Quem é Deus?

Laura Compasso de Araujo

2º Ano Ciências religiosas

Essa é a pergunta que habita naturalmente no coração do ser humano. Fruto do senso do divino em sua alma, todo homem tem o desejo de saber quem é esse Ser Absoluto, quem é esse Governador Universal que rege todas as coisas. Tanto é assim que, em todos os lugares, em todas as épocas e povos, houve o desejo de entrar em contato com o sagrado e a manifestação de algum culto religioso. Embora todos se fizessem essa pergunta,  muitos encontraram a resposta errada, caindo em idolatria. Enquanto uns adoravam deuses falsos,  o próprio Deus declarava Quem Ele é ao povo eleito.

Aquele que É

Deus Respondeu a Moisés: “EU SOU AQUELE QUE SOU”. E ajuntou: “Eis como responderás aos israelitas: Aquele que se chama EU SOU envia-me junto de vós. (cf. Ex 3, 14)

O Catecismo da Igreja Católica nos ensina que devemos humildemente admirar essa resposta divina, sabendo que, ao revelar seu nome misterioso de Iahweh, “Eu sou Aquele que é” ou “Eu sou Aquele que SOU” ou também “Eu sou Quem sou”, Deus declara quem Ele é e com que nome se deve chamá-lo. Este nome divino é misterioso como Deus é mistério. Ele é ao mesmo tempo um nome revelado e como que a recusa de um nome. Desse modo, exprime-se a realidade de Deus como Ele é, infinitamente acima de tudo o que podemos compreender ou dizer: ele é o “Deus escondido” (Is 45,15), seu nome é inefável, e ele é o Deus que se faz próximo dos homens.1

São Tomás de Aquino, um luzeiro no firmamento da Santa Igreja e na Teologia, afirma que, para sabermos Quem é Deus, precisa-se usar as vias da negação e da analogia; ou seja, comparação. Imaginemos, então, o universo como o conhecemos. Estrelas, planetas, galáxias e outros corpos celestes que talvez o ser humano nunca conheça. Diante dessa grandeza e dessa imensidade ficamos estupefatos e nos sentimos pequenos, minúsculos até. Mas o que é o universo perto de seu Criador? Grande é o Senhor e sumamente louvável, insondável é Sua grandeza (51, 144,3). Deus é infinitamente maior que o universo, o qual perto dEle, não é senão uma mera criatura;“nas suas mãos estão as profundezas da Terra, e os cumes das montanhas lhe pertencem. Dele é o mar, ele o criou, assim como a terra firme, obra de suas mãos.” (Sl 94, 4-5)

A Infinidade de Deus

Alguns dos atributos de Deus possuem esse adjetivo: infinito. Então é a Bondade Infinita, a Beleza Infinita, a Perfeição Infinita. Em que consiste essa infinidade  de Deus?

O mesmo São Tomás explica que, em algo material, a infinidade é uma imperfeição, já que a matéria é delimitada por uma forma e, se fosse uma forma infinita, seria quase uma matéria sem forma, uma imperfeição. No entanto, Deus não é matéria. E uma forma não restringida a uma matéria é mais perfeita, expressa mais sua amplitude, porque subsiste por si. Aquele que é sumamente formal, o Ser divino que não está contido em algo, é infinito e perfeito em razão disso.2

Ademais, o intelecto humano estende a intelecção ao infinito, e sinal disso é que, posta ao seu conhecimento alguma quantidade finita, ele pode pensar em outra maior. Ora, essa ordenação do intelecto para o infinito seria inútil, caso não existisse alguma coisa inteligível infinita, que deve ser a maior de todas.3 Sendo o homem criado por Deus e para Deus, um dos melhores exemplos da infinidade de Deus é a própria alma humana, que tende sempre ao infinito e ao absoluto.

A hierarquia como reflexo da infinidade e da imensidade de Deus

A partir destas considerações, é possível chegar à conclusão de que esses atributos de Deus explicam a existência de tantos seres diferentes no mundo. Qualquer pessoa com o uso da razão pode chegar à conclusão de que a igualdade absoluta não existe, em nenhum aspecto do universo, em nenhum campo da vida humana, entre nenhum animal ou vegetal, nem entre os anjos, nem mesmo entre as pedras. O Professor Plinio Correa de Oliveira, grande pensador católico do séc. XX, desenvolve a ideia de que para haver reflexo de Deus na criação, não seria possível esse reflexo se dar em uma criatura só, porque sendo Deus infinito, ela seria Deus. Então a necessidade de uma multiplicidade de criaturas, diferentes e ordenadas, para ser mais perfeita a expressão da infinidade e da imensidade de Deus. Todos os seres existem em cadeia, numa inter-relação constante, constituindo uma única e bela ordem na qual superiores e inferiores são necessários uns para os outros.4

A presença de Deus

Como se pôde observar, o conceito de infinidade pressupõe o de ubiquidade. Vimos que, sendo Deus infinito, não pode ser contido em nenhum lugar, pois assim estaria limitado. No entanto, se não podemos afirmar que Deus está em algum lugar específico, tampouco podemos afirmar que não está em nenhum lugar. Decorre daí a conclusão de que Ele está em todos os lugares e em todas as coisas: a ubiquidade de Deus. Assim afirma o salmista: “para onde irei, longe de vosso Espírito? Para onde fugir, apartado de vosso olhar? Se subir até os céus, ali estareis; se descer à região dos mortos, lá vos encontrarei também”. (Sl 138, 7-8)

Não pensemos que todas as coisas são “partículas” de Deus, mas sim que tudo, sendo criatura Sua, não pode fugir de Seu olhar e é sustentado na existência pelo Criador. Saber disso é de grande importância para o ser humano, que, vivendo com isto presente, pensaria duas vezes antes de praticar qualquer ato. Assim nos dá exemplo São Francisco de Sales, que vivia tão compenetrado da presença de Deus que, estando sozinho ou na companhia de outros, sempre tinha uma postura digna, modesta e solene. Costumava dizer que não sentia constrangimento algum diante de reis ou príncipes, pois estava habituado a encontrar-se na presença de um Rei muito maior, que lhe inspirava respeito.5

Ao nos darmos conta de tanta grandeza, talvez nos sintamos pequenos e retraídos diante de Deus Criador e Onipotente. Grande engano! Lembremo-nos que Ele se fez homem e quis habitar entre nós. Nosso Senhor Jesus Cristo está dia e noite à nossa espera no sacrário. O Deus infinito que está em todos os lugares, está ali não só como Sustentador e Criador, mas em Corpo, Sangue, Alma e Divindade! Não rejeitemos dom tão excelso! Que cresçamos na devoção a Nosso Senhor Sacramentado, e lhe agradeçamos por tanto amor que manifestou por nós.

1 Catecismo da Igreja Católica, ed. Loyola, 2011, p. 65, 206.

2 Summa Theologica 1, q.7, a. 1.

3 Suma contra os gentios, Livro 1, c. XLII, 8.

4 Revista Dr. Plinio, n° 117, dezembro de 2007. A hierarquia na criação, p. 11.

5 ITTA, IFAT. Deus… Quem é Ele?. Instituto Lumen Sapientiae, São Paulo, 2012, p. 50.

O Orgulho de São Francisco?

Ir. Maria José Vicmary Feliz Gómez

Avisado da vinda de São Francisco, todo o povo o esperava, desde muito cedo, às portas da cidade. Muitos tinham ido, ainda na escuridão da noite, na esperança de obter os melhores lugares e, assim, ficar mais próximo do santo na sua passagem. Alguns rezavam o terço, outros faziam as mais diversas promessas, desejosos de receber a graça de algum convívio…

– Quem sabe ele olha em nossa direção? – exclamavam com entusiasmo alguns dos presentes.

– Ou melhor! Quem sabe conseguimos algum cumprimento? – comentavam outros.

De repente, entre aplausos, exclamações e grande alegria, São Francisco entrou no povoado. Aqueles que se encontravam mais perto aproximaram-se dele para oscular- lhe o hábito, as mãos e os pés, sem encontrar da parte do santo nenhuma resistência. Porém, o frade que o acompanhava julgou que, aceitando tais honras, São Francisco pecava contra a virtude da humildade. Foi tão forte a tentação que, finalmente, confessou seus pensamentos ao santo.

– Estas pessoas, meu irmão, nenhuma coisa fazem à altura da honra que deveriam render – respondeu-lhe São Francisco.

Ao ouvir essa resposta, o frade ficou ainda mais escandalizado, pois não entendeu as palavras do santo. Então, vendo sua perplexidade, São Francisco disse-lhe:

– Meu irmão, esta honra que me vedes aceitar, não a atribuo a mim, senão que a transfiro a Deus, pois d’Ele é, e eu fico no mais profundo do meu nada. Eles lucram com isto, pois reconhecem e honram a Deus na sua criatura.

Que Nossa Senhora nos conceda a graça de nunca perder a oportunidade de glorificar a Deus através dos modelos de virtude que a Divina Providência coloca diante de nossos olhos, para que, assim, de enlevo em enlevo, galguemos a montanha da admiração e nos transformemos naqueles mesmos que admiramos.

A virtude dos verdadeiros apinistas

Luísa Gurgel –  1º ano de Ciências Religiosa

Há uma virtude muito importante e sobre a qual existem conceitos muito deturpados atualmente: a seriedade.

Julga-se que seriedade é sinônimo de mau-humor, falta de educação, antipatia ou algo do gênero. Entretanto, Plinio Corrêa de Oliveira define esta virtude da seguinte forma: “A seriedade é a disposição de alma de uma pessoa que está profundamente penetrada pela Fé Católica e que está penetrada, portanto, da gravidade das coisas da vida humana, como tudo passa, como tudo se desfaz e que, afinal de contas, eterno é só Deus, bom é só Deus. E que toda a nossa vida deve ser orientada para Deus Nosso Senhor, para a glória d’Ele, para a vitória d’Ele”.

Tendo o homem sido criado para conhecer, amar e servir a Deus e, mediante isto, alcançar a vida eterna, deve viver pensando neste fim último, como sempre fizeram aqueles que nos precederam com o sinal da Fé.

Imitemos os grandes santos, tomando as atividades práticas como realidades às quais temos que nos dedicar como grandes alpinistas, ou seja, com os olhos postos nos píncaros mais altos.

A serena e irreversível vitória da Fé

Ir. Clara Isabel Morazzani Arráiz, EP 

Poucos há que não tenham ouvido falar das catacumbas de Roma, e muitos já as percorreram. Trilhadas diariamente por milhares de visitantes, essas galerias subterrâneas exercem misteriosa atração e produzem nos peregrinos uma impressão profunda e inesquecível.

Em meio à penumbra desses estreitos labirintos, escavados alguns com mais de 20 m de profundidade, o observador atento é surpreendido a cada passo pelas cavidades retangulares abertas ao longo das paredes, sobre as quais, por vezes, encontram-se inscrições, nomes ou desenhos: são as sepulturas dos cristãos, muitos deles mártires, dando eloquente testemunho de um passado heroico, selado com o sangue daqueles que nos antecederam na Fé.

Em diversos pontos os corredores dilatam-se, dando lugar a exíguos aposentos, decorados com rudimentares afrescos, e em cujo centro vê-se um altar. Reina no ambiente um imponderável de piedade e recolhimento, cortado apenas pela voz do guia: “Esta sala servia de capela e sobre este altar os Papas celebravam a Missa!”.

Refúgio seguro para celebrar os sagrados mistérios Continue lendo

O silêncio: o grande conselheiro

Ir. Gabriela Victoria Silva Tejada

É noite e, no cume da montanha, reina a mais negra escuridão, apenas cortada pelos pálidos reflexos da lua que, por entre espessas camadas de nuvens, rasgam por alguns momentos as trevas. É noite escura, as estrelas quase não brilham, parecem mudas no firmamento à espera de grandiosos acontecimentos que lhes anunciem a vitória. No alto da montanha, uma altiva e imponente construção parece desafiar a noite com suas torres e ameias belamente talhadas na pedra. É um magnífico castelo, uma fortaleza antiquíssima, uma relíquia da Cristandade.

Apesar de ser meia-noite, uma luz brilha com intensidade incomum no recinto sagrado do castelo; no altar-mor seis velas iluminam um riquíssimo crucifixo de mármore encrustado de pedras preciosas e os brilhos multicolores que destas se espargem à luz das velas são refletidas com particular beleza na prateada lâmina de uma espada, que honrosamente repousa em cima do altar. Ao seu lado, a imagem da Virgem das Batalhas olha com predileção a uma figura, que de joelhos, passa horas desta noite escura em silêncio e oração.

É um cavaleiro, ou melhor , será ” armado cavaleiro” se passar com heroica piedade a noite de vigília de armas. Reina o mais profundo silêncio no Castelo, na montanha e quase se poderia dizer que em toda a face da Terra. O mundo inteiro parece conter a respiração para assim admirar, no mais profundo silêncio, este intrépido penitente. Sua oração, embora silenciosa, comove os Anjos que ali o observam e o protegem, afugentando os demônios que parecem não suportar tanta quietude. E é na negrura da noite que este mesmo silêncio começa a falar ao coração do jovem cavaleiro.

Sem ainda compreendê-lo completamente, o cavaleiro levanta ao céu uma fervorosa oração e agradece, com filial afeto, ao Pai do Céu por lhe conceder conhecer os mistérios da cavalaria, não em um campo de batalha, mas no profundo silêncio de uma noite de oração. Seu espírito, antes ávido de glórias passageiras e mundanas, acaba de ser iluminado pela fé e busca não mais a sua própria glória, mas a de Deus; não mais os efêmeros aplausos da nobreza, mas sim, os méritos com que são coroadas as virtudes; não a conquista de praças e fortalezas, mas a coroa da gloriosa santidade que só os verdadeiros soldados de Cristo conquistam.

A aurora ainda não chegou, a escuridão da noite se recusa a dissipar-se; os pálidos raios do sol ainda não venceram a batalha do amanhecer e este jovem cavaleiro permanece ainda de joelhos diante do Tabernáculo. Os fantasmas da noite não o desanimaram, o silêncio e a obscuridade fortaleceram-no em seus propósitos de santidade, e a Virgem Imaculada, qual terna e bela mãe, protegeu seu espírito contra as frivolidades da idade.

E o que diz o silêncio? O silêncio fala de Deus e da Virgem, que certamente dali o observam com predileção. O silêncio narra as gloriosas batalhas dos mártires cujas relíquias são veneradas há séculos e, ensina-lhe o segredo de tais virtudes heroicas. O silêncio fá-lo recordar os prodigiosos feitos de seus antepassados​​, e as tremendas lutas que travaram para gloriosamente conquistar a coroa da eterna bem-aventurança. Também ele deverá se esforçar para obter a glória de seus antepassados ​​e a virtude dos santos. No silêncio da noite, o cavaleiro analisa o seu futuro na defesa da fé e da Igreja: as guerras e batalhas, os perigos e ameaças da vida de campanha, as aventuras e dificuldades enfrentadas durante as guerras, os infortúnios e derrotas que ocorrem quando se é covarde e medíocre, a tristeza e desolação que assola o inconstante e indisciplinado. As horas se passaram, mas o humilde cavaleiro persiste em sua vigília e estes e muitos outros pensamentos sussurram ao seu ouvido o silêncio …

Este cavaleiro se lembrará por toda a vida que aprendeu mais no silêncio da vigília de armas do que nas mais gloriosas e sangrentas batalhas, e que o segredo da vitória não está no meio da agitação de armas, mas sim naquela paz e, que iluminado pela graça se entrega nas mãos da Providência, para que Ela o sustente, o guie e o conduza à morada eterna …

Quiçá, quem está lendo estas poucas linhas sorri ao terminar de fazê-lo e, julgue – não sem uma forte dose de “senso comum” – que esses belos pensamentos pertencem infelizmente ao passado, e só podem figurar nas páginas de alguma ” Catena Aurea”, incapazes de fazer eco no meio do buliço da sociedade hodierna.

