À Vossa proteção recorremos…

Ir Mariella Antunes

Numa madrugada fria, do rigoroso inferno da longínqua Rússia, enquanto subia a encosta da montanha principal da região do Tykrapshol, o trem Marie se desviou de sua rota normal e atrasou o horário de sua chegada, deixando muitos em grande aflição. O que poderia ter acontecido?

– Eu acredito e posso dar o meu testemunho. Foi um milagre! Um milagre! –  exclamava o motorista do trem ao ser interrogado pelos seus superiores.

Qual o motivo que o fez parar no meio do percurso? Todos estavam surpresos e queriam saber o que tinha ocorrido, mas o motorista não parava de repetir a frase acima.

Que “milagre”seria esse? E que “testemunho” ele poderia dar?

Ao seguir pelos trilhos, em uma considerada velocidade, o maquinista, Jorge Krash, viu diante do trem uma grande sombra que ofuscava o farol esquerdo, parecendo fazer sinal para diminuir a velocidade e parar a máquina. O senhor Krash julgou que estava tendo alguma falsa impressão e que as altas horas da noite estavam influenciando e despertando sua imaginação. Prosseguiu o percurso como se nada tivesse acontecido.

Minutos depois, a mesma sombra apareceu novamente, fazendo sinais ainda mais rápidos. Isso se repetiu por mais três vezes. Não podendo mais conter-se, viu que não poderia ser apenas imaginação e começou a diminuir a marcha até o trem parar. Todos os passageiros, assustados com a repentina parada, correram às janelas para ver o que tinha se passado. Para sua surpresa constatou que a “grande sombra” era produzida pelas frágeis asas de uma borboleta…

Depois de certificar-se que era só isso que estava acontecendo, o motorista subiu novamente no vagão para recomeçar o caminho. Enquanto acionava os botões de partida, um dos passageiros deu um forte grito:

— Alto! Não avance, se não morremos todos!

Esse passageiro pôde de sua janela avistar uma grande pedra que havia se despregado da montanha e obstruía a passagem pelos trilhos. Nesse momento, todos compreenderam que aquela repentina parada tinha sido uma intervenção da Divina Providência. Se o trem tivesse continuado com a velocidade anterior, teria batido fortemente contra a pedra, ocasionando um grave acidente, uma explosão e, consequentemente, a morte de todos os passageiros.

O senhor Krash, convicto da proteção de seu anjo da guarda, o qual sempre invocava antes de suas viagens, confirmou que o motivo que o fizera parar, tinha sido a sombra de uma borboleta posta ali para salvá-los.

Essa é uma bela história que, embora  ilustrada, pode explicar vários fatos do nosso dia-a-dia

Muitas vezes, quando algum pressentimento ou uma forte tentação perturbam o nosso interior, logo concluímos: “coisa do demônio!”. Entretanto, quando temos uma boa inspiração, praticamos uma bela ação ou sentimos uma forte inclinação a praticar a virtude, julgamos que isso decorre de nós mesmos e nos esquecemos dos grandes guardiães que Deus nos concedeu com a missão de nos guiar desde o momento da nossa concepção até a Vida Eterna. Na Epístola aos Hebreus, encontramos que todos os anjos são espíritos a serviço de Deus, o qual lhes confia missões em favor dos herdeiros da salvação eterna (cf. Hb 1,14).

Ao longo da História, podemos comprovar como a Divina Providência quer a salvação de cada um dos homens e como Ela age para comunicar e realizar seu plano para humanidade. Por isso, Deus utiliza-se de criaturas como instrumento e envia seus Anjos que, como mensageiros celestes, executam Sua vontade e se relacionam com os homens. Como diz São João da Cruz: “Os anjos, além de levar a Deus notícias de nós, trazem os auxílios divinos para nossas almas e as apascentam como bons pastores […] amparando-nos e defendendo-nos dos lobos, os demônios”.1

