O suave caminho de prata

Irmã Michelle Viccola, EP

Desde que saibamos não nos desviar das prateadas vias da admiração, podemos ter a certeza de que um dia chegaremos ao Céu.

Caiu a noite, o Sol se pusera majestoso por trás das ilhas numa bela praia, e as trevas se estenderam como um longo manto sobre a terra, rasgado apenas pelas cintilações de longínquos faróis a iluminar uma praia vizinha.

No momento mais inesperado, uma suave luz começou a surgir no escuro horizonte. Pouco a pouco, distantes ilhas, antes escondidas sob a impenetrável cortina das névoas noturnas, foram se recortando contra o céu que se pintava de um formoso azul-marinho, salpicado de estrelas. Quase de repente, a luminosidade fez-se mais intensa, o panorama tornou-se mais claro e surgiu, como extraordinário disco de prata, a Lua cheia em todo o seu esplendor.

À medida que ela lentamente se elevava no céu, ia-se formando sobre a irrequieta superfície das águas um suave caminho de prata, que se perdia lá onde o firmamento e o oceano se osculam.

A extasiante beleza do panorama levava a imaginar a estrada que conduz à Bem-Aventurança eterna. Pode acontecer que ameaçadoras ondas se levantem querendo deglutir a frágil embarcação de nossa alma… Mas, desde que saibamos não nos desviar das prateadas vias da admiração, e naveguemos sob o olhar puro dAquela que é chamada Pulchra ut luna (bela como a Lua), podemos ter a certeza de que um dia lá chegaremos.

A dor, mistério do amor

Irmã Clara Isabel Morazzani Arráiz, EP

Era o Templo restaurado por Herodes. Embora “feito de belas pedras e recamado de ricos donativos” (Lc 21, 5), bem longe estava de possuir o esplendor e a magnificência do anterior, erigido segundo a capacidade e a sabedoria de Salomão.

Naquele dia, um casal, levando o mais belo de todos os meninos, atravessou os umbrais do recinto sagrado, com o intuito de cumprir as prescrições da Lei a respeito dos primogênitos. Na aparência, aquela cena nada tinha de extraordinário: com muita frequência as famílias israelitas, vindas das mais variadas cidades, chegavam a Jerusalém, trazendo seus filhos para apresenta-los ao Senhor e oferecer o sacrifício prescrito pela Lei: um par de rolas ou dois pombinhos (cf. Lc 2-24). Quase sempre as mães preferiam associar esta cerimônia àquela da sua própria purificação, à qual estavam obrigadas pelas rígidas normas do Levítico.

Entretanto, nessa ocasião, o ritual da apresentação revestia-se de dimensões verdadeiramente divinas e fora previsto com séculos de antecedência pelo profeta Ageu: “Encherei de minha glória este templo — diz o Senhor do universo. A prata e o ouro me pertencem — oráculo do Senhor do universo. O esplendor futuro deste templo será maior que o primeiro — oráculo do Senhor do universo. Neste lugar Eu darei a paz — diz o Senhor do universo” (Ag 2, 7b-10). E por Malaquias: “Logo chegará a seu templo o Dominador, que vós procurais, e o Anjo da Aliança, que vós desejais” (Ml 3, 1b).

Com efeito, aquela arrebatadora criança, conduzida nos braços de sua Mãe para submeter-Se humildemente aos preceitos da Lei mosaica, era o próprio Dominador, o Filho Unigênito de Deus, nascido sob o domínio da Lei, para resgatar os que se encontravam sob o domínio da Lei (cf. Gl 4, 5).

Dia de gáudio e de glória aquele em que, por fim, as profecias atingiam sua realização e o Divino Menino começava a ser reconhecido pelos que “em Jerusalém esperavam a redenção” (Lc 2, 38).

“Uma espada transpassará a Tua alma”

Entrando no templo, Maria e José depararam-se com um ancião de venerável aspecto, que para lá se dirigira, cheio de esperança, sob a inspiração do Espírito Santo (cf. Lc 2, 27). Ao ver o Menino Jesus, Simeão, que poderia ser denominado o varão-esperança, logo começou a bendizer a Deus e a profetizar a respeito dEle, deixando admirados Seu pai e Sua mãe (cf. Lc 2, 33). Também Ana, a profetisa, que se encontrava no Templo, pôs-se a falar sobre Ele, tornando-se uma das primeiras anunciadoras da missão redentora de Jesus. Maria e José ouviam todas essas palavras, e Seus corações enchiam-se de gozo ao constatarem que o inefável mistério do qual ambos eram depositários, Deus Se dignara comunicá-lo também a outras almas, manifestando-lhes a presença de Cristo no mundo.

Simeão tomou o Menino nos braços e, após ter sido pago o imposto, entregou-O à Sua Mãe, dizendo-Lhe: “Uma espada transpassará a Tua alma” (Lc 2, 35).

Que contraste impressionante! Ali estava o casal princeps, duas criaturas escolhidas por Deus para servir de arquetipia à humanidade: Maria e José. Nesses momentos de consolação, nos quais a Luz descida do Céu para revelar-Se às nações começava a deitar seus primeiros raios, abria-se já, de maneira oficial, a “via dolorosa” que o Senhor apontava à Sua Santa Mãe. A alegria de Maria — de possuir um Filho que é Deus e de pertencer a um Deus que é Seu Filho — naquele instante transformou-se em tristeza. Auge de alegria e auge de tristeza conjugaram-se no coração da Virgem: quanta perplexidade nessa ocasião em que tudo deveria falar de júbilo e, entretanto… “uma espada transpassará a Tua alma”!

Pelo pecado, o sofrimento tornou-se inerente à condição humana

Por que quis Deus unir a dor à alegria num verdadeiro paradoxo, inevitável na vida humana? Todos nós, pelas inclinações da natureza, sempre propensa a buscar a felicidade e a fugir de qualquer sofrimento, somos incapazes de compreender essa maravilha, se não for por um especial auxílio da graça. Fora da filosofia cristã iluminada pela fé, o problema da dor tem sido sempre algo difícil de resolver. Enquanto alguns a concebem como um mal a ser evitado a todo custo, outros, passando ao extremo oposto, consideram-na imprescindível e chegam a fazer dela um prazer malsão e amargo, única saída para sua falta de esperança.

A Igreja, ao contrário, sempre tratou desse assunto de forma equilibrada. Em virtude do pecado original, o sofrimento tornou-se inerente à condição humana, e o homem deve utilizar-se dele para o serviço de Deus, transformando-o numa fonte de méritos e até de glória.

A respeito do modo de como os homens, tanto os bons quanto os maus, suportam as tribulações, assim escreve Santo Agostinho: “Embora justos e pecadores sofram um mesmo tormento, o resultado não é o mesmo. O mesmo fogo faz resplendecer o ouro, purificando-o, e a palha lançar fumaça; o mesmo trilho serve para limpar os grãos e quebrar as arestas… Assim também, uma mesma adversidade purifica e aperfeiçoa os bons, e destrói e aniquila os maus. Por conseguinte, numa mesma calamidade, os pecadores se revoltam e blasfemam contra Deus, enquanto os justos O glorificam e pedem misericórdia; a grande diferença de sentimentos não está na qualidade do mal que uns e outros padecem, mas na das pessoas que o sofrem. Sacudidos de um mesmo modo, o lodo exala um mau cheiro insuportável, e o bálsamo precioso um suavíssimo odor”.1

Cristo quis assumir a nossa carne em estado padecente

Para conhecermos a fundo todo o valor que se desprende da dor quando santamente aceita, bastanos observar que esta foi a via escolhida pela Providência para o próprio Homem-Deus e Sua Mãe Santíssima. Ao nos aproximarmos de um altar em qualquer igreja da terra, sempre o encontraremos presidido por um Crucifixo; e, aos pés dessa Cruz, indissociável do Filho, imaginamos uma Mãe que chora: Stabat Mater dolorosa, juxta crucem lacrimosa

Reza a teologia que, para resgatar o gênero humano, teria bastado Nosso Senhor Jesus Cristo oferecer a Deus Pai um simples gesto, uma curta palavra, ou até mesmo um piscar de olhos, por serem de valor infinito todos os Seus atos.2 Portanto, uma única gota de sangue derramada durante a Circuncisão seria suficiente para consumar a obra da Redenção.3

Entretanto, decretou o Padre Eterno que Ele sofresse a Paixão e Morte de Cruz, pois não poderia permitir que a Seu Verbo — “efusão da luz eterna, espelho sem mancha da atividade de Deus, imagem de Sua bondade” (Sb 7, 26) — fosse negada uma glória em plenitude e esplendor. Foi por ilimitado amor ao Seu Unigênito que Deus permitiu as ignomínias da Flagelação, as humilhações do Ecce Homo, a exaustão da Via-Sacra e os tormentos da Crucifixão. O Filho, que por Sua natureza divina não era capaz de sofrer, quis assumir nossa carne em estado padecente, e não em corpo glorioso, como correspondia à Sua alma, a qual se encontrava na visão beatífica desde o primeiro instante da Encarnação.

Agindo desse modo, Deus não visou apenas operar a Redenção da forma mais esplêndida, mas quis propor aos homens de todos os tempos o Modelo perfeito a ser seguido. Assim se expressa a respeito deste tema o piedoso Pe. André Hamon: “Quando Deus, em Seus eternos decretos, decidiu a Encarnação do Verbo, propôs-Se apresentar aos olhos dos homens o modelo da vida nova que deveria salvá-los. Como homem, o Verbo Encarnado lhes mostraria o caminho; como Deus, lhes daria a garantia da perfeição do modelo. Suas virtudes seriam imitáveis, pois seriam a ação de um homem; e uma regra segura, já que seriam a ação de um Deus”.4

O mistério profundíssimo da Cruz

Ora, ao contemplarmos o Homem-Deus, deparamo-nos com esse profundo mistério: Ele, o Onipotente, o Senhor da Glória, a quem os Anjos adoram sem cessar, “fez-Se em tudo semelhante a nós, exceto no pecado” (Hb 4, 15), e sofreu as contingências da condição humana como fome, sede, sono, e fadiga. Para a mentalidade do homem moderno — pervadida pela ideia de um triunfalismo mal compreendido, da qual desapareceu quase completamente o verdadeiro sentido da dor —, a figura de Nosso Senhor Jesus Cristo cravado na Cruz, clamando ao Pai a magnitude de Seu abandono, aparece como a de um fracassado. “Em verdade, Ele tomou sobre Si nossas enfermidades, e carregou os nossos sofrimentos: e nós O reputávamos como um castigado, ferido por Deus e humilhado” (Is 53, 4).

Entretanto, devemos procurar discernir a sublime lição contida no Sacrifício do Calvário, cuja renovação incruenta se opera diariamente em todos os altares do mundo. Em seu poema O Triunfo da Cruz, assim canta São Luís Maria Grignion de Montfort: “É a Cruz, sobre a terra mistério profundíssimo, que não se conhece sem muitas luzes. Para compreendê-lo é necessário um espírito elevado. Entretanto, é preciso entendê-lo para que nos possamos salvar. […] A Cruz é necessária. É preciso sofrer sempre: ou subir ao Calvário ou perecer eternamente. E Santo Agostinho exclama que somos réprobos se Deus não nos castiga e nos prova”.5

Deus quis submeter o homem à prova

A vida no Paraíso Terrestre era isenta de qualquer incômodo. O homem estava mergulhado na felicidade: os vegetais se encontravam à sua disposição, os animais o serviam, não havia doenças nem cansaço, e, por um especial favor do Criador, a ameaça da morte não o atingia. Também sua alma vivia em paz, pois, graças ao dom da integridade, a carne e o espírito não entravam em conflito, e todas as paixões se ordenavam à luz da Fé.

Não obstante, em meio àquela agradável existência cheia de delícias, Deus quis que houvesse uma prova e, em consequência, uma pequena dor: “Não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal; porque no dia em que dele comeres, morrerás indubitavelmente” (Gn 2, 17).

Era conveniente que Deus, seriedade infinita, exigisse do homem um tributo de sua submissão, por meio do qual este demonstrasse a autenticidade dos louvores e das honras que prestava a seu Criador. A aceitação desta prova era uma renúncia magnífica e uma homenagem ímpar, que partia da humanidade logo em seu nascedouro e se elevava até o trono de Deus.

O pecado e suas consequências

Ora, Adão e Eva sucumbiram à tentação. Talvez lhes tenha sobrevindo a ideia, não explícita, de que não deveria existir a mais leve dor na ordem da criação, e perante a prova que Deus lhes impunha tomaram uma atitude de revolta interior, induzidos a roubar a própria honra de Deus.

Os nossos primeiros pais pecaram. E a queda trouxe o castigo, em sentença proferida pelo próprio Deus: “Multiplicarei teus sofrimentos […] maldita seja a terra por tua causa. Tirarás dela com trabalhos penosos o teu sustento todos os dias de tua vida” (Gn 3, 16-17).

O pecado produziu uma revolução nessa harmonia interior e exterior na qual antes viviam: o homem encontrou-se de repente cercado de mil perigos da natureza, os animais se lhe tornaram hostis, a terra produziu espinhos e abrolhos, e ele viu-se obrigado a comer o pão com o suor de seu rosto (cf. Gn 3, 18-19). Sua alma tornou-se vítima das más inclinações, sujeita ao erro e à rebeldia dos instintos contra os ditames da razão. E a História passou a registrar a peregrinação árdua e dolorosa de uma humanidade em guerra constante contra si mesma, conforme diz o Livro de Jó: “A vida do homem sobre a terra é uma luta” (Jó 7, 1).

A culpa de nossos primeiros pais atraiu sobre eles, e sobre sua posteridade, a maldição e a perda da amizade de Deus, reparável somente por meio do Batismo e da graça. Mas atingiu também a ordem do universo, da qual Adão fora feito rei: “Deste-lhe poder sobre as obras de Vossas mãos, Vós lhe submetestes todo o universo” (Sl 8, 7).

Afirma São Paulo: “A criação foi sujeita à vaidade (não voluntariamente, mas por vontade daquele que a sujeitou), todavia com a esperança de ser também ela libertada do cativeiro da corrupção, para participar da gloriosa liberdade dos filhos de Deus. Pois sabemos que toda a criação geme e sofre como que dores de parto até o presente dia” (Rm 8, 20-22).

Um Deus abraçado à Cruz

Apesar de ter maculado a Criação, o pecado não conseguiu frustrar os planos de Deus, como era intuito do demônio. Pelo contrário, determinou Ele, em Seus insondáveis desígnios de misericórdia, estabelecer uma ordem do universo ainda mais bela e esplendorosa, nascida da Encarnação e do sacrifício de seu Filho Unigênito.

Na harmonia dessa nova ordem, haveria de ser preponderante o papel da dor. Tendo sido mal correspondida a prova no Paraíso, a vida da graça, trazida pela Redenção, não poderia conceber-se sem sofrimento, de modo que os “degredados filhos de Eva” reparassem a falta de seus pais.

Era preciso que os homens adorassem um Deus abraçado à Cruz, o Vir dolorum previsto por Isaías, cravado sobre o madeiro do opróbrio e da ignomínia, e tivessem diante do Homem-Deus moribundo todas as ternuras e venerações de que o coração humano é capaz.

Ele desceu a esta terra de exílio, atravessando as brumas do pecado sem Se deixar tocar por ele, e, tomando sobre Si as nossas fraquezas, com elas subiu ao Gólgota para ali consumar Seu holocausto e restituir aos homens a paz e a felicidade que haviam perdido.

É bem verdade que, ao longo dos três anos de vida pública, teve Ele um período brilhante aos olhos do mundo, durante o qual as multidões iam à sua procura, sôfregas de ouvir Seus ensinamentos e beneficiar-se de Seus milagres. Quando de Sua entrada solene em Jerusalém, a multidão cantava “hosana ao Filho de Davi” (Mt 21, 9). Houve, inclusive, aqueles que quiseram proclamá-Lo rei (cf. Jo 6, 15). Mas, em meio a todos os êxitos, a pior das dores incrustava-se em Seu Coração, delineando Sua missão de Servo Sofredor e deitando uma sombra sobre o futuro que O esperava: era a brutal falta de correspondência daqueles que mais O deveriam reconhecer. “Veio para o que era Seu, mas os Seus não O receberam” (Jo 1, 11).

Se, em Sua trajetória terrena, Nosso Senhor tivesse recebido sempre todas as glorificações do Tabor e do Domingo de Ramos, algo da Sua benquerença pelos homens e da Sua disposição de entregar a vida por eles teria deixado de refulgir aos nossos olhos, e não compreenderíamos suficientemente o mistério de amor que se discerne na Cruz e no Santo Sepulcro. “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos” (Jo 15, 13).

Somos chamados a colaborar na obra da Redenção

Ora, movido por Seu ilimitado amor aos homens, Jesus quis também a participação deles na Sua dor. Ele não necessita de concurso humano algum para redimir-nos, uma vez que o Preciosíssimo Sangue derramado na Paixão bastaria para apagar os pecados de infinitas criaturas, mas deseja associar-nos a Seus sofrimentos e assim fazer-nos partícipes de Seus méritos e de Sua glória. É este o simbolismo da água que o sacerdote mistura ao vinho, na preparação do cálice para o Santo Sacrifício. Nossas dores, de si, valem menos até do que umas poucas gotas de água, pois, o mais das vezes, estão contaminadas por imperfeições e misérias; mas unidas ao “vinho que engendra virgens”, podem aquelas tornar-se uma “mesma e única bebida de salvação”.6

São Paulo mostrou ter penetrado a fundo nesse mistério, quando escreveu em sua epístola aos Colossenses: “ Agora me alegro nos sofrimentos suportados por vós. O que falta às tribulações de Cristo, completo na minha carne, por Seu corpo que é a Igreja” (Cl 1, 24).

Esta passagem é assim comentada por Tanquerey: “Certamente, esta Paixão é, não somente completa, mas abundante e superabundante. No entanto, como Jesus é a cabeça de um corpo místico, do qual todos nós somos os membros, a Paixão deste Cristo místico se completa cada dia em seus membros sofredores, e ela não estará terminada senão quando o último dos eleitos tiver sofrido sua parte das dores de Cristo. […] Então a dor terá um sentido, então seremos verdadeiramente os colaboradores do Divino Salvador na obra da salvação das almas”.7

Crisol onde Deus lança as almas muito amadas

Levando isto em consideração, o papel da dor na vida humana adquire uma perspectiva tão elevada que torna inteiramente fora de propósito qualquer queixa ou inconformidade de nossa parte em relação às cruzes que Deus tenha por bem nos enviar.

Na aceitação inteira da vontade divina encontramos o melhor meio de restituir ao Criador a glória que Lhe foi negada pela primitiva desobediência, manifestando-Lhe, por um ato de conformidade com Seus desígnios, nosso tributo de amor e de reparação à Sua Majestade ofendida.

Ao mesmo tempo, se encetarmos as veredas da dor com ânimo resoluto, é-nos oferecida a ocasião de alcançar preciosos benefícios para o progresso de nossa vida sobrenatural. Dada a tendência natural do homem para o egoísmo, facilmente ele se esquece de Deus quando a felicidade e o sucesso parecem seguir seus empreendimentos. A adversidade é, pois, um poderoso auxílio para purificar a alma do apego excessivo às criaturas, obrigando-a a considerar a inanidade dos bens passageiros e voltar-se só para Deus, único Bem do qual tudo se pode esperar.

Tais disposições perante o sofrimento conferem um caráter respeitável àquele sobre o qual este se abate, tornando-o digno de admiração.

Nos dias de hoje, o sentido cristão da palavra “admirável” vai-se perdendo, dando lugar a conceitos deturpados, segundo os quais o homem, para alcançar a plena realização de sua personalidade, deve ser bem sucedido na vida, correr de vitória em vitória, sem jamais ser incomodado por qualquer revés ou dificuldade; só assim se tornará merecedor do aplauso e da aceitação dos demais. A experiência histórica, porém, nos revela o contrário: os homens sofredores, que ao longo de sua existência tiveram de enfrentar perigos, angústias, incompreensões e até mesmo aparentes catástrofes, mas, fortalecidos pela graça divina, acabaram vencendo, esses sim são verdadeiramente dignos da aprovação dos demais homens e do beneplácito de Deus.

A dor é, pois, o crisol onde a Providência lança as almas muito amadas, sobre as quais repousa uma especial predileção de Sua parte, para delas recolher apenas a prata finíssima, livre de qualquer impureza. O Livro do Eclesiástico deita uma luz sobre essa atraente temática: “Meu filho, se entrares para o serviço de Deus, permanece firme na justiça e no temor, e prepara a tua alma para a provação; humilha teu coração, espera com paciência, dá ouvidos e acolhe as palavras de sabedoria; não te perturbes no tempo da infelicidade, sofre as demoras de Deus; dedica-te a Deus, espera com paciência, a fim de que no derradeiro momento tua vida se enriqueça. Aceita tudo o que te acontecer. Na dor, permanece firme; na humilhação, tem paciência. Pois é pelo fogo que se experimentam o ouro e a prata, e os homens agradáveis a Deus, pelo cadinho da humilhação” (Eclo 2, 1-5).

Duas atitudes perante a tragédia

Recebida com resignação, ou com sobrenatural entusiasmo, a dor enaltece o homem e o convida a uma doação generosa de si mesmo, da qual, na prosperidade, talvez ele não se julgasse capaz. Assim, pode haver circunstâncias infelizes que, de modo inesperado, reduzam à derrota alguém anteriormente coroado de êxito. Colocado diante de sua própria tragédia, ele poderá chorar, lamentando seu fracasso, e afundar-se no abatimento e na revolta contra Deus; ou então ele se erguerá com uma grandeza de alma triunfal, compreendendo a beleza de seu infortúnio, já que este o aproxima mais da Divina Vítima do Calvário.

Em palavras dirigidas aos peregrinos reunidos na Praça de São Pedro, assim se exprimia o hoje Papa Emérito Bento XVI: “Jesus sofre e morre na Cruz por amor. Deste modo, considerando bem, deu sentido ao nosso sofrimento, um sentido que muitos homens e mulheres de todas as épocas compreenderam e fizeram seu, experimentando uma profunda serenidade também na amargura de árduas provas físicas e morais”.8

No instante em que o homem se abraça à Cruz e a toma como um presente da munificência divina, manifesta-se todo o poder sublime e ao mesmo tempo misterioso do holocausto. Sua dor torna-se fecunda e profícua, mais eficaz na ordem da Comunhão dos Santos e na realização dos desígnios de Deus do que seus esforços naturais ou suas demais obras apostólicas. Oferecido o sacrifício, algo na alma germina, nasce e gera frutos, elevando-se diante de Deus como oblação grata e imaculada, e dando ao homem uma alegria e uma paz interior que todas as riquezas e glórias do mundo jamais poderão proporcionar-lhe.

Nos dias cheios dos imponderáveis sérios e graves da Semana Santa, acheguemo-nos aos pés da Cruz onde pende o Salvador, abandonado por quase todos — sobretudo neste século em que tantos e tantos homens só procuram o prazer e bem-estar pessoal — e coloquemos nas mãos da Mater Dolorosa, cuja alma foi transpassada pelo gládio da dor, toda a nossa entrega e disposição de padecer por Cristo e por Sua Igreja. As lágrimas de Maria purificarão nossa oferta das eventuais misérias das quais possa estar manchada e a tornarão útil para a edificação de Seu Reino e o triunfo de Seu Imaculado Coração.

1 AGOSTINHO, Santo. A Cidade de Deus. l. 1, c. 8.
2 Cf. ROYO MARÍN, OP, Fr. Antonio. Jesucristo y la vida cristiana. Madrid: BAC, 1961, p. 324.
3 Cf. DENZINGER, H.. HÜNEMANN, P. Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral. São Paulo: Loyola; Paulinas, 2007, p. 328, n. 1.025.
4 HAMON, M. André-Jean-Marie. Méditations. Paris: Lecoffre, 1933, v I, p. 55-56.
5 MONTFORT, São Luís Maria de. Carta-circular aos amigos da Cruz. Cântico “O Triunfo da Cruz”. Trad. Maria Helena Montezuma Pohle. Rio de Janeiro: Santa Maria, 1954, p. 67-68.
6 Cf. CANTALAMESSA, OFMCap, Raniero. Obediencia. Trad. Ricardo M. Lázaro Barceló. 3. ed. Valencia: Edicep, 2002, p. 71. TANQUEREY, Adolphe. La divinisation de la souffrance. Paris-Tournai-Rome: Desclée de Brouwer, 1931, p. IX-X. Ângelus, 01/02/2009.
7 TANQUEREY, Adolphe. La divinisation de la souffrance. Paris-Tournai- Rome: Desclée de Brouwer, 1931, p. IX-X.
8 Ângelus, 01/02/2009.

O que nos torna íntimos aos santos?

Joice Silvino Santos

Ao se aproximarem do presbitério da Basílica Nossa Senhora do Rosário, os fiéis se deparam com várias relíquias de santos postas sob a mesa do altar.

Mas, se perguntássemos ao leitor por que damos culto às relíquias, a resposta seria convincente e segura? Caso não fosse, não se sinta constrangido, pois dá-la-emos agora.

A palavra relíquia vem do latim, provavelmente de relíquus (restante) ou relinquere (deixar). Portanto, “relíquia” designa aquilo que restou dos santos ou as coisas que por ele foram deixadas.

Como todos sabem, existem dois tipos de relíquias: as diretas e as indiretas. As diretas são alguma parte da carne, dos ossos ou das cinzas. As relíquias indiretas são algo que por eles foi tocado. Alguém poderia se perguntar: “Nossa! Existe uma quantidade imensa de relíquias indiretas, como um santo pôde ter tocado em tantos objetos?” Na verdade, nem todas as relíquias indiretas foram tocadas pelos santos, pois algumas foram simplesmente encostadas em suas relíquias diretas.

Quando uma pessoa toca em alguma coisa, algo dela passa para o objeto que foi tocado. Tomemos como exemplo o recipiente em que foram lavadas as mãos de Pilatos. Se alguém lhe desse de presente, o leitor aceitaria? Provavelmente não, pois, alguma coisa do ato infame de Pilatos passou para o objeto. Algo análogo acontece com as relíquias indiretas.

Já as relíquias diretas, como um pedaço de carne ou de osso são parte de uma pessoa que se encontra no Céu. Desse modo, quando o santo ressuscitar, aquele fragmento se unirá ao seu corpo e passará para o estado glorioso. Assim, a relíquia direta é, em certo sentido, a presença física de um bem-aventurado entre nós.

Portanto, as relíquias são um verdadeiro tesouro! Se por acaso o leitor possui alguma, venere-a e não a deixe guardada em alguma gaveta no meio de objetos profanos. Devemos osculá-las todos os dias pelo menos, de manhã ou à noite. E, além do mais, procurar sempre conhecer a vida do santo a que correspondem, para termos uma piedade fogosa. Lembremo-nos de que elas são uma arma para o combate.

Certos militares levavam uma relíquia incrustada na espada… É bom, nas horas de perigo, tê-las sempre junto a nós para garantirmos que, na luta contra o demônio, não batalhamos sozinhos, mas contamos com a presença de santos vitoriosos!

Enviai, ó Senhor, vosso Espírito

Maria Cecília Lins Brandão Veas

Panfletos e noticiários que transmitem últimos acontecimentos os há em abundância. Mas, onde encontrarmos subsídios que nos comuniquem o fim último e a realização suprema da existência dos homens? Assim sendo, pareceu-nos oportuno tecermos, neste artigo, esta realidade oculta, mas sublime, que encerra em si a grandeza dos arcanos de Deus: a conquista do Reino dos Céus, iniciado na Terra com a inabitação da Santíssima Trindade na alma.

Tendo a serpente entrado no Paraíso, penetrou com ela o veneno de morte fatal, que Adão e Eva sorveram como a mais ordinária bebida. Insidioso, o demônio saíra vencedor, não na totalidade, mas em larga medida. E eis que as gerações procedentes, manchadas pela culpa original, lutariam desfalecidas por esta terra de exílio, à espera do Salvador. Durante séculos, a História conheceu um de seus mais lânguidos, desolados e pungentes períodos, nos quais eram constantes as penitências, jejuns e preces que, na economia da graça, se erguiam aos Céus.

No momento determinado, entretanto, a Salvação se dignou vir das alturas. O Filho Unigênito de Deus, encarna-se triunfando vitorioso sobre o príncipe da morte, sublimando a obra de suas mãos. As portas do Céu reabrem-se, e é iniciado o Reino da graça e da benção, para o qual Deus chama a cada alma, renovando o convite feito a Adão: “Meu filho, eu te dei a condição de homem, não queres ser mais? Não queres ser um príncipe na minha criação? Eu te concedo uma participação criada na minha própria vida. Eu habitarei em ti, e tu serás templo no qual Eu viverei. Far-te-ei meu herdeiro”. 1 E no momento em que as águas batismais recaíram sobre nossas cabeças, ingressamos no imenso cortejo de almas ousadas que galgam à Pátria Celeste.

