A cor da alma

Carolina Amorin Zandoná

2º ano de Ciências Religiosas

Certa vez Plinio Corrêa de Oliveira teceu o seguinte comentário a respeito de uma imagem de Nossa Senhora das Graças: “Esse branco corresponde à cor da alma de Nossa Senhora. A inocência da Sancta Virgo Virginum — que é inocente sem comparação com nada e com ninguém, acima de tudo, exceto de Nosso Senhor Jesus Cristo — se exprime nesse branco de um modo maravilhoso”.[1]

O caro leitor já pensou em meditar sobre as cores? É a isto que o convido, propondo-lhe como tema um desafio: se pudéssemos ver a alma de um Santo, de que cor ela seria?

Para não ficarmos apenas na teoria, voltemos nossa atenção a um exemplo concreto: a vidente de Lourdes, Santa Bernadette Soubirous.

Bernadette, uma pobre camponesinha, filha de um moleiro, com uma inteligência bem limitada e uma saúde muito débil, foi escolhida pela Santíssima Virgem para ser uma verdadeira heroína.

Bem poderíamos comparar a sua alma a um vermelho carmesim, simbolizando sua forte personalidade, decidida a propagar incondicionalmente a mensagem de Nossa Senhora, apesar de todos os revezes que se lhe apresentaram ao longo de sua curta vida. Todas as ingratidões, maus tratos e perseguições de que foi alvo eram, na verdade, elementos de santificação enviados pela Providência que acrescentaram ao vermelho carmesim de sua alma o esplendor áureo do heroísmo.

Somente na eternidade poderemos contemplar a glória e a vitória de todas as lutas dos santos que agora vislumbramos, considerando as cores de suas almas.

[1] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Porte régio e virginal. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano XVI, n. 188, nov. 2013, p. 19.

A sublime escala da oração (cont)

Ir. Lays Gonçalves de Sousa

Continuação do post anterior

recolhimento infuso é o quinto grau da oração, sendo o primeiro da escala contemplativa. Ela se caracteriza pela união do entendimento com Deus, no qual se abandona as coisas exteriores para entrar no íntimo da alma. A pessoa “sente um recolhimento suave que a chama ao interior”,[20] desejando estar a sós com Deus.

 Tenho para mim que Sua Majestade a concede a certas pessoas que já vão abrindo mão das vaidades do mundo. Não digo por obras – pois alguns, em virtude de seu estado, não o podem fazer – mas o desejam. Desta maneira, Sua Majestade convida as pessoas, de modo particular, a estarem atentas ao seu interior. Havendo então correspondência, Sua Majestade não se limitará a dar-lhes somente esta graça. Começa apenas a chamá-las a coisas mais altas.[21]

 Ela recebe nessa etapa uma “admiração deleitosa que dilata a alma e a enche de gozo e alegria ao descobrir em Deus tantas maravilhas de amor”.[22] Ademais, compreende sem esforço os mistérios de Deus, como as palavras do Evangelho, o que com anos inteiros de estudo não poderia conseguir.

Para não retroceder no caminho, deverá romper com todas as bagatelas que a prendem à terra e entregar-se com toda a alma à vida interior, mortificando os sentidos e insistindo no amor ardente a Deus.

Um dos mais célebres graus da oração é a quietude, na qual a alma atinge o sobrenatural. Consiste em um sentimento íntimo da presença de Deus que cativa a vontade e enche o corpo de suavidade e deleites inefáveis. “A alma fica suspensa de tal sorte que parece estar fora de si”.[23]

A diferença fundamental entre a oração de quietude e o recolhimento infuso é que o recolhimento infuso era como um convite de Deus a reconcentrar-se no interior da alma onde quer Ele comunicar-se. A quietude vai mais longe: começa dar à alma a posse, o gozo fruitivo do soberano Bem.[24]

Nesta fase, a alma encontra o perfeito equilíbrio entre ação e contemplação, pois, embora tenda ao silêncio e ao repouso, por não encontrar obstáculos no entendimento, pode perfeitamente praticar obras ativas.

