Uma decisão, uma vitória

Ir. Juliana Montanari

Cheiro de pólvora, cadáveres por todo o terreno. Um dos capelães do exército francês durante a Primeira Guerra Mundial conta que, numa trincheira, doze soldados discutiam qual seria a decisão a tomar. A maioria optava por se render, pois a tática adotada até então, de avançar de trincheira em trincheira até o campo do adversário, trouxera um resultado desolador: de trinta soldados, agora sobrava apenas uma dúzia. No entanto, para alcançarem o território alemão faltavam somente cinco trincheiras. Os mais entusiasmados, porém poucos, queriam enfrentar os tiros das metralhadoras, mesmo sabendo que provavelmente não chegariam vivos. Ante a possibilidade de serem encontrados pelos inimigos e mortos na trincheira, preferiam morrer em campo aberto. Depois de rápida discussão, um curto silêncio se fez, à espera da decisão do mais velho, pois o comandante da tropa já havia perecido:

No entanto, o  decano, aterrorizado por ver a morte tão perto e a grande responsabilidade pela vida daqueles soldados, sentou-se sem saber o que fazer e disse:

– Escolham um comandante entre vocês, pois não tenho coragem de assumir tal decisão.

Surpreendidos com a resposta, todos voltaram-se para trás e viram um soldado que até aquele momento não havia dado sua opinião. Calado e de joelhos, rezava o rosário. Quem era ele? Um seminarista, que, por lei, estava servindo o exército francês. Admirados, perguntaram sua idade.

– Vinte e dois anos –  respondeu.

Os demais entreolharam-se e concluíram ser ele o mais novo. Por unanimidade, os soldados declararam:

– A partir de agora, serás o nosso comandante. Estamos às ordens!

Levantando-se, o jovem soldado gritou:

–  Avante! Se for da vontade de Deus, morramos como corajosos!

A decisão foi imediatamente cumprida. Todos se lançaram no campo a correr, com os fuzis às costas, até a trincheira seguinte. Colocando as mochilas no peito como escudo, chegaram com alguns ferimentos à barricada, mas salvos. Apenas um ficou para trás: era o mais velho que, por falta de proteção, morreu com um tiro no peito e dois na cabeça…

Lembremo-nos que todos  os nossos atos serão julgados por Deus. Como comentou nosso fundador Mons. João Clá Dias em muitas ocasiões, pode ser que, em determinado momento, a Providência exija de nossa parte um passo decisivo. O que faremos nessa hora? O que dizer àqueles que, talvez, dependerão de nossa atitude ou de nossa palavra? Não façamos como o pobre decano desta história que não recorreu ao auxílio do Céu. Mas, cheios de confiança, unamos nossas ações às de Nossa Senhora e peçamos que Ela atue em nós. Assim, muito mais que salvar a própria vida, como fizeram esses soldados, estaremos conquistando a pátria celeste!

A sublime escala da oração (cont)

Ir. Lays Gonçalves de Sousa

Continuação do post anterior

recolhimento infuso é o quinto grau da oração, sendo o primeiro da escala contemplativa. Ela se caracteriza pela união do entendimento com Deus, no qual se abandona as coisas exteriores para entrar no íntimo da alma. A pessoa “sente um recolhimento suave que a chama ao interior”,[20] desejando estar a sós com Deus.

 Tenho para mim que Sua Majestade a concede a certas pessoas que já vão abrindo mão das vaidades do mundo. Não digo por obras – pois alguns, em virtude de seu estado, não o podem fazer – mas o desejam. Desta maneira, Sua Majestade convida as pessoas, de modo particular, a estarem atentas ao seu interior. Havendo então correspondência, Sua Majestade não se limitará a dar-lhes somente esta graça. Começa apenas a chamá-las a coisas mais altas.[21]

 Ela recebe nessa etapa uma “admiração deleitosa que dilata a alma e a enche de gozo e alegria ao descobrir em Deus tantas maravilhas de amor”.[22] Ademais, compreende sem esforço os mistérios de Deus, como as palavras do Evangelho, o que com anos inteiros de estudo não poderia conseguir.

Para não retroceder no caminho, deverá romper com todas as bagatelas que a prendem à terra e entregar-se com toda a alma à vida interior, mortificando os sentidos e insistindo no amor ardente a Deus.

Um dos mais célebres graus da oração é a quietude, na qual a alma atinge o sobrenatural. Consiste em um sentimento íntimo da presença de Deus que cativa a vontade e enche o corpo de suavidade e deleites inefáveis. “A alma fica suspensa de tal sorte que parece estar fora de si”.[23]

A diferença fundamental entre a oração de quietude e o recolhimento infuso é que o recolhimento infuso era como um convite de Deus a reconcentrar-se no interior da alma onde quer Ele comunicar-se. A quietude vai mais longe: começa dar à alma a posse, o gozo fruitivo do soberano Bem.[24]

Nesta fase, a alma encontra o perfeito equilíbrio entre ação e contemplação, pois, embora tenda ao silêncio e ao repouso, por não encontrar obstáculos no entendimento, pode perfeitamente praticar obras ativas.

Admiráveis são os efeitos santificadores que a oração de quietude produz, a saber: uma grande liberdade de espírito que dilata a alma, um temor filial, grande confiança na eterna salvação, amor à mortificação e aos trabalhos, profunda humildade, desprezo dos deleites terrenos e um crescimento em todas as virtudes.

Santa Teresa aconselha às almas que alcancem este elevado grau de piedade a fugir das ocasiões de ofender a Deus, pois são como criancinhas que começam a alimentar-se, e se vierem a afastar-se do leite materno, acabarão por sucumbir.

Empenho-me tanto neste aviso de não se porem em ocasiões de pecado, porque o demônio faz mais questão de ganhar uma destas almas do que muitíssimas outras não favorecidas pelo Senhor com iguais mercês. É que estas almas podem acarretar-lhe grande prejuízo, atraindo outras atrás de si e, provavelmente, produzirão muitos frutos na Igreja de Deus. Basta, aliás, ao inimigo ver o particular amor que Sua Majestade lhes mostra, para que ponha tudo em jogo, com o objetivo de perdê-las, mesmo sem outras razões. Deste modo, são muito combatidas e, se vierem a transviar-se, será para elas muito maior a perdição do que para outras almas.[25]

Poucas são as almas que, após chegarem a esse patamar, avançam na escala da oração. Muitas, depois de terem sido objeto da predileção de Deus, a abandonam completamente. Por este motivo, não poderá a alma se acovardar julgando-se incapaz de subir esta montanha sagrada. “Tenhamos fé: Aquele que dá os bens, dará também graça para que, no momento em que o demônio principiar a tentar-nos sobre este ponto, logo entendamos e tenhamos força para resistir”.[26] A oração de quietude é como uma faísca de amor a qual, desde que não seja extinta por culpa própria, começa a incendiar a alma a ponto de produzir verdadeiras labaredas de caridade, beneficiando os mais fracos. Ela é a garantia de que Deus escolheu tal alma para grandes feitos.

união simples é um grau intensíssimo da oração contemplativa na qual todas as potências da alma estão cativadas e absortas em Deus. “É lavor sem fadiga, alegria que não se deixa perceber, um regozijar sem se compreender de quê”.[27] Nesse período a alma goza da certeza inquebrantável de estar unida plenamente a Deus, acompanhada de uma ausência de distrações, o que nos graus anteriores não acontece.

