Sede perfeitos, assim como vosso Pai celeste é perfeito

Yolaynet Encarnación Cuevas

No Concílio Vaticano I, a Igreja declarou como dogma de fé que Deus pode ser conhecido pela luz natural da razão humana, através das coisas criadas (cf. DH 3026). É neste sentido que Tomás de Aquino apresenta cinco vias com que se pode chegar ao conhecimento de Deus. Na quarta via, o Doutor Angélico recomenda analisar os graus de perfeição.1 Na criação observam-se os minerais, plantas e animais,com as belezas e perfeições próprias a cada grau. Assim, contemplar uma construção gótica, um nascer do sol ou escutar o suave cântico dos pássaros ajudam a elevar a mente ao Criador.

Da mesma forma, explica Plinio Corrêa de Oliveira, baseando-se em São Tomás, que há nobres e plebeus, grandes e pequenos, ricos e pobres, mais inteligentes e menos para o benefício não só dos superiores, mas também dos inferiores já que o menor ao receber auxílio do maior, vê neste uma imagem de Deus Altíssimo, e a dedicação do menor tem algo de devotamento ao próprio Deus. Deste modo, foi dado a cada criatura humana o dom de refletir algumas das infinitas perfeições divinas.2

Por conseguinte, São Tomás de Aquino assevera que toda a bondade e perfeição, parcialmente distribuídas nas criaturas, está em Deus unificado de modo pleno e universal.3 Igualmente, São Paulo pregou aos Hebreus: “Enquanto a lei elevava ao sacerdócio homens sujeitos às fraquezas; o juramento, que sucedeu à lei, constitui o Filho, que é eternamente perfeito. “(Hb 7, 28).

O Aquinate usa os termos ato e potência para provar que Deus é a Perfeição absoluta.4 Ele explica que algo é perfeito enquanto está em ato. O homem encontra-se em ato em certos aspectos e em outros em potência. Por exemplo, um jovem pode ser aluno em ato e professor em potência, pois está estudando sobre alguma ciência que logo poderá ensinar. Sem embargo, Deus é diferente, porque ele não pode crescer em conhecimento, pois sabe tudo; não pode se tornar mais forte, uma vez que já é perfeitíssimo. Portanto, Deus é ato puro, é a Perfeição infinita. Com efeito, em uma das aparições à Santa Maria Faustina Nosso Senhor Jesus Cristo afirmou: “Eu sou santo, três vezes santo e sinto aversão ao menor pecado”.5

Para propagar os ensinamentos do divino Mestre ao mundo contemporâneo, Paulo VI declara que todos nós somos chamados à santidade (cf. LG 40). Plínio Correa de Oliveira explica que a perfeição moral é a santidade. E esta é a prática em grau heroico das três virtudes teologais — Fé, Esperança e Caridade —, das quatro cardeais e bem como os mandamentos, que são as virtudes aplicadas a cada circunstância concreta.6

Ao unir essas ideias, podemos chegar à conclusão de que Nosso Senhor quer que O imitemos, fazendo-nos um convite: ” sede perfeitos, assim como vosso Pai celeste é perfeito.” (Mt 5, 48). Portanto, busquemos sempre realizar todas as nossas ações, seja para o nosso bem ou para o dos outros, com a maior perfeição e façamos o firme propósito de nunca ofendê-Lo e, com a ajuda da graça, cumprir a vontade divina.

1TOMÁS DE AQUINO, São. Suma Teológica I, q.2 a. 3, ad 2.
2 CORREA DE OLIVEIRA, Plinio. Um reflexo da perfeição divina. Dr. Plinio, São Paulo, ano 12, n. 98, mai 2006, p. 23,.
3TOMÁS DE AQUINO, São. Suma Contra os Gentios I, c. 28.
4TOMÁS DE AQUINO, São. Op. cit., I, q. 4, a. 1.
5MARIA FAUSTINA, Santa. Diario de Santa María Faustina Kowaiska. Stockbrigde: Manan Press, 2010, p. 607.
6 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. A perfeição no homem, nas nações. Dr. Plinio, São Paulo, ano 7, n. 73, abr. 2004, p. 13.

O serviço e o desejo de santificar

Raphaela Nogueira Thomaz

Por onde passou Maria Santíssima e com quantos Ela conviveu nesta Terra, deixou a marca indelével de sua bondade materna, confirmada pelos Santos Evangelhos. São Lucas nos oferece uma cena comovedora, na qual brilha o cuidado de Nossa Senhora com os seus: “E naqueles dias, levantando-Se Maria, foi com pressa às montanhas, a uma cidade de Judá. E entrou em casa de Zacarias, e saudou Isabel”. (Lc 1, 39-40)

Fala-se da partida pressurosa de Maria para visitar sua prima, já anciã, que estava para dar à luz um filho. As asperezas do percurso — naquele então desprovido das conduções elétricas e dos nivelamentos das estradas de que dispomos hoje — não Lhe constituíram qualquer obstáculo e empreendeu uma viagem de distância talvez nunca antes por Ela percorrida.

A razão deste empenho sobre-humano encontramo-la explicada nas obras de Santo Ambrósio:

“Desde que ouviu isto, Maria […], alegre em seu desejo, para cumprir um piedoso dever, pressurosa pelo gozo, dirigiu-Se à montanha. Cheia de Deus, poderia Ela não elevar-Se com pressa às alturas? Os cálculos lentos são desconhecidos à graça do Espírito Santo. […] Maria, que antes vivia a sós em seu retiro mais estrito, aparece agora em público. O pudor virginal, a aspereza das montanhas, a distância do caminho não lhe impedem de prestar seu serviço. A Virgem Se dispõe a subir as montanhas, a Virgem que pensa servir e esquece sua pena. Sua caridade Lhe dá força […], deixa sua casa e parte“. 1

De fato, era pelo desejo de suprir as necessidades de Santa Isabel que Maria Se pôs a caminho pelos montes escarpados da Judéia. O desejo do serviço A moveu.

Todavia, seu santo anseio em partir sem lentidão conhecia ainda uma causa mais sublime: a santificação daquele que sua prima gestava, o qual prepararia os caminhos para o Salvador: João Batista, o Precursor do Messias. Diz-nos o Evangelho que a criança saltou no ventre materno de Santa Isabel ao receber a saudação de Maria (cf. Lc 1, 41).

Orígenes comenta esta passagem:

“Não havia sido cheio do Espírito Santo até que se apresentou diante dele a que levava a Jesus Cristo em seu ventre. Foi, então, quando pleno do Espírito Santo saltou dentro de sua mãe. E prossegue: “E Isabel ficou cheia do Espírito Santo”. Não há o que duvidar, pois a que então foi repleta do Espírito Santo, o foi por seu filho”. 2

O insuperável amor maternal da Virgem Maria não se limitou apenas ao Filho Unigênito — o que de si já seria em extremo grandioso —, mas se estendeu a todos os que tiveram a alegria de desfrutar de seu convívio nesta Terra. Vemos aqui um aspecto de carinho materno de Maria dedicado Àquela que por via natural Lhe tinha parentesco.

1 SANTO SANTO AMBRÓSIO. Tratado sobre el Evangelio de San Lucas. Madri: BAC, 1966, p. 95-96. (Tradução da autora).
2 ORÍGENES, apud SÃO TOMÁS DE AQUINO. Catena Aurea. Exposición del Evangelio de San Lucas. C I, v. 39-45. (Tradução da autora).

Pobreza para os homens, riqueza para Deus

Irmã Juliane Vasconcelos Almeida Campos, EP

Eis uma das maravilhas a serem admiradas em Assis: extremos opostos que não entram em conflito, mas se equilibram de forma prodigiosa.

Ao percorrermos o Velho Continente, não raro encontramos lugares intensamente marcados pelas virtudes das pessoas que ali viveram. Há neles um perfume imponderável de santidade que confere ao ambiente certa unção, um ar de sobrenatural que se irradia até mesmo pela natureza. Paradigma disso é Assis, ligada de modo indelével a seu filho mais ilustre: São Francisco.

Ainda hoje o local convida a imaginar o Poverello passeando pelos aprazíveis campos dos arredores, encantando-se com as belezas naturais e, a partir delas, compondo seu Cântico das Criaturas, no total despego dos bens deste mundo: “Bem-aventurados os que têm um coração de pobre, porque deles é o Reino dos Céus!” (Mt 5, 3).

Como ponto auge desta cidade-relicário, no alto da Collis Paradisi, a Colina do Paraíso, se eleva a imponente basílica que abriga sua sepultura e reflete o espírito deste varão de sóbrio aspecto, inflamado de zelo pela Sagrada Eucaristia.

Tal como sua alma, o prédio é austero em sua exterioridade, mas esplendoroso por dentro. Em meio à euforia das cores e das luzes que entram tamisadas por magníficos vitrais, seus arcos góticos e sua majestade apontam para o alto, levando o visitante que ali tem a graça de estar a uma atitude de enlevo e adoração “Àquele que se assenta no trono e ao Cordeiro”, e que deve receber “louvor, honra, glória e poder pelos séculos dos séculos” (Ap 5, 13).

As paredes do templo, repletas de encantadores afrescos, registram inúmeros fatos da vida daquele que, apesar de não se haver considerado merecedor da dignidade sacerdotal, exortava ao amor e à veneração ao Sacramento do Altar. Pregando a pobreza para os homens, São Francisco desejava para o culto toda riqueza e grandiosidade.

Tem-se a impressão de que o esplendor do templo atende aos rogos do Santo Fundador a seus filhos espirituais: “supliqueis aos clérigos que sobre todas as coisas honrem o Santíssimo Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo […]. Os cálices, os corporais, os ornamentos do altar, tudo quanto pertence ao Sacrifício, tenham como coisas preciosas. E se, nalguma parte, o Santíssimo Corpo do Senhor estiver com muita pobreza abandonado, que eles, como manda a Igreja, O coloquem em lugar precioso e bem guardado”. 1

“Eis uma das maravilhas a serem admiradas em Assis: extremos opostos que nascem dos troncos benditos da Igreja, que não entram em conflito, mas se equilibram de forma prodigiosa, manifestando, pelos fulgores da alma de um Santo, algumas das infinitas perfeições do Criador”. 2

1 SÃO FRANCISCO DE ASSIS. Primeira Carta aos Custódios, n.2-4. In: Escritos. Braga: Franciscana, 2001, p.100-101.
2 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Cintilações da alma franciscana. In: Dr. Plinio. São Paulo. Ano III. N.31 (Out., 2000); p.34.

Revista Arautos do Evangelho n.142 out 2013

A Beleza da Luta

Ir Maria Cecilia Lins Brandão Veas,EP

Quando nos detemos na consideração da obra da criação, encantamo-nos ao ver Deus dispensar com abundância seus dons a todas as criaturas, fazendo-as reflexos d’Ele. “Deus contemplou toda a sua obra, e viu que tudo era muito bom” (Gn 1, 31) e a seguir “assim foram acabados os céus, a terra e todo seu exército”.(Gn 2, 1)

Com efeito, a Terra já havia sido destinada a ser o campo de batalha dos heróis valorosos do Altíssimo, ou seja, a Terra dos justos e fiéis que marcariam a História e povoariam os Céus. Porém, como termos certeza desta verdade?

Deus criou os céus e a terra para serem campos de batalha, na grande trama da História. Sim, o Céu, o lagar de paz, foi onde se travou a primeira e grande luta decisiva entre São Miguel e Lucifer. (Cf. Apo 12, 7) Aí está o foco de nossa consideração: a beleza da luta e do sofrimento inerente à vida.

Uma das clássicas definições de São Tomás alude à beleza, como sendo “aquilo que agrada à visão ”. Assim, poderia alguém objetar: “A vida não tem beleza, pois a ninguém agrada ver os crimes, catástrofes e males que quase inevitavelmente pululam a existência humana. A vida só será bela quando houver um agradável bem-estar isento de esforços, onde tudo favoreça os instintos”. Quem assim pensasse, deixaria patente seu pensamento terreno, longe dos parâmetros sobrenaturais, pois “a razão da beleza não se encontra em si mesma; devemos referir-nos à Causa formal de toda beleza, ao mesmo Deus”.1

Quando somos submetidos a sucessivas provas, muitas das quais tão árduas que julgamos não haver mais solução, devemos nos recordar que, neste momento, a Divina Providência, Maria Santíssima, os Anjos e Bem-aventurados do Céu, veem e ajudam-nos, agradados por estarmos trilhando o mesmo caminho de Nosso Senhor, que não quis outra coisa senão humilhar-Se e fazer-Se “obediente até a morte, e morte de cruz”. (Fl 2, 8) Aí está o objeto principal da beleza da luta: somos olhados com carinho por Deus, e a Ele somos agradáveis.

Poucas pessoas contemplam a beleza da vida sob este aspecto. Mas esta é a realidade: “a vida do homem sobre a terra é uma luta” (Jó 7, 1) e segundo Plinio Corrêa de Oliveira “viver é realizar a harmonia em si, colocá-la em torno de si, e batalhar para harmonizar, coordenar e concatenar todas as coisas”. Esta batalha, profundamente salutar, enche-nos de gáudio por podermos retribuir, de algum modo, o ser que de Deus recebemos, e os bens de que somos objetos durante toda vida. É uma luta que nos leva à prática da virtude, nos une intimamente a Deus, mas que não é igual para todos, nem na mesma intensidade; cada alma é uma, e para cada qual, o sofrimento comporta diversos graus.

Observaram os alemães que, quando ainda imatura, nenhuma criança agrada-se com o sabor da cerveja, por seu amargor peculiar. Porém, com o passar dos anos, vão aprendendo a degustar esta saborosa bebida e, quando adultos, são grandes entusiastas dela. Assim, é a vida. Nenhum sofrimento ultrapassa nossas forças físicas, morais ou psicológicas, conforme reza o ditado latino: “Deus qui ponit pondus, suponit manus” — Deus, quando põe um peso, sustenta com sua mão. Assim, todos os sofrimentos nos são proporcionados e permitidos por Deus de acordo com as nossas disposições.

E não nos esqueçamos: se somos profundamente provados, é porque a Divina Providência nos julga aptos para tal, pois “o alimento sólido é para os adultos, para aqueles que a experiência já exercitou na distinção do bem e do mal. (Hb 5, 14)

Grandes são as dificuldades e duros os caminhos nos diversos campos de nossa ação. Sentimos sempre a incerteza dos males e ameaças de todos os lados. Como resistir? Como não soçobrar? Com o estandarte da confiança, nunca deixando- nos abater pelo desânimo, com a certeza de que pela cruz, chega-se à luz. Nossa Senhora superará todos os sofrimentos que, embora amargos, nos fazem crescer interiormente.

Essa é a beleza da luta, “luta árida, luta sem beleza sensível, nem poesia definível. Luta em que se avança por vezes na noite do anonimato, na lama do desinteresse ou da incompreensão, sob a tempestade e o bombardeio desencadeado pelas forças conjugadas do demônio, do mundo e da carne. Mas luta que enche de admiração os Anjos do Céu e atrai as bênçãos de Deus.”1

1SÃO TOMÁS DE AQUINO, STh. I, q5, a.4,
2 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. A verdadeira glória só nasce da dor. In:Catolicismo. n.78, jun. 1957.

Pináculo de pedra, auge de amor

Fahima Spielmann

Pam! Pam! Pam!

— O martelo! — pede alguém.

— Cuidado com as pedras! — avisa outro.

Estamos em meio a uma grande construção. Às tantas, alguém resolve inquirir os operários a respeito do trabalho que realizam.

— O que fazes?

— Como vês, estou quebrando pedras — responde o primeiro.

A mesma pergunta é feita a outro, que diz:

— Trabalho arduamente, levantando estas sólidas paredes de pedra, para ganhar o sustento de minha família.

Por fim, a indagação é dirigida a um terceiro trabalhador:

— E tu, o que fazes?

— Para glória do bom Deus e salvação das almas, estou construindo uma catedral!

Aos olhos dos homens esses três operários realizavam o mesmo trabalho, mas os dois primeiros tinham os olhos da alma voltados para o chão, enquanto o espírito do terceiro apontava para o Céu, como o fariam em breve as pedras que lavrava com esmero para finalizar os pontos mais altos da catedral.