Os seres angélicos são puros espíritos dotados de personalidade, de inteligência e de vontade, de poder superior aos dos homens e que servem a Deus de um modo mais próximo e estável. O Catecismo nos ensina que “Jesus anuncia em termos graves que ‘enviará seus anjos, e eles erradicarão de seu Reino todos os escândalos e os que praticam a iniquidade, e os lançarão na fornalha ardente’ (Mt 13, 4 1-42) de punição dos condenados, a qual é eterna e durará para sempre” (CCE 1034). Sendo essas criaturas mais perfeitas – o espiritual é maior do que o material – a Providência criou esses serem em maior quantidade que os homens e que toda e qualquer criatura material: “Milhares de milhares O serviam e centenas de milhares assistiam ante seu trono” (Dn 7,10).

Assim, os Anjos, mais especialmente o nosso Anjo da Guarda, estão sempre ao nosso lado e, como que, nos olham do Céu aguardando que busquemos o auxílio deles e os convoquemos para estarem entre nós. Saibamos, pois, recorrer a esses intercessores celestes nesta grande batalha do homem que é a face da Terra, até chegarmos um dia, pela misericórdia Divina e a intercessão de Maria Santíssima com sua Corte Angélica, à Vida Eterna.

1 SÃO JOÃO DA CRUZ. In: Revista Arautos do Evangelho, n. 58, p. 35.

A sublime escala da oração (cont)

Ir. Lays Gonçalves de Sousa

Continuação do post anterior

recolhimento infuso é o quinto grau da oração, sendo o primeiro da escala contemplativa. Ela se caracteriza pela união do entendimento com Deus, no qual se abandona as coisas exteriores para entrar no íntimo da alma. A pessoa “sente um recolhimento suave que a chama ao interior”,[20] desejando estar a sós com Deus.

 Tenho para mim que Sua Majestade a concede a certas pessoas que já vão abrindo mão das vaidades do mundo. Não digo por obras – pois alguns, em virtude de seu estado, não o podem fazer – mas o desejam. Desta maneira, Sua Majestade convida as pessoas, de modo particular, a estarem atentas ao seu interior. Havendo então correspondência, Sua Majestade não se limitará a dar-lhes somente esta graça. Começa apenas a chamá-las a coisas mais altas.[21]

 Ela recebe nessa etapa uma “admiração deleitosa que dilata a alma e a enche de gozo e alegria ao descobrir em Deus tantas maravilhas de amor”.[22] Ademais, compreende sem esforço os mistérios de Deus, como as palavras do Evangelho, o que com anos inteiros de estudo não poderia conseguir.

Para não retroceder no caminho, deverá romper com todas as bagatelas que a prendem à terra e entregar-se com toda a alma à vida interior, mortificando os sentidos e insistindo no amor ardente a Deus.

Um dos mais célebres graus da oração é a quietude, na qual a alma atinge o sobrenatural. Consiste em um sentimento íntimo da presença de Deus que cativa a vontade e enche o corpo de suavidade e deleites inefáveis. “A alma fica suspensa de tal sorte que parece estar fora de si”.[23]

A diferença fundamental entre a oração de quietude e o recolhimento infuso é que o recolhimento infuso era como um convite de Deus a reconcentrar-se no interior da alma onde quer Ele comunicar-se. A quietude vai mais longe: começa dar à alma a posse, o gozo fruitivo do soberano Bem.[24]

Nesta fase, a alma encontra o perfeito equilíbrio entre ação e contemplação, pois, embora tenda ao silêncio e ao repouso, por não encontrar obstáculos no entendimento, pode perfeitamente praticar obras ativas.

Admiráveis são os efeitos santificadores que a oração de quietude produz, a saber: uma grande liberdade de espírito que dilata a alma, um temor filial, grande confiança na eterna salvação, amor à mortificação e aos trabalhos, profunda humildade, desprezo dos deleites terrenos e um crescimento em todas as virtudes.

Santa Teresa aconselha às almas que alcancem este elevado grau de piedade a fugir das ocasiões de ofender a Deus, pois são como criancinhas que começam a alimentar-se, e se vierem a afastar-se do leite materno, acabarão por sucumbir.

