Livrai-nos do mal

María Alejandra Acevedo Sánchez

Numa tarde, encontrava-se São João Bosco, que tinha profundo conhecimento das almas, percorrendo as avenidas da sua cidade natal, com o objetivo de conquistar almas para Deus. Eis que, naquele instante, avista, do outro lado da rua, um rapaz que sofria fortes tentações, pois estava sendo atormentado por uma multidão de demônios.

 De repente, o santo vê ao longe um outro menino que se aproxima do rapaz. Chegando ao seu encontro, todos os demônios que ali atormentavam o jovem fogem imediatamente. Ao contemplar esta cena, o homem de Deus se pergunta:

 — Que menino misterioso! Quem poderá ser, pois conseguiu enxotar todos os demônios! Será por acaso o Menino Jesus ou o Anjo da Guarda do pobre rapaz?

Talvez o leitor tenha pensado em idênticas perguntas.

 Nesse mesmo momento, aparece ao justo sacerdote o seu Anjo Custódio, que lhe pergunta:

— Gostarias de saber quem é aquele menino que conseguiu afugentar o esquadrão de demônios? Obtendo uma resposta afirmativa, o Anjo prossegue:

— Aquele menino é uma má amizade, que equivale a toda aquela presença diabólica. Assim, os demônios, ao verem o menino mau se aproximar, partiram tranquilos, sabendo que aquela amizade valia pelo trabalho de todos eles.

É o caso de dizer: “ Diz-me com que andas e dir-te-ei quem és”!

 

Nostalgia do Paraíso

Ir. Patricia Victoria Jorge Villegas, EP

Deus é eterno e para Ele não existe o tempo. Ao admirar a obra dos seis dias — podemos imaginar —, o Divino Artífice considerou não apenas tudo o que acabara de criar, mas também as maravilhas a serem feitas pelos homens ao longo dos séculos. Quis Ele tornar Adão e seus descendentes partícipes da criação, dando-lhes inteligência e talento para, de alguma forma, completá-la por meio de sua arte e engenho.

Tomemos, por exemplo, o chocolate. Quem, ao comer um ótimo bombom não sente bem-estar, alegria e ânimo? Depois de um dia de árduo trabalho, um pouco de chocolate amargo ajuda a recuperar da fadiga e do desgaste emocional, pelas comprovadas propriedades energéticas do cacau, além de fazer bem para a saúde por causa dos flavonoides e outras substâncias benéficas que ele contém.

Produto do trabalho humano, o chocolate é feito da amêndoa do cacaueiro, torrada e fermentada. Esta árvore tropical, originária da bacia do rio Amazonas e da América Central, se cultiva hoje também por amplas zonas da África e da Ásia. Os habitantes daquelas regiões, na época pré-colombiana, usavam seu fruto para preparar uma bebida quente e amarga, de propriedades revitalizantes. Considerado alimento das divindades, o cacau era consumido pelas castas superiores daqueles povos.

Levado para a Europa pelos colonizadores espanhóis, acabou sendo objeto de aprimoramento em seu preparo e apresentação, tornando-se o chocolate especialidade de países como a Suíça, França, Bélgica e Holanda. Não poucos mosteiros, sobretudo os cistercienses, destacaram-se pela fabricação de chocolates artesanais, pois a Igreja é Mãe e sabe bem aproveitar as invenções dos homens — quando são boas! — para ajudar as almas.

No entanto, pode um alimento ter influência nas almas? Há no chocolate algo de especial para ele fazer parte da austera vida monástica, a ponto de haver em alguns conventos espaço para uma chocolataria, onde esta iguaria é produzida e degustada?

Sendo o homem composto de corpo e alma, é indispensável o físico auxiliar o espiritual. Assim como quando contemplamos um belo panorama marítimo nossos sentidos se deleitam com o movimento das ondas, a evolução dos peixes e gaivotas, o azul das águas, e depois nosso espírito se enche de considerações sobrenaturais a respeito do que contemplamos, de forma análoga, quando tomamos algum alimento ele causa certo efeito em nossa alma.

Por isso, ao entramos numa confeitaria e saborearmos uma trufa ou um éclair de chocolate, nosso espírito se predispõe subconscientemente, pelo deleite do paladar, a amar a perfeição em todas as coisas, de acordo com as palavras do Divino Mestre: “Sede perfeitos, assim como vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5, 48).

Deste modo, além do bem-estar que um chocolate de qualidade produz em nosso organismo, ele pode nos ajudar a lembrar da vida eterna e, em consequência, trazer uma nostalgia do Paraíso perdido: se formos santos nesta Terra, quantas maravilhas muitíssimo superiores a um apurado éclair ou a requintados bombons de licor, gianduia ou praliné poderemos degustar no Céu? Pois se são as obras humanas e terrenas tão aprazíveis, como serão as celestes?

Estamos aqui de passagem e devemos saber usar as mínimas oportunidades — como provar um chocolate… — para transcender ao mundo sobrenatural. Peçamos a Nossa Senhora que nos ajude a elevar nossos corações às grandezas que nos esperam no Céu onde, junto com os Anjos e os Bem-aventurados, gozaremos da felicidade eterna.

Os nossos maiores benfeitores

Ir Clotilde Neuburger, EP

No primeiro dia da criação, Deus fez a luz. Certamente este trecho não se refere à luz material, pois esta seria criada no quarto dia. Do que se trata, então? Como ensina São Tomás de Aquino, esta seria uma outra “luz” imensamente superior: a formação da criatura espiritual, os Anjos.

Apesar de muito se ouvir falar deles, nem todos têm um exato conhecimento da finalidade para qual eles foram criados. E, com relação a nós, humanos, em que nos ajudam e favorecem?

Todas as criaturas de Deus, sejam Anjos, homens, animais ou seres inanimados, têm relação entre si, porém, mais especialmente os Anjos para com os homens. Na verdade, ao criá-los, Deus não teve em vista somente a Sua glória extrínseca. Em Sua infinita Providência, outorgou-lhes todo o governo sobre estes mesmos homens, para ajudá-los neste vale de lágrimas e guiá-los em seu percurso rumo à eternidade.

Tanto é assim que, segundo afirma Santo Agostinho, não podemos considerar duas sociedades separadas, uma dos Anjos e outra dos homens, pois se assim fosse, estes nada teriam a ver com aqueles, e vice-versa.

Anjos e homens formam uma só sociedade, que se entrelaça e se inter-relaciona. Mons João Clá Dias comenta que “os Anjos são muito mais exemplos para os homens do que os próprios homens são exemplos para outros homens.”

Mas nesta nossa relação com os Anjos, quais são os benefícios que eles nos trazem? Os teólogos costumam reduzi-los a doze:

  1. Repreendem nossas faltas.

Muitas vezes, quando sentimos uma dor de consciência por termos feito algo de errado, é um anjo que nos está admoestando.

  1. Ajudam a nos livrar do pecado.
  2. Afastam os obstáculos que atrapalham nosso progresso espiritual.

Eles nos amparam e nos dão forças para evitar certas ocasiões e más companhias que impedem nosso progresso.

  1. Fazem-nos evitar as tentações.
  2. Instruem-nos.

Eles iluminam nossa inteligência e fortalecem nossa vontade para praticarmos o bem e a virtude, afastando-nos do caminho do mal.

  1. Revelam-nos, ocasionalmente, segredos.

Por exemplo: Podemos sentir, dentro de nós, uma inspiração para rezarmos por alguém que está passando por dificuldades. É o Anjo revelando-nos que aquela pessoa está necessitando de orações.

  1. Consolam-nos.

Às vezes estamos em uma situação de grande provação e, de repente, sentimos dentro da alma uma consolação. São os Anjos.

  1. Fortalecem-nos.
  2. Guiam-nos à Pátria Celeste.
  3. Expulsam e vencem nossos inimigos.

Os Anjos, quando se aproximam de nós, fazem com que os demônios fujam espavoridos.

  1. Suavizam as tentações.
  2. Rezam por nós e apoiam as nossas orações.

Inúmeras vezes fazemos uma oração sem grande valor e obtemos um resultado enorme. Não nos enganemos! São os Anjos que se uniram às nossas orações, dando-lhes força.

Assim, chegamos à seguinte conclusão: o fato de termos recebido de Deus um Anjo da Guarda pessoal é um presente incomparável. Devemos ter para com ele uma amizade pessoal, que nos faça um só com ele. Nunca nos deixemos iludir, pensando estar sozinhos ou nos imaginando capazes de praticar qualquer ato bom, sem o auxílio da graça e dos Anjos.

bem-feitores

Na origem de grandes conversões

Ir. Patricia Victoria Jorge Villegas, EP

Não raras vezes, percorrendo as páginas da hagiografia e da História da Igreja, encontramos o bom exemplo na raiz das mais estupendas conversões. Nesses casos, o fulgor das virtudes de algum grande Santo serve a Deus como instrumento para ferir com seu dardo de amor a alma daqueles que deseja atrair inteiramente para Si.

A vida de Santo Ambrósio está coalhada de fatos magníficos, porém a “mais preciosa pedra de sua coroa de glória é a conversão de Santo Agostinho”. Repleto da sabedoria do mundo, mas longe da de Deus, Agostinho errava pelas vias do pecado e da heresia, tendo aderido à doutrina dos maniqueus. Conhecia alguns pontos da doutrina católica, mas não se deixava comover.

Mudando de Roma para Milão, ali encontrou o Bispo Ambrósio. “Tu me conduzias a ele sem eu o saber, para eu ser por ele conduzido conscientemente a Ti”,1 escreveu mais tarde em suas Confissões. As palavras de Ambrósio prendiam a atenção de Agostinho, mas seu conteúdo não o preocupava. Com o tempo, ele foi abrindo o coração aos ensinamentos do Bispo, até decidir procurar argumentos que demonstrassem a falsidade do maniqueísmo: “A fé católica não me parecia vencida, mas para mim ainda não se afigurava vencedora”.2

Entretanto, o que de fato o levou a aderir à verdadeira Religião foi o exemplo do santo Bispo de Milão: “Gostava não só de ouvir seus sermões, mas também de passar horas inteiras em seu gabinete, em silêncio, vendo esse homem de Deus trabalhar ou estudar”.3 Finalmente, declara Santo Agostinho: “Desde então comecei a preferir a doutrina católica”.4 Afirma o Papa Bento XVI: “Da vida e do exemplo do Bispo Ambrósio, Agostinho aprendeu a crer e a pregar”.5

Algo semelhante ocorreu na conversão de São Justino. Depois de percorrer em vão as escolas filosóficas mais em voga no seu tempo, em busca de conhecer a Deus, ele encontrou a verdade ao contemplar a serenidade e destemor dos mártires avançando rumo ao suplício. Este espetáculo fê-lo reconhecer a autenticidade e superioridade da Religião cristã.6 Eis o testemunho do próprio Santo: “Pelas obras e pela fortaleza que os acompanham, podem todos compreender que este – Jesus Cristo – é a Nova Lei e a Nova Aliança”.7

1 SANTO AGOSTINHO. Confissões. L.V, c.13, n.23.

2 Idem, c.14, n.24.

3 BECCARI, Luiz Francisco. Destemido defensor da Igreja. In: Arautos do Evangelho. São Paulo. Ano III. N.36 (Dez., 2004); p.36.

4 SANTO AGOSTINHO, op. cit., L.VI, c.5, n.7.

5 BENTO XVI. Audiência geral, 24/10/2007.

6 Cf. RUÍZ BUENO, Daniel (Ed.). Actas de los mártires. 5.ed. Madrid: BAC, 2003, p.303.

7 SÃO JUSTINO. Diálogo com Trifón, XI, apud RUÍZ BUENO, op. cit., p.303.

Texto extraído da Revista Arautos do Evangelho dez 2015

Você conhece Lucius Amarus?

Ir Cecilia Maria Almeida, EP

Quem de nós, acompanhando as notícias e contemplando o cenário político-social do Brasil e do mundo, no terá ouvido algumas (ou muitas!) vezes as palavras “fraude”, “propina”, “operação lava-jato”. “impeachment”… O que pensar disso, senão que vivemos num mundo de LARÁPIOS?

LARÁPIO… Para os jovens leitores que não sabem o significado desta palavra aqui está a simples definição segundo o dicionário da Língua Portuguesa: indivíduo que furta; ladrão.

Mas qual será a origem deste termo tão incisivo?

A palavra LARÁPIO tem origem interessante: havia em Roma um juiz que vendia sentenças. O juiz se chamava Lucius Amarus Rúfilus Apius. Quando proferia suas sentenças assinava: L.A.R. Apius. Daí surgiu o termo LARÁPIO.

Mas será que LARÁPIOS são apenas aqueles que violam o 7º mandamento da Lei de Deus no tocante aos bens alheios? Pode em nosso meio existir também LARÁPIOS? Não seremos nós também um deles? Vejamos o que nos diz nosso Fundador Mons. João Clá Dias a respeito:

“Humildade é aquela virtude que nos faz ter uma visão clara, equilibrada a respeito do que somos, temos, podemos. Não é uma visão diminuída a respeito de si próprio, é uma visão equilibrada. E, portanto, não é uma exacerbação do juízo que se faz a respeito de si mesmo. Isto é fruto da virtude da temperança. Quem tem humildade e mansidão é pequenino, este é pequenino.

E os que são mansos e humildes recebem estas coisas que os sábios e os entendidos não recebem, porque os “sábios”, entre aspas!, os “entendidos “, entre aspas!, são aqueles que se julgam muito mais capazes do que na realidade. São aqueles que atribuem a si o que pertence a Deus e, portanto, são uns ladrões,  ladrões de Deus. São “teolarápios “, roubam a Deus. Essa é a realidade. E esse é todo o orgulhoso. É um ladrão de Deus, cleptomaníaco de Deus, “teoclepto”, aí está. 1

O início do ano é um tempo propício para um sério exame de consciência. E se percebermos em nós algo do tal Lucius Rufus, não percamos a confiança, pois Mons. João Clá Dias ademais de nos alertar nos dá o remédio para a cura deste mal:

O que é preciso é tomar essa posição de filho da Igreja e de Nossa Senhora, não reservando nada para si, restituindo tudo, reportando tudo, servindo desinteressadamente até o último ponto, depois dizendo:

‘“Eu sei que eu não sou apenas um servo inútil, mas que eu sou um servo infiel, que eu não fiz tudo quanto deveria fazer. Mas ao menos essa tristeza de não ter chegado até o limite, Nossa Senhora preencha com sua misericórdia e com minhas lágrimas, de maneira a chegar até o limite’. Esse é o programa da fidelidade. […] Pedir a Nossa Senhora que nos comunique uma centelha da alma d’Ela, através de São Luís Grignion, um pouco do espírito de Elias, do espírito de São Luís Grignion, de maneira tal que queiramos ser isso como ideal de nossa vida: o servo bom e fiel que foi filho em toda linha e que restituiu tudo aquilo que tinha de restituir.