Com efeito, parecendo desafiar a lei da gravidade, os tão característicos pináculos da arquitetura gótica dão-nos a impressão de querer perfurar o firmamento, assemelhando-se à alma que, estando ainda na Terra, vive nas cogitações do Céu. Simbolizam essas agulhas de pedra a oração da Igreja ao Espírito Santo: “Ut mentes nostras ad cælestia desideria erigas! — Dai às nossas mentes o desejo das coisas do alto!”.

Ora, almas há que procuram viver o tempo todo buscando auges, como que “na ponta dos pés”, propondo-se metas ousadas para as quais apenas o Céu é o limite.

Um exemplo dessas almas pinaculares foi Santa Teresinha do Menino Jesus. Tendo ela abandonado tudo para encerrar-se na clausura do Carmelo, sentia-se ainda insatisfeita. “Sinto em mim a vocação de guerreiro, de sacerdote, de Apóstolo, de doutor, e de mártir” — clamava essa alma inocente. “Sinto a necessidade, o desejo de realizar por Ti, Jesus, todas as obras, as mais heroicas… […] Ó Jesus! Meu amor, minha vida!… Como conciliar estes contrastes? Como realizar os desejos de minha pobre alminha?…”. 1

A Doutora da Pequena Via compreendeu que não era impossível alcançar este auge. Bastava um elemento: o amor. Sua vida, que nas exterioridades nada parecia ter de extraordinário, transformou-se em modelo para o mundo. Soube ela colocar nos mínimos atos de sua existência o impulso que inspirava o nosso terceiro trabalhador, o qual sabia que cada martelada, cada parede levantada era, na verdade, um ato de amor a Deus. E se aquele bom homem colaborou para construir uma catedral, Santa Teresinha levou a cabo uma obra incomparavelmente mais grandiosa, a qual ultrapassou a elevação das agulhas de todas as catedrais da Terra.

1SANTA TERESA DE LISIEUX. Manuscrito B. Todas as obras, as mais heroicas. In: Obras Completas. São Paulo: Paulus, 2002, p.171.

Infinitude de Deus

Ir. Rita de Kássia C. D. da Silva, EP.
3º Ano de Ciências Religiosas

Certo dia, após a missa, uma religiosa foi abordada por uma criança que lhe indagou:
– Quantos anos Deus têm?
Ao deparar-se com uma pergunta tão inusitada, não teve tempo para responder, pois a própria menina a interrompeu:
– Ah, já sei. Ele é infinito, não é?
Concordando, a outra procurou explicar-lhe que Deus é sempre o mesmo, sem começo nem fim.
– Mas, como, Ele não nasceu? – interrogou novamente a pequena.
– Não. Deus não nasceu – continuou a religiosa – Ele sempre existiu. Deus não pode ser posto no tempo. Não teve começo nem terá fim.

De fato, perguntas como essas povoam nossa inteligência quando pensamos em Deus. Ao contemplarmos, em uma noite de verão, o sol que deita seus últimos raios, pintando e colorindo as montanhas, e aos poucos, dando lugar a abóbada celeste, carregada de miríades de estrelas, planetas e astros que vão se acendendo aqui, lá e acolá, podemos, também, questionar: quem os criou? Ou ainda, estando na praia, vendo o número incalculável de grãos de areia e a imensidade do mar, com suas ondas, ora calmas ora revoltas, que não ultrapassa seus limites, a não ser em casos excepcionais, – como em tsunamis ou maremotos, – numa verdadeira disciplina, pensar que sendo o universo tão ordenado, tão imenso e quase sem limites tem de haver um Ser superior a tudo isso, o qual criou, mantém, governa e tem tudo debaixo de seu olhar. Como é Ele?

O salmo nos responde: “Antes que se formassem as montanhas, a terra e o universo, desde toda eternidade vós sois Deus” (Sl 89, 2). “Vós permaneceis o mesmo e vossos anos não têm fim” (Sl 101, 28). É Aquele que subsiste por si, – Ipsum esse subsistem – o que é, era e sempre será, que não teve começo nem terá fim, Aquele o qual o universo não pode conter: Deus infinito.

Com efeito, bem nos explica São Tomás que todas as coisas criadas são de natureza finita, pois são determinadas pela essência de algum gênero. Se compararmos uma coisa branca, ela pode ser mais ou menos branca, uma grandeza segue a outra e pode ser mais perfeita. Ao contrário, em Deus, a essência e existência se confundem, sendo uma e única, e Ele não pertence a nenhum gênero, antes, a Sua perfeição contém as perfeições de todos os gêneros; daí ser Deus infinito.1

E, assim como o sol que durante o dia brilha e ilumina todos os lugares em que incide sobre a terra, assim Deus está em toda parte, nos espaços vazios, no interior de cada ser. Ele está presente em tudo e tudo está dentro d’Ele. Deus, que não tem corpo, não tem tamanho, é incomensurável e sem fim.

O infinito não pode ser compreendido por nossa razão limitada. Como diz um provérbio alemão: “Nunca entenderás o que é Deus, a não ser que sejas Deus.”2 Pois como afirma o Doutor Angélico, o efeito não pode ir além da sua causa. Como nossa inteligência vem de Deus que é a primeira causa de todas as coisas, nosso intelecto, sendo finito não poderia pensar em algo maior que Deus.3

Cresçamos no desejo de encontrar-nos com nosso Criador, Benfeitor e Redentor e preparemo-nos para conhecer todas as maravilhas que Ele, em seu imenso amor, nos tem preparado. “ Grande é o Senhor, e muito digno de louvor, e a sua Grandeza não tem limites”. ( Sl 144,3)

1SÃO TOMÁS DE AQUINO. Cont. Gent. I. c.XLIII, 1
2 FRANCISCO SPIRAGO. Catecismo en exemplos. Trad. Dr. D. Carlos Cardó. 2 ed. Barcelona: Políglota 1993, p. 104-105
3 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Cont. Gent. I. c.XLIII, 9.

“Eis que estou à porta e bato”

Irmã Juliane Vasconcelos Almeida Campos, EP

Nossa morada interior é guardada pela mais robusta e impenetrável das portas. Esta, porém, tem a peculiaridade de não possuir fechadura pelo lado de fora.

Na época em que a sociedade não estava tão mecanizada e as pessoas levavam uma vida muito menos agitada do que a nossa, a chegada de visitantes a uma residência era um acontecimento. Dotadas de paredes grossas, as casas daqueles tempos fechavam-se com pesadas portas guarnecidas de travas robustas. E, ornando seu lado exterior, contavam elas com um peculiar acessório que anunciava a chegada dos forasteiros: as aldravas.

Belas peças decorativas, podiam ter a forma de um dragão ameaçador ou reproduzir, com delicado realismo, belos florões ou conchas. Grandes ou pequenas, refletiam de algum modo o bom gosto, as posses e a têmpera do proprietário. No entanto, seu som era sempre forte e categórico, como prenunciando a importância do que ia suceder: alguém se dispunha a transpor os umbrais daquele lar para ser recebido como amigo e participar do convívio familiar.

Franquear ou não a entrada de um hóspede dependia da vontade do senhor da casa. Com seu assentimento, os ferrolhos eram movidos e as portas se abriam de par em par, em sinal de hospitalidade. Às vezes, até se entregava para o visitante uma chave que lhe permitia entrar por si só. Não obstante, o dono da residência podia também manter bloqueada a entrada, negando acolhida ao visitante.

Ora, não são apenas os edifícios que possuem entradas que se abrem ou fecham. Nossa morada interior é guardada pela mais robusta e impenetrável das portas: aquela que protege o nosso coração. Esta, todavia, tem a peculiaridade de não possuir fechadura pelo lado de fora, mas apenas uma aldrava. Não há chave que permita abri-la. Para cruzá-la é preciso que nós — os “donos da casa” — autorizemos a passagem.

E quantas vezes por ela quer entrar o mais nobre dos hóspedes, desejoso de estar em nossa companhia! “Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e Me abrir a porta, entrarei em sua casa e cearemos, Eu com ele e ele comigo” (Ap 3, 20), diz a Sagrada Escritura.

Com efeito, Jesus bate em inúmeras ocasiões à nossa porta: quando admiramos um belo pôr do Sol, ao recebermos um bom conselho, ao lermos uma palavra edificante, quando nos aproximamos dos Sacramentos ou estamos junto ao Sacrário, no silêncio da oração ou até mesmo quando nos visita a dor e o sofrimento. Nesses momentos está Ele ao nosso lado, querendo entrar em nosso íntimo. “Sua visita é assídua ao homem interior. Palavras mansas, agradável consolo, grande paz, maravilhosa intimidade”.1

Contudo, não raras vezes ficamos surdos a seu toque… As correrias do dia a dia, as preocupações com as coisas materiais, o egoísmo e nosso imediatismo não nos deixam ouvir a chegada de tão sublime hóspede, fazendo-nos esquecer dos autênticos valores desta vida — os tesouros que acumulamos para a eternidade — e de que já nesta Terra podemos, de alguma forma, prelibar o convívio paradisíaco para o qual Ele nos convida.

E se acontecer que, depois de tanto tocar a aldrava de nosso coração e Lhe negarmos pousada, Nosso Senhor se vá? Como nos arranjaremos? “Timeo enim Iesum transeuntem — Temo a Jesus que passa”,2 dizia Santo Agostinho…

Ele, entretanto, em sua infinita bondade nos deu uma Mãe de Misericórdia, que vem também, junto com seu Divino Filho, tocar a aldrava de nossa porta com compaixão. Mas, ao notar que esta não se abre, faz de vez em quando o papel de sacrossanta intrusa: entrando pela janela, se aproxima de nós a fim de chamar a nossa atenção e nos predispor para recebê-Lo. Feito isto, retorna para o lado de fora para, com Ele, seguir tocando.3

Peçamos a Maria Santíssima que nos ajude a abrir e manter escancarada esta porta, junto à qual Mãe e Filho tocam de forma tão comovedora, a fim de que Eles penetrem em nossa morada e nela façam a sua. E tendo sido nossos hóspedes nesta Terra, abram para nós as portas da Pátria Celestial.

1 KEMPIS, OSA, Thomas de. Imitação de Cristo. L.II, c.1, n.1.
2 SANTO AGOSTINHO. Sermo LXXXVIII, c.13, n.14. In: Obras Completas. Madrid: BAC, 1983, v.X, p.550.
3 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Palestra. São Paulo, 5 jun. 1974.

A imensidade e a ubiquidade de Deus

Ir. Maria Camila Echavarría Molina,EP
3º Ano de Ciências Religiosas

O coração dos filhos procuram estar próximo do Pai e tê-lo junto de si a todo momento e o Pai, com inefáveis palavras, responde a seu apelo. “Invocar-me-eis e vireis suplicar-me, e eu vos atenderei. Procurar-me-eis e me havereis de encontrar, porque de todo coração me fostes buscar. Permitirei que me encontreis” (Jm 29, 12- 14)

Pode, por acaso, Deus estar junto a cada um de seus filhos sem deixar de dar mais atenção a um por estar com outro? E ainda, pode Deus, sem deixar seu trono, estar presente em todas as partes?

A essas perguntas responde a Sagrada Escritura: “Tu me envolves por todo lado e sobre mim colocas a tua mão. Onde eu poderia ocultar-me do teu Espírito? Para onde poderia fugir de tua presença? Se subir até os Céus, Tu lá estás; se descer ao mundo dos mortos, ali Te encontras” (Sl 138, 5; 7- 8). É a imensidade de Deus, não há lugar onde Ele não possa estar. Está presente no nascer do sol a nos elevar e a desejar contemplar eternamente o verdadeiro Sol que jamais tem ocaso. Está presente nos minerais, nas montanhas e no mar para mostrar-nos que Ele tudo abarca.

Ao contemplarmos as maravilhas existentes no universo nas diferentes hierarquias postas por Deus – a vida vegetativa que se desenvolve e cumpre orgânica e perfeitamente todo seu funcionamento como por exemplo o crescimento das árvores distintas dando diversos frutos em cores e em sabores ou um céu resplandecente de estrelas no profundo e sereno silêncio da noite – somos convidados a refletir nas palavras do salmo: “[Senhor] que é o homem para pensardes nele? Que são os filhos de Adão, para que vos ocupeis com eles?” (Sl 8, 5).

Deus está, sobretudo, presente na alma dos homens: “Deus está no Templo santo e no Céu tem o seu trono, volta os olhos para o mundo. Seu olhar penetra os homens.” (Sl 10, 4) Ele é onipresente e está em nós mais do que nós mesmos, já que “em Deus vivemos, nos movemos e existimos” (At 17, 28).

Ensina-nos o grande Doutor Angélico que a onipresença de Deus deve ser entendida da seguinte maneira: 1° pelo conhecimento (per praesentiani), todas as coisas ainda as mais recônditas estão sempre presentes a seu olhar: “tudo está aberto a seus olhos, nada lhe é escondido e nenhuma criatura lhe é invisível, tudo é posto a nu a seus olhos” (Hb 4, 13) 7; 2° pelo poder (per potentiam), fazendo chegar seu influxo a todos os seres criados que em todo momento estão pendentes de sua ação conservadora. Se Ele retirasse essa virtude que sustenta sua criação tudo retornaria ao nada; 3º pela substância (per essentiam), Deus em sua mesma substância está presente em todas e em cada uma das criaturas. 1

Deus está sempre presente em todo o universo, mas não como alguém que tendo dentro de si um órgão para a respiração, usa deste naturalmente sem prestar atenção em sua existência, e que só se lembra dele quando sai de seu funcionamento normal e passa a causar-lhe problemas. Não, Deus está presente em cada uma das coisas, inclusive nas mais insignificantes aos nossos olhos, protegendo-a, sustentando-a e amparando-a segundo seus divinos desígnios.

Para compreendermos mais facilmente este tão excelso atributo de Deus, vejamo-lo na vida de Santa Paulina.

A devoção dela ao Santíssimo Sacramento era algo de chamar a atenção. Ficava na capela imóvel como se fosse uma estátua. Durante o recreio, por causa das conversas vivas das noviças no pátio, contíguo à capela, perguntaram-lhe certa vez: “Madre, as noviças não estão atrapalhando a senhora com esse barulho todo?” Ela retrucou: “Quando eu estou diante de Deus, nada me atrapalha”. Afirmava ela sentir a presença de Deus constantemente, e que isso lhe parecia impossível perder. Aceitando o sofrimento junto aos doentes e procurando ver sempre qual era a vontade divina, ela adquiriu esse convívio com Deus. 2

Por fim, assevera Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias:

Ainda que comamos ou bebamos, tratemos e negociemos com os homens e pareça que nos preocupamos e entretemos nisso, havemos de procurar que não seja esse nosso manjar e entretenimento, senão outro invisível; que é estar sempre olhando e amando a Deus e fazendo sua Santíssima Vontade.

Eu vou analisar um pouco minha vida e verei que nos momentos em que eu pequei, julguei que estava a sós. Verei que, muitas vezes, o demônio me levou a pecar e a ofender a Deus porque eu não estava na presença de Deus, eu tinha me esquecido da presença de Deus.

Por isso, devemos pedir a graça a Nosso Senhor Jesus Cristo de que Ele me faça sentir a presença d’Ele, que Ele me faça sentir que, de fato, eu estou dentro de Deus, e que Deus me vê e vê tudo em mim, minhas intenções minhas aspirações. Tudo! 3

1 Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma teológica. I, q.8, a. 2.
2 Cf .Revista Arautos do Evangelho. So Paulo: Ano Xl, n 07, jul. 2002, p. 16.
3 CLA DIAS, João Scognamilglio. Viver sempre na presença de Deus. São Paulo, 14 maio. 1992. Meditação. (Arquivo IFTE).

Desde sempre Vós sois Deus… (Sl 89)

Ir. Michelle Sangy, EP

Ensina-nos a Sagrada Escritura que Deus existe antes da Criação do mundo e jamais deixará de existir: “Tudo se acaba pelo uso como um traje […]. Mas Vós permaneceis o mesmo e vossos anos não têm fim” (Sl 101, 27-28). Ora, o que vem a ser a eternidade de Deus? Pode o homem chegar a compreendê-la?