Empenho-me tanto neste aviso de não se porem em ocasiões de pecado, porque o demônio faz mais questão de ganhar uma destas almas do que muitíssimas outras não favorecidas pelo Senhor com iguais mercês. É que estas almas podem acarretar-lhe grande prejuízo, atraindo outras atrás de si e, provavelmente, produzirão muitos frutos na Igreja de Deus. Basta, aliás, ao inimigo ver o particular amor que Sua Majestade lhes mostra, para que ponha tudo em jogo, com o objetivo de perdê-las, mesmo sem outras razões. Deste modo, são muito combatidas e, se vierem a transviar-se, será para elas muito maior a perdição do que para outras almas.[25]

Poucas são as almas que, após chegarem a esse patamar, avançam na escala da oração. Muitas, depois de terem sido objeto da predileção de Deus, a abandonam completamente. Por este motivo, não poderá a alma se acovardar julgando-se incapaz de subir esta montanha sagrada. “Tenhamos fé: Aquele que dá os bens, dará também graça para que, no momento em que o demônio principiar a tentar-nos sobre este ponto, logo entendamos e tenhamos força para resistir”.[26] A oração de quietude é como uma faísca de amor a qual, desde que não seja extinta por culpa própria, começa a incendiar a alma a ponto de produzir verdadeiras labaredas de caridade, beneficiando os mais fracos. Ela é a garantia de que Deus escolheu tal alma para grandes feitos.

união simples é um grau intensíssimo da oração contemplativa na qual todas as potências da alma estão cativadas e absortas em Deus. “É lavor sem fadiga, alegria que não se deixa perceber, um regozijar sem se compreender de quê”.[27] Nesse período a alma goza da certeza inquebrantável de estar unida plenamente a Deus, acompanhada de uma ausência de distrações, o que nos graus anteriores não acontece.

Estando assim a alma a buscar a Deus, sente-se quase desfalecer completamente, numa espécie de desmaio, com grande e suave ternura. Vê que lhe vão faltando o fôlego e todas as forças corporais, de modo que nem pode menear as mãos, a não ser a muito custo. Os olhos fecham-se involuntariamente, ou, se conservados abertos, a pessoa nada enxerga. Se lê, não acerta com as letras, nem atina em reconhecê-las; vê os caracteres, mas, como o intelecto não ajuda, não consegue ler, ainda que queira. Ouve, porém, não entende o que ouve, de modo que os sentidos de nada lhe servem. […] É impossível falar: não atina com uma só palavra e ainda que atinasse, não teria alento para pronunciá-la. Toda força exterior se perde e se concentra nas da alma.[28]

Fortíssimos e inesperados impulsos invadem a alma, abrasando-a nas chamas do divino amor, a ponto de, ao escutar o nome de Deus, subitamente acender-se em seu coração um ímpeto insaciável e devorador. “A alma arde de desejos de que lhe rompam as ataduras do corpo para voar livremente a Deus”.[29]

O oitavo grau é a união extática. A magnitude de união mística ultrapassa os limites da fragilidade humana, e, como consequência, sobrevêm os êxtases, os quais consistem numa fraqueza corporal que suspende os sentidos internos e externos. Em tais arroubamentos, é impossível resistir, tornando-se patente que:

Não somos senhores do corpo nem capazes, por conseguinte, de o deter quando Sua Majestade assim o quer. Ao contrário, verificamos, por muito que nos pese, que existe acima de nós alguém mais poderoso, e que tais graças são dádivas suas, enquanto de nossa parte nada, absolutamente nada, podemos fazer. Imprime-se, então, muita humildade na alma.[30]

