Perfeita união

Ir. Letícia Gonçalves de Sousa,EP

Nosso Senhor Jesus Cristo, tendo uma missão redentora, poderia, desde a mais tenra idade, ter-Se manifestado plenamente aos homens como um profeta, como um rei, como o Messias esperado. Entretanto, quis Ele viver ocultamente durante trinta anos na casa de Nazaré, onde somente Maria e José O adoravam, em íntima contemplação e comunicação sobrenatural. Se Ele veio para conviver e ensinar aos homens, por que pregou só no fim de sua vida, durante três anos? Não era mais conveniente que dedicasse mais tempo ao apostolado entre o povo? Não fez Ele mais bem aos homens estando entre eles do que na casa de Nazaré?

As grandes missões devem ser precedidas por grandes momentos de contemplação, nos quais a oração e o silêncio burilam a alma para todas as formas de heroísmo. Cristo, sendo Deus, não precisava de momentos para recolher sua alma, pois constantemente via a face do Pai. Porém, como verdadeiro Mestre, deixou-nos este exemplo: durante nossa existência terrena, devemos nos dedicar primeiro à vida interior e depois às obras de apostolado.

Cabe-nos ressaltar ainda que, no decorrer dos anos de vida pública, Jesus dedicava longas horas para a oração e o recolhimento, e o mesmo aconselhava aos apóstolos, a fim de edificarem a Igreja com base neste princípio: “Jesus obrigou seus discípulos a entrar na barca e a passar antes d’Ele para a outra margem, enquanto Ele despedia a multidão. Feito isso, subiu à montanha para orar na solidão. E, chegando à noite, estava lá sozinho” (Mt 14, 22-23). São João Crisóstomo comenta a este respeito: “Despedida a multidão, sobe para orar, porque a oração exige repouso e silêncio. Não é todo aquele que ora que sobe ao monte, senão só o que reza bem e busca a Deus na oração”.[1]

Em outra ocasião, “retirou-se Jesus com eles para um lugar chamado Getsêmani e disse-lhes: Assentai-vos aqui, enquanto Eu vou ali orar” (Mt 26, 36). Assim o fez “para ensinar aos discípulos que na oração devem buscar a solidão”.[2] E em diversas circunstâncias assim agiu: antes do início de sua vida pública, retirando-se quarenta dias para o deserto (Cf. Mc 1, 12-13); antes de entrar em cidades onde exerceria muitas atividades apostólicas (Cf. Mt 14, 23) e, sobretudo, antes da Paixão; indo para o Horto das Oliveiras, onde passou a noite em oração (Cf. Lc 22, 39-45).

Vida ativa de Cristo

“Seria ingenuidade, ou pelo menos pobreza de senso comum, imaginar que a vida oculta de Jesus transcorrida num completo isolamento, fechada entre quatro paredes, sem a possibilidade do menor contato com a sociedade ao seu redor”.[3] Os fins da Encarnação exigiam que Nosso Senhor fosse manifestando-Se paulatinamente ao longo dos anos. Por isso, fatos como a perda e o encontro do Menino discutindo com os doutores da Lei comprovam sua missão apostólica desabrochando aos olhos dos homens.

Mais tarde em plenas atividades pastorais, Jesus dedicava-Se intensamente à salvação das almas:

Jesus percorria toda a Galileia, ensinando nas suas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino, curando todas as doenças e enfermidades entre o povo.  Sua fama espalhou-se por toda a Síria: traziam-lhe os doentes e os enfermos, os possessos, os lunáticos, os paralíticos. E ele curava a todos. Grandes multidões acompanharam-no da Galileia, da Decápole, de Jerusalém, da Judéia e dos países do outro lado do Jordão (Mt 4, 23-25).

Há nos evangelhos, diversas passagens em que as atividades pastorais e zelo pelas com as almas transbordavam do Sagrado Coração de Jesus: “Reuniu-se tal multidão, que não podiam encontrar lugar nem mesmo junto à porta. E Ele os instruía” (Mc 2, 2). Percorrendo as cidades, curou e ensinou a todos: “Ao amanhecer, Ele saiu e retirou-Se para um lugar afastado. As multidões O procuravam e foram até onde Ele estava e queriam detê-Lo, para que não as deixasse”. Mas, o Salvador manifestava seu zelo também por outras almas que deveriam se converter pelo contato com Ele: “É necessário que Eu anuncie a boa nova do Reino de Deus também às outras cidades, pois essa é a minha missão” (Lc 4, 42-43).

Todas as virtudes em Jesus Cristo se harmonizam em grau máximo, de forma sublime. Assim, em sua vida, tanto o obrar quanto o contemplar são perfeitos e se completam. As narrações evangélicas souberam retratar este arco gótico, como vemos nesta passagem: “Entretanto, espalhava-se mais e mais a sua fama e concorriam grandes multidões para ouvi-Lo e serem curadas das suas enfermidades. Mas Ele costumava retirar-Se a lugares solitários para orar” (Lc 5, 16).

Nosso Redentor faz milagres nas cidades de dia e dedica a noite para a oração. E continua: “Mas Ele se retirava ao deserto para orar”, para dar a entender aos bons pregadores que não abandonem inteiramente a vida ativa, por amor à contemplativa, e a não desprezar os gozos da contemplação por uma atividade excessiva, senão que bebam na quietude da contemplação o que derramaram falando, ocupados com o próximo.[4]

Assim sendo, a vida ativa de Cristo não é contrária à contemplativa, e sim, um complemento. Exemplo para nós: nossa vida ativa deve ser um transbordamento de algo que se contemplou e se pôs em obras. A união entre ação e contemplação é superior a qualquer uma considerada separadamente.[5]

[1] JOÃO CRISÓSTOMO, Santo apud TOMÁS DE AQUINO, Santo. Catena Aurea in Marcum, VI, v. 45-52.

[2] JOÃO DAMASCENO, Santo apud TOMÁS DE AQUINO, Santo. Catena Aurea in Mateum, II, v. 36-38.

[3] CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Eles viram, mas não entenderam.  In: Arautos do Evangelho. São Paulo: Ano VI, n. 61, jan 2007, p. 10.

[4]  GREGÓRIO DE NISSA, Santo apud TOMÁS DE AQUINO, Santo. Catena Aurea in Lucam, V, v. 12-16.

[5] Cf. ROYO MARÍN, Antonio. Teología de la perfección cristiana. Madrid: BAC, 2006, p.707.

A “oitava Palavra” de Jesus

Ir. Mariana Morazzani Arráiz, EP

Barrabás, famoso ladrão e assassino, o pior criminoso que Israel conhecera, encontra- se encarcerado na Torre Antônia, em Jerusalém. Era então costume entre os judeus, por ocasião da Páscoa, conceder a liberdade a algum preso, em memória da saída dos israelitas do cativeiro no Egito. O procurador romano na Judeia, Pôncio Pilatos, propõe dois nomes para o povo escolher: Barrabás ou Jesus.

Símbolo da ilegalidade, motivo de terror para todos, cujo aprisionamento constituía o alívio e a segurança da região, o maior malfeitor da época é contraposto Àquele que perdoava os pecados, curava leprosos, cegos e paralíticos, ressuscitava mortos e andara “por toda a parte, fazendo o bem” (At 10, 38)?

Ora, qual a gratidão suscitada por tantos ensinamentos, favores e milagres? O populacho, a uma voz, prefere Barrabás…

Surpresa e pânico do bandido

Podemos conjecturar a reação do chefe da prisão ao receber a ordem do magistrado romano de liberar naquele mesmo dia o terrível bandido.

— Soltar esse homem por causa de um absurdo costume judaico? Esse criminoso vai repetir suas loucuras! Vão se arrepender… Mas, enfim, cabe-me só cumprir ordens. Vamos!

Desce até o calabouço do Pretório e introduz a chave na fechadura de uma cela. Rangendo, abre-se a porta do repugnante recinto e o carcereiro chama:

— Barrabás!

Com os cabelos desalinhados, o olhar desvairado e cheio de terror, balbucia o delinquente:

— Vou ser crucificado?!

— Não! Fora daqui! — responde o guarda com rudeza e desgosto.

— Mas… o que vão fazer comigo?

— Fora!

Saindo, trêmulo, ainda indaga:

— O que aconteceu?

— Estás livre! Vá para a rua!

— Eu, livre? Eu, que já sentia as cordas nas minhas mãos e experimentava prematuramente a asfixia da crucifixão pela qual iria morrer! Eu, solto depois de tudo o que fiz? Eu, Barrabás, homicida detestado por todo o mundo?… Vou cobrir um pouco a cabeça para não ser reconhecido na rua… Preciso me disfarçar para sair, pois podem me matar. Mas… estou livre! Será possível? Eu me apalpo e vejo que… é verdade!

Sem rumo fixo, caminha aturdido pelas ruas de Jerusalém quando, de repente, escuta não muito longínquo o lúgubre rufar de tambores:

— O que é isso? O anúncio de uma crucifixão? Estão levando alguém para o suplício!

Experimentando um calafrio de pavor, suspira:

— Poderia ter sido eu… Oh, horror!

Continua em direção à turbamulta, que está quase chegando no Monte Calvário. Ao se aproximar, percebe a identidade do condenado: é Jesus de Nazaré… e vai ser crucificado!

A “oitava Palavra”

Se uma graça fulgurante de arrependimento rasgasse a sordidez de sua alma endurecida e nela penetrasse, Barrabás, cheio de compunção, ter-se-ia lançado aos pés de Nosso Senhor Jesus Cristo, já deitado sobre o madeiro da Cruz.

Nesse momento, o Divino Redentor estaria experimentando em suas divinas mãos e adoráveis pés as inenarráveis dores ocasionadas pela perfuração dos pregos. Mas isso não O impediria de pousar seu sacratíssimo olhar na figura horrenda daquele a quem a perfídia dos homens tinha preferido a Ele, Jesus, o Filho de Deus, a Beleza Infinita.

Sob o influxo de tal graça, o criminoso, ajoelhado, diria:

— Senhor, eu deveria estar sendo crucificado e não Vós! Vós ireis morrer por mim quando sou eu, infame, merecedor desse castigo por meus pecados! Senhor, perdão por tanta maldade! Senhor, eu me arrependo, detesto meus crimes e quero me assemelhar a Vós!

E o Salvador teria pronunciado aí a primeira das Palavras, que não mais seriam sete, como registram os Evangelhos, mas oito; de seus divinos lábios brotaria esta manifestação de poder, bondade e amor infinitos:

— Meu filho, vá porque teus pecados estão perdoados! Vá porque soubeste aceitar as graças de penitência e de arrependimento que Eu mesmo para ti suscitei! Vá e não peques mais!

Somos também “barrabases”

A História não conta qual foi o destino de Barrabás uma vez fora da prisão. Ignoramos se continuou na esteira dos crimes e desvarios que o caracterizavam, enchendo novamente de sobressalto e pavor o povo que clamara por sua libertação, ou se houve uma conversão semelhante à que acabamos de imaginar.

Uma coisa é certa: a cada ano, na liturgia da Semana Santa, ao ser mencionado o nome do bandido na leitura da Paixão segundo São João, vibram os corações e ardem em desejos de vingar e reparar tamanha ignomínia.

É justo, porém, descarregarmos toda a nossa ira sobre o terrível criminoso, esquecendo que fomos nós também “barrabases” em algum momento da vida? Não ofendemos brutalmente o Coração de Jesus ao cometer um pecado ou ao apegar- -nos a um vício? E não agimos como o povo judeu escolhendo o famoso malfeitor, ao trocar a obediência aos Mandamentos por uma transgressão grave e voluntária à Lei?

Se alguma vez pecamos gravemente contra algum Mandamento da Lei de Deus, somos comparáveis a Barrabás e àqueles que o preferiram a Jesus! Deveríamos estar sendo crucificados, quando é Ele, ao contrário, que sofre por nós! Que terrível verdade: ao pecar, prefiro Barrabás como meu amigo e crucifico a Jesus em minha alma!

Em vista disso, o que farei? Formular essa pergunta é fruto de uma graça que parte de Jesus em direção a mim. Diante dela só cabe uma súplica à Mãe do perdão e da divina graça, cujos rogos me obtiveram esse benefício:

“Oh, Virgem Santíssima, minha Mãe, dai-me a convicção de que só existem dois caminhos: um é o de Barrabás e outro, o de Jesus.

“Quando vosso Divino Filho voltar no fim dos tempos para exercer o julgamento de todos os homens, reunidos no Vale de Josafá e não mais no Pretório de Pilatos, a humanidade estará dividida entre os que O quiseram crucificar e se entregaram ao pecado, e aqueles que aceitaram o convite de seu divino e arrebatador olhar, e quiseram viver sempre na sua graça e na prática da virtude.

“Pelos méritos infinitos da Paixão, fazei que eu esteja entre estes últimos!

“E se tiver a desgraça de Vos ofender, que eu me aproxime, com toda pressa, do Sacramento da Penitência e possa, arrependido e humilhado, ouvir aquela ‘oitava Palavra’ dirigida ao hipotético Barrabás convertido: ‘Vá, meu filho, minha filha, teus pecados estão perdoados!'”.

Adaptação da palestra pronunciada por Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP, em 27/5/1990 – Revista Arautos do Evangelho, Março-2015

Santo Isaac Jogues, mais do que um mártir

Ir. Ana Bruna de Genaro Lopes – 3º ano de Ciências Religiosas

10 de janeiro de 1607 foi o dia escolhido por Deus para nascer um filho que haveria de sofrer por Ele não só um martírio, mas dois.

Isaac Jogues nasceu em Orleáns, França. No seminário jesuíta recebeu, juntamente com a teologia e filosofia, o ardor missionário e o desejo do martírio, ao ouvir os relatos do Pe. João de Brebeuf sobre as recentes missões no Canadá.

