A vida, um sopro que passa…

Ir Maria Teresa Ribeiro Matos, EP

Para ninguém se apresenta como novidade o qualificativo desta Terra como um vale de lágrimas. A vida com suas repetições e rotinas – noite e dia, sol e chuva, frio e calor, trabalho e descanso, saúde e doença, gáudios e tristezas – nunca constituirá um paraíso só de delícias.

Tudo nesta Terra é passageiro, “a vida do homem não é mais do que um sopro” (Sl 61,10), cantava o salmista. Assim sendo, o homem que coloca demasiada esperança em si mesmo e nas coisas desse mundo, todas perecíveis, facilmente cai na desilusão.

É o que nos diz Cecília Meirelles em seu poema: “Anda o sol pelas campinas/ e passeia a mão dourada/ pelas águas, pelas folhas…/ Ah! tudo bolhas/ que vêm de fundas piscinas/ de ilusionismo… – mais nada. […] Porque a vida, a vida, a vida,/ a vida só é possível/ reinventada”1 .

A escritora não foi a primeira a descrever o desencanto das coisas terrenas. Há mais de três mil anos já descrevia essa situação o mais poderoso e mais sábio dos monarcas que Israel conheceu, o Rei Salomão, no livro do Eclesiastes.

Vaidade das vaidades, diz o Eclesiastes, vaidade das vaidades! Tudo é vaidade. Que proveito tira o homem de todo o trabalho com que se afadiga debaixo do sol? Uma geração passa, outra vem; mas a terra sempre subsiste. O sol se levanta, o sol se põe; apressa-se a voltar a seu lugar; em seguida, se levanta de novo. O vento vai em direção ao sul, vai em direção ao norte, volteia e gira nos mesmos circuitos. Todos os rios se dirigem para o mar, e o mar não transborda. Em direção ao mar, para onde correm os rios, eles continuam a correr. Todas as coisas se afadigam, mais do que se pode dizer. A vista não se farta de ver, o ouvido nunca se sacia de ouvir. O que foi é o que será: o que acontece é o que há de acontecer. Não há nada de novo debaixo do sol. Se é encontrada alguma coisa da qual se diz: Veja: isto é novo, ela já existia nos tempos passados. Não há memória do que é antigo, e nossos descendentes não deixarão memória junto daqueles que virão depois deles.

Eu, o Eclesiastes, fui rei de Israel em Jerusalém. Apliquei meu espírito a um estudo atencioso e à sábia observação de tudo que se passa debaixo dos céus: Deus impôs aos homens esta ocupação ingrata. Vi tudo o que se faz debaixo do sol, e eis: tudo vaidade, e vento que passa (Ecle 1, 2-14).

Entretanto, há uma solução para esse dissabor da vida. A própria autora do poema no-la descreve ao dizer: “A vida só é possível reinventada”.

No que consiste, então, essa reinvenção da vida? Em reinventar o seu conceito. Vejamos os diversos modos de vê-la.

Se considerarmos que o fim último do ser humano se cumpre nesta Terra e que tudo acaba com a morte, que não existe uma realidade superior além da que constatamos com nossos sentidos, então realmente tudo é vaidade, tudo é ilusão!

Mas outra é a certeza que nos dá a fé católica: o homem está nesta Terra apenas como peregrino, sua existência aqui é uma preparação para a verdadeira vida que se inicia após sua morte, e que é eterna. Assim sendo, tudo o que o homem faz, sente e quer tem uma repercussão na eternidade e nada constitui uma repetição tediosa e sem sentido, mas sim um mérito ou demérito conquistado para a vida futura.

Ademais, Deus, Pai providente, está sempre orientando e agindo na História da humanidade. Eis uma bela reinvenção da vida: contemplar o agir de Deus, seja na natureza — como um belo pôr de sol ou uma suave nevada —, seja na alma de nossos semelhantes, como, por exemplo, a candura de uma criança inocente ou o desvelo carinhoso de uma mãe. Atentos a essas maravilhas proporcionadas pelo Altíssimo, abstraimo-nos do material e corriqueiro da vida e desvendamos, assim, o verdadeiro sentido dela.

Reinventada deste modo, a vida se tornará não só possível, mas também bela e atraente.

1MEIRELES, Cecília. Flor de poemas. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1972, p. 94.

Fera ou Anjo

Irmã Isabel Cristina Lins Brandão Veas, EP

Encantadoramente vivaz, delicado e distinto em todos os seus gestos, o gato é um verdadeiro bibelô vivo. Mas conserva em seu olhar a terrível e atraente superioridade do mistério.

Apesar de tão irracionais quanto o universo inanimado, os animais realçam aos nossos olhos a grandeza e a sabedoria do Altíssimo, no insondável mistério da vida, a qual enobrece as criaturas a ponto de uma minúscula formiguinha ocupar, na ordem dos seres, posto mais elevado do que um imponente penhasco sobre o qual esteja caminhando.

Mas o mundo animal nos sugere também outras ideias. Enquanto as espécies mais elegantes e atraentes nos reportam logo à Beleza Suprema, diante daquelas disformes e repulsivas “sentimos melhor nossa dignidade natural, compreendemos a fundo a hierarquia que o Senhor pôs no universo e, amando nossa própria superioridade e a santa desigualdade da criação, elevamo-nos também até o Criador”. 1

Ademais, tal é a magnificência da fauna que, observando-a em seus detalhes, veremos como muitas espécies apresentam, em seu modo de ser, analogias com qualidades e defeitos do homem, proporcionando valiosos conhecimentos a quem as analisa. Pode-se aplicar, aqui, as palavras de Jó: “Pergunta, pois, aos animais, e eles te ensinarão, às aves do céu e elas te instruirão. Fala aos répteis da terra, e eles te responderão, e aos peixes do mar, e eles te darão lições” (Jó 12, 7-8).

Vejamos, então, que ensinamentos nos proporciona um animal de extraordinária riqueza de aspectos: o gato.

Difícil de ser definido é o seu comportamento, capaz de atingir extremos opostos. Tomando ares de pouco caso a respeito do que se passa à sua volta, o sutil felino não se desliga em nenhum momento da realidade exterior; deita de vez em quando um olhar vigilante, deixando entrever uma cautela disfarçada pela aparente despreocupação. Cautela tão acesa que ele nunca escorrega dos estreitos muros onde caminha, dando mostras de desconhecer a vertigem. E, se o derrubam, sempre cai de pé. Porém, ao mesmo tempo, por detrás dos olhos perscrutadores desse membro da família dos felídeos, se oculta um tigrezinho disposto a arranhar, morder ou quebrar tudo quanto estiver à sua frente, quando alguém ousa perturbá-lo.

Contudo, quando essa pequena fera é domesticada, sua rudeza natural desaparece e ela se transforma em um animal “encantadoramente vivaz, delicado e distinto em todos os seus gestos, expressivo em suas atitudes, carinhoso, mimoso, em suma, um verdadeiro bibelô vivo. Bibelô, entretanto, que não tem certo ar de bagatela, inseparável em geral até dos bibelôs mais finos. Porque em seu olhar, que tem algo de magnético e insondável, de reservado e enigmático, o gato conserva a terrível e atraente superioridade do mistério”. 2 Amansado pelos cuidados da civilização e acostumado ao convívio das pessoas educadas, o bichano adquire um cunho de graça e vivacidade, e quase parece ter algo de espiritual.

Sob tal aspecto, não será difícil ao homem encontrar nesse felino uma semelhança com sua própria natureza, pois, muito mais do que no gato, há nesta uma dualidade: “O homem, concebido em pecado original, tem em si, por assim dizer, uma fera e um anjo”.3

Com o Batismo, é dado ao homem o elemento indispensável para tornar-se semelhante aos espíritos celestes: a graça. Fiel a ela, o cristão adquire tal similitude com o mundo angélico que o Apóstolo não hesita chamá-lo de “homem espiritual” (I Cor 2, 15). E aqui cessam as analogias entre gato e homem, sob este ponto de vista. A alma santificada em nada se assemelhará a um mimoso felino, porque a graça não produz bibelôs, mas forma heróis, em sua principal e constante batalha contra a “fera” que se encontra dentro de si mesma.

1CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Não se deve tirar o pão dos filhos para lançá-lo aos cães. Ambientes, Costumes, Civilizações. In: Catolicismo. Campos dos Goytacazes. Ano VII. N.81 (Set., 1957); p.7.
2 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Civilização e Tradição. Ambientes, Costumes, Civilizações. In: Catolicismo. Campos dos Goytacazes. Ano X. N.109 (Jan., 1960); p.7.
3 Idem, ibidem.

É necessário ser pacífico?

Bruna Corrêa

Ao percorrer as bem-aventuranças — código sublime da santidade — enunciadas pelo Divino Mestre no Sermão da Montanha, retomando as promessas feitas ao povo eleito desde Abraão, encontram-se os meios pelos quais o verdadeiro cristão pode alcançar a felicidade eterna: a visão de Deus, a participação na natureza divina, a vida eterna, o repouso em Deus.

Por ora trataremos da sétima bem-aventurança: “Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5,9).

Em que consiste propriamente o ser pacífico, para ser chamado de filho de Deus? Pacífico é aquele que procura primeiro estabelecer a ordem em si mesmo, em seguida, nos outros e, como consequência, em todas as coisas, analisando tudo sob o prisma sobrenatural, ou seja, da visão do próprio Deus. E ser chamado filho de Deus, herdeiro de Cristo, é o supremo prêmio desta bem-aventurança.

À prática de cada bem-aventurança evangélica somos assistidos com uma virtude e um dom do Espírito Santo. Quanto à sétima, da qual estamos tratando, cabe a virtude teologal da caridade, a mais excelente, a virtude prínceps, rainha dentre todas, que ultrapassa os umbrais da eternidade, sem a qual nada se faz, como afirma o Apóstolo: “Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos Anjos, se não tiver caridade, sou como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine” (cf. Cor 13, 1).

Já o dom correspondente a essa bendita máxima é o de sabedoria, através do qual a alma em graça passa a julgar todas as coisas por suas últimas e mais altas causas, numa contemplação altíssima da ordem do universo, participando, assim, da visão do Criador.

Bossuet aconselha aqueles que desejam ser “filhos de Deus” que tenham “sempre palavras de reconciliação e de paz, para dulcificar a amargura de nossos irmãos contra nós ou contra os outros; que procurem sempre amenizar as más referências, evitar as inimizades, as friezas, as indiferenças, enfim, reconciliar os que estão em desacordo. Isso é fazer a obra de Deus e mostrar-se filhos seus, imitando sua bondade”.1

Assim, podemos afirmar que a filial submissão aos desígnios de Deus torna o homem de tal modo equilibrado e fortalecido na virtude, que pacifica tudo a seu redor. Onde está um santo, ali há grande paz, porque ele ordena todas as coisas de acordo com o estado de seu interior. E os justos desejam ser pacíficos para serem chamados filhos de Deus (cf. Mt 5, 9).

1 BOSSUET. Meditations sur l’Évangile. Versailles: Lebel, 1821, p.18-19.

Água mole em pedra dura…

Fahima Spielmann

Por muito ousado que seja o pedido feito por nós ao Altíssimo, sempre será possível transpor as “rochas” da justiça divina, alcançando d’Ele misericórdia.

Ao percorrer as primeiras páginas das Sagradas Escrituras, curioso é notar a misteriosa predileção demonstrada por Deus para com as águas. Quando a Terra estava ainda deserta e vazia, e as trevas cobriam o abismo, o Espírito do Altíssimo já pairava sobre elas (cf. Gn 1, 2). E logo após criar o dia e a noite, deu origem aos rios e oceanos, com os quais cobriu a maior parte da superfície terrestre.

Sempre benéfica para o homem, a água se reveste dos mais variados aspectos. É tranquila e poética nos lagos, majestosa e enigmática nas altaneiras ondas do imenso mar, delicada e silenciosa no orvalho, ou abundante e fecunda na chuva. Entretanto, nas torrentes e cachoeiras, o líquido elemento, suave e acariciador das lagoas e do sereno, torna-se capaz de perfurar a rocha, lembrando o famoso adágio: “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura!”.

De fato, são as cascatas símbolo daqueles que, sentindo-se fracos como gotas d’água — não raras vezes contaminadas pelo pecado —, perseveram na sua oração até conquistar o impossível. Porque por muito ousado que seja o pedido feito por nós a Deus, sempre será possível transpor as “rochas” da justiça divina, alcançando d’Ele misericórdia. O segredo, segundo São João Crisóstomo, grande Doutor da Igreja, está na persistência: Não há o que não se obtenha pela oração, ainda que se esteja carregado de mil pecados, contanto que ela seja instante e contínua”. 1

Assim nos instruiu também o próprio Cristo. Atendendo ao pedido dos discípulos de ensinar-lhes como se devia orar, revelou-lhes o Painosso, e logo após narrou a parábola do homem que bate à porta do amigo à meia-noite pedindo pães. Nesta, o dono da casa já dormia com toda sua família; contudo, venceu os incômodos naturais a fim de dar ao outro o que pedia, por causa de sua insistência. Conclui Nosso Senhor: “Eu vos digo: no caso de não se levantar para lhe dar os pães por ser seu amigo, certamente por causa da sua importunação se levantará e lhe dará quantos pães necessitar” (Lc 11, 8).

Ninguém pode querer-nos tão bem quanto o próprio Deus, pois Ele nos ama infinitamente mais do que nós possamos nos amar. Às vezes, porém, antes de nos conceder certas graças, Ele deseja ver-nos pedir com perseverança. Age como uma mãe que, querendo dar um presente muito valioso para o filho, o faz ansiá-lo antes de concedê-lo.

A nós compete não desanimarmos e pedirmos com persistência, de modo análogo às quedas da cachoeira, confiando não na pureza das águas de nossas obras, mas na insistência de nossa oração. “Pedi e vos será dado; procurai e encontrareis; batei e a porta vos será aberta. Pois todo aquele que pede recebe; quem procura encontra; e a quem bate a porta será aberta” (Lc 11, 9-10).

1Cf. SÃO JOÃO CRISÓSTOMO. In Matthaeum. Hom. XXIII, n.4: MG 57, 312-313.

Obedecer: como?

Irmã Clara Isabel Maria de la Asunción Morazzani Arráiz, EP

A obediência vale mais que as vítimas; e é melhor obedecer do que oferecer a gordura dos carneiros” (1Sm 15, 22) .

A palavra obediência, derivada do latim, ob audire, significa ouvir ou escutar. A obediência implica, pois, da parte daquele que a pratica, uma atitude de escuta submissa e atenta com relação aos conselhos ou ordens que o superior venha a lhe dar.

Vejamos agora os diversos graus da perfeição da obediência, definidos por Santo Inácio de Loyola em sua carta aos religiosos de Portugal1:

1°) Obediência de execução:

Como indica seu nome, trata-se de uma obediência meramente natural, que executa exteriormente as ordens do superior, sem conformar a vontade com a deste. Esta obediência carece totalmente de méritos sobrenaturais e mais se parece ao automatismo de uma máquina.

2°) Obediência de vontade:

Implica numa submissão interna, por parte do inferior, em relação à vontade do superior. Aquele considera este como representante de Deus nesta terra e submete sua vontade alegremente, disposto a superar todos os sacrifícios que lhe são exigidos, ainda que experimente uma involuntária repugnância, nascida de sua natureza, em relação à ordem recebida. Esta repugnância, ao contrário, lhe proporcionará um aumento dos méritos. Assim afirma São Tomás de Aquino:
“Se porém, o ato prescrito não é de maneira alguma querido por si mesmo, contraria a própria vontade, como ocorre nas coisas difíceis, então fica absolutamente evidente que a ordem só é cumprida por causa do preceito”.2

Por isso Gregório afirma: “A obediência que se realiza plenamente quando é agradável é nula ou menor”, porque a vontade própria não parece tender essencialmente ao cumprimento do preceito, mas simplesmente à satisfação de seu próprio querer. “Nas dificuldades, porém, ou em coisas difíceis a obediência é maior”, porque a vontade própria não tende a outra coisa a não ser ao cumprimento do preceito.

Entretanto, a obediência de vontade, não atinge ainda a suprema perfeição nesta virtude. “Com a obediência de vontade, assinala Royo Marín, cabe ainda a discrepância de juízo”.3

3°) Obediência de juízo:

Este último grau de obediência é assim definido por Royo Marín:

Consiste em obedecer a ordem recebida, não somente com prontidão de vontade, mas rendendo inclusive nosso juízo interior para conformá-lo com o do superior”.4

Assim se exprime o próprio Santo Inácio em sua famosa carta: “Mas quem pretende fazer inteira e perfeita oblação de si mesmo, além da vontade, é necessário que ofereça o entendimento (que é outro grau e supremo da obediência), não somente tendo um querer, mas tendo um mesmo sentir com o superior, sujeitando o próprio juízo ao seu, em tudo o que a devota vontade possa inclinar o entendimento”.5

Em breves palavras, Maucourant nos descreve o estado de alma daquele que atinge essa plenitude: “A alma que chega a tal estado de união permanece humana, isto é, sensível às coisas exteriores, sensível à tentação e à prova; mas sua vontade permanece irrevogavelmente unida a Deus”.6

Séculos antes, São Basílio estabelecera uma escala na obediência, semelhante à definida por Santo Inácio:

Há três modos diferentes de obedecer: separando-nos do mal pelo temor do castigo, e, então, colocamo-nos numa atitude servil; ou com o objetivo de alcançar o prêmio oferecido, e neste caso assemelhamo-nos aos mercenários; ou por amor ao bem e por afeto àquele que nos manda, e então, imitamos a conduta dos bons filhos.7

A perfeição se cifra num supremo ato de amor, que chega ao holocausto da vontade e do entendimento, oferecendo a Deus a entrega radical do próprio ser. “Vivo, mas já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (Gl. 2, 20).

Entre as muitas qualidades que caracterizam a perfeita obediência, há duas de capital importância e sobre as quais é forçoso falar. São elas: prontidão e alegria.

Prontidão

“Retardar uma ação que nos é mandada, explica Maucourant, é torná-la defeituosa, pois equivale a substituir-se à regra e aos superiores numa parte do ato, atribuindo-se o direito de determinar a hora”.8

Os exemplos na vida dos santos nos fornecem largamente argumentos para perceber o quanto Deus ama essa presteza e diligência em obedecer. Certa vez, contam as crônicas cistercienses, o sino do mosteiro tocou, chamando os monges para as tarefas de limpeza. São Bernardo achava-se neste momento arroubado em êxtase diante do próprio Jesus que lhe aparecera. Apesar disso, dispôs-se ele a atender a voz do sino. Ao voltar, encontrou Jesus que o esperava: “Bernardo, disse-lhe, se tu não me houvesses deixado, te haveria deixado Eu”.9

Na disciplina militar, o soldado que, recebendo a ordem de um oficial, não corre apressado para cumpri-la é condenado a algumas horas de prisão. Se assim se passa entre os homens do século, quanto mais deverá ser entre os servidores de Deus, não pelo temor do castigo, mas pelo amor Àquele que manda e que promete tantas recompensas?

Quem, pois, obedece prontamente, deve estar convicto de que, procedendo assim, está acumulando méritos duplamente e se assemelhará mais a Cristo que “entrando no mundo” exclama: “Eis que venho fazer a tua vontade”(Hb 10, 5.9).

Alegria

Para o obediente fervoroso, não basta apenas dar tudo e com presteza, é preciso dar alegremente, pois “Deus ama o que dá com alegria” (2Cor. 9, 7).

Quem obedece de má vontade e com queixas, não ama verdadeiramente a Deus, nem os mandatos transmitidos por seus ministros. Embora haja tanta glória, doçura e proveito em servir a Deus, prefere seus próprios interesses a doar-se inteiramente!

Essa alegria que deve acompanhar a obediência é qualificada por São Bernardo como “o colorido que faz a formosura desta e seu ornamento e brilho.10

Finalmente, esta alegria comove tanto o coração de Jesus Cristo, que Ele, por assim dizer, não pode resistir, nem negar nada àquele que assim procede. Por isso diz o Salmista: “Põe as tuas delícias no Senhor, e te concederá o que teu coração deseja” (Sl. 36, 4). Sirva como exemplo disto o patriarca Abraão que se apressou em cumprir, com alegria e confiança, a ordem dada por Deus de imolar o próprio filho e por isso mereceu dar origem ao povo da promessa. “Porque fizeste tal coisa, e não perdoaste a teu filho único por amor de mim, eu te abençoarei”(Gn. 22, 16).

1 1ROYO MARÍN, Antonio. La Vida Religiosa. 2. ed .Madrid: BAC,1968, pp. 350-351
2 S.Th. II-II , q.104, a. 2.
3 ROYO MARIN, Op. cit.p.352.
4 loc. cit.
5 Ibid. p. 355
6 MAUCOURANT, F. Probación religiosa de la Obediencia. Trad. del décimo millar francés por José Domingo Corbató. París: Garnier Hermanos, Libreros-Editores, 1901, p. 90
7 FERNÁNDEZ-CARVAJAL, Francisco. Antologia de textos. 13. ed. Madrid: Ediciones Palabra, 2003. , p. 674
8 MAUCOURANT, Op. cit. p. 111
9 ROYO MARIN, Op. cit. p. 366.
10 MAUCOURANT, Op. cit. p. 114.

Restituição e despretensão

Letícia Gonçalves de Sousa

Fruto do preciosíssimo Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, emana dos tesouros da Cristandade um brilho sobrenatural que os distingue dos monumentos e obras de civilizações pagãs, pois, acima dos valores artísticos, nota-se neles uma bênção pela qual remetem a um plano superior, metafísico, e deste ao divino. Como dizia Dante, as obras de arte dos homens são “netas de Deus”. 1

Destacam-se nessa categoria as catedrais medievais, erigidas no tempo em que, segundo a feliz expressão de Leão XIII, “a influência da sabedoria cristã e a sua virtude divina penetravam as leis, as instituições, os costumes dos povos”. 2 No conjunto dessas magníficas construções, brilha com especial esplendor a de Reims, erigida no século XIII em substituição ao templo carolíngio destruído por um incêndio.

Concebida como um hino de glória ao Criador, ela é adornada por 2.303 estátuas e enquadrada por duas torres que se elevam a 81 metros de altura, parecendo querer se destacar da Terra e alçar voo em direcção ao Céu.

Até 1825, ano em que foi coroado Carlos X, aí se realizavam as cerimônias de sagração dos monarcas da Filha Primogênita da Igreja. Era crença popular que o rei tinha a faculdade de curar os doentes de escrofulose, mal comum naquele tempo.

Por isso, à saída do solene ato litúrgico, aqueles infelizes se aproximavam do soberano recém-coroado e este se detinha diante de cada um, dizendo: “Le roi te touche, Dieu te guérit — O rei te toca, Deus te cura”. Bela fórmula que revela a consciência de ser o homem apenas um instrumento nas mãos do Rei dos reis e Senhor dos senhores.

Este estado de espírito despretensioso do Rei Cristianíssimo reflete-se também na própria simbologia da catedral que, pelo seu élan ascendente, convida todos a se reportarem continuamente ao Criador. As suas altivas torres recordam-nos que toda a nossa existência deve estar ordenada em função da eternidade. Sua singular beleza é obra de mãos humanas, mas são as miríades de luzes sobrenaturais, dons de Deus, que a tornam uma verdadeira maravilha.

No monumental pórtico de entrada está representada a mais grandiosa e a mais humilde das criaturas: Maria Santíssima. Receptáculo de todas as graças e eleita pelo Pai, sobre Ela pousou o Espírito Santo para gerar em seu claustro virginal o Esperado das nações, Nosso Senhor Jesus Cristo. Contudo, ao receber o entusiástico elogio de Santa Isabel, proclamou Ela sua pequenez e restituiu ao Altíssimo o inapreciável dom recebido: “A minha alma engrandece o Senhor, e exulta meu espírito em Deus meu salvador, pois Ele olhou para o nada de sua serva e desde agora as gerações me proclamarão bem-aventurada” (Lc 1, 46-48).

Se atribuirmos a nós mesmos a glória de eventuais êxitos, jamais gozaremos da felicidade do Reino Celeste. Seguindo, porém, os passos da despretensiosa Soberana da Restituição, alcançaremos as alegrias próprias àqueles que, por terem reconhecido o seu nada, são proclamados bem-aventurados e cantam eternamente nos Céus a glória de Deus.

Eis uma das mais belas lições transmitidas pela magnífica Catedral de Reims.

1ALIGHIERI, Dante. Divina Comédia. Inferno, Canto XI, v.105.
2 LEÃO XIII. Immortale Dei, n.28.

A dor, mistério do amor

Irmã Clara Isabel Morazzani Arráiz, EP

Era o Templo restaurado por Herodes. Embora “feito de belas pedras e recamado de ricos donativos” (Lc 21, 5), bem longe estava de possuir o esplendor e a magnificência do anterior, erigido segundo a capacidade e a sabedoria de Salomão.

Naquele dia, um casal, levando o mais belo de todos os meninos, atravessou os umbrais do recinto sagrado, com o intuito de cumprir as prescrições da Lei a respeito dos primogênitos. Na aparência, aquela cena nada tinha de extraordinário: com muita frequência as famílias israelitas, vindas das mais variadas cidades, chegavam a Jerusalém, trazendo seus filhos para apresenta-los ao Senhor e oferecer o sacrifício prescrito pela Lei: um par de rolas ou dois pombinhos (cf. Lc 2-24). Quase sempre as mães preferiam associar esta cerimônia àquela da sua própria purificação, à qual estavam obrigadas pelas rígidas normas do Levítico.

Entretanto, nessa ocasião, o ritual da apresentação revestia-se de dimensões verdadeiramente divinas e fora previsto com séculos de antecedência pelo profeta Ageu: “Encherei de minha glória este templo — diz o Senhor do universo. A prata e o ouro me pertencem — oráculo do Senhor do universo. O esplendor futuro deste templo será maior que o primeiro — oráculo do Senhor do universo. Neste lugar Eu darei a paz — diz o Senhor do universo” (Ag 2, 7b-10). E por Malaquias: “Logo chegará a seu templo o Dominador, que vós procurais, e o Anjo da Aliança, que vós desejais” (Ml 3, 1b).

Com efeito, aquela arrebatadora criança, conduzida nos braços de sua Mãe para submeter-Se humildemente aos preceitos da Lei mosaica, era o próprio Dominador, o Filho Unigênito de Deus, nascido sob o domínio da Lei, para resgatar os que se encontravam sob o domínio da Lei (cf. Gl 4, 5).

Dia de gáudio e de glória aquele em que, por fim, as profecias atingiam sua realização e o Divino Menino começava a ser reconhecido pelos que “em Jerusalém esperavam a redenção” (Lc 2, 38).