Os êxtases místicos produzem uma energia sobrenatural que faz a alma chegar à prática heroica das virtudes, ao ponto de estar disposta a tudo sofrer pelo Objeto amado. “É preciso que a alma seja resoluta e corajosa, muito mais do que nos estados precedentes, para arriscar tudo – venha o que vier – e, entregando-se a Deus, deixar-se guiar de bom grado por suas mãos aonde Ele quiser”.[31]

união transformante é o último e mais alto grau da oração, também conhecida como união consumada. É ela um prelúdio antecipado e preparação imediata para a glória celeste. O Doutor Místico, São João da Cruz, define esta oração como a plena transformação no Amado, tantas vezes desejada nos graus anteriores, na qual a alma é posta no mais fundo do amor divino, transformando-se no próprio Deus, sem deixar, porém de ser criatura. “A alma mais parece Deus do que propriamente alma”.[32]

Magníficos dons nos concede este orvalho celeste: uma morte total do egoísmo, preocupando-se somente com a glória de Deus, um grande desejo de ser crucificado com Nosso Senhor Jesus Cristo, gozo por ser perseguido e caluniado, paz e quietude imperturbáveis na qual o demônio não consegue penetrar. “Este é o mais alto estado que nesta vida se pode chegar”.[33]

Esse longo percurso da oração não é um estado extraordinário reservado apenas para alguns. Pelo contrário, os mais altos cumes da santidade deveriam ser a via normal de todo batizado. Contudo, poucos são aqueles que buscam atingir essa perfeição, como adverte São João da Cruz:

Ó almas chamadas e criadas para estas grandezas! Que fazeis? Em que vos ocupais? Vossas pretensões são baixas e vossas posses, miséria. Ó miserável cegueira de alma; com tanta luz estais cegos, e com vozes tão altas, surdos. […] Recebendo tantos bens, vos tornais ignorantes e indignos.[34]

[20] SANTA TERESA DE JESUS. Castelo interior ou Moradas. Op. cit. p.88.

[21] Ibid. p. 88.

[22] ROYO MARÍN. Teología de la perfección cristiana.Op. cit. p. 716. (Tradução da autora).

[23] SANTA TERESA DE JESUS. Livro da vida. Op. cit. p. 71.

[24] ROYO MARÍN. Teología de la perfección cristiana.Op. cit. p. 718. (Tradução da autora).

[25] SANTA TERESA DE JESUS. Castelo interior ou Moradas. Op. cit. 93.

[26] Id. Livro da vida. Op. cit. p. 73.

[27] Ibid. p. 135.

[28] Ibid. p. 139.

[29] ROYO MARÍN. Teología de la perfección cristiana.Op. cit. p. 729. (Tradução da autora).

[30] SANTA TERESA DE JESUS. Livro da vida. Op. cit. p. 153.

[31] Ibid. p. 152.

[32] SÃO JOÃO DA CRUZ, apud ROYO MARÍN. Teología de la perfección cristiana. Op. cit. p. 741. (Tradução da autora).

[33] Ibid. p.744. (Tradução da autora).

[34] Ibid. p. 761. (Tradução da autora).

Um altíssimo chamado… para todos!

Bruna Almeida Piva

No calendário litúrgico, o mês de novembro se inicia com a Solenidade de Todos os Santos, instituída no século IX, a fim de louvar e festejar a multidão dos justos: “aqueles que habitam a Jerusalém Celestial, canonizados ou não, bem como os vivos que se encontram na graça de Deus e conservam sua amizade”.1

Porém, para que servem aos santos nossos elogios? Que lhes importam as honras terrenas, enquanto o próprio Deus os glorifica? 2 De fato, nossos louvores não são necessários a eles, mas o são a nós mesmos, pois intercedem por nós ao Pai, e sua lembrança nos estimula e incita a “gozarmos de sua tão amável companhia e de merecermos ser concidadãos e comensais dos espíritos bem-aventurados, de unir-nos ao grupo dos patriarcas, às fileiras dos profetas, ao senado dos apóstolos, ao numeroso exército dos mártires, ao grêmio dos confessores, aos coros das virgens, de associar-nos, enfim, à comunhão de todos os santos e com todos nos alegrarmos”.3 É, portanto, uma festa que nos convida à santidade.