Como vivemos no tempo, é-nos dificil conceber a eternidade de Deus uma vez que tendemos a imaginá-la como uma existência larguíssima e interminável, sem começo e nem fim. Entretanto, a eternidade de Deus é muito mais do que isso, como veremos adiante.

Ao tratar sobre a eternidade, os teólogos utilizam uma definição clássica cunhada por Boécio: “eternidade é a possessão total, simultânea e completa de uma vida interminável” 1 e ainda: “o instante que corre faz o tempo, o instante que permanece faz a eternidade”. 2

Com efeito, explica São Tomás 3 com sua habitual e sapiencial clareza que da mesma maneira que o conceito de tempo deriva do movimento delimitado pela origem e pelo fim, o de eternidade procede da imutabilidade de Deus – o mesmo ontem, hoje e eternamente. É Ele o único Ser que não teve começo e não terá fim, conforme atesta as declarações dogmáticas: “Eterno é o Pai, eterno é o Filho, eterno é o Espírito Santo, e, no entanto, não são três eternos, mas somente um,” 4 e em outro lugar: “Firmemente cremos e simplesmente confessamos que um só é o verdadeiro Deus, eterno e imenso.” 5 É o Altíssimo a Causa primeira de todas as coisas criadas, é Ele o Ser eterno que existiu antes que o mundo, assim como existe o arquiteto antes do edificio ou o relojoeiro antes do relógio.

Desta forma compreende-se que só em Deus há eternidade, pois apenas Ele é absolutamente o seu ser uniformemente e a sua própria essência.

Vejamos uma analogia que nos ajuda a levantar um pouco mais o véu da eternidade de Deus. Um autor comenta que dentre as maravilhas da natureza criada destaca-se o mar pela sua imensidade e pulcritude que bem pode simbolizar a grandeza do Autor sublime do Universo. Além de sua magnitude, não pequena é a força que possui em seu incessante movimentar, chegando a formar incontáveis ondas que embelezam ainda mais o panorama. O que dizer de sua força quando se encontra diante de uma rocha ou fortaleza, por exemplo, lança-se com tal energia como para perfurá-la, mas, no entanto deparando-se com a força de sua perenidade ousa somente encobri-la com a alva espuma de suas águas e retornar, por fim, ao seu curso normal.

Este mar arrebatador do qual falamos e cujas ondas estão em uma contínua oscilação, bem pode ser comparado ao nosso tempo que em semelhante movimento traz-nos uma sucessão de acontecimentos. Entretanto, pelo contrário, a rocha cujas ondas batem é como a eternidade que permanece perene e inalterável em meio às ondas dos acontecimentos presentes. 6

Assim, ao deslumbrar cada vez mais as maravilhas de Deus, na medida em que o nosso conhecimento alcance tal mistério, é certo que estaremos preparando também a nossa eternidade, quiçá junto daquele que prometeu ser Ele mesmo nossa recompensa demasiadamente grande (cf. Gn. 15, 1).

1BOÉCIO, apud SÃO TOMÁS DE AQUINO. Summa Theologiae. I, q. 10, a. 2.
2 Loc. cit.
3 Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Op. Cit.
4 DENSIGNER, apud ANTONIO ROYO MARIN. Dios y su obra. Madrid: Católica. 1963, p. 92. (Traduçao da autora).
5 Ibid. p. 93
6 Cf. MONTESERRAT. Cipriano. Exemplário Catequístico. Barcelona: Lumen, p. 23.

Senhor Santo Cristo dos Milagres

Ir.Elizabeth MacDonald,EP

Esta imagem do Senhor Santo Cristo dos Milagres representa, de forma pungente e comovedora, um momento da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele está despojado de suas vestes e coberto de escárnios. Coroado de espinhos e imerso em sofrimentos, é o “Ecce Homo”, o Homem-Deus aproximando-se do auge da dor. Talvez, neste instante, tenha acabado de receber uma bofetada de um dos verdugos.

Na foto, podemos maravilhar-nos com os aspectos sério, sereno e caridoso do Divino Redentor. Ele já sofreu muito e deu muito, mas denota em sua fisionomia — e mais ainda em seu olhar — um desejo ardente de dar e sofrer ainda mais, para redimir a humanidade. Não está revoltado. Pelo contrário, encontra-se calmo, carinhoso e misericordioso.

Quem não perceberá sua compaixão e sentirá a consolação e o ânimo que Nosso Senhor deseja inculcar com este olhar?

Compaixão com a qual podemos sentir algo do amor de Deus descrito nas Escrituras: “Deus amou tanto o mundo que deu-nos seu Filho Unigênito para que todos quantos n’Ele crerem não pereçam, mas tenham a vida eterna”.

Aflições, crises, catástrofes? Eis a solução.

Ir. Elen Coelho, EP

Corria o século XII. Encontrava-se a Cristandade ameaçada por uma terrível heresia que rapidamente se infiltrou em toda a Europa. Denominados como cátaros, albigenses, ou puros, estes hereges encontraram um terreno bem preparado para semearem sua doutrina, que mais do que herética era terrivelmente anticristã.

Um dos principais focos desta heresia estava na França, especialmente na região do Meio-Dia, do Languedoc, de Toulouse e seus limites até os Pirineus.

Grandes aflições passavam os missionários do Languedoc, especialmente São Domingos. Tomado por uma moção interior, dirigiu-se a uma floresta próxima a Toulouse a fim de fazer penitência e implorar que Deus “tivesse pena de sua própria glória calcada aos pés pela heresia”. 1 Foram três dias e três noites de austeros sacrifícios, gemidos, lágrimas e, sobretudo, de oração. Quando seu corpo estava a ponto de desfalecer, Maria Santíssima, resplandecente, lhe apareceu:

A Santíssima Virgem que estava acompanhada de três princesas do Céu lhe disse: “Sabes tu, meu caro Domingos, de que arma a Santíssima Trindade se serviu para reformar o mundo?” – “Ó Senhora!” respondeu ele, “Vós o sabeis melhor do que eu porque depois de Vosso Filho Jesus Cristo fostes o principal instrumento de nossa salvação”. Ela continuou: “O instrumento principal dessa obra foi o saltério angélico que é o fundamento do Novo Testamento. Portanto, se queres ganhar para Deus esses corações endurecidos, reza meu saltério.” 2

Não se sabe se nesta ocasião Maria Santíssima lhe ensinou a rezar o Rosário, ou se esta devoção já existia, ou ainda se, por uma ação da graça, ele intuiu como recitá-lo. O certo é que o santo pregador compreendeu perfeitamente o que deveria fazer e, após a celeste aparição, com o ânimo reconstituído e inflamado de zelo pela salvação das almas, levantou-se imediatamente e dirigiu-se à Catedral de Toulouse. Sua chegada foi precedida pelo toque grave dos sinos que, miraculosamente, chamavam as pessoas para a Catedral. O santo entrou e, ao se posicionar no púlpito e iniciar a pregação, a própria natureza pôs-se a enfatizar suas palavras:

Assim que iniciou seu sermão, desencadeou-se uma tempestade terrível, a terra estremeceu, o sol se escureceu, houve tantos trovões e raios que todos ficaram muito temerosos. Ainda maior foi o seu medo quando olharam a imagem de Nossa Senhora, exibida em local privilegiado, e a viram levantar os braços em direção ao Céu, três vezes, para acalmar a vingança de Deus sobre eles, caso eles falhassem em se converter, arrumar suas vidas e procurar a proteção da Santa Mãe de Deus. 3

Deus permitiu tais fenômenos e milagres para que aqueles corações endurecidos se impressionassem, e se movessem à conversão.

São Domingos rezou a Deus, e a tempestade se acalmou. Ele continuou sua pregação mostrando a importância do Rosário. Os presentes ficaram tão impressionados com o ocorrido e com as palavras impregnadas de fogo de São Domingos que naquele mesmo dia praticamente toda a cidade se converteu. 4

A partir do momento em que São Domingos deu início à difusão da devoção ao Santo Rosário, Maria Santíssima começou a derramar abundantes graças aos que o recitavam.

Após a morte de São Domingos, seus filhos espirituais continuaram a pregação do Santo Rosário. Entretanto, transcorrido um século, o fervor em relação a esta devoção foi se apagando até quase ao esquecimento.

Dessa forma, o Rosário, precioso canal de graças utilizado por Deus para derramar graças à humanidade, foi bloqueado e um grande castigo infligiu a Europa: a terrível peste negra assolou o continente por três anos, deixando-o quase deserto. Tal catástrofe foi sucedida por dois outros flagelos: a heresia dos flagelantes e o cisma de 1376. 5

Contudo, Nossa Senhora não permitiu que esta situação se prolongasse e, após ter cessado tais calamidades, escolheu um filho de São Domingos para que reavivasse a devoção a seu Rosário.

Beato Alano de la Roche

Alano de la Roche nasceu em 1428, na Bretanha. Ingressou na Ordem dos Pregadores quando ainda muito jovem. De inteligência privilegiada e dotado de grande eloquência, rapidamente se tornou um perfeito orador.

Contudo, dizem as Sagradas Escrituras: “Meu filho, se entrares para o serviço de Deus, permanece firme na justiça e no temor, e prepara a tua alma para a provação” (Ecl 2,1). Durante sete anos o Beato Alano foi acometido por aridezes e infestações do demônio. Numa ocasião, quando mais especialmente atravessava um período de tremenda aridez, Maria Santíssima lhe apareceu no interior de sua cela para consolá-lo, e entregou-lhe uma corrente feita com seus próprios cabelos, na qual estavam entrelaçadas cento e cinquenta pedras preciosas, de acordo com o número de contas do Rosário. A Rainha do Céu lhe explicou nesta ocasião que este instrumento lhe serviria como uma poderosa arma contra o inimigo infernal. 6

Terminada a aparição, Alano compreendeu a necessidade do Rosário para sua vida espiritual. No entanto, a Providência queria dele algo além de um puro aumento de sua piedade.

Um dia em que celebrava a Santa Missa, após a Consagração, a Hóstia que segurava nas mãos assumiu a figura de Nosso Senhor, que severamente o repreendeu, dizendo:

“Alano, tornas a crucificar-Me uma segunda vez?” O Dominicano assustado lhe respondeu: “Ó Senhor Jesus, como posso ser capaz de tamanha crueldade?” Nosso Senhor lhe responde: “Preferia ser novamente crucificado, a ver o Meu Pai ofendido com os pecados por ti cometidos. Tu pecas de omissão! Possuis a ciência, a faculdade e o dever de pregar o Santo Rosário e não o fazes. O mundo está cheio de lobos e tu te transformaste num cão mudo, incapaz de ladrar. Se não te corriges, Eu juro pelo Meu Pai, que será pasto dos míseros mortais”. 7

Após essas palavras o Divino Salvador lhe mostrou o inferno e o lugar para onde iria se não tomasse a séria resolução de pregar o Rosário. Alano, impressionado com a divina reprovação, tornou-se um incansável pregador do Rosário. Por meio de pregações conseguiu reavivar as Confrarias do Rosário e quando chegou o dia de entregar sua alma a Deus já havia congregado mais de cem mil filhos e membros das Confrarias.

Vemos assim que por meio do Rosário, a Divina Providência quis renovar a face da Terra. O Rosário é uma das devoções mais diletas da Santíssima Virgem: “Depois do Santo Sacrifício da Missa, não há nada na Igreja que ame mais do que o Rosário”. 8

E ainda na Mensagem de Fátima encontram-se as maternais palavras de esperança da Mãe de Deus e o meio que Ela põe a nosso alcance para solucionar a crise contemporânea: “Rezai o Rosário todos os dias, para alcançar a paz”

1 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Fátima, Aurora do Terceiro Milênio. 2.ed. São Paulo: Takano, 1998. p.83.
2 Ibid. p. 83-84.
3 SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. O Segredo do Rosário. Trad. Geraldo Pinto Faria. Belo Horizonte: Divina Misericórdia, 1997.p. 13.
4 Loc. cit.
5 SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. O Segredo do Rosário. Op. cit. p.19.
6 PAOLA, Roberto (Org.). Il Salterio di Gesù e di Maria:Storia e rivelazioni del Santissimo Rosario. Conegliano: Ancilla, 2006, p. 56.
7 SPIAZZI, Raimundo. Cronaque e fioretti del monastério di San Sisto all’’Appia. Roma: Raccolta di storici,tradizioni e testi d’archivio, 1994, p.359-360.
8 SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. O Segredo do Rosário. Op. cit. p.150.

Pai que também é Rei

Emelly Tainara Schnorr

Assim como Jesus se fez terno e pequeno, ou majestoso e compassivo, em sua vida terrena, no Santíssimo Sacramento Ele Se revela ora Pai, ora Rei.

Gemendo e chorando neste vale de lágrimas”… A oração de São Bernardo — a Salve Rainha — bem reflete as dificuldades que, qual tempestade em alto mar, devemos atravessar nesta vida para chegarmos ao porto feliz do Céu. No meio do percurso, nossa pobre embarcação dá amiúde sinais de estar prestes a soçobrar, agitada pelos vagalhões dos dramas e aflições. E não poucas vezes somos levados a nos julgar abandonados e sem rumo.

Entretanto, o mesmo divino olhar que fitou os Apóstolos por três anos nos acompanha a cada passo, convidando-nos a buscar refúgio junto a Ele nas alegrias ou reveses da vida, tão próximo quanto com os Doze, no sagrado convívio da Eucaristia. No Santíssimo Sacramento, Jesus está realmente presente, e ali permanece dia e noite à nossa espera, quer nos magníficos sacrários das imponentes catedrais, quer nos recolhidos tabernáculos das simples igrejinhas ou capelas. E para nos encontrarmos com Ele não é preciso ter hora marcada…

Tomados por afazeres e preocupações, talvez passemos diante de uma igreja e resolvamos nela entrar. Quem nos incitou a cruzar os umbrais da casa de Deus, sem receio de ser importuna a nossa visita? Quiçá pensemos ter sido uma iniciativa própria. Não obstante, foi o Celeste Prisioneiro do sacrário que nos convidou a estar com Ele por uns instantes.

Ajoelhamo-nos diante do altar e sentimo-nos objeto de um bondoso e oculto olhar, ou escutados por ouvidos prontos a nos atender. Envolve-nos um silêncio benéfico, cortado apenas pelo crepitar do fogo da lamparina que, continuamente acesa, indica a augusta presença d’Aquele que é a Luz do mundo. Até os estalidos discretos do pequeno pavio parecem levar a alma a ouvir a voz do Redentor, desejoso de entrar em contato conosco e comunicar-nos sua graça. Diante d’Ele não nos deve atemorizar o abismo que há entre sua grandeza infinita e nossas misérias, pois Ele se fez Homem, como nós, e nos espera para atender nossa oração, desde que seja sincera.

Ao sair de tal visita, nos sentimos afagados por Jesus Eucarístico, com mais força para continuarmos a labuta da vida. Se buscarmos sempre esse afetuoso estímulo, nunca esmoreceremos diante dos obstáculos que surgem em nosso caminho.
Ora, quantos se esquecem desse Médico Onipotente que cura as misérias passadas, dá vigor para enfrentar as lutas presentes e prepara para a vida futura nos Céus! E procuram, ao contrário, uma vã solução para suas fadigas nas riquezas e prazeres materiais que deixam a alma vazia…

A Santa Igreja, porém, não se satisfaz com adorar a Cristo-Hóstia reservado no sacrário. Ela criou também o ostensório. Nele Jesus parece estar revestido de esplendor, e o próprio cerimonial prescrito para a exposição do Santíssimo recorda estar presente o Rei dos reis, que entronizado na cristalina custódia recebe as homenagens de seus súditos fiéis e sobre eles derrama seus abundantes dons.

Esta breve reflexão pode sugerir ao leitor uma pergunta: existe, então, uma diferença entre o contato que temos com Jesus no sacrário e aquele que desfrutamos quando O encontramos no ostensório? Estritamente falando, a resposta é não, pois em ambas as situações está sua presença real, em Corpo, Sangue, Alma e Divindade.