Mas, as consequências do pecado original vociferam em nosso interior: concupiscências, desejos desenfreados, intemperanças, frequentemente tomam-nos por inteiro levando-nos a empregar os esforços, onde lucro algum lograremos obter: o pecado. Por isso, pensaria alguém: “Ser herdeiros do reino Céus? Haverá o que sobrepuje mais profundamente a capacidade humana?” A resposta o Salvador a deu, quando exortou aos seus discípulos: “O que é impossível aos homens é possível a Deus”. (Le 18, 27)

É indubitável o fato de a vida ser dura e repleta de dificuldades. Porém, ai dos que agravam o exílio nesta Terra, fechando as janelas de sua alma que dão para o Céu! O que, pois, deveria estar ao alcance de nossa consideração, senão o imenso amor que Deus manifesta constantemente aos homens? As Três Pessoas Divinas incorrem infalivelmente ao nosso encalço: o Pai adota-nos como filhos, no Batismo; o Filho torna nosso irmão e redime-nos; o Espírito Santo santifica-nos. “É esta a grande obra de amor de Deus ao homem, e é o Espírito Santo o Amor essencial no seio da Trindade Santíssima”. 2

A Graça Santificante infundida em nossas almas no momento do Batismo, misteriosamente eleva-nos à natureza divina, tomando-nos dela partícipes. Ora, “esta realidade criada, que é a Graça Santificante, leva sempre consigo, inseparavelmente, outra realidade absolutamente divina e menada, que não é outra coisa senão o mesmo Deus, uno e trino, que vem inabitar no fundo de nossas almas3. De fato, “aos que chamou, também os justificou”, (Rm 8, 28) unindo-Se intimamente, como Pai e como Amigo.

O que é um bom filho senão a glória do Pai, e o que é um verdadeiro amigo senão aquele que devota fidelidade? Se a meta suprema da inabitação Trinitária é fazer-nos participantes do mistério da vida divina, transformando-nos em Deus 4, por que vivemos indiferentes à essas realidades?

Cada alma constitui uma província de eleição no Reino de Deus. E a fim de levarmos a cabo essa missão, o próprio Espírito Santo auxilia-nos constantemente com o bafejo de seus dons. Neste sentido, canta a Igreja no Veni Sancte Spiritus: Doce Hóspede da Alma. “Quando o Espírito vem e possui totalmente a alma com seus conselhos, instruções e impulsos de amor, nos comunica por meio de nossos pensamentos a voz do Senhor, ilumina nossa inteligência, inflama a vontade”. 5 Eis, pois, a chave de ouro da santidade!

Nada é mais bonito na Terra do que ver diretamente nas almas a santificação delas operada pelo Espírito Santo”. 6 Com as chamas do intenso amor, o Paráclito inculca quais as veredas que a alma deve trilhar para alcançar o píncaro da santidade. Muitos são os carismas, e inúmeras as vocações. Porém, se há algo que não se extingue, indiferente do chamado, é a luta contínua para efetivar a santificação. E tomando o leme de nossas almas, o Espírito Santo como que sopra no interior de nossas almas dizendo: “Você não está lutando por si, você está lutando por Mim, e lutando por Mim, o patrão de sua luta sou Eu” 7.

Assim consignou Nosso Senhor a Santa Catarina de Siena: “O Espírito Santo é o patrão das naves fundadas à luz da santíssima fé, conhecendo por ela, que o mesmo Espirito Santo, será quem as governe”. 8 Como um navegante que se subjuga às ordens do capitão, abandonemo-nos ao sopro do Espírito Santo, para bem chegarmos ao cais da eternidade. Somente assim estaremos devidamente preparados para o grande dia de nosso encontro com Deus.

Não nos esqueçamos, porém, que qualquer falta grave expulsa implacavelmente o Guia de nossas almas. “Não sabeis que sois templos de Deus, e que o Espirito de Deus habita em vós?.” (1Cor 4, 17) Esmeremo-nos, pois, ardentemente em manter em nosso templo o Divino Espírito. Invoquemo-Lo, sobretudo quando as rajadas do infortúnio afligirem nossas almas, para que perscrute o nosso coração derramando a abundância de seus dons, de maneira a transformar-nos por completo.

Dessa necessidade vem a prece que há séculos reza a Santa Igreja: Emitte Sputum tuum, et renovabis faciem terrae.

“Ou seja, antes de tudo, a face dessa nossa “terra” interior, da nossa própria alma, pode ser renovada de um instante para outro, por uma graça do Espírito Santo. Igualmente por uma particular intervenção d’Ele, há de ser regenerada a face do mundo, através do apostolado de autênticos católicos, inspirados pela Sabedoria divina, cheios de força e valor para enfrentar os inimigos da fé, assim como para atrair e fazer o bem a todos que devam pertencer à Santa Igreja”. 9

1 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Harmonia: Uma criatura de Deus. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano XII, n. 137, ago. 2009, p. 20.
2 ROYO MARÍN, Antônio. El gran desconocido. Madrid: BAC, 2004, p. 71.
3 Ibid. p. 70.
4 Ibid. p. 76.
5 SAO BERNARDO. Obras Completas, y. IV. BAC: Madrid, 2006, serm. 2, 6.
6 CORREADE OLIVEIRA, Plinio. Nossa Senhora do Rosário, uma festa de glória! In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano XV, n. I75, out. 2012, p. 18-19.
7 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Memórias: Palestra. São Paulo, 17 set. 1989. (Arquivo IFTE)
8 SANTA CATALINA DE SIENA. Obras de Catalina de Siena. 3. ed. Madrid: BAC, 2002. p. 406.
9 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Emite Spiritum tuum et creabuntur. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano XII, n.134, maio. 2009, p. 4.

O sorriso do Divino Infante

Gabriela Victoria Silva Tejada

Tradicionalmente, é costume montar presépios quando os abençoados tempos natalinos se aproximam. Entretanto, qual a origem deles?

Corria o ano de 1223. A neve cobria, como um branco manto, a pequena cidade de Greccio, no centro-sul da Itália. Os sinos anunciavam com alegria a noite de Natal. Todos os habitantes da região, em sua maioria camponeses, se encontravam em torno de São Francisco, que tentava com ardor explicar-lhes o mistério do nascimento do Divino Menino Jesus. Todos escutavam com atenção, entretanto… era patente que não estavam entendendo.

O grande santo procurou, então, um modo mais didático para explicar-lhes. Mandou trazer uma imagem do Menino Jesus, uma manjedoura, palhas, um boi e um burrinho. Os assistentes, muito surpreendidos, saíram rapidamente à procura de todo o pedido. Em pouco tempo, o Santo compôs a cena: no centro, a manjedoura com as palhas; ao fundo, os dois pacíficos animais. Faltava apenas a imagem do Menino Jesus. Com grande devoção, São Francisco tomou-a nos braços para depositá-la na manjedoura.

Milagre! Ante os olhos maravilhados de todos a imagem toma vida e o Menino sorri para São Francisco, que O abraça com terna afeição. De imediato todos se ajoelham numa profunda atitude de adoração.

O Menino Deus sorri uma vezes e abençoa a todos. Poucos instantes depois, havia sobre as palhas uma simples imagem inanimada… Mas, na alma de todos, permaneceu a lembrança viva do Menino Jesus. Ele lhes havia sorrido!

A partir de então, o povo de Greccio armava todos os anos o “presépio de São Francisco”, com a cândida esperança de que o milagre se renovasse. Nunca foram enganadas suas esperanças. Ainda que a imagem não voltasse a tomar vida, a Virgem Maria lhes falava, especialmente, no fundo das almas, derramando sobre eles abundantes graças. Que graças? As graças próprias à liturgia natalina.

Entretanto, apenas os habitantes de Greccio são objeto de tais graças? Não! Em todos os presépios do mundo está presente o Menino Jesus, com Maria sua Mãe, e São José, à espera de que nos aproximemos para, também nós, recebermos um sorriso e uma bênção.

É justo por esse motivo que se espalhou pelo mundo católico o costume de montar presépios no Natal.

Deste modo, caro leitor, o Menino Jesus está nos convidando, à imitação dos habitantes de Greccio, a ajoelhar-nos com verdadeira piedade diante d’Ele no presépio e, por intercessão da Virgem Maria, pedir para todos nós esse sorriso e essa bênção que comunicam a felicidade e a paz.

A santa do silêncio e da confiança

Irmã Isabel Cristina Lins Brandão Veas, EP

Santa Catarina Labouré

Em fins de 1858, corriam por Paris notícias a respeito das aparições de Nossa Senhora a uma camponesa dos Pirineus, em Lourdes, rincão de pouca relevância do território francês. Trocavam-se impressões sobre as extraordinárias curas constatadas após o uso das águas da miraculosa nascente da Gruta de Massabielle e, sobre tudo, comentava-se a celebridade da jovem vidente, Bernadete Soubirous, cuja despretensão e inabalável fé suscitavam a admiração do povo, que já a venerava como santa.

Difundindo-se célere pela capital francesa, a novidade chegou aos ouvidos também das Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo, que serviam aos idosos do asilo de Enghien. Entabularam uma animada conversa, na qual se ouviu uma exclamação saída dos lábios de uma religiosa que, embora discreta, mostrava-se tomada por veemente entusiasmo naquele momento: “E a mesma!”.1 Nenhuma delas alcançou o significado destas palavras. Entreolhando-se com estranheza, continuaram a falar, como se nada tivessem ouvido.

“Um arco-íris místico entre a Rue du Bac e Lourdes”

Em 1830, uma noviça da Casa-Mãe da Companhia das Filhas da Caridade, situada em Paris à Rue du Bac, também fora contemplada com aparições de Nossa Senhora, as quais já haviam adquirido fama mundial. Além de fazer importantes revelações sobre o futuro da Congregação e da França, a Mãe de Deus confiara à vidente a missão de mandar cunhar uma medalha através da qual Ela derramaria abundantes graças sobre o mundo. A distribuição dos primeiros exemplares deu-se em razão da epidemia de cólera que grassava por Paris, e foram tantas e tão surpreendentes as curas atribuídas ao uso dessa medalha —não sem razão denominada pelo povo de Milagrosa —, que em pouco tempo ela já se difundira por diversos países.

O nome da vidente, contudo, permanecia incógnito, mesmo entre suas irmãs de hábito. E só foi revelado após sua morte: era a silenciosa, diligente e sempre bem humorada Irmã Catarina Labouré! Seus olhos azuis, serenos e límpidos, brilhavam de alegria ao ouvir falar pela primeira vez das recentes aparições de Lourdes, um eco das ocorridas na Rue du Bac. Era outra luz que despontava no mesmo caminho de misericórdia traçado pela Rainha do Céu para conduzir a humanidade a uma nova era de graças marianas.

Não havia dúvida, era “a mesma”! À noviça de Paris, a Virgem ensinara a fórmula para invocá-La: “O Maria concebida sem pecado”. A Bernadete, assim se apresentara: “Eu sou a Imaculada Conceição”. Exultante de contentamento, Irmã Catarina passou a nutrir profunda admiração pela nova vidente, embora não a conhecesse. Não sabia ela que, em Lourdes, Bernadete trazia ao pescoço a Medalha Milagrosa quando viu a Mãe de Deus, e provavelmente nutria em seu coração nobres sentimentos de veneração pela incógnita vidente da Virgem da Medalha… Pelo prisma sobrenatural, havia uma estreita união de almas das duas santas, formando “como que um arco-íris místico entre a Rue du Bac e Lourdes”.2

Santa Bernadete dava provas de heróica humildade, restituindo à Rainha do Céu as honras e louvores que o povo lhe tributava. Santa Catarina praticava de modo diferente igual humildade: vivia entregue às mais modestas funções no asilo de Enghien, onde serviu aos idosos e pobres durante mais de quarenta anos.

Infância nimbada de fé e seriedade

Quando Catarina nasceu, em 2 de maio de 1806, permaneciam ainda na França as chagas da irreligião abertas pela Revolução de 1789. No pequeno povoado borgonhês de Fain-lès-Moutiers, onde a família Labouré residia, não havia sacerdote. Para batizar a recém-nascida, foi preciso chamar o pároco do lugarejo vizinho. Apesar da generalizada negligência religiosa do tempo, da qual não se excluía seu pai, Pedro Labouré, a fé de Catarina e de seus nove irmãos foi salvaguardada e fortalecida graças ao empenho da mãe, Madalena Gontard, cuja principal preocupação na educação dos filhos foi inculcar-lhes uma ilimitada confiança na Santíssima Virgem.

Os primeiros anos de Zoé — assim se chamava nossa santa, antes do ingresso na vida religiosa — transcorreram sem nuvens, em meio às alegrias de uma infância perfumada pela inocência. Adquiriu desde cedo gosto pela oração e não hesitava em abandonar os infantis divertimentos quando a mãe a chamava para rezarem juntas diante da singela imagem de Nossa Senhora entronizada numa sala da residência.

Dotada de um precoce senso de responsabilidade e seriedade, Zoé logo percebeu as dificuldades da mãe na execução das árduas tarefas de manutenção da casa, e resolveu ajudá-la. Antes de completar oito anos, já sabia costurar, ordenhar as vacas, preparar a sopa e varrer o chão. E a compenetração que a movia a abraçar com alegria a monótona faina diária — tanto no lar, durante a infância e juventude, quanto no asilo de Enghien, ao longo de mais de quatro décadas — foi por ela mesma explicitada com palavras simples e cheias de luz: “Quando se faz a vontade de Deus, jamais se sente tédio”.3

Uma graça transformante

Aos nove anos de idade, a pequena Zoé viu o horizonte de sua I vida toldar-se pela tragédia: em outubro de 1815, faleceu sua mãe. Ao contemplar seu corpo inerte, chorou copiosamente, mas não por muito tempo, pois ela própria lhe havia ensinado a quem recorrer nos momentos de aflição. Passado o primeiro choque, dirigiu-se à sala onde se encontrava a imagem de Nossa Senhora, diante da qual tantas vezes rezara em companhia da mãe. Resoluta, subiu numa cadeira para pôr-se à altura da imagem, abraçou-a e exclamou, entre soluços: “De agora em diante, Vós sereis minha Mãe!”.4 A resposta da Rainha do Céu foi imediata. A menina, que ali chegara débil e desfeita em lágrimas, retirou-se forte e disposta a enfrentar as adversidades. Foi essa a última vez que ela chorou na vida, pois a virtude da fortaleza a acompanhou num crescendo o até o fim de seus dias.

Em 1871, quando já era uma religiosa de 65 anos, o movimento revolucionário da Comuna de Paris proporcionou-lhe diversas ocasiões de manifestar, com heroísmo, essa virtude. Um dia, por exemplo, tomou a iniciativa de dirigir-se ao quartel-general dos insurrectos para defender sua superiora, contra quem fora expedida uma ordem de detenção. Expôs seus argumentos com tal firmeza ante quase sessenta comuneiros ali presentes que terminou por sair vitoriosa. Impressionados, os revolucionários passaram a tratá-la com muita deferência; chegaram inclusive a pedir-lhe para depor no julgamento de uma prisioneira, e tomaram seu depoimento, favorável à ré, como última palavra no caso.

Um desdobramento dessa graça recebida na infância foi a constância de ânimo com a qual suportou as inúmeras manifestações de impaciência e incredulidade de seu confessor quando, por ordem de Nossa Senhora, lhe relatava as visões havidas. Poucos meses antes de sua morte, ela confidenciou à superiora que a atitude desse sacerdote constituíra para ela um verdadeiro martírio. Ela padeceu com a fortaleza dos mártires esse holocausto silencioso, que lhe fora anunciado pela própria Santíssima Virgem, na primeira de suas aparições: “Minha filha, o Bom Deus quer te encarregar de uma missão. Terás muitas dificuldades, mas as superarás, considerando que ages para a glória d’Ele. Saberás discernir o que vem do Bom Deus. Serás atormentada até que o digas àquele que está encarregado de te conduzir. Serás contraditada. Mas terás a graça. Não temas. Dize tudo com confiança e simplicidade. Tem confiança”.5

Uma verdadeira filha de São Vicente de Paulo

“Ficarás feliz em vir a mim. Deus tem designios a teu respeito”.6 Quando tinha cerca de 14 anos, Catarina ouviu em sonho estas palavras dirigidas a eia por um sacerdote desconhecido, cujo olhar penetrante e cheio de luz gravou-se para sempre em sua lembrança. Alguns anos mais tarde, visitando uma casa das Filhas da Caridade, deparou-se com um quadro do fundador da Congregação,- São Vicente de Paulo, em cuja fisionomia reconheceu o sacerdote do sonho. Ficou-lhe clara, então, a vocação à qual já se sentira tantas vezes atraída: seria filha de São Vicente!

Entretanto, quando no seu 21 aniversário, em 2 de maio de 1827, anunciou em casa sua decisão, o pai se opôs taxativamente. Após tentar, em vão, dissuadi-la de abraçar a vida religiosa, ele a enviou a Paris, para trabalhar no restaurante de um de seus irmãos, na ilusão de que ali ela acabaria por encontrar um bom partido e casar-se.

Aquele ambiente, porém, frequentado por operários rudes e muitas vezes imodestos, não fez senão fortalecer a pureza ilibada da jovem. Tal era seu amor pela vocação que já se portava como uma autêntica Filha da Caridade, cumprindo com perfeição as recomendações feitas pelo Santo às suas filhas espirituais, entre as quais esta: “Se às religiosas [de clausura] é exigido um grau de perfeição, às Filhas da Caridade devem ser exigidos dois”.7

Catarina não desejava outra coisa senão abraçar por inteiro essa ousada meta, e perseverou em seu propósito até vencer a obstinação do pai. “Se observarmos bem as pequenas coisas, faremos bem as grandes”,8 escreveria ela, décadas mais tarde, ao terminar um período de exercícios espirituais.

A confiança e a simplicidade de uma alma inocente

Finalmente, em 21 de abril de 1830, Catarina chegou ao Convento da Rue du Bac. O Conselho das Superioras logo discerniu nela uma autêntica vocação: “Tem 23 anos e convém muito à nossa comunidade: piedosa, bom caráter, temperamento forte, amor ao trabalho e muito alegre”,9foi o parecer escrito a seu respeito. Ademais, era uma genuína camponesa, tal qual desejava São Vicente, que tomara os bons predicados das aldeãs como base natural para perfilar o ideal de virtude das Filhas da Caridade. E, quer na vida comunitária, quer no serviço dos pobres, e mesmo durante as manifestações sobrenaturais das quais foi objeto, sempre brilhou em Irmã Catarina uma das virtudes mais amadas pelo Santo Fundador: a simplicidade de coração.

“O espírito das camponesas é simplíssimo: nem rastro de fingimento nem palavras de duplo sentido; não são teimosas nem apegadas às suas opiniões. […] Assim, minhas filhas, devem ser as Filhas da Caridade, e sabereis que o sois se fordes simples, sem recalcitrâncias, submissas ao parecer dos outros e cândidas em vossas palavras, e se vossos corações não pensarem uma coisa enquanto vossas bocas pronunciam outra”.10 Este ideal delineado por São Vicente encontrou, quase dois séculos depois, perfeita realização na alma desta dileta filha.

Na semana seguinte à sua chegada ao convento, apareceu-lhe três vezes, em dias consecutivos, o coração de São Vicente, prenunciando as iminentes desgraças que se abateriam sobre a França, com a promessa de que as duas Congregações por ele fundadas não pereceriam. A feliz noviça teve a graça de ver também Cristo presente na Sagrada Hóstia, durante todo o tempo de seu seminário, “exceto todas as vezes que eu duvidava”,11 confidenciou ela.

Imbuída da Fé que move as montanhas e atrai a benevolência de Deus, Catarina não titubeou em pedir mais: queria ver Nossa Senhora. Na véspera da festa do Fundador — que então se comemorava a 19 de julho —, confiou-lhe seu desejo numa breve oração e foi dormir esperançosa: “Deitei-me com a ideia de que naquela mesma noite veria minha boa Mãe. Havia muito tempo que queria vê-La”.12E foi generosamente atendida, não só “naquela mesma noite”, como também em duas outras aparições, uma em novembro e outra em dezembro do mesmo ano de 1830.

Com o passar dos anos, intensificou-se nela a confiança filial e ilimitada que depositava nesses três pilares de devoção, a tal ponto que, pouco antes de falecer, ela não pôde esconder o espanto quando a superiora lhe perguntou se não tinha medo da morte: “Por que temeria ir ver Nosso Senhor, sua Mãe e São Vicente’?”.13

“A Santíssima Virgem escolheu bem”

Santa Catarina jamais violou o segredo acerca de sua condição de vidente e mensageira das aparições da Medalha Milagrosa. Contudo, muitas pessoas chegaram a vislumbrar nela a predileta da Rainha do Céu, tal era seu amor a Deus, não só afetivo, pois inegável era sua ardorosa piedade, mas também efetivo, como o testemunhou uma de suas contemporâneas: “Suas ações, em si mesmas ordinárias, ela as fazia de maneira extraordinária”.14 Havia nela algo de discreto, alcandorado e inefável.

Sua santidade era a principal mantenedora do segredo. Às irmãs que ousaram interpelá-la nesse sentido, sua resposta consistiu sempre num absoluto silêncio. Um silêncio nascido da humildade, sem nada de taciturno nem de ríspido; pelo contrário, um silêncio sacral, que chegava a despertar veneração.

Quando, após sua morte, foi anunciado às Filhas da Caridade o nome da vidente da Rue du Bac, tiveram elas uma reação marcada mais pela admiração do que pela surpresa. Não era difícil associar a exemplar irmã à figura — já um tanto mitificada — da vidente ignota. E era impossível não ficarem deslumbradas ao constatar a excelência de sua humildade, que a mantivera no anonimato, embora exercendo uma missão de alcance universal.

Quiçá naquele momento tenha ocorrido à lembrança das irmãs o ingênuo dito que as crianças do orfanato dirigido pelas Filhas da Caridade costumavam repetir entre si, observando de longe a Irmã Catarina Labouré: “A Santíssima Virgem escolheu bem”.15 Teriam sido estas palavras, tão verdadeiras, mero fruto da imaginação infantil ou haveria Deus, mais uma vez na História, revelado aos pequeninos os mistérios ocultados aos sábios e entendidos?

Sem embargo, mais luminosa que o heroico silêncio é a lição de confiança filial deixada por Santa Catarina na Mãe que nunca desampara. “A confiança tem sempre esse prêmio. Pedindo com confiança, recebe-se mais, com mais certeza e mais abundantemente. A confiança abre-nos o Sapiencial e Imaculado Coração de Maria”.16

1 1 LAURENTIN, René. Vie de Catherine Labouré. Paris: Desclée de Brouwer, 1980, p.197.
2 CORRÉA DE OLIVEIRA, Plinio. Palestra. São Paulo, 12 nov. 1980.
3 SANTA CATARINA LABOURÉ, apud LAURENTIN, op. cit., p.377.
4 CLÁ DIAS, EP, João Scognamiglio.A Medalha Milagrosa. História e celestiais promessas. São Paulo: Takano, 2001, p.7.
5 LAURENTIN, op. cit., p.85.
6 Idem, pilO.
7 SÃO VICENTE DE PAULO. Correspondence, Entretiens, Documents, apud HERRERA, CM, José; PARDO, CM, Veremundo. San Vicente de Paúl. Biografia y selección de escritos. 2.ed. Madrid: BAC, 1955, p.271.
8 SANTA CATARINA LABOURÉ, apud LAURENTIN, op. cit., p.156.
9 LAURENTIN, op. cit., p.50.
10 SÃO VICENTE DE PAULO, op. cit., p.260.
11 SANTA CATARINA LABOURÉ, apud LAURENTIN, op. cit., p.78.
12 Idem, p.8 1.
13 Idem, p.289.
14 LAURENTIN, op. cit., p.375.
15 BERNET, Anne. La vie cachée de Catherine Labouré. Mesnil-sur-l’Estrée: Perrin, 2001, p.225.
I6 CORRÊA DE OLIVEIRA, op. cit.

Santa Luzia: luz, dor e glória

Irmã Lucía Ordóñez, EP

Deus, por vezes, manifesta seu poder através dos mais fracos. Luzia, uma frágil jovem de Siracusa, era forte de alma, por ser virgem. Deus deu-lhe o dom de vencer, não só com seus argumentos, mas também pela força, os perseguidores pagãos.

Foi dentro das fronteiras do Império Romano que, por desígnio do Altíssimo, nasceu a Santa Igreja Católica. No entanto, esse imenso poder temporal, vendo o poder espiritual nascer misteriosamente e florescer com rapidez desconcertante, mostrou-se de início intrigado e receoso, e, por fim, hostil a ponto de chegar às violências mais extremas.

Os sublimes ensinamentos cristãos contradiziam frontalmente os costumes vigentes entre aqueles homens de coração duro. Vítima de toda sorte de calúnias, a Igreja nascente viu-se alvo de sangrentas perseguições desencadeadas pelas autoridades romanas com o objetivo de sufocá-la de modo inexorável.

No entanto, era o próprio Deus quem permitia que sua Igreja passasse pela longa prova da dor e do sacrifício. Com efeito, após cada perseguição, o Cristianismo ressurgia mais numeroso, brilhante e cheio de fé!

No reinado de Diocleciano (284305), esse clima de horror chegou ao auge. Por um edito deste imperador, todas as igrejas deveriam ser demolidas e todos os cristãos que exerciam cargos públicos seriam obrigados a abjurar a fé em Cristo.

É nesta última fase do período das grandes perseguições que surge uma alma de rara virtude: a jovem Luzia.

Voto de virgindade

O nome Luzia tem sua origem na palavra latina “lux”, e ressoa em nossos ouvidos carregado de conotações heróicas, trazendo-nos à memória uma vida cheia de luz e de glória, porque feita de sangue e dor.

Nascida em Siracusa, e oriunda de uma família nobre e cristã, logo no desabrochar da adolescência consagrou-se a Jesus, oferecendo-Lhe a flor da sua virgindade.

Esta promessa de castidade perfeita não era incomum nos primórdios do Cristianismo, pois o próprio Salvador chamava grande número de almas à pratica desta angélica virtude. Um dia, respondendo a uma pergunta dos discípulos sobre os pesados encargos do casamento, disse-lhes o Mestre: “Nem todos são capazes de compreender esta doutrina, mas somente aqueles a quem foi concedido do alto” (Mt 19-11). Há homens, prosseguiu Ele, que são inaptos para a vida conjugal, e outros, pelo contrário, que de livre e espontânea vontade renunciaram ao matrimônio “por amor ao Reino dos Céus” (Mt 19,12). Pela primeira vez ressoava na História o chamado cristão à virgindade, e seu eco repercutiria em almas como as de Cecília, Ágata, Inês, e tantas outras que, sobrepondo-se às leis da carne e da matéria, se lançariam alegres em voos admiráveis de perfeição espiritual.

Intercessão de Santa Ágata

Seu pai faleceu quando ela era ainda muito menina. Sua mãe, Eutícia, embora cristã, não tinha se despojado totalmente das glórias e atrações deste mundo. Assim, desejosa de proporcionar à sua filha um futuro cheio de fama e de honra, a exortava a casar-se com um jovem rico e bem colocado, mas pagão.

A casta Luzia — que mantinha seu voto em segredo — procurava sempre se esquivar desse assunto. Punha toda a sua confiança em Deus e aguardava uma oportunidade providencial para revelar à mãe sua resolução firme e decidida de pertencer somente a Cristo. As fervorosas orações feitas por ela nessa intenção foram prontamente atendidas: logo se apresentou uma boa ocasião.

Apesar das atrozes perseguições aos cristãos, celebrava-se todo ano na própria Sicília a festa de Santa Ágata, a virgem da cidade de Catânia, martirizada por volta do ano 250. Os prodígios por ela operados tornaram-na tão conhecida que acorria gente de todas as partes para implorar sua intercessão. Ora, havia já alguns anos, Eutícia sofria muito de um fluxo de sangue. Por isso Luzia, que tinha grande devoção a essa virgem mártir, sua conterrânea, persuadiu a mãe a ir em peregrinação até seu túmulo para implorar a cura de tal enfermidade.

Quando entraram na igreja, o assombro tomou conta das duas. Transcorria uma solene Celebração e naquele exato momento proclamava-se a Palavra do Santo Evangelho: “Então, uma mulher que havia doze anos padecia um fluxo de sangue, e gastara tudo quanto possuía sem ter sentido melhoras, tendo ouvido falar de Jesus, foi por detrás entre a multidão e tocou o seu manto. Imediatamente parou o fluxo de sangue e sentiu no seu corpo estar curada do mal. Jesus, conhecendo logo em Si mesmo a força que saíra d’Ele, voltado para a multidão, disse: ‘Quem tocou os meus vestidos?’. Os seus discípulos responderam: ‘Tu vês que a multidão Te comprime, e perguntas: Quem Me tocou?’ E Jesus olhava em volta para ver quem tinha feito aquilo. Então a mulher, que sabia o que se tinha passado nela, foi prostrar-se diante d’Ele, e disse-Lhe toda a verdade. Jesus disse-lhe: ‘Filha, a tua fé te salvou; vai em paz e fica curada do teu mal’” (Mc 5, 25-34).

Estupefatas e em extremo comovidas ao ouvirem essa passagem do Evangelho, caíram de joelhos e começaram a rezar. Assim ficaram durante muito tempo. Terminou a cerimônia, todos se retiraram, e elas, dando-se conta de que estavam sós, prostraram-se diante do sepulcro de Santa Ágata para implorar a bondade de Deus, pela intercessão da tão poderosa advogada.