Em nossa busca pela felicidade e realização, não podemos ter ambição mais bela e mais nobre do que a de ser santos. E muito enganado estaria quem pensasse ser esse chamado feito somente a uma minoria de almas seletas, que um dia são elevadas à glória dos altares. Com o auxilio da Graça, todos somos feitos para essa imensa, criteriosa, sábia, mas ousada aventura, na qual ordenamos nossa alma para Deus, a purificamos e embelezamos, dispondo-a à bem-aventurança eterna, à corte celestial onde um assento nos está reservado.4

Diante de tão alto chamado, quais são as nossas disposições de alma? Estamos dispostos a abandonar o pecado e abraçar as vias da virtude rumo à santidade? Ou será que, diante da assembleia dos justos que nos deseja e aguarda, somos indiferentes e nos esquivamos? Se temos boas disposições, agradeçamos a Deus que no-las concedeu e peçamos perseverança em nossos bons propósitos; se nos sentimos fracos e débeis ante tão grande batalha, roguemos aos santos do Céu que nos concedam sua força e coragem, proteção e auxílio.

Entretanto, seja qual for nossa disposição ou vocação, o caminho é o mesmo: o amor. “Amai a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo”, recomendava insistentemente Nosso Senhor Jesus Cristo em suas pregações. E também São João da Cruz ensinava: “No entardecer desta vida, sereis julgados segundo o amor”.5 O amor nos faz grandes aos olhos de Deus, e somente por amor somos capazes de abandonar nossos vícios e realizar os sacrifícios, grandes ou pequenos, que a santidade exige.

Que, nesta Festa de todos os Santos, a Santíssima Virgem e todos os bem-aventurados nos alcancem de Deus o amor mais puro e ardente que a natureza humana possa ter em relação a Ele, e, consequentemente, a santidade plena, pois “é na esperança de podermos viver, de batalhar pela nossa santificação e de morrer na paz de Deus, confiantes em Nossa Senhora, agradecendo a Ela porque nos obteve graças para nos tornarmos outros heróis na Fé e príncipes do Céu, que devemos atravessar nossos dias nesta terra de exílio”.6

1 EDITORIAL. Todos são chamados à santidade. Dr. Plinio. São Paulo, ano 7, n. 80, nov. 2004, p. 4.
2 Cf. Bernardo, Santo. Dos Sermões. In: LITURGIA das Horas: Segundo o rito romano. Tradução para o Brasil da segunda edição típica. São Paulo: Ave-Maria, 2000, v. 4, p. 1421.
3 Loc. cit.
4 Cf. CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Santidade, o ideal de todo homem. Dr. Plinio, São Paulo, ano 6, n. 44, nov. 2001, p. 8-10.
5 JOÃO DA CRUZ, Santo apud CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Op. cit., p. 10.
6 Loc. cit.

Espelho do Sol

Ir Adriana María Sánchez García, EP

Cada um de nós pode ser comparado a uma gota d’água, pequenina e insignificante, mas chamada a refletir algo infinitamente superior…

gota_dagua_arautosApós uma forte chuva, ou mesmo depois do leve orvalho da madrugada, podemos contemplar gotas d’água refletindo a luz do Sol. Semelhantes a pequenas joias, tomam elas uma beleza própria que não tinham enquanto não refletiam tal luz.

Mas o que é o Sol comparado a uma gota d’água? Ele é uma estrela de especial grandeza, que aquece e ilumina a Terra, permitindo a vida em nosso planeta. E uma gota d’água… que poderia haver de mais insignificante? Ela cai e logo se esvai, sem que se lhe dê maior importância. Em relação ao oceano é nada! No entanto, pela ação dos raios solares, aquela pequenina gota passa a ser um espelho do Sol, a participar, de certo modo, da rutilante beleza do Astro Rei.