Admiráveis são os efeitos santificadores que a oração de quietude produz, a saber: uma grande liberdade de espírito que dilata a alma, um temor filial, grande confiança na eterna salvação, amor à mortificação e aos trabalhos, profunda humildade, desprezo dos deleites terrenos e um crescimento em todas as virtudes.

Santa Teresa aconselha às almas que alcancem este elevado grau de piedade a fugir das ocasiões de ofender a Deus, pois são como criancinhas que começam a alimentar-se, e se vierem a afastar-se do leite materno, acabarão por sucumbir.

Empenho-me tanto neste aviso de não se porem em ocasiões de pecado, porque o demônio faz mais questão de ganhar uma destas almas do que muitíssimas outras não favorecidas pelo Senhor com iguais mercês. É que estas almas podem acarretar-lhe grande prejuízo, atraindo outras atrás de si e, provavelmente, produzirão muitos frutos na Igreja de Deus. Basta, aliás, ao inimigo ver o particular amor que Sua Majestade lhes mostra, para que ponha tudo em jogo, com o objetivo de perdê-las, mesmo sem outras razões. Deste modo, são muito combatidas e, se vierem a transviar-se, será para elas muito maior a perdição do que para outras almas.[25]

Poucas são as almas que, após chegarem a esse patamar, avançam na escala da oração. Muitas, depois de terem sido objeto da predileção de Deus, a abandonam completamente. Por este motivo, não poderá a alma se acovardar julgando-se incapaz de subir esta montanha sagrada. “Tenhamos fé: Aquele que dá os bens, dará também graça para que, no momento em que o demônio principiar a tentar-nos sobre este ponto, logo entendamos e tenhamos força para resistir”.[26] A oração de quietude é como uma faísca de amor a qual, desde que não seja extinta por culpa própria, começa a incendiar a alma a ponto de produzir verdadeiras labaredas de caridade, beneficiando os mais fracos. Ela é a garantia de que Deus escolheu tal alma para grandes feitos.

união simples é um grau intensíssimo da oração contemplativa na qual todas as potências da alma estão cativadas e absortas em Deus. “É lavor sem fadiga, alegria que não se deixa perceber, um regozijar sem se compreender de quê”.[27] Nesse período a alma goza da certeza inquebrantável de estar unida plenamente a Deus, acompanhada de uma ausência de distrações, o que nos graus anteriores não acontece.

Estando assim a alma a buscar a Deus, sente-se quase desfalecer completamente, numa espécie de desmaio, com grande e suave ternura. Vê que lhe vão faltando o fôlego e todas as forças corporais, de modo que nem pode menear as mãos, a não ser a muito custo. Os olhos fecham-se involuntariamente, ou, se conservados abertos, a pessoa nada enxerga. Se lê, não acerta com as letras, nem atina em reconhecê-las; vê os caracteres, mas, como o intelecto não ajuda, não consegue ler, ainda que queira. Ouve, porém, não entende o que ouve, de modo que os sentidos de nada lhe servem. […] É impossível falar: não atina com uma só palavra e ainda que atinasse, não teria alento para pronunciá-la. Toda força exterior se perde e se concentra nas da alma.[28]

Fortíssimos e inesperados impulsos invadem a alma, abrasando-a nas chamas do divino amor, a ponto de, ao escutar o nome de Deus, subitamente acender-se em seu coração um ímpeto insaciável e devorador. “A alma arde de desejos de que lhe rompam as ataduras do corpo para voar livremente a Deus”.[29]

O oitavo grau é a união extática. A magnitude de união mística ultrapassa os limites da fragilidade humana, e, como consequência, sobrevêm os êxtases, os quais consistem numa fraqueza corporal que suspende os sentidos internos e externos. Em tais arroubamentos, é impossível resistir, tornando-se patente que:

Não somos senhores do corpo nem capazes, por conseguinte, de o deter quando Sua Majestade assim o quer. Ao contrário, verificamos, por muito que nos pese, que existe acima de nós alguém mais poderoso, e que tais graças são dádivas suas, enquanto de nossa parte nada, absolutamente nada, podemos fazer. Imprime-se, então, muita humildade na alma.[30]