Mas assim como em sua vida era o mesmo Jesus que, tenro Menino, numa pobre manjedoura causou medo a Herodes e atraiu a Si os reis do Oriente, e com insuperável majestade se compadecia das misérias humanas, a ponto de tocar os leprosos ou devolver a vista aos cegos, também na Eucaristia Ele se apresenta com aspectos diferentes: “no ostensório, é um Rei que também é Pai. No sacrário da capela é um Pai que também é Rei. E nossa alma quer ora um convívio, ora outro”. 1

1CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Palestra. São Paulo, 29 set. 1979.

Revista Arautos do Evangelho- ago 2013

Um santo a ser conhecido

Ir Mónica María Barraza, EP
1º Ano de Ciências Religiosas

Maria Santíssima, Mãe nossa por excelência e grande Medianeira de todas graças, apresenta a Seu Divino Filho todas as nossas necessidades. Com efeito, Ela é o caminho mais seguro para alcançarmos tudo aquilo de que precisamos.

No entanto, pouco fala-se do poder de mediação de São José. Se analisarmos sua vida aqui na Terra, sendo pai adotivo de Nosso Senhor Jesus Cristo, compreenderemos melhor seu papel junto a cada um de nós.

O Padre Eterno confiou Seu amado Filho em suas mãos, este Tesouro, o maior que houve e haverá na História do universo! E tais mãos só podiam ser as de um homem de grande prudência e de elevado afeto. Pensemos também nos lábios que inúmeras vezes deram conselhos Àquele que é a Sabedoria Encarnada, nos braços que carregaram o Menino-Deus, enfim, um homem que mereceu ser chamado, pelo seu próprio Criador, de “pai”.

Descendendo da mais sublime dinastia que já houve no mundo, isto é, a de David, quis a Providência enobrecer a classe operária, fazendo com que o pai adotivo de Jesus fosse também trabalhador manual. Infelizmente, muitas vezes as pessoas possuem de São José uma visão parcial, vendo-o apenas como o “carpinteiro”.

Se este justo varão interceder por cada um de nós, Nosso Senhor não atenderá este nobre patriarca com toda a benevolência?

Recentemente, o papa Francisco autorizou a inclusão do nome de São José no texto do ordo da Missa. Ele é invocado logo após a referência que se faz da Virgem Maria.

Nestes tempos de catástrofes, confusões e guerras, estará Deus convidando-nos a conhecer mais profundamente este admirável santo, aumentar nossa devoção a ele e, assim beneficiar-nos de sua poderosa intercessão?

Milagres: o que são?

Ir. Maria Cecília Lins Brandão Veas, EP

“Tendo Jesus descido da montanha, uma grande multidão O seguiu. Eis que um leproso aproximou-se e prostrou-se diante d’Ele, dizendo: ‘Senhor, se queres, podes curar-me’. Jesus estendeu a mão, tocou-o e disse: ‘Eu quero, sê curado’. No mesmo instante, a lepra desapareceu” (Mt 8, 1-3).

Quem, ao folhear as sagradas páginas da Bíblia, deparando-se com a realidade sublime dos milagres efetuados pelo Divino Salvador, não quereria haver estado lá para, influenciado por aquela atmosfera carregada de bênçãos, ser também objeto da bondade do Homem-Deus?

Mas o que são os milagres?

“A ordem admirável do céu estrelado apregoa e canta a glória de Deus e nos manifesta a inteligência infinita do Criador. Felizes os que sabem escutá-los!”. 1 Assim como o homem utiliza-se da palavra para comunicar-se com os demais, Deus utiliza-se das criaturas para falar aos homens, fazendo destas um subsídio eficaz para atender à sede de infinito que Ele próprio imprimiu nas almas, à maneira de um instinto sobrenatural. Entretanto, é preciso estarmos atentos e sabermos escutar a voz de Deus que nos chama ao conhecimento d’Ele.

E como o homem, guiado pela razão natural, pode chegar a algum conhecimento de Deus por meio de signos e efeitos sensíveis, também “por meio de certos efeitos sobrenaturais, chamados milagres, ele será levado a um certo conhecimento sobrenatural das coisas da Fé”. 2

Assim, há uma economia de signos que nos revelam a presença de Deus entre nós. E nesta imensa constelação de manifestações divinas, o milagre não é uma manifestação de algo sem sentido ou que contrarie a natureza, mas desvela uma ação divina. 3 Na verdade, são “sinais do poder e da liberdade de Deus. Eles representam uma perfeição desejada e, em muitos casos (notadamente as curas), uma conclusão da natureza”. 4 Não que Deus resolvesse mudar a reta ordem da natureza que Ele próprio criou, uma vez que cada criatura é o que é e como deveria ser. Contudo, “o fim último e remoto do milagre não pode ser outro senão Deus mesmo. Em todas as obras exteriores que Deus realiza, é impossível ― porque seria contrário à ordem ― que Ele se proponha outro fim que não seja a sua glória, naturalmente acidental e extrínseca”. 5

Ora, não podemos imaginar que, ao realizar um milagre, Deus tivesse apenas por princípio corrigir uma lacuna na ordem dos seres criados. Seria equipará-Lo a um inábil artista, que, tendo pintado de modo imperfeito um quadro, quisesse aperfeiçoá-lo para não cair em descrédito a obra de suas mãos. Ou, ainda, como um bom compositor que quisesse constantemente mudar as melodias de acordo com o bel prazer de sua vontade. Evidentemente tais atitudes são incabíveis em Deus. 6

O milagre é o ponto onde a natureza ― por vezes imperfeita e necessitada ― encontra-se com a grandeza de uma ordem superior: a ação de Deus, que a completa e embeleza. Por este motivo, os milagres também encerram em si um fim altíssimo: a salvação eterna dos homens, pelo fato de os elevarem à consideração de seu fim sobrenatural. A Divina Providência, não contente em dar a conhecer os ensinamentos de seu amor, concede-nos ainda sinais, para que neles creiamos e A amemos ainda mais.

O pensamento antigo acerca do milagre se fundamentava em Santo Agostinho, que o definia como “todo acontecimento insólito que manifestamente ultrapassa a espera ou as capacidades daquele que o admira”. 7 E São Tomás chama milagre “o que é cheio de admiração, no sentido de que a causa fica absolutamente oculta para todos. Esta causa é Deus. Portanto, as coisas feitas por Deus fora das causas por nós conhecidas, são chamadas de milagres”. 8

1 GARRIGOU-LAGRANGE, Réginald. La Providencia y La confianza en Dios: fidelidad y abandono. 2.ed. Buenos Aires: Desclée de Browuer, 1942. p. 32. (Tradução da autora)
2 SÃO TOMÁS DE AQUINO.Suma Teológica II-II, q.178, a.1.
3 Cf. LATOURELLE, René; FISICHELLA, Rino (Dir.). Diccionario de Teología Fundamental. 2.ed. Madrid: San Pablo, 1992, p. 939.
4 POULIOT, François. La doctrine du miracle chez Thomas d’Aquin. Deus in omnibus intime operatur. Paris: J. Vrin, 2005, p. 49. (Tradução da autora)
5 ODDONE, Andrea. Il sigilio divino. Milano: Vitta e pensiero, 1939, p. 13-14. (Tradução da autora)
6 Cf. Ibid. p. 14; 24.
7 SANTO AGOSTINHO. De utilitate credendi. L.I, c.16, n.34: ML 42, 90. (Tradução da autora)
8 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Op. cit. I, q.105, a.7.

Pobreza e elevação de espírito

Ir. Angela Maria Tomé, EP

Espécime de um gênero quase esquecido nestes tempos de omnipresença da informática, a carta manuscrita é um dos documentos mais reveladores da personalidade humana. Por ela pode-se descortinar com segurança o interior de quem escreve. A caligrafia e a linguagem, mas também o papel, o tipo de caneta, a cor da tinta e inúmeros outros detalhes escolhidos sem maior atenção são elementos que indicam as filigranas do pensamento de alguém.

Assim, biógrafos e hagiógrafos se debruçam com empenho sobre esses preciosos documentos que lhes manifestam, com riqueza de detalhes, traços da alma das personagens por eles analisadas.
Correspondência entre duas santas

Nesta perspectiva, revela-se de especial interesse a leitura e contemplação das cartas de Santa Clara de Assis, humilde e obediente filha espiritual de São Francisco.

No ano de 1234 recebeu ela uma consoladora notícia, que logo se espalhou pela Europa: uma jovem de sangue real, a princesa Inês, filha do Rei da Boêmia, havia decidido abandonar as riquezas e comodidades próprias de sua elevada categoria e tomar o hábito entre as filhas de Santa Clara.

Como a ordem ainda não possuía nenhum mosteiro em Praga foi preciso enviar para ali um grupo de religiosas formadas diretamente pela fundadora, a fim de erigi-lo. E foi preciso também um volumoso carteio, por meio do qual a santa procurava transmitir à nobre discípula, mais do que as simples constituições, o espírito da seráfica Ordem.

Escritas sob influência de uma grande graça mística

As cartas enviadas por Santa Clara para sua filha espiritual dão testemunho de um relacionamento celestial e, por sua elevação, parecem ter sido escritas sob a influência de alguma grande graça mística… ou quiçá fosse essa a clave habitual em que vivia a santa. A maneira nobre, poética, elegante, sobretudo admirativa e caridosa, com a qual Santa Clara se dirige à sua discípula, mostra bem a retidão de sua alma e o trato cheio de respeito e ternura por suas subordinadas. E a linguagem revela, ao lado de um despretensioso despojamento, um espírito cultivado, habituado à consideração das verdades eternas.

Sua autora as redigiu no estilo cerimonioso daqueles felizes tempos em que, segundo a expressão cunhada por Leão XIII, “a filosofia do Evangelho governava os Estados”. Estilo revelador de uma mentalidade que via em cada ser humano um reflexo único das qualidades divinas. Levam-nos essas cartas a considerar não só a dignidade principesca da futura Santa Inês de Praga, mas sobretudo as insignes virtudes que a tornavam merecedora dos elogios de sua fundadora.

Linguagem pervadida de humildade e pureza

Julgue o leitor por si mesmo a beleza das palavras de Santa Clara, nas quais transparece não apenas sua humildade, mas também sua alma admirativa e poética. E diga depois se, ao lê-las, não sentiu o perfume da santidade desses antigos tempos.

Assim inicia ela sua primeira missiva: “À venerável e santa virgem, Dona Inês, filha do excelentíssimo e ilustríssimo rei da Boêmia, Clara, indigna ancila de Jesus Cristo e serva inútil das Damas enclausuradas do mosteiro de São Damião, sua súdita e serva se recomenda inteiramente com especial respeito e lhe deseja que obtenha a glória da felicidade eterna”.

A linguagem, pervadida de humildade e pureza, respeita a condição principesca da destinatária e ao mesmo tempo a faz voltar os olhos para os títulos eternos que deve almejar.

Encerra a carta com um pedido: “Suplico-vos ainda no Senhor, tanto quanto posso, de incluir em vossas santíssimas orações esta vossa inútil serva e as outras irmãs deste mosteiro, que tanto vos veneram, para podermos, com esse auxílio, merecer a misericórdia de Jesus Cristo e convosco nos rejubilarmos na eterna contemplação. Saudações no Senhor. Rezai por mim”.

Convívio epistolar que preludia o convívio no Céu

Dois anos depois, escreve-lhe novamente e assim se exprime: “À filha do Rei dos reis, à serva do Senhor dos senhores, à digníssima esposa de Jesus Cristo e por isso nobilíssima rainha Dona Inês, Clara, indigna e inútil servidora das Damas Pobres, envia saudações e votos de que viva sempre na perfeita pobreza”.

É admirável o modo sutil como Santa Clara ressalta à filha do rei da Boêmia sua condição de filha do Rei dos reis, título mais elevado que qualquer outro. E como, chamando-a de “nobilíssima rainha”, recorda-lhe sua união com Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo. A ideia de manifestar-lhe “saudações e votos de que viva sempre na perfeita pobreza” faz resplandecer aos olhos de sua filha espiritual, entre tantas outras virtudes, a do desapego dos bens terrenos e total despretensão de espírito. Essa carta prossegue toda repassada de angelicais conselhos para que as irmãs perseverem na prática da santa pobreza constitutiva de seu carisma.

“Lembra-te de tua mãe pobrezinha”

Outros dois anos haviam decorrido quando Santa Inês recebeu da fundadora mais uma carta, em cujo início se lê: “À senhora veneradíssima em Cristo, irmã digna de amor mais que todas as criaturas mortais, Inês, irmã do ilustre rei da Boêmia, mas agora sobretudo irmã e esposa do supremo Rei dos Céus, Clara, humílima e indigna ancila de Cristo, e servidora das Damas Pobres, almeja salutar alegria no Autor da salvação e tudo quanto de melhor ela possa desejar”.

Finalmente, em 1253, poucos meses antes de falecer, Santa Clara assim se dirige à sua filha espiritual: “Àquela que é a metade de sua alma e santuário de um singular e cordialíssimo amor, à ilustre rainha, esposa do Cordeiro e Rei eterno, a Dona Inês, sua queridíssima mãe e filha entre todas preferida, Clara, indigna serva de Cristo e inútil servidora das servas do Senhor residentes no mosteiro de São Damião, em Assis, envia saudações e votos de que possa entoar, em companhia das outras santas virgens, o cântico novo diante do trono de Deus e do Cordeiro, e acompanhar o Cordeiro por todos os lugares aonde Ele vá”.

Pressentindo o fim de sua existência, assim se exprime Santa Clara a Santa Inês: “Lembra-te de tua mãe pobrezinha, sabendo bem que conservo de ti uma cara recordação indelevelmente impressa em meu coração, pois para mim és de todas a mais querida. Que mais poderia ainda dizer-te? É melhor renunciar à palavra humana, incapaz de manifestar meu afeto; somente a alma, com sua linguagem silenciosa, conseguiria fazer-te senti-lo”.

* * *

A leitura dessas cartas enche-nos de consolação e leva-nos a desejar uma convivência semelhante entre todos os nossos irmãos na Fé. E esse relacionamento transbordante de caridade fraterna, nesta Terra, já é uma parte de “todo o bem digno de ser desejado”. A diversidade de caracteres e a imaginação humana, assistida pela graça, hão de encontrar expressões de afeto e de amor mútuo entre os irmãos quando seus olhos interiores estiverem voltados para o sobrenatural, como nos dá exemplo a grande Santa Clara. Cada um manifestará a vida de Deus em sua alma e seu divino eco repercutirá entre todos, fortalecendo-os no combate e tornando-os reconhecíveis como discípulos de Jesus.

Santíssima Virgem: intercessora e medianeira

Ir. Elen Coelho, EP

Chamada desde os primeiros tempos do Cristianismo de “nova Eva”, Maria Santíssima foi sempre considerada, pela piedade católica, Medianeira entre nós e seu Divino Filho; mediação inteiramente subordinada e dependente dos méritos de Cristo.

É evidente que Maria Santíssima não pode ser comparada a Deus por sua natureza e condição de criatura. Mas, apesar de ser pura criatura, Ela supera todas as demais, por todos os privilégios com os quais foi cumulada. Singular entre todas, bem mereceu o título de Medianeira, distribuindo aos homens os dons de Deus, tomando as orações dos homens e apresentando-as a Deus.

Essa intercessão, de si, não seria imprescindível, visto que a de Cristo é perfeita e não necessita ser completada. Porém, ela foi desejada pela Providência, comenta o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira:

“Escolhida para ser a Mãe do Verbo Encarnado, sempre imaculada e cheia de graça, a união que Nossa Senhora tem com Jesus é a mais alta que uma simples criatura humana pode ter com Deus. Em virtude desse vínculo extraordinário, Nosso Senhor nada recusa à sua Mãe, o que faz d’Ela uma intercessora onipotente, junto a Ele”.1

O privilégio universal de todas as graças é outro título de Maria Santíssima que está inteiramente vinculado ao de sua Mediação universal, visto que ambos se completam.

