Sonhos das mil e uma noites

Ir. Carmela Werner Ferreira, EP

Quem de nós, ao menos nos tempos de nossa infância, nunca imaginou um marajá indiano ou uma princesa persa, vestidos esplendidamente, ornados com as mais finas jóias e pérolas, passeando pelos ares sobre um tapete voador? Um tapete que obedecesse à voz de comando de seu nobre dono e que se alçasse aos céus com elegância e leveza? Se é certo que os tapetes não possuem capacidade de voar, não é menos certo que eles têm um poder precioso: o de levar a sensibilidade humana a viajar pelos altos páramos do mundo do belo.

Quando começou a história da tapeçaria? Impossível saber. Não há registro nos anais da História, de quem foi o homem em cuja alma Deus acendeu pela primeira vez o desejo de entrelaçar fios coloridos para produzir algo de belo. Mas pode-se dizer que esse desconhecido foi — para quem sabe ver as coisas — um dos grandes benfeitores da humanidade.

Acomodando-nos confortavelmente sobre um imaginário tapete voador, retrocedamos quarenta séculos, para tentar conhecer um pouco da história dessas maravilhas criadas pelo homem para adornar pisos e paredes, alegrar os olhos e extasiar as mentes.

Caminhando pelos países do Oriente Médio e norte da África, encontraríamos tapetes lindos em muitos locais. Vários indícios históricos deixam entrever em que medida os tapetes faziam parte da vida diária de diversos povos, inclusive nômades.

Por pinturas encontradas em túmulos egípcios, pode-se constatar que, por volta de 2.000 a.C., já existia no país a arte da tapeçaria. Também nos deparamos com referências a ela na “Ilíada”, de Homero, e em vários autores clássicos. Na Sagrada Escritura, a arte de tecê-los é mencionada desde o Êxodo.

A peça mais antiga que se conhece, descoberta nos montes Altai, no sul da Sibéria, data do ano 500 a.C., e é surpreendentemente parecida com os tapetes de hoje. É admirável o grau de perfeição que a tapeçaria foi conquistando desde então, sobretudo na Pérsia.

A grande riqueza e variedade de desenhos, combinada com uma imensidade de cores, forma peças tão belas que poderíamos perguntar: “Mas é para se pisar realmente?” De fato, o encanto produzido pelos tapetes nos nobres europeus era tão grande que, não se conformando em colocá-los no chão de seus palácios, eles os utilizavam como toalha nas mesas de reunião.

É interessante notar como as cores assumem um papel mais que decorativo e que, em cada tapete, dependendo da combinação, toda uma concepção das belezas criadas por Deus está expressa de forma admirável. A isso acrescentemos o esmerado trabalho de tecelagem, que envolve ao mesmo tempo muita técnica e matéria-prima cuidadosamente preparada: lã, seda e algodão, além de tintas naturais que, com o passar dos séculos, foram se aprimorando, até alcançar as incontáveis variações atuais.

Nós, após o conturbado século XX, tão cheio de inovações tecnológicas e no qual a máquina assumiu cada vez mais espaço na vida de todos, dificilmente acreditaríamos que, durante o século XVI — considerado a época do apogeu da tapeçaria no Irã — a confecção de uma autêntica peça persa pudesse levar até cinco anos para ser concluída.

Isso porque, nas hábeis mãos dos artesãos, cada nó era dado com grande exatidão e os desenhos cuidadosamente elaborados. Em cada uma das seis regiões da Ásia onde a tapeçaria se desenvolveu de forma relevante — Pérsia, Turquia, Cáucaso, Turquestão, Índia e China — os tapetes foram adquirindo peculiaridades próprias e fizeram transparecer, em diferentes matizes, aspectos de cada lugar e, mais ainda, de cada povo. Quiçá a Providência tenha colocado na alma destes povos, capazes de tal arte, algo que, refletindo suas perfeições, brilhará de maneira especial quando eles se converterem a Cristo Nosso Senhor e suas almas forem trabalhadas pela graça do Batismo.

Revista Arautos do Evangelho out 2002

Uma ideia sobre “Sonhos das mil e uma noites

  1. Realmente, se esses povos, ainda pagãos, produzem obras tão belas imagine-se as maravilhas de que serão capazes quando se tornarem filhos da Santa Igreja, como profetizou São Luis Maria Grignion de Montfort.

    Salve Maria!

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