Essa posição é o suco da pequena via — tenho certeza disso — do filho amoroso, desinteressado, abrasadamente amoroso. Este é o tal amor que move as criaturas, é a mola do universo. […]2

Como alcançar esta graça da restituição, a qual consiste essencialmente em atribuir a Deus os dons d’Ele recebidos? Nossa Senhora é a garantia. Deixemo-La agir na alma e ” Ela nos ensinará a glorificar ao Senhor por ter contemplado o nosso nada e, como resultado, nosso espírito exultará de paz e alegria (cf. Lc 1, 47).”3

1 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Homilia. Mairiporã, 2008.

2 Id. Conversa, 1970

3 Id. O precursor e a restituição. In: Arautos do Evangelho. São Paulo: Ano IV, n. 37, jan. 2005, p. 11.

O QUE É MAIS IMPORTANTE?

Ir. Letícia Gonçalves de Sousa, EP

Depois do pecado original, a natureza humana tornou-se mais tendente a buscar sua felicidade nas coisas materiais vinculadas facilmente aos sentidos do que naquelas ligadas ao espiritual. Quiçá seja este o motivo pelo qual o Divino Mestre perfumou as páginas do Evangelho com ensinamentos a respeito da grandeza do Reino do Céu a fim de que, encantados pela beleza deste, os homens perdessem o desejo de gozar desta terra passageira e corrompida.

Nosso Senhor também Se utilizou das parábolas do Reino para falar do caráter militante da Igreja: “quando é semeado, é a menor de todas as sementes. Mas, depois de semeado, cresce, torna-se maior que todas as hortaliças e estende de tal modo os seus ramos, que as aves do céu podem abrigar-se à sua sombra” (Mc 4, 31-32).

Assim sendo, facilmente podemos responder à seguinte pergunta: o que mantém viva, influente e em contínua expansão a Esposa Mística de Cristo? É a estirpe de almas que, escutando as divinas palavras de Nosso Senhor, avançam para fazer com que um dia venha a nós o reino do Pai. A maior arma de apostolado destes apóstolos não é outra senão a vida interior.

São Carlos Borromeu tem um sábio conselho neste sentido: “Não descuides de tua própria alma; se descuidares de tua alma, não poderás dar aos outros o que deves dar”.[1] Este é o segredo do desenvolvimento e da força dessa árvore sagrada, que um dia foi um grão de mostarda. Sua seiva é o auxílio da graça divina, e não a força humana. Portanto, se realizamos boas obras, “não devemos nos pôr a pergunta se os homens reconhecerão nossas realizações e nossas grandezas. Importa sabermos que Deus nos assiste, perscrutando no fundo das almas o amor com que O servimos”.[2]

Podemos dar muita glória a Deus em nossas ações de cada dia, desde que tenhamos as vistas postas no sobrenatural e, não apenas no concreto, sendo perfeitos “como o Pai celeste é perfeito” (Mt 5, 48). “Assim fez Cristo Jesus durante Sua vida pública: ocupadíssima, intensíssima, entretanto, sempre impregnada de oração e contemplação”.[3] Sigamos, pois, os seus passos.

[1] CARLOS BORROMEU, Santo. Sermão. In: COMISSÃO EPISCOPAL DE TEXTOS LITÚRGICOS. Liturgia das Horas. Petrópolis: Vozes; Paulinas; Paulus; Ave Maria; 2000, v. IV, p. 1436.

[2] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Santidade, o ideal de todo homem. In: Dr. Plinio.  São Paulo, Ano IV, n. 44, nov. 2001, p.10.

[3] CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O amor imperfeito de Maria e a preocupação naturalista de Marta. In: Arautos do Evangelho. São Paulo: Ano IX, n. 103, jul. 2010, p. 15.

Como um toque de sino…

Ir. Adriana María Sánchez García, EP

Blém! Blém! Blém!

Toca o sino da capela do palácio. Acompanham-no outros maiores, bem como os das igrejas dos arredores. Dali a pouco, os bordões das basílicas também começam a soar. Por toda a redondeza o som se espalha, como um belo carrilhão, proclamando a grande notícia: nascera o primogênito real!

Se era assim que em muitos reinos do passado se anunciava a ricos e pobres, a grandes e pequenos, a chegada de um novo herdeiro, bem poderíamos falar, por analogia, de um sino magnífico que tocou na História marcando o fim da Antiga Lei e o começo da era da graça, ao nascer o Salvador, o Filho Unigênito de Deus! E até hoje, ao comemorarmos tão magno acontecimento, soam novas badaladas deste místico sino convidando-nos a­ ­contemplar um dos maiores mistérios da nossa Fé.

Através dos apelos da graça, Deus fala conosco a todo instante. Porém, só O ouvimos “no recolhimento, na paz e no silêncio. Sua voz é tão suave que nosso interior deve estar completamente em silêncio; é uma doce melodia. A linguagem de satanás é barulhenta: ela é agitada, impulsiva, perturbadora e abrupta”.

Se criarmos as condições para escutar sua voz, Deus nos convidará a amá-Lo mais, seja infundindo em nossos corações o desejo de praticar a virtude ao ver um bom exemplo, seja enriquecendo-nos com sentimentos de piedade ao entrarmos num ambiente sagrado, seja fazendo ecoar em nosso interior palavras de repreensão por alguma má atitude ou de advertência diante de ocasiões próximas de pecado.

Quando nos sentimos angustiados, tomados pela agitação e sem serenidade de alma, podemos ter a certeza de que não é uma voz sobrenatural que está falando conosco. A dissipação, a velocidade das máquinas e o espírito de frenesi e de competição, que dominam o mundo moderno, impedem-nos de entrar em contato com Deus. Pior, fazem com que nos esqueçamos d’Ele.

É ao oposto deste estado de espírito que o Menino Jesus nos convida no Natal. Ele nos atrai ao recolhimento, pede que deixemos de lado as atividades que d’Ele nos afastam e renovemos nossa vida espiritual. Que, como um toque de sino, o término deste ano anuncie a chegada de uma nova etapa de nossa existência, na qual fiquem para trás os momentos em que, fechados às moções da graça, nos deixamos levar por nossos impulsos e más inclinações.

Peçamos, não só ao Divino Infante, mas a todos os Anjos e Santos do Céu, que a partir deste Natal eles nos façam ouvir sua voz e adoremos com especial afeto o Redentor posto no Presépio, lembrando-nos de que este terno Menino está disposto a renascer em nosso íntimo para transformar-nos por inteiro. Ele que, enquanto Deus, nos criou a cada um de nós, sem nada termos feito para merecê-lo, e Se faz Homem na Noite Santa para nos redimir.

Comuniquemo-nos com Ele por meio da oração e estejamos atentos às suas palavras. “Oxalá que ouças hoje a sua voz: não endureçais os vossos corações” (Sl 94, 7-8), nos recorda o Salmo. Abramos nossa alma para que o Menino Jesus aí nasça e permaneça para sempre. Assim, também nós seremos como sinos, a ressoar o seu amor e a despertar, com nosso exemplo, bons sentimentos naqueles que nos cercam.1

UM SANTO NATAL A TODOS OS NOSSOS LEITORES!

1 Revista Arautos do Evangelho, Dezembro – 2015

Pedidos ousados ou conformados?

Bruna Almeida Piva 

1º ano Ciências Religiosas

Em um reino distante, um monarca muito santo sobressaía aos olhos de Deus e do povo por sua admirável bondade.

Certo dia, desejoso de ter algum contato mais próximo com sua gente, decidiu passear pelas pequenas estradas do reino, levando toda a comitiva real.

Ora, já próximo ao fim do percurso, em meio aos últimos clamores de admiração e entusiasmo do povinho fiel, seus olhos pousaram sobre uma criança, um menininho que o fitava pasmo de admiração. Muito condescendente, ordenou que parassem a carruagem e dirigiu-se a ele, dizendo:

– Meu pequeno súdito, a quem quero como a um filho, peça-me algo: diga-me o que queres e eu te darei.

O menino pensou bem e disse:

– Majestade, eu quero um amendoim!

Tomado de surpresa e decepção, o rei, que podia e desejava dar àquele pequenino qualquer maravilha, dirigiu-se a um servo que o acompanhava para que desse a ele um amendoim, e retirou-se para o seu castelo.

O fato causa em muitos certa indignação e inconformidade. Todavia, muitas vezes fazemos nós mesmos o papel dessa criança. Tendo como Pai, não um rei temporal, mas o Deus Onipotente, muitas vezes Lhe dirigimos somente preces inúteis e pequenas, ou mesmo não O invocamos…

Um verdadeiro absurdo! Aquele que por nós Se fez Homem, morreu numa Cruz e ressuscitou, não nos daria qualquer graça, por mais alta e ousada que fosse? Quem disse: “Pedi e recebereis, procurai e achareis, batei e ser-vos-á aberto”, não nos atenderá?

O menino pediu ao rei um amendoim e obteve; mas nós podemos obter de Deus tudo: pediremos somente “um amendoim”?

Com efeito, sem deixar de recorrer a Ele também nas pequenas dificuldades, peçamos: Nossa Senhora dos pedidos ousados, rogai por nós!

“O precioso vinho espiritual da santidade”

Ir. Daniela Chacaliaza, EP

Imaginemos que fôssemos contratados para um novo emprego e ninguém nos explicasse o que deveríamos fazer; difícil seria poder exercê-lo com competência.  Ou, então, que comprássemos um aparelho eletrônico de manuseio complicado e que, dentro da caixa, não encontrássemos o manual de instruções. Certamente, nosso desapontamento não seria pequeno, pois quão difícil seria colocá-lo em funcionamento. Que alivio se achássemos um manual!

Na  vida quotidiana, vemos, com frequência, que os homens redigem manuais para facilitar o desenvolvimento dos afazeres humanos. Se isto é assim com os homens, não seria possível que o Criador do Universo, o nosso Pai Celestial, nos privasse de modelos para podermos exercer o papel mais importante desta vida: conquistar o Céu através da luta quotidiana.

Desta maneira, o Altíssimo nos deu um manual que, quando visto e lido através dos olhos d’Ele, é um farol que nos ensina a trilhar os caminhos da vida. Este guia é a natureza. Ora, toda a Obra da Criação foi feita para, de uma ou de outra forma, servir ao homem.

Pousemos, então, nosso olhar num fruto maravilhoso da terra que Deus quis utilizar como matéria para o Sacramento mais sublime: a uva que, depois de passar por certo processo, se transforma em vinho.

Ao analisar o procedimento que se realiza para obter um saboroso vinho, vemos que as uvas devem passar, por assim dizer, por certas circunstâncias difíceis: ao ser levadas ao lagar, elas são esmagadas — pisadas, literalmente —, para produzir esta bebida. Ademais, é um fato digno de ser considerado e ressaltado que não é em todo tempo que as uvas dão seus produtos mais insignes. Existe uma época específica do ano em que a videira dá seus melhores frutos. Curiosamente, enquanto os outros alimentos que a terra produz precisam de um terreno fértil, a boa videira prefere solo seco e pedregoso. Quer dizer, para obter um vinho de boa qualidade, é preciso a videira ter nascido em condições aparentemente adversas.

Assim também é o ser humano. Para florescerem heróis, muitas vezes, Deus permite e quer que estes passem, in tempore opportuno, pelas situações mais adversas e por dores tremendas. De fato, a História nos prova quão mais valiosos são os varões ou mulheres que foram submetidos pela Providência a terríveis sofrimentos e provações. Sendo esta terra um vale de lágrimas, é preciso que os homens passem pelas cruzes para alcançar o prêmio esperado.

“E, de fato, tal como o fruto da videira necessita ‘sofrer’ e ‘esperar’ para alcançar o requinte de seu próprio sabor, assim é o ser humano: para adquirir a plenitude de sua personalidade, não requer comodidades nem prazeres, mas padecimentos e docilidade à vontade divina. O sofrimento é, pois, um valioso bem para o homem. […] Com a dor, o ser humano sai de seu egoísmo, compreende a sua contingência e se abre para o sobrenatural. […] O sofrimento bem aceito produz o precioso vinho espiritual da santidade”.[1] E assim, seguindo o exemplo de Nosso Senhor Jesus Cristo, é pela cruz que o homem chegará à luz.

[1] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Editorial. Dr. Plinio, São Paulo, ano 14, n. 164, nov. 2011, p. 4.

Perfeita união

Ir. Letícia Gonçalves de Sousa,EP

Nosso Senhor Jesus Cristo, tendo uma missão redentora, poderia, desde a mais tenra idade, ter-Se manifestado plenamente aos homens como um profeta, como um rei, como o Messias esperado. Entretanto, quis Ele viver ocultamente durante trinta anos na casa de Nazaré, onde somente Maria e José O adoravam, em íntima contemplação e comunicação sobrenatural. Se Ele veio para conviver e ensinar aos homens, por que pregou só no fim de sua vida, durante três anos? Não era mais conveniente que dedicasse mais tempo ao apostolado entre o povo? Não fez Ele mais bem aos homens estando entre eles do que na casa de Nazaré?

As grandes missões devem ser precedidas por grandes momentos de contemplação, nos quais a oração e o silêncio burilam a alma para todas as formas de heroísmo. Cristo, sendo Deus, não precisava de momentos para recolher sua alma, pois constantemente via a face do Pai. Porém, como verdadeiro Mestre, deixou-nos este exemplo: durante nossa existência terrena, devemos nos dedicar primeiro à vida interior e depois às obras de apostolado.

Cabe-nos ressaltar ainda que, no decorrer dos anos de vida pública, Jesus dedicava longas horas para a oração e o recolhimento, e o mesmo aconselhava aos apóstolos, a fim de edificarem a Igreja com base neste princípio: “Jesus obrigou seus discípulos a entrar na barca e a passar antes d’Ele para a outra margem, enquanto Ele despedia a multidão. Feito isso, subiu à montanha para orar na solidão. E, chegando à noite, estava lá sozinho” (Mt 14, 22-23). São João Crisóstomo comenta a este respeito: “Despedida a multidão, sobe para orar, porque a oração exige repouso e silêncio. Não é todo aquele que ora que sobe ao monte, senão só o que reza bem e busca a Deus na oração”.[1]

Em outra ocasião, “retirou-se Jesus com eles para um lugar chamado Getsêmani e disse-lhes: Assentai-vos aqui, enquanto Eu vou ali orar” (Mt 26, 36). Assim o fez “para ensinar aos discípulos que na oração devem buscar a solidão”.[2] E em diversas circunstâncias assim agiu: antes do início de sua vida pública, retirando-se quarenta dias para o deserto (Cf. Mc 1, 12-13); antes de entrar em cidades onde exerceria muitas atividades apostólicas (Cf. Mt 14, 23) e, sobretudo, antes da Paixão; indo para o Horto das Oliveiras, onde passou a noite em oração (Cf. Lc 22, 39-45).

Vida ativa de Cristo

“Seria ingenuidade, ou pelo menos pobreza de senso comum, imaginar que a vida oculta de Jesus transcorrida num completo isolamento, fechada entre quatro paredes, sem a possibilidade do menor contato com a sociedade ao seu redor”.[3] Os fins da Encarnação exigiam que Nosso Senhor fosse manifestando-Se paulatinamente ao longo dos anos. Por isso, fatos como a perda e o encontro do Menino discutindo com os doutores da Lei comprovam sua missão apostólica desabrochando aos olhos dos homens.