Para uma sociedade tecnológica como a nossa, onde como outros Baals, os ídolos da modernidade levantam seus altares em todos os lugares, arrastando a humanidade inteira – cada vez mais pragmática e ateia – para os abismos da irracionalidade, parece loucura querer falar em silêncio … Para os homens de hoje, não há tempo para pensar, meditar e muito menos para se calar. A humanidade caminha escravizada por um exército tão atrativo como perigoso, composto por agentes cada vez mais numerosos: telefones, televisores, computadores, telefones celulares, smartphones, iPods, tablets … e um sem fim de componentes tecnológicos capazes de aterrorizar a alma de qualquer pobre medieval que pudesse contemplá-los, e que têm cruelmente substituído as formas mais orgânicas de relacionamento humano.

Este exército virtual conquistou as mentes humanas, quase que imperceptivelmente, e alterou drasticamente os costumes da sociedade, relegando à “idade da pedra” as antigas e amenas tertúlias entre amigos, as acaloradas discussões nas praças, as tradicionais conversas de família, as meditações de um monge, as boas leituras de um jovem em uma tarde de inverno e até mesmo as inocentes brincadeiras de crianças, por intermináveis ​​e odiosos videogames, chats, twitters e tudo o mais que estão ainda por ser inventados, eliminando completamente os momentos plácidos e necessários de silêncio que possuía a humanidade.

De fato, o esplendor e fecundidade escondidos no silêncio são um precioso tesouro que a humanidade precisa redescobrir e verdadeiramente praticar para alcançar os picos mais altos da santidade. Ele é a autêntica força na formação espiritual das almas, e dá seus frutos na vida religiosa; que podem ser, perfeitamente, aplicados à vida secular dos católicos no século XXI.

A pátria da dor e da misericórdia

  Ana Laura de Oliveira Bueno – 1° ano de Ciências Religiosas

Eis o lugar onde os minutos são séculos intermináveis, onde a dor e a expiação se misturam à alegria e à consolação da esperança de poder ver a Deus num face a face eterno: o caro leitor certamente já concluiu que se trata da Igreja padecente.

De fato, ninguém merece o Céu facilmente. O purgatório é a pátria da justiça rigorosa e, ao mesmo tempo, é a pátria da infinita misericórdia de Deus: pois, para nós é uma grandíssima misericórdia encontrar, após a morte, um lugar de expiação e apesar do grande rigor da justiça divina, consola-nos a ideia de que no purgatório deve haver consolações e alegrias.

Alegrias? Pode haver neste estado onde almas, inclusive santas, passam anos num fogo expiatório – semelhante ao da negra prisão do inferno – por pecados veniais alguma alegria autêntica?

São Francisco de Sales é quem nos vai dizer que as alegrias e as consolações que de fato existem no purgatório são um bálsamo suavizante para as almas. No tocante a este assunto, o Bispo e Doutor da Igreja sintetizou alguns pontos a respeito das almas padecentes:

  1. As almas do purgatório estão numa contínua união com Deus e perfeitamente submissas à vontade d’Ele. Não podem deixar esta união divina e nunca podem contradizer a divina vontade, como infelizmente acontece conosco, neste mundo;
  2. Elas se purificam com muito amor e com muito boa vontade, porque sabem que é esta a vontade de Deus. Sofrer para fazer a vontade de Deus é uma alegria para elas.
  3. Elas querem ficar à maneira que Deus quer e quanto tempo Ele quiser.
  4. Elas são impecáveis e não podem experimentar nem o mais leve movimento de impaciência, nem cometer uma imperfeição sequer.
  5. Amam a Deus mais do que a si próprias e mais que todas as coisas e com amor muito puro e desinteressado.
  6. As almas são consoladas pelos Anjos.
  7. Elas estão seguras da sua salvação e com uma segurança que não pode ser confundida.
  8. As amarguras que experimentam são muito grandes, mas numa paz profunda e perfeita.
  9. Se, pelo que padecem, estão como numa espécie de inferno, quanto à dor, é um paraíso de doçura, quanto à caridade, mais forte do que a morte.

Com efeito, há uma esperança da salvação certa, não obstante o grande sofrimento, mormente no escuro e fundo purgatório. E a nós, filhos e filhas daquele que não admite pequenas concessões e é absolutamente intransigente em relação aos pecados veniais, vale sempre a máxima: “Sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito”. Ou seja: nossa santidade deve ser tal, que não se concebe sequer que esperemos passar por um longo purgatório! Em nossas almas não deve haver espaço para semi-fidelidades, semi-virtudes e pequenas concessões, mas antes devem ser receptáculos de um desejo radical de entrega completa ao sofrimento nesta terra de exílio e de uma cega confiança em Nossa Senhora, que abaterá todas as nossas misérias se estivermos em consonância com Ela, levando-nos ao convívio completo e eterno pelo qual tanto e tanto almejamos.

Peçamos, pois, esta graça, pela intercessão de nossos santos padroeiros e das santas almas do purgatório: retidão absoluta e santidade levada até as últimas consequências!

                            

 

Diminuto reflexo da Inocência

Ir. Ariane Heringer Tavares, EP

Ao passearmos por um jardim, é frequente nos depararmos com singelas cenas que nos encantam. Será um pássaro colorido bicando frutas e levando alimento para o ninho; será uma abelha a extrair o néctar das flores; ou, ainda, uma fileira de disciplinadas formigas carregando provisões para o inverno. Poucas descobertas, entretanto, são tão agradáveis quanto encontrar uma joaninha sobre as folhas de um arbusto, adornando-o qual pedra preciosa.

Embora pertença à família dos rudes besouros, a graciosa aparência deste diminuto inseto pouco tem em comum com a maior parte deles. Simpática, delicada e de cores brilhantes, quase ninguém se contenta em admirá-la apenas com os olhos… E ao nos aproximarmos, ela não opõe resistência: com suavidade, passa da pétala de uma flor à mão de quem a contempla embevecido.

Apesar de seu aspecto insignificante, a joaninha tem um importante papel na agricultura, pois se alimenta das pragas que costumam atacar as lavouras. Uma bela lenda medieval põe em realce esta qualidade, narrando um fato acontecido quando as plantações de certa região da Inglaterra estavam sendo devastadas por pulgões.

Os camponeses, homens religiosos e confiantes no auxílio da Providência, resolveram fazer uma promessa à Santíssima Virgem, implorando que os livrasse daquela terrível peste. E Nossa Senhora, que nunca deixa de ouvir as súplicas de seus filhos, logo os atendeu de maneira singular: apareceram nos campos nuvens de joaninhas que, seguindo a ordem de seus instintos, exterminaram os nocivos parasitas e salvaram a colheita.

Diz-se que daí provém o seu nome em inglês: Ladybug, ou seja, inseto de Maria, na forma abreviada de Our Lady. Sua denominação em alemão, Marienkäfer, cuja tradução é besouro de Maria, também recorda esta piedosa história. E um canto tradicional sueco a chama de jungfru Marias nyckelpiga, que quer dizer serva da Virgem Maria.

Não obstante, mesmo se deixamos de lado esta encantadora e conhecida legenda, não é difícil percebermos que esta minúscula criatura reflete com candura um aspecto do Autor de toda grandeza. “Quem tem a alma feita para adorar a Deus, está apto também para admirar tanto as coisas maiores como as menores criadas por Ele, encantando-se ao contemplar o Sol, mas também ao olhar para a terra e ver um bichinho”… nossa joaninha!

Se, ao considerarmos uma águia real, de imediato nos vem à mente a majestade do Senhor, que do alto governa e domina a obra de suas mãos, ao vermos a joaninha nos lembramos de que o Altíssimo é também a Inocência, que promete o Reino dos Céus aos pequeninos e Se compraz em revelar-lhes os mistérios de sua sabedoria.

Revista Arautos do Evangelho – Agosto 2015

À Vossa proteção recorremos…

Ir Mariella Antunes

Numa madrugada fria, do rigoroso inferno da longínqua Rússia, enquanto subia a encosta da montanha principal da região do Tykrapshol, o trem Marie se desviou de sua rota normal e atrasou o horário de sua chegada, deixando muitos em grande aflição. O que poderia ter acontecido?

– Eu acredito e posso dar o meu testemunho. Foi um milagre! Um milagre! –  exclamava o motorista do trem ao ser interrogado pelos seus superiores.

Qual o motivo que o fez parar no meio do percurso? Todos estavam surpresos e queriam saber o que tinha ocorrido, mas o motorista não parava de repetir a frase acima.

Que “milagre”seria esse? E que “testemunho” ele poderia dar?

Ao seguir pelos trilhos, em uma considerada velocidade, o maquinista, Jorge Krash, viu diante do trem uma grande sombra que ofuscava o farol esquerdo, parecendo fazer sinal para diminuir a velocidade e parar a máquina. O senhor Krash julgou que estava tendo alguma falsa impressão e que as altas horas da noite estavam influenciando e despertando sua imaginação. Prosseguiu o percurso como se nada tivesse acontecido.

Minutos depois, a mesma sombra apareceu novamente, fazendo sinais ainda mais rápidos. Isso se repetiu por mais três vezes. Não podendo mais conter-se, viu que não poderia ser apenas imaginação e começou a diminuir a marcha até o trem parar. Todos os passageiros, assustados com a repentina parada, correram às janelas para ver o que tinha se passado. Para sua surpresa constatou que a “grande sombra” era produzida pelas frágeis asas de uma borboleta…

Depois de certificar-se que era só isso que estava acontecendo, o motorista subiu novamente no vagão para recomeçar o caminho. Enquanto acionava os botões de partida, um dos passageiros deu um forte grito:

— Alto! Não avance, se não morremos todos!

Esse passageiro pôde de sua janela avistar uma grande pedra que havia se despregado da montanha e obstruía a passagem pelos trilhos. Nesse momento, todos compreenderam que aquela repentina parada tinha sido uma intervenção da Divina Providência. Se o trem tivesse continuado com a velocidade anterior, teria batido fortemente contra a pedra, ocasionando um grave acidente, uma explosão e, consequentemente, a morte de todos os passageiros.

O senhor Krash, convicto da proteção de seu anjo da guarda, o qual sempre invocava antes de suas viagens, confirmou que o motivo que o fizera parar, tinha sido a sombra de uma borboleta posta ali para salvá-los.

Essa é uma bela história que, embora  ilustrada, pode explicar vários fatos do nosso dia-a-dia

Muitas vezes, quando algum pressentimento ou uma forte tentação perturbam o nosso interior, logo concluímos: “coisa do demônio!”. Entretanto, quando temos uma boa inspiração, praticamos uma bela ação ou sentimos uma forte inclinação a praticar a virtude, julgamos que isso decorre de nós mesmos e nos esquecemos dos grandes guardiães que Deus nos concedeu com a missão de nos guiar desde o momento da nossa concepção até a Vida Eterna. Na Epístola aos Hebreus, encontramos que todos os anjos são espíritos a serviço de Deus, o qual lhes confia missões em favor dos herdeiros da salvação eterna (cf. Hb 1,14).

Ao longo da História, podemos comprovar como a Divina Providência quer a salvação de cada um dos homens e como Ela age para comunicar e realizar seu plano para humanidade. Por isso, Deus utiliza-se de criaturas como instrumento e envia seus Anjos que, como mensageiros celestes, executam Sua vontade e se relacionam com os homens. Como diz São João da Cruz: “Os anjos, além de levar a Deus notícias de nós, trazem os auxílios divinos para nossas almas e as apascentam como bons pastores […] amparando-nos e defendendo-nos dos lobos, os demônios”.1

Os seres angélicos são puros espíritos dotados de personalidade, de inteligência e de vontade, de poder superior aos dos homens e que servem a Deus de um modo mais próximo e estável. O Catecismo nos ensina que “Jesus anuncia em termos graves que ‘enviará seus anjos, e eles erradicarão de seu Reino todos os escândalos e os que praticam a iniquidade, e os lançarão na fornalha ardente’ (Mt 13, 4 1-42) de punição dos condenados, a qual é eterna e durará para sempre” (CCE 1034). Sendo essas criaturas mais perfeitas – o espiritual é maior do que o material – a Providência criou esses serem em maior quantidade que os homens e que toda e qualquer criatura material: “Milhares de milhares O serviam e centenas de milhares assistiam ante seu trono” (Dn 7,10).

Assim, os Anjos, mais especialmente o nosso Anjo da Guarda, estão sempre ao nosso lado e, como que, nos olham do Céu aguardando que busquemos o auxílio deles e os convoquemos para estarem entre nós. Saibamos, pois, recorrer a esses intercessores celestes nesta grande batalha do homem que é a face da Terra, até chegarmos um dia, pela misericórdia Divina e a intercessão de Maria Santíssima com sua Corte Angélica, à Vida Eterna.

1 SÃO JOÃO DA CRUZ. In: Revista Arautos do Evangelho, n. 58, p. 35.

Beleza quase paradisíaca

Ir. Allana Neves Colati, EP

Dentre as distintas paisagens criadas por Deus e espalhadas pelo mundo, há algumas que nos enchem de admiração. Como não se encantar com as águas, ora azuis, ora verdes, dos mares tropicais? Ou com o níveo manto que recobre as regiões mais frias do planeta? Mas quiçá seja o outono nos bosques do Hemisfério Norte um dos mais extraordinários espetáculos que a natureza nos pode oferecer.

Nesta estação do ano, a temperatura começa a descer, tornando o bosque mais calmo e silencioso. Aproxima-se o inverno, sempre rigoroso naquelas regiões, mas, paradoxalmente, a fascinante coloração que tomam as folhas das árvores nesta época reveste a paisagem com um manto de vitalidade.

Elas têm diferentes formatos, tamanhos e tonalidades: algumas suavemente rosadas, outras, intensamente rubras ou resplandecentes como ouro. E compõem um lindo conjunto, que adquire cores muito variadas segundo o local, a perspectiva ou a iluminação do dia.

Tão maravilhosa cena, porém, não dura muito… Logo as folhas que irradiavam aquele glorioso esplendor são levadas ao léu por uma súbita rajada de vento ou secam e caem, para depois – como tudo na vida – desaparecerem.

Se no auge de sua magnificência uma dessas árvores, carregada de estupenda folhagem, fosse capaz de pensar, ao sentir uma brisa intensa e rápida a sacudir-lhe os ramos, poderia se perguntar:

– Será sinal da tempestade que se aproxima?

O vento frio, ainda suave, indica que a frágil vida das formosas folhinhas outonais está chegando ao fim… Em pouco tempo ele se transforma em uma forte ventania, que agita a árvore, sem interrupção, durante vários minutos.

Inicia-se, então, a segunda etapa do espetáculo, que já não tem mais por cenário as alturas admiráveis dos galhos, mas o prosaico solo. Ali aquelas folhas de feéricas cores, desligadas do tronco que as alimentava e as mantinha com vida, ornam nobremente a grama, compondo sobre ela um tapete de singular colorido. Dir-se-ia que elas aproveitam seus últimos haustos de vida para concluir a missão que Deus lhes dera: irradiar, no fim de sua existência, uma forma de beleza quase paradisíaca que, sob certo aspecto, supera à da primavera.