“Uma espada transpassará a Tua alma”

Entrando no templo, Maria e José depararam-se com um ancião de venerável aspecto, que para lá se dirigira, cheio de esperança, sob a inspiração do Espírito Santo (cf. Lc 2, 27). Ao ver o Menino Jesus, Simeão, que poderia ser denominado o varão-esperança, logo começou a bendizer a Deus e a profetizar a respeito dEle, deixando admirados Seu pai e Sua mãe (cf. Lc 2, 33). Também Ana, a profetisa, que se encontrava no Templo, pôs-se a falar sobre Ele, tornando-se uma das primeiras anunciadoras da missão redentora de Jesus. Maria e José ouviam todas essas palavras, e Seus corações enchiam-se de gozo ao constatarem que o inefável mistério do qual ambos eram depositários, Deus Se dignara comunicá-lo também a outras almas, manifestando-lhes a presença de Cristo no mundo.

Simeão tomou o Menino nos braços e, após ter sido pago o imposto, entregou-O à Sua Mãe, dizendo-Lhe: “Uma espada transpassará a Tua alma” (Lc 2, 35).

Que contraste impressionante! Ali estava o casal princeps, duas criaturas escolhidas por Deus para servir de arquetipia à humanidade: Maria e José. Nesses momentos de consolação, nos quais a Luz descida do Céu para revelar-Se às nações começava a deitar seus primeiros raios, abria-se já, de maneira oficial, a “via dolorosa” que o Senhor apontava à Sua Santa Mãe. A alegria de Maria — de possuir um Filho que é Deus e de pertencer a um Deus que é Seu Filho — naquele instante transformou-se em tristeza. Auge de alegria e auge de tristeza conjugaram-se no coração da Virgem: quanta perplexidade nessa ocasião em que tudo deveria falar de júbilo e, entretanto… “uma espada transpassará a Tua alma”!

Pelo pecado, o sofrimento tornou-se inerente à condição humana

Por que quis Deus unir a dor à alegria num verdadeiro paradoxo, inevitável na vida humana? Todos nós, pelas inclinações da natureza, sempre propensa a buscar a felicidade e a fugir de qualquer sofrimento, somos incapazes de compreender essa maravilha, se não for por um especial auxílio da graça. Fora da filosofia cristã iluminada pela fé, o problema da dor tem sido sempre algo difícil de resolver. Enquanto alguns a concebem como um mal a ser evitado a todo custo, outros, passando ao extremo oposto, consideram-na imprescindível e chegam a fazer dela um prazer malsão e amargo, única saída para sua falta de esperança.

A Igreja, ao contrário, sempre tratou desse assunto de forma equilibrada. Em virtude do pecado original, o sofrimento tornou-se inerente à condição humana, e o homem deve utilizar-se dele para o serviço de Deus, transformando-o numa fonte de méritos e até de glória.

A respeito do modo de como os homens, tanto os bons quanto os maus, suportam as tribulações, assim escreve Santo Agostinho: “Embora justos e pecadores sofram um mesmo tormento, o resultado não é o mesmo. O mesmo fogo faz resplendecer o ouro, purificando-o, e a palha lançar fumaça; o mesmo trilho serve para limpar os grãos e quebrar as arestas… Assim também, uma mesma adversidade purifica e aperfeiçoa os bons, e destrói e aniquila os maus. Por conseguinte, numa mesma calamidade, os pecadores se revoltam e blasfemam contra Deus, enquanto os justos O glorificam e pedem misericórdia; a grande diferença de sentimentos não está na qualidade do mal que uns e outros padecem, mas na das pessoas que o sofrem. Sacudidos de um mesmo modo, o lodo exala um mau cheiro insuportável, e o bálsamo precioso um suavíssimo odor”.1

Cristo quis assumir a nossa carne em estado padecente

Para conhecermos a fundo todo o valor que se desprende da dor quando santamente aceita, bastanos observar que esta foi a via escolhida pela Providência para o próprio Homem-Deus e Sua Mãe Santíssima. Ao nos aproximarmos de um altar em qualquer igreja da terra, sempre o encontraremos presidido por um Crucifixo; e, aos pés dessa Cruz, indissociável do Filho, imaginamos uma Mãe que chora: Stabat Mater dolorosa, juxta crucem lacrimosa

Reza a teologia que, para resgatar o gênero humano, teria bastado Nosso Senhor Jesus Cristo oferecer a Deus Pai um simples gesto, uma curta palavra, ou até mesmo um piscar de olhos, por serem de valor infinito todos os Seus atos.2 Portanto, uma única gota de sangue derramada durante a Circuncisão seria suficiente para consumar a obra da Redenção.3

Entretanto, decretou o Padre Eterno que Ele sofresse a Paixão e Morte de Cruz, pois não poderia permitir que a Seu Verbo — “efusão da luz eterna, espelho sem mancha da atividade de Deus, imagem de Sua bondade” (Sb 7, 26) — fosse negada uma glória em plenitude e esplendor. Foi por ilimitado amor ao Seu Unigênito que Deus permitiu as ignomínias da Flagelação, as humilhações do Ecce Homo, a exaustão da Via-Sacra e os tormentos da Crucifixão. O Filho, que por Sua natureza divina não era capaz de sofrer, quis assumir nossa carne em estado padecente, e não em corpo glorioso, como correspondia à Sua alma, a qual se encontrava na visão beatífica desde o primeiro instante da Encarnação.

Agindo desse modo, Deus não visou apenas operar a Redenção da forma mais esplêndida, mas quis propor aos homens de todos os tempos o Modelo perfeito a ser seguido. Assim se expressa a respeito deste tema o piedoso Pe. André Hamon: “Quando Deus, em Seus eternos decretos, decidiu a Encarnação do Verbo, propôs-Se apresentar aos olhos dos homens o modelo da vida nova que deveria salvá-los. Como homem, o Verbo Encarnado lhes mostraria o caminho; como Deus, lhes daria a garantia da perfeição do modelo. Suas virtudes seriam imitáveis, pois seriam a ação de um homem; e uma regra segura, já que seriam a ação de um Deus”.4

O mistério profundíssimo da Cruz

Ora, ao contemplarmos o Homem-Deus, deparamo-nos com esse profundo mistério: Ele, o Onipotente, o Senhor da Glória, a quem os Anjos adoram sem cessar, “fez-Se em tudo semelhante a nós, exceto no pecado” (Hb 4, 15), e sofreu as contingências da condição humana como fome, sede, sono, e fadiga. Para a mentalidade do homem moderno — pervadida pela ideia de um triunfalismo mal compreendido, da qual desapareceu quase completamente o verdadeiro sentido da dor —, a figura de Nosso Senhor Jesus Cristo cravado na Cruz, clamando ao Pai a magnitude de Seu abandono, aparece como a de um fracassado. “Em verdade, Ele tomou sobre Si nossas enfermidades, e carregou os nossos sofrimentos: e nós O reputávamos como um castigado, ferido por Deus e humilhado” (Is 53, 4).

Entretanto, devemos procurar discernir a sublime lição contida no Sacrifício do Calvário, cuja renovação incruenta se opera diariamente em todos os altares do mundo. Em seu poema O Triunfo da Cruz, assim canta São Luís Maria Grignion de Montfort: “É a Cruz, sobre a terra mistério profundíssimo, que não se conhece sem muitas luzes. Para compreendê-lo é necessário um espírito elevado. Entretanto, é preciso entendê-lo para que nos possamos salvar. […] A Cruz é necessária. É preciso sofrer sempre: ou subir ao Calvário ou perecer eternamente. E Santo Agostinho exclama que somos réprobos se Deus não nos castiga e nos prova”.5

Deus quis submeter o homem à prova

A vida no Paraíso Terrestre era isenta de qualquer incômodo. O homem estava mergulhado na felicidade: os vegetais se encontravam à sua disposição, os animais o serviam, não havia doenças nem cansaço, e, por um especial favor do Criador, a ameaça da morte não o atingia. Também sua alma vivia em paz, pois, graças ao dom da integridade, a carne e o espírito não entravam em conflito, e todas as paixões se ordenavam à luz da Fé.

Não obstante, em meio àquela agradável existência cheia de delícias, Deus quis que houvesse uma prova e, em consequência, uma pequena dor: “Não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal; porque no dia em que dele comeres, morrerás indubitavelmente” (Gn 2, 17).

Era conveniente que Deus, seriedade infinita, exigisse do homem um tributo de sua submissão, por meio do qual este demonstrasse a autenticidade dos louvores e das honras que prestava a seu Criador. A aceitação desta prova era uma renúncia magnífica e uma homenagem ímpar, que partia da humanidade logo em seu nascedouro e se elevava até o trono de Deus.

O pecado e suas consequências

Ora, Adão e Eva sucumbiram à tentação. Talvez lhes tenha sobrevindo a ideia, não explícita, de que não deveria existir a mais leve dor na ordem da criação, e perante a prova que Deus lhes impunha tomaram uma atitude de revolta interior, induzidos a roubar a própria honra de Deus.

Os nossos primeiros pais pecaram. E a queda trouxe o castigo, em sentença proferida pelo próprio Deus: “Multiplicarei teus sofrimentos […] maldita seja a terra por tua causa. Tirarás dela com trabalhos penosos o teu sustento todos os dias de tua vida” (Gn 3, 16-17).

O pecado produziu uma revolução nessa harmonia interior e exterior na qual antes viviam: o homem encontrou-se de repente cercado de mil perigos da natureza, os animais se lhe tornaram hostis, a terra produziu espinhos e abrolhos, e ele viu-se obrigado a comer o pão com o suor de seu rosto (cf. Gn 3, 18-19). Sua alma tornou-se vítima das más inclinações, sujeita ao erro e à rebeldia dos instintos contra os ditames da razão. E a História passou a registrar a peregrinação árdua e dolorosa de uma humanidade em guerra constante contra si mesma, conforme diz o Livro de Jó: “A vida do homem sobre a terra é uma luta” (Jó 7, 1).

A culpa de nossos primeiros pais atraiu sobre eles, e sobre sua posteridade, a maldição e a perda da amizade de Deus, reparável somente por meio do Batismo e da graça. Mas atingiu também a ordem do universo, da qual Adão fora feito rei: “Deste-lhe poder sobre as obras de Vossas mãos, Vós lhe submetestes todo o universo” (Sl 8, 7).

Afirma São Paulo: “A criação foi sujeita à vaidade (não voluntariamente, mas por vontade daquele que a sujeitou), todavia com a esperança de ser também ela libertada do cativeiro da corrupção, para participar da gloriosa liberdade dos filhos de Deus. Pois sabemos que toda a criação geme e sofre como que dores de parto até o presente dia” (Rm 8, 20-22).

Um Deus abraçado à Cruz

Apesar de ter maculado a Criação, o pecado não conseguiu frustrar os planos de Deus, como era intuito do demônio. Pelo contrário, determinou Ele, em Seus insondáveis desígnios de misericórdia, estabelecer uma ordem do universo ainda mais bela e esplendorosa, nascida da Encarnação e do sacrifício de seu Filho Unigênito.

Na harmonia dessa nova ordem, haveria de ser preponderante o papel da dor. Tendo sido mal correspondida a prova no Paraíso, a vida da graça, trazida pela Redenção, não poderia conceber-se sem sofrimento, de modo que os “degredados filhos de Eva” reparassem a falta de seus pais.

Era preciso que os homens adorassem um Deus abraçado à Cruz, o Vir dolorum previsto por Isaías, cravado sobre o madeiro do opróbrio e da ignomínia, e tivessem diante do Homem-Deus moribundo todas as ternuras e venerações de que o coração humano é capaz.

Ele desceu a esta terra de exílio, atravessando as brumas do pecado sem Se deixar tocar por ele, e, tomando sobre Si as nossas fraquezas, com elas subiu ao Gólgota para ali consumar Seu holocausto e restituir aos homens a paz e a felicidade que haviam perdido.

É bem verdade que, ao longo dos três anos de vida pública, teve Ele um período brilhante aos olhos do mundo, durante o qual as multidões iam à sua procura, sôfregas de ouvir Seus ensinamentos e beneficiar-se de Seus milagres. Quando de Sua entrada solene em Jerusalém, a multidão cantava “hosana ao Filho de Davi” (Mt 21, 9). Houve, inclusive, aqueles que quiseram proclamá-Lo rei (cf. Jo 6, 15). Mas, em meio a todos os êxitos, a pior das dores incrustava-se em Seu Coração, delineando Sua missão de Servo Sofredor e deitando uma sombra sobre o futuro que O esperava: era a brutal falta de correspondência daqueles que mais O deveriam reconhecer. “Veio para o que era Seu, mas os Seus não O receberam” (Jo 1, 11).

Se, em Sua trajetória terrena, Nosso Senhor tivesse recebido sempre todas as glorificações do Tabor e do Domingo de Ramos, algo da Sua benquerença pelos homens e da Sua disposição de entregar a vida por eles teria deixado de refulgir aos nossos olhos, e não compreenderíamos suficientemente o mistério de amor que se discerne na Cruz e no Santo Sepulcro. “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos” (Jo 15, 13).

Somos chamados a colaborar na obra da Redenção

Ora, movido por Seu ilimitado amor aos homens, Jesus quis também a participação deles na Sua dor. Ele não necessita de concurso humano algum para redimir-nos, uma vez que o Preciosíssimo Sangue derramado na Paixão bastaria para apagar os pecados de infinitas criaturas, mas deseja associar-nos a Seus sofrimentos e assim fazer-nos partícipes de Seus méritos e de Sua glória. É este o simbolismo da água que o sacerdote mistura ao vinho, na preparação do cálice para o Santo Sacrifício. Nossas dores, de si, valem menos até do que umas poucas gotas de água, pois, o mais das vezes, estão contaminadas por imperfeições e misérias; mas unidas ao “vinho que engendra virgens”, podem aquelas tornar-se uma “mesma e única bebida de salvação”.6

São Paulo mostrou ter penetrado a fundo nesse mistério, quando escreveu em sua epístola aos Colossenses: “ Agora me alegro nos sofrimentos suportados por vós. O que falta às tribulações de Cristo, completo na minha carne, por Seu corpo que é a Igreja” (Cl 1, 24).

Esta passagem é assim comentada por Tanquerey: “Certamente, esta Paixão é, não somente completa, mas abundante e superabundante. No entanto, como Jesus é a cabeça de um corpo místico, do qual todos nós somos os membros, a Paixão deste Cristo místico se completa cada dia em seus membros sofredores, e ela não estará terminada senão quando o último dos eleitos tiver sofrido sua parte das dores de Cristo. […] Então a dor terá um sentido, então seremos verdadeiramente os colaboradores do Divino Salvador na obra da salvação das almas”.7

Crisol onde Deus lança as almas muito amadas

Levando isto em consideração, o papel da dor na vida humana adquire uma perspectiva tão elevada que torna inteiramente fora de propósito qualquer queixa ou inconformidade de nossa parte em relação às cruzes que Deus tenha por bem nos enviar.

Na aceitação inteira da vontade divina encontramos o melhor meio de restituir ao Criador a glória que Lhe foi negada pela primitiva desobediência, manifestando-Lhe, por um ato de conformidade com Seus desígnios, nosso tributo de amor e de reparação à Sua Majestade ofendida.

Ao mesmo tempo, se encetarmos as veredas da dor com ânimo resoluto, é-nos oferecida a ocasião de alcançar preciosos benefícios para o progresso de nossa vida sobrenatural. Dada a tendência natural do homem para o egoísmo, facilmente ele se esquece de Deus quando a felicidade e o sucesso parecem seguir seus empreendimentos. A adversidade é, pois, um poderoso auxílio para purificar a alma do apego excessivo às criaturas, obrigando-a a considerar a inanidade dos bens passageiros e voltar-se só para Deus, único Bem do qual tudo se pode esperar.

Tais disposições perante o sofrimento conferem um caráter respeitável àquele sobre o qual este se abate, tornando-o digno de admiração.

Nos dias de hoje, o sentido cristão da palavra “admirável” vai-se perdendo, dando lugar a conceitos deturpados, segundo os quais o homem, para alcançar a plena realização de sua personalidade, deve ser bem sucedido na vida, correr de vitória em vitória, sem jamais ser incomodado por qualquer revés ou dificuldade; só assim se tornará merecedor do aplauso e da aceitação dos demais. A experiência histórica, porém, nos revela o contrário: os homens sofredores, que ao longo de sua existência tiveram de enfrentar perigos, angústias, incompreensões e até mesmo aparentes catástrofes, mas, fortalecidos pela graça divina, acabaram vencendo, esses sim são verdadeiramente dignos da aprovação dos demais homens e do beneplácito de Deus.

A dor é, pois, o crisol onde a Providência lança as almas muito amadas, sobre as quais repousa uma especial predileção de Sua parte, para delas recolher apenas a prata finíssima, livre de qualquer impureza. O Livro do Eclesiástico deita uma luz sobre essa atraente temática: “Meu filho, se entrares para o serviço de Deus, permanece firme na justiça e no temor, e prepara a tua alma para a provação; humilha teu coração, espera com paciência, dá ouvidos e acolhe as palavras de sabedoria; não te perturbes no tempo da infelicidade, sofre as demoras de Deus; dedica-te a Deus, espera com paciência, a fim de que no derradeiro momento tua vida se enriqueça. Aceita tudo o que te acontecer. Na dor, permanece firme; na humilhação, tem paciência. Pois é pelo fogo que se experimentam o ouro e a prata, e os homens agradáveis a Deus, pelo cadinho da humilhação” (Eclo 2, 1-5).

Duas atitudes perante a tragédia

Recebida com resignação, ou com sobrenatural entusiasmo, a dor enaltece o homem e o convida a uma doação generosa de si mesmo, da qual, na prosperidade, talvez ele não se julgasse capaz. Assim, pode haver circunstâncias infelizes que, de modo inesperado, reduzam à derrota alguém anteriormente coroado de êxito. Colocado diante de sua própria tragédia, ele poderá chorar, lamentando seu fracasso, e afundar-se no abatimento e na revolta contra Deus; ou então ele se erguerá com uma grandeza de alma triunfal, compreendendo a beleza de seu infortúnio, já que este o aproxima mais da Divina Vítima do Calvário.

Em palavras dirigidas aos peregrinos reunidos na Praça de São Pedro, assim se exprimia o hoje Papa Emérito Bento XVI: “Jesus sofre e morre na Cruz por amor. Deste modo, considerando bem, deu sentido ao nosso sofrimento, um sentido que muitos homens e mulheres de todas as épocas compreenderam e fizeram seu, experimentando uma profunda serenidade também na amargura de árduas provas físicas e morais”.8

No instante em que o homem se abraça à Cruz e a toma como um presente da munificência divina, manifesta-se todo o poder sublime e ao mesmo tempo misterioso do holocausto. Sua dor torna-se fecunda e profícua, mais eficaz na ordem da Comunhão dos Santos e na realização dos desígnios de Deus do que seus esforços naturais ou suas demais obras apostólicas. Oferecido o sacrifício, algo na alma germina, nasce e gera frutos, elevando-se diante de Deus como oblação grata e imaculada, e dando ao homem uma alegria e uma paz interior que todas as riquezas e glórias do mundo jamais poderão proporcionar-lhe.

Nos dias cheios dos imponderáveis sérios e graves da Semana Santa, acheguemo-nos aos pés da Cruz onde pende o Salvador, abandonado por quase todos — sobretudo neste século em que tantos e tantos homens só procuram o prazer e bem-estar pessoal — e coloquemos nas mãos da Mater Dolorosa, cuja alma foi transpassada pelo gládio da dor, toda a nossa entrega e disposição de padecer por Cristo e por Sua Igreja. As lágrimas de Maria purificarão nossa oferta das eventuais misérias das quais possa estar manchada e a tornarão útil para a edificação de Seu Reino e o triunfo de Seu Imaculado Coração.

1 AGOSTINHO, Santo. A Cidade de Deus. l. 1, c. 8.
2 Cf. ROYO MARÍN, OP, Fr. Antonio. Jesucristo y la vida cristiana. Madrid: BAC, 1961, p. 324.
3 Cf. DENZINGER, H.. HÜNEMANN, P. Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral. São Paulo: Loyola; Paulinas, 2007, p. 328, n. 1.025.
4 HAMON, M. André-Jean-Marie. Méditations. Paris: Lecoffre, 1933, v I, p. 55-56.
5 MONTFORT, São Luís Maria de. Carta-circular aos amigos da Cruz. Cântico “O Triunfo da Cruz”. Trad. Maria Helena Montezuma Pohle. Rio de Janeiro: Santa Maria, 1954, p. 67-68.
6 Cf. CANTALAMESSA, OFMCap, Raniero. Obediencia. Trad. Ricardo M. Lázaro Barceló. 3. ed. Valencia: Edicep, 2002, p. 71. TANQUEREY, Adolphe. La divinisation de la souffrance. Paris-Tournai-Rome: Desclée de Brouwer, 1931, p. IX-X. Ângelus, 01/02/2009.
7 TANQUEREY, Adolphe. La divinisation de la souffrance. Paris-Tournai- Rome: Desclée de Brouwer, 1931, p. IX-X.
8 Ângelus, 01/02/2009.

“PONDE, SENHOR, UMA GUARDA EM MINHA BOCA”

Aline Karolina de Souza Lima

Desejoso de presentear seus amigos com um banquete, o filósofo Xanthus encarregou seu escravo Esopo de comprar no mercado o que havia de melhor.

Pelo caminho ia Esopo pensativo:

– Tenho de ajudar meu amo, coitado, o ponto fraco dele é a língua, só diz bagatelas e nunca glorifica a Deus com seus lábios. Já sei !!!

Esopo comprou línguas e temperou-as com excelente molho.

Os convidados elogiaram no princípio os manjares, mas, ao fim, se cansaram de tanta língua. Xanthus, furioso, disse ao escravo:

– Não te encarreguei que comprasse o que havia de melhor?

– Mas, meu senhor, o que há de melhor que a língua? Com ela podemos proclamar o bem e falar para edificação do próximo, rezar, expandir a fé, dar bons conselhos e cantar louvores a Deus. Para quantas coisas ela é útil!

– Pois bem, disse Xanthus – que achou ter posto seu escravo em apuros – então comprarás amanhã tudo o que houver de pior. Pois, se para ti o que há de bom é língua, o que há de pior deve ser um pouco melhor.

– Está bem, respondeu o escravo, farei isso com todo gosto.

No dia seguinte Esopo comprou mais línguas, e justificou-se diante de seu senhor, dizendo:

– A língua é o pior que há no mundo! É a mãe da calúnia, da crítica, da mentira. É o órgão do terror! Além do mais, é usada para proferir palavras ociosas, banais, palavras de vaidade, murmurações… Se não é bem empregada, traz inúmeros males.

Relicário com a língua incorrupta de Santo Antonio de Pádua

O Espírito Santo diz “No muito falar, não faltará a culpa” (Pr 10, 19). São Tiago afirma: “Se alguém não cair por palavras, este é um homem perfeito” (Tg 3, 2). E ainda no Eclesiástico: “Bem-aventurado quem não peca com a língua” (Eclo 25, 11). Não se trata de ficar sempre calados, mas simplesmente refletir antes de falar. Santo Ambrósio diz: “Ou cala, ou dize coisas melhores que o silêncio”.

Deixamos aqui uma pergunta: Quais os assuntos de nossas conversas? Fazemos como Xanthus, pronunciando palavras ociosas e banalidades? Lembremo-nos de que a língua é um ótimo instrumento para glorificar a Deus e praticar a caridade. Saibamos, então, usá-la convenientemente.

O que nos torna íntimos aos santos?

Joice Silvino Santos

Ao se aproximarem do presbitério da Basílica Nossa Senhora do Rosário, os fiéis se deparam com várias relíquias de santos postas sob a mesa do altar.

Mas, se perguntássemos ao leitor por que damos culto às relíquias, a resposta seria convincente e segura? Caso não fosse, não se sinta constrangido, pois dá-la-emos agora.

A palavra relíquia vem do latim, provavelmente de relíquus (restante) ou relinquere (deixar). Portanto, “relíquia” designa aquilo que restou dos santos ou as coisas que por ele foram deixadas.

Como todos sabem, existem dois tipos de relíquias: as diretas e as indiretas. As diretas são alguma parte da carne, dos ossos ou das cinzas. As relíquias indiretas são algo que por eles foi tocado. Alguém poderia se perguntar: “Nossa! Existe uma quantidade imensa de relíquias indiretas, como um santo pôde ter tocado em tantos objetos?” Na verdade, nem todas as relíquias indiretas foram tocadas pelos santos, pois algumas foram simplesmente encostadas em suas relíquias diretas.

Quando uma pessoa toca em alguma coisa, algo dela passa para o objeto que foi tocado. Tomemos como exemplo o recipiente em que foram lavadas as mãos de Pilatos. Se alguém lhe desse de presente, o leitor aceitaria? Provavelmente não, pois, alguma coisa do ato infame de Pilatos passou para o objeto. Algo análogo acontece com as relíquias indiretas.

Já as relíquias diretas, como um pedaço de carne ou de osso são parte de uma pessoa que se encontra no Céu. Desse modo, quando o santo ressuscitar, aquele fragmento se unirá ao seu corpo e passará para o estado glorioso. Assim, a relíquia direta é, em certo sentido, a presença física de um bem-aventurado entre nós.

Portanto, as relíquias são um verdadeiro tesouro! Se por acaso o leitor possui alguma, venere-a e não a deixe guardada em alguma gaveta no meio de objetos profanos. Devemos osculá-las todos os dias pelo menos, de manhã ou à noite. E, além do mais, procurar sempre conhecer a vida do santo a que correspondem, para termos uma piedade fogosa. Lembremo-nos de que elas são uma arma para o combate.

Certos militares levavam uma relíquia incrustada na espada… É bom, nas horas de perigo, tê-las sempre junto a nós para garantirmos que, na luta contra o demônio, não batalhamos sozinhos, mas contamos com a presença de santos vitoriosos!

Bakhita, a afortunada

Irmã Clara Isabel Morazzani Arráiz, EP

Desde as mais remotas épocas, a escravidão era praticada entre os povos antigos, afundados na barbárie e no paganismo após o desastre da Torre de Babel. Se uma nação triunfava sobre outra na guerra, os derrotados eram levados para o cativeiro e condenados à humilhante servidão. Até no Império Romano, tão civilizado sob muitos aspectos, os escravos tinham o status jurídico de coisa (res), sobre a qual o direito conferia aos senhores poder de vida ou morte.

A Igreja une a humanidade

Foi a Igreja Católica que, como mãe bondosa, suavizou aos poucos o duro jugo imposto pela crueldade, ao ensinar por todas as partes o “Amai-vos uns aos outros” (Jo 13, 34), o novo mandamento de Jesus, e conduziu as relações humanas a um equilíbrio cristão. Pregando a existência de uma alma racional e imortal, elevada à participação da vida divina pelo Batismo, a doutrina católica alça todos à dignidade a que são chamados.

