Experiência mística: via normal de comunicação entre o infinito e o homem

Irmã Maria Cecília Seraidarian,EP

Analisando, sob o ponto de vista do humanismo tomista, a relação homem-divino na história da humanidade, Jacques Maritain1 afirma que considerados todos os esforços do homem, fora da tradição judaico-cristã, no âmbito da vida espiritual – que é o das aspirações ao sobre-humano –, vê-se que é o âmbito dos grandes fracassos e das supremas antinomias do ser humano. As grandes civilizações antigas – Grécia e Índia, sobretudo – reconheciam a superioridade da vida contemplativa sobre a ativa e que somente a primeira abria ao homem a beatitude antecipada da qual ele tem sede. Porém, não alcançaram dita beatitude porque puseram suas bases na inteligência e ela ficou reservada a um grupo privilegiado de “sábios”. Ora, Aristóteles e a sabedoria antiga tinham razão ao considerar a vida contemplativa superior à vida ativa e que aquela abria ao homem as portas de uma vida divina. Na verdade, eles desconheciam a profundidade do que diziam, pois foi o Evangelho que deu às fórmulas de Aristóteles seu mais íntimo significado.

Jacinta1A contemplação verdadeiramente libertadora e deiforme, não é a dos filósofos, que pára na inteligência e se funda no esforço humano, tendo por objetivo o esclarecimento e aperfeiçoamento supremo do próprio sábio; a contemplação dos santos – que, não parando na inteligência, passa ao coração e transborda – não se opera pela suprema tensão das forças naturais do homem, mas pelo amor de caridade, em um só espírito com Deus. Ocorre sob a inspiração superior dos dons divinos, é via de um sumo conhecimento experimental e não tem por fim o bem próprio do sábio e sua auto-suficiência, mas o amor Àquele que é contemplado. A comunicação do amor e a cooperação amorosa com Deus – que é o bem e a beleza – e a obra de bondade e salvação importam muitíssimo mais que o próprio bem e as próprias obras do sábio2.

Tal é, conclui, dentro das perspectivas tomistas, o fim ao qual tende a vida do espírito humano. Igualmente, vê-se que essa vida e os frutos da plenitude humana não são reservados a um grupo de privilegiados porque eles procedem muitíssimo menos do esforço humano do que da ação e generosidade divinas, são essencialmente sobrenaturais. A experiência mística contemplativa, a união de amor, não tem somente as formas descritas por uma Santa Teresa de Jesus ou um São João da Cruz, pode tomar na vida comum dos homens todos os disfarces, todas as formas mascaradas e secretas de que o Espírito, que sopra onde quer, é o único dono. Ele atrai a si, por um chamado próximo ou distante, todos os homens, de qualquer condição ou nível cultural. A essa sabedoria, que transcende todos os conceitos humanos e se esconde na obscuridade divina, todos são chamados. O mundo antes de Cristo jamais poderia ter uma idéia dela3.

No mesmo sentido caminha Garrigou-Lagrange4, ressaltando que a iluminação da inteligência, enquanto experiência mística, é concedida a todos e a qualquer um, segundo sua necessidade e generosidade. Quanto maior a abertura do homem ao transcendente, maior sua experiência do divino. O conhecimento experimental da presença do Absoluto em si mesmo é a verdadeira via mística, cume do desenvolvimento normal do ser humano. Todos são chamados, geral e particularmente, à união mística. No entanto, distingue entre o que seria a “via ordinária” e aquelas experiências “extraordinárias” da mística, tais como visões, revelações, etc., reservadas àqueles que atingem um grau eminente de perfeição.

Conforme Pieper5, é doutrina clássica que a contemplação – experiência transfigurante de saciedade do divino – pode vir a alguém de múltiplos modos. O estímulo mais trivial pode levar a pessoa a esse píncaro. Sendo assim, chega-se à arrebatadora e até abismante constatação – tão oposta a tudo o que habitualmente se pensa sobre o homem contemporâneo – de que a contemplação é muito mais difundida hoje do que as aparências indicam. Os aspectos significativos da experiência mística podem ser atingidos sem que a pessoa tenha consciência clara disso, nem saiba dar-lhe o nome correto. Com esse indicador, mais e mais formas novas de alcançar a contemplação se manifestam.

O homem é místico na medida em que cultiva a relação amorosa com o divino. A mística faz parte “da espontaneidade da vida cotidiana”, pois, sendo uma relação de amor, até o mais simples gesto pode ser feito com amor. Os fenômenos extraordinários – raptos, levitações, etc. – demonstram a imperfeição humana, surpreendida com a generosidade da ação divina, porque, quanto mais unida a Deus, com mais naturalidade a alma O acolhe. Eis a verdadeira mística. O Criador opera suavemente suas maravilhas de amor em toda a criação, deixando o homem estupefato diante de suas ações, uma vez que “mais que o som para o músico ou a cor para o pintor ou a palavra para o poeta, para a mística contam os infinitos matizes do amor”6.

Com efeito, segundo Von Balthasar7, é próprio ao ser humano contingente abandonar-se misticamente ao Absoluto. Está na natureza das coisas que haja um progresso autêntico desde o entusiasmo primeiro até o sentir-se inabitado por um espírito superior, divino. Esse fenômeno sempre foi vislumbrado pelos pagãos, mas somente os cristãos chegaram a experimentar. Ocorre em um momento de encanto, de arrebatamento e êxtase, em virtude da forma da beleza, que possui um poder de transcendência tal que facilmente eleva o espírito humano da esfera natural à sobrenatural. Somente através da forma é possível ver o “relâmpago da beleza eterna”.

1MARITAIN, Jacques. De Bergson à Thomas D’Aquin: essais de metaphysique et de morale. New York: Maison Française, 244. p. 262-263.
2 Ibid., p. 263-264.
3 Ibid., p. 264-265.
4 GARRIGOU-LAGRANGE, Op. Cit., p. 254-264.
5 PIEPER, Josef. Happiness and contemplation. South Bend: St. Augustine’s Press, 1998. p. 82-83.
6 URIBE CARVAJAL e OSORIO, Op. Cit., p. 116.
7 VON BALTHASAR, Hans Urs. Gloria: una estética teológica. La percepción de la forma. Madrid: Encuentro, 1985. p. 34-37. Vol. 1.

Uma ideia sobre “Experiência mística: via normal de comunicação entre o infinito e o homem

  1. Que maravilha, Irmã Maria Cecília! Quão esclarecedor e verdadeiro!

    Sentir o influxo do Amor de Deus em si mesmo transborda e toma a pessoa toda, de sorte que já não é ela quem vive, mas Cristo que vive nela!

    Obrigada pela sua reflexão! Peço que outras sobre a mística no dia a dia sejam escritas por vós e outros irmãos arautos.

    Em Domina,

    Lizandra Colossi Oliveira
    Terciária

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