Logo após a ordenação, o Pe. Isaac foi designado para a missão na Nova-França —  Canadá — e para lá partiu em 1636. Em Quebéc, ele dividia seu tempo entre o estudo da língua, o cuidado dos enfermos, e a catequese de preparação para o batismo.

Por volta de 1642, os índios iroqueses, aliados aos holandeses, iniciaram uma guerra, atacando ferozmente a tribo dos hurões, que estava sob o domínio francês. Durante a luta, Pe. Jogues se ofereceu para atravessar o rio Hudson a fim de levar uma mensagem à cidade. No meio do caminho, foi capturado numa emboscada dos iroqueses e levado para um horrível cativeiro. Ao longo de treze meses, foi alvo dos piores horrores: serraram-lhe um dedo e arrancaram-lhe outro com os dentes; tiraram-lhe todas as unhas. Muitas vezes batiam em seu corpo com machados incandescentes e cortavam-lhe pedaços de carne, além de outros incontáveis suplícios. O santo passava a noite estirado no chão, com o corpo cheio de feridas e coberto de insetos.

Apesar de seu desejo de permanecer ali para converter o povo e sofrer, foi resgatado por um capitão holandês que o levou de volta a Quebéc. Para se recuperar desse martírio, voltou à França em 1643. Estava irreconhecível. Quando chegou diante de seu superior, o Padre Reitor, este lhe perguntou:

— Vós chegastes a conhecer na Nova-França o Pe. Jogues?

— De maneira muito íntima, meu reverendo pai — respondeu ele.

— Que bom! Poderia dar-me notícias suas? Ele ainda está neste mundo ou, como alguns afirmam, já foi queimado pelos índios?

— Não, meu pai, ele ainda vive, pois é bem este que está diante de vós e vos pede que o abençoe…

Embora o sobrevivente tivesse dois dedos mutilados, o Papa Urbano VII lhe concedeu celebrar a Santa Missa, afirmando: “Não é conveniente que o mártir de Cristo não possa beber o Sangue de Cristo”.

Todavia, no coração do Pe. Jogues, ardia o desejo de cumprir sua missão e repetia, unido a seus companheiros: “Sentio me vehementer impelii ad moriendum pro Christo”.

Poucos meses depois, voltou a Quebéc, tendo como objetivo apaziguar o relacionamento entre iroqueses e hurões a fim de continuar seu apostolado. Durante um período de paz transitória, foi enviado aos iroqueses. Exultava em seu interior: “Ter-me-ia por feliz se o Senhor quisesse completar meu sacrifício no mesmo lugar em que o começou!”

Aos olhos humanos, a missão neste hostil território foi o pior dos fracassos; porém, aos olhos d’Aquele que conhecia Isaac desde toda eternidade, era o tempo do cumprimento da missão. Após quatro semanas de incessantes torturas, no dia 18 de outubro de 1646, com um golpe de machado, o Pe. Isaac Jogues sofreu seu segundo e definitivo martírio e cumpriu seu último voto: unir-se inseparavelmente a Deus.

Do mar estrela…

Maria Clara Joice Silvino

2º Ano Ciências Religiosas

Uma terrível tempestade assalta o pequeno barco que navega em meio à escuridão da noite. Parece que a embarcação irá soçobrar devido as enormes ondas e o navegador já não consegue mais controlar o timão, que gira descontroladamente de um lado para o outro.

Mas uma certeza enche de confiança o experiente navegante: as estrelas continuam a cintilar no céu, e quando as nuvens se dispersarem, a estrela da manhã indicará o norte.

O mar é este mundo e nós somos os navegantes. Neste mar, os ventos das contradições são furiosos; bravas as ondas do sucesso; repentinos os assaltos dos piratas que querem roubar os nossos méritos; muitos são os que naufragam. Como é possível chegar ao porto da bem- aventurança? A resposta nos dá São Bernardo: “Olha a estrela, invoca Maria”[1].

“Nossa Senhora – comenta o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira – é chamada, muito a propósito, de Estrela luminosíssima. Incontáveis astros reluzem no firmamento, porém Ela é o mais resplandecente de todos: ou seja, Maria é a mais luminosa das criaturas.”

“E por que é simbolizada pela estrela? Porque é durante a noite que cintilam as estrelas, e esta vida é para o católico uma noite, um vale de lágrimas, uma época de provação, de perigo e de apreensões. Na eternidade teremos o dia brilhante, porém na vida terrena teremos o escuro da madrugada. E nesta noite existe uma estrela que nos guia, que é a consolação de quem caminha nas trevas, olhando para o céu: Maria Santíssima, a mais fulgurante de todas as estrelas!”[2]

Sob a luz luminosíssima desta estrela não pereceremos. Porém, Maria não é só a estrela que nos guia, mas também o porto seguro que nos abriga nas tempestades desta vida. Olhando para esta estrela, não nos desviaremos; refugiando-nos neste porto de bonança, não naufragaremos nas tormentas, até chegarmos um dia à eterna bem-aventurança, onde receberemos a recompensa demasiadamente grande: contemplar para todo o sempre a luz desta estrela inextinguível.

[1] BERNARDO. Obras Completas. Madri: BAC, 1953. Vol. I. p. 205.

[2] Cfr. CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Conferência em 24/8/1965. In: CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Pequeno Ofício da Imaculada Conceição Comentado. São Paulo: Ipsis, 2010, v1, p.47.

OS MILAGRES COMPROVAM A DIVINDADE

Ir. Maria Cecília Lins Brandão Veas, EP

É célebre a conversa de Talleyrand com Lepaux, membro do Diretório francês, que estava frustrado por não conseguir adeptos para a pretensa nova religião filantrópica que fundara. Disse-lhe o famoso ministro e diplomata:

― Não me espanto com teu fracasso. Se quiser ter êxito, vá e faça milagres; cure os doentes, ressuscite mortos. Em seguida deixe-se crucificar e ressuscite ao terceiro dia. Assim garanto que muitos o seguirão.

Logo compreendeu o filósofo que cabe somente a Deus fundar uma Religião, e, para mantê-la viva, o único meio são os enviados d’Ele mesmo que confirmem seus ensinamentos com milagres.1

De que valeria, de fato, ornar uma catedral com magníficos vitrais, se nunca incidissem sobre eles os raios do Sol? Não passariam de meros pedaços de vidro, coloridos e unidos, sem significado algum. E o mesmo se passaria com toda a Terra, pois o Sol é que dá brilho e vida a todas as coisas, como o foi tão poeticamente expressado por Rostand: “Ô Soleil! Toi sans qui les choses ne seraient que ce qu’elles sont 2 ― Oh, Sol! Tu, sem o qual as coisas serão apenas o que elas são”.

“O que é o Sol para o mundo sensível, é Deus para o mundo espiritual: a luz da justiça e da verdade eterna, da mais elevada formosura e do amor infinito, da mais pura santidade e da mais perfeita felicidade”,3 ensina o padre Scheeben.

O Sol, astro de fogo, faz incidir sobre a Terra apenas sua luz e calor; porém, uma lupa exposta aos seus raios é capaz de produzir um incêndio. Assim também Deus guia os rumos da História por meio de almas fogosas, capazes de incendiar no amor a Ele, atrair, converter, operando milagres e prodígios. “Aquele que crê em Mim fará também as obras que Eu faço, e fará ainda maiores do que estas” (Jo 14, 12).

Seria possível crer que, quando Nosso Senhor Jesus Cristo subia aos Céus, “Aquela Alma infinitamente nobre e grande, que abarcava o Céu e a Terra […], aquela Alma que é o Sol divino de nossas almas, a própria alma de nossas almas”,4 consentiria em deixar de conviver conosco? Mais do que nunca, vibrava nos Apóstolos as palavras pronunciadas antes de sua morte: “Não vos deixarei órfãos” (Jo 14, 18). Como?

Os Apóstolos acompanhavam a gloriosa Ascensão de Jesus e sentiam a terrível dor da separação (cf. At 1, 9-10). O Autor de tantos milagres não os faria mais; aquelas santas mãos que haviam expulsado os vendilhões do templo, dado vista aos cegos, feito surdos ouvir e mudos falar, não curariam mais; aquela voz, ora suave, ora imperiosa, que fizera calar ventos e apaziguar tempestades e que tantos ensinamentos transmitira, não mais se faria ouvir. Compreendiam, de forma obnubilada, que o Mestre não mais estaria com eles. Porém, um olhar meigo, levado aos extremos de ternura, casto e delicado, fitava-os um a um: o de Maria Santíssima, cuja presença faziam-nos confiantes, seguros e fortes. Não hesitaram, e logo se reuniram ao redor d’Ela (cf. At 1, 14).

Nossa Senhora era o sustentáculo do bem na Terra e rezava ardentemente por aqueles que constituiriam o fundamento da Igreja. Até que, em Pentecostes ― quiçá também antecipado por Ela como o foi o momento da Encarnação ―, os Apóstolos recebem o Espírito Santo e saem intrepidamente, pregando a Boa-nova do Evangelho: “Os discípulos partiram e pregaram por toda parte. O Senhor cooperava com eles e confirmava a sua palavra com os milagres que a acompanhavam” (Mc 16, 20). Assim se ia formando a Santa Igreja.

Há mais de dois mil anos Deus perpetua os milagres por meio da Igreja, pois é por esta instituição que Nosso Senhor Jesus Cristo se faz “tocar” ao longo da História, através dos Sacramentos. “O que Cristo quer fazer, fá-lo por meio da Igreja. […] Logo, a Igreja em certo sentido é onipotente e onisciente porque é instrumento da onipotência e porta-voz da onisciência de Deus”.5

Quereis ver Jesus? Ide à Igreja e lá O encontrareis sob as espécies Eucarísticas. Quereis ser curados de vossa lepra espiritual? Ide ao confessionário, onde Jesus, sob a voz do sacerdote vos perdoará. Quereis tornar-vos filhos de Deus? Ide à pia batismal, deixai cair sobre vossas cabeças as santas águas, pelas mãos do ministro de Cristo, e logo ouvireis os Anjos cantarem jubilosos por terdes conquistado vosso lugar no Céu. Quereis seguir Jesus? Caminhai na Igreja de Deus!

Mais beneficiados que o povo eleito introduzido na Terra Prometida são os que fazem parte da Santa Igreja Católica Apostólica Romana, instituição perfeita, a pátria de nossas almas, mais valiosa que dez mil terras prometidas.6 E não só por meio dos Sacramentos, mas também no triunfo constante da Santa Igreja na Terra os milagres se fazem sentir, ecoando a voz do Salvador: “as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16, 18).

Ora, quer por meio dos homens, quer das criaturas, todos os milagres realizados devem sua força a Maria Santíssima, pois “dom algum é concedido […], que não passe por suas mãos virginais”.7

Em nossos conturbados tempos, unamo-nos à Virgem Santíssima, o tesouro inesgotável de Deus, “de cuja plenitude os homens se enriquecem”,8 e levemos em consideração que

[…] em virtude de uma lei superior da Providência, os milagres tornam-se mais frequentes nas épocas em que são mais necessários. Desse modo, sempre que a situação no mundo vai se apresentando mais precária, que a impiedade vai crescendo, como vemos em nossos dias, o número de milagres deverá aumentar. Poderão demorar mais ou menos tempo para começar, mas virão na hora certa e farão sua obra. E nós, católicos, devemos contar com eles para abrirmos caminho no meio de tantas provações, confusões e decadências. Deus tem desígnios e mistérios que não nos cabe alcançar. Apenas devemos confiar e esperar que Ele, a rogos de Maria Santíssima, intervenha de modo miraculoso para tocar o coração da humanidade contemporânea .9

Confiemos neste panorama que se descortina aos nossos olhos! Creiamos não só na divindade de Jesus, como também na divindade de seu Corpo Místico ― a Igreja ―, que, ancorada em Maria, é um dos milagres mais patentes já realizados na História: permanece incólume já por mais de dois mil anos, apesar de todas as procelas que teve de enfrentar ao longo do tempo.

Esperai, esperemos! Cristo prometeu estabelecer seu Reino entre os homens e este Reino se efetuará por meio de Maria,10 assim como quis Ele vir ao mundo por meio d’Ela: “Por meio de Maria começou a salvação do mundo e é por Maria que deve ser consumada”.11 “São os milagres da destra d’Ela, para glória d’Ela”,12 que hão de fundar este Reino.

1 Cf. SPIRAGO, Francisco. Catecismo en ejemplos. Barcelona: Políglota, 1927, v. I, p. 45-46.

2 ROSTAND, Edmund. Hymne au Soleil. In: Chantecler. Paris: Fasquelle, 1928, p. 26.

3 SCHEEBEN, Mattias-Joseph. As maravilhas da graça divina. Petrópolis: Vozes, 1956, p. 177.

4 EDITORIAL. “Alma de Cristo, santificai-nos; Corpo de Cristo, salvai-nos!”. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano IX, n. 96, mar. 2006, p. 4.

5 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Glória a Deus no Céu, e paz na Terra aos homens de boa vontade. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano V, n. 57, dez. 2002, p. 7.

6  Cf. Id. Os Impropérios: cântico de dor e esperança. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano IX, n. 97, abr. 2006, p. 21.

7 SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. Op. cit. n. 25, p. 31.

8 Ibid. n. 23, p. 30.

9 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Bondade régia da Virgem do Miracolo. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano V, n. 46, jan. 2002, p. 9.

10 SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. Op. cit. n. 217, p. 210-211.

11 Ibid. n. 49, p. 50.

112 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Conferência. São Paulo, 25 set. 1972. (Arquivo IFTE).

Silêncio: somente para os religiosos?