Longe de abolir as desigualdades decorrentes da missão ou dos dons conferidos pelo Criador a cada alma em particular, a Igreja convida os homens a um relacionamento de mútuo respeito: os inferiores submetendo-se com alegria aos superiores, por verem neles um reflexo do próprio Deus, e estes debruçando-se sobre os primeiros com verdadeiro afeto e proteção.

Já no século I, o grande São Paulo escrevia aos Efésios uma síntese deste estado de espírito: “Servos, obedecei aos vossos senhores temporais, com temor e solicitude, de coração sincero, como a Cristo […]. Senhores, procedei também assim com os servos. Deixai as ameaças. E tende em conta que o Senhor está no Céu, Senhor tanto deles como vosso, que não faz distinção de pessoas” (Ef 6, 5.9).

Almas modelo

Entretanto, dado o orgulho do coração humano, ao longo da História, as admoestações do Apóstolo das Gentes e de tantos outros santos e pregadores, muitas vezes não foram ouvidas, quer pelos grandes, quer pelos pequenos. Daí a tirania por parte de uns e rebeliões por parte de outros, dando origem a guerras e dissensões cuja narração nos faz estremecer de horror.

Deus, porém, tem suscitado incontável número de homens e mulheres que não só ouviram Sua Palavra, mas souberam pôla em prática, constituindo assim uma coorte de modelos a serem imitados pelos demais. Todos eles, cada um a seu modo e segundo sua vocação específica, compreenderam a fundo a lei do Amor trazida pelo Divino Mestre e conformaram com ela suas existências.

Tal foi a vida da jovem escrava sudanesa Josefina Bakhita, cuja docilidade de alma foi tão grata aos olhos de Deus que a levou à honra dos altares.

Os caminhos da obediência

Dotada de um caráter fácil e submisso, com uma marcada propensão para fazer o bem aos outros, a pequena descendente da tribo dos Dagiu dava, desde a mais tenra infância, mostras de ser uma predileta de Deus.

Certa vez, estando com uma amiga nas proximidades de sua aldeia, situada na região de Darfur, no oeste do Sudão, Bakhita deparou-se com dois homens que surgiram de improviso de trás de uma cerca. Um deles pediu-lhe que fosse pegar um pacote que esquecera no bosque vizinho e disse à sua companheira que podia continuar o caminho, pois ela logo a alcançaria. “Eu não duvidava de nada, obedeci imediatamente, como sempre fazia com a minha mãe” — narrou ela. 1

Protegidos pela floresta e longe de qualquer testemunha importuna, os dois estrangeiros agarraram a menina e levaram-na à força com eles, ameaçando-a com um punhal. Sua ingenuidade, bem compreensível em seus oito anos, custara-lhe caro.

Contudo, eram essas as misteriosas vias da Providência, por meio das quais se realizariam os desígnios de Deus a seu respeito.

Se tal fato não tivesse ocorrido talvez sua vida teria continuado na normalidade do convívio familiar, em meio aos afazeres domésticos e às práticas rituais do culto animista que professavam seus parentes. Provavelmente ela jamais conheceria a Fé Católica, e permaneceria submersa nas trevas do paganismo.

Uma escravidão providencial

Empurrada violentamente por seus raptores, foi levada para uma cruel e penosa escravidão. E embora ela o ignorasse, estava dando os primeiros passos que a conduziriam, à custa de sofrimentos atrozes, rumo à verdadeira liberdade de espírito e ao encontro com o grande Senhor a Quem já amava antes de conhecer.

Sim, desde muito pequena, Bakhita deleitava-se em contemplar o Sol, a Lua, as estrelas e as belezas da natureza, perguntando-se maravilhada:

Quem é o patrão destas coisas tão bonitas? E sentia uma grande vontade de vê-lo, de conhecê-lo, de prestar-lhe homenagem”.

Ensina São Tomás de Aquino que “uma pessoa pode conseguir o efeito do Batismo pela força do Espírito Santo, sem Batismo de água e até sem Batismo de sangue, quando seu coração é movido pelo Espírito Santo a crer e amar a Deus e a arrepender-se de seus pecados”. 2 É o que se chama Batismo “de desejo”, ou “de penitência”. Apoiando-nos nessa doutrina, podemos supor que na alma admirativa da escrava sudanesa brilhava a luz da graça santificante, muito antes de ela receber o Batismo sacramental.

Para Bakhita, porém, apenas começara a terrível série de padecimentos que se prolongaria durante 10 anos. Tal foi o choque produzido em seu espírito pela violência do sequestro, que ela esqueceu-se até do próprio nome. Assim, quando foi interrogada pelos bandidos, não pôde pronunciar sequer uma palavra. Então um deles disse-lhe: “Muito bem. Chamar-te-emos Bakhita”. Em sua voz havia um acento irônico, uma vez que este nome, em árabe, significa “afortunada”.

Padecimentos no cativeiro

Chegando a um povoado, Bakhita foi introduzida numa cabana miserável e trancada num quarto estreito e escuro, onde permaneceu durante um mês. “Quanto eu tenha sofrido naquele lugar, não se pode dizer com as palavras”, escreveria ela mais tarde. Por fim, depois desses dias nos quais a porta não se abria senão para deixar passar um parco alimento, a prisioneira pôde sair, não para ser posta em liberdade, mas para ser entregue a um traficante de escravos que acabava de adquiri-la.

Bakhita haveria de ser vendida cinco vezes sucessivas, aos mais variados patrões, exposta nos mercados, presa pelos pés a pesadas correntes e obrigada a trabalhar sem descanso para satisfazer os caprichos de seus amos. Colocada a serviço da mãe e da esposa de um general, a jovem escrava ali enfrentou os piores anos de sua existência, como ela mesma descreve: “As chicotadas caíam em cima de nós sem misericórdia; de modo que nos três anos que estive a serviço deles, não me lembro de ter passado um só dia sem feridas, porque não havia ainda sarado dos golpes recebidos e recebia outros ainda, sem saber a causa. […] Quantos maus tratos os escravos recebem sem nenhum motivo! […] Quantas companheiras minhas de desventura morreram pelos golpes sofridos!”.

Além desses e de outros tormentos, fizeram-lhe uma tatuagem que a obrigou a permanecer imóvel sobre sua esteira por mais de um mês. Bakhita conservou até o fim da vida 144 cicatrizes sobre o corpo, além de um leve defeito ao caminhar.

Certa vez, interrogada sobre a veracidade de tudo quanto fora contado a seu respeito, ela afirmou ter omitido em suas narrativas detalhes verdadeiramente espantosos, vistos apenas por Deus e impossíveis de serem ditos ou escritos. Entretanto, a mão do Senhor não a abandonou sequer um instante. Mesmo nos piores momentos, Bakhita sentia dentro de si uma força misteriosa que a sustentava, impelindo-a a comportar-se com docilidade e obediência, sem nunca se desesperar.

Proteção amorosa de Deus

Anos mais tarde, lançando um olhar sobre seu passado, reconhecia a intervenção divina nos acontecimentos de sua vida: “Posso dizer realmente que não morri por um milagre do Senhor, que me destinava a coisas melhores”. E a Ele manifestava sua gratidão: “Se eu ficasse de joelhos a vida inteira, não diria, nunca, o bastante, toda a minha gratidão ao bom Deus”.

Prova dessa proteção amorosa de Deus, que a acompanhou desde a infância, foi a preservação de alma e de corpo na qual se manteve, mesmo em meio às torturas, sem que jamais sua castidade fosse atingida. “Eu estive sempre no meio da lama, mas não me sujei. […] Nossa Senhora me protegeu, ainda que eu não A conhecesse. […] Em várias ocasiões me senti protegida por um ser superior”.

A mudança para a Itália

Em 1882, o general que a comprara teve de retornar à Turquia, seu país, e pôs à venda seus numerosos escravos. Bakhita, fazendo jus a seu nome, logo despertou a simpatia do cônsul italiano Calixto Legnani, que se dispôs a adquiri-la. “Desta vez fui verdadeiramente afortunada, porque o novo patrão era bastante bom e começou a querer-me tanto bem”.

Embora o cônsul não pareça ter-se esforçado em iniciar nas verdades da Fé a jovem escrava, durante os anos em que esta viveu em sua casa, este período foi para ela a aurora do encontro com a Igreja. Como católico que era, Legnani tratou Bakhita com bondade. Ali não havia castigos, pancadas, nem mesmo repreensões, e ela pôde gozar da doçura característica das relações entre aqueles que procuram cumprir os mandamentos da caridade cristã.

Ante o avanço de uma revolução nacionalista no Sudão, Calixto Legnani teve de voltar para a Itália. A pedido de Bakhita, levou-a consigo. Porém, chegados a Gênova, o cônsul cedeu a jovem sudanesa a seus amigos, o casal Michieli. Assim, ela passou a morar na residência desta família, em Mirano, na região do Veneto, tendo por encargo especial o cuidado da filha, a pequena Mimina.

O encontro com seu verdadeiro Patrão e Senhor

Estando ali, Bakhita recebeu de um amável senhor, que se interessara por ela, um belo crucifixo de prata: “Explicou-me que Jesus Cristo, Filho de Deus, tinha morrido por nós. Eu não sabia quem fosse […]. Recordo que às escondidas o olhava e sentia uma coisa em mim que não sei explicar”. Pouco a pouco, a graça foi trabalhando a alma sensível da ex-escrava africana, abrindo-a para as realidades sobrenaturais que ela desconhecia.

Em sua Encíclica Spe Salvi, o Santo Padre Bento XVI assim descreve o milagre que se operou no Restos mortais de Santa Josefina Bakhita na Igreja da Sagrada Família, interior de Bakhita: em Schio, Itália “Depois de ‘patrões’ tão terríveis que a tiveram como sua propriedade até agora, Bakhita acabou por conhecer um ‘patrão’ totalmente diferente — no dialeto veneziano que agora tinha aprendido, chamava ‘Paron’ ao Deus vivo, ao Deus de Jesus Cristo. Até então só tinha conhecido patrões que a desprezavam e maltratavam ou, na melhor das hipóteses, a consideravam uma escrava útil. Mas agora ouvia dizer que existe um ‘Paron’ acima de todos os patrões, o Senhor de todos os senhores, e que este Senhor é bom, a bondade em pessoa. Soube que este Senhor também a conhecia, tinha-a criado; mais ainda, amava-a. Também ela era amada, e precisamente pelo ‘Paron’ supremo, diante do qual todos os outros patrões não passam de miseráveis servos. Ela era conhecida, amada e esperada; mais ainda, este Patrão tinha enfrentado pessoalmente o destino de ser flagelado e agora estava à espera dela ‘à direita de Deus Pai’”. 3

Uma inesperada decisão cheia de valentia

Mais sofrimentos ainda a aguardavam, embora de ordem muito diversa dos anteriormente suportados: Deus lhe pediria uma prova de sua entrega, de sua renúncia a tudo, em razão do amor a Ele, oferecida de livre e espontânea vontade.

Quando Bakhita, já instruída na Religião Católica pelas Irmãs Canossianas de Veneza, preparava-se para receber o Batismo, sua patroa quis levá-la de novo ao Sudão, onde a família Michieli resolvera fixar-se definitivamente. De caráter flexível e submisso, acostumada a se considerar propriedade de seus donos, revelou ela, naquela conjuntura, uma coragem até então desconhecida mesmo pelos seus mais próximos. Temendo que aquela volta pusesse em risco sua perseverança, negou-se a seguir sua senhora.

As promessas de uma vida fácil, a perspectiva de rever sua pátria, a profunda afeição a Mimina e a gratidão a seus amos, nada disso pôde mudar sua decisão de dar-se a Jesus Cristo para sempre. Bakhita mostrara-se sempre dócil a seus superiores. Agora manifestava de outra forma essa virtude, obedecendo mais a Deus do que aos homens (cf. At 4, 19). “Era o Senhor que me infundia tanta firmeza, porque queria fazer-me toda sua”.

A entrega definitiva a Deus

Tendo saído vitoriosa dessa batalha, Bakhita foi batizada, crismada e recebeu a Eucaristia das mãos do Patriarca de Veneza, no dia 9 de janeiro de 1890. Foram-lhe postos os nomes de Josefina Margarida Afortunada. “Recebi o santo Batismo com uma alegria que só os Anjos poderiam descrever”, narraria mais tarde.

Pouco depois, querendo selar sua entrega a Deus de maneira irreversível, solicitou seu ingresso no Instituto das Filhas da Caridade, fundado por Santa Madalena de Canossa, a quem devia sua entrada na Igreja. Na festa da Imaculada Conceição, em 1896, após cumprir seu noviciado com exemplar fervor, Josefina pronunciou seus votos na Casa-Mãe do Instituto, em Verona.

A partir daí sua vida foi um constante ato de amor a Deus, um dar-se aos outros, sem restrições, nem reservas. Ora encarregada de funções humildes, como a cozinha ou a portaria, ora enviada em missão através da Itália, a santa sudanesa aceitava com verdadeira alegria tudo quanto lhe ordenavam, conquistando a simpatia daqueles que a rodeavam, sem se cansar de dizer: “Sede bons, amai o Senhor, rezai por aqueles que não O conhecem”.

Sobre o espírito missionário de Bakhita comenta Bento XVI em sua encíclica: “A libertação recebida através do encontro com o Deus de Jesus Cristo, sentia que devia estendê-la, tinha de ser dada também a outros, ao maior número possível de pessoas. A esperança, que nascera para ela e a ‘redimira’, não podia guardá-la para si; esta esperança devia chegar a muitos, chegar a todos”. 4

Submissão até o fim

Por fim, após mais de 50 anos de frutuosa vida religiosa, durante os quais suas virtudes se acrisolaram no fogo da caridade, Bakhita sentiu a morte aproximar-se. Atacada por repetidas bronquites e pneumonias que foram minando sua saúde, suportou tudo com fortaleza de ânimo. Em suas últimas palavras, proferidas pouco antes de seu falecimento, deixou transparecer o gozo que lhe enchia a alma: “Quando uma pessoa ama tanto uma outra, deseja ardentemente ir para junto dela: por que, então, tanto medo da morte? A morte nos leva a Deus”.

Em 8 de fevereiro de 1947, a Irmã Josefina recebeu os últimos Sacramentos, acompanhando com atenção e piedade todas as orações. Avisada de que aquele dia era um sábado, seu semblante pareceu iluminar-se e exclamou com alegria: “Como estou contente! Nossa Senhora, Nossa Senhora!”. Foram estas suas últimas palavras antes de entregar serenamente sua alma e encontrar-se face a face com o “Paron”, que desde pequenina ansiava por conhecer.

Seu corpo, transladado para junto da igreja, foi objeto da veneração de numerosos fiéis, que durante três dias ali afluíram, desejosos de contemplar pela última vez a querida Madre Moretta, como era carinhosamente conhecida, que com tanta bondade os tratara sempre. Miraculosamente, seus membros conservaram-se flexíveis durante esse período, sendo possível mover seus braços para pôr sua mão sobre a cabeça das crianças.

Por este meio, Santa Josefina Bakhita revelava o grande segredo de sua santidade, refletido em seu próprio corpo. A via pela qual Deus a chamara fora a da submissão heroica à vontade divina e, para a posteridade, ela deixava um modelo a ser seguido. A humildade, a mansidão e a obediência transparecem em suas palavras, numa disposição verdadeiramente sublime de sua alma: “Se encontrasse aqueles negreiros que me raptaram, e mesmo aqueles que me torturaram, ajoelhar-me-ia para beijar as suas mãos; porque, se isto não tivesse acontecido, eu não seria agora cristã e religiosa”.

1Salvo indicação em contrário, todas as citações entre aspas pertencem a DAGNINO, Ir. Maria Luísa, Bakhita racconta la sua storia. Trad. Cecília Maríngolo, Canossiana. Roma: Città Nuova, 1989. p. 38.
2Cf. Suma Teológica, III, q. 66, a.11.
3BENTO XVI, Carta Encíclica Spe Salvi, 30/11/2007, n. 3.
4BENTO XVI, Carta Encíclica Spe Salvi, 30/11/2007, n. 3.

Nos umbrais da morte

Ariane Heringer Tavares

Em um hospital militar, onde se encontram alguns dos feridos durante os combates da Primeira Guerra Mundial, podem-se presenciar cenas que demonstram tão alto grau de heroísmo quanto no próprio campo de batalha. Os que lá deram mostras de coragem, aqui não deixam de manifestar sua fortaleza de alma.

Sentindo que a morte se aproximava, um dos moribundos sentiu a necessidade de purificar sua alma antes de comparecer diante do Supremo Juiz. Ao ver uma das freiras que cuidavam dos feridos passar ao lado de seu leito, o pobre pecador chamou-a e pediu um padre. Contudo, naquele momento, não estava ali nenhum sacerdote.

A religiosa, percebendo que o soldado poderia falecer a qualquer momento, antes mesmo de receber a absolvição, sussurrava em seu ouvido palavras de contrição, ajudando-o a arrepender-se. Porém, não conseguindo conter sua emoção, exclamou:

— Não é possível que aqui não haja nenhum padre que possa atender este homem em confissão!

Ouvindo a queixa, um dos pacientes comunicou-lhe que no fundo do quarto havia um sacerdote-soldado, mas estava tão mal que não teria forças para atender o pobre moribundo.

A religiosa correu ao leito do sacerdote e constatou que estava com o corpo completamente paralisado. Vivo, porém a um passo da morte. Apesar disso, encheu-se de esperança, e confiando no impossível, perguntou:

— Padre, o senhor me ouve?

Para surpresa de todos os olhos do sacerdote se entreabriram. A freira, compreendendo que lhe restavam poucos momentos de vida, transmitiu-lhe o pedido de confissão. Lentamente, quatro enfermeiros ergueram a cama e levaram-na para junto do enfermo que o solicitara. Os dois moribundos tinham consciência de que podiam morrer a qualquer instante.

E chegado o momento da absolvição. O sacerdote lutava contra a própria natureza a fim de erguer a mão sobre o soldado arrependido e traçar o sinal da cruz, que consumaria o perdão. Apesar de todos os esforços, a mão permanecia imóvel, sendo impossível levantá-la sem a ajuda de alguém. Com um olhar, pediu auxílio à religiosa para levantar o braço e, dessa forma, terminar de cumprir o seu ministério. Pronunciou as decisivas palavras: “Ego te absolvo a peccatis tuis in nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti”.

Ante a admirável grandeza desse ato divino, os enfermeiros caíram de joelhos e os feridos ergueram-se em seus leitos a fim de assistirem a tão magnífica cena.

Cumprida a missão, expirou não só o sacerdote, como também aquele a quem acabara de salvar. Obedecendo ao chamado do Mestre, ambos os soldados partiram, e, juntos, cruzaram os umbrais da eternidade.

Santa Luzia: luz, dor e glória

Irmã Lucía Ordóñez, EP

Deus, por vezes, manifesta seu poder através dos mais fracos. Luzia, uma frágil jovem de Siracusa, era forte de alma, por ser virgem. Deus deu-lhe o dom de vencer, não só com seus argumentos, mas também pela força, os perseguidores pagãos.

Foi dentro das fronteiras do Império Romano que, por desígnio do Altíssimo, nasceu a Santa Igreja Católica. No entanto, esse imenso poder temporal, vendo o poder espiritual nascer misteriosamente e florescer com rapidez desconcertante, mostrou-se de início intrigado e receoso, e, por fim, hostil a ponto de chegar às violências mais extremas.

Os sublimes ensinamentos cristãos contradiziam frontalmente os costumes vigentes entre aqueles homens de coração duro. Vítima de toda sorte de calúnias, a Igreja nascente viu-se alvo de sangrentas perseguições desencadeadas pelas autoridades romanas com o objetivo de sufocá-la de modo inexorável.

No entanto, era o próprio Deus quem permitia que sua Igreja passasse pela longa prova da dor e do sacrifício. Com efeito, após cada perseguição, o Cristianismo ressurgia mais numeroso, brilhante e cheio de fé!

No reinado de Diocleciano (284305), esse clima de horror chegou ao auge. Por um edito deste imperador, todas as igrejas deveriam ser demolidas e todos os cristãos que exerciam cargos públicos seriam obrigados a abjurar a fé em Cristo.

É nesta última fase do período das grandes perseguições que surge uma alma de rara virtude: a jovem Luzia.

Voto de virgindade

O nome Luzia tem sua origem na palavra latina “lux”, e ressoa em nossos ouvidos carregado de conotações heróicas, trazendo-nos à memória uma vida cheia de luz e de glória, porque feita de sangue e dor.

Nascida em Siracusa, e oriunda de uma família nobre e cristã, logo no desabrochar da adolescência consagrou-se a Jesus, oferecendo-Lhe a flor da sua virgindade.

Esta promessa de castidade perfeita não era incomum nos primórdios do Cristianismo, pois o próprio Salvador chamava grande número de almas à pratica desta angélica virtude. Um dia, respondendo a uma pergunta dos discípulos sobre os pesados encargos do casamento, disse-lhes o Mestre: “Nem todos são capazes de compreender esta doutrina, mas somente aqueles a quem foi concedido do alto” (Mt 19-11). Há homens, prosseguiu Ele, que são inaptos para a vida conjugal, e outros, pelo contrário, que de livre e espontânea vontade renunciaram ao matrimônio “por amor ao Reino dos Céus” (Mt 19,12). Pela primeira vez ressoava na História o chamado cristão à virgindade, e seu eco repercutiria em almas como as de Cecília, Ágata, Inês, e tantas outras que, sobrepondo-se às leis da carne e da matéria, se lançariam alegres em voos admiráveis de perfeição espiritual.

Intercessão de Santa Ágata

Seu pai faleceu quando ela era ainda muito menina. Sua mãe, Eutícia, embora cristã, não tinha se despojado totalmente das glórias e atrações deste mundo. Assim, desejosa de proporcionar à sua filha um futuro cheio de fama e de honra, a exortava a casar-se com um jovem rico e bem colocado, mas pagão.

A casta Luzia — que mantinha seu voto em segredo — procurava sempre se esquivar desse assunto. Punha toda a sua confiança em Deus e aguardava uma oportunidade providencial para revelar à mãe sua resolução firme e decidida de pertencer somente a Cristo. As fervorosas orações feitas por ela nessa intenção foram prontamente atendidas: logo se apresentou uma boa ocasião.

Apesar das atrozes perseguições aos cristãos, celebrava-se todo ano na própria Sicília a festa de Santa Ágata, a virgem da cidade de Catânia, martirizada por volta do ano 250. Os prodígios por ela operados tornaram-na tão conhecida que acorria gente de todas as partes para implorar sua intercessão. Ora, havia já alguns anos, Eutícia sofria muito de um fluxo de sangue. Por isso Luzia, que tinha grande devoção a essa virgem mártir, sua conterrânea, persuadiu a mãe a ir em peregrinação até seu túmulo para implorar a cura de tal enfermidade.

Quando entraram na igreja, o assombro tomou conta das duas. Transcorria uma solene Celebração e naquele exato momento proclamava-se a Palavra do Santo Evangelho: “Então, uma mulher que havia doze anos padecia um fluxo de sangue, e gastara tudo quanto possuía sem ter sentido melhoras, tendo ouvido falar de Jesus, foi por detrás entre a multidão e tocou o seu manto. Imediatamente parou o fluxo de sangue e sentiu no seu corpo estar curada do mal. Jesus, conhecendo logo em Si mesmo a força que saíra d’Ele, voltado para a multidão, disse: ‘Quem tocou os meus vestidos?’. Os seus discípulos responderam: ‘Tu vês que a multidão Te comprime, e perguntas: Quem Me tocou?’ E Jesus olhava em volta para ver quem tinha feito aquilo. Então a mulher, que sabia o que se tinha passado nela, foi prostrar-se diante d’Ele, e disse-Lhe toda a verdade. Jesus disse-lhe: ‘Filha, a tua fé te salvou; vai em paz e fica curada do teu mal’” (Mc 5, 25-34).

Estupefatas e em extremo comovidas ao ouvirem essa passagem do Evangelho, caíram de joelhos e começaram a rezar. Assim ficaram durante muito tempo. Terminou a cerimônia, todos se retiraram, e elas, dando-se conta de que estavam sós, prostraram-se diante do sepulcro de Santa Ágata para implorar a bondade de Deus, pela intercessão da tão poderosa advogada.

Quis, porém, o Senhor manifestarSe a Luzia por meio de um sonho profético. Cansada pela fadiga da viagem, acabou a jovem caindo num sono profundo. Enquanto dormia, apareceu-lhe Santa Ágata, rodeada de um coro de anjos. Seu vestido era de uma beleza sem par, adornado de safiras e pérolas finas. Seu rosto, alegre e sereno, resplandecia como o sol enquanto ela dizia: “Minha queridíssima irmã e virgem consagrada a Deus, por que pedes pela intercessão de outrem o que tu mesma podes obter para tua mãe? Eis que ela se encontra já curada pela fé que tu tens em Jesus Cristo! Assim como Ele tornou célebre a cidade de Catânia por minha causa, tornará também gloriosa a cidade de Siracusa pela tua mediação, pois soubeste preparar no teu puro coração uma agradável morada para teu Criador”.

Ao ouvir estas palavras, levantou-se Luzia ainda mais convicta de sua consagração a Deus. Contou então à sua mãe a reconfortante visão e acrescentou que, pela graça de Deus, ela estava totalmente curada de sua enfermidade. E a jovem aproveitou a oportunidade para dizer-lhe confiante:

— Agora, minha mãe, uma só coisa te peço: em nome d’Aquele mesmo que te devolveu a saúde, deixa-me conservar minha virgindade, pertencendo somente ao nosso Criador. Repartamos entre os pobres os bens que preparaste para o meu casamento, e teremos grande tesouro no Céu!

Eutícia se deixou convencer e, voltando a Siracusa, ambas distribuíram suas riquezas entre os mais necessitados, segundo as instruções da comunidade cristã à qual pertenciam.

Ora, isto chegou aos ouvidos do jovem pretendente. Cheio de fúria, este foi ter com Eutícia e testemunhou, com seus próprios olhos, mãe e filha dando aos pobres suas jóias e objetos preciosos. Fora de si, correu até Pascásio, então prefeito da cidade, para acusar Luzia de praticar a religião cristã. Assim iniciou-se o processo que levaria esta Santa a brilhar no mais alto dos Céus, junto à nobre multidão dos gloriosos mártires!

Diante do tribunal

Edificante e arrebatador foi o julgamento da corajosa jovem. Refutou todos os argumentos e ameaças de Pascásio, e seu simples olhar impunha respeito. Vendo o juiz a serena segurança da prisioneira, tentou primeiramente persuadi-la com suaves palavras a oferecer sacrifícios aos deuses pagãos. Depois, ante a irredutível fé de Luzia, passou das adulações para a mais terrível ferocidade. Impávida, ela respondeu-lhe sem hesitar:

— Tu te preocupas em seguir as leis dos príncipes desta terra, enquanto eu procuro meditar dia e noite os mandamentos do Senhor. Tu te preocupas em comprazer o imperador, eu tudo faço para agradar a meu Deus, a quem consagrei minha própria virgindade.

