pastor que foi São Turíbio de Mongrovejo.

Contemporâneo de todos eles, superando-os no dom dos milagres e em manifestações sobrenaturais, brilhou no convento dominicano do Santo Rosário um humilde irmão leigo chamado Martinho de Porres. “Misto de fidalgo e homem do povo, suas virtudes esplendentes contribuíram para conferir à civilização peruana do seu tempo uma beleza e uma ordenação católicas até hoje insuperáveis”. 1

Desejo de servir, à imitação do próprio Cristo

Nasceu ele a 9 de dezembro de 1579 na florescente Lima do tempo colonial, capital do vice-reinado do Peru, filho natural de João de Porres, cavaleiro espanhol, e Ana Velázquez, panamenha livre, de origem africana.

Em sua infância, experimentou ora as larguezas e as exigências da vida nobre ao lado do pai, em Guayaquil — atual Equador —, ora a simplicidade e o trabalho junto à mãe, em Lima, sem apegar-se a um modo de vida nem reclamar do outro. Mas tanto em uma quanto em outra circunstância ele se sentia atraído pela vida de piedade, servindo como coroinha nas Missas paroquiais ou passando noites em claro, de joelhos, rezando diante de Jesus Crucificado.

Contando apenas 14 anos dirigiu-se ao Convento do Rosário e fez um pedido ao provincial dos Pregadores, Frei João de Lorenzana. Que desejava ele ao bater à porta daquela casa de Deus? Tornar-se um servidor dos frades, na qualidade de “doado”, como então eram designados aqueles que se dedicavam às tarefas domésticas e se hospedavam nas dependências dos dominicanos. O superior, discernindo nele um chamado autêntico, recebeu-o de bom grado.

Doravante suas funções seriam varrer salões e claustros, a enfermaria, o coro e a igreja da grande propriedade, que abrigava por volta de 200 religiosos, entre noviços, irmãos leigos e doutos sacerdotes. De maneira alguma Frei Martinho se envergonhava dessa condição. Sua visão sobrenatural das coisas fazia-o compreender bem a glória que há em servir, à imitação do próprio Cristo Jesus, que Se encarnou para nos dar exemplo de completa submissão.

Após dois anos no exercício dessas árduas tarefas, vinculado à comunidade apenas como terciário, um irmão o chama à portaria. Ali estão à sua espera o superior e seu pai que, regressando de um longo período a serviço do vice-rei, no Panamá, quer reencontrar o filho.

Indignado por vê-lo ocupando posição tão humilde, o fidalgo exige do provincial que promova seu filho pelo menos a irmão leigo. O prior acede, mas os olhos de Frei Martinho, em lugar de se iluminarem de contentamento, ficam umedecidos por lágrimas. Era a sua humildade que falava mais alto, levando-o a implorar ao superior que não o privasse da alegria de poder dedicar-se à comunidade como vinha fazendo até então.

Vocação de remediar os males alheios

No dia 2 de junho de 1603 ele faz a profissão solene dos votos religiosos, recebendo, além das funções de sineiro, barbeiro e encarregado da rouparia, o cuidado da enfermaria. Ali exerce também, à falta de médico, o ofício de cirurgião, cujos rudimentos aprendera antes de ingressar no convento.

Seus diagnósticos certeiros sobre o verdadeiro estado dos doentes logo começam a se comprovar pelos fatos, muitas vezes contra as aparências. Por exemplo, a um enfermo que todos consideram já às portas da morte anuncia que dessa vez não morrerá; e de fato, em poucos dias encontrava-se curado. Em outra ocasião, vendo Frei Lourenço de Pareja caminhando pelo claustro, comunica-lhe que em breve deixará seu corpo mortal e chama um sacerdote para administrar-lhe os Sacramentos. Instantes depois de recebê-los, o frade expira em seu leito.

Incontáveis curas milagrosas por ele realizadas fazem sua fama ultrapassar os muros do Convento do Rosário. Pequenos e grandes, espanhóis e índios, ricos e pobres vêm pedir auxílio ao santo enfermeiro.
Começa assim a manifestar-se a vocação de Martinho, que “parece ter sido a de remediar os males alheios”, 2 não poupando esforços para dar-lhes bom exemplo, conforto físico e espiritual no exercício de suas funções.