De maneira análoga, cada um de nós é como uma gota d’água. O homem, por si mesmo, é tão pequeno dentro do universo… Contudo, está chamado a fazer resplandecer nele algo infinitamente superior: o próprio Deus! Sendo um reflexo da luz divina, enquanto criatura feita à sua imagem e semelhança, adquire um brilho superior quando as águas batismais se derramam sobre sua cabeça: é o fulgor do estado de graça. E o que há de mais belo do que uma alma em graça?

gotasDeus ilumina tudo o que vemos, sejam as maravilhas da natureza ou as virtudes das almas santas. Todas as belezas desta Terra são como espelhos, nos quais podemos admirá-Lo e crescer no anelo de vê-Lo no Céu. O vasto e tempestuoso mar, por exemplo, representa a grandeza divina; a garça branca, sua pureza; o amor de uma mãe, sua bondade.

Ensina-nos São Paulo: “Hoje vemos como por um espelho, confusamente; mas então veremos face a face” (I Cor 13, 12). Não obstante, como poderemos chegar a ser um perfeito espelho do Sol de Justiça, límpido e sem nenhuma mancha, para refletir sua imagem?

O amor, diz São João da Cruz,1 torna o amante semelhante ao amado. É, pois, amando muito a Deus que nos tornaremos semelhantes a Ele. Amando a Deus mais do que a nós mesmos — o que só é possível com o auxílio da graça —, desejaremos viver conforme a sua Lei e seremos a “luz do mundo” (Mt 5, 14) preconizada por Nosso Senhor Jesus Cristo no Evangelho. Assim, poderemos realizar em nós as palavras do Apóstolo: “Refletimos como num espelho a glória do Senhor e nos vemos transformados nesta mesma imagem, sempre mais resplandecentes, pela ação do Espírito do Senhor” (II Cor 3, 18).

1 Cf. SÃO JOÃO DA CRUZ. Subida del Monte Carmelo. L.I, c.4, n.3. In: Vida y Obras. 5.ed. Madrid: BAC, 1964, p.371.

Revista Arautos do Evangelho Nov 2014

A expressividade do silêncio

Gabriela Victoria Silva Tejada (1º ano de Ciências Religiosas)

Ao percorrermos as páginas das Sagradas Escrituras, deparamo-nos com inúmeras recomendações e importantíssimas afirmações dadas pelo próprio Espírito Santo a fim de nos ensinar o caminho certo para chegar à Pátria Celestial. Detenhamo-nos em um aspecto dos conselhos que nos apresentam os livros sapienciais: “Não te apresses em abrir a boca; […]que tuas palavras sejam, portanto, pouco numerosas.” (Ecl 5,1) e “ […] o homem sábio guarda silêncio” (Pv 11,12) Não obstante, o ditado popular resumiu em: “A palavra é de prata e o silêncio é de ouro”.

Qual é a grandeza do silêncio? O que o torna superior à palavra?

Primeiramente, o silêncio não pode ser considerado somente no seu aspecto negativo – exclusão de palavras, pois o silêncio também fala. Esta verdade é oferecida pela própria experiência, pois, em inúmeras ocasiões de nossa vida, deixamos transparecer o que acontece dentro do nosso interior através, não só de palavras, mas também do silêncio. Com ele afirmamos, negamos, consentimos, reprovamos e mostramos a nossa alegria ou recriminação em relação a algo. O próprio Nosso Senhor Jesus Cristo, na hora da crucificação, depois de dirigir aquelas extraordinárias palavras ao bom ladrão, ofereceu um frio silêncio ao mau ladrão, que teve mais expressividade do que um colossal discurso. 1

O silêncio é um extraordinário instrumento capaz de transmitir, em várias ocasiões, mais ideias do que as próprias palavras. Referindo-se ao Espírito Santo afirma o Padre Plus:2Fala sem articular palavras, e todos ouvem seu divino silêncio (…) Sem necessidade de estar atento, ouve a menor palavra dita no mais íntimo do coração.” Ou seja, o silêncio é perfeitamente interpretado por Deus, sendo um dos meios que Ele mais usa para relacionar-se com as suas criaturas e revelar-lhes maravilhas que apenas podem ser entendidas na sacralidade e tranquilidade próprias ao silêncio.