— Pois bem — disse Pascásio — eu te farei conduzir a um lugar onde perderás tua castidade, assim o Espírito Santo te abandonará e deixarás de ser seu templo!

— A violência feita ao corpo não arranca a pureza da alma, se minha vontade não consente. Ao contrário, esta violência me proporcionará duas coroas: a da virgindade e a do martírio — respondeu a virgem.

Imediatamente Pascásio deu aos carrascos ordem de amarrar a inocente vítima e arrastá-la até uma casa de infâmia, para ela perder a honra da virgindade antes de ser decapitada.

Ora, o que podem todas as forças humanas contra a omnipotência de Deus? Os olhos do Bom Pastor pousavam sobre sua serva fiel e por isso impediu que os verdugos conseguissem tirá-la do lugar onde se encontrava. Tentavam em vão empurrá-la: Luzia permanecia imóvel, detida por uma mão invisível. Nem mesmo várias juntas de bois, aos quais a amarraram, conseguiram removê-la.

Obstinado no mal, Pascácio mandou levantar em volta da Santa uma enorme fogueira. Ela fitava sem medo o tirânico juiz, dizendo: “Pedirei ao Senhor que este fogo não me atinja, para que os fiéis reconheçam o poder de Deus e os infiéis fiquem ainda mais confundidos”. E efetivamente as chamas também fracassaram: a jovem ficou incólume em meio às labaredas.

Derrotado, Pascásio ordenou finalmente que a cabeça da virgem fosse cortada à espada. Uma celestial alegria transpareceu em seu semblante, ao ver que tinha chegado a hora do supremo encontro com seu Redentor. Entretanto, não morreu naquele instante. Caindo de joelhos, foi acolhida nos braços de alguns cristãos que assistiam ao seu martírio.

Antes de falecer, a virgem mártir prognosticou o fim das perseguições de Diocleciano e Maximiano, e o início de uma era de grande paz para a Santa Igreja. Esta profecia não tardou a tornar-se realidade: apenas dois anos após sua morte, subiu ao trono Constantino o Grande, que promulgou em 313 o Edito de Milão, concedendo liberdade ao culto Cristão, em toda a vastidão do Império.

Estavam, assim, largamente abertas as portas para a Igreja desenvolver-se triunfante, ao longo dos séculos.

* * *

A gloriosa Santa Luzia entregou sua alma a Deus no ano 304 da era do Senhor. Um raio da Graça tinha pousado sobre ela. Na Igreja de Cristo luzia mais uma mártir, no Céu mais uma santa!

Tu vincis inter martyres! — Tu vences, ó Cristo, pelas provas dos mártires!

Sinal de uma Noite Feliz

[jwplayer mediaid=”2175″]Silvana Gabriela Chacaliaza Panez

Deixemos que os inconfundíveis acordes da música natalina por excelência nos transportem misticamente à noite do nascimento do Divino Rei.

Quantas vezes um perfume, uma imagem, um som, um sabor, uma música ou até mesmo uma palavra nos recordam certa época de nossa vida, lembram algum episódio histórico, ou nos fazem reviver momentos especiais. Assim acontece, já no mês de novembro, quando ruas e lojas começam a se preparar para uma das festas mais importantes do ano: o nascimento do Menino Jesus.

São muitos os sinais que evocam, sob aspectos diferentes, o momento no qual os Céus se abriram para permitir a descida do Redentor, vindo ao mundo por amor aos homens.

A árvore de Natal, belamente enfeitada de bolas coloridas e feéricas luzes, lembra-nos, com seus presentes, o maior dom dado por Deus à humanidade: seu próprio Filho! No presépio representa-se a adoração que os Reis do Oriente renderam ao Menino Jesus, levando-Lhe ouro por ser o Rei dos reis, incenso por ser Deus verdadeiro em sua verdadeira humanidade, e mirra por ser o Redentor, que haveria de comprar com seu sofrimento a salvação dos homens.

Não podemos nos esquecer do menu da Ceia, parte importante da celebração natalina. Pensado com antecedência, ele procura simbolizar os manjares celestiais em torno dos quais se reúnem os bem-aventurados no Céu empíreo, a fim de propiciar uma conversa amena e um convívio agradável.

Mas talvez o que mais fale à alma sejam as músicas natalinas, pervadidas de inocência e transbordantes de afeto para com o Deus Menino nascido em Belém. E, entre todas, expressando por excelência o significado do Natal, está o Stille Nacht.
Conta a tradição haver nascido esta famosa canção do coração de dois homens. Um deles foi o padre Joseph Mohr, a quem podemos imaginar no pequeno povoado austríaco de Obendorf, no ano de 1818, preparando seu sermão para a Missa do Galo. Eis que, enquanto ele se encontrava imerso na leitura das Sagradas Escrituras, deitando toda sua atenção sobre elas, tocou à sua porta uma camponesa pedindo-lhe ir abençoar o bebê recém-nascido de um lenhador.

O sacerdote agasalhou-se e acompanhou a boa mulher. Pelo caminho, permanecia absorto, pensando na homilia que haveria de pregar, mas ao chegar à humilde cabana, o cenário com que se deparou marcou-o profundamente. Banhado por débil luz e aquecido por fraca lareira, um leito simples acolhia a jovem mãe com o recém-nascido doce e serenamente adormecido em seus braços, aguardando ser abençoado.

Quanta paz! Quanta inocência! Quanta presença do sobrenatural havia naquela singela cena!

No retorno, um poema fluiu com extrema facilidade de sua pena descrevendo os sentimentos que embalaram sua alma na pobre choupana. Estava escrito o Stille Nacht!

Na manhã seguinte, o padre Mohr se dirigiu à casa de seu grande amigo, Franz Gruber, professor de música do lugar, e mostrou-lhe as linhas que havia escrito. Gruber se encantou com a poesia e, inspirado por sua natalina beleza, logo compôs uma melodia para ela.

A partir daí, aquela que marcaria a História como a canção de Natal arquetípica foi sendo difundida aos poucos pelo mundo. E não foram as belas vozes dos cantores nem o melodioso som dos instrumentos que a consagraram, mas sua virtude para impregnar de candura natalina os ambientes onde ela é entoada.

Saibamos aproveitar este tempo de Natal, pervadido de bênçãos e inocência, para ver, nas fragilidades de um Deus feito Menino, o Senhor e Criador do Universo. Que nossos sentimentos de ternura e compaixão ao contemplar sua infantil pequenez estejam cumulados de reverência e veneração, junto com o ardente desejo de que todos os homens Lhe entreguem suas vidas, sua vontade e todo o seu ser.

Peçamos também a graça de ser inocentes, a fim de podermos entender a fundo o verdadeiro significado do que aconteceu na gruta de Belém. E deixemos que os acordes do Stille Nacht nos transportem misticamente à noite do nascimento do Divino Rei, para podermos rejubilar de alegria com toda a natureza, porque o Invisível se tornou visível, por sua Divina Humanidade, em uma “noite feliz”!

Santificador e guia da Igreja Católica

Elen Coelho

Inquietava-se a Santa Carmelita de Lisieux ao sentir que sua alma aspirava a outras vocações que transpunham os claustros de seu Carmelo. Almejava por todas as vocações: queria morrer em um campo de batalha em defesa da fé como um guerreiro ou um Zuavo Pontifício, ardia em desejo de derramar todo o seu sangue sofrendo os piores tormentos como um mártir dos primeiros tempos do cristianismo, desejava ser sacerdote para poder consagrar e distribuir o Santíssimo Corpo de seu divino Esposo, queria sair por toda a terra para apregoar as glórias de seu Bem-amado como os apóstolos, os profetas e os doutores.

Confessara então, que todos esses seus desejos lhe eram um verdadeiro martírio até que procurando uma resposta aos seus anseios, abriu as Cartas de São Paulo e encontrou um trecho no qual diz o Apostolo que nem todos podem ser tudo ao mesmo tempo: “São todos apóstolos? São todos profetas? São todos doutores? Fazem todos milagres? Têm todos a graça de curar? Falam todos em diversas línguas? Interpretam todos? Aspirai aos dons superiores. E agora, ainda vou indicar-vos o caminho mais excelente de todos”( 1 Cor 12, 29-31).

A resposta lhe pareceu clara, porém não satisfizera seus objetivos. Perseverou na leitura e deparou-se com outro versículo onde explicava o Apóstolo que todas as vocações não são nada sem o amor. Desta forma, compreendera afinal sua vocação e em um transporte de entusiasmo exclamou: “Ó Jesus, meu amor, minha vocação encontrei-a afinal: minha vocação é o amor. Sim, encontrei o meu lugar na Igreja […]. No coração da Igreja, minha Mãe, serei o amor… Assim, serei tudo… O meu sonho se realizará”.1

O que ardentemente procurava Santa Teresinha do Menino Jesus era algo que pudesse unificar e realizar todas as aspirações de sua alma identificando-se em todos os carismas que compõe o Corpo Místico de Cristo.

Contudo, essa busca nos põe diante de outro panorama, se uma alma ante seus díspares anseios pode harmonizá-los ao abrir-se à caridade, muito mais todos os carismas existentes dentro da Santa Igreja encontram sua unificação Naquele que é designado dentro da Trindade como o Amor.

Deus Pai ao se contemplar em sua natureza e divindade, imediatamente gera outra Pessoa Divina: o Filho, que é o Seu Pensamento o Seu Verbo. E o Pai e o Filho ao se contemplaram mutuamente e se verem inteiramente idênticos, “o Pai ama o Filho, e O quer por inteiro e é um amor infinito, é um amor tão forte, tão forte, que encontra um eco no Filho, […] não tem o que pôr nem tirar, a tal ponto que é um amor só. Esse amor o que é? Tão forte que é uma Pessoa.2 É a terceira Pessoa da Santíssima Trindade que, pelo amor, faz com que a união entre os membros da Esposa Mística de Cristo seja parecida com a que se desenrola no convívio Trinitário, sendo Ele a Alma da Igreja.3

Pois, assim como no princípio Deus criou um boneco de barro e inspirou-lhes nas narinas um sopro de vida e o homem se tornou um ser vivente, (Gn 2, 7) também, quis Deus que a Sua nascente Igreja recebesse, no dia de Pentecostes, uma alma que lhe desse plena vida e ação. “Pentecostes constituiu, sem dúvida, o último ato de fundação da Igreja […] Do mesmo modo que Deus modelou o corpo do homem e, logo após lhe insuflou o espírito, Cristo formou o Corpo de sua Igreja com estrutura apostólica e, em seguida, lhe infundiu em Pentecostes o Espírito Santo em pessoa”.4

Por conseguinte, pode-se claramente afirmar: “A alma da Igreja é a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, o Defensor prometido e enviado, que a santifica e enriquece pela ação de Sua graça e Seus dons, impedindo que Ela venha a sucumbir, ou até mesmo enlanguescer sob os reiterados ataques de seus adversários.”5

Toda a diversidade de membros que existe dentro da Santa Igreja encontra sua unificação pela ação do Espírito Santo: os que estão dentro da hierarquia eclesiástica, os religiosos e os leigos. Portanto, dentro da Igreja estão inteiramente consonantes os carismas: os franciscanos com sua específica doçura e humildade, o ardor e a lógica dos Jesuítas e a ousadia e a clareza de um Dominicano, e assim por diante.

Desse modo, o Divino Paráclito atende ao desejo do Salvador: “Para que todos sejam um, assim como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, para que também eles estejam em nós e o mundo creia que tu me enviaste. Dei-lhes a glória que me deste, para que sejam um, como nós somos um” (Jo 17, 21-22).

Também é função do Espírito Santo acompanhar cada fiel conferindo-lhe graças para sua perseverança e todos os auxílios para alcançar a glória eterna. Esse auxílio foi prometido por Nosso Senhor e o vemos registrado nas Sagradas Páginas do Evangelho e nas Epístolas Paulinas: “É anunciado como o Advogado que ajudará aos discípulos (Jo 14,16) habitando em seu interior como em um templo (I Cor 3,16) e unindo-os em um mesmo corpo (ICor 12,13). Ele os ensinará o anunciado por Jesus (Jo 14,26), os guiando- a verdade completa (Jo 15,13). Ele será seu defensor ante os tribunais (Mt 10,20), quem os fortalecerá no testemunho (I Cor 12,3). […] Ele fará dos cristãos moradas de Deus (Ef 2,21). E o auxílio dos cristãos em suas fraquezas (Rm 8,26) e é quem suscita no interior dos corações essa exclamação: ‘Abbá, oh Pai!’”6

Tudo o que existe na Barca de Pedro é movido e governado pelo Paráclito. Ele acompanha a cada passo. A esse respeito, teceu um belo comentário o prof. Plinio Correa de Oliveira: “Ao ver as coisas da Igreja, sentia eu uma impressão curiosa. Mais do que uma instituição, Ela me parecia uma alma imensa que se expressa através de mil aspectos, que possui movimentos, grandezas, santidades e perfeições, como se fosse uma só grande alma que se exprimiu através de todas os templos católicos do mundo, todas as liturgias, todas as imagens, todos os sons de órgão e de todos os dobrares de sinos. Essa “alma” chorou com os Réquiens, se alegrou com os bimbalhares da Páscoa e das noites de Natal; ela chora e se alegra comigo.[…] Depois vim a saber que “aquilo” que eu percebera era o Espírito Santo, a alma da Igreja”.7

Desta forma, concluímos que, mediante a assistência do Espírito Santo, a Santa Igreja Católica Apostólica e Romana pode levar a cabo com toda a perfeição sua missão santificadora, o Evangelho pode ser pregado por todos os povos, os papas podem, com toda segurança, transmitir seus ensinamentos. Surgem, então, novos carismas para fazer resplandecer mais uma faceta da Esposa de Cristo e o incessante florescimento de novas almas santas tornando-A assim “toda gloriosa, sem mácula, sem ruga, sem qualquer outro defeito semelhante, mas santa e irrepreensível.” (Ef 5, 27)

1SANTA TERESINHA DO MENINO JESUS. História de uma alma. 24. ed. São Paulo: Paulus, 2005, p. 214.
2 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Curso de Formação: Palestra. São Paulo, 17 set. 2002. (Arquivo IFTE).As matérias extraídas de exposições verbais — designadas neste trabalho, segundo sua índole, como “conferências”, “palestras”, “conversas” ou “homilias” — foram adaptadas para a linguagem escrita.
3ROYO MARIN, Antonio. El gran desconocido. Madrid: BAC, 2010.
4SAYES, José Antônio. La Iglesia de Cristo: Curso de Eclesiologia. 2. ed. Madrid: Palabra,2003 .p. 14 1-142.
5MORAZZANI ARRÁIZ, Clara Isabel. E renovareis a face da terrra… In: Arautos do Evangelho. São Paulo,n.77, maio. 2008. p.23.
6 CASERO LASANTA, Pedro Jesús, El Espírito Santo Alma de la Iglesia; Jubileu año 2000 . Salamanca: San Esteban, 2000.p.72-73. (Tradução da autora)
7CORREA DE OLIVEIRA, Plinio. Espírito Santo, alma da Igreja. In: Dr. Plinio. São Paulo: n.74, maio. 2004. p.4.

Um guerreiro bem armado

Esther Pinales

O século XVI foi, sem dúvida, um dos mais agitados na história eclesial. A Europa, desde a revolta de Martinho Lutero e o surgimento dos sofismas e heresias de Zwinglio, Calvino, Henrique VIII e outros, viveu horas trágicas com agitações profundas, extensas e violentas no campo religioso e até mesmo no social.

A luminosidade, os encantos e a beleza do pensamento do homem medieval quebraram-se, abrindo passo à renascença, “a qual caminhava orgulhosa dos inegáveis talentos dos homens suscitados na ocasião em que ela se desenvolveu. Laica, voltada para os prazeres da Terra, tisnada de neo-paganismo” (PCO, 05/08/78).

Lamentável era a situação do Clero e das ordens religiosas, algumas em franca decadência. No ar, sentia-se a grande corrupção de costumes e a liberdade das más tendências; cristãos vivendo como pagãos e negando praticamente o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo: rebeliões, sacrilégios e escândalos cobriram todo o continente europeu.

No entanto, Deus na Sua Providência misericordiosa, jamais abandonou nem abandonará a sua Igreja. É o que em diversas ocasiões nos ensina Monsenhor João Clá Dias. Fato surpreendente e admirável! Sempre nas horas mais calamitosas e de maior corrupção e misérias morais e heresias, surgem extraordinários santos e heróis.

No século da revolta protestante (XVI), Deus suscitou um Inácio de Loyola, uma Santa Teresa de Ávila, São Caetano Thiene, São Jerônimo Emiliano, São Felipe Neri, Santo Antonio Zacarias, São Luis Gonzaga, e uma série de bem-aventurados. Nesta formosa constelação, como resposta do céu à heresia que negava a santidade da igreja, brilha também a figura singular de Roberto Belarmino.

Este santo foi um dos mais valentes defensores da Igreja Católica, Apostólica e Romana contra os ataques dos protestantes. Seus livros são tão sábios e cheios de argumentos convincentes que um dos mais famosos chefes protestantes exclamou ao ler um deles: “Com escritores como este, nós estamos perdidos, não há como responder-lhe”.

São Roberto nasceu em Itália, na cidade de Montelpuciano, Toscana, no ano 1542. A sua mãe era irmã do Papa Marcelo II. Conta-se que já em terna idade o menino Roberto dava mostras de possuir uma inteligência superior à dos seus companheiros e uma memória prodigiosa. Ele recitava de cor muitas páginas em latim do poeta Virgílio, como se as estivesse lendo.

Em resposta à sua entrega a Deus, lê-se em suas memórias: “Num instante, quando mais desejoso eu estava de conseguir cargos honoríficos, de repente me veio à mente a rapidez com que passam os bens da terra e a conta que todos nós vamos ter que dar a Deus, e me produziu o ideal de entrar na vida religiosa”. Roberto foi recebido na Ordem dos Jesuítas em Roma no ano 1560; ele entrava na companhia para escapar de cargos honoríficos tais como ser bispo ou cardeal, pois as regras dos jesuítas na época proibiam ambas as posições. Mas os planos da divina providência eram outros. Roberto negava-se aceitar tão alto cargo dizendo que os regulamentos da companhia de Jesus proibiam aceitar a títulos elevados da Igreja. O Papa respondeu-lhe que ele tinha o poder para dispensá-lo, e por fim lhe mandou, sob pena de pecado mortal, aceitar o cardinalato.

Os protestantes (evangélicos, luteranos, anglicanos, entre outros) tinham publicado uma série de livros contra a Fé Católica, e estes não encontravam como se defender. Então, o Sumo Pontífice solicitou ao santo preparar os sacerdotes para enfrentar os inimigos da Religião e a dirigir os jovens seminaristas, entre eles São Luis Gonzaga.

Ele fundou um curso que se chamava “Las Controversias”, para ensinar seus alunos discutir com os adversários e escreveu o CATECISMO RESUMIDO, o qual foi traduzido em 55 línguas e 300 edições.

Morreu no dia 17 de Setembro de 1621, e o Sumo Pontífice Pio XI o declarou Santo em 1930, e Doutor da Igreja em 1931.

Peçamos a São Roberto Belarmino um ardente desejo de conhecer, amar e defender a Doutrina Cristã.

Evitar as doenças litúrgicas

Aline Karolina de Souza Lima

Um sacerdote anônimo de Zaragoza obteve por meio de sua experiência nos púlpitos de diversas comunidades cristãs, a compreensão de doenças graves que apenas se davam durante as celebrações. Tal ocorrência desejava ele combater, no entanto, essas enfermidades se tornavam tão mais expansivas quanto maior o número de fiéis. São elas:

Afasia litúrgica: É um súbito bloqueio dos órgãos vocais que ocorre nas pessoas ao entrarem pela porta da igreja. Nota-se durante os cânticos, nas respostas ao fim das orações e, inclusive, na hora de dizer “amém” ao receber a comunhão.

Vanguardofobia: Basta penetrar no santuário e não tarda em aparecer: pernas tremem e um medo implacável impede o indivíduo de pôr-se nos primeiros bancos da igreja. Sentem-se, talvez, aludidos com os apertos de Jesus no Evangelho aos fariseus, acusados de ocupar os primeiros lugares. É um mal muito útil para casos de incêndio.

Dupla corrente auricular: É a enfermidade mais grave. Deve-se a ampla abertura nos condutores auriculares permitindo que o som entre por um ouvido e saia, imediatamente, pelo outro, sem passar pelo cérebro, nem pelo coração. Os sintomas se intensificam em casos de avisos finais ou recomendações.

Síndrome Homilética: Trata-se de um estado de semi-transe. O paciente tende a perder o contato com a realidade e, em pouco tempo, entra numa total inconsciência. Apenas se manifesta quando o sacerdote começa a homilia. Desaparece quando os demais se põem em pé para cantar o Credo.

Precisamos nos precaver para que esses males não se abatam sobre nós. Pois, devemos tirar da Missa todo o proveito, visto que o Santo Sacrifício é a obra mais santa e agradável a Deus, é o que faz aplacar a cólera do Altíssimo, abater as forças do inferno, além de obter graças mais abundantes para os homens.

“O ponto verdadeiramente vital da luta da Revolução e da Contra-Revolução está em que sejam celebradas muitas Missas. Bem como d’Ela participem, também convenientemente os fiéis, quer acompanhando o rito da Missa, quer comungando […]. Se acabassem as Missas, a Revolução acabaria por tomar conta do mundo num instante”. (Plinio Corrêa de Oliveira 22/08/88)

‘A Missa é o elemento essencial para a luta. É a melhor arma, é a melhor muralha. E a melhor forma de estarmos ligados ao Céu”. (Mons. João 10/05/10)

Portanto, cabe a todos fazer jus às graças que nos são obtidas todos os dias através das Missas. Assim como a Terra precisa do Sol, também os homens necessitam das Missas, pois, caso contrário, seriam privados de todos os bens e sobrecarregados de todos os males.

O taumaturgo de Montreal

Irmã Elizabeth Veronica MacDonald, EP

Uma notícia alvissareira logo correu por toda a vila: “O Irmão André está no bairro, visitando uma mulher enferma!”.

Parando para apertar com firmeza a mão de um rapaz, disse-lhe: “Não te preocupes, as coisas vão se endireitar”. Mais adiante, fitou um ancião e perguntou-lhe: “Tens fé de que São José pode te curar?”. E com voz transbordante de afeto acrescentou: “Coragem! Tem confiança em São José!”.

Por fim, antes de partir, deu a todos uma última recomendação: “Continuem a rezar!”.
Já no carro, o motorista comentou:

— Parece uma cena da vida de Jesus: o povo correndo diante do senhor e implorando favores e curas!

— Talvez… mas aqui Deus certamente está usando um instrumento bastante miserável — respondeu o santo com simplicidade.

“Estou lhes enviando um santo”

Alfredo — era este seu nome de Batismo — nasceu numa família pobre e numerosa, em 9 de agosto de 1845, na aldeia de Saint-Grégoire d’Iberville, próxima de Montreal. De saúde débil, a dor o acompanhou desde pequeno.
Segundo alguns biógrafos, sua assinalada devoção a São José talvez tenha origem no fato de seu pai ser carpinteiro. Mas, em qualquer caso, a vida de Alfredo vai estar marcada, já desde a infância, por um relacionamento todo especial entre o Patriarca da Igreja e aquele piedoso menino, que haveria de construir a maior igreja do mundo dedicada a ele.

Antes, porém, teve de percorrer um longo e sinuoso caminho. Tentou exercer várias profissões, sem êxito, devido à sua fraca saúde. Aos vinte anos, partiu para os Estados Unidos, buscando trabalho nas fábricas têxteis de Connecticut, mas voltou algum tempo depois, quando ficou evidente que não tinha forças para esses serviços.

Foi o pároco da sua aldeia natal quem, percebendo a virtude, retidão e constância desse jovem, identificou nele uma autêntica vocação religiosa e o encaminhou ao colégio que a Congregação da Santa Cruz — fundada, havia pouco, na França pelo Beato Basile Moreau — já possuía em Montreal. “Estou lhes enviando um santo”, declarou o pároco, na carta em que recomendava aquele candidato simples e analfabeto.

O melhor “cartão de visitas” da Congregação

Alfredo não defraudou aquelas expectativas. Logo aprendeu a ler e, com seu comportamento exemplar, ajudou a elevar o padrão do noviciado. A meditação sobre os sofrimentos de Cristo sempre fora uma das colunas da sua espiritualidade. “Se nos lembrássemos que o pecado crucifica novamente Nosso Senhor, nossas orações seriam mais adequadas” 1, afirmava. Entretanto, procurava manter sem cessar seus companheiros animados, repetindo-lhes: “Tentem não ficar tristes! Faz bem sorrir um pouco…”.

Ao se aproximar o fim do noviciado, Alfredo Bessette receava ser-lhe negada a autorização para proferir os votos religiosos, por causa de sua saúde débil. Mas após pedir a intercessão do Bispo, Dom Ignace Bourget, acabou por fazê-los em 22 de agosto de 1872, trocando o nome de Batismo pelo de Irmão André.

O superior o incumbiu da portaria do colégio e ele ali desempenhou com toda perfeição sua tarefa: mantinha o ambiente em ordem exímia, servia de carteiro e executava vários outros serviços. Falando inglês e francês, revelou especial talento para receber as pessoas e fazê-las sentir-se à vontade. Acabou por tornar-se o melhor “cartão de visitas” da Congregação.

No fim da vida, costumava dizer espirituosamente: “Quando ingressei nesta comunidade, os superiores me mostraram a porta e lá fiquei durante quarenta anos”. 2

Curas numerosas e bem documentadas

Cerca de cinco anos após sua entrada em religião, começou a manifestar-se nele o dom da cura. Certo dia, aproximou-se do leito no qual jazia um estudante com febre alta e mandou-o ir brincar, afirmando estar ele em perfeita saúde. Para espanto do médico de plantão, o menino saiu sadio da cama.

Noutra ocasião, chegou à portaria o pai de um aluno, com fisionomia preocupada, e o bom irmão lhe perguntou qual era seu problema. O pobre homem explicou que sua esposa ficara paralítica. “Talvez ela não esteja tão doente como parece”, disse-lhe o santo. Naquele momento, do outro lado da cidade, a mulher levantou-se e começou a caminhar regularmente.

Irmão André aproveitava essas curas, sempre realizadas de forma discreta, com aparência de normalidade, para fazer um apostolado contínuo: recomendava a oração perseverante, sugeria novenas, “receitava” a aplicação do óleo de uma lamparina que ardia ante a imagem de São José, ou aconselhava a levar consigo uma medalhinha deste, pois, dizia, “tudo isso são atos de amor e fé, de confiança e humildade”.

