Audiência na corte celeste

Ir.Lays Gonçalves de Sousa, EP

Continuação do post anterior

“Os céus proclamam a glória do Senhor e o firmamento as obras de suas mãos!” (Sl 18,2) Ao contemplar uma noite de céu estrelado, um belo nascer do sol, o colorido da natureza, ou ainda, o vai e vem elegante das ondas do mar, facilmente o pensamento humano voa ao Criador de tantas maravilhas.

Que terá Deus criado de mais excelente? Poderíamos imaginar um astro esplêndido, desconhecido pelos homens e, quiçá, pelos Anjos. Qual seria a intensidade de seu brilho? De uma luminosidade superior a milhões de sóis e constelações inteiras, seria um astro que só despontaria no firmamento a cada mil séculos, sendo reservado apenas para a contemplação e gozo do Soberano Criador. Se Deus permitisse vermos a beleza posta nesta criatura mítica, certamente não haveria um só homem na face da Terra que não se encantaria com sua formosura.

Pois bem, este astro luminoso não é outro senão Maria Santíssima, apreciada com veemência no Cântico dos Cânticos: “Quem é esta que surge como aurora, bela como a lua, brilhante como o sol, terrível como um exército em ordem de batalha?” (Ct 6,10).

Medianeira e Distribuidora Universal de todas as graças

Para compreendermos melhor o papel de Nossa Senhora, é preciso salientar sua posição enquanto Medianeira.

O conceito de mediador esteve presente na História desde tempos longínquos. De fato, a função dos Patriarcas e sacerdotes no Antigo Testamento era servir de elo entre o Criador e as criaturas. Atesta a própria Escritura a necessidade imprescindível de um defensor: Moisés intercedeu, no Sinai, pelo povo eleito (cf. Ex. 32, 7- 14); José, junto ao Faraó, em defesa de seus irmãos (cf. Gn. 47,1-2); Ester, em favor de seu povo, conseguindo tudo o que desejava (cf. Est. 7, 3).

Nas palavras de São Tomás, “é ofício próprio do mediador unir aqueles entre os quais se interpôs; pois os extremos se unem no meio”. 1

Com outros termos, explica Mons. João:

Pode ser que um inferior, chamado a se unir a um superior, eleja um mediador, para que o aproxime mais do superior. E esse mediador irá agir, irá fazer gestões, no sentido de que o inferior aspire mais pelo superior, e o superior se abra mais ao inferior. 2

Sabemos pelos escritos de São Paulo que “há um só mediador entre Deus e os homens: Jesus Cristo homem, que se entregou como resgate por todos” (ITm 2, 5-6). O sacrifício oferecido pelo Salvador reconciliou-nos com o Padre Eterno trazendo-nos, assim, a graça e a justiça, sem a qual ninguém poderia ser salvo. Entretanto, tal afirmação não impede a consideração de medianeiros secundários entre Deus e os homens, subordinados à mediação principal e perfeita, ou seja, a de Cristo.

Entre o Padre Eterno e a criação, existe o Homem-Deus: inteiramente Deus, como as outras Pessoas da Santíssima Trindade; tão homem quanto cada um dos descendentes de Adão. Resta, contudo, um tal abismo separando Nosso Senhor Jesus Cristo das demais criaturas, que a pergunta se impõe: na ordem das coisas não deveria haver outro ser que, ao menos de algum modo, preenchesse esse hiato? 3

Quem seria capaz de, apenas com um sorriso afável, conquistar a benevolência do Altíssimo, entregando-lhe míseras orações e comprando-nos os favores desejados? “Maria Santíssima é a única capaz de exercer esta função admirável”. 4

A criatura chamada a completar esse vácuo no conjunto da criação, a criatura excelsa, infinitamente inferior a Deus, mas ao mesmo tempo insondavelmente superior a todos os Anjos e a todos os homens de todas as épocas – é precisamente Nossa Senhora. […] Nossa Senhora é o grampo de ouro que une Nosso Senhor Jesus Cristo a toda criação, da qual Ela é o ápice e a suprema beleza. 5

São Bernardo compara a Santíssima Virgem a uma escada, pois, assim como não se sobe ao segundo degrau sem antes passar pelo primeiro, da mesma forma não podemos chegar a Jesus Cristo senão por Maria: “Filhinhos, esta é a escada dos pecadores, esta é a minha maior confiança, esta é toda a razão de minha esperança”. 6

Todos os benefícios que recebemos nos chegam pela intercessão de Maria! A razão é simples: “Porque Deus assim o quer. Tal é a vontade d’Aquele que dispôs que tudo tivéssemos por Maria”. 7