Mais tarde em plenas atividades pastorais, Jesus dedicava-Se intensamente à salvação das almas:

Jesus percorria toda a Galileia, ensinando nas suas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino, curando todas as doenças e enfermidades entre o povo.  Sua fama espalhou-se por toda a Síria: traziam-lhe os doentes e os enfermos, os possessos, os lunáticos, os paralíticos. E ele curava a todos. Grandes multidões acompanharam-no da Galileia, da Decápole, de Jerusalém, da Judéia e dos países do outro lado do Jordão (Mt 4, 23-25).

Há nos evangelhos, diversas passagens em que as atividades pastorais e zelo pelas com as almas transbordavam do Sagrado Coração de Jesus: “Reuniu-se tal multidão, que não podiam encontrar lugar nem mesmo junto à porta. E Ele os instruía” (Mc 2, 2). Percorrendo as cidades, curou e ensinou a todos: “Ao amanhecer, Ele saiu e retirou-Se para um lugar afastado. As multidões O procuravam e foram até onde Ele estava e queriam detê-Lo, para que não as deixasse”. Mas, o Salvador manifestava seu zelo também por outras almas que deveriam se converter pelo contato com Ele: “É necessário que Eu anuncie a boa nova do Reino de Deus também às outras cidades, pois essa é a minha missão” (Lc 4, 42-43).

Todas as virtudes em Jesus Cristo se harmonizam em grau máximo, de forma sublime. Assim, em sua vida, tanto o obrar quanto o contemplar são perfeitos e se completam. As narrações evangélicas souberam retratar este arco gótico, como vemos nesta passagem: “Entretanto, espalhava-se mais e mais a sua fama e concorriam grandes multidões para ouvi-Lo e serem curadas das suas enfermidades. Mas Ele costumava retirar-Se a lugares solitários para orar” (Lc 5, 16).

Nosso Redentor faz milagres nas cidades de dia e dedica a noite para a oração. E continua: “Mas Ele se retirava ao deserto para orar”, para dar a entender aos bons pregadores que não abandonem inteiramente a vida ativa, por amor à contemplativa, e a não desprezar os gozos da contemplação por uma atividade excessiva, senão que bebam na quietude da contemplação o que derramaram falando, ocupados com o próximo.[4]

Assim sendo, a vida ativa de Cristo não é contrária à contemplativa, e sim, um complemento. Exemplo para nós: nossa vida ativa deve ser um transbordamento de algo que se contemplou e se pôs em obras. A união entre ação e contemplação é superior a qualquer uma considerada separadamente.[5]

[1] JOÃO CRISÓSTOMO, Santo apud TOMÁS DE AQUINO, Santo. Catena Aurea in Marcum, VI, v. 45-52.

[2] JOÃO DAMASCENO, Santo apud TOMÁS DE AQUINO, Santo. Catena Aurea in Mateum, II, v. 36-38.

[3] CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Eles viram, mas não entenderam.  In: Arautos do Evangelho. São Paulo: Ano VI, n. 61, jan 2007, p. 10.

[4]  GREGÓRIO DE NISSA, Santo apud TOMÁS DE AQUINO, Santo. Catena Aurea in Lucam, V, v. 12-16.

[5] Cf. ROYO MARÍN, Antonio. Teología de la perfección cristiana. Madrid: BAC, 2006, p.707.

A “oitava Palavra” de Jesus

Ir. Mariana Morazzani Arráiz, EP

Barrabás, famoso ladrão e assassino, o pior criminoso que Israel conhecera, encontra- se encarcerado na Torre Antônia, em Jerusalém. Era então costume entre os judeus, por ocasião da Páscoa, conceder a liberdade a algum preso, em memória da saída dos israelitas do cativeiro no Egito. O procurador romano na Judeia, Pôncio Pilatos, propõe dois nomes para o povo escolher: Barrabás ou Jesus.

Símbolo da ilegalidade, motivo de terror para todos, cujo aprisionamento constituía o alívio e a segurança da região, o maior malfeitor da época é contraposto Àquele que perdoava os pecados, curava leprosos, cegos e paralíticos, ressuscitava mortos e andara “por toda a parte, fazendo o bem” (At 10, 38)?

Ora, qual a gratidão suscitada por tantos ensinamentos, favores e milagres? O populacho, a uma voz, prefere Barrabás…

Surpresa e pânico do bandido

Podemos conjecturar a reação do chefe da prisão ao receber a ordem do magistrado romano de liberar naquele mesmo dia o terrível bandido.

— Soltar esse homem por causa de um absurdo costume judaico? Esse criminoso vai repetir suas loucuras! Vão se arrepender… Mas, enfim, cabe-me só cumprir ordens. Vamos!

Desce até o calabouço do Pretório e introduz a chave na fechadura de uma cela. Rangendo, abre-se a porta do repugnante recinto e o carcereiro chama:

— Barrabás!

Com os cabelos desalinhados, o olhar desvairado e cheio de terror, balbucia o delinquente:

— Vou ser crucificado?!

— Não! Fora daqui! — responde o guarda com rudeza e desgosto.

— Mas… o que vão fazer comigo?

— Fora!

Saindo, trêmulo, ainda indaga:

— O que aconteceu?

— Estás livre! Vá para a rua!

— Eu, livre? Eu, que já sentia as cordas nas minhas mãos e experimentava prematuramente a asfixia da crucifixão pela qual iria morrer! Eu, solto depois de tudo o que fiz? Eu, Barrabás, homicida detestado por todo o mundo?… Vou cobrir um pouco a cabeça para não ser reconhecido na rua… Preciso me disfarçar para sair, pois podem me matar. Mas… estou livre! Será possível? Eu me apalpo e vejo que… é verdade!

Sem rumo fixo, caminha aturdido pelas ruas de Jerusalém quando, de repente, escuta não muito longínquo o lúgubre rufar de tambores:

— O que é isso? O anúncio de uma crucifixão? Estão levando alguém para o suplício!

Experimentando um calafrio de pavor, suspira:

— Poderia ter sido eu… Oh, horror!

Continua em direção à turbamulta, que está quase chegando no Monte Calvário. Ao se aproximar, percebe a identidade do condenado: é Jesus de Nazaré… e vai ser crucificado!

A “oitava Palavra”

Se uma graça fulgurante de arrependimento rasgasse a sordidez de sua alma endurecida e nela penetrasse, Barrabás, cheio de compunção, ter-se-ia lançado aos pés de Nosso Senhor Jesus Cristo, já deitado sobre o madeiro da Cruz.

Nesse momento, o Divino Redentor estaria experimentando em suas divinas mãos e adoráveis pés as inenarráveis dores ocasionadas pela perfuração dos pregos. Mas isso não O impediria de pousar seu sacratíssimo olhar na figura horrenda daquele a quem a perfídia dos homens tinha preferido a Ele, Jesus, o Filho de Deus, a Beleza Infinita.

Sob o influxo de tal graça, o criminoso, ajoelhado, diria:

— Senhor, eu deveria estar sendo crucificado e não Vós! Vós ireis morrer por mim quando sou eu, infame, merecedor desse castigo por meus pecados! Senhor, perdão por tanta maldade! Senhor, eu me arrependo, detesto meus crimes e quero me assemelhar a Vós!

E o Salvador teria pronunciado aí a primeira das Palavras, que não mais seriam sete, como registram os Evangelhos, mas oito; de seus divinos lábios brotaria esta manifestação de poder, bondade e amor infinitos:

— Meu filho, vá porque teus pecados estão perdoados! Vá porque soubeste aceitar as graças de penitência e de arrependimento que Eu mesmo para ti suscitei! Vá e não peques mais!

Somos também “barrabases”

A História não conta qual foi o destino de Barrabás uma vez fora da prisão. Ignoramos se continuou na esteira dos crimes e desvarios que o caracterizavam, enchendo novamente de sobressalto e pavor o povo que clamara por sua libertação, ou se houve uma conversão semelhante à que acabamos de imaginar.

Uma coisa é certa: a cada ano, na liturgia da Semana Santa, ao ser mencionado o nome do bandido na leitura da Paixão segundo São João, vibram os corações e ardem em desejos de vingar e reparar tamanha ignomínia.

É justo, porém, descarregarmos toda a nossa ira sobre o terrível criminoso, esquecendo que fomos nós também “barrabases” em algum momento da vida? Não ofendemos brutalmente o Coração de Jesus ao cometer um pecado ou ao apegar- -nos a um vício? E não agimos como o povo judeu escolhendo o famoso malfeitor, ao trocar a obediência aos Mandamentos por uma transgressão grave e voluntária à Lei?

Se alguma vez pecamos gravemente contra algum Mandamento da Lei de Deus, somos comparáveis a Barrabás e àqueles que o preferiram a Jesus! Deveríamos estar sendo crucificados, quando é Ele, ao contrário, que sofre por nós! Que terrível verdade: ao pecar, prefiro Barrabás como meu amigo e crucifico a Jesus em minha alma!

Em vista disso, o que farei? Formular essa pergunta é fruto de uma graça que parte de Jesus em direção a mim. Diante dela só cabe uma súplica à Mãe do perdão e da divina graça, cujos rogos me obtiveram esse benefício:

“Oh, Virgem Santíssima, minha Mãe, dai-me a convicção de que só existem dois caminhos: um é o de Barrabás e outro, o de Jesus.

“Quando vosso Divino Filho voltar no fim dos tempos para exercer o julgamento de todos os homens, reunidos no Vale de Josafá e não mais no Pretório de Pilatos, a humanidade estará dividida entre os que O quiseram crucificar e se entregaram ao pecado, e aqueles que aceitaram o convite de seu divino e arrebatador olhar, e quiseram viver sempre na sua graça e na prática da virtude.

“Pelos méritos infinitos da Paixão, fazei que eu esteja entre estes últimos!

“E se tiver a desgraça de Vos ofender, que eu me aproxime, com toda pressa, do Sacramento da Penitência e possa, arrependido e humilhado, ouvir aquela ‘oitava Palavra’ dirigida ao hipotético Barrabás convertido: ‘Vá, meu filho, minha filha, teus pecados estão perdoados!'”.

Adaptação da palestra pronunciada por Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP, em 27/5/1990 – Revista Arautos do Evangelho, Março-2015

 “Velhos”… como certos vinhos

Ir. Maria Beatriz Ribeiro Matos, EP

Nesta Terra herdada de Adão, tudo o que é material está irremediavelmente condenado a perecer: as flores murcham, os alimentos se deterioram, a saúde humana se gasta, os edifícios se transformam em ruínas… Só um fator é necessário: o tempo.

Entretanto, para algumas criaturas, como certos vinhos, o decorrer dos anos parece ter o efeito contrário. Cada uma de suas numerosas variedades fermenta em ritmo próprio e após um período de repouso – seja em barricas de carvalho, seja na própria garrafa meticulosamente acondicionada nas caves -, entra no seu período de maturação.

Para o champagne e outros vinhos, este pode ser muito curto. Mas os mais reputados tintos Borgonha ou Rioja, cujas características se forjam pela lenta interação entre o mosto fermentado e a madeira, ainda vão dar o melhor de si só depois de evoluir na garrafa por vinte e cinco, trinta ou cinquenta anos. E mesmo tendo atingido seu apogeu, podem manter por mais algumas décadas – e até séculos! – a excelência de seu buquê. Por isso se diz que o vinho quanto mais velho melhor!

Durante a fermentação, contudo, o perigo de o mosto converter-se em vinagre é grande, pois o ­álcool, ao entrar em contato com o oxigênio, se transforma com facilidade em ácido acético. Para que isto não aconteça, são necessários cuidados especiais e, sobretudo, deve-se respeitar o processo adequado para o tipo de vinho e a variedade que se deseja obter.

Imaginemos agora uma garrafa de vinho que, no frio e escuro silêncio da adega, pudesse sentir a cozinheira passar. Ela vai buscar na despensa alguns ingredientes para fazer o pão, escolhe os melhores queijos para servir, mas nem lança um olhar de desprezo em direção à adega. “Desta vez houve uma distração… na próxima ocasião serei escolhido!”, pensa o vinho da garrafa.

Os anos se passam e a despensa vai sendo incessantemente reabastecida. A cozinheira se aposenta, uma mais jovem a substitui e, enquanto isso, o vinho permanece em sua garrafa, na estante, sem mudar de posição sequer. A camada de pó que a cobre se torna mais grossa e a rolha, ressequida e quebradiça.

Afinal, num dia como tantos outros, a porta da despensa se abre e escutam-se os passos de alguém dirigindo-se à adega. Como esta mesma cena se repetira durante tantos anos, o nosso vinho velho nem lhe dá importância: quem se interessaria por uma pobre garrafa esquecida num recanto empoeirado?

Contudo, logo escuta a voz do chefe da família dizer:

– Hoje é dia de grande festa! Há muito tempo tenho guardado um vinho especial à espera de que se requintasse.

E a garrafa sente uma mão que, cuidadosamente, a ergue e exclama:

– Agora, sim, está à altura!

O dono da casa, deixando o vinho tanto tempo guardado, lhe fez um mal ou um bem? Sem dúvida um bem, pois deu-lhe a oportunidade de atingir uma sublimidade inalcançável sem a espera.

Assim também nós. Quantas vezes nossas almas podem sentir-se como uma garrafa guardada em escura adega, para a qual Deus parece não Se dignar olhar!… Com frequência, ao atravessar circunstâncias difíceis e pedir auxílio ao Céu, podemos ter a impressão de que a Providência não nos ouve. Na realidade, quem suporta com fidelidade as esperas de Deus vai, como o bom vinho, galgando degraus rumo à perfeição.

Deve-se, porém, cuidar para que a alma não “se avinagre”, pois o espírito humano é frágil e fácil de se deixar abater pelo desânimo. Neste caso, o resultado da espera vai ser muito diferente do desejado…

Deus sabe o tempo de maturação adequado para todos. No momento oportuno Ele virá nos visitar. E não é que necessariamente tenhamos de estar “velhos” como certos vinhos. Na adega do Altíssimo há vetustos e complexos “borgonhas”, mas também “champagnes” de incomparável leveza, frescos “alvarinhos” e agrestes “chacolís”, e o Divino Despenseiro sabe esperar o tempo exato para cada um…

Revista Arautos do Evangelho – Janeiro 2016

Noite mística

Ir. Patricia María Rivas Flamenco

2º Ano de Ciências Religiosas

Nos primórdios da constituição da Ordem dos Franciscanos, a necessidade obrigava todos os monges, inclusive São Francisco, a dormir no chão do dormitório. Mas, enquanto todos dormiam, o santo Fundador levantava-se, saía do dormitório e ia rezar durante algumas horas. Depois voltava a dormir, para que à hora do despertar ninguém percebesse sua falta.