Estando assim a alma a buscar a Deus, sente-se quase desfalecer completamente, numa espécie de desmaio, com grande e suave ternura. Vê que lhe vão faltando o fôlego e todas as forças corporais, de modo que nem pode menear as mãos, a não ser a muito custo. Os olhos fecham-se involuntariamente, ou, se conservados abertos, a pessoa nada enxerga. Se lê, não acerta com as letras, nem atina em reconhecê-las; vê os caracteres, mas, como o intelecto não ajuda, não consegue ler, ainda que queira. Ouve, porém, não entende o que ouve, de modo que os sentidos de nada lhe servem. […] É impossível falar: não atina com uma só palavra e ainda que atinasse, não teria alento para pronunciá-la. Toda força exterior se perde e se concentra nas da alma.[28]

Fortíssimos e inesperados impulsos invadem a alma, abrasando-a nas chamas do divino amor, a ponto de, ao escutar o nome de Deus, subitamente acender-se em seu coração um ímpeto insaciável e devorador. “A alma arde de desejos de que lhe rompam as ataduras do corpo para voar livremente a Deus”.[29]

O oitavo grau é a união extática. A magnitude de união mística ultrapassa os limites da fragilidade humana, e, como consequência, sobrevêm os êxtases, os quais consistem numa fraqueza corporal que suspende os sentidos internos e externos. Em tais arroubamentos, é impossível resistir, tornando-se patente que:

Não somos senhores do corpo nem capazes, por conseguinte, de o deter quando Sua Majestade assim o quer. Ao contrário, verificamos, por muito que nos pese, que existe acima de nós alguém mais poderoso, e que tais graças são dádivas suas, enquanto de nossa parte nada, absolutamente nada, podemos fazer. Imprime-se, então, muita humildade na alma.[30]

Os êxtases místicos produzem uma energia sobrenatural que faz a alma chegar à prática heroica das virtudes, ao ponto de estar disposta a tudo sofrer pelo Objeto amado. “É preciso que a alma seja resoluta e corajosa, muito mais do que nos estados precedentes, para arriscar tudo – venha o que vier – e, entregando-se a Deus, deixar-se guiar de bom grado por suas mãos aonde Ele quiser”.[31]

união transformante é o último e mais alto grau da oração, também conhecida como união consumada. É ela um prelúdio antecipado e preparação imediata para a glória celeste. O Doutor Místico, São João da Cruz, define esta oração como a plena transformação no Amado, tantas vezes desejada nos graus anteriores, na qual a alma é posta no mais fundo do amor divino, transformando-se no próprio Deus, sem deixar, porém de ser criatura. “A alma mais parece Deus do que propriamente alma”.[32]

Magníficos dons nos concede este orvalho celeste: uma morte total do egoísmo, preocupando-se somente com a glória de Deus, um grande desejo de ser crucificado com Nosso Senhor Jesus Cristo, gozo por ser perseguido e caluniado, paz e quietude imperturbáveis na qual o demônio não consegue penetrar. “Este é o mais alto estado que nesta vida se pode chegar”.[33]

Esse longo percurso da oração não é um estado extraordinário reservado apenas para alguns. Pelo contrário, os mais altos cumes da santidade deveriam ser a via normal de todo batizado. Contudo, poucos são aqueles que buscam atingir essa perfeição, como adverte São João da Cruz:

Ó almas chamadas e criadas para estas grandezas! Que fazeis? Em que vos ocupais? Vossas pretensões são baixas e vossas posses, miséria. Ó miserável cegueira de alma; com tanta luz estais cegos, e com vozes tão altas, surdos. […] Recebendo tantos bens, vos tornais ignorantes e indignos.[34]

[20] SANTA TERESA DE JESUS. Castelo interior ou Moradas. Op. cit. p.88.

[21] Ibid. p. 88.

[22] ROYO MARÍN. Teología de la perfección cristiana.Op. cit. p. 716. (Tradução da autora).

[23] SANTA TERESA DE JESUS. Livro da vida. Op. cit. p. 71.

[24] ROYO MARÍN. Teología de la perfección cristiana.Op. cit. p. 718. (Tradução da autora).

[25] SANTA TERESA DE JESUS. Castelo interior ou Moradas. Op. cit. 93.

[26] Id. Livro da vida. Op. cit. p. 73.

[27] Ibid. p. 135.

[28] Ibid. p. 139.

[29] ROYO MARÍN. Teología de la perfección cristiana.Op. cit. p. 729. (Tradução da autora).

[30] SANTA TERESA DE JESUS. Livro da vida. Op. cit. p. 153.

[31] Ibid. p. 152.

[32] SÃO JOÃO DA CRUZ, apud ROYO MARÍN. Teología de la perfección cristiana. Op. cit. p. 741. (Tradução da autora).

[33] Ibid. p.744. (Tradução da autora).

[34] Ibid. p. 761. (Tradução da autora).

A sublime escala da oração

Ir. Lays Gonçalves de Sousa

“Depois do Batismo, é necessário ao homem a oração contínua para entrar no Céu”,[1] adverte o Doutor Angélico. Aqueles que fazem uso desse poderoso tesouro se aproximam intimamente do Divino Redentor. Contudo, o que garante que Deus ouvirá propício as suas súplicas, sendo o homem demasiadamente insuficiente? Quais as condições necessárias para tornar nossa oração infalível e até mesmo onipotente?

Assim como a santidade só é alcançada mediante a prática heroica de todas as virtudes, da mesma forma, a oração possui diversos graus até atingir o esplendor perfeitíssimo da união com Deus. Pois, “na oração as delícias das almas são como as que no céu devem ter os eleitos”.[2]

 Os mestres de vida espiritual dividem os graus da oração em nove.

O primeiro, por ordem ascendente, corresponde à oração vocal, a qual está ao alcance de todos. Ela se manifesta com palavras e, por isso, é a única forma de oração pública ou litúrgica. Para que seja eficaz possui duas condições: deve ser feita com atenção e profunda piedade.

É ainda de se saber que há três atenções sem as quais a oração vocal não será possível. A primeira é estar atento às palavras, para que nela não cometa erro; a segunda é prestar atenção no sentido das palavras; a terceira, que é a máxima necessária, considerar o fim da oração, isto é, a Deus e ao objeto da oração.[3]

 A esse respeito escreveu Santa Teresa:

Para ser oração é necessário reflexão. Não chamo oração mexer com os lábios sem pensar no que dizemos, nem no que pedimos, nem quem somos nós, nem quem é Aquele ao qual nos dirigimos. Algumas vezes poderá acontecer isso a pessoas que se esforçam por rezar bem,mas será por motivos que se justificam, e será boa a oração. (Nao entendi) Porém, o costume de falar à Majestade de Deus como quem fala a um estranho, dizendo o que lhe vem à cabeça, sem reparar se está certo, por ter decorado ou repetido muitas vezes, – a isso não tenho em conta de oração. Não permita Deus que cristão algum reze desse modo![4]

Comete verdadeiro pecado de irreverência, aquele que realiza a oração com distrações voluntárias, além de impedir seus frutos.[5]

Sobre a segunda condição, nos ensina o Pe. Royo Marín:

Com a atenção, aplicamos nossa inteligência em Deus. Com a piedade colocamos a vontade e o coração em contato com Ele. Essa piedade profunda envolve e supõe um conjunto de virtudes cristãs de primeira categoria: a caridade, a fé viva, a confiança, a humildade, a devoção e reverência frente à Majestade divina e a perseverança.[6]

Essa oração não é uma prática facultativa, sendo de suma importância na vida espiritual exercitá-la com fervor. Estando com saúde ou agonizante, na consolação ou na aridez, mesmo nos mais altos patamares da santidade, jamais poderá o homem abandonar essa prática diária, pois do contrário poderia comprometer a sua salvação eterna.