Ir. Denise Maria Paschoal Rocha

2º ano de Ciências Religiosas

Em determinado mosteiro, duas freiras eram muito amigas uma da outra, mas… não eram muito amigas da perfeição: sempre quebravam o silêncio durante o Oficio. Seguindo o costume do convento, cada irmã possuía um lugar fixo nas estalas do coro. As duas religiosas sentavam-se próximas uma da outra e, pelo menor pretexto, começavam a falar…

Certo dia, uma delas morreu. Quando foram cantar o Ofício na manhã seguinte, depois do enterro, qual não foi a surpresa da amiga ao ver que o lugar da falecida não estava vazio, mas ocupado pela própria defunta! Assustada, foi contar à Madre. Esta lhe ordenou que, se visse a tal irmã outra vez, lhe perguntasse se estava precisando de orações ou de alguma outra coisa.

No dia seguinte, a alma da irmã falecida novamente apareceu na hora do Oficio, e a amiga lhe perguntou o que fazia ali. Ela lhe respondeu: “Estou aqui para purgar os meus pecados. Nós conversávamos durante o Oficio, quebrando o silêncio e perturbando o cerimonial. Eu deveria ter empregado esse tempo para conversar com Nossa Senhora!”

E nós, quantas e quantas vezes não conservamos um recolhido silêncio nas igrejas e capelas? Lembremo-nos: cumprir os momentos de silêncio é uma forma de educar a alma, além de nos abrir o coração para as grandes conversas com Deus.

Como nos ensinou Plinio Corrêa de Oliveira: “O silêncio é uma espécie de câmara obscura, na qual se vai procurar as joias daquilo que se pensou, daquilo que se sentiu, para depois dizer a palavra acertada, a palavra que tem carga, que tem amor, tem afeto e entusiasmo”.

O que a raiva pode fazer

Ir. Mónica María Barraza López

2º de Ciências Religiosas

No século XVII, na França, entre os criados da Grande Mademoiselle havia um italiano dotado de muito talento musical. Como o rei Luís XIV queria vários músicos para a orquestra da corte, foram convocados muitos, até este servidor… Para grande surpresa, acabou se tomando o famoso compositor Jean Baptiste Lully, um dos maiores músicos da época.

Quando Lully regia as peças, fazia-o com um bastão cuja ponta era de ferro, com a qual batia no chão para marcar bem os tempos. Um dia, numa apresentação, enquanto ele regia, um dos instrumentistas perdeu o compasso. Lully tinha um temperamento fortíssimo e, cheio de raiva pelo erro, deu um murro com o bastão. Quando foi ver, o que tinha acontecido? Havia furado o próprio pé com a ponta de ferro. Com o passar do tempo, a ferida infeccionou e gangrenou. Como ele era muito teimoso, não quis amputar a pema. Quando o convenceram, era tarde demais e acabou morrendo.

Quando estivermos frente às diversas situações em que nos vemos tentados de impaciência, em vez de cravar o bastão no próprio pé, façamos uso de um eficaz instrumento que Lully dispensou: o socorro de Nossa Senhora, que ouve muito benevolente todos os pedidos, inclusive o da virtude da paciência.

 “Velhos”… como certos vinhos

Ir. Maria Beatriz Ribeiro Matos, EP

Nesta Terra herdada de Adão, tudo o que é material está irremediavelmente condenado a perecer: as flores murcham, os alimentos se deterioram, a saúde humana se gasta, os edifícios se transformam em ruínas… Só um fator é necessário: o tempo.

Entretanto, para algumas criaturas, como certos vinhos, o decorrer dos anos parece ter o efeito contrário. Cada uma de suas numerosas variedades fermenta em ritmo próprio e após um período de repouso – seja em barricas de carvalho, seja na própria garrafa meticulosamente acondicionada nas caves -, entra no seu período de maturação.

Para o champagne e outros vinhos, este pode ser muito curto. Mas os mais reputados tintos Borgonha ou Rioja, cujas características se forjam pela lenta interação entre o mosto fermentado e a madeira, ainda vão dar o melhor de si só depois de evoluir na garrafa por vinte e cinco, trinta ou cinquenta anos. E mesmo tendo atingido seu apogeu, podem manter por mais algumas décadas – e até séculos! – a excelência de seu buquê. Por isso se diz que o vinho quanto mais velho melhor!

Durante a fermentação, contudo, o perigo de o mosto converter-se em vinagre é grande, pois o ­álcool, ao entrar em contato com o oxigênio, se transforma com facilidade em ácido acético. Para que isto não aconteça, são necessários cuidados especiais e, sobretudo, deve-se respeitar o processo adequado para o tipo de vinho e a variedade que se deseja obter.

Imaginemos agora uma garrafa de vinho que, no frio e escuro silêncio da adega, pudesse sentir a cozinheira passar. Ela vai buscar na despensa alguns ingredientes para fazer o pão, escolhe os melhores queijos para servir, mas nem lança um olhar de desprezo em direção à adega. “Desta vez houve uma distração… na próxima ocasião serei escolhido!”, pensa o vinho da garrafa.

Os anos se passam e a despensa vai sendo incessantemente reabastecida. A cozinheira se aposenta, uma mais jovem a substitui e, enquanto isso, o vinho permanece em sua garrafa, na estante, sem mudar de posição sequer. A camada de pó que a cobre se torna mais grossa e a rolha, ressequida e quebradiça.

Afinal, num dia como tantos outros, a porta da despensa se abre e escutam-se os passos de alguém dirigindo-se à adega. Como esta mesma cena se repetira durante tantos anos, o nosso vinho velho nem lhe dá importância: quem se interessaria por uma pobre garrafa esquecida num recanto empoeirado?

Contudo, logo escuta a voz do chefe da família dizer:

– Hoje é dia de grande festa! Há muito tempo tenho guardado um vinho especial à espera de que se requintasse.

E a garrafa sente uma mão que, cuidadosamente, a ergue e exclama:

– Agora, sim, está à altura!

O dono da casa, deixando o vinho tanto tempo guardado, lhe fez um mal ou um bem? Sem dúvida um bem, pois deu-lhe a oportunidade de atingir uma sublimidade inalcançável sem a espera.

Assim também nós. Quantas vezes nossas almas podem sentir-se como uma garrafa guardada em escura adega, para a qual Deus parece não Se dignar olhar!… Com frequência, ao atravessar circunstâncias difíceis e pedir auxílio ao Céu, podemos ter a impressão de que a Providência não nos ouve. Na realidade, quem suporta com fidelidade as esperas de Deus vai, como o bom vinho, galgando degraus rumo à perfeição.

Deve-se, porém, cuidar para que a alma não “se avinagre”, pois o espírito humano é frágil e fácil de se deixar abater pelo desânimo. Neste caso, o resultado da espera vai ser muito diferente do desejado…

Deus sabe o tempo de maturação adequado para todos. No momento oportuno Ele virá nos visitar. E não é que necessariamente tenhamos de estar “velhos” como certos vinhos. Na adega do Altíssimo há vetustos e complexos “borgonhas”, mas também “champagnes” de incomparável leveza, frescos “alvarinhos” e agrestes “chacolís”, e o Divino Despenseiro sabe esperar o tempo exato para cada um…

Revista Arautos do Evangelho – Janeiro 2016

O Reinado de Cristo na Terra

Ir Juliana Montanari, EP

Em nossa era, verifica-se uma preocupação constante: como alcançar uma sociedade perfeita? Fala-se muito de ordem, leis e direitos, mas a resposta não se restringe a isso. A solução encontra -se em algo muito mais profundo, régio e elevado, que bem podemos chamar de fonte da qual emanam todas as perfeições: A Santa Igreja Católica Apostólica e Romana.

A sociedade pode ser comparada a uma enorme construção. Para a edificação de um castelo, por exemplo, é necessário, mais que majestosas torres e altaneiras muralhas ou elegantes escadarias e magníficos salões, é necessário um sólido fundamento. Sem este, de nada valerá a construção, pois, na primeira tempestade, tudo desmoronará e se reduzirá a um amontoado pedras. Tendo uma base forte, o castelo atravessa os séculos, incólume a chuvas e intempéries. Estas só contribuirão para torná-lo mais belo, pois dar-lhe-ão a glória de ter resistido às piores situações. Ora, a sociedade tem como fundamento a Igreja Católica. Podemos contemplar, no passado, o esplendor e grandeza em todos os campos nos quais ela penetrou. Em contrapartida, encontramos nos dias atuais apenas os restos dessa civilização luminosa, pois ela ruiu quando seu fundamento lhe foi tirado. Tal realidade, muito esquecida na sociedade em que vivemos, merece grande importância.

Numa época como a nossa, em que as pessoas, guiadas pelo egoísmo e por falsas doutrinas, afastam-se da Religião, é difícil ter uma noção exata de como foi a Idade Média. Durante três séculos, a Igreja teve inteiro domínio sobre os povos do continente europeu e, sem dúvida, foi este “o período mais fecundo e sob muitos aspectos, mais harmonioso de todos os que a Europa conheceu até os nossos dias. Saindo das trevas invernais da época bárbara, a humanidade cristã viveu a sua primavera”.[1] A Igreja converteu aqueles bárbaros germanos em filhos de Deus e deles fez uma brilhante civilização. A sociedade era totalmente penetrada pela Fé e o Estado tinha a obrigação, antes de tudo, de prestar honra à Igreja, dar-lhe proteção e apoio.[2] Assim descreve o Papa Leão XIII a luminosa Cristandade Medieval:

Tempo houve em que a filosofia do Evangelho governava os Estados. Nessa época, a influência da sabedoria cristã e sua virtude divina penetravam as leis, as instituições, os costumes dos povos, todas as categorias e todas as relações da sociedade civil. Então a religião instituída por Nosso Senhor Jesus Cristo, solidamente estabelecida no grau de dignidade que lhe é devido, em toda parte era florescente, graças ao favor dos Príncipes e à proteção legítima dos Magistrados. Então o Sacerdócio e o Império estavam ligados entre si por uma feliz concórdia e pela permuta amistosa de bons ofícios. [3]

A hierarquia eclesiástica compunha-se de três graus: o Sumo Pontífice, os bispos e os párocos. A esta categoria, “por causa de sua condição sacral, era tida como a mais importante das classes sociais. Além de sua missão própria que é de salvar as almas, tinha sob sua responsabilidade duas atividades: a educação e a saúde pública”.[4] Desta forma, todo o povo era orientado e auxiliado pelo próprio clero. O desempenho do ensino era administrado por sacerdotes e bispos, e os nobres necessitavam de uma licença eclesiástica para lecionar, pois o ensino dizia respeito à ortodoxia e para isso era preciso estar sob a vigilância do clero.[5] Notando a importância de saber ler e escrever, não só para os trabalhos habituais mas, especialmente, para a difusão da Religião, a Igreja desenvolveu uma forma de alfabetizar a todos através das passagens bíblicas. O mito de que a Idade Média foi a era do atraso no que diz respeito aos estudos fica desmascarado, pois foi também neste período que se desenvolveu o livro, instrumento de cultura que substituiu os pergaminhos; bem como os estudos aprofundados de filosofia e teologia na Escolástica. [6] Além disso, todas as decisões eram resolvidas pelo soberano, que baseava-se na doutrina católica exposta claramente pela lógica cristã como nos explica Woods:

Se a Idade Média tivesse sido realmente um período em que as questões eram resolvidas pelo mero recurso aos argumentos de autoridade, esse rigor no estudo da lógica formal não faria sentido. O empenho com que se ministrava essa disciplina revela, pelo contrário, uma civilização que almejava compreender e persuadir. Para esse fim os professores procuravam alunos capazes de detectar as falácias lógicas e de formular argumentos logicamente sólidos. Foi a Idade da Escolástica.[7]

Quanto à saúde pública, sabe-se que a Igreja foi solícita em atender as necessidades dos enfermos, auxiliando-os não somente no campo espiritual, através dos Sacramentos, como também no campo físico, erigindo hospitais atenciosamente cuidados por religiosos, os quais dedicavam-se aos doentes com esmero e verdadeira caridade. De tal forma isto sucedeu que não somente o mundo cristão foi modificado, mas todo o comportamento global. Compreendendo que servir o próximo é servir a Deus, as ordens hospitaleiras atendiam os doentes, quem quer que fosse, de todos os lugares, sem exceção. Inclusive, foi esta “uma das razões que haviam levado os cristãos da Idade Média a chamar ‘Hospedagem de Deus’ ou ‘Casa de Deus’ não às igrejas, mas aos lugares onde se acolhiam e tratavam, gratuitamente, pobres, doentes, miseráveis”,[8] comenta a historiadora Régine Pernoud, fazendo alusão ao vocábulo francês hôtel-Dieu, hospital. No mesmo sentido, observa o Professor Plinio Corrêa de Oliveira:

Foi com os tesouros de dinheiro dados à Igreja, pela caridade, que se pôde estender, pelo continente europeu,  uma notável rede de hospitais. […] Tais frutos dependiam do fato de a Igreja estar cercada de prestígio pelo Estado e pelos poderosos de então, dando-lhe os meios de exercer uma grande ação. [9]

Encontrando o apoio do Estado, a Igreja pôde atuar em todos os campos:

impulsionou as ciências e o progresso técnico, aperfeiçoou as relações internacionais entre os estados, aboliu a escravidão, fez avançar no progresso social, elevou a condição da mulher, de tal modo que, no século XIV, a Europa havia ultrapassado de muito todos os outros continentes.[10]

Além dos deveres e direitos individuais, os medievais preocupavam-se mais com o bem comum do que com o próprio. Considerando-se ligado aos outros pela mesma Fé, o homem medieval sentia intensamente que tinha deveres para com a sociedade. Mais do que um meio indispensável para ganhar a vida, o trabalho tinha um valor altíssimo, pois criava condições para a prática das virtudes. Tanto os camponeses como o carpinteiro ou o padeiro executavam, com suas simples atividades, uma obra piedosa, pois operavam visando o bem alheio, e assim, preparavam-se para o Céu. A disposição do grupo de trabalhadores trazia a marca cristã da caridade fraterna. Havia muitas confrarias ou irmandades, ou seja, pessoas que trabalhavam juntas em convivência fraterna, como os arquitetos, os escultores, pedreiros, aparelhadores e amassadores de cal, para construir catedrais ou casas paroquiais. Joalheiros, curtidores, vendedores de peles e alfaiates reuniam-se e ofereciam à catedral um vitral que trazia embaixo uma vinheta, designando as ocupações de seu estado, feito por eles mesmos em louvor ao seu santo padroeiro ou à Virgem Mãe de Deus. Assim o trabalho, sob o olhar de Deus, se enobrecia. [11]

 “Assim na Terra como no Céu”: o Reinado de Cristo na Terra.