Os êxtases místicos produzem uma energia sobrenatural que faz a alma chegar à prática heroica das virtudes, ao ponto de estar disposta a tudo sofrer pelo Objeto amado. “É preciso que a alma seja resoluta e corajosa, muito mais do que nos estados precedentes, para arriscar tudo – venha o que vier – e, entregando-se a Deus, deixar-se guiar de bom grado por suas mãos aonde Ele quiser”.[31]

união transformante é o último e mais alto grau da oração, também conhecida como união consumada. É ela um prelúdio antecipado e preparação imediata para a glória celeste. O Doutor Místico, São João da Cruz, define esta oração como a plena transformação no Amado, tantas vezes desejada nos graus anteriores, na qual a alma é posta no mais fundo do amor divino, transformando-se no próprio Deus, sem deixar, porém de ser criatura. “A alma mais parece Deus do que propriamente alma”.[32]

Magníficos dons nos concede este orvalho celeste: uma morte total do egoísmo, preocupando-se somente com a glória de Deus, um grande desejo de ser crucificado com Nosso Senhor Jesus Cristo, gozo por ser perseguido e caluniado, paz e quietude imperturbáveis na qual o demônio não consegue penetrar. “Este é o mais alto estado que nesta vida se pode chegar”.[33]

Esse longo percurso da oração não é um estado extraordinário reservado apenas para alguns. Pelo contrário, os mais altos cumes da santidade deveriam ser a via normal de todo batizado. Contudo, poucos são aqueles que buscam atingir essa perfeição, como adverte São João da Cruz:

Ó almas chamadas e criadas para estas grandezas! Que fazeis? Em que vos ocupais? Vossas pretensões são baixas e vossas posses, miséria. Ó miserável cegueira de alma; com tanta luz estais cegos, e com vozes tão altas, surdos. […] Recebendo tantos bens, vos tornais ignorantes e indignos.[34]

[20] SANTA TERESA DE JESUS. Castelo interior ou Moradas. Op. cit. p.88.

[21] Ibid. p. 88.

[22] ROYO MARÍN. Teología de la perfección cristiana.Op. cit. p. 716. (Tradução da autora).

[23] SANTA TERESA DE JESUS. Livro da vida. Op. cit. p. 71.

[24] ROYO MARÍN. Teología de la perfección cristiana.Op. cit. p. 718. (Tradução da autora).

[25] SANTA TERESA DE JESUS. Castelo interior ou Moradas. Op. cit. 93.

[26] Id. Livro da vida. Op. cit. p. 73.

[27] Ibid. p. 135.

[28] Ibid. p. 139.

[29] ROYO MARÍN. Teología de la perfección cristiana.Op. cit. p. 729. (Tradução da autora).

[30] SANTA TERESA DE JESUS. Livro da vida. Op. cit. p. 153.

[31] Ibid. p. 152.

[32] SÃO JOÃO DA CRUZ, apud ROYO MARÍN. Teología de la perfección cristiana. Op. cit. p. 741. (Tradução da autora).

[33] Ibid. p.744. (Tradução da autora).

[34] Ibid. p. 761. (Tradução da autora).

A sublime escala da oração

Ir. Lays Gonçalves de Sousa

“Depois do Batismo, é necessário ao homem a oração contínua para entrar no Céu”,[1] adverte o Doutor Angélico. Aqueles que fazem uso desse poderoso tesouro se aproximam intimamente do Divino Redentor. Contudo, o que garante que Deus ouvirá propício as suas súplicas, sendo o homem demasiadamente insuficiente? Quais as condições necessárias para tornar nossa oração infalível e até mesmo onipotente?

Assim como a santidade só é alcançada mediante a prática heroica de todas as virtudes, da mesma forma, a oração possui diversos graus até atingir o esplendor perfeitíssimo da união com Deus. Pois, “na oração as delícias das almas são como as que no céu devem ter os eleitos”.[2]

 Os mestres de vida espiritual dividem os graus da oração em nove.

O primeiro, por ordem ascendente, corresponde à oração vocal, a qual está ao alcance de todos. Ela se manifesta com palavras e, por isso, é a única forma de oração pública ou litúrgica. Para que seja eficaz possui duas condições: deve ser feita com atenção e profunda piedade.