 A meditação constitui o segundo grau da oração, e é onde as almas “percebem melhor os chamamentos e convites diversos que faz o Senhor”.[7] Ensina-nos a teologia que a meditação “consiste na aplicação racional da mente a uma verdade sobrenatural a fim de nos convencermos dela e nos mover a amá-la e praticá-la com a ajuda da graça”.[8] Neste grau será essencialmente utilizada a razão, sem a qual a meditação não poderá efetivar-se. Por isso, proclamava o Apóstolo: “orarei com o espírito, mas orarei também com o entendimento; cantarei com o espírito, mas cantarei também com o entendimento” (I Cor 14, 15).

A meditação tem duas finalidades: uma intelectual e outra afetiva. A primeira é comparável a uma muralha inexpugnável que nos concede convicções firmes e enérgicas contra os inimigos da alma. Em outras palavras, é ela que, ao desaparecer a felicidade sensível e momentânea, cria raízes na alma e não deixa que, sem resistência, nos entreguemos ao menor sopro das paixões. “Não se pode construir uma casa sólida sobre a areia movediça do sentimento; é preciso um fundamento pétreo e inamovível das convicções profundamente arraigadas na inteligência”.[9]

Com efeito, é preciso que a meditação esteja acompanhada de nossos afetos, que é a parte principal da meditação:

Esta começa propriamente quando a alma inflamada com a verdade sobrenatural que o entendimento convencido lhe apresenta, prorrompe em afetos e atos de amor a Deus, com quem estabelece um contato íntimo e profundo […].[10]

 Esta oração é um dom particularíssimo de Deus no qual as almas são introduzidas e inebriadas no amor divino. Ela é incompatível com o pecado, e os homens que não meditam, facilmente se deixam levar pelo ímpeto das paixões desordenadas. “Com os demais exercícios de piedade, a alma pode continuar vivendo no pecado, mas, com a oração mental bem feita, não poderá permanecer nele muito tempo: ou deixará a oração ou deixará o pecado”.[11] À alma absorta e embevecida não resta ocasião para pensar em si mesma, pois só se ocupa do que diz respeito ao Amado, como afirma São Bernardo: “rara é essa hora, e o tempo que nela se gasta é sempre breve, pois, por mais dilatado que seja, parece um sopro”.[12]

 “O amor é fruto da oração fundada na humildade”.[13] Por ser esta forma de oração tão sublime, devemos pedi-la com verdadeira submissão, restituindo a Deus todos os benefícios que por meio dela recebemos.

Esse método de oração deve ser assíduo e perseverante. A alma que procura levar uma vida rumo à perfeição, entregando-se inteiramente ao apostolado, mas desprezando a oração mental, longe está da brisa da santidade, afirmam os teólogos. Continua o Doutor Melífluo:

Eu, por minhas forças, não posso chegar a esse amor, a essa união e contemplação tão levantada; só peço que Ele ma conceda a mim. Só o Senhor por sua bondade e gratuita liberalidade nos há-de levantar a este ósculo de seus divinos lábios, a esta altíssima oração e contemplação.[14]

A oração afetiva ocupa o terceiro grau da oração. Ela é uma espécie de meditação simplificada e orientada ao coração, na qual predominam os afetos da vontade sobre o discurso do entendimento. Ela representa um profundo descanso para a alma, uma vez que diminui o rude labor da meditação discursiva. Em relação a esse pormenor, incomparáveis são as vantagens espirituais concedidas neste terceiro grau: uma união mais íntima e profunda com Deus, pela qual nos aproximamos cada vez mais do objeto amado; um desenvolvimento especial das virtudes infusas em conexão com a caridade, além de consolos e suavidades sensíveis que servem de estímulo e alento para a prática das virtudes cristãs.

Esses preciosos auxílios, entretanto, poderão ver-se comprometidos, caso não se faça bom uso deles. O verdadeiro fervor reside na vontade, não na sensibilidade. Desta forma, a alma poderá usar das consolações, mas não viver somente delas. Do contrário, passará a ter uma gula espiritual, como explica São João da Cruz, que impulsiona a buscar na oração afetiva a suavidade dos consolos sensíveis ao invés do estímulo para a prática austera das virtudes.[15] Os frutos da oração afetiva não são medidos pela quantidade de consolações sensíveis, mas pelas manifestações cada vez mais intensas das virtudes. “Ó Jesus, haverá quem não queira tão grande bem, especialmente se já passou pelo mais trabalhoso? Não, nenhum de nós!”.[16]

Simples visão, olhar amoroso a Deus ou às coisas divinas que acende na alma o fogo do amor: eis o quarto grau da oração, conhecido como oração de simplicidade. Os três primeiros graus pertencem à ascética na qual se sobressai o esforço. Já o quarto representa a transição progressiva e gradual da ascética à mística, que é ação direta da graça. Nesse estágio a alma é levada por um ardente desejo de glorificar a Deus e de buscá-Lo em pequenos afazeres, unindo-se a Ele com um olhar carregado de amor, como afirma Santa Teresa:

Só quero que vos compenetreis bem do seguinte: para aproveitar neste caminho e subir às moradas desejadas, o essencial não é pensar muito – é amar muito. Escolhei de preferência o que mais vos conduzir ao amor. Talvez nem saibamos o que é amar, o que me espanta. Não consiste o amor em ser favorecido de consolações. Consiste, sim, numa total determinação e desejo de contentar a Deus em tudo, em procurar, o quanto pudermos, não ofendê-Lo e em rogar-Lhe pelo aumento contínuo da honra e glória de seu Filho e pela prosperidade da Santa Igreja Católica.[17]

Nessas circunstâncias, a alma é convidada a mergulhar em seu interior, baseando-se na grande verdade de que “Deus está dentro de nós mesmos”,[18] o que prepara a alma para saber escutar a voz do Altíssimo. Cada grau da oração significa um novo avanço rumo ao Reino dos Céus; na oração de simplicidade, com menos trabalho e esforço, a alma consegue resultados mais intensos.[19]

Continua no próximo post

[1] SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. III, q. 39, a. 5.

[2] SANTA TERESA DE JESUS. Livro da vida. Trad. Maria José de Jesus. 9. ed. São Paulo: Paulus, 2005, p. 72.

[3] Ibid. II-II, q.83, a. 13.