Os Evangelhos contam que, depois de receber a Anunciação do Anjo, Maria dirigiu-se apressadamente à região montanhosa da Judéia, a fim de ajudar sua prima Santa Isabel, que estava para dar à luz. Logo que Maria saudou Isabel, “a criança estremeceu no seu seio; e Isabel ficou cheia do Espírito Santo” (Lc 1, 40). Eis o primeiro fato público em que transparece Maria como Medianeira e Distribuidora de todas as graças: “O eco de sua voz transformou um homem, conferindo- lhe um eminente grau de santidade”. 2

Em outra passagem, São João relata que, Jesus estava juntamente com Maria Santíssima numa festa de casamento e, “como viesse a faltar vinho, a mãe de Jesus disse-lhe: “Eles já não têm vinho”. Respondeu-lhe Jesus: “Mulher, isso compete a nós? Minha hora ainda não chegou”. Disse, então, sua mãe aos serventes: “Fazei o que Ele vos disser”. (Jo 2, 3-5)

Nosso Senhor, que nunca recusa um pedido de sua Mãe, ordenou que lhe trouxessem as talhas com água, e a transformou no mais saboroso vinho que a História já conheceu.

Com efeito, Maria consegue de Seu Filho tudo aquilo que Lhe roga, “pois, Ele a fez soberana do céu e da terra, general de seus exércitos, tesoureira de suas riquezas, dispensadora de suas graças, artífice de suas grandes maravilhas, reparadora do gênero humano, mediadora para os homens, exterminadora dos inimigos de Deus e a fiel companheira de suas grandezas e de seus triunfos”. 3

Estes títulos de Maria – Medianeira e distribuidora de todas as Graças – há séculos vêm sendo afirmados pela Tradição da Igreja. Podemos encontrar já nos primeiros tempos do Cristianismo o testemunho de Santo Efrém: “A ti, portanto, Imaculada e Medianeira do mundo, te dirijo minhas súplicas em minha contrição perfeita”. 4

Durante o período luminar da escolástica, Santo Alberto Magno afirmou ser Maria “a fonte de água inesgotável, pela plenitude de sua mesma graça, pela qual recebe o pecador a absolvição que perdoa; o justo, a pureza da graça; o tentado, o refrigério; e o devoto, a fonte da sabedoria”. 5

Muitos dos pontífices foram unânimes em afirmar a mediação de Maria: Leão XIII, na Encíclica Iucunda Semper, escreve “que, rezando, pedimos a proteção de Maria é o que indubitavelmente tem seu fundamento no ofício de obter-nos a graça divina, ofício que Maria exerce continuamente junto de Deus”. 6

Bento XV instituiu a festa litúrgica de Maria Medianeira de todas as graças para as dioceses e ordens religiosas belgas que lhe pediram; 7 São Pio X diz que, tendo Maria Se associado aos sofrimentos de Cristo, mereceu ser considerada como “a onipotente Medianeira e Reconciliadora de toda a Terra junto de seu Filho único”. 8

E o Concílio Vaticano II afirmou claramente que Maria cuida, com amor materno, dos irmãos de seu Filho que, entre perigos e angústias, caminham ainda na terra, até chegarem à pátria bem-aventurada. Por isso, a Virgem é invocada na Igreja com os títulos de advogada, auxiliadora, socorro, medianeira. Mas isto entende-se de maneira que nada tire nem acrescente à dignidade e eficácia do único mediador, que é Cristo, para com os homens; não obscurece nem diminui a mediação única de Cristo, antes serve para demonstrar seu poder.9

Assim, através de sua maternal intercessão, Nossa Senhora tem favorecido de vários modos aos seus filhos, concedendo-lhes meios eficazes para obterem as graças que necessitam.

1 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Escravidão de amor a Nossa Senhora. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano VI, n.59, fev.2003, p. 9.
2 Id. O poder da voz de Nossa Senhora. Conferência. São Paulo, 2 jul. 1970. (Arquivo IFTE). As matérias extraídas de exposições verbais – designadas neste trabalho, segundo sua índole, como “conferências”, “palestras”, “conversas” ou “homilias” – foram adaptadas para a linguagem escrita.
3 SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, n.28.p.34-35.
4 SANTO EFRÉM, apud ALASTRUEY. Gregorio. Tratado de la Virgem Santissima. Madrid: BAC, 1956, p.634.
5 SANTO ALBERTO MAGNO, apud ALASTRUEY. Op.cit. p.639
6 LEÃO XIII. Iucunda Semper, 8 de dez.1894. apud ROSCHINI, Gabriel. Instruções Marianas. São Paulo: Paulinas, 1960, p.101.
7 ROSCHINI. Instruções Marianas. São Paulo: Paulinas, 1960 p.102.
8 SÃO PIO X. Encíclica Ad Diem Illum, 2 de dez.1854. apud ROSCHINI. Op.cit. p.102.
9 CONCÍLIO VATICANO II. Lumen Gentium, n 62.

Os quatros animais simbólicos

Ir. Amanda de Fátima Fernandes Correia,EP

Vê-se no pórtico de uma catedral gótica quatro figuras cercando a imagem de Jesus Cristo: o homem, a águia, o leão e o touro. Tais animais foram lá colocados por acaso ou têm algum significado?

De acordo com os escritos do século XII, significavam ao mesmo tempo três realidades: os evangelistas, Nosso Senhor Jesus Cristo e as virtudes católicas.

Os Evangelistas

São Mateus tem por atributo o homem, pois começou seu Evangelho pela genealogia de Nosso Senhor segundo a carne. O touro, animal do sacrifício, designa São Lucas, que inicia seu Evangelho pelo sacrifício de Zacarias. O leão designa São Marcos, que já nas suas primeiras linhas fala da voz que clama no deserto. A águia é a figura de São João, porque desde o início, ele nos transporta ao seio da divindade, semelhante à aguia, animal que ousa contemplar o sol face a face.

Nosso Senhor Jesus Cristo

Os mesmos animais simbolizam Jesus Cristo. O homem lembra a Encarnação do Verbo, pela qual Jesus Cristo Se fez realmente carne. O touro faz pensar na Paixão, no sacrificio que o Redentor ofereceu pela humanidade pecadora. O leão, símbolo da Ressurreição ( no mundo antigo acreditava-se que o leão dormia de olhos abertos), figura de Nosso Senhor na sepultura: parecia estar adormecido na morte, mas sua Divindade velava. E a águia é a figura da Ascensão: Jesus se elevou ao Céu como a águia sobe até as nuvens.

Resumindo, Nosso Senhor foi homem nascendo, touro morrendo, leão ressuscitando e águia subindo ao Céu.

As virtudes católicas

Os quatro animais têm ainda outro significado: exprimem as virtudes necessárias para nossa salvação.

Deve-se ser homem, porque o homem é animal racional, e só quem caminha na via da razão merece o nome de homem. Deve-se ser touro, porque o touro é a vítima imolada nos sacrifícios, e o verdadeiro católico, renunciando a todas as volúpias deste mundo, imola-se a si mesmo. Deve-se ser leão, pois este é o animal corajoso por excelência, e do justo está escrito: “ O justo será firme e destemido como um leão”. Deve-se, por fim, ser águia, ´pois ela voa nas alturas e fita o sol sem baixar os olhos, exatamente como deve o católico contemplar as coisas sublimes

Dessa maneira, na idade média os homens eram constantemente lembrados dessas verdades e como que participavam de uma catequese quase que diária ao admirar e ler nas diversas esculturas e pinturas das catedrais góticas as verdades eternas.

Que pena que o homem moderno veja tudo isso e nem saiba mais o seu significado!

Até o deserto floresce!…

Fahima Spielmann

Se a alma confiar em Deus e perseverar, as areias se transformarão em formosas flores. E quanto mais longa tiver sido a aridez, tanto maior será a fecundidade.

Infecundidade, fastio, desolação, abandono, aridez, perigo… Interrompamos aqui esta lista de enfadonhos substantivos para qualificar uma obra tão emblemática saída das mãos de Deus: o deserto.

Talvez o leitor esteja se perguntando como pode ser possível encontrar alguma simpatia ou atração em tanto calor e areia. Para desvendar esta incógnita, comecemos por recordar que a criação não é fruto do acaso e se deitarmos um olhar menos superficial sobre o mundo em torno de nós, veremos que todas as coisas remetem a uma realidade mais alta.

Escolhido pelo Criador como cenário de peregrinação do povo judeu por quarenta anos, o deserto bem pode simbolizar uma situação pela qual todos devem passar, por desígnio da Providência, tendo em vista o próprio crescimento espiritual: a provação ou a aridez. Em quaisquer desses estados, a alma tem a impressão de serem infrutíferos todos os seus esforços; o avançar na virtude, que antes parecia ter asas, aos poucos vai se tornando mais lento; o caminhar se transforma num arrastar-se que parece sem proveito ou efeito algum. No panorama, nenhuma nuvem condescende em fazer-lhe sombra para protegê-la do sol causticante. Todas as lutas e obstáculos a enfrentar, que antes a entusiasmavam, agora se lhe afiguram como algo pesado e até insuportável! E quando desponta nesse deserto espiritual alguma expectativa de alívio, como um verdejante oásis na imensidão inóspita, ela logo se esvai, deixando na alma a sensação de encontrar-se em meio a uma tempestade, não de areia, mas de confusão interior.

Por mais absurda que possa parecer a afirmação, este é um dos mais belos momentos da vida de alguém! Pois se a alma confiar em Deus e perseverar, as areias se transformarão em formosas flores. E quanto mais longa tiver sido a aridez, tanto maior será a fecundidade quando aprouver à Divina Providência irrigar a alma, pois “as grandes esperas são exatamente o prelúdio dos grandes dons de Deus”.1

Isto se verifica em desertos como o do Atacama, no Chile, o de Sonora, na América do Norte, ou o do Kalahari, no Sul da África. Estéreis durante quase todo o ano, as raríssimas chuvas com as quais são beneficiados fazem desabrochar neles numerosas flores de singular beleza, cujas sementes jaziam sob o solo durante meses ou anos. Imagem da alma que, em meio às agruras da vida, oferece a Deus suas dificuldades, prossegue seu combate confiando contra todas as aparências, persevera com firmeza verdadeiramente cristã e se renova ao receber algumas gotas de graça.

Entretanto, as graças cairão em torrentes se para tal concorrer um simples querer d’Aquela que a piedade católica chama de Maria fons. Ela, mais do que uma fonte encontrada por um sedento no deserto, é a Medianeira do manancial das graças, Cristo Jesus, e deseja nos conceder a água viva por Ele prometida à samaritana: “O que beber da água que Eu lhe der jamais terá sede. A água que Eu lhe der virá a ser nele fonte de água, que jorrará até a vida eterna” (Jo 4, 14).

Saibamos recorrer a Ela em nossos momentos de aridez, sem jamais perder a esperança de que no areal das debilidades de nossa alma sempre poderão vicejar novos frutos de virtude. Ao longo de nosso peregrinar terreno rumo ao Jardim celeste, nunca nos esqueçamos desta consoladora verdade: pela intercessão de Maria, não só a boa semente produz cem por um em nossa seara, mas até o deserto floresce!…

1CORRÊA DE OLIVEIRA. Plinio. Conferência. São Paulo, 23 mar. 1970.

Manso cordeiro do rebanho de Cristo

Irmã Clara Isabel Morazzani Arráiz, EP

Quem já teve oportunidade de contemplar o espetáculo encantador de um rebanho de ovelhas reunido em torno de seu pastor, certamente terá notado o quanto existe uma como que interlocução entre esses mansos animais e aquele a quem estão confiados. Com efeito, quando ele as chama ou lhes dirige alguma advertência, as ovelhas se juntam ao seu redor, submissas e atentas, parecendo compreender o sentido de suas palavras.

Esta cena, tão simples na aparência, nos revela a realidade profunda daquela frase do Evangelho: “As minhas ovelhas escutam a minha voz” (Jo 10, 27). Há na relação pastor-ovelha uma simbologia criada por Deus para nos fazer entender o relacionamento cheio de consonância e intimidade que se estabelece entre Jesus e a alma conduzida pela graça. Bastará uma palavra, isto é, uma suave inspiração do Espírito Santo, para ela se mover segundo a vontade de Deus, sem temores ou dúvidas, pois sabe reconhecer o timbre da voz do Pastor. Tais são os santos, ao longo da História, verdadeiras “oves manus eius — ovelhas nas mãos do Senhor” (Sl 94, 7), flexíveis e obedientes a seus mandamentos. Aquilo que os distingue dos demais homens e os faz galgar os cumes da virtude, conferindo-lhes um inequívoco carisma de atração, repousa nesse abandono nas mãos de Deus e na docilidade em deixar-se levar conforme o seu beneplácito. Nisso consiste o verdadeiro heroísmo, muito mais do que em esforços e trabalhos nos quais a alma possa se fatigar, pois estes, quando privados do auxílio da graça, resultam inteiramente estéreis.

Deste modo, compreendemos então que a santidade não consiste tanto em realizar grandes obras, mas sim em tornar grandes todas as obras, mesmo as mais insignificantes.

Contemplativo desde a infância

Em 1540, num jubiloso domingo de Pentecostes, enquanto os sinos da matriz de Torrehermosa, situada no limite da Província de Saragoça, em Aragão, repicavam para comemorar a grande solenidade do Espírito Santo, nascia um menino predestinado por Deus a ser um perfeito modelo de mansidão e inocência, como cordeiro do rebanho do Senhor. Dado que na Espanha esse dia é chamado “Páscoa de Pentecostes”, seus pais, Martim Bailão e Isabel Jubera, batizaram-no com o nome de Pascoal.

De condição modesta, o pequeno Pascoal começou a trabalhar aos sete anos de idade para ajudar os pais, honrados camponeses, pastoreando suas ovelhas — único bem que estes possuíam — e, mais tarde, exercendo o mesmo ofício a serviço de outros proprietários.

A solidão dos campos e a serenidade própria ao rebanho constituíam um marco ideal para o desenvolvimento daquela alma austera e contemplativa, de modo a fazer florescer nela as virtudes. Se, desde os primeiros anos, seus pais lhe haviam inculcado uma ardorosa piedade, Pascoal empregou-se em torná-la cada dia mais sólida, por meio da prece assídua, da mortificação e da leitura. Impossibilitado de frequentar escola, pela falta de recursos da família, o menino aprendeu a ler e a escrever por si só — ensinado pelos Anjos, segundo alguns de seus biógrafos —, tamanho era seu desejo de instruir-se na Religião. Seu alforje transformou-se numa pequenina biblioteca, onde carregava os livros de sua devoção e o Ofício Parvo de Nossa Senhora, que rezava todos os dias.

Não tendo oportunidade de assistir à Missa durante a semana, o pastorzinho supria essa lacuna dedicando longas horas à oração, quer numa pequena ermida da Santíssima Virgem situada naquelas redondezas, quer voltado para o longínquo Santuário de Nossa Senhora da Serra, quer, simplesmente, diante de seu próprio cajado, onde fizera gravar uma cruz e uma imagem de Maria. Aprouve a Deus premiá-lo, concedendo-lhe em diversas ocasiões que os Anjos trouxessem até ele a Hóstia resplandecente para ele poder vê-la e adorá-la.

De outro lado, como a região em torno da ermida era muito seca e o pasto escasso, Pascoal foi advertido por seu amo de que, indo com frequência para lá, os animais acabariam por perecer. Não querendo abandonar seu lugar predileto, o menino argumentou, cheio de fé, que Maria, como Divina Pastora, jamais deixaria faltar alimento ao rebanho. E ao cabo de algum tempo o dono deu-se por vencido, constatando que suas ovelhas eram as mais bem nutridas de toda a região.

Na vida religiosa

Como Pascoal desejava ardentemente entregar-se a Deus no estado religioso, apareceram-lhe certa vez São Francisco e Santa Clara, e disseram-lhe que deveria ingressar na Ordem dos Frades Menores. Tal desígnio ia de encontro a seus afetos mais recônditos, pois alimentava um especial amor à virtude da pobreza. E quando seu patrão, o senhor Martín García, homem rico e poderoso, prometeu deixar-lhe seus bens, uma vez que não possuía filhos, o jovem pastor rejeitou a oferta, dizendo que preferia ser herdeiro de Deus e co-herdeiro de Jesus Cristo.