Fazia também questão de esclarecer a verdadeira causa das curas a ele atribuídas, afirmando ser o bom Deus quem faz os milagres e São José quem os obtém. “Eu sou apenas o cachorrinho de São José”, dizia com humildade. 3

Certo dia, enquanto lavava o corredor central do colégio, apresentou-se diante dele, apoiada em duas pessoas, uma mulher atacada de reumatismo, incapaz de caminhar sozinha. Irmão André, olhando-a com perplexidade, disse-lhe:

— Creio que a senhora poderia andar por conta própria. Por que não experimenta ir sozinha até à capela?

Ela assim o fez, e regressou para casa andando sem dificuldade e chorando de gratidão.

Quando a afluência de doentes começou a perturbar a rotina do colégio, Irmão André transferiu suas atividades apostólicas para uma estação de ônibus, situada nas proximidades. Ao saber disso, o Arcebispo perguntou aos superiores que faria ele se o obrigassem a parar de fazer milagres. Ao saber que ele obedeceria cegamente, replicou: “Então, deixem-no. Se esta obra é de Deus, florescerá; se não, vai desmoronar”. 4

As curas de almas e corpos continuaram às torrentes. Mais de quatro mil páginas documentando-as foram recolhidas durante o processo de beatificação.

Um dos casos mais impressionantes é o de um jovem, vítima de terrível acidente industrial. Com o rosto queimado, em risco de ficar cego, correu à procura do Irmão André, mas este estava atendendo um infeliz canceroso, e havia muitos outros à espera. Sem sequer tê-lo visto chegar, o religioso apareceu e perguntou-lhe:

— Quem disse que perderás as vistas? Tens confiança na intercessão de São José?

Diante da resposta afirmativa, recomendou-lhe:

— Vai para a igreja, assiste à Missa e comunga em honra de São José. Continua com os teus remédios, mas adiciona a eles uma gota do óleo da lamparina do glorioso Patriarca, rezando esta jaculatória: “São José, rogai por nós!”. Tem confiança, tudo correrá bem!

O acidentado fez com exatidão o que lhe foi recomendado e, no dia seguinte, o tecido cauterizado de seu rosto caiu como “folhas de papel celofane”. Inteiramente restabelecido, voltou em sinal de reconhecimento.

— Agradece a São José e não cesses de rezar! — limitou-se a dizer o santo taumaturgo.

A dona de uma lanchonete próxima, que alguns dias antes havia visto o moço com o rosto desfigurado, não podia acreditar se tratar agora do mesmo homem. E começou a apregoar para todos o impressionante milagre de que era testemunha.

Uma igreja para São José

Um santo anseio abrasava, porém, a alma do humilde porteiro. Ansiava ele construir próximo ao colégio, no Mont-Royal, uma igreja em honra de seu protetor. Mas o objetivo era muito ousado…

Certo dia, um religioso da sua comunidade contou-lhe que a imagem de São José da sua cela parecia girar sozinha, em direção a esse monte. Exultante, Irmão André reconheceu nesse fato o esperado sinal da Providência para dar início à realização de seu anelo, e juncou de medalhinhas o lugar almejado.

Em 1896, a Congregação da Santa Cruz adquiriu aquele terreno, com a finalidade de evitar uma má vizinhança para o colégio. Irmão André obteve autorização para colocar uma imagem de São José na gruta ali existente e as peregrinações não tardaram a começar. Milhares e milhares de pessoas a visitavam.

Após economizar duzentos dólares, a partir dos cortes de cabelo dos alunos do colégio, a cinco centavos cada um, foi possível levantar uma pequena capela. Começou-se também a obter esmolas no “pratinho de ofertas” posto aos pés do Santo, e até nos Estados Unidos eram obtidas doações.

Em 1904, foi erigido um pequeno Oratório de São José, constituído de uma capela um pouco maior e um escritório, no qual passou a residir o Irmão André. Treze anos depois, o edifício foi ampliado, de modo a comportar mil pessoas sentadas, mas este também logo se tornou pequeno para a grande afluência de fiéis.

A construção da basílica atual — a maior igreja do Canadá — começou em 1924. Oito anos depois foi preciso detê-la por falta de meios, em consequência da grande crise econômica pela qual atravessava o país. Sem se afligir, Irmão André colocou uma imagem de São José no interior do prédio inacabado, dizendo:

— Se ele deseja um teto sobre sua cabeça, o teto virá. Dois meses depois, reiniciavam-se as obras…

Cabe notar que, embora considerasse um dever levar adiante essa construção, Irmão André dedicava-lhe apenas o tempo permitido pela obediência, sem deixar de cumprir suas funções.

Ministério de amorosa oblação

O dia a dia daquele humilde porteiro estava todo tomado por um ministério de amorosa oblação. Começava a jornada acolitando duas Missas, e às oito horas da manhã abria a porta aos visitantes. No pequeno escritório, que também lhe servia de cela, recebia cotidianamente entre 200 e 400 pessoas, podendo chegar a 700.

Os que iam ao encontro do Irmão André procurando sensacionalismo saíam decepcionados. Seus conselhos eram simples e sensatos, visando a cura das almas mais que o alívio dos males corporais. Algumas vezes limitava-se a ajudar as pessoas a aceitarem a vontade divina. “Deus terá uma eternidade para te consolar de teus sofrimentos aqui”, 5 lhes dizia.

Encorajava também a Confissão frequente e a Comunhão diária, garantindo que Jesus nada recusa a quem O hospeda em seu coração. E comentava: “Coisa curiosa: recebo numerosos pedidos de cura, mas raramente alguém pede a virtude da humildade ou o espírito de fé”. 6

Para com as pessoas afastadas da prática religiosa por fraqueza ou ignorância, demonstrava ilimitada compaixão. Contava-lhes de modo comovedor a parábola do Filho Pródigo e concluía: “Comme le bon Dieu est bon — Como o bom Deus é bom!”. Mas cortava pela raiz as atitudes de revolta e má fé: “Será que Deus te deve alguma coisa? Se pensas assim, podes fazer teus próprios arranjos com Ele”. 7

O preço com o qual ele comprava o alívio e a conversão dessas almas era bem alto. No fim da jornada, mesmo consumido pela indisposição e cansaço, ainda fazia uma vagarosa Via Sacra na capela e, em seguida, ajoelhado durante horas rezava com os braços estendidos em forma de cruz. Sua cama ficava muitas vezes intacta durante a noite toda. E quando um irmão de hábito lhe implorou que dormisse, oferecendo seu sono como uma oração, ele respondeu gravemente: “Se soubesses o estado daqueles que pedem minhas orações, não me darias tal sugestão”.8

Primeiros frutos póstumos

Os fiéis amavam aquele bom ancião de cabelos brancos e pediam-lhe para que não os deixasse. Mas, completados os 92 anos, a morte se aproximava e ele os consolava amavelmente, afirmando que se alguém pode fazer o bem na Terra, mais ainda poderá fazê-lo do Céu.

No dia 6 de janeiro de 1937, a triste notícia era dada com destaque pelos mais importantes jornais de Montreal: “Morreu Irmão André”. Enfrentando a neve e o gelo, uma verdadeira multidão começou a se deslocar em direção a Mont-Royal para despedir-se de seu taumaturgo. Chegavam de avião, de trem, de todos os meios de transporte. O Oratório de São José transbordava de uma multidão tomada de devoção e piedade, enquanto penitentes enchiam os confessionários. Calcula-se que um milhão foram as pessoas que subiram o serpenteante caminho do santuário, para se despedir daquele cuja única ambição fora servir a Deus na completa despretensão da vida religiosa.

Eram os primeiros frutos póstumos desse simples irmão leigo que tornou-se o primeiro santo de sua Congregação, bem como o primeiro varão nascido no Canadá a ser elevado às honras dos altares.

Irmão André não chegou a ver finalizado o grande Santuário, que foi concluído apenas em fins da década de 60, como também não viu a realização de mais um de seus desejos: colocar uma grande Via Sacra nos aforas da igreja, para fomentar a devoção à Paixão do Redentor.

Mas é impossível não sentir sua presença em cada uma das dependências desse impressionante templo, que atrai anualmente três milhões de peregrinos, dando testemunho do poder de intercessão do Patrono da Igreja Universal. Logo ao chegar, uma grande imagem de São José, esculpida em pedra, recebe os visitantes na escadaria central. Em sua base, uma inscrição de três palavras dá as boas-vindas, evocando a sabedoria simples e piedosa daquele irmãozinho que jaz na cripta: “Ite ad Joseph — Ide a José”.

1FERGUSON, John. The Place of Suffering. London: James Clarke and Co., 1972, p.115.
2BALL, Ann. Faces of Holiness. Huntington (IN): Our Sunday Visitor, 2001, p.54.
3KYDD, Ronald. Healing Through the Centuries. Peabody (MA): Hendrickson, 1998, p.85.
4BALL, op. cit., p.57.
5TREECE, Patricia. Nothing Short of a Miracle. New York: Doubleday, 1988, p.74.
6O’MALLEY, Vincent. Saints of North America. Huntington (IN): Our Sunday Visitor, 2004, p.26.
7KNOWLES, Leo. Modern Heroes of the Church. Huntington (IN): Our Sunday Visitor, 2003, p.82.
8TREECE, op. cit., p.75.

Mediação universal de Maria

Cássia Thaís Costa Dias de Arruda

Um dos modos de medirmos a grandeza de um soberano é considerarmos os seus títulos. Por exemplo, Luís II de Bourbon, o Grand Condé, contemporâneo de Luís XIV, foi uma das grandes glórias do reino francês, sendo possuidor dos seguintes títulos: “príncipe de Condé, primeiro príncipe de sangue real, primeiro par de França, duque d’Enghien, de Bourbonnais, de Châteauroux, de Montmorency, cavaleiro das Ordens do Rei, governador da Borgonha e de Bresse”.1 Podemos, através destas qualificações, constatar como o Grande Condé não era uma pessoa insignificante no reino da França.

Se assim é com um nobre, muito mais ainda o será com a Mãe de Deus. Aureolada de incontáveis títulos que tentam expressar as qualidades de sua alma, de Maria Santíssima “nunquam satis”2; d’Ela nunca será dito o suficiente, nem se esgotarão os louvores que lhe são devidos.
Dentre as diversas invocações atribuídas à Santíssima Virgem, trataremos neste artigo, de maneira especial, daquela que é de fundamental importância para a nossa salvação: Medianeira Universal de todas as graças.

Maria Santíssima: “Medianeira não necessária, mas desejada pela Providência”3

Ensina-nos o Doutor Angélico que o ofício de mediador entre Deus e os homens consiste em uni-los.4Desta forma, este ofício só pode atribuir-se de modo perfeito e absoluto a Nosso Senhor Jesus Cristo, “o único que nos pôde reconciliar com o Padre Eterno oferecendo-lhe, por toda a humanidade, um sacrifício de valor infinito, o da Cruz. […] Ele é mediador como homem, na qualidade de sua humanidade pessoalmente unida ao Verbo, e tendo ela recebido a plenitude da graça, a graça capital, que deve derramar-se sobre nós”.5

Apesar disso, abaixo de Deus existem os chamados “mediadores secundários” (secundum quid), que dispõem os homens a receberem as influências que dimanam do mediador supremo ― Cristo ― ou, por vezes, são eles mesmos que as distribuem, em função dos méritos do Redentor. Deste modo, agiram os profetas e os sacerdotes levitas do Antigo Testamento, bem como os sacerdotes de todos os séculos, na qualidade de ministros do mediador principal.6

Entretanto, no que diz respeito à mediação de Nossa Senhora, “ela não o é precisamente na qualidade de ministro, mas como associada à obra redentora de seu Filho”.7Tendo sido por ela que Deus enviou seu Filho ao mundo para redimir o gênero humano, é também por meio da Mãe de Cristo que Deus continua a distribuir o seu perdão e a sua misericórdia. “De tal maneira ela cooperou com toda a obra da redenção, e de tal forma que, depois do pecado original, nenhuma graça nos vem sem seu influxo”.8

Já desde os primeiros séculos do cristianismo, a Tradição Apostólica reconhece Maria Santíssima como medianeira entre Deus e os homens. Se, por exemplo, nos detivermos para analisar os ícones mais antigos existentes na Igreja, constataremos que eles, em sua grande maioria, apresentam a Santíssima Virgem com o seu Divino Filho nos braços. Tais imagens simbolizam que Maria, sendo Mãe de Deus, tornou-se Senhora de toda a criação, e “enquanto Mãe de Deus, sua súplica é governativa por vontade de Deus”.9

A mediação de Maria é, portanto, uma mediação subordinada à do Salvador. Não é de caráter estritamente necessário ― uma vez que a de Nosso Senhor Jesus Cristo é absoluta e não precisa de complemento ― mas “desejada pela providência, como o mais excelente fulgor da mediação de Cristo”.10

Desta forma, é absolutamente lícito e de acordo com a doutrina da Igreja afirmar que, por vontade de Deus, nenhuma graça trazida por Cristo com a sua Redenção ― nihil prorsus ― é comunicada aos homens sem o intermédio de Maria.11A este respeito, nos assegura São Bernardino de Sena que “todas as graças que são concedidas ao mundo percorrem este caminho: de Deus descem para Cristo, de Cristo descem para a Virgem e, finalmente, pela Virgem, em uma ordem admirável, são distribuídas entre nós”.12

Sendo Cristo cabeça da Igreja, a piedade cristã costuma figurar Maria como sendo o pescoço, pois “todos os dons, todas as graças, todos os influxos celestiais procedem de Cristo, como da cabeça, e passam por Maria, como pelo pescoço, ao corpo da Igreja”.13Assim como o corpo não pode receber nenhum comando da cabeça, sem que este antes passe pelo pescoço, de igual modo, nenhuma graça é recebida de Cristo sem o auxílio de Maria.

Reconhecida de tal modo pela piedade cristã, a ordem das coisas faz com que também seja por meio de Nossa Senhora que as súplicas da humanidade subam até o trono do Altíssimo, pois “o termo ‘mediação’, ou ‘medianeira’, além de convir à distribuição de todas as graças […], convém também, e sobretudo, à obtenção de todas as graças”.14

1ROBERT, Henri. Os grandes processos da História. Trad. Juvenal Jacinto. Porto Alegre: Globo, 1939. Vol. IV. p. 37.
2CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. A entrega do Brasil ao Imaculado Coração de Maria. In: Revista Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei, n. 42, set. 2001. p. 7.
3CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Pequeno Ofício da Imaculada Conceição Comentado. São Paulo: Ipsis, 2010. Vol. II. p. 126.
4SÃO TOMÁS DE AQUINO. S. Th. III. q. 26, a.1.
5CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Pequeno Ofício da Imaculada Conceição Comentado. Op. cit. Vol. I. p. 126.
6ENRIQUE MERKELBACH, Benito. Mariologia: Tratado de la Santisima Virgen Maria Madre de Dios y Mediadora entre Dios y los hombres. Madrid: Bilbao, 1954. p. 414-415.
7CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Pequeno Ofício da Imaculada Conceição Comentado. Op. cit. Vol. I. p. 127.
8“de tal manera cooperó a toda la obra de la redención, y en tal forma que, después del pecado original, ninguna gracia nos viene sin su influjo” (ENRIQUE MERKELBACH, Benito. Op. cit. p. 421. Tradução da autora).
9CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Com o cetro de Deus nas mãos. In: Revista Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei, n. 152, Nov. 2010. p. 36.
10CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Pequeno Ofício da Imaculada Conceição Comentado. Op. cit. Vol. II. p. 128.
11ROSCHINI, Gabriel. Op. cit. p. 101.
12SÃO BERNADINO DE SENA apud ROSCHINI, Gabriel. Op. cit. p. 101.
13“Todos los dones, todas las gracias, los influjos celestiales todos, proceden de Cristo, como de cabeza, y pasan por María, como por el cuello, al cuerpo de la Iglesia” (SÃO ROBERTO BELARMINO. In: LÓPEZ MELÚS, Rafael María. Nuevas alabanzas a María. Sevilla: Apostolado Mariano, 2000. p. 155. Tradução da autora).
14ROSCHINI, Gabriel. Op. cit. p. 83.

A Encarnação: uma necessidade?

CAROLINE FUGIYAMA NUNES

Como nos ensina a teologia, tudo o que Deus faz é perfeito. Mas, para entendermos com profundidade o seu agir durante a História, nos é necessário, sobretudo, por sermos criaturas racionais, alguns pressupostos que tornam mais fácil perceber a sabedoria e poder de Deus no decorrer dela. Por isso, para compreendermos acerca do mistério da Encarnação, apresentamos algumas razões dadas sabiamente pela Doutrina Católica, para assim amarmos esta importante e magnífica obra de Deus entre os homens.

Deus, por seu supremo poder, poderia perdoar o pecado do homem por um simples desejo seu, sem exigir nenhuma reparação, pois é o ofendido e não tem sobre si nenhum superior a quem deva dar conta de seus atos. Sendo o supremo Juiz, pode fazê-lo com misericórdia sem contradizer a justiça, pois aquela seria o complemento e plenitude desta. É o que ensina o Doutor Angélico:

Se tivesse querido libertar o homem do pecado sem satisfação, não teria procedido em contra da justiça. Não pode perdoar a culpa ou a pena, respeitando a justiça, aquele juiz que está obrigado a castigar a culpa cometida contra outro, seja contra outro nome, seja contra a comunidade inteira ou contra um governante superior. Mas Deus não possui superior algum, senão que Ele mesmo é o bem supremo e comum de todo o universo. E por isso, se perdoa um pecado que tem razão de culpa porque se comete contra Ele, a ninguém faz injúria, como o homem que perdoa uma ofensa contra ele, sem que seja feita a satisfação, obra misericordiosamente, e não injustamente. E, por este motivo, Davi, quando pedia misericórdia, dizia no Sal 50, 6: Somente contra ti pequei, como se dissesse: Podes perdoar-me sem injustiça”.1

Portanto, quando Deus atua com misericórdia, não contradiz sua justiça, senão que faz algo que está por cima da justiça, por isso se diz: “A misericórdia triunfa sobre o juízo” (Tg 2, 13). Analisada sob este ponto, conclui-se que não haveria nenhuma necessidade da encarnação, uma vez que pode ser reparada por um simples ato de misericórdia. Ela foi realizada pela suprema vontade de Deus.

Conveniência da Encarnação

Ora, quando nossos primeiros pais pecaram, abriu-se entre os homens e Deus um abismo infinito, sendo impossível, por parte do homem, uma reparação de justiça estrita. Poderia Deus exigir do homem uma reparação de justiça imperfeita, ou seja, mostrando-lhe o que devia oferecer-lhe em reparação. Tampouco, nada disso satisfaria e estaria a altura da dívida. Deste modo, para salvar, em sentido de justiça estrita, esta distância infinita entre nós e Deus e pagar completamente a dívida, foi conveniente que o Homem-Deus se encarnasse.2 A encarnação do Verbo, portanto, considerada em si mesma, foi convenientíssima. Entretanto, há também outras duas razões principais, segundo Royo Marín: pela natureza mesma de Deus, pois sendo o Sumo Bem Lhe convém comunicar-se em sumo grau. Isso só poderia realizar encarnando-se e assumindo uma natureza humana.3 A segunda razão é para que Deus, realizando a encarnação, manifestasse seus atributos divinos:

a) A INFINITA BONDADE DE DEUS, que não desprezou a debilidade de nossa pobre natureza.

b) SUA INFINITA MISERICÓRDIA, já que pôde remediar nossa miséria sem necessidade de tomá-la sobre si.

c) SUA INFINITA JUSTIÇA, que exigiu até a última gota de sangue de Cristo para o resgate da humanidade pecadora.

d) SUA INFINITA SABEDORIA, que soube encontrar uma solução admirável ao difícil problema de concordar a misericórdia com a justiça.

e) SEU INFINITO PODER, já que é impossível realizar uma obra maior que a encarnação do Verbo, que juntou em uma só pessoa o finito com o infinito, que distanciam entre si infinitamente.

Querendo Deus manifestar seus divinos atributos, quer tornar-nos manifesto todo o seu amor por nós e toda sua benquerença de maneira ilimitada.4

“O Verbo se fez carne para que, assim, conhecêssemos o amor de Deus: “Nisto manifestou-se o amor de Deus por nós: Deus enviou seu Filho Único ao mundo para que vivamos por Ele” (1 Jo 4, 9). “Pois Deus amou tanto ao mundo, que deu seu Filho Único, a fim de que todo o que crer nele não pereça, mas tenha a Vida Eterna” (Jo 3, 16). O Verbo se fez carne para ser nosso modelo de santidade ﴾CCE 458 – 459﴿”.

Ele quis mostrar como é este modelo, Ele quis trazer-nos um tipo humano novo. Manifestou-Se como a suprema figura de santidade. Por isso Ele próprio afirmou: “Sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito”, e depois, “Eu e o Pai somos um, quem vê a mim vê ao Pai”. Portanto, olhando, imitando a Ele, vemos a perfeição e a santidade do Pai. Foi de fato, conveniente que Ele Se encarnasse: para podermos ter, por assim dizer, um padrão de santidade a imitar.

Manifestação de poder e bondade pela misericórdia

São Tomás e outros tomistas também afirmam que o motivo da Encarnação foi, sobretudo, um motivo de misericórdia, para salvar a humanidade caída. Ele Se encarnou com o objetivo de se dar aos pecadores. Encontramos numerosas testemunhas que dão base a esta opinião. O próprio Nosso Senhor Jesus Cristo diz a São Lucas: “O Filho do homem veio procurar e salvar o que estava perdido” (Lc 19, 10). Também nos afirma São João: “Pois Deus não enviou o Filho ao mundo para condená-lo, mas para que o mundo seja salvo por ele” (Jo 3, 17). E acrescenta em sua primeira epístola: “Ele nos amou e enviou seu Filho, como propiciação de nossos pecados” (1 Jo 4, 10).

Por outra parte, o próprio nome de Jesus significa a sua missão entre nós: a de Salvador. Nosso Senhor veio como Salvador e Redentor, mais do que Rei e Profeta, se bem que seja os dois. Mas, dentro do plano do pecado, Ele veio, sobretudo, com as características de Salvador e Redentor. Fora do plano do pecado viria como Rei, Profeta, etc. Ele veio a nós enquanto vítima expiatória por nossos pecados.5

São João Crisóstomo diz belamente que, “a Encarnação não tem outra causa que esta: Deus nos viu caídos na abjeção, oprimidos pela tirania da morte e teve misericórdia”.6 Foi por causa do pecado que nós tivemos um Redentor, pois a misericórdia inclina o superior ao inferior. Ele se inclina a nós, para nos levantarmos até Ele.

Com isso, o Verbo feito carne pôde oferecer em reparação ao Pai, um ato de amor de um valor sem limites. “Assim, a misericórdia divina, longe de subordinar o Verbo encarnado a nós, é a mais alta manifestação do Poder de Deus e de sua Bondade. Canta a glória de Deus mais que todas as estrelas do firmamento”.7 A Redenção trouxe esta manifestação.

Reparação e salvação

A Encarnação era, assim, a fonte de graças mais fecunda para salvar-nos, tal como era necessário para que a reparação perfeita da ofensa fosse feita a Deus. Nenhuma intervenção divina poderia salvar-nos melhor do mal. Pela Encarnação fomos arrancados do mal e impulsionados ao bem.

Que confiança nos inspiraria o mistério da encarnação, se nos esforçássemos por estudá-lo de maneira mais profunda!…

Considerando a Encarnação por parte de Deus, que se inclina a dar-se o mais possível a nós, deve precisamente nascer em nossas almas uma confiança ilimitada não só no auxílio da graça, mas em sua própria fonte, que é Nosso Senhor Jesus Cristo.

Resta-nos, enfim, considerarmos a exaltação de nossa natureza pela Redenção e estar sempre conscientes disso, com a obrigação de desprezar o rebaixamento de si mesmo pelo pecado. Como diz São Pedro: “temos entrado na posse das maiores e mais preciosas promessas, a fim de tornar-vos por este meio participantes da natureza divina, subtraindo-vos à corrupção que a concupiscência gerou no mundo” (2 Pd 1, 4).

“A encarnação do Verbo fortifica, assim, grandemente, a nossa fé, nossa esperança, nossa caridade, nos dá o exemplo de todas as virtudes e, sobretudo, é o princípio, na santíssima alma de Jesus, de um ato de amor redentor, que agrada mais a Deus que o que todos os pecados podem desagradar-lhe. […]. Verdadeiramente, podemos, com uma profunda gratidão, dizer como São Paulo: “Mas Deus, que é rico em misericórdia, pelo grande amor com que nos amou, e estando nós mortos pelos nossos delitos, nos deu vida por Cristo, por cuja graça haveis sido salvos”. Essa graça é o gérmen da glória; roguemos para perseverar nela e por ela, para que verdadeiramente seja em nós a vida eterna começada”.8

1“Ille enim iudex non potest, salva iustitia, culpam sine poena dimittere, qui habet punire culpam in alium commissam, puta vel in alium hominem, vel in totam rempublicam, sive in superiorem principem. Sed Deus non habet aliquem superiorem, sed ipse supremum et commune bonum totius universi. et ideo, si dimittat peccatum, quod habet rationem culpae, ex eo quod contra ipsum committitur, nulli facit iniuriam; sicut quicumque homo remittit offensam in se commissam absque satisfactione, misericorditer et non iniuste agit. et ideo David, misericordiam petens, dicebat (ps.L, 6): Tibi soli peccavi: quase dicat: Potes sine iniustitia mihi dimittere” (SÃO TOMÁS DE AQUINO. Summa Theologiae. III, q. 46, a. 2. ad 3. Tradução de Alexandre Correia).
2Cf. ROYO MARÍN, Antonio. Jesucristo y la vida cristiana. Op. cit. p. 30.
3Ibid. p. 25-26.
4“a) LA INFINITA BONDAD DE DIOS, que no despreció la debilidad de nuestra pobre naturaleza humana. b) SU INFINITA MISERICORDIA, ya que pudo remediar nuestra miseria sin necesidad de tomarla sobre sí. c) SU INFINITA JUSTICIA, que exigió hasta la última gota de la sangre de Cristo para el rescate de la humanidad pecadora. d) SU INFINITA SABIDURÍA, que supo encontrar una solución admirable al difícil problema de concordar la misericordia con la justicia. e) SU INFINITO PODER, ya que es imposible realizar una obra mayor que la encarnación del Verbo, que juntó en una sola persona lo finito con lo infinito, que distan entre sí infinitamente” (Ibid. p. 26. Tradução da autora).
5GARRIGOU-LAGRANGE, Réginald. El Salvador y su amor por nosotros. Trad. José Antonio Millán. Madrid: Rialp, 1977. p. 174.
6SÃO JOÃO CRISÓSTOMO, apud CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O Filho de Deus se fez Homem: Curso de Formação. São Paulo: 21 ago. 2002. (Arquivo IFTE).
7“Así, la misericordia divina, lejos de subordinar el Verbo encarnado a nosotros, es la más alta manifestación del Poder de Dios y de su Bondad. Canta la gloria de Dios más que todas las estrellas del firmamento” (GARRIGOU-LAGRANGE, Réginald. Op. cit. p. 179).
8“La encarnación del Verbo fortifica, así, grandemente, nuestra fe, nuestra esperanza, nuestra caridad, nos da el ejemplo de todas las virtudes y, sobre todo, es el principio, en la santísima alma de Jesús, de un acto de amor redentor que agrada más a Dios que lo que todos los pecados pueden desagradarle. […] Verdaderamente, podemos, con una profunda gratitud, decir como San Pablo: ‘Pero Dios, que es rico en misericordia, por el gran amor con que nos amó, y estando nosotros muertes por nuestros delitos, nos dio vida por Cristo, por cuya gracia habéis sido salvados’. Esta gracia es el germen de la gloria; roguemos para perseverar en ella y por ella, para verdaderamente sea en nosotros la vida eterna comenzada” (Ibid. p. 170).

