A dor, mistério do amor

Irmã Clara Isabel Morazzani Arráiz, EP

Era o Templo restaurado por Herodes. Embora “feito de belas pedras e recamado de ricos donativos” (Lc 21, 5), bem longe estava de possuir o esplendor e a magnificência do anterior, erigido segundo a capacidade e a sabedoria de Salomão.

Naquele dia, um casal, levando o mais belo de todos os meninos, atravessou os umbrais do recinto sagrado, com o intuito de cumprir as prescrições da Lei a respeito dos primogênitos. Na aparência, aquela cena nada tinha de extraordinário: com muita frequência as famílias israelitas, vindas das mais variadas cidades, chegavam a Jerusalém, trazendo seus filhos para apresenta-los ao Senhor e oferecer o sacrifício prescrito pela Lei: um par de rolas ou dois pombinhos (cf. Lc 2-24). Quase sempre as mães preferiam associar esta cerimônia àquela da sua própria purificação, à qual estavam obrigadas pelas rígidas normas do Levítico.

Entretanto, nessa ocasião, o ritual da apresentação revestia-se de dimensões verdadeiramente divinas e fora previsto com séculos de antecedência pelo profeta Ageu: “Encherei de minha glória este templo — diz o Senhor do universo. A prata e o ouro me pertencem — oráculo do Senhor do universo. O esplendor futuro deste templo será maior que o primeiro — oráculo do Senhor do universo. Neste lugar Eu darei a paz — diz o Senhor do universo” (Ag 2, 7b-10). E por Malaquias: “Logo chegará a seu templo o Dominador, que vós procurais, e o Anjo da Aliança, que vós desejais” (Ml 3, 1b).

Com efeito, aquela arrebatadora criança, conduzida nos braços de sua Mãe para submeter-Se humildemente aos preceitos da Lei mosaica, era o próprio Dominador, o Filho Unigênito de Deus, nascido sob o domínio da Lei, para resgatar os que se encontravam sob o domínio da Lei (cf. Gl 4, 5).

Dia de gáudio e de glória aquele em que, por fim, as profecias atingiam sua realização e o Divino Menino começava a ser reconhecido pelos que “em Jerusalém esperavam a redenção” (Lc 2, 38).

“Uma espada transpassará a Tua alma”

Entrando no templo, Maria e José depararam-se com um ancião de venerável aspecto, que para lá se dirigira, cheio de esperança, sob a inspiração do Espírito Santo (cf. Lc 2, 27). Ao ver o Menino Jesus, Simeão, que poderia ser denominado o varão-esperança, logo começou a bendizer a Deus e a profetizar a respeito dEle, deixando admirados Seu pai e Sua mãe (cf. Lc 2, 33). Também Ana, a profetisa, que se encontrava no Templo, pôs-se a falar sobre Ele, tornando-se uma das primeiras anunciadoras da missão redentora de Jesus. Maria e José ouviam todas essas palavras, e Seus corações enchiam-se de gozo ao constatarem que o inefável mistério do qual ambos eram depositários, Deus Se dignara comunicá-lo também a outras almas, manifestando-lhes a presença de Cristo no mundo.

Simeão tomou o Menino nos braços e, após ter sido pago o imposto, entregou-O à Sua Mãe, dizendo-Lhe: “Uma espada transpassará a Tua alma” (Lc 2, 35).

Que contraste impressionante! Ali estava o casal princeps, duas criaturas escolhidas por Deus para servir de arquetipia à humanidade: Maria e José. Nesses momentos de consolação, nos quais a Luz descida do Céu para revelar-Se às nações começava a deitar seus primeiros raios, abria-se já, de maneira oficial, a “via dolorosa” que o Senhor apontava à Sua Santa Mãe. A alegria de Maria — de possuir um Filho que é Deus e de pertencer a um Deus que é Seu Filho — naquele instante transformou-se em tristeza. Auge de alegria e auge de tristeza conjugaram-se no coração da Virgem: quanta perplexidade nessa ocasião em que tudo deveria falar de júbilo e, entretanto… “uma espada transpassará a Tua alma”!