É ainda de se saber que há três atenções sem as quais a oração vocal não será possível. A primeira é estar atento às palavras, para que nela não cometa erro; a segunda é prestar atenção no sentido das palavras; a terceira, que é a máxima necessária, considerar o fim da oração, isto é, a Deus e ao objeto da oração.[3]

 A esse respeito escreveu Santa Teresa:

Para ser oração é necessário reflexão. Não chamo oração mexer com os lábios sem pensar no que dizemos, nem no que pedimos, nem quem somos nós, nem quem é Aquele ao qual nos dirigimos. Algumas vezes poderá acontecer isso a pessoas que se esforçam por rezar bem,mas será por motivos que se justificam, e será boa a oração. (Nao entendi) Porém, o costume de falar à Majestade de Deus como quem fala a um estranho, dizendo o que lhe vem à cabeça, sem reparar se está certo, por ter decorado ou repetido muitas vezes, – a isso não tenho em conta de oração. Não permita Deus que cristão algum reze desse modo![4]

Comete verdadeiro pecado de irreverência, aquele que realiza a oração com distrações voluntárias, além de impedir seus frutos.[5]

Sobre a segunda condição, nos ensina o Pe. Royo Marín:

Com a atenção, aplicamos nossa inteligência em Deus. Com a piedade colocamos a vontade e o coração em contato com Ele. Essa piedade profunda envolve e supõe um conjunto de virtudes cristãs de primeira categoria: a caridade, a fé viva, a confiança, a humildade, a devoção e reverência frente à Majestade divina e a perseverança.[6]

Essa oração não é uma prática facultativa, sendo de suma importância na vida espiritual exercitá-la com fervor. Estando com saúde ou agonizante, na consolação ou na aridez, mesmo nos mais altos patamares da santidade, jamais poderá o homem abandonar essa prática diária, pois do contrário poderia comprometer a sua salvação eterna.

 A meditação constitui o segundo grau da oração, e é onde as almas “percebem melhor os chamamentos e convites diversos que faz o Senhor”.[7] Ensina-nos a teologia que a meditação “consiste na aplicação racional da mente a uma verdade sobrenatural a fim de nos convencermos dela e nos mover a amá-la e praticá-la com a ajuda da graça”.[8] Neste grau será essencialmente utilizada a razão, sem a qual a meditação não poderá efetivar-se. Por isso, proclamava o Apóstolo: “orarei com o espírito, mas orarei também com o entendimento; cantarei com o espírito, mas cantarei também com o entendimento” (I Cor 14, 15).

A meditação tem duas finalidades: uma intelectual e outra afetiva. A primeira é comparável a uma muralha inexpugnável que nos concede convicções firmes e enérgicas contra os inimigos da alma. Em outras palavras, é ela que, ao desaparecer a felicidade sensível e momentânea, cria raízes na alma e não deixa que, sem resistência, nos entreguemos ao menor sopro das paixões. “Não se pode construir uma casa sólida sobre a areia movediça do sentimento; é preciso um fundamento pétreo e inamovível das convicções profundamente arraigadas na inteligência”.[9]

Com efeito, é preciso que a meditação esteja acompanhada de nossos afetos, que é a parte principal da meditação:

Esta começa propriamente quando a alma inflamada com a verdade sobrenatural que o entendimento convencido lhe apresenta, prorrompe em afetos e atos de amor a Deus, com quem estabelece um contato íntimo e profundo […].[10]

 Esta oração é um dom particularíssimo de Deus no qual as almas são introduzidas e inebriadas no amor divino. Ela é incompatível com o pecado, e os homens que não meditam, facilmente se deixam levar pelo ímpeto das paixões desordenadas. “Com os demais exercícios de piedade, a alma pode continuar vivendo no pecado, mas, com a oração mental bem feita, não poderá permanecer nele muito tempo: ou deixará a oração ou deixará o pecado”.[11] À alma absorta e embevecida não resta ocasião para pensar em si mesma, pois só se ocupa do que diz respeito ao Amado, como afirma São Bernardo: “rara é essa hora, e o tempo que nela se gasta é sempre breve, pois, por mais dilatado que seja, parece um sopro”.[12]

 “O amor é fruto da oração fundada na humildade”.[13] Por ser esta forma de oração tão sublime, devemos pedi-la com verdadeira submissão, restituindo a Deus todos os benefícios que por meio dela recebemos.