Ora, foi admitido na ordem um jovenzinho muito inocente, que devotava grande admiração a São Francisco. Analisava cada passo de seu Fundador, e causava-lhe muita curiosidade saber o que ele fazia durante as noites. Por isso, arquitetou um plano: certa noite, deitou-se próximo de São Francisco e atou a corda de seu hábito à corda do hábito do Santo, para assim ser alertado quando o Santo se levantasse. Mas São Francisco, ao despertar para as orações de costume, viu as cordas atadas e com muita delicadeza desatou-as, sem acordar o menino. Pouco depois, o menino despertou, viu a corda desatada e notou a ausência do santo. Sem perder a esperança, saiu à procura dele. Achando a porta do pátio aberta e escutando algumas vozes, aproximou-se e encontrou São Francisco conversando com Nosso Senhor, Nossa Senhora, São João Batista e São João Evangelista. Ao contemplar esta cena, o menino desmaiou…

Terminada a celestial conversa, São Francisco começou a voltar para o dormitório e, no caminho, tropeçou com o pequeno desmaiado. Abaixou-se, pegou-o nos braços e o carregou até o dormitório. No dia seguinte, deu-lhe obediência de não contar a ninguém o fato, enquanto vivesse São Francisco.

Que ensinamento podemos tirar deste fato? Peçamos a Nossa Senhora que nossa corrente esteja bem atada a Ela e, assim, estaremos sempre despertos para contemplar as grandezas de Deus.

O Reinado de Cristo na Terra

Ir Juliana Montanari, EP

Em nossa era, verifica-se uma preocupação constante: como alcançar uma sociedade perfeita? Fala-se muito de ordem, leis e direitos, mas a resposta não se restringe a isso. A solução encontra -se em algo muito mais profundo, régio e elevado, que bem podemos chamar de fonte da qual emanam todas as perfeições: A Santa Igreja Católica Apostólica e Romana.

A sociedade pode ser comparada a uma enorme construção. Para a edificação de um castelo, por exemplo, é necessário, mais que majestosas torres e altaneiras muralhas ou elegantes escadarias e magníficos salões, é necessário um sólido fundamento. Sem este, de nada valerá a construção, pois, na primeira tempestade, tudo desmoronará e se reduzirá a um amontoado pedras. Tendo uma base forte, o castelo atravessa os séculos, incólume a chuvas e intempéries. Estas só contribuirão para torná-lo mais belo, pois dar-lhe-ão a glória de ter resistido às piores situações. Ora, a sociedade tem como fundamento a Igreja Católica. Podemos contemplar, no passado, o esplendor e grandeza em todos os campos nos quais ela penetrou. Em contrapartida, encontramos nos dias atuais apenas os restos dessa civilização luminosa, pois ela ruiu quando seu fundamento lhe foi tirado. Tal realidade, muito esquecida na sociedade em que vivemos, merece grande importância.

Numa época como a nossa, em que as pessoas, guiadas pelo egoísmo e por falsas doutrinas, afastam-se da Religião, é difícil ter uma noção exata de como foi a Idade Média. Durante três séculos, a Igreja teve inteiro domínio sobre os povos do continente europeu e, sem dúvida, foi este “o período mais fecundo e sob muitos aspectos, mais harmonioso de todos os que a Europa conheceu até os nossos dias. Saindo das trevas invernais da época bárbara, a humanidade cristã viveu a sua primavera”.[1] A Igreja converteu aqueles bárbaros germanos em filhos de Deus e deles fez uma brilhante civilização. A sociedade era totalmente penetrada pela Fé e o Estado tinha a obrigação, antes de tudo, de prestar honra à Igreja, dar-lhe proteção e apoio.[2] Assim descreve o Papa Leão XIII a luminosa Cristandade Medieval:

Tempo houve em que a filosofia do Evangelho governava os Estados. Nessa época, a influência da sabedoria cristã e sua virtude divina penetravam as leis, as instituições, os costumes dos povos, todas as categorias e todas as relações da sociedade civil. Então a religião instituída por Nosso Senhor Jesus Cristo, solidamente estabelecida no grau de dignidade que lhe é devido, em toda parte era florescente, graças ao favor dos Príncipes e à proteção legítima dos Magistrados. Então o Sacerdócio e o Império estavam ligados entre si por uma feliz concórdia e pela permuta amistosa de bons ofícios. [3]

A hierarquia eclesiástica compunha-se de três graus: o Sumo Pontífice, os bispos e os párocos. A esta categoria, “por causa de sua condição sacral, era tida como a mais importante das classes sociais. Além de sua missão própria que é de salvar as almas, tinha sob sua responsabilidade duas atividades: a educação e a saúde pública”.[4] Desta forma, todo o povo era orientado e auxiliado pelo próprio clero. O desempenho do ensino era administrado por sacerdotes e bispos, e os nobres necessitavam de uma licença eclesiástica para lecionar, pois o ensino dizia respeito à ortodoxia e para isso era preciso estar sob a vigilância do clero.[5] Notando a importância de saber ler e escrever, não só para os trabalhos habituais mas, especialmente, para a difusão da Religião, a Igreja desenvolveu uma forma de alfabetizar a todos através das passagens bíblicas. O mito de que a Idade Média foi a era do atraso no que diz respeito aos estudos fica desmascarado, pois foi também neste período que se desenvolveu o livro, instrumento de cultura que substituiu os pergaminhos; bem como os estudos aprofundados de filosofia e teologia na Escolástica. [6] Além disso, todas as decisões eram resolvidas pelo soberano, que baseava-se na doutrina católica exposta claramente pela lógica cristã como nos explica Woods:

Se a Idade Média tivesse sido realmente um período em que as questões eram resolvidas pelo mero recurso aos argumentos de autoridade, esse rigor no estudo da lógica formal não faria sentido. O empenho com que se ministrava essa disciplina revela, pelo contrário, uma civilização que almejava compreender e persuadir. Para esse fim os professores procuravam alunos capazes de detectar as falácias lógicas e de formular argumentos logicamente sólidos. Foi a Idade da Escolástica.[7]

Quanto à saúde pública, sabe-se que a Igreja foi solícita em atender as necessidades dos enfermos, auxiliando-os não somente no campo espiritual, através dos Sacramentos, como também no campo físico, erigindo hospitais atenciosamente cuidados por religiosos, os quais dedicavam-se aos doentes com esmero e verdadeira caridade. De tal forma isto sucedeu que não somente o mundo cristão foi modificado, mas todo o comportamento global. Compreendendo que servir o próximo é servir a Deus, as ordens hospitaleiras atendiam os doentes, quem quer que fosse, de todos os lugares, sem exceção. Inclusive, foi esta “uma das razões que haviam levado os cristãos da Idade Média a chamar ‘Hospedagem de Deus’ ou ‘Casa de Deus’ não às igrejas, mas aos lugares onde se acolhiam e tratavam, gratuitamente, pobres, doentes, miseráveis”,[8] comenta a historiadora Régine Pernoud, fazendo alusão ao vocábulo francês hôtel-Dieu, hospital. No mesmo sentido, observa o Professor Plinio Corrêa de Oliveira:

Foi com os tesouros de dinheiro dados à Igreja, pela caridade, que se pôde estender, pelo continente europeu,  uma notável rede de hospitais. […] Tais frutos dependiam do fato de a Igreja estar cercada de prestígio pelo Estado e pelos poderosos de então, dando-lhe os meios de exercer uma grande ação. [9]

Encontrando o apoio do Estado, a Igreja pôde atuar em todos os campos:

impulsionou as ciências e o progresso técnico, aperfeiçoou as relações internacionais entre os estados, aboliu a escravidão, fez avançar no progresso social, elevou a condição da mulher, de tal modo que, no século XIV, a Europa havia ultrapassado de muito todos os outros continentes.[10]

Além dos deveres e direitos individuais, os medievais preocupavam-se mais com o bem comum do que com o próprio. Considerando-se ligado aos outros pela mesma Fé, o homem medieval sentia intensamente que tinha deveres para com a sociedade. Mais do que um meio indispensável para ganhar a vida, o trabalho tinha um valor altíssimo, pois criava condições para a prática das virtudes. Tanto os camponeses como o carpinteiro ou o padeiro executavam, com suas simples atividades, uma obra piedosa, pois operavam visando o bem alheio, e assim, preparavam-se para o Céu. A disposição do grupo de trabalhadores trazia a marca cristã da caridade fraterna. Havia muitas confrarias ou irmandades, ou seja, pessoas que trabalhavam juntas em convivência fraterna, como os arquitetos, os escultores, pedreiros, aparelhadores e amassadores de cal, para construir catedrais ou casas paroquiais. Joalheiros, curtidores, vendedores de peles e alfaiates reuniam-se e ofereciam à catedral um vitral que trazia embaixo uma vinheta, designando as ocupações de seu estado, feito por eles mesmos em louvor ao seu santo padroeiro ou à Virgem Mãe de Deus. Assim o trabalho, sob o olhar de Deus, se enobrecia. [11]

 “Assim na Terra como no Céu”: o Reinado de Cristo na Terra.

Sabemos que a vida nesta Terra diferencia-se profundamente da vida eterna, porém não são dois planos separados um do outro. Pelo contrário, possuem eles uma íntima relação: “Assim como a Escola Militar é o caminho para a carreira das armas, ou o noviciado é o caminho para o definitivo ingresso numa Ordem Religiosa, assim a terra é o caminho para o Céu”.[12] O anseio pela felicidade leva o homem a procurar na vida presente algum resquício do Reino que os espera no Céu. O próprio Nosso Senhor Jesus Cristo nos ensinou a pedir ao Pai Celeste: “Venha a nós o vosso Reino” (Mt 6, 10). Esta súplica, rezada todos os dias, há mais de dois mil anos Igreja Militante, roga que o Reino de Deus se estabeleça o quanto antes entre nós.

Porém, como seria isso possível tendo o próprio Nosso Senhor Jesus Cristo afirmado não ser deste mundo o seu Reino? (Cf. Jo 18, 36). Será uma contradição? Ou teria ensinado a pedir algo impossível de se alcançar?

De fato, como nos explica São Tomás,[13] Nosso Senhor disse: “O meu reino não é deste mundo”, e não “o meu Reino não está neste mundo”, ou seja, está neste mundo com a humanidade regenerada pela graça e não é um reino comum aos reis da Terra, mas, um reino divino, pois o seu poder vem do Céu. “É o reino da virtude, é o reino da santidade, é o reino do Evangelho”,[14] que só se “torna efetivo na terra, individual e social, quando os homens, no íntimo de sua alma, como em suas ações, e as sociedades em suas instituições, leis, costumes, manifestações culturais e artísticas, se conformam com a lei de Cristo”. [15]

O Reino de Deus se realiza na sua plenitude no outro mundo. Mas para todos nós ele começa a se realizar em estado germinativo já neste mundo. Tal como em um noviciado, já se pratica a vida religiosa, embora em estado preparatório; e em uma escola militar um jovem se prepara para o Exército… vivendo a própria vida militar. E a Santa Igreja Católica já é neste mundo uma imagem, e mais do que isto, uma verdadeira antecipação do Céu. [16]

Para o futuro, portanto, estão reservadas maravilhas jamais verificadas na História. A este mundo controverso, violento, que parece caminhar de paroxismo em paroxismo, sucederá uma nova era na qual florescerá a verdadeira sociedade cristã, ainda mais harmoniosa e bela que a sociedade medieval, pois terá a unção do perdão divino, única solução —  mas quão eficaz! — para os desregramentos humanos. Sob a égide desse perdão e alicerçada na Igreja, a sociedade, será verdadeiro espelho da fisionomia de Cristo, em que serão reunidas “todas as coisas, as que estão nos Céus e as que estão na Terra” (Ef I, 10).

[1] DANIEL-ROPS, Henri. A Igreja das catedrais e das cruzadas. Trad. Emérico de Gama. São Paulo: Quadrante, 1993, p. 11.

[2] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plínio. “Tempo houve em que a filosofia do Evangelho governava os Estados…”. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano I, n. 5, ago. 1998, p. 18.

[3] LEÃO XIII. Encíclica Imortale Dei, n. 28.

[4] CORREA DE OLIVEIRA, Plinio. As três Revoluções: Conferência. São Paulo, [s.d.]. (Arquivo IFTE).

[5] Loc. cit.

[6] Cf. PERNOUD, Régine. Idade Média : o que não nos ensinaram. 2. ed. Trad. Maurício Brett Menezes. Rio de Janeiro: Agir, 1978, p. 51.

[7] WOODS, Thomas E. Como a Igreja Católica construiu a civilização ocidental. Trad. Élcio Carillo. São Paulo: Quadrante, 2008, p. 54.

[8] PERNOUD. Op. cit. p. 141-142.

[9]CORRÊA DE OLIVEIRA. “Tempo houve em que a filosofia do Evangelho governava os Estados…” Op. cit.  p. 20.

[10]CLÁ DIAS, João Scognamiglio. A Igreja é imaculada e indefectível. Disponível em http://arautos.org.br.  Acesso em 13 set. 2012.

[11] Cf. DANIEL-ROPS. A Igreja das catedrais e das cruzadas. Op. cit. p. 300-303.

[12] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. A Cruzada do século XX.  In: Catolicismo. São Paulo: Ano I,  n.1, jan. 1951, p. 1.

[13] SÃO JOÃO CRISÓSTOMO apud SÃO TOMÁS DE AQUINO. Catena Áurea. Exposicion del Evangelio segun Juan. C. XVIII, v. 33-38.

[14] CLÁ DIAS. Deus nos ensina a pedir o que nos quer dar: Homilia. Op. cit.

[15] CORRÊA DE OLIVEIRA. A cruzada do século XX. Op. cit. p. 1.

[16] CORRÊA DE OLIVEIRA. A cruzada do século XX. Op. cit. p. 1.

Uma só valeu

Marcela Rodrigues

1º ano de Ciências Religiosas

Em um pequeno povoado, havia uma modesta senhora que morava a certa distância da igreja. Resolveu, um dia, fazer uma promessa de assistir a um grande número de Missas durante um ano a fim de alcançar uma graça que há tempo desejava.

Começou a pagar a promessa. Assim que tocava o sino para o Santo Sacrifício, interrompia imediatamente seus afazeres e se dirigia com toda prontidão à igreja. Para ter a segurança de que estava cumprindo com perfeição sua promessa, a cada Missa que assistia, colocava um papelzinho dentro de uma caixa e a fechava com todo cuidado.

Passado um ano, não tinha a menor dúvida de haver cumprido plenamente o que prometera e ter alcançado muitos méritos. Para garantir que Deus lhe atenderia, abriu a caixa na qual havia colocado os papéis das Missas às quais assistira durante o ano. Qual não foi sua surpresa quando encontrou só um papel, dos muitos que havia depositado!

Desolada, foi procurar um virtuoso sacerdote e lhe expôs o seu caso. Este, dotado de muita sabedoria, perguntou-lhe qual era a disposição de alma com que assistia à Missa. Ela, com toda veracidade, respondeu que no caminho para a igreja ia pensando no que tinha que fazer e nos trabalhos domésticos. E, pior ainda, durante a celebração eucarística ficava pensando em bagatelas e outras coisas, menos no valor daquele sublime ato que estava se passando.