Quis, porém, o Senhor manifestarSe a Luzia por meio de um sonho profético. Cansada pela fadiga da viagem, acabou a jovem caindo num sono profundo. Enquanto dormia, apareceu-lhe Santa Ágata, rodeada de um coro de anjos. Seu vestido era de uma beleza sem par, adornado de safiras e pérolas finas. Seu rosto, alegre e sereno, resplandecia como o sol enquanto ela dizia: “Minha queridíssima irmã e virgem consagrada a Deus, por que pedes pela intercessão de outrem o que tu mesma podes obter para tua mãe? Eis que ela se encontra já curada pela fé que tu tens em Jesus Cristo! Assim como Ele tornou célebre a cidade de Catânia por minha causa, tornará também gloriosa a cidade de Siracusa pela tua mediação, pois soubeste preparar no teu puro coração uma agradável morada para teu Criador”.

Ao ouvir estas palavras, levantou-se Luzia ainda mais convicta de sua consagração a Deus. Contou então à sua mãe a reconfortante visão e acrescentou que, pela graça de Deus, ela estava totalmente curada de sua enfermidade. E a jovem aproveitou a oportunidade para dizer-lhe confiante:

— Agora, minha mãe, uma só coisa te peço: em nome d’Aquele mesmo que te devolveu a saúde, deixa-me conservar minha virgindade, pertencendo somente ao nosso Criador. Repartamos entre os pobres os bens que preparaste para o meu casamento, e teremos grande tesouro no Céu!

Eutícia se deixou convencer e, voltando a Siracusa, ambas distribuíram suas riquezas entre os mais necessitados, segundo as instruções da comunidade cristã à qual pertenciam.

Ora, isto chegou aos ouvidos do jovem pretendente. Cheio de fúria, este foi ter com Eutícia e testemunhou, com seus próprios olhos, mãe e filha dando aos pobres suas jóias e objetos preciosos. Fora de si, correu até Pascásio, então prefeito da cidade, para acusar Luzia de praticar a religião cristã. Assim iniciou-se o processo que levaria esta Santa a brilhar no mais alto dos Céus, junto à nobre multidão dos gloriosos mártires!

Diante do tribunal

Edificante e arrebatador foi o julgamento da corajosa jovem. Refutou todos os argumentos e ameaças de Pascásio, e seu simples olhar impunha respeito. Vendo o juiz a serena segurança da prisioneira, tentou primeiramente persuadi-la com suaves palavras a oferecer sacrifícios aos deuses pagãos. Depois, ante a irredutível fé de Luzia, passou das adulações para a mais terrível ferocidade. Impávida, ela respondeu-lhe sem hesitar:

— Tu te preocupas em seguir as leis dos príncipes desta terra, enquanto eu procuro meditar dia e noite os mandamentos do Senhor. Tu te preocupas em comprazer o imperador, eu tudo faço para agradar a meu Deus, a quem consagrei minha própria virgindade.

— Pois bem — disse Pascásio — eu te farei conduzir a um lugar onde perderás tua castidade, assim o Espírito Santo te abandonará e deixarás de ser seu templo!

— A violência feita ao corpo não arranca a pureza da alma, se minha vontade não consente. Ao contrário, esta violência me proporcionará duas coroas: a da virgindade e a do martírio — respondeu a virgem.

Imediatamente Pascásio deu aos carrascos ordem de amarrar a inocente vítima e arrastá-la até uma casa de infâmia, para ela perder a honra da virgindade antes de ser decapitada.

Ora, o que podem todas as forças humanas contra a omnipotência de Deus? Os olhos do Bom Pastor pousavam sobre sua serva fiel e por isso impediu que os verdugos conseguissem tirá-la do lugar onde se encontrava. Tentavam em vão empurrá-la: Luzia permanecia imóvel, detida por uma mão invisível. Nem mesmo várias juntas de bois, aos quais a amarraram, conseguiram removê-la.

Obstinado no mal, Pascácio mandou levantar em volta da Santa uma enorme fogueira. Ela fitava sem medo o tirânico juiz, dizendo: “Pedirei ao Senhor que este fogo não me atinja, para que os fiéis reconheçam o poder de Deus e os infiéis fiquem ainda mais confundidos”. E efetivamente as chamas também fracassaram: a jovem ficou incólume em meio às labaredas.

Derrotado, Pascásio ordenou finalmente que a cabeça da virgem fosse cortada à espada. Uma celestial alegria transpareceu em seu semblante, ao ver que tinha chegado a hora do supremo encontro com seu Redentor. Entretanto, não morreu naquele instante. Caindo de joelhos, foi acolhida nos braços de alguns cristãos que assistiam ao seu martírio.

Antes de falecer, a virgem mártir prognosticou o fim das perseguições de Diocleciano e Maximiano, e o início de uma era de grande paz para a Santa Igreja. Esta profecia não tardou a tornar-se realidade: apenas dois anos após sua morte, subiu ao trono Constantino o Grande, que promulgou em 313 o Edito de Milão, concedendo liberdade ao culto Cristão, em toda a vastidão do Império.

Estavam, assim, largamente abertas as portas para a Igreja desenvolver-se triunfante, ao longo dos séculos.

* * *

A gloriosa Santa Luzia entregou sua alma a Deus no ano 304 da era do Senhor. Um raio da Graça tinha pousado sobre ela. Na Igreja de Cristo luzia mais uma mártir, no Céu mais uma santa!

Tu vincis inter martyres! — Tu vences, ó Cristo, pelas provas dos mártires!

Sinal de uma Noite Feliz

[jwplayer mediaid=”2175″]Silvana Gabriela Chacaliaza Panez

Deixemos que os inconfundíveis acordes da música natalina por excelência nos transportem misticamente à noite do nascimento do Divino Rei.

Quantas vezes um perfume, uma imagem, um som, um sabor, uma música ou até mesmo uma palavra nos recordam certa época de nossa vida, lembram algum episódio histórico, ou nos fazem reviver momentos especiais. Assim acontece, já no mês de novembro, quando ruas e lojas começam a se preparar para uma das festas mais importantes do ano: o nascimento do Menino Jesus.

São muitos os sinais que evocam, sob aspectos diferentes, o momento no qual os Céus se abriram para permitir a descida do Redentor, vindo ao mundo por amor aos homens.

A árvore de Natal, belamente enfeitada de bolas coloridas e feéricas luzes, lembra-nos, com seus presentes, o maior dom dado por Deus à humanidade: seu próprio Filho! No presépio representa-se a adoração que os Reis do Oriente renderam ao Menino Jesus, levando-Lhe ouro por ser o Rei dos reis, incenso por ser Deus verdadeiro em sua verdadeira humanidade, e mirra por ser o Redentor, que haveria de comprar com seu sofrimento a salvação dos homens.

Não podemos nos esquecer do menu da Ceia, parte importante da celebração natalina. Pensado com antecedência, ele procura simbolizar os manjares celestiais em torno dos quais se reúnem os bem-aventurados no Céu empíreo, a fim de propiciar uma conversa amena e um convívio agradável.

Mas talvez o que mais fale à alma sejam as músicas natalinas, pervadidas de inocência e transbordantes de afeto para com o Deus Menino nascido em Belém. E, entre todas, expressando por excelência o significado do Natal, está o Stille Nacht.
Conta a tradição haver nascido esta famosa canção do coração de dois homens. Um deles foi o padre Joseph Mohr, a quem podemos imaginar no pequeno povoado austríaco de Obendorf, no ano de 1818, preparando seu sermão para a Missa do Galo. Eis que, enquanto ele se encontrava imerso na leitura das Sagradas Escrituras, deitando toda sua atenção sobre elas, tocou à sua porta uma camponesa pedindo-lhe ir abençoar o bebê recém-nascido de um lenhador.

O sacerdote agasalhou-se e acompanhou a boa mulher. Pelo caminho, permanecia absorto, pensando na homilia que haveria de pregar, mas ao chegar à humilde cabana, o cenário com que se deparou marcou-o profundamente. Banhado por débil luz e aquecido por fraca lareira, um leito simples acolhia a jovem mãe com o recém-nascido doce e serenamente adormecido em seus braços, aguardando ser abençoado.

Quanta paz! Quanta inocência! Quanta presença do sobrenatural havia naquela singela cena!

No retorno, um poema fluiu com extrema facilidade de sua pena descrevendo os sentimentos que embalaram sua alma na pobre choupana. Estava escrito o Stille Nacht!

Na manhã seguinte, o padre Mohr se dirigiu à casa de seu grande amigo, Franz Gruber, professor de música do lugar, e mostrou-lhe as linhas que havia escrito. Gruber se encantou com a poesia e, inspirado por sua natalina beleza, logo compôs uma melodia para ela.

A partir daí, aquela que marcaria a História como a canção de Natal arquetípica foi sendo difundida aos poucos pelo mundo. E não foram as belas vozes dos cantores nem o melodioso som dos instrumentos que a consagraram, mas sua virtude para impregnar de candura natalina os ambientes onde ela é entoada.

Saibamos aproveitar este tempo de Natal, pervadido de bênçãos e inocência, para ver, nas fragilidades de um Deus feito Menino, o Senhor e Criador do Universo. Que nossos sentimentos de ternura e compaixão ao contemplar sua infantil pequenez estejam cumulados de reverência e veneração, junto com o ardente desejo de que todos os homens Lhe entreguem suas vidas, sua vontade e todo o seu ser.

Peçamos também a graça de ser inocentes, a fim de podermos entender a fundo o verdadeiro significado do que aconteceu na gruta de Belém. E deixemos que os acordes do Stille Nacht nos transportem misticamente à noite do nascimento do Divino Rei, para podermos rejubilar de alegria com toda a natureza, porque o Invisível se tornou visível, por sua Divina Humanidade, em uma “noite feliz”!

Santificador e guia da Igreja Católica

Elen Coelho

Inquietava-se a Santa Carmelita de Lisieux ao sentir que sua alma aspirava a outras vocações que transpunham os claustros de seu Carmelo. Almejava por todas as vocações: queria morrer em um campo de batalha em defesa da fé como um guerreiro ou um Zuavo Pontifício, ardia em desejo de derramar todo o seu sangue sofrendo os piores tormentos como um mártir dos primeiros tempos do cristianismo, desejava ser sacerdote para poder consagrar e distribuir o Santíssimo Corpo de seu divino Esposo, queria sair por toda a terra para apregoar as glórias de seu Bem-amado como os apóstolos, os profetas e os doutores.

Confessara então, que todos esses seus desejos lhe eram um verdadeiro martírio até que procurando uma resposta aos seus anseios, abriu as Cartas de São Paulo e encontrou um trecho no qual diz o Apostolo que nem todos podem ser tudo ao mesmo tempo: “São todos apóstolos? São todos profetas? São todos doutores? Fazem todos milagres? Têm todos a graça de curar? Falam todos em diversas línguas? Interpretam todos? Aspirai aos dons superiores. E agora, ainda vou indicar-vos o caminho mais excelente de todos”( 1 Cor 12, 29-31).

A resposta lhe pareceu clara, porém não satisfizera seus objetivos. Perseverou na leitura e deparou-se com outro versículo onde explicava o Apóstolo que todas as vocações não são nada sem o amor. Desta forma, compreendera afinal sua vocação e em um transporte de entusiasmo exclamou: “Ó Jesus, meu amor, minha vocação encontrei-a afinal: minha vocação é o amor. Sim, encontrei o meu lugar na Igreja […]. No coração da Igreja, minha Mãe, serei o amor… Assim, serei tudo… O meu sonho se realizará”.1

O que ardentemente procurava Santa Teresinha do Menino Jesus era algo que pudesse unificar e realizar todas as aspirações de sua alma identificando-se em todos os carismas que compõe o Corpo Místico de Cristo.

Contudo, essa busca nos põe diante de outro panorama, se uma alma ante seus díspares anseios pode harmonizá-los ao abrir-se à caridade, muito mais todos os carismas existentes dentro da Santa Igreja encontram sua unificação Naquele que é designado dentro da Trindade como o Amor.

Deus Pai ao se contemplar em sua natureza e divindade, imediatamente gera outra Pessoa Divina: o Filho, que é o Seu Pensamento o Seu Verbo. E o Pai e o Filho ao se contemplaram mutuamente e se verem inteiramente idênticos, “o Pai ama o Filho, e O quer por inteiro e é um amor infinito, é um amor tão forte, tão forte, que encontra um eco no Filho, […] não tem o que pôr nem tirar, a tal ponto que é um amor só. Esse amor o que é? Tão forte que é uma Pessoa.2 É a terceira Pessoa da Santíssima Trindade que, pelo amor, faz com que a união entre os membros da Esposa Mística de Cristo seja parecida com a que se desenrola no convívio Trinitário, sendo Ele a Alma da Igreja.3

Pois, assim como no princípio Deus criou um boneco de barro e inspirou-lhes nas narinas um sopro de vida e o homem se tornou um ser vivente, (Gn 2, 7) também, quis Deus que a Sua nascente Igreja recebesse, no dia de Pentecostes, uma alma que lhe desse plena vida e ação. “Pentecostes constituiu, sem dúvida, o último ato de fundação da Igreja […] Do mesmo modo que Deus modelou o corpo do homem e, logo após lhe insuflou o espírito, Cristo formou o Corpo de sua Igreja com estrutura apostólica e, em seguida, lhe infundiu em Pentecostes o Espírito Santo em pessoa”.4

Por conseguinte, pode-se claramente afirmar: “A alma da Igreja é a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, o Defensor prometido e enviado, que a santifica e enriquece pela ação de Sua graça e Seus dons, impedindo que Ela venha a sucumbir, ou até mesmo enlanguescer sob os reiterados ataques de seus adversários.”5

Toda a diversidade de membros que existe dentro da Santa Igreja encontra sua unificação pela ação do Espírito Santo: os que estão dentro da hierarquia eclesiástica, os religiosos e os leigos. Portanto, dentro da Igreja estão inteiramente consonantes os carismas: os franciscanos com sua específica doçura e humildade, o ardor e a lógica dos Jesuítas e a ousadia e a clareza de um Dominicano, e assim por diante.

Desse modo, o Divino Paráclito atende ao desejo do Salvador: “Para que todos sejam um, assim como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, para que também eles estejam em nós e o mundo creia que tu me enviaste. Dei-lhes a glória que me deste, para que sejam um, como nós somos um” (Jo 17, 21-22).

Também é função do Espírito Santo acompanhar cada fiel conferindo-lhe graças para sua perseverança e todos os auxílios para alcançar a glória eterna. Esse auxílio foi prometido por Nosso Senhor e o vemos registrado nas Sagradas Páginas do Evangelho e nas Epístolas Paulinas: “É anunciado como o Advogado que ajudará aos discípulos (Jo 14,16) habitando em seu interior como em um templo (I Cor 3,16) e unindo-os em um mesmo corpo (ICor 12,13). Ele os ensinará o anunciado por Jesus (Jo 14,26), os guiando- a verdade completa (Jo 15,13). Ele será seu defensor ante os tribunais (Mt 10,20), quem os fortalecerá no testemunho (I Cor 12,3). […] Ele fará dos cristãos moradas de Deus (Ef 2,21). E o auxílio dos cristãos em suas fraquezas (Rm 8,26) e é quem suscita no interior dos corações essa exclamação: ‘Abbá, oh Pai!’”6

Tudo o que existe na Barca de Pedro é movido e governado pelo Paráclito. Ele acompanha a cada passo. A esse respeito, teceu um belo comentário o prof. Plinio Correa de Oliveira: “Ao ver as coisas da Igreja, sentia eu uma impressão curiosa. Mais do que uma instituição, Ela me parecia uma alma imensa que se expressa através de mil aspectos, que possui movimentos, grandezas, santidades e perfeições, como se fosse uma só grande alma que se exprimiu através de todas os templos católicos do mundo, todas as liturgias, todas as imagens, todos os sons de órgão e de todos os dobrares de sinos. Essa “alma” chorou com os Réquiens, se alegrou com os bimbalhares da Páscoa e das noites de Natal; ela chora e se alegra comigo.[…] Depois vim a saber que “aquilo” que eu percebera era o Espírito Santo, a alma da Igreja”.7

Desta forma, concluímos que, mediante a assistência do Espírito Santo, a Santa Igreja Católica Apostólica e Romana pode levar a cabo com toda a perfeição sua missão santificadora, o Evangelho pode ser pregado por todos os povos, os papas podem, com toda segurança, transmitir seus ensinamentos. Surgem, então, novos carismas para fazer resplandecer mais uma faceta da Esposa de Cristo e o incessante florescimento de novas almas santas tornando-A assim “toda gloriosa, sem mácula, sem ruga, sem qualquer outro defeito semelhante, mas santa e irrepreensível.” (Ef 5, 27)

1SANTA TERESINHA DO MENINO JESUS. História de uma alma. 24. ed. São Paulo: Paulus, 2005, p. 214.
2 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Curso de Formação: Palestra. São Paulo, 17 set. 2002. (Arquivo IFTE).As matérias extraídas de exposições verbais — designadas neste trabalho, segundo sua índole, como “conferências”, “palestras”, “conversas” ou “homilias” — foram adaptadas para a linguagem escrita.
3ROYO MARIN, Antonio. El gran desconocido. Madrid: BAC, 2010.
4SAYES, José Antônio. La Iglesia de Cristo: Curso de Eclesiologia. 2. ed. Madrid: Palabra,2003 .p. 14 1-142.
5MORAZZANI ARRÁIZ, Clara Isabel. E renovareis a face da terrra… In: Arautos do Evangelho. São Paulo,n.77, maio. 2008. p.23.
6 CASERO LASANTA, Pedro Jesús, El Espírito Santo Alma de la Iglesia; Jubileu año 2000 . Salamanca: San Esteban, 2000.p.72-73. (Tradução da autora)
7CORREA DE OLIVEIRA, Plinio. Espírito Santo, alma da Igreja. In: Dr. Plinio. São Paulo: n.74, maio. 2004. p.4.

Redescubra a beleza da fé no novo livro de Mons João Clá Dias: O inédito sobre os Evangelhos

Considerando as leituras da Liturgia da Palavra na Santa Missa um incomparável meio de formação exegética, doutrinária e moral, Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias, EP, Presidente da Associação Arautos do Evangelho, oferece uma visualização nova, inédita nestes comentários litúrgicos.

A coleção “L’inedito sui Vangeli” é uma publicação conjunta internacional em quatro línguas da Librería Editrice Vaticana e os Arautos do Evangelho. O livro será lançado no próximo dia 28 de novembro, em Roma. Durante o ato será apresentado o Volume V da coleção -que comenta os Evangelhos dos domigos do Advento, Natal, Quaresma e Páscoa, e das Solenidades do Senhor no Tempo Ordinário do Ano C, e o volume VI, que comenta os Evangelhos dos Domingos do Tempo Ordinário do Ano C.

“Encontramos caracterizada com frequência nestas páginas a solução aos problemas espirituais do homem do século XXI”, afirma o Cardeal Rodé na apresentação que faz do livro.

http://es.gaudiumpress.org/content/42013-Libro-del-Presidente-de-los-Heraldos-del-Evangelio-sera-lanzado-en-Roma

Um guerreiro bem armado

Esther Pinales

O século XVI foi, sem dúvida, um dos mais agitados na história eclesial. A Europa, desde a revolta de Martinho Lutero e o surgimento dos sofismas e heresias de Zwinglio, Calvino, Henrique VIII e outros, viveu horas trágicas com agitações profundas, extensas e violentas no campo religioso e até mesmo no social.

A luminosidade, os encantos e a beleza do pensamento do homem medieval quebraram-se, abrindo passo à renascença, “a qual caminhava orgulhosa dos inegáveis talentos dos homens suscitados na ocasião em que ela se desenvolveu. Laica, voltada para os prazeres da Terra, tisnada de neo-paganismo” (PCO, 05/08/78).

Lamentável era a situação do Clero e das ordens religiosas, algumas em franca decadência. No ar, sentia-se a grande corrupção de costumes e a liberdade das más tendências; cristãos vivendo como pagãos e negando praticamente o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo: rebeliões, sacrilégios e escândalos cobriram todo o continente europeu.

No entanto, Deus na Sua Providência misericordiosa, jamais abandonou nem abandonará a sua Igreja. É o que em diversas ocasiões nos ensina Monsenhor João Clá Dias. Fato surpreendente e admirável! Sempre nas horas mais calamitosas e de maior corrupção e misérias morais e heresias, surgem extraordinários santos e heróis.

No século da revolta protestante (XVI), Deus suscitou um Inácio de Loyola, uma Santa Teresa de Ávila, São Caetano Thiene, São Jerônimo Emiliano, São Felipe Neri, Santo Antonio Zacarias, São Luis Gonzaga, e uma série de bem-aventurados. Nesta formosa constelação, como resposta do céu à heresia que negava a santidade da igreja, brilha também a figura singular de Roberto Belarmino.

Este santo foi um dos mais valentes defensores da Igreja Católica, Apostólica e Romana contra os ataques dos protestantes. Seus livros são tão sábios e cheios de argumentos convincentes que um dos mais famosos chefes protestantes exclamou ao ler um deles: “Com escritores como este, nós estamos perdidos, não há como responder-lhe”.

São Roberto nasceu em Itália, na cidade de Montelpuciano, Toscana, no ano 1542. A sua mãe era irmã do Papa Marcelo II. Conta-se que já em terna idade o menino Roberto dava mostras de possuir uma inteligência superior à dos seus companheiros e uma memória prodigiosa. Ele recitava de cor muitas páginas em latim do poeta Virgílio, como se as estivesse lendo.

Em resposta à sua entrega a Deus, lê-se em suas memórias: “Num instante, quando mais desejoso eu estava de conseguir cargos honoríficos, de repente me veio à mente a rapidez com que passam os bens da terra e a conta que todos nós vamos ter que dar a Deus, e me produziu o ideal de entrar na vida religiosa”. Roberto foi recebido na Ordem dos Jesuítas em Roma no ano 1560; ele entrava na companhia para escapar de cargos honoríficos tais como ser bispo ou cardeal, pois as regras dos jesuítas na época proibiam ambas as posições. Mas os planos da divina providência eram outros. Roberto negava-se aceitar tão alto cargo dizendo que os regulamentos da companhia de Jesus proibiam aceitar a títulos elevados da Igreja. O Papa respondeu-lhe que ele tinha o poder para dispensá-lo, e por fim lhe mandou, sob pena de pecado mortal, aceitar o cardinalato.

Os protestantes (evangélicos, luteranos, anglicanos, entre outros) tinham publicado uma série de livros contra a Fé Católica, e estes não encontravam como se defender. Então, o Sumo Pontífice solicitou ao santo preparar os sacerdotes para enfrentar os inimigos da Religião e a dirigir os jovens seminaristas, entre eles São Luis Gonzaga.

Ele fundou um curso que se chamava “Las Controversias”, para ensinar seus alunos discutir com os adversários e escreveu o CATECISMO RESUMIDO, o qual foi traduzido em 55 línguas e 300 edições.

Morreu no dia 17 de Setembro de 1621, e o Sumo Pontífice Pio XI o declarou Santo em 1930, e Doutor da Igreja em 1931.

Peçamos a São Roberto Belarmino um ardente desejo de conhecer, amar e defender a Doutrina Cristã.

Evitar as doenças litúrgicas

Aline Karolina de Souza Lima

Um sacerdote anônimo de Zaragoza obteve por meio de sua experiência nos púlpitos de diversas comunidades cristãs, a compreensão de doenças graves que apenas se davam durante as celebrações. Tal ocorrência desejava ele combater, no entanto, essas enfermidades se tornavam tão mais expansivas quanto maior o número de fiéis. São elas:

Afasia litúrgica: É um súbito bloqueio dos órgãos vocais que ocorre nas pessoas ao entrarem pela porta da igreja. Nota-se durante os cânticos, nas respostas ao fim das orações e, inclusive, na hora de dizer “amém” ao receber a comunhão.

Vanguardofobia: Basta penetrar no santuário e não tarda em aparecer: pernas tremem e um medo implacável impede o indivíduo de pôr-se nos primeiros bancos da igreja. Sentem-se, talvez, aludidos com os apertos de Jesus no Evangelho aos fariseus, acusados de ocupar os primeiros lugares. É um mal muito útil para casos de incêndio.

Dupla corrente auricular: É a enfermidade mais grave. Deve-se a ampla abertura nos condutores auriculares permitindo que o som entre por um ouvido e saia, imediatamente, pelo outro, sem passar pelo cérebro, nem pelo coração. Os sintomas se intensificam em casos de avisos finais ou recomendações.

Síndrome Homilética: Trata-se de um estado de semi-transe. O paciente tende a perder o contato com a realidade e, em pouco tempo, entra numa total inconsciência. Apenas se manifesta quando o sacerdote começa a homilia. Desaparece quando os demais se põem em pé para cantar o Credo.

Precisamos nos precaver para que esses males não se abatam sobre nós. Pois, devemos tirar da Missa todo o proveito, visto que o Santo Sacrifício é a obra mais santa e agradável a Deus, é o que faz aplacar a cólera do Altíssimo, abater as forças do inferno, além de obter graças mais abundantes para os homens.

“O ponto verdadeiramente vital da luta da Revolução e da Contra-Revolução está em que sejam celebradas muitas Missas. Bem como d’Ela participem, também convenientemente os fiéis, quer acompanhando o rito da Missa, quer comungando […]. Se acabassem as Missas, a Revolução acabaria por tomar conta do mundo num instante”. (Plinio Corrêa de Oliveira 22/08/88)

‘A Missa é o elemento essencial para a luta. É a melhor arma, é a melhor muralha. E a melhor forma de estarmos ligados ao Céu”. (Mons. João 10/05/10)

Portanto, cabe a todos fazer jus às graças que nos são obtidas todos os dias através das Missas. Assim como a Terra precisa do Sol, também os homens necessitam das Missas, pois, caso contrário, seriam privados de todos os bens e sobrecarregados de todos os males.

O taumaturgo de Montreal

Irmã Elizabeth Veronica MacDonald, EP

Uma notícia alvissareira logo correu por toda a vila: “O Irmão André está no bairro, visitando uma mulher enferma!”.

Parando para apertar com firmeza a mão de um rapaz, disse-lhe: “Não te preocupes, as coisas vão se endireitar”. Mais adiante, fitou um ancião e perguntou-lhe: “Tens fé de que São José pode te curar?”. E com voz transbordante de afeto acrescentou: “Coragem! Tem confiança em São José!”.

Por fim, antes de partir, deu a todos uma última recomendação: “Continuem a rezar!”.
Já no carro, o motorista comentou:

— Parece uma cena da vida de Jesus: o povo correndo diante do senhor e implorando favores e curas!

— Talvez… mas aqui Deus certamente está usando um instrumento bastante miserável — respondeu o santo com simplicidade.

“Estou lhes enviando um santo”

Alfredo — era este seu nome de Batismo — nasceu numa família pobre e numerosa, em 9 de agosto de 1845, na aldeia de Saint-Grégoire d’Iberville, próxima de Montreal. De saúde débil, a dor o acompanhou desde pequeno.
Segundo alguns biógrafos, sua assinalada devoção a São José talvez tenha origem no fato de seu pai ser carpinteiro. Mas, em qualquer caso, a vida de Alfredo vai estar marcada, já desde a infância, por um relacionamento todo especial entre o Patriarca da Igreja e aquele piedoso menino, que haveria de construir a maior igreja do mundo dedicada a ele.

Antes, porém, teve de percorrer um longo e sinuoso caminho. Tentou exercer várias profissões, sem êxito, devido à sua fraca saúde. Aos vinte anos, partiu para os Estados Unidos, buscando trabalho nas fábricas têxteis de Connecticut, mas voltou algum tempo depois, quando ficou evidente que não tinha forças para esses serviços.

Foi o pároco da sua aldeia natal quem, percebendo a virtude, retidão e constância desse jovem, identificou nele uma autêntica vocação religiosa e o encaminhou ao colégio que a Congregação da Santa Cruz — fundada, havia pouco, na França pelo Beato Basile Moreau — já possuía em Montreal. “Estou lhes enviando um santo”, declarou o pároco, na carta em que recomendava aquele candidato simples e analfabeto.

O melhor “cartão de visitas” da Congregação

Alfredo não defraudou aquelas expectativas. Logo aprendeu a ler e, com seu comportamento exemplar, ajudou a elevar o padrão do noviciado. A meditação sobre os sofrimentos de Cristo sempre fora uma das colunas da sua espiritualidade. “Se nos lembrássemos que o pecado crucifica novamente Nosso Senhor, nossas orações seriam mais adequadas” 1, afirmava. Entretanto, procurava manter sem cessar seus companheiros animados, repetindo-lhes: “Tentem não ficar tristes! Faz bem sorrir um pouco…”.

Ao se aproximar o fim do noviciado, Alfredo Bessette receava ser-lhe negada a autorização para proferir os votos religiosos, por causa de sua saúde débil. Mas após pedir a intercessão do Bispo, Dom Ignace Bourget, acabou por fazê-los em 22 de agosto de 1872, trocando o nome de Batismo pelo de Irmão André.

O superior o incumbiu da portaria do colégio e ele ali desempenhou com toda perfeição sua tarefa: mantinha o ambiente em ordem exímia, servia de carteiro e executava vários outros serviços. Falando inglês e francês, revelou especial talento para receber as pessoas e fazê-las sentir-se à vontade. Acabou por tornar-se o melhor “cartão de visitas” da Congregação.