Esse método de oração deve ser assíduo e perseverante. A alma que procura levar uma vida rumo à perfeição, entregando-se inteiramente ao apostolado, mas desprezando a oração mental, longe está da brisa da santidade, afirmam os teólogos. Continua o Doutor Melífluo:

Eu, por minhas forças, não posso chegar a esse amor, a essa união e contemplação tão levantada; só peço que Ele ma conceda a mim. Só o Senhor por sua bondade e gratuita liberalidade nos há-de levantar a este ósculo de seus divinos lábios, a esta altíssima oração e contemplação.[14]

A oração afetiva ocupa o terceiro grau da oração. Ela é uma espécie de meditação simplificada e orientada ao coração, na qual predominam os afetos da vontade sobre o discurso do entendimento. Ela representa um profundo descanso para a alma, uma vez que diminui o rude labor da meditação discursiva. Em relação a esse pormenor, incomparáveis são as vantagens espirituais concedidas neste terceiro grau: uma união mais íntima e profunda com Deus, pela qual nos aproximamos cada vez mais do objeto amado; um desenvolvimento especial das virtudes infusas em conexão com a caridade, além de consolos e suavidades sensíveis que servem de estímulo e alento para a prática das virtudes cristãs.

Esses preciosos auxílios, entretanto, poderão ver-se comprometidos, caso não se faça bom uso deles. O verdadeiro fervor reside na vontade, não na sensibilidade. Desta forma, a alma poderá usar das consolações, mas não viver somente delas. Do contrário, passará a ter uma gula espiritual, como explica São João da Cruz, que impulsiona a buscar na oração afetiva a suavidade dos consolos sensíveis ao invés do estímulo para a prática austera das virtudes.[15] Os frutos da oração afetiva não são medidos pela quantidade de consolações sensíveis, mas pelas manifestações cada vez mais intensas das virtudes. “Ó Jesus, haverá quem não queira tão grande bem, especialmente se já passou pelo mais trabalhoso? Não, nenhum de nós!”.[16]

Simples visão, olhar amoroso a Deus ou às coisas divinas que acende na alma o fogo do amor: eis o quarto grau da oração, conhecido como oração de simplicidade. Os três primeiros graus pertencem à ascética na qual se sobressai o esforço. Já o quarto representa a transição progressiva e gradual da ascética à mística, que é ação direta da graça. Nesse estágio a alma é levada por um ardente desejo de glorificar a Deus e de buscá-Lo em pequenos afazeres, unindo-se a Ele com um olhar carregado de amor, como afirma Santa Teresa:

Só quero que vos compenetreis bem do seguinte: para aproveitar neste caminho e subir às moradas desejadas, o essencial não é pensar muito – é amar muito. Escolhei de preferência o que mais vos conduzir ao amor. Talvez nem saibamos o que é amar, o que me espanta. Não consiste o amor em ser favorecido de consolações. Consiste, sim, numa total determinação e desejo de contentar a Deus em tudo, em procurar, o quanto pudermos, não ofendê-Lo e em rogar-Lhe pelo aumento contínuo da honra e glória de seu Filho e pela prosperidade da Santa Igreja Católica.[17]

Nessas circunstâncias, a alma é convidada a mergulhar em seu interior, baseando-se na grande verdade de que “Deus está dentro de nós mesmos”,[18] o que prepara a alma para saber escutar a voz do Altíssimo. Cada grau da oração significa um novo avanço rumo ao Reino dos Céus; na oração de simplicidade, com menos trabalho e esforço, a alma consegue resultados mais intensos.[19]

Continua no próximo post

[1] SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. III, q. 39, a. 5.

[2] SANTA TERESA DE JESUS. Livro da vida. Trad. Maria José de Jesus. 9. ed. São Paulo: Paulus, 2005, p. 72.