O sacerdote, com muita bondade, disse à pobre senhora que certamente o seu Anjo da Guarda havia tirado os papéis e deixado somente um, pois só a uma Missa ela havia assistido com devoção…

Nós, que temos a graça de assistir diariamente ao Santo Sacrifício, qual é o valor que lhe damos? Será que verdadeiramente assistimos a muitas Missas ou, “só uma” nos valerá…

Diante do Divino Mestre

Bruna Almeida Piva

1º Ano Ciências Religiosas

Foram-lhe, então, apresentadas algumas criancinhas para que pusesse as mãos sobre elas e orasse por elas. Os discípulos, porém, as afastavam. Disse-lhes Jesus: Deixai vir a mim estas criancinhas e não as impeçais, porque o Reino dos céus é para aqueles que se lhes assemelham. E, depois de impor-lhes as mãos, continuou seu caminho.

Um jovem aproximou-se de Jesus e lhe perguntou: Mestre, que devo fazer de bom para ter a vida eterna? Disse-lhe Jesus: Por que me perguntas a respeito do que se deve fazer de bom? Só Deus é bom. Se queres entrar na vida, observa os mandamentos. Quais?, perguntou ele. Jesus respondeu: Não matarás, não cometerás adultério, não furtarás, não dirás falso testemunho, honra teu pai e tua mãe, amarás teu próximo como a ti mesmo. Disse-lhe o jovem: Tenho observado tudo isto desde a minha infância. Que me falta ainda? Respondeu Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende teus bens, dá-os aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me!

Ouvindo estas palavras, o jovem foi embora muito triste, porque possuía muitos bens. Jesus disse então aos seus discípulos: Em verdade vos declaro: é difícil para um rico entrar no Reino dos céus! Eu vos repito: é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus. A estas palavras seus discípulos, pasmados, perguntaram: Quem poderá então salvar-se? Jesus olhou para eles e disse: Aos homens isto é impossível, mas a Deus tudo é possível. (Mt 19, 13-26)

Nesta passagem do Evangelho, rica em significados, podemos notar duas interessantes disposições de alma: a das criancinhas e a do jovem rico. Aquelas aceitam e se deleitam com a divina influência do Salvador, e também Lhe dão alegria; este rejeita o convite para ser apóstolo, deixa Nosso Senhor, entristecendo-O. Nas duas ocasiões, Nosso Senhor demonstra uma bondade sem limites e um carinho comovente; porém, obtém duas reações opostas. Por quê?

Embora, aparentemente, os dois fatos nada tenham de comum entre si, analisando-os bem, vemos que decorrem de um só, mas fundamental, princípio de vida espiritual: a salvação não é fruto do esforço; não se santifica quem procura, diante de Deus, se apoiar em suas próprias obras e méritos. E é justamente esta a disposição de alma das criancinhas: “Quem é pequeno não se julga um colosso nem autossuficiente, mas dependente”.1 Tudo o que precisa, a criança pede aos pais; busca-os infalivelmente em suas dificuldades, não porque se julgue digna de ser atendida – porque não é capaz de nada sozinha –, mas porque só confia neles; não busca ser grande nem independente, mas somente amá-los, e ser por eles também amada; por mais que a castiguem, busca-os e os prefere entre todos os outros.

É o principal motivo pelo qual as criancinhas agradam tanto a Nosso Senhor: a confiança com que se aproximam d’Ele e a sua grande inocência, que as torna capazes de abandonar-se cegamente aos seus divinos cuidados.

Como terá sido o convívio do Redentor com aqueles pequeninos? Talvez Ele os tivesse abraçado, lhes imposto as mãos, concedendo saúde, força, sabedoria e graças incontáveis; e elas com sua vivacidade infantil, certamente fizeram um alvoroço em volta d’Ele…2

Eis, portanto, o que Ele nos quer dizer nesse Evangelho, quando afirma que se nos fizermos “como criancinhas” em nosso relacionamento com Deus, nosso Pai – e com Nossa Senhora, nossa Mãe –, somente assim, entraremos no Reino dos Céus.”

Bem outra, entretanto, foi a reação do moço rico ante o chamado do Divino Mestre. Vê-se que ele buscava se apoiar na prática dos Mandamentos, que dizia ter sempre observado: “Tenho observado tudo isto desde a minha infância”. Porém, isso não suficiente. Nosso Senhor queria dele algo mais, a única coisa que importa realmente: que ele Lhe entregasse o coração. A Infinita Misericórdia buscava não as boas obras somente, mas simplesmente o amor daquela alma. Algo tão natural e fácil para os pequeninos, mas que ele, tão “justo”, não soube dar.

Aquele jovem infeliz pediu a vida eterna; no fundo, achava que esta lhe seria concedida porque observava os artigos do decálogo e era, portanto, bom. Não esperava na misericórdia divina, mas em seu próprio esforço. Porém, nenhum homem pode merecer o Céu, porque “aos homens até isto é impossível.”

Não é verdade que se ele fosse como as criancinhas e dissesse; “Senhor, eu não mereço nada, mas, por compaixão, dai-me a vida eterna!”, teria certamente alcançado o Reino de Deus? Não teria ele sido incomparavelmente mais feliz escolhendo a via do amor, a via dos pequeninos?

Portanto, clara está a resposta à pergunta dos Apóstolos: “Quem poderá, então, salvar-se?” Os que se fizerem como crianças e, livres de toda a riqueza, se jogarem nos braços de Nosso Senhor, que sem dúvida é o melhor de todos os pais e nos ama infinitamente mais do que todos eles.

1 CLÁ DIAS, EP, João Scognamiglio. A inocência, a eterna lei… In: O inédito sobre os Evangelhos. Città del Vaticano-São Paulo: LEV; Lumen Sapientiæ, 2014, v.IV, p.415.

2 Cf. Ibid., p.414.

O DESEJO QUE SÓ SE SATISFARÁ NA ETERNIDADE

Ir Maria Beatriz Ribeiro Matos, EP

Os últimos raios tênues de sol em um sábado de fevereiro indicavam que o astro rei logo cederia lugar às trevas da noite. Uma muda e desapercebida melancolia já se fazia sentir, quando o céu se cobriu de um magnífico dégradé: o dourado se mesclou com tons róseos e avermelhados, que, por sua vez, deram lugar a um azul-marinho. As plantas, antes iluminadas por uma luz dourada, agora refletiam um discreto lilás. Quase uma delicadeza do sol, querendo compensar, com a beleza de sua saída,as horas em que se ausentaria.

Uma Irmã andava pelo pátio contemplando embevecida esse espetáculo, quando se deparou com um jovem cabisbaixo. O que fazia ele por ali? Por que não entrara na igreja com seus familiares?

— Sou ateu.

— Ateu? — redarguiu a religiosa. — Tão jovem… Não foi educado na fé? Ou então, como a perdeu? Olhe para a natureza, não precisa ir muito longe: olhe o pôr-do-sol! Como essa maravilha seria possível sem um Ser Todo-poderoso por detrás?

— Não… Esse é um fenômeno comum e facilmente explicado pela ciência.

Nesse momento, os familiares do rapaz saíram da igreja e chamaram-no para ir embora. Este não é um caso isolado na sociedade atual. A teologia, contudo, não se intimida diante da comprovação racional da existência de Deus. Pelo contrário, reúne em si séculos de tradição e pensamento que podem dar ao homem a única e ideal solução para suas inquietações. Com efeito, afirma o grande Santo. Agostinho que nosso coração foi feito para Deus e inquieto ele está até que não repouse no Senhor.

  1. À luz da razão conhece-se a existência, mas não a essência divina

Deus não seria Deus, porém, se pusesse na alma humana a sede do infinito e a inquietação, quando não o encontra, e não pusesse ao alcance os meios para que todos chegassem a conhecê-lo.

Ora, aqui o próprio Santo Tomás de Aquino apresenta uma objeção: o homem é um composto de espírito e matéria, e, por causa desta seu conhecimento, parte do sensível: é a clássica afirmação de Aristóteles, adotada pelo Aquinate e por São Boaventura, que em sua obra Itinerarium Mentis a Deo assim se expressa:

O homem, chamado de microcosmos, tem cinco sentidos como cinco portas, pelas quais entra em nossa alma o conhecimento de todas as coisas que existem no mundo sensível. Com efeito, pela vista,entram os corpos sublimes: os luminosos e os demais colorados, pelo tato, os corpos sólidos e terrestres; pelos sentidos intermediários, os corpos intermediários, como os aquosos pelo paladar, os aéreos pela audição, e pelo olfato os evaporáveis que têm algo da natureza úmida, algo da aérea, algo da ígnea ou quente, como se pode ver no fumo que dos aromas se desprende’.

Contudo, Deus é puro espírito e, sendo incorpóreo, não pode ser captado pelos nossos sentidos, de onde se poderia concluir que pela nossa razão não podemos chegar ao conhecimento de Deus. Com sua clareza específica, o Doutor Angélico continua sua exposição, respondendo ele próprio sua oposição.

O conhecimento que se obtém através do sensível não pode chegar a conhecer todo o poder de Deus. Consequentemente, tampouco pode ver sua essência. Mas, como são efeitos dependentes d’Ele como causa, nesse sentido podemos partir dos efeitos para saber que Deus existe2.

Portanto, aqui está o ponto de equilíbrio: nesta terra podemos conhecer a existência e até algo da essência divina, mas somos incapazes de conhecer positivamente o que constitui a própria deidade (quididade). Por ora somos quais morcegos que, incapazes de ver o sol, permanecem constantemente imersos na escuridão, e o sol, indiferentemente, brilha sobre ele. O sol existe e é real, mas o morcego não tem em sua natureza capacidade para vê-lo. Entretanto, tem notícia de sua existência ao sentir o calor.

  1. Dos efeitos à Causa: as criaturas, um reflexo do Criador

Conforme acima mencionado, partindo dos efeitos, portanto, das criaturas, podemos remontar à Causa, o Criador. Em primeiro lugar, a primeira prova que engloba todas as outras é o princípio do mundo. Hoje em dia há muitos adeptos a teorias que defendem a independência da origem do mundo de um Ser Criador. Ora, em todas as soluções apresentadas, há logo de início um erro que vai contra o procedimento normal da natureza: nunca um ser inferior dá origem ao superior, mas sim o contrário. Por isso, era impossível que o mundo passasse espontaneamente a existir sem uma Mente por trás.

Além disso, ainda o grande São Boaventura afirma que as coisas criadas formam uma escada que nos conduzem a Deus, um magnífico caminho que começa à tarde, na penumbra da irracionalidade dos primeiros graus da criação — são os vestígios de Deus —, continua pela manhã, no alvorecer das criaturas inteligentes, nas quais a alma do próprio caminhante se integra, e, por fim, termina no meio-dia, no Princípio Primeiro, isto é, na alegria do conhecimento de Deus e na reverência de sua majestade 3.

O que, porém, Deus deixa entrever através do criado que nos faz vislumbrar como Ele é? Vemos nas criaturas sucessivos graus de perfeição, participação da Perfeição infinita, ou seja, divisamos seus atributos: a Beleza, a Bondade, a Verdade, a Onipotência ademais de um longo cortejo de perfeições.

O itinerário da mente a Deus, não há homem, ciente das verdades reveladas ou não que seja incapaz de fazê-lo. São Paulo, em sua carta aos romanos, repreende-os duramente, afirmando causa de sua imoralidade sua recusa de subir a “escada” natural rumo a Deus:(falta alguma pontuação, algo nesta frase.

Porquanto o que se pode conhecer de Deus eles o leem em si mesmos, pois Deus lho revelou com evidência. Desde a criação do mundo, as perfeições invisíveis de Deus, o seu sempiterno poder e divindade, se tornam visíveis à inteligência, por suas obras; de modo que não se podem escusar.

Porque, conhecendo a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças. Pelo contrário, extraviaram-se em seus vãos pensamentos, e se lhes obscureceu o coração insensato. Pretendendo-se sábios, tornaram-se estultos. Mudaram a majestade de Deus incorruptível em representações e figuras de homem corruptível, de aves, quadrúpedes e répteis. Por isso, Deus os entregou aos desejos dos seus corações, à imundície, de modo que desonraram entre si os próprios corpos. Trocaram a verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram à criatura em vez do Criador, que é bendito pelos séculos. Amém! (Rm 19-25)

  1. Quem é Deus?

Chegamos quase ao fim do presente texto sem podermos responder com sucesso a questão que planteávamos desde o início. Ponderamos como a criação reflete o Criador, vimos que chegamos a uma pálida noção de como Ele é, mas não dissemos quem Ele é.

Para compreender a Deus, segundo a razão própria e íntima de Deidade, é preciso uma revelação sobrenatural; só a fé divina nos permite aqui embaixo conhecer obscuramente o mistério da vida íntima de Deus, mas, para saber com evidência o que é a Deidade, não há outro meio senão vê-la imediatamente, como os bem-aventurados4.

Convido-o, leitor, a compartilharmos no Céu da visão que teremos de Deus, pois, neste mundo,vivemos apenas na esperança de ver o que pela fé acreditamos. “Hoje vemos como por um espelho, confusamente; mas então veremos face a face. Hoje conheço em parte; mas então conhecerei totalmente, como eu sou conhecido” (iCor 12,13).

1 SÃO BOAVENTURA. Itinerario de la mente a Dios. Capítulo 2, parágrafo 3. (Tradução pessoal).

2 S. Th. I, q.12, a.12

3 Cf. SÃO BOAVENTURA. Itinerario de la mente a Dios. Capítulo 1, parágrafos 2 e 3.

4 GARRIGOU-LAGRANGE. Les perfections divines. 4.ed. Paris: G. Beauchesne et ses fils, 1936. p. 41. (Tradução pessoal)

O valor de uma crase

Ana Laura de Oliveira Bueno

Dir-se-ia que interpretar é — apreender o sentido verdadeiro de um texto. Assim, embora haja muitas maneiras de se interpretar uma frase, nem sempre as interpretações conferem com o que o texto quer dizer, podendo ser contraditórias e até mesmo absurdas. Deste ponto de vista, podemos considerar a estreita relação existente entre as interpretações corretas, o perfeito entendimento do que se lê e o bom conhecimento das áridas regras gramaticais.

Tomemos como exemplo a conhecida e belíssima frase do Gênesis que, por trás de uma crase, esconde um verdadeiro tesouro teológico: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança” (Gn 1, 26). Considerando que imagem é aquilo que procede de um objeto real em que pode ou não haver igualdade, é manifesto que se encontra no homem certa semelhança de Deus, semelhança esta que deriva de Deus como de seu modelo. No entanto, não é uma semelhança de igualdade, uma vez que o modelo ultrapassa infinitamente o modelado. Assim, se diz que há no homem uma imagem de Deus, não perfeita, mas imperfeita.

A preposição a, com efeito, indica certa distância, isto é, o homem jamais poderia ser chamado de “a imagem de Deus” sem o acento grave, pois isto cabe única e exclusivamente a Nosso Senhor Jesus Cristo, Imagem do Pai, idêntica a Ele em substância, Imagem perfeita de Deus. Do homem se diz que é à imagem por causa da imperfeição da semelhança.