No fim da vida, costumava dizer espirituosamente: “Quando ingressei nesta comunidade, os superiores me mostraram a porta e lá fiquei durante quarenta anos”. 2

Curas numerosas e bem documentadas

Cerca de cinco anos após sua entrada em religião, começou a manifestar-se nele o dom da cura. Certo dia, aproximou-se do leito no qual jazia um estudante com febre alta e mandou-o ir brincar, afirmando estar ele em perfeita saúde. Para espanto do médico de plantão, o menino saiu sadio da cama.

Noutra ocasião, chegou à portaria o pai de um aluno, com fisionomia preocupada, e o bom irmão lhe perguntou qual era seu problema. O pobre homem explicou que sua esposa ficara paralítica. “Talvez ela não esteja tão doente como parece”, disse-lhe o santo. Naquele momento, do outro lado da cidade, a mulher levantou-se e começou a caminhar regularmente.

Irmão André aproveitava essas curas, sempre realizadas de forma discreta, com aparência de normalidade, para fazer um apostolado contínuo: recomendava a oração perseverante, sugeria novenas, “receitava” a aplicação do óleo de uma lamparina que ardia ante a imagem de São José, ou aconselhava a levar consigo uma medalhinha deste, pois, dizia, “tudo isso são atos de amor e fé, de confiança e humildade”.

Fazia também questão de esclarecer a verdadeira causa das curas a ele atribuídas, afirmando ser o bom Deus quem faz os milagres e São José quem os obtém. “Eu sou apenas o cachorrinho de São José”, dizia com humildade. 3

Certo dia, enquanto lavava o corredor central do colégio, apresentou-se diante dele, apoiada em duas pessoas, uma mulher atacada de reumatismo, incapaz de caminhar sozinha. Irmão André, olhando-a com perplexidade, disse-lhe:

— Creio que a senhora poderia andar por conta própria. Por que não experimenta ir sozinha até à capela?

Ela assim o fez, e regressou para casa andando sem dificuldade e chorando de gratidão.

Quando a afluência de doentes começou a perturbar a rotina do colégio, Irmão André transferiu suas atividades apostólicas para uma estação de ônibus, situada nas proximidades. Ao saber disso, o Arcebispo perguntou aos superiores que faria ele se o obrigassem a parar de fazer milagres. Ao saber que ele obedeceria cegamente, replicou: “Então, deixem-no. Se esta obra é de Deus, florescerá; se não, vai desmoronar”. 4

As curas de almas e corpos continuaram às torrentes. Mais de quatro mil páginas documentando-as foram recolhidas durante o processo de beatificação.

Um dos casos mais impressionantes é o de um jovem, vítima de terrível acidente industrial. Com o rosto queimado, em risco de ficar cego, correu à procura do Irmão André, mas este estava atendendo um infeliz canceroso, e havia muitos outros à espera. Sem sequer tê-lo visto chegar, o religioso apareceu e perguntou-lhe:

— Quem disse que perderás as vistas? Tens confiança na intercessão de São José?

Diante da resposta afirmativa, recomendou-lhe:

— Vai para a igreja, assiste à Missa e comunga em honra de São José. Continua com os teus remédios, mas adiciona a eles uma gota do óleo da lamparina do glorioso Patriarca, rezando esta jaculatória: “São José, rogai por nós!”. Tem confiança, tudo correrá bem!

O acidentado fez com exatidão o que lhe foi recomendado e, no dia seguinte, o tecido cauterizado de seu rosto caiu como “folhas de papel celofane”. Inteiramente restabelecido, voltou em sinal de reconhecimento.

— Agradece a São José e não cesses de rezar! — limitou-se a dizer o santo taumaturgo.

A dona de uma lanchonete próxima, que alguns dias antes havia visto o moço com o rosto desfigurado, não podia acreditar se tratar agora do mesmo homem. E começou a apregoar para todos o impressionante milagre de que era testemunha.

Uma igreja para São José

Um santo anseio abrasava, porém, a alma do humilde porteiro. Ansiava ele construir próximo ao colégio, no Mont-Royal, uma igreja em honra de seu protetor. Mas o objetivo era muito ousado…

Certo dia, um religioso da sua comunidade contou-lhe que a imagem de São José da sua cela parecia girar sozinha, em direção a esse monte. Exultante, Irmão André reconheceu nesse fato o esperado sinal da Providência para dar início à realização de seu anelo, e juncou de medalhinhas o lugar almejado.

Em 1896, a Congregação da Santa Cruz adquiriu aquele terreno, com a finalidade de evitar uma má vizinhança para o colégio. Irmão André obteve autorização para colocar uma imagem de São José na gruta ali existente e as peregrinações não tardaram a começar. Milhares e milhares de pessoas a visitavam.

Após economizar duzentos dólares, a partir dos cortes de cabelo dos alunos do colégio, a cinco centavos cada um, foi possível levantar uma pequena capela. Começou-se também a obter esmolas no “pratinho de ofertas” posto aos pés do Santo, e até nos Estados Unidos eram obtidas doações.

Em 1904, foi erigido um pequeno Oratório de São José, constituído de uma capela um pouco maior e um escritório, no qual passou a residir o Irmão André. Treze anos depois, o edifício foi ampliado, de modo a comportar mil pessoas sentadas, mas este também logo se tornou pequeno para a grande afluência de fiéis.

A construção da basílica atual — a maior igreja do Canadá — começou em 1924. Oito anos depois foi preciso detê-la por falta de meios, em consequência da grande crise econômica pela qual atravessava o país. Sem se afligir, Irmão André colocou uma imagem de São José no interior do prédio inacabado, dizendo:

— Se ele deseja um teto sobre sua cabeça, o teto virá. Dois meses depois, reiniciavam-se as obras…

Cabe notar que, embora considerasse um dever levar adiante essa construção, Irmão André dedicava-lhe apenas o tempo permitido pela obediência, sem deixar de cumprir suas funções.

Ministério de amorosa oblação

O dia a dia daquele humilde porteiro estava todo tomado por um ministério de amorosa oblação. Começava a jornada acolitando duas Missas, e às oito horas da manhã abria a porta aos visitantes. No pequeno escritório, que também lhe servia de cela, recebia cotidianamente entre 200 e 400 pessoas, podendo chegar a 700.

Os que iam ao encontro do Irmão André procurando sensacionalismo saíam decepcionados. Seus conselhos eram simples e sensatos, visando a cura das almas mais que o alívio dos males corporais. Algumas vezes limitava-se a ajudar as pessoas a aceitarem a vontade divina. “Deus terá uma eternidade para te consolar de teus sofrimentos aqui”, 5 lhes dizia.

Encorajava também a Confissão frequente e a Comunhão diária, garantindo que Jesus nada recusa a quem O hospeda em seu coração. E comentava: “Coisa curiosa: recebo numerosos pedidos de cura, mas raramente alguém pede a virtude da humildade ou o espírito de fé”. 6

Para com as pessoas afastadas da prática religiosa por fraqueza ou ignorância, demonstrava ilimitada compaixão. Contava-lhes de modo comovedor a parábola do Filho Pródigo e concluía: “Comme le bon Dieu est bon — Como o bom Deus é bom!”. Mas cortava pela raiz as atitudes de revolta e má fé: “Será que Deus te deve alguma coisa? Se pensas assim, podes fazer teus próprios arranjos com Ele”. 7

O preço com o qual ele comprava o alívio e a conversão dessas almas era bem alto. No fim da jornada, mesmo consumido pela indisposição e cansaço, ainda fazia uma vagarosa Via Sacra na capela e, em seguida, ajoelhado durante horas rezava com os braços estendidos em forma de cruz. Sua cama ficava muitas vezes intacta durante a noite toda. E quando um irmão de hábito lhe implorou que dormisse, oferecendo seu sono como uma oração, ele respondeu gravemente: “Se soubesses o estado daqueles que pedem minhas orações, não me darias tal sugestão”.8

Primeiros frutos póstumos

Os fiéis amavam aquele bom ancião de cabelos brancos e pediam-lhe para que não os deixasse. Mas, completados os 92 anos, a morte se aproximava e ele os consolava amavelmente, afirmando que se alguém pode fazer o bem na Terra, mais ainda poderá fazê-lo do Céu.

No dia 6 de janeiro de 1937, a triste notícia era dada com destaque pelos mais importantes jornais de Montreal: “Morreu Irmão André”. Enfrentando a neve e o gelo, uma verdadeira multidão começou a se deslocar em direção a Mont-Royal para despedir-se de seu taumaturgo. Chegavam de avião, de trem, de todos os meios de transporte. O Oratório de São José transbordava de uma multidão tomada de devoção e piedade, enquanto penitentes enchiam os confessionários. Calcula-se que um milhão foram as pessoas que subiram o serpenteante caminho do santuário, para se despedir daquele cuja única ambição fora servir a Deus na completa despretensão da vida religiosa.

Eram os primeiros frutos póstumos desse simples irmão leigo que tornou-se o primeiro santo de sua Congregação, bem como o primeiro varão nascido no Canadá a ser elevado às honras dos altares.

Irmão André não chegou a ver finalizado o grande Santuário, que foi concluído apenas em fins da década de 60, como também não viu a realização de mais um de seus desejos: colocar uma grande Via Sacra nos aforas da igreja, para fomentar a devoção à Paixão do Redentor.

Mas é impossível não sentir sua presença em cada uma das dependências desse impressionante templo, que atrai anualmente três milhões de peregrinos, dando testemunho do poder de intercessão do Patrono da Igreja Universal. Logo ao chegar, uma grande imagem de São José, esculpida em pedra, recebe os visitantes na escadaria central. Em sua base, uma inscrição de três palavras dá as boas-vindas, evocando a sabedoria simples e piedosa daquele irmãozinho que jaz na cripta: “Ite ad Joseph — Ide a José”.

1FERGUSON, John. The Place of Suffering. London: James Clarke and Co., 1972, p.115.
2BALL, Ann. Faces of Holiness. Huntington (IN): Our Sunday Visitor, 2001, p.54.
3KYDD, Ronald. Healing Through the Centuries. Peabody (MA): Hendrickson, 1998, p.85.
4BALL, op. cit., p.57.
5TREECE, Patricia. Nothing Short of a Miracle. New York: Doubleday, 1988, p.74.
6O’MALLEY, Vincent. Saints of North America. Huntington (IN): Our Sunday Visitor, 2004, p.26.
7KNOWLES, Leo. Modern Heroes of the Church. Huntington (IN): Our Sunday Visitor, 2003, p.82.
8TREECE, op. cit., p.75.

Mediação universal de Maria

Cássia Thaís Costa Dias de Arruda

Um dos modos de medirmos a grandeza de um soberano é considerarmos os seus títulos. Por exemplo, Luís II de Bourbon, o Grand Condé, contemporâneo de Luís XIV, foi uma das grandes glórias do reino francês, sendo possuidor dos seguintes títulos: “príncipe de Condé, primeiro príncipe de sangue real, primeiro par de França, duque d’Enghien, de Bourbonnais, de Châteauroux, de Montmorency, cavaleiro das Ordens do Rei, governador da Borgonha e de Bresse”.1 Podemos, através destas qualificações, constatar como o Grande Condé não era uma pessoa insignificante no reino da França.

Se assim é com um nobre, muito mais ainda o será com a Mãe de Deus. Aureolada de incontáveis títulos que tentam expressar as qualidades de sua alma, de Maria Santíssima “nunquam satis”2; d’Ela nunca será dito o suficiente, nem se esgotarão os louvores que lhe são devidos.
Dentre as diversas invocações atribuídas à Santíssima Virgem, trataremos neste artigo, de maneira especial, daquela que é de fundamental importância para a nossa salvação: Medianeira Universal de todas as graças.

Maria Santíssima: “Medianeira não necessária, mas desejada pela Providência”3

Ensina-nos o Doutor Angélico que o ofício de mediador entre Deus e os homens consiste em uni-los.4Desta forma, este ofício só pode atribuir-se de modo perfeito e absoluto a Nosso Senhor Jesus Cristo, “o único que nos pôde reconciliar com o Padre Eterno oferecendo-lhe, por toda a humanidade, um sacrifício de valor infinito, o da Cruz. […] Ele é mediador como homem, na qualidade de sua humanidade pessoalmente unida ao Verbo, e tendo ela recebido a plenitude da graça, a graça capital, que deve derramar-se sobre nós”.5

Apesar disso, abaixo de Deus existem os chamados “mediadores secundários” (secundum quid), que dispõem os homens a receberem as influências que dimanam do mediador supremo ― Cristo ― ou, por vezes, são eles mesmos que as distribuem, em função dos méritos do Redentor. Deste modo, agiram os profetas e os sacerdotes levitas do Antigo Testamento, bem como os sacerdotes de todos os séculos, na qualidade de ministros do mediador principal.6

Entretanto, no que diz respeito à mediação de Nossa Senhora, “ela não o é precisamente na qualidade de ministro, mas como associada à obra redentora de seu Filho”.7Tendo sido por ela que Deus enviou seu Filho ao mundo para redimir o gênero humano, é também por meio da Mãe de Cristo que Deus continua a distribuir o seu perdão e a sua misericórdia. “De tal maneira ela cooperou com toda a obra da redenção, e de tal forma que, depois do pecado original, nenhuma graça nos vem sem seu influxo”.8

Já desde os primeiros séculos do cristianismo, a Tradição Apostólica reconhece Maria Santíssima como medianeira entre Deus e os homens. Se, por exemplo, nos detivermos para analisar os ícones mais antigos existentes na Igreja, constataremos que eles, em sua grande maioria, apresentam a Santíssima Virgem com o seu Divino Filho nos braços. Tais imagens simbolizam que Maria, sendo Mãe de Deus, tornou-se Senhora de toda a criação, e “enquanto Mãe de Deus, sua súplica é governativa por vontade de Deus”.9

A mediação de Maria é, portanto, uma mediação subordinada à do Salvador. Não é de caráter estritamente necessário ― uma vez que a de Nosso Senhor Jesus Cristo é absoluta e não precisa de complemento ― mas “desejada pela providência, como o mais excelente fulgor da mediação de Cristo”.10

Desta forma, é absolutamente lícito e de acordo com a doutrina da Igreja afirmar que, por vontade de Deus, nenhuma graça trazida por Cristo com a sua Redenção ― nihil prorsus ― é comunicada aos homens sem o intermédio de Maria.11A este respeito, nos assegura São Bernardino de Sena que “todas as graças que são concedidas ao mundo percorrem este caminho: de Deus descem para Cristo, de Cristo descem para a Virgem e, finalmente, pela Virgem, em uma ordem admirável, são distribuídas entre nós”.12

Sendo Cristo cabeça da Igreja, a piedade cristã costuma figurar Maria como sendo o pescoço, pois “todos os dons, todas as graças, todos os influxos celestiais procedem de Cristo, como da cabeça, e passam por Maria, como pelo pescoço, ao corpo da Igreja”.13Assim como o corpo não pode receber nenhum comando da cabeça, sem que este antes passe pelo pescoço, de igual modo, nenhuma graça é recebida de Cristo sem o auxílio de Maria.

Reconhecida de tal modo pela piedade cristã, a ordem das coisas faz com que também seja por meio de Nossa Senhora que as súplicas da humanidade subam até o trono do Altíssimo, pois “o termo ‘mediação’, ou ‘medianeira’, além de convir à distribuição de todas as graças […], convém também, e sobretudo, à obtenção de todas as graças”.14

1ROBERT, Henri. Os grandes processos da História. Trad. Juvenal Jacinto. Porto Alegre: Globo, 1939. Vol. IV. p. 37.
2CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. A entrega do Brasil ao Imaculado Coração de Maria. In: Revista Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei, n. 42, set. 2001. p. 7.
3CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Pequeno Ofício da Imaculada Conceição Comentado. São Paulo: Ipsis, 2010. Vol. II. p. 126.
4SÃO TOMÁS DE AQUINO. S. Th. III. q. 26, a.1.
5CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Pequeno Ofício da Imaculada Conceição Comentado. Op. cit. Vol. I. p. 126.
6ENRIQUE MERKELBACH, Benito. Mariologia: Tratado de la Santisima Virgen Maria Madre de Dios y Mediadora entre Dios y los hombres. Madrid: Bilbao, 1954. p. 414-415.
7CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Pequeno Ofício da Imaculada Conceição Comentado. Op. cit. Vol. I. p. 127.
8“de tal manera cooperó a toda la obra de la redención, y en tal forma que, después del pecado original, ninguna gracia nos viene sin su influjo” (ENRIQUE MERKELBACH, Benito. Op. cit. p. 421. Tradução da autora).
9CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Com o cetro de Deus nas mãos. In: Revista Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei, n. 152, Nov. 2010. p. 36.
10CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Pequeno Ofício da Imaculada Conceição Comentado. Op. cit. Vol. II. p. 128.
11ROSCHINI, Gabriel. Op. cit. p. 101.
12SÃO BERNADINO DE SENA apud ROSCHINI, Gabriel. Op. cit. p. 101.
13“Todos los dones, todas las gracias, los influjos celestiales todos, proceden de Cristo, como de cabeza, y pasan por María, como por el cuello, al cuerpo de la Iglesia” (SÃO ROBERTO BELARMINO. In: LÓPEZ MELÚS, Rafael María. Nuevas alabanzas a María. Sevilla: Apostolado Mariano, 2000. p. 155. Tradução da autora).
14ROSCHINI, Gabriel. Op. cit. p. 83.

A Encarnação: uma necessidade?

CAROLINE FUGIYAMA NUNES

Como nos ensina a teologia, tudo o que Deus faz é perfeito. Mas, para entendermos com profundidade o seu agir durante a História, nos é necessário, sobretudo, por sermos criaturas racionais, alguns pressupostos que tornam mais fácil perceber a sabedoria e poder de Deus no decorrer dela. Por isso, para compreendermos acerca do mistério da Encarnação, apresentamos algumas razões dadas sabiamente pela Doutrina Católica, para assim amarmos esta importante e magnífica obra de Deus entre os homens.

Deus, por seu supremo poder, poderia perdoar o pecado do homem por um simples desejo seu, sem exigir nenhuma reparação, pois é o ofendido e não tem sobre si nenhum superior a quem deva dar conta de seus atos. Sendo o supremo Juiz, pode fazê-lo com misericórdia sem contradizer a justiça, pois aquela seria o complemento e plenitude desta. É o que ensina o Doutor Angélico:

Se tivesse querido libertar o homem do pecado sem satisfação, não teria procedido em contra da justiça. Não pode perdoar a culpa ou a pena, respeitando a justiça, aquele juiz que está obrigado a castigar a culpa cometida contra outro, seja contra outro nome, seja contra a comunidade inteira ou contra um governante superior. Mas Deus não possui superior algum, senão que Ele mesmo é o bem supremo e comum de todo o universo. E por isso, se perdoa um pecado que tem razão de culpa porque se comete contra Ele, a ninguém faz injúria, como o homem que perdoa uma ofensa contra ele, sem que seja feita a satisfação, obra misericordiosamente, e não injustamente. E, por este motivo, Davi, quando pedia misericórdia, dizia no Sal 50, 6: Somente contra ti pequei, como se dissesse: Podes perdoar-me sem injustiça”.1

Portanto, quando Deus atua com misericórdia, não contradiz sua justiça, senão que faz algo que está por cima da justiça, por isso se diz: “A misericórdia triunfa sobre o juízo” (Tg 2, 13). Analisada sob este ponto, conclui-se que não haveria nenhuma necessidade da encarnação, uma vez que pode ser reparada por um simples ato de misericórdia. Ela foi realizada pela suprema vontade de Deus.

Conveniência da Encarnação

Ora, quando nossos primeiros pais pecaram, abriu-se entre os homens e Deus um abismo infinito, sendo impossível, por parte do homem, uma reparação de justiça estrita. Poderia Deus exigir do homem uma reparação de justiça imperfeita, ou seja, mostrando-lhe o que devia oferecer-lhe em reparação. Tampouco, nada disso satisfaria e estaria a altura da dívida. Deste modo, para salvar, em sentido de justiça estrita, esta distância infinita entre nós e Deus e pagar completamente a dívida, foi conveniente que o Homem-Deus se encarnasse.2 A encarnação do Verbo, portanto, considerada em si mesma, foi convenientíssima. Entretanto, há também outras duas razões principais, segundo Royo Marín: pela natureza mesma de Deus, pois sendo o Sumo Bem Lhe convém comunicar-se em sumo grau. Isso só poderia realizar encarnando-se e assumindo uma natureza humana.3 A segunda razão é para que Deus, realizando a encarnação, manifestasse seus atributos divinos:

a) A INFINITA BONDADE DE DEUS, que não desprezou a debilidade de nossa pobre natureza.

b) SUA INFINITA MISERICÓRDIA, já que pôde remediar nossa miséria sem necessidade de tomá-la sobre si.

c) SUA INFINITA JUSTIÇA, que exigiu até a última gota de sangue de Cristo para o resgate da humanidade pecadora.

d) SUA INFINITA SABEDORIA, que soube encontrar uma solução admirável ao difícil problema de concordar a misericórdia com a justiça.

e) SEU INFINITO PODER, já que é impossível realizar uma obra maior que a encarnação do Verbo, que juntou em uma só pessoa o finito com o infinito, que distanciam entre si infinitamente.

Querendo Deus manifestar seus divinos atributos, quer tornar-nos manifesto todo o seu amor por nós e toda sua benquerença de maneira ilimitada.4

“O Verbo se fez carne para que, assim, conhecêssemos o amor de Deus: “Nisto manifestou-se o amor de Deus por nós: Deus enviou seu Filho Único ao mundo para que vivamos por Ele” (1 Jo 4, 9). “Pois Deus amou tanto ao mundo, que deu seu Filho Único, a fim de que todo o que crer nele não pereça, mas tenha a Vida Eterna” (Jo 3, 16). O Verbo se fez carne para ser nosso modelo de santidade ﴾CCE 458 – 459﴿”.

Ele quis mostrar como é este modelo, Ele quis trazer-nos um tipo humano novo. Manifestou-Se como a suprema figura de santidade. Por isso Ele próprio afirmou: “Sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito”, e depois, “Eu e o Pai somos um, quem vê a mim vê ao Pai”. Portanto, olhando, imitando a Ele, vemos a perfeição e a santidade do Pai. Foi de fato, conveniente que Ele Se encarnasse: para podermos ter, por assim dizer, um padrão de santidade a imitar.

Manifestação de poder e bondade pela misericórdia

São Tomás e outros tomistas também afirmam que o motivo da Encarnação foi, sobretudo, um motivo de misericórdia, para salvar a humanidade caída. Ele Se encarnou com o objetivo de se dar aos pecadores. Encontramos numerosas testemunhas que dão base a esta opinião. O próprio Nosso Senhor Jesus Cristo diz a São Lucas: “O Filho do homem veio procurar e salvar o que estava perdido” (Lc 19, 10). Também nos afirma São João: “Pois Deus não enviou o Filho ao mundo para condená-lo, mas para que o mundo seja salvo por ele” (Jo 3, 17). E acrescenta em sua primeira epístola: “Ele nos amou e enviou seu Filho, como propiciação de nossos pecados” (1 Jo 4, 10).

Por outra parte, o próprio nome de Jesus significa a sua missão entre nós: a de Salvador. Nosso Senhor veio como Salvador e Redentor, mais do que Rei e Profeta, se bem que seja os dois. Mas, dentro do plano do pecado, Ele veio, sobretudo, com as características de Salvador e Redentor. Fora do plano do pecado viria como Rei, Profeta, etc. Ele veio a nós enquanto vítima expiatória por nossos pecados.5

São João Crisóstomo diz belamente que, “a Encarnação não tem outra causa que esta: Deus nos viu caídos na abjeção, oprimidos pela tirania da morte e teve misericórdia”.6 Foi por causa do pecado que nós tivemos um Redentor, pois a misericórdia inclina o superior ao inferior. Ele se inclina a nós, para nos levantarmos até Ele.

Com isso, o Verbo feito carne pôde oferecer em reparação ao Pai, um ato de amor de um valor sem limites. “Assim, a misericórdia divina, longe de subordinar o Verbo encarnado a nós, é a mais alta manifestação do Poder de Deus e de sua Bondade. Canta a glória de Deus mais que todas as estrelas do firmamento”.7 A Redenção trouxe esta manifestação.

Reparação e salvação

A Encarnação era, assim, a fonte de graças mais fecunda para salvar-nos, tal como era necessário para que a reparação perfeita da ofensa fosse feita a Deus. Nenhuma intervenção divina poderia salvar-nos melhor do mal. Pela Encarnação fomos arrancados do mal e impulsionados ao bem.

Que confiança nos inspiraria o mistério da encarnação, se nos esforçássemos por estudá-lo de maneira mais profunda!…

Considerando a Encarnação por parte de Deus, que se inclina a dar-se o mais possível a nós, deve precisamente nascer em nossas almas uma confiança ilimitada não só no auxílio da graça, mas em sua própria fonte, que é Nosso Senhor Jesus Cristo.

Resta-nos, enfim, considerarmos a exaltação de nossa natureza pela Redenção e estar sempre conscientes disso, com a obrigação de desprezar o rebaixamento de si mesmo pelo pecado. Como diz São Pedro: “temos entrado na posse das maiores e mais preciosas promessas, a fim de tornar-vos por este meio participantes da natureza divina, subtraindo-vos à corrupção que a concupiscência gerou no mundo” (2 Pd 1, 4).

“A encarnação do Verbo fortifica, assim, grandemente, a nossa fé, nossa esperança, nossa caridade, nos dá o exemplo de todas as virtudes e, sobretudo, é o princípio, na santíssima alma de Jesus, de um ato de amor redentor, que agrada mais a Deus que o que todos os pecados podem desagradar-lhe. […]. Verdadeiramente, podemos, com uma profunda gratidão, dizer como São Paulo: “Mas Deus, que é rico em misericórdia, pelo grande amor com que nos amou, e estando nós mortos pelos nossos delitos, nos deu vida por Cristo, por cuja graça haveis sido salvos”. Essa graça é o gérmen da glória; roguemos para perseverar nela e por ela, para que verdadeiramente seja em nós a vida eterna começada”.8

1“Ille enim iudex non potest, salva iustitia, culpam sine poena dimittere, qui habet punire culpam in alium commissam, puta vel in alium hominem, vel in totam rempublicam, sive in superiorem principem. Sed Deus non habet aliquem superiorem, sed ipse supremum et commune bonum totius universi. et ideo, si dimittat peccatum, quod habet rationem culpae, ex eo quod contra ipsum committitur, nulli facit iniuriam; sicut quicumque homo remittit offensam in se commissam absque satisfactione, misericorditer et non iniuste agit. et ideo David, misericordiam petens, dicebat (ps.L, 6): Tibi soli peccavi: quase dicat: Potes sine iniustitia mihi dimittere” (SÃO TOMÁS DE AQUINO. Summa Theologiae. III, q. 46, a. 2. ad 3. Tradução de Alexandre Correia).
2Cf. ROYO MARÍN, Antonio. Jesucristo y la vida cristiana. Op. cit. p. 30.
3Ibid. p. 25-26.
4“a) LA INFINITA BONDAD DE DIOS, que no despreció la debilidad de nuestra pobre naturaleza humana. b) SU INFINITA MISERICORDIA, ya que pudo remediar nuestra miseria sin necesidad de tomarla sobre sí. c) SU INFINITA JUSTICIA, que exigió hasta la última gota de la sangre de Cristo para el rescate de la humanidad pecadora. d) SU INFINITA SABIDURÍA, que supo encontrar una solución admirable al difícil problema de concordar la misericordia con la justicia. e) SU INFINITO PODER, ya que es imposible realizar una obra mayor que la encarnación del Verbo, que juntó en una sola persona lo finito con lo infinito, que distan entre sí infinitamente” (Ibid. p. 26. Tradução da autora).
5GARRIGOU-LAGRANGE, Réginald. El Salvador y su amor por nosotros. Trad. José Antonio Millán. Madrid: Rialp, 1977. p. 174.
6SÃO JOÃO CRISÓSTOMO, apud CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O Filho de Deus se fez Homem: Curso de Formação. São Paulo: 21 ago. 2002. (Arquivo IFTE).
7“Así, la misericordia divina, lejos de subordinar el Verbo encarnado a nosotros, es la más alta manifestación del Poder de Dios y de su Bondad. Canta la gloria de Dios más que todas las estrellas del firmamento” (GARRIGOU-LAGRANGE, Réginald. Op. cit. p. 179).
8“La encarnación del Verbo fortifica, así, grandemente, nuestra fe, nuestra esperanza, nuestra caridad, nos da el ejemplo de todas las virtudes y, sobre todo, es el principio, en la santísima alma de Jesús, de un acto de amor redentor que agrada más a Dios que lo que todos los pecados pueden desagradarle. […] Verdaderamente, podemos, con una profunda gratitud, decir como San Pablo: ‘Pero Dios, que es rico en misericordia, por el gran amor con que nos amó, y estando nosotros muertes por nuestros delitos, nos dio vida por Cristo, por cuya gracia habéis sido salvados’. Esta gracia es el germen de la gloria; roguemos para perseverar en ella y por ella, para verdaderamente sea en nosotros la vida eterna comenzada” (Ibid. p. 170).