Revista Arautos do Evangelho, Abril 2015

A luz resplandece nas trevas

Ir. Letícia Gonçalves de Sousa, EP

Há certas horas da noite em que as trevas parecem estender seu reinado por toda a parte. As alegrias e vivacidades do dia são substituídas por uma densa obscuridade, pervadida de silêncio e carregada com o pesado fardo da incerteza e do perigo. Perante ela poder-se-ia perguntar: terá triunfado definitivamente a escuridão sobre a luz?

A resposta, porém, está na espera… Em determinado momento, uma tênue réstia de luz quebra o negrume da noite e uma claridade suave começa a desvendar as belezas da criação. É a aurora que chega, anunciando o dia!

Não obstante, existem trevas muito mais densas e terríveis do que as da noite: são as do pecado, que passaram a dominar o mundo depois da culpa original. E para vencê-las foi preciso também esperar, durante séculos!… Até que “a luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela” (Jo 1, 5).

Quando tudo parecia imerso nas sombras da morte, nasce “a verdadeira luz” (Jo 1, 9), Deus feito Homem, o Cordeiro Imaculado posto nas palhas de um Presépio, para redimir o gênero humano e vencer as trevas do pecado.

“Na mais feliz noite da História, os atributos de Deus se tornaram menos impenetráveis para nós. Jesus, além de externar a grandeza de sua onipotência, elevando o homem à divinização pela graça, pôde dizer-Se impecável: ‘Quem de vós Me acusará de pecado?’ (Jo 8, 46). […] Essas dádivas todas começaram seu curso na Gruta de Belém, trazidas pelo Menino Deus, coberto não só pelo estrelado manto da noite, como também por um véu de mistério”.1

E que mistério!… Mesmo depois de consumada a Redenção, quis Ele deixar sua luz a refulgir por todos os tempos na Santa Igreja Católica Apostólica Romana. Ela é a dispensadora das graças, pelos Sacramentos, e transforma as almas mais gélidas e obscuras em autênticos faróis de santidade. É ela que matiza o céu da História, ora com as luzes da inocência, ora com a brilhante púrpura do sofrimento, ora com o lilás das almas penitentes.

Que nela fulgure sempre a luz de Cristo, e que Maria Santíssima, Mãe da Igreja, ao trazer ao mundo a aurora da salvação, obtenha a graça de que sua ação se estenda pelos quatro cantos da Terra, conquistando todos os povos para seu Divino Filho, que veio como “luz para iluminar as nações” (Lc 2, 32).

1 CLÁ DIAS, EP, João Scognamiglio. Eternidade feliz. In: O inédito sobre os Evangelhos. Comentários aos Evangelhos dominicais. Domingos do Advento, Natal, Quaresma e Páscoa – Solenidades do Senhor que ocorrem no Tempo Comum. Ano A. Città del Vaticano-São Paulo: LEV; Lumen Sapientiæ, 2013, v.I, p.120.

Revista Arautos do Evangelho – Dezembro 2014

Via contemplativa: um chamado especial?

Ir. Ariane Heringer Tavares, EP

Como atingir uma total união com Deus? Será este um caminho disposto pela Providência somente para aquelas almas muito eleitas, chamadas a uma vocação especial?

Conforme os ensinamentos de diversos teólogos, todas as almas em estado de graça são chamadas à contemplação infusa, ou seja, a um convívio celestial, possuindo uma centelha da bem-aventurança de que gozam os justos no Céu. Aqui na terra, contempla-se a Deus como em um espelho. Somente no céu O “veremos como Ele é” (I Jo 3, 2). Com efeito,“não é que a graça da contemplação se dê aos grandes e não aos pequenos, senão que, com frequência, a recebem ambos; mais frequentemente os retirados e, algumas vezes, os casados”.1 Logo, não há estado algum entre os fiéis que possa ficar excluído desta graça, seja na tranquilidade de um claustro ou em meio às atividades da vida secular.

Isso se explica pelo fato de que todos os batizados, ao se tornarem participantes da natureza divina, recebem a graça santificante juntamente com as virtudes e os dons, que se desenvolvem com a caridade. Ora, segundo São Tomás de Aquino, “a vida contemplativa não se ordena a um amor qualquer a Deus, mas ao amor perfeito”.2 Portanto, é a virtude da caridade levada ao pleno desenvolvimento. Nesta perfeição de amor é que terá origem a fecundidade das ações próprias à vida ativa.

Ademais, é um bem que deve ser desejado e que não se nega àqueles que o procuram: “Se não fosse geral este convite, não nos chamaria o Senhor a todos, e ainda que chamasse, não diria: ‘Eu vos darei de beber’. […] Mas, como disse, […] a ‘todos’, tenho por certo que a todos os que não ficarem pelo caminho não lhes faltará esta água viva”.3

Recolhimento: conditio sine qua non…4

Entretanto, para que de fato a Santíssima Trindade faça dos homens a sua morada e os cumule com esta insigne predileção, se requerem algumas disposições espirituais, independentes do estado de vida em que se encontrem.

Além de um profundo desapego das coisas concretas, de uma inteira humildade e pureza de coração e da prática habitual das virtudes, é indispensável ainda outro fator que constitui condição indispensável para o desenvolvimento da vida contemplativa: o recolhimento. “Assim como a dissipação repele os bens divinos ou dificulta sua saudável influência, assim o recolhimento os atrai até nós e favorece sua eficácia”.5

Antes de tudo, é preciso esclarecer que recolhimento não é sinônimo de solidão ou silêncio. Estes são fatores que o tornam propício, mas não se confundem com ele. O recolhimento consiste, mais do que numa atitude exterior de afastar-se das ocupações do dia-a-dia, num estado de espírito que nada pode perturbar. “Uma alma recolhida é, pois, uma alma retirada das criaturas e que busca a Deus, sua vontade e seus desejos para conformar-se com Ele em tudo”.6

É um contínuo estado de oração no qual, mesmo em meio às mais diversas atividades, o coração e a mente estão sempre voltados para o sobrenatural. Em meio à dissipação e à agitação, dificilmente se poderá ouvir o chamado e as inspirações que o Espírito Santo sopra em nossas almas. “O silêncio da alma e dos sentidos exteriores é ‘a ajuda que prestamos a Deus para que Ele se comunique a nós’”.7 Mesmo os pecadores mais empedernidos, quando aprendem a ouvir essa voz interior, iniciam um processo de conversão que pode elevá-los aos altos píncaros da santidade, como narra Santo Agostinho em suas Confissões: “Eis que estavas dentro de mim e eu fora Te procurava. […] Chamaste, clamaste e rompeste minha surdez”.8

Além de atrair para a alma todos os bens celestiais, o recolhimento é o melhor meio de fazê-los frutificar. Ele é como um motor para as boas obras, como o caule que liga o fruto à videira, visto que nos coloca em contato com o Onipotente e nos faz trabalhar tendo em vista não as criaturas, mas unicamente a glória de Deus.

A pessoa que assim procede alcança rapidamente a santidade e tem sua vida transformada:

[…] Outrora tinha as suas horas de meditação e oração; agora a sua vida é uma oração perpétua; quer trabalhe quer se recreie, quer esteja só ou acompanhada, incessantemente se eleva para Deus, conformando sua vontade com a d’Ele: ‘quae placita sunt ei facio semper’ (Jo 8, 29) [“Eu faço sempre aquilo que é do seu agrado”]. E esta conformidade não é para a alma senão um ato de amor e entrega total nas mãos de Deus; as suas orações, as suas ações comuns, os seus sofrimentos, as suas humilhações, tudo está impregnado de amor a Deus.9

Não nos faltam exemplos de como as comunicações divinas se fazem sentir sobretudo nos momentos de recolhimento e de como este leva a frutificar os dons recebidos na contemplação. Entre os inúmeros fatos que nos narram as Sagradas Escrituras, dois são especialmente dignos de nota.

Em primeiro lugar, tomemos os quarenta dias de retiro sobre o Monte Sinai. Antes de firmar com o povo de Israel a Aliança definitiva, em que se realiza a entrega das tábuas da Lei contendo o Decálogo, o próprio Deus convida a Moisés para que suba para junto d’Ele: “Sobe para mim ao monte e deixa-te estar aí” (Ex 24, 12). Exige o Senhor que seu servo se prepare e esteja à altura da missão de que será portador. Para isso, deseja que ele suba, ou seja, que se afaste das coisas terrenas. Moisés sobe, mas somente depois de sete dias de recolhimento o Senhor lhe dirige a palavra. “E, entrando Moisés pelo meio da nuvem, subiu ao monte, e lá esteve quarenta dias e quarenta noites” (Ex 24, 18).

Somente depois de quarenta dias de retiro e contemplação lhe são entregues as tábuas da lei…

Outro relato nesse sentido é a preparação para a descida do Espírito Santo. Consta nos Atos dos Apóstolos que, após a ascensão de Jesus, os discípulos voltaram para Jerusalém e se reuniram no Cenáculo. Muitos deles ainda julgavam que aquele seria o momento da implantação do reino político do Messias e que obteriam com isso uma grande glória mundana.10 No entanto, apesar desse estado de espírito infelizmente reinante, é preciso reconhecer que estavam ali reunidos à espera do batismo de fogo que, segundo as palavras do Mestre, receberiam dentro de alguns dias.

Por isso, “todos estes perseveravam unanimemente em oração, com as mulheres, e com Maria, a Mãe de Jesus” (At 1, 14). Assim, a graça tinha meios para atuar e preparar suas almas para o precioso Dom que receberiam e em virtude do qual expandiriam a Igreja de Cristo por toda a terra. “Estavam recolhidos, modo excelente de preparação para os grandes acontecimentos”11. Passaram-se dez dias de contínua oração até o cumprimento da promessa de Nosso Senhor. “Em geral, Cristo ressurrecto escolhia oportunidades como estas — de reflexão e compenetração da parte de todos — para lhes aparecer, assim como o Espírito Santo para lhes infundir seus dons”.12

Passados esses dias de contemplação, os apóstolos retomaram novamente suas atividades e, através desse recolhimento regenerador, foram assumidos por um entusiasmo e um fogo que antes não possuíam.
Donde destacarmos a necessidade da contemplação para o sustento da vida espiritual, conceito tantas vezes esquecido nos dias atuais, tão penetrados pelo ateísmo e pelo pragmatismo.

[1] ROYO MARÍN, Antonio. Op.cit. p. 454: “[…] no es que la gracia de la contemplación se dé a los grandes y no a los pequeños, sino que con frecuencia la reciben los grandes y con frecuencia los pequeños; más frecuentemente los retirados y alguna vez los casados”. (Tradução da autora)
[2] SÃO TOMÁS DE AQUINO. Summa Teologiae, II-II, q.182, a. 4, ad 1: “[…] vita contemplativa non ordinatur ad qualemcumque Dei dilectionem, sed ad perfectam”. (Tradução Loyola. Doravante se utiliza sempre esta tradução para esta obra)
[3] SANTA TERESA DE JESUS. Camino de perfección. C. 19, 15. In: Obras completas. 9. ed. Madrid: BAC, 2006, p. 319: “Si no fuera general este convite, no nos llamara el Señor a todos, y aunque los llamara, no dijera: ‘Yo os daré de beber’. […] Mas como dijo, […] ‘a todos’, tengo por cierto que todos los que no se quedaren en el camino, no les faltará esta agua viva”. (Tradução da autora)
[4] Condição indispensável. (Tradução da autora)
[5] ROYO MARÍN, Antonio. La vida religiosa. Madrid: BAC, 1975, p. 442: “Así como la disipación rechaza los bienes divinos o dificulta su saludable influencia, así el recogimiento los atrae hacia nosotros y favorece su eficacia”. (Tradução da autora)
[6] Ibid. p. 439: “Un alma recogida es, pues, un alma retirada de las criaturas y buscando a Dios, su voluntad y sus deseos, para conformarse a Él en todo”.(Tradução da autora)
16 M-BRUNO. Op. cit. p.30: “Le silence de l’âme et des sens extérieurs est ‘l’aide que nous prêtons à Dieu pour qu’Il se communique à nous’”. (Tradução da autora)
[8] SANTO AGOSTINHO. Confissões. Madrid: BAC, 2013, p. 385: “Et ecce intus erat et ego foris, el ibi te quaerebam […]. Vocasti et clamasti et rupisti surditatem meam”. (Tradução da autora)
[9] TANQUEREY. Op. cit. p. 613-614.
[10] A Autora se lembra de ter ouvido este comentário de Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias inúmeras vezes, em diversas homilias, nas missas celebradas diariamente para seus filhos espirituais na Basílica de Nossa Senhora do Rosário, Caieiras, São Paulo.
[11] CLÁ DIAS, João Scognamiglio. E renovareis a face da Terra. O inédito sobre os Evangelhos. Comentários aos Evangelhos Dominicais. Advento, Natal, Quaresma e Páscoa – Ano A. Città del Vaticano – São Paulo: LEV; Lumen Sapientiae, 2012, v. I, p. 398.
[12] Ibid. p. 407.

A basílica da “montanha sagrada”

Ir. Elizabeth Veronica MacDonald, EP

Data venia à História, pode- se afirmar que a pedra fundamental do atual Santuário Nacional de Maria Auxílio dos Cristãos, em Erin, Wisconsin, não foi lançada nas primeiras décadas do século XX, mas sim no século XVII. Pois foi nessa remota época, antes de os Estados Unidos da América existirem como país, que certo sacerdote erigiu um altar de pedra na mais alta colina da região e a consagrou para sempre, como solo sagrado, nas mãos de Maria Santíssima.

Antigas tradições indígenas

Poucos dados se tem a respeito desse sacerdote. Chegou a ser identificado com o padre Jacques Marquette, famoso missionário jesuíta e explorador norte-americano, mas essa hipótese é hoje considerada improvável. Em qualquer caso, os índios da região conservaram entre suas tradições a figura de um “chefe de túnica negra” e inclusive faziam desenhos, na areia e na neve, representando- o com um crucifixo na mão e um rosário na cintura, rezando no alto da colina.

Quando, em 1842, fazendeiros irlandeses se instalaram nessa risonha paragem do centro-norte dos Estados Unidos, chamaram-na de Erin — uma forma poética de evocar seu país natal — e deram àquela montanha o nome de Holy Hill — Monte Sagrado. Anos depois, colonos alemães também chegaram à região e continuaram a nutrir uma reverência religiosa por aquele lugar, ao qual deram o nome de Montanha de Maria — Maria Hilfberg.

Certamente conheciam esses imigrantes as recordações lendárias dos nativos, mas o profundo senso religioso deles — especialmente dos provenientes da “ilha mística” — deve tê-los feito sentir na colina algum desígnio sobrenatural. Pois não se pode negar que o olhar de Maria Santíssima pousou sobre aquele lugar, fazendo germinar ali graças, inspirações e anseios que hoje se materializam no esplêndido santuário.

O enigmático eremita de Holy Hill

O primeiro nome associado a Holy Hill é o do francês François Soubrio. Diz-se que, enquanto servia como assistente de um professor de Quebec, encontrou um mapa e um velho manuscrito, datados de 1676, descrevendo uma região isolada dominada por uma alta colina em forma de cone e relatando a sua conquista em nome de Maria.

A descoberta fez nascer em sua alma o nobre desejo de pôr-se a caminho para edificar sua morada naquele local. Uma versão popular da história descreve-o chegando à montanha num estado de paralisia parcial, causada pela longa viagem, passando a noite em oração e sendo miraculosamente curado na manhã seguinte.

Embora lhe conheçamos o nome, o “eremita de Holy Hill” não deixa de ser uma figura enigmática. Alguns o descrevem como um penitente, uma alma que carregava “grande dor íntima e procurava conforto em Deus”1 seguindo as pegadas do salmista: “Apenas elevei a voz para o Senhor, Ele me responde de sua montanha santa” (Sl 3, 5).