“Desculpava as faltas dos outros; perdoava duras injúrias, convencido de que era digno de penas maiores por seus pecados; procurava com todas as suas forças trazer para o bom caminho os pecadores; assistia comprazido os enfermos; proporcionava alimento, vestuário e remédios aos fracos; favorecia com todas as suas forças os camponeses, os negros, os mestiços que naquele tempo desempenhavam os mais humildes ofícios, de tal maneira que foi chamado pela voz popular Martinho da Caridade”. 3

Frequentes manifestações sobrenaturais

De onde vinham estas qualidades incomuns? Sem dúvida, de uma intensa espiritualidade, pois “uma vida como a de Martinho, consagrada por inteiro ao serviço do próximo, com perfeito esquecimento de si, não se explica sem uma intensa vida interior, sem o estímulo da caridade que, […] mesmo sob o peso da fadiga, não chega a sentir cansaço”. 4

Uma noite, quando a hora já ia avançada, o cirurgião Marcelo Rivera, hóspede do convento, o procura sem conseguir encontrar. Pergunta a este, pergunta àquele, mas ninguém o vira. Acha-o, por fim, na sala capitular, “suspenso no ar, com os braços em cruz, com suas mãos coladas às de um Santo Cristo crucificado, que está num altar. E mantinha todo o corpo junto ao do Santo Crucifixo, como que O abraçando. Estava elevado a cerca de três metros do solo”. 5

Incontáveis testemunhas presenciaram fatos semelhantes. Assim, por exemplo, numa noite em que poucos conseguiam conciliar o sono no prédio do noviciado, devido a uma epidemia que prostrava com altas febres a maioria dos frades, ouve-se de uma das celas:

— Ó, Frei Martinho! Gostaria de ter uma túnica para trocar-me!

É Frei Vicente que, revolvendo-se no leito, entre os suores da febre, clama pelo enfermeiro, sem esperança de ser atendido, pois as portas daquele prédio já estavam trancadas e Frei Martinho vivia fora do mesmo. Mas, mal termina de falar, vê o irmão enfermeiro junto a ele, trazendo nas mãos uma camisa limpa e bem passada. Assustado, pergunta-lhe como fizera para entrar.

— Não cabe a vós saber isso — responde com bondade Frei Martinho, fazendo com o dedo sinal de silêncio.

Não longe dali o mestre de noviços, Frei André de Lisón, ouve a voz de Frei Martinho e coloca-se no corredor para verificar por onde entrara. Passa-se o tempo, e nada! Resolve então abrir a porta da cela do doente: estava sozinho e dormia um sono profundo… A admiração estende-se por todo o convento.

Frei Francisco Velasco, Frei João de Requena e Frei João de Guia também recebem visitas semelhantes. Em outra ocasião, um frade, caminhando pelo claustro, vê passar pelos ares um facho luminoso, fixa as vistas e discerne Frei Martinho voando envolto em luz.

Certa madrugada, ao toque do sino, toda a comunidade se reúne na igreja, como de costume, para cantar Matinas. De súbito, um clarão vindo do fundo ilumina todo o recinto sagrado. Voltam-se para trás os religiosos e descobrem o foco de tão intensa luminosidade: o rosto de Frei Martinho que, tendo descido para ajudar o sacristão, ali estava ouvindo o cântico sacro.

“Deus seja louvado por utilizar tão vil instrumento”

Fatos como estes ocorrem em quantidade e tornam-se públicos e notórios. Aos poucos a fama do Santo se espalha por toda Lima, chegando inclusive até o vice-rei e o Arcebispo. Nada disso, contudo, perturba sua humildade. De maneira alguma consente em perder o convívio com o sobrenatural, voltando-se para si mesmo a fim de desfrutar uma glória humana que passa “como um sonho da manhã” (Sl 89, 5).

Em certa ocasião ele vai visitar a esposa de seu antigo mestre de barbearia, a qual padecia de grave enfermidade. Convidando-o a sentar-se aos pés de seu leito, ela estica discretamente o braço até tocar com a mão na ponta do hábito do Santo. No mesmo instante, sente-se curada e exclama, pervadida de admiração:

— Tão grande servo de Deus sois, Frei Martinho, que até vossas vestes têm poder de curar!

