A sublime escala da oração (cont)

Ir. Lays Gonçalves de Sousa

Continuação do post anterior

recolhimento infuso é o quinto grau da oração, sendo o primeiro da escala contemplativa. Ela se caracteriza pela união do entendimento com Deus, no qual se abandona as coisas exteriores para entrar no íntimo da alma. A pessoa “sente um recolhimento suave que a chama ao interior”,[20] desejando estar a sós com Deus.

 Tenho para mim que Sua Majestade a concede a certas pessoas que já vão abrindo mão das vaidades do mundo. Não digo por obras – pois alguns, em virtude de seu estado, não o podem fazer – mas o desejam. Desta maneira, Sua Majestade convida as pessoas, de modo particular, a estarem atentas ao seu interior. Havendo então correspondência, Sua Majestade não se limitará a dar-lhes somente esta graça. Começa apenas a chamá-las a coisas mais altas.[21]

 Ela recebe nessa etapa uma “admiração deleitosa que dilata a alma e a enche de gozo e alegria ao descobrir em Deus tantas maravilhas de amor”.[22] Ademais, compreende sem esforço os mistérios de Deus, como as palavras do Evangelho, o que com anos inteiros de estudo não poderia conseguir.

Para não retroceder no caminho, deverá romper com todas as bagatelas que a prendem à terra e entregar-se com toda a alma à vida interior, mortificando os sentidos e insistindo no amor ardente a Deus.

Um dos mais célebres graus da oração é a quietude, na qual a alma atinge o sobrenatural. Consiste em um sentimento íntimo da presença de Deus que cativa a vontade e enche o corpo de suavidade e deleites inefáveis. “A alma fica suspensa de tal sorte que parece estar fora de si”.[23]

A diferença fundamental entre a oração de quietude e o recolhimento infuso é que o recolhimento infuso era como um convite de Deus a reconcentrar-se no interior da alma onde quer Ele comunicar-se. A quietude vai mais longe: começa dar à alma a posse, o gozo fruitivo do soberano Bem.[24]

Nesta fase, a alma encontra o perfeito equilíbrio entre ação e contemplação, pois, embora tenda ao silêncio e ao repouso, por não encontrar obstáculos no entendimento, pode perfeitamente praticar obras ativas.

Admiráveis são os efeitos santificadores que a oração de quietude produz, a saber: uma grande liberdade de espírito que dilata a alma, um temor filial, grande confiança na eterna salvação, amor à mortificação e aos trabalhos, profunda humildade, desprezo dos deleites terrenos e um crescimento em todas as virtudes.

Santa Teresa aconselha às almas que alcancem este elevado grau de piedade a fugir das ocasiões de ofender a Deus, pois são como criancinhas que começam a alimentar-se, e se vierem a afastar-se do leite materno, acabarão por sucumbir.

Empenho-me tanto neste aviso de não se porem em ocasiões de pecado, porque o demônio faz mais questão de ganhar uma destas almas do que muitíssimas outras não favorecidas pelo Senhor com iguais mercês. É que estas almas podem acarretar-lhe grande prejuízo, atraindo outras atrás de si e, provavelmente, produzirão muitos frutos na Igreja de Deus. Basta, aliás, ao inimigo ver o particular amor que Sua Majestade lhes mostra, para que ponha tudo em jogo, com o objetivo de perdê-las, mesmo sem outras razões. Deste modo, são muito combatidas e, se vierem a transviar-se, será para elas muito maior a perdição do que para outras almas.[25]

Poucas são as almas que, após chegarem a esse patamar, avançam na escala da oração. Muitas, depois de terem sido objeto da predileção de Deus, a abandonam completamente. Por este motivo, não poderá a alma se acovardar julgando-se incapaz de subir esta montanha sagrada. “Tenhamos fé: Aquele que dá os bens, dará também graça para que, no momento em que o demônio principiar a tentar-nos sobre este ponto, logo entendamos e tenhamos força para resistir”.[26] A oração de quietude é como uma faísca de amor a qual, desde que não seja extinta por culpa própria, começa a incendiar a alma a ponto de produzir verdadeiras labaredas de caridade, beneficiando os mais fracos. Ela é a garantia de que Deus escolheu tal alma para grandes feitos.

união simples é um grau intensíssimo da oração contemplativa na qual todas as potências da alma estão cativadas e absortas em Deus. “É lavor sem fadiga, alegria que não se deixa perceber, um regozijar sem se compreender de quê”.[27] Nesse período a alma goza da certeza inquebrantável de estar unida plenamente a Deus, acompanhada de uma ausência de distrações, o que nos graus anteriores não acontece.