Quando, por volta de 1862, os fazendeiros das redondezas souberam da existência desse eremita, acolheram- no inicialmente com desconfiança. Mas logo criaram-se laços de amizade: passaram a levar-lhe comida e até lhe construíram uma cabana.

Lugar de culto e peregrinação

Ora, certo dia, um sacerdote austríaco chamado Francis Paulhuber, responsável por três paróquias na região, declarou a um amigo: “Aquele lindo monte lembra-me fortemente uma montanha perto de casa, em minha terra natal”. E, a seguir, completou o corriqueiro comentário com uma intuição quase profética: “Tenho certeza de que não está longe o dia em que ele se tornará um dos locais mais destacados deste país. Ele será consagrado e tornado santo; transformado num lugar de culto e peregrinação, aonde dezenas de milhares virão prestar homenagem à Virgem Maria e a seu Filho…”.2

Padre Francis não era pessoa de construir castelos no ar, e menos ainda igrejas… Em 1855 comprou do governo norte-americano os pouco mais de 16 hectares do terreno em que estava encravada a colina, com a intenção de mais tarde ceder o local para a arquidiocese.

Ainda vivia o misterioso eremita quando foi erigido ali, em 1863, o primeiro edifício de culto: uma capela rústica, dedicada a Nossa Senhora Auxílio dos Cristãos. Dezesseis anos depois começaram os trabalhos para a construção de uma igreja, e algumas décadas mais tarde houve a necessidade de erigir um templo maior. Surgiu assim o santuário atual, em estilo neorromânico, consagrado em 1931 e elevado a basílica menor em 2006.

As palavras gravadas na pedra fundamental deste templo atestam o maternal dinamismo da presença de Maria em Holy Hill. Traduzidas do latim, dizem: “Por causa do crescente número daqueles que honram a Auxiliadora, a Bem-Aventurada Virgem Maria, eu sou a pedra fundamental do terceiro templo no topo desta colina”.

O edifício é belamente adornado com vitrais, mármores, mosaicos e imagens. No entanto, o mais significativo dos ornatos talvez sejam as muletas enfileiradas na entrada, testemunhas mudas da gratidão daqueles que foram objeto de uma das incontáveis formas de auxílio que Nossa Senhora prodigamente concede aos seus devotos.

A sós com Deus e Maria

Os Padres Carmelitas Descalços, responsáveis pelo santuário desde 1906, oferecem uma afável acolhida aos que desejam passar algum tempo de intimidade com Deus em Holy Hill. Por ano, 500 mil peregrinos acorrem ao santuário procurando este gênero de solidão no complexo que abrange hoje cerca de 175 hectares.

O panorama visto do alto das torres da basílica descortina quilômetros e quilômetros de magnífica natureza. No inverno, a exuberância da vegetação dá lugar à alvura da neve, e o santuário fica envolvido por um silêncio sacral. Remontando às palavras do salmista, bem poderíamos dizer que esta é a montanha que Maria, Auxílio dos Cristãos, escolheu para morar (cf. Sl 67, 17).

1 HISTORY of the Basilica, c.II. In: Basilica of the National Shrine of Mary Help of Christians at Holy Hill: www.holyhill. com.

2 Idem, c.VII.

Revista Arautos do Evangelho, Março – 2015, n. 159

Audiência na corte celeste

Ir.Lays Gonçalves de Sousa, EP

Continuação do post anterior

“Os céus proclamam a glória do Senhor e o firmamento as obras de suas mãos!” (Sl 18,2) Ao contemplar uma noite de céu estrelado, um belo nascer do sol, o colorido da natureza, ou ainda, o vai e vem elegante das ondas do mar, facilmente o pensamento humano voa ao Criador de tantas maravilhas.

Que terá Deus criado de mais excelente? Poderíamos imaginar um astro esplêndido, desconhecido pelos homens e, quiçá, pelos Anjos. Qual seria a intensidade de seu brilho? De uma luminosidade superior a milhões de sóis e constelações inteiras, seria um astro que só despontaria no firmamento a cada mil séculos, sendo reservado apenas para a contemplação e gozo do Soberano Criador. Se Deus permitisse vermos a beleza posta nesta criatura mítica, certamente não haveria um só homem na face da Terra que não se encantaria com sua formosura.

Pois bem, este astro luminoso não é outro senão Maria Santíssima, apreciada com veemência no Cântico dos Cânticos: “Quem é esta que surge como aurora, bela como a lua, brilhante como o sol, terrível como um exército em ordem de batalha?” (Ct 6,10).

Medianeira e Distribuidora Universal de todas as graças

Para compreendermos melhor o papel de Nossa Senhora, é preciso salientar sua posição enquanto Medianeira.

O conceito de mediador esteve presente na História desde tempos longínquos. De fato, a função dos Patriarcas e sacerdotes no Antigo Testamento era servir de elo entre o Criador e as criaturas. Atesta a própria Escritura a necessidade imprescindível de um defensor: Moisés intercedeu, no Sinai, pelo povo eleito (cf. Ex. 32, 7- 14); José, junto ao Faraó, em defesa de seus irmãos (cf. Gn. 47,1-2); Ester, em favor de seu povo, conseguindo tudo o que desejava (cf. Est. 7, 3).

Nas palavras de São Tomás, “é ofício próprio do mediador unir aqueles entre os quais se interpôs; pois os extremos se unem no meio”. 1

Com outros termos, explica Mons. João:

Pode ser que um inferior, chamado a se unir a um superior, eleja um mediador, para que o aproxime mais do superior. E esse mediador irá agir, irá fazer gestões, no sentido de que o inferior aspire mais pelo superior, e o superior se abra mais ao inferior. 2

Sabemos pelos escritos de São Paulo que “há um só mediador entre Deus e os homens: Jesus Cristo homem, que se entregou como resgate por todos” (ITm 2, 5-6). O sacrifício oferecido pelo Salvador reconciliou-nos com o Padre Eterno trazendo-nos, assim, a graça e a justiça, sem a qual ninguém poderia ser salvo. Entretanto, tal afirmação não impede a consideração de medianeiros secundários entre Deus e os homens, subordinados à mediação principal e perfeita, ou seja, a de Cristo.

Entre o Padre Eterno e a criação, existe o Homem-Deus: inteiramente Deus, como as outras Pessoas da Santíssima Trindade; tão homem quanto cada um dos descendentes de Adão. Resta, contudo, um tal abismo separando Nosso Senhor Jesus Cristo das demais criaturas, que a pergunta se impõe: na ordem das coisas não deveria haver outro ser que, ao menos de algum modo, preenchesse esse hiato? 3

Quem seria capaz de, apenas com um sorriso afável, conquistar a benevolência do Altíssimo, entregando-lhe míseras orações e comprando-nos os favores desejados? “Maria Santíssima é a única capaz de exercer esta função admirável”. 4

A criatura chamada a completar esse vácuo no conjunto da criação, a criatura excelsa, infinitamente inferior a Deus, mas ao mesmo tempo insondavelmente superior a todos os Anjos e a todos os homens de todas as épocas – é precisamente Nossa Senhora. […] Nossa Senhora é o grampo de ouro que une Nosso Senhor Jesus Cristo a toda criação, da qual Ela é o ápice e a suprema beleza. 5

São Bernardo compara a Santíssima Virgem a uma escada, pois, assim como não se sobe ao segundo degrau sem antes passar pelo primeiro, da mesma forma não podemos chegar a Jesus Cristo senão por Maria: “Filhinhos, esta é a escada dos pecadores, esta é a minha maior confiança, esta é toda a razão de minha esperança”. 6

Todos os benefícios que recebemos nos chegam pela intercessão de Maria! A razão é simples: “Porque Deus assim o quer. Tal é a vontade d’Aquele que dispôs que tudo tivéssemos por Maria”. 7

O famoso taumaturgo do século XX, Padre Pio de Pietrelcina, deixou-nos também um exemplo de ardoroso devoto de Nossa Senhora. Depois de Deus, dizia ele, era Ela “a grande veneração de sua vida”. 8 Com o enérgico temperamento que o caracterizava, afirmava continuamente: “Há pessoas tão tolas que pensam poder passar a vida sem o auxílio de Nossa Senhora”. 9

A fim de exortar os fiéis à devoção a Maria, contava uma saborosa historieta, a qual ilustra o quanto Ela ultrapassa as misérias humanas e é capaz de “povoar de santos os tronos vazios, que os Anjos apóstatas abandonaram e perderam por orgulho”.10 Eis suas pitorescas palavras:

Certo dia, Cristo passeava com São Pedro pelo Paraíso. Subitamente Ele notou a presença de vários indivíduos que Lhe pareciam totalmente deslocados naquele cenário.
– Olhe! – disse a São Pedro – Como estas pessoas conseguiram entrar?
– Não é minha culpa! – respondeu São Pedro – O Senhor deve perguntar a sua Mãe. Toda vez que Ela percebe que eu viro as costas, abre o portão e deixa todo mundo entrar! 11

A Mediação de Maria, como vimos, exerce grande influência sobre os homens. Ela conhece todas nossas necessidades, e incontáveis vezes Se adianta aos nossos pedidos. Quem seria capaz de expressar com palavras ou captar com a mente quão agradável é a Deus a oração de sua Mãe?

Gozando Ela da eterna bem-aventurança e participando do conhecimento de Deus, discerne no olhar do Altíssimo, como num espelho, as contínuas súplicas e necessidades dos homens, como também o desejo de Deus de socorrê-los por meio d’Ela. No convívio humano, há certas ocasiões em que o olhar profere sentenças mais sublimes que qualquer vocábulo. No céu, não passará o mesmo? O olhar de confiante súplica da Rainha dos Anjos é a perfeitíssima oração que socorre os degradados filhos de Eva, recebendo como agradável reposta o alcandorado e amoroso sorriso do Filho, impetrando, assim, as graças pedidas. 12

“Ah! Se eu pudesse publicar pelo universo esta misericórdia que tivestes comigo; se todo o mundo soubesse que, sem Maria, eu já estaria condenado […]”. Essa belíssima súplica de São Luís bem sintetiza a infinita clemência de Deus ao entregar-nos esta Arca preciosíssima. Ele estabeleceu entre Maria e os homens uma união indissolúvel, capaz de ultrapassar os séculos e percorrer as vastidões do mundo. Haveria algo superior? Com tal vínculo, quem não conquistará a Pátria Celeste? Qual filho não recorreria, através da oração, a essa Medianeira Onipotente?

1 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. III, q.26, q.1, ad 2.
2 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Aula de Cristologia no Centro Universitário Ítalo Brasileiro-Unítalo. São Paulo, 14 nov. 2007. (Apostila).
3 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plínio, apud CLÁ DIAS. Pequeno Ofício da Imaculada Conceição comentado. 2. ed. São Paulo: Associação Católica Nossa Senhora de Fátima, 2010. v. I. p. 79.
4 SÃO BERNARDO, apud SÃO LUÍS GRIGNION DE MONTFORT. Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem. 33. ed. Petrópolis: Vozes, [S. d.] n. 85. p. 90.
5 CORRÊA DE OLIVEIRA, apud CLÁ DIAS. Pequeno Ofício da Imaculada Conceição comentado. Op. cit. p. 79.
6 SÃO BERNARDO, apud SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO. Op. cit. p. 40.
7 Ibid. p. 39.
8 MCCAFFERY, John. Padre Pio: Histórias e Memórias. 4.ed. Trad. Rosângelo Paciello Pupo. São Paulo: Loyola, 2004, p. 215.
9 Loc. cit.
10 SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. Op. cit. n.28.p. 34.
11 MCCAFFERY. Op. cit. p. 215.
12 Cf. NEUBERT, apud ROYO MARÍN. La Virgen María. Op. cit. p. 202.
13 SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. Oração a Jesus. In: Preces. São Paulo: Retornarei, 2005, p. 207.

Somos o perfume de Cristo

Ir. Patricia Victoria Jorge Villegas, EP

Calai-vos, calai-vos! — repetia o sacerdote, enquanto tocava com seu bastão as florzinhas que cobriam o prado à beira da estrada. Eis como São Paulo da Cruz procurava conter seus arroubos de amor a Deus quando saía a passear na primavera, pois as mimosas flores do campo falavam-lhe com irresistível eloquência, proclamando a perfeição infinita do Criador! Sem palavras nem vozes que pudessem ser ouvidas, mas simplesmente por sua formosura e perfume, elas arrebatavam o Santo; e ele, para não desfalecer de enlevo, via-se obrigado a pedir-lhes silêncio…

Se este pequeno fato evidencia o quanto “é a partir da grandeza e da beleza das criaturas que, por analogia, se conhece o seu Autor” (Sb 13, 5), há, porém, outro aspecto no qual poucas vezes detemos nossa atenção: o cuidado de Deus ao criar nosso corpo, dotando- o de sentidos. Por meio deles podemos não só tomar contato com as coisas materiais, como também nos elevar às sobrenaturais. Um esplendoroso panorama, os sons harmoniosos ou algum alimento saboroso muitas vezes servem de instrumento para nos recordar verdades superiores.

Tomemos como exemplo as agradáveis fragrâncias fabricadas pelas mãos humanas. Fruto do talento e do labor dos perfumistas, são elas elementos aprazíveis ao nosso olfato e à nossa alma, sobretudo quando se tornam pretexto para nosso Anjo da Guarda nos inspirar bons pensamentos, convidando- nos a refletir sobre o frescor da pureza, sobre a candura da inocência ou a limpidez de um coração reto. Não é raro, portanto, que os excelentes aromas sejam úteis para nos aproximarmos de Deus, como diz a casta esposa do Cântico dos Cânticos: “suave é a fragrância de teus perfumes; o teu nome é como um perfume derramado” (Ct 1, 3).

Decerto foi esta uma das razões pelas quais, no Antigo Testamento, Ele próprio instruiu Moisés na preparação da mistura odorífera para a unção dos sacerdotes e dos objetos sagrados (cf. Ex 30, 22?25), bem como do incenso aromático que todos os dias, pela manhã e à tarde, devia ser queimado no altar dos perfumes (cf. Ex 30, 34?36). Com isso, os fiéis podiam louvá-Lo dignamente e, ao mesmo tempo, ter uma noção das delícias eternas.

Entretanto, se consideramos os perfumes por outro prisma, eles têm uma lição a nos oferecer. Basta pensarmos numa requintada fragrância guardada num valioso frasco de cristal. Se ela tomasse vida e começasse a pensar, acaso preferiria ficar para sempre dentro daquele “palácio de vidro”, numa existência tranquila, ao invés de evolar-se pelo ar, impregnando-o com seu precioso odor? É evidente que não, pois está em sua natureza perfumar.

Ora, todos nós, batizados, “somos para Deus o perfume de Cristo entre os que se salvam e entre os que se perdem” (II Cor 2, 15). Eis a grande vocação do cristão: difundir por todo o mundo o sublime odor de Nosso Senhor Jesus Cristo, recordando aos homens que seu destino é a eternidade e em função dela se deve viver.

Um filho da Igreja jamais será como um bálsamo engarrafado, temeroso de expandir-se para não perder suas comodidades. Pelo contrário! De seu coração generoso, sempre pronto a lançar- -se em toda espécie de heroísmo, emanam a fé, a esperança e a caridade, que, penetrando no universo inteiro, conquistam almas para o Reino dos Céus e sobem ao trono de Deus como oferenda de agradável aroma.

