Beleza quase paradisíaca

Ir. Allana Neves Colati, EP

Dentre as distintas paisagens criadas por Deus e espalhadas pelo mundo, há algumas que nos enchem de admiração. Como não se encantar com as águas, ora azuis, ora verdes, dos mares tropicais? Ou com o níveo manto que recobre as regiões mais frias do planeta? Mas quiçá seja o outono nos bosques do Hemisfério Norte um dos mais extraordinários espetáculos que a natureza nos pode oferecer.

Nesta estação do ano, a temperatura começa a descer, tornando o bosque mais calmo e silencioso. Aproxima-se o inverno, sempre rigoroso naquelas regiões, mas, paradoxalmente, a fascinante coloração que tomam as folhas das árvores nesta época reveste a paisagem com um manto de vitalidade.

Elas têm diferentes formatos, tamanhos e tonalidades: algumas suavemente rosadas, outras, intensamente rubras ou resplandecentes como ouro. E compõem um lindo conjunto, que adquire cores muito variadas segundo o local, a perspectiva ou a iluminação do dia.

Tão maravilhosa cena, porém, não dura muito… Logo as folhas que irradiavam aquele glorioso esplendor são levadas ao léu por uma súbita rajada de vento ou secam e caem, para depois – como tudo na vida – desaparecerem.

Se no auge de sua magnificência uma dessas árvores, carregada de estupenda folhagem, fosse capaz de pensar, ao sentir uma brisa intensa e rápida a sacudir-lhe os ramos, poderia se perguntar:

– Será sinal da tempestade que se aproxima?

O vento frio, ainda suave, indica que a frágil vida das formosas folhinhas outonais está chegando ao fim… Em pouco tempo ele se transforma em uma forte ventania, que agita a árvore, sem interrupção, durante vários minutos.

Inicia-se, então, a segunda etapa do espetáculo, que já não tem mais por cenário as alturas admiráveis dos galhos, mas o prosaico solo. Ali aquelas folhas de feéricas cores, desligadas do tronco que as alimentava e as mantinha com vida, ornam nobremente a grama, compondo sobre ela um tapete de singular colorido. Dir-se-ia que elas aproveitam seus últimos haustos de vida para concluir a missão que Deus lhes dera: irradiar, no fim de sua existência, uma forma de beleza quase paradisíaca que, sob certo aspecto, supera à da primavera.

Revista Arautos do Evangelho, Abril 2015

O dom do Sagrado Coração de Jesus

Ir Camila Cordeiro da Fonseca, EP

No Evangelho escrito por São Marcos nos deparamos com o seguinte trecho: “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mc 8, 34).

À primeira vista, poderíamos ter um sobressalto com essa afirmação. De fato, absolutamente falando, abraçar o sofrimento e suportar as adversidades e provações não é fácil para ninguém. Há muitos cristãos que se transviam do caminho da virtude e desanimam… Entretanto, se confiassem no poder e na misericórdia infinitos do Sagrado Coração de Cristo Jesus, que possui tesouros incomensuráveis para distribuir a todos os homens, a prática da virtude seria mais estável e sólida. “Se a cruz de todos os dias lhes parece pesada, esquecem-se de que Jesus carregou primeiro a d’Ele, sem recuar, sem desfalecer, sem a largar à beira do caminho, mesmo quando caiu sob o peso dela…”1 Lemos ainda: “então O levaram para crucificá-lo [a Jesus Cristo]. Os soldados obrigaram alguém que lá passava voltando do campo, Simão de Cirene, […] a carregar a cruz” (Mc 15, 20-21).

Ora, “Jesus teve um Cireneu, que O ajudou a levar a cruz. Não nos esqueçamos de que nós temos um Divino Cireneu, que está disposto a todo o momento a nos ajudar a carregar a cruz: basta que lhe peçamos auxílio; basta ter confiança n’Ele”.2

Deste modo, exprimiu-se João Paulo II à humanidade, fazendo referência ao Sagrado Coração de Jesus: “Em seu Coração encontrará paz e descanso; ali, sua dúvida se transformará em certeza; a ânsia, em quietude; a tristeza, em alegria; a perturbação, em serenidade”.3 E prosseguiu: “Ali encontrará alívio para a dor, força para superar o medo, generosidade para não render-se ao envilecimento e para retomar o caminho da esperança”.4

Em uma das aparições a Santa Faustina Kowalska, Nosso Senhor lhe disse: “Fica sabendo, minha filha, que o meu Coração é a própria Misericórdia. Desse mar de misericórdia, derramam-se graças pelo mundo todo. Nenhuma alma que de Mim se tenha aproximado, saiu sem consolo”.5 E, em várias outras ocasiões, Jesus lhe transmitia palavras inundadas de amor: “Meu Coração está repleto de grande misericórdia para com as almas, e especialmente para com os pobres pecadores”.6 Também lhe demonstrava um de seus atributos, a paternalidade: “Oh! Se pudessem compreender que Eu sou para eles o melhor Pai, que por eles jorrou do meu Coração o Sangue e a Água como de uma fonte transbordante de misericórdia”.7

Imagem do Sagrado Coração de Jesus na igreja de Monte Carmelo

Imagem do Sagrado Coração de Jesus na igreja de Monte Carmelo

A muitas outras almas o Divino Coração de Jesus se revelou, entre elas à Soror Josefa Menéndez 8: “Pouco Me importam misérias, o que quero é o amor. Pouco Me importam fraquezas, o que quero é confiança”.9 Certa vez, manifestou a esta freira que não é o pecado que mais fere seu adorável Coração, por incrível que pareça; “o que O despedaça é não quererem as almas refugiar-se em Mim depois de o terem cometido”.10

Não há, pois, motivo para os homens ficarem desanimados e caírem no desespero. Nosso Senhor já conhece todas as nossas misérias e debilidades, e, mesmo assim, nunca diminuiu seu amor por ninguém, apesar das inúmeras ocasiões que Lhe dão motivo para isso.11 Bem afirmou Mons. João em certa ocasião:

Nós devemos ter em relação ao Sagrado Coração de Jesus uma inteira, completa e absoluta confiança, porque Ele nos ama com um amor insuperável! Ele nos ama com um amor que é divino e humano ao mesmo tempo. E, portanto, Ele se derrete de querer fazer bem a nós. E daí o fato de que, quando nós recorremos a Ele, e recorremos com confiança, é certo, certíssimo que Ele nos atende.12

1 MARTINS TERRA, João Evangelista apud CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Sagrado Coração de Jesus: tesouro de bondade e de amor. São Paulo: Parma, 2002, p. 4.
2 JOÃO EVANGELISTA MARTINS TERRA apud CLÁ DIAS, João S. Sagrado Coração de Jesus: tesouro de bondade e de amor. São Paulo: Parma, 2002, p. 4.
3 JOÃO PAULO II apud DUFOUR, GÉRARD. Na escola do Coração de Jesus com João Paulo II. [s.l.]: Loyola, 1990, p. 110.
4 Loc. cit.
5 KOWALSKA, Maria Faustina. Diário: a Misericórdia Divina na minha alma. Trad. Mariano Kawka. 41. ed. Curitiba: Apostolado da Divina Misericórdia, 2015, p. 428.
6 Ibid., p. 127.
7 Loc. cit.
8 Soror Josefa Menéndez foi uma religiosa espanhola do século XIX que recebeu várias aparições do Sagrado Coração de Jesus e de Nossa Senhora, dizendo-lhe de modo especial sobre a misericórdia. Ela as escreveu em um livro, chamado “Apelo ao Amor”.
9 MENÉNDEZ, Josefa. Apelo ao Amor. 3 ed. Rio de Janeiro: Rio-S. Paulo, [1952], p. 293.
10 Ibid., p. 291.
11 Cf. CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Manancial inesgotável de bondade. In: O inédito sobre os Evangelhos. Comentários aos Evangelhos dominicais — Ano C — Domingos do Advento, Natal, Quaresma e Páscoa. Città Del Vaticano: Libreria Editrice Vaticana; São Paulo: Lumen Sapientiae, 2012, v. V, p. 440.
12 Id. O amor do Sagrado Coração de Jesus: Conversa. São Paulo, 18 jun 2009. (Arquivo IFTE)

A luz resplandece nas trevas

Ir. Letícia Gonçalves de Sousa, EP

Há certas horas da noite em que as trevas parecem estender seu reinado por toda a parte. As alegrias e vivacidades do dia são substituídas por uma densa obscuridade, pervadida de silêncio e carregada com o pesado fardo da incerteza e do perigo. Perante ela poder-se-ia perguntar: terá triunfado definitivamente a escuridão sobre a luz?

A resposta, porém, está na espera… Em determinado momento, uma tênue réstia de luz quebra o negrume da noite e uma claridade suave começa a desvendar as belezas da criação. É a aurora que chega, anunciando o dia!

Não obstante, existem trevas muito mais densas e terríveis do que as da noite: são as do pecado, que passaram a dominar o mundo depois da culpa original. E para vencê-las foi preciso também esperar, durante séculos!… Até que “a luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela” (Jo 1, 5).

Quando tudo parecia imerso nas sombras da morte, nasce “a verdadeira luz” (Jo 1, 9), Deus feito Homem, o Cordeiro Imaculado posto nas palhas de um Presépio, para redimir o gênero humano e vencer as trevas do pecado.

“Na mais feliz noite da História, os atributos de Deus se tornaram menos impenetráveis para nós. Jesus, além de externar a grandeza de sua onipotência, elevando o homem à divinização pela graça, pôde dizer-Se impecável: ‘Quem de vós Me acusará de pecado?’ (Jo 8, 46). […] Essas dádivas todas começaram seu curso na Gruta de Belém, trazidas pelo Menino Deus, coberto não só pelo estrelado manto da noite, como também por um véu de mistério”.1

E que mistério!… Mesmo depois de consumada a Redenção, quis Ele deixar sua luz a refulgir por todos os tempos na Santa Igreja Católica Apostólica Romana. Ela é a dispensadora das graças, pelos Sacramentos, e transforma as almas mais gélidas e obscuras em autênticos faróis de santidade. É ela que matiza o céu da História, ora com as luzes da inocência, ora com a brilhante púrpura do sofrimento, ora com o lilás das almas penitentes.

Que nela fulgure sempre a luz de Cristo, e que Maria Santíssima, Mãe da Igreja, ao trazer ao mundo a aurora da salvação, obtenha a graça de que sua ação se estenda pelos quatro cantos da Terra, conquistando todos os povos para seu Divino Filho, que veio como “luz para iluminar as nações” (Lc 2, 32).

1 CLÁ DIAS, EP, João Scognamiglio. Eternidade feliz. In: O inédito sobre os Evangelhos. Comentários aos Evangelhos dominicais. Domingos do Advento, Natal, Quaresma e Páscoa – Solenidades do Senhor que ocorrem no Tempo Comum. Ano A. Città del Vaticano-São Paulo: LEV; Lumen Sapientiæ, 2013, v.I, p.120.

Revista Arautos do Evangelho – Dezembro 2014

Via contemplativa: um chamado especial?

Ir. Ariane Heringer Tavares, EP

Como atingir uma total união com Deus? Será este um caminho disposto pela Providência somente para aquelas almas muito eleitas, chamadas a uma vocação especial?

Conforme os ensinamentos de diversos teólogos, todas as almas em estado de graça são chamadas à contemplação infusa, ou seja, a um convívio celestial, possuindo uma centelha da bem-aventurança de que gozam os justos no Céu. Aqui na terra, contempla-se a Deus como em um espelho. Somente no céu O “veremos como Ele é” (I Jo 3, 2). Com efeito,“não é que a graça da contemplação se dê aos grandes e não aos pequenos, senão que, com frequência, a recebem ambos; mais frequentemente os retirados e, algumas vezes, os casados”.1 Logo, não há estado algum entre os fiéis que possa ficar excluído desta graça, seja na tranquilidade de um claustro ou em meio às atividades da vida secular.

Isso se explica pelo fato de que todos os batizados, ao se tornarem participantes da natureza divina, recebem a graça santificante juntamente com as virtudes e os dons, que se desenvolvem com a caridade. Ora, segundo São Tomás de Aquino, “a vida contemplativa não se ordena a um amor qualquer a Deus, mas ao amor perfeito”.2 Portanto, é a virtude da caridade levada ao pleno desenvolvimento. Nesta perfeição de amor é que terá origem a fecundidade das ações próprias à vida ativa.

Ademais, é um bem que deve ser desejado e que não se nega àqueles que o procuram: “Se não fosse geral este convite, não nos chamaria o Senhor a todos, e ainda que chamasse, não diria: ‘Eu vos darei de beber’. […] Mas, como disse, […] a ‘todos’, tenho por certo que a todos os que não ficarem pelo caminho não lhes faltará esta água viva”.3

Recolhimento: conditio sine qua non…4

Entretanto, para que de fato a Santíssima Trindade faça dos homens a sua morada e os cumule com esta insigne predileção, se requerem algumas disposições espirituais, independentes do estado de vida em que se encontrem.

Além de um profundo desapego das coisas concretas, de uma inteira humildade e pureza de coração e da prática habitual das virtudes, é indispensável ainda outro fator que constitui condição indispensável para o desenvolvimento da vida contemplativa: o recolhimento. “Assim como a dissipação repele os bens divinos ou dificulta sua saudável influência, assim o recolhimento os atrai até nós e favorece sua eficácia”.5

Antes de tudo, é preciso esclarecer que recolhimento não é sinônimo de solidão ou silêncio. Estes são fatores que o tornam propício, mas não se confundem com ele. O recolhimento consiste, mais do que numa atitude exterior de afastar-se das ocupações do dia-a-dia, num estado de espírito que nada pode perturbar. “Uma alma recolhida é, pois, uma alma retirada das criaturas e que busca a Deus, sua vontade e seus desejos para conformar-se com Ele em tudo”.6

É um contínuo estado de oração no qual, mesmo em meio às mais diversas atividades, o coração e a mente estão sempre voltados para o sobrenatural. Em meio à dissipação e à agitação, dificilmente se poderá ouvir o chamado e as inspirações que o Espírito Santo sopra em nossas almas. “O silêncio da alma e dos sentidos exteriores é ‘a ajuda que prestamos a Deus para que Ele se comunique a nós’”.7 Mesmo os pecadores mais empedernidos, quando aprendem a ouvir essa voz interior, iniciam um processo de conversão que pode elevá-los aos altos píncaros da santidade, como narra Santo Agostinho em suas Confissões: “Eis que estavas dentro de mim e eu fora Te procurava. […] Chamaste, clamaste e rompeste minha surdez”.8

Além de atrair para a alma todos os bens celestiais, o recolhimento é o melhor meio de fazê-los frutificar. Ele é como um motor para as boas obras, como o caule que liga o fruto à videira, visto que nos coloca em contato com o Onipotente e nos faz trabalhar tendo em vista não as criaturas, mas unicamente a glória de Deus.

A pessoa que assim procede alcança rapidamente a santidade e tem sua vida transformada:

[…] Outrora tinha as suas horas de meditação e oração; agora a sua vida é uma oração perpétua; quer trabalhe quer se recreie, quer esteja só ou acompanhada, incessantemente se eleva para Deus, conformando sua vontade com a d’Ele: ‘quae placita sunt ei facio semper’ (Jo 8, 29) [“Eu faço sempre aquilo que é do seu agrado”]. E esta conformidade não é para a alma senão um ato de amor e entrega total nas mãos de Deus; as suas orações, as suas ações comuns, os seus sofrimentos, as suas humilhações, tudo está impregnado de amor a Deus.9

Não nos faltam exemplos de como as comunicações divinas se fazem sentir sobretudo nos momentos de recolhimento e de como este leva a frutificar os dons recebidos na contemplação. Entre os inúmeros fatos que nos narram as Sagradas Escrituras, dois são especialmente dignos de nota.

Em primeiro lugar, tomemos os quarenta dias de retiro sobre o Monte Sinai. Antes de firmar com o povo de Israel a Aliança definitiva, em que se realiza a entrega das tábuas da Lei contendo o Decálogo, o próprio Deus convida a Moisés para que suba para junto d’Ele: “Sobe para mim ao monte e deixa-te estar aí” (Ex 24, 12). Exige o Senhor que seu servo se prepare e esteja à altura da missão de que será portador. Para isso, deseja que ele suba, ou seja, que se afaste das coisas terrenas. Moisés sobe, mas somente depois de sete dias de recolhimento o Senhor lhe dirige a palavra. “E, entrando Moisés pelo meio da nuvem, subiu ao monte, e lá esteve quarenta dias e quarenta noites” (Ex 24, 18).

Somente depois de quarenta dias de retiro e contemplação lhe são entregues as tábuas da lei…

Outro relato nesse sentido é a preparação para a descida do Espírito Santo. Consta nos Atos dos Apóstolos que, após a ascensão de Jesus, os discípulos voltaram para Jerusalém e se reuniram no Cenáculo. Muitos deles ainda julgavam que aquele seria o momento da implantação do reino político do Messias e que obteriam com isso uma grande glória mundana.10 No entanto, apesar desse estado de espírito infelizmente reinante, é preciso reconhecer que estavam ali reunidos à espera do batismo de fogo que, segundo as palavras do Mestre, receberiam dentro de alguns dias.

Por isso, “todos estes perseveravam unanimemente em oração, com as mulheres, e com Maria, a Mãe de Jesus” (At 1, 14). Assim, a graça tinha meios para atuar e preparar suas almas para o precioso Dom que receberiam e em virtude do qual expandiriam a Igreja de Cristo por toda a terra. “Estavam recolhidos, modo excelente de preparação para os grandes acontecimentos”11. Passaram-se dez dias de contínua oração até o cumprimento da promessa de Nosso Senhor. “Em geral, Cristo ressurrecto escolhia oportunidades como estas — de reflexão e compenetração da parte de todos — para lhes aparecer, assim como o Espírito Santo para lhes infundir seus dons”.12

Passados esses dias de contemplação, os apóstolos retomaram novamente suas atividades e, através desse recolhimento regenerador, foram assumidos por um entusiasmo e um fogo que antes não possuíam.
Donde destacarmos a necessidade da contemplação para o sustento da vida espiritual, conceito tantas vezes esquecido nos dias atuais, tão penetrados pelo ateísmo e pelo pragmatismo.