“Repreende o justo e ele te amará”(Pr 9,8)

Davi é repreendido pelo profeta Natã - Catedral de Colônia, Alemanha.

Davi é repreendido pelo profeta Natã - Catedral de Colônia, Alemanha.

María del Pilar Perezcanto Sagone

Quem gosta de ser repreendido? O homem, naturalmente, foge da repreensão, ainda que posteriormente, ele perceba ter sido esta benéfica para sua alma. Então, surge o problema: de que maneira devemos aceitar as repreensões que recebemos para que estas nos santifiquem? Discorramos um pouco acerca deste tema tão decisivo para nossa salvação eterna.

Possivelmente, a maior dificuldade do homem concebido no pecado original apresenta-se quando sente em si uma forte e agradável atração oposta ao dever, acompanhada de uma espécie de cegueira por onde a pessoa não discerne claramente o mal encerrado naquilo que a seduz.

Ora, posto nesse estado de atração, não há nada que o homem mais deteste do que ouvir falar em virtude, em obediência aos Mandamentos e castigos.1 Entretanto, ainda que o homem não goste de ser desviado daquele caminho ao qual sua concupiscência o conduziu, deve escutar estas paternais palavras que Deus lhe dirige: “Meu filho, não desprezes a correção do Senhor, nem te espantes de que ele te repreenda, porque o Senhor castiga aquele a quem ama, e pune o filho a quem muito estima” (Pr 3,11,12). É uma verdadeira prova do amor que Deus nos tem o fato de que nos repreenda, pois diz a Escritura: “Aquele que poupa a vara quer mal a seu filho; mas o que o ama corrige-o continuamente” (Pr 13,24). O que seria de nós se não tivéssemos uma mão afetuosa que nos impede de cair no abismo?

Uma das maneiras de fazer transparecer o amor do superior para com súdito é corrigir-lhe e admoestá-lo de suas faltas para que possa emendar-se. O superior que ama verdadeiramente seu filho espiritual lhe deseja o bem, agindo como verdadeiro pai. 2

São João Clímaco compara, com muita unção, a crueldade de alguém que retira o pão das mãos de um menino faminto, com a daquele que tem obrigação de corrigir e não o faz. Este último causa dano não só a seu próximo mas também a si próprio. Ver-se-á, por essa omissão, privado dos méritos e benefícios do cumprimento desse dever e acabará por escandalizar os que constatam sua negligência.3

Mas, cabe-nos perguntar: Quem tem o dever de corrigir? São Tomás nos responde: Esta obrigação é de todos para com todos, 4 mas se intensifica quando Deus põe a nosso cuidado certas almas.

O próprio Salvador nos deixou este ensinamento: “Se teu irmão tiver pecado contra ti, vai e repreende-o entre ti e ele somente; se te ouvir, terás ganho teu irmão” (Mt 18, 15). São Tomás afirma que corrigir o próximo, desde que se presuma que será bem aceito, constitui uma verdadeira obrigação, ligada à virtude da caridade.5 Por isso, a correção fraterna é uma das maiores obras de misericórdia que podemos praticar em relação ao próximo.6 Nosso Senhor não está somente nos aconselhando, mas está nos dando um mandato: “repreende-o “. Ele deixa claro que todos têm esta obrigação moral: “O que vos mando é que vos ameis uns aos outros”. ( Jo 15, 17)

Entretanto, no cumprimento deste fundamental dever não podemos deixar que penetre nas nossas almas qualquer fimbria de orgulho, pois devemos exercê-lo por amor a Deus. Claramente no-lo diz Monsenhor João Clá Dias: “Evidentemente, na aplicação deste preceito, não se deve agir com alguma paixão, por menor que seja. A isenção de ânimo é fundamental. Toda caridade deverá ser empregada na delicadíssima tarefa da reconciliação.7

Contudo, em muitas ocasiões apesar da correção ser ouvida com ressentimento, pois atinge o amor-próprio, a consciência daquele que soube repreender corretamente fica em paz pela tranquilidade do bem realizado. Quem admoesta o próximo, não pelo exagerado gosto de corrigir — que é a mais vil das vaidades —, mas com o verdadeiro desejo de incentivar o progresso espiritual, esse sim é que ama seu irmão.8

Para mostrar melhor esta atitude, Monsenhor João a exemplifica dizendo que na vida de todos os dias, não é difícil acontecer que saiamos de casa distraidamente com algum desalinho em nossa apresentação: meias de cores diferentes, roupa mal colocada, etc. Basta que, por caridade, alguém nos advirta, para nós nos manifestarmos cheios de gratidão; se, pelo contrário, ninguém nos avisasse, ficaríamos ressentidos. Ora, com mais razão devemos agradecer a quem nos admoesta pela nossa falta de virtude, sobretudo naquilo que possa vir a constituir escândalo.9

Quem possui a Sabedoria, quando corretamente repreendido, torna-se agradecido sem jamais guardar qualquer ressentimento. Ao contrário, quem se lamenta por ser admoestado, não possui a sabedoria, pois na repreensão é que se mostra o valor do homem.10

Lembremo-nos, entretanto, de que o ato de virtude de chegar a amar àquele que nos repreende só pode ser fruto de uma graça. Saibamos pois, abrir nosso coração para toda e qualquer repreensão vinda de Deus através daqueles que nos mostram, de uma ou outra maneira, os nossos defeitos. Desta maneira alcançaremos a finalidade para a qual fomos criados: ver a Deus face a face.

1 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Alma feita de harmonias. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano X, n. 114, set. 2007, p. 8.
2 RODRIGUEZ, Alonso. Ejercicio de Perfección y virtudes cristianas. Madrid: Testimonio, [s.d]. p. 1636.
3 CLA DIAS, João Scognamiglio. A correção fraterna, uma opção ou um dever? In: Arautos do Evangelho. São Paulo. n. 81, set. 2008. p. 11. 40p. cit. q.33, a.2.
4 S. Th. II-JI, q.33, a.3.
5 Loc. cit.
6 ROYO MARIN, Antonio. Espiritualidad de los seglares. Madrid: BAC, 1967. p. 335.
7 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Op. cit. p. 11.
8 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Quem encontra um amigo fiel, descobre um tesouro! — II In. Dr. Plinio. São Paulo: Ano XIII, n. 149, ago. 2010, P. 22.
9 CLA DIAS, João Scognamiglio. Op. cit. p. 12.
10 “CORRÊA DE OLIVEIRA, Op. cit. p. 22.

“Como foi do agrado do Senhor, assim foi feito”

Mariana Iecker Xavier Quimas de Oliveira

“Se alguém me ama, observará minha palavra” (Jo 14, 23) e “Se guardardes os meus mandamentos, sereis constantes no meu amor, como também eu guardei os mandamentos de meu Pai e persisto no seu amor” (Jo 15, 10) são frases que expressam bem a caridade. Então, aqueles que amam a Deus e guardam seus mandamentos são sempre premiados nesta terra e nada de mal lhes acontece? “Se permanecerdes em mim, e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis tudo o que quiserdes e vos será feito.” (Jo 15, 7).

Jó- Catedral PamplonaDetenhamo-nos no relato da vida de um personagem que figurou na História muitos séculos antes de Cristo, e que por assim dizer, foi objeto da justiça de Deus: “Havia, na terra de Hus, um homem chamado Jó, íntegro, reto, que temia a Deus e fugia do mal” (Jó 1,1). Diz São Gregório Magno1, que “afastar-se totalmente do mal é começar a não mais pecar por amor a Deus”. Jó era, na linguagem da própria Sagradas Escrituras, justo aos olhos de Deus, a ponto de ser honrado por Ele com o elogio: “Não há ninguém igual a ele na terra” (Jó 1, 8). Se seguíssemos o caminho natural da lógica, deduziríamos que esta alma santa foi cumulada de benefícios divinos merecidamente, como canta o próprio salmista: “Oh, como Deus é bom para os corações retos, e o Senhor para com aqueles que tem o coração puro!” (Si 72) Mas, prossigamos com a narração:

Ora, um dia (…) um mensageiro veio dizer a Jó: Os bois lavravam e as jumentas pastavam (…). De repente, apareceram os sabeus e levaram tudo; e passaram à espada os escravos. Só eu consegui escapar para te trazer a notícia. Estando ele ainda a falar, veio um outro e disse: O fogo de Deus caiu do céu; queimou, consumiu as ovelhas e os escravos. Só eu consegui escapar para te trazer a notícia. (…) Ainda este estava falando e eis que entrou outro, e disse: Teus filhos e filhas estavam comendo e bebendo vinho em casa do irmão mais velho, quando um furacão se levantou de repente do deserto, abalou os quatro cantos da casa e esta desabou sobre os jovens. Morreram todos. Só eu consegui escapar para te trazer a notícia. (…) Satanás retirou-se da presença do Senhor e feriu Jó com uma lepra maligna, desde a planta dos pés até o alto da cabeça. (…) Sua mulher disse-lhe: Persistes ainda em tua integridade? Amaldiçoa a Deus, e morre! (Jó 1, 13-16.18-19; 2,7-9)

Entretanto, muito longe de maldizer a Deus, a reação deste justo varão é bem outra: “Nu saí do ventre de minha mãe, nu voltarei. O Senhor deu, o Senhor tirou; bendito seja o nome do Senhor! Aceitamos a felicidade da mão de Deus; não devemos também aceitar a infelicidade?” (Jó 1, 21; 2, 10) E a versão Vulgata acrescenta: “como foi do agrado do Senhor, assim foi feito”. Jó, neste então, era, no dizer de São Paulo2 aos Coríntios, um vaso de barro que “sofre no exterior as rupturas das úlceras. Por dentro, porém, continua íntegro o tesouro3”. Este justo perdera não só o que mais amava, mas perdera tudo; só lhe restara a esposa, que longe de encorajá-lo, o incitava contra Deus. Sua resposta pode ser considerada não só um ato de integridade, mais de heroicidade. Jó não disse: o Senhor me deu, o diabo tirou, como foi do agrado do demônio assim foi feito4; mas atribuiu a Deus a deserção de seus bens, à maneira do Homem-Deus que sofrendo a paixão por culpa dos judeus declarou a Pilatos: “Não terias poder algum sobre mim, se de cima não te fora dado” (Jo 19, 11).

Não seria plausível que Jó se revoltasse interiormente contra Deus? Sendo ele fiel à tradição de Abraão, conservador da Fé e das virtudes dos patriarcas5, era justo que recebesse tantos males d’Aquele Deus, que segundo São João (1 Jo 4, 8), é amor? Analisando com vagar as Sagradas Escrituras, vemos que não é raro este “proceder” da Divina Providência. É o que relata o Salmista: “Então foi em vão que conservei o coração puro e na inocência lavei as minhas mãos? (…) me indignava contra os ímpios, vendo o bem-estar dos maus: não existe sofrimento para eles, seus corpos são robustos e sadios. Dos sofrimentos dos mortais não participam, não são atormentados como os outros homens” (Sl 72).

Como se justifica este aparente paradoxo? O Professor Plinio Correa de Oliveira6 explica: “Deus permite ao demônio atormentar e tentar por todas as formas os justos, com o intuito de pôr à prova sua fidelidade”.

Não raro, ao considerarmos a trajetória de certos ímpios, vemo-los a correr, desimpedidos, na estrada do mundo, enquanto o homem que procura trilhar as vias da retidão caminha passo a passo, em meio a dificuldades de toda espécie. Por quê? Porque as sendas da perdição são espaçosas e lisas; as de Nosso Senhor são estreitas e penosas, e seu fim é o Calvário7.

A Teologia Católica afirma que por um claro princípio de justiça, Deus permite que os santos sofram na terra e os maus tenham certo sucesso; posto que não existe nem mal, nem bem absolutos, todos praticamos atos bons e ruins que devem ser premiados ou penalizados; uma vez que Deus já tem, desde o início dos tempos, a pré-ciência do destino de cada um dos mortais e, por tanto, do prêmio ou do castigo eterno de cada um, é justo que recompense aqui na terra os atos bons dos que irão se condenar e penalize as imperfeições dos justos8. O mesmo Salmista (Sl 72) compreende este mistério e ratifica:

“Reflito para compreender este problema, mui penosa me pareceu esta tarefa, até o momento em que entrei no vosso santuário e em que me dei conta da sorte que os espera. Sim, vós os colocais num terreno escorregadio, à ruína vós os conduzis. Como de um sonho ao se despertar, Senhor, levantando vos, desprezais a sombra deles. Quando eu me exasperava e se me atormentava o coração, eu ignorava, não entendia, como um animal qualquer. Vossos desígnios me conduzirão, e, por fim, na glória me acolhereis. Se vos possuo, nada mais me atrai na terra. Meu coração e minha carne podem já desfalecer, a rocha de meu coração e minha herança eterna é Deus”.

Entretanto, a Jó este mistério permanece incompreensível: “Mostra-me por que razão me tratas assim. Encontras prazer em oprimir, em renegar a obra de tuas mãos, em favorecer os planos dos maus? (Jó 10, 2-3) E mesmo desconhecendo as razões de seu suplício, bendiz à Deus e proclama sua justiça com valentia diante de seus antigos amigos que dia e noite o incitam a que injurie o nome de Deus: “Ouvi-me, pois, homens sensatos: longe de Deus a injustiça! Longe do Todo-poderoso a iniquidade! Ele trata o homem conforme seus atos, dá a cada um o que merece. É claro! Deus não é injusto, e o Todo-poderoso não falseia o direito” (Jó 34, 10-12).

Se é verdade que “consideradas as coisas sob certo ângulo, o valor de uma criatura humana se mede por sua capacidade de aceitar com coragem e resignação as dores que a Providência permite em seu caminho9”, Jó foi um homem de um valor inestimável. Quem diante de tanto sofrimento, depois de ter perdido família, criados, fortuna, e sendo cumpridor das leis do Todo-Poderoso não se julgaria alvo de grande injustiça? Mas, em virtude desta heróica aceitação incondicional, Deus, agora sim, premeia a Jó por sua fé verdadeira e sua virtude inquebrantável, que não consistia apenas em uma cordial gratidão pelos grandes bens recebidos, mas que era fiel e estava fundada unicamente no Criador, independente de confortos passageiros. “O Senhor abençoou os últimos tempos de Jó mais do que os primeiros” (Jó 42, 12). Jó recebeu tudo o que tinha antes, e em dobro.

Discutem os estudiosos se a História do justo Jó é realmente verossímil ou se é apenas um conto que tem como objetivo ensinar-nos a aceitar os sofrimentos recebidos de Deus. Independente de ser veraz ou não, é certo que este justo varão é um exemplo de virtude para todos os manchados da culpa original, que carregamos o peso das atribulações. É certo também que lembrando a vida de muitos santos e pessoas que se esforçaram por fazer o bem sobre a terra apesar de terem trilhado um caminho espinhoso, estas nem sempre receberam, à primeira vista, o dobro como o recebeu Jó. Entretanto, gozam, certamente, de sua recompensa eterna na beatitude celeste, sem terem de se arrepender por alguma vez terem suspirado ou chorado nos momentos em que deveriam alegrar-se por receberem de Deus uma ocasião para merecer uma recompensa mais abundante.

Tudo isso nos faz ver que seja qual for o modo como vivamos deveríamos receber sempre toda adversidade com alegria. Contrariedade e dificuldades parecem cheias de doçura para aqueles que amam.

1Moralia. Lib. 1, e. 26, 37: PL 75, 544. Tradução da autora.
2 Cf. 2 Cr 4,7.
3 SÃO GREGÓRIO MAGNO. Moralia. Lib. 3, c. 9, 15: PL 75, 606. Tradução da autora.
4 SANTO AGOSTINHO apud LEHONEY, Vital. El santo abandono. Disponível em: http://www.abandono.com/Abandono/ Lehoney/Lehoney2o2.htm. Acesso em 16 set. 2004.
5 Cf HOLZAMMER, Juan B.; SCHUSTER, Ignacio. Historia biblica. Barcelona: Litúrgica española, 1984, y. I, p. 759.
6 A Igreja é o centro da História. In: Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei, n. 59, fey. 2003, P. 24.
7 Id. O partito de Jesuseo partido do mundo. In: Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei, n. 118, jan. 2008, p. 14.
8 Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. S. Th. 1, q. 21, a. 4, ad. 3. E também: Id. S. Th, I, q. 14, a.13.
9 CORREA DE OLIVEIRA, Plinio. Excelências do Sagrado Coração de Jesus. In: Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei, n. 51,jun. 2002, p. 23.

Caminho áureo rumo ao Criador

Michelle Sangy

Beleza Arautos

Quando apreciamos uma bela obra de arte, intuímos que esta possui, sob certo prisma, a marca de seu autor, inconfundível com as demais; “por vezes, o mais precioso de uma obra de arte é o fato de ela nos dar a conhecer algo da própria alma do artista que a concebeu”.1 Tal como uma obra-prima, verifica-se na Criação, tão belamente adornada, reflexos de um Autor que é a matriz dessas maravilhas contidas no universo, o Modelo de todas as belezas, como nos diz São Tomás: “As coisas que procedem de Deus se parecem com Ele2, e, acrescenta o Papa Bento XVI: “Tudo o que Deus criou era muito bom”.3

Santo Agostinho, em um de seus sermões sobre a beleza das criaturas, diz: “Interroga a beleza da terra, interroga a beleza do mar, interroga a beleza do ar dilatado e difuso, interroga a beleza do céu, interroga o ritmo ordenado dos astros: interroga ao sol, que ilumina o dia com fulgor: interroga a lua, que suaviza com seu esplendor a obscuridade da noite que segue ao dia: interroga aos animais que se movem nas águas, que habitam a terra e que se movem no ar […] Interroga todas essas realidades. Todas elas te responderão: Olha-nos, somos belas”.4

Aquario ArautosPara ele, Bispo de Hipona, a própria beleza das coisas revela a Deus, pois “se são belas as coisas que fez, quanto mais belo será Aquele que as fez”.5 Detenhamo-nos, agora, em algo cunhado pelo Divino Autor, no qual quis Ele apresentar ao universo “à sua imagem e semelhança” (Gn 1, 26): o homem. “Entre as coisas muito boas estava também o homem, ornamentado com uma beleza muito superior a todas as coisas belas”, nos diz o Santo Padre.6

Qual deve ser o caminho percorrido pelo homem para chegar até Deus?

Sendo uma criatura inteligente, antes mesmo de formular seus primeiros critérios na infância, percebe que, de fato, ele existe e possui também uma ligação com tudo aquilo que o cerca.7Esta noção, sumamente substanciosa, é como o alimento próprio de sua inteligência, pois é o que lhe permite conhecer todas as coisas, garantindo-lhe a sanidade mental”.8 Nestes primeiros contatos com as criaturas, através dos sentidos, o homem classifica aquilo que lhe agrada e, mais ainda, procura a plenitude do objeto agradado.

Contudo, devido ao apego do ser humano às coisas materiais, nestas, busca ele algo que lhe satisfaça, encontrando, muitas vezes, apenas frustração, “pois as coisas deste mundo tão somente fazem parte de um conjunto cuja cúspide se encontra no Céu, onde está Quem lhe poderá saciar a sede de infinito”.9 É a esse respeito que nos adverte o livro da Sabedoria: “Se tomaram essas coisas por deuses, encantados por sua beleza, saibam, então, quanto seu Senhor prevalece sobre elas, porque é o criador da beleza que fez essas coisas. Se o que os impressionou é a sua força e o seu poder, que eles compreendam, por meio delas, que seu criador é mais forte; pois é a partir da grandeza e da beleza das criaturas que, por analogia, se conhece o seu autor” (Sb 13, 3-5).

Desse modo, compreendemos que o homem, ao longo de sua vida terrena, capta a beleza das coisas criadas por conter no mais profundo de sua alma alguns transcendentais, provindos de Deus, e postos por Ele em sua alma.

Segundo Edualdo Forment os transcendentais, em geral, são denominados como propriedades do ser. Essas propriedades depositadas no homem, a verdade, o bem, o uno e o belo provêm do Ser Absoluto, com a diferença de não se igualarem a Ele, mas possuírem umas “facetas” deste, expressamente manifestadas naqueles que as possuem.’10 Para facilitar a compreensão, é indispensável uma explicação ilustrada de Monsenhor João Clá. Diz ele que basta aproximar-nos de um berço de uma criança e apresentarmos a ela algumas belas bolas de diferentes cores para notarmos suas reações de maravilhamento causadas por estes instintos. Certamente, ela escolherá a bola da coloração que mais lhe agrada e depois de algum tempo passará a brincar com uma outra, e, assim, sucessivamente. “Trata-se da busca instintiva do bem, do belo e do verdadeiro que acabará por levar à eleição de uma das bolas como a principal dentro daquele conjunto”.11

Igreja Arautos GranjaCom efeito, há dois transcendentais que possuem uma ligação ulterior, uma analogia entre si. Estes são o belo e o bem, como diz o Doutor Angélico: “O belo é idêntico ao bem”.12 Afirma isto, ao explicar como o belo acrescenta ao bem uma certa ordem à potência cognoscitiva, de modo que o bem se chama o que agrada, de maneira absoluta ao apetite, e belo aquilo cuja apreensão agrada.13 A esse respeito nos fala Tomás de Verceil: “[…]contemplando o belo, nos tornamos bons, assim como nos tornamos belos ao amarmos o bem”.14

Cumpre considerar, ainda, a perfeita harmonia depositada nos transcendentais, cujo “encargo” foi deixado à beleza, como nos ensina Molinário, que a profundidade da beleza consiste na sua própria harmonia com os demais transcendentais e mais ainda: “a beleza é a propriedade transcendental do ser enquanto perfeita convertibilidade da unidade como integridade, da bondade como proporção e da verdade como claridade; e que o ente é belo enquanto é uno e íntegro, bom e proporcionado, verdadeiro e claro”,15 portanto harmônico.

Assim, concluímos, que a melhor forma de se chegar ao Criador é através de uma Via Pulchritudinis, ou seja, do caminho do belo e, realizá-lo, “significa revestir de pulcritude todos os atos da existência, para mais facilmente se erguer até Deus, que é a Beleza absoluta”.16

1 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Conhecimento de Deus através do belo. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano XI, n.125, ago. 2008, p.18.
2 SAO TOMAS DE AQUINO. Suma Teológica. I, q. 3, a. 7.
3 BENTO XVI. Audiência geral, 29/08/2007. Disponível em: . Acesso em 11 jun. 2012. ,
4 SANTO AGOSTINHO, Sermão 241, 2, apud OLIVEIRA SOUZA, Dartagnan Alves de. Pulchrum Caminho para o Absoluto? In: Lumen Veritatis. São Paulo: Ano II, n.8, jul/set. 2009, p.86.
5 Id. Enarratio in psalmos. s. CXLVIII, apud REY ALTUNA, Luis. Fundamentación ontológica de la belleza.Disponível em:(http://dspaceunaves/dspacethjtstream/10171/225 I/l/O6.%2Oluis%2OREy%2OALTUNA%20F Acesso em 26 nov. 2008. (Tradução da autora).
6 Bento XVI. Op. cit.
7 Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Op. cit. q.5, a.2.
8 CAMPOS, Juliane Vasconcelos Almeida. A chave do relacionamento com Deus. In: Arautos do Evangelho. São Paulo: n. 122, fev. 2012, p. 20.
9 Ibid. p. 22.
10 FORMENT, Eudualdo. La sistematizacion de Santo Tomás de los trascendentales. In: Contrastes. Revista Interdisciplinar de Filosofia. Barcelona: y. I, 1996, p. 111.
11 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Os dois filhos da Parábo1a, e os dois outros. In: Arautos do Evangelho. SãoPaulo: n. 43, set 2005, p.7.
12 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Op. cit. J-II, q. 27, a. 1.
13 Loc. cit.
14 apud Verceil, Tomás de . Op. cit. p. 20.
15 MOLINARIO, Aniceto. Metafisica. 2.ed. São Paulo: Paulus, 2004, p. 92.
16 ARAUTOS DO EVANGELHO. Fórmula de Admissão de Neo Arautos do Evangelho. Folheto da Cerimônia. São Paulo: 17 de jun. de 2012. (Arquivo IFTE).

Acima de tudo, a vontade de Deus

Irmã Carmela Werner Ferreira, EP

S Estanislau Kostka

Enquanto o povo olhava admirado para Jesus, recebendo com avidez as palavras cheias de graça e de verdade que saiam de seus lábios, levantou-se um doutor da Lei e fez-Lhe esta pergunta: “Mestre, qual é o maior mandamento da Lei? Respondeu Jesus: Amarás o Senhor teu Deus de todo teu coração, de toda tua alma e de todo teu espírito. Este é o maior e o primeiro mandamento. Nesses dois mandamentos se resumem toda a lei e os profetas” (Mt 22, 36-38. 40).

Esse divino ensinamento, transmitido de geração em geração desde os tempos de Moisés e confirmado como o mais excelente entre todos pelo próprio Salvador, continuará vigorando em todo o seu esplendor até a consumação dos séculos. É o mandamento principal, à luz do qual todos os outros se explicam e cuja ausência desarticula a perfeição do Decálogo, porque é ao seu redor que gravita o sentido da existência humana.

Muito embora os cristãos que professam sua fé com honestidade de consciência nunca ponham em dúvida essa lição do Evangelho, acabam por deparar com dificuldades à hora de aplicá-la em suas vidas concretas. Facilmente o coração do homem se prende às aparências sensíveis que o cercam, deixando de escolher a “melhor parte”. Poderão ser as seduções das riquezas, o afago das honras ou a mentira dos vícios que desvirtuarão um coração a princípio bem intencionado, porém voltado antes para a Terra que para o Céu.

Há, ademais, na vida de todos nós, um momento crucial do qual ninguém está isento e onde se define, para sempre, a intensidade com que se pratica o maior dos mandamentos: é a hora em que se manifesta a vocação de cada um.