[4] SANTA TERESA DE JESUS. Castelo interior ou Moradas. 11. ed. São Paulo: Paulus, 2003, p. 23.

[5] Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. II-II, q. 83, a. 13.

[6] ROYO MARÍN, Antonio. Teología de la perfección cristiana. 5. ed. Madrid: BAC, 1968, p. 655. (Tradução da autora).

[7] SANTA TERESA DE JESUS. Castelo interior ou Moradas. Op.cit. p.42.

[8] ROYO MARÍN. La oración del cristiano. Op. cit. p. 26. (Tradução da autora).

[9] Id. Teología de la perfección cristiana. Op. cit. p. 662.(Tradução da autora).

[10] Loc. cit. (Tradução da autora).

[11] Ibid. p.663. (Tradução da autora).

[12] SÃO BERNARDO, apud RODRIGUES, Afonso. Op. cit. p. 19.

[13] SANTA TERESA DE JESUS. Livro da vida. Op. cit. p. 73.

[14] SÃO BERNARDO, apud RODRIGUES, Afonso. Op. cit. p. 23.

[15] Cf. ROYO MARÍN. Teología de la perfección cristiana. Op. cit. p. 674-677.

[16] SANTA TERESA DE JESUS. Castelo interior ou Moradas. Op. cit. p. 56.

[17] Ibid. p. 75.

[18] Ibid. p. 87.

[19] Cf. ROYO MARÍN. Teología de la perfección cristiana. Op. cit. p. 681.

O que é a oração?

Ir Lays Gonçalves de Sousa, EP

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Para muitos, a oração é meramente a recitação de palavras decoradas ou lidas. Entretanto, ela possui um sentido mais profundo e sobrenatural: é “o diálogo do homem com Deus”1, a “elevação da mente a Deus”2.

A oração, o diálogo com Deus, é um bem incomparável, porque nos põe em comunhão íntima com Deus. Assim como os olhos do corpo são iluminados quando recebem a luz, a alma que se eleva para Deus é iluminada por sua luz inefável. Falo da oração que não é só uma atitude exterior, mas que provém do coração e não se limita a ocasiões ou horas determinadas, prolongando-se dia e noite, sem interrupção.3

O homem pode converter um simples trabalho em oração, pois qualquer ato de virtude, quando realizado por um motivo sobrenatural, é considerado como tal.4

Não devemos orientar o pensamento para Deus apenas quando nos aplicamos à oração; também no meio das mais variadas tarefas […] é preciso conservar sempre vivos o desejo e a lembrança de Deus. E assim, todas nossas obras, temperadas com o sal do amor de Deus, tornar-se-ão um alimento dulcíssimo para o Senhor do universo. Podemos, entretanto, gozar continuamente em nossa vida do bem que resulta da oração, se lhe dedicarmos todo o tempo que nos for possível. 5

“Vinde a Mim, vós todos que estais aflitos sob o fardo de vossos pecados, e Eu vos aliviarei” (Mt 11, 28). Bem sabe o Divino Mestre quais são nossos combates neste vale de lágrimas e o quanto o jugo de nossas debilidades nos fatiga e deprime. Deseja Ele que, por meio da oração, depositemos nossa confiança no seu poderoso auxílio para, assim, esmagar nossas fraquezas e edificar um templo espiritual agradável aos seus olhos.

É próprio à natureza humana alimentar-se, uma vez que, sem os nutrientes necessários, acaba por desfalecer. O mesmo ocorre com a alma, a qual, para subsistir, precisa de um alimento espiritual que a robusteça e anime. Esse nutriente divino é a oração conforme atesta Santo Agostinho: “A oração é ainda o alimento da alma, porque assim como o corpo não se pode sustentar sem alimento; sem a oração não se pode conservar a vida da alma. Como o corpo, pela comida, assim a alma do homem é conservada pela oração”.6

O que há de mais elevado no homem não é o corpo, mas a alma, visto que o corpo definha e se corrompe, e a alma, no entanto, é imortal. Hélas! Como somos zelosos em sustentar o corpo e relaxados no dever de vivificar a alma!

Se soubéssemos tomar a oração como remédio para nossa fraqueza, muito mais faríamos para a glória de Deus.

A oração é, portanto, a força dos fracos e socorro daqueles que caem no abismo do pecado, vencedora dos incrédulos, fortaleza dos Santos, verdadeiro vigor da alma. O mais forte dos guerreiros, ornado da mais preciosa armadura, será considerado como incapacitado para a guerra se não souber dobrar os joelhos e com humildade recorrer Àquele de quem procede toda vitória. Esse é o tesouro que nos “concede todas as graças pedidas, vence todas as forças do inimigo; […] transforma os cegos em iluminados, os fracos em fortes, os pecadores em santos”.7

Logo, quem não recorrerá a tão valioso dom? “Que há no mundo mais excelente que a oração? Que coisa mais útil e proveitosa? Que coisa mais doce e mais suave? Que coisa mais alta e mais sublime em toda nossa religião cristã?”8

1 SÃO JOÃO CLÍMACO. In: LOARTE, José Antonio. El tesoro de los Padres: Selección de textos de los Santos Padres para el tercer milenio. Madrid: Rialp, 1998, p. 345. (Tradução da autora).
2 SÃO JOÃO DAMASCENO, apud ROYO MARÍN, Antonio. La oración del cristiano. Madrid: BAC, 1975, p. 4. (Tradução da autora).
3 PSEUDO-CRISÓSTOMO. A oração é a luz da alma. In: COMISSÃO EPISCOPAL DE TEXTOS LITÚRGICOS. Liturgia das horas. São Paulo: Vozes; Paulinas; Paulus; Ave Maria; 2000, v. II, p. 58.
4 Cf. ROYO MARÍN. Op. cit. p. 4.
5 PSEUDO-CRISÓSTOMO. Op. cit. 58.
6 SANTO AGOSTINHO, apud SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO. Op. cit. p. 22.
7 SÃO LOURENÇO JUSTINIANO, apud SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO. A Oração. Trad. Henrique Barros. 24. ed. São Paulo: Santuário, 2012, p. 47.
8 SANTO AGOSTINHO, apud RODRIGUES, Afonso. Exercícios de perfeição e virtudes cristãs. Trad. Pedro de Santa Clara. 4. ed. Lisboa: União Gráfica, 1947, p. 8. v. II.

A elevação da mente a Deus!

Ir Lays Gonçalves de Sousa, EP

Santo_Inacio_Antioquia

A multidão esperava delirante o momento do sangrento espetáculo. Vaias e escárnios ressoavam por aquele imenso edifício, o qual se tornaria túmulo e altar de glória de tantos bem-aventurados. Já se podiam contemplar os brutos animais, prontos para irromperem na arena e darem vazão aos instintos de sua voraz natureza. Porém, tais irrisões em nada perturbavam a paz de alma que acompanhava o zeloso pregador de Jesus Cristo, Santo Inácio de Antioquia. Nem o aparente fracasso diante dos homens, nem o rugir das feras famintas poderiam amedrontar ou diminuir os ardores de entusiasmo que inflamavam seu nobre coração. À agitação e ansiedade sucedeu um silêncio e grande suspense na turba pagã. As bestas avançavam velozmente, prontas para devorar o venerável ancião, quando um gesto de mão, de incomparável majestade, as deteve a meio caminho. Que teria sucedido? O homem de Deus desejava, antes de consumar seu holocausto e chegar ao termo de seus anelos, dirigir aos céus uma última e fervorosa oração. Tal era a convicção de ser atendido que estancou mesmo os leões devoradores. Embora almejasse ser triturado como trigo para ser oferecido como hóstia pura, pedia a Deus que atendesse aos rogos dos cristãos em fazer permanecer algo daquele doloroso martírio, a fim de estimular-lhes a fé. Finalmente, com gesto ainda mais decidido, o Santo deu ordem às feras, que em poucos segundos dilaceraram as carnes daquele novo Serafim.