Aos vinte anos partiu em busca dessa herança incorruptível e transladou-se para o reino de Valência. Desejava ingressar no convento de Nossa Senhora de Loreto, recém-reformado por São Pedro de Alcântara. No entanto, sua timidez no momento de falar com o padre superior reteve-o por quatro anos, durante os quais permaneceu nas proximidades do mosteiro, empregado, mais uma vez, na guarda de ovelhas. Sua piedade e suas virtudes tornaram-no conhecido em toda a comarca sob o apelido de o “santo pastor”.1

Decidiu-se, por fim, a solicitar sua admissão no convento, e foi acolhido com alegria por aquela comunidade. Quis o Superior dar-lhe o hábito de irmão corista, mas a humildade de Pascoal levou-o a suplicar que o deixassem apenas como irmão converso, pois só almejava ser a “vassoura da casa de Deus”.2

Humildade e intrepidez

O novo frade não tardou em se transformar num modelo de observância religiosa, a ponto de ser disputada sua presença nos diversos conventos da Ordem. Exercia com despretensão e simplicidade as mais variadas funções, tais como de cozinheiro, jardineiro, porteiro ou esmoler. Porém, ao procurar humilhar-se diante dos homens, crescia em estatura espiritual diante de Deus. De trato afável e bondoso com os demais, o irmão Pascoal era duro e intransigente consigo mesmo. Considerava-se um grande pecador, motivo pelo qual se sacrificava continuamente, privando-se do pão para dá-lo aos pobres, dormindo sobre a terra nua e flagelando-se com frequência.

Assim testemunhou a seu respeito um de seus contemporâneos: “Nunca pensava em satisfazer o menor capricho. Sempre punha empenho em mortificar-se a si mesmo. Vi brilhar nele a humildade, a obediência, a mortificação, a castidade, a piedade, a doçura, a modéstia e, em suma, todas as virtudes: e não posso dizer com certeza qual delas sobrepujava as outras”.3

Nutria terníssima devoção a Maria Santíssima, a quem dedicava todos os seus trabalhos. Certa vez, julgando-se sozinho enquanto montava a mesa no refeitório, caiu de joelhos diante da imagem de Nossa Senhora; depois, tomado de sobrenatural transporte de alegria, executou uma graciosa dança para aquela Mãe que com tantas consolações o agraciava. Tal episódio foi visto por outro frade, o qual mais tarde o relatou, acrescentando que a recordação do rosto radiante de júbilo do irmão Pascoal o estimulou durante muito tempo na prática da virtude.

Em 1576 os superiores o enviaram a Paris, como portador de um importante documento destinado ao padre Christophe de Cheffontaines, Superior Geral da Ordem.

Por aquela época, a França ardia nas guerras de religião e atravessar as cidades vestindo o austero burel de São Francisco constituía um autêntico perigo. Contudo, o intrépido irmão Pascoal lançou-se na aventura cheio de confiança na Providência, alegre por expor a própria vida pela obediência. Em alguns lugares foi apedrejado pelos huguenotes, a ponto de guardar um ferimento no ombro até o fim da vida.

Voltando a seu convento, deu respostas lacônicas às perguntas feitas por seus confrades a respeito dos riscos por ele enfrentados, omitindo todos os detalhes que pudessem redundar em elogios à sua pessoa.

Ao longo de suas múltiplas caminhadas pelas vilas e aldeias da região, pedindo esmolas para o convento, sua palavra tinha para todos o valor de uma pregação, e os milagres que realizava mais contribuíam para lhe granjear a admiração e a estima do povo. Inúmeras vezes obteve a cura de doentes fazendo-lhes um simples sinal da cruz. Em certa ocasião, mandou-lhe o Padre Superior curar um frade que estava gravemente atacado por uma hemorragia. Embora essa ordem contundisse sua humildade, nosso santo viu-se obrigado a obedecer: traçou uma cruz sobre seu companheiro e logo o sangue parou de correr.

Singular devoção Eucarística

Entretanto, o que distinguiu nosso Santo com um brilho todo especial foi sua devoção ao Santíssimo Sacramento. A todo o momento que seus deveres o permitiam, lá estava o humilde irmão aos pés do sacrário, ora rezando com os braços em cruz, ora abismado em profunda adoração, ora ainda acolitando com fervor a Missa privada de algum sacerdote do mosteiro. Era junto a Jesus Eucarístico que sua alma se expandia e hauria novas forças para enfrentar os combates da vida. Ali o Divino Mestre lhe revelava os mistérios do Reino, escondidos aos sábios e doutores. Sem ter feito qualquer estudo, o humilde converso franciscano entendia de teologia mais do que muitos mestres, porque o ardor de seu coração lhe explicava o que não aprendera pelo raciocínio.

Isto se patenteou certa vez, quando, estando na França, foi interpelado por alguns hereges acerca da Presença Real de Nosso Senhor Jesus Cristo no Santíssimo Sacramento. Enfrentou com tanta sabedoria os sofismas dos inimigos da Religião e deu-lhes uma tão perfeita explicação acerca da doutrina eucarística, que eles se sentiram encurralados e sem resposta. Ficaram boquiabertos também os que acompanhavam Frei Pascoal, pois sabiam como ele não era homem versado em letras, muito menos nos sacros ensinamentos.

Até mesmo durante os mais corriqueiros trabalhos, seu coração estava posto no tabernáculo. Por exemplo, cultivando a terra ou cozinhando verduras, rezava recordando-se de sua Comunhão matutina: “Ó Luz sem mancha, que delícias podeis encontrar num homem tão pequeno como eu? Por que quisestes entrar em meu peito e fazer dele um templo de vossa majestade?”.4 Sua alma estava todo o tempo posta em adoração a Deus feito Hóstia.

Atenção inteira à voz do Pastor

São Pascoal morreu em 1592, aos 52 anos de idade, no mosteiro de Villarreal, após uma prolongada doença que o fizera sofrer durante cinco anos, dando-lhe a oportunidade de edificar com sua paciência todos quantos o rodeavam.

Pouco antes de falecer, perguntou ao irmão enfermeiro: “Já tocaram o sino para a Missa conventual?”. 5 Ao receber a resposta afirmativa, seu rosto iluminou-se com um sorriso de júbilo, pois sabia de antemão a hora de sua partida. No instante da elevação, quando a sineta anunciava a Presença Real de Jesus sobre o altar, o humilde irmão exalou seu último suspiro e sua alma voou para unir-se definitivamente Àquele mesmo Jesus a quem tanto procurara ao longo de toda a sua existência.

Estava já tão difundida sua fama de santidade, que foi impossível fazer o funeral antes de três dias, devido à afluência de gente que acorreu ao convento para dar-lhe a despedida. Na Missa de exéquias, para assombro de toda a assistência, seus olhos se abriram por duas vezes, uma na elevação da Sagrada Hóstia, outra na do cálice, para reverenciar por última vez, nesta Terra, a Santíssima Eucaristia.

Como manso cordeiro do rebanho de Cristo, São Pascoal Bailão soube estar com sua atenção inteira posta na voz do Pastor, que o instruía na ciência divina e nos segredos da verdadeira santidade. No cumprimento da vocação de irmão leigo franciscano, sua vida transcorreu na paz do claustro e na mendicância, de maneira apagada, humilde, mas valente, na busca contínua e exclusiva da glória de Deus. E lhe estava reservada grande glória e renome pelo mundo inteiro, a ponto de ser canonizado por Inocêncio XII menos de um século após sua morte, em 15 de julho de 1691, e proclamado pelo Papa Leão XIII, tão justamente, Padroeiro Universal dos Congressos e Obras Eucarísticas, em 28 de novembro de 1897.

1 ARRATÍBEL, SSS, Juan. San Pascual Bailón. In: ECHEVERRÍA, Lamberto de; LLORCA, Bernardino; REPETTO BETES, José Luis (Org.). Año Cristiano. Madrid: BAC, 2004, v.V, p.364.
2 Idem, ibidem.
3 Idem, p.365.
4 Idem, p.367.
5 Idem, p.368.

O caleidoscópio divino

Ir Maria Teresa Ribeiro Matos, EP

Gira-se, gira-se, gira-se e sempre novas figuras aparecem. Ora uma linda rosácea dourada com matizes vermelhos, ora a moldura é rubra com pequenas florzinhas verdes, ora é a cor azul que sobressai dando uma especial nobreza à figura. A maravilha das cores brincando com a variedade das formas que se contempla num caleidoscópio não podem deixar de refletir, de maneira toda especial, a beleza da História da espiritualidade regida pelo próprio Deus.

Movidos pela graça divina, homens e mulheres, ricos e pobres, nobres e plebeus, jovens e anciãos deram seu contributo particular nessa história do relacionamento de Deus com os homens.

Suscitadas algumas vezes dentre famílias de almas, com as “cores” próprias de sua ordem religiosa, essas pessoas formam, entretanto, no decorrer de suas vidas de santidade, “figuras” singulares e especiais.

Vemos já no início da Igreja surgir, de dentro do colégio Apostólico, uma alma fogosa e contrita como a de São Pedro, ao lado de outra, contemplativa e altamente teológica, como a do discípulo amado.

Ou então, poderíamos admirar,no decorrer do quarto século, a intrepidez e a audácia de um Santo Atanásio combatendo, ainda enquanto diácono, a heresia ariana, apoiado pelo venerável anacoreta, Santo Antão que levava uma vida austera embebida de altas graças místicas.

Não passaria inadvertida aos nossos olhos a figura de um ex maniqueu que a Bondade Divina transformou nos maiores luminares da Igreja: Agostinho, bispo de Hipona.

Como esquecer as figuras tão luminosas, mas tão distintas dos fundadores, que penetraram seus discípulos e suas obras com carismas e “cores” peculiares? Em Subiaco, vemos o monge Bento de Núrsia, primando pelo trabalho e pela contemplação, “ora et labora”, e dando origem a uma família de almas da qual sairia todo o esplendor da Idade Média. Séculos depois, em Toulouse, um santo pregador, contra a heresia cátara, funda a ordem dos pregadores que seria a ponta de lança de todas as argumentações e pensamento doutrinário da Santa Igreja. Contemporâneo a ele, o “poverello” de Assis reúne os amantes da pobreza, e, pelo exemplo, arrasta reis e nobres pela via da austeridade e penitência.

Não seria demasiado lembrar a grande Teresa de Ávila, que aconselhando suas filhas a serem varões , reforma o Carmelo e lhe dá a verdadeira figura. Ou, o nobre herdeiro da casa de Loyola que renuncia seus títulos para seguir uma vida religiosa militante, recrutando as melhores vocações e formando a Companhia de Jesus para a maior glória de Deus.

Todas essas maravilhas e outras incontáveis, promoveu Deus ao longo da História como fruto do preciosíssimo Sangue de Seu Filho. A plenitude dos efeitos desse Sangue, porém, não se fizeram sentir ainda na História. Que feeria não aparecerá, que novas figuras não surgirão no “caleidoscópio divino” quando o Divino Artífice fizer sentir nas almas e na História a plenitude do relacionamento com ele, fruto do efeito total do sacrifício de Cristo? Qui vivra,vera.

Uma aula de perfeição

Irmã Carmela Werner Ferreira, EP

O caminho da virtude, que outros apontaram através de páginas de sabedoria, a Doutora da Pequena Via nos indica aqui por meio de seu olhar.

Santa Teresinha do Menino Jesus nasceu após a invenção da fotografia, e graças às possibilidades por esta inauguradas, podemos acompanhá-la em todas as fases da vida, desde os primeiros anos até os últimos dias. Certamente não a conheceríamos tão bem nem aproveitaríamos tanto as páginas de seus Manuscritos Autobiográficos sem este valioso complemento, verdadeiro registro visual de seu progresso na virtude.

Entre os diversos retratos da carmelita de Lisieux, um chama de modo especial nossa atenção, pela fulgurante expressão de santidade que deixa transparecer. Trata-se da fotografia tirada aos seus oito anos, quando era aluna das religiosas beneditinas, na qual aparece trajada com uniforme escolar ao lado de sua irmã Celina.

Seu olhar honesto, sereno e despretensioso denota uma louçania cativante, reflexo da inocência batismal fielmente conservada. Sem estar rindo nem aparentar ter o hábito de fazê-lo a todo o momento, transmite uma alegria intensa e completa ausência de egoísmo. Diríamos que ela experimenta uma felicidade autêntica, pois “a criança não conhece a mentira, a falsidade nem a hipocrisia. Sua alma se espelha inteiramente em sua face; sua palavra traduz com fidelidade seu pensamento, com uma franqueza emocionante. Ela não tem as inseguranças da vaidade ou do respeito humano. Em uma palavra, ela e a simplicidade constituem uma sólida união”. 1

O Beato João Paulo II, ao proclamá-la Doutora da Igreja, incluiu seu nome no seleto rol de expoentes como Santo Agostinho, São João Crisóstomo e São Tomás de Aquino. Causa-nos surpresa que uma religiosa falecida aos 24 anos de idade tenha recebido esta honraria concedida apenas aos mais destacados teólogos da Santa Igreja.

Entretanto, melhor do que muitos luminares das ciências, a Doutora da Pequena Via ensinou que “se não vos transformardes e vos tornardes como criancinhas, não entrareis no Reino dos Céus” (Mt 18, 3), e justificou de maneira magnífica a oração do Divino Mestre: “Eu Te louvo, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos” (Mt 11, 25).

O Pontífice a exaltou não tanto por aquilo que ela fez, mas, sobretudo, pelo que ela foi. O caminho da virtude, que outros apontaram através de páginas de sabedoria, ela nos indica aqui por meio de seu olhar. Afinal, determo-nos por alguns minutos na contemplação deste semblante não equivale a receber uma aula de perfeição?

1CLÁ DIAS, EP, João Scognamiglio. O inédito sobre os Evangelhos. Roma/São Paulo: LEV/LumenSapientiæ, 2012, v.V, p.124. Março 2013 .

Espírito Santo é Deus?

Ir. Letícia Gonçalves de Sousa, EP

Há dois modos de conhecimento: pelo princípio e pelo objeto. No primeiro caso, ou obtemos por esforço da razão natural, ou voamos com as asas da Fé divina. No segundo, além das verdades que a razão pode conhecer, dispomos da Revelação dos mistérios escondidos em Deus.

Um dos principais mistérios de nossa Fé – Deus é uno em essência e trino em Pessoas – nos veio através da Revelação de Jesus Cristo.

A trindade e unidade divina é um tão grandioso mistério escondido em Deus, desde toda eternidade, que nem o maior dos Serafins seria digno de revelá-lo aos homens. E, ainda assim, mesmo que nos tenha sido revelado por Nosso Senhor, nesta Terra não o podemos entender por completo, só na visão beatífica compreenderemos a Deus tal como Ele é. “Hoje vemos como por um espelho, de maneira confusa, mas então veremos face a face. Hoje conhecemos de maneira imperfeita, então conheceremos exatamente” (I Cor 13, 12).

Percorrendo as páginas do Evangelho, encontramos diversas manifestações da Trindade: “Depois que Jesus foi batizado, saiu logo da água. Eis que os Céus se abriram e viu descer sobre Ele, em forma de pomba, o Espírito de Deus. E do Céu baixou uma voz: Eis meu Filho muito amado em quem ponho minha afeição” (Mt 3, 16-17). O Paráclito Se revela na pomba, unindo-Se à voz do Pai, e a Trindade se manifesta aos homens, em Cristo Jesus.

Mas, verdadeiramente podemos considerar o Espírito Santo como Deus?