Para cada alma, um chamado

Todos os cristãos recebem na pia batismal um chamado específico, pessoal e conferido diretamente pelo próprio Deus, sempre acompanhado pelo maternal olhar da Santíssima Virgem. Ao longo da vida, cedo ou tarde, ele se manifesta de modo claro e irresistível, sussurrando no profundo dos corações: “Este é o desígnio que a misericórdia de Deus lhe reservou. Abrace-o, pois é no seu cumprimento que está a felicidade”.

Seguir com fidelidade e alegria esse chamado de Deus, qualquer que seja ele, é antes uma obra da graça que de nossa vontade. Tão proeminente é nossa insuficiência, que se estivermos reduzidos às próprias forças, certamente seremos vencidos pela miséria humana.

Tampouco são as teorias ou textos doutrinários, sozinhos, que levam nossa vontade a abraçar as vias da Providência, pois já dizia São Paulo que “a letra mata, mas o Espírito vivifica” (II Cor 3, 6). Entre os fatores capazes de conduzir as almas à correspondência da sua vocação, podemos citar dois decisivos: as moções interiores de cunho sobrenatural e os bons exemplos recebidos.

Entre esses últimos, a vida dos santos ocupa um destacado lugar, pois eles foram generosos e fiéis no seu “sim”, motivo pelo qual são apresentados pela Santa Igreja como modelos a serem imitados. Conheçamos a vida de um deles: jovem, rico e poderoso, porém cônscio de que acima de tudo, está a vontade de Deus. Seu nome é Estanislau Kostka.

Três cruzes misteriosas

O dia 28 de outubro de 1550 foi de grande festa no castelo de Kostkow, em Prasnitz, Polônia. O senador João Kostka anunciava orgulhoso o nascimento de seu filho Estanislau aos grandes do reino, que acorriam ao castelo para contemplar o pequeno anjo dormitando em berço de ouro. Aquele nascimento, entretanto, estava envolto num suave mistério: o bebê trazia no peito três cruzes rubras, de inexplicável origem. O pai queria forçosamente interpretá-las como um sinal das façanhas e glórias militares que o pequeno obteria para aumentar as grandezas da família, assinalada entre as mais nobres e influentes da Polônia. Já a mãe, Margarida Kriska, tinha um coração religioso, e entrevia nesse prodígio um sinal do céu: aquele era um menino predestinado por Deus.

Os acontecimentos dariam sobrada razão à mãe virtuosa. No menino transparecia toda espécie de qualidades de espírito, e pairava ao seu redor uma aura de inocência e louçania. Bastava falar de qualquer assunto religioso que seus olhos brilhavam de contentamento, desejando sofregamente que lhe ensinassem as coisas do Céu.

Igualmente, não podia suportar que proferissem qualquer palavra contrária à glória de Deus em sua presença. Conta-se que num fausto banquete oferecido pelo senador Kostka, um príncipe aficionado às novas ideias da Reforma Protestante, não se contendo, estalou em impropérios contra a Igreja Romana e o próprio Deus. Viu-se, então, o menino cair desmaiado diante de todos. Consternados, os convivas perguntavam donde provinha tal mal-estar, e calavam de estupor ao saber que diante do pequeno Estanislau não se podia ofender a Deus.

Entre os pais do santo menino havia uma profunda divergência quanto à análise que faziam do próprio filho. Enquanto a mãe se encantava por ver desabrochar em sua alma uma elevada vocação, o pai obstinava-se em construir em sua imaginação façanhas e vitórias portentosas como jamais se vira, a não ser nos feitos de seus antepassados. Como de Paulo, o filho mais velho, ele percebia não poder esperar muito, era de Estanislau que, julgava, lhe viria a glória imortal: “Este é um Kostka genuíno. Ele será meu sucessor”.

Os estudos em Viena

Paulo e Estanislau haviam recebido uma boa formação intelectual com Bilinski, o preceptor escolhido para iniciá-los nas ciências clássicas. Agora era necessário encaminhá-los para estudar em um grande estabelecimento, a altura do nome da família. A escolha recaiu sobre o Colégio Jesuíta de Viena, da Polônia a mais próxima instituição da Companhia, para onde acorriam numerosos jovens de vários países.

Assim, aos 16 anos de Paulo e 14 de Estanislau, eles se despediram da casa paterna e partiram para terra estrangeira, a fim de completar a instrução acadêmica. Ambos prometeram à virtuosa mãe que jamais se entregariam a nenhum pecado, pois a pior desgraça que lhes podia acometer seria ofender a Deus. A promessa de Estanislau era sincera e profunda, enquanto Paulo dava mostras de cumprir uma mera formalidade.

De fato, vendo os irmãos lado a lado, como eram diferentes! Em nada eram harmônicos. Estanislau amava o recolhimento, ao passo que Paulo era adepto das diversões pecaminosas. Com muita propriedade, as figuras de Esaú e Jacó pareciam reviver nos filhos do senador.

“Ad maiora natus sum”

A vida em Viena foi repleta de graças e cruzes. O carisma dos filhos de Santo Inácio tocou a fundo o jovem Estanislau. Admirava os jesuítas de toda alma, encantava-se com a pureza de sua doutrina e a completa adesão aos conselhos evangélicos daqueles sacerdotes flexíveis ao sopro do Espírito Santo. Não demorou em desejar ser como eles, pois a seus olhos, era na Companhia de Jesus que estava o mais alto ideal que pudesse abraçar. Foi da forte convicção de que havia nascido para coisas maiores que surgiu sua divisa: “Ad maiora natus sum”.

De outro lado, como foi preciso recorrer à proteção do Céu para perseverar na prática das virtudes! Várias vezes Paulo, movido pelo ódio à sua integridade, desferia-lhe golpes brutais deixando-o desfalecido e ensanguentado. Assim se expressou Bilinski no depoimento do processo de beatificação: “Paulo jamais disse uma palavra amável a seu santo irmão. Todavia, tanto ele quanto eu tínhamos completa consciência da santidade de todos os atos de Estanislau”.

Nossa Senhora veio curá-lo

No terceiro ano da estadia em Viena a saúde de Estanislau sucumbiu ao peso da vida sacrificada que levava, e ele adoeceu gravemente. Espalhou-se o rumor de que corria risco de morte, e Paulo desesperou-se ao pensar em voltar para casa com o irmão morto. O santo doente implorou, então, a presença de um sacerdote e o Viático, pois a cada hora diminuíam-lhe, sensivelmente, as forças físicas. Kimberker, o dono da faustosa pensão onde se hospedavam, negou-lhe taxativamente este supremo consolo, sob pena de expulsá-los de seus aposentos caso um sacerdote católico adentrasse àquele recinto.

S Estanislau Kostka1A esse duro golpe, a Fé de Estanislau não esmoreceu. Rezou fervorosamente e confiou contra toda esperança. Qual não foi seu estupor ao ver numa manhã aproximarem-se três refulgentes anjos acompanhados de Santa Bárbara, trazendo-lhe a Sagrada Comunhão e cumulando sua alma de consolações e alegrias! Se a maldade dos homens lhe negara o que havia de mais sagrado, não seria a Providência Divina que o deixaria desamparado. Pouco depois ele viu aproximar-se de seu leito a figura soberana da Santíssima Virgem, que trazia nos braços seu Divino Filho e lhe sorria. Num gesto maternal, ela depositou o Infante nos braços do pobre enfermo, e o Menino Jesus o cobriu de afagos. Naquele momento, todas as perseguições esvaeceram-se, os incontáveis sofrimentos pareceram-lhe como pó… Sim, valia a pena sofrer todas as privações para gozar daquele convívio celestial! Sentindo as forças voltarem-lhe repentinamente, ele ouviu a voz suavíssima da Rainha dos Céus:

– “Agora que te curei, entra na Companhia de meu Filho! É Ele que o quer!”.

Resta apenas um caminho: o “impossível”

O assombro que sua cura milagrosa provocou não foi pequeno. Revigorado e indescritivelmente feliz, Santo Estanislau pediu admissão ao Padre Provincial da Áustria, que não podia desprezar os sinais inequívocos de sua vocação. Contudo, recebê-lo sem o consentimento paterno seria uma imprudência que acarretaria trágicas consequências. Foi-lhe negado o acesso à congregação em que Nossa Senhora o mandara entrar. Que aflitivo paradoxo…

A chama de entusiasmo e fervor que a visita celestial acendeu-lhe na alma foi tão grande que não se apagaria diante dessa primeira negativa. Ele estava disposto a bater em quantas casas dos jesuítas houvesse no mundo, certo de que alguma delas haveria de recebê-lo. Se o pai não o autorizava a seguir o chamado celestial, só lhe restava uma saída para levar ao perfeito cumprimento o mandato de Maria Santíssima: fugir.

Numa madrugada soturna, disfarçado de peregrino e sem ter levantado qualquer tipo de suspeita, Estanislau partiu para a Alemanha. Foi a pé de Viena a Dillengen. Lá, finalmente pôde ser compreendido por São Pedro Canísio, que o admitiu na Companhia de Jesus, julgando, porém, que a permanência na Alemanha não o deixa seguro da tirania de seu pai. O local mais indicado era Roma, onde São Francisco de Borja, o Superior Geral, haveria de protegê-lo. Foi assim que ele partiu para atravessar os Alpes, os Apeninos, e chegar à Cidade Eterna, após dois meses de caminhada heróica e incansável. Transpôs, sem titubear, praticamente metade da Europa!

Atingiu a perfeição de uma longa existência

Aos dias de incomparável alegria passados no noviciado, seguiram-se as ameaças vindas da Polônia. O pai, sem conter o ódio, exigiu seu retorno a qualquer custo, pois ter um filho sacerdote seria “uma desonra para a família”.

Entretanto, bem diversos eram os desígnios de Deus. Nossa Senhora aparecera-lhe em Roma, e viera chamá-lo, dizendo que lhe restava pouco tempo de vida. Sua alma já estava pronta para o Céu!

Assim, numa festa da Santíssima Virgem, ele comentou que muito em breve haveria de morrer. Ninguém acreditou. Subitamente, de um leve mal-estar, desencadeou-se no noviço uma forte febre e ele expirou santamente na festa da Assunção de Maria Santíssima, 15 de agosto de 1568.

Como estava equivocado o nobre senador da Polônia! Deus havia reservado ao jovem Estanislau uma glória insuperável e eterna. Se hoje no mundo inteiro sua família é conhecida, e se tem a honra de figurar de forma indelével na memória da Santa Igreja, não é senão porque ali fulgurou o brilho da santidade de seu filho. Santo Estanislau Kostka provou para os jovens de todos os tempos que um homem vale na medida em que corresponde generosamente ao chamado de Deus e deseja as coisas do Alto.

A era do perdão

Nascimento JesusBeatriz Alves dos Santos

Nosso Senhor quis fazer-se Homem porque, sendo “doente, nossa natureza precisava ser curada; decaída, ser reerguida; morta, ser ressuscitada. Havíamos perdido a posse do bem, era preciso no-la restituir. Enclausurados nas trevas, era preciso trazer-nos à luz; cativos, esperávamos um salvador; prisioneiros, um socorro; escravos, um libertador”.1

O Verbo se encarnou para ser nosso modelo de santidade, para que conhecêssemos o amor de Deus: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo 15, 12). Nosso Senhor veio trazendo uma clave completamente nova de amor ao próximo, de perdão e de caridade, como se lê no evangelho de São Mateus: “Se alguém te ferir a face direita, oferece-lhe também a outra” (Mt 5, 39), e ainda “amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos [maltratam e] perseguem […], pois se amais somente os que vos amam, que recompensa tereis?” (Mt 5, 44. 46).

Deus está constantemente querendo comunicar-se com o pecador para o atrair a Si e nunca lhe nega a graça suficiente. A respeito desta vontade salvífica universal de Deus, afirma Royo Marin:

[…] Deus quer seriamente – com toda a seriedade que há na face de um Deus crucificado – que todos os homens se salvem. […] É uma verdade clara e explícita na divina Revelação: isto é bom e grato a Deus, nosso Salvador, o qual quer que todos os homens sejam salvos e venham ao conhecimento da verdade (1 Tm. 2, 3-4). Pois Deus não enviou seu Filho ao mundo para julgar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele (Jo 3,17).2

Este amor de Deus não exclui ninguém, pois Ele mesmo o disse na parábola da ovelha perdida: “não é vontade de vosso Pai que está nos céus que se perca nem um só destes pequenos” (Mt 18, 14). Ele também revela que veio “dar sua vida em resgate por muitos” (Mt 20, 28).

Uma condição para o perdão

Deus está pronto a perdoar a qualquer um, a todo momento, basta reconhecer que errou e pedir perdão. Esta afeição de Deus para com os homens e a beleza do perdão estão divinamente manifestadas na parábola do filho pródigo, cujo centro é o pai misericordioso que perdoa o filho. Fascinado por uma ilusória liberdade, o filho mais novo abandona a casa paterna, entra por caminhos errados, perde a herança em jogos e diversões; rebaixa-se cuidando de porcos para se sustentar e, pior, passa a disputar a ração com os porcos… Em certo momento, recebe uma graça de arrependimento, por onde ele reconhece em que abismo chegou, arrepende-se e corre de encontro ao pai; e este lhe cobre de afetos e o perdoa.

Porém, há uma condição para ser perdoado: “perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido” (Mt 6,12).

São Pedro pergunta a Nosso Senhor quantas vezes devia perdoar quando um irmão pecasse contra ele. Até sete? E Jesus respondeu-lhe que não somente sete vezes, mas setenta vezes sete! (Cf. Mt 18, 21- 22) Comenta Lagrange: “Pedro sabe bem que é preciso perdoar a um irmão. Mas quais são os limites? Julga ele estar bem de acordo com o espírito de Jesus, propondo sete vezes”.3 Mas Ele contou-lhe uma parábola:

“Porque o Reino dos céus é comparado a um rei que quis fazer as contas com os seus servos. Pronto a fazer as contas, apresentaram-lhe um que lhe devia dez mil talentos. Tendo começado a fazer as contas, foi-lhe apresentado um que lhe devia dez mil talentos. Como não tivesse com que pagar, mandou o seu senhor que fosse vendido ele, sua mulher, seus filhos e tudo o que tinha, e se saldasse a dívida. Porém o servo, lançando-se-lhe aos pés, lhe suplicou. Tem paciência comigo, eu te pagarei tudo. E o senhor, compadecido daquele servo, deixou-o ir livre, e perdoou-lhe a dívida. Mas esse servo, tendo saído, encontrou um dos seus companheiros, que lhe devia cem dinheiros, e, lançando-lhe a mão, o sufocava dizendo: Paga o que me deves’. O companheiro, lançando-se-lhe aos seus pés, lhe suplicou: ‘Tem paciência comigo, eu te pagarei’. Porém ele recusou e foi mandá-lo meter na prisão, até pagar a dívida. Os outros servos seus companheiros, vendo isto, ficaram muito contristados, e foram referir ao seu senhor tudo o que tinha acontecido. Então o senhor chamou-o, e disse-lhe: ‘Servo mau, eu perdoei-te a dívida toda, porque me suplicaste. Não devias tu logo compadecer-te também do teu companheiro, como eu me compadeci de ti? E o seu senhor, irado, entregou-o aos algozes, até que pagasse toda a dívida. Assim também vos fará meu Pai celestial, se cada um não perdoar do íntimo do seu coração a seu irmão (Mt 18, 23-35)”.

Esta parábola é muito eloquente e ensina, com clareza, como se deve perdoar e amar aos outros, sempre e de coração. Santa Teresa de Jesus adverte às suas religiosas sobre a importância do perdão ao próximo, dizendo que Nosso Senhor podia ter-nos ensinado “perdoai-nos, Senhor, porque fazemos muitas penitências”, ou então “porque rezamos muito, jejuamos, deixamos tudo por Vós e muito vos amamos”. Não. Ele disse somente: “assim como nós perdoamos”.4

São Francisco de Sales também foi ousado em afirmar:

“Muitos dizem: – Amo em grande medida o meu próximo, e bem quero prestar-lhe algum serviço. – Isto está muito bem […], mas não basta; há que fazer mais. – Oh! Quanto o amo! Amo-o tanto que de boa vontade empregaria meus bens por ele. – Isto já é mais e está melhor, mas ainda não é bastante. […] Tem que ir mais longe; pois há algo mais alto nesse amor. Entregar-se até dar a vida pelo próximo não é tanto como abandonar-se ao capricho dos demais para eles ou por eles”.5

Ajuda sobrenatural

Meramente com nossas forças nada podemos ou conseguimos, entretanto, temos em nosso auxílio uma protecção sobrenatural, sobre-humana, que é a protecção de Nossa Senhora. Entre Cristo e os homens, ensina o Professor Plinio Corrêa de Oliveira, há algo em comum, tão extraordinário que não se compreende profundamente: ter a mesma Mãe! Essa Mãe d’Ele, e também Mãe dos pecadores, tem misericórdia do filho mais estropiado, mais fraco, mais torto, desarranjado, e quanto mais esfarrapado e miserável, maior sua compaixão. Por isso, em diversas ocasiões, recomenda a importante necessidade de possuir uma inteira confiança em Nossa Senhora.

Quando uma alma é generosa em perdoar e suportar as misérias dos demais, por mais que tenha pecado, se pedir o auxílio da Mãe de misericórdia, Ela olhará com compaixão e indulgência e obterá o perdão de Deus.

Quer dizer, inesgotável, clementíssima, pacientíssima, pronta a perdoar a qualquer momento, de modo inimaginável, sem nunca um suspiro de cansaço, de extenuação, de agastamento. […] Dispensada essa misericórdia, se ela for mal correspondida, vem uma misericórdia maior. E, por assim dizer, nossos abismos de ingratidão vão atraindo a luz para o fundo, quanto mais fugimos d’Ela, mais as suas graças se prolongam e se iluminam em nossa direção.6

Nos momentos de dificuldade, de aflição e necessidade deve-se correr para Eles e jamais fugir d’Eles, como fez o filho da perdição, Judas. Entretanto, se depois de ter vendido Nosso Senhor por trinta dinheiros tivesse tido um movimento de devoção a Nossa Senhora, rezado a Ela, certamente obteria uma ajuda. Se ele A procurasse e dissesse: “Eu não sou digno de chegar próximo de Vós, de Vos olhar, de me dirigir a Vós, sou Judas, o imundo… mas, Vós sois minha Mãe, tende pena de mim”, Ela o teria acolhido e tratado com benevolência sem par, aquele cujo nome é sinônimo de horror: Judas Iscariotes.7

Se a Virgem Santíssima é tão indulgente com o pecador, não se deve imitá-La, uma vez que Ela é louvada pelo título de Mãe dos pecadores? Os homens, portanto, têm o dever de amar o próximo, pois é na disposição de perdoar que a pessoa manifesta a verdadeira grandeza de alma. “Se pagar o bem com o mal é diabólico, e pagar o bem com o bem é mera obrigação, contudo, pagar o mal com o bem é divino”.8

Essa retribuição de bondade, mesmo recebendo somente o mal, foi a nota marcante da vida de Nosso Senhor. A qualquer um que lhe pedisse algo, a cura, o perdão, tanto os bens do corpo como também os da alma, o Divino Mestre a tudo atendia com superabundância divina.

Crucifixão entre 2 ladrões-horzUma das mais tocantes provas dessa misericórdia infinita deu-se no último lance da Paixão, quando no alto da cruz um dos ladrões lhe pediu perdão e Jesus disse-lhe: “Hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23 , 43), ou seja, Ele perdoou o bandido e transformou-o em santo.

Assim deve ser a confiança do homem no perdão de Deus; por pior que seja a situação em que se encontre, deve ele rezar a Nosso Senhor e dizer: “Se Vós para tantos homens sois misericordioso e os mantendes, então também a mim, criatura humana que sou, perdoai-me. Não mereço vossa indulgência, mas a misericórdia é para os que não a merecem!”. Assim, Ele mesmo nos concederá o perdão, Ele mesmo nos receberá de volta, Ele mesmo curará os nossos males produzidos pelas nossas faltas.

1SÃO GREGÓRIO DE NISSA. Oratio catechetica, 15, apud CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. 11. ed. São Paulo: Loyola, 2001. p. 129.
2“Dios quiere seriamente – con toda seriedad que hay en la cara de un Dios crucificado – que todos los hombres se salven. […] Es una verdad clara y explícitamente contenida en la divina Revelación: esto es bueno y grato ante Dios nuestro Salvador, el cual quiere que todos los hombres sean salvos y vengan al conocimiento de la verdad (I Tim. I, 15). Pues Dios no ha enviado a su Hijo al mundo para que juzgue al mundo, sino para que el mundo sea salvo por El (Io. 3, 17)” (ROYO MARÍN, Antonio. Teologia de la Salvacion. 4. ed. Madrid: BAC, 1997. p. 26-27).
3LAGRANGE, Marie-Joseph apud CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Devo perdoar uma só vez? Op. cit. p.13.
4SANTA TERESA DE JESUS. Caminho de perfeição. C. 36, n. 7. São Paulo: Loyola, 1995. p. 410-412.
5“Muchos dicen: – Amo en gran manera a mi prójimo, y bien quisiera prestarle algún servicio. – Eso está muy bien […], pero no basta; hay que seguir más adelante. ¡Oh, cuanto le amo! Le amo tanto que de buena gana quisiera emplear todos mis bienes por él. – Esto es ya más y está mejor, pero no es bastante todavía. […] Hay que ir más lejos; pues hay algo más alto en este amor. Entregarse hasta dar la vida por el prójimo no es tanto como abandonarse al capricho de los demás para ellos o por ellos” (SÃO FRANCISCO DE SALES. Obras Selectas. Madrid: BAC, 1953. Vol. I. p. 327. Tradução da autora).
6CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Num olhar de Maria, a imensidade de suas virtudes. In: Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei, n.13, abr. 1999. p. 27.
7Id. Nossa Senhora Auxiliadora: bondade e misericórdia incansáveis. In: Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei, n. 98, maio, 2006, p.26.
8CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Devo perdoar uma só vez? Op. cit. p.16.

Paz de alma, silêncio e solidão

São Charbel MakhloufRaphaela Nogueira Thomaz

Desde os primórdios do Cristianismo, reluziram no firmamento da Igreja homens e mulheres orantes que passavam a vida na contemplação e no silêncio, absortos somente em Deus. Despojados por completo das preocupações terrenas, tinham a alma fixada num único fim: vacare Deo — descansar em Deus, dar-se a Deus.

Retrocedamos quase dois séculos e viajemos, em busca de uma dessas almas, a um país de escarpados montes cujas maravilhas foram inúmeras vezes proclamadas nos Livros Sagrados: o Líbano. Foi ali onde, em 1828, na aldeia de Beqaa Kafra, nascera à sombra dos cedros centenários o pequeno Youssef Makhlouf.

Deus começa a lhe falar ao coração

Já nos tenros anos de sua infância, morreu seu pai, Antun Za’rur Makhlouf, submetido pelo exército otomano a um regime de trabalhos forçados. Sua mãe, Brígida, contraíra novas núpcias, deixando a casa e as pequenas propriedades de Antun para os filhos, que passaram a ser tutelados pelo tio paterno, Tannus.

Inclinado à piedade e à devoção, coube ao pequeno Youssef, sendo embora o caçula de cinco irmãos, dar-lhes bom exemplo na piedade e no cumprimento dos deveres. Dotado de um espírito piedoso e altamente submisso, recitava diariamente as orações com a família, bem como desempenhava com grande esmero a tarefa de vigiar os animais no pasto.

Suas virtudes logo se tornaram manifestas a todos os habitantes da aldeia. Gostava da solidão, era prudente e inteligente. Na igreja, mantinha-se recolhido, sem sequer olhar ao redor de si. De tal forma seu bom comportamento chamava a atenção, que os rapazes da região a ele se referiam como “o Santo”.

A Providência foi preparando aos poucos a alma desse seu filho eleito até o ponto de que, vivendo ainda no mundo, dele se utilizava apenas para cumprir o que era a única aspiração de sua vida. “Quando Deus quer se unir intimamente a um homem e lhe falar ao coração, Ele o conduz à solidão. Se se trata de um homem chamado à vida religiosa contemplativa, Deus, para realizar o seu desejo, começa por separá-lo do mundo”.1

Foi assim que, no ano de 1851, aos 23 anos de idade, Youssef deixou o lar materno e ingressou no Mosteiro de Nossa Senhora, em Maïfuq, onde adotou o nome de Charbel, em louvor ao mártir de Edessa, do segundo século.

De Maifouk a São Maron de Annaya

Porém, com esse desejo de isolar-se do mundo ardendo-lhe na alma, Maifouk certamente não era o ambiente mais propício para a realização de seu ideal. Embora ali levasse uma vida de oração e trabalho, como a santa Regra pedia, o contato com os campones vizinhos prejudicava-lhe muito o recolhimento.

Certo dia em que os noviços se ocupavam de sua tarefa diária de tirar as folhas e cascas das amoreiras, para a criação do bicho-da-seda, uma mocinha que trabalhava ao lado, querendo pôr à prova o silêncio e a seriedade de Charbel, lançou-lhe ao rosto um casulo. Não obtendo resultado, lançou outro. O jovem noviço permaneceu impassível, mas naquela mesma noite saiu do mosteiro de Maifouk, sem dizer nada a ninguém, e foi recolher-se ao convento de São Maron de Annaya, situado a quatro horas de marcha.

Ali reiniciou o noviciado, separado do mundo por uma severa clausura, observando a regra que o guiava nas vias da contemplação, do recolhimento, da oração e da obediência. Dois anos depois recebeu o hábito dos maronitas — túnica preta, capuz em forma de cone e cordão feito de pele de cabra — e pronunciou os votos de pobreza, castidade e obediência. Desde então, foi um monge submergido no anonimato e nos seus colóquios com Deus.

Embora tudo fizesse para lançar sua pessoa ao olvido, sua santidade tornou-se notória para os outros religiosos. Por decisão do superior e do conselho da comunidade, foi admitido às ordens sacras e, após fazer os necessários estudos, recebeu a ordenação presbiteral em 1859.

Charbel celebrava o Santo Sacrifício com a máxima dignidade e com uma fé tão viva, que, com frequência, durante a Consagração, as lágrimas corriam-lhe dos olhos escuros e profundos, os quais eram como duas janelas abertas para o Céu. E, na contemplação, ficava de tal modo absorto que não prestava atenção alguma a eventuais ruídos ou rumores.

Modelo de obediência e pureza

Desde o tempo de noviciado até seu último alento, destacou-se como monge exemplar na obediência e na observância da Regra. Ao ponto de que, quando o Superior ordenava a um monge fazer algo muito penoso, era frequente ouvir uma resposta do tipo:

— Pensa o senhor, por acaso, que sou o padre Charbel?

Certa ocasião, sendo ele ainda noviço, um sacerdote resolveu pôr à prova sua paciência. Na hora de transportar de um campo para outro os instrumentos agrícolas, começou a amontoar sobre seus ombros sacos de sementes, peças de arados, ferramentas e outros materiais… Quando terminou, via-se no meio da carga o rosto sorridente de Charbel que repetia a censura de Jesus aos doutores da Lei: “Ai de vós, que carregais os homens com pesos que não podem levar…” (Lc 11, 46). Todos riram desse dito espirituoso e apressaram-se em livrá-lo do excesso de carga.