Ao analisar o transcorrer dos séculos, quão belo é constatar a soma incalculável de almas que se destacaram como arquétipos de virtude e heroísmo! Quem não se enche de entusiasmo ao deparar-se com o garbo fogoso dos mártires, as austeridades dos anacoretas, o ímpeto evangelizador dos missionários, a sabedoria irresistível dos Doutores, a simplicidade e pureza das virgens e a astúcia e valentia daqueles que combatem pela Santa Igreja?

Realmente, não podem passar despercebidos varões e damas que ultrapassaram a fragilidade da natureza humana decaída pela culpa original, fazendo de suas vidas o alicerce onde, mais tarde, tantas almas buscariam o apoio para a prática do bem, tornando-se alvo de admiração e espetáculo tanto para os homens como para os Anjos.

“Um braço semelhante ao de Deus, e uma voz troante como a dele” (Jó 40,4): bem podemos aplicar esta passagem da Escritura ao episódio narrado acima. De fato, para submeter a ferocidade de uma natureza desprovida de inteligência e imperar sobre ela quando se deseja, é fundamental possuir uma vontade férrea intimamente unida ao Criador.

Sem Mim nada podeis fazer

No entanto, devido à tendência natural ao orgulho, somos levados a julgar que o homem possui uma vontade suficientemente vigorosa para, sozinho, galgar o píncaro da santidade. Nada, porém, nos seria possível sem um contínuo auxílio da Providência, pois, como proclamou Nosso Senhor, sem Ele, absolutamente nada de bom podemos fazer (cf. Jo 15, 5). Qual homem nunca sentiu o peso esmagador de suas misérias e infortúnios? Por mais orgulhosos que possamos ser, é impossível não admitir que tenhamos falhado na realização de nossos bons propósitos ou, ainda, de nossas simples obrigações.

Quando meditamos sobre a Santa Ceia e repassamos as palavras de Jesus: ‘Sem Mim nada podeis fazer’ (Jo 15, 5), quiçá não meçamos a extensão desse “nada”, e o sentido estrito em que deve ser entendido. […] Sob o influxo da graça, começa a secar-se o pântano do erro e tornamo-nos capazes de dirigir nossas ações conforme os critérios mais nobres, porque eles passam a nos apetecer mais que as solicitações inferiores. Nasce a força para cumprir os bons propósitos, aquietam-se as paixões, a fomes peccati deixa de ser avassaladora e se estabelece uma harmonia semelhante à que possuía nosso pai Adão no Paraíso. 1

Assim, “se tivermos a graça de praticar um ato bom, devemos imediatamente reportá-lo ao Criador, restituindo-Lhe os méritos, pois estes Lhe pertencem, e não a nós. ‘Quem se gloria, glorie-se no Senhor’ (I Cor 1, 31), adverte-nos o Apóstolo”.2

Constantemente devemos nos dirigir a Nosso Redentor com a mais profunda e sincera humildade, como nos ensina Mons. João Scognamiglio Clá Dias: “Ó meu Jesus, sem Vós nada posso fazer, meus méritos são nulos; minha inteligência, turva; minha vontade, enferma; meus sentimentos, enlouquecidos. […] Em união convosco sou capaz das mais ousadas virtudes, minha alma voa. Vós sois a fonte de todo bem existente em mim”. 3

Referindo-se à nossa incapacidade natural para o exercício ininterrupto da virtude, atesta São Tomás de Aquino:

No estado de corrupção, o homem falha naquilo que lhe é possível pela sua natureza, a tal ponto que ele não pode mais por suas forças naturais realizar totalmente o bem proporcionado à sua natureza. Entretanto, o pecado não corrompeu totalmente a natureza humana a ponto de privá-la de todo o bem que lhe é natural. […] Ele [o homem] parece um enfermo que pode ainda executar sozinho alguns movimentos, mas não pode mover-se perfeitamente como alguém em boa saúde, enquanto não obtiver a cura com a ajuda da medicina.4

Essa medicina, da qual todos necessitam, encontra-se no relacionamento com Deus. Adão gozava no Paraíso de altíssimos colóquios com o Criador, os quais cessaram após a terrível desobediência. Contudo, estaria este relacionamento encerrado para sempre? Teria o Divino Artífice apartado o rosto de Sua obra-prima? Não! Sendo Deus a Suma Bondade, concedeu-nos o unguento sobrenatural e infalível de estarmos constantemente amparados pela sua presença: a oração!

Estando, porém, as obras humanas tisnadas pelo pecado, nossas súplicas possuem desprezível valor. É preciso, portanto, depositá-las numa preciosa bandeja de ouro, a fim de serem oferecidas a Deus. Quem seria capaz de, apenas com um sorriso afável, conquistar a benevolência do Altíssimo entregando-lhe míseras orações e comprando-nos os favores desejados? “Maria Santíssima é a única capaz de exercer esta função admirável”.5 De fato, Ela é o grampo de ouro que une Nosso Senhor Jesus Cristo a toda criação. 6

1 SEQUEIRA, Joshua Alexander. No coração do homem, a inscrição de Deus. Arautos do Evangelho. São Paulo, n. 109, jan. 2011. p. 22.
2 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O centro deve estar sempre ocupado por Deus. Arautos do Evangelho. São Paulo, n. 98, fev. 2010, p. 16.
3 Id. Via Sacra. São Paulo: Associação Nossa Senhora de Fátima, 2011, p. 6.
4 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. I-II, q. 109, a. 2, resp. (Para as citações da Suma Teológica, neste trabalho será sempre utilizada a tradução das Edições Loyola
5 SÃO BERNARDO, apud SÃO LUÍS GRIGNION DE MONTFORT. Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem. 33. ed. Petrópolis: Vozes, [S. d.] n. 85. p. 90.
6 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio apud CLÁ DIAS. Pequeno Ofício da Imaculada Conceição comentado.2. ed. São Paulo: Associação Católica Nossa Senhora de Fátima, 2010. v. I.p. 79.

Chama de vigilância e oração

Ir. Ariane Heringer Tavares, EP

Lamparina_Arautos

Cortejo, cânticos, incenso… Termina uma cerimônia litúrgica. Os fiéis se retiram pervadidos de seriedade e alegria, como inebriados pelas graças que acabam de receber. Aos poucos o recinto sagrado se esvazia, as luzes se apagam e os homens cedem lugar aos Anjos. Agora, não mais as vozes, mas o silêncio fala. Em profunda solidão permanece ali, feito Hóstia, aquele mesmo Jesus que ensinava as multidões e curava os doentes, a quem obedeciam os ventos e as tempestades e cujo Coração não é senão uma fornalha ardente de caridade. Em sua companhia, apenas uma tênue luz permanece vigilante, numa espécie de oração contínua junto ao sacrário: a lamparina do Santíssimo Sacramento.