[3] Ibid. II-II, q.83, a. 13.

[4] SANTA TERESA DE JESUS. Castelo interior ou Moradas. 11. ed. São Paulo: Paulus, 2003, p. 23.

[5] Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. II-II, q. 83, a. 13.

[6] ROYO MARÍN, Antonio. Teología de la perfección cristiana. 5. ed. Madrid: BAC, 1968, p. 655. (Tradução da autora).

[7] SANTA TERESA DE JESUS. Castelo interior ou Moradas. Op.cit. p.42.

[8] ROYO MARÍN. La oración del cristiano. Op. cit. p. 26. (Tradução da autora).

[9] Id. Teología de la perfección cristiana. Op. cit. p. 662.(Tradução da autora).

[10] Loc. cit. (Tradução da autora).

[11] Ibid. p.663. (Tradução da autora).

[12] SÃO BERNARDO, apud RODRIGUES, Afonso. Op. cit. p. 19.

[13] SANTA TERESA DE JESUS. Livro da vida. Op. cit. p. 73.

[14] SÃO BERNARDO, apud RODRIGUES, Afonso. Op. cit. p. 23.

[15] Cf. ROYO MARÍN. Teología de la perfección cristiana. Op. cit. p. 674-677.

[16] SANTA TERESA DE JESUS. Castelo interior ou Moradas. Op. cit. p. 56.

[17] Ibid. p. 75.

[18] Ibid. p. 87.

[19] Cf. ROYO MARÍN. Teología de la perfección cristiana. Op. cit. p. 681.

Agitação: o extremo oposto da contemplação

Ir. Ariane Heringer Tavares, EP

Após o pecado original e o consequente enfraquecimento da natureza humana, a inquietação do espírito pode derivar-se da desordem das paixões, fascinadas por algo que não é lícito. Mas, há outro fator: “o demônio, vosso adversário, anda ao redor, como um leão que ruge, buscando a quem devorar” (I Pe 5, 8). Inúmeras vezes, é ele quem provoca na alma estados de perturbação, aguçando ainda mais as más tendências. Como Lúcifer e seus sequazes não cumpriram a finalidade para a qual foram criados, por se terem revoltado contra Deus, buscam a todo custo a mesma desgraça para os homens com o intuito de privá-los das alegrias da eterna contemplação.

São Francisco de Sales qualifica o frenesi como o maior mal que pode sobrevir à alma, depois do pecado:

Porque assim como as perturbações e sedições interiores de uma república a arruínam por completo e a embaraçam a ponto de que não possa resistir ao estrangeiro, assim o nosso coração, estando perturbado e inquieto em si mesmo perde a força de conservar as virtudes que tinha adquirido e ao mesmo tempo o meio de resistir às tentações do inimigo. [1]Com efeito, o demônio procura exacerbar essa debilidade, utilizando-se da agitação constante, especialmente propagada com a Revolução Industrial.

Revolução Industrial: a embriaguez da agitação

É inegável que o desenvolvimento da tecnologia e da ciência geram inúmeros benefícios e facilidades para a sociedade contemporânea. Com efeito, seria um absurdo se, ainda nos dias atuais, as cirurgias fossem realizadas sem o uso de anestésicos, se para o envio de uma carta fossem utilizados os famosos “pombos-correio” ou, para deslocar-se de um país para outro, não houvesse outro meio senão empreender uma longa viagem marítima ou a cavalo.

Entretanto, muitas vezes, pelo mau uso de tais tecnologias e máquinas, surgem problemas bastante complexos, cuja existência talvez nem seria cogitada em épocas anteriores. Um efeito devastador desse mau uso foi o fato de esse espírito prático, fortemente tendente à velocidade, à agitação e, consequentemente, ao esquecimento do sobrenatural, ter penetrado na alma humana e afetado todo o seu modo de ser.