Brilhou também de modo especial na luta para preservar a virtude da castidade, com atos de heroísmo extremos, sem jamais demonstrar aos outros as mortificações que fazia. A Regra da Ordem incita os monges a refrear com todo empenho os próprios sentidos. Entre outras atitudes de vigilância, exorta-os a evitar qualquer conversa com pessoas do sexo feminino, mesmo tratando-se de parentes. São Charbel foi mais longe: ele fez, e cumpriu, o propósito de jamais olhar para o rosto de uma mulher.

O dom de fazer milagres

Teve o dom de fazer milagres, e o exerceu com sua costumeira humildade.

Certa vez, uma pobre mulher hemorroíssa, cuja enfermidade resistia a todos os tratamentos, encarregou um mensageiro de entregar ao padre Charbel determinada quantia e pedirlhe que este lhe enviasse uma correia benta. Há uma devoção mariana típica do Líbano: nas situações de emergência — calamidades públicas, epidemias, guerras, etc. —, os chefes de família levam à igreja um véu de seda ou algodão; esses véus são entrelaçados e ficam suspensos em volta da capela, até a Virgem fazer cessar a desgraça. O padre Charbel pegou, então, um desses véus, que estava na imagem de Nossa Senhora do Rosário, e o entregou ao mensageiro, dizendo:

— Que a mulher se cinja com este véu, e ficará curada. Quanto à esmola, coloque-a sobre o altar, o padre provedor irá tirá-la.

E a mulher ficou curada.

Na ermida de São Pedro e São Paulo

Visto que a solidão o atraía desde a infância, e que no mosteiro de Annaya vivia já praticamente como um anacoreta, foi ele transferido para a ermida de São Pedro e São Paulo, a pouca distância do mosteiro. Tinha então 47 anos, e ali permaneceu até o dia de sua morte, ocorrida 23 anos depois.

Sua oração era apenas interrompida pelo cultivo da vinha e outros trabalhos na ermida. E a única refeição do dia, perto das três horas da tarde, acabava sendo um exercício de penitência, pela exiguidade e pobreza do alimento. Sua devoção a Maria era incomparável. Repetia continuamente Seu nome bendito, e cada vez que entrava ou saía de sua cela recitava, de joelhos, a saudação angélica diante de uma pequena imagem que ali ficava.

Proverbial era também sua paz de alma. Num dia de tempestade, um raio derrubou parte da ala meridional da ermida, deitou por terra uma parede da vinha e queimou, na capela, as toalhas do altar, enquanto o santo monge ali se encontrava, em oração. Dois ermitães acorreram ao local, e o viram na mais apaziguante tranquilidade.

— Padre Charbel, por que não se moveu para apagar o fogo?

— Caro irmão, como poderia fazê-lo? Pois logo depois de atear-se, o fogo se extinguiu…

De fato, como o incêndio fora rapidíssimo, ele julgara mais importante continuar sua oração, sem se perturbar.

Nascimento para a vida eterna

Quando celebrava a Missa no dia 16 de dezembro de 1898, no momento em que comungava o Preciosíssimo Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, um repentino ataque de apoplexia o deixou paralisado, sem poder concluir o Santo Sacrifício. Socorrido sem demora, foi levado para sua pobre cela, onde permaneceu oito dias entre a vida e a morte, com intervalos de lucidez durante os quais rezava curtas orações.

Na vigília do Natal, enquanto a Igreja comemorava a vinda ao mundo do Menino Jesus, nasceu para a eternidade aquele santo monge maronita, o primeiro oriental a ser canonizado segundo a forma usada na Igreja Católica latina.

Seus restos mortais foram sepultados em uma vala comum, junto aos dos demais monges falecidos, como pedia a santa Regra. E, desde aquele momento, o cemitério passou a ser iluminado à noite por uma suave e misteriosa luz. Este e outros prodígios, unidos à sua fama de santidade, levaram a transferi-los para um novo túmulo, na parede da cripta da Igreja de São Maron.

A vala onde São Charbel fora enterrado era tão úmida que, ao fazer a exumação, o corpo apareceu literalmente encharcado, mas milagrosamente íntegro e flexível, transpirando um líquido avermelhado de agradável odor. E quando o novo túmulo fora aberto, em 1950, 1952 e 1955, constatou-se que ainda continuava flexível e incorrupto.

Sua modelar vida monástica e os numerosos milagres realizados pela sua intercessão levaram o Papa Paulo VI a beatificá-lo em 5 de dezembro de 1965, dias antes da clausura do Concílio Vaticano II, e a canonizálo em 10 de outubro de 1977.

Exemplo também para nós

O exemplo de São Charbel Makhlouf indica um caminho também nos dias de hoje, pois o silêncio e a oração constituem um valioso auxílio para solucionar as angústias e aflições do homem contemporâneo.

Engana-se quem pensa que o recolhimento é privilégio exclusivo dos religiosos de clausura. Ele está ao alcance de todos nós, pois “a fonte da verdadeira solidão e do silêncio não está nas condições ou na qualidade do trabalho, mas sim no contato íntimo com Deus […] O silêncio, assim entendido, pode encontrar-se na rua, no estrépito do trabalho da fábrica, nas atividades do campo, porque é levado dentro de nós”.2

1BRUNO, OCSO, Pe. M. Le silence monastique. 2.ed. Besançon: Imprimerie de L ’est, 1954, p. 4.
2ROYO MARÍN, Antonio, OP, La vida religiosa. 2.ed. Madrid: BAC, 1968, p. 437.

Oração: condições para ser atendido

oração ArautosIrmã Ana Rafaela Maragno,EP

O homem, em sua debilidade, não pode, sem a graça, alcançar certos favores, mas poderá obtê-los através da oração, pois “o Espírito vem em auxílio à nossa fraqueza; porque não sabemos o que devemos pedir, nem orar como convém, mas o Espírito mesmo intercede por nós com gemidos inefáveis” (Rm 8, 26).

A oração deve estar presente em todos os dias da nossa peregrinação terrena; assim jamais haverá de nos faltar o necessário quando pedirmos socorro. Pode ser que a espera se prolongue, que não haja consolações interiores, ou mesmo sensação de completo abandono, na qual o Céu parece toldado por densas nuvens escuras. Sejam quais forem essas situações, estejamos certos de que nunca devemos desanimar nem desistir. Do mesmo modo como não nos esquecemos de tomar alimento, para manter o vigor e a saúde do corpo, assim também não devemos negligenciar a oração, para que nossa alma, faminta, não venha a desfalecer.

Não obstante, existe um problema. Sabemos, pelo Espírito Santo, o que devemos pedir. Mas, como enunciar essas súplicas e quais as condições para torná-las infalíveis diante de Deus?

As condições para ser atendido

“Se permaneceis em mim e minhas palavras permanecerem em vós, pedireis tudo o que quiserdes e vos será feito” (Jo 15, 7). Nosso Senhor promete de maneira clara, em inúmeras circunstâncias de sua vida terrena a onipotência da oração. “Pedi e se vos dará. Buscai e achareis. Batei e vos será aberto. Porque todo aquele que pede, recebe. Quem busca, acha. A quem bate abrir-se-á” (Mt 7, 7-8). Quem colocaria em dúvida o juramento do Divino Salvador? Quem ousaria contradizê-Lo?

Alguém poderia contestar, com argumentos pouco convincentes, mostrando que, em muitas ocasiões, essa promessa não se cumpriu e inúmeros pedidos pareceram não ter chegado nunca aos ouvidos de Deus. O Apóstolo São Tiago responde a essa objeção: “Pedis e não recebeis, porque pedis mal” (Tg 4, 3).

Ora, se a prece mal feita não é atendida, quais são os requisitos necessários para a infalibilidade da oração? Quatro são, segundo São Tomás, as condições para obtermos aquilo que pedimos: “por nós mesmos, pedir coisas necessárias à salvação, devotamente e com perseverança”.1

“Por nós mesmos”

Quando alguém pede algo em favor de si próprio, já possui a disposição para receber a graça, mas, se intercede por outro, nem sempre este terá a alma aberta para acolhê-la e poderá colocar obstáculos à ação de Deus, como bem expressa Royo Marín: “Deus respeita a liberdade do homem, e não costuma conceder suas graças a quem não quer recebê-las”.2 Isto não significa que rezar pelo próximo seja ineficaz, mas, sim que não teremos certeza da utilidade da oração na vontade daquele por quem pedimos, pois, “a promessa foi feita, não para os que rezam para outros, mas para os que rezam para si mesmos: Dar-se-vos-á”.3

“Coisas necessárias à salvação”

Ao solicitar de Deus a graça da eterna salvação ou dos meios que a ela conduzem, Ele nunca deixa de atender, pois deseja-a mais do que nós mesmos e é Ele mesmo quem nos inspira os anelos de santidade. Contudo, por falta de sabedoria, nem sempre pedimos o que nos convém em ordem à felicidade eterna, donde o Criador, em sua infinita Bondade, não poderá nos conceder algo que venha a prejudicar a prática da virtude, pois, como diz Santo Agostinho “o que é útil ao doente, o médico sabe melhor do que ele.4

“Se não recebes, é porque pedes uma pedra. Porque, se é certo que és filho, não basta isso para receber, antes, a qualidade de filho é obstáculo para receber se, sendo filho, pedes o que não te convém, pelo contrário, também te garante que não podes receber quando peças o que não te convém. Não peças, pois, nada mundano; pede tudo espiritual, e infalivelmente receberás. […] Porque também vós – nos diz o Senhor –, que sois pais, esperais que vossos filhos vos peçam; e, se vos pedem algo inconveniente, lho negais; assim como, naturalmente, lhes concedeis o conveniente. […] Se com este espírito te aproximas de Deus e lhe dizes: “se não recebo, não me retiro”, indefectivelmente receberás. Isto sim, com a condição de que peças o que está bem te dê Aquele a quem o pedes e que te convenha a ti, que pedes.”5

“Devotamente e com perseverança”

Explica o “Doutor da oração”6, comentando o trecho citado de São Tomás, que na palavra “devotamente” o Doutor Angélico encerrou todas as condições que se requerem por parte do sujeito que ora; isto é, humildade, confiança e perseverança, sem deixar de rezar até o instante da partida deste mundo para encontrar o Supremo Bem, objeto dos anelos nas orações fervorosas feitas nesta Terra. Outro ponto é a insistência na oração.

Vejamos separadamente cada uma destas condições.

  • Humildade
    “Deus resiste aos soberbos, mas dá sua graça aos humildes” (Tg 4, 6). É próprio ao presunçoso contar consigo mesmo, depositando sua segurança nas capacidades que tem, sejam elas reais ou imaginárias, e confiando em suas próprias forças. Possui uma venda nos olhos e não quer pedir para ver a luz. O humilde, pelo contrário, reconhece que toda sua energia vem de Deus e nada pode sem Nosso Senhor Jesus Cristo.

    Deus, diz a Escritura, “apaga a memória dos orgulhosos” (Eclo 10, 21), mas desdobra-se sobre os humildes, em atenções e ternuras, e sempre está pronto para derramar com abundância os tesouros de sua liberalidade.

    Uma vez curvados ante a divina majestade, com o espírito despretensioso como o publicano da parábola (Cf. Lc 18, 9-14), devemos esperar com inteira confiança as graças pedidas. Ninguém, ao pedir um favor a outrem, crê não poder recebê-lo, pois, do contrário, não se atreveria a tentar conseguir o esperado. Se assim acontece entre os homens, como duvidar de Deus?

  • Confiança
    Apraz a Deus nossa fé em sua misericórdia, porque deste modo reconhecemos sua bondade, manifestada ao criar-nos e ao conceder-nos tantos dons. Abandonando-nos completamente nas mãos do Criador podemos esperar grandes coisas, pois sua indulgência é uma fonte inesgotável e nossa confiança pode ser comparada a um vaso vazio: quanto maior for este, maior será sua capacidade de receber e, em consequência, maior o número de graças de que será cumulado.7

    Essa confiança cega em Deus deverá ser conservada mesmo nas ocasiões de aridez espiritual, nas quais não parecem ser ouvidas nossas súplicas favoravelmente. Contudo, é preciso permanecer, segundo o conselho do Apóstolo, “esperando contra toda esperança” (Rm 4, 18). Assim, a oração tornar-se-á mais agradável à Divina Providência, pois nela reconhecemos nosso nada e calcamos a inclinação de auto-suficiência, inerente à natureza humana decaída, para esperar unicamente os bens que de Deus provêm.

  • Perseverança
    Esta confiança caminha sempre intimamente unida a outro valor: a insistência na súplica. Em certos casos, Deus não atende nossa prece com a rapidez que nós desejaríamos, para provar nossa fé e esperança. Dada a inconstância consequente do pecado, Deus experimenta nossas disposições, para não sermos levados por qualquer vento dos sentimentos ou arrastados pelas ondas das paixões, mas darmos frutos na perseverança (Cf. Lc 8, 15).

    Com efeito, muitas vezes, nos momentos de fervor, estamos animados por um desejo ardente, acompanhado da vontade de rezar e da certeza da obtenção da graça solicitada; entretanto, aparentemente recusado o primeiro pedido, – porque não é o momento oportuno de Deus conceder, ou mesmo porque Ele quer coroar nossa alma com o mérito da pertinácia –perdemos o entusiasmo inicial e abandonamos logo a oração.

    Ao dirigir a palavra a uma pessoa, ninguém, após tê-la chamado uma primeira vez sem obter resposta e nem mesmo a sua atenção, desiste de falar-lhe novamente. Ao contrário, repete o apelo, até esta lhe prestar ouvido. Se assim agimos nas relações humanas, porque razão não insistir na prece feita a Deus? Ele nos acolhe antes mesmo de formularmos nossa petição, e não deixará de atender com largueza.

    “Não sabemos quantas vezes quererá Deus que repitamos nossa oração para obter o que pedimos. Em todo caso, a demora mais ou menos prolongada ordena-se a nosso maior bem: para redobrar nossa confiança n’Ele, nossa fé, nossa perseverança”.8

    É preciso bater à porta divina até ela nos ser aberta. Cabe dizer que, quanto mais a demora se prolongue, maior será o dom, quando ele vier. Deus sabe dispor a ocasião adequada para derramar seus favores. “Quando Deus tarda em intervir é por razões mais altas e porque certamente nos dará com superabundância”.9

    “Deixai que Ele vos instigue a multiplicar vossas orações, não as atendendo senão depois do centésimo pedido. Ele disse que é preciso rezar sempre, deixai-o comportar-se em relação a vós de maneira a que rezeis sempre. Crede que isso vos será vantajoso”.10

    Pedir a perseverança final

    Quando devemos rezar? Sempre. Não há época, lugar e circunstâncias nas quais possamos dispensar a oração e nos abster da prática dela. Ela nos deverá acompanhar de modo contínuo até o momento de nossa morte, para o qual devemos implorar, sobretudo, a graça da perseverança final. Quantos são os pecadores arrependidos que tornaram a pecar, por não terem sido assíduos na oração! “Quem começa a orar deixa de pecar, quem deixa de orar começa a pecar”.11Salomão pediu a sabedoria e sua súplica agradou ao Senhor (Cf. 1 Re 3, 10), mas, no fim de sua vida, desviou-se seu coração e transgrediu a Lei de Deus (Cf. 1 Re 11, 4-10), porque não havia pedido a perseverança.

    A vida do homem sobre a Terra é uma constante luta! (Cf. Jó 7, 1) E ai dos que não persistem na oração! Durante todo o tempo de nosso combate é preciso ter essa poderosa arma nas mãos. Ela nos torna robustos e alcança-nos o prêmio da vitória!

    Teremos a certeza de que “se nossa oração reúne as condições que acabamos de mostrar, obterá infalivelmente, mais cedo ou mais tarde, o que nela pedimos a Deus. De fato, na prática obtemos muitíssimas coisas de Deus sem reunir todas estas condições, por um efeito superabundante da misericórdia divina. Mas, reunindo estas condições, obteríamos sempre, infalivelmente, – pela promessa divina e fidelidade de Deus em suas palavras –, inclusive aquelas graças que, como a perseverança final, ninguém pode merecer senão somente impetrar”.12

  • 1 “Ut sciliset pro se petat, necessaria ad salutem, pie et perseveranter” (SÃO TOMÁS DE AQUINO. Summa Theologiae. II-II, q. 83, a.15, ad 2. Para as citações da Suma Teológica, neste trabalho será sempre utilizada a tradução das Edições Loyola).
    2 “Dios respeta la libertad del hombre, y no suele conceder sus gracias a quien no quiere recibirlas” (ROYO MARÍN, Antonio. Teología de la Perfección Cristiana. 11. ed. Madrid: BAC, 2006. p.426. Tradução da autora).
    3 SANTO AFONSO DE LIGÓRIO. Op. cit. p. 57.
    4“Quid enim infirmo sit utile magis novit medicus quam aegrotus” (SANTO AGOSTINHO, apud SÃO TOMÁS DE AQUINO. S.Th. II-II, q. 83, a.15, ad 2).
    5 “Si no recibes, es porque pides una piedra. Porque, si es cierto que eres hijo, no basta eso para recibir; más bien la cualidad de hijo es obstáculo para recibir si, siendo hijo, pides lo que no te conviene, al contrario, también te garantiza que no puedes recibir cuando pidas lo que no te conviene. No pidas, pues, nada mundano; pide todo espiritual, e infaliblemente recibirás. […] Porque también vosotros – nos viene a decir el Señor –, aunque sois padres, esperáis que os pidan vuestros hijos; y, si os piden algo inconveniente, se lo negáis; así como, naturalmente, les concedéis y procuráis lo conveniente. […] Si con este espíritu te acercas a Dios y le dices: ‘Si no recibo, no me retiro’, indefectiblemente recibirás. Eso sí, a condición que pidas lo que está bien te dé Aquel a quien se lo pides y que te convenga a ti que lo pides” (SÃO JOÃO CRISÓSTOMO. Homilía 23, 4. In: Obras de San Juan Crisóstomo: Homilías sobre el Evangelio de Mateo. 2. ed. Madrid: BAC, 2007. p. 479. Tradução da autora).
    6 SANTO AFONSO DE LIGÓRIO. Op. Cit. p. 63.
    7 Ibid. p. 73.
    8 “No sabemos cuántas veces querrá Dios que repitamos nuestra oración para obtener lo que pedimos. En todo caso, la dilación más o menos prolongada se ordena a nuestro mayor bien: para redoblar nuestra confianza en El, nuestra fe, nuestra perseverancia” (ROYO MARÍN, Antonio. Nada te turbe, nada te espante. 2. ed. Madrid: Palabra, 1982. p. 115. Tradução da autora).
    9 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. A Ressurreição de Lázaro. In: Arautos do Evangelho. São Paulo, n. 39, mar. 2005. p. 9.
    10 “Laissez-le donc vous pousser à multiplier vos prières, en ne les exauçant qu’après la centième demande. Il a dit qu’il faut toujours prier, laissez-le se conduire à votre égard de manière à ce que vous priiez toujours. Cela vous sera avantageux, croyez-le” (BOUCHAGE, F. Pratique des vertus. 2. ed. Paris: Gabriel Beauchesne, 1918. Vol. III. p. 380. Tradução da autora).
    11 SANTO AGOSTINHO apud SPIRAGO, Francisco. Catecismo Católico popular. Trad. Artur Bivar. 6. ed. Lisboa: União, 1958. p. 291.
    12 “Si nuestra oración reúne las condiciones que acabamos de señalar, obtendrá infaliblemente, más pronto o más tarde, lo que en ella pedimos a Dios. De hecho, en la práctica obtenemos muchísimas cosas de Dios sin reunir todas estas condiciones, por un efecto sobreabundante de la misericordia divina. Pero, reuniendo esas condiciones, obtendríamos siempre, infaliblemente, – por la promesa divina y fidelidad de Dios a sus palabras – incluso aquellas gracias que, como la perseverancia final, nadie absolutamente puede merecer sino solamente impetrar” (ROYO MARÍN, Antonio. Nada te turbe, nada te espante. Op. cit. p. 115. Tradução da autora).

    O Papa, sol da Igreja

    São Pedro3Irmã Clara Isabel Morazzani, EP

    Em certa ocasião, vi no jardim de um palácio, um relógio de sol. Pareceu-me algo bem curioso. Aproximei-me para analisá-lo e comprovei que ele marcava a hora certa: nove e meia. Entre os variados e utilíssimos benefícios que nos proporciona a luz do astro rei, há um ao qual muitos não dão a devida importância, e, entretanto, ele é indispensável: o de indicar com exatidão a hora certa para toda a humanidade.

    Houve época em que os homens se guiavam durante o dia pelo sol, e à noite pelas estrelas. Se assim não fosse, como poderiam saber se eram nove horas da manhã ou três da tarde? Podemos imaginar as divergências de opiniões que daí decorreriam, pois cada qual quereria adaptar o horário segundo suas próprias conveniências…

    Assim, para presidir o tempo, Deus criou o curso solar, o qual segue com pontualidade imutável as leis estabelecidas pelo Supremo Artífice.

    O sol, símbolo da Virgem Maria

    Este pensamento leva-nos a considerações mais elevadas: ao ordenar o universo, o Criador fê-lo de forma hierarquizada, de tal modo que os seres inferiores simbolizam os superiores, tornando assim mais fácil às criaturas racionais — anjos e homens — subir até Ele.

    Por isso, entre os louvores dirigidos à Santíssima Virgem no Pequeno Ofício da Imaculada Conceição, canta a Igreja: “E a representou maravilhosamente em todas as suas obras”. O sol é nomeado inúmeras vezes no Ofício da Bem-Aventurada Virgem Maria como figura do nascimento do Salvador ou da beleza de Nossa Senhora: “Nascerá como o sol o Salvador do mundo e descerá ao seio da Virgem como a chuva sobre a relva”, “Ó Virgem prudentíssima, para onde ides como a aurora extremamente rutilante? Filha de Sião, toda formosa e suave sois, bela como a lua, eleita como o sol”, “Vossa maternidade, ó Virgem Mãe de Deus, anunciou a alegria a todo o universo: de Vós nasceu o Sol de Justiça, Cristo Deus nosso”, “Vossas vestes são alvas como a neve, e vosso semblante fulgura como o sol.”

    O Papa, fundamento da unidade

    Sol VaticanoMas, enquanto regulador do tempo, o sol simboliza o precioso legado deixado por Jesus Cristo antes de subir ao Céu, a realização da promessa feita aos Apóstolos — “Eu estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28, 20) —, que faz da Igreja um só rebanho reunido em torno de um só pastor: a autoridade suprema do Papa infalível.

    Com efeito, o que seria da Esposa Mística de Cristo se ela não estivesse estruturada em torno de um único detentor da verdade que, quando se pronuncia ex cathedra sobre assuntos de fé e moral, faz ouvir uma palavra absolutamente inerrante? Há muito tempo teria ela desmoronado como casa construída sobre a areia, corroída pelas dissensões e heresias, privada de seus próprios fundamentos.

    Se, pois, a Igreja atravessa triunfante e inabalável o curso dos séculos, é porque ela se encontra estabelecida sobre o Apóstolo Pedro como um edifício sobre seus alicerces. E ai de quem não queira se submeter à sua autoridade! Poderíamos compará-lo a um pobre louco que, vendo o sol brilhar ao meio-dia, insistisse em afirmar que é meia-noite. Em nada a fulgurância do sol se veria diminuída…

    Cristo instituiu a Igreja como sociedade visível

    Ao deixar este mundo e subir aos Céus, Cristo Jesus encerrou de forma gloriosa sua permanência física entre os homens, para sentar-Se à direita do Pai na eternidade. Doravante faria sentir sua presença através do poder sobrenatural e invisível da graça. Porém, assim como o homem é um composto de corpo e alma, no qual espírito e matéria se harmonizam e se completam, tornava-se necessário que a Igreja por Ele fundada não só vivesse do sopro do Espírito Santo, mas estivesse solidamente constituída como sociedade visível e jurídica, na pessoa dos Apóstolos e de seus sucessores.

    Para o exercício de tão alta missão, o Redentor, com didática divina, preparou seus discípulos ao longo de três anos de convívio, durante os quais os fez progredir no conhecimento e no amor das verdades eternas, destacando-os das influências mundanas. O ponto culminante dessa ruptura com o mundo parece ter-se dado no momento em que Jesus, após perguntar-lhes quais as opiniões dos judeus a respeito do Filho do Homem, inquiriu: “E vós, quem dizeis que Eu sou? (Mt 16, 15). Certamente criou-se um suspense, todos entreolharam-se hesitantes. Então o fogoso Simão, cedendo à inspiração da graça no fundo de sua alma, lançou-se aos pés do Mestre, exclamando: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo!” (Mt 16, 16).

    Pedro é o alicerce da Igreja

    Desde toda a eternidade o Verbo de Deus conhecia aquela cena. Enquanto Homem, porém, ardia em desejos de constatá-la com seus olhos carnais, e pode-se dizer que, desde o primeiro instante de sua concepção, seu Sagrado Coração pulsava com santa pressa de ouvir aquelas palavras que determinariam o nascimento da mais bela instituição da História. Possivelmente tenha experimentado uma divina emoção ao responder ao Apóstolo: “Feliz és, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que te revelou isto, mas meu Pai que está nos Céus. E Eu te declaro: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos Céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos Céus” (Mt 16, 17-19).

    Com esta solene promessa o Salvador acabava de anunciar o fundamento de sua Igreja: a pessoa de Pedro. Ele o revestiria do mesmo poder com o qual o Pai O enviara. “Foi a Pedro que o Senhor falou: a um só, a fim de fundar a unidade em um só”.1

    O Primado de Pedro: de Jerusalém a Roma

    Após a Ascensão do Senhor e a descida do Espírito Santo, os Apóstolos iniciaram sua pregação na cidade de Jerusalém. A autoridade de Pedro sobre eles foi reconhecida desde o começo, e o Cenáculo passou a ser o berço da Igreja. Os primeiros anos do ministério de Pedro foram particularmente árduos: lemos nos Atos a descrição, palpitante como um livro de aventuras, dos sucessos e reveses apostólicos pelos quais passaram o primeiro Papa e a nascente comunidade cristã. Deixando a sede episcopal de Jerusalém sob o encargo de Tiago o Menor, Pedro transladou-se para Antioquia; em seguida, guiado pelos desígnios de Deus, instalou-se definitivamente em Roma.

    A Providência, que tudo dispõe com sabedoria, preparava-lhe os caminhos e iria se servir dos restos do Império decadente como de uma plataforma, para sobre ela construir a Civilização Cristã.

    1São Paciano, Bispo de Barcelona, 3ª carta a Semprônio, n. 11.