Na escuridão da noite, sua discreta e elegante chama bruxuleia em contínua vigilância, como se esforçando por manter seu fulgor em meio às trevas que a rodeiam. Às vezes, estala uma labareda, iluminando por um instante todo o ambiente; mais tarde, seu brilho diminui de tal maneira que parece estar a ponto de extinguir-se… Não obstante este aparente desfalecimento, ela volta a flamejar com uma intensidade ainda maior!

Este belo e simbólico objeto, que tantas vezes passa despercebido aos nossos olhos ao entrarmos numa igreja, representa bem as flutuações de nossa vida espiritual. Quando batizados, passamos a ser portadores da luz da graça santificante, que vem acompanhada das virtudes e dos dons.

Nas consolações, uma labareda de entusiasmo resplandece em nossa alma e ela parece tocar os Céus. Entretanto, este estado de espírito não costuma ser o habitual. Pelo contrário, com frequência vemo-nos imersos em tentações que nos convidam ao pecado. No meio delas, julgamos que o fogo se extinguirá, ou nos assustamos ao ver as figuras sombrias geradas pelo seu fraco bruxulear. Cabe-nos, então, fazer todo o esforço possível para manter a chama acesa, à espera do momento em que volte a cintilar com intenso fulgor.

— Como será isto possível?! — dirá alguém.

— Muito simples: rezando! — poder-se-ia retrucar.

Bem verdadeira esta resposta. Contudo, apenas a oração não basta. Lembremo-nos do conselho enunciado pelo Salvador: “Vigiai e orai para que não entreis em tentação” (Mt 26, 41). Dada a fragilidade da natureza humana após o pecado original, é indispensável a virtude da vigilância, que deve ser praticada não só para enfrentar os adversários externos de nossa vida espiritual — o demônio e mundo —, mas, sobretudo, a fim de vencer as solicitações da carne, pois nossas más inclinações e paixões desordenadas costumam ser ainda mais daninhas.

Assim, quando as trevas das tentações cercarem nossas almas, ameaçando consumi-las na escuridão do pecado, a chama de nossa piedade se manterá acesa, à semelhança da lamparina, confiando que recobrará forças e ânimo ao passar a provação. Porém, se a vigilância vier a faltar, difícil será que permaneçamos constantes na oração, sem a qual não há abismo em que o homem não seja capaz de cair.

Revista Arautos do Evangelho – out 2014

À espera de um pedido

Ir. Ana Rafaela Maragno, EP

Apesar de tão numerosos favores concedidos pela Providência, Adão, enganado pela astuta serpente pecou acarretando para si a perda de todos os privilégios sobrenaturais com os quais Deus o havia cumulado. Expulso de seu reino e arrancada de sua fronte a coroa dos dons preternaturais, passou a viver na contingência de sua natureza formada do barro. Ecoava-lhe ainda aos ouvidos a sentença divina:

[…] maldita seja a terra por tua causa. Tirarás dela com trabalhos penosos o teu sustento todos os dias de tua vida. Ela te produzirá espinhos e abrolhos, e tu comerás a erva da terra. Comerás o teu pão com o suor do teu rosto até que voltes à terra da qual foste tirado; porque és pó, e ao pó te hás de tornar (Gn 3, 17-19).

Iniciou-se uma nova fase para Adão, caracterizada pela experiência das suas debilidades e fraquezas, consequência do seu pecado. E, agora, se encontravam irremediavelmente fechadas para ele as portas daquele jardim de delícias do qual fora expulso. Será que o relacionamento com seu Criador estava cortado para todo o sempre? Não haveria um meio de encontrar-se com Ele e de falar-lhe?

Esse grande meio Deus lho proporcionou através da oração. “Ela é o diálogo do homem com Deus” 1 . Por meio dela Adão e os seus filhos supririam em si aquelas saudades imensas do paraíso, diminuiriam a distância entre Criador e criatura, proporcionando a possibilidade de se aproximar, de falar e de conviver com Deus e conquistariam o Céu que lhes fora prometido.

A oração tem o poder de abrir os tesouros de Deus e atrair sobre o orante as chuvas das bênçãos divinas. Tanto agrada a Deus a prece sincera e confiante que, por vezes, Ele tarda em atender, a fim de que a alma, crescendo no desejo, redobre a insistência de seus pedidos e seja coroada de méritos.

Tendo o Filho de Deus vindo ao mundo, ensinou ao homem a importância da oração e incutiu-lhe a confiança nela, quer por meio de parábolas, quer, sobretudo, através de seu Divino exemplo, desdobrando-se em solicitude, desvelo e amor sobre todos aqueles que d’Ele requereram algum favor. Não houve ninguém que saísse de sua presença com as mãos vazias…

Esse mesmo Jesus que a todos atendeu com solicitude, não partiu para o Céu de maneira definitiva e irremediável, mas quis permanecer na Terra, convivendo entre os homens. “Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo!” (Mt 28, 20).

Ele encontra-Se em todos os sacrários do mundo, sob o véu das espécies eucarísticas, à espera de nossa visita, pronto para ouvir nossas súplicas. Feito Homem como nós e tendo experimentado a nossa fraqueza, conhece tudo aquilo de que carecemos e sabe compadecer-se de nossas misérias.

Como outrora pelas estradas da Galiléia ou sob os pórticos do Templo de Jerusalém, Jesus detém-se ante o triste espetáculo da lepra espiritual que corrói as almas ou da cegueira que as mantêm longe de seu amor. Contudo, seu olhar misericordioso abrange a todos num infinito desejo de perdoar, inclinando-se sobre cada um de seus filhos, com ternura de pai e benquerença de irmão, para cumulá-los de dons e atendê-los em seus anseios. Está apenas à espera de um pedido, de uma súplica, de um simples suspiro a Ele dirigido, para cumprir sua irrevogável promessa: “Qualquer coisa que me pedirdes em Meu nome, vo-lo farei” (Jo 14, 14).

1“Es el dialogo del hombre con Dios” (SÃO JOÃO CLÍMACO. In: LOARTE, José Antonio. El tesoro de los Padres: Selección de textos de los Santos Padres para el Cristiano del tercer milenio. Madrid: Rialp, 1998. p. 345.

Ninguém luta sem vigilância, nem vence sem oração

Ir. Aline Karolina de Souza Lima

“Vigiai e orai, para não cairdes em tentação; pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca” (Mt 26, 41). Após o pecado original, a natureza humana ficou corrompida e o homem sujeito às sugestões diabólicas – como afirma São Pedro “O vosso adversário, o diabo, anda em derredor como um leão que ruge, procurando a quem devorar.” (IPd 5, 8-9) – e às más inclinações.