Sabemos que a vida nesta Terra diferencia-se profundamente da vida eterna, porém não são dois planos separados um do outro. Pelo contrário, possuem eles uma íntima relação: “Assim como a Escola Militar é o caminho para a carreira das armas, ou o noviciado é o caminho para o definitivo ingresso numa Ordem Religiosa, assim a terra é o caminho para o Céu”.[12] O anseio pela felicidade leva o homem a procurar na vida presente algum resquício do Reino que os espera no Céu. O próprio Nosso Senhor Jesus Cristo nos ensinou a pedir ao Pai Celeste: “Venha a nós o vosso Reino” (Mt 6, 10). Esta súplica, rezada todos os dias, há mais de dois mil anos Igreja Militante, roga que o Reino de Deus se estabeleça o quanto antes entre nós.

Porém, como seria isso possível tendo o próprio Nosso Senhor Jesus Cristo afirmado não ser deste mundo o seu Reino? (Cf. Jo 18, 36). Será uma contradição? Ou teria ensinado a pedir algo impossível de se alcançar?

De fato, como nos explica São Tomás,[13] Nosso Senhor disse: “O meu reino não é deste mundo”, e não “o meu Reino não está neste mundo”, ou seja, está neste mundo com a humanidade regenerada pela graça e não é um reino comum aos reis da Terra, mas, um reino divino, pois o seu poder vem do Céu. “É o reino da virtude, é o reino da santidade, é o reino do Evangelho”,[14] que só se “torna efetivo na terra, individual e social, quando os homens, no íntimo de sua alma, como em suas ações, e as sociedades em suas instituições, leis, costumes, manifestações culturais e artísticas, se conformam com a lei de Cristo”. [15]

O Reino de Deus se realiza na sua plenitude no outro mundo. Mas para todos nós ele começa a se realizar em estado germinativo já neste mundo. Tal como em um noviciado, já se pratica a vida religiosa, embora em estado preparatório; e em uma escola militar um jovem se prepara para o Exército… vivendo a própria vida militar. E a Santa Igreja Católica já é neste mundo uma imagem, e mais do que isto, uma verdadeira antecipação do Céu. [16]

Para o futuro, portanto, estão reservadas maravilhas jamais verificadas na História. A este mundo controverso, violento, que parece caminhar de paroxismo em paroxismo, sucederá uma nova era na qual florescerá a verdadeira sociedade cristã, ainda mais harmoniosa e bela que a sociedade medieval, pois terá a unção do perdão divino, única solução —  mas quão eficaz! — para os desregramentos humanos. Sob a égide desse perdão e alicerçada na Igreja, a sociedade, será verdadeiro espelho da fisionomia de Cristo, em que serão reunidas “todas as coisas, as que estão nos Céus e as que estão na Terra” (Ef I, 10).

[1] DANIEL-ROPS, Henri. A Igreja das catedrais e das cruzadas. Trad. Emérico de Gama. São Paulo: Quadrante, 1993, p. 11.

[2] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plínio. “Tempo houve em que a filosofia do Evangelho governava os Estados…”. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano I, n. 5, ago. 1998, p. 18.

[3] LEÃO XIII. Encíclica Imortale Dei, n. 28.

[4] CORREA DE OLIVEIRA, Plinio. As três Revoluções: Conferência. São Paulo, [s.d.]. (Arquivo IFTE).

[5] Loc. cit.

[6] Cf. PERNOUD, Régine. Idade Média : o que não nos ensinaram. 2. ed. Trad. Maurício Brett Menezes. Rio de Janeiro: Agir, 1978, p. 51.

[7] WOODS, Thomas E. Como a Igreja Católica construiu a civilização ocidental. Trad. Élcio Carillo. São Paulo: Quadrante, 2008, p. 54.

[8] PERNOUD. Op. cit. p. 141-142.

[9]CORRÊA DE OLIVEIRA. “Tempo houve em que a filosofia do Evangelho governava os Estados…” Op. cit.  p. 20.

[10]CLÁ DIAS, João Scognamiglio. A Igreja é imaculada e indefectível. Disponível em http://arautos.org.br.  Acesso em 13 set. 2012.

[11] Cf. DANIEL-ROPS. A Igreja das catedrais e das cruzadas. Op. cit. p. 300-303.

[12] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. A Cruzada do século XX.  In: Catolicismo. São Paulo: Ano I,  n.1, jan. 1951, p. 1.

[13] SÃO JOÃO CRISÓSTOMO apud SÃO TOMÁS DE AQUINO. Catena Áurea. Exposicion del Evangelio segun Juan. C. XVIII, v. 33-38.

[14] CLÁ DIAS. Deus nos ensina a pedir o que nos quer dar: Homilia. Op. cit.

[15] CORRÊA DE OLIVEIRA. A cruzada do século XX. Op. cit. p. 1.

[16] CORRÊA DE OLIVEIRA. A cruzada do século XX. Op. cit. p. 1.

Diante do Divino Mestre

Bruna Almeida Piva

1º Ano Ciências Religiosas

Foram-lhe, então, apresentadas algumas criancinhas para que pusesse as mãos sobre elas e orasse por elas. Os discípulos, porém, as afastavam. Disse-lhes Jesus: Deixai vir a mim estas criancinhas e não as impeçais, porque o Reino dos céus é para aqueles que se lhes assemelham. E, depois de impor-lhes as mãos, continuou seu caminho.

Um jovem aproximou-se de Jesus e lhe perguntou: Mestre, que devo fazer de bom para ter a vida eterna? Disse-lhe Jesus: Por que me perguntas a respeito do que se deve fazer de bom? Só Deus é bom. Se queres entrar na vida, observa os mandamentos. Quais?, perguntou ele. Jesus respondeu: Não matarás, não cometerás adultério, não furtarás, não dirás falso testemunho, honra teu pai e tua mãe, amarás teu próximo como a ti mesmo. Disse-lhe o jovem: Tenho observado tudo isto desde a minha infância. Que me falta ainda? Respondeu Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende teus bens, dá-os aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me!

Ouvindo estas palavras, o jovem foi embora muito triste, porque possuía muitos bens. Jesus disse então aos seus discípulos: Em verdade vos declaro: é difícil para um rico entrar no Reino dos céus! Eu vos repito: é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus. A estas palavras seus discípulos, pasmados, perguntaram: Quem poderá então salvar-se? Jesus olhou para eles e disse: Aos homens isto é impossível, mas a Deus tudo é possível. (Mt 19, 13-26)

Nesta passagem do Evangelho, rica em significados, podemos notar duas interessantes disposições de alma: a das criancinhas e a do jovem rico. Aquelas aceitam e se deleitam com a divina influência do Salvador, e também Lhe dão alegria; este rejeita o convite para ser apóstolo, deixa Nosso Senhor, entristecendo-O. Nas duas ocasiões, Nosso Senhor demonstra uma bondade sem limites e um carinho comovente; porém, obtém duas reações opostas. Por quê?

Embora, aparentemente, os dois fatos nada tenham de comum entre si, analisando-os bem, vemos que decorrem de um só, mas fundamental, princípio de vida espiritual: a salvação não é fruto do esforço; não se santifica quem procura, diante de Deus, se apoiar em suas próprias obras e méritos. E é justamente esta a disposição de alma das criancinhas: “Quem é pequeno não se julga um colosso nem autossuficiente, mas dependente”.1 Tudo o que precisa, a criança pede aos pais; busca-os infalivelmente em suas dificuldades, não porque se julgue digna de ser atendida – porque não é capaz de nada sozinha –, mas porque só confia neles; não busca ser grande nem independente, mas somente amá-los, e ser por eles também amada; por mais que a castiguem, busca-os e os prefere entre todos os outros.

É o principal motivo pelo qual as criancinhas agradam tanto a Nosso Senhor: a confiança com que se aproximam d’Ele e a sua grande inocência, que as torna capazes de abandonar-se cegamente aos seus divinos cuidados.

Como terá sido o convívio do Redentor com aqueles pequeninos? Talvez Ele os tivesse abraçado, lhes imposto as mãos, concedendo saúde, força, sabedoria e graças incontáveis; e elas com sua vivacidade infantil, certamente fizeram um alvoroço em volta d’Ele…2

Eis, portanto, o que Ele nos quer dizer nesse Evangelho, quando afirma que se nos fizermos “como criancinhas” em nosso relacionamento com Deus, nosso Pai – e com Nossa Senhora, nossa Mãe –, somente assim, entraremos no Reino dos Céus.”

Bem outra, entretanto, foi a reação do moço rico ante o chamado do Divino Mestre. Vê-se que ele buscava se apoiar na prática dos Mandamentos, que dizia ter sempre observado: “Tenho observado tudo isto desde a minha infância”. Porém, isso não suficiente. Nosso Senhor queria dele algo mais, a única coisa que importa realmente: que ele Lhe entregasse o coração. A Infinita Misericórdia buscava não as boas obras somente, mas simplesmente o amor daquela alma. Algo tão natural e fácil para os pequeninos, mas que ele, tão “justo”, não soube dar.

Aquele jovem infeliz pediu a vida eterna; no fundo, achava que esta lhe seria concedida porque observava os artigos do decálogo e era, portanto, bom. Não esperava na misericórdia divina, mas em seu próprio esforço. Porém, nenhum homem pode merecer o Céu, porque “aos homens até isto é impossível.”

Não é verdade que se ele fosse como as criancinhas e dissesse; “Senhor, eu não mereço nada, mas, por compaixão, dai-me a vida eterna!”, teria certamente alcançado o Reino de Deus? Não teria ele sido incomparavelmente mais feliz escolhendo a via do amor, a via dos pequeninos?

Portanto, clara está a resposta à pergunta dos Apóstolos: “Quem poderá, então, salvar-se?” Os que se fizerem como crianças e, livres de toda a riqueza, se jogarem nos braços de Nosso Senhor, que sem dúvida é o melhor de todos os pais e nos ama infinitamente mais do que todos eles.

1 CLÁ DIAS, EP, João Scognamiglio. A inocência, a eterna lei… In: O inédito sobre os Evangelhos. Città del Vaticano-São Paulo: LEV; Lumen Sapientiæ, 2014, v.IV, p.415.

2 Cf. Ibid., p.414.

Pugnacidade e contemplação

Diana Compasso de Araújo

A origem do Mosteiro de Santa Maria da Vitória, marco do gótico português quatrocentista, remonta a uma promessa feita à Santíssima Virgem por Dom João I, rei de Portugal, e seu condestável São Nuno de Santa Maria Álvares Pereira. Lutavam eles em Aljubarrota, em agosto de 1385, para afirmar ante Castela e Leão a independência do reino lusitano e, embora seus guerreiros se encontrassem em situação de inferioridade diante da poderosa cavalaria rival, o combate desfechou-se numa brilhante vitória.

Fruto do voto feito por eles naquela ocasião, surgiu uma das mais belas, famosas e simbólicas edificações da história portuguesa, hoje conhecida em todas as partes como Mosteiro da Batalha, em alusão a tão importante acontecimento.

Visto em seu conjunto, o prédio parece condensar em seus muros robustos e maciços a pugnacidade de uma geração de guerreiros cheios de fé, destemidos e curtidos em mil pelejas heroicas. A austeridade das formas é realçada pelas dimensões grandiosas e o tom dourado das pedras gastas pelo tempo. A fachada principal revela traços tão marcantes do espírito militar que nos parece ver ali refletida a personalidade de um cavaleiro: equilíbrio, decisão e combatividade…

O pórtico de entrada, entretanto, é mais suave e ladeado por sólidos contrafortes de monumental altura, que manifestam a própria contingência, enquanto conduzem os olhares e o espírito para o alto. O fino rendilhado de seus arcos e colunas atrai o visitante para o interior do beligerante edifício, onde claustros e jardins desvendam o coração contemplativo da construção, habitada durante séculos por religiosos dominicanos.

Há, pois, no Mosteiro da Batalha faíscas de luta renhida e aroma de piedosa contemplação, uma robustez que harmoniza o indestrutível com a delicadeza do ornato. E esta conjunção de opostos que se complementam em perfeita unidade nos convida a nós, homens e mulheres do século XXI, a enfrentarmos as dificuldades diárias, confiando no auxílio da graça.

A história do mosteiro evoca, assim, a esperança no socorro infalível d’Aquela que é Mãe da Divina Graça e que nos trará a vitória. Os que lutam revestidos com a áurea armadura da fé e munidos com o exercício das virtudes, depois do combate alcançarão a recompensa dos heróis: a palma do triunfo, a glória eterna, o reino da bem-aventurança. A estes se poderá dizer: “ainda um pouco de tempo — sem dúvida, bem pouco —, e o que há de vir virá e não tardará. Meu justo viverá da fé. Porém, se ele desfalecer, meu coração já não se agradará dele. Não somos, absolutamente, de perder o ânimo para nossa ruína. Somos de manter a fé, para nossa salvação!” (Hb 10, 37-39).