Com a esperteza própria à humildade, responde o Santo:

— Aqui está a mão de Deus, senhora. Ele a curou, através do hábito de nosso pai, São Domingos. Deus seja louvado por utilizar tão vil instrumento para operar tamanha maravilha, e porque o hábito de nosso pai não perde seu valor e devoção, mesmo vestido por tão grande pecador como eu. 6

“Não sou digno de estar na casa de Deus”

Outro episódio, desta vez ocorrido dentro dos muros do convento, atesta a mansidão de Frei Martinho em suportar as fraquezas que por vezes seus irmãos de hábito manifestavam. Ele as sofria com excepcional cordura, tomando-as sempre como merecidas e úteis para a expiação de seus pecados.

Aconteceu que um antigo religioso acamado mandou chamá-lo na enfermaria, mas como Frei Martinho estivesse ocupado num assunto urgente, demorou um pouco a chegar. Enquanto escoavam-se os minutos o doente tomou-se de impaciência e começou a deblaterar contra o Santo, dizendo toda espécie de injúrias, externando queixas descabidas, fruto do egoísmo.

Logo acudiu ele e pediu desculpas, mas teve de ouvir uma nova catilinária, desta vez pronunciada em alta voz, de modo que os outros frades também escutaram. Preocupados, alguns irmãos se aproximaram e um deles, ao ver Frei Martinho ajoelhado junto ao doente, perguntou-lhe o que estava acontecendo.

— Padre — respondeu o humilde Irmão —, estou recebendo cinzas sem ser a quarta-feira delas. Este padre me ofereceu o pó de minha baixeza e me pôs a cinza de minhas culpas diante de mim, e eu, agradecido por tão importante lembrança, não lhe beijo as mãos porque não sou digno de colocar nelas os meus lábios, mas fico aos seus pés de sacerdote. E, creia-me, este dia foi proveitoso para mim porque dei-me conta de que não sou digno de estar na casa de Deus e entre os seus servos. 7

Numa fase de privação pela qual passava a comunidade, o padre prior encontrava-se muito aflito por não dispor da quantia necessária para sanar as dívidas da casa, que eram numerosas. Frei Martinho então perguntou-lhe se não queria vendê-lo como escravo, pois devia valer um preço considerável e se sentiria muito honrado por ser útil ao convento. O sacerdote, comovido com esta atitude heroica de amor à Ordem, respondeu-lhe:

— Que Deus te pague, Frei Martinho, mas o Senhor, que te trouxe até aqui, Se encarregará de resolver o problema.8

O caminho que Cristo nos ensina

A vida do despretensioso irmão transcorria serena, consumindo-se em longas vigílias de oração junto ao crucifixo e serviços na aparência muito comuns, mas sempre feitos com a intenção de glorificar a Deus, sendo amiúde coroados por milagres. Faltando um mês para completar 60 anos, uma febre violenta e frequentes desmaios o obrigaram a guardar repouso. Tudo indicava aproximar-se o fim de seu estado de prova.

A notícia se espalhou pela cidade e sua cela logo se tornou objeto de contínua peregrinação. Nessa mesma noite ele entrou em agonia. Os circunstantes o viam debater-se com gestos violentos e, estreitando em seu peito o crucifixo, increpar o maligno:

— Vai embora, maldito! Não me hão de vencer tuas ameaças!

Três dias depois, a 3 de novembro de 1639, diante dos seus irmãos de vocação que junto dele recitavam o Credo, nasceu São Martinho de Porres para a verdadeira vida, deixando atrás de si um rastro luminoso que ainda hoje suscita a veneração de incontáveis fiéis.

