Um convite à admiração

Ir. Mariella Antunes, EP
4° Ano Ciências Religiosas

No meio de uma fria noite de inverno, longe de qualquer penumbra de luz, um violento estampido de canhão acorda os soldados exaustos pela longa batalha do dia anterior. Por um forte bradar do general, convocando-os à luta, os batalhões se formam antes mesmo do nascer do sol. Recomeça a guerra. Que sentimentos não pulsam nos corações destes varões que estão dispostos a dar a vida em prol da Santa Igreja instituída por Nosso Senhor Jesus Cristo?

Um dos soldados, com uma arma na mão direita e o Rosário da Santíssima Virgem na esquerda, recita em voz alta os mistérios gloriosos para infundir ânimo e a certeza da vitória em seus companheiros. Outro entoa hinos de louvores Àquela que é “terrível como um exército em ordem de batalha” (Cant 6, 10)

De súbito, um forte vento afasta a neblina da noite, e torna-se possível a visualização do nascer do astro rei, o Sol. Que consolo para aquelas almas fatigadas que lutaram na escuridão! Porém, mais do que um consolo, eles podem, por alguns instantes, afastarem-se daquele problema atual para contemplar a obra de arte por excelência; como afirmam alguns teólogos: o nascer do Sol é delineado pelos próprios Anjos.

Imaginemos Luis XIV, o rei sol na sua grandeza. Longe de repelir os camponeses que dele se acercavam, atraía-os convidando a admirar sua magnanimidade. Assim é também o astro rei: grande e imponente, não repele, mas atrai tanto a admiração que um poeta, vendo sua grandeza e poder para emprestar a cada objeto uma beleza que ele, de si, jamais haveria de ter, exclamou: “O Soleil! toi sans qui les choses ne seraient que ce qu ‘elles sont” – Oh, sol! Sem ti as coisas não seriam senão o que elas são. 1

Ah, se as cores e as formas pudessem falar, se a harmonia gradual das tonalidades diversas no céu produzissem sons, que bela sinfonia! Nossa natureza gosta daquilo que eleva a alma, nossos olhos gostam de contemplar aquilo que ultrapassa nossos sentidos.

Erguendo o olhar para além das brumas que caracterizam a vida neste vale de lágrimas, podemos também fixar nossa atenção em Maria, a Estrela que anunciou o Sol da justiça, Jesus Cristo nosso Salvador. A esta luz devemos nos entregar, pois por meio das graças que d’Ela se emanam, é que seremos verdadeiramente aquilo para o qual Deus nos chamou. Com efeito, cheios de gratidão bem poderíamos dizer: “O luz!, eu vos seguirei custe o que custar: pelos vales, montes, desertos e ilhas; pelas torturas, pelos abandonos e olvidos, pelas perseguições e tentações, pelos infortúnios, pelas alegrias e triunfos. Eu vos seguirei de tal maneira que, mesmo no fastígio da glória, não me incomodarei com ela, porque só me preocuparei convosco. Eu vos vi, e até ao Céu não desejarei outra coisa, porque, uma vez, vos contemplei”. 2

Não desprezemos as belezas naturais, antes tiremos delas lições para nossa vida. De fato, elas são um reflexo de nosso Criador e, ao contemplarmos um nascer de sol, bem podemos fazer a seguinte consideração: “Deus, Pai de toda a luz, soberanamente bom e belo, Sua beleza atrai nosso entendimento, para que O contemple, e Sua bondade atrai nossa vontade para que O ame. Como Belo, ao encher nosso entendimento de delícias, derrama seu amor em nossa vontade; como Bom, ao encher nossa vontade de seu amor, excita nosso entendimento a contemplá-Lo. O amor nos provoca a contemplação e a contemplação o amor; de onde se segue que o êxtase e o arrobamento dependem totalmente do amor; porque é o amor que move o entendimento à contemplação e a vontade à união”. 3

1ROSTAND, Edmund. Himne au Soleil. In: Chantecler. Paris: Fasquelle, 1928, P. 26.
2 CORREA DE OLIVEIRA, Plinio. Na vossa luz veremos a luz. In: Dr. Plinio. Sao Paulo, Ano VII, n. 80, p. 36.
SAO FRANCISCO DE SALES. Tratado del amor de Dios. In: Statveritas.com.ar. p. 9

Uma ideia sobre “Um convite à admiração

  1. Todos os artigos que tenho lido desse Instituto Teológico, devo dizer que tem muita profundidade teológica, doutrinaria, sempre procurando uma conotação, onde entra um lado belo, verdadeiro, e bom, ou seja, a doutrina aliada ao maravilhoso, ou seja levar as almas à amarem mais a Deus.
    Carlos Rogério

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