O DESEJO QUE SÓ SE SATISFARÁ NA ETERNIDADE

Ir Maria Beatriz Ribeiro Matos, EP

Os últimos raios tênues de sol em um sábado de fevereiro indicavam que o astro rei logo cederia lugar às trevas da noite. Uma muda e desapercebida melancolia já se fazia sentir, quando o céu se cobriu de um magnífico dégradé: o dourado se mesclou com tons róseos e avermelhados, que, por sua vez, deram lugar a um azul-marinho. As plantas, antes iluminadas por uma luz dourada, agora refletiam um discreto lilás. Quase uma delicadeza do sol, querendo compensar, com a beleza de sua saída,as horas em que se ausentaria.

Uma Irmã andava pelo pátio contemplando embevecida esse espetáculo, quando se deparou com um jovem cabisbaixo. O que fazia ele por ali? Por que não entrara na igreja com seus familiares?

— Sou ateu.

— Ateu? — redarguiu a religiosa. — Tão jovem… Não foi educado na fé? Ou então, como a perdeu? Olhe para a natureza, não precisa ir muito longe: olhe o pôr-do-sol! Como essa maravilha seria possível sem um Ser Todo-poderoso por detrás?

— Não… Esse é um fenômeno comum e facilmente explicado pela ciência.

Nesse momento, os familiares do rapaz saíram da igreja e chamaram-no para ir embora. Este não é um caso isolado na sociedade atual. A teologia, contudo, não se intimida diante da comprovação racional da existência de Deus. Pelo contrário, reúne em si séculos de tradição e pensamento que podem dar ao homem a única e ideal solução para suas inquietações. Com efeito, afirma o grande Santo. Agostinho que nosso coração foi feito para Deus e inquieto ele está até que não repouse no Senhor.

  1. À luz da razão conhece-se a existência, mas não a essência divina

Deus não seria Deus, porém, se pusesse na alma humana a sede do infinito e a inquietação, quando não o encontra, e não pusesse ao alcance os meios para que todos chegassem a conhecê-lo.

Ora, aqui o próprio Santo Tomás de Aquino apresenta uma objeção: o homem é um composto de espírito e matéria, e, por causa desta seu conhecimento, parte do sensível: é a clássica afirmação de Aristóteles, adotada pelo Aquinate e por São Boaventura, que em sua obra Itinerarium Mentis a Deo assim se expressa:

O homem, chamado de microcosmos, tem cinco sentidos como cinco portas, pelas quais entra em nossa alma o conhecimento de todas as coisas que existem no mundo sensível. Com efeito, pela vista,entram os corpos sublimes: os luminosos e os demais colorados, pelo tato, os corpos sólidos e terrestres; pelos sentidos intermediários, os corpos intermediários, como os aquosos pelo paladar, os aéreos pela audição, e pelo olfato os evaporáveis que têm algo da natureza úmida, algo da aérea, algo da ígnea ou quente, como se pode ver no fumo que dos aromas se desprende’.

Contudo, Deus é puro espírito e, sendo incorpóreo, não pode ser captado pelos nossos sentidos, de onde se poderia concluir que pela nossa razão não podemos chegar ao conhecimento de Deus. Com sua clareza específica, o Doutor Angélico continua sua exposição, respondendo ele próprio sua oposição.

O conhecimento que se obtém através do sensível não pode chegar a conhecer todo o poder de Deus. Consequentemente, tampouco pode ver sua essência. Mas, como são efeitos dependentes d’Ele como causa, nesse sentido podemos partir dos efeitos para saber que Deus existe2.

Portanto, aqui está o ponto de equilíbrio: nesta terra podemos conhecer a existência e até algo da essência divina, mas somos incapazes de conhecer positivamente o que constitui a própria deidade (quididade). Por ora somos quais morcegos que, incapazes de ver o sol, permanecem constantemente imersos na escuridão, e o sol, indiferentemente, brilha sobre ele. O sol existe e é real, mas o morcego não tem em sua natureza capacidade para vê-lo. Entretanto, tem notícia de sua existência ao sentir o calor.

  1. Dos efeitos à Causa: as criaturas, um reflexo do Criador

Conforme acima mencionado, partindo dos efeitos, portanto, das criaturas, podemos remontar à Causa, o Criador. Em primeiro lugar, a primeira prova que engloba todas as outras é o princípio do mundo. Hoje em dia há muitos adeptos a teorias que defendem a independência da origem do mundo de um Ser Criador. Ora, em todas as soluções apresentadas, há logo de início um erro que vai contra o procedimento normal da natureza: nunca um ser inferior dá origem ao superior, mas sim o contrário. Por isso, era impossível que o mundo passasse espontaneamente a existir sem uma Mente por trás.

Além disso, ainda o grande São Boaventura afirma que as coisas criadas formam uma escada que nos conduzem a Deus, um magnífico caminho que começa à tarde, na penumbra da irracionalidade dos primeiros graus da criação — são os vestígios de Deus —, continua pela manhã, no alvorecer das criaturas inteligentes, nas quais a alma do próprio caminhante se integra, e, por fim, termina no meio-dia, no Princípio Primeiro, isto é, na alegria do conhecimento de Deus e na reverência de sua majestade 3.

O que, porém, Deus deixa entrever através do criado que nos faz vislumbrar como Ele é? Vemos nas criaturas sucessivos graus de perfeição, participação da Perfeição infinita, ou seja, divisamos seus atributos: a Beleza, a Bondade, a Verdade, a Onipotência ademais de um longo cortejo de perfeições.

O itinerário da mente a Deus, não há homem, ciente das verdades reveladas ou não que seja incapaz de fazê-lo. São Paulo, em sua carta aos romanos, repreende-os duramente, afirmando causa de sua imoralidade sua recusa de subir a “escada” natural rumo a Deus:(falta alguma pontuação, algo nesta frase.

Porquanto o que se pode conhecer de Deus eles o leem em si mesmos, pois Deus lho revelou com evidência. Desde a criação do mundo, as perfeições invisíveis de Deus, o seu sempiterno poder e divindade, se tornam visíveis à inteligência, por suas obras; de modo que não se podem escusar.

Porque, conhecendo a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças. Pelo contrário, extraviaram-se em seus vãos pensamentos, e se lhes obscureceu o coração insensato. Pretendendo-se sábios, tornaram-se estultos. Mudaram a majestade de Deus incorruptível em representações e figuras de homem corruptível, de aves, quadrúpedes e répteis. Por isso, Deus os entregou aos desejos dos seus corações, à imundície, de modo que desonraram entre si os próprios corpos. Trocaram a verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram à criatura em vez do Criador, que é bendito pelos séculos. Amém! (Rm 19-25)

  1. Quem é Deus?

Chegamos quase ao fim do presente texto sem podermos responder com sucesso a questão que planteávamos desde o início. Ponderamos como a criação reflete o Criador, vimos que chegamos a uma pálida noção de como Ele é, mas não dissemos quem Ele é.

Para compreender a Deus, segundo a razão própria e íntima de Deidade, é preciso uma revelação sobrenatural; só a fé divina nos permite aqui embaixo conhecer obscuramente o mistério da vida íntima de Deus, mas, para saber com evidência o que é a Deidade, não há outro meio senão vê-la imediatamente, como os bem-aventurados4.

Convido-o, leitor, a compartilharmos no Céu da visão que teremos de Deus, pois, neste mundo,vivemos apenas na esperança de ver o que pela fé acreditamos. “Hoje vemos como por um espelho, confusamente; mas então veremos face a face. Hoje conheço em parte; mas então conhecerei totalmente, como eu sou conhecido” (iCor 12,13).

1 SÃO BOAVENTURA. Itinerario de la mente a Dios. Capítulo 2, parágrafo 3. (Tradução pessoal).

2 S. Th. I, q.12, a.12

3 Cf. SÃO BOAVENTURA. Itinerario de la mente a Dios. Capítulo 1, parágrafos 2 e 3.

4 GARRIGOU-LAGRANGE. Les perfections divines. 4.ed. Paris: G. Beauchesne et ses fils, 1936. p. 41. (Tradução pessoal)

As três ofertas

 Ir Patricia Rivas, EP

3º ano de Ciências Religiosas

Conta-se, nas crônicas da Ordem dos Menores, que, certa vez, Nosso Senhor apareceu a São Francisco de Assis, pedindo-lhe três ofertas. Ao que o santo respondeu: “Não tenho nada para oferecer, porque já me entreguei todo a Vós, e tudo o que me pertence vos pertence. O único que tenho é esta túnica e esta corda, que também são vossas”.

Nosso Senhor insistiu, dizendo-lhe que colocasse a mão no peito e tirasse daí uma oferta. São Francisco obedeceu, e tirou de seu peito uma moeda de ouro tão brilhante como nunca vira antes. Entregou-a a Nosso Senhor, que lhe ordenou repetir o gesto, e, pela segunda vez, o Santo encontrou uma moeda. Faltava apenas a terceira oferta. Nosso Senhor mandou o monge fazer o mesmo pela terceira vez e, assim, completaram-se  as três ofertas pedidas.

Nosso Senhor então lhe explicou que as três moedas simbolizavam a dourada obediência, a preciosa pobreza e a formosa castidade. São Francisco então declarou que em nada lhe remordia a consciência pelo fato de guardar tais moedas no peito…

No dia de nosso Juízo, quando formos cobrados por Deus, poderemos dizer como este grande Santo que tudo o que temos guardado conosco em nada nos remorde a consciência?

 

O valor de uma crase

Ana Laura de Oliveira Bueno

Dir-se-ia que interpretar é — apreender o sentido verdadeiro de um texto. Assim, embora haja muitas maneiras de se interpretar uma frase, nem sempre as interpretações conferem com o que o texto quer dizer, podendo ser contraditórias e até mesmo absurdas. Deste ponto de vista, podemos considerar a estreita relação existente entre as interpretações corretas, o perfeito entendimento do que se lê e o bom conhecimento das áridas regras gramaticais.

Tomemos como exemplo a conhecida e belíssima frase do Gênesis que, por trás de uma crase, esconde um verdadeiro tesouro teológico: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança” (Gn 1, 26). Considerando que imagem é aquilo que procede de um objeto real em que pode ou não haver igualdade, é manifesto que se encontra no homem certa semelhança de Deus, semelhança esta que deriva de Deus como de seu modelo. No entanto, não é uma semelhança de igualdade, uma vez que o modelo ultrapassa infinitamente o modelado. Assim, se diz que há no homem uma imagem de Deus, não perfeita, mas imperfeita.

A preposição a, com efeito, indica certa distância, isto é, o homem jamais poderia ser chamado de “a imagem de Deus” sem o acento grave, pois isto cabe única e exclusivamente a Nosso Senhor Jesus Cristo, Imagem do Pai, idêntica a Ele em substância, Imagem perfeita de Deus. Do homem se diz que é à imagem por causa da imperfeição da semelhança.

Assim, aquele que desconsiderar o valor da pequenina e “insignifcante’ crase pode estar sujeito a interpretar um absurdo e deixar passar essa oportunidade de contemplar o infinito abismo existente entre o Primogênito de toda criatura, a Imagem, e as meras criaturas, feitas à sua imagem, por sua bondade.

Lembremo-nos, portanto das valiosas regras gramaticais, sempre eficazes e importantíssimas a quem quer interpretar corretamente um texto.

Plinio Corrêa de Oliveira: O mestre do nosso fundador

Plinio Corrêa de Oliveira era um profeta de tal grandeza que, mesmo morto, de alguma forma era imortal. Um homem de sua estatura moral não poderia desaparecer nas brumas da História.

Mons. João Clá Dias dedica a seu amado pai, modelo e guia, uma valiosa coleção sobre sua profética figura. Esta coleção em cinco volumes é uma versão ampliada da tese que Mons João defendeu para a obtenção do grau de Doutor em Teologia pela Universidade Pontifícia Bolivariana de Medellín, por meio da qual se quis facilitar ao grande público a compreensão deste homem que atravessou o século XX de ponta a ponta, e marcou de forma indelével os séculos vindouros.

Este oportuno estudo representa um inigualável contributo para a compreensão da própria pessoa e da mentalidade de Mons. João, que é o fundador dos Arautos do Evangelho, e das características essenciais do carisma dessa Associação Internacional de Direito Pontifício.

Encomende já sua coleção pela internet:

www.arautos.org/domdesabedoria

ou

pelo telefone (11) 2971-9040

Radiante aurora da salvação

Ir. Patricia Victoria Jorge Villegas, EP

Imaginemos um panorama marítimo nas últimas horas da madrugada. Ainda é noite. O luar prateado se reflete nas águas e as estrelas coruscam com um brilho especial, como se quisessem prolongar sua presença ante o amanhecer que chega. O oceano se afigura misterioso e o silêncio da natureza que dorme é apenas interrompido pelo estrondear das ondas.

Inexoravelmente, os astros noturnos começam a se esvanecer e uma réstia de luz avermelhada surge no horizonte. Pouco a pouco o firmamento vai-se tingindo de rosa e laranja, as trevas se diluem e a aurora começa a despontar. Os peixes põem-se a pular com vivacidade e os pássaros enchem os ares com seus gorjeios. Todas as criaturas se rejubilam. É mais um belo dia que manifesta seus resplendores matutinos. Uma feeria de cores transforma a paisagem num maravilhoso espetáculo, que atinge o ápice de sua magnificência quando nasce o Astro Rei.

Ora, algo semelhante ao alvorecer passou-se na História. Durante milênios o mundo esteve imerso nas trevas do paganismo e do pecado. Apenas algumas almas justas reluziam como estrelas, lembrando as promessas da Aliança: o Sol de Justiça haveria de vir para libertar os homens dos grilhões do mal e da morte. Mas, quando se daria isto?