Proelium magnum in caelo

Ao tirar do nada o universo, quis o Divino Artífice fazer deste um reflexo seu, espelhando-se no homem, rei da criação e microcosmo, criando-o à sua imagem e semelhança” (Gn l, 26)

No ápice desta obra, superando em perfeição todas as criaturas visíveis, encontram-se os Anjos, seres dotados de inteligência e puros espíritos, com personalidade própria e exclusiva, distribuídos por Deus em nove coros: Serafins, Querubins, Tronos, Virtudes, Dominações, Potestades, Principados, Arcanjos e Anjos. Formam estes a milícia da Jerusalém celeste, com a missão de adorar continuamente a Santíssima Trindade, executar os desígnios de Deus e guardar o gênero humano, bem como governar toda a criação material.1

Imensa e inimaginável é esta corte celeste! “Porventura podem ser contadas as suas legiões?” — indaga o livro de Jó (25, 3). E o profeta Daniel, maravilhado exclama: “Milhares e milhares o serviam, dezenas de milhares o assistiam! ” (Dn 7, 10).

A tanta diversidade e beleza quis Deus colocar um ponto monárquico, um ser que representasse de modo inigualável a luz eterna. Obra-prima, esplendor dos esplendores, cintilava no mais alto do universo angélico, todos se extasiavam diante dele: o primeiro dos Serafins e seu nome era Lúcifer, “Aquele que portava a luz”. A ele se aplicavam as palavras de Ezequiel: “Tu és o selo da semelhança de Deus, cheio de sabedoria e perfeito na beleza; tu vivias nas delícias do paraíso de Deus e tudo foi empregado em realçar a tua formosura!” (Ez 28, 12-13).

Entretanto, a seres tão excelsos, reservada também estava uma prova. Apesar da perfeição da natureza angélica, não podiam os Anjos gozar da essência da bem-aventurança: a posse da visão beatífica. Diante deles a face do Senhor achava-se como que envolta em véus, e apenas seus reflexos animavam o ardente amor dos Anjos.

Segundo exegetas e teólogos, a prova que decidiu o destino eterno dos Anjos foi o anúncio da Encarnação do Verbo: Deus haveria de enviar seu Filho Unigênito, nascido de uma mulher, criatura que teria seu trono elevado acima das Potestades: Maria Santíssima, Regina Angelorum.

A esse propósito, diz-nos o Padre Pedro Morazzani: “O Criador eterno, inacessível, todo-poderoso, se uniria hipostaticamente à natureza humana, elevando-a assim até o trono do Altíssimo; e uma mulher, a Mãe de Deus, tornar-se-ia medianeira de todas as graças, seria exaltada por cima dos coros angélicos e coroada Rainha do universo”.2

O momento decisivo: amar sem entender; subjugar os próprios critérios aos critérios do Absoluto! Eis o ato que os confirmaria, in perpetuo, na graça e na glória!

“Foram eles submetidos a uma prova. No momento da prova, muitíssimos destes espíritos permaneceram fiéis a Deus; mas muitos outros pecaram. Seu pecado foi de soberba, querendo ser iguais a Deus e não depender dEle” (CCE 3399).

Lúcifer, soberbo e duvidoso, quis ultrapassar o mistério que seu entendimento não alcançava… Acreditava que o Senhor ignorava a superioridade da natureza angélica ao preferir unir-se a um ser tão inferior. E ao constatar que ele, o arquétipo dos Anjos, ver-se-ia na obrigação de adorar um Homem — ainda que Divino —, esta união hipostática pareceu-lhe intolerável.

O orgulho havia se apoderado daquele que era o perfeito desde o dia da criação, imaginando que, dando-se a Encarnação do Verbo, tornar-se-ia, assim, o mediador entre Criador e criatura… “Aquele que do nada fora tirado, comparando-se, cheio de altivez, pretendeu roubar o que pertencia ao próprio Unigênito do Pai.3 “O Anjo pecou querendo ser como Deus.4

Um odioso brado de revolta — inspiração de todos os gritos de insubmissão da Historia — fez-se ouvir no Céu: “Nom Serviam!” Subirei até o céu, estabelecerei o meu trono acima dos astros de Deus, sentar-me-ei sobre o monte da aliança! Serei semelhante ao Altíssimo!” ( Is 14,13-14).

“Quis ut Deus!” — bradou, levantando-se como uma tocha ardente de fidelidade, um Serafim forte e esplendoroso! Quem desafiava o maior entre os Anjos? Miguel, perfeito adorador de Verbo Divino, guerreiro irresistível e de santa tenacidade!

“Houve no Céu uma grande batalha. Miguel e seus Anjos lutavam contra o dragão, e o dragão e seus sequazes lutavam contra” (Ap 12, 7). Arrastando a terça parte dos Anjos, o “Portador da luz” foi precipitado no inferno, tornando-se o príncipe das trevas, e seu lugar não se encontrou mais nos Céus.

Como caístes, ó astro resplandecente, que na aurora brilhavas? “A tua soberba foi abatida até os infernos” (Is 14, 11-12).

No mesmo ato, o Arcanjo São Miguel era elevado a mais alta hierarquia celeste, condestável dos exércitos celestes, baluarte da Santíssima Trindade.

1 Cf. GILSON, Etienne. A filosofia na Idade Média. Trad. Eduardo Brandão. São Paulo: Mantins Fontes, 2007.
2 ARRAIZ, Padre Pedro Morazzani. Quem como Deus? In: Revista Arautos do Evangelho. São Paulo: n 69, set. (2007, p.l9.)
3 SÃO BERNARDO. Homilia sobre las excelências de la Virgem Madre. In: Madrid: BAC, 1953, v. J, p. 215 […] Aquel que, habiendo sido formado ángel e la nada» comparándose, lleno de soberbia, a su Hacedor, pretendía robar lo que es proprio del Hijo de Dios. (Tradução da autora)
4 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica I, q. 65, a. 5.

“Repreende o justo e ele te amará”(Pr 9,8)

Davi é repreendido pelo profeta Natã - Catedral de Colônia, Alemanha.

Davi é repreendido pelo profeta Natã - Catedral de Colônia, Alemanha.

María del Pilar Perezcanto Sagone

Quem gosta de ser repreendido? O homem, naturalmente, foge da repreensão, ainda que posteriormente, ele perceba ter sido esta benéfica para sua alma. Então, surge o problema: de que maneira devemos aceitar as repreensões que recebemos para que estas nos santifiquem? Discorramos um pouco acerca deste tema tão decisivo para nossa salvação eterna.

Possivelmente, a maior dificuldade do homem concebido no pecado original apresenta-se quando sente em si uma forte e agradável atração oposta ao dever, acompanhada de uma espécie de cegueira por onde a pessoa não discerne claramente o mal encerrado naquilo que a seduz.

Ora, posto nesse estado de atração, não há nada que o homem mais deteste do que ouvir falar em virtude, em obediência aos Mandamentos e castigos.1 Entretanto, ainda que o homem não goste de ser desviado daquele caminho ao qual sua concupiscência o conduziu, deve escutar estas paternais palavras que Deus lhe dirige: “Meu filho, não desprezes a correção do Senhor, nem te espantes de que ele te repreenda, porque o Senhor castiga aquele a quem ama, e pune o filho a quem muito estima” (Pr 3,11,12). É uma verdadeira prova do amor que Deus nos tem o fato de que nos repreenda, pois diz a Escritura: “Aquele que poupa a vara quer mal a seu filho; mas o que o ama corrige-o continuamente” (Pr 13,24). O que seria de nós se não tivéssemos uma mão afetuosa que nos impede de cair no abismo?

Uma das maneiras de fazer transparecer o amor do superior para com súdito é corrigir-lhe e admoestá-lo de suas faltas para que possa emendar-se. O superior que ama verdadeiramente seu filho espiritual lhe deseja o bem, agindo como verdadeiro pai. 2

São João Clímaco compara, com muita unção, a crueldade de alguém que retira o pão das mãos de um menino faminto, com a daquele que tem obrigação de corrigir e não o faz. Este último causa dano não só a seu próximo mas também a si próprio. Ver-se-á, por essa omissão, privado dos méritos e benefícios do cumprimento desse dever e acabará por escandalizar os que constatam sua negligência.3

Mas, cabe-nos perguntar: Quem tem o dever de corrigir? São Tomás nos responde: Esta obrigação é de todos para com todos, 4 mas se intensifica quando Deus põe a nosso cuidado certas almas.

O próprio Salvador nos deixou este ensinamento: “Se teu irmão tiver pecado contra ti, vai e repreende-o entre ti e ele somente; se te ouvir, terás ganho teu irmão” (Mt 18, 15). São Tomás afirma que corrigir o próximo, desde que se presuma que será bem aceito, constitui uma verdadeira obrigação, ligada à virtude da caridade.5 Por isso, a correção fraterna é uma das maiores obras de misericórdia que podemos praticar em relação ao próximo.6 Nosso Senhor não está somente nos aconselhando, mas está nos dando um mandato: “repreende-o “. Ele deixa claro que todos têm esta obrigação moral: “O que vos mando é que vos ameis uns aos outros”. ( Jo 15, 17)

Entretanto, no cumprimento deste fundamental dever não podemos deixar que penetre nas nossas almas qualquer fimbria de orgulho, pois devemos exercê-lo por amor a Deus. Claramente no-lo diz Monsenhor João Clá Dias: “Evidentemente, na aplicação deste preceito, não se deve agir com alguma paixão, por menor que seja. A isenção de ânimo é fundamental. Toda caridade deverá ser empregada na delicadíssima tarefa da reconciliação.7

Contudo, em muitas ocasiões apesar da correção ser ouvida com ressentimento, pois atinge o amor-próprio, a consciência daquele que soube repreender corretamente fica em paz pela tranquilidade do bem realizado. Quem admoesta o próximo, não pelo exagerado gosto de corrigir — que é a mais vil das vaidades —, mas com o verdadeiro desejo de incentivar o progresso espiritual, esse sim é que ama seu irmão.8

Para mostrar melhor esta atitude, Monsenhor João a exemplifica dizendo que na vida de todos os dias, não é difícil acontecer que saiamos de casa distraidamente com algum desalinho em nossa apresentação: meias de cores diferentes, roupa mal colocada, etc. Basta que, por caridade, alguém nos advirta, para nós nos manifestarmos cheios de gratidão; se, pelo contrário, ninguém nos avisasse, ficaríamos ressentidos. Ora, com mais razão devemos agradecer a quem nos admoesta pela nossa falta de virtude, sobretudo naquilo que possa vir a constituir escândalo.9

Quem possui a Sabedoria, quando corretamente repreendido, torna-se agradecido sem jamais guardar qualquer ressentimento. Ao contrário, quem se lamenta por ser admoestado, não possui a sabedoria, pois na repreensão é que se mostra o valor do homem.10

Lembremo-nos, entretanto, de que o ato de virtude de chegar a amar àquele que nos repreende só pode ser fruto de uma graça. Saibamos pois, abrir nosso coração para toda e qualquer repreensão vinda de Deus através daqueles que nos mostram, de uma ou outra maneira, os nossos defeitos. Desta maneira alcançaremos a finalidade para a qual fomos criados: ver a Deus face a face.

1 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Alma feita de harmonias. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano X, n. 114, set. 2007, p. 8.
2 RODRIGUEZ, Alonso. Ejercicio de Perfección y virtudes cristianas. Madrid: Testimonio, [s.d]. p. 1636.
3 CLA DIAS, João Scognamiglio. A correção fraterna, uma opção ou um dever? In: Arautos do Evangelho. São Paulo. n. 81, set. 2008. p. 11. 40p. cit. q.33, a.2.
4 S. Th. II-JI, q.33, a.3.
5 Loc. cit.
6 ROYO MARIN, Antonio. Espiritualidad de los seglares. Madrid: BAC, 1967. p. 335.
7 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Op. cit. p. 11.
8 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Quem encontra um amigo fiel, descobre um tesouro! — II In. Dr. Plinio. São Paulo: Ano XIII, n. 149, ago. 2010, P. 22.
9 CLA DIAS, João Scognamiglio. Op. cit. p. 12.
10 “CORRÊA DE OLIVEIRA, Op. cit. p. 22.

“Como foi do agrado do Senhor, assim foi feito”

Mariana Iecker Xavier Quimas de Oliveira

“Se alguém me ama, observará minha palavra” (Jo 14, 23) e “Se guardardes os meus mandamentos, sereis constantes no meu amor, como também eu guardei os mandamentos de meu Pai e persisto no seu amor” (Jo 15, 10) são frases que expressam bem a caridade. Então, aqueles que amam a Deus e guardam seus mandamentos são sempre premiados nesta terra e nada de mal lhes acontece? “Se permanecerdes em mim, e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis tudo o que quiserdes e vos será feito.” (Jo 15, 7).

Jó- Catedral PamplonaDetenhamo-nos no relato da vida de um personagem que figurou na História muitos séculos antes de Cristo, e que por assim dizer, foi objeto da justiça de Deus: “Havia, na terra de Hus, um homem chamado Jó, íntegro, reto, que temia a Deus e fugia do mal” (Jó 1,1). Diz São Gregório Magno1, que “afastar-se totalmente do mal é começar a não mais pecar por amor a Deus”. Jó era, na linguagem da própria Sagradas Escrituras, justo aos olhos de Deus, a ponto de ser honrado por Ele com o elogio: “Não há ninguém igual a ele na terra” (Jó 1, 8). Se seguíssemos o caminho natural da lógica, deduziríamos que esta alma santa foi cumulada de benefícios divinos merecidamente, como canta o próprio salmista: “Oh, como Deus é bom para os corações retos, e o Senhor para com aqueles que tem o coração puro!” (Si 72) Mas, prossigamos com a narração:

Ora, um dia (…) um mensageiro veio dizer a Jó: Os bois lavravam e as jumentas pastavam (…). De repente, apareceram os sabeus e levaram tudo; e passaram à espada os escravos. Só eu consegui escapar para te trazer a notícia. Estando ele ainda a falar, veio um outro e disse: O fogo de Deus caiu do céu; queimou, consumiu as ovelhas e os escravos. Só eu consegui escapar para te trazer a notícia. (…) Ainda este estava falando e eis que entrou outro, e disse: Teus filhos e filhas estavam comendo e bebendo vinho em casa do irmão mais velho, quando um furacão se levantou de repente do deserto, abalou os quatro cantos da casa e esta desabou sobre os jovens. Morreram todos. Só eu consegui escapar para te trazer a notícia. (…) Satanás retirou-se da presença do Senhor e feriu Jó com uma lepra maligna, desde a planta dos pés até o alto da cabeça. (…) Sua mulher disse-lhe: Persistes ainda em tua integridade? Amaldiçoa a Deus, e morre! (Jó 1, 13-16.18-19; 2,7-9)

Entretanto, muito longe de maldizer a Deus, a reação deste justo varão é bem outra: “Nu saí do ventre de minha mãe, nu voltarei. O Senhor deu, o Senhor tirou; bendito seja o nome do Senhor! Aceitamos a felicidade da mão de Deus; não devemos também aceitar a infelicidade?” (Jó 1, 21; 2, 10) E a versão Vulgata acrescenta: “como foi do agrado do Senhor, assim foi feito”. Jó, neste então, era, no dizer de São Paulo2 aos Coríntios, um vaso de barro que “sofre no exterior as rupturas das úlceras. Por dentro, porém, continua íntegro o tesouro3”. Este justo perdera não só o que mais amava, mas perdera tudo; só lhe restara a esposa, que longe de encorajá-lo, o incitava contra Deus. Sua resposta pode ser considerada não só um ato de integridade, mais de heroicidade. Jó não disse: o Senhor me deu, o diabo tirou, como foi do agrado do demônio assim foi feito4; mas atribuiu a Deus a deserção de seus bens, à maneira do Homem-Deus que sofrendo a paixão por culpa dos judeus declarou a Pilatos: “Não terias poder algum sobre mim, se de cima não te fora dado” (Jo 19, 11).

Não seria plausível que Jó se revoltasse interiormente contra Deus? Sendo ele fiel à tradição de Abraão, conservador da Fé e das virtudes dos patriarcas5, era justo que recebesse tantos males d’Aquele Deus, que segundo São João (1 Jo 4, 8), é amor? Analisando com vagar as Sagradas Escrituras, vemos que não é raro este “proceder” da Divina Providência. É o que relata o Salmista: “Então foi em vão que conservei o coração puro e na inocência lavei as minhas mãos? (…) me indignava contra os ímpios, vendo o bem-estar dos maus: não existe sofrimento para eles, seus corpos são robustos e sadios. Dos sofrimentos dos mortais não participam, não são atormentados como os outros homens” (Sl 72).

Como se justifica este aparente paradoxo? O Professor Plinio Correa de Oliveira6 explica: “Deus permite ao demônio atormentar e tentar por todas as formas os justos, com o intuito de pôr à prova sua fidelidade”.

Não raro, ao considerarmos a trajetória de certos ímpios, vemo-los a correr, desimpedidos, na estrada do mundo, enquanto o homem que procura trilhar as vias da retidão caminha passo a passo, em meio a dificuldades de toda espécie. Por quê? Porque as sendas da perdição são espaçosas e lisas; as de Nosso Senhor são estreitas e penosas, e seu fim é o Calvário7.

A Teologia Católica afirma que por um claro princípio de justiça, Deus permite que os santos sofram na terra e os maus tenham certo sucesso; posto que não existe nem mal, nem bem absolutos, todos praticamos atos bons e ruins que devem ser premiados ou penalizados; uma vez que Deus já tem, desde o início dos tempos, a pré-ciência do destino de cada um dos mortais e, por tanto, do prêmio ou do castigo eterno de cada um, é justo que recompense aqui na terra os atos bons dos que irão se condenar e penalize as imperfeições dos justos8. O mesmo Salmista (Sl 72) compreende este mistério e ratifica:

“Reflito para compreender este problema, mui penosa me pareceu esta tarefa, até o momento em que entrei no vosso santuário e em que me dei conta da sorte que os espera. Sim, vós os colocais num terreno escorregadio, à ruína vós os conduzis. Como de um sonho ao se despertar, Senhor, levantando vos, desprezais a sombra deles. Quando eu me exasperava e se me atormentava o coração, eu ignorava, não entendia, como um animal qualquer. Vossos desígnios me conduzirão, e, por fim, na glória me acolhereis. Se vos possuo, nada mais me atrai na terra. Meu coração e minha carne podem já desfalecer, a rocha de meu coração e minha herança eterna é Deus”.

Entretanto, a Jó este mistério permanece incompreensível: “Mostra-me por que razão me tratas assim. Encontras prazer em oprimir, em renegar a obra de tuas mãos, em favorecer os planos dos maus? (Jó 10, 2-3) E mesmo desconhecendo as razões de seu suplício, bendiz à Deus e proclama sua justiça com valentia diante de seus antigos amigos que dia e noite o incitam a que injurie o nome de Deus: “Ouvi-me, pois, homens sensatos: longe de Deus a injustiça! Longe do Todo-poderoso a iniquidade! Ele trata o homem conforme seus atos, dá a cada um o que merece. É claro! Deus não é injusto, e o Todo-poderoso não falseia o direito” (Jó 34, 10-12).

Se é verdade que “consideradas as coisas sob certo ângulo, o valor de uma criatura humana se mede por sua capacidade de aceitar com coragem e resignação as dores que a Providência permite em seu caminho9”, Jó foi um homem de um valor inestimável. Quem diante de tanto sofrimento, depois de ter perdido família, criados, fortuna, e sendo cumpridor das leis do Todo-Poderoso não se julgaria alvo de grande injustiça? Mas, em virtude desta heróica aceitação incondicional, Deus, agora sim, premeia a Jó por sua fé verdadeira e sua virtude inquebrantável, que não consistia apenas em uma cordial gratidão pelos grandes bens recebidos, mas que era fiel e estava fundada unicamente no Criador, independente de confortos passageiros. “O Senhor abençoou os últimos tempos de Jó mais do que os primeiros” (Jó 42, 12). Jó recebeu tudo o que tinha antes, e em dobro.

Discutem os estudiosos se a História do justo Jó é realmente verossímil ou se é apenas um conto que tem como objetivo ensinar-nos a aceitar os sofrimentos recebidos de Deus. Independente de ser veraz ou não, é certo que este justo varão é um exemplo de virtude para todos os manchados da culpa original, que carregamos o peso das atribulações. É certo também que lembrando a vida de muitos santos e pessoas que se esforçaram por fazer o bem sobre a terra apesar de terem trilhado um caminho espinhoso, estas nem sempre receberam, à primeira vista, o dobro como o recebeu Jó. Entretanto, gozam, certamente, de sua recompensa eterna na beatitude celeste, sem terem de se arrepender por alguma vez terem suspirado ou chorado nos momentos em que deveriam alegrar-se por receberem de Deus uma ocasião para merecer uma recompensa mais abundante.

Tudo isso nos faz ver que seja qual for o modo como vivamos deveríamos receber sempre toda adversidade com alegria. Contrariedade e dificuldades parecem cheias de doçura para aqueles que amam.

1Moralia. Lib. 1, e. 26, 37: PL 75, 544. Tradução da autora.
2 Cf. 2 Cr 4,7.
3 SÃO GREGÓRIO MAGNO. Moralia. Lib. 3, c. 9, 15: PL 75, 606. Tradução da autora.
4 SANTO AGOSTINHO apud LEHONEY, Vital. El santo abandono. Disponível em: http://www.abandono.com/Abandono/ Lehoney/Lehoney2o2.htm. Acesso em 16 set. 2004.
5 Cf HOLZAMMER, Juan B.; SCHUSTER, Ignacio. Historia biblica. Barcelona: Litúrgica española, 1984, y. I, p. 759.
6 A Igreja é o centro da História. In: Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei, n. 59, fey. 2003, P. 24.
7 Id. O partito de Jesuseo partido do mundo. In: Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei, n. 118, jan. 2008, p. 14.
8 Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. S. Th. 1, q. 21, a. 4, ad. 3. E também: Id. S. Th, I, q. 14, a.13.
9 CORREA DE OLIVEIRA, Plinio. Excelências do Sagrado Coração de Jesus. In: Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei, n. 51,jun. 2002, p. 23.

Caminho áureo rumo ao Criador

Michelle Sangy

Beleza Arautos

Quando apreciamos uma bela obra de arte, intuímos que esta possui, sob certo prisma, a marca de seu autor, inconfundível com as demais; “por vezes, o mais precioso de uma obra de arte é o fato de ela nos dar a conhecer algo da própria alma do artista que a concebeu”.1 Tal como uma obra-prima, verifica-se na Criação, tão belamente adornada, reflexos de um Autor que é a matriz dessas maravilhas contidas no universo, o Modelo de todas as belezas, como nos diz São Tomás: “As coisas que procedem de Deus se parecem com Ele2, e, acrescenta o Papa Bento XVI: “Tudo o que Deus criou era muito bom”.3

Santo Agostinho, em um de seus sermões sobre a beleza das criaturas, diz: “Interroga a beleza da terra, interroga a beleza do mar, interroga a beleza do ar dilatado e difuso, interroga a beleza do céu, interroga o ritmo ordenado dos astros: interroga ao sol, que ilumina o dia com fulgor: interroga a lua, que suaviza com seu esplendor a obscuridade da noite que segue ao dia: interroga aos animais que se movem nas águas, que habitam a terra e que se movem no ar […] Interroga todas essas realidades. Todas elas te responderão: Olha-nos, somos belas”.4

Aquario ArautosPara ele, Bispo de Hipona, a própria beleza das coisas revela a Deus, pois “se são belas as coisas que fez, quanto mais belo será Aquele que as fez”.5 Detenhamo-nos, agora, em algo cunhado pelo Divino Autor, no qual quis Ele apresentar ao universo “à sua imagem e semelhança” (Gn 1, 26): o homem. “Entre as coisas muito boas estava também o homem, ornamentado com uma beleza muito superior a todas as coisas belas”, nos diz o Santo Padre.6

Qual deve ser o caminho percorrido pelo homem para chegar até Deus?

Sendo uma criatura inteligente, antes mesmo de formular seus primeiros critérios na infância, percebe que, de fato, ele existe e possui também uma ligação com tudo aquilo que o cerca.7Esta noção, sumamente substanciosa, é como o alimento próprio de sua inteligência, pois é o que lhe permite conhecer todas as coisas, garantindo-lhe a sanidade mental”.8 Nestes primeiros contatos com as criaturas, através dos sentidos, o homem classifica aquilo que lhe agrada e, mais ainda, procura a plenitude do objeto agradado.

Contudo, devido ao apego do ser humano às coisas materiais, nestas, busca ele algo que lhe satisfaça, encontrando, muitas vezes, apenas frustração, “pois as coisas deste mundo tão somente fazem parte de um conjunto cuja cúspide se encontra no Céu, onde está Quem lhe poderá saciar a sede de infinito”.9 É a esse respeito que nos adverte o livro da Sabedoria: “Se tomaram essas coisas por deuses, encantados por sua beleza, saibam, então, quanto seu Senhor prevalece sobre elas, porque é o criador da beleza que fez essas coisas. Se o que os impressionou é a sua força e o seu poder, que eles compreendam, por meio delas, que seu criador é mais forte; pois é a partir da grandeza e da beleza das criaturas que, por analogia, se conhece o seu autor” (Sb 13, 3-5).

Desse modo, compreendemos que o homem, ao longo de sua vida terrena, capta a beleza das coisas criadas por conter no mais profundo de sua alma alguns transcendentais, provindos de Deus, e postos por Ele em sua alma.

Segundo Edualdo Forment os transcendentais, em geral, são denominados como propriedades do ser. Essas propriedades depositadas no homem, a verdade, o bem, o uno e o belo provêm do Ser Absoluto, com a diferença de não se igualarem a Ele, mas possuírem umas “facetas” deste, expressamente manifestadas naqueles que as possuem.’10 Para facilitar a compreensão, é indispensável uma explicação ilustrada de Monsenhor João Clá. Diz ele que basta aproximar-nos de um berço de uma criança e apresentarmos a ela algumas belas bolas de diferentes cores para notarmos suas reações de maravilhamento causadas por estes instintos. Certamente, ela escolherá a bola da coloração que mais lhe agrada e depois de algum tempo passará a brincar com uma outra, e, assim, sucessivamente. “Trata-se da busca instintiva do bem, do belo e do verdadeiro que acabará por levar à eleição de uma das bolas como a principal dentro daquele conjunto”.11

Igreja Arautos GranjaCom efeito, há dois transcendentais que possuem uma ligação ulterior, uma analogia entre si. Estes são o belo e o bem, como diz o Doutor Angélico: “O belo é idêntico ao bem”.12 Afirma isto, ao explicar como o belo acrescenta ao bem uma certa ordem à potência cognoscitiva, de modo que o bem se chama o que agrada, de maneira absoluta ao apetite, e belo aquilo cuja apreensão agrada.13 A esse respeito nos fala Tomás de Verceil: “[…]contemplando o belo, nos tornamos bons, assim como nos tornamos belos ao amarmos o bem”.14

Cumpre considerar, ainda, a perfeita harmonia depositada nos transcendentais, cujo “encargo” foi deixado à beleza, como nos ensina Molinário, que a profundidade da beleza consiste na sua própria harmonia com os demais transcendentais e mais ainda: “a beleza é a propriedade transcendental do ser enquanto perfeita convertibilidade da unidade como integridade, da bondade como proporção e da verdade como claridade; e que o ente é belo enquanto é uno e íntegro, bom e proporcionado, verdadeiro e claro”,15 portanto harmônico.

Assim, concluímos, que a melhor forma de se chegar ao Criador é através de uma Via Pulchritudinis, ou seja, do caminho do belo e, realizá-lo, “significa revestir de pulcritude todos os atos da existência, para mais facilmente se erguer até Deus, que é a Beleza absoluta”.16

1 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Conhecimento de Deus através do belo. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano XI, n.125, ago. 2008, p.18.
2 SAO TOMAS DE AQUINO. Suma Teológica. I, q. 3, a. 7.
3 BENTO XVI. Audiência geral, 29/08/2007. Disponível em: . Acesso em 11 jun. 2012. ,
4 SANTO AGOSTINHO, Sermão 241, 2, apud OLIVEIRA SOUZA, Dartagnan Alves de. Pulchrum Caminho para o Absoluto? In: Lumen Veritatis. São Paulo: Ano II, n.8, jul/set. 2009, p.86.
5 Id. Enarratio in psalmos. s. CXLVIII, apud REY ALTUNA, Luis. Fundamentación ontológica de la belleza.Disponível em:(http://dspaceunaves/dspacethjtstream/10171/225 I/l/O6.%2Oluis%2OREy%2OALTUNA%20F Acesso em 26 nov. 2008. (Tradução da autora).
6 Bento XVI. Op. cit.
7 Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Op. cit. q.5, a.2.
8 CAMPOS, Juliane Vasconcelos Almeida. A chave do relacionamento com Deus. In: Arautos do Evangelho. São Paulo: n. 122, fev. 2012, p. 20.
9 Ibid. p. 22.
10 FORMENT, Eudualdo. La sistematizacion de Santo Tomás de los trascendentales. In: Contrastes. Revista Interdisciplinar de Filosofia. Barcelona: y. I, 1996, p. 111.
11 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Os dois filhos da Parábo1a, e os dois outros. In: Arautos do Evangelho. SãoPaulo: n. 43, set 2005, p.7.
12 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Op. cit. J-II, q. 27, a. 1.
13 Loc. cit.
14 apud Verceil, Tomás de . Op. cit. p. 20.
15 MOLINARIO, Aniceto. Metafisica. 2.ed. São Paulo: Paulus, 2004, p. 92.
16 ARAUTOS DO EVANGELHO. Fórmula de Admissão de Neo Arautos do Evangelho. Folheto da Cerimônia. São Paulo: 17 de jun. de 2012. (Arquivo IFTE).