[1] ROYO MARÍN, Antonio. Op.cit. p. 454: “[…] no es que la gracia de la contemplación se dé a los grandes y no a los pequeños, sino que con frecuencia la reciben los grandes y con frecuencia los pequeños; más frecuentemente los retirados y alguna vez los casados”. (Tradução da autora)
[2] SÃO TOMÁS DE AQUINO. Summa Teologiae, II-II, q.182, a. 4, ad 1: “[…] vita contemplativa non ordinatur ad qualemcumque Dei dilectionem, sed ad perfectam”. (Tradução Loyola. Doravante se utiliza sempre esta tradução para esta obra)
[3] SANTA TERESA DE JESUS. Camino de perfección. C. 19, 15. In: Obras completas. 9. ed. Madrid: BAC, 2006, p. 319: “Si no fuera general este convite, no nos llamara el Señor a todos, y aunque los llamara, no dijera: ‘Yo os daré de beber’. […] Mas como dijo, […] ‘a todos’, tengo por cierto que todos los que no se quedaren en el camino, no les faltará esta agua viva”. (Tradução da autora)
[4] Condição indispensável. (Tradução da autora)
[5] ROYO MARÍN, Antonio. La vida religiosa. Madrid: BAC, 1975, p. 442: “Así como la disipación rechaza los bienes divinos o dificulta su saludable influencia, así el recogimiento los atrae hacia nosotros y favorece su eficacia”. (Tradução da autora)
[6] Ibid. p. 439: “Un alma recogida es, pues, un alma retirada de las criaturas y buscando a Dios, su voluntad y sus deseos, para conformarse a Él en todo”.(Tradução da autora)
16 M-BRUNO. Op. cit. p.30: “Le silence de l’âme et des sens extérieurs est ‘l’aide que nous prêtons à Dieu pour qu’Il se communique à nous’”. (Tradução da autora)
[8] SANTO AGOSTINHO. Confissões. Madrid: BAC, 2013, p. 385: “Et ecce intus erat et ego foris, el ibi te quaerebam […]. Vocasti et clamasti et rupisti surditatem meam”. (Tradução da autora)
[9] TANQUEREY. Op. cit. p. 613-614.
[10] A Autora se lembra de ter ouvido este comentário de Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias inúmeras vezes, em diversas homilias, nas missas celebradas diariamente para seus filhos espirituais na Basílica de Nossa Senhora do Rosário, Caieiras, São Paulo.
[11] CLÁ DIAS, João Scognamiglio. E renovareis a face da Terra. O inédito sobre os Evangelhos. Comentários aos Evangelhos Dominicais. Advento, Natal, Quaresma e Páscoa – Ano A. Città del Vaticano – São Paulo: LEV; Lumen Sapientiae, 2012, v. I, p. 398.
[12] Ibid. p. 407.

Audiência na corte celeste

Ir.Lays Gonçalves de Sousa, EP

Continuação do post anterior

“Os céus proclamam a glória do Senhor e o firmamento as obras de suas mãos!” (Sl 18,2) Ao contemplar uma noite de céu estrelado, um belo nascer do sol, o colorido da natureza, ou ainda, o vai e vem elegante das ondas do mar, facilmente o pensamento humano voa ao Criador de tantas maravilhas.

Que terá Deus criado de mais excelente? Poderíamos imaginar um astro esplêndido, desconhecido pelos homens e, quiçá, pelos Anjos. Qual seria a intensidade de seu brilho? De uma luminosidade superior a milhões de sóis e constelações inteiras, seria um astro que só despontaria no firmamento a cada mil séculos, sendo reservado apenas para a contemplação e gozo do Soberano Criador. Se Deus permitisse vermos a beleza posta nesta criatura mítica, certamente não haveria um só homem na face da Terra que não se encantaria com sua formosura.

Pois bem, este astro luminoso não é outro senão Maria Santíssima, apreciada com veemência no Cântico dos Cânticos: “Quem é esta que surge como aurora, bela como a lua, brilhante como o sol, terrível como um exército em ordem de batalha?” (Ct 6,10).

Medianeira e Distribuidora Universal de todas as graças

Para compreendermos melhor o papel de Nossa Senhora, é preciso salientar sua posição enquanto Medianeira.

O conceito de mediador esteve presente na História desde tempos longínquos. De fato, a função dos Patriarcas e sacerdotes no Antigo Testamento era servir de elo entre o Criador e as criaturas. Atesta a própria Escritura a necessidade imprescindível de um defensor: Moisés intercedeu, no Sinai, pelo povo eleito (cf. Ex. 32, 7- 14); José, junto ao Faraó, em defesa de seus irmãos (cf. Gn. 47,1-2); Ester, em favor de seu povo, conseguindo tudo o que desejava (cf. Est. 7, 3).

Nas palavras de São Tomás, “é ofício próprio do mediador unir aqueles entre os quais se interpôs; pois os extremos se unem no meio”. 1

Com outros termos, explica Mons. João:

Pode ser que um inferior, chamado a se unir a um superior, eleja um mediador, para que o aproxime mais do superior. E esse mediador irá agir, irá fazer gestões, no sentido de que o inferior aspire mais pelo superior, e o superior se abra mais ao inferior. 2

Sabemos pelos escritos de São Paulo que “há um só mediador entre Deus e os homens: Jesus Cristo homem, que se entregou como resgate por todos” (ITm 2, 5-6). O sacrifício oferecido pelo Salvador reconciliou-nos com o Padre Eterno trazendo-nos, assim, a graça e a justiça, sem a qual ninguém poderia ser salvo. Entretanto, tal afirmação não impede a consideração de medianeiros secundários entre Deus e os homens, subordinados à mediação principal e perfeita, ou seja, a de Cristo.

Entre o Padre Eterno e a criação, existe o Homem-Deus: inteiramente Deus, como as outras Pessoas da Santíssima Trindade; tão homem quanto cada um dos descendentes de Adão. Resta, contudo, um tal abismo separando Nosso Senhor Jesus Cristo das demais criaturas, que a pergunta se impõe: na ordem das coisas não deveria haver outro ser que, ao menos de algum modo, preenchesse esse hiato? 3

Quem seria capaz de, apenas com um sorriso afável, conquistar a benevolência do Altíssimo, entregando-lhe míseras orações e comprando-nos os favores desejados? “Maria Santíssima é a única capaz de exercer esta função admirável”. 4

A criatura chamada a completar esse vácuo no conjunto da criação, a criatura excelsa, infinitamente inferior a Deus, mas ao mesmo tempo insondavelmente superior a todos os Anjos e a todos os homens de todas as épocas – é precisamente Nossa Senhora. […] Nossa Senhora é o grampo de ouro que une Nosso Senhor Jesus Cristo a toda criação, da qual Ela é o ápice e a suprema beleza. 5

São Bernardo compara a Santíssima Virgem a uma escada, pois, assim como não se sobe ao segundo degrau sem antes passar pelo primeiro, da mesma forma não podemos chegar a Jesus Cristo senão por Maria: “Filhinhos, esta é a escada dos pecadores, esta é a minha maior confiança, esta é toda a razão de minha esperança”. 6

Todos os benefícios que recebemos nos chegam pela intercessão de Maria! A razão é simples: “Porque Deus assim o quer. Tal é a vontade d’Aquele que dispôs que tudo tivéssemos por Maria”. 7

O famoso taumaturgo do século XX, Padre Pio de Pietrelcina, deixou-nos também um exemplo de ardoroso devoto de Nossa Senhora. Depois de Deus, dizia ele, era Ela “a grande veneração de sua vida”. 8 Com o enérgico temperamento que o caracterizava, afirmava continuamente: “Há pessoas tão tolas que pensam poder passar a vida sem o auxílio de Nossa Senhora”. 9

A fim de exortar os fiéis à devoção a Maria, contava uma saborosa historieta, a qual ilustra o quanto Ela ultrapassa as misérias humanas e é capaz de “povoar de santos os tronos vazios, que os Anjos apóstatas abandonaram e perderam por orgulho”.10 Eis suas pitorescas palavras:

Certo dia, Cristo passeava com São Pedro pelo Paraíso. Subitamente Ele notou a presença de vários indivíduos que Lhe pareciam totalmente deslocados naquele cenário.
– Olhe! – disse a São Pedro – Como estas pessoas conseguiram entrar?
– Não é minha culpa! – respondeu São Pedro – O Senhor deve perguntar a sua Mãe. Toda vez que Ela percebe que eu viro as costas, abre o portão e deixa todo mundo entrar! 11

A Mediação de Maria, como vimos, exerce grande influência sobre os homens. Ela conhece todas nossas necessidades, e incontáveis vezes Se adianta aos nossos pedidos. Quem seria capaz de expressar com palavras ou captar com a mente quão agradável é a Deus a oração de sua Mãe?

Gozando Ela da eterna bem-aventurança e participando do conhecimento de Deus, discerne no olhar do Altíssimo, como num espelho, as contínuas súplicas e necessidades dos homens, como também o desejo de Deus de socorrê-los por meio d’Ela. No convívio humano, há certas ocasiões em que o olhar profere sentenças mais sublimes que qualquer vocábulo. No céu, não passará o mesmo? O olhar de confiante súplica da Rainha dos Anjos é a perfeitíssima oração que socorre os degradados filhos de Eva, recebendo como agradável reposta o alcandorado e amoroso sorriso do Filho, impetrando, assim, as graças pedidas. 12

“Ah! Se eu pudesse publicar pelo universo esta misericórdia que tivestes comigo; se todo o mundo soubesse que, sem Maria, eu já estaria condenado […]”. Essa belíssima súplica de São Luís bem sintetiza a infinita clemência de Deus ao entregar-nos esta Arca preciosíssima. Ele estabeleceu entre Maria e os homens uma união indissolúvel, capaz de ultrapassar os séculos e percorrer as vastidões do mundo. Haveria algo superior? Com tal vínculo, quem não conquistará a Pátria Celeste? Qual filho não recorreria, através da oração, a essa Medianeira Onipotente?

1 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. III, q.26, q.1, ad 2.
2 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Aula de Cristologia no Centro Universitário Ítalo Brasileiro-Unítalo. São Paulo, 14 nov. 2007. (Apostila).
3 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plínio, apud CLÁ DIAS. Pequeno Ofício da Imaculada Conceição comentado. 2. ed. São Paulo: Associação Católica Nossa Senhora de Fátima, 2010. v. I. p. 79.
4 SÃO BERNARDO, apud SÃO LUÍS GRIGNION DE MONTFORT. Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem. 33. ed. Petrópolis: Vozes, [S. d.] n. 85. p. 90.
5 CORRÊA DE OLIVEIRA, apud CLÁ DIAS. Pequeno Ofício da Imaculada Conceição comentado. Op. cit. p. 79.
6 SÃO BERNARDO, apud SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO. Op. cit. p. 40.
7 Ibid. p. 39.
8 MCCAFFERY, John. Padre Pio: Histórias e Memórias. 4.ed. Trad. Rosângelo Paciello Pupo. São Paulo: Loyola, 2004, p. 215.
9 Loc. cit.
10 SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. Op. cit. n.28.p. 34.
11 MCCAFFERY. Op. cit. p. 215.
12 Cf. NEUBERT, apud ROYO MARÍN. La Virgen María. Op. cit. p. 202.
13 SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. Oração a Jesus. In: Preces. São Paulo: Retornarei, 2005, p. 207.

Deus Se oculta aos olhos de quem O ama? (cont)

Continuação do post anterior

Bruna Corrêa Salgado

A aridez espiritual, longe de ser sempre “sinal de falta de virtude, é, pelo contrário, em muitas ocasiões, efeito do amor especialíssimo que Deus tem àquelas almas que deseja elevar a grande perfeição, às quais quer pôr à prova e purificar dessa maneira”.1

Esta noite escura é um influxo de Deus na alma, que a purifica de suas ignorâncias e imperfeições habituais, tanto naturais como espirituais. […] Nela vai Deus em segredo ensinando a alma e instruindo-a na perfeição do amor, sem que a mesma alma nada faça, nem entenda como é esta contemplação infusa.2

É neste período que “mais facilmente nos purificamos das desordens de nossos afetos”3.

Podemos encontrar quatro razões pelas quais Deus prova a alma através das securas e aridezes: a primeira delas é para “nos desprender de tudo quanto é criado, até mesmo da doçura que se encontra na piedade, para aprendermos a amar a Deus só, e por Si mesmo”4. A segunda, para nos humilhar, mostrando-nos que não merecemos as consolações, que “são favores essencialmente gratuitos”.5 Outra razão é que com elas nos purificamos mais, “tanto das faltas passadas como das afeições presentes e de qualquer inclinação egoísta”.6 Por último, elas nos robustecem a virtude.7

Sendo assim, devemos confiar que “se Deus manda as provações, é com um fim determinado. Desde que o fim seja atingido, a provação perde a sua razão de ser”.8

Entretanto, essas são as horas em que Nosso Senhor está mais perto de nós, e com sua infinita bondade de Pai, nos diz:

Meu filho, chegou o momento da aridez e da dor, para provar se é capaz de ser fiel agora como o foi na alegria. Tudo lhe parece enfadonho, você tem a tentação de pensar continuamente noutra coisa, está fascinado por algo que não presta, e não lhe sai da cabeça. Estou lhe deixando longe do prazer que teve, porque desejo que você se dê inteiro. […] Mas tenha a convicção de que, depois da hora mais negra, semelhante à de uma morte, virá a ressurreição das alegrias de outrora, mais esplêndidas e maiores do que antes.9

Cornélio a Lápide, recordando um pensamento de São João Crisóstomo, afirma que “Deus costuma permitir que santos autores de grandes gestos heroicos sejam sujeitos a temores e tentações a fim de conservá-los na humildade e os obrigar a recorrer ao seu auxílio”.10 Esses períodos de provação fazem com que o homem se desapegue do que não é Deus, purificam a alma pelo sofrimento, movem-no a desejar o Céu e a perfeição que é o caminho para lá, contanto que ele tire proveito dessas provas para se voltar para Deus.11

Encontramos nas Sagradas Escrituras várias passagens nas quais Deus manda as provações a fim de nos emendarmos, pois Ele “jamais quer a morte do pecador, mas sim que se converta e viva” (Ez 33, 11). Assim, lemos no livro dos Provérbios: “Não desprezes, meu filho, as lições de teu Deus; nem te irrites quando Ele te repreender, pois o Senhor castiga aquele a quem ama, como a um filho querido” (Pr 3, 11-12). E São Paulo diz: “É para vossa emenda que sofreis a provação” (Hb 12, 7-10).

Quando o Menino Jesus desapareceu, Nossa Senhora e São José começaram logo a procurá-Lo e O encontraram-No templo. E nós, o que devemos fazer quando “percebemos que estamos sem graças sensíveis, sem aquilo que nos dava ânimo e sustentação para praticar a virtude?” Devemos “ir atrás do Menino Jesus, isto é, pôr-se à procura da graça sensível, quando ela se retirar […] [e] procurar Jesus no Santíssimo Sacramento”.12 Com efeito, “é nesses momentos preciosos que o Pai nos fala e nos ensina a ir ao encontro de seu Filho”.13

“Onde houver um tabernáculo, ali estará a origem de toda alegria, a solução de todos os males, a luz para qualquer caminho obscuro. Quem se aproxima do Santíssimo Sacramento e, mais ainda, quem comunga, recebe uma força espiritual superior às energias humanas”. 14

Quanto tempo passa Nosso Senhor sozinho no tabernáculo, à espera de alguém que se aproxime para rezar? Quantas vezes Ele não teria uma palavra a me dizer pelo simples fato de eu procurá-Lo nas horas das maiores angústias? E eu, entretanto, nem sequer pensei em buscá-Lo. Não fazemos ideia de que “ao receber nossa visita, Jesus estremece de alegria no Santíssimo Sacramento, ainda mesmo quando o seu visitante é um pecador, que Ele procura atrair a Si”. 15 Quando passamos diante do Santíssimo Sacramento, devemos pensar: “Lá está Ele preso. Ele sujeitou-Se a esta prisão porque quis, para ter a delícia de que eu fizesse diante d’Ele uma genuflexão dizendo, por exemplo, ‘Coração Eucarístico de Jesus, tende piedade de nós’”. 16

Que consolação [para] nós, com efeito, pensar que [Maria e José] compreendem experimentalmente os nossos sofrimentos e que cordialmente deles comparticipam! Que incentivo, sabermos que Deus não poupa os que mais ama e que muitas vezes a prova está longe de ser uma punição! 17

Em uma revelação à Santa Margarida Maria, Nosso Senhor, mostrando-lhe seu Coração ferido, disse-lhe: “Tenho uma sede ardente de ser amado pelos homens no Santíssimo Sacramento, e não encontro quase ninguém que se esforce, segundo o meu desejo, para Me desalterar, usando para comigo de alguma paga!”.18 O Divino Redentor, do fundo do tabernáculo, “clama a todos aqueles que sofrem, que estão necessitados, desgraçados: ‘Vinde a mim e Eu vos aliviarei’. […] É sempre o bom Pastor a amar suas ovelhas, a nutri-las com sua Carne e com seu Sangue”. 19

Como Bom Mestre, Ele aponta o caminho do Céu, sendo “sempre o Salvador em estado de imolação, oferecendo-Se sem cessar ao Pai, como o fez na Cruz, pela salvação dos homens”.20

E o que acontece ao término da prova?

Quando uma alma piedosa sai, por fim, duma rude provação e encontra diante dela […] Aquele a quem chorou como perdido, a sua surpresa manifesta-se por estas mesmas exclamações: Por que me tínheis Vós abandonado? Por que me deixastes na angústia de tantos receios, no horror de tentações aviltantes? Onde estáveis então? […]: “Estava no meio do teu coração”.21

Ou seja, lá estava Nosso Senhor, escondido em nosso interior, sustentando-nos durante a provação.