Os primeiros lampejos deste Sol cintilaram sobre a humanidade quando veio à luz Maria Santíssima. A terna Menina nascida da fé de São Joaquim e Sant’Ana transformou a noite da História em radiante aurora. As sombras fugiam e a criação exultava com a vinda d’Aquele para quem todas as coisas foram feitas: “tudo foi criado por Ele e para Ele” (Col 1, 16).

A Natividade de Maria marcou o início da vitória do bem sobre o mal. Invisível para a grande maioria dos homens na Terra, este augusto acontecimento deve ter sido, entretanto, “saudado pela alegria de todos os Anjos do Céu, acompanhada, talvez, da felicidade experimentada, aqui e ali, pelas almas retas. Adaptando as palavras de Jó (3, 1-9), poder-se-ia assim exprimir esse sentimento de júbilo: ‘Bendito o dia que viu Nossa Senhora nascer, benditas as estrelas que A viram pequenina, bendito o momento em que seus pais verificaram que havia nascido a criatura virginal chamada a ser a Mãe do Salvador!'”.

Por intercessão d’Ela Jesus manifestou publicamente sua divindade por primeira vez, no milagre das Bodas de Caná. Também foi Maria quem manteve os Apóstolos unidos e confiantes no Cenáculo, para receberem o Espírito Santo e darem início à expansão da Igreja. E hoje, transcorridos dois milênios,é por meio d’Ela que nosso mundo, pervadido outra vez pelas sombras da impiedade, poderá ser reconduzido às sendas da virtude e do bem.

Revista Arautos do Evangelho – Setembro 2015

Quem é Deus?

Laura Compasso de Araujo

2º Ano Ciências religiosas

Essa é a pergunta que habita naturalmente no coração do ser humano. Fruto do senso do divino em sua alma, todo homem tem o desejo de saber quem é esse Ser Absoluto, quem é esse Governador Universal que rege todas as coisas. Tanto é assim que, em todos os lugares, em todas as épocas e povos, houve o desejo de entrar em contato com o sagrado e a manifestação de algum culto religioso. Embora todos se fizessem essa pergunta,  muitos encontraram a resposta errada, caindo em idolatria. Enquanto uns adoravam deuses falsos,  o próprio Deus declarava Quem Ele é ao povo eleito.

Aquele que É

Deus Respondeu a Moisés: “EU SOU AQUELE QUE SOU”. E ajuntou: “Eis como responderás aos israelitas: Aquele que se chama EU SOU envia-me junto de vós. (cf. Ex 3, 14)

O Catecismo da Igreja Católica nos ensina que devemos humildemente admirar essa resposta divina, sabendo que, ao revelar seu nome misterioso de Iahweh, “Eu sou Aquele que é” ou “Eu sou Aquele que SOU” ou também “Eu sou Quem sou”, Deus declara quem Ele é e com que nome se deve chamá-lo. Este nome divino é misterioso como Deus é mistério. Ele é ao mesmo tempo um nome revelado e como que a recusa de um nome. Desse modo, exprime-se a realidade de Deus como Ele é, infinitamente acima de tudo o que podemos compreender ou dizer: ele é o “Deus escondido” (Is 45,15), seu nome é inefável, e ele é o Deus que se faz próximo dos homens.1

São Tomás de Aquino, um luzeiro no firmamento da Santa Igreja e na Teologia, afirma que, para sabermos Quem é Deus, precisa-se usar as vias da negação e da analogia; ou seja, comparação. Imaginemos, então, o universo como o conhecemos. Estrelas, planetas, galáxias e outros corpos celestes que talvez o ser humano nunca conheça. Diante dessa grandeza e dessa imensidade ficamos estupefatos e nos sentimos pequenos, minúsculos até. Mas o que é o universo perto de seu Criador? Grande é o Senhor e sumamente louvável, insondável é Sua grandeza (51, 144,3). Deus é infinitamente maior que o universo, o qual perto dEle, não é senão uma mera criatura;“nas suas mãos estão as profundezas da Terra, e os cumes das montanhas lhe pertencem. Dele é o mar, ele o criou, assim como a terra firme, obra de suas mãos.” (Sl 94, 4-5)

A Infinidade de Deus

Alguns dos atributos de Deus possuem esse adjetivo: infinito. Então é a Bondade Infinita, a Beleza Infinita, a Perfeição Infinita. Em que consiste essa infinidade  de Deus?

O mesmo São Tomás explica que, em algo material, a infinidade é uma imperfeição, já que a matéria é delimitada por uma forma e, se fosse uma forma infinita, seria quase uma matéria sem forma, uma imperfeição. No entanto, Deus não é matéria. E uma forma não restringida a uma matéria é mais perfeita, expressa mais sua amplitude, porque subsiste por si. Aquele que é sumamente formal, o Ser divino que não está contido em algo, é infinito e perfeito em razão disso.2

Ademais, o intelecto humano estende a intelecção ao infinito, e sinal disso é que, posta ao seu conhecimento alguma quantidade finita, ele pode pensar em outra maior. Ora, essa ordenação do intelecto para o infinito seria inútil, caso não existisse alguma coisa inteligível infinita, que deve ser a maior de todas.3 Sendo o homem criado por Deus e para Deus, um dos melhores exemplos da infinidade de Deus é a própria alma humana, que tende sempre ao infinito e ao absoluto.

A hierarquia como reflexo da infinidade e da imensidade de Deus

A partir destas considerações, é possível chegar à conclusão de que esses atributos de Deus explicam a existência de tantos seres diferentes no mundo. Qualquer pessoa com o uso da razão pode chegar à conclusão de que a igualdade absoluta não existe, em nenhum aspecto do universo, em nenhum campo da vida humana, entre nenhum animal ou vegetal, nem entre os anjos, nem mesmo entre as pedras. O Professor Plinio Correa de Oliveira, grande pensador católico do séc. XX, desenvolve a ideia de que para haver reflexo de Deus na criação, não seria possível esse reflexo se dar em uma criatura só, porque sendo Deus infinito, ela seria Deus. Então a necessidade de uma multiplicidade de criaturas, diferentes e ordenadas, para ser mais perfeita a expressão da infinidade e da imensidade de Deus. Todos os seres existem em cadeia, numa inter-relação constante, constituindo uma única e bela ordem na qual superiores e inferiores são necessários uns para os outros.4

A presença de Deus

Como se pôde observar, o conceito de infinidade pressupõe o de ubiquidade. Vimos que, sendo Deus infinito, não pode ser contido em nenhum lugar, pois assim estaria limitado. No entanto, se não podemos afirmar que Deus está em algum lugar específico, tampouco podemos afirmar que não está em nenhum lugar. Decorre daí a conclusão de que Ele está em todos os lugares e em todas as coisas: a ubiquidade de Deus. Assim afirma o salmista: “para onde irei, longe de vosso Espírito? Para onde fugir, apartado de vosso olhar? Se subir até os céus, ali estareis; se descer à região dos mortos, lá vos encontrarei também”. (Sl 138, 7-8)

Não pensemos que todas as coisas são “partículas” de Deus, mas sim que tudo, sendo criatura Sua, não pode fugir de Seu olhar e é sustentado na existência pelo Criador. Saber disso é de grande importância para o ser humano, que, vivendo com isto presente, pensaria duas vezes antes de praticar qualquer ato. Assim nos dá exemplo São Francisco de Sales, que vivia tão compenetrado da presença de Deus que, estando sozinho ou na companhia de outros, sempre tinha uma postura digna, modesta e solene. Costumava dizer que não sentia constrangimento algum diante de reis ou príncipes, pois estava habituado a encontrar-se na presença de um Rei muito maior, que lhe inspirava respeito.5

Ao nos darmos conta de tanta grandeza, talvez nos sintamos pequenos e retraídos diante de Deus Criador e Onipotente. Grande engano! Lembremo-nos que Ele se fez homem e quis habitar entre nós. Nosso Senhor Jesus Cristo está dia e noite à nossa espera no sacrário. O Deus infinito que está em todos os lugares, está ali não só como Sustentador e Criador, mas em Corpo, Sangue, Alma e Divindade! Não rejeitemos dom tão excelso! Que cresçamos na devoção a Nosso Senhor Sacramentado, e lhe agradeçamos por tanto amor que manifestou por nós.

1 Catecismo da Igreja Católica, ed. Loyola, 2011, p. 65, 206.

2 Summa Theologica 1, q.7, a. 1.

3 Suma contra os gentios, Livro 1, c. XLII, 8.

4 Revista Dr. Plinio, n° 117, dezembro de 2007. A hierarquia na criação, p. 11.

5 ITTA, IFAT. Deus… Quem é Ele?. Instituto Lumen Sapientiae, São Paulo, 2012, p. 50.

O Orgulho de São Francisco?

Ir. Maria José Vicmary Feliz Gómez

Avisado da vinda de São Francisco, todo o povo o esperava, desde muito cedo, às portas da cidade. Muitos tinham ido, ainda na escuridão da noite, na esperança de obter os melhores lugares e, assim, ficar mais próximo do santo na sua passagem. Alguns rezavam o terço, outros faziam as mais diversas promessas, desejosos de receber a graça de algum convívio…

– Quem sabe ele olha em nossa direção? – exclamavam com entusiasmo alguns dos presentes.

– Ou melhor! Quem sabe conseguimos algum cumprimento? – comentavam outros.

De repente, entre aplausos, exclamações e grande alegria, São Francisco entrou no povoado. Aqueles que se encontravam mais perto aproximaram-se dele para oscular- lhe o hábito, as mãos e os pés, sem encontrar da parte do santo nenhuma resistência. Porém, o frade que o acompanhava julgou que, aceitando tais honras, São Francisco pecava contra a virtude da humildade. Foi tão forte a tentação que, finalmente, confessou seus pensamentos ao santo.

– Estas pessoas, meu irmão, nenhuma coisa fazem à altura da honra que deveriam render – respondeu-lhe São Francisco.

Ao ouvir essa resposta, o frade ficou ainda mais escandalizado, pois não entendeu as palavras do santo. Então, vendo sua perplexidade, São Francisco disse-lhe:

– Meu irmão, esta honra que me vedes aceitar, não a atribuo a mim, senão que a transfiro a Deus, pois d’Ele é, e eu fico no mais profundo do meu nada. Eles lucram com isto, pois reconhecem e honram a Deus na sua criatura.

Que Nossa Senhora nos conceda a graça de nunca perder a oportunidade de glorificar a Deus através dos modelos de virtude que a Divina Providência coloca diante de nossos olhos, para que, assim, de enlevo em enlevo, galguemos a montanha da admiração e nos transformemos naqueles mesmos que admiramos.

A virtude dos verdadeiros apinistas

Luísa Gurgel –  1º ano de Ciências Religiosa

Há uma virtude muito importante e sobre a qual existem conceitos muito deturpados atualmente: a seriedade.

Julga-se que seriedade é sinônimo de mau-humor, falta de educação, antipatia ou algo do gênero. Entretanto, Plinio Corrêa de Oliveira define esta virtude da seguinte forma: “A seriedade é a disposição de alma de uma pessoa que está profundamente penetrada pela Fé Católica e que está penetrada, portanto, da gravidade das coisas da vida humana, como tudo passa, como tudo se desfaz e que, afinal de contas, eterno é só Deus, bom é só Deus. E que toda a nossa vida deve ser orientada para Deus Nosso Senhor, para a glória d’Ele, para a vitória d’Ele”.

Tendo o homem sido criado para conhecer, amar e servir a Deus e, mediante isto, alcançar a vida eterna, deve viver pensando neste fim último, como sempre fizeram aqueles que nos precederam com o sinal da Fé.

Imitemos os grandes santos, tomando as atividades práticas como realidades às quais temos que nos dedicar como grandes alpinistas, ou seja, com os olhos postos nos píncaros mais altos.

O silêncio: o grande conselheiro

Ir. Gabriela Victoria Silva Tejada

É noite e, no cume da montanha, reina a mais negra escuridão, apenas cortada pelos pálidos reflexos da lua que, por entre espessas camadas de nuvens, rasgam por alguns momentos as trevas. É noite escura, as estrelas quase não brilham, parecem mudas no firmamento à espera de grandiosos acontecimentos que lhes anunciem a vitória. No alto da montanha, uma altiva e imponente construção parece desafiar a noite com suas torres e ameias belamente talhadas na pedra. É um magnífico castelo, uma fortaleza antiquíssima, uma relíquia da Cristandade.

Apesar de ser meia-noite, uma luz brilha com intensidade incomum no recinto sagrado do castelo; no altar-mor seis velas iluminam um riquíssimo crucifixo de mármore encrustado de pedras preciosas e os brilhos multicolores que destas se espargem à luz das velas são refletidas com particular beleza na prateada lâmina de uma espada, que honrosamente repousa em cima do altar. Ao seu lado, a imagem da Virgem das Batalhas olha com predileção a uma figura, que de joelhos, passa horas desta noite escura em silêncio e oração.

É um cavaleiro, ou melhor , será ” armado cavaleiro” se passar com heroica piedade a noite de vigília de armas. Reina o mais profundo silêncio no Castelo, na montanha e quase se poderia dizer que em toda a face da Terra. O mundo inteiro parece conter a respiração para assim admirar, no mais profundo silêncio, este intrépido penitente. Sua oração, embora silenciosa, comove os Anjos que ali o observam e o protegem, afugentando os demônios que parecem não suportar tanta quietude. E é na negrura da noite que este mesmo silêncio começa a falar ao coração do jovem cavaleiro.