Revista Arautos do Evangelho – mar 2015

Amparo maternal de Nossa Senhora

Ir. Raphaela Nogueira Thomaz, EP

Transmitidas pelas Sagradas Escrituras, numerosas são as passagens nas quais brilha a magnificência do Onipotente na assistência ao povo eleito. Não se fazia ideia até então que à força criadora e manifesta de Deus Pai viriam se conciliar a ternura e compaixão de um Deus feito Menino, para vencer com o amor o que à justiça não fora reservado conquistar.

Se fosse de sua vontade, o Filho poderia ter Se encarnado em seu pleno desenvolvimento humano. Entretanto, quis fazer-Se um frágil Menino e sujeitar-Se a todas as exigências e cuidados próprios a esse estado, dispondo para Si uma Mãe: “Um único Filho pôde criar a seu agrado a mãe da qual Ele devia nascer, aperfeiçoá-La constantemente a fim de amá-La sempre mais, sem receio de ver um limite imposto à generosidade e à alegria de seu amor”.1

Esta Mãe, por sua vez, correspondendo ao amor de que fora objeto, desde os primeiros instantes de sua concepção santa e imaculada, como um reflexo cristalino da dileção que sobre Ela pousou, manifestou, com extremo de bondade, seu desvelo e carinho pelos que A rodeavam. Com um requinte todo especial, esta preocupação materna atingiu seu clímax na Encarnação do Verbo.

No entanto, como para esconder-Se sob os raios da Luz que trouxera ao mundo, quis traçar as linhas de sua existência no mais obscuro e discreto silêncio, preferindo que somente o Pai Eterno visse suas obras de amor aos homens.

Os Evangelhos não nos dizem muito a respeito de Maria. Encontramos uma referência condensada à glória e excelência da Virgem: “E Jacó gerou José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, que Se chama o Cristo” (Mt 1, 16).

Feita Mãe de Deus, o insuperável amor maternal da Virgem Maria não se limitou apenas ao Filho Unigênito — o que de si já seria grandioso em extremo —, mas se estendeu a todos os que tiveram a alegria de desfrutar de seu convívio nesta Terra. E, estando a Virgem na glória eterna, pode fazer muito mais pelos homens e pela Igreja, enquanto Mãe e Rainha. De fato, atualmente não se concebe a Igreja sem a figura de Maria Santíssima.

Esse amparo maternal de Nossa Senhora a cada filho seu se manifesta com um matiz diferente, mas sempre sublime. Nesse sentido, a história de cada homem, quando dócil aos chamamentos da Mãe Celeste, pode ser resumida numa escalada de sublimes comunicações entre Mãe e filho: Maria e cada homem em particular. E quanto mais esta relação se torna íntima e intensa, tanto mais a vida adquire brilho. O ânimo da vida vem quando se toma contato com a maternalidade de Maria e se experimenta suas carícias, porque então as asas para o voo a Deus começam a nascer.

“Dois aspectos fundamentais caracterizam essa vida marial dos nossos tempos: Querem as almas ver Nossa Senhora, não numa auréola de êxtase e distante, longe de nós, envolta em uma dignidade inacessível, mas sim como uma MÃE”.2

1 OLLIVIER, Marie-Joseph. Les amitiés de Jésus. Paris: P. Lethielleux, 1929, p. 3. (Tradução da autora).
2 PHILIPON, M. A verdadeira fisionomia de Nossa Senhora. Trad. D. Frei Luiz Palha, OP. Rio de Janeiro: Olímpica, [s.d.], p.15.

Um altíssimo chamado… para todos!

Bruna Almeida Piva

No calendário litúrgico, o mês de novembro se inicia com a Solenidade de Todos os Santos, instituída no século IX, a fim de louvar e festejar a multidão dos justos: “aqueles que habitam a Jerusalém Celestial, canonizados ou não, bem como os vivos que se encontram na graça de Deus e conservam sua amizade”.1

Porém, para que servem aos santos nossos elogios? Que lhes importam as honras terrenas, enquanto o próprio Deus os glorifica? 2 De fato, nossos louvores não são necessários a eles, mas o são a nós mesmos, pois intercedem por nós ao Pai, e sua lembrança nos estimula e incita a “gozarmos de sua tão amável companhia e de merecermos ser concidadãos e comensais dos espíritos bem-aventurados, de unir-nos ao grupo dos patriarcas, às fileiras dos profetas, ao senado dos apóstolos, ao numeroso exército dos mártires, ao grêmio dos confessores, aos coros das virgens, de associar-nos, enfim, à comunhão de todos os santos e com todos nos alegrarmos”.3 É, portanto, uma festa que nos convida à santidade.

Em nossa busca pela felicidade e realização, não podemos ter ambição mais bela e mais nobre do que a de ser santos. E muito enganado estaria quem pensasse ser esse chamado feito somente a uma minoria de almas seletas, que um dia são elevadas à glória dos altares. Com o auxilio da Graça, todos somos feitos para essa imensa, criteriosa, sábia, mas ousada aventura, na qual ordenamos nossa alma para Deus, a purificamos e embelezamos, dispondo-a à bem-aventurança eterna, à corte celestial onde um assento nos está reservado.4

Diante de tão alto chamado, quais são as nossas disposições de alma? Estamos dispostos a abandonar o pecado e abraçar as vias da virtude rumo à santidade? Ou será que, diante da assembleia dos justos que nos deseja e aguarda, somos indiferentes e nos esquivamos? Se temos boas disposições, agradeçamos a Deus que no-las concedeu e peçamos perseverança em nossos bons propósitos; se nos sentimos fracos e débeis ante tão grande batalha, roguemos aos santos do Céu que nos concedam sua força e coragem, proteção e auxílio.

Entretanto, seja qual for nossa disposição ou vocação, o caminho é o mesmo: o amor. “Amai a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo”, recomendava insistentemente Nosso Senhor Jesus Cristo em suas pregações. E também São João da Cruz ensinava: “No entardecer desta vida, sereis julgados segundo o amor”.5 O amor nos faz grandes aos olhos de Deus, e somente por amor somos capazes de abandonar nossos vícios e realizar os sacrifícios, grandes ou pequenos, que a santidade exige.

Que, nesta Festa de todos os Santos, a Santíssima Virgem e todos os bem-aventurados nos alcancem de Deus o amor mais puro e ardente que a natureza humana possa ter em relação a Ele, e, consequentemente, a santidade plena, pois “é na esperança de podermos viver, de batalhar pela nossa santificação e de morrer na paz de Deus, confiantes em Nossa Senhora, agradecendo a Ela porque nos obteve graças para nos tornarmos outros heróis na Fé e príncipes do Céu, que devemos atravessar nossos dias nesta terra de exílio”.6

1 EDITORIAL. Todos são chamados à santidade. Dr. Plinio. São Paulo, ano 7, n. 80, nov. 2004, p. 4.
2 Cf. Bernardo, Santo. Dos Sermões. In: LITURGIA das Horas: Segundo o rito romano. Tradução para o Brasil da segunda edição típica. São Paulo: Ave-Maria, 2000, v. 4, p. 1421.
3 Loc. cit.
4 Cf. CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Santidade, o ideal de todo homem. Dr. Plinio, São Paulo, ano 6, n. 44, nov. 2001, p. 8-10.
5 JOÃO DA CRUZ, Santo apud CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Op. cit., p. 10.
6 Loc. cit.

A elevação da mente a Deus!

Ir Lays Gonçalves de Sousa, EP

Santo_Inacio_Antioquia

A multidão esperava delirante o momento do sangrento espetáculo. Vaias e escárnios ressoavam por aquele imenso edifício, o qual se tornaria túmulo e altar de glória de tantos bem-aventurados. Já se podiam contemplar os brutos animais, prontos para irromperem na arena e darem vazão aos instintos de sua voraz natureza. Porém, tais irrisões em nada perturbavam a paz de alma que acompanhava o zeloso pregador de Jesus Cristo, Santo Inácio de Antioquia. Nem o aparente fracasso diante dos homens, nem o rugir das feras famintas poderiam amedrontar ou diminuir os ardores de entusiasmo que inflamavam seu nobre coração. À agitação e ansiedade sucedeu um silêncio e grande suspense na turba pagã. As bestas avançavam velozmente, prontas para devorar o venerável ancião, quando um gesto de mão, de incomparável majestade, as deteve a meio caminho. Que teria sucedido? O homem de Deus desejava, antes de consumar seu holocausto e chegar ao termo de seus anelos, dirigir aos céus uma última e fervorosa oração. Tal era a convicção de ser atendido que estancou mesmo os leões devoradores. Embora almejasse ser triturado como trigo para ser oferecido como hóstia pura, pedia a Deus que atendesse aos rogos dos cristãos em fazer permanecer algo daquele doloroso martírio, a fim de estimular-lhes a fé. Finalmente, com gesto ainda mais decidido, o Santo deu ordem às feras, que em poucos segundos dilaceraram as carnes daquele novo Serafim.

Ao analisar o transcorrer dos séculos, quão belo é constatar a soma incalculável de almas que se destacaram como arquétipos de virtude e heroísmo! Quem não se enche de entusiasmo ao deparar-se com o garbo fogoso dos mártires, as austeridades dos anacoretas, o ímpeto evangelizador dos missionários, a sabedoria irresistível dos Doutores, a simplicidade e pureza das virgens e a astúcia e valentia daqueles que combatem pela Santa Igreja?

Realmente, não podem passar despercebidos varões e damas que ultrapassaram a fragilidade da natureza humana decaída pela culpa original, fazendo de suas vidas o alicerce onde, mais tarde, tantas almas buscariam o apoio para a prática do bem, tornando-se alvo de admiração e espetáculo tanto para os homens como para os Anjos.

“Um braço semelhante ao de Deus, e uma voz troante como a dele” (Jó 40,4): bem podemos aplicar esta passagem da Escritura ao episódio narrado acima. De fato, para submeter a ferocidade de uma natureza desprovida de inteligência e imperar sobre ela quando se deseja, é fundamental possuir uma vontade férrea intimamente unida ao Criador.

Sem Mim nada podeis fazer

No entanto, devido à tendência natural ao orgulho, somos levados a julgar que o homem possui uma vontade suficientemente vigorosa para, sozinho, galgar o píncaro da santidade. Nada, porém, nos seria possível sem um contínuo auxílio da Providência, pois, como proclamou Nosso Senhor, sem Ele, absolutamente nada de bom podemos fazer (cf. Jo 15, 5). Qual homem nunca sentiu o peso esmagador de suas misérias e infortúnios? Por mais orgulhosos que possamos ser, é impossível não admitir que tenhamos falhado na realização de nossos bons propósitos ou, ainda, de nossas simples obrigações.

Quando meditamos sobre a Santa Ceia e repassamos as palavras de Jesus: ‘Sem Mim nada podeis fazer’ (Jo 15, 5), quiçá não meçamos a extensão desse “nada”, e o sentido estrito em que deve ser entendido. […] Sob o influxo da graça, começa a secar-se o pântano do erro e tornamo-nos capazes de dirigir nossas ações conforme os critérios mais nobres, porque eles passam a nos apetecer mais que as solicitações inferiores. Nasce a força para cumprir os bons propósitos, aquietam-se as paixões, a fomes peccati deixa de ser avassaladora e se estabelece uma harmonia semelhante à que possuía nosso pai Adão no Paraíso. 1

Assim, “se tivermos a graça de praticar um ato bom, devemos imediatamente reportá-lo ao Criador, restituindo-Lhe os méritos, pois estes Lhe pertencem, e não a nós. ‘Quem se gloria, glorie-se no Senhor’ (I Cor 1, 31), adverte-nos o Apóstolo”.2

Constantemente devemos nos dirigir a Nosso Redentor com a mais profunda e sincera humildade, como nos ensina Mons. João Scognamiglio Clá Dias: “Ó meu Jesus, sem Vós nada posso fazer, meus méritos são nulos; minha inteligência, turva; minha vontade, enferma; meus sentimentos, enlouquecidos. […] Em união convosco sou capaz das mais ousadas virtudes, minha alma voa. Vós sois a fonte de todo bem existente em mim”. 3

Referindo-se à nossa incapacidade natural para o exercício ininterrupto da virtude, atesta São Tomás de Aquino:

No estado de corrupção, o homem falha naquilo que lhe é possível pela sua natureza, a tal ponto que ele não pode mais por suas forças naturais realizar totalmente o bem proporcionado à sua natureza. Entretanto, o pecado não corrompeu totalmente a natureza humana a ponto de privá-la de todo o bem que lhe é natural. […] Ele [o homem] parece um enfermo que pode ainda executar sozinho alguns movimentos, mas não pode mover-se perfeitamente como alguém em boa saúde, enquanto não obtiver a cura com a ajuda da medicina.4

Essa medicina, da qual todos necessitam, encontra-se no relacionamento com Deus. Adão gozava no Paraíso de altíssimos colóquios com o Criador, os quais cessaram após a terrível desobediência. Contudo, estaria este relacionamento encerrado para sempre? Teria o Divino Artífice apartado o rosto de Sua obra-prima? Não! Sendo Deus a Suma Bondade, concedeu-nos o unguento sobrenatural e infalível de estarmos constantemente amparados pela sua presença: a oração!

Estando, porém, as obras humanas tisnadas pelo pecado, nossas súplicas possuem desprezível valor. É preciso, portanto, depositá-las numa preciosa bandeja de ouro, a fim de serem oferecidas a Deus. Quem seria capaz de, apenas com um sorriso afável, conquistar a benevolência do Altíssimo entregando-lhe míseras orações e comprando-nos os favores desejados? “Maria Santíssima é a única capaz de exercer esta função admirável”.5 De fato, Ela é o grampo de ouro que une Nosso Senhor Jesus Cristo a toda criação. 6

1 SEQUEIRA, Joshua Alexander. No coração do homem, a inscrição de Deus. Arautos do Evangelho. São Paulo, n. 109, jan. 2011. p. 22.
2 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O centro deve estar sempre ocupado por Deus. Arautos do Evangelho. São Paulo, n. 98, fev. 2010, p. 16.
3 Id. Via Sacra. São Paulo: Associação Nossa Senhora de Fátima, 2011, p. 6.
4 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. I-II, q. 109, a. 2, resp. (Para as citações da Suma Teológica, neste trabalho será sempre utilizada a tradução das Edições Loyola
5 SÃO BERNARDO, apud SÃO LUÍS GRIGNION DE MONTFORT. Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem. 33. ed. Petrópolis: Vozes, [S. d.] n. 85. p. 90.
6 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio apud CLÁ DIAS. Pequeno Ofício da Imaculada Conceição comentado.2. ed. São Paulo: Associação Católica Nossa Senhora de Fátima, 2010. v. I.p. 79.

Necessidade do sacrifício

Ir Mirna Gama Máximo, EP

O senhor Deus expulsou-o (Adão) do Jardim do Éden, para que ele cultivasse a terra de onde tinha sido tirado. E expulsou-o; e colocou ao oriente do Jardim do Éden querubins armados de uma espada flamejante, para guardar o caminho da árvore da vida” (Gn 3,23-24).

O homem, depois de ter pecado e ter sido expulso do Paraíso, onde vivia em estado de graça, perdeu aquela pureza e inocência primevas e adquiriu uma infinita dívida diante de Deus. Sabia que merecera a morte como castigo de sua culpa e viu-se na contingência de reparar seu pecado, para que, purificado, se reconciliasse com o Criador e fosse salvo. Por este motivo, passou a oferecer-Lhe algo que de certa forma compensasse sua dívida, como por exemplo, a vida de um animal.