Concluímos com um comentário do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira a respeito da aridez:

[Nossa Senhora] nos promete tanta coisa! Ela não está no direito de pôr nossa alma a uma prova? Tem sentido que Ela não exponha nossa alma a uma prova? Essa prova tem que vir, e nós devemos desejá-la. Ela é dura, mas nós queremos mostrar a nossa gratidão. E não é só questão de mostrar, é exercitar, praticar. Nós queremos ser gratos […]. Então, às vezes […] as delícias se apagam. Por detrás das nuvens Nossa Senhora acompanha nossa alma. Ela está dentro de nós pela sua ação e pela sua graça; Ela está dentro de nós e nos ajuda. Nós também não percebemos. E nós pensamos que estamos andando sozinhos, que estamos abandonados. Perguntamos: haverá, neste abandono em que estou e que eu não sinto mais o paraíso de outrora, haverá para isso alguma culpa de minha parte? Oh Deus, se há, Deus foi tão bom para comigo que assim mesmo eu confiarei n’Ele! Há uma frase da Escritura que me agrada enormemente: Etiam si ambulavero in umbra mortis, non timebo mala (Sl 23, 4). Ainda que eu caminhe nas vias sombrias da morte, eu não temerei os males porque Deus é meu Pai e Ele me perdoará porque Nossa Senhora é minha Mãe e rezará por mim! É justo que Ele me prove. Quem sabe se é uma prova! E quem sabe se eu sendo fiel agora, eu faço com que os Anjos cantem no Céu! Eu me sinto só, abandonado, mas os Anjos cantam no Céu! Há coisas assim na nossa vida espiritual: nós vamos para frente, etc., e começa o demônio a tentar, começa a se empalidecer o horizonte de delícias no qual nós caminhávamos […] É o Pai […] que encheu de bens, mas agora quer uma prova de gratidão. E no caso concreto quer que o filho diga: “Não; o que vale não é o que eu, miserável, estou vendo nesse momento de provação. O que é verdade não é o que aparece nos meus olhos turbados por uma prova interior muito grande. É verdade o que ensina a Santa Igreja Católica Apostólica Romana, à qual eu quero ser fiel nas mais terríveis aridezes, à qual eu quero ser fiel nas mais terríveis provações. […] Seja como for, caminharei no escuro e nas trevas, poderei sentir-me abandonado por todos e até por Deus, mas Deus não me abandonará e não morrerá em minha alma a convicção de que a Mãe d’Ele reza por mim no Céu, que Ela pode tudo e que Ela consegue todos os perdões!22

1 GONZÁLEZ Y GONZÁLEZ. Op. cit. p. 216.
2 SÃO JOÃO DA CRUZ. Noite escura. L. II, c. 5, n. 1. In: Obras Completas. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 2002, p. 693-694.
3 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. A borrasca: um castigo ou uma graça? In: O inédito sobre os Evangelhos. Comentários aos Evangelhos dominicais do Tempo Comum. Ano B. Città del Vaticano – São Paulo: LEV, Lumen Sapientiae, 2014, v. IV, p. 186.
4 TANQUEREY. Op. cit. § 926, p. 441.
5 Loc. cit.
6 Loc. cit.
7 Cf. Ibid. p. 442.
8 BEAUDENOM. Op. cit. p. 388.
9 CORRÊA DE OLIVEIRA. O Sibarita, o herói e o Mártir do Gólgota. Op. cit. p. 17.
10 CORNÉLIO A LÁPIDE, apud CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Comentário à Liturgia do XIX Domingo do Tempo Comum. São Paulo, 10 ago. 2003. (Arquivo IFTE).
As matérias extraídas de exposições verbais – designadas neste trabalho, segundo sua índole, como conferências, palestras, conversas, homilias ou comentário à Liturgia – foram adaptadas para a linguagem escrita.
11 Cf. TANQUEREY. Op. cit. § 428, p. 210.
12 CLÁ DIAS. Como encontrar Jesus na aridez? Op. cit. p. 141.
13 Id. Eu sou o Pão vivo descido do Céu. In: O inédito sobre os Evangelhos. Op. cit. v. IV, p. 290.
14 WERNER, Carmela. Confiança, a regra de ouro. In: Arautos do Evangelho. São Paulo: Ano IX, n. 99, mar. 2010, p. 33.
15 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Intimidade com Jesus na Eucaristia. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano VI, n. 62, maio 2003, p. 25.
16 Loc. cit.
17 BEAUDENOM. Op. cit. p. 389.
18 SÃO PEDRO JULIÃO EYMARD. A Divina Eucaristia: Escritos e sermões. São Paulo: Loyola, 2002, v. V, p. 119.
19 Ibid. p. 120-121.
20 Ibid. p. 121.
21 BEAUDENOM. Meditação LXXVII. Jesus perdido e achado. In: Meditações afectivas e práticas sobre o Evangelho. Op. cit. p. 394.
22 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Conferência. São Paulo, 17 ago. 1985. (Arquivo IFTE).

Deus Se oculta aos olhos de quem O ama?

Bruna Corrêa Salgado

Poucos são os episódios que encontramos narrados nos Evangelhos a respeito da infância de Jesus, da vida oculta e submissa que levava junto a São José e Nossa Senhora em Nazaré. São Lucas conta o único fato que rompe o silêncio a respeito de Nosso Senhor até então: a viagem da Sagrada Família a Jerusalém pela Páscoa.

No caminho de volta, “São José e a Santíssima Virgem, não vendo o Menino a seu lado, creram, cada um por sua parte, que Ele ia em companhia do outro”, 1 julgando assim que estava na caravana. Porém, ao chegar o fim do dia, quando pararam “para passar a noite, os membros de cada família reuniram-se para compartilharem de um acampamento comum e foi só então que se pôde dar pela ausência de Jesus”.2 Aflitos, Maria e José começaram a procurá-Lo entre os parentes e conhecidos. Não O tendo encontrado, voltaram para Jerusalém à sua procura (cf. Lc 2, 44-45). Encontraram o Menino sentado no meio dos mestres, escutando e fazendo perguntas. Todos os que O ouviam estavam “maravilhados com sua inteligência e respostas”.3 “Ao vê-Lo, seus pais ficaram muito admirados e sua Mãe Lhe disse: ‘Meu filho, por que agiste assim conosco?” “Jesus respondeu: ‘Por que me procuráveis? Não sabeis que devo estar na casa de meu Pai?’” (Lc 2, 48-49).

Depois de percorrermos tão magnífica passagem do Evangelho, surge imediatamente a pergunta: por que o Divino Menino resolveu abandonar seus pais sem os avisar, deixando-os na ansiedade de reencontrá-Lo, pensando talvez que O tivessem perdido para sempre? Este fato não terá certa ligação com o que ocorre com muitas almas?

Para melhor compreendermos como esse episódio ocorrido com Nossa Senhora e São José também se apresenta na vida espiritual dos fiéis, consideremos as belíssimas pinturas de um grande artista do século XVII, Claude Lorrain cuja especialidade é pintar muros velhos, leprosos, escalavrados […] sobre os quais, porém, bate um sol magnífico”.4 E esses cenários parecem se transformar em imensas e suntuosas cortes.5

Tal como o Sol, age a graça divina na alma.

Ela é, digamos, a tinta celestial que Nosso Senhor utiliza, como se fosse um infinito Claude Lorrain da criação. […] Visto à luz da graça concedida por Deus, tudo o que é árido e difícil se torna belo. A perda desse momento de ver as coisas pode ocorrer por culpa nossa, porque cedemos aos nossos egoísmos, caprichos e manias. Ou por decisão de Deus que, nos seus insondáveis desígnios, deseja nos provar: depois de nos cumular com seus dons, de nos favorecer com maravilhosas situações à la pintura de Claude Lorrain, permite que tudo se apague de repente.6

Portanto, “há momentos de nossa existência nos quais temos a sensação de ter ‘perdido o Menino Jesus’, isto é, com ou sem culpa nossa, a consolação espiritual desaparece e nos sentimos desamparados”.7 Bem podemos compará-los aos dias que ora se apresentam claros e radiantes, ora nublados e tenebrosos: não vemos o Sol, mas ele continua brilhando atrás das nuvens.

Muitas vezes essas almas se julgam verdadeiramente abandonadas, mas não é propriamente o abandono, é a provação, qualquer que seja, a aridez, a frieza… Tudo é escuro e às vezes ela mesma se julga coberta de manchas, digna dos piores castigos. 8 “A variedade destes pensamentos é infinita, mas todos conduzem a uma conclusão semelhante: perdi Jesus, abandonou-me, não O tornarei a encontrar”.9

Afirma São Francisco de Sales:

Acontece algumas vezes que não encontramos consolação alguma nos exercícios do amor divino, de forma que, como cantores surdos não ouvimos a própria voz, nem podemos gozar da suavidade do nosso canto; mas, além disso, estamos cheios de mil temores, preocupados com mil ninharias com que o inimigo cerca o nosso coração, sugerindo-nos que talvez não sejamos agradáveis ao nosso mestre e que nosso amor é inútil ou ainda que é falso e vão, por não nos produzir consolação.10

Desse modo, “o demônio consegue persuadir uma pessoa de que ela pecou, embora se conserve inocente. Sobrevém-lhe então a tristeza, a sensação de abandono e miséria imaginando ter ofendido a Deus”.11 O homem fica tão horrorizado com a tentação, com a perda dessa sensibilidade que, em certas horas, ele próprio não sabe se é ou não amado por Deus.12

Ao tratar sobre as oscilações tão comuns à alma humana, González ressalta:

Umas vezes sente-se cheia de fervor e de consolações sensíveis na oração e nas demais obras do serviço divino, e outras, pelo contrário, vê-se mergulhada na maior insensibilidade e aridez de espírito, não encontrando prazer, nem gosto, senão tédio, fastio e desalento em todos os seus exercícios.13

“Deus permite essa situação. Ele retira de nós os auxílios sobrenaturais pelos quais a vida parece tão alegre, e nos vemos abandonados, tristes e sem força”.14 Eis aqui a grande aflição do coração humano que verdadeiramente ama a Deus e deseja ser por Ele amado! A alma se vê privada de consolações e gostos, cai no desalento, pensando que não há valor algum em tudo aquilo que faz; que perde tempo inutilmente, que não tem bom espírito nem verdadeira virtude, que não ama nem agrada a Deus, e que Deus a abandonou e afastou-a de Si.15

São João da Cruz mostra-nos três sinais pelos quais discernimos os períodos de aridez. O primeiro deles consiste em que não se tem mais gosto nem consolação nas coisas de Deus, nem tampouco nas coisas criadas. Disto decorre uma certa inquietação, a qual consiste no segundo sinal: a pessoa pensa não estar servindo a Deus, mas sim, voltando atrás no seu serviço. Isto acontece por causa do desgosto que se sente nas coisas espirituais. E, como terceiro sinal, a oração torna-se impossível, e, em lugar de pensar em Deus, a pessoa deseja a Deus,16 mas Ele parece esconder-Se.

Até mesmo grandes santos passaram por esses períodos tenebrosos! Assim comenta Tomás Kempis:

Nunca encontrei homem tão religioso e devoto, que não sofresse, às vezes, a subtração da graça e sentisse o arrefecimento do fervor. Nenhum santo foi tão altamente arrebatado e esclarecido que, antes ou depois, não fosse tentado. Porque não é digno da alta contemplação de Deus quem por Deus não sofreu alguma tribulação.17

Por exemplo, Santa Teresa de Jesus afirma “ter experimentado muitas vezes esse estado, mesmo naquela época em que o Senhor já havia elevado o seu espírito aos graus mais elevados da oração”.18 O mesmo aconteceu com Santa Joana de Chantal no fim de sua existência: “foi tal a intensidade, tal a amargura da sua aridez e desolação interior, que a sua vida não era senão um martírio ininterrupto e uma agonia continuada, mais penosa que a própria morte”.19

E o que não dizer da grande Doutora da Igreja, Santa Teresinha do Menino Jesus?

[…] era um braseiro de amor a Deus, mas sua alma passou por longos períodos de aridez. Em certas ocasiões essas penas espirituais a afligiam até mesmo durante o cântico do Ofício. Entretanto, nas mais diversas provações, ela se mantinha serena, e já no fim de sua vida, devorada por tentações contra a fé, ela resistia de modo admirável e completo.20

A aridez espiritual, longe de ser sempre “sinal de falta de virtude, é, pelo contrário, em muitas ocasiões, efeito do amor especialíssimo que Deus tem àquelas almas que deseja elevar a grande perfeição, às quais quer pôr à prova e purificar dessa maneira”.21

Continua no próximo post

1 SÃO BEDA, apud SÃO TOMÁS DE AQUINO. Catena Aurea. Exposición del Evangelio de San Lucas. C. II, v. 42-50: “San José y la Santísima Virgen, no viendo al Niño a su lado, creyeron cada uno por su parte que iría en compañía del otro” (Tradução da autora).
2 FILLION. Jesus Cristo segundo os Evangelhos. Op. cit. p. 87.
3 CLÁ DIAS. Op. cit. p. 136.
4 Ibid. p. 33.
5 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Feerias de sol, belezas de Deus. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano III, n. 22, jan. 2000, p. 32-33.
6 Ibid. p. 34.
7 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Como encontrar Jesus na aridez? In: O inédito sobre os Evangelhos. Comentários aos Evangelhos dominicais. Advento, Natal, Quaresma e Páscoa. Solenidades do Senhor que ocorrem no Tempo Comum. Ano C. Città del Vaticano-São Paulo: LEV; Lumen Sapientiae, 2012, v. V, p. 140-141.
8 Cf. BEAUDENOM, Léopold. Meditação LXXVI. Jesus perdido e achado. In: Meditações afectivas e práticas sobre o Evangelho. Porto: Educação Nacional, 1936, t. I, p. 362-363.
9 Ibid. p. 369.
10 SÃO FRANCISCO DE SALES. Nas provas da vida interior, nas enfermidades da alma e do corpo, etc. In: HUGUET, S. M. (Org.). Pensamentos consoladores de São Francisco de Sales. 2. ed. São Paulo: Salesiana, 1926, p. 131-132.
11 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. “Senhor, atende-me na tua justiça!”. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano IX, n. 97, abr. 2006, p. 13.
12 Cf. Loc. cit.
13 GONZÁLEZ Y GONZÁLEZ, Emilio. A perfeição cristã: segundo o espírito de São Francisco de Sales. Porto: Figueirinhas. [s.d.], p. 215.
14 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. O Sibarita, o herói e o Mártir do Gólgota. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano VI, n. 68, nov. 2003, p. 17.
15 Cf. GONZÁLEZ Y GONZÁLEZ. Op. cit. p. 216.
16 Cf. STINISSEN, Wilfried. A noite escura segundo São João da Cruz. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2001, p. 13-14.
17 KEMPIS, Tomás. Imitação de Cristo. 3 ed. Petrópolis: Vozes, 2003, p. 113.
18 GONZÁLEZ Y GONZÁLEZ. Op. cit. p. 217.
19 Ibid. p. 217.

O que é a oração?

Ir Lays Gonçalves de Sousa, EP

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Para muitos, a oração é meramente a recitação de palavras decoradas ou lidas. Entretanto, ela possui um sentido mais profundo e sobrenatural: é “o diálogo do homem com Deus”1, a “elevação da mente a Deus”2.

A oração, o diálogo com Deus, é um bem incomparável, porque nos põe em comunhão íntima com Deus. Assim como os olhos do corpo são iluminados quando recebem a luz, a alma que se eleva para Deus é iluminada por sua luz inefável. Falo da oração que não é só uma atitude exterior, mas que provém do coração e não se limita a ocasiões ou horas determinadas, prolongando-se dia e noite, sem interrupção.3

O homem pode converter um simples trabalho em oração, pois qualquer ato de virtude, quando realizado por um motivo sobrenatural, é considerado como tal.4

Não devemos orientar o pensamento para Deus apenas quando nos aplicamos à oração; também no meio das mais variadas tarefas […] é preciso conservar sempre vivos o desejo e a lembrança de Deus. E assim, todas nossas obras, temperadas com o sal do amor de Deus, tornar-se-ão um alimento dulcíssimo para o Senhor do universo. Podemos, entretanto, gozar continuamente em nossa vida do bem que resulta da oração, se lhe dedicarmos todo o tempo que nos for possível. 5

“Vinde a Mim, vós todos que estais aflitos sob o fardo de vossos pecados, e Eu vos aliviarei” (Mt 11, 28). Bem sabe o Divino Mestre quais são nossos combates neste vale de lágrimas e o quanto o jugo de nossas debilidades nos fatiga e deprime. Deseja Ele que, por meio da oração, depositemos nossa confiança no seu poderoso auxílio para, assim, esmagar nossas fraquezas e edificar um templo espiritual agradável aos seus olhos.

É próprio à natureza humana alimentar-se, uma vez que, sem os nutrientes necessários, acaba por desfalecer. O mesmo ocorre com a alma, a qual, para subsistir, precisa de um alimento espiritual que a robusteça e anime. Esse nutriente divino é a oração conforme atesta Santo Agostinho: “A oração é ainda o alimento da alma, porque assim como o corpo não se pode sustentar sem alimento; sem a oração não se pode conservar a vida da alma. Como o corpo, pela comida, assim a alma do homem é conservada pela oração”.6

O que há de mais elevado no homem não é o corpo, mas a alma, visto que o corpo definha e se corrompe, e a alma, no entanto, é imortal. Hélas! Como somos zelosos em sustentar o corpo e relaxados no dever de vivificar a alma!

Se soubéssemos tomar a oração como remédio para nossa fraqueza, muito mais faríamos para a glória de Deus.

A oração é, portanto, a força dos fracos e socorro daqueles que caem no abismo do pecado, vencedora dos incrédulos, fortaleza dos Santos, verdadeiro vigor da alma. O mais forte dos guerreiros, ornado da mais preciosa armadura, será considerado como incapacitado para a guerra se não souber dobrar os joelhos e com humildade recorrer Àquele de quem procede toda vitória. Esse é o tesouro que nos “concede todas as graças pedidas, vence todas as forças do inimigo; […] transforma os cegos em iluminados, os fracos em fortes, os pecadores em santos”.7

Logo, quem não recorrerá a tão valioso dom? “Que há no mundo mais excelente que a oração? Que coisa mais útil e proveitosa? Que coisa mais doce e mais suave? Que coisa mais alta e mais sublime em toda nossa religião cristã?”8

1 SÃO JOÃO CLÍMACO. In: LOARTE, José Antonio. El tesoro de los Padres: Selección de textos de los Santos Padres para el tercer milenio. Madrid: Rialp, 1998, p. 345. (Tradução da autora).
2 SÃO JOÃO DAMASCENO, apud ROYO MARÍN, Antonio. La oración del cristiano. Madrid: BAC, 1975, p. 4. (Tradução da autora).
3 PSEUDO-CRISÓSTOMO. A oração é a luz da alma. In: COMISSÃO EPISCOPAL DE TEXTOS LITÚRGICOS. Liturgia das horas. São Paulo: Vozes; Paulinas; Paulus; Ave Maria; 2000, v. II, p. 58.
4 Cf. ROYO MARÍN. Op. cit. p. 4.
5 PSEUDO-CRISÓSTOMO. Op. cit. 58.
6 SANTO AGOSTINHO, apud SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO. Op. cit. p. 22.
7 SÃO LOURENÇO JUSTINIANO, apud SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO. A Oração. Trad. Henrique Barros. 24. ed. São Paulo: Santuário, 2012, p. 47.
8 SANTO AGOSTINHO, apud RODRIGUES, Afonso. Exercícios de perfeição e virtudes cristãs. Trad. Pedro de Santa Clara. 4. ed. Lisboa: União Gráfica, 1947, p. 8. v. II.

O verdadeiro amor

Ir. Rita de Kássia Carvalho Defanti da Silva, EP

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Sabe-se que todas as coisas tendem a um lugar, tanto pela lei da gravidade quanto pelo que é próprio a cada coisa. Ora, a palavra gravidade deriva de gravis que, em latim, significa pesado. Assim, o corpo tem seu peso e este não só retém como também dá o lugar de cada coisa. O fogo, por exemplo, ao ser ateado sobe, enquanto que uma pedra, ainda que atirada para o alto, cai. E a alma? Segundo Santo Agostinho, também ela tem um peso que a move e a impulsiona: o amor. “Pondus meum, amor meus — meu peso é meu amor; o que amo é o peso que inclina meu coração”.[1]

O que é o amor? São Tomás de Aquino define o amor como “o princípio do movimento do apetite racional, do querer livremente o fim amado, que é o bem.”[2] Ele é ativo e, de certa forma, impelido pela vontade, ou seja, uma reta vontade gera um bom amor; uma vontade degenerada, um mau amor. Santo Agostinho diferencia o amor de duas formas: quando se ama os homens e as coisas criadas em função de Deus, é caridade; voltar-se para si, amar o mundo e o que é do mundo, é concupiscência.[3] O amor é verdadeiro quando é fundamentado em Deus e deve ser direcionado e ordenado a Deus. Em função d’Ele, deve-se amar os homens e as coisas criadas por Ele, A esse respeito, comenta Monsenhor João: “existem dois amores: um é o amor verdadeiro; é o amor de Deus. Outro é o amor egoísta, romântico, sentimental; é o amor por interesse”.[4] O primeiro traz satisfação, gozo, alegria e paz. O outro proporciona angústia, frustração e lágrimas. Não existe um amor intermediário.