A Igreja assim o definiu no Símbolo de Niceia: “Creio no Espírito Santo, Senhor que dá a vida, e procede do Pai e do Filho”. 1

Então, por que Ele passa por Deus desconhecido? 2 O próprio Apóstolo dá testemunho de ser a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade “desconhecida”: “chegou a Éfeso, onde achou alguns discípulos e indagou deles: ‘Recebestes o Espírito Santo, quando abraçastes a Fé?’. Responderam-lhe: ‘Não, nem sequer ouvimos dizer que há um Espírito Santo!’” (At 19, 1-2). E se esta pergunta se fizesse em nossos dias, certamente a mesma resposta seria dada por um número considerável de cristãos.

O Espírito Santo é idêntico ao Pai e ao Filho, “é da mesma natureza do Pai e do Filho, assim como o Filho é o Verbo de Deus, assim também o Espírito Santo é o Amor do Pai e do Filho”.3 O amor do Pai pelo Filho e do Filho pelo Pai é tão grande e perfeito, que faz proceder outra Pessoa eterna, que é o Espírito Santo. Esta procedência se realiza por via de espiração de amor do Pai e do Filho.4

Mons. João Scognamiglio Clá Dias 5 explica o que é possível ser explicado acerca da Trindade de Deus: O Pai, que é Deus, gera o Filho, que é a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade; contemplando o Filho, idêntico a Ele, vê todas as grandezas que há n’Ele, idênticas às de sua própria Pessoa, e O ama inteiramente. O Filho admira o Pai e o Pai admira o Filho; desse amor procede uma Terceira Pessoa, que é o Espírito Santo. Em teologia, a relação íntima das três Pessoas divinas no mistério do convívio trinitário se chama pericórese. De tal maneira os três são idênticos que se o Pai ou o Espírito Santo se encarnassem seriam iguais, pois “quem me viu, viu o Pai” (Jo 14, 9).

1 SÃO PIO V. Catecismo Romano. Trad. Frei Leopoldo Pires Martins. Petrópolis: Múltipla, 1950, p. 66

2 Cf. ROYO MARÍN, Antonio. El gran desconocido: el Espíritu Santo y sus dones. 2.ed. Madrid: BAC, 2004

3 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Exposição sobre o Credo. Trad. D. Odilão Moura. 4.ed. São Paulo: Loyola, 1981, p. 70.

4 Cf. ROYO MARÍN. El gran desconocido: el Espíritu Santo y sus dones. Op. cit. p. 18.

5 Cf. CLÁ DIAS. Homilia na Solenidade da Santíssima Trindade. Op. cit.

Audiência especial

Ir Elen Coelho, EP

Voltemos nosso olhar ao passado, ao tempo das catedrais, dos castelos e dos grandes reis. Reportemo-nos a um edifício bem fortificado, erguido no cume de um imponente monte, rodeado de um lindíssimo jardim com fontes e alamedas. Do alto dessa fortaleza um poderoso monarca observa vigilante os seus queridos vassalos que, prestativos e obedientes, trabalham em harmonia para o bom funcionamento do reino.

Dentre esses súditos havia um camponês que tranquilamente lavrava sua terra e que subitamente observou que, por primeira vez naquele ano, a macieira produzira atraentes frutos, tanto pelo tamanho quanto pela cor. O camponês assombrado abandonou o trabalho e se pôs rapidamente a colher os frutos. Mas, qual a razão de tanta pressa? Por acaso, haveria de enviá-los a alguém?

Sem dúvida alguma, ao ver aquelas maçãs, o camponês se lembrou do senhor daquelas terras e resolveu presenteá-lo em retribuição por tudo o que dele havia recebido. Entretanto, o que almejava o camponês, mais do que ofertar aqueles frutos, era prestar um ato de vassalagem com o objetivo de contentar o monarca.

Assim sendo, o homem cuidadosamente colheu as maçãs, colocou-as numa cesta e se dirigiu ao castelo. Ao chegar, explicou ao guarda que vinha trazendo as primícias dos frutos do ano e pedia que fossem apresentadas à rainha para que ela, por sua vez as oferecesse ao rei quando lhe parecesse oportuno.

A rainha, conhecida por sua extrema bondade, entendeu bem a intenção do camponês. Ela própria tomou as maçãs, lavou-as, colocou-as numa bela bandeja de vermeil com incrustações de rubis e esmeraldas. Ordenou, pois, ao mordomo que a trouxesse quando ela estivesse à mesa com sua majestade, a fim de lhe apresentar os frutos. E assim foi feito. Quando chegou o momento do rei se servir das frutas, a própria rainha tomou a bandeja e a apresentou a seu esposo, explicando-lhe qual era a sua proveniência. Aquelas maçãs, ofertadas pelas mãos da rainha, haviam tomado outro colorido e mais intimamente tocado o coração do rei.

O rei, tomando uma das maçãs, observou-a e, satisfeito disse à rainha que este gesto do camponês lhe havia agradado sobremaneira, e que desejava recompensá-lo. A rainha sorriu e constatou que o desejo do camponês havia se realizado.

Não poderia o camponês ter apresentado diretamente ao rei as frutas que havia colhido? Teria necessidade de fazê-las passar pelas mãos da rainha? Absolutamente falando, não. Contudo, quão menos teria agradado ao soberano tê-las recebido diretamente das mãos deste pobre operário!

Pois bem, essa história — baseada em um ensinamento de São Luís Maria Grignion de Montfort 1 — nos mostra quão importante é o papel da mediação em nossa vida: nossas orações e súplicas passam a ter uma audiência especial diante Deus quando sabemos nos servir da Rainha do Céu e da Terra. Ela, por sua cooperação no Sacrifício Redentor de Cristo e por sua maternidade espiritual, mereceu o título de medianeira e distribuidora universal de todas as graças 2.

1 SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, n.147. 31.ed. Petrópolis: Vozes, 2002, p. 142.
2 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Pequeno Ofício da Imaculada Conceição Comentado. 2.ed .São Paulo: Loyola, 2011, v.II, p. 125.

Doce consolo no desamparo

Fahima Spielmann

A Mãe do Verbo Divino está sempre do nosso lado, tanto nos momentos de resplendente felicidade, como nas ocasiões em que aparentemente a luz nos abandonou.

Convido-o por alguns momentos, caro leitor, a abstrairmos do ambiente que nos circunda e irmos juntos acompanhar um viajante perdido à noite no deserto.

Longe de qualquer penumbra de luz elétrica ou natural, segue ele afanosamente o caminho indicado pela bússola. Já sem alimento, a única reserva que possui em seu cantil é um gole de água quente, que o Sol não ignorou durante o dia. Até o ponteiro do seu relógio parou de funcionar! E quanto mais ele obedece ao rumo marcado pela agulha, mais lhe parece estar aquele instrumento desnorteado.

Sumido no negrume triste e ameaçador, o que não temer? Nosso viajante para por um instante, procurando cobrar alento e não perder a calma.

De súbito, o vento sopra, as nuvens se abrem e surge a Lua, rainha da noite. A alma inquieta do viajante se amaina e seu espírito recobra a tranquilidade, pois o espargir da luz que há pouco vira nascer faz claro o caminho e lhe dá segurança.

* * *

Doce consolo na desolação da noite foi esse belo astro, louvado sem cessar pelos poetas e cultuado por muitos povos da Antiguidade. Porém, entre tantas predileções, nada o enaltece mais do que simbolizar a Virgem Santíssima, formosa como a Lua, que guia os peregrinos neste vale de lágrimas rumo ao Sol de Justiça que A ilumina.

Precedendo Nosso Senhor Jesus Cristo, quis o Pai que outra luz prenunciasse o dia da salvação. E assim como a claridade da Lua prepara os olhos dos homens para poderem fitar o fulgor do Sol, surgiu Maria, na noite dos tempos, rasgando as trevas do pecado e anunciando o resplendor da graça que em breve ia reinar no meio de nós.

Mãe do Verbo Divino e Mãe nossa, Ela nos acompanha sempre, tanto nos momentos de radiante felicidade, como nas ocasiões em que aparentemente a luz nos abandonou. E ainda que o céu se apresente coberto por negras nuvens, anunciando provações e desastres, esta boníssima Mãe não deixa de permanecer ao nosso lado, afável, indulgente e serena, perpetuamente propensa a nos ajudar.

Saibamos viver à procura dessa claridade que torna doces os percursos mais áridos. Nas noites obscuras, jamais nos permitamos um sentimento de desconfiança para com Ela, mas vivamos, pelo contrário, em busca dessa luz prenunciadora do Sol rutilante que logo vai nascer. E saibamos a Ela recorrer, dizendo:

“Ó minha Mãe, Medianeira de todas as graças, na vossa luz veremos a luz. Mãe, antes ficar cego do que deixar de ver vossa luz, porque

vê-la é viver. Na sua claridade contemplaremos todas as luzes; e sem ela nenhuma luz refulge. Não considerarei vida os momentos em que ela não brilhar; e eu, da vida, não quererei ter mais nada do que a mente banhada por essa luz.

“Ó luz!, eu vos seguirei custe o que custar: pelos vales, montes, desertos, e ilhas; pelas torturas, pelos abandonos e olvidos; pelas perseguições e tentações, pelos infortúnios, pelas alegrias e triunfos. Eu vos seguirei de tal maneira que, mesmo no fastígio da glória, não me incomodarei com ela, porque só me preocuparei convosco.

“Eu vos vi, e até o Céu não desejarei outra coisa, porque, uma vez, vos contemplei!”. 1

1CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Na vossa Luz veremos a luz. In: Dr. Plinio. São Paulo, Ano VII, N.80 (Nov. 2004); p.36.

Revista Arautos do Evangelho n.137. maio 2013.

O jovem santo do sorriso

Irmã Lucía Ordoñez Cebolla, EP

São Gabriel de Nossa Senhora das Dores

A graciosa cidade italiana de Spoleto, na Perúgia, acordou radiante de alegria numa manhã da Oitava da Assunção de Maria, em 22 de agosto de 1856. Seus habitantes celebravam com júbilo a festa da Padroeira, agradecendo de modo especial o terem sido libertos da peste que devastara a região nos últimos anos.

Um belo quadro da Mãe de Deus, conhecido como a Madonna Del Duomo — Nossa Senhora da Catedral — ou a Sacra Icona — Sagrada Imagem —, havia sido retirado de seu relicário para ser conduzido pelas ruas, em solene procissão. Era um ícone de estilo bizantino doado à cidade pelo imperador Frederico Barba-Ruiva, em 1155, como sinal de reconciliação e de paz. Segundo a tradição, teria sido pintado por São Lucas e se conservara na Catedral de Constantinopla até a época das perseguições iconoclastas.

Não havia, naquelas animadas ruas, quem não caísse de joelhos ao ver desfilar com grande pompa a milagrosa imagem da Rainha do Céu. Todos esperavam receber d’Ela uma graça almejada, um consolo, uma bênção particular.

“O que fazes no mundo? Não foste feito para ele!”

Entre a multidão dos fiéis, aguardando a passagem do venerado ícone, destacava-se, naquele dia, um jovem de porte distinto e jovial. Quando a Sagrada Imagem da Santíssima Virgem passou diante dele e seu olhar fitou os olhos arrebatadores da imagem, ouviu de modo claro em seu interior estas inesquecíveis palavras: “Francisco, o que fazes no mundo? Tu não foste feito para ele. Segue a tua vocação!”. 1

Nesse momento, dando livre curso a abundantes lágrimas de agradecimento e compunção, tomou a firme resolução que há tempo vinha postergando: ser religioso, decidindo entrar na Congregação dos Passionistas. “Oh! Em que abismo não teria certamente caído se Maria, benigna até para com aqueles que não A invocam, não tivesse acorrido misericordiosamente em meu auxílio naquela Oitava de sua Assunção!” 2, exclamaria ele, algum tempo depois.

Tal episódio comovedor foi o decisivo ponto de inflexão na vida curta, mas gloriosa, de um dos grandes santos do século XIX: São Gabriel de Nossa Senhora das Dores, conhecido como “o santo dos jovens, dos milagres e do sorriso”. 3

Vivaz, gentil e cheio de afeto

Nascido em 1º de março de 1838, em Assis, foi ele batizado no mesmo dia com o nome de Francisco, em honra ao Poverello. Undécimo filho de uma família de treze irmãos, seu pai, o advogado Sante Possenti, exercia na época o cargo de prefeito. A mãe, Angese Frisciotti, pertencia a uma família de nobre ascendência, e morreu quando ele tinha apenas quatro anos.

Apesar de possuir um coração propenso à generosidade e simpatia, imperava no espírito daquele terno menino um temperamento indômito que, quando contrariado, se exteriorizava inúmeras vezes em ímpetos de cólera, durante os quais seus olhos escuros tornavam-se brilhantes e os pés batiam no chão com energia.

Tendo ele três anos de idade, a família Possenti transferiu-se para Spoleto, onde transcorreriam sua infância e adolescência. Ali Francisco se distinguiu por seu caráter vivaz, cheio de afeto, gentil, palavra fácil e cheia de graça, voz sonora e olhar penetrante. Seu diretor espiritual, o padre Norberto Cassinelli assim o descreve: “Reunia em si muitos dotes dificilmente encontráveis numa só pessoa. Era em verdade belo de alma e de corpo”. 4

“Eu não vivia senão por um pouco de fumaça!”

Esse temperamento amável e privilegiado não excluía o amor ao risco, tão comum na adolescência. O comandante da guarnição militar de Spoleto, grande amigo de seu pai, instruíra o jovenzinho a manejar com certeira pontaria a pistola e o fuzil. Sendo a caça seu lazer favorito, em um ano ganhou como presente de Natal uma bela escopeta… que não deixaria de ocasionar sobressaltos e preocupações a seu progenitor.

Aos 13 anos começou a frequentar a escola dos jesuítas, onde se sobressaía a todos os companheiros. Ele “era o preferido para declamar nas soirées acadêmicas. […] Todos o queriam, tudo lhe sorria, tudo corria de acordo com seus desejos… Seu maior gosto era brilhar nas festas, nos saraus e no teatro”. 5

Também o baile constituía para ele grande motivo de atração. Dançava com tal habilidade que se tornou conhecido pelo apelativo de “il ballerino”, e como tal animava os mais cotados salões da cidade.

Esses momentos passados em frívolas distrações atormentaram depois sua consciência, levando-a a exclamar com frequência: “Ó, vaidade de meus passatempos!… Que cegueira a minha!… Eu não vivia senão por um pouco de fumaça!…”. 6

Um cilício sob as roupas elegantes

Porém, o jovem Francisco professava no seu interior uma fé pura e sincera. “Nunca se aproximava dos Sacramentos sem deixar transparecer os profundos sentimentos de fé e de religioso respeito dos quais estava compenetrado” 7, declarou um dos seus mais íntimos amigos da época. “Quantas vezes o vi de mãos juntas, olhos umedecidos pelas lágrimas e como que arrebatado em profundos pensamentos!”. 8

Sobretudo, ninguém podia imaginar que aquele jovem aplaudido e aprovado por todos levava, sob as roupas elegantes e luxuosas, um rude cilício de couro cravejado de agudas pontas de ferro. No vaivém superficial dos acontecimentos, o anseio de trilhar algum dia na vida religiosa começava a despontar em sua alma. Faltavam, todavia, alguns lances decisivos para dar o derradeiro adeus ao mundo.

Árdua renúncia, feita com alegria

Após a morte da mãe, sua irmã mais velha, Maria Luísa, fora para ele um de seus principais esteios. Muito formosa, encontrava-se ela na flor da idade quando irrompeu em Spoleto uma assoladora epidemia de cólera, da qual foi a primeira vítima… A morte da jovem, ocorrida no ano de 1855, causou em Francisco o impacto de um raio.

Disso se valeu a Providência para abrir-lhe os olhos sobre sua vocação. Logo após o falecimento, ele expôs a seu pai a resolução de ingressar num convento. Este, entretanto, recusou sua autorização, temendo que tal desejo fosse o fruto efêmero de um momento de dor. Receio, na aparência, confirmado, pois, com o correr do tempo, as atrações do mundo começaram a abafar de novo aquele anelo interior… “Podia eu” — escreveria depois Francisco a um de seus companheiros — “gozar de mais prazeres e diversões? E o que ficou de tudo aquilo? Nada mais do que vergonha, temores e turbações”. 9

Foi nessa situação que veio dar-se o crucial encontro com a Sacra Icona, graças ao qual o renitente jovem decidiu abraçar para sempre a vida religiosa.