Essa recomendação de Nosso Senhor aos três Apóstolos inicia-se com a vigilância, pois não basta somente a oração, ela precisa estar unida à vigilância, pois “o espírito está pronto, mas a carne é fraca” (Mt 26, 41).

De fato, ao longo de toda a História, inúmeros povos e nações perderam o fervor e caíram na tibieza. Qual foi a causa dessa decadência?

As grandes vocações não decaíram repentinamente. A causa de sua ruína encontramos na falta de vigilância, abrindo brechas em suas almas por negligencia ou por não terem afastado daquilo que sabiam ser nocivo ao estado de amizade com Deus.

Para que uma torre nunca possa ser destruída, ela precisa de dois elementos: fortaleza e fundamento. Para uma alma nunca sucumbir é indispensável que ela se faça forte pela vigilância e se fundamente na piedade. “Um cofre sem fechadura de nada vale. Assim também, uma alma sem vigilância fica à mercê do inimigo. Por isso Jesus insiste tanto nesta virtude, à qual deve sempre complementar uma autêntica piedade”.1Plinio Correa de Oliveira aconselhava:

Cumpre, pois, termos uma vigilância continuamente voltada para nossa vida interior. Importa sermos desconfiados contra nós mesmos […]. Se não combato a pequena lacuna, a armadilha quase imperceptível, dentro em pouco estarei na voragem de uma tentação sob a qual posso sucumbir
.2

Afinal, “o que é ser vigilante? [Ser] vigilante é não permitir que nada se apresente para roubar o estado de graça em que se vive”.3 Ela nada mais é que a precaução contra os obstáculos que nos impedem de atingir o nosso fim último, isto é, servir, glorificar a Deus aqui na Terra e gozar de seu convívio por toda eternidade.

Entretanto, outra virtude que auxilia a vigilância é a previdência, “se alguém não deseja ser derrotado em nenhuma circunstância, o remédio é ser continuamente previdente, pois, do contrário, num belo momento ele não prevê o perigo, este cresce de modo súbito e o estrangula”4.

Há uma virtude da qual procedem a vigilância e a previdência: a prudência. Ela nos esclarece como agir diante do risco, pois “esta é uma virtude moral sobrenatural que inclina a nossa inteligência a escolher, em qualquer circunstância, os melhores meios para atingir os nossos fins, subordinando-os ao nosso fim último”.5

Se se apresentam ocasiões de pecado, deve-se pensar, em primeiro lugar: Deus não pode ser ofendido de nenhuma maneira. E em segundo lugar, fugindo da perversidade, a alma se vê livre para voar nas vias da perfeição e alcançar a vida eterna; do contrário, ela correrá risco de jamais contemplar a face de Deus. Assim, o fato de refletir na hora incerta da morte e que a qualquer momento podemos deparar-nos com o Justo Juiz ajuda-nos a ser vigilantes. “Ficai preparados! Pois na hora em que menos pensais, virá o Filho do Homem” (Lc 12, 40).

Nao olvidemos, porém, que a prudência, vigilância e previdência não sobrevivem sem vida interior. A oração é para as virtudes como o ar é para os pulmões. Mesmo que sucumbamos à tentação por debilidade, podemos nos levantar da queda mais ufanos e cheios de ânimo, contanto que rezemos e voltemos confiantes os olhos para Aquela que é o escudo inquebrantável de batalha, Maria Santíssima. Rezando a Ela, o homem não se assusta com a proximidade do perigo, mas o enfrenta, recobra o ânimo e parte para novas lutas. Com Maria, ele sabe que está sendo assistido por Deus e por isso, maiores vitórias lhe estão reservadas já aqui na Terra, e no Céu uma glória extraordinária.6

Cumpre, pois, praticar os ensinamentos do Divino Mestre: “Vigiai e orai, para não cairdes em tentação; pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca” (Mt 26,41).

1 [1] CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O inédito sobre os Evangelhos. Comentários aos Evangelhos dominicais. Ano C. Città del Vaticano/São Paulo: L.E.Vaticana/Lumen Sapientiae, 2012, v. VI, p. 269.
[2] EDITORIAL. A necessária virtude da previdência. In: Dr Plinio. São Paulo: Ano IX, n. 95, fev. 2006, p. 4.
[3] CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O pecado não produz a felicidade verdadeira: Homilia da 3ª Feira da XXII semana do Tempo Comum. São Paulo, 2 set. 2003.
[4] EDITORIAL. A necessária virtude da previdência. In: Dr Plinio. São Paulo: Ano IX, n. 95, fev. 2006, p. 4.
[5] MARAGNO, Ana Rafaela. Aula de Religião no Colégio Arautos do Evangelho Internacional – Monte Carmelo. Caieiras, 13 jun. 2011. (Apostila).
[6] Cf. EDITORIAL. Loc. Cit.

Deus me vê

Deus e a criacao1Irmã Teresita Morazzani Arráiz, EP

Quando contemplamos, num belo anoitecer de verão, a abóbada celeste, percebemos miríades de estrelas que aos poucos vão se acendendo aqui, lá e acolá. Na verdade, além das que vemos, existem milhões e milhões de outras que só com a ajuda de boas lunetas conseguiríamos ver. E ainda resta um número quase incontável que nem sequer a ciência, com todos os seus recursos, logrou ainda observar.

Pois bem, mesmo sendo o universo tão imenso a ponto de nos parecer sem limites, há um Ser superior a isso tudo, que tudo criou, tudo governa e tudo vê: Deus infinito. Ele está presente em tudo, não há lugar onde Ele não possa estar, como diz o Salmista: “Tu me envolves por todo lado e sobre mim colocas a tua mão. Onde eu poderia ocultar-me do teu Espírito? Para onde poderia fugir da tua presença? Se subir até os céus, Tu lá estás; se descer ao mundo dos mortos, ali Te encontras” (Sl 138, 5.7-8). Também lemos nos Atos dos Apóstolos que em Deus “vivemos, nos movemos e existimos” (At 17, 28).

O modo de Deus estar presente na criação

Ensina-nos o grande São Tomás de Aquino que existem três modos de Deus estar presente na obra da Criação. Primeiro, por potência, influxo ou poder, pois tudo está submetido a seu domínio; se Ele “cochilasse” um instante, tudo voltaria ao nada. Segundo, por presença, visão ou conhecimento, pois tudo está patente e como que descoberto a seus olhos; nada Lhe escapa, nem sequer os mais ocultos pensamentos. Terceiro, por essência ou substância, pois Ele está em tudo, como causa de seu ser.

Falando em termos mais específicos, existem outras presenças de Deus, como a inabitação na alma do justo, realizada através da graça. Também a presença pessoal ou hipostática, única e exclusivamente de Cristo, pela qual sua humanidade adorável subsiste na própria pessoa do Verbo Divino. Por isso Ele é pessoalmente Deus, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade encarnada. Temos, ademais, a presença sacramental ou eucarística, na qual Jesus Cristo está realmente presente sob as espécies do pão e do vinho.