Acima de tudo, a vontade de Deus

Irmã Carmela Werner Ferreira, EP

S Estanislau Kostka

Enquanto o povo olhava admirado para Jesus, recebendo com avidez as palavras cheias de graça e de verdade que saiam de seus lábios, levantou-se um doutor da Lei e fez-Lhe esta pergunta: “Mestre, qual é o maior mandamento da Lei? Respondeu Jesus: Amarás o Senhor teu Deus de todo teu coração, de toda tua alma e de todo teu espírito. Este é o maior e o primeiro mandamento. Nesses dois mandamentos se resumem toda a lei e os profetas” (Mt 22, 36-38. 40).

Esse divino ensinamento, transmitido de geração em geração desde os tempos de Moisés e confirmado como o mais excelente entre todos pelo próprio Salvador, continuará vigorando em todo o seu esplendor até a consumação dos séculos. É o mandamento principal, à luz do qual todos os outros se explicam e cuja ausência desarticula a perfeição do Decálogo, porque é ao seu redor que gravita o sentido da existência humana.

Muito embora os cristãos que professam sua fé com honestidade de consciência nunca ponham em dúvida essa lição do Evangelho, acabam por deparar com dificuldades à hora de aplicá-la em suas vidas concretas. Facilmente o coração do homem se prende às aparências sensíveis que o cercam, deixando de escolher a “melhor parte”. Poderão ser as seduções das riquezas, o afago das honras ou a mentira dos vícios que desvirtuarão um coração a princípio bem intencionado, porém voltado antes para a Terra que para o Céu.

Há, ademais, na vida de todos nós, um momento crucial do qual ninguém está isento e onde se define, para sempre, a intensidade com que se pratica o maior dos mandamentos: é a hora em que se manifesta a vocação de cada um.

Para cada alma, um chamado

Todos os cristãos recebem na pia batismal um chamado específico, pessoal e conferido diretamente pelo próprio Deus, sempre acompanhado pelo maternal olhar da Santíssima Virgem. Ao longo da vida, cedo ou tarde, ele se manifesta de modo claro e irresistível, sussurrando no profundo dos corações: “Este é o desígnio que a misericórdia de Deus lhe reservou. Abrace-o, pois é no seu cumprimento que está a felicidade”.

Seguir com fidelidade e alegria esse chamado de Deus, qualquer que seja ele, é antes uma obra da graça que de nossa vontade. Tão proeminente é nossa insuficiência, que se estivermos reduzidos às próprias forças, certamente seremos vencidos pela miséria humana.

Tampouco são as teorias ou textos doutrinários, sozinhos, que levam nossa vontade a abraçar as vias da Providência, pois já dizia São Paulo que “a letra mata, mas o Espírito vivifica” (II Cor 3, 6). Entre os fatores capazes de conduzir as almas à correspondência da sua vocação, podemos citar dois decisivos: as moções interiores de cunho sobrenatural e os bons exemplos recebidos.

Entre esses últimos, a vida dos santos ocupa um destacado lugar, pois eles foram generosos e fiéis no seu “sim”, motivo pelo qual são apresentados pela Santa Igreja como modelos a serem imitados. Conheçamos a vida de um deles: jovem, rico e poderoso, porém cônscio de que acima de tudo, está a vontade de Deus. Seu nome é Estanislau Kostka.

Três cruzes misteriosas

O dia 28 de outubro de 1550 foi de grande festa no castelo de Kostkow, em Prasnitz, Polônia. O senador João Kostka anunciava orgulhoso o nascimento de seu filho Estanislau aos grandes do reino, que acorriam ao castelo para contemplar o pequeno anjo dormitando em berço de ouro. Aquele nascimento, entretanto, estava envolto num suave mistério: o bebê trazia no peito três cruzes rubras, de inexplicável origem. O pai queria forçosamente interpretá-las como um sinal das façanhas e glórias militares que o pequeno obteria para aumentar as grandezas da família, assinalada entre as mais nobres e influentes da Polônia. Já a mãe, Margarida Kriska, tinha um coração religioso, e entrevia nesse prodígio um sinal do céu: aquele era um menino predestinado por Deus.

Os acontecimentos dariam sobrada razão à mãe virtuosa. No menino transparecia toda espécie de qualidades de espírito, e pairava ao seu redor uma aura de inocência e louçania. Bastava falar de qualquer assunto religioso que seus olhos brilhavam de contentamento, desejando sofregamente que lhe ensinassem as coisas do Céu.

Igualmente, não podia suportar que proferissem qualquer palavra contrária à glória de Deus em sua presença. Conta-se que num fausto banquete oferecido pelo senador Kostka, um príncipe aficionado às novas ideias da Reforma Protestante, não se contendo, estalou em impropérios contra a Igreja Romana e o próprio Deus. Viu-se, então, o menino cair desmaiado diante de todos. Consternados, os convivas perguntavam donde provinha tal mal-estar, e calavam de estupor ao saber que diante do pequeno Estanislau não se podia ofender a Deus.

Entre os pais do santo menino havia uma profunda divergência quanto à análise que faziam do próprio filho. Enquanto a mãe se encantava por ver desabrochar em sua alma uma elevada vocação, o pai obstinava-se em construir em sua imaginação façanhas e vitórias portentosas como jamais se vira, a não ser nos feitos de seus antepassados. Como de Paulo, o filho mais velho, ele percebia não poder esperar muito, era de Estanislau que, julgava, lhe viria a glória imortal: “Este é um Kostka genuíno. Ele será meu sucessor”.

Os estudos em Viena

Paulo e Estanislau haviam recebido uma boa formação intelectual com Bilinski, o preceptor escolhido para iniciá-los nas ciências clássicas. Agora era necessário encaminhá-los para estudar em um grande estabelecimento, a altura do nome da família. A escolha recaiu sobre o Colégio Jesuíta de Viena, da Polônia a mais próxima instituição da Companhia, para onde acorriam numerosos jovens de vários países.

Assim, aos 16 anos de Paulo e 14 de Estanislau, eles se despediram da casa paterna e partiram para terra estrangeira, a fim de completar a instrução acadêmica. Ambos prometeram à virtuosa mãe que jamais se entregariam a nenhum pecado, pois a pior desgraça que lhes podia acometer seria ofender a Deus. A promessa de Estanislau era sincera e profunda, enquanto Paulo dava mostras de cumprir uma mera formalidade.

De fato, vendo os irmãos lado a lado, como eram diferentes! Em nada eram harmônicos. Estanislau amava o recolhimento, ao passo que Paulo era adepto das diversões pecaminosas. Com muita propriedade, as figuras de Esaú e Jacó pareciam reviver nos filhos do senador.

“Ad maiora natus sum”

A vida em Viena foi repleta de graças e cruzes. O carisma dos filhos de Santo Inácio tocou a fundo o jovem Estanislau. Admirava os jesuítas de toda alma, encantava-se com a pureza de sua doutrina e a completa adesão aos conselhos evangélicos daqueles sacerdotes flexíveis ao sopro do Espírito Santo. Não demorou em desejar ser como eles, pois a seus olhos, era na Companhia de Jesus que estava o mais alto ideal que pudesse abraçar. Foi da forte convicção de que havia nascido para coisas maiores que surgiu sua divisa: “Ad maiora natus sum”.

De outro lado, como foi preciso recorrer à proteção do Céu para perseverar na prática das virtudes! Várias vezes Paulo, movido pelo ódio à sua integridade, desferia-lhe golpes brutais deixando-o desfalecido e ensanguentado. Assim se expressou Bilinski no depoimento do processo de beatificação: “Paulo jamais disse uma palavra amável a seu santo irmão. Todavia, tanto ele quanto eu tínhamos completa consciência da santidade de todos os atos de Estanislau”.

Nossa Senhora veio curá-lo

No terceiro ano da estadia em Viena a saúde de Estanislau sucumbiu ao peso da vida sacrificada que levava, e ele adoeceu gravemente. Espalhou-se o rumor de que corria risco de morte, e Paulo desesperou-se ao pensar em voltar para casa com o irmão morto. O santo doente implorou, então, a presença de um sacerdote e o Viático, pois a cada hora diminuíam-lhe, sensivelmente, as forças físicas. Kimberker, o dono da faustosa pensão onde se hospedavam, negou-lhe taxativamente este supremo consolo, sob pena de expulsá-los de seus aposentos caso um sacerdote católico adentrasse àquele recinto.

S Estanislau Kostka1A esse duro golpe, a Fé de Estanislau não esmoreceu. Rezou fervorosamente e confiou contra toda esperança. Qual não foi seu estupor ao ver numa manhã aproximarem-se três refulgentes anjos acompanhados de Santa Bárbara, trazendo-lhe a Sagrada Comunhão e cumulando sua alma de consolações e alegrias! Se a maldade dos homens lhe negara o que havia de mais sagrado, não seria a Providência Divina que o deixaria desamparado. Pouco depois ele viu aproximar-se de seu leito a figura soberana da Santíssima Virgem, que trazia nos braços seu Divino Filho e lhe sorria. Num gesto maternal, ela depositou o Infante nos braços do pobre enfermo, e o Menino Jesus o cobriu de afagos. Naquele momento, todas as perseguições esvaeceram-se, os incontáveis sofrimentos pareceram-lhe como pó… Sim, valia a pena sofrer todas as privações para gozar daquele convívio celestial! Sentindo as forças voltarem-lhe repentinamente, ele ouviu a voz suavíssima da Rainha dos Céus:

– “Agora que te curei, entra na Companhia de meu Filho! É Ele que o quer!”.

Resta apenas um caminho: o “impossível”

O assombro que sua cura milagrosa provocou não foi pequeno. Revigorado e indescritivelmente feliz, Santo Estanislau pediu admissão ao Padre Provincial da Áustria, que não podia desprezar os sinais inequívocos de sua vocação. Contudo, recebê-lo sem o consentimento paterno seria uma imprudência que acarretaria trágicas consequências. Foi-lhe negado o acesso à congregação em que Nossa Senhora o mandara entrar. Que aflitivo paradoxo…

A chama de entusiasmo e fervor que a visita celestial acendeu-lhe na alma foi tão grande que não se apagaria diante dessa primeira negativa. Ele estava disposto a bater em quantas casas dos jesuítas houvesse no mundo, certo de que alguma delas haveria de recebê-lo. Se o pai não o autorizava a seguir o chamado celestial, só lhe restava uma saída para levar ao perfeito cumprimento o mandato de Maria Santíssima: fugir.

Numa madrugada soturna, disfarçado de peregrino e sem ter levantado qualquer tipo de suspeita, Estanislau partiu para a Alemanha. Foi a pé de Viena a Dillengen. Lá, finalmente pôde ser compreendido por São Pedro Canísio, que o admitiu na Companhia de Jesus, julgando, porém, que a permanência na Alemanha não o deixa seguro da tirania de seu pai. O local mais indicado era Roma, onde São Francisco de Borja, o Superior Geral, haveria de protegê-lo. Foi assim que ele partiu para atravessar os Alpes, os Apeninos, e chegar à Cidade Eterna, após dois meses de caminhada heróica e incansável. Transpôs, sem titubear, praticamente metade da Europa!

Atingiu a perfeição de uma longa existência

Aos dias de incomparável alegria passados no noviciado, seguiram-se as ameaças vindas da Polônia. O pai, sem conter o ódio, exigiu seu retorno a qualquer custo, pois ter um filho sacerdote seria “uma desonra para a família”.

Entretanto, bem diversos eram os desígnios de Deus. Nossa Senhora aparecera-lhe em Roma, e viera chamá-lo, dizendo que lhe restava pouco tempo de vida. Sua alma já estava pronta para o Céu!

Assim, numa festa da Santíssima Virgem, ele comentou que muito em breve haveria de morrer. Ninguém acreditou. Subitamente, de um leve mal-estar, desencadeou-se no noviço uma forte febre e ele expirou santamente na festa da Assunção de Maria Santíssima, 15 de agosto de 1568.

Como estava equivocado o nobre senador da Polônia! Deus havia reservado ao jovem Estanislau uma glória insuperável e eterna. Se hoje no mundo inteiro sua família é conhecida, e se tem a honra de figurar de forma indelével na memória da Santa Igreja, não é senão porque ali fulgurou o brilho da santidade de seu filho. Santo Estanislau Kostka provou para os jovens de todos os tempos que um homem vale na medida em que corresponde generosamente ao chamado de Deus e deseja as coisas do Alto.

A era do perdão

Nascimento JesusBeatriz Alves dos Santos

Nosso Senhor quis fazer-se Homem porque, sendo “doente, nossa natureza precisava ser curada; decaída, ser reerguida; morta, ser ressuscitada. Havíamos perdido a posse do bem, era preciso no-la restituir. Enclausurados nas trevas, era preciso trazer-nos à luz; cativos, esperávamos um salvador; prisioneiros, um socorro; escravos, um libertador”.1

O Verbo se encarnou para ser nosso modelo de santidade, para que conhecêssemos o amor de Deus: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo 15, 12). Nosso Senhor veio trazendo uma clave completamente nova de amor ao próximo, de perdão e de caridade, como se lê no evangelho de São Mateus: “Se alguém te ferir a face direita, oferece-lhe também a outra” (Mt 5, 39), e ainda “amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos [maltratam e] perseguem […], pois se amais somente os que vos amam, que recompensa tereis?” (Mt 5, 44. 46).

Deus está constantemente querendo comunicar-se com o pecador para o atrair a Si e nunca lhe nega a graça suficiente. A respeito desta vontade salvífica universal de Deus, afirma Royo Marin:

[…] Deus quer seriamente – com toda a seriedade que há na face de um Deus crucificado – que todos os homens se salvem. […] É uma verdade clara e explícita na divina Revelação: isto é bom e grato a Deus, nosso Salvador, o qual quer que todos os homens sejam salvos e venham ao conhecimento da verdade (1 Tm. 2, 3-4). Pois Deus não enviou seu Filho ao mundo para julgar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele (Jo 3,17).2

Este amor de Deus não exclui ninguém, pois Ele mesmo o disse na parábola da ovelha perdida: “não é vontade de vosso Pai que está nos céus que se perca nem um só destes pequenos” (Mt 18, 14). Ele também revela que veio “dar sua vida em resgate por muitos” (Mt 20, 28).

Uma condição para o perdão

Deus está pronto a perdoar a qualquer um, a todo momento, basta reconhecer que errou e pedir perdão. Esta afeição de Deus para com os homens e a beleza do perdão estão divinamente manifestadas na parábola do filho pródigo, cujo centro é o pai misericordioso que perdoa o filho. Fascinado por uma ilusória liberdade, o filho mais novo abandona a casa paterna, entra por caminhos errados, perde a herança em jogos e diversões; rebaixa-se cuidando de porcos para se sustentar e, pior, passa a disputar a ração com os porcos… Em certo momento, recebe uma graça de arrependimento, por onde ele reconhece em que abismo chegou, arrepende-se e corre de encontro ao pai; e este lhe cobre de afetos e o perdoa.

Porém, há uma condição para ser perdoado: “perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido” (Mt 6,12).

São Pedro pergunta a Nosso Senhor quantas vezes devia perdoar quando um irmão pecasse contra ele. Até sete? E Jesus respondeu-lhe que não somente sete vezes, mas setenta vezes sete! (Cf. Mt 18, 21- 22) Comenta Lagrange: “Pedro sabe bem que é preciso perdoar a um irmão. Mas quais são os limites? Julga ele estar bem de acordo com o espírito de Jesus, propondo sete vezes”.3 Mas Ele contou-lhe uma parábola:

“Porque o Reino dos céus é comparado a um rei que quis fazer as contas com os seus servos. Pronto a fazer as contas, apresentaram-lhe um que lhe devia dez mil talentos. Tendo começado a fazer as contas, foi-lhe apresentado um que lhe devia dez mil talentos. Como não tivesse com que pagar, mandou o seu senhor que fosse vendido ele, sua mulher, seus filhos e tudo o que tinha, e se saldasse a dívida. Porém o servo, lançando-se-lhe aos pés, lhe suplicou. Tem paciência comigo, eu te pagarei tudo. E o senhor, compadecido daquele servo, deixou-o ir livre, e perdoou-lhe a dívida. Mas esse servo, tendo saído, encontrou um dos seus companheiros, que lhe devia cem dinheiros, e, lançando-lhe a mão, o sufocava dizendo: Paga o que me deves’. O companheiro, lançando-se-lhe aos seus pés, lhe suplicou: ‘Tem paciência comigo, eu te pagarei’. Porém ele recusou e foi mandá-lo meter na prisão, até pagar a dívida. Os outros servos seus companheiros, vendo isto, ficaram muito contristados, e foram referir ao seu senhor tudo o que tinha acontecido. Então o senhor chamou-o, e disse-lhe: ‘Servo mau, eu perdoei-te a dívida toda, porque me suplicaste. Não devias tu logo compadecer-te também do teu companheiro, como eu me compadeci de ti? E o seu senhor, irado, entregou-o aos algozes, até que pagasse toda a dívida. Assim também vos fará meu Pai celestial, se cada um não perdoar do íntimo do seu coração a seu irmão (Mt 18, 23-35)”.

Esta parábola é muito eloquente e ensina, com clareza, como se deve perdoar e amar aos outros, sempre e de coração. Santa Teresa de Jesus adverte às suas religiosas sobre a importância do perdão ao próximo, dizendo que Nosso Senhor podia ter-nos ensinado “perdoai-nos, Senhor, porque fazemos muitas penitências”, ou então “porque rezamos muito, jejuamos, deixamos tudo por Vós e muito vos amamos”. Não. Ele disse somente: “assim como nós perdoamos”.4

São Francisco de Sales também foi ousado em afirmar:

“Muitos dizem: – Amo em grande medida o meu próximo, e bem quero prestar-lhe algum serviço. – Isto está muito bem […], mas não basta; há que fazer mais. – Oh! Quanto o amo! Amo-o tanto que de boa vontade empregaria meus bens por ele. – Isto já é mais e está melhor, mas ainda não é bastante. […] Tem que ir mais longe; pois há algo mais alto nesse amor. Entregar-se até dar a vida pelo próximo não é tanto como abandonar-se ao capricho dos demais para eles ou por eles”.5

Ajuda sobrenatural

Meramente com nossas forças nada podemos ou conseguimos, entretanto, temos em nosso auxílio uma protecção sobrenatural, sobre-humana, que é a protecção de Nossa Senhora. Entre Cristo e os homens, ensina o Professor Plinio Corrêa de Oliveira, há algo em comum, tão extraordinário que não se compreende profundamente: ter a mesma Mãe! Essa Mãe d’Ele, e também Mãe dos pecadores, tem misericórdia do filho mais estropiado, mais fraco, mais torto, desarranjado, e quanto mais esfarrapado e miserável, maior sua compaixão. Por isso, em diversas ocasiões, recomenda a importante necessidade de possuir uma inteira confiança em Nossa Senhora.

Quando uma alma é generosa em perdoar e suportar as misérias dos demais, por mais que tenha pecado, se pedir o auxílio da Mãe de misericórdia, Ela olhará com compaixão e indulgência e obterá o perdão de Deus.

Quer dizer, inesgotável, clementíssima, pacientíssima, pronta a perdoar a qualquer momento, de modo inimaginável, sem nunca um suspiro de cansaço, de extenuação, de agastamento. […] Dispensada essa misericórdia, se ela for mal correspondida, vem uma misericórdia maior. E, por assim dizer, nossos abismos de ingratidão vão atraindo a luz para o fundo, quanto mais fugimos d’Ela, mais as suas graças se prolongam e se iluminam em nossa direção.6

Nos momentos de dificuldade, de aflição e necessidade deve-se correr para Eles e jamais fugir d’Eles, como fez o filho da perdição, Judas. Entretanto, se depois de ter vendido Nosso Senhor por trinta dinheiros tivesse tido um movimento de devoção a Nossa Senhora, rezado a Ela, certamente obteria uma ajuda. Se ele A procurasse e dissesse: “Eu não sou digno de chegar próximo de Vós, de Vos olhar, de me dirigir a Vós, sou Judas, o imundo… mas, Vós sois minha Mãe, tende pena de mim”, Ela o teria acolhido e tratado com benevolência sem par, aquele cujo nome é sinônimo de horror: Judas Iscariotes.7

Se a Virgem Santíssima é tão indulgente com o pecador, não se deve imitá-La, uma vez que Ela é louvada pelo título de Mãe dos pecadores? Os homens, portanto, têm o dever de amar o próximo, pois é na disposição de perdoar que a pessoa manifesta a verdadeira grandeza de alma. “Se pagar o bem com o mal é diabólico, e pagar o bem com o bem é mera obrigação, contudo, pagar o mal com o bem é divino”.8

Essa retribuição de bondade, mesmo recebendo somente o mal, foi a nota marcante da vida de Nosso Senhor. A qualquer um que lhe pedisse algo, a cura, o perdão, tanto os bens do corpo como também os da alma, o Divino Mestre a tudo atendia com superabundância divina.

Crucifixão entre 2 ladrões-horzUma das mais tocantes provas dessa misericórdia infinita deu-se no último lance da Paixão, quando no alto da cruz um dos ladrões lhe pediu perdão e Jesus disse-lhe: “Hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23 , 43), ou seja, Ele perdoou o bandido e transformou-o em santo.

Assim deve ser a confiança do homem no perdão de Deus; por pior que seja a situação em que se encontre, deve ele rezar a Nosso Senhor e dizer: “Se Vós para tantos homens sois misericordioso e os mantendes, então também a mim, criatura humana que sou, perdoai-me. Não mereço vossa indulgência, mas a misericórdia é para os que não a merecem!”. Assim, Ele mesmo nos concederá o perdão, Ele mesmo nos receberá de volta, Ele mesmo curará os nossos males produzidos pelas nossas faltas.

1SÃO GREGÓRIO DE NISSA. Oratio catechetica, 15, apud CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. 11. ed. São Paulo: Loyola, 2001. p. 129.
2“Dios quiere seriamente – con toda seriedad que hay en la cara de un Dios crucificado – que todos los hombres se salven. […] Es una verdad clara y explícitamente contenida en la divina Revelación: esto es bueno y grato ante Dios nuestro Salvador, el cual quiere que todos los hombres sean salvos y vengan al conocimiento de la verdad (I Tim. I, 15). Pues Dios no ha enviado a su Hijo al mundo para que juzgue al mundo, sino para que el mundo sea salvo por El (Io. 3, 17)” (ROYO MARÍN, Antonio. Teologia de la Salvacion. 4. ed. Madrid: BAC, 1997. p. 26-27).
3LAGRANGE, Marie-Joseph apud CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Devo perdoar uma só vez? Op. cit. p.13.
4SANTA TERESA DE JESUS. Caminho de perfeição. C. 36, n. 7. São Paulo: Loyola, 1995. p. 410-412.
5“Muchos dicen: – Amo en gran manera a mi prójimo, y bien quisiera prestarle algún servicio. – Eso está muy bien […], pero no basta; hay que seguir más adelante. ¡Oh, cuanto le amo! Le amo tanto que de buena gana quisiera emplear todos mis bienes por él. – Esto es ya más y está mejor, pero no es bastante todavía. […] Hay que ir más lejos; pues hay algo más alto en este amor. Entregarse hasta dar la vida por el prójimo no es tanto como abandonarse al capricho de los demás para ellos o por ellos” (SÃO FRANCISCO DE SALES. Obras Selectas. Madrid: BAC, 1953. Vol. I. p. 327. Tradução da autora).
6CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Num olhar de Maria, a imensidade de suas virtudes. In: Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei, n.13, abr. 1999. p. 27.
7Id. Nossa Senhora Auxiliadora: bondade e misericórdia incansáveis. In: Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei, n. 98, maio, 2006, p.26.
8CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Devo perdoar uma só vez? Op. cit. p.16.

O amor a Deus, ato principal da caridade

São VicenteEmelly Tainara Schnorr

A excelência da caridade sobre as outras virtudes consiste, e de maneira especial, na razão do objeto material primário ao qual se relaciona, ou seja, o próprio Deus, com o Qual nos unimos.1 Além disso, seu objeto se estende por dois aspectos – a nós mesmos e ao próximo –, mas sempre em função de Deus:

O objeto material sobre o que recai a caridade o constitui primariamente a Deus, e secundariamente a nós mesmos e todas as criaturas racionais que chegaram ou podem chegar à eterna bem-aventurança, e ainda, em certo modo, todas as criaturas, enquanto são ordenáveis à glória de Deus”.2

Em sua dimensão fundamental – o amor a Deus em Si mesmo –, a caridade é definida por São Tomás como uma “amizade do homem para com Deus”:

“[…] Já que há uma certa comunhão do homem com Deus, pelo fato que Ele nos torna participantes da bem-aventurança, é preciso que uma certa amizade se funde sobre esta comunhão. […] O amor fundado sobre esta comunhão é a caridade. É, pois, evidente que a caridade é uma amizade do homem para com Deus”.3

Acrescenta ainda o Doutor Angélico que, para se ter uma amizade verdadeira, é preciso que o amor seja recíproco:

“Segundo Aristóteles, não é qualquer amor que se realiza a noção de amizade, mas somente o amor de benevolência, pelo qual queremos bem a quem amamos. […] Entretanto, a benevolência não é suficiente para se constituir uma amizade, é preciso que haja reciprocidade de amor”.4

Essa reciprocidade de amor é um ponto dominante no dinamismo da caridade. Desde antes da existência do mundo, o amor de Deus foi derramado sobre nós com abundância – “na vontade, no amor e no coração d’Ele, eu estive sendo amado por Ele desde toda a eternidade”.5

Além de nos criar, Deus está constantemente nos sustentando no ser; faz-nos participar de sua própria natureza e nos cumula de favores e graças. Ademais, Ele arde em anseios pela nossa salvação, para, no Céu, gozarmos eternamente de seu convívio numa felicidade eterna: “Nós estaremos cheios de alegria quando entrarmos no Céu, mas Deus também estará contentíssimo por ver que, afinal, o plano eterno d’Ele a meu respeito se realizou. E a alegria d’Ele será maior do que a nossa, porque Ele nos ama, Ele nos quer!”.6

Como retribuir a Deus essa infinitude de amor e dileção manifestado por nós? Diz um adágio: “Amor com amor se paga”. Portanto, Ele somente procura a nossa correspondência de amor; o que Ele mais deseja é que também O amemos.

“O amor é o único entre todas as tendências, sentidos e afeições da alma, com o qual a criatura pode responder a seu Autor, não com plena igualdade, mas sim de uma maneira muito semelhante. […] Pois quando Deus ama, não deseja outra coisa senão que Lhe amemos; porque não ama para outra coisa senão para ser amado, sabendo que basta o amor para que sejam felizes os que se amam”.7

E é este amor o ato principal da caridade, o qual apresenta duas formas características: o amor afetivo e o amor efetivo. Entre ambos, o mais importante e fundamental é o amor afetivo, pois se trata do exercício direto e imediato da virtude da caridade considerada em si mesma, consistindo no próprio amor a Deus, tal como brota da vontade informada pelo hábito infuso da divina caridade.8

É um amor cheio de complacência e afeto, produzindo descanso e um gozo fruitivo na vontade. Isto se passa, porque, dado que o amor é um movimento da vontade em procurar o bem, quando o encontra, enche-se de gáudio e emoção. Ora, Deus é o Supremo Bem, em cuja contemplação a alma “sente frêmitos e ímpetos de alegria sem igual pelo prazer que tem de olhar os tesouros das perfeições do rei de seu santo amor”.9

Tomada por esse amor, a alma suspira em desejos de estar com o Amado e de atingir uma plena e definitiva união com Ele. Entretanto, dificilmente neste vale de lágrimas ela poderá saciar este anseio, esperando, por esta razão, a vida eterna.

“O coração, pois, que neste mundo não pode nem cantar nem ouvir os louvores divinos a seu gosto, entra em desejos sem igual de ser liberto dos laços desta vida para ir à outra onde se louva tão perfeitamente o bem-amado celeste, e, havendo-se esses desejos apoderado do coração, tornam-se tão poderosos e prementes no peito dos amantes sagrados, que, banindo quaisquer outros desejos, põem em desgosto todas as coisas terrenas, e tornam a alma toda desfalecida e doente de amor; e mesmo essa paixão progride às vezes tanto, que, se Deus o permitir, morre-se dela”.10

Entretanto, é salutar ter bem presente que o amor não se traduz somente nas alegrias e consolos espirituais internos que dele dimanam, mas exige que tenha uma comprovação manifestada em obras, pois, do contrário, correria o risco de ser um amor romântico, baseado puramente em sentimentos. A sua perfeição só se completa com a outra forma de amor, que é o efetivo.