Santo Agostinho é categórico em afirmar: “Que se diz de vós? Para nada amar? Nunca! Imóveis, mortos, abomináveis, miseráveis, eis o que seríeis se não amásseis nada. Amai, mas prestai atenção ao que deve ser amado”.[5]

As ações do amor, em nós, podem ser classificadas em espirituais, racionais e sensuais. Entretanto, ao espargir sua força nestas três operações, torna-se mais extenso, porém, menos intenso, pois assemelha-se ao fogo. Imaginemos um canhão. Não é verdade que a chama, forçada a sair por uma única abertura, sai com um ímpeto muito maior do que se nele houvesse duas ou três brechas? Assim é o amor. A sua força encontra-se nas operações intelectuais, por ser a parte mais elevada da alma e na qual se constitui a essência do amor.[7]Quem deseja ter um amor não só nobre e generoso, mas também forte, vigoroso e ativo, deve procurar direcioná-lo e retê-lo às ações espirituais, para que não aconteça que, dispersando-se, enfraqueça.

O amor intelectual e cordial — diz São Francisco de Sales — que “deve dominar em nossa alma, recusa toda sorte de uniões sensuais e contenta-se com a simples benevolência”.[8] E continua: “quanto mais a causa do amor é elevada e espiritual, tanto mais as suas ações são vivas, subsistentes e permanentes, e não se poderia melhor aniquilar o amor, do que rebaixando-o às uniões vis e terrestres”.[9]

A causa de nossa união afetiva com Deus

“Amarás o Senhor teu Deus com todo teu coração, de toda a tua alma e com todas as tuas forças” (Dt 6, 5). À primeira vista, este preceito pareceria uma exigência do Criador para que as criaturas O amassem. Entretanto, se na vida comum somos inclinados a querer aqueles que de alguma maneira nos fazem um bem, qual não deveria ser nosso sentimento em relação Àquele que nos tirou do nada, deu-nos a vida e nos mantém no ser? E mais, vela por cada um, seja um insignificante inseto, sejam gigantescos animais ou monstros marinhos, “nem um só deles passa despercebido diante de Deus” (Lc 12, 6). Se tal é o cuidado de Deus pelos animais, qual não será o desvelo pela criatura que Ele designou para ser rei do universo, fazendo-a “à sua imagem e semelhança?” (Gn 1, 26). “Até os cabelos de vossa cabeça estão contados. Não temais” (Mt 10, 31). Como pode o homem responder a esse amor de predileção?

Assegura São Bernardo: “De todos os movimentos da alma, sentidos e afeições, o amor é o único com que pode a criatura, embora não condignamente, responder ao Criador e por sua vez, dar-lhe outro tanto”.[10] Deus nos escolheu entre infinitas criaturas, “pois ama tudo que existe e não odiou nada do que fez, porquanto, se houvesse odiado, não o teria criado” (Sb 11, 24). Deus não ama as coisas por serem boas; antes, ao amá-las, infunde-lhes o bem. Das criaturas racionais — Anjos e homens — espera receber o amor e para isso foram criadas: para amar e servir a Deus neste mundo e depois gozar de sua presença na eternidade. Diz o Eclesiastes: “Ama com todas as tuas forças aquele que te criou” (Eclo 7, 32). E o Apóstolo amado: “Amamos, porque Deus nos amou primeiro” (I Jo 4,19). Acrescenta ainda Monsenhor João:

Sim, nossa caridade não é mais do que uma restituição pelos favores sem conta que, de sua bondade, recebemos. Como Criador Ele nos deu o ser, nos mantém e nos manterá para sempre; como Redentor, nos salvou, encarnando-Se e sofrendo os tormentos da Paixão; como Pai, quis introduzir em nós a vida divina, “para que sejamos chamados filhos de Deus (I Jo 3,1)”. Ele é nossa bem-aventurança! É, portanto, na adesão total a Ele, pela prática deste mandamento — e não nos gostos terrenos e fragmentários — que encontraremos a plena felicidade.[11]

[1] AGOSTINHO. Santo. Confissões. Livro XIII, 9, 10
[2] OMÁS DE AQUINO, Santo. Suma Teológica. I-II. q. 26. a. 1.
[3] AGOSTINHO. Santo. Comentários aos Salmos. 2ª ed. Trad. Monjas Beneditinas. São Paulo: Paulus, 2005. v. I. 31 II, 5. p. 354.
[4] CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Homilia. Mairiporã, 2006. (Arquivo IFTE).
[5] AGOSTINHO. Loc. Cit
[7] SÃO FRANCISCO DE SALES. Tratado do amor de Deus. 2ª ed. Trad. Pe Augusto Durão Alves. Porto: Apostolado da imprensa, 1950, p. 48.
[8] SÃO FRANCISCO DE SALES. Op. cit. p. 50.
[9] SÃO FRANCISCO DE SALES. Op. cit. p. 51.
[10] SÃO BERNARDO. Dos sermões sobre o Cântico dos Cânticos. In: COMISSÃO EPISCOPAL DE TEXTOS LITÚRGICOS. Liturgia das horas. Petrópolis: Vozes, Paulinas, Paulus, Ave-Maria. Vol. II, p, 1210.
[11] CLÁ DIAS, João Scognamiglio. As duas asas da santidade. In: O inédito sobre os Evangelhos. Comentários aos Evangelhos dominicais do Tempo Comum. Ano B. Città del Vaticano – São Paulo: LEV, Lumen Sapientiae, 2014, v. IV, p. 471.

Um verdadeiro amigo

Ir. Rita de Kássia C. D. da Silva, EP

Anjo_Fra_angelico

Quem neste mundo não gostaria de ter um amigo que estivesse diariamente ao seu lado, pronto para atendê-lo a qualquer hora do dia ou da noite, em qualquer situação, mesmo nos perigos e, concomitantemente, o alegrasse, fortalecesse e estimulasse nas horas de provação e dificuldade?

Com efeito, Deus, em sua infinita bondade e misericórdia para com o gênero humano, destinou para cada homem um anjo da guarda, que, constantemente, vela por cada um individualmente. Sim, é ele nosso companheiro nesta vida e na eternidade. Entretanto, ele é um “amigo” discreto que, apesar de não se revelar, admoesta, ensina, ajuda, acode e inspira de muitas maneiras: ora, por um sopro, ora por um conselho, ora por algum fenômeno natural. Basta que estejamos atentos a suas inspirações.

Mas, como são os anjos? Os anjos são espíritos puros, inteligentes, cheios da graça divina desde o início de sua existência, na aurora da primeira manhã da criação. Distribuídos e ordenados por Deus em nove coros – Serafins, Querubins, Tronos, Dominações, Virtudes, Potestades, Principados, Arcanjos e Anjos – constituem o exército da celeste Jerusalém e receberam a tríplice missão: de perpétuos adoradores da Santíssima Trindade, executores dos divinos desígnios e protetores do gênero humano. 1 Pertencem ao sexto plano da criação, sendo por isso superiores aos homens. Quando foram criados, Deus infundiu-lhes o conceito das coisas universais, sem o qual eles não seriam capazes de conhecer as coisas particulares. Para “ver” algum objeto, o anjo aplica sua inteligência, conferindo com aquele conceito universal que já existe em seu intelecto. Os anjos têm o seu ser por participação no Ser divino. Eles não existem desde sempre, mas em determinado momento receberam a existência, tendo sido criados do nada.2

Os anjos estão organizados em uma hierarquia escalonada verticalmente, diferentemente dos homens, na qual uns dependem dos outros. Cada anjo é uma espécie única; por isso, quanto mais elevado é o anjo, superiores são os conceitos infundidos por Deus. Contudo, isso não causa tristeza ao que é inferior, porque as capacidades, apetência e glória de cada um são plenamente satisfeitas pelo próprio Criador quando entram na Visão Beatífica. Não há sentimento de infelicidade, pois os superiores são motivo de admiração dos inferiores.3

Ensina a teologia que todo criança, no momento do nascimento, recebe de Deus um Anjo da Guarda que vela por ela desde os primeiros momentos da vida até a morte. “Desde o inicio até a morte, a vida humana é cercada por sua proteção e por sua intercessão” e São Basílio completa que “cada fiel é ladeado por um anjo como protetor e pastor para conduzi-lo à Vida” (CEC 336).

Todavia, a nossa vida na terra bem pode ser definida como uma luta, pois viemos a este mundo para enfrentar uma existência tisnada pelo pecado e repleta de dificuldades. Só receberemos o prêmio da bem-aventurança eterna se soubermos corresponder às graças recebidas.4 Não há como escapar. A prova é posta no caminho de todos os seres inteligentes até mesmo os anjos. Contudo, como passar pela prova sem ser ‘reprovado’? Porque além das concupiscências, há ainda o demônio que constantemente nos atormenta com suas farsas, procurando perder as almas. Como defender-se?

Assim como na grande batalha havida no Céu, São Miguel levantou o brado de guerra — “Quem como Deus?” — e dispersou do Céu a Lúcifer e todos seus sequazes, assim também cada anjo da guarda afugenta satanás e impede que sejamos arrastados. Embora de forma invisível, ele está real e verdadeiramente presente ao nosso lado, sendo o nosso guardião nas horas de tentação ou perigos e aquele que leva as orações ao trono de Deus, como uma trombeta que amplia o som de nossas preces, purifica-as, tornando-as mais belas e agradáveis a Deus.5 Porém, ele é discreto e quer nossa colaboração e atenção à suas inspirações.

Não são raros os casos em que os anjos aparecem para livrar seus protegidos de grandes riscos ou confortar nas aflições. Conta-se que São Policarpo, discípulo de São João Evangelista, viajava para a cidade de Esmirna, da qual era bispo, juntamente com um companheiro. No caminho, foi preciso que parassem numa hospedaria a fim de descansarem da viagem. Entretanto, no silêncio da noite, o bispo é despertado por uma misteriosa voz que dizia que a casa ia desmoronar. São Policarpo, sem titubear, levantou-se rapidamente, acordou seu companheiro que não muito convencido, recusou-se a sair. Nesse momento, apareceu o santo anjo da guarda de São Policarpo ordenando que saíssem imediatamente daquele lugar. Obedeceram, e logo que os dois se encontraram fora, desabou a casa num grande estrondo!

Que tal pensamento contribua para aumentar nossa devoção aos santos anjos, esses gloriosos intercessores celestes, dos quais muitas vezes nos esquecemos, e estejamos convictos de que, em qualquer necessidade e tribulação, ali está ele para interceder por nós e levar-nos ao termo final de nossa missão.

1 Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. I. q. 108, a. 5.
2 Idem.. I, q. 50, a. 2, ad. 3.
3 GOYARD, Pe. Louis. Os anjos falam? In: Revista Arautos do Evangelho. Ano IX. n.106. São Paulo: Abril. Out 2010, p. 33.
4 Op. Cit SÃO TOMÁS DE AQUINO. I, q. 64, a.2.
5 Cf. SOARES CORREA, Carlos Alberto. O maravilhoso mundo dos anjos. In: Arautos do Evangelho. Ano II, n. 14. São Paulo: Gráfica. Fey. 2003. p. 34-37.

O heroísmo no abandono

Ir. Juliana Montanari, EP

abandono

Nossa vida apresenta situações semelhantes às que ocorrem a um navio: somos sacudidos por ventos e tempestades, e até podemos começar a naufragar…

As ondas banham a praia numa manhã fresca, quando o Sol desponta refletindo-se nas águas e dando-lhes um brilho singular. Quantos fatos admiráveis e misteriosos já ocorreram no mar, este maravilhoso tapete de esmeraldas e topázios, com o qual Deus quis cobrir dois terços de nosso planeta!

No cais, um grande navio com a proa voltada para o oceano parece desafiá-lo, qual corajoso soldado ante o perigo. Os tripulantes acenam para os que ficam e preparam-se para a longa viagem. Em certo momento soltam-se as amarras e a nau começa seu percurso.

Passadas algumas horas, céu e mar se encontram no horizonte e não é mais possível ver terra firme. A embarcação, antes imponente, agora parece um simples e frágil brinquedo das ondas… Contudo, é nessas circunstâncias que transparece inteiramente a beleza misteriosa da navegação.

Sozinho em meio àquela instável vastidão, o navio recebe as investidas das impetuosas vagas que ameaçam naufragá-lo, mas mantém-se firme na sua direção; é balouçado pelos ventos das tempestades, e não se deixa soçobrar.

Não obstante, se a partida de uma embarcação suscita entusiasmo nos corações idealistas, por evocar a glória daqueles que, com galhardia, se lançam no risco rumo a novas conquistas, não menos digno de admiração é seu regresso ao porto, pois carrega atrás de si as façanhas da empresa. Não é verdade que, depois de uma arriscada travessia, o navio lembra um guerreiro que ganhou uma batalha e merece o prêmio da vitória?

Ora, nossa vida também apresenta situações semelhantes às que ocorrem a um navio. Já na aurora de seus dias, o homem se lança ao mar das incertezas deste mundo, em busca da felicidade. Não a encontrando, navega errante e, a certa altura do percurso, sente-se solitário. Julga estar abandonado por todos, ao bel-prazer de ondas traiçoeiras que, ao invés de lhe proporcionarem a alegria que falsamente prometem, só lhe aumentam a frustração. É sacudido pelos ventos das tentações, pelas tempestades dos problemas e dificuldades, e até mesmo começa a naufragar…

Que devemos fazer para não afundar em meio ao mare magnum de tribulações que é a vida humana, marcada pelo pecado original? Juntar as mãos e rezar a Deus com confiança, pois é no abandono à sua proteção que os ventos e as ondas se acalmam, as nuvens se afastam e o Sol torna a brilhar.

Quando formos assaltados pela impetuosa maré das provações e dos reveses, lembremo-nos de que Deus permite passarmos por tais situações, desejoso de que busquemos n’Ele nossa segurança. Se soubermos abandonarmo-nos em suas mãos, como filhos amorosos, receberemos as forças necessárias para transpor fiel e valorosamente os piores vagalhões de nossa vida. E quando chegarmos ao porto celeste, receberemos do Divino Capitão a coroa de glória reservada aos vencedores, aos que deram tudo, aos que foram heróis!

Revista Arautos do Evangelho – Janeiro 2015

Espelho do Sol

Ir Adriana María Sánchez García, EP

Cada um de nós pode ser comparado a uma gota d’água, pequenina e insignificante, mas chamada a refletir algo infinitamente superior…

gota_dagua_arautosApós uma forte chuva, ou mesmo depois do leve orvalho da madrugada, podemos contemplar gotas d’água refletindo a luz do Sol. Semelhantes a pequenas joias, tomam elas uma beleza própria que não tinham enquanto não refletiam tal luz.

Mas o que é o Sol comparado a uma gota d’água? Ele é uma estrela de especial grandeza, que aquece e ilumina a Terra, permitindo a vida em nosso planeta. E uma gota d’água… que poderia haver de mais insignificante? Ela cai e logo se esvai, sem que se lhe dê maior importância. Em relação ao oceano é nada! No entanto, pela ação dos raios solares, aquela pequenina gota passa a ser um espelho do Sol, a participar, de certo modo, da rutilante beleza do Astro Rei.

De maneira análoga, cada um de nós é como uma gota d’água. O homem, por si mesmo, é tão pequeno dentro do universo… Contudo, está chamado a fazer resplandecer nele algo infinitamente superior: o próprio Deus! Sendo um reflexo da luz divina, enquanto criatura feita à sua imagem e semelhança, adquire um brilho superior quando as águas batismais se derramam sobre sua cabeça: é o fulgor do estado de graça. E o que há de mais belo do que uma alma em graça?

gotasDeus ilumina tudo o que vemos, sejam as maravilhas da natureza ou as virtudes das almas santas. Todas as belezas desta Terra são como espelhos, nos quais podemos admirá-Lo e crescer no anelo de vê-Lo no Céu. O vasto e tempestuoso mar, por exemplo, representa a grandeza divina; a garça branca, sua pureza; o amor de uma mãe, sua bondade.

Ensina-nos São Paulo: “Hoje vemos como por um espelho, confusamente; mas então veremos face a face” (I Cor 13, 12). Não obstante, como poderemos chegar a ser um perfeito espelho do Sol de Justiça, límpido e sem nenhuma mancha, para refletir sua imagem?

O amor, diz São João da Cruz,1 torna o amante semelhante ao amado. É, pois, amando muito a Deus que nos tornaremos semelhantes a Ele. Amando a Deus mais do que a nós mesmos — o que só é possível com o auxílio da graça —, desejaremos viver conforme a sua Lei e seremos a “luz do mundo” (Mt 5, 14) preconizada por Nosso Senhor Jesus Cristo no Evangelho. Assim, poderemos realizar em nós as palavras do Apóstolo: “Refletimos como num espelho a glória do Senhor e nos vemos transformados nesta mesma imagem, sempre mais resplandecentes, pela ação do Espírito do Senhor” (II Cor 3, 18).

1 Cf. SÃO JOÃO DA CRUZ. Subida del Monte Carmelo. L.I, c.4, n.3. In: Vida y Obras. 5.ed. Madrid: BAC, 1964, p.371.

Revista Arautos do Evangelho Nov 2014

Rico ou pobre: quem se salva?

Ir. Patricia Victoria Jorge Villegas, EP

Imaginemos uma adega que contivesse os melhores vinhos do mundo, onde as garrafas não possuíssem um rótulo. Sem a pequena explicação que o rótulo nos traz a respeito da qualidade das uvas, o volume de álcool, sua proveniência, muito difícil seria distinguirmos os vinhos.

Ora, algo semelhante deu-se com a doutrina que Nosso Senhor Jesus Cristo veio trazer. Uma doutrina carregada de potência, que nossa pobre e humana inteligência, por mais elevada que seja, jamais poderia compreender. Como transmiti-la aos homens?

O Divino Pedagogo quis, assim, colocar um rótulo diante deste extraordinário vinho para nos fazer entender sua doutrina: as parábolas.

pobre_lazaroAnalisemos com cuidado uma de suas Divinas Parábolas e tiremos dela uma importante lição.

Havia um homem rico, que se vestia com roupas finas e elegantes e fazia festas esplêndidas todos os dias. Um pobre, chamado Lázaro, cheio de feridas, estava no chão, à porta do rico. Ele queria matar a fome com as sobras que caíam da mesa do rico. E, além disso, vinham os cachorros lamber suas feridas.