Assim, aquele que desconsiderar o valor da pequenina e “insignifcante’ crase pode estar sujeito a interpretar um absurdo e deixar passar essa oportunidade de contemplar o infinito abismo existente entre o Primogênito de toda criatura, a Imagem, e as meras criaturas, feitas à sua imagem, por sua bondade.

Lembremo-nos, portanto das valiosas regras gramaticais, sempre eficazes e importantíssimas a quem quer interpretar corretamente um texto.

A serena e irreversível vitória da Fé

Ir. Clara Isabel Morazzani Arráiz, EP 

Poucos há que não tenham ouvido falar das catacumbas de Roma, e muitos já as percorreram. Trilhadas diariamente por milhares de visitantes, essas galerias subterrâneas exercem misteriosa atração e produzem nos peregrinos uma impressão profunda e inesquecível.

Em meio à penumbra desses estreitos labirintos, escavados alguns com mais de 20 m de profundidade, o observador atento é surpreendido a cada passo pelas cavidades retangulares abertas ao longo das paredes, sobre as quais, por vezes, encontram-se inscrições, nomes ou desenhos: são as sepulturas dos cristãos, muitos deles mártires, dando eloquente testemunho de um passado heroico, selado com o sangue daqueles que nos antecederam na Fé.

Em diversos pontos os corredores dilatam-se, dando lugar a exíguos aposentos, decorados com rudimentares afrescos, e em cujo centro vê-se um altar. Reina no ambiente um imponderável de piedade e recolhimento, cortado apenas pela voz do guia: “Esta sala servia de capela e sobre este altar os Papas celebravam a Missa!”.

Refúgio seguro para celebrar os sagrados mistérios Continue lendo

A pátria da dor e da misericórdia

  Ana Laura de Oliveira Bueno – 1° ano de Ciências Religiosas

Eis o lugar onde os minutos são séculos intermináveis, onde a dor e a expiação se misturam à alegria e à consolação da esperança de poder ver a Deus num face a face eterno: o caro leitor certamente já concluiu que se trata da Igreja padecente.

De fato, ninguém merece o Céu facilmente. O purgatório é a pátria da justiça rigorosa e, ao mesmo tempo, é a pátria da infinita misericórdia de Deus: pois, para nós é uma grandíssima misericórdia encontrar, após a morte, um lugar de expiação e apesar do grande rigor da justiça divina, consola-nos a ideia de que no purgatório deve haver consolações e alegrias.

Alegrias? Pode haver neste estado onde almas, inclusive santas, passam anos num fogo expiatório – semelhante ao da negra prisão do inferno – por pecados veniais alguma alegria autêntica?

São Francisco de Sales é quem nos vai dizer que as alegrias e as consolações que de fato existem no purgatório são um bálsamo suavizante para as almas. No tocante a este assunto, o Bispo e Doutor da Igreja sintetizou alguns pontos a respeito das almas padecentes:

  1. As almas do purgatório estão numa contínua união com Deus e perfeitamente submissas à vontade d’Ele. Não podem deixar esta união divina e nunca podem contradizer a divina vontade, como infelizmente acontece conosco, neste mundo;
  2. Elas se purificam com muito amor e com muito boa vontade, porque sabem que é esta a vontade de Deus. Sofrer para fazer a vontade de Deus é uma alegria para elas.
  3. Elas querem ficar à maneira que Deus quer e quanto tempo Ele quiser.
  4. Elas são impecáveis e não podem experimentar nem o mais leve movimento de impaciência, nem cometer uma imperfeição sequer.
  5. Amam a Deus mais do que a si próprias e mais que todas as coisas e com amor muito puro e desinteressado.
  6. As almas são consoladas pelos Anjos.
  7. Elas estão seguras da sua salvação e com uma segurança que não pode ser confundida.
  8. As amarguras que experimentam são muito grandes, mas numa paz profunda e perfeita.
  9. Se, pelo que padecem, estão como numa espécie de inferno, quanto à dor, é um paraíso de doçura, quanto à caridade, mais forte do que a morte.

Com efeito, há uma esperança da salvação certa, não obstante o grande sofrimento, mormente no escuro e fundo purgatório. E a nós, filhos e filhas daquele que não admite pequenas concessões e é absolutamente intransigente em relação aos pecados veniais, vale sempre a máxima: “Sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito”. Ou seja: nossa santidade deve ser tal, que não se concebe sequer que esperemos passar por um longo purgatório! Em nossas almas não deve haver espaço para semi-fidelidades, semi-virtudes e pequenas concessões, mas antes devem ser receptáculos de um desejo radical de entrega completa ao sofrimento nesta terra de exílio e de uma cega confiança em Nossa Senhora, que abaterá todas as nossas misérias se estivermos em consonância com Ela, levando-nos ao convívio completo e eterno pelo qual tanto e tanto almejamos.

Peçamos, pois, esta graça, pela intercessão de nossos santos padroeiros e das santas almas do purgatório: retidão absoluta e santidade levada até as últimas consequências!

                            

 

O primeiro sábado do mês…

Ir. Mariella Emily Abreu Antunes

Nas aparições de Fátima em 1917, Nossa Senhora anunciou que, para impedir as calamidades por Ela profetizadas, viria postular a consagração da Rússia ao seu Imaculado Coração e a Comunhão reparadora aos primeiros sábados. Esta promessa cumpriu-se no dia 10 de dezembro de 1925, quando a Santíssima Virgem apareceu aos pastorinhos com o Menino Jesus, e Ele lhe disse:

— Tem pena do Coração de tua Santíssima Mãe, que está coberto de espinhos que os homens ingratos a todos os momentos lhe cravam, sem haver quem faça um ato de reparação para tirá-los!

Nossa Senhora então mostrou seu Imaculado Coração à vidente, dizendo-lhe:

— Vê, minha filha, o meu Coração cercado dos espinhos que os homens ingratos a todos os momentos Me cravam, com blasfêmias e ingratidões. Tu, ao menos, vem Me consolar. Diz que todos aqueles que, durante cinco meses, no primeiro sábado, se confessarem, receberem a Sagrada Comunhão, rezarem um terço e Me fizerem quinze minutos de companhia, meditando num dos mistérios do Rosário, com o fim de Me desagravar, Eu prometo assisti-los na hora da morte com todas as graças necessárias para a salvação de suas almas.

Meses depois, apareceu-lhe novamente o Menino Jesus perguntando se ela estava divulgando a devoção. A Irmã Lúcia respondeu que a Superiora lhe punha muitos obstáculos para isso e que o Confessor havia dito que tal devoção não seria nenhuma novidade para a população de Portugal, pois muitas pessoas já comungavam aos primeiros sábados em honra a Nossa Senhora, completando um número de quinze sábados em atenção aos quinze mistérios do Rosário.

Ouvindo isso, o Menino Jesus ponderou:

— É verdade que muitas almas praticam essa devoção, mas o fazem apenas com o intuito de receber as graças que lhes são prometidas. Agradam-Me mais os cinco sábados com fervor e com o desejo de desagravar o Coração de minha Mãe, do que os quinze sábados com tibieza, egoísmo e presunção…

Eis aí uma divina queixa de Nosso Senhor em favor de sua Santíssima Mãe. Cabe-nos, agora, a pergunta: em qual categoria de almas devotas me encontro?

À Vossa proteção recorremos…

Ir Mariella Antunes

Numa madrugada fria, do rigoroso inferno da longínqua Rússia, enquanto subia a encosta da montanha principal da região do Tykrapshol, o trem Marie se desviou de sua rota normal e atrasou o horário de sua chegada, deixando muitos em grande aflição. O que poderia ter acontecido?

– Eu acredito e posso dar o meu testemunho. Foi um milagre! Um milagre! –  exclamava o motorista do trem ao ser interrogado pelos seus superiores.

Qual o motivo que o fez parar no meio do percurso? Todos estavam surpresos e queriam saber o que tinha ocorrido, mas o motorista não parava de repetir a frase acima.

Que “milagre”seria esse? E que “testemunho” ele poderia dar?

Ao seguir pelos trilhos, em uma considerada velocidade, o maquinista, Jorge Krash, viu diante do trem uma grande sombra que ofuscava o farol esquerdo, parecendo fazer sinal para diminuir a velocidade e parar a máquina. O senhor Krash julgou que estava tendo alguma falsa impressão e que as altas horas da noite estavam influenciando e despertando sua imaginação. Prosseguiu o percurso como se nada tivesse acontecido.

Minutos depois, a mesma sombra apareceu novamente, fazendo sinais ainda mais rápidos. Isso se repetiu por mais três vezes. Não podendo mais conter-se, viu que não poderia ser apenas imaginação e começou a diminuir a marcha até o trem parar. Todos os passageiros, assustados com a repentina parada, correram às janelas para ver o que tinha se passado. Para sua surpresa constatou que a “grande sombra” era produzida pelas frágeis asas de uma borboleta…

Depois de certificar-se que era só isso que estava acontecendo, o motorista subiu novamente no vagão para recomeçar o caminho. Enquanto acionava os botões de partida, um dos passageiros deu um forte grito:

— Alto! Não avance, se não morremos todos!

Esse passageiro pôde de sua janela avistar uma grande pedra que havia se despregado da montanha e obstruía a passagem pelos trilhos. Nesse momento, todos compreenderam que aquela repentina parada tinha sido uma intervenção da Divina Providência. Se o trem tivesse continuado com a velocidade anterior, teria batido fortemente contra a pedra, ocasionando um grave acidente, uma explosão e, consequentemente, a morte de todos os passageiros.

O senhor Krash, convicto da proteção de seu anjo da guarda, o qual sempre invocava antes de suas viagens, confirmou que o motivo que o fizera parar, tinha sido a sombra de uma borboleta posta ali para salvá-los.

Essa é uma bela história que, embora  ilustrada, pode explicar vários fatos do nosso dia-a-dia

Muitas vezes, quando algum pressentimento ou uma forte tentação perturbam o nosso interior, logo concluímos: “coisa do demônio!”. Entretanto, quando temos uma boa inspiração, praticamos uma bela ação ou sentimos uma forte inclinação a praticar a virtude, julgamos que isso decorre de nós mesmos e nos esquecemos dos grandes guardiães que Deus nos concedeu com a missão de nos guiar desde o momento da nossa concepção até a Vida Eterna. Na Epístola aos Hebreus, encontramos que todos os anjos são espíritos a serviço de Deus, o qual lhes confia missões em favor dos herdeiros da salvação eterna (cf. Hb 1,14).

Ao longo da História, podemos comprovar como a Divina Providência quer a salvação de cada um dos homens e como Ela age para comunicar e realizar seu plano para humanidade. Por isso, Deus utiliza-se de criaturas como instrumento e envia seus Anjos que, como mensageiros celestes, executam Sua vontade e se relacionam com os homens. Como diz São João da Cruz: “Os anjos, além de levar a Deus notícias de nós, trazem os auxílios divinos para nossas almas e as apascentam como bons pastores […] amparando-nos e defendendo-nos dos lobos, os demônios”.1

Os seres angélicos são puros espíritos dotados de personalidade, de inteligência e de vontade, de poder superior aos dos homens e que servem a Deus de um modo mais próximo e estável. O Catecismo nos ensina que “Jesus anuncia em termos graves que ‘enviará seus anjos, e eles erradicarão de seu Reino todos os escândalos e os que praticam a iniquidade, e os lançarão na fornalha ardente’ (Mt 13, 4 1-42) de punição dos condenados, a qual é eterna e durará para sempre” (CCE 1034). Sendo essas criaturas mais perfeitas – o espiritual é maior do que o material – a Providência criou esses serem em maior quantidade que os homens e que toda e qualquer criatura material: “Milhares de milhares O serviam e centenas de milhares assistiam ante seu trono” (Dn 7,10).

Assim, os Anjos, mais especialmente o nosso Anjo da Guarda, estão sempre ao nosso lado e, como que, nos olham do Céu aguardando que busquemos o auxílio deles e os convoquemos para estarem entre nós. Saibamos, pois, recorrer a esses intercessores celestes nesta grande batalha do homem que é a face da Terra, até chegarmos um dia, pela misericórdia Divina e a intercessão de Maria Santíssima com sua Corte Angélica, à Vida Eterna.

1 SÃO JOÃO DA CRUZ. In: Revista Arautos do Evangelho, n. 58, p. 35.

Uma decisão, uma vitória

Ir. Juliana Montanari

Cheiro de pólvora, cadáveres por todo o terreno. Um dos capelães do exército francês durante a Primeira Guerra Mundial conta que, numa trincheira, doze soldados discutiam qual seria a decisão a tomar. A maioria optava por se render, pois a tática adotada até então, de avançar de trincheira em trincheira até o campo do adversário, trouxera um resultado desolador: de trinta soldados, agora sobrava apenas uma dúzia. No entanto, para alcançarem o território alemão faltavam somente cinco trincheiras. Os mais entusiasmados, porém poucos, queriam enfrentar os tiros das metralhadoras, mesmo sabendo que provavelmente não chegariam vivos. Ante a possibilidade de serem encontrados pelos inimigos e mortos na trincheira, preferiam morrer em campo aberto. Depois de rápida discussão, um curto silêncio se fez, à espera da decisão do mais velho, pois o comandante da tropa já havia perecido:

No entanto, o  decano, aterrorizado por ver a morte tão perto e a grande responsabilidade pela vida daqueles soldados, sentou-se sem saber o que fazer e disse:

– Escolham um comandante entre vocês, pois não tenho coragem de assumir tal decisão.

Surpreendidos com a resposta, todos voltaram-se para trás e viram um soldado que até aquele momento não havia dado sua opinião. Calado e de joelhos, rezava o rosário. Quem era ele? Um seminarista, que, por lei, estava servindo o exército francês. Admirados, perguntaram sua idade.

– Vinte e dois anos –  respondeu.

Os demais entreolharam-se e concluíram ser ele o mais novo. Por unanimidade, os soldados declararam:

– A partir de agora, serás o nosso comandante. Estamos às ordens!

Levantando-se, o jovem soldado gritou:

–  Avante! Se for da vontade de Deus, morramos como corajosos!

A decisão foi imediatamente cumprida. Todos se lançaram no campo a correr, com os fuzis às costas, até a trincheira seguinte. Colocando as mochilas no peito como escudo, chegaram com alguns ferimentos à barricada, mas salvos. Apenas um ficou para trás: era o mais velho que, por falta de proteção, morreu com um tiro no peito e dois na cabeça…

Lembremo-nos que todos  os nossos atos serão julgados por Deus. Como comentou nosso fundador Mons. João Clá Dias em muitas ocasiões, pode ser que, em determinado momento, a Providência exija de nossa parte um passo decisivo. O que faremos nessa hora? O que dizer àqueles que, talvez, dependerão de nossa atitude ou de nossa palavra? Não façamos como o pobre decano desta história que não recorreu ao auxílio do Céu. Mas, cheios de confiança, unamos nossas ações às de Nossa Senhora e peçamos que Ela atue em nós. Assim, muito mais que salvar a própria vida, como fizeram esses soldados, estaremos conquistando a pátria celeste!