“O amor verdadeiro não vai unido necessariamente a essas doçuras e consolações sensíveis, ainda pode ajudar-se delas quando aparecem espontaneamente como um presente de Deus. A pedra de toque do verdadeiro amor consiste no exercício das virtudes: “O amor – diz São Gregório – tem que comprová-lo com as obras”.11

N S JesusAssim, o amor efetivo apresenta dois corolários: o cumprimento da lei divina e a perfeita conformidade da nossa vontade com a de Deus.12

Esta conformidade de nossa vontade com a de Deus, deve ser inteira e amorosa. Exemplo disso foi o piedoso Jó que, tendo sido provado ao máximo, perdendo todos os seus bens, familiares e amigos, conformou-se com a vontade de Deus, dizendo: “Nu saí do ventre de minha mãe, nu voltarei. O Senhor deu, o Senhor tirou: bendito seja o nome do Senhor! Como foi do agrado do Senhor, assim aconteceu” (Jo 1, 21).

Quanto à lei divina, ela deve ser praticada por puro amor, ou seja, necessita ser cumprida para agradar a Deus e não pelo interesse que poderia proporcionar a recompensa eterna; poderia não haver Céu nem inferno, mas a alma continuaria amando e temendo a Deus.

Donde a importância do primeiro mandamento, que, no Decálogo, ocupa um lugar proeminente sobre os outros nove, devendo, por isso, ser praticado com um zelo maior. Do contrário, os demais sofreriam um abalo, ocasionando sérias consequências tanto no desenvolvimento pessoal, quanto no social. Mons. João Clá confirma o acima dito:

“[…] O Primeiro Mandamento é o mais importante de todos, e é ele que nos dá a possibilidade de compreender bem todos os outros. A prática do Primeiro Mandamento da Lei de Deus é fundamental, e essa prática nós temos que realizar desde o momento em que acordamos até o momento em que vamos dormir, constantemente devemos estar com o nosso pensamento, nossa preocupação e nosso amor colocado nas coisas de Deus”.13

1 Cf. ROYO MARIN, Antonio. Teología de la perfección cristiana. Op. cit. p. 126.
2“El objeto material sobre que recae la caridad lo constituye primariamente Dios, y secundariamente nosotros mismos y todas las criaturas racionales que han llegado o pueden llegar a la eterna bienaventuranza, y aun, en cierto modo, todas las criaturas, en cuanto son ordenables a la gloria de Dios” (Ibid. p. 511. Tradução da autora).
3 “[…] Sit aliqua communicatio hominis ad Deum secundum quod nobis suam beatitudinem communicat, super hac communicatione oportet aliquam amicitiam fundari. […] Amor autem hac communicatione fundatus est caritas. Unde manifestum est quod caritas amicitia quaedam est hominis ad Deum” (SÃO TOMÁS DE AQUINO. Summa Theologiae. II-II, q. 23, a. 1).
4 “Secundum Philosophum, in VIII Ethic., non quilibet amor habet rationem amicitiae, sed amor qui est cum benevolentia: quando scilicet sic amamus aliquem ut ei bonum velimus. […] Sed nec benevolentia sufficit ad rationem amicitiae sed requiritur quaedam mutua amatio: quia amicus est amico amicus. Talis autem mutual benevolentia fundatur super aliqua communicatione” (Loc. cit).
5 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Homilia da 4ª feira, da XIV Semana do Tempo Comum. Caieiras, 9 jul. 2008. (Arquivo IFTE).
6 Loc. cit.
7 “Solus est amor ex omnibus animae motibus, sensibus atque affectibus, in quo potest creatura, etsi non ex aequo, respondere Auctori, vel de simili mutuam rependere vicem. […] Nam cum amat Deus, non aliud vult, quam amari: quippe non ad aliud amat, nisi ut ametur, sciens ipso amore beatos, qui si amaverint” (SÃO BERNARDO DE CLARAVAL. Sermones sobre el Cantar de los Cantares. In: Obras completas. Madrid: BAC, 1987. Vol. V. p. 1030).
8 Cf. ROYO MARIN, Antonio. Teología de la caridad. Op. cit. p. 219-220; 231.
9 SÃO FRANCISCO DE SALES. Op. cit. p. 248.
10 Ibid. p. 274.
11 “El amor verdadero no va unido necesariamente a esas dulzuras e consolaciones sensibles, aunque puede ayudarse de ellas cuando se presentan espontáneamente como un regalo de Dios. La piedra de toque del verdadero amor consiste en el ejercicio de las virtudes: ‘El amor – dice San Gregorio – hay que probarlo con las obras’” (ROYO MARÍN, Antonio. Teología de la caridad. Op. cit. p. 232. Tradução da autora).
12 Cf. Ibid. p. 233-242.
13 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Homilia da 4ª feira, da III Semana da Quaresma. Caieiras, 12 mar. 2008. (Arquivo IFTE).

A criação: um dedo a apontar para o céu

Fahima Akram Salah Spielmann

Na criação, Deus muitas vezes se faz “pequeno” para que assim possamos alcançá-Lo, e compreendermos o verdadeiro sentido que as coisas possuem. Pois, entre todas as criaturas terrenas, o homem é o único capaz de pensar e, através do raciocínio, chegar a compreender a transcendência dos seres criados, o verdadeiro sentido que possuem. A esse respeito, já nos cursos filosóficos aprendemos como todo efeito possui uma causa, do mesmo modo remonta a algo superior de seu criador.

Para ajudar o homo viator a não se perder nesse caminho, Deus inscreveu em seu coração um desejo do sublime, o que constitui uma das mais altas dignidades do homem, como nos afirma a Gaudium et Spes1: “o aspecto mais sublime da dignidade humana está nessa vocação do homem à comunhão com Deus. Esse convite que Deus dirige ao homem, de dialogar com Ele, já começa com a existência humana” (GS 19).

Sendo assim, já no estado de inocência original, o homem, tendo suas potências submetidas à razão superior, com um simples olhar de apreensão subiria à causa e ao fim do criado, uma vez que existe na alma humana, por causa de sua natureza material e ao mesmo tempo espiritual, a necessidade de participar do invisível através do visível2.

Contudo, sabendo Deus da imensa dificuldade que teríamos em alcançar o sobrenatural, após o pecado original, deu-nos sensivelmente como que “elevadores”, que nos fizessem chegar até Ele, fim último de tudo. E esse ascensor é a criação que, como um dedo, nos aponta para Deus.

Aguia4Assim, por exemplo, ao vermos uma águia que sem nenhum temor bate suas asas, desafiando os ventos, e que, de repente, em um só lance agarra sua presa e a arrasa; com um olhar mais profundo podemos ver nisso uma analogia com a beleza de uma alma lutando por um ideal, sem deixar se abater pelos ventos contrários da dificuldade que sopram, continua o seu percurso, voando até alcançar sua meta. Personificando, chegamos a Deus, fonte e raiz de toda virtude.

De modo mais sublime podemos dizer da água, elemento tão banal aos nossos olhos, que, entretanto, teve como primeira causa de sua criação o Batismo 3 , regeneração espiritual que sem sua matéria não produziria o que opera.

Entre outros inumeráveis exemplos citemos no próprio ser humano a necessidade da alimentação que, como nos ensina Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias, foi imposta com vistas ao Sacramento da Eucaristia. Na mente divina primeiro estava o Pão da Vida e, por este motivo, foi criado no corpo humano o aparelho digestivo4.

Portanto, podemos concluir que com tudo o que existe sensivelmente pode-se fazer uma analogia com o sobrenatural; e como todo o criado, de modo direto ou indireto, ao ser formulado por Deus visava a união com Ele. E foi assim que agiu o Divino Pedagogo, ao fazer o corpo humano, para que este servisse de “metáfora” para o verdadeiro organismo, que é o Corpo Místico de Cristo.

O Corpo Místico de Cristo é a matriz primeira, o analogado primário, a arquetipia do corpo humano. E o Corpo Místico de Cristo, portanto, tem leis e maravilhas muito mais elevadas, muito mais ricas, muito mais profundas e mais amplas que o próprio corpo humano5.

O corpo humano, figura do Corpo Místico de Cristo

Inspirado pelo Espírito Santo, com o intuito de exprimir tal união, o Apóstolo usou várias imagens, tais como edifício, templo, família de Deus (Ef 2, 19-22), esposa de Cristo (Ef 5, 22-23), corpo de Cristo (Ef 1, 23; 2, 16; 3, 6; 4, 4. 12. 16; 5, 23), complemento de Cristo (Ef 1, 23), e em todas elas encontramos a singular expressão da necessidade de união com Cristo Jesus, de modo a viver por Ele, com Ele e n’Ele.

Igreja Tabor ArautosApesar de possuírem semelhantes significados, a que mais se destaca é a do corpo de Cristo, talvez por conter todas e melhor exprimi-las, como aludiu Pio XII em 1943, na sua encíclica Mystici Corporis.

Ao contrário dos outros, o termo “corpo de Cristo” parece ser da criação de São Paulo, referindo-se a ele várias vezes.

Discutem entre si os exegetas qual teria sido a origem deste termo usado pelo Apóstolo. Dizem alguns, o mais provável, que a ideia de Igreja Corpo de Cristo proceda do termo “esposa, corpo do marido”, muito corrente no Antigo Testamento, expressando, sob a figura de matrimônio, o vínculo de Deus com o povo da Aliança (Cf. Is 62, 4-5; Jer 3, 20; Ez 16, 8-29; Os 2, 19-22), portanto muito própria para transpor a imagem de Cristo e sua Igreja. A passagem mais explícita sobre essa apropriação encontramos em Efésios: “o marido é a cabeça da mulher, como Cristo é a Cabeça de seu Corpo, do qual Ele é o Salvador” (Ef 5, 23).

Os leitores, para os quais se dirigiam estas palavras, entendiam-nas muito bem, pois o marido era a cabeça e a esposa, submissa a ele, era o corpo, da mesma forma como a Igreja a Cristo. Esse enlace entre os esposos servia de preparação para compreenderem o amor de Cristo pela Igreja (Ef 5, 33), que levado até as últimas consequências entregou-se inteiramente a Ela (Ef 5, 25).

Inspirou Deus ao apóstolo São Paulo a figura do corpo para simbolizar a união entre Cristo e a Igreja, à maneira da cabeça com o resto do corpo, por diversas razões.

Diz a Lumen Gentium que de sobremaneira quis Deus escolher esta figura, por projetar a intimidade de Cristo com a Igreja, e neste sentido cada cristão deve almejar o máximo de união, fazendo tudo por Ele, com Ele e n’Ele (LG 7).

Para melhor compreendermos essa profunda analogia, cabe a teologia ceder lugar à anatomia.

Ensina a medicina que o corpo, enquanto tal, só pode existir na junção de seus membros, os quais só desempenharão sua função em ligação com a cabeça, lugar mais complexo do corpo, onde residem os principais comandos nervosos e a quase totalidade dos órgãos dos sentidos, além das partes iniciais do aparelho digestivo e respiratório.

Desse modo, por ordem da cabeça, encontramos a suprarrenal enviando um hormônio chamado cortisol, que em dose exata regula o organismo para que ele desperte. Ou então, em meio à concentração do trabalho, sem precisar de uma contínua atenção nossa, o coração continua a pulsar. Paralelamente, o pulmão prossegue sua respiração sem nenhum lapso.

Toda essa ordenação do organismo é realizada pala hipófise, pequena glândula situada no cérebro6.

Com esta pequena amostra, vemos a íntima e essencial junção, dentro do organismo, e a primazia da cabeça em relação aos outros membros, os quais não seriam o que são sem a cabeça; que por sua vez não seria o que é sem os membros; e, com tal união, basta uma agulha perfurar o último dos artelhos, que em três segundos o cérebro receberá informações do ocorrido e com prontidão responderá em socorro, enviando o necessário para o restabelecimento.

Além disso, tudo é animado pela alma, a tal ponto que na separação desta do corpo se produz a morte.

Na ordem sobrenatural, “a comparação da Igreja com o corpo projeta uma luz sobre os laços íntimos entre a Igreja e Cristo. Ela não é somente congregada em torno d’Ele; é unificada n’Ele e em seu Corpo” (CCE 789).

Pungente é ver que sendo Cristo o Fundador da Igreja poderia designar-se sob outras imagens; mas preferiu a do Corpo, para nos atestar algo já contido no início da Revelação: “ossos de meus ossos e carne da minha carne” (Gn 2, 23). Ou seja, a Igreja, Esposa de Cristo à semelhança da criação de Eva, floresceu do costado de Nosso Senhor Jesus Cristo padecente na Cruz, donde com toda propriedade podia Cristo designar-se de seu Esposo (Mc 2, 19) e Cabeça (Ef 4, 15-16) de sua Igreja.

1 “La más alta razón de la dignidad humana consiste en la vocación del hombre a la comunión con Dios. Ya desde su nacimiento, el hombre está invitado al diálogo con Dios” (Para todas as referêcias da Gaudium et Spes, será usada a edição Epiconsa; Paulinas. Tradução da autora).
2 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Summa Theologiae. III, q. 61, a. 1.
3 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. As criaturas nos oferecem o que não podem dar! Só Deus é o rochedo! : Homilia. São Paulo, 4 dez. 2008. (Arquivo IFTE).
As matérias extraídas de exposições verbais – designadas neste trabalho, segundo sua índole, como “conferências”, “palestras”, “conversas” ou “homilias” – foram adaptadas para a linguagem escrita, sem revisão do autor.
4 Id. A manifestação do amor de Deus às criaturas: Conversa. Lisboa, 26 mar. 2008. (Arquivo IFTE).
5 Id. A humanidade de Jesus Cristo: Conferência. São Paulo, 12 set. 2007. (Arquivo IFTE).
6 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. A Igreja é una, Santa, Católica e Apostólica: Conferência. São Paulo, 1 ago. 2002 (Arquivo IFTE).

Uma saga, um mito, um poema

05 Santa Joana D'Arc01Irmã Carmela W. Ferreira, EP

SANTA JOANA D’ARC

Certas lendas parecem-se tanto com a realidade a ponto de levantar a pergunta: “Será, de fato, simples lenda?” Em sentido contrário, certas narrações históricas revestem-se de tantos aspectos surpreendentes que suscitam uma desconfiança: “Mas isto é mesmo real?”

Um dos mais expressivos exemplos do segundo caso é a vida de Santa Joana d’Arc, uma das maiores epopéias da História. São desconcertantes os traços de sua curta existência. Seriam mesmo inexplicáveis abstraindo-se a graça de Deus, que transformou essa delicada virgem camponesa em guerreira intrépida e fez de seu nome uma saga, um mito, um poema.

Desde muito pequena, preparada para sua grande missão

Quando Joana nasceu, em 1412, a França sangrava dolorosamente havia já 75 anos, nos duros embates da Guerra dos Cem Anos, contra a Inglaterra. O nome de seu vilarejo natal, situado no Ducado de Lorena, soa como um toque de sininho de aldeia: Domrémy.

Filha de camponeses honrados e laboriosos, ali passou ela sua infância, aprendendo o mesmo que as outras meninas de sua idade. “Ela se ocupava, como as demais mocinhas, fazendo os trabalhos de casa e fiando, e, algumas vezes, como eu mesma vi, cuidava dos rebanhos de seu pai” — conta Hauviette, sua amiga.

Entretanto, a nota dominante de sua infância foi sua exemplar piedade. Desde muito pequena, Deus a atraía para a contemplação de panoramas elevados. Destinada a grandes feitos, sua fé deveria ser robusta. Gostava imensamente de frequentar a igreja, e com sumo interesse dava os primeiros passos no aprendizado da doutrina cristã.

Jamais poderia ela imaginar a grande missão para a qual sua alma estava sendo preparada. Ouçamo-la narrar, com encantadora simplicidade, um acontecimento que a marcou profundamente: “Quando eu tinha mais ou menos 13 anos, ouvi a voz de Deus que veio ajudar-me a me governar. Eu ouvi a voz do lado direito, quando ia para a Igreja. Depois que ouvi esta voz três vezes, percebi que era a voz de um anjo. Ela me ensinou a me conduzir bem e a frequentar a igreja”.

Tempos depois, sabendo já que aquela “voz” era de São Miguel Arcanjo, conta: “Ela [a voz] me disse ser necessário que eu, Joana, fosse em socorro do Rei da França”.

Aos 17 anos, parte para a vida de batalhas

A Filha Primogênita da Igreja estava numa situação calamitosa. Em 1337, o Rei Eduardo III da Inglaterra, reivindicando para si o Trono da França, desencadeou a Guerra dos Cem Anos. Enfraquecidos por fatores de ordem moral e religiosa, além de graves discórdias internas, os franceses sofreram reveses sucessivos. Em 1420, foram obrigados a assinar o humilhante Tratado de Troyes, em consequência do qual o Rei da França perdeu o trono em favor do Rei da Inglaterra. Assim, a nação francesa caminhava para um inglório ocaso.

Precisamente nesta trágica circunstância, surge a figura argêntea de Santa Joana d’Arc, a camponesa iletrada, mas instruída nas vias da virtude por três enviados de Deus: o Arcanjo São Miguel, Santa Catarina de Sena e Santa Margarida de Antioquia.

Quando ela completou 17 anos, as “vozes do Céu” lhe indicaram que o momento de agir havia chegado. Saindo da casa paterna, Joana conseguiu convencer o Capitão Roberto de Baudricourt a conduzi-la à presença do “Delfim” (assim era chamado o monarca francês Carlos VII, ainda não coroado Rei), o qual se encontrava em Chinon.

Com a convicção e confiança recebida das vozes celestes, afirmava ela ser a vontade do rei do Céu que Carlos fosse coroado, e que ela era chamada a comandar em nome de Deus os exércitos franceses para expulsar da França as tropas inglesas.

Após vencer muitas dificuldades, a pastora de Domrémy chegou à corte no dia 6 de março de 1429. Nesta ocasião ela se encontraria, por fim, com o monarca que ela própria levaria ao trono. Para testar a autenticidade da missão da qual ela assegurava estar incumbida, e também para divertir-se frivolamente às custas da “ingênua” camponesa, Carlos decidiu disfarçar-se no meio de seus cortesãos, enquanto outro ficaria sentado no trono, vestido com os trajes reais.

Entrou a Santa e foi apresentada ao falso Delfim. Sem dar-lhe maior atenção, ela imediatamente passou a observar todas as fisionomias do recinto, até ver Carlos escondido em um canto. Fixou nele seu puro e penetrante olhar, e fez-lhe uma profunda reverência, dizendo: “Muito nobre senhor Delfim, aqui estou. Fui enviada por Deus para trazer socorro a vós e vosso reino”. O assombro geral logo deu origem a estrondosas aclamações.

Em longa conversa, Santa Joana d’Arc expôs a Carlos VII a missão a ela confiada pela Providência e solicitou que lhe fosse posto à disposição um exército para acorrer logo em defesa de Orléans. Convencido, afinal, pelo que vira e ouvira, Carlos não hesitou em fazer o que a enviada de Deus lhe indicava.

Coroação do Rei: dia de glória e alegria

Santa Joana D' Arc2Desta forma o mundo de então presenciou um fato absolutamente inédito: Joana, a “donzela”, marcha à frente dos exércitos franceses, conduzindo-os para uma batalha decisiva.

A presença dessa virgem resplendente de inocência e de certeza na vitória impunha respeito no acampamento e dava novo alento aos oficiais e soldados. Proibiu terminantemente as bebidas alcoólicas e os jogos. Sobretudo, fez questão de que os soldados pudessem confessar-se e receber a santa Comunhão.

Seus conselhos de guerra jamais falharam, causando admiração aos mais experimentados generais. A tomada de Orléans foi um esplêndido triunfo! Em meio à batalha, lá estava ela segurando seu branco estandarte bordado com a imagem de Nosso Senhor e as palavras Jesus, Maria.

Após a tomada de Orléans, seguiram-se outras grandes vitórias. Graças a Santa Joana d’Arc, renascera na França o ideal de unidade e a esperança de reconquistar o território perdido. O povo não poupava entusiásticas manifestações de gratidão e admiração pela “Donzela”.

Chegou, enfim, o almejado dia em que o Rei da França voltou a ocupar o trono ao qual só ele tinha direito. Em 17 de julho de 1429, Carlos VII foi solenemente coroado, tendo a seu lado Santa Joana d’Arc com seu estandarte. Alguém lhe perguntou o motivo da presença daquele lábaro de guerra numa cerimônia de coroação, e recebeu pronta resposta: “Ele esteve comigo na hora do combate, é natural que esteja também no momento da glória”.

Foi um dia de grande festa. Mais do que nunca, a alegria invadia-lhe a alma. Embora os ingleses não tivessem ainda sido expulsos totalmente, o Reino da França já estava restabelecido!

Uma terrível perplexidade

Em pouco tempo, porém, a essa alegria se sobreporiam as pesadas sombras da ingratidão, das intrigas e da traição.

O Rei, sentindo-se agora poderoso e firme em seu trono, rapidamente se esqueceu da gratidão devida a essa heróica donzela. Pior ainda, Carlos VII, dominado por surda inveja, abandonou-a à própria sorte.

Santa Joana d’Arc sofreria da mesma forma que o Divino Salvador, o qual, depois de ser recebido triunfalmente no Domingo de Ramos, foi crucificado na Sexta-Feira Santa.

Mesmo assim, ela continuou a luta, disposta a não depor armas enquanto houvesse tropas inglesas no território francês. Tentando salvar a cidade de Compiègne, em 1430, ela foi feita prisioneira por soldados da Borgonha (aliada da Inglaterra) e entregue aos ingleses.

Santa Joana D' Arc1Estes levaram-na a um tribunal da Inquisição, formado irregularmente e presidido por um bispo indigno e corrupto, Pierre Cauchon, ao qual foi oferecida alta soma em dinheiro.

Perante o iníquo tribunal, a inocente jovem foi acusada de heresia e bruxaria. Não faltou quem atribuísse suas vitórias a um acordo com os espíritos malignos. Não lhe foi dado um defensor, mas ela, assistida pelo Espírito Santo, defendeu-se com tanta segurança e sabedoria que deixou pasmos tanto os acusadores quanto os juízes.

Esse tribunal, porém, não se reunira para julgar… A sentença condenatória já estava decidida de antemão. A salvadora da França foi condenada à pena de morte na fogueira em praça pública.

Torturada pelas pressões e injustiças das quais era vítima, Joana tinha um sofrimento maior, uma terrível perplexidade: o Rei estava reposto em seu trono, mas os ingleses ocupavam ainda boa parte do território francês; iria ela morrer sem ter cumprido inteiramente sua missão?

O prêmio da confiança e da fidelidade

Na manhã triste e fria do dia 30 de maio de 1431, ela foi queimada viva na cidade de Rouen, aos 19 anos de idade. Amarrada em meio às chamas e olhando para seu crucifixo, ela reafirmou em altos brados a inabalável confiança no cumprimento de sua missão: “As vozes não mentiram! As vozes não mentiram!”

Terá ela recebido nesse instante supremo alguma revelação que a tirou da angustiante perplexidade? Ter-lhe-ão “as vozes” falado uma última vez, explicando que, graças ao irresistível impulso por ela dado, em pouco tempo a França estaria livre dos invasores?

Quem saberá dizer? O certo é que em 1453, após a batalha de Castillon, os ingleses foram expulsos do Reino da França.

Em 1456, um inquérito judicial realizado por ordem do Rei teve como resultado a declaração da inocência de Santa Joana d’Arc. Beatificada por São Pio X em 1909, foi ela canonizada por Bento XV em 1920. A Santa Igreja celebra sua festa no dia 30 de maio.

Guardadas as devidas proporções, essa virgem guerreira e mártir bem poderia cantar como a Mãe de Deus:

“Minha alma glorifica o Senhor (…) porque lançou os olhos sobre a baixeza de sua serva, e eis que de hoje em diante me proclamarão bem-aventurada todas as gerações. Porque realizou em mim maravilhas Aquele que é poderoso e cujo nome é santo.”

Ezequiel, profeta da esperança

EzequielProfeta1Julieta Neves

Entre as eficazes e magníficas formas de Deus comunicar-se, há uma que particularmente nos atrai, é a palavra divina dirigida aos homens através de varões providenciais no decorrer das eras históricas; ademais se acompanhada por um exemplo de vida reta e justa. Para melhor delinearmos esse manifestar-se do Pai-Celeste, tomemos um profeta do antigo testamento: Ezequiel.

Ezequiel, o profeta das analogias, surge numa época terrível para o povo judeu: o exílio da Babilônia. As saudades de Jerusalém e o desejo de recuperar a vida que levava na Cidade Santa mantinham-no numa completa melancolia. “Junto aos rios da Babilônia nos sentávamos chorando, com saudades de Sião. Nos salgueiros por ali penduramos nossas harpas” (Si 136, 1-2).

A cada dia, cumpriam-se os terríveis oráculos outrora lançados pelo profeta Jeremias. Que esperança restava aos judeus?

No trigésimo ano do reinado de Joaquim, rei de Israel, no dia quinto do quarto mês, estando os deportados nas margens do rio Quebar, a palavra do Senhor é dirigida a um levita que compartilhava junto com seus irmãos a sorte do exílio. Precedido por um terrível furacão, aparecem quatro seres vivos, segurando uma enorme plataforma e, em cima, um trono esplendoroso. A glória do Senhor manifestou-se no meio deles e, entretanto, só a um foi permitido ver tão alto mistério.

Ilustre sacerdote da ordem de Melquisedec, Ezequiel é investido por Deus com uma altíssima missão profética. Para pô-la em prática, Deus lhe deu uma força extraordinária e tirou de sua alma todo e qualquer medo, como atesta o seguinte trecho de seu livro: “Tornarei o teu semblante tão endurecido quanto o deles; vou dar a teu rosto a rigidez do diamante, que é mais resistente que a rocha. Não os temas, pois, e não te deixes amedrontar por causa deles, pois são uma raça de recalcitrantes” (Ez 3, 8-9).

Ezequiel rompeu definitivamente com o passado, conclamando o povo de Israel a fazer o mesmo. Que coragem e que valentia teve este varão para animar um povo inteiro! Devia, como seu nome indica, confortar os desterrados de Jerusalém, atestando, apesar de tudo indicar o contrário, que Deus tinha feito uma nova aliança com eles: “Eu vos retirarei do meio das nações, eu vos reunirei de todos os lugares, e vos conduzirei ao vosso solo. Derramarei sobre vós águas puras, que vos purificarão de todas as vossas imundícies e de todas as vossas abominações. Dar-vos-ei um coração novo e em vós porei um espírito novo; tirar-vos-ei do peito o coração de pedra e dar-vos-ei um coração de carne.” (Ez 36,24-26)

Em certo sentido, a sua missão foi mais dura que a de Jeremias, por não contar mais com o privilégio de profetizar no Templo. Da “Cidade de Deus, a mais santa Morada do Altíssimo” (Sl 46, 5) não sobrava mais do que escombros e cinzas. Seu campo de ação teve de ser a praça pública, no meio dos idólatras e dos incircuncisos.

Entre as suas revelações, a visão do Templo (Cf Ez 43, 5) foi uma das mais importantes por tratar-se de uma prefigura da Igreja. A glória do Senhor tinha se retirado da cidade em ruínas porque não podia brilhar junto com a fraude e a idolatria. A construção de um novo Templo, desta vez no alto da montanha, a protegeria do contato com o profano.

Graças à sua pregação, os deportados compreenderam a gravidade do seu pecado e o justo castigo que Deus lhes impunha.

Ezequiel morreu antes de ver o seu ideal realizado, mas as suas profecias foram cumpridas: em breve Deus viria no meio deles e habitaria no seu Santuário para sempre.

Nossa Senhora das Maravilhas

Madre Mariana Morazzani Arráiz, EP

“Maria produziu, com o Espírito Santo, a maior maravilha que existiu e existirá: um Homem-Deus; e Ela produzirá, por conseguinte, as coisas mais admiráveis que hão de existir nos últimos tempos” (São Luís Grignion de Montfort).

São inumeráveis as maravilhas operadas pela Mãe de Deus ao longo desses vinte séculos de História da Igreja. Com razão, pois, o povo fiel, entre centenas de outros títulos, invoca a Imaculada Esposa do Espírito Santo como Senhora das Maravilhas.

Quando brotou da alma católica essa invocação?

Sabemos que ela já existia pelo menos desde as primeiras décadas da descoberta da América.

Na Catedral de Salvador, Bahia

Quando, em 1552, aportou na Bahia o primeiro Bispo do Brasil, Dom Pero Fernandes Sardinha, trazia ele uma preciosa imagem de Nossa Senhora das Maravilhas, presente do Rei Dom João III à recém-descoberta Terra de Santa Cruz.

Concluída a construção da Catedral da Sé de Salvador em 1624, seu Bispo, Dom Marcos Teixeira, entronizou na principal capela lateral a imagem de Nossa Senhora das Maravilhas, onde a Mãe de Deus passou a acolher com benevolência todos quantos a Ela vêm pedir auxílio.

Nossa Senhora das Maravilhas BrasilPoucos anos depois de ser entronizada nesta capela, o Menino Jesus que ela traz nos braços foi sacrilegamente furtado, quebrado em vários pedaços, lançado no lixo da cidade, onde foi depois encontrado, faltando uma das perninhas. Uma mulher ao procurar lenha encontrou esta perninha, e não sabendo o que era, lançou-a no fogo. Oh, maravilha! Para admiração da mulher, aquele pedacinho de madeira saltou para fora do fogo, sendo preservado. Deste modo se pôde restaurar o Divino Menino que foi devolvido aos braços da Mãe, com muito grande devoção.