Para viver de Deus, com Ele e para Ele, as pessoas, sempre que possível, abandonam o bulício do mundo e abraçam o isolamento. 3 São Jerônimo conta que Davi, em sua infância, fugia da agitação da cidade e buscava a solidão dos desertos. E as Escrituras nos contam que Judite tinha, na parte mais elevada de sua casa, um quarto recolhido onde permanecia enclausurada com suas fiéis servas (Jt 8, 5).

Mas o que são estas maravilhas que Deus nos revela através do silêncio? O que ele diz em nossos corações? A que nos convida? Certa ocasião, Monsenhor João Clá Dias esclareceu a seus filhos espirituais:

O que diz o silêncio?[…] Escute-me porque o timbre de minha voz é grave e suave. Escute-me porque o que tenho a dizer eleva a alma, descansa e entretém. Escute-me porque minhas palavras põem em sua alma um certo refrigério, uma certa luz, uma certa paz que você havia esquecido que existe e que agora quando fala com você, o chama para maravilhosas solidões de que já havia perdido a lembrança e as saudades. À força de falar com o silêncio, você mesmo começa a ser um daqueles que, pelo silêncio, fala, o seu silêncio interior faz ouvir palavras e você começa a entender, a dizer dentro de si mesmo que não é uma recordação que isso traz, é uma esperança, são os dias vindouros que o aguardam “.4

São João da Cruz nos lembra: “Uma palavra pronunciou o Pai, que foi seu Filho, e esta fala sempre em eterno silêncio, e em silêncio há de ser ouvida pela alma5. E assim, as virtudes serão praticadas mais facilmente conforme afirma São Rafael Arnaiz:

É o silêncio que nos faz humildes, que nos faz sofridos; que, ao termos sofrimentos, nos faz contar somente a Jesus para que Ele também, no silêncio, nos cure sem que os outros saibam […] O silêncio é necessário para a oração. Com o silêncio é difícil faltar com a caridade; com ele se agradece, mais do que com palavras, o amor e carinho de um irmão […]”6

E São Bernardo declara: “É o silêncio guardião da religião, nele está nosso vigor“.7

Portanto, o silêncio é indispensável para escutar a Deus e acolher a sua comunicação. Ele nos convida a permanecer em um estado de espírito profundo, claro e elevado para que, ouvindo seus sábios conselhos, vivamos santamente em um convívio digno e sublime, não só com os homens, mas principalmente com Aquele que nos criou.

1 Cf. Id. Devoção ao sagrado Coração de Jesus. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano XIV, n. 155, feb. 2011, p. 10.
2 PLUS, SJ, Raúl. Cristo en nosotros. Barcelona: L. Religiosa, 1943, p. 153.
3 Cf. Imitação de Cristo, Liv. I, c. 20, m.1.
4 CLÁ DIAS, Jõao Scognamiglio.A seriedade e o silêncio que proclamam: Retiro. São Paulo, jul. 2002.
5 Obras Completas, BAC, Madrid, 1946, p. 1200.
6 SAN RAFAEL ARNÁIZ. Hermano Rafael Arnáiz Barón Obras completo. Burgos: Monte Carmelo, 2002, p. 291.
7 Cf. SAN BERNARDO DE CLARAVAL. Domenica prima post octavam Epiphaniae. Sermo 2, 7. “silentium scilicet, custos religionis, et in quo est fortitudo”

Experiência Mística – exclusiva dos grandes místicos?