Os frutos do recolhimento

Ir Ariane Heringer Tavares

Para que um mestre desempenhe com propriedade o ofício de ensinar, um conferencista realize com sucesso sua exposição, ou ainda um sacerdote obtenha  excelentes frutos espirituais com suas homilias e retiros, é indispensável que haja antes um período de preparação e estudo que os proporcione  um conhecimento mais amplo a respeito daquilo que transmitirão,  podendo, assim, satisfazer a sede de conhecimento dos seus discípulos. Já afirmava São Pio X a respeito das aulas de catecismo as quais, mesmo em meio às inúmeras ocupações pontificais, fazia questão de ministrar: para uma hora de catecismo são necessárias duas horas de estudo.[1] E isto sendo a maior parte dos ouvintes crianças…

No campo humano isto se entende sem muita dificuldade visto que conhecemos as limitações de nossa natureza. Mas,  o Homem-Deus também teria necessidade desta preparação para poder exercer bem sua missão salvadora?

De dentro dos próprios relatos bíblicos, brota-nos a resposta: segundo a narração de São Lucas, Jesus começou a exercer o seu ministério somente por volta dos trinta anos de idade (Cf. Lc 3, 23). Antes disso, porém, viveu na humilde casa de Nazaré, crescendo em graça e santidade, apenas diante de Deus, Nossa Senhora, São José, e algumas almas privilegiadíssimas que, de vez em quando, se encontravam com a Sagrada Família nas estradas da Judéia.

Devido à sua natureza divina, Jesus não necessitava desta vida contemplativa como preparação para seu ministério. Contudo, ao assumir uma natureza como a nossa, tornou-Se nosso modelo e quis demonstrar, através de seus próprios atos, o imenso valor do recolhimento. É como uma arca em que se guarda aquilo que se pensou e que se sentiu, para, no momento oportuno, saber manifestar aos demais por meio de palavras e bons exemplos.

E isto se manifestou de maneira ainda mais enfática quando o Espírito O conduziu ao deserto, onde permaneceu quarenta dias e quarenta noites em oração e penitência, contemplando o grandioso e terrível panorama de sua missão salvadora e obtendo forças para beber o cálice de terríveis sofrimentos que o Pai lhe havia destinado.

 Se estes foram os sublimes exemplos deixados pelo próprio Deus, quanta lição devem deles tirar todos os que desejam que seu apostolado produza plenamente seus frutos!

 

 

[1] SÃO PIO X apud CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Subiremos ao Céu em virtude da Ascenção. O inédito sobre os Evangelhos. Comentários aos Evangelhos Dominicais. Advento, Natal, Quaresma e Páscoa – Ano B. Città del Vaticano – São Paulo: LEV; Lumen Sapientiae, 2014, Op.cit., v. III, p. 359.

A sublime escala da oração (cont)

Ir. Lays Gonçalves de Sousa

Continuação do post anterior

recolhimento infuso é o quinto grau da oração, sendo o primeiro da escala contemplativa. Ela se caracteriza pela união do entendimento com Deus, no qual se abandona as coisas exteriores para entrar no íntimo da alma. A pessoa “sente um recolhimento suave que a chama ao interior”,[20] desejando estar a sós com Deus.

 Tenho para mim que Sua Majestade a concede a certas pessoas que já vão abrindo mão das vaidades do mundo. Não digo por obras – pois alguns, em virtude de seu estado, não o podem fazer – mas o desejam. Desta maneira, Sua Majestade convida as pessoas, de modo particular, a estarem atentas ao seu interior. Havendo então correspondência, Sua Majestade não se limitará a dar-lhes somente esta graça. Começa apenas a chamá-las a coisas mais altas.[21]

 Ela recebe nessa etapa uma “admiração deleitosa que dilata a alma e a enche de gozo e alegria ao descobrir em Deus tantas maravilhas de amor”.[22] Ademais, compreende sem esforço os mistérios de Deus, como as palavras do Evangelho, o que com anos inteiros de estudo não poderia conseguir.

Para não retroceder no caminho, deverá romper com todas as bagatelas que a prendem à terra e entregar-se com toda a alma à vida interior, mortificando os sentidos e insistindo no amor ardente a Deus.

Um dos mais célebres graus da oração é a quietude, na qual a alma atinge o sobrenatural. Consiste em um sentimento íntimo da presença de Deus que cativa a vontade e enche o corpo de suavidade e deleites inefáveis. “A alma fica suspensa de tal sorte que parece estar fora de si”.[23]

A diferença fundamental entre a oração de quietude e o recolhimento infuso é que o recolhimento infuso era como um convite de Deus a reconcentrar-se no interior da alma onde quer Ele comunicar-se. A quietude vai mais longe: começa dar à alma a posse, o gozo fruitivo do soberano Bem.[24]

Nesta fase, a alma encontra o perfeito equilíbrio entre ação e contemplação, pois, embora tenda ao silêncio e ao repouso, por não encontrar obstáculos no entendimento, pode perfeitamente praticar obras ativas.

Admiráveis são os efeitos santificadores que a oração de quietude produz, a saber: uma grande liberdade de espírito que dilata a alma, um temor filial, grande confiança na eterna salvação, amor à mortificação e aos trabalhos, profunda humildade, desprezo dos deleites terrenos e um crescimento em todas as virtudes.

Santa Teresa aconselha às almas que alcancem este elevado grau de piedade a fugir das ocasiões de ofender a Deus, pois são como criancinhas que começam a alimentar-se, e se vierem a afastar-se do leite materno, acabarão por sucumbir.

Empenho-me tanto neste aviso de não se porem em ocasiões de pecado, porque o demônio faz mais questão de ganhar uma destas almas do que muitíssimas outras não favorecidas pelo Senhor com iguais mercês. É que estas almas podem acarretar-lhe grande prejuízo, atraindo outras atrás de si e, provavelmente, produzirão muitos frutos na Igreja de Deus. Basta, aliás, ao inimigo ver o particular amor que Sua Majestade lhes mostra, para que ponha tudo em jogo, com o objetivo de perdê-las, mesmo sem outras razões. Deste modo, são muito combatidas e, se vierem a transviar-se, será para elas muito maior a perdição do que para outras almas.[25]

Poucas são as almas que, após chegarem a esse patamar, avançam na escala da oração. Muitas, depois de terem sido objeto da predileção de Deus, a abandonam completamente. Por este motivo, não poderá a alma se acovardar julgando-se incapaz de subir esta montanha sagrada. “Tenhamos fé: Aquele que dá os bens, dará também graça para que, no momento em que o demônio principiar a tentar-nos sobre este ponto, logo entendamos e tenhamos força para resistir”.[26] A oração de quietude é como uma faísca de amor a qual, desde que não seja extinta por culpa própria, começa a incendiar a alma a ponto de produzir verdadeiras labaredas de caridade, beneficiando os mais fracos. Ela é a garantia de que Deus escolheu tal alma para grandes feitos.

união simples é um grau intensíssimo da oração contemplativa na qual todas as potências da alma estão cativadas e absortas em Deus. “É lavor sem fadiga, alegria que não se deixa perceber, um regozijar sem se compreender de quê”.[27] Nesse período a alma goza da certeza inquebrantável de estar unida plenamente a Deus, acompanhada de uma ausência de distrações, o que nos graus anteriores não acontece.

Estando assim a alma a buscar a Deus, sente-se quase desfalecer completamente, numa espécie de desmaio, com grande e suave ternura. Vê que lhe vão faltando o fôlego e todas as forças corporais, de modo que nem pode menear as mãos, a não ser a muito custo. Os olhos fecham-se involuntariamente, ou, se conservados abertos, a pessoa nada enxerga. Se lê, não acerta com as letras, nem atina em reconhecê-las; vê os caracteres, mas, como o intelecto não ajuda, não consegue ler, ainda que queira. Ouve, porém, não entende o que ouve, de modo que os sentidos de nada lhe servem. […] É impossível falar: não atina com uma só palavra e ainda que atinasse, não teria alento para pronunciá-la. Toda força exterior se perde e se concentra nas da alma.[28]

Fortíssimos e inesperados impulsos invadem a alma, abrasando-a nas chamas do divino amor, a ponto de, ao escutar o nome de Deus, subitamente acender-se em seu coração um ímpeto insaciável e devorador. “A alma arde de desejos de que lhe rompam as ataduras do corpo para voar livremente a Deus”.[29]

O oitavo grau é a união extática. A magnitude de união mística ultrapassa os limites da fragilidade humana, e, como consequência, sobrevêm os êxtases, os quais consistem numa fraqueza corporal que suspende os sentidos internos e externos. Em tais arroubamentos, é impossível resistir, tornando-se patente que:

Não somos senhores do corpo nem capazes, por conseguinte, de o deter quando Sua Majestade assim o quer. Ao contrário, verificamos, por muito que nos pese, que existe acima de nós alguém mais poderoso, e que tais graças são dádivas suas, enquanto de nossa parte nada, absolutamente nada, podemos fazer. Imprime-se, então, muita humildade na alma.[30]

Os êxtases místicos produzem uma energia sobrenatural que faz a alma chegar à prática heroica das virtudes, ao ponto de estar disposta a tudo sofrer pelo Objeto amado. “É preciso que a alma seja resoluta e corajosa, muito mais do que nos estados precedentes, para arriscar tudo – venha o que vier – e, entregando-se a Deus, deixar-se guiar de bom grado por suas mãos aonde Ele quiser”.[31]

união transformante é o último e mais alto grau da oração, também conhecida como união consumada. É ela um prelúdio antecipado e preparação imediata para a glória celeste. O Doutor Místico, São João da Cruz, define esta oração como a plena transformação no Amado, tantas vezes desejada nos graus anteriores, na qual a alma é posta no mais fundo do amor divino, transformando-se no próprio Deus, sem deixar, porém de ser criatura. “A alma mais parece Deus do que propriamente alma”.[32]

Magníficos dons nos concede este orvalho celeste: uma morte total do egoísmo, preocupando-se somente com a glória de Deus, um grande desejo de ser crucificado com Nosso Senhor Jesus Cristo, gozo por ser perseguido e caluniado, paz e quietude imperturbáveis na qual o demônio não consegue penetrar. “Este é o mais alto estado que nesta vida se pode chegar”.[33]

Esse longo percurso da oração não é um estado extraordinário reservado apenas para alguns. Pelo contrário, os mais altos cumes da santidade deveriam ser a via normal de todo batizado. Contudo, poucos são aqueles que buscam atingir essa perfeição, como adverte São João da Cruz:

Ó almas chamadas e criadas para estas grandezas! Que fazeis? Em que vos ocupais? Vossas pretensões são baixas e vossas posses, miséria. Ó miserável cegueira de alma; com tanta luz estais cegos, e com vozes tão altas, surdos. […] Recebendo tantos bens, vos tornais ignorantes e indignos.[34]

[20] SANTA TERESA DE JESUS. Castelo interior ou Moradas. Op. cit. p.88.

[21] Ibid. p. 88.

[22] ROYO MARÍN. Teología de la perfección cristiana.Op. cit. p. 716. (Tradução da autora).

[23] SANTA TERESA DE JESUS. Livro da vida. Op. cit. p. 71.

[24] ROYO MARÍN. Teología de la perfección cristiana.Op. cit. p. 718. (Tradução da autora).

[25] SANTA TERESA DE JESUS. Castelo interior ou Moradas. Op. cit. 93.

[26] Id. Livro da vida. Op. cit. p. 73.

[27] Ibid. p. 135.

[28] Ibid. p. 139.

[29] ROYO MARÍN. Teología de la perfección cristiana.Op. cit. p. 729. (Tradução da autora).

[30] SANTA TERESA DE JESUS. Livro da vida. Op. cit. p. 153.

[31] Ibid. p. 152.

[32] SÃO JOÃO DA CRUZ, apud ROYO MARÍN. Teología de la perfección cristiana. Op. cit. p. 741. (Tradução da autora).

[33] Ibid. p.744. (Tradução da autora).

[34] Ibid. p. 761. (Tradução da autora).

A sublime escala da oração

Ir. Lays Gonçalves de Sousa

“Depois do Batismo, é necessário ao homem a oração contínua para entrar no Céu”,[1] adverte o Doutor Angélico. Aqueles que fazem uso desse poderoso tesouro se aproximam intimamente do Divino Redentor. Contudo, o que garante que Deus ouvirá propício as suas súplicas, sendo o homem demasiadamente insuficiente? Quais as condições necessárias para tornar nossa oração infalível e até mesmo onipotente?

Assim como a santidade só é alcançada mediante a prática heroica de todas as virtudes, da mesma forma, a oração possui diversos graus até atingir o esplendor perfeitíssimo da união com Deus. Pois, “na oração as delícias das almas são como as que no céu devem ter os eleitos”.[2]

 Os mestres de vida espiritual dividem os graus da oração em nove.

O primeiro, por ordem ascendente, corresponde à oração vocal, a qual está ao alcance de todos. Ela se manifesta com palavras e, por isso, é a única forma de oração pública ou litúrgica. Para que seja eficaz possui duas condições: deve ser feita com atenção e profunda piedade.

É ainda de se saber que há três atenções sem as quais a oração vocal não será possível. A primeira é estar atento às palavras, para que nela não cometa erro; a segunda é prestar atenção no sentido das palavras; a terceira, que é a máxima necessária, considerar o fim da oração, isto é, a Deus e ao objeto da oração.[3]

 A esse respeito escreveu Santa Teresa:

Para ser oração é necessário reflexão. Não chamo oração mexer com os lábios sem pensar no que dizemos, nem no que pedimos, nem quem somos nós, nem quem é Aquele ao qual nos dirigimos. Algumas vezes poderá acontecer isso a pessoas que se esforçam por rezar bem,mas será por motivos que se justificam, e será boa a oração. (Nao entendi) Porém, o costume de falar à Majestade de Deus como quem fala a um estranho, dizendo o que lhe vem à cabeça, sem reparar se está certo, por ter decorado ou repetido muitas vezes, – a isso não tenho em conta de oração. Não permita Deus que cristão algum reze desse modo![4]

Comete verdadeiro pecado de irreverência, aquele que realiza a oração com distrações voluntárias, além de impedir seus frutos.[5]

Sobre a segunda condição, nos ensina o Pe. Royo Marín:

Com a atenção, aplicamos nossa inteligência em Deus. Com a piedade colocamos a vontade e o coração em contato com Ele. Essa piedade profunda envolve e supõe um conjunto de virtudes cristãs de primeira categoria: a caridade, a fé viva, a confiança, a humildade, a devoção e reverência frente à Majestade divina e a perseverança.[6]

Essa oração não é uma prática facultativa, sendo de suma importância na vida espiritual exercitá-la com fervor. Estando com saúde ou agonizante, na consolação ou na aridez, mesmo nos mais altos patamares da santidade, jamais poderá o homem abandonar essa prática diária, pois do contrário poderia comprometer a sua salvação eterna.