A máquina — a “alma” de quase toda técnica — tende a sujeitar inteiramente a seu ritmo mecânico todo o trabalho humano. E mais do que o trabalho as diversões, a vida de família, toda a existência. Em todos os domínios, o homem vai se utilizando cada vez mais largamente da máquina, e aceitando adaptar-se a ela, para fruir as vantagens que ela proporciona. Nestas condições, a influência da máquina tende a penetrar nas esferas mais delicadas e mais altas da vida humana, isto é, tende a criar um estilo de vida, um modo de conceber os problemas e de os resolver, uma mentalidade enfim, inteiramente mecanizada. Homens estandardizados, com ideias e gostos padronizados, imersos num estado de espírito de um tédio sombrio, displicente, pesado, cheio de fadiga, interrompido apenas pelas excitações delirantes do cinema, da televisão, do rádio, ou das “torcidas” esportivas.[2]

Até o século XIX, podia-se afirmar que a maior parte das pessoas ainda levava uma vida muito estável, penetrada, em muitos aspectos, pelos costumes tradicionais e carregados de simbolismo das civilizações anteriores. Contudo, o surgimento das indústrias e a realização de tantos avanços científicos e tecnológicos contribuiu decisivamente para que se operasse uma mudança radical nas mentalidades e no modo de viver de toda sociedade. O “progresso” e o “desenvolvimento”, tão difundidos desde o final do século XVIII, prometiam uma era de paz e segurança, na qual o homem seria o rei absoluto de si mesmo e de suas ações.

Essa brusca transformação da cultura e dos ambientes causada pela Revolução Industrial exerceu uma profunda ação sobre as tendências humanas, pois “os ambientes [o mesmo pode ser aplicado à cultura], na medida em que favorecem os costumes bons e maus, podem opor à Revolução as admiráveis barreiras de reação; ou […] podem comunicar às almas as toxinas e as energias tremendas do espírito revolucionário”, [3] que incentivam a revolta das paixões.

Com as tendências amortecidas, torna-se mais fácil ao homem a aderência aos fatos que se concretizam depois. Por isso, ao longo do processo de industrialização, rapidamente se consolidou e difundiu o mito de que o homem, por si só, era capaz de produzir coisas extraordinárias e numerosas, independentes de Deus. O otimismo contaminou de tal maneira os espíritos que despertou neles uma crescente apetência de fruição e um verdadeiro horror ao recolhimento e ao sacrifício.

Pode-se acrescentar ainda a ação do demônio que, aproveitando-se deste estado de espírito reinante, começou a propagar a ideia de que a máquina e a velocidade podem proporcionar ao ser humano a plenitude do gozo, dando a entender que “a excitação era a única forma de gozar a vida”.[4]

O desejo da novidade passou a ser, então, o dogma da sociedade contemporânea, levando o homem a se cansar rapidamente das coisas, querendo continuamente substituí-las por outras, o que o tornou incapaz da estabilidade e, portanto, do estado espírito exigido pela contemplação. Esta, junto com muitas outras práticas da Religião, foi sendo cada vez mais relegada a um segundo plano, até se dissociar completamente da vida cotidiana:

No fundo, tratava-se de um laicismo que não consistia apenas em silenciar os temas referentes a Deus e ao mundo sobrenatural, mas em apresentar uma visão das atividades do homem diante da qual a Religião era considerada uma coisa com la quale o senza la quale il mondo va tale e quale[com a qual ou sem a qual o mundo continua tal e qual].[5]

Quebrava-se assim, de forma mais ou menos explícita, a necessidade da relação que deve existir entre as criaturas contingentes e o Criador, resultando no mundo pragmático e materialista de nossos dias.

De fato, aquilo que satanás promete, é exatamente o que vai tirar: as promessas de paz e segurança. Basta frequentar qualquer um dos grandes centros urbanos do mundo contemporâneo: em vez de paz, encontra-se agitação; em vez de realização, frustração e infelicidade quase irreversíveis. A alma que voluntariamente se entrega a este estado de espírito se expõe a receber constantes influências malignas.