O “estalo” do Padre Antonio Vieira

Por meio dessa imagem, o Senhor tem operado muitos e grandes milagres. Um dos mais conhecidos deu-se com o famoso Padre Antonio Vieira.

Tendo vindo menino para o Brasil, iniciou ele seus estudos no Colégio dos Jesuítas na Bahia. Nos primeiros tempos não passava de estudante medíocre, mal compreendendo as lições, a ponto de pensarem os superiores em dispensá-lo do Colégio.

Em seu grande desejo de ingressar na Companhia de Jesus, certo dia, já quase desesperado com sua dificuldade nos estudos, foi Vieira suplicar auxílio aos pés da Senhora das Maravilhas. No meio da oração, sentiu como um “estalo” em sua cabeça, acompanhado de uma dor muito forte que o prostrou por terra, dando-lhe a impressão de que ia morrer. Ao voltar a si, deu-se conta de que aquelas coisas que antes pareciam inatingíveis e obscuras à sua inteligência, tornaram-se claras. Assim, Vieira percebeu a enorme transformação ocorrida em sua mente.

Ao chegar ao Colégio, pediu que o deixassem participar das disputas com os colegas. Para espanto dos mestres, venceu todos os companheiros com o brilho de seu raciocínio. Daí por diante foi o primeiro e mais distinto aluno em todas as disciplinas, tornando-se um dos maiores oradores sacros e escritores da língua portuguesa.

Devoção na Espanha: o Menino Jesus das Maravilhas

Na Capital espanhola, o nome de Nossa Senhora das Maravilhas tem sua origem em fatos encantadores e poéticos, próprios à Virgem das Virgens.

Passeando pelo jardim de seu convento num dia de 1620, algumas fervorosas freiras carmelitas descobriram uma imagem do Menino Jesus recostada sobre um tufo de flores conhecidas pelo nome de maravilhas.

Cheias de surpresa, não sabiam elas o que mais admirar, se o diminuto tamanho do Menino, de apenas sete centímetros, se sua extrema formosura, ou se as circunstâncias em que foi descoberto. Com grande alegria e devoção, levaram-no para a capela, onde lhe improvisaram um altar ornado com as flores irisadas de amarelo e alaranjado, sobre as quais havia sido encontrado.

E começaram a invocá-lo como o Menino Jesus das Maravilhas.

Nossa Senhora das Maravilhas1Nossa Senhora das Maravilhas, imagem de madeira

Poucos anos depois, chegou a Madri uma antiga imagem da Virgem, cuja origem também está envolta nas brumas da história.

Consta ser ela do século XIII. Em 1585, estava exposta à veneração dos fiéis no povoado de Rodas-viejas, mas em tão deplorável estado de conservação que o Bispo de Salamanca mandou retirá-la da igreja. Alguns paroquianos, entretanto, não se conformaram com essa decisão. E um deles obteve autorização para ficar com a imagem em sua própria residência.

Tinha porém a Santíssima Virgem desígnios admiráveis a respeito dessa sua imagem. Após algumas vicissitudes, foi ela parar em Madri, tornando-se propriedade de Ana Carpia, esposa do escultor Francisco de Albornoz, o qual a restaurou na perfeição.

À residência desse católico casal começaram a afluir, em número cada vez maior, vizinhos e conhecidos para rezar diante dessa imagem, pois correra a notícia de que ali a Mãe de Bondade concedia favores a seus devotos.
Um estupendo milagre tornou-a famosa na cidade inteira. Numa lamentável explosão de ira, um caçador apunhalou brutalmente um jovenzinho das vizinhanças, deixando-o meio morto. A mãe do menino foi correndo prostrar-se diante da imagem, implorando a Nossa Senhora a cura do filho. Pouco depois, ficou ele totalmente são e salvo.

Diante desse prodígio, seguido de muitos outros, o Vigário Geral da Diocese ordenou a Ana Carpia que entregasse a imagem a alguma igreja. Como se vê, a própria Mãe de Deus se ocupou de, por meio de milagres, recuperar para essa sua imagem um trono em algum edifício sagrado.

Para qual igreja levá-la?

No mosteiro das carmelitas

A senhora Carpia decidiu escolher, mediante sorteio, um dos quatro conventos carmelitas então existentes em Madri. A sorte recaiu sobre o mosteiro onde aparecera anos antes o Menino Jesus das Maravilhas.

Assim, em 17 de janeiro de 1627, Ana Carpia e seu esposo fizeram lavrar em cartório o ato de doação da milagrosa imagem às freiras carmelitas. No dia 1º de fevereiro desse ano, foi ela transladada para o mosteiro em solene procissão, assinalada por um significativo fato: durante todo o trajeto, uma branca pomba sobrevoou a imagem e entrou com ela no interior da ermida, onde se deixou colher pelas monjas. Estas a consagraram à Virgem no dia seguinte, 2 de fevereiro, festa da Purificação de Maria, e a retiveram no convento.
As freiras ornavam as mãos sagradas da imagem com as flores chamadas de maravilhas. Em certo momento, uma delas teve a inspirada ideia de colocar sobre essas flores a minúscula imagem do Menino Jesus das Maravilhas, o qual adquiriu especial encanto posto nesse trono floral. Com isto, a Mãe acabou tomando o nome do Filho: Nossa Senhora das Maravilhas.

É esta a origem do belo nome da imagem venerada em Madri.

O manto de Nossa Senhora cura o Rei Felipe IV

Em 1639, atacado por conspiradores, ficou o rei gravemente ferido.

A notícia comoveu toda a corte. Ordenaram-se orações em todos os templos pela saúde do rei, especialmente na ermida da Senhora das Maravilhas.

A rainha Mariana d’Áustria pediu às carmelitas um manto da Virgem para colocá-lo sobre o leito do monarca. Apenas foi colocado, com grande surpresa para todos, o rei perguntou à rainha: “O que pusestes sobre mim, que me encontro inteiramente bem?”

Em gratidão por tão grande favor da Virgem das Maravilhas, o rei mandou construir às suas expensas a atual igreja, inaugurada em 1646. Ademais, criou um patronato presidido pela rainha e vários personagens da corte, com a obrigação de dotar o convento das Maravilhas com uma renda anual. O rei muitas vezes ia fazer exercícios espirituais com as carmelitas, dizendo que “lhe davam alentos para o exercício de seus altos deveres de Estado”.

Prodígios da Virgem das Maravilhas

Além da cura do rei e do menino moribundo, muitos outros fatos extraordinários aconteceram ao longo da história desta imagem.

Em 12 de agosto de 1675 armou-se uma grande tempestade durante o canto da Salve Rainha, entrando na igreja uma fagulha de um raio que causou dano a várias pessoas, entre elas uma menina de três anos que ficou como morta.

Aflito, seu pai a tomou nos braços e a pôs sobre o altar da Virgem, implorando misericórdia. Surpreendentemente, aos poucos, a menina voltou a si como se nada tivesse acontecido.

E em 1689, um pintor que estava trabalhando na abóbada da igreja, caiu sobre as pedras do presbitério, parecendo morto. Ante a invocação da Virgem e a aplicação de uma sua estampa, voltou a si e foi para sua casa andando normalmente.

Invocação mais bela e sugestiva não poderíamos sugerir a nossos leitores. Peçamos a Nossa Senhora que inunde a Terra com as torrentes da graça de que Ela é cheia, fazendo triunfar de maneira fulgurante o seu Imaculado Coração, abrindo para a humanidade, o quanto antes, uma nova era dos esplendores mariais.

A excelência da obediência na vida religiosa

obediênciaFlávia Cristina de Oliveira

A palavra obediência, proveniente do latim, ob audire, significa estar pronto para ouvir ou escutar. Por conseguinte, a obediência constitui um elo pelo qual o inferior une sua vontade à do superior para ouvir suas ordens de forma atenta e submissa. E conforme define São Tomás “a obediência torna a vontade do homem disposta a fazer a vontade de outro, a saber, daquele que manda”.1

A obediência é uma virtude moral e encontra-se em total dependência com a virtude cardeal da justiça, posto que dela deriva através da observância. Esta última, com efeito, tem por objeto próprio dar a cada um o que lhe corresponde.2

Deus constituiu o Universo de forma hierárquica, de maneira que os seres de naturezas inferiores fossem governados pelos superiores, embora pertençam a naturezas diversas; o mesmo ocorre com os seres dentro de um comum gênero: de animal para animal, de homem para homem, de anjo para anjo.

Levando isto em consideração, conclui-se que esta obediência que o inferior deve prestar ao superior é de direito natural, pois está inteiramente de acordo com a ordem posta por Deus no Universo, conforme nos propõe o Doutor Angélico:

“Como as ações das coisas naturais procedem das forças naturais, assim também as operações humanas procedem da vontade humana. Foi conveniente que, nas coisas naturais, as superiores movessem as inferiores à sua própria ação pela excelência do poder natural que Deus lhes concedeu. Portanto, nas coisas humanas, é necessário que as superiores movam por sua vontade as inferiores por força da autoridade concedida por Deus. Ora, mover pela razão e pela vontade é mandar. Por isso, como pela ordem natural instituída por Deus, nas coisas naturais, as inferiores são necessariamente submetidas à moção das superiores, assim também nas humanas, pela ordem do direito natural e do divino, as inferiores são obrigadas a obedecer às superiores”.3

Esta autoridade exercida por aqueles que são superiores é conferida por Deus. Pois, como afirma São Paulo, “não há autoridade que não venha de Deus” (Rm 13, 1). Por isso, toda autoridade legítima é merecedora de respeito e veneração.

Este foi o procedimento de Deus para com os homens desde o Antigo Testamento, enviando ao povo eleito, guias, “[…] patriarcas, homens de virtude excelsa e personalidade robusta, de Fé inquebrantável como Abraão, de pertinácia infatigável como Isaac”,4 e insignes profetas, como Elias, Moisés e tantos outros.

Isto se sublimou em alto grau no Novo Testamento. O Divino Mestre formou os seus Apóstolos nesta escola, e estes, transmitiram para toda a Igreja nascente: “Por amor ao Senhor, sede submissos a toda autoridade humana, quer ao rei, como soberano, quer aos governadores, como enviados por ele, para castigo dos malfeitores e para favorecer as pessoas honestas” (1 Pd 2, 13-14).

A submissão

Como vimos, a prática da obediência é necessária a todos os homens, pois ela está de acordo com a ordem posta por Deus no Universo, mas com o pecado original esta necessidade tornou-se mais viva na existência do homem. Em qualquer estado em que se encontre, ele se deparará nesta ou naquela circunstância às quais deverá obedecer. Se analisarmos a vida de um homem, veremos continuamente presente a obediência, a começar pela infância, quando terá ele de submeter-se aos pais, logo depois ao entrar para o colégio deverá obediência a seus professores; e, por fim, ao atingir a maturidade e optar por uma profissão será necessário impor-se dentro de certa disciplina a fim de alcançar determinado objetivo, ou então, se esta pessoa é chamada a uma vocação religiosa mais acentuada ainda será esta exigência, pois ela estará sujeita a um superior.

Será um mero acaso esta prática da obediência que vem inserida em todos os campos da vida humana?

Bem sabemos que isso não se trata de uma casualidade, mas de um meio de nos educarmos, pois uma vida de obediência bem levada põe em ordem a nossa vontade que se tornou tão corrompida pelo pecado original e, sobretudo, nos ensina qual deve ser nossa disposição de alma em face de nosso Redentor. Eis como exclama Santa Teresa: “ó virtude de obedecer que tudo podes!”,5 e São Francisco de Sales: “bem-aventurados os obedientes, porque Deus nunca permitirá que se extraviem!”.6

O sublime estado religioso

E se esta disposição de alma é exigida a qualquer cristão, podemos imaginar quanto mais daquele que por um desígnio especial de Deus é chamado a uma vocação religiosa, o que supõe sempre “um grande mistério de predileção para uma determinada alma […] e um abismo de amor seletivo por parte de Deus”,7 segundo as palavras do teólogo Padre Antonio Royo Marin. Devido a este extremado amor, cabe ao religioso uma única resposta que consiste numa dedicação total, sem condições.

Este estado de perfeição centra-se fundamentalmente na virtude da religião, em levá-la até as suas últimas consequências, nesta vida. “Nela nada há – na prática nada deve haver – que não seja total e essencialmente religioso.”8 Daí deriva este termo para aqueles que ingressam por esta via de entrega a Deus. Vejamos como nos explica São Tomás:

“O que convém em comum a muitos, atribui-se por antonomásia àquele a que convém por excelência. Assim, o nome de fortaleza vindica-o para si aquela virtude que nos faz conservar a firmeza de alma em face dos maiores perigos; […]. Ora, a religião, como estabelecemos, é uma virtude, pela qual nos dedicamos ao serviço e ao culto de Deus. Donde o se chamarem por antonomásia religiosos os que totalmente se consagram ao serviço divino, quase oferecendo-se em holocausto a Deus. Por isso diz Gregório: “Há pessoas que nada reservam para si, mas imolam os sentidos, a língua, a vida e a substância que receberam, ao Senhor onipotente”.9

O voto

Este oferecimento feito pelos religiosos baseia-se, sobretudo, na prática dos conselhos evangélicos, mediante os votos de pobreza, castidade e obediência (CIC 487); por meio destes, os religiosos têm a possibilidade de consagrar toda a sua vida a Deus e atingir mais facilmente a perfeição da caridade.

Uma vez que o holocausto significa entregar a Deus todos os bens e não reservar nada para si, nestes três votos estão contidas as três espécies de bens que o homem possui, a saber: os bens materiais que são entregues a Deus pelo voto de pobreza; o bem do próprio corpo que é consagrado a Deus pelo voto de castidade e por fim os bens da alma, que são oferecidos a Deus pelo voto de obediência. Este último constitui o mais excelente, pois se trata de oferecer a Deus a própria vontade.

Obediência religiosa excede os demais votos

Por isso o voto de obediência torna-se o principal dentre os outros, pois ele de si já contém os demais.

Uma razão mais nos dá o Doutor Angélico acerca da importância deste voto: afirma ser ele o mais essencial ao estado religioso, pois a obediência se refere propriamente aos atos relacionados ao fim da vida religiosa, e é justamente esta proximidade com o fim que lhe dá maior excelência. Desta forma, ninguém poderá pretender ser religioso se não tem o voto de obediência, ainda que tenha feito os votos de pobreza e castidade.10

A respeito desta temática, Plinio Correa de Oliveira comenta:

“Como é belo ser virgem, mais belo ainda é ser monge!” [afirma Santo Agostinho]. […] como o monge renuncia à sua própria vontade para, dentro de um convento e dentro de uma clausura, fazer a vontade de Deus, ele fica elevado a um estado que é mais belo que o próprio estado de virgindade. De maneira que alguém que tivesse a virgindade no século, mas não fosse monge, este não teria a alma tão bela quanto alguém que fosse um bom monge, embora antes tivesse tido a desgraça de perder a virgindade. Quer dizer, existe neste ato de conformidade, neste ato de obediência, por onde a gente se enclausura, por onde a gente faz inteiramente a vontade de Nossa Senhora, e vive de acordo com um regulamento que a vocação suscitou em nós, neste ato pelo qual a gente renuncia a fazer seus caprichos, a estar correndo de um lado para o outro, toma uma diretriz dentro da vida, consagra toda a sua vida a servir Nossa Senhora. Existe nisso uma beleza tal, que é mais bela do que a própria beleza da virgindade”.11

E [São Tomas de Aquino] diz: “A virgindade prepara o homem para cogitar as coisas de Deus; a vida monacal é mais bela do que isso, por que já é a própria cogitação das coisas de Deus”.

A renúncia da própria vontade

Nosso Senhor Jesus Cristo declara: “ninguém há que tenha abandonado, por amor do Reino de Deus, sua casa, sua mulher, seus irmãos, seus pais ou seus filhos, que não receba muito mais neste mundo e no mundo vindouro a vida eterna” (Lc 18, 29-30). Ora esta promessa de Nosso Senhor se realiza irrevogavelmente desde que haja uma sincera renúncia, conforme Ele afirma: “Se alguém me quer seguir, renuncie-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mc 8, 34). Esta disposição de alma consolida-se, sobretudo, na obediência.

À primeira vista, esta vida de obediência pode parecer algo impossível, pois, ao orgulho e ao desejo de ser senhor de suas vontades acrescenta-se mais um fator: “o maligno, sabendo que o caminho que leva mais depressa à suma perfeição é a obediência, põe muitos dissabores e dificuldades disfarçados de bem; […] parece sobremodo difícil (…) o contentar-nos com coisas que em tudo contradizem a nossa vontade, de acordo com o nosso natural.”12

Para certas pessoas, a própria vida de clausura é uma espécie de cárcere, onde é obrigada a cumprir uma porção de regras. Porém, a realidade é muito diferente, trata-se de um laço que nos une mais estreitamente a Ele, Nosso Senhor Jesus Cristo, pois nesta via de obediência “Deus fala não mais como Senhor que manda, senão um Pai que manifesta seu desejo. Esta obediência não é mais a atitude de quem serve sob a pena de não cobrar seu salário e perder seu pão, mas é a atitude do filho que extrai de seu amor as energias necessárias para fazer de boa vontade o que seu pai deseja”.13 E como nos ensina Santa Teresa:

“O amor, contudo, tem tamanha força, se for perfeito, que desprezamos nosso próprio contentamento para contentar aquele a quem amamos. […] Por maiores que sejam os sofrimentos, logo se tornam suaves quando sabemos que, com eles, agradamos a Deus. Quem chegou a esse ponto ama desse modo as perseguições, as desonras e as ofensas. […] O que pretendo explicar é o motivo de a obediência ser o caminho ou meio mais rápido para chegar a esse estado tão prazeroso. Como de maneira alguma somos senhores da nossa vontade, para empregá-la pura e simplesmente em Deus, enquanto não a tivermos submetido à razão, a obediência é a via régia para essa sujeição”.14

A este respeito encontramos o testemunho de grandes santos. Por exemplo, Santa Joana de Chantal exclamava: “Com vossa divina graça resolvo, Senhor, seguir em tudo vossas ordens e vossos desejos sem buscar jamais minha própria vontade”15 ; ou então, num exemplo ainda mais próximo de nós, Santa Teresinha do Menino Jesus, em uma carta que dirige à sua superiora: “Ó minha Madre, de quantas inquietações nos livramos fazendo voto de obediência! Como são felizes as simples religiosas! Já que a vontade dos superiores constitui sua única bússola, estão sempre seguras de se encontrarem no caminho reto”.16 Santa Teresinha alcançou a obediência perfeita e seguiu as vias de uma sujeição completa à vontade de Deus; sem se preocupar em fazer grandes mortificações físicas, se limitou apenas em cumprir as prescrições de sua Regra, pois tinha pela obediência um enorme apreço e chegou a escrever: “A Obediência é minha forte couraça e o escudo do meu coração”.17

Os frutos desta perfeita renúncia

É de muita valia ressaltar também alguns fatores que concorrem para a excelência da obediência na vida religiosa, segundo ensina Valuy.

a)No obséquio que se faz a Deus:

“Não se trata mais das riquezas da terra, como no voto de pobreza; nem das satisfações corporais, como a castidade; senão que consagra a Deus o que o homem tem de mais nobre, de mais precioso e de mais íntimo: sua própria liberdade”18; […] “já que é dom supremo do amor entregar não só o que se possui- coisa bem precária- mas o que se é”.19

b)Nos traços de semelhança que nos faz ter com Nosso Senhor Jesus Cristo:

O religioso pode afirmar com Ele, o Obediente por excelência: “não busco a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (Jo 5,30). E dizer também a respeito de si: “Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e cumprir a sua obra” (Jo 4,34); desta maneira ele se assemelha Àquele que é o modelo da mais sublime obediência.

c)Na dignidade e perfeição que comunica à vontade:

“A conformidade mais real, mais íntima, mais profunda, é a que existe entre duas vontades”20, assevera Tanquerey, e é propriamente esta afinidade que Deus quer estabelecer com os homens; este Seu desejo se satisfaz especialmente com aqueles que entregam a Ele sua vontade, pelo voto de obediência. E conforme atesta Santa Teresa, o nosso intelecto e a nossa vontade se enobrecem quando, esquecendo-se de si, tratam com Deus.21 Logo, “[…] pelo voto de obediência o religioso une seu entendimento e sua vontade ao entendimento e à vontade de Deus; faz-se um mesmo espírito com Deus e pode, com razão, lisonjear-se de pensar e de querer como Deus, de fazer o que Deus quer, como quer e porque quer”.22

d)Na influência que exerce sobre todas as virtudes:

“Se desejais enriquecer-vos pronta e facilmente de todas as demais virtudes, não abandoneis jamais o salutar exercício da obediência”23 , assegura Santa Maria Madalena de Pazzi. E continua Valuy: “Ela as planta, as rega e as faz frutificar; conserva-as, sustenta sintetiza e supre. Dá-lhes forma e mérito, valor e vida”.24

e)No sinal de predestinação que nela se encontra:

“Não sendo outra coisa o pecado, senão uma desobediência à lei divina, o que consagra a sua vida à obediência se coloca em certa impossibilidade de pecar; e, se o único obstáculo para a salvação está no pecado, ele toma o caminho mais seguro, curto e fácil para alcançar a salvação eterna. Que abundância de graças durante a vida, que consolos na hora da morte, que glória e que destino não concede Deus na eternidade, ao religioso que por seu amor sacrificou tudo e até a sua própria pessoa!”25

Desta maneira, o religioso ao passar desta vida para a eternidade, poderá com toda alegria exclamar:

“Senhor, eu também estive crucificado convosco, como Vós e por Vós. Meus pés e minhas mãos, minha língua e todos os meus sentidos, minha inteligência, minha liberdade, minha vontade, meu ser todo inteiro foi crucificado, […]. A obediência foi meus cravos e minha cruz. E agora, Senhor, posto que Vos segui até o Calvário, mandai-me entrar convosco na glória”.26

Por fim, cabe-nos reconhecer a grandeza desta virtude, para nos empenharmos em praticá-la e nela nos refugiarmos. A obediência nos dá uma felicidade insubstituível posto que ela nos faz renunciar o que há de mais precioso para nós: a nossa própria vontade.27

O fato de existir almas que amam e desejam praticar a virtude da obediência é uma proclamação da autêntica liberdade dos verdadeiros filhos da luz no meio das trevas desse mundo que se gloria da libertinagem das paixões e da total independência a qualquer forma de hierarquia e autoridade.

1 “obedientiam reddit promptam hominis voluntatem ad implendam voluntatem alterius, scilicet praecipientis” (Ibid. II-II, q. 104, a 2 ad. 3).
2 ROYO MARÍN, Antonio. La vida religiosa. 2. ed. Madrid: BAC, 1965. p. 325.
3 “Respondeo dicendum quod sicut actiones rerum naturalium procedunt ex potentiis naturalibus, ita etiam operationes humanae procedunt ex humana voluntate. Oportuit autemin rebús naturalibus ut superiora moverent inferiora ad suas actiones, per excellentiam naturalis virtutes collatae divinitus. Unde etiam oportet in rebús humanis quod superiores moveant inferiores per suam voluntatem, ex vi auctoritatia divinitus ordinatae. Movere autem per rationem te voluntatem est praecipere. Et ideo, sicut ex ipso ordine naturali divinitus instituto inferiora in rebús naturalibus necesse habent subdi motioni superiorum, ita etiam in rebús humanis, ex ordine iuris naturalis et divini, tenentur inferiores suis superioribus obedire” (SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. II-II, q. 104, a.1).
4 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. A Imagem Sacra pode expressar muito mais do que a palavra. Op. cit. p.10
5 SANTA TERESA DE JESUS. Livro da vida. In: Obras Completas. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2002. p. 115.
6 “Bienaventurados los obedientes, porque Dios nunca permitirá que se extravíen” (SÃO FRANCISCO DE SALES. Obras selectas. Madrid: BAC, 1953. Vol. I. p. 153. Tradução da autora).
7 “[…] un gran misterio de predilección hacia una determinada alma […] un abismo de amor selectivo por parte de Dios” (ROYO MARIN, Antonio. La vida religiosa. Op.cit. p. 145.Tradução da autora).
8 “Nada hay- en la práctica nada debe haber- en ella que no sea total y esencialmente religioso” (Ibid. p. 135. Tradução da autora).
9 “Id quod communiter multis convenit, antonomastice attribuitur ei cui per excellentiam convenit: sicut nomen fortitudinis vindicat sibi illa virtus quae circa difficillima firmitatem animi servat;[…]. Religio autem, ut supra habitum est, est quaedam virtus, per quam aliquis ad Dei servitium et cultum aliquid exhibet. Et ideo antonomastice religiosi dicuntur illi qui se totaliter mancipant divino servitio, quasi holocaustum Deo offerentes. Unde Gregorius dicti, super Ezech. (Homil. XX): Sunt quidam qui nihil sibimetipsis reservant; sed sensum, linguam, vitam atque substantiam, quam perceperunt omnipotenti Domino immolant” (SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. II-II, q. 186, a.1).
10 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. II-II, q.186, a. 8.
11 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Este êremo é a obra-prima de Nossa Senhora: Palestra. São Paulo, 13 set. 1971. (Arquivo IFTE).
12 SANTA TERESA DE JESUS. Fundações. In: Obras Completas. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2002. p. 616.
13 “[…] nos fala Dios, no ya como Señor que manda, sino como Padre que manifiesta un deseo. Esta obediencia no es ya el acto del que sirve bajo pena de no cobrar su salario y perder su pan, sino el acto del hijo que saca de su amor energías para hacer lo que su padre desea de su buena voluntad” (MAUCOURANT, F. Op. cit. p. 61. Tradução da autora).
14 SANTA TERESA DE JESUS. Fundações. Op. cit. p. .
15 “Con vuestra divina gracia resuelvo, Señor, seguir en todo as vuestras ordenes y vuestros deseos sin buscar jamás mi proprio gusto” (MAUCOURANT, F. Op. Cit. p.56. Tradução da autora).
16 SANTA TERESINHA DO MENINO JESUS. Caminhando para Deus. 9. ed. São Paulo: Paulus, 1997. p. 254.
17 Ibid. p. 257.
18 “no es ya la fortuna de la tierra, como la pobreza; ni las satisfacciones corporales, como la castidad; sino que consagra a Dios lo que tiene el hombre de más noble, de más precioso y de más intimo: su misma libertad” (VALUY, Las virtudes del religioso, apud ROYO MARIN, Antonio. La vida religiosa. Op. cit. p. 333. Tradução da autora).
19 “ya que es don supremo del amor entregar no sólo lo que se posee -cosa bien minguada-, sino lo que uno es” (VALUY, Tratado breve del religioso, apud ROYO MARIN, Antonio. La vida religiosa. p. 331. Tradução da autora).
20 TANQUEREY, Adolfe. Compêndio de Teologia ascética e mística. 6. ed. Porto: Apostolado da Imprensa, 1961, p. 238.
21 SANTA TERESA DE JESUS. Castelo interior. In: Obras Completas. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2002. p. 449.
22 “[…] por el voto de obediencia une el religioso su entendimiento y su voluntad al entendimiento y voluntad de Dios; se hace un mismo espíritu con Dios y puede, con razón, lisonjearse de pensar y de querer como Dios quiere, como lo quiere y porque quiere” (VALUY, Las virtudes del religioso, apud ROYO MARIN, Antonio. La vida religiosa. Op.cit. p. 334. Tradução da autora).
23 “Si deseáis enriqueceros pronta y fácilmente de todas las virtudes, no abandonéis jamás el salutable ejercicio de la obediencia” (SANTA MARIA MADALENA DE PAZZI apud MAUCOURANT, F. Op. cit. p.141. Tradução da autora).
24 “Ella las planta, las riega y las hace fructificar; las conserva, las sostiene, las compendia y las suple; les da forma y mérito, precio y vida” (Id. Las virtudes del religioso, apud ROYO MARIN, Antonio. La vida religiosa. p. 334).
25 “No siendo otra cosa el pecado que una desobediencia a la ley divina, el que consagra su vida a la obediencia se pone en cierta imposibilidad de pecar; y, por cuanto el único obstáculo para salvación está en el pecado, toma el más seguro, el más corto y el más fácil camino para la salvación. ¡Qué abundancia de gracias durante la vida, qué consuelos en la hora de la muerte, qué gloria y que dicha no concede Dios en eternidad al religioso que por su amor lo ha sacrificado todo, y se ha sacrificado a si mismo!” (Loc. Cit. Tradução da autora).
26 “yo también, Señor, he estado crucificado con Vos, como Vos e por Vos. Mis pies y mis manos, mi lengua, todos mis sentidos, mi inteligencia, mi libertad, mi voluntad, mi ser todo entero ha sido crucificado, […]. La obediencia ha sido mis clavos y mi cruz. Y ahora, Señor, puesto que os he seguido al Calvario, mandadme entrar con Vos en la gloria” (Loc. Cit. Tradução da autora).
27 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Obedecer sempre e com alegria: Homilia. São Paulo, 18 jan. 2010. (Arquivo IFTE).