Quando o pobre morreu, os anjos levaram-no para junto de Abraão. Morreu também o rico e foi enterrado. Na região dos mortos, no meio dos tormentos, o rico levantou os olhos e viu de longe a Abraão, com Lázaro ao seu lado. Então gritou: ‘Pai Abraão, tem piedade de mim! Manda Lázaro molhar a ponta do dedo para me refrescar a língua, porque sofro muito nestas chamas’.

Mas Abraão respondeu: ‘Filho, lembra-te que tu recebeste teus bens durante a vida e Lázaro, por sua vez, os males. Agora, porém, ele encontra aqui consolo e tu és atormentado. E, além disso, há um grande abismo entre nós; por mais que alguém desejasse, não poderia passar daqui para junto de vós, e nem os daí poderiam atravessar até nós’. O rico insistiu: ‘Pai, eu te suplico, manda Lázaro à casa do meu pai, porque eu tenho cinco irmãos. Manda preveni-los, para que não venham também eles para este lugar de tormento’. Mas Abraão respondeu: ‘Eles têm Moisés e os Profetas, que os escutem!’ O rico insistiu: ‘Não, Pai Abraão, mas se um dos mortos for até eles, certamente vão se converter’. Mas Abraão lhe disse: ‘Se não escutam a Moisés, nem aos Profetas, eles não acreditarão, mesmo que alguém ressuscite dos mortos’”.
(Lc 16, 19-21)

Um dos assuntos mais polêmicos da atualidade é justamente este: ser rico ou ser pobre. Segundo a concepção de Marx, deve existir uma reivindicação e luta para que a classe mais baixa se iguale à classe alta e, desse modo, ninguém se sinta humilhado. Estaria Nosso Senhor Jesus Cristo favorecendo essa luta de classes? Como entender esta parábola?

A primeira indagação que ela nos sugere é esta: “Vai-se para o inferno pelo simples fato de ser rico? No Céu, só entram os mendigos? Toda riqueza é um mal e toda miséria, um bem?”

A este respeito explica Santo Ambrósio: “Nem toda pobreza é santa e nem todas as riquezas são pecaminosas; mas assim como a luxúria desonra as riquezas, assim a santidade recomenda a pobreza”.2 Na verdade, as riquezas de si são neutras. O problema está no bom ou no mau uso que delas se faça. “O mesmo se deve dizer da pobreza: não é ela boa, nem má. Para qualificá-la é necessário saber com que disposição interior foi aceita”.3

Nosso Senhor Jesus Cristo exalta nesta parábola aquele que, diante da pobreza material, aceita-a com resignação e, ao ver aqueles que estão em melhores condições, louva a Deus.

E o rico? Avarento, egoísta, apegado a si mesmo e ao dinheiro, preocupado com seus próprios interesses, pouco se importava com o pobre Lázaro que vivia na soleira de sua porta. Seu duro coração não sentia nenhuma compaixão. Pelo contrário, desprezava-o. De fato, explana Santo Agostinho: “A insaciável avareza dos ricos não teme a Deus, nem respeita ao homem, nem perdoa o pai, nem guarda fidelidade ao amigo; oprime a viúva e se apodera dos bens do órfão”.4

Neste estado de alma, morrem ambos: “Quando o pobre morreu, os anjos levaram-no para junto de Abraão. Morreu também o rico e foi enterrado” (Lc 16, 22). O pobre que tinha sofrido todos os infortúnios nesta terra, foi premiado na outra vida. O rico, porém, que tinha todas as comodidades e os confortos neste mundo, mereceu uma eternidade de tormentos.

“Quantas e quantas vezes o rico não deve ter sentido, dentro de si, a voz da consciência recriminando-lhe o apego desregrado pelas roupas, pelos prazeres excessivos da mesa e, sobretudo, pelo dinheiro! Lázaro à sua porta era um dom de Deus, estimulando-o à prática da caridade. Mas ele preferiu os bens deste mundo a ponto de dar as costas a Deus”.5 Desta maneira, compreende-se porque fora lançado ao inferno. Esclarece ainda São João Crisóstomo: “Não era atormentado porque tinha sido rico, mas porque não tinha sido compassivo”.6

E se o pobre não estivesse resignado com sua condição, e o rico fosse virtuoso e generoso?

Para responder a essa pergunta vejamos como Mons. João Clá Dias 7, de forma magistral, imagina a parábola do pobre e do rico com os papéis das duas figuras principais invertidos:

“Imaginemos o rico cheio de compaixão por Lázaro, a ponto de contratar um médico para curar-lhe as chagas, comprar-lhe os remédios, conseguir- lhe um bom abrigo e proporcionar-lhe deliciosos alimentos. Ademais, procurando cercá-lo de afetuosas atenções, chegando a rezar várias vezes ao dia por sua saúde, como também por sua eterna salvação.

Por outro lado, suponhamos um Lázaro que teria a alma mais ulcerada do que seu corpo, pois se consumiria de inveja dos bens do rico e, revoltado contra tudo, contra todos e contra o próprio Deus, cobriria de injúrias o seu benfeitor, desejando- lhe a desgraça e até a morte. A cada ato de comiseração e estima da parte do rico, corresponderia uma reação mal-educada e ressentida de Lázaro. Este só se acalmaria quando obtivesse toda a fortuna daquele, e, para isto, estaria disposto a instigar seu ódio em muitos outros.

E concluía Mons. João: “Se, nesse estado de alma, morressem ambos, qual seria o destino eterno de cada um?”8 Certamente o rico seria levado para gozar da felicidade eterna junto com Abraão e o pobre Lázaro seria condenado às penas do inferno.

Assim, diante desta suposição, não podemos tomar a pobreza como um meio de salvação e a riqueza, de condenação. O importante é ser pobre de espírito, isto é, diante das riquezas ou da possessão de bens, nunca apegar-se. E diante das provações, rejeições e contingências da vida, aceitá-las com inteira resignação. Eis a fundamental lição desta parábola: “o bom relacionamento entre ricos e pobres, e de ambos com Deus, no uso dos bens ou na aceitação das situações constrangedoras pelas quais passem”.9

Sejamos, pois, pobre de espírito para que, quando chegar o momento supremo de nosso encontro com Deus, tenhamos a alma com as disposições de Lázaro, desapegados de todos os bens terrenos, resignados diante de qualquer infortúnio, perseverantes na oração e na prática da virtude para sermos recebidos pelos anjos na eternidade.

1 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O pobre e o rico. Arautos do Evangelho. São Paulo: Ano XI, n.33, set. 2004, p. 10.
2 SANTO AMBROSIO, apud, SÃO TOMÁS DE AQUINO. Catena Aurea. Buenos Aires: v. IV, p. 388.
3 Loc. cit.
4 SANTO AMBROSIO, apud, SÃO TOMÁS DE AQUINO. Op. Cit. p.389
5 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Op. Cit. p. 9.
6 SÃO JOÃO CRISÓSTOMO, apud, SÃO TOMÁS DE AQUINO. Op. Cit. p. 392.
7 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Op. Cit. p. 10.
8 Loc. Cit.
9 Ibid.p. 11

Apostolado com as jovens: Projeto Futuro e Vida

Ir. Camila Cordeiro da Fonseca
3º ano de Ciências Religiosas

Projeto_futuro_e_vida

“Não com pancadas, mas com mansidão é que poderás conquistar os teus amigos”. [1] Foram essas palavras que São João Bosco, quando menino, ouviu dos lábios de Nosso Senhor Jesus Cristo em sonho, e que, somente anos mais tarde, entendeu o seu significado. Era uma revelação sobre o seu futuro: fazer apostolado com os jovens, levando-os a Deus, através de boas palavras e conselhos, sobretudo pelo amor e exemplo de vida. Esse grande Apóstolo da Juventude, dedicado inteiramente ao serviço dos jovens, fundou um Oratório para dar-lhes formação através de variadas atividades.

Do mesmo modo, o Fundador dos Arautos do Evangelho, Mons. João Scognamiglio Clá Dias, E.P, em meio às mais diversas e intensas ocupações a serviço de Deus e do próximo, preocupado em ajudar os nossos jovens a levarem uma vida reta – conforme os mandamentos – e também em auxiliá-los a desenvolverem os dons que possuem, deu início ao Projeto Futuro e Vida.

Com feito, por meio deste projeto, os Arautos vão ao encontro da juventude nos estabelecimentos de ensino onde o coro e banda fazem uma apresentação musical de composições clássicas e típicas de vários países. No final, é realizado um sorteio, possibilitando aos felizardos alunos que desfrutem de uma maior formação cultural nos finais de semana, na casa dos Arautos, com a devida permissão dos pais.

Arautosdoevangelhofeminino100 (1)É num ambiente de muita alegria que são realizadas as atividades. Já dentro dos carros, do descolamento das escolas até o local do Projeto, começa-se a sentir quão bom é ter um convívio tendo a Deus como centro. Durante o trajeto, são ensinadas diversas músicas em vários idiomas: em espanhol, italiano, francês, inglês e até mesmo em japonês! Também as histórias da vida dos santos são de grande interesse para todos, tanto para as jovens quanto para os seus familiares. E, sobretudo, não podem faltar os jogos para animar o percurso.

Durante o curso realizado no Centro Juvenil do setor feminino, são ministradas aulas de defesa pessoal – taekondo – num enorme gramado; cursos de teatro – que são um grande atrativo; aulas de canto e de flauta doce, onde as jovens desenvolvem seus dons musicais e se acalmam – segundo aquele famoso ditado: “Quem canta seus males espanta”. Participam das aulas de espanhol e latim aquelas que frequentam o Projeto há mais tempo. São oferecidas igualmente aulas de Catequese, História Sagrada e Consagração a Nossa Senhora, a qual é o melhor meio de ser totalmente de Jesus Cristo.

Arautosdoevangelhofeminino100 (7)São encenados formativos teatros – alguns com a participação das jovens – intercalados com uma reunião sobre variados temas. E, no final, é sempre servido um delicioso lanche feito pelas próprias Irmãs. A frase “Viver é estar juntos, olhar-se e querer-se bem”, muito usada por uma bondosa e virtuosa dama paulista bem pode resumir o ambiente do Projeto Futuro e Vida.

As irmãs do IFTE estudam com afinco para, nos fins semana, transmitir às jovens do Projeto Futuro e Vida, os princípios adquiridos ao longo da mesma. São Paulo em sua 1ª Carta aos Coríntios afirma: “Se eu tivesse o dom da profecia, se conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, se tivesse toda a fé, a ponto de remover montanhas, mas não tivesse amor, eu nada seria” (I Cor 13, 2). De fato, do que adiantaria elas conhecerem Filosofia, Teologia, História e idiomas, e não pudessem aplicar seus ensinamentos aos nossos irmãos?

A bem-aventurança de ser rico: uma realidade ou uma utopia?

Ir. Maria Cecília Veas, EP

Conta-se que Turenne, quando tinha apenas seus sete anos, desapareceu de casa. Ao pôr-se a procurá-lo, seu pai encontrou-o reclinado aos pés de um canhão. Querendo assustá-lo, talvez para reparar o susto que dera na família, o pai gritou-lhe:

– Cuidado, inimigo!

E para surpresa do pai, o pequeno, pondo-se de pé, com uma prontidão única, exclamou:

– Onde está, para que eu possa combatê-lo?

De fato, era um homem de valor, ainda que em potência, digno, já revelando o que foi no futuro: o grande general das tropas de Luís XIV.

Realmente, a esta posição de luta, nenhum homem escapa, conforme tão bem expressou Jó, no momento em que bebia a taça amarga do sofrimento: “acaso não é uma luta a vida do homem sobre a terra?” (Jó 7, 1) Portanto, se há luta, há inimigos, e existem em abundância. Mas, não precisamos ir longe para procurá-los. Basta olharmos em nosso interior para logo percebemos as misérias herdadas do pecado original, um verdadeiro campo no qual temos de travar a primeira batalha. E os males olham-nos como a dizer: “Ao combate! Ou tu lutas, ou te tragamos!” E a alma começa o doloroso percurso da vida.

Ora, para as almas verdadeiramente justas, a vida é um combate não apenas para não serem tragadas pelo torvelinho do infortúnio, mas é para tornarem-se agradáveis a Deus na luta contra o mal. Que mal?

Ensina-nos a teologia que os principais inimigos do homem são: o demônio, o mundo e a came. Para fortes inimigos, tal seria que Deus não dispusesse de fortes auxílios.

A vida de perfeição fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo nada mais é que um precioso contributo para se alcançar a salvação. Os votos de castidade, pobreza e obediência são os auxílios por onde o homem subtrai-se da herança do pecado, que são as concupiscências, para se tomar digno herdeiro do Reino dos Céus.

Como é-nos impossível discorrer sobre cada um dos votos que um religioso professa em tão poucas linhas, trataremos apenas da pobreza, enquanto lenitivo das paixões que nos prendem aos bens da Terra, não prescindindo do auxílio da graça.

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riqueza_Certa feita, enquanto Santa Gema apreciava algumas joias postas sobre a escrivaninha, apareceu-lhe por primeira vez seu Anjo da Guarda, luminoso e radiante que lhe dirigiu a palavra: “uma filha de Deus é tão rica que não precisa de joias passageiras”.

Por estas palavras, entendeu que se tratava de meros objetos insignificantes, carregadas de um vazio, conforme diz o Eclesiastes: “vaidade das vaidades, tudo é vaidade”. (Ecl 1, 2) E a partir deste dia, nunca mais se enfeitou.

Que bela lição para nós! Desprender-se daquilo que nos envaidece. Pois bem, esta também é uma forma de praticarmos a virtude da pobreza.

Conforme reza a teologia, a pobreza obriga ao religioso a três coisas fundamentais1:

1º Não possuir nada como próprio.

Sob o ponto de vista tratado, cabe-nos aqui um exame de consciência. Quantas vezes apropriamo-nos dos dons que Deus nos deu para glorificação d’Ele? Com razão exclama o Apóstolo: “o que tens que não tenhas recebido?” Tudo o que Deus pôs a serviço do homem, a criação que o rodeia, é um presente para que dela se use.

Ora, a diferença que vai entre as qualidades naturais de alguém, físicas ou psicológicas, e as criaturas, está apenas no sujeito em que residem. Estas estão no universo, aquelas; no homem. Portanto, a mesma razão existente para nos desprendermos dos bens temporais, vale para nos desapegarmos de nós mesmos, valendo o princípio de que “nosso corpo está ferido de morte”, e sendo passageiro não há porque dele nos apegarmos. “Porque nada trouxemos ao mundo, como tampouco nada poderemos levar. Tendo alimento e vestuário, contentemo-nos com isto”. (1 Tm 6, 7-8)

2° Não dispor de nada sem autorização

Aqui cabe outra aplicação. Se um religioso incorre no pecado contra o roubo, quando se apropria de um objeto sem autorização, do mesmo modo todo homem incorre no roubo a Deus, alegando seu o que a Ele pertence.

Por isso, não devemos dispor de nossas qualidades para aparecermos bem à glória mundana! Façamos tudo somente para Deus, porque no momento oportuno Ele nos exaltará (1 Pd5, 6), se a obra feita, de fato, mereça o louvor.

3° Viver pobremente a exemplo de Cristo

Nosso Senhor Jesus Cristo convida-nos constantemente a não mergulharmos no apreço pelas coisas terrenas, e disto deu-nos o exemplo com sua vida: escolheu para nascer não um rico palácio, senão uma gruta; não quis uma cidade importante, preferindo os pequenos subúrbios de Belém; não quis ser conhecido senão após trinta anos de vida oculta. Quando os fariseus O desprezavam no Sinédrio ou O difamavam, Ele não se incomodou por tentarem tirar-Lhe a glória diante do povo; ao ser elogiado remetia ao Pai. No momento da morte ,não temeu o castigo ignominioso, derramou até a última gota de seu Preciosíssimo Sangue, e não se apegou ao seu maior tesouro, Maria Santíssima, legando-A ao discípulo amado.

Levando tudo às últimas consequências, o Redentor cumpriu sua missão: estava restabelecido para o homem o Reino da Graça, do perdão.

E nós o que damos por Nosso Senhor? Somos capazes de desprendermos inteiramente das coisas fúteis para abraçarmos a via da graça, do sobrenatural?

Cuidemos, portanto de não nos apegarmos a esta terra, pois “o mundo é toda atração que o conjunto das criaturas exerce para desviar desse ponto que é a graça santificante”2.Ouçamos, isto sim, a voz do Divino Mestre que sussurra em nosso interior: “Filho, a minha graça é um dom precioso; ela não sofre mistura de coisas estranhas, nem consolações mundanas. […] Não podes ao mesmo tempo, tratar comigo e deleitar-te em coisas transitórias.3

Não desanimemos, pois, se é verdade que os inimigos estão tão próximos de nós, é bem verdade que os tesouros e as verdadeiras riquezas residem também no interior de nossa alma, desde que nunca a maculemos: “temos este tesouro em vasos de barro”. (2 Cor 4, 7)

Daí entendermos este aspecto sublime da pobreza, que caracteriza a verdadeira riqueza: abandonarmos o nada, para possuirmos aquilo que é tudo: a graça, o Reino dos Céus, o próprio Deus.

1 ROYO MARÍN, Antonio. Teología de la perfección cristiana. Madrid: BAC, 1998, p. 862-863.
2 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Apud. João Scognamiglio Clá Dias. Reuniões de formação sobre a Graça —1996, São Paulo, p. 66.
3 TOMÁS DE KEMPIS. Imitação de Cristo. Livro III, cap. 53

A misericórdia atraiu o maior milagre da História

Ir. Mariana de Oliveira, EP

Após o pecado original, a humanidade havia contraído uma dívida com o Criador. Normalmente, quando alguém deve determinada quantia a outrem, paga-lhe exatamente o débito ou, às vezes, devolve-lhe com juros. Porém, como poderia o homem, finito como é, satisfazer o Infinito? Só mesmo alguém Infinito poderia oferecer, com idêntica dignidade, a paga ao Deus infinito, em lugar dos homens finitos: este foi precisamente o motivo da Encarnação de Jesus Cristo. 1

Entretanto, consideremos um pouco a amplitude de tal satisfação, que manifesta um grande amor de Deus para conosco e um reflexo tão alto do poder divino que escapa completamente tanto à cogitação humana quanto à angélica, 2 pois, “[…] ao Se encarnar no seio puríssimo de Maria, Nosso Senhor fez o milagre negativo de assumir um corpo padecente”. 3 Eis o mistério que pasma toda criatura: Ele veio à nossa humanidade, sem deixar a divindade, para ser imolado no Sagrado Madeiro e, assim, comprar e reatar nossa amizade com Deus!