Sem ainda compreendê-lo completamente, o cavaleiro levanta ao céu uma fervorosa oração e agradece, com filial afeto, ao Pai do Céu por lhe conceder conhecer os mistérios da cavalaria, não em um campo de batalha, mas no profundo silêncio de uma noite de oração. Seu espírito, antes ávido de glórias passageiras e mundanas, acaba de ser iluminado pela fé e busca não mais a sua própria glória, mas a de Deus; não mais os efêmeros aplausos da nobreza, mas sim, os méritos com que são coroadas as virtudes; não a conquista de praças e fortalezas, mas a coroa da gloriosa santidade que só os verdadeiros soldados de Cristo conquistam.

A aurora ainda não chegou, a escuridão da noite se recusa a dissipar-se; os pálidos raios do sol ainda não venceram a batalha do amanhecer e este jovem cavaleiro permanece ainda de joelhos diante do Tabernáculo. Os fantasmas da noite não o desanimaram, o silêncio e a obscuridade fortaleceram-no em seus propósitos de santidade, e a Virgem Imaculada, qual terna e bela mãe, protegeu seu espírito contra as frivolidades da idade.

E o que diz o silêncio? O silêncio fala de Deus e da Virgem, que certamente dali o observam com predileção. O silêncio narra as gloriosas batalhas dos mártires cujas relíquias são veneradas há séculos e, ensina-lhe o segredo de tais virtudes heroicas. O silêncio fá-lo recordar os prodigiosos feitos de seus antepassados​​, e as tremendas lutas que travaram para gloriosamente conquistar a coroa da eterna bem-aventurança. Também ele deverá se esforçar para obter a glória de seus antepassados ​​e a virtude dos santos. No silêncio da noite, o cavaleiro analisa o seu futuro na defesa da fé e da Igreja: as guerras e batalhas, os perigos e ameaças da vida de campanha, as aventuras e dificuldades enfrentadas durante as guerras, os infortúnios e derrotas que ocorrem quando se é covarde e medíocre, a tristeza e desolação que assola o inconstante e indisciplinado. As horas se passaram, mas o humilde cavaleiro persiste em sua vigília e estes e muitos outros pensamentos sussurram ao seu ouvido o silêncio …

Este cavaleiro se lembrará por toda a vida que aprendeu mais no silêncio da vigília de armas do que nas mais gloriosas e sangrentas batalhas, e que o segredo da vitória não está no meio da agitação de armas, mas sim naquela paz e, que iluminado pela graça se entrega nas mãos da Providência, para que Ela o sustente, o guie e o conduza à morada eterna …

Quiçá, quem está lendo estas poucas linhas sorri ao terminar de fazê-lo e, julgue – não sem uma forte dose de “senso comum” – que esses belos pensamentos pertencem infelizmente ao passado, e só podem figurar nas páginas de alguma ” Catena Aurea”, incapazes de fazer eco no meio do buliço da sociedade hodierna.

Para uma sociedade tecnológica como a nossa, onde como outros Baals, os ídolos da modernidade levantam seus altares em todos os lugares, arrastando a humanidade inteira – cada vez mais pragmática e ateia – para os abismos da irracionalidade, parece loucura querer falar em silêncio … Para os homens de hoje, não há tempo para pensar, meditar e muito menos para se calar. A humanidade caminha escravizada por um exército tão atrativo como perigoso, composto por agentes cada vez mais numerosos: telefones, televisores, computadores, telefones celulares, smartphones, iPods, tablets … e um sem fim de componentes tecnológicos capazes de aterrorizar a alma de qualquer pobre medieval que pudesse contemplá-los, e que têm cruelmente substituído as formas mais orgânicas de relacionamento humano.

Este exército virtual conquistou as mentes humanas, quase que imperceptivelmente, e alterou drasticamente os costumes da sociedade, relegando à “idade da pedra” as antigas e amenas tertúlias entre amigos, as acaloradas discussões nas praças, as tradicionais conversas de família, as meditações de um monge, as boas leituras de um jovem em uma tarde de inverno e até mesmo as inocentes brincadeiras de crianças, por intermináveis ​​e odiosos videogames, chats, twitters e tudo o mais que estão ainda por ser inventados, eliminando completamente os momentos plácidos e necessários de silêncio que possuía a humanidade.

De fato, o esplendor e fecundidade escondidos no silêncio são um precioso tesouro que a humanidade precisa redescobrir e verdadeiramente praticar para alcançar os picos mais altos da santidade. Ele é a autêntica força na formação espiritual das almas, e dá seus frutos na vida religiosa; que podem ser, perfeitamente, aplicados à vida secular dos católicos no século XXI.

O monte do príncipe dos profetas

Ir. Juliane Vasconcelos Almeida Campos, EP

Do alto do Carmelo a voz de Elias parece ecoar ainda hoje, prenunciando uma era mariana que virá como chuva benfazeja para fecundar a aridez espiritual de nossos dias.

Bela e altaneira ergue-se no solo sagrado da Terra Santa uma emblemática cadeia montanhosa que evoca grandes lances do passado e aponta para um futuro de glória. Seu nome? Monte Carmelo.

Na região que circunda o imponente conjunto de rochedos há inúmeras grutas, uma das quais, conforme a tradição recolhida pelos Padres da Igreja, abrigou o grande profeta Elias, cujas “palavras queimavam como uma tocha ardente” (Eclo 48, 1).

Ele foi “um príncipe entre os profetas, verdadeiro condutor do povo de Deus. Lutou contra os erros do seu tempo, nummomento em que a nação eleita estava muito deteriorada, e salvou-a da ruína. Escolhido para dirigir o povo de Deus num momento de hecatombe, ele concentrou em si todo o espírito que o Criador queria dar à nação judia a ser ressurgida. Nesse espírito derivado da Providência Divina foi formada uma rede de eleitos, sendo o mais famoso deles Eliseu, que pediu o duplo espírito de Elias, e o obteve”.1

Dominando a planície de Esdrelon com notável presença, carregada de significado, destaca-se ao sul do Monte Carmelo uma das suas principais elevações, o El-Muhraqa. Com mais de 500 m de altitude, divisa-se daquele ponto um grandioso panorama que chega até o mar. É ali que as Sagradas Escrituras situam o famoso episódio narrado no Primeiro Livro dos Reis (cf. I Rs 18, 19-39), no qual Elias vence os falsos profetas de Baal “com uma prece simples, cheia de beleza”.2

Também a tradição nos revela ser nessa região que Elias e Eliseu se reuniam com seus discípulos. E, séculos depois, naquelas paragens se aglutinou um grupo de monges que constituiu os primórdios da Ordem do Carmo, a qual considera Elias como pai e fundador, e deu início a um filão de devoção a Nossa Senhora, algumas centenas de anos antes do nascimento da Virgem.

Muito simbolicamente, depois da seca imposta a Israel como punição por sua prevaricação, Elias vislumbrou “uma pequena nuvem do tamanho da palma da mão” (I Rs 18, 44) que subia do mar, prenúncio da caudalosa chuva que se aproximava para cessar o castigo e, segundo grande número de exegetas, pré-figura d’Aquela que traria para a humanidade as águas regeneradoras da Redenção: Maria Santíssima.

À Mãe de Deus – a Virgem e Flor do Carmelo – bem podem ser aplicadas as palavras de Isaías, o profeta da Encarnação por excelência: “O deserto e a terra árida regozijar-se-ão. A estepe vai ­alegrar-se e florir. Como o lírio ela florirá, exultará de júbilo e gritará de alegria. A glória do Líbano lhe será dada, o esplendor do Carmelo e de Saron; será vista a glória do Senhor e a magnificência do nosso Deus” (Is 35, 1-2).

Tendo sido arrebatado em “um carro de fogo” (II Rs 2, 11), Elias “deve voltar e restabelecer todas as coisas” (Mt 17, 11). Assim, hoje como ontem, do alto do Monte Carmelo sua voz parece ecoar o prenúncio de uma era mariana que virá como chuva benfazeja, para fecundar o solo árido de nossos dias, tão afastados de Cristo e de sua Mãe Santíssima.

1 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Santo Elias. In: Dr. Plinio. São Paulo. Ano XII. N.136 (Jul., 2009); p.2.

2 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Santo Elias, Profeta. In: Dr. Plinio. São Paulo. Ano XIII. N.148 (Jul., 2010); p.14.

Revista Arautos do Evangelho – Julho-2015

A pátria da dor e da misericórdia

  Ana Laura de Oliveira Bueno – 1° ano de Ciências Religiosas

Eis o lugar onde os minutos são séculos intermináveis, onde a dor e a expiação se misturam à alegria e à consolação da esperança de poder ver a Deus num face a face eterno: o caro leitor certamente já concluiu que se trata da Igreja padecente.

De fato, ninguém merece o Céu facilmente. O purgatório é a pátria da justiça rigorosa e, ao mesmo tempo, é a pátria da infinita misericórdia de Deus: pois, para nós é uma grandíssima misericórdia encontrar, após a morte, um lugar de expiação e apesar do grande rigor da justiça divina, consola-nos a ideia de que no purgatório deve haver consolações e alegrias.

Alegrias? Pode haver neste estado onde almas, inclusive santas, passam anos num fogo expiatório – semelhante ao da negra prisão do inferno – por pecados veniais alguma alegria autêntica?

São Francisco de Sales é quem nos vai dizer que as alegrias e as consolações que de fato existem no purgatório são um bálsamo suavizante para as almas. No tocante a este assunto, o Bispo e Doutor da Igreja sintetizou alguns pontos a respeito das almas padecentes:

  1. As almas do purgatório estão numa contínua união com Deus e perfeitamente submissas à vontade d’Ele. Não podem deixar esta união divina e nunca podem contradizer a divina vontade, como infelizmente acontece conosco, neste mundo;
  2. Elas se purificam com muito amor e com muito boa vontade, porque sabem que é esta a vontade de Deus. Sofrer para fazer a vontade de Deus é uma alegria para elas.
  3. Elas querem ficar à maneira que Deus quer e quanto tempo Ele quiser.
  4. Elas são impecáveis e não podem experimentar nem o mais leve movimento de impaciência, nem cometer uma imperfeição sequer.
  5. Amam a Deus mais do que a si próprias e mais que todas as coisas e com amor muito puro e desinteressado.
  6. As almas são consoladas pelos Anjos.
  7. Elas estão seguras da sua salvação e com uma segurança que não pode ser confundida.
  8. As amarguras que experimentam são muito grandes, mas numa paz profunda e perfeita.
  9. Se, pelo que padecem, estão como numa espécie de inferno, quanto à dor, é um paraíso de doçura, quanto à caridade, mais forte do que a morte.

Com efeito, há uma esperança da salvação certa, não obstante o grande sofrimento, mormente no escuro e fundo purgatório. E a nós, filhos e filhas daquele que não admite pequenas concessões e é absolutamente intransigente em relação aos pecados veniais, vale sempre a máxima: “Sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito”. Ou seja: nossa santidade deve ser tal, que não se concebe sequer que esperemos passar por um longo purgatório! Em nossas almas não deve haver espaço para semi-fidelidades, semi-virtudes e pequenas concessões, mas antes devem ser receptáculos de um desejo radical de entrega completa ao sofrimento nesta terra de exílio e de uma cega confiança em Nossa Senhora, que abaterá todas as nossas misérias se estivermos em consonância com Ela, levando-nos ao convívio completo e eterno pelo qual tanto e tanto almejamos.

Peçamos, pois, esta graça, pela intercessão de nossos santos padroeiros e das santas almas do purgatório: retidão absoluta e santidade levada até as últimas consequências!

                            

 

O primeiro sábado do mês…

Ir. Mariella Emily Abreu Antunes

Nas aparições de Fátima em 1917, Nossa Senhora anunciou que, para impedir as calamidades por Ela profetizadas, viria postular a consagração da Rússia ao seu Imaculado Coração e a Comunhão reparadora aos primeiros sábados. Esta promessa cumpriu-se no dia 10 de dezembro de 1925, quando a Santíssima Virgem apareceu aos pastorinhos com o Menino Jesus, e Ele lhe disse:

— Tem pena do Coração de tua Santíssima Mãe, que está coberto de espinhos que os homens ingratos a todos os momentos lhe cravam, sem haver quem faça um ato de reparação para tirá-los!

Nossa Senhora então mostrou seu Imaculado Coração à vidente, dizendo-lhe:

— Vê, minha filha, o meu Coração cercado dos espinhos que os homens ingratos a todos os momentos Me cravam, com blasfêmias e ingratidões. Tu, ao menos, vem Me consolar. Diz que todos aqueles que, durante cinco meses, no primeiro sábado, se confessarem, receberem a Sagrada Comunhão, rezarem um terço e Me fizerem quinze minutos de companhia, meditando num dos mistérios do Rosário, com o fim de Me desagravar, Eu prometo assisti-los na hora da morte com todas as graças necessárias para a salvação de suas almas.

Meses depois, apareceu-lhe novamente o Menino Jesus perguntando se ela estava divulgando a devoção. A Irmã Lúcia respondeu que a Superiora lhe punha muitos obstáculos para isso e que o Confessor havia dito que tal devoção não seria nenhuma novidade para a população de Portugal, pois muitas pessoas já comungavam aos primeiros sábados em honra a Nossa Senhora, completando um número de quinze sábados em atenção aos quinze mistérios do Rosário.

Ouvindo isso, o Menino Jesus ponderou:

— É verdade que muitas almas praticam essa devoção, mas o fazem apenas com o intuito de receber as graças que lhes são prometidas. Agradam-Me mais os cinco sábados com fervor e com o desejo de desagravar o Coração de minha Mãe, do que os quinze sábados com tibieza, egoísmo e presunção…

Eis aí uma divina queixa de Nosso Senhor em favor de sua Santíssima Mãe. Cabe-nos, agora, a pergunta: em qual categoria de almas devotas me encontro?

Reunião com os Anjos?

Ir Bruna Almeida Piva

Conta-se que, no século XVIII, ingressou na Ordem dos dominicanos um jovem muito fervoroso, que nos fulgores das graças primaveris era constantemente assistido por seu superior. Qualquer função que devesse desempenhar, ou qualquer dificuldade que encontrasse, estava ali seu encarregado para auxiliá-lo ou ensinar-lhe os pontos da regra.