A ofensa feita a Deus exige uma reparação. Como honrar Deus de ora em diante, sem efetuar inicialmente alguma espécie de reparação, que apague a injúria? Já que incorremos em seus justos castigos, como não nos apressarmos em afastá-los, prioritariamente por alguma espécie de satisfação, antes de implorar seus favores? Esta é a necessidade que visa, ou procura atender, o sacrifício expiatório.1

Eis o que significava a maioria dos sacrifícios do Antigo Testamento.2 Royo Marín assim define:

O sacrifício é o ato mais importante do culto externo e público, o mais solene e excelente com que se pode honrar a Deus. […] Em sentido estrito, se define: a oblação externa de uma coisa sensível com certa mutação ou destruição da mesma […] para testemunhar seu supremo domínio e nossa completa sujeição a Ele.3

Vemos, assim, que o homem sentia uma grande necessidade de oferecer sacrifícios. E São Tomás 4 aponta três motivos para tal. Primeiramente para remir o pecado, que afasta o homem de Deus. Em segundo lugar, para que o homem possa conservar-se no estado de graça, sempre unido a Deus, no que consiste sua paz e salvação. Finalmente, para que o espírito do homem esteja perfeitamente unido a Deus, como acontecerá na glória.

sacrificio_caim_abelOs sacrifícios não eram feitos somente em função dos pecados, mas eram também uma forma de louvar a Deus e honrá-Lo. Assim, os sacrifícios podiam ser: lautréticos, de simples adoração a Deus; impetratórios, para pedir benefícios; satisfatórios, em reparação dos pecados; e eucarísticos, em ação de graças pelos benefícios recebidos.5 Portanto, não só os pecadores deveriam oferecê-lo, mas também os justos.

Para esses sacrifícios, deveriam os homens, oferecer o que possuíam de melhor, o que tinha maior valor e perfeição. Assim sendo, queimavam frutos e imolavam animais, tais como cordeiros e pombas, entre outros tipos de oferecimento.

Ora, o Salmo diz: “Vós não Vos aplacais com sacrifícios rituais; e se eu Vos ofertasse um sacrifício, não o aceitaríeis. Meu sacrifício, ó Senhor, é um espírito contrito, um coração arrependido e humilhado, ó Deus, que não haveis de desprezar” (Sl 50, 18-19). Qual seria, então, a razão da importância e a necessidade de oferecer sacrifícios?

De fato, de nada adiantam as práticas meramente exteriores se não houver sinceridade de coração. O homem não é puro espírito, mas sim, um composto de corpo e alma. Portanto, suas disposições interiores devem ser exteriorizadas de alguma forma.

“Faltaria algo para oferecer a Deus se Ele fosse homenageado somente em espírito. […] A vida do espírito se apaga se não for traduzida para uma linguagem feita para nossos sentidos”.6 Assim também se exprime o Doutor Angélico: “Todo aquele que oferece um sacrifício deve dele participar, porque o sacrifício que se oferece exteriormente é sinal do sacrifício interior, pelo qual a própria pessoa se entrega a Deus”.7

O sacrifício na vida do homem

Ao deitarmos um rápido olhar sobre a História, vemos como todos os povos das mais diversas religiões e épocas ofereceram sacrifícios. Porém, quantos deles provocaram a ira e o desgosto de Deus, pois eram dirigidos a deuses inexistentes, sendo, na realidade, ocasião das piores idolatrias e de práticas abomináveis! Os babilônios e os persas, por exemplo, ofereciam sacrifícios humanos. Os príncipes fenícios imolavam o filho predileto para abrandar a cólera dos deuses. Os sacerdotes astecas, no México, exigiam vinte mil vítimas humanas por ano, das quais arrancavam o coração ainda palpitante, para o apertarem sobre os lábios do ídolo.8 Eram religiões falsas e vãs, que, assim, também invalidavam seus sacrifícios.

O povo eleito também ofereceu sacrifícios. O que dizer sobre seus sacrifícios? Instruído pelo próprio Deus, os israelitas apresentavam, de maneira distinta, os sacrifícios de louvor, de agradecimento, de reparação, de acordo com quem iria oferecê-lo: sacerdote, chefe ou homem do povo (cf. Lv 1-7). Esses sacrifícios eram agradáveis a Deus, como provam algumas passagens da Escritura, entre as quais a seguinte:

Depois do dilúvio que Deus mandou à Terra por castigo de seus pecados, Noé saiu da arca e levantou um altar, e ofereceu em holocausto. “O Senhor respirou um agradável odor” e prometeu não mais amaldiçoar a Terra, como tinha feito (cf. Gn 8, 20-21).

Porém, eram sacrifícios imperfeitos e defeituosos; não podiam apagar os pecados nem conferir a graça. Como a imolação de um animal irracional poderia reparar as ofensas contra Deus, que é infinito, puro e perfeito? Como devia ser terrível ter a alma manchada por causa dos pecados, a consciência inquieta por ter ofendido ao Deus-Justiça, Senhor dos exércitos, e, pior ainda, passar a vida inteira fazendo penitência e oferecendo sacrifícios sem ter a certeza de estar perdoado!

Mas Deus não abandonou o seu povo nas mãos da morte. “Esses sacrifícios foram apenas o grito de ignorância da humanidade que clamava por um perfeito sacrifício de expiação e reconciliação”.9 Por sua misericórdia e bondade infinitas, Ele mesmo Se tornaria sacrifício para redimir a humanidade perdida. Nem os frutos, nem os animais, nem mesmo o homem, culpado do pecado, seriam capazes de restabelecer a nossa amizade com o Senhor. Só Deus, Infinito e Santo, pode apagar a ofensa feita contra Si mesmo. Foi assim que, na plenitude dos tempos, o Verbo Se fez carne para resgatar, pela sua própria morte, os que estavam condenados à morte.

Todos os sacrifícios oferecidos até então foram meras pré-figuras deste supremo e perfeitíssimo sacrifício!

1 AA.VV. Eucharistia. Encyclopédie populaire sur l’Eucharistie. Paris: Bloud et Gay, 1947, p. 154. (tradução da autora).
2 PARSCH, Pius. Para entender a Missa. 2. ed. Rio de Janeiro: Mosteiro São Bento, 1938, v. III, p. 14.
3 ROYO MARÍN, Antonio. Teología Moral para Seglares. 2. ed. Madrid: BAC, 1961, v. I, p. 286.
4 TOMÁS DE AQUINO, Santo. Suma Teológica. III, q. 22, a.2.
5 Cf. ROYO MARÍN. Teología Moral para seglares. Op. cit. p. 286.
6 AA.VV. Op. cit. p. 153.
7 TOMÁS DE AQUINO, Santo. S. Th. III, q.82, a. 4.
8 FIGUEIREDO, Pedro Paulo de. Adoração a Deus: o sacrifício. Arautos do Evangelho. São Paulo, n.11, nov. 2002. p. 17.
9 PARSCH, Pius. Op. cit. p.11

Um verdadeiro amigo

Ir. Rita de Kássia C. D. da Silva, EP

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Quem neste mundo não gostaria de ter um amigo que estivesse diariamente ao seu lado, pronto para atendê-lo a qualquer hora do dia ou da noite, em qualquer situação, mesmo nos perigos e, concomitantemente, o alegrasse, fortalecesse e estimulasse nas horas de provação e dificuldade?

Com efeito, Deus, em sua infinita bondade e misericórdia para com o gênero humano, destinou para cada homem um anjo da guarda, que, constantemente, vela por cada um individualmente. Sim, é ele nosso companheiro nesta vida e na eternidade. Entretanto, ele é um “amigo” discreto que, apesar de não se revelar, admoesta, ensina, ajuda, acode e inspira de muitas maneiras: ora, por um sopro, ora por um conselho, ora por algum fenômeno natural. Basta que estejamos atentos a suas inspirações.

Mas, como são os anjos? Os anjos são espíritos puros, inteligentes, cheios da graça divina desde o início de sua existência, na aurora da primeira manhã da criação. Distribuídos e ordenados por Deus em nove coros – Serafins, Querubins, Tronos, Dominações, Virtudes, Potestades, Principados, Arcanjos e Anjos – constituem o exército da celeste Jerusalém e receberam a tríplice missão: de perpétuos adoradores da Santíssima Trindade, executores dos divinos desígnios e protetores do gênero humano. 1 Pertencem ao sexto plano da criação, sendo por isso superiores aos homens. Quando foram criados, Deus infundiu-lhes o conceito das coisas universais, sem o qual eles não seriam capazes de conhecer as coisas particulares. Para “ver” algum objeto, o anjo aplica sua inteligência, conferindo com aquele conceito universal que já existe em seu intelecto. Os anjos têm o seu ser por participação no Ser divino. Eles não existem desde sempre, mas em determinado momento receberam a existência, tendo sido criados do nada.2

Os anjos estão organizados em uma hierarquia escalonada verticalmente, diferentemente dos homens, na qual uns dependem dos outros. Cada anjo é uma espécie única; por isso, quanto mais elevado é o anjo, superiores são os conceitos infundidos por Deus. Contudo, isso não causa tristeza ao que é inferior, porque as capacidades, apetência e glória de cada um são plenamente satisfeitas pelo próprio Criador quando entram na Visão Beatífica. Não há sentimento de infelicidade, pois os superiores são motivo de admiração dos inferiores.3

Ensina a teologia que todo criança, no momento do nascimento, recebe de Deus um Anjo da Guarda que vela por ela desde os primeiros momentos da vida até a morte. “Desde o inicio até a morte, a vida humana é cercada por sua proteção e por sua intercessão” e São Basílio completa que “cada fiel é ladeado por um anjo como protetor e pastor para conduzi-lo à Vida” (CEC 336).

Todavia, a nossa vida na terra bem pode ser definida como uma luta, pois viemos a este mundo para enfrentar uma existência tisnada pelo pecado e repleta de dificuldades. Só receberemos o prêmio da bem-aventurança eterna se soubermos corresponder às graças recebidas.4 Não há como escapar. A prova é posta no caminho de todos os seres inteligentes até mesmo os anjos. Contudo, como passar pela prova sem ser ‘reprovado’? Porque além das concupiscências, há ainda o demônio que constantemente nos atormenta com suas farsas, procurando perder as almas. Como defender-se?

Assim como na grande batalha havida no Céu, São Miguel levantou o brado de guerra — “Quem como Deus?” — e dispersou do Céu a Lúcifer e todos seus sequazes, assim também cada anjo da guarda afugenta satanás e impede que sejamos arrastados. Embora de forma invisível, ele está real e verdadeiramente presente ao nosso lado, sendo o nosso guardião nas horas de tentação ou perigos e aquele que leva as orações ao trono de Deus, como uma trombeta que amplia o som de nossas preces, purifica-as, tornando-as mais belas e agradáveis a Deus.5 Porém, ele é discreto e quer nossa colaboração e atenção à suas inspirações.

Não são raros os casos em que os anjos aparecem para livrar seus protegidos de grandes riscos ou confortar nas aflições. Conta-se que São Policarpo, discípulo de São João Evangelista, viajava para a cidade de Esmirna, da qual era bispo, juntamente com um companheiro. No caminho, foi preciso que parassem numa hospedaria a fim de descansarem da viagem. Entretanto, no silêncio da noite, o bispo é despertado por uma misteriosa voz que dizia que a casa ia desmoronar. São Policarpo, sem titubear, levantou-se rapidamente, acordou seu companheiro que não muito convencido, recusou-se a sair. Nesse momento, apareceu o santo anjo da guarda de São Policarpo ordenando que saíssem imediatamente daquele lugar. Obedeceram, e logo que os dois se encontraram fora, desabou a casa num grande estrondo!

Que tal pensamento contribua para aumentar nossa devoção aos santos anjos, esses gloriosos intercessores celestes, dos quais muitas vezes nos esquecemos, e estejamos convictos de que, em qualquer necessidade e tribulação, ali está ele para interceder por nós e levar-nos ao termo final de nossa missão.

1 Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. I. q. 108, a. 5.
2 Idem.. I, q. 50, a. 2, ad. 3.
3 GOYARD, Pe. Louis. Os anjos falam? In: Revista Arautos do Evangelho. Ano IX. n.106. São Paulo: Abril. Out 2010, p. 33.
4 Op. Cit SÃO TOMÁS DE AQUINO. I, q. 64, a.2.
5 Cf. SOARES CORREA, Carlos Alberto. O maravilhoso mundo dos anjos. In: Arautos do Evangelho. Ano II, n. 14. São Paulo: Gráfica. Fey. 2003. p. 34-37.

O heroísmo no abandono

Ir. Juliana Montanari, EP

abandono

Nossa vida apresenta situações semelhantes às que ocorrem a um navio: somos sacudidos por ventos e tempestades, e até podemos começar a naufragar…

As ondas banham a praia numa manhã fresca, quando o Sol desponta refletindo-se nas águas e dando-lhes um brilho singular. Quantos fatos admiráveis e misteriosos já ocorreram no mar, este maravilhoso tapete de esmeraldas e topázios, com o qual Deus quis cobrir dois terços de nosso planeta!

No cais, um grande navio com a proa voltada para o oceano parece desafiá-lo, qual corajoso soldado ante o perigo. Os tripulantes acenam para os que ficam e preparam-se para a longa viagem. Em certo momento soltam-se as amarras e a nau começa seu percurso.

Passadas algumas horas, céu e mar se encontram no horizonte e não é mais possível ver terra firme. A embarcação, antes imponente, agora parece um simples e frágil brinquedo das ondas… Contudo, é nessas circunstâncias que transparece inteiramente a beleza misteriosa da navegação.

Sozinho em meio àquela instável vastidão, o navio recebe as investidas das impetuosas vagas que ameaçam naufragá-lo, mas mantém-se firme na sua direção; é balouçado pelos ventos das tempestades, e não se deixa soçobrar.

Não obstante, se a partida de uma embarcação suscita entusiasmo nos corações idealistas, por evocar a glória daqueles que, com galhardia, se lançam no risco rumo a novas conquistas, não menos digno de admiração é seu regresso ao porto, pois carrega atrás de si as façanhas da empresa. Não é verdade que, depois de uma arriscada travessia, o navio lembra um guerreiro que ganhou uma batalha e merece o prêmio da vitória?

Ora, nossa vida também apresenta situações semelhantes às que ocorrem a um navio. Já na aurora de seus dias, o homem se lança ao mar das incertezas deste mundo, em busca da felicidade. Não a encontrando, navega errante e, a certa altura do percurso, sente-se solitário. Julga estar abandonado por todos, ao bel-prazer de ondas traiçoeiras que, ao invés de lhe proporcionarem a alegria que falsamente prometem, só lhe aumentam a frustração. É sacudido pelos ventos das tentações, pelas tempestades dos problemas e dificuldades, e até mesmo começa a naufragar…

Que devemos fazer para não afundar em meio ao mare magnum de tribulações que é a vida humana, marcada pelo pecado original? Juntar as mãos e rezar a Deus com confiança, pois é no abandono à sua proteção que os ventos e as ondas se acalmam, as nuvens se afastam e o Sol torna a brilhar.

Quando formos assaltados pela impetuosa maré das provações e dos reveses, lembremo-nos de que Deus permite passarmos por tais situações, desejoso de que busquemos n’Ele nossa segurança. Se soubermos abandonarmo-nos em suas mãos, como filhos amorosos, receberemos as forças necessárias para transpor fiel e valorosamente os piores vagalhões de nossa vida. E quando chegarmos ao porto celeste, receberemos do Divino Capitão a coroa de glória reservada aos vencedores, aos que deram tudo, aos que foram heróis!

Revista Arautos do Evangelho – Janeiro 2015

Espelho do Sol

Ir Adriana María Sánchez García, EP

Cada um de nós pode ser comparado a uma gota d’água, pequenina e insignificante, mas chamada a refletir algo infinitamente superior…

gota_dagua_arautosApós uma forte chuva, ou mesmo depois do leve orvalho da madrugada, podemos contemplar gotas d’água refletindo a luz do Sol. Semelhantes a pequenas joias, tomam elas uma beleza própria que não tinham enquanto não refletiam tal luz.