Há, por fim, a presença de visão ou manifestação, que é a do Céu. Deus está presente em toda parte, porém, não Se deixa ver em todo lugar, mas somente no Céu. Só na Visão Beatífica Ele Se manifesta face a face aos bem-aventurados.
Lembremo-nos dia e noite do olhar de Deus

Portanto, Deus está presente em toda parte e constantemente nos vê.
Oh! quantos crimes seriam evitados, quantos problemas seriam resolvidos, quantas lágrimas seriam enxugadas,quantas aflições seriam suavizadas se a humanidade tivesse consciência do olhar de Deus sempre pousando sobre nós! “Deus está no Templo santo e no Céu tem o seu trono, volta os olhos para o mundo, seu olhar penetra os homens” (Sl 10.4).

Estamos aflitos, necessitando de uma palavra de conforto e ânimo para superar algum obstáculo? Precisamos de um coração com o qual possamos nos abrir? Ou de um amigo a quem falar? Por que não recorrer ao melhor dos amigos, ao mais suave, compreensivo e cheio de compaixão, que é o próprio Deus? Ele nos conhece até o fundo e sabe tudo de que precisamos; seu Divino Coração arde em desejos de ajudar e consolar as almas abatidas e de aliviar as costas carregadas de fardos: “ Vinde a Mim todos vós que estais cansados e oprimidos, que Eu hei de aliviar-vos” (Mt 11,28).

Queremos servir a Deus com mais amor e perfeição? Lembremo-nos de seu olhar dia e noite. Certa vez Santo Inácio de Loiola, vendo um de seus irmãos trabalhar de modo relaxado, perguntou-lhe:
— Irmão, para quem trabalhas?
— Para Deus — respondeu-lhe ele.
— Se me dissesses que trabalhas para um homem, eu compreenderia tua moleza, mas isso é imperdoável quando se trabalha para Deus.

São Francisco de Sales vivia tão compenetrado da presença de Deus que, estando sozinho ou em sociedade, conservava um porte digno, modesto e grave. Costumava dizer que não sentia constrangimento algum na frente de reis ou príncipes, pois estava habituado a encontrar-se na presença de um Rei muito maior que lhe inspirava respeito.

A oração torna a vida mais leve, suave e amena

A oração freqüente é um meio eficaz para nos recordar a presença de Deus. É tão fácil — durante nossos afazeres, no trabalho, na escola ou em casa, andando pela rua, dirigindo no trânsito ou já deitado para o descanso — fazer uma prece, uma jaculatória que seja, a Deus, ao Sagrado Coração de Jesus e oferecer-Lhe os problemas, pedir-Lhe ajuda e proteção!

Caro leitor, eu o convido a fazer isso diariamente, com amor e confiança, e você verá que aos poucos sua vida irá se tornando mais leve, suave e amena.

Diz Jesus no Evangelho: ‘Pedi e ser-vos-á dado; procurai e encontrareis; batei e hão de abrir-vos” (Lc 11.9). Por que desprezamos essa promessa proferida por lábios divinos e que nos dá a garantia absoluta de sermos ouvidos? Poder-se-ia dizer que Nosso Senhor como que Se inclina do Céu sobre a terra, à espreita de que Lhe façamos pedidos, desde os mais simples até os mais ousados, para ter Ele a alegria de atender-nos e encher-nos de dons e graças.

O exemplo de dois santos

Davi encontrava força e consolo em pensar que o Senhor conhecia seus sofrimentos, e exclamava cheio de confiança: “Ainda que atravesse vales tenebrosos, de nenhum mal terei medo porque Tu estás comigo” (Sl 22, 4).

Efrém era um jovem que se entregara a todo tipo de vícios. Porém, reconhecendo seus desvios, arrependeu-se e retirou-se à solidão. Um dia veio até ele uma mulher de costumes pouco recomendáveis, para tentá-lo. O homem de Deus prometeu-lhe fazer tudo quanto ela quisesse, com a condição de que primeiro ela o seguisse. Mas a infeliz, vendo que o santo a conduzia a uma praça pública, disse-lhe que não teria coragem de dar-se em espetáculo. Respondeu-lhe Santo Efrém: “Tens vergonha de pecar diante dos homens e não te envergonhas de pecar diante de Deus que tudo vê e tudo conhece?!” Estas palavras tocaram profundamente a pecadora; ela mudou de conduta e levou até o fim de seus dias uma vida santa.

Deus nos fez herdeiros e merecedores do Céu

Havia antigamente na Alemanha o costume de pintar um “olho de Deus” nas igrejas, nas escolas ou nas casas, para lembrar ao povo que o olhar do Altíssimo nos acompanha a cada passo de nossa existência. Esse hábito salutar perdeu-se de todo e atualmente muitas pessoas vivem no esquecimento quase completo de Deus.

Imaginemos um artista que esculpisse uma belíssima estátua e recebesse de um anjo o poder de infundir nessa sua obra a própria vida humana dele. A estátua começaria a mover-se e a conversar, teria desejos e apetências, as potências da alma desabrochariam nela e a veríamos dotada de personalidade, mentalidade, espírito. O escultor ficaria encantado e deitaria todo o seu amor e seu desvelo na educação desse seu “novo filho”. Preocupar-se-ia com sua instrução, ele mesmo lhe daria aulas e faria dele um jovem perfeito e acabado.
Como deveriam ser a gratidão e a reciprocidade desse ser tão aquinhoado? Não é necessário dizer…

Porém, um belo dia o pai nota que seu filho está diferente, algo nele mudou. Aos poucos, ele foi deixando de ser aquele menino dócil, afável, carinhoso e desejoso de aprender; agora está revoltado, não quer mais saber de seu benfeitor, chega até a desprezá-lo e responder-lhe com rudeza; por fim, toma a atitude de não lhe dirigir mais a palavra e nem sequer olhá-lo. O pobre pai tenta atrair o jovem a si por meio de redobrado afeto e de apelos a seu amor de outrora, mas… em vão!

Que ingratidão monstruosa! — diria alguém. Pois bem, esta metáfora nos dá apenas uma pálida idéia de nosso procedimento quando voltamos as costas para Deus, O rejeitamos, esquecemo-nos d’Ele e nem mesmo nos lembramos de que continuamente está Ele a nosso alcance, desejando nos favorecer e nos prodigalizar seu carinho e sua misericórdia infinita.

Ele escolheu-nos dentre uma multidão infinita de seres possíveis, tirou-nos do nada, deu-nos a vida, infundiu em nós uma alma racional dotada de inteligência, vontade e sensibilidade, encheu-nos de dons naturais e, como se tudo isso fosse pouco, nos deu o Batismo, fazendo-nos viver da própria vida d’Ele. Está sempre à nossa disposição no Sacramento da Eucaristia, esperando ser recebido por nós e nos beneficiar com seu convívio todo feito de doçura e suavidade. E nós, como correspondemos a essa torrente infinita de bondade, a esse amor que O levou a entregar-Se e morrer crucificado como vil malfeitor para redimir-nos e nos fazer herdeiros e merecedores do Céu?

“Oxalá ouvísseis hoje a sua voz: não endureçais os vossos corações” (Sl 94, 7-8). Voltemos nosso coração e toda a nossa vida para Aquele que Se voltou todo para nós e sua vida nos deu. Façamos d’Ele o centro de nossa existência e Ele, a rogos de sua e nossa misericordiosíssima Mãe, um dia nos acolherá na eterna bemaventurança.