Pelo pecado, o sofrimento tornou-se inerente à condição humana

Por que quis Deus unir a dor à alegria num verdadeiro paradoxo, inevitável na vida humana? Todos nós, pelas inclinações da natureza, sempre propensa a buscar a felicidade e a fugir de qualquer sofrimento, somos incapazes de compreender essa maravilha, se não for por um especial auxílio da graça. Fora da filosofia cristã iluminada pela fé, o problema da dor tem sido sempre algo difícil de resolver. Enquanto alguns a concebem como um mal a ser evitado a todo custo, outros, passando ao extremo oposto, consideram-na imprescindível e chegam a fazer dela um prazer malsão e amargo, única saída para sua falta de esperança.

A Igreja, ao contrário, sempre tratou desse assunto de forma equilibrada. Em virtude do pecado original, o sofrimento tornou-se inerente à condição humana, e o homem deve utilizar-se dele para o serviço de Deus, transformando-o numa fonte de méritos e até de glória.

A respeito do modo de como os homens, tanto os bons quanto os maus, suportam as tribulações, assim escreve Santo Agostinho: “Embora justos e pecadores sofram um mesmo tormento, o resultado não é o mesmo. O mesmo fogo faz resplendecer o ouro, purificando-o, e a palha lançar fumaça; o mesmo trilho serve para limpar os grãos e quebrar as arestas… Assim também, uma mesma adversidade purifica e aperfeiçoa os bons, e destrói e aniquila os maus. Por conseguinte, numa mesma calamidade, os pecadores se revoltam e blasfemam contra Deus, enquanto os justos O glorificam e pedem misericórdia; a grande diferença de sentimentos não está na qualidade do mal que uns e outros padecem, mas na das pessoas que o sofrem. Sacudidos de um mesmo modo, o lodo exala um mau cheiro insuportável, e o bálsamo precioso um suavíssimo odor”.1

Cristo quis assumir a nossa carne em estado padecente

Para conhecermos a fundo todo o valor que se desprende da dor quando santamente aceita, bastanos observar que esta foi a via escolhida pela Providência para o próprio Homem-Deus e Sua Mãe Santíssima. Ao nos aproximarmos de um altar em qualquer igreja da terra, sempre o encontraremos presidido por um Crucifixo; e, aos pés dessa Cruz, indissociável do Filho, imaginamos uma Mãe que chora: Stabat Mater dolorosa, juxta crucem lacrimosa

Reza a teologia que, para resgatar o gênero humano, teria bastado Nosso Senhor Jesus Cristo oferecer a Deus Pai um simples gesto, uma curta palavra, ou até mesmo um piscar de olhos, por serem de valor infinito todos os Seus atos.2 Portanto, uma única gota de sangue derramada durante a Circuncisão seria suficiente para consumar a obra da Redenção.3

Entretanto, decretou o Padre Eterno que Ele sofresse a Paixão e Morte de Cruz, pois não poderia permitir que a Seu Verbo — “efusão da luz eterna, espelho sem mancha da atividade de Deus, imagem de Sua bondade” (Sb 7, 26) — fosse negada uma glória em plenitude e esplendor. Foi por ilimitado amor ao Seu Unigênito que Deus permitiu as ignomínias da Flagelação, as humilhações do Ecce Homo, a exaustão da Via-Sacra e os tormentos da Crucifixão. O Filho, que por Sua natureza divina não era capaz de sofrer, quis assumir nossa carne em estado padecente, e não em corpo glorioso, como correspondia à Sua alma, a qual se encontrava na visão beatífica desde o primeiro instante da Encarnação.

Agindo desse modo, Deus não visou apenas operar a Redenção da forma mais esplêndida, mas quis propor aos homens de todos os tempos o Modelo perfeito a ser seguido. Assim se expressa a respeito deste tema o piedoso Pe. André Hamon: “Quando Deus, em Seus eternos decretos, decidiu a Encarnação do Verbo, propôs-Se apresentar aos olhos dos homens o modelo da vida nova que deveria salvá-los. Como homem, o Verbo Encarnado lhes mostraria o caminho; como Deus, lhes daria a garantia da perfeição do modelo. Suas virtudes seriam imitáveis, pois seriam a ação de um homem; e uma regra segura, já que seriam a ação de um Deus”.4