Irmã Maria Cecília Seraidarian,EP

O termo experiência, do latim experientia, tem vários significados, porém, a maioria deles possui em comum o fato de referir-se a uma apreensão imediata de uma realidade ou de “processos internos”. Filosoficamente, experiência tem dois sentidos fundamentais: como confirmação ou possibilidade de confirmação empírica de dados e como vivência de algo “dado”, antes de qualquer reflexão ou predicação. A experiência pode, portanto, designar a apreensão de “evidências” de caráter não-natural, isto é, místicas . Neste último caso, a experiência, o fato de ter “sentido”, “provado”, é fundamental para tornar crível o testemunho de quem fala do sobrenatural, de Deus . A palavra mística, do grego mystikós (o que concerne aos mistérios), por sua vez, pode ser definida como a atividade espiritual que procura efetuar a união da alma com a divindade. O contato com o divino, para o neoplatonismo, provoca uma iluminação interior que permite conhecer o ser da realidade divina . A mística é a união da alma com o seu Primeiro Princípio.

Experiência mística seria propriamente uma experiência do divino, o encontro com o divino de pessoa a pessoa; é um “sentir” a presença de Deus, um sentir-se tocado por Ele no mais íntimo. Esse “sentir” dá a certeza de que é Deus mesmo quem fala. A mística possui um extraordinário poder revelador, prefigurando a própria visão beatífica . É distintivo da experiência mística, ademais de unir o homem ao Absoluto, uma forma de conhecimento espiritual que não se deixa apreender conceitualmente nem se traduz em palavras . Outro elemento constitutivo da experiência mística é a absoluta manifestação, a absoluta iniciativa divina, que penetra no ser humano transformando-o, ampliando seus limites, fazendo-o apreender diretamente e sem mediações a presença do Infinito .

Sao_Joao_da_cruzSão João da Cruz, ao descrever as purificações da alma nas noites escuras e a posterior luz que a invade, elevando o espírito a um sentir divino, estranho e alheio a todo modo humano, assim se expressa: “a alma virá a ter um novo senso e conhecimento divino, muito abundante e saboroso, em todas as coisas divinas e humanas, que não pode ser encerrado no sentir comum e no modo de saber natural; porque então tudo verá com olhos bem diferentes de outrora, – diferença essa tão grande, como a que vai do sentido ao espírito” . Acrescenta, ainda, que esse conhecimento místico e amoroso ilumina a vontade e, ao mesmo tempo, fere e ilustra o entendimento, infundindo certo conhecimento e luz divina, com tanta delicadeza e suavidade, que a vontade se afervora extraordinariamente .

Composto de corpo e alma, matéria e espírito, inseparáveis , o ser humano necessita das exterioridades para, através de uma ação harmônica e complementar dos sentidos e da inteligência, conhecer o mundo. Ou seja, é pelos sentidos que se dá o conhecimento natural. O conhecimento sobrenatural ou místico não tem necessidade de passar pelos sentidos, é uma comunicação direta de Deus no fundo da alma. É uma espécie de iluminação que, atuando sobre a inteligência, vontade e sensibilidade, transporta o espírito humano para uma ordem metafísica e sobrenatural. A impressão causada pela experiência do divino proporciona uma clareza especial de visão, produzindo um amor que eleva a pessoa acima do seu próprio nível e a enche do desejo de dedicação, tornando-a entusiasmada e ansiosa por entregar-se .

A duração dos fenômenos místicos pode variar; geralmente eles são muito curtos, algo à maneira de um relâmpago ou flash, entretanto, deixam na alma marcas indeléveis. Nesse sentido, Santa Teresa, tratando das manifestações da “Sacratíssima Humanidade” de Jesus Cristo, afirma: “E, embora seja com tanta presteza, que a poderíamos comparar à de um relâmpago, fica tão esculpida na imaginação esta imagem gloriosíssima, que tenho por impossível que se lhe tire até que a veja onde sempre a possa gozar” . Longe de ser uma “via extraordinária”, exclusiva dos grandes místicos experimentais, a mística faz parte da experiência transcendente comum, “ordinária”. Sem “sentir” a proximidade do Ser Absoluto – causa primeira e fim último de todas as coisas –, sem “experimentar” a possibilidade de unir-se a Ele, o ser humano ficaria abalado em sua certeza axiológica e ontológica, perderia a noção do seu próprio ser.