De fato, milagre é aquilo que faz Deus, cuja causa nos é oculta. 4 Muitas vezes, é a transformação de algo pequeno, ou até insignificante, em obra de grande valor. Por exemplo, ninguém prestava muita atenção no coxo que ficava à Porta Formosa do Templo pedindo esmolas (cf. At 3, 1-2). Supomos que as pessoas deviam, de vez em quando, se compadecer e dar-lhe algum óbolo. Mas, poucos anos depois de sua morte, quem se lembraria dele? Decerto, a História não conheceria jamais sua existência se um dia não tivesse sido alvo do retumbante milagre de voltar a andar, pela virtude do nome de Jesus (cf. At 3, 6-9). Digamos ter sido este um milagre “positivo”. Mas que seria fazer um milagre “negativo”? Seria como se o mesmo coxo fosse um homem atlético, ativo e de muito bom porte físico e, certo dia, um dos Apóstolos, olhando bem para ele, ordenasse o “milagre” de instantaneamente ficar deficiente. Chamaríamos isto de desgraça, pois é algo negativo, e nunca de prodígio.

Ora, Nosso Senhor Jesus Cristo quis assumir sobre Si, por sua misericórdia infinita, as deficiências corporais da natureza humana 5 e assim lavar-nos da infelicidade do pecado. Paradoxo maior não há, por ser Ele o Inocente! É o que a Deus aprouve fazer por nós: “Se encarnou pela nossa salvação” (Dz 40), “realizando um milagre contra Si mesmo, pois preferiu tomar um corpo padecente”, 6 Aquele que pela sua vida na glória não podia padecer!

O que a misericórdia do Todo-Poderoso não é capaz de fazer! Quanto poder! Muitos milagres na História já houve, sempre para melhor; porém, para o ínfimo, e não para com outros, mas para consigo mesmo, só Um teve coragem de fazer, com o fim de resgatar os que Ele ama.

A humildade foi assumida pela Majestade, a fraqueza, pela Força, a mortalidade, pela Eternidade. Para saldar a dívida de nossa condição humana, a natureza impassível uniu-se à natureza passível. […] Assumiu a condição de escravo, sem mancha de pecado, engrandecendo o humano, sem diminuir o divino. Porque o aniquilamento, pelo qual o invisível se tornou visível, e o Criador de tudo quis ser um dos mortais, foi uma condescendência de sua misericórdia, não uma falha do seu poder. […] Entrou, portanto, o Filho neste mundo tão pequeno, descendo do trono celeste, mas sem deixar a glória do Pai; é gerado e nasce de modo totalmente novo. De modo novo porque, sendo invisível em si mesmo, torna-se visível como nós; incompreensível, quis ser compreendido; existindo antes dos tempos, começou a existir no tempo. O senhor do universo assume a condição de escravo, envolvendo em sombra a imensidão de sua majestade; o Deus impassível não recusou ser homem passível, o imortal submeteu-se às leis da morte. […] Contudo, nem Deus sofre mudança com esta condescendência da sua misericórdia nem o homem é destruído com sua elevação a tão alta dignidade. 7

1 Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica III, q. 1, a.2, ad 2.
2 Cf. CLÁ DIAS, João Scognamiglio. A fé de Pedro, fundamento do Papado. In: O inédito sobre os Evangelhos. Comentários aos Evangelhos dominicais do Tempo Comum. Ano A. Città del Vaticano-São Paulo: LEV; Lumen Sapientiae, 2013, v. II, p. 291.
3 Ibid. p. 292.
4 Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Op. cit. I, q.105, a.7.
5 Cf. Ibid. III, q.5, a.3
6 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O triunfo, a cruz e a glória. In: O inédito sobre os Evangelhos. Comentários aos Evangelhos dominicais. Advento, Natal, Quaresma e Páscoa. Solenidades do Senhor que ocorrem no Tempo Comum. Ano A. Città del Vaticano-São Paulo: LEV; Lumen Sapientiae, 2013, v. I, p. 259.
7 SÃO LEÃO MAGNO. Cartas. In: COMISSÃO EPISCOPAL DE TEXTOS LITÚRGICOS. Liturgia das Horas. Op. cit. v. II, p. 1506-1507.

A RAIZ DE TODOS OS MALES

Ir. Ariane da Silva Santos

No dia a dia, diversas vezes nos deparamos com atitudes que não dão glória a Deus. Qual a raiz de tantas inclinações para o mal, de tantos desejos desordenados e de tantos outros defeitos da natureza humana? O orgulho, que, desde a queda de nossos primeiros pais, alastrou-se pelo mundo como uma peste no meio do jardim. Esse vício é a raiz de todos os pecados e por isso o homem necessita combatê-lo constantemente, sem que possa ver-se livre dele “senão meia hora após a morte”, 1 comenta Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias.

Contudo, antes ainda da queda de Adão, outro ato de orgulho havia causado a perdição eterna de outros seres, superiores ao homem na ordem da Criação.

Os anjos pecaram porque quiseram ser como Deus

“Non serviam! ― Não servirei! Subirei até o alto dos Céus, estabelecerei o meu trono acima dos astros de Deus, sentar-me-ei sobre o monte da aliança! Serei semelhante ao Altíssimo!” (Is 14, 13-14). Este odioso brado de revolta ― inspiração de todos os gritos de insubmissão da História ― fez-se ouvir no Céu. Era Lúcifer, o anjo que portava a luz. Tal era sua excelência que a Igreja aplica a ele as palavras de Ezequiel: “Tu és o selo de semelhança de Deus, cheio de sabedoria e perfeito na beleza; tu vivias nas delícias do paraíso de Deus e tudo foi empregado para realçar a tua formosura!” (Ez 28, 12-12).

Se Lúcifer estava assim tão perto de Deus, qual o motivo de tamanha revolta?

Segundo vários autores, fora revelado aos anjos que o Verbo Eterno Se uniria à natureza humana, “elevando-a assim até o trono do Altíssimo; e uma mulher, a Mãe de Deus, tornar-se-ia medianeira de todas as graças, seria exaltada por cima dos coros angélicos e coroada Rainha do universo”. 2

Tal revelação foi, no fundo, uma prova para todos os anjos. E alguns não quiseram aceitar, “pecaram por orgulho; manifestaram-se, ipso facto, desejosos de se nivelar com Deus, pois Lhe negaram a plena e suprema autoridade”. 3

Lúcifer quis ultrapassar o mistério que seu entendimento não alcançava… Julgou que o Senhor ignorava a superioridade da natureza angélica ao preferir unir-Se a um ser tão inferior a Si. E ao constatar que ele, o arquétipo dos Anjos, ver-se-ia na obrigação de adorar um homem ― ainda que divino ―, rebelou-se. Como observa São Bernardo, “aquele que do nada fora tirado, comparando-se, cheio de altivez, pretendeu roubar o que pertencia ao próprio Unigênito do Pai”. 4

Entretanto, o Arcanjo São Miguel, levantando-se como uma labareda da contrarrevolução e da fidelidade aos desígnios do Altíssimo, bradou: “Quis ut Deus?” E “houve no Céu uma grande batalha. Miguel e seus anjos tiveram de combater o Dragão. O Dragão e seus sequazes travaram combate, mas não prevaleceram. E já não houve lugar no céu para eles” (Ap 12, 7-8).

Arrastando consigo a terça parte dos anjos, Lúcifer foi precipitado no inferno, tornando-se o príncipe das trevas. “Como caístes, ó astro resplandecente, que na aurora brilhavas? A tua soberba foi abatida até os infernos” (Is 14, 11-12). Eis o castigo do orgulho!

São Miguel Arcanjo, por sua vez, foi elevado à mais alta hierarquia celeste, tornando-se o condestável dos exércitos angélicos, o baluarte da Santíssima Trindade. Eis o prêmio da humildade!

Com os homens, dá-se o mesmo?

Leia no próximo post.

1 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O fariseu e a pecadora. In: O inédito sobre os Evangelhos. Comentários aos Evangelhos dominicais. Tempo Comum. Ano C. Città Del Vaticano-São Paulo: LEV; Lumen Sapientiae, 2012, v. VI, p. 151.
2 MORAZZANI ARRÁIZ, Pedro Rafael. Quem como Deus? In: Arautos do Evangelho. São Paulo: n.69, set. 2007, p.19.
3 CORRỆA DE OLIVEIRA. Plinio. O adversário. In: Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei, n. 56, nov. 2002, p. 30.
4 SÃO BERNARDO. Homilia sobre las excelencias de la Virgen Madre. In: Obras completas. Madrid: BAC, 1953, I. p. 215: “Aquel que, habiendo sido formado ángel de la nada, comparándose, lleno de soberbia, a su Hacedor, pretendía robar lo que es proprio del Hijo de Dios”. (Tradução da autora)

A causa de nossa santificação: o sofrimento

Raphaela Nogueira Thomaz

Muito diferente d’Aquela Divina Figura que os Apóstolos contemplaram no Tabor, estava Nosso Senhor Jesus Cristo pregado na Cruz, com os braços abertos para atrair a Si a Humanidade inteira. Enquanto Homem-Deus, padeceu os mais atrozes tormentos, sendo abandonado, desprezado e humilhado. Talvez, até os que haviam sido objeto de Sua maior compaixão, clamavam por Sua morte.

Tudo parecia irremediavelmente perdido. Entretanto, dessa divina tragédia floriu gloriosa a Santa Igreja, nascida do flanco aberto deste Cordeiro sem mácula: o próprio objeto de irrisão dos algozes acabou por ser o manancial de onde surgiu para eles a salvação.

Dizem os teólogos que bastaria um simples gesto ou uma gota de sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo oferecidos a Deus-Pai para operar a Redenção. No entanto, Ele preferiu derramar Seu Preciosíssimo Sangue até a morte. E, desse modo, deu uma lição de conformidade com a dor para que cada homem tivesse completamente a coragem de carregar o seu próprio sofrimento. De fato, o sofrimento, sendo um dom admirável de Deus para que o homem, auxiliado pela graça, tempere e eleve sua personalidade, constitui o caminho necessário para a nossa santificação.

É o que assegura Mons João Clá Dias:

Desde que eu aceite o sofrimento que Deus me manda, desde que eu aceite o drama que passa por minha vida, com integridade de alma e com resignação… Ele, Nosso Senhor, não tem nenhuma falha e não há nada que se possa dizer: “Foi por causa de tal defeito que isso aconteceu…” Não. Ele assumiu sobre si todos os nossos pecados, e Ele sofre tudo isso por causa nossa. Ele sofre para nos dar a vida, Ele morre para nos libertar da morte. E, entretanto, sabemos perfeitamente que Ele, passando por tudo isso, recebe depois a glória que Ele tem enquanto homem, porque enquanto Deus, Ele é Senhor absoluto de todas as coisas, mas enquanto homem, Ele conquista esse poder sobre todas as coisas pelo seu sofrimento, pelo seu tormento.

Portanto, quando a cruz nos apanhar no caminho da nossa vida – será uma doença grave, será um desastre familiar, será o ter que enfrentar o drama destes contra aqueles, será inclusive, ter a desilusão: eu criei para mim um sonho que, de repente, se desfez, se quebrou – aceitar isto com humildade, aceitar isto com resignação, significa estar comprando o prêmio que virá.1

Evidentemente, sem o auxílio da graça, o ser humano não pode suportar retamente e em sua totalidade os esforços e sacrifícios que a vida impõe. Peçamos à Santíssima Virgem, cuja existência foi pervadida de sofrimentos e que culminaram no Calvário, para que possamos corresponder à graça de sermos capazes de uma inteira conformidade com a dor.

1 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Homilia do dia 21/03/2008 (Arquivo IFTE).

Viver na presença de Deus

Ir Cíntia Louback, EP

2º Ciências Religiosas

Quando alguém nos faz uma pergunta, tentamos transmitir ao máximo o que sabemos. Entretanto, há algo que muitas vezes nos deixa com dúvidas e com dificuldade de explicitar: falar a respeito de Deus. Quanto mais nos aprofundamos sobre o assunto, mais interrogações surgem.

Recorrendo as Sagradas Escrituras, onde está contida toda palavra revelada pelo próprio Deus, encontramos o episódio da sarça ardente em que Deus se revela a Moisés dizendo: “Eu sou aquele que Sou” (Ex. 3, 4). Contudo, esta resposta do próprio Deus nos deixa pensativos. Apelando aos doutores da Igreja, encontramos o que nos ensina Santo Tomás a respeito dessa frase: que Deus sempre foi, é e sempre será.

No entanto, nossa natureza humana não se contenta somente com essa explicação e e tenta aprofundar um pouco mais. De fato, quando tomamos conhecimento que algo existe, sentimos uma lógica curiosidade em saber quem é ou o que é. Todavia, bem sabemos que Deus é um Ser infinito, ao qual não conseguimos atribuir nenhuma qualidade, e que, para conhecê-lo, podemos fazê-la de duas formas: uma pela via negativa, ou seja, dizendo tudo aquilo que Ele não é, e pela via das afirmações, atribuindo-Lhe as perfeições das criaturas. E da posse de todos os bens, resultam os atributos de Deus que Santo Tomás expõe na Suma Teológica:

Pode-se demonstrar como Deus não é, afastando dele o que não lhe pode convir, como: ser composto, estar em movimento, etc., Assim, pergunte-se primeiro sobre a simplicidade de Deus, pela dele se exclui a composição. Como, por exemplo, nas coisas corporais, as simples são as menos perfeitas e fazem parte das outras, pergunte-se em segundo, sobre sua perfeição; em terceiro, sobre sua infinidade; em quarto, sobre sua imutabilidade; e em quinto, sobre sua unidade.1

Estando agora um pouco mais entrosados no assunto, detenhamos-nos em um de seus atributos, que é a imensidade divina.

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Não basta união, é preciso unidade

Fahima Akram Salah Spielmann

Antes de partir ao Pai, quis o Divino Salvador nos deixar uma expressiva imagem do grau de adesão que se deve ter a Ele:

Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. Todo ramo que não der fruto em mim, Ele o cortará; e podará todo o que der fruto, para que produza mais fruto. Vós já estais puros pela palavra que vos tenho anunciado. Permanecei em Mim e eu permanecerei em vós. O ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira. Assim também vós: não podeis tampouco dar fruto, se não permanecerdes em Mim. Eu sou a videira; vós, os ramos. Quem permanecer em Mim e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem Mim nada podeis fazer. Se alguém não permanecer em mim será lançado fora, como o ramo. Ele secará e hão de ajuntá-lo e lançá-lo ao fogo, e queimar-se-á. Se permanecerdes em Mim, e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis tudo o que quiserdes e vos será feito. Nisto é glorificado meu Pai, para que deis muito fruto e vos torneis meus discípulos. Como o Pai me ama, assim também Eu vos amo. Permanecei no meu amor. Se guardardes os meus mandamentos, sereis constantes no meu amor, como também eu guardei os mandamentos de meu Pai e permaneço no seu amor. Disse-vos essas coisas para que a minha alegria esteja em vós, e a vossa alegria seja completa. (Jo 15, 1-11. Grifo da autora).

Vendo Nosso Redentor nos impelir insistentemente a permanecermos n’Ele, perguntamo-nos qual seria o motivo de tamanho desejo de incorporação?

Explica-nos o admirável Padre Garrigou-Lagrange 1que, nessa metáfora, Cristo quis deixar expresso que o único meio de comunicação da seiva, ou do influxo da vida da graça, nos vem unicamente d’Ele, asssim como a cabeça é a única que tem a potência de comunicar aos membros o influxo vital. Separar-se d’Ele é sujeitar-se à morte.

De fato, encontramos quarenta vezes o verbo “permanecer” no Evangelho do discípulo amado e vinte e três em sua primeira epístola, sempre assinalando a nossa obrigação de procurarmos a mais íntima união com Cristo.

A esse respeito, em discussão contra os pelagianos, o II Concílio de Milevitano e o Cartaginense de 418 assinalaram a absoluta dependência que possuem os cristãos em relação a Cristo, uma vez que Ele não disse “sem mim pouco podeis fazer”, mas sim “nada podeis fazer”; ou seja, desde os membros em potência até os que os são em ato, se esfriarem nas suas relações com a Cabeça, afrouxando os vínculos de união, a consequência só poderá ser uma: a infrutuosidade (D 227).

Ademais, Cristo nos atesta que não basta “fazer com”, mas é necessário permanecer n’Ele, com Ele e por Ele, para produzir realmente frutos. É o inovador princípio de íntima união trazida por Jesus, que não deve se abranger, mas sim transformar em unidade.

Como nos atesta a teologia, todos os cristãos “têm de aspirar a uma presença íntima; presença que se realiza mediante a graça, que é a seiva que os vivifica sobrenaturalmente”,2 e que os faz produzir bons frutos de santidade.

E a força e a plenitude dessa permanência, assegura Monsenhor João, somente encontraremos no amor.3

Cristo prossegue com uma increpante sentença àqueles que optarem por desligar-se da Cabeça, pois, além de perderem a vida, terão o seu castigo: “se alguém não permanecer em mim, será lançado fora, como o ramo. Ele secará, e hão de ajuntá-lo e o lançá-lo ao fogo, e queimar-se-á” (Jo 15, 6).

Além dessa significativa analogia, em outras duas ocasiões, encontramos o Evangelista usar uma imagem, que se não fosse da autoria de Cristo não nos seria creditada, que é a união de Cristo com a sua Igreja sob a entranhada imagem da unidade entre as Pessoas da Santíssima Trindade.4

Em uma primeira circunstância, temos o Divino Mestre ensinando o modo pelo qual, ainda nessa vida terrena, podemos levar essa união ao seu auge: “O que come minha carne, e bebe o meu sangue permanece em Mim e Eu nele. Assim como o Pai que vive me enviou, e Eu vivo pelo Pai, assim o que me comer a Mim, esse mesmo também viverá por Mim, e de minha própria vida” (Jo 6, 55-58).

Contudo, ainda que a comunhão seja sob as espécies físicas, é através da graça, a qual usa de instrumento as espécies, que obtemos a nossa incorporação a Cristo, e assim se torna possível, mesmo depois de consumida a Eucaristia, dizer que quem come a carne de Cristo permanece n’Ele, e Ele na pessoa.

Nesse sentido, entendemos o que dizia São Paulo ao advertir alguns cristãos que participavam da Eucaristia: “Porventura o cálice da bênção, que nós benzemos, não é a comunhão do sangue de Cristo? E o pão que partimos não é a participação do corpo de Cristo? Visto que há um só pão, nós, embora muitos, formamos um só corpo, porque participamos todos dum só e mesmo pão” (1Cor 10, 16-17).

Por esse motivo, ousam os teólogos afirmarem que o principal efeito da Eucaristia é a unitas Corporis Mystici,5 ou seja, a união da Cabeça com o corpo.

Noutra passagem, no momento solene antes de consumir seu holocausto, sabendo Jesus que deixaria os seus, quis pedir ao Pai, compondo a emocionante oração sacerdotal, rogando para seus membros máxima união à semelhança entre Eles, a ponto de se transformar em unidade: “que eles sejam todos um, como Tu, Pai, o és em Mim e Eu em Ti, para que também eles sejam um em Nós […],que sejam um, como Nós somos um: Eu neles e Tu em Mim, para que sejam consumados na unidade” (Jo 17, 20-23. Grifos da autora).