“Este santo varão que, com seu exemplo de virtude, atraiu tantos à Religião, agora também, três séculos após sua morte, faz elevarem-se aos Céus nossos pensamentos”, lembrou o São João XXIII ao canonizá-lo. 9 Pois, com o exemplo de sua vida ele nos demonstra ser possível alcançar a santidade pelo caminho que Cristo nos ensina: amando a Deus, em primeiro lugar, com todo o coração, com toda a alma e com toda a mente; e, em segundo, ao próximo como a nós mesmos. 10

1CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Extrato de conferência. In: Dr. Plinio. São Paulo. Ano X. N.116 (Nov., 2007); p.2.
2 VARGAS UGARTE, SJ, Rubén. El santo de los pobres. San Martín de Porras. Lima: Paulinas, 2001, p.61.
3 SÃO JOÃO XXIII. Rito de Canonização do Beato Martinho de Porres, 6/5/1962.
4 VARGAS UGARTE, op. cit., p.97.
5 VELASCO, OP, Salvador. San Martín de Porres. La vida de “Fray Escoba”. 10.ed. Madrid: Edibesa, 2004, p.132.
6 Cf. VELASCO, op. cit., p.189-190.
7 VARGAS UGARTE, op. cit., p.42-43.
8 Idem, p.36.
9 SÃO JOÃO XXIII, op. cit.
10 Cf. Idem, ibidem.

Revista Arautos do Evangelho n.143. nov 2013

Um convite à admiração

Ir. Mariella Antunes, EP
4° Ano Ciências Religiosas

No meio de uma fria noite de inverno, longe de qualquer penumbra de luz, um violento estampido de canhão acorda os soldados exaustos pela longa batalha do dia anterior. Por um forte bradar do general, convocando-os à luta, os batalhões se formam antes mesmo do nascer do sol. Recomeça a guerra. Que sentimentos não pulsam nos corações destes varões que estão dispostos a dar a vida em prol da Santa Igreja instituída por Nosso Senhor Jesus Cristo?

Um dos soldados, com uma arma na mão direita e o Rosário da Santíssima Virgem na esquerda, recita em voz alta os mistérios gloriosos para infundir ânimo e a certeza da vitória em seus companheiros. Outro entoa hinos de louvores Àquela que é “terrível como um exército em ordem de batalha” (Cant 6, 10)

De súbito, um forte vento afasta a neblina da noite, e torna-se possível a visualização do nascer do astro rei, o Sol. Que consolo para aquelas almas fatigadas que lutaram na escuridão! Porém, mais do que um consolo, eles podem, por alguns instantes, afastarem-se daquele problema atual para contemplar a obra de arte por excelência; como afirmam alguns teólogos: o nascer do Sol é delineado pelos próprios Anjos.

Imaginemos Luis XIV, o rei sol na sua grandeza. Longe de repelir os camponeses que dele se acercavam, atraía-os convidando a admirar sua magnanimidade. Assim é também o astro rei: grande e imponente, não repele, mas atrai tanto a admiração que um poeta, vendo sua grandeza e poder para emprestar a cada objeto uma beleza que ele, de si, jamais haveria de ter, exclamou: “O Soleil! toi sans qui les choses ne seraient que ce qu ‘elles sont” – Oh, sol! Sem ti as coisas não seriam senão o que elas são. 1

Ah, se as cores e as formas pudessem falar, se a harmonia gradual das tonalidades diversas no céu produzissem sons, que bela sinfonia! Nossa natureza gosta daquilo que eleva a alma, nossos olhos gostam de contemplar aquilo que ultrapassa nossos sentidos.

Erguendo o olhar para além das brumas que caracterizam a vida neste vale de lágrimas, podemos também fixar nossa atenção em Maria, a Estrela que anunciou o Sol da justiça, Jesus Cristo nosso Salvador. A esta luz devemos nos entregar, pois por meio das graças que d’Ela se emanam, é que seremos verdadeiramente aquilo para o qual Deus nos chamou. Com efeito, cheios de gratidão bem poderíamos dizer: “O luz!, eu vos seguirei custe o que custar: pelos vales, montes, desertos e ilhas; pelas torturas, pelos abandonos e olvidos, pelas perseguições e tentações, pelos infortúnios, pelas alegrias e triunfos. Eu vos seguirei de tal maneira que, mesmo no fastígio da glória, não me incomodarei com ela, porque só me preocuparei convosco. Eu vos vi, e até ao Céu não desejarei outra coisa, porque, uma vez, vos contemplei”. 2