Mas o que é o Sol comparado a uma gota d’água? Ele é uma estrela de especial grandeza, que aquece e ilumina a Terra, permitindo a vida em nosso planeta. E uma gota d’água… que poderia haver de mais insignificante? Ela cai e logo se esvai, sem que se lhe dê maior importância. Em relação ao oceano é nada! No entanto, pela ação dos raios solares, aquela pequenina gota passa a ser um espelho do Sol, a participar, de certo modo, da rutilante beleza do Astro Rei.

De maneira análoga, cada um de nós é como uma gota d’água. O homem, por si mesmo, é tão pequeno dentro do universo… Contudo, está chamado a fazer resplandecer nele algo infinitamente superior: o próprio Deus! Sendo um reflexo da luz divina, enquanto criatura feita à sua imagem e semelhança, adquire um brilho superior quando as águas batismais se derramam sobre sua cabeça: é o fulgor do estado de graça. E o que há de mais belo do que uma alma em graça?

gotasDeus ilumina tudo o que vemos, sejam as maravilhas da natureza ou as virtudes das almas santas. Todas as belezas desta Terra são como espelhos, nos quais podemos admirá-Lo e crescer no anelo de vê-Lo no Céu. O vasto e tempestuoso mar, por exemplo, representa a grandeza divina; a garça branca, sua pureza; o amor de uma mãe, sua bondade.

Ensina-nos São Paulo: “Hoje vemos como por um espelho, confusamente; mas então veremos face a face” (I Cor 13, 12). Não obstante, como poderemos chegar a ser um perfeito espelho do Sol de Justiça, límpido e sem nenhuma mancha, para refletir sua imagem?

O amor, diz São João da Cruz,1 torna o amante semelhante ao amado. É, pois, amando muito a Deus que nos tornaremos semelhantes a Ele. Amando a Deus mais do que a nós mesmos — o que só é possível com o auxílio da graça —, desejaremos viver conforme a sua Lei e seremos a “luz do mundo” (Mt 5, 14) preconizada por Nosso Senhor Jesus Cristo no Evangelho. Assim, poderemos realizar em nós as palavras do Apóstolo: “Refletimos como num espelho a glória do Senhor e nos vemos transformados nesta mesma imagem, sempre mais resplandecentes, pela ação do Espírito do Senhor” (II Cor 3, 18).

1 Cf. SÃO JOÃO DA CRUZ. Subida del Monte Carmelo. L.I, c.4, n.3. In: Vida y Obras. 5.ed. Madrid: BAC, 1964, p.371.

Revista Arautos do Evangelho Nov 2014

Rico ou pobre: quem se salva?

Ir. Patricia Victoria Jorge Villegas, EP

Imaginemos uma adega que contivesse os melhores vinhos do mundo, onde as garrafas não possuíssem um rótulo. Sem a pequena explicação que o rótulo nos traz a respeito da qualidade das uvas, o volume de álcool, sua proveniência, muito difícil seria distinguirmos os vinhos.

Ora, algo semelhante deu-se com a doutrina que Nosso Senhor Jesus Cristo veio trazer. Uma doutrina carregada de potência, que nossa pobre e humana inteligência, por mais elevada que seja, jamais poderia compreender. Como transmiti-la aos homens?

O Divino Pedagogo quis, assim, colocar um rótulo diante deste extraordinário vinho para nos fazer entender sua doutrina: as parábolas.

pobre_lazaroAnalisemos com cuidado uma de suas Divinas Parábolas e tiremos dela uma importante lição.

Havia um homem rico, que se vestia com roupas finas e elegantes e fazia festas esplêndidas todos os dias. Um pobre, chamado Lázaro, cheio de feridas, estava no chão, à porta do rico. Ele queria matar a fome com as sobras que caíam da mesa do rico. E, além disso, vinham os cachorros lamber suas feridas.

Quando o pobre morreu, os anjos levaram-no para junto de Abraão. Morreu também o rico e foi enterrado. Na região dos mortos, no meio dos tormentos, o rico levantou os olhos e viu de longe a Abraão, com Lázaro ao seu lado. Então gritou: ‘Pai Abraão, tem piedade de mim! Manda Lázaro molhar a ponta do dedo para me refrescar a língua, porque sofro muito nestas chamas’.

Mas Abraão respondeu: ‘Filho, lembra-te que tu recebeste teus bens durante a vida e Lázaro, por sua vez, os males. Agora, porém, ele encontra aqui consolo e tu és atormentado. E, além disso, há um grande abismo entre nós; por mais que alguém desejasse, não poderia passar daqui para junto de vós, e nem os daí poderiam atravessar até nós’. O rico insistiu: ‘Pai, eu te suplico, manda Lázaro à casa do meu pai, porque eu tenho cinco irmãos. Manda preveni-los, para que não venham também eles para este lugar de tormento’. Mas Abraão respondeu: ‘Eles têm Moisés e os Profetas, que os escutem!’ O rico insistiu: ‘Não, Pai Abraão, mas se um dos mortos for até eles, certamente vão se converter’. Mas Abraão lhe disse: ‘Se não escutam a Moisés, nem aos Profetas, eles não acreditarão, mesmo que alguém ressuscite dos mortos’”.
(Lc 16, 19-21)

Um dos assuntos mais polêmicos da atualidade é justamente este: ser rico ou ser pobre. Segundo a concepção de Marx, deve existir uma reivindicação e luta para que a classe mais baixa se iguale à classe alta e, desse modo, ninguém se sinta humilhado. Estaria Nosso Senhor Jesus Cristo favorecendo essa luta de classes? Como entender esta parábola?

A primeira indagação que ela nos sugere é esta: “Vai-se para o inferno pelo simples fato de ser rico? No Céu, só entram os mendigos? Toda riqueza é um mal e toda miséria, um bem?”

A este respeito explica Santo Ambrósio: “Nem toda pobreza é santa e nem todas as riquezas são pecaminosas; mas assim como a luxúria desonra as riquezas, assim a santidade recomenda a pobreza”.2 Na verdade, as riquezas de si são neutras. O problema está no bom ou no mau uso que delas se faça. “O mesmo se deve dizer da pobreza: não é ela boa, nem má. Para qualificá-la é necessário saber com que disposição interior foi aceita”.3

Nosso Senhor Jesus Cristo exalta nesta parábola aquele que, diante da pobreza material, aceita-a com resignação e, ao ver aqueles que estão em melhores condições, louva a Deus.

E o rico? Avarento, egoísta, apegado a si mesmo e ao dinheiro, preocupado com seus próprios interesses, pouco se importava com o pobre Lázaro que vivia na soleira de sua porta. Seu duro coração não sentia nenhuma compaixão. Pelo contrário, desprezava-o. De fato, explana Santo Agostinho: “A insaciável avareza dos ricos não teme a Deus, nem respeita ao homem, nem perdoa o pai, nem guarda fidelidade ao amigo; oprime a viúva e se apodera dos bens do órfão”.4

Neste estado de alma, morrem ambos: “Quando o pobre morreu, os anjos levaram-no para junto de Abraão. Morreu também o rico e foi enterrado” (Lc 16, 22). O pobre que tinha sofrido todos os infortúnios nesta terra, foi premiado na outra vida. O rico, porém, que tinha todas as comodidades e os confortos neste mundo, mereceu uma eternidade de tormentos.

“Quantas e quantas vezes o rico não deve ter sentido, dentro de si, a voz da consciência recriminando-lhe o apego desregrado pelas roupas, pelos prazeres excessivos da mesa e, sobretudo, pelo dinheiro! Lázaro à sua porta era um dom de Deus, estimulando-o à prática da caridade. Mas ele preferiu os bens deste mundo a ponto de dar as costas a Deus”.5 Desta maneira, compreende-se porque fora lançado ao inferno. Esclarece ainda São João Crisóstomo: “Não era atormentado porque tinha sido rico, mas porque não tinha sido compassivo”.6

E se o pobre não estivesse resignado com sua condição, e o rico fosse virtuoso e generoso?

Para responder a essa pergunta vejamos como Mons. João Clá Dias 7, de forma magistral, imagina a parábola do pobre e do rico com os papéis das duas figuras principais invertidos:

“Imaginemos o rico cheio de compaixão por Lázaro, a ponto de contratar um médico para curar-lhe as chagas, comprar-lhe os remédios, conseguir- lhe um bom abrigo e proporcionar-lhe deliciosos alimentos. Ademais, procurando cercá-lo de afetuosas atenções, chegando a rezar várias vezes ao dia por sua saúde, como também por sua eterna salvação.

Por outro lado, suponhamos um Lázaro que teria a alma mais ulcerada do que seu corpo, pois se consumiria de inveja dos bens do rico e, revoltado contra tudo, contra todos e contra o próprio Deus, cobriria de injúrias o seu benfeitor, desejando- lhe a desgraça e até a morte. A cada ato de comiseração e estima da parte do rico, corresponderia uma reação mal-educada e ressentida de Lázaro. Este só se acalmaria quando obtivesse toda a fortuna daquele, e, para isto, estaria disposto a instigar seu ódio em muitos outros.

E concluía Mons. João: “Se, nesse estado de alma, morressem ambos, qual seria o destino eterno de cada um?”8 Certamente o rico seria levado para gozar da felicidade eterna junto com Abraão e o pobre Lázaro seria condenado às penas do inferno.

Assim, diante desta suposição, não podemos tomar a pobreza como um meio de salvação e a riqueza, de condenação. O importante é ser pobre de espírito, isto é, diante das riquezas ou da possessão de bens, nunca apegar-se. E diante das provações, rejeições e contingências da vida, aceitá-las com inteira resignação. Eis a fundamental lição desta parábola: “o bom relacionamento entre ricos e pobres, e de ambos com Deus, no uso dos bens ou na aceitação das situações constrangedoras pelas quais passem”.9

Sejamos, pois, pobre de espírito para que, quando chegar o momento supremo de nosso encontro com Deus, tenhamos a alma com as disposições de Lázaro, desapegados de todos os bens terrenos, resignados diante de qualquer infortúnio, perseverantes na oração e na prática da virtude para sermos recebidos pelos anjos na eternidade.

1 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O pobre e o rico. Arautos do Evangelho. São Paulo: Ano XI, n.33, set. 2004, p. 10.
2 SANTO AMBROSIO, apud, SÃO TOMÁS DE AQUINO. Catena Aurea. Buenos Aires: v. IV, p. 388.
3 Loc. cit.
4 SANTO AMBROSIO, apud, SÃO TOMÁS DE AQUINO. Op. Cit. p.389
5 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Op. Cit. p. 9.
6 SÃO JOÃO CRISÓSTOMO, apud, SÃO TOMÁS DE AQUINO. Op. Cit. p. 392.
7 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Op. Cit. p. 10.
8 Loc. Cit.
9 Ibid.p. 11

Qual a mais importante chave do mundo?

Ediaine Bett
1º ano Ciências Religiosas

chaves

Por que se diz trancar a “sete chaves”? Qual a causa de não se dizer: guardar em sete caixas? O que a chave tem de misterioso a ponto de tornar-se a guardiã das coisas importantes? Qual foi a primeira chave da História?

Ora, ensina-nos a doutrina católica que o primeiro homem, Adão, foi criado por Deus com o barro desta Terra, e a primeira mulher, da costela de Adão. Contudo, eles não corresponderam ao chamado divino e pecaram, comendo o fruto da árvore proibida. Nossos primeiros pais foram expulsos do jardim do Éden e Deus “pôs diante do paraíso de delícias Querubins brandindo uma espada de fogo, para guardar o caminho da árvore da vida” (Gn 3, 24). Eis a primeira chave da História: uma espada de fogo.

No decorrer do tempo, à medida que a maldade humana se avolumava, fez-se necessário passar a chave em portas e janelas, armários e cofres, custodiar lugares importantes e encerrar coisas e pessoas que poderiam pôr em risco a segurança do próximo ou até da nação. Assim sendo, a chave tomou-se tão útil e necessária que surgiu um oficio especializado na sua fabricação e manutenção: os chaveiros.

A Igreja, mestra e sublimadora da ordem temporal, tomou-o e elevou-o à categoria de sacramental: os ostiários. Estes eram os encarregados das chaves da Igreja: eles abriam e fechavam as portas do local sagrado.

O próprio Nosso Senhor Jesus Cristo adotou o símbolo da chave quando as deu a São Pedro dizendo: “Eu te darei a chave do reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus” (Mt 16,19).

Por essa razão, no brasão pontifício há duas chaves: a de ouro e a de prata. A primeira simboliza o poder sobre a ordem espiritual e a segunda sobre a ordem temporal.

Porém, há uma fechadura na qual nenhuma chave consegue entrar, nenhum chaveiro da terra consegue abrir. Inclusive o próprio Deus, em sua onipotência, muitas vezes permite que ela só se abra com nosso consentimento. Essa fechadura é o nosso coração. No seu interior, ninguém consegue penetrar, se nós não permitirmos. Sua porta não tem fechadura pelo lado de fora, mas somente pela parte de dentro. E, há certos momentos da vida, em que Deus bate de maneira especial na porta do nosso coração.

Por isso, há um piedoso dito que diz: “Temo a Jesus que passa e não volta”. Que Nosso Senhor Jesus Cristo nos dê a graça de sempre termos a porta de nosso interior inteiramente aberta para Ele e para o sobrenatural, e completamente lacrada para tudo o que não seja de Deus.

O segundo Fundador

Irmã Luciana Niday Kawahira, EP

São Francisco e São Boaventura,

São Francisco e São Boaventura,

Ao entardecer do dia, enquanto o Sol deitava seus últimos raios no horizonte, um frade franciscano escrevia no recolhimento de sua cela. Habituado tanto a travar disputas na Universidade quanto a apresentar-se voluntariamente para lavar pratos e panelas, ou a partir cheio de zelo para pregar, naquele momento encontrava-se ele escrevendo a vida de seu Fundador, a pedido de seus irmãos de vocação.

Vindo de longe, ali chegou um dominicano — cognominado o Doutor Angélico — que resolvera visitar seu amigo. Entretanto, deteve-se junto à porta, sem coragem de interrompê-lo. Com uma admiração própria às almas virtuosas, sussurrou ao ouvido de quem o acompanhava: “Retiremo-nos e deixemos um Santo escrever a vida de outro Santo”. 1

Tal foi um dos memoráveis encontros entre estas duas grandes figuras do século XIII, que brilharam não só por sua ciência teológica, mas, sobretudo, pela grandeza de alma: São Tomás de Aquino e São Boaventura, de cujas virtudes heroicas, forjadas na escola de São Francisco de Assis, contemplaremos alguns traços a seguir.

Entre o Céu e a Terra

Por volta do ano de 1221, o casal João da Fidanza e Maria Ritelli foi obsequiado pela Providência com um filho. Introduziram-no logo no seio da Igreja Católica, pelas águas regeneradoras do Batismo, e deram-lhe o mesmo nome do pai. Vivia em Bagnoregio, antiga cidade dos Estados Pontifícios, localizada no alto de uma colina. Continue lendo

A bem-aventurança de ser rico: uma realidade ou uma utopia?

Ir. Maria Cecília Veas, EP

Conta-se que Turenne, quando tinha apenas seus sete anos, desapareceu de casa. Ao pôr-se a procurá-lo, seu pai encontrou-o reclinado aos pés de um canhão. Querendo assustá-lo, talvez para reparar o susto que dera na família, o pai gritou-lhe:

– Cuidado, inimigo!