O mistério profundíssimo da Cruz

Ora, ao contemplarmos o Homem-Deus, deparamo-nos com esse profundo mistério: Ele, o Onipotente, o Senhor da Glória, a quem os Anjos adoram sem cessar, “fez-Se em tudo semelhante a nós, exceto no pecado” (Hb 4, 15), e sofreu as contingências da condição humana como fome, sede, sono, e fadiga. Para a mentalidade do homem moderno — pervadida pela ideia de um triunfalismo mal compreendido, da qual desapareceu quase completamente o verdadeiro sentido da dor —, a figura de Nosso Senhor Jesus Cristo cravado na Cruz, clamando ao Pai a magnitude de Seu abandono, aparece como a de um fracassado. “Em verdade, Ele tomou sobre Si nossas enfermidades, e carregou os nossos sofrimentos: e nós O reputávamos como um castigado, ferido por Deus e humilhado” (Is 53, 4).

Entretanto, devemos procurar discernir a sublime lição contida no Sacrifício do Calvário, cuja renovação incruenta se opera diariamente em todos os altares do mundo. Em seu poema O Triunfo da Cruz, assim canta São Luís Maria Grignion de Montfort: “É a Cruz, sobre a terra mistério profundíssimo, que não se conhece sem muitas luzes. Para compreendê-lo é necessário um espírito elevado. Entretanto, é preciso entendê-lo para que nos possamos salvar. [...] A Cruz é necessária. É preciso sofrer sempre: ou subir ao Calvário ou perecer eternamente. E Santo Agostinho exclama que somos réprobos se Deus não nos castiga e nos prova”.5

Deus quis submeter o homem à prova

A vida no Paraíso Terrestre era isenta de qualquer incômodo. O homem estava mergulhado na felicidade: os vegetais se encontravam à sua disposição, os animais o serviam, não havia doenças nem cansaço, e, por um especial favor do Criador, a ameaça da morte não o atingia. Também sua alma vivia em paz, pois, graças ao dom da integridade, a carne e o espírito não entravam em conflito, e todas as paixões se ordenavam à luz da Fé.

Não obstante, em meio àquela agradável existência cheia de delícias, Deus quis que houvesse uma prova e, em consequência, uma pequena dor: “Não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal; porque no dia em que dele comeres, morrerás indubitavelmente” (Gn 2, 17).

Era conveniente que Deus, seriedade infinita, exigisse do homem um tributo de sua submissão, por meio do qual este demonstrasse a autenticidade dos louvores e das honras que prestava a seu Criador. A aceitação desta prova era uma renúncia magnífica e uma homenagem ímpar, que partia da humanidade logo em seu nascedouro e se elevava até o trono de Deus.

O pecado e suas consequências

Ora, Adão e Eva sucumbiram à tentação. Talvez lhes tenha sobrevindo a ideia, não explícita, de que não deveria existir a mais leve dor na ordem da criação, e perante a prova que Deus lhes impunha tomaram uma atitude de revolta interior, induzidos a roubar a própria honra de Deus.

Os nossos primeiros pais pecaram. E a queda trouxe o castigo, em sentença proferida pelo próprio Deus: “Multiplicarei teus sofrimentos [...] maldita seja a terra por tua causa. Tirarás dela com trabalhos penosos o teu sustento todos os dias de tua vida” (Gn 3, 16-17).

O pecado produziu uma revolução nessa harmonia interior e exterior na qual antes viviam: o homem encontrou-se de repente cercado de mil perigos da natureza, os animais se lhe tornaram hostis, a terra produziu espinhos e abrolhos, e ele viu-se obrigado a comer o pão com o suor de seu rosto (cf. Gn 3, 18-19). Sua alma tornou-se vítima das más inclinações, sujeita ao erro e à rebeldia dos instintos contra os ditames da razão. E a História passou a registrar a peregrinação árdua e dolorosa de uma humanidade em guerra constante contra si mesma, conforme diz o Livro de Jó: “A vida do homem sobre a terra é uma luta” (Jó 7, 1).