O famoso taumaturgo do século XX, Padre Pio de Pietrelcina, deixou-nos também um exemplo de ardoroso devoto de Nossa Senhora. Depois de Deus, dizia ele, era Ela “a grande veneração de sua vida”. 8 Com o enérgico temperamento que o caracterizava, afirmava continuamente: “Há pessoas tão tolas que pensam poder passar a vida sem o auxílio de Nossa Senhora”. 9

A fim de exortar os fiéis à devoção a Maria, contava uma saborosa historieta, a qual ilustra o quanto Ela ultrapassa as misérias humanas e é capaz de “povoar de santos os tronos vazios, que os Anjos apóstatas abandonaram e perderam por orgulho”.10 Eis suas pitorescas palavras:

Certo dia, Cristo passeava com São Pedro pelo Paraíso. Subitamente Ele notou a presença de vários indivíduos que Lhe pareciam totalmente deslocados naquele cenário.
– Olhe! – disse a São Pedro – Como estas pessoas conseguiram entrar?
– Não é minha culpa! – respondeu São Pedro – O Senhor deve perguntar a sua Mãe. Toda vez que Ela percebe que eu viro as costas, abre o portão e deixa todo mundo entrar! 11

A Mediação de Maria, como vimos, exerce grande influência sobre os homens. Ela conhece todas nossas necessidades, e incontáveis vezes Se adianta aos nossos pedidos. Quem seria capaz de expressar com palavras ou captar com a mente quão agradável é a Deus a oração de sua Mãe?

Gozando Ela da eterna bem-aventurança e participando do conhecimento de Deus, discerne no olhar do Altíssimo, como num espelho, as contínuas súplicas e necessidades dos homens, como também o desejo de Deus de socorrê-los por meio d’Ela. No convívio humano, há certas ocasiões em que o olhar profere sentenças mais sublimes que qualquer vocábulo. No céu, não passará o mesmo? O olhar de confiante súplica da Rainha dos Anjos é a perfeitíssima oração que socorre os degradados filhos de Eva, recebendo como agradável reposta o alcandorado e amoroso sorriso do Filho, impetrando, assim, as graças pedidas. 12

“Ah! Se eu pudesse publicar pelo universo esta misericórdia que tivestes comigo; se todo o mundo soubesse que, sem Maria, eu já estaria condenado […]”. Essa belíssima súplica de São Luís bem sintetiza a infinita clemência de Deus ao entregar-nos esta Arca preciosíssima. Ele estabeleceu entre Maria e os homens uma união indissolúvel, capaz de ultrapassar os séculos e percorrer as vastidões do mundo. Haveria algo superior? Com tal vínculo, quem não conquistará a Pátria Celeste? Qual filho não recorreria, através da oração, a essa Medianeira Onipotente?

1 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. III, q.26, q.1, ad 2.
2 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Aula de Cristologia no Centro Universitário Ítalo Brasileiro-Unítalo. São Paulo, 14 nov. 2007. (Apostila).
3 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plínio, apud CLÁ DIAS. Pequeno Ofício da Imaculada Conceição comentado. 2. ed. São Paulo: Associação Católica Nossa Senhora de Fátima, 2010. v. I. p. 79.
4 SÃO BERNARDO, apud SÃO LUÍS GRIGNION DE MONTFORT. Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem. 33. ed. Petrópolis: Vozes, [S. d.] n. 85. p. 90.
5 CORRÊA DE OLIVEIRA, apud CLÁ DIAS. Pequeno Ofício da Imaculada Conceição comentado. Op. cit. p. 79.
6 SÃO BERNARDO, apud SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO. Op. cit. p. 40.
7 Ibid. p. 39.
8 MCCAFFERY, John. Padre Pio: Histórias e Memórias. 4.ed. Trad. Rosângelo Paciello Pupo. São Paulo: Loyola, 2004, p. 215.
9 Loc. cit.
10 SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. Op. cit. n.28.p. 34.
11 MCCAFFERY. Op. cit. p. 215.
12 Cf. NEUBERT, apud ROYO MARÍN. La Virgen María. Op. cit. p. 202.
13 SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. Oração a Jesus. In: Preces. São Paulo: Retornarei, 2005, p. 207.

Uma ideia sobre “Audiência na corte celeste

  1. Há uma fotografia de um homem sepultado na idade média na catedral de Westminster uma das mais bonitas catedrais da Europa, ele está deitado, e sobre a tampa da sepultura representando a ele olhando; quem acompanha o olhar vê que o olhar dele dá para uma imagem de Nossa Senhora, que está no alto, nós devemos viver como esse homem está na sepultura dele; olhando para Nossa Senhora, e Nossa Senhora olhando para ele, até na hora do pecado olhemos para Ela, refúgio dos pecadores rogai por nós.“
    Conferencia em São Paulo – Sobre a devoção à Nossa Senhora.

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