Não desprezemos as belezas naturais, antes tiremos delas lições para nossa vida. De fato, elas são um reflexo de nosso Criador e, ao contemplarmos um nascer de sol, bem podemos fazer a seguinte consideração: “Deus, Pai de toda a luz, soberanamente bom e belo, Sua beleza atrai nosso entendimento, para que O contemple, e Sua bondade atrai nossa vontade para que O ame. Como Belo, ao encher nosso entendimento de delícias, derrama seu amor em nossa vontade; como Bom, ao encher nossa vontade de seu amor, excita nosso entendimento a contemplá-Lo. O amor nos provoca a contemplação e a contemplação o amor; de onde se segue que o êxtase e o arrobamento dependem totalmente do amor; porque é o amor que move o entendimento à contemplação e a vontade à união”. 3

1ROSTAND, Edmund. Himne au Soleil. In: Chantecler. Paris: Fasquelle, 1928, P. 26.
2 CORREA DE OLIVEIRA, Plinio. Na vossa luz veremos a luz. In: Dr. Plinio. Sao Paulo, Ano VII, n. 80, p. 36.
SAO FRANCISCO DE SALES. Tratado del amor de Dios. In: Statveritas.com.ar. p. 9

Cantemos sobretudo com o coração

Ir Juliana Montanari, EP

Segundo as pesquisas científicas, escutar uma boa música pode melhorar a saúde. Muitos, porém, desconhecem o benefício que uma boa música traz às almas. Por isso, convidamos você – bombardeado todos os dias pela poluição sonora de buzinas, carros e máquinas – a parar um instante e a escutar esta bela música, que talvez lhe seja desconhecida, oposta a qualquer agitação e que nos transporta para um outro mundo…

Caro leitor, não rejeite esta oportunidade pensando: “não tenho tempo” ou “tenho mais o que fazer”, ou ainda: “há coisas mais interessantes para ver”, pois estes minutos podem mudar a sua vida! Ponha de lado, por alguns instantes, os rotineiros problemas e interesses de que se compõe a vida. Paremos um minuto; ou melhor, seis minutos para ouvir uma celestial melodia! [jwplayer mediaid=”3725″]Ave Maria,Virgo Serena

Ave Maria, cheia de garça, o Senhor é convosco, Virgem Serena. Ave, ó Vós, cuja conceição, repleta de solene alegria, enche os céus e a terra de nova felicidade. Ave, ó Vós, cujo nascimento foi solenidade e luz que se eleva qual tocha luminosa, anunciando o verdadeiro sol. Ave, santa humildade, que deu fruto sem varão, e cuja anunciação foi nossa salvação. Ave, verdadeira virgindade e imaculada castidade, cuja purificação foi nossa justificação. Ave, primeira entre todas as virtudes angélicas, cuja assunção nos glorificou. Ó Mãe de Deus, lembrai-vos de mim. Amém.

Notamos que o autor desta canção, Josquin des Prés, grande músico da polifonia vocal dos primórdios do Renascimento, ao compô-la, não se inspirou na natureza ou na antropologia, ou em contos de fantasia ou de aventura, mas sim no que há de mais alto na vida humana que é a relação do homem com Deus. Certamente guiado pelo Espírito Santo, o autor louva a Mãe de Deus nesta música, começando com a saudação que mais agrada à Rainha do Universo: “Ave Maria gratia plena Dominus tecum”: Ave Maria, cheia de graça o Senhor é convosco. E em seguida, exalta a Excelsa Soberana com um título que caracteriza sua música. Qual seria o título? Ave Maria, Rainha da Criação? Não. Ave Maria, Medianeira de todas as graças? Tampouco. Ave Maria, Estrela do Mar? Todos estes títulos cabem a Nossa Senhora, mas o autor se dirige a Ela como Virgem Serena. Daí o título da música: Ave Maria, Virgo Serena.

O compositor delineia a música em forma de louvor à Santíssima Virgem e termina com um pedido. Ora, quando uma criança quer um presente de aniversário, ela pede primeiro a quem: à mãe ou ao pai? Geralmente, a criança pede para a mãe pedir ao pai que lhe compre aquilo que deseja, pois, sabe ela que o pai nada negará ao pedido de sua mãe. Assim somos nós em relação a Nosso Senhor Jesus Cristo. É por meio de Maria que obtemos todas as graças necessárias à nossa salvação.