Sabemos que a união entre o Pai e o Filho é substancial. São os dois uma única essência, sem deixar, ao mesmo tempo, de haver distinção pessoal. Sao Pessoas sempre unidas entre si, de maneira que onde está uma Pessoa, aí também está a outra.

Do mesmo, modo através da graça, Cristo está em nós como Ele está no Pai, ainda que seja de maneira acidental e não substancial como na Santíssima Trindade. E, assim como a união entre as Divinas Pessoas não destrói sua natureza, a nossa união com Cristo não destrói a nossa personalidade, mas a enaltece.6

Enumerar as passagens onde Cristo manifesta seu desejo de união, poderíamos deixar para uma outra oportunidade; entretanto, podemos entrever que, da parte da Cabeça, não há outro anseio do que a mais perfeita união com os seus membros, baixando de sua alta dignidade e se identificando com eles (Cf. Mt 25, 45; At 9, 5).

Com base nisso, podemos entender o que nos dizia o Apóstolo “não sou eu quem vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gal 2, 20), pois no cristão passa a existir uma autêntica vivência de Cristo, a ponto de haver “mais semelhança entre o cristão e Cristo, do que entre o cristão e Deus”.7

Há, portanto, em Cristo o desejo de unir-se a seu Corpo da forma mais íntima possível, e apesar de haver vários membros, quer Ele que formemos uma só unidade. O problema está em sermos membros flexíveis, unidos por Ele, com Ele e n’Ele, para, dessa forma, alcançarmos a plenitude do Corpo.

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[1] GARRIGOU-LAGRANGE, Reginald. Op. cit. p. 142-145.
[2] “[cristianos] han de aspirar a una presencia íntima; presencia que se realiza mediante la gracia, que es la savia que los vivifica sobrenaturalmente” (SAURAS, Emilio. Op. cit. p. 55. Tradução da autora).
[3] CLÁ DIAS, João Scognamiglio. A Igreja é uma, Santa, Católica e Apostólica. Op. cit.
[4] Deve-se advertir que o sentido, ainda que seja próprio, é usado de forma análoga.
[5] SÃO TOMÁS DE AQUINO. Summa Theologiae. III q. 73, a. 3, ad1.
[6] SAURAS. Emilio. Op. cit. p. 52.
[7] “Más semejanza hay entre el cristiano y Cristo que entre el cristiano y Deus” (SAURAS, Emilio. Op. cit. p. 191. Tradução da autora).

A luz primordial

Emilly Schnorr

Cada homem foi chamado a contemplar a Deus e a refletir suas perfeições de um modo próprio e característico. Segundo o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, este chamado melhor se expressa no conceito de “luz primordial”.1

No que consiste esta luz? “Todo homem nasceu para louvar a Deus. Esse louvor se faz pela contemplação de certas verdades, virtudes e perfeições divinas. A ‘luz primordial’ é a aspiração existente na alma de cada pessoa para contemplar a Deus de um modo próprio”.2

Esta contemplação, por sua vez, se traduz numa virtude específica que a alma deve espelhar. “A ‘luz primordial’, portanto, é a virtude dominante que uma alma é chamada a refletir, imprimindo nas demais sua tonalidade particular. Em outras palavras, seria o pórtico pelo qual uma pessoa entra, para depois amar todas as perfeições de Deus”.3

Porém, deve-se considerar a luz primordial enquanto abarcando todas as outras virtudes. O Prof. Plinio Corrêa de Oliveira combatia muito os erros dos que a julgavam independente e isolada das demais:

A “luz primordial” é sempre um complexo de virtudes, como o cavalheirismo, por exemplo, que não consiste apenas na justiça ou na fortaleza, mas compreende as outras virtudes: é um determinado modo de prudência, de justiça, etc. A “luz primordial” é um complexo de virtudes ordenadas e coordenadas entre si, conforme um princípio fundamental.4

Quando a pessoa consegue discernir sua “luz primordial”, descobre a virtude que dará unicidade a seu chamado; como se fosse um raio a brilhar em sua vida, indicando o norte para o qual ela melhor alcançará a Deus. “Conforme afirma Dr. Plinio, no momento em que a pessoa chega a explicitá-la para si mesma, encontra sua via de santificação e, nela, a paz interior”.5

Santa Teresinha do Menino Jesus foi um exemplo claro nesse ponto. De acordo com o que ela mesma narra, ansiava por ser apóstolo, mártir, sacerdote, guerreiro, profeta e doutor6. Mas como ela conciliaria tantas aspirações aparentemente contraditórias?

Tomando em consideração o corpo místico da Igreja, não me identificava em nenhum dos membros descritos por São Paulo, por outra, queria identificar-me em todos eles. A caridade deu-me a chave de minha vocação. Compreendi que se a Igreja tinha corpo, composto de vários membros, não lhe faltava o mais necessário, o mais nobre de todos. Compreendi que a Igreja tinha coração, e que o coração era ardente de amor. Compreendi que só o amor fazia os membros da Igreja atuarem, e que se o amor se extinguisse, os Apóstolos já não anunciariam o Evangelho e os Mártires se recusariam a derramar seu sangue… Compreendi que o amor abrange todas as vocações, alcançando todos os tempos e todos os lugares… Numa palavra, é eterno…7

Foi, portanto, na consideração do amor misericordioso que esta santa encontrou a chave de sua vocação específica e o fundamento da “Pequena Via” por ela iniciada.

Erroneamente podemos pensar que a “luz primordial” é reservada aos santos. Ao contrário, por ser ela um dom de Deus, foi concedida a todos os homens para habilitá-los a refletir as perfeições divinas. Ou seja, desde aquele indivíduo menos agraciado até no mais dotado que possa existir na História da Humanidade, ela estará presente.

Mons. João Clá tece um brilhante comentário a esse respeito:

À maneira de um ponto na superfície de um espelho, cada pessoa recebe do Sol de Justiça um raio de luz sobrenatural ímpar. E somente ela pode e o deve refletir cada vez mais nesta vida, até espelhá-lo sem defeito na eternidade. Assim, esse conceito pode ser aplicado à afirmação do salmista: “in lumine tuo videbimus lumen” – “na tua luz veremos a Luz” (Sl 36, 10).8

Daí resulta que cada alma tem um matiz irrepetível, que a torna, em algum ponto, superior a todas as outras.

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[1] Cf. CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Amor a Deus e “luz primordial”: Palestra. São Paulo, 15 abr. 1988. (Arquivo IFTE).
[2] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. “Luz primordial” e discernimento. In: Revista Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei, n. 54, set. 2002. p. 4. (Editorial).
[3] CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O dom de sabedoria na mente, vida e obra de Plinio Corrêa de Oliveira. Op. cit. p. 310-311.
[4] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. A “luz primordial” e as potências da alma, apud CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O dom de sabedoria na mente, vida e obra de Plinio Corrêa de Oliveira. Op. cit. p. 311.
[5] Ibid. p. 312.
[6] Cf. SANTA TERESINHA DO MENINO JESUS. Op. cit. p. 211.
[7] Ibid. p. 213.
[8] CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O dom de sabedoria na mente, vida e obra de Plinio Corrêa de Oliveira. Op. cit. p. 312.

O pecado

Anna Luiza Cendon Finotti

Deus submeteu à prova nossos primeiros pais1 a fim de merecerem o céu. No entanto, eles não permaneceram fiéis ao transgredirem o mandato divino 2 e,“ao lermos o Gênesis, entristece-nos a história do primeiro pecado do homem” 3 (Cf. Gen 3, 1-24), pois é a fonte dos desequilíbrios de toda a humanidade. O homem, criatura nobre de Deus, ficou, assim, desfigurado pelo pecado e sujeito às más tendências.

Entretanto, “antes de sentenciar os sofrimentos aos quais a natureza humana estaria sujeita na terra de exílio, Deus nos prometeu a vinda de um Salvador, […]garantindo-nos o perdão”. 4 Igualmente, deu-nos o sacramento do Batismo que apaga o pecado original e “nos eleva muito acima da nossa natureza humana para nos tornarmos verdadeiros filhos e herdeiros da Santíssima Trindade” 5.

Contudo, quando pecamos afastamo-nos novamente de Deus e rompemos com essa amizade, pois, como tão bem define Santo Agostinho, o pecado constitui uma aversio a Deo et conversio ad creaturas, afastar-se de Deus e um voltar-se a criatura.

Por qual motivo, então, permitiu Deus o pecado? Entre outras razões, explica Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP:

[…] em primeiro lugar, a fim de nos enviar um Salvador que operasse a Redenção. Por isso, na Liturgia da Vigília Pascal se canta “ó culpa tão feliz que há merecido a graça de um tão grande Redentor”. Em segundo lugar, para evitar o amolecimento e a tibieza dos justos. […] Por último, porque permitindo o mal Deus quer um bem superior que dele resulta acidentalmente.6

E essa fraqueza do homem, por onde muitas vezes ele prefere o mal ao bem, é ainda uma consequência do pecado original. O próprio São Paulo descreve esta luta interior:

Não entendo, absolutamente, o que faço, pois não faço o que quero; faço o que aborreço. E, se faço o que não quero, reconheço que a lei é boa. Mas, então, não sou eu que o faço, mas o pecado que em mim habita. Eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita o bem, porque o querer o bem está em mim, mas não sou capaz de efetuá-lo. Não faço o bem que quereria, mas o mal que não quero. Ora, se faço o que não quero, já não sou eu que faço, mas sim o pecado que em mim habita. Encontro, pois, em mim esta lei: quando quero fazer o bem, o que se me depara é o mal. Deleito-me na lei de Deus, no íntimo do meu ser. Sinto, porém, nos meus membros outra lei, que luta contra a lei do meu espírito e me prende à lei do pecado, que está nos meus membros. (Rm 7, 15-23).

É nessa constante luta que vive o homem sobre a terra. Dela saem vitoriosos e alcançam a felicidade eterna aqueles que, com o auxílio da graça, souberem observar as Leis de Deus e renunciar a todo pecado.7

O pecado é algo horroroso e as palavras do Beato João Paulo II bem o confirma: “Aquilo que se opõe mais diretamente à caminhada do homem em direção a Deus é o pecado, o perseverar no pecado, enfim, a negação de Deus.”

Acrescenta Mons. João:

A gravidade da ofensa se mede sobretudo pela dignidade da pessoa ofendida. Uma agressiva bofetada desfechada por alguém a seu igual merece uma penalidade muito menor do que uma outra, da mesma intensidade, desferida contra uma grande e representativa personalidade. O castigo sempre deverá ser aplicado em proporção à categoria do ofendido. Ora, se a pessoa ultrajada é infinita, o castigo só poderá ser eterno; tanto mais que, para reparar o pecado, quis o Verbo de Deus encarnar-Se e sofrer todos os tormentos da Paixão.8

Os pecados dos homens fazem sofrer o Sagrado Coração de Jesus, tão sensível às ingratidões recebidas. Disso são testemunhas inúmeras revelações privadas, como por exemplo, nesta em que Ele dirigiu a Santa Maria Margarida as seguintes palavras:

Eis este Coração que tanto amou os homens até se consumir para testemunhar seu amor. E como reconhecimento só recebe da maioria ingratidões por suas irreverências e sacrilégios, e pelas friezas e desprezos que têm para comigo neste Sacramento de amor. E o que é para Mim ainda mais sensível são corações consagrados a mim que também procedem da mesma maneira. 9

Como não se compadecer do Coração de Jesus continuamente atormentado pelos pecados dos homens? Dia e noite o Senhor Jesus é abandonado no Santíssimo Sacramento, em todos os instantes os homens pecam, e como outros tantos Pilatos, Caifás e Herodes, condenam o Justo à morte. Não há minuto na face da Terra em que o Sagrado Coração não seja alvo de novos escárnios e bem dizia Santa Teresa de Jesus: “Não há coração que não sofra por tantas calamidades, mesmos os nossos que são tão ruins…”10, e ainda São Luís Maria Grignion de Monfort exclama: “Não é melhor para mim morrer do que Vos ver, meu Deus, todos os dias, tão cruelmente ofendido?”.11

1 TANQUEREY, Adolphe. Compêndio de Teologia Ascética e Mística. Porto: Apostolado da Imprensa, 1961, p. 34.
2 Cf. ROYO MARÍN, Antonio. Somo hijos de Dios. Madrid: BAC, 1977, p. 10; TANQUEREY, loc. cit.
3 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Paz! Onde estás?. In: O inédito sobre os Evangelhos. Città del Vaticano: LEV, 2012, v. V, p. 101.
4 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Entre o perdão e a perseverança Deus prefere o quê?. In: O inédito sobre os Evangelhos. Città del Vaticano: LEV, 2012, v. VI, p. 342.
5 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Pertencemos à família de Deus!. In: O inédito sobre os Evangelhos. Città del Vaticano: LEV, 2012, v. V, p. 411.
6 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Até na hora da aparente derrota, o Sumo Bem sempre vence. In: O inédito sobre os Evangelhos, op. cit. v. V, p. 253.
7 Cf. CCE n.2015.
8 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O pobre e o rico. In: O inédito sobre os Evangelhos, op. cit. v. VI, p.379.
9 DUFOUR, Gerard. Na Escola do Coração de Jesus com Margarida Maria. São Paulo: Edições Loyola, 2000, p.87.
10 SANTA TERESA DE JESUS. Caminho de perfeição. In: Obras Completas. São Paulo: Loyola, 2002, c.XXXV, n. 4, p. 408.
11 SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. La oración abrasada. In: Obras. Madrid: BAC, 1953, p.599.

A dor

Anna Luiza Cendon Finotti

Quando Deus criou o homem, ademais de todas as maravilhas que lhe concedeu no Paraíso, cumulou-o de bens sobrenaturais.

As qualidades sobrenaturais concedidas ao primeiro homem foram: a graça santificante, as virtudes teologais e os dons do Espírito Santo. Deus punha sua complacência em habitar no homem como num magnífico santuário por Ele mesmo ornado. Sua vinda sensível ao Paraíso Terrestre, de que nos fala a Escritura, era um símbolo dos dulcíssimos e invisíveis liames de amizade que existiam entre o homem em estado de graça e o Criador.1

Ou seja, o ser humano foi criado num estado magnífico, com graças especialíssimas. Sua alma estava toda propensa ao bem, possuía a própria vida divina, as virtudes teologais: fé, esperança e caridade, e ainda os dons do Espírito Santo: ciência, inteligência, sabedoria, prudência, fortaleza, temor, piedade, conselho e fortaleza. Além disso, Deus concedeu-lhe também os dons preternaturais.

Enquanto os dons sobrenaturais faziam sentir sua benéfica influência sobretudo na parte racional do homem, os dons preternaturais cumulavam de perfeição a parte sensível. Eram estes em número de três:integridade, imortalidade, impassibilidade.2

O dom de integridade ordenava inteiramente a natureza humana. “Esse dom especialíssimo fazia com que todas as inclinações e os impulsos da natureza estivessem em harmonia com a lei divina”3. Pelo dom imortalidade os homens não passariam pela morte, “depois de uma permanência mais ou menos prolongada no Paraíso Terrestre, seriam transladados definitivamente ao céu sem passar pelo transe terrível da dor, da enfermidade”.4

E finalmente pelo dom de impassibilidade o homem estava isento de qualquer mal-estar, pois este “lhe proporcionava a isenção de dores e sofrimentos. Sem perturbação orgânica, psicológica, o homem gozava de uma felicidade perfeita. Nada perturbava sua paz e tranquilidade.5

Pelo pecado nossos primeiros pais foram expulsos do Paraíso e privados desses privilégios e assim o sofrimento, a morte, as doenças tornaram-se companheiros da humanidade tisnada pelo pecado original.6

Desde os seus primeiros instantes, vê o homem erguer-se diante de si o espectro da dor. Não há escritor, por mais profundo ou por mais banal, que não tenha descrito, entre atônito e temeroso, o terrível combate entre o homem e a dor. A existência humana nada mais é do que uma luta entre o homem e a dor. Luta trágica, luta terrível, em que a dor sempre vence o homem.7

A dor física e dor moral

São João Paulo II, em sua Carta Apostólica Salvifici Doloris, afirma ser o sofrimento “algo essencial à natureza humana. […] parece pertencer à transcendência do homem; é um daqueles pontos em que o homem está, em certo sentido, ‘destinado’ a superar-se a si mesmo; e é chamado de modo misterioso a fazê-lo”.8 A natureza humana por ser um composto de corpo e alma não sofre apenas dores físicas, mas sobretudo dores morais.

O homem sofre de diversas maneiras, que nem sempre são consideradas pela medicina, nem sequer pelos seus ramos mais avançados. O sofrimento é algo mais amplo e mais complexo do que a doença e, ao mesmo tempo, algo mais profundamente enraizado na própria humanidade. É-nos dada uma certa ideia quanto a este problema pela distinção entre sofrimento físico e sofrimento moral. Esta distinção toma como fundamento a dupla dimensão do ser humano e indica o elemento corporal e espiritual como o imediato e ou direto sujeito do sofrimento. Ainda que se possam usar até certo ponto como sinônimas as palavras “sofrimento” e “dor”, o sofrimento físico dá-se quando, seja de que modo for, “dói” o corpo; enquanto que o sofrimento moral é “dor da alma”.9

Das mais variadas formas o homem pode sofrer fisicamente —doenças, fome, acidentes, frio, e quantas outras coisas, independente da idade, raça ou condição social — e, na maioria das vezes, esses são acompanhados de sofrimentos morais. Para melhor compreendermos a ligação que há entre um sofrimento e outro, transcrevemos aqui um exemplo dado por Mons. João Scognamiglio Clá Dias: um lutador de karatê, quando está em uma competição recebe toda espécie de pancadas e isso lhe causa dor. Entretanto, se ele tem o apoio da torcida, ainda que seu corpo sofra em decorrência dos golpes que leva, por assim dizer em sua alma ele não sofre porque sente a adesão e o estímulo da torcida. Por outro lado, pode uma pessoa sofrer na alma sem ter recebido nenhuma pancada, por exemplo, um inocente que se vê objeto de todo tipo de calúnia e humilhações.10

Podemos relembrar também outro caso, ocorrido com o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira e que muito o impressionou. Certa feita, encontrava-se num restaurante e enquanto esperava o que havia pedido, passou a analisar os circunstantes. No meio de tantas pessoas dissipadas e agitadas com os seus problemas, admirou-se ao ver um homem sério e reflexivo, sentado num canto do recinto, tomando seu lanche a sós. Qual seria o motivo deste estado de espírito tão pouco frequente em nossos dias? Sua indagação foi respondida quando chegou o dono do estabelecimento e pôs-se a conversar com dito personagem:

— Oh!que bom vê-lo por aqui! Mas, onde estão seus amigos?