Estando assim a alma a buscar a Deus, sente-se quase desfalecer completamente, numa espécie de desmaio, com grande e suave ternura. Vê que lhe vão faltando o fôlego e todas as forças corporais, de modo que nem pode menear as mãos, a não ser a muito custo. Os olhos fecham-se involuntariamente, ou, se conservados abertos, a pessoa nada enxerga. Se lê, não acerta com as letras, nem atina em reconhecê-las; vê os caracteres, mas, como o intelecto não ajuda, não consegue ler, ainda que queira. Ouve, porém, não entende o que ouve, de modo que os sentidos de nada lhe servem. […] É impossível falar: não atina com uma só palavra e ainda que atinasse, não teria alento para pronunciá-la. Toda força exterior se perde e se concentra nas da alma.[28]

Fortíssimos e inesperados impulsos invadem a alma, abrasando-a nas chamas do divino amor, a ponto de, ao escutar o nome de Deus, subitamente acender-se em seu coração um ímpeto insaciável e devorador. “A alma arde de desejos de que lhe rompam as ataduras do corpo para voar livremente a Deus”.[29]

O oitavo grau é a união extática. A magnitude de união mística ultrapassa os limites da fragilidade humana, e, como consequência, sobrevêm os êxtases, os quais consistem numa fraqueza corporal que suspende os sentidos internos e externos. Em tais arroubamentos, é impossível resistir, tornando-se patente que:

Não somos senhores do corpo nem capazes, por conseguinte, de o deter quando Sua Majestade assim o quer. Ao contrário, verificamos, por muito que nos pese, que existe acima de nós alguém mais poderoso, e que tais graças são dádivas suas, enquanto de nossa parte nada, absolutamente nada, podemos fazer. Imprime-se, então, muita humildade na alma.[30]

Os êxtases místicos produzem uma energia sobrenatural que faz a alma chegar à prática heroica das virtudes, ao ponto de estar disposta a tudo sofrer pelo Objeto amado. “É preciso que a alma seja resoluta e corajosa, muito mais do que nos estados precedentes, para arriscar tudo – venha o que vier – e, entregando-se a Deus, deixar-se guiar de bom grado por suas mãos aonde Ele quiser”.[31]

união transformante é o último e mais alto grau da oração, também conhecida como união consumada. É ela um prelúdio antecipado e preparação imediata para a glória celeste. O Doutor Místico, São João da Cruz, define esta oração como a plena transformação no Amado, tantas vezes desejada nos graus anteriores, na qual a alma é posta no mais fundo do amor divino, transformando-se no próprio Deus, sem deixar, porém de ser criatura. “A alma mais parece Deus do que propriamente alma”.[32]

Magníficos dons nos concede este orvalho celeste: uma morte total do egoísmo, preocupando-se somente com a glória de Deus, um grande desejo de ser crucificado com Nosso Senhor Jesus Cristo, gozo por ser perseguido e caluniado, paz e quietude imperturbáveis na qual o demônio não consegue penetrar. “Este é o mais alto estado que nesta vida se pode chegar”.[33]

Esse longo percurso da oração não é um estado extraordinário reservado apenas para alguns. Pelo contrário, os mais altos cumes da santidade deveriam ser a via normal de todo batizado. Contudo, poucos são aqueles que buscam atingir essa perfeição, como adverte São João da Cruz:

Ó almas chamadas e criadas para estas grandezas! Que fazeis? Em que vos ocupais? Vossas pretensões são baixas e vossas posses, miséria. Ó miserável cegueira de alma; com tanta luz estais cegos, e com vozes tão altas, surdos. […] Recebendo tantos bens, vos tornais ignorantes e indignos.[34]

[20] SANTA TERESA DE JESUS. Castelo interior ou Moradas. Op. cit. p.88.

[21] Ibid. p. 88.

[22] ROYO MARÍN. Teología de la perfección cristiana.Op. cit. p. 716. (Tradução da autora).

[23] SANTA TERESA DE JESUS. Livro da vida. Op. cit. p. 71.

[24] ROYO MARÍN. Teología de la perfección cristiana.Op. cit. p. 718. (Tradução da autora).

[25] SANTA TERESA DE JESUS. Castelo interior ou Moradas. Op. cit. 93.

[26] Id. Livro da vida. Op. cit. p. 73.

[27] Ibid. p. 135.

[28] Ibid. p. 139.

[29] ROYO MARÍN. Teología de la perfección cristiana.Op. cit. p. 729. (Tradução da autora).

[30] SANTA TERESA DE JESUS. Livro da vida. Op. cit. p. 153.

[31] Ibid. p. 152.

[32] SÃO JOÃO DA CRUZ, apud ROYO MARÍN. Teología de la perfección cristiana. Op. cit. p. 741. (Tradução da autora).

[33] Ibid. p.744. (Tradução da autora).

[34] Ibid. p. 761. (Tradução da autora).

2 ideias sobre “A sublime escala da oração (cont)

  1. Oração
    Há momentos, minha Mãe, em que minha alma se sente, no que tem de mais fundo, tocada por uma saudade indizível. Tenho saudades da época em que eu Vos amava, e Vós me amáveis, na atmosfera primaveril de minha vida espiritual. Tenho saudades de Vós, Senhora, e do paraíso que punha em mim a grande comunicação que tinha convosco.
    Não tendes também Vós, Senhora saudades desse tempo? Não tendes saudades da bondade que havia naquele filho que fui?
    Vinde, pois, ó melhor de todas as mães, e por amor ao que desabrochava em mim, restaurai-me: recomponde em mim o amor a Vós, e fazei de mim a plena realização daquele filho sem mancha que eu teria sido, se não fosse tanta miséria.
    Dai-me, ó Mãe, um coração arrependido e humilhado, e fazei luzir novamente aos meus olhos aquilo que, pelo esplendor de vossa graça, eu começara a amar tanto e tanto!…
    Lembrai-vos, Senhora, deste David e de toda a doçura que nele púnheis. Assim Seja

    Livro orações (Preces).

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