Certa vez, porém, o superior entrou em retiro, ficando o pobre noviço obrigado a passar um longo período sem a ajuda de seu protetor.

Passados alguns dias, as graças iniciais que costumavam inundá-lo começaram a rarear, as provações e tentações comuns da vida religiosa passaram a visitá-lo com mais frequência. Atordoado e inexperiente em meio ao desconhecido mundo espiritual, pensava haver perdido a vocação, ter sido abandonado pela Providência, ou mesmo ter cometido algum pecado grave… No entanto, pedir auxílio ao encarregado ser-lhe-ia impossível até o término do retiro.

O que fazer? Como resolver tamanho impasse?

Os dias foram correndo, e chegou um momento em que o noviço já não aguentava mais: decidiu pedir um conselho ao superior. Acabado o último ato em conjunto do dia, o cântico da Salve Rainha, dirigiu-se rapidamente à cela do religioso e bateu à porta, um tanto aflito. O superior porém, sem sequer abrir a porta respondeu:

– Agora não! Estou ocupado!

Um encarregado ocupado, durante um recolhimento? O que estaria acontecendo? Teria o jovem se enganado, atribuindo ao seu protetor virtudes que na verdade não possuía? Sua necessidade de um apoio espiritual, porém, era muito grande; optou por insistir mais uma vez:não desistiria facilmente, viu-se obrigado a atendê-lo. Abriu um pouquinho a porta e, por uma fresta, perguntou-lhe o que desejava.

– Perdão, mas… preciso da ajuda do senhor! Estou passando por uma dificuldade assim…

– Não se preocupe – interrompeu-o o superior – Quero que veja uma coisa.

Abriu, então, por inteiro a porta da sua cela e o noviço não pôde acreditar no que estava vendo: inúmeros Anjos ao redor da mesa onde trabalhava o superior. Este, notando a perplexidade do jovem, explicou-lhe:

Anjos_arautos— Estes são os Anjos da guarda de todos os meus subalternos. Eles me comunicam as provações e necessidades espirituais de cada um para que eu tome alguma providência, lhes escreva uma carta ou os chame para uma conversa e, assim, os ajude no que for preciso. E não por acaso, está também aqui no meio deles, o seu Anjo da guarda que acaba de narrar-me as dificuldades que lhe atormentam…

Diante de tão grande santidade de seu superior e de um tão sublime milagre, dissipou-se na alma do noviço toda e qualquer sombra da provação que lhe afligia, e ele pode, assim, seguir sua vocação religiosa, rezando aos santos Anjos da guarda sempre que as dificuldades e dúvidas se lhe apresentavam.

Vemos nesse belo fato a importância da devoção aos nossos celestes Protetores que não hesitam em nos auxiliar sempre, especialmente quando invocamos sua ajuda.

Se conhecesses o dom de Deus

Ir Nágela Shayenne da Silva Pinheiro, EP

Certa vez, o grande pintor e escultor Michelangelo esculpiu uma estátua que representava Moisés. A imagem era de tamanho e espessura naturais e o olhar, idêntico ao do modelo. Tão real parecia que, ao contemplá-la, não se conteve e bradou: “Parla! Perché non parli?” (Fala! Por que não falas?) Ele foi capaz de fazer uma escultura perfeita, mas nela não conseguiu injetar a vida. [1]

Valendo-nos da metáfora acima, poderíamos dizer que todo homem, ao nascer, é uma estátua de Deus, pois não passa de mera criatura dotada de vida racional. Entretanto, “Deus, por sua infinita bondade, ordenou o homem a um fim sobrenatural, isto é, a participar dos bens divinos que sobrepujam totalmente a inteligência da mente humana, pois, em verdade, ‘nem o olho viu, nem o ouvido ouviu, nem o coração do homem provou o que Deus preparou para os que O amam.” (1 Cor 2, 9) (Dz 1789).

Este fim sobrenatural dado por Deus àqueles que Ele criou como “sua imagem e semelhança” (Gn 1, 26) é a participação do homem na sua vida divina.

Infinitamente superior a este escultor, é Deus que deseja comunicar sua própria vida aos homens, criados livremente por Ele, para fazê-los, no seu Filho único, filhos adotivos (cf. CCE 54).

Mas, infelizmente o homem não permaneceu fiel às exigências impostas por sua elevação gratuita à ordem sobrenatural. Nosso primeiro pai, Adão, constituído “em santidade e justiça” (Dz 788), possuía a ciência infusa e o dom da integridade, pelo qual nenhum sofrimento o afetaria e passaria desta vida à eternidade sem passar pela morte. Ademais, tinha em altíssimo grau as virtudes e os dons do Espírito Santo.

Contudo, o varão predileto recebeu de Eva o fruto proibido e o comeu. Estava consumado o pecado original. No mesmo instante, foi ele despojado de todos os privilégios paradisíacos e abriu-se uma era de pobreza, de cativeiro, de cegueira e de opressão para todos os seus descendentes. Fecharam-se as portas do Céu para a humanidade, restando apenas dois destinos: limbo ou inferno.[2]ida

Todavia, séculos depois:

Deus enviou o seu anjo Gabriel a uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um homem que se chamava José, da casa de Davi e o nome da virgem era Maria. O Anjo disse-lhe: “Eis que conceberás e darás à luz um filho e lhe porás o nome de Jesus”. Maria perguntou ao anjo: “Como se fará isso, pois eu não conheço homem?” Respondeu-lhe o anjo: ‘O Espírito Santo descerá sobre ti, e a força do Altíssimo te envolverá com a sua sombra. Por isso, o ente santo que nascer de ti será chamado Filho de Deus. Então, disse Maria: “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra’ (Lc 1, 26-28.31.34-35.37)

Neste mesmo instante, o Filho de Deus, por obra do Espírito Santo, encarnou-Se nas puríssimas entranhas desta Virgem Santíssima, sem deixar de ser verdadeiro Deus e verdadeiro homem.

A divina justiça exigia uma reparação; por isso, tendo Se encarnado, quis Ele assumir sobre Si os crimes e misérias de toda a humanidade. Iniciou-se, deste modo, a redenção do gênero humano.[3]

A Segunda Pessoa da Santíssima Trindade veio habitar entre nós (cf. Jo 1, 14) para que todos pudessem ter vida, e não uma vida meramente natural, mas sim a sobrenatural, a graça. Deus quis nos divinizar, conforme afirma São Tomás.[4]

Explica Monsenhor João Clá Dias que isso se dá não à maneira de um reboco em uma parede, que não a modifica no seu interior, mas como se alguém injetasse ouro nos tijolos, a ponto de se poder dizer “parede de ouro”. Esta figura, segundo o referido autor, é pobre para exprimir o que se passa em uma alma quando lhe é infundida a vida divina.[5]

E é através da instituição dos Sacramentos feita pelo Divino Redentor que o homem pode usufruir dos benefícios que Deus lhe reservou desde toda a eternidade.

Atualmente postos em uma crise de decadência moral e dos costumes, os cristãos desconhecem os sacramentos – batismo, crisma, eucaristia, penitência, unção dos enfermos, ordem e matrimônio –, julgando muitas vezes serem práticas familiares, ou até mesmo supersticiosas, não compreendendo os benefícios, as graças que por meio deles são dispensadas e os auxílios que eles proporcionam para os combates espirituais que todo batizado trava ao longo de sua vida.

Vive-se em um  mundo ávido de paz exterior, mas que não orienta e direciona as almas para um píncaro de perfeição que traria consigo a solução de muitos problemas.

 [1] Cf. CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Eternidade feliz. In: O inédito sobre os Evangelhos. Comentários aos Evangelhos dominicais. Domingos do Advento, Natal, Quaresma e Páscoa, Solenidades do Senhor que ocorrem no Tempo Comum – Ano A. Città del Vaticano-São Paulo: LEV; Lumen Sapientiae, 2013, v. I. p. 111.

[2] Cf. CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Jesus prega em Nazaré. In: O inédito sobre os Evangelhos. Comentários aos Evangelhos dominicais. Domingos do Advento, Natal, Quaresma e Páscoa, Solenidades do Senhor que ocorrem no Tempo Comum – Ano C. Città del Vaticano-São Paulo: LEV; Lumen Sapientiae, 2012, v. VI. p. 43.

[3] Cf. SÃO PIO X. Catecismo Maior. Goiás: Serviço de Animação Eucarística Mariana, 2005, p. 325.

[4] Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. I-II, q. 112, a.1.

[5]Cf. CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O Batismo que conquistou nosso Batismo. In: O inédito sobre os Evangelhos. Op. cit. p. 169.

Diminuto reflexo da Inocência

Ir. Ariane Heringer Tavares, EP

Ao passearmos por um jardim, é frequente nos depararmos com singelas cenas que nos encantam. Será um pássaro colorido bicando frutas e levando alimento para o ninho; será uma abelha a extrair o néctar das flores; ou, ainda, uma fileira de disciplinadas formigas carregando provisões para o inverno. Poucas descobertas, entretanto, são tão agradáveis quanto encontrar uma joaninha sobre as folhas de um arbusto, adornando-o qual pedra preciosa.

Embora pertença à família dos rudes besouros, a graciosa aparência deste diminuto inseto pouco tem em comum com a maior parte deles. Simpática, delicada e de cores brilhantes, quase ninguém se contenta em admirá-la apenas com os olhos… E ao nos aproximarmos, ela não opõe resistência: com suavidade, passa da pétala de uma flor à mão de quem a contempla embevecido.

Apesar de seu aspecto insignificante, a joaninha tem um importante papel na agricultura, pois se alimenta das pragas que costumam atacar as lavouras. Uma bela lenda medieval põe em realce esta qualidade, narrando um fato acontecido quando as plantações de certa região da Inglaterra estavam sendo devastadas por pulgões.

Os camponeses, homens religiosos e confiantes no auxílio da Providência, resolveram fazer uma promessa à Santíssima Virgem, implorando que os livrasse daquela terrível peste. E Nossa Senhora, que nunca deixa de ouvir as súplicas de seus filhos, logo os atendeu de maneira singular: apareceram nos campos nuvens de joaninhas que, seguindo a ordem de seus instintos, exterminaram os nocivos parasitas e salvaram a colheita.

Diz-se que daí provém o seu nome em inglês: Ladybug, ou seja, inseto de Maria, na forma abreviada de Our Lady. Sua denominação em alemão, Marienkäfer, cuja tradução é besouro de Maria, também recorda esta piedosa história. E um canto tradicional sueco a chama de jungfru Marias nyckelpiga, que quer dizer serva da Virgem Maria.

Não obstante, mesmo se deixamos de lado esta encantadora e conhecida legenda, não é difícil percebermos que esta minúscula criatura reflete com candura um aspecto do Autor de toda grandeza. “Quem tem a alma feita para adorar a Deus, está apto também para admirar tanto as coisas maiores como as menores criadas por Ele, encantando-se ao contemplar o Sol, mas também ao olhar para a terra e ver um bichinho”… nossa joaninha!

Se, ao considerarmos uma águia real, de imediato nos vem à mente a majestade do Senhor, que do alto governa e domina a obra de suas mãos, ao vermos a joaninha nos lembramos de que o Altíssimo é também a Inocência, que promete o Reino dos Céus aos pequeninos e Se compraz em revelar-lhes os mistérios de sua sabedoria.

Revista Arautos do Evangelho – Agosto 2015

A vil indiferença

Ir. Letícia Gonçalves de Sousa

Deus, em sua infinita bondade, quis dar aos Anjos o sublime e inexprimível dom de vê-Lo face a face. Mas as grandes graças só se obtêm mediante provas equivalentes ao prêmio prometido.

Foi o que sucedeu aos Anjos. Seres de inteligência tão elevada, de conhecimentos tão profundos e rápidos foram submetidos aos insondáveis desígnios divinos, a algo não cognoscitivo à própria mente angélica. Era uma prova de amor ao Altíssimo. Estariam todos dispostos a isso?

“Eu vi satanás cair do Céu como um relâmpago” (Lc 10,18), diz Nosso Senhor no Evangelho. Houve Anjos que se revoltaram e São Miguel os lançou no inferno, na mansão da desgraça incessante, total e inexpiável.

Ora, alguns Anjos não amaram o bem como deveriam. Acometidos pelo mal da indiferença, da indecisão e da moleza, tentando criar uma atmosfera de falsa paz, uniram-se à revolta. Perderam, assim, a luz, comprando também a morte eterna. São os chamados demônios dos ares.

Segundo Plinio Corrêa de Oliveira “são os demônios que não iniciaram a revolta, mas que se deixaram arrastar, e que, como tais, enquanto sendo menos super-péssimos, não foram desde logo lançados no inferno, só vão ser lançados no fim do mundo. Esses ficam pelos ares, não diretamente tentando para a ofensa a Deus, mas criando um estado de espírito propício para o pecado”.1

Estes são os demônios que mais tentam aos religiosos. Como estes  lutam por trilhar o caminho da perfeição, torna-se difícil ao demônio do inferno tentar diretamente ao pecado.  Então, entram em ação os demônios dos ares, criando um estado de espírito medíocre e indolente diante do grandioso panorama da vocação. Assim, pela falta de radicalidade dos bons,  frustram-se os grandes planos de Deus.

Exemplo contrário nos deram os Anjos fiéis. O total amor ao Bem se transformou em indignação e ódio contra o mal e, consequentemente, redundou num ato de suma fidelidade. Tenhamos, pois, um amor ardente e íntegro ao Bem para que a vil indiferença não nos conduza à nossa própria ruína!

CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Conferência. São Paulo, 21 jul. 1974. (Arquivo IFTE).