— Pois é… Eles sempre estavam comigo, mas depois que perdi minha perna, todos me abandonaram…

Assim, Dr. Plinio compreendeu que aquele estado de espírito provinha do abandono em que o homem se encontrava. Era uma “dor de alma” profunda consequente de um acidente físico. Nesta situação o que mais lhe fazia sofrer: o fato de estar sem perna ou sem amigos? Se ele estivesse fisicamente dolorido, mas houvesse quem lhe confortasse a alma, não seria para ele uma alegria? Por outro lado, se possuísse o físico perfeito, mas fosse considerado um pária na sociedade, não seria melhor a primeira situação? Isso ocorre pois o instinto de sociabilidade no ser humano é profundamente mais forte do que o instinto de conservação. Inúmeros são os que preferem arriscar a própria vida a serem considerados como covardes pelos demais.11

O sofrimento bem aceito é “o que mais eleva a alma de uma pessoa. Nesta terra não há individuo mais indigente do que aquele a quem Deus não manda dores”.12 A partir dessa compreensão da dor podemos admirar melhor o que afirma Dom Chaudard em seu livro A alma de todo apostolado: o sofrimento é o oitavo sacramento,13 tal é o seu valor aos olhos de Deus.

Sofrer, todos sofrem, o grande problema está no modo como se enfrenta a dor pois, “as mesmas misérias levam alguns para o céu e outros para o inferno”.14 No alto do Calvário, encontramos a mais bela lição nessa matéria: Três homens estão crucificados. O do centro, Nosso Senhor Jesus Cristo, nos dá o mais belo exemplo: sofre como inocente pelos pecados alheios. Ao lado direito de Jesus, o Bom Ladrão sofre como penitente, mas do lado esquerdo do Divino Redentor, o mau ladrão sofre como um condenado.15

1 CAMPANA, op. cit. p. 24.
2 Ibid. p. 26. (Grifo da autora)
3 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. No sofrimento, a raiz da glória. In: O inédito sobre os Evangelhos, op. cit. v. V, p. 323.
4 ROYO MARÍN, Antonio. Nada te turbe. Madrid: Palabra, 1982, p. 15. (Tradução da autora)
5 FORMENT, Eudaldo. Id a Tomás: Principios fundamentales del pensamiento de Santo Tomás. Pamplona: Fundacion Gratis Datæ, 2005, p. 69. (Tradução da autora)
6 Cf. CCE 1264.
7 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Na Academia Jackson de Figueiredo. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano IX, n. 94, Jan. 2006, p. 5.
8 JOÃO PAULO II. Salvifici doloris, n.2.
9 Ibid. n.5.
10 CLÁ DIA, João Scognamiglio. Palestra. São Paulo, 30 dez.2001. (Arquivo do IFTE)
11 Cf. Id. O Sermão da Montanha. In: O inédito sobre os Evangelhos, op. cit. v. VI, p. 85.
12 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. PLINIO CORREA DE OLIVERIRA: Notas Autobriográficas. São Paulo: Retornarei,2008, v. I, p. 294.
13 Cf. CHAUTARD, OSCO, Jean-Baptiste. A alma de todo apostolado. São Paulo: FTD, 1962, p. 112
14 SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO. A prática do amor a Jesus Cristo. Aparecida: Santuário, 2004, p. 56.
15 Cf. SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. Carta circular a los amigos de la Cruz.n.33.In: Obras. Madrid: BAC, 1953, p.245.

Quão suave é o Senhor

Ir. Letícia Sousa,EP

É próprio a todas as obras saídas das mãos d’Aquele que é a Perfeição serem perfeitas. Contudo, tendo Deus criado o universo deixou que certas maravilhas — catedrais, palácios, músicas, e tantas outras coisas — fossem feitas pelo homem, sua imagem e semelhança (Cf. Gn 1, 26), refletindo-O enquanto Criador. Essas belezas seriam, segundo a expressão de Dante, como que netas do Altíssimo a glorificá-Lo e ao mesmo tempo servindo ao homem.

Tomemos, por exemplo, a Basílica Nossa Senhora do Rosário situada junto à principal casa de formação dos Arautos do Evangelho e nascida do enlevo de um varão cheio fé e que deseja que o Reino de Nosso Senhor Jesus Cristo se estabeleça não só nas almas, mas em toda face da terra. Quem, pela primeira vez, entra na Basílica, crê contemplar a antecâmara do céu e solta uma exclamação de encanto e deslumbramento, pensando ter encontrado a suprema beleza que já toca no inverossímil nesta terra.

Dá significativo testemunho a este respeito um visitante: “Quando entrei na igreja, nossa!Eu senti que se existe um lugar onde mais me aproximei de Deus, foi ali. Nunca vi uma igreja mais linda. Reaproximei-me de Deus”.

Conservando o estilo gótico, elevado e tendente ao mais alto, a basílica faz com que de proche en proche a alma suba até Deus, atingindo um admirável equilíbrio de espírito que conduz ao auge do entusiasmo, porém calmo, sereno e sério que não produz frenesi, nem sensações de intemperança, como os ambientes igualitários de nossos dias.

Tudo no templo arrebata pelo esplendor das formas e ao mesmo tempo convida ao recolhimento e à oração. Os visitantes sentem-se no ápice do enlevo, da contemplação e da meditação com um convite a glorificar e servir a Deus, a Nossa Senhora e a Santa Igreja Católica Apostólica e Romana.

As harmonias inusitadas — como as cores — conseguem conciliar, num mesmo conjunto, simplicidade, elevação e realeza onde se presencia a grandiosidade de Nosso Senhor e uma intimidade com o sobrenatural. O fiel que ali reza sente a sublime graça de estar sendo recebido carinhosamente por seu Pai Celeste na sua corte mais íntima e comprova “quão suave é o Senhor”

Mons. João Clá Dias, fundador dos Arautos do Evangelho

“Assim como todos recebem a salvação pelas sílabas contidas nos evangelhos, assim também sábios e ignorantes recebem a sua parte dessa bem-aventurança pelo efeito das imagens coloridas que têm sob os olhos. Pois, o que a língua diz e prega com sílabas, essa escritura o faz por cores”. 1

Contemplando tais maravilhas, a alma se dá conta de que foi criada para algo muito superior ao que existe nesta terra. Vê que esta relação harmônica que há entre as belezas materiais e sua própria alma é um prelúdio do que lhe está reservado no Céu.

Portanto, envolvidos por um panorama transbordante de sobrenatural, recorramos a Nosso Senhor, cujo Sagrado Coração é uma fonte de inesgotáveis misericórdias, pedindo que a suavidade d’Ele amenize nossos sofrimentos; que nos dê forças para melhor suportá-los, para que, assim, possamos caminhar santamente sobre esta terra e alcançar a felicidade eterna.

1 Etienne Gilson. Introdução às artes do belo, p.15.

A imensidade e a ubiquidade de Deus

Ir. Maria Camila Echavarría Molina,EP
3º Ano de Ciências Religiosas

O coração dos filhos procuram estar próximo do Pai e tê-lo junto de si a todo momento e o Pai, com inefáveis palavras, responde a seu apelo. “Invocar-me-eis e vireis suplicar-me, e eu vos atenderei. Procurar-me-eis e me havereis de encontrar, porque de todo coração me fostes buscar. Permitirei que me encontreis” (Jm 29, 12- 14)

Pode, por acaso, Deus estar junto a cada um de seus filhos sem deixar de dar mais atenção a um por estar com outro? E ainda, pode Deus, sem deixar seu trono, estar presente em todas as partes?

A essas perguntas responde a Sagrada Escritura: “Tu me envolves por todo lado e sobre mim colocas a tua mão. Onde eu poderia ocultar-me do teu Espírito? Para onde poderia fugir de tua presença? Se subir até os Céus, Tu lá estás; se descer ao mundo dos mortos, ali Te encontras” (Sl 138, 5; 7- 8). É a imensidade de Deus, não há lugar onde Ele não possa estar. Está presente no nascer do sol a nos elevar e a desejar contemplar eternamente o verdadeiro Sol que jamais tem ocaso. Está presente nos minerais, nas montanhas e no mar para mostrar-nos que Ele tudo abarca.

Ao contemplarmos as maravilhas existentes no universo nas diferentes hierarquias postas por Deus – a vida vegetativa que se desenvolve e cumpre orgânica e perfeitamente todo seu funcionamento como por exemplo o crescimento das árvores distintas dando diversos frutos em cores e em sabores ou um céu resplandecente de estrelas no profundo e sereno silêncio da noite – somos convidados a refletir nas palavras do salmo: “[Senhor] que é o homem para pensardes nele? Que são os filhos de Adão, para que vos ocupeis com eles?” (Sl 8, 5).

Deus está, sobretudo, presente na alma dos homens: “Deus está no Templo santo e no Céu tem o seu trono, volta os olhos para o mundo. Seu olhar penetra os homens.” (Sl 10, 4) Ele é onipresente e está em nós mais do que nós mesmos, já que “em Deus vivemos, nos movemos e existimos” (At 17, 28).

Ensina-nos o grande Doutor Angélico que a onipresença de Deus deve ser entendida da seguinte maneira: 1° pelo conhecimento (per praesentiani), todas as coisas ainda as mais recônditas estão sempre presentes a seu olhar: “tudo está aberto a seus olhos, nada lhe é escondido e nenhuma criatura lhe é invisível, tudo é posto a nu a seus olhos” (Hb 4, 13) 7; 2° pelo poder (per potentiam), fazendo chegar seu influxo a todos os seres criados que em todo momento estão pendentes de sua ação conservadora. Se Ele retirasse essa virtude que sustenta sua criação tudo retornaria ao nada; 3º pela substância (per essentiam), Deus em sua mesma substância está presente em todas e em cada uma das criaturas. 1

Deus está sempre presente em todo o universo, mas não como alguém que tendo dentro de si um órgão para a respiração, usa deste naturalmente sem prestar atenção em sua existência, e que só se lembra dele quando sai de seu funcionamento normal e passa a causar-lhe problemas. Não, Deus está presente em cada uma das coisas, inclusive nas mais insignificantes aos nossos olhos, protegendo-a, sustentando-a e amparando-a segundo seus divinos desígnios.

Para compreendermos mais facilmente este tão excelso atributo de Deus, vejamo-lo na vida de Santa Paulina.

A devoção dela ao Santíssimo Sacramento era algo de chamar a atenção. Ficava na capela imóvel como se fosse uma estátua. Durante o recreio, por causa das conversas vivas das noviças no pátio, contíguo à capela, perguntaram-lhe certa vez: “Madre, as noviças não estão atrapalhando a senhora com esse barulho todo?” Ela retrucou: “Quando eu estou diante de Deus, nada me atrapalha”. Afirmava ela sentir a presença de Deus constantemente, e que isso lhe parecia impossível perder. Aceitando o sofrimento junto aos doentes e procurando ver sempre qual era a vontade divina, ela adquiriu esse convívio com Deus. 2

Por fim, assevera Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias:

Ainda que comamos ou bebamos, tratemos e negociemos com os homens e pareça que nos preocupamos e entretemos nisso, havemos de procurar que não seja esse nosso manjar e entretenimento, senão outro invisível; que é estar sempre olhando e amando a Deus e fazendo sua Santíssima Vontade.

Eu vou analisar um pouco minha vida e verei que nos momentos em que eu pequei, julguei que estava a sós. Verei que, muitas vezes, o demônio me levou a pecar e a ofender a Deus porque eu não estava na presença de Deus, eu tinha me esquecido da presença de Deus.

Por isso, devemos pedir a graça a Nosso Senhor Jesus Cristo de que Ele me faça sentir a presença d’Ele, que Ele me faça sentir que, de fato, eu estou dentro de Deus, e que Deus me vê e vê tudo em mim, minhas intenções minhas aspirações. Tudo! 3

1 Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma teológica. I, q.8, a. 2.
2 Cf .Revista Arautos do Evangelho. So Paulo: Ano Xl, n 07, jul. 2002, p. 16.
3 CLA DIAS, João Scognamilglio. Viver sempre na presença de Deus. São Paulo, 14 maio. 1992. Meditação. (Arquivo IFTE).

Uma aula de perfeição

Irmã Carmela Werner Ferreira, EP

O caminho da virtude, que outros apontaram através de páginas de sabedoria, a Doutora da Pequena Via nos indica aqui por meio de seu olhar.

Santa Teresinha do Menino Jesus nasceu após a invenção da fotografia, e graças às possibilidades por esta inauguradas, podemos acompanhá-la em todas as fases da vida, desde os primeiros anos até os últimos dias. Certamente não a conheceríamos tão bem nem aproveitaríamos tanto as páginas de seus Manuscritos Autobiográficos sem este valioso complemento, verdadeiro registro visual de seu progresso na virtude.

Entre os diversos retratos da carmelita de Lisieux, um chama de modo especial nossa atenção, pela fulgurante expressão de santidade que deixa transparecer. Trata-se da fotografia tirada aos seus oito anos, quando era aluna das religiosas beneditinas, na qual aparece trajada com uniforme escolar ao lado de sua irmã Celina.

Seu olhar honesto, sereno e despretensioso denota uma louçania cativante, reflexo da inocência batismal fielmente conservada. Sem estar rindo nem aparentar ter o hábito de fazê-lo a todo o momento, transmite uma alegria intensa e completa ausência de egoísmo. Diríamos que ela experimenta uma felicidade autêntica, pois “a criança não conhece a mentira, a falsidade nem a hipocrisia. Sua alma se espelha inteiramente em sua face; sua palavra traduz com fidelidade seu pensamento, com uma franqueza emocionante. Ela não tem as inseguranças da vaidade ou do respeito humano. Em uma palavra, ela e a simplicidade constituem uma sólida união”. 1

O Beato João Paulo II, ao proclamá-la Doutora da Igreja, incluiu seu nome no seleto rol de expoentes como Santo Agostinho, São João Crisóstomo e São Tomás de Aquino. Causa-nos surpresa que uma religiosa falecida aos 24 anos de idade tenha recebido esta honraria concedida apenas aos mais destacados teólogos da Santa Igreja.

Entretanto, melhor do que muitos luminares das ciências, a Doutora da Pequena Via ensinou que “se não vos transformardes e vos tornardes como criancinhas, não entrareis no Reino dos Céus” (Mt 18, 3), e justificou de maneira magnífica a oração do Divino Mestre: “Eu Te louvo, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos” (Mt 11, 25).

O Pontífice a exaltou não tanto por aquilo que ela fez, mas, sobretudo, pelo que ela foi. O caminho da virtude, que outros apontaram através de páginas de sabedoria, ela nos indica aqui por meio de seu olhar. Afinal, determo-nos por alguns minutos na contemplação deste semblante não equivale a receber uma aula de perfeição?

1CLÁ DIAS, EP, João Scognamiglio. O inédito sobre os Evangelhos. Roma/São Paulo: LEV/LumenSapientiæ, 2012, v.V, p.124. Março 2013 .

Espírito Santo é Deus?

Ir. Letícia Gonçalves de Sousa, EP

Há dois modos de conhecimento: pelo princípio e pelo objeto. No primeiro caso, ou obtemos por esforço da razão natural, ou voamos com as asas da Fé divina. No segundo, além das verdades que a razão pode conhecer, dispomos da Revelação dos mistérios escondidos em Deus.

Um dos principais mistérios de nossa Fé – Deus é uno em essência e trino em Pessoas – nos veio através da Revelação de Jesus Cristo.

A trindade e unidade divina é um tão grandioso mistério escondido em Deus, desde toda eternidade, que nem o maior dos Serafins seria digno de revelá-lo aos homens. E, ainda assim, mesmo que nos tenha sido revelado por Nosso Senhor, nesta Terra não o podemos entender por completo, só na visão beatífica compreenderemos a Deus tal como Ele é. “Hoje vemos como por um espelho, de maneira confusa, mas então veremos face a face. Hoje conhecemos de maneira imperfeita, então conheceremos exatamente” (I Cor 13, 12).

Percorrendo as páginas do Evangelho, encontramos diversas manifestações da Trindade: “Depois que Jesus foi batizado, saiu logo da água. Eis que os Céus se abriram e viu descer sobre Ele, em forma de pomba, o Espírito de Deus. E do Céu baixou uma voz: Eis meu Filho muito amado em quem ponho minha afeição” (Mt 3, 16-17). O Paráclito Se revela na pomba, unindo-Se à voz do Pai, e a Trindade se manifesta aos homens, em Cristo Jesus.

Mas, verdadeiramente podemos considerar o Espírito Santo como Deus?

A Igreja assim o definiu no Símbolo de Niceia: “Creio no Espírito Santo, Senhor que dá a vida, e procede do Pai e do Filho”. 1

Então, por que Ele passa por Deus desconhecido? 2 O próprio Apóstolo dá testemunho de ser a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade “desconhecida”: “chegou a Éfeso, onde achou alguns discípulos e indagou deles: ‘Recebestes o Espírito Santo, quando abraçastes a Fé?’. Responderam-lhe: ‘Não, nem sequer ouvimos dizer que há um Espírito Santo!’” (At 19, 1-2). E se esta pergunta se fizesse em nossos dias, certamente a mesma resposta seria dada por um número considerável de cristãos.

O Espírito Santo é idêntico ao Pai e ao Filho, “é da mesma natureza do Pai e do Filho, assim como o Filho é o Verbo de Deus, assim também o Espírito Santo é o Amor do Pai e do Filho”.3 O amor do Pai pelo Filho e do Filho pelo Pai é tão grande e perfeito, que faz proceder outra Pessoa eterna, que é o Espírito Santo. Esta procedência se realiza por via de espiração de amor do Pai e do Filho.4

Mons. João Scognamiglio Clá Dias 5 explica o que é possível ser explicado acerca da Trindade de Deus: O Pai, que é Deus, gera o Filho, que é a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade; contemplando o Filho, idêntico a Ele, vê todas as grandezas que há n’Ele, idênticas às de sua própria Pessoa, e O ama inteiramente. O Filho admira o Pai e o Pai admira o Filho; desse amor procede uma Terceira Pessoa, que é o Espírito Santo. Em teologia, a relação íntima das três Pessoas divinas no mistério do convívio trinitário se chama pericórese. De tal maneira os três são idênticos que se o Pai ou o Espírito Santo se encarnassem seriam iguais, pois “quem me viu, viu o Pai” (Jo 14, 9).

1 SÃO PIO V. Catecismo Romano. Trad. Frei Leopoldo Pires Martins. Petrópolis: Múltipla, 1950, p. 66

2 Cf. ROYO MARÍN, Antonio. El gran desconocido: el Espíritu Santo y sus dones. 2.ed. Madrid: BAC, 2004

3 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Exposição sobre o Credo. Trad. D. Odilão Moura. 4.ed. São Paulo: Loyola, 1981, p. 70.

4 Cf. ROYO MARÍN. El gran desconocido: el Espíritu Santo y sus dones. Op. cit. p. 18.

5 Cf. CLÁ DIAS. Homilia na Solenidade da Santíssima Trindade. Op. cit.