 A meditação constitui o segundo grau da oração, e é onde as almas “percebem melhor os chamamentos e convites diversos que faz o Senhor”.[7] Ensina-nos a teologia que a meditação “consiste na aplicação racional da mente a uma verdade sobrenatural a fim de nos convencermos dela e nos mover a amá-la e praticá-la com a ajuda da graça”.[8] Neste grau será essencialmente utilizada a razão, sem a qual a meditação não poderá efetivar-se. Por isso, proclamava o Apóstolo: “orarei com o espírito, mas orarei também com o entendimento; cantarei com o espírito, mas cantarei também com o entendimento” (I Cor 14, 15).

A meditação tem duas finalidades: uma intelectual e outra afetiva. A primeira é comparável a uma muralha inexpugnável que nos concede convicções firmes e enérgicas contra os inimigos da alma. Em outras palavras, é ela que, ao desaparecer a felicidade sensível e momentânea, cria raízes na alma e não deixa que, sem resistência, nos entreguemos ao menor sopro das paixões. “Não se pode construir uma casa sólida sobre a areia movediça do sentimento; é preciso um fundamento pétreo e inamovível das convicções profundamente arraigadas na inteligência”.[9]

Com efeito, é preciso que a meditação esteja acompanhada de nossos afetos, que é a parte principal da meditação:

Esta começa propriamente quando a alma inflamada com a verdade sobrenatural que o entendimento convencido lhe apresenta, prorrompe em afetos e atos de amor a Deus, com quem estabelece um contato íntimo e profundo […].[10]

 Esta oração é um dom particularíssimo de Deus no qual as almas são introduzidas e inebriadas no amor divino. Ela é incompatível com o pecado, e os homens que não meditam, facilmente se deixam levar pelo ímpeto das paixões desordenadas. “Com os demais exercícios de piedade, a alma pode continuar vivendo no pecado, mas, com a oração mental bem feita, não poderá permanecer nele muito tempo: ou deixará a oração ou deixará o pecado”.[11] À alma absorta e embevecida não resta ocasião para pensar em si mesma, pois só se ocupa do que diz respeito ao Amado, como afirma São Bernardo: “rara é essa hora, e o tempo que nela se gasta é sempre breve, pois, por mais dilatado que seja, parece um sopro”.[12]

 “O amor é fruto da oração fundada na humildade”.[13] Por ser esta forma de oração tão sublime, devemos pedi-la com verdadeira submissão, restituindo a Deus todos os benefícios que por meio dela recebemos.

Esse método de oração deve ser assíduo e perseverante. A alma que procura levar uma vida rumo à perfeição, entregando-se inteiramente ao apostolado, mas desprezando a oração mental, longe está da brisa da santidade, afirmam os teólogos. Continua o Doutor Melífluo:

Eu, por minhas forças, não posso chegar a esse amor, a essa união e contemplação tão levantada; só peço que Ele ma conceda a mim. Só o Senhor por sua bondade e gratuita liberalidade nos há-de levantar a este ósculo de seus divinos lábios, a esta altíssima oração e contemplação.[14]

A oração afetiva ocupa o terceiro grau da oração. Ela é uma espécie de meditação simplificada e orientada ao coração, na qual predominam os afetos da vontade sobre o discurso do entendimento. Ela representa um profundo descanso para a alma, uma vez que diminui o rude labor da meditação discursiva. Em relação a esse pormenor, incomparáveis são as vantagens espirituais concedidas neste terceiro grau: uma união mais íntima e profunda com Deus, pela qual nos aproximamos cada vez mais do objeto amado; um desenvolvimento especial das virtudes infusas em conexão com a caridade, além de consolos e suavidades sensíveis que servem de estímulo e alento para a prática das virtudes cristãs.

Esses preciosos auxílios, entretanto, poderão ver-se comprometidos, caso não se faça bom uso deles. O verdadeiro fervor reside na vontade, não na sensibilidade. Desta forma, a alma poderá usar das consolações, mas não viver somente delas. Do contrário, passará a ter uma gula espiritual, como explica São João da Cruz, que impulsiona a buscar na oração afetiva a suavidade dos consolos sensíveis ao invés do estímulo para a prática austera das virtudes.[15] Os frutos da oração afetiva não são medidos pela quantidade de consolações sensíveis, mas pelas manifestações cada vez mais intensas das virtudes. “Ó Jesus, haverá quem não queira tão grande bem, especialmente se já passou pelo mais trabalhoso? Não, nenhum de nós!”.[16]

Simples visão, olhar amoroso a Deus ou às coisas divinas que acende na alma o fogo do amor: eis o quarto grau da oração, conhecido como oração de simplicidade. Os três primeiros graus pertencem à ascética na qual se sobressai o esforço. Já o quarto representa a transição progressiva e gradual da ascética à mística, que é ação direta da graça. Nesse estágio a alma é levada por um ardente desejo de glorificar a Deus e de buscá-Lo em pequenos afazeres, unindo-se a Ele com um olhar carregado de amor, como afirma Santa Teresa:

Só quero que vos compenetreis bem do seguinte: para aproveitar neste caminho e subir às moradas desejadas, o essencial não é pensar muito – é amar muito. Escolhei de preferência o que mais vos conduzir ao amor. Talvez nem saibamos o que é amar, o que me espanta. Não consiste o amor em ser favorecido de consolações. Consiste, sim, numa total determinação e desejo de contentar a Deus em tudo, em procurar, o quanto pudermos, não ofendê-Lo e em rogar-Lhe pelo aumento contínuo da honra e glória de seu Filho e pela prosperidade da Santa Igreja Católica.[17]

Nessas circunstâncias, a alma é convidada a mergulhar em seu interior, baseando-se na grande verdade de que “Deus está dentro de nós mesmos”,[18] o que prepara a alma para saber escutar a voz do Altíssimo. Cada grau da oração significa um novo avanço rumo ao Reino dos Céus; na oração de simplicidade, com menos trabalho e esforço, a alma consegue resultados mais intensos.[19]

Continua no próximo post

[1] SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. III, q. 39, a. 5.

[2] SANTA TERESA DE JESUS. Livro da vida. Trad. Maria José de Jesus. 9. ed. São Paulo: Paulus, 2005, p. 72.

[3] Ibid. II-II, q.83, a. 13.

[4] SANTA TERESA DE JESUS. Castelo interior ou Moradas. 11. ed. São Paulo: Paulus, 2003, p. 23.

[5] Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. II-II, q. 83, a. 13.

[6] ROYO MARÍN, Antonio. Teología de la perfección cristiana. 5. ed. Madrid: BAC, 1968, p. 655. (Tradução da autora).

[7] SANTA TERESA DE JESUS. Castelo interior ou Moradas. Op.cit. p.42.

[8] ROYO MARÍN. La oración del cristiano. Op. cit. p. 26. (Tradução da autora).

[9] Id. Teología de la perfección cristiana. Op. cit. p. 662.(Tradução da autora).

[10] Loc. cit. (Tradução da autora).

[11] Ibid. p.663. (Tradução da autora).

[12] SÃO BERNARDO, apud RODRIGUES, Afonso. Op. cit. p. 19.

[13] SANTA TERESA DE JESUS. Livro da vida. Op. cit. p. 73.

[14] SÃO BERNARDO, apud RODRIGUES, Afonso. Op. cit. p. 23.

[15] Cf. ROYO MARÍN. Teología de la perfección cristiana. Op. cit. p. 674-677.

[16] SANTA TERESA DE JESUS. Castelo interior ou Moradas. Op. cit. p. 56.

[17] Ibid. p. 75.

[18] Ibid. p. 87.

[19] Cf. ROYO MARÍN. Teología de la perfección cristiana. Op. cit. p. 681.

Agitação: o extremo oposto da contemplação

Ir. Ariane Heringer Tavares, EP

Após o pecado original e o consequente enfraquecimento da natureza humana, a inquietação do espírito pode derivar-se da desordem das paixões, fascinadas por algo que não é lícito. Mas, há outro fator: “o demônio, vosso adversário, anda ao redor, como um leão que ruge, buscando a quem devorar” (I Pe 5, 8). Inúmeras vezes, é ele quem provoca na alma estados de perturbação, aguçando ainda mais as más tendências. Como Lúcifer e seus sequazes não cumpriram a finalidade para a qual foram criados, por se terem revoltado contra Deus, buscam a todo custo a mesma desgraça para os homens com o intuito de privá-los das alegrias da eterna contemplação.

São Francisco de Sales qualifica o frenesi como o maior mal que pode sobrevir à alma, depois do pecado:

Porque assim como as perturbações e sedições interiores de uma república a arruínam por completo e a embaraçam a ponto de que não possa resistir ao estrangeiro, assim o nosso coração, estando perturbado e inquieto em si mesmo perde a força de conservar as virtudes que tinha adquirido e ao mesmo tempo o meio de resistir às tentações do inimigo. [1]Com efeito, o demônio procura exacerbar essa debilidade, utilizando-se da agitação constante, especialmente propagada com a Revolução Industrial.

Revolução Industrial: a embriaguez da agitação

É inegável que o desenvolvimento da tecnologia e da ciência geram inúmeros benefícios e facilidades para a sociedade contemporânea. Com efeito, seria um absurdo se, ainda nos dias atuais, as cirurgias fossem realizadas sem o uso de anestésicos, se para o envio de uma carta fossem utilizados os famosos “pombos-correio” ou, para deslocar-se de um país para outro, não houvesse outro meio senão empreender uma longa viagem marítima ou a cavalo.

Entretanto, muitas vezes, pelo mau uso de tais tecnologias e máquinas, surgem problemas bastante complexos, cuja existência talvez nem seria cogitada em épocas anteriores. Um efeito devastador desse mau uso foi o fato de esse espírito prático, fortemente tendente à velocidade, à agitação e, consequentemente, ao esquecimento do sobrenatural, ter penetrado na alma humana e afetado todo o seu modo de ser.

A máquina — a “alma” de quase toda técnica — tende a sujeitar inteiramente a seu ritmo mecânico todo o trabalho humano. E mais do que o trabalho as diversões, a vida de família, toda a existência. Em todos os domínios, o homem vai se utilizando cada vez mais largamente da máquina, e aceitando adaptar-se a ela, para fruir as vantagens que ela proporciona. Nestas condições, a influência da máquina tende a penetrar nas esferas mais delicadas e mais altas da vida humana, isto é, tende a criar um estilo de vida, um modo de conceber os problemas e de os resolver, uma mentalidade enfim, inteiramente mecanizada. Homens estandardizados, com ideias e gostos padronizados, imersos num estado de espírito de um tédio sombrio, displicente, pesado, cheio de fadiga, interrompido apenas pelas excitações delirantes do cinema, da televisão, do rádio, ou das “torcidas” esportivas.[2]

Até o século XIX, podia-se afirmar que a maior parte das pessoas ainda levava uma vida muito estável, penetrada, em muitos aspectos, pelos costumes tradicionais e carregados de simbolismo das civilizações anteriores. Contudo, o surgimento das indústrias e a realização de tantos avanços científicos e tecnológicos contribuiu decisivamente para que se operasse uma mudança radical nas mentalidades e no modo de viver de toda sociedade. O “progresso” e o “desenvolvimento”, tão difundidos desde o final do século XVIII, prometiam uma era de paz e segurança, na qual o homem seria o rei absoluto de si mesmo e de suas ações.

Essa brusca transformação da cultura e dos ambientes causada pela Revolução Industrial exerceu uma profunda ação sobre as tendências humanas, pois “os ambientes [o mesmo pode ser aplicado à cultura], na medida em que favorecem os costumes bons e maus, podem opor à Revolução as admiráveis barreiras de reação; ou […] podem comunicar às almas as toxinas e as energias tremendas do espírito revolucionário”, [3] que incentivam a revolta das paixões.

Com as tendências amortecidas, torna-se mais fácil ao homem a aderência aos fatos que se concretizam depois. Por isso, ao longo do processo de industrialização, rapidamente se consolidou e difundiu o mito de que o homem, por si só, era capaz de produzir coisas extraordinárias e numerosas, independentes de Deus. O otimismo contaminou de tal maneira os espíritos que despertou neles uma crescente apetência de fruição e um verdadeiro horror ao recolhimento e ao sacrifício.

Pode-se acrescentar ainda a ação do demônio que, aproveitando-se deste estado de espírito reinante, começou a propagar a ideia de que a máquina e a velocidade podem proporcionar ao ser humano a plenitude do gozo, dando a entender que “a excitação era a única forma de gozar a vida”.[4]

O desejo da novidade passou a ser, então, o dogma da sociedade contemporânea, levando o homem a se cansar rapidamente das coisas, querendo continuamente substituí-las por outras, o que o tornou incapaz da estabilidade e, portanto, do estado espírito exigido pela contemplação. Esta, junto com muitas outras práticas da Religião, foi sendo cada vez mais relegada a um segundo plano, até se dissociar completamente da vida cotidiana:

No fundo, tratava-se de um laicismo que não consistia apenas em silenciar os temas referentes a Deus e ao mundo sobrenatural, mas em apresentar uma visão das atividades do homem diante da qual a Religião era considerada uma coisa com la quale o senza la quale il mondo va tale e quale[com a qual ou sem a qual o mundo continua tal e qual].[5]

Quebrava-se assim, de forma mais ou menos explícita, a necessidade da relação que deve existir entre as criaturas contingentes e o Criador, resultando no mundo pragmático e materialista de nossos dias.

De fato, aquilo que satanás promete, é exatamente o que vai tirar: as promessas de paz e segurança. Basta frequentar qualquer um dos grandes centros urbanos do mundo contemporâneo: em vez de paz, encontra-se agitação; em vez de realização, frustração e infelicidade quase irreversíveis. A alma que voluntariamente se entrega a este estado de espírito se expõe a receber constantes influências malignas.

[…] há um barulho, um ruído ensurdecedor no mundo que seduz as pessoas e estas, em tais condições, não escutam a suave voz do Divino Mestre. Esse barulho, embora possa ser tomado no sentido material da palavra, antes de tudo significa o tumulto das paixões humanas desordenadas que nos levam a agir e a nos movimentarmos de maneira igualmente desordenada. Donde uma espécie de perturbação difusa nas grandes cidades, uma agitação da vida moderna e seus acontecimentos, que embriagam e fascinam imensa parcela dos habitantes dos maiores centros urbanos. Ora, enquanto houver numa alma esse deleite com o tumultuar do século, algo da delicada voz de Nosso Senhor Jesus Cristo não chegará até ela. Nesta sua lamentável surdez irão esbarrar e se deter as inspirações da graça.[6]

Como diz a Sagrada Escritura: “Non in commotione Dominus” (Vulgata: III Rs 19, 11) — “O Senhor não está na agitação”— e nem pode ser causa dela.

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[1] SÃO FRANCISCO DE SALES. Introdução à vida devota. 5.ed. Porto: Porto Médico, 1948, p.270.
[2] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Vida mecânica, vida natural. In: Catolicismo. São Paulo, n. 55, jul. 1955, [s. p.].
[3] Id. Revolução e Contra-Revolução. 5. ed. São Paulo: Retornarei, 2002, p.85.
[4] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Notas Autobiográficas. São Paulo: Retornarei, 2010, v.II, p.103.
[5] Ibid. p.107.
[6] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. O partido de Jesus e o do mundo. In: Dr. Plinio. São Paulo: ano XI, n. 118. jan. 2008, p. 12.