E para surpresa do pai, o pequeno, pondo-se de pé, com uma prontidão única, exclamou:

– Onde está, para que eu possa combatê-lo?

De fato, era um homem de valor, ainda que em potência, digno, já revelando o que foi no futuro: o grande general das tropas de Luís XIV.

Realmente, a esta posição de luta, nenhum homem escapa, conforme tão bem expressou Jó, no momento em que bebia a taça amarga do sofrimento: “acaso não é uma luta a vida do homem sobre a terra?” (Jó 7, 1) Portanto, se há luta, há inimigos, e existem em abundância. Mas, não precisamos ir longe para procurá-los. Basta olharmos em nosso interior para logo percebemos as misérias herdadas do pecado original, um verdadeiro campo no qual temos de travar a primeira batalha. E os males olham-nos como a dizer: “Ao combate! Ou tu lutas, ou te tragamos!” E a alma começa o doloroso percurso da vida.

Ora, para as almas verdadeiramente justas, a vida é um combate não apenas para não serem tragadas pelo torvelinho do infortúnio, mas é para tornarem-se agradáveis a Deus na luta contra o mal. Que mal?

Ensina-nos a teologia que os principais inimigos do homem são: o demônio, o mundo e a came. Para fortes inimigos, tal seria que Deus não dispusesse de fortes auxílios.

A vida de perfeição fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo nada mais é que um precioso contributo para se alcançar a salvação. Os votos de castidade, pobreza e obediência são os auxílios por onde o homem subtrai-se da herança do pecado, que são as concupiscências, para se tomar digno herdeiro do Reino dos Céus.

Como é-nos impossível discorrer sobre cada um dos votos que um religioso professa em tão poucas linhas, trataremos apenas da pobreza, enquanto lenitivo das paixões que nos prendem aos bens da Terra, não prescindindo do auxílio da graça.

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riqueza_Certa feita, enquanto Santa Gema apreciava algumas joias postas sobre a escrivaninha, apareceu-lhe por primeira vez seu Anjo da Guarda, luminoso e radiante que lhe dirigiu a palavra: “uma filha de Deus é tão rica que não precisa de joias passageiras”.

Por estas palavras, entendeu que se tratava de meros objetos insignificantes, carregadas de um vazio, conforme diz o Eclesiastes: “vaidade das vaidades, tudo é vaidade”. (Ecl 1, 2) E a partir deste dia, nunca mais se enfeitou.

Que bela lição para nós! Desprender-se daquilo que nos envaidece. Pois bem, esta também é uma forma de praticarmos a virtude da pobreza.

Conforme reza a teologia, a pobreza obriga ao religioso a três coisas fundamentais1:

1º Não possuir nada como próprio.

Sob o ponto de vista tratado, cabe-nos aqui um exame de consciência. Quantas vezes apropriamo-nos dos dons que Deus nos deu para glorificação d’Ele? Com razão exclama o Apóstolo: “o que tens que não tenhas recebido?” Tudo o que Deus pôs a serviço do homem, a criação que o rodeia, é um presente para que dela se use.

Ora, a diferença que vai entre as qualidades naturais de alguém, físicas ou psicológicas, e as criaturas, está apenas no sujeito em que residem. Estas estão no universo, aquelas; no homem. Portanto, a mesma razão existente para nos desprendermos dos bens temporais, vale para nos desapegarmos de nós mesmos, valendo o princípio de que “nosso corpo está ferido de morte”, e sendo passageiro não há porque dele nos apegarmos. “Porque nada trouxemos ao mundo, como tampouco nada poderemos levar. Tendo alimento e vestuário, contentemo-nos com isto”. (1 Tm 6, 7-8)

2° Não dispor de nada sem autorização

Aqui cabe outra aplicação. Se um religioso incorre no pecado contra o roubo, quando se apropria de um objeto sem autorização, do mesmo modo todo homem incorre no roubo a Deus, alegando seu o que a Ele pertence.

Por isso, não devemos dispor de nossas qualidades para aparecermos bem à glória mundana! Façamos tudo somente para Deus, porque no momento oportuno Ele nos exaltará (1 Pd5, 6), se a obra feita, de fato, mereça o louvor.

3° Viver pobremente a exemplo de Cristo

Nosso Senhor Jesus Cristo convida-nos constantemente a não mergulharmos no apreço pelas coisas terrenas, e disto deu-nos o exemplo com sua vida: escolheu para nascer não um rico palácio, senão uma gruta; não quis uma cidade importante, preferindo os pequenos subúrbios de Belém; não quis ser conhecido senão após trinta anos de vida oculta. Quando os fariseus O desprezavam no Sinédrio ou O difamavam, Ele não se incomodou por tentarem tirar-Lhe a glória diante do povo; ao ser elogiado remetia ao Pai. No momento da morte ,não temeu o castigo ignominioso, derramou até a última gota de seu Preciosíssimo Sangue, e não se apegou ao seu maior tesouro, Maria Santíssima, legando-A ao discípulo amado.

Levando tudo às últimas consequências, o Redentor cumpriu sua missão: estava restabelecido para o homem o Reino da Graça, do perdão.

E nós o que damos por Nosso Senhor? Somos capazes de desprendermos inteiramente das coisas fúteis para abraçarmos a via da graça, do sobrenatural?

Cuidemos, portanto de não nos apegarmos a esta terra, pois “o mundo é toda atração que o conjunto das criaturas exerce para desviar desse ponto que é a graça santificante”2.Ouçamos, isto sim, a voz do Divino Mestre que sussurra em nosso interior: “Filho, a minha graça é um dom precioso; ela não sofre mistura de coisas estranhas, nem consolações mundanas. […] Não podes ao mesmo tempo, tratar comigo e deleitar-te em coisas transitórias.3

Não desanimemos, pois, se é verdade que os inimigos estão tão próximos de nós, é bem verdade que os tesouros e as verdadeiras riquezas residem também no interior de nossa alma, desde que nunca a maculemos: “temos este tesouro em vasos de barro”. (2 Cor 4, 7)

Daí entendermos este aspecto sublime da pobreza, que caracteriza a verdadeira riqueza: abandonarmos o nada, para possuirmos aquilo que é tudo: a graça, o Reino dos Céus, o próprio Deus.

1 ROYO MARÍN, Antonio. Teología de la perfección cristiana. Madrid: BAC, 1998, p. 862-863.
2 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Apud. João Scognamiglio Clá Dias. Reuniões de formação sobre a Graça —1996, São Paulo, p. 66.
3 TOMÁS DE KEMPIS. Imitação de Cristo. Livro III, cap. 53

Olhos e coração de águia

Irmã Marcela Alejandra Ruiz Reyes, EP

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Quando o Sol, ainda tímido, deita seus primeiros raios sobre as altas cordilheiras, o panorama vai adquirindo aos poucos uma luminosidade toda especial que faz coruscar como minúsculos diamantes o alvo manto de neve no cimo das montanhas mais elevadas. E à medida que a presença do Astro Rei ganha força, a neve se derrete levemente em alguns recantos da encosta, fazendo escorrer torrentes de água cristalina que rompem o silêncio da aurora com seu inconfundível e agradável murmúrio.

Entre os picos que se levantam sobranceiros, algo convida nosso espírito à contemplação e ao heroísmo. Trata-se de uma majestosa ave que, depois de se ter despertado junto com o nascer do Sol, cruza os ares com grandeza: a águia real. Sentindo-se inteiramente à vontade em tão espetacular cenário, ela voa com elegância, desafiando as alturas e parecendo estar no ar por puro prazer. Mas se a observarmos com mais cuidado, veremos que ela presta muita atenção no que acontece nos vales profundos e nas íngremes vertentes.

De repente, sua vista extremamente aguçada divisa uma presa que lhe reporá as energias. Investe, então, com uma velocidade vertiginosa — que pode passar até de 150 km/h — e a apanha certeira, com suas garras afiadas. Uma vez alimentada, fixa o Sol como se quisesse atingi-lo e outra vez fende os ares com audácia, em sua direção.

Contemplando-a levantar voo, ela nos dá ideia do que é a ousadia que não duvida nem toma precauções pequenas e mesquinhas. Sua forma de sulcar os céus evoca a beleza das almas que, no supremo heroísmo do desapegar-se das coisas da Terra, se abandonam nas mãos de Deus, dispostas a enfrentar todos os riscos desta vida, para contemplar eternamente a luz do Criador.

Tal é a Virgem Santíssima que, em sua humildade, voa como uma águia mística pelos céus inexcogitáveis do amor a Deus. E assim também são as almas que, reconhecendo sua debilidade para alcançar o Céu, podem dizer com Santa Teresinha: “Não sou uma águia, dela tenho simplesmente os olhos e o coração, pois apesar de minha pequenez extrema, ouso fitar o Sol Divino, o Sol do Amor, e meu coração sente em si todas as aspirações da águia…”.1

1 SANTA TERESA DE LISIEUX. Manuscrito B. O passarinho e a águia divina. In: Obras completas. São Paulo: Paulus, 2002, p.175

Revista Arautos do Evangelho - Agosto 2014

Doce presença de Jesus Cristo sobre a Terra

Bruna Almeida Piva

Encontramos no Evangelho inúmeras passagens que narram milagres feitos por Nosso Senhor Jesus Cristo. Vemos cegos, coxos, paralíticos e leprosos sendo curados, e até mesmo alguns, como Lázaro e a filha de Jairo, sendo ressuscitados pela misericórdia do Salvador.

Conhecendo tão estupendos milagres, quantos de nós já desejamos ardentemente viver na mesma época de Nosso Senhor, para assim alcançar d’Ele algum prodígio semelhante! Quantos de nós já ansiamos, ao menos, poder tocar em sua túnica e receber assim alguma graça especial… Porém, apesar desses desejos serem inteiramente legítimos, estamos enganados se pensamos que essas graças somente são alcançadas por aqueles que tiveram o privilégio de estar junto a Jesus Cristo no tempo de sua vida terrena.

Corpus_Christi_ArautosCerta vez, o Profº Plinio Corrêa de Oliveira comentou que ele não compreenderia se Nosso Senhor, em sua infinita misericórdia, houvesse partido para o Céu e deixado, de alguma maneira, de estar presente sobre a face da terra. 1 De fato, Ele não o fez, pois na quinta-feira anterior ao seu Sacrifício, deixou-nos o inestimável e magnífico tesouro da Santíssima Eucaristia. “Seu Coração Eucarístico nos deu a presença real de seu Corpo, Sangue, Alma e Divindade. Ele está presente por toda a terra, em todos os tabernáculos onde há hóstias consagradas, desde as mais belas catedrais até as missões mais longínquas e pobres. Ali está Ele como doce companheiro de nosso exílio, à nossa espera, com pressa para nos salvar, desejando que lhe peça”. 2

Com efeito, Nosso Senhor está todo nesse excelso sacramento em Corpo, Sangue e Alma, e em Divindade. A hóstia que vemos no altar é o próprio Cristo, presente da mesma forma que estava entre seus apóstolos e discípulos, apesar de nossos sentidos não poderem percebê-Lo.

Outro obséquio é de podermos receber este preciosíssimo Sacramento na Comunhão, graça superior até mesmo à que recebeu Santo Estevão quando criança, ao ser abraçado por Nosso Senhor, ou à que obteve o Apóstolo São João, ao recostar-se sobre o Sagrado Coração de Jesus na última Ceia. Pois, ao comungarmos, Cristo não só nos abraça, mas nos possui inteiramente, não só nos faz reclinar a cabeça sobre seu peito, mas põe seu Coração junto ao nosso; e nossa alma, nesse celestial encontro, se reveste da alvura e santidade do próprio Senhor Jesus.

“Nosso Senhor não podia inclinar-se mais a nós, os mais pobres, os mais necessitados e miseráveis, não podia demonstrar mais o seu amor quando, no momento supremo de privar-nos de sua presença sensível, quis deixar-se a Si mesmo entre nós, sob os véus eucarísticos”. 3

Portanto, quando nos sobrevier o desejo de estar pessoalmente diante de Nosso Senhor Jesus Cristo, de progredir nas vias da virtude, ou quando quisermos alcançar d’Ele alguma graça, não sintamos que Ele está longe de nós, mas nos aproximemos do Santíssimo Sacramento, e certamente obteremos tais favores com a mesma eficácia – ou até maior, pelo mérito da fé – do que se estivéssemos na frente de Nosso Senhor da mesma forma que os Apóstolos.

Diante de tanto consolo e amor que encontramos nesse insigne sacramento, grande é a vontade de passar a eternidade inteira desfrutando de seus benefícios. Ora, sabemos que eles nos são concedidos enquanto ainda vivemos nesta terra. Continuaremos nós a recebê-los no Céu? Ou será da vontade de Nosso Senhor que essas graças sejam recebidas somente pelos homens em estado de prova?

Neste sentido, Monsenhor João explica que, uma vez que o sacramento visa produzir a graça, de acordo com o que a forma e a substância simbolizam, não faz sentido que haja comunhão ou qualquer outro sacramento no Céu 4, pois a graça existirá em nossa alma de maneira estável e permanente. Recebemos nessa vida a presença eucarística real de Nosso Senhor em nossa alma para que Ele nos santifique, nos torne semelhantes a Ele, e nos fortaleça contra todo mal; no Céu isso não será necessário, pois o veremos face-a-face e o possuiremos em tempo integral.

Ademais, segundo os teólogos católicos 5, não haverá Missa Sacramental na Eternidade. Haverá a Missa Mística: “Nosso Senhor Jesus Cristo passará a eternidade enquanto homem, de dentro de Sua humanidade, oferecendo [ao Pai], como Sumo Sacerdote, […] a glória do Sacrifício oferecido por Ele. […] Nós teremos constantemente no Céu a Missa sendo celebrada misticamente, […] e nós estaremos eternamente participando deste oferecimento feito por Nosso Senhor”. 6

Contudo, apesar da visão beatífica ser o maior prêmio que Deus poderia conceder aos homens justos, o que está presente no Santíssimo Sacramento é o próprio Autor da Graça. “É, portanto, algo que vale mais do que toda a ordem da Criação, vale mais do que, inclusive, a ordem da Graça. Juntemos todas as graças que a humanidade recebe, receberá e recebeu; todas as graças que existem em Nossa Senhora não dão, nem de longe, o que está numa partícula consagrada: a recapitulação do Universo (cf. Ef 1, 10) num pedaço de pão”. 7

Diante de tão inefável dom, o que podemos fazer para agradecer a Deus, ou ao menos, para Lhe conceder alguma alegria, por tanta bondade? Certamente, está fora do alcance de qualquer ser humano agradecer-Lhe dignamente; porém, Ele nada pede de nós a não ser que sejamos devotos da Sagrada Eucaristia, tanto quanto se possa ser. Comunguemos frequentemente, com as devidas disposições; visitemos as igrejas e capelas nas quais Ele se encontra exposto; entreguemo-nos por inteiro a Ele, com tudo quanto somos e possuímos, e Lhe daremos a melhor recompensa, em busca da qual Ele aceitou ser morto e crucificado: a nossa salvação.


1 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. A presença de Cristo entre os homens na sua vida terrena e na Eucaristia. Revista Dr. Plinio. São Paulo. Ano VI. n. 63 (Junho, 2003); p. 23.
2 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Conferência. São Paulo. Arquivo IFTE.
3 CLÁ DIAS, João Scognamiglio apud MORAZZANI ARRÁIZ, Teresita. Aula de Teologia Sacramental no Instituto Filosófico-Teológico Santa Escolástica – IFTE. Caieiras, 2015. (Apostila).
4 Cf. Ibidem.
5 Ibidem.
6 Ibidem.
7 Ibidem.