Poucos dias depois desse episódio, em 5 de setembro, a mais seleta sociedade de Spoleto reunia-se no salão de cerimônias do Liceu Jesuíta, para assistir à distribuição dos prêmios de fim de curso. Enquanto presidente da Academia Literária, Francisco ocupava no salão um lugar proeminente.

Chegada a hora de subir ao cenário, a assistência prorrompeu em exclamações de entusiasmo, vendo um adolescente de dezoito anos apresentar-se com tanta elegância e distinção. “Aquele timbre de voz, aquela sonoridade, aquela vocalização e, sobretudo, aquela graça de expressão e de gestos eletrizavam e sacudiam os corações mais apáticos”. 10 Terminado o discurso, todos desejavam felicitá-lo, aclamá-lo, cumprimentá-lo, e ele respondia com seu habitual sorriso.

A decisão, porém, estava tomada. No dia seguinte, ele partiria para uma mudança de vida definitiva.

Com apenas 18 anos, trocava um brilhante porvir por uma vida de renúncia e recolhimento. Dava, sim, um passo árduo, mas com o coração pervadido de alegria.

Passionista para sempre

Na manhã seguinte, Francisco partiu feliz de Spoleto em direção a Loreto, onde passou alguns dias estreitando os laços de amor e devoção a Maria Santíssima, no célebre Santuário.

De lá, dirigiu-se a Morrovalle para dar início ao noviciado passionista. “Ele, o elegante bailarino, o brilhante animador dos salões de Spoleto, escolheu entrar no austero Instituto dos Passionistas, fundado em 1720 por São Paulo da Cruz, com a missão de anunciar, através da vida contemplativa e do apostolado, o amor de Deus revelado na Paixão de Cristo”. 11

A mudança do nome para Gabriel de Nossa Senhora das Dores marcou a morte para a vida passada e o começo da caminhada nas vias da perfeição. Quando, em conversa com seus companheiros de convento, o assunto recaía sobre os acontecimentos do mundo, ele a interrompia com um sereno sorriso: “Por que falarmos daquilo que temos de abandonar para sempre? Deixem que os mortos enterrem seus mortos”. 12

Não pensemos, entretanto, que a adaptação à austera vida religiosa foi fácil para aquele jovem de vida acomodada. Acostumado às comidas finas, “os insípidos alimentos do pobre convento passionista causavam-lhe uma repugnância invencível. Apesar dos protestos de sua natureza, insistia ele em comê-los, até que seus superiores, compadecidos, permitiram-lhe, temporariamente, algum alívio”. 13 O mesmo acontecia com outros aspectos de observância da disciplina, mas ele fazia questão de cumprir eximiamente os horários e obrigações do noviciado, por muito esforço que isso lhe custasse, dada sua delicada compleição.

Amor à Paixão de Cristo e a Maria Santíssima

Durante sua vida de religioso, nele sobressaía, sem dúvida, um arraigado amor à Paixão do Senhor. Tal veneração sentia pelos sofrimentos de Jesus que nunca se separava do crucifixo: “Quando conversava, mantinha-o dissimuladamente na mão e o apertava com carinho; quando dormia, colocava-o sobre o peito; quando estudava, punha-o junto ao livro e, de vez em quando, o fitava e osculava com tanto afeto e fervor, que a imagem de metal foi-se gastando até ficarem apagados todos os traços da fisionomia”. 14

A essa devoção característica da congregação em que ingressara, no entanto, unia-se um amor “entusiasta, engenhoso e aceso à Santíssima Virgem”. 15 Seu famoso Credo di Maria revela-nos o encanto dessa alma apaixonada pela Mãe de Deus: “Creio, ó Maria, […] que sois a Mãe de todos os homens. […] Creio que não há outro nome, fora do nome de Jesus, tão transbordante de graça, esperança e suavidade para aqueles que o invocam. […] Creio que quem se apoia em Vós não cairá em pecado, e quem Vos honra alcançará a vida eterna. […] Creio que vossa beleza afugentava todo movimento de impureza e inspirava pensamentos castos”. 16

Curta existência, pontilhada de atos heroicos

Na mente do noviço Gabriel, não havia espaço para nenhum outro pensamento a não ser Jesus e Maria. E sentia uma tão entranhada necessidade de levar às últimas consequências sua entrega a Deus e a Maria Santíssima que, certa vez, ao ouvir os passos de seu diretor espiritual, abriu a porta da cela e, arrojando-se a seus pés, lhe suplicou: “Padre, se achar em mim qualquer coisa, por pequena que seja, que não agrade a Deus, eu, com sua ajuda, quero arrancá-la a todo custo!”. 17 O sacerdote respondeu-lhe que, no momento, nada via, contudo não deixaria de alertá-lo ao perceber algum sinal. Com essa garantia, o dócil religioso acalmou-se completamente.

Sua curta existência foi pontilhada de atos admiráveis, pois tudo praticava com espírito de inteira elevação e sublimidade: “Nossa perfeição não consiste em fazer coisas extraordinárias, mas em executar bem as ordinárias” 18, costumava dizer.

O último sorriso

Após um ano e meio de noviciado, em fevereiro de 1858, Gabriel deu início aos estudos para o sacerdócio, passando a morar finalmente no convento de Isola del Gran Sasso, onde viria falecer. Em 25 de maio de 1861, recebeu as ordens menores na Catedral de Penne. Pelos arcanos desígnios da Providência, porém, não chegaria a tornar-se presbítero.

No final desse mesmo ano, uma terrível tuberculose o acometeu. Ora, longe de impedir-lhe o avanço nas vias da virtude, a fatal enfermidade servia-lhe para escalar com mais rapidez os píncaros da santidade. Deus dispôs que ele fosse sendo consumido aos poucos pela doença, para aumentar-lhe os méritos e dar aos outros ocasião de se edificarem com seu exemplo.

No leito de morte, restava-lhe ainda enfrentar o pior drama da sua vida: os derradeiros assaltos do demônio e a terrível provação decorrente de uma “noite escura da alma”. 19 Entretanto, também dessa última prova saiu vencedor. O sacerdote que lhe prestava assistência na hora suprema ouviu-o repetir três vezes, em curtos intervalos de tempo, esta frase de São Bernardo, pela qual ele reconhecia diante de Deus sua própria fraqueza: “Vulnera tua, merita mea. Meus méritos são vossas chagas, Senhor!”. 20

Na manhã de 27 de fevereiro de 1862, com o coração transbordante de alegria, as mãos cruzadas sobre o peito, apertando o crucifixo e a imagem da Virgem Dolorosa, Gabriel sorriu pela última vez, extasiado, ao contemplar com os olhos da alma Aquela a quem servira na Terra com tanta doçura. O “santo do sorriso” tinha, então, apenas 24 anos de idade.

São Gabriel de Nossa Senhora das Dores continua sendo, para a juventude atual, um inapreciável exemplo de renúncia intransigente ao pecado, de amor entusiasmado à Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo e de devoção entranhada a Maria Santíssima.

1 SALVOLDI, Valentino. San Gabriele dell’Addolorata. Gorle: Velar, 2007, p.22.
2 SÃO GARIEL DE NOSSA SENHORA DAS DORES. Carta a seu pai, em 15/11/1857, apud FUENTE, CP, Valentín. San Gabriel de la Dolorosa. Madrid: El Pasionario, 1973, p.45.
3 ARTICOLI COLLEGATI. Il santo. In: Sito web di Santuario San Gabriele dell’Addolorata: www.sangabriele.org.
4 ARTICOLI COLLEGATI. La vita. In: Sito web di Santuario San Gabriele dell’Addolorata, op. cit.
5 FUENTE, op. cit., p.31.
6 BERNARD, CP, R. P. Vie du Bienheureux Gabriel de l’Addolorata. 4.ed. Paris: Mignard, 1913, p.80.
7 Idem, p.32.
8 Idem, ibidem.
9 ARDERIU, José. Modelos de santidad. San Gabriel de la Dolorosa. 4.ed. Barcelona: Balmes, 1960, v.II, p.114-115.
10 FUENTE, op. cit., p.57.
11 ARTICOLI COLLEGATI, La vita, op. cit.
12 ARDERIU, op. cit., p.115.
13 ECHEVERRÍA, Lamberto de. San Gabriel de la Dolorosa. In: ECHEVERRÍA, Lamberto de, LLORCA, Bernardino, REPETTO BETES, José Luís. (Org.). Año Cristiano. Madrid: BAC, 2003, v.II, p.575.
14 ARDERIU, op. cit., p.116.
15 ECHEVERRÍA, op.cit., p.576.
16 FUENTE, op. cit., p.212218.
17 Idem, p.223
18 ARTICOLI COLLEGATI, La vita, op. cit.
19 Assim denomina São João da Cruz as terríveis provas interiores atravessadas pela alma que procura alto estado de perfeição. Cf. SÃO JOÃO DA CRUZ. Noche. 1, 8. In: Obras completas. Madrid: Espiritualidad, 1957, p.524.
20 BERNARD, op. cit., p.283.

Um minuto de reflexão

Ir. Juliane Campos, EP

Deus está sempre à espreita, esperando o momento para levar as almas dos pecadores à conversão. “Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir minha voz e me abrir a porta, entrarei em sua casa e cearemos, eu com ele e ele comigo” (Ap 3,20).

Deus criou o homem na total contingência, na dependência dEle, mas quer a cooperação humana no processo de sua salvação. Quer que o homem coloque seu amor para que frutifique a graça divina.

Embora Deus conceda a graça suficiente às almas, muitas vezes espera que estas cheguem ao mais fundo da miséria para lhes fazer ver, com uma graça fulminante, a enormidade de seus erros e pecados, pois o homem, por si mesmo, não pode sair do pecado.

Foi só quando desceu tanto, a ponto de querer alimentar-se com as bolotas dos porcos, que o filho pródigo da parábola, movido por uma graça, caiu em si e quis voltar à casa paterna.

Portanto, a graça para o ressurgimento do pecado é uma iniciativa de Deus.Toda conversão é fruto de uma graça, da ação do Espírito Santo. Ele fala a cada um segundo as suas necessidades; ora com majestosa severidade, ora com uma suavidade materna. Mas, nunca mente; sempre auxilia.

O Senhor não retarda o cumprimento de sua promessa, como alguns pensam, mas usa da paciência para convosco. Não quer que alguém pereça, ao contrário, quer que todos se arrependam” (2Pd 3,9).

O Todo-Poderoso fez-se todo-debilidade

Ir. Clara Isabel Morazzani, EP

O Império Romano havia atingido um auge de progresso, mas também se afundara num abismo de decadência moral. E o mundo civilizado não encontrava solução para seus problemas. Um frágil Menino veio trazer a luz à terra.

Muito se tem falado da grandeza e do esplendor da antiga Roma… e não sem razão. Basta fazer uma rápida visita à Cidade Eterna, percorrer os foros, admirar as gigantescas ruínas das Termas de Caracalla, contemplar por alguns momentos o Coliseu ou parar diante do famoso Pantheon, cujas proporções arquitetônicas deixam extasiados os especialistas modernos, para dar-se conta dos inúmeros dons de inteligência e organização com os quais foi aquinhoado o povo romano. Soube ele fazer uso de suas capacidades naturais. Unindo ao espírito empreendedor uma rara subtileza, impôs-se às outras nações, quase todas afundadas na completa barbárie, e instalou uma civilização a seu modo: floresceram o cultivo dos campos e a criação de rebanhos, surgiram as construções sólidas, as cidades populosas, as estradas seguras. A pax romana estendeu-se por toda parte, até os extremos limites do Império. Olhando para o caminho percorrido, os romanos podiam sentir uma compreensível ufania por ter atingido um auge de cultura, riqueza e poder.

O egoísmo era a lei que regia as ações do homem

Contudo, a realidade desse quadro — pintado por alguns entusiastas como Sêneca, Plinio e Plutarco — aparece-nos bem diferente ao considerarmos, em seus detalhes, a decadência social e moral do mundo romano de então. Por debaixo de todos aqueles esplendores latejava uma profunda miséria. Roma tornara-se, não a rainha, mas a tirana da humanidade. Em toda parte acentuava-se o contraste entre a riqueza e a indigência, bem como o domínio despótico do forte sobre o fraco. O egoísmo era a lei que regia as ações do homem.

Por outro lado, uma imensa corrupção dos costumes se alastrava por todo o território dos césares. A existência dos cidadãos livres decorria numa ociosidade propícia a todos os vícios, na procura desordenada do luxo e dos prazeres. As crônicas da época nos descrevem algumas das diversões que tanto atraíam as turbas: orgias, corridas, lutas de gladiadores, comédias. O que mais agradava àquele povo embrutecido era ver correr o sangue humano; com freqüência, ele se mostrava exigente com os imperadores, se o espetáculo não era suficientemente sanguinário para causar-lhe o delírio.

Para compreender o estado de degradação e imoralidade em que soçobrava a sociedade antiga, basta lembrar a epístola de São Paulo aos romanos, na qual o Apóstolo recrimina os escândalos e abusos aos quais eles chegaram, por não terem procurado chegar a Deus através das criaturas.

Todos buscavam a felicidade onde ela não podia ser encontrada

Esta situação criava na Ásia, na África e na Europa uma atmosfera irrespirável. Tudo quanto os homens haviam desejado e conquistado deixava-lhes na alma um terrível vazio e até um pavoroso tormento. Nada conseguia acalmar seus apetites desregrados; corriam atrás da felicidade, mas buscavam-na onde ela não se encontrava e ao julgar havê-la achado, constatavam que ela não podia saciá-los. Todos sentiam pairar uma grande crise que ameaçava terminar numa ruína inevitável. Assim, o quadro das nações aparecia mergulhado em densas trevas e a História estava, por assim dizer, parada na muda expectativa de uma solução para tantos problemas.

Não faltavam, entretanto, almas boas que manifestavam sua inconformidade ante todos esses desvarios e conservavam uma vaga reminiscência da promessa, transmitida por Adão e Eva ao saírem do Paraíso, da chegada de um Salvador.

De onde poderia vir esse Esperado das nações? Acaso seria um sábio ou um potentado? Ou um príncipe, um general dotado de poder e força extraordinárias, capaz de dominar sobre toda a humanidade? Todos os olhos estavam ansiosamente à procura de alguém do qual pudesse vir o socorro…

O reino da graça, da bondade e da misericórdia

E eis que Deus, confundindo a sabedoria e a ciência deste mundo, mostrou-Se aos homens da forma como estes menos podiam imaginar: um bebê tenro, frágil, comunicativo, deitado sobre as palhas de uma manjedoura, sorrindo!

Ali, no fundo de um estábulo, na humilde cidade de Belém, está reclinada a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, feita Menino para Se colocar à nossa altura e à nossa disposição. Ele não vem convocar soldados, nem impor jugos, nem exigir tributos; não Se manifesta sob os fulgores da justiça punitiva que se revelara no Antigo Testamento. Pelo contrário, esse Deus todopoderoso faz-se todo-debilidade, a marca da realeza repousa agora sobre os De um frágil Menino surge a Igreja Católica, a ombros de um encantador mais bela e sólida instituição da História Recém-Nascido que abre graciosamente os braços e parece dizer, por entre seus infantis vagidos, o que mais tarde anunciará a todas as gerações: “Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores” (Mt 9, 13). Sim, é um reino que Ele vem implantar, mas este será o reino da graça, da bondade e da misericórdia.

Oh! que a humanidade inteira, cansada e sobrecarregada pelo peso de seus pecados, venha prostrarse diante desse esplêndido presépio no qual se encontra não só o feno dos animais, mas também o alimento dos Anjos! Que o homem velho se despoje das ações das trevas e corra para adorar, enternecido, a Divina Criança que lhe traz a luz!

No meio da noite escura e fria, um mundo novo começa a surgir em torno da sagrada gruta onde vela José abismado em profundo respeito, ora Maria em maternal contemplação e dorme o Menino em paz celestial…