Analisando o ritmo da música, observamos que não é acelerado, causando a impressão de pressa ou agitação; não tem contratempos. Não é demasiado lento, aparentando moleza, mas tem uma contagem de tempo: 4/4, e sua dinâmica, interpretada pelo regente, faz com que os ouvintes sejam levados da terra à Eternidade já nos seus primeiros compassos. Se nos fosse dado escutar o coro dos anjos, louvando no céu sua excelsa Rainha, diríamos que cantariam uma música semelhante a esta; cada um procurando ressaltar a voz do próximo, ecoando a voz do que já foi cantado. Muito diferente de uma apresentação atual, onde uma multidão grita sem parar; ninguém compreende o que dizem, imperando o berro do mais forte! Nesta música não. A clareza com que são ditas as palavras, o aumento e diminuição de volume em cada voz para destacar as palavras-chaves da música que se aplicam à Nossa Senhora como: Cheia de graça, Imaculada castidade e Mãe de Deus constituem o auge da composição que, no seu decorrer, resplandecem como fogos de artifício.

A certa altura da música, muito discretamente, a contagem do tempo passa a ser 3/4 na seguinte frase: “Ave, vera virginitas, immaculata cástitas, cuius purificatio nostra fuit purgátio “: Ave, verdadeira virgindade e imaculada castidade, cuja purificação foi a nossa justificação. E, em seguida, retoma a contagem de tempo anterior. Por que o compositor quis mudar a contagem do tempo no meio da música? Não seria melhor ter mantido o mesmo compasso na música inteira? O compositor quis destacar esta frase porque resume a música inteira e usou da mudança de compasso para isso.

Disso podemos tirar uma sábia lição para nós! O Espírito Santo nada faz por acaso. Muitas vezes, acontece que, em determinado momento de nossa vida, tudo parece mudar bruscamente, e, como um pequeno barco no meio de uma tempestade, sentimos que iremos perecer. No entanto, quando menos esperamos, as nuvens se afastam, as ondas acalmam-se e o sol volta a brilhar!

A composição é cantada a quatro vozes, formando uma verdadeira harmonia de sons; ou seja, as notas cantadas simultaneamente combinam entre si, formando os acordes. Deste modo, a melodia cantada pela primeira e terceira voz é cantada igualmente em seguida pela segunda e quarta. Isto é feito de maneira tão suave que quase não distingue quando uma terminou e a outra começou, até chegar o momento em que todas as vozes cantam juntas. Isto nos mostra realidades que muitas vezes não analisamos, talvez por estarmos acostumados a julgar as situações com superficialidade.

Em primeito lugar, está presente a hierarquia. O autor não coloca todas as vozes começando juntas. Cada uma surge no lugar que lhe corresponde, exercendo o seu próprio papel, não querendo destruir quem está acima delas, que, no caso, seriam os tenores. Pelo contrário, as vozes baixas querem exaltar as vozes que lhe estão acima e se submetem a elas.

Em segundo, a ordem refulge na sequência da música. Uma introdução apresenta o tema a ser tratado: a Ave Maria. Segue-se o desenvolvimento; aquilo que o autor quis colocar como essência – Ave, verdadeira virgindade e imaculada castidade cuja purificação foi a nossa justificação. E, por fim, uma súplica a Nossa Senhora: Ó Mãe de Deus, lembrai-vos de mim!

Constata-se, em seguida, a harmonia. O autor não coloca trechos dissonantes, todas as notas consonam e se completam. Bem diferente das músicas modernas que, do início ao fim, mantém a mesma melodia e o mesmo ritmo acelerado, usando gírias e palavras de pouco valor e muitas vezes sem significado para quem as escuta.

Unamo-nos ao autor e cantemos não só com os lábios, mas com o coração esta súplica a Nossa Senhora: “Ó Mãe de Deus, lembrai-Vos de mim!”. É evidente que Nossa Senhora jamais se esquece de um filho seu, por menor que ele seja, desprezado e esquecido pelo mundo. Pedindo a Ela que se lembre de nós é o mesmo que dizer: Ó Senhora, não se esqueça deste pequenino filho que necessita em tudo de Vós. Seja para mim a Luz que ilumina o meu caminho, o guia que me conduz a Deus, a proteção contra todos os inimigos visíveis e invisíveis, a razão da minha vida e de minha existência, e me possa conduzir, segundo a Vossa misericórdia, ao Reino dos Céus para, junto a Vós, cantar as glórias de Deus. Amém.