[…] há um barulho, um ruído ensurdecedor no mundo que seduz as pessoas e estas, em tais condições, não escutam a suave voz do Divino Mestre. Esse barulho, embora possa ser tomado no sentido material da palavra, antes de tudo significa o tumulto das paixões humanas desordenadas que nos levam a agir e a nos movimentarmos de maneira igualmente desordenada. Donde uma espécie de perturbação difusa nas grandes cidades, uma agitação da vida moderna e seus acontecimentos, que embriagam e fascinam imensa parcela dos habitantes dos maiores centros urbanos. Ora, enquanto houver numa alma esse deleite com o tumultuar do século, algo da delicada voz de Nosso Senhor Jesus Cristo não chegará até ela. Nesta sua lamentável surdez irão esbarrar e se deter as inspirações da graça.[6]

Como diz a Sagrada Escritura: “Non in commotione Dominus” (Vulgata: III Rs 19, 11) — “O Senhor não está na agitação”— e nem pode ser causa dela.

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[1] SÃO FRANCISCO DE SALES. Introdução à vida devota. 5.ed. Porto: Porto Médico, 1948, p.270.
[2] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Vida mecânica, vida natural. In: Catolicismo. São Paulo, n. 55, jul. 1955, [s. p.].
[3] Id. Revolução e Contra-Revolução. 5. ed. São Paulo: Retornarei, 2002, p.85.
[4] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Notas Autobiográficas. São Paulo: Retornarei, 2010, v.II, p.103.
[5] Ibid. p.107.
[6] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. O partido de Jesus e o do mundo. In: Dr. Plinio. São Paulo: ano XI, n. 118. jan. 2008, p. 12.

Três reis à busca do Rei

Ir.Juliane Campos, EP

Tendo, pois, nascido Jesus em Belém de Judá, reinando o Rei Herodes, eis que uns Magos chegaram do Oriente a Jerusalém, dizendo: Onde está o Rei dos Judeus, que acaba de nascer? Porque nós vimos sua estrela no Oriente, e viemos adorá-lo” (Mt. 2, 1-2).

Quanta poesia encerra esta sintética narração do Evangelho! Grandes e pequenos imaginam as longínquas terras do Oriente: deserto, calor, pedras preciosas, ricos e coloridos tecidos, turbantes, camelos e até mesmo elefantes (meio de locomoção do séquito do rei proveniente da África). Uma estrela, que brilha com intensidade fulgurante, faz com que os três grandes e poderosos monarcas do Oriente, estudiosos dos astros e conhecedores das escrituras, deixem seu reino e partam em busca d’Aquele que é o Rei dos Reis, Rei de todas as nações e Sol de Justiça: um Deus feito Menino.

Enfrentando todas as adversidades do transcurso, encontram-se eles nas areias douradas do deserto e seguem juntos no caminho que os levará a Jerusalém. Não medem esforços, levam seus tesouros mais preciosos, ajudam-se. Sendo eles também monarcas, querem encontrar-se com o Rei, não só para Lhe renderem suas homenagens, mas também para adorá-Lo.

Um Rei-Menino, um Menino-Deus, nascido de uma Virgem e posto num Presépio… Que aparente contradição! No entanto eles crêem, eles buscam, eles chegam por fim a Jerusalém. Depois de um contato com o perverso, invejoso e orgulhoso Herodes, que queria encontrar o Menino para matá-Lo, pois lhe parecia um rival, partem os Magos de Jerusalém para Belém de Judá, pois, conforme as profecias, aí deveria nascer o Salvador de todos os homens. Uma vez mais contemplam a bela e rutilante estrela que lhes havia guiado desde o Oriente e se enchem de alegria pela proximidade do encontro com seu Rei.

Chegando a Belém, encontram Maria, José e o Menino, este deitado em humilde manjedoura, aquecido por palhas e pelo amor de sua Mãe. Prostrando-se, O adoram! Abrindo seus tesouros Lhe oferecem ouro, incenso e mirra. Segundo as tradições orientais, eles prostraram-se por terra por reconhecerem nesse Menino seu Rei e seu Salvador. Ninguém, no Oriente, se apresentava diante de um rei sem lhe oferecer presentes. Os Magos entregaram a Jesus os melhores tesouros do Oriente: o ouro, como a um Rei, o incenso, como a um Deus e a mirra, como a um Homem mortal, já que esta simboliza o sofrimento. De regresso, voltaram por outro caminho para sua terra, pois Deus lhes avisou em sonhos que não retornassem à presença do malvado Herodes.