A culpa de nossos primeiros pais atraiu sobre eles, e sobre sua posteridade, a maldição e a perda da amizade de Deus, reparável somente por meio do Batismo e da graça. Mas atingiu também a ordem do universo, da qual Adão fora feito rei: “Deste-lhe poder sobre as obras de Vossas mãos, Vós lhe submetestes todo o universo” (Sl 8, 7).

Afirma São Paulo: “A criação foi sujeita à vaidade (não voluntariamente, mas por vontade daquele que a sujeitou), todavia com a esperança de ser também ela libertada do cativeiro da corrupção, para participar da gloriosa liberdade dos filhos de Deus. Pois sabemos que toda a criação geme e sofre como que dores de parto até o presente dia” (Rm 8, 20-22).

Um Deus abraçado à Cruz

Apesar de ter maculado a Criação, o pecado não conseguiu frustrar os planos de Deus, como era intuito do demônio. Pelo contrário, determinou Ele, em Seus insondáveis desígnios de misericórdia, estabelecer uma ordem do universo ainda mais bela e esplendorosa, nascida da Encarnação e do sacrifício de seu Filho Unigênito.

Na harmonia dessa nova ordem, haveria de ser preponderante o papel da dor. Tendo sido mal correspondida a prova no Paraíso, a vida da graça, trazida pela Redenção, não poderia conceber-se sem sofrimento, de modo que os “degredados filhos de Eva” reparassem a falta de seus pais.

Era preciso que os homens adorassem um Deus abraçado à Cruz, o Vir dolorum previsto por Isaías, cravado sobre o madeiro do opróbrio e da ignomínia, e tivessem diante do Homem-Deus moribundo todas as ternuras e venerações de que o coração humano é capaz.

Ele desceu a esta terra de exílio, atravessando as brumas do pecado sem Se deixar tocar por ele, e, tomando sobre Si as nossas fraquezas, com elas subiu ao Gólgota para ali consumar Seu holocausto e restituir aos homens a paz e a felicidade que haviam perdido.

É bem verdade que, ao longo dos três anos de vida pública, teve Ele um período brilhante aos olhos do mundo, durante o qual as multidões iam à sua procura, sôfregas de ouvir Seus ensinamentos e beneficiar-se de Seus milagres. Quando de Sua entrada solene em Jerusalém, a multidão cantava “hosana ao Filho de Davi” (Mt 21, 9). Houve, inclusive, aqueles que quiseram proclamá-Lo rei (cf. Jo 6, 15). Mas, em meio a todos os êxitos, a pior das dores incrustava-se em Seu Coração, delineando Sua missão de Servo Sofredor e deitando uma sombra sobre o futuro que O esperava: era a brutal falta de correspondência daqueles que mais O deveriam reconhecer. “Veio para o que era Seu, mas os Seus não O receberam” (Jo 1, 11).

Se, em Sua trajetória terrena, Nosso Senhor tivesse recebido sempre todas as glorificações do Tabor e do Domingo de Ramos, algo da Sua benquerença pelos homens e da Sua disposição de entregar a vida por eles teria deixado de refulgir aos nossos olhos, e não compreenderíamos suficientemente o mistério de amor que se discerne na Cruz e no Santo Sepulcro. “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos” (Jo 15, 13).

Somos chamados a colaborar na obra da Redenção

Ora, movido por Seu ilimitado amor aos homens, Jesus quis também a participação deles na Sua dor. Ele não necessita de concurso humano algum para redimir-nos, uma vez que o Preciosíssimo Sangue derramado na Paixão bastaria para apagar os pecados de infinitas criaturas, mas deseja associar-nos a Seus sofrimentos e assim fazer-nos partícipes de Seus méritos e de Sua glória. É este o simbolismo da água que o sacerdote mistura ao vinho, na preparação do cálice para o Santo Sacrifício. Nossas dores, de si, valem menos até do que umas poucas gotas de água, pois, o mais das vezes, estão contaminadas por imperfeições e misérias; mas unidas ao “vinho que engendra virgens”, podem aquelas tornar-se uma “mesma e única bebida de salvação”.6

São Paulo mostrou ter penetrado a fundo nesse mistério, quando escreveu em sua epístola aos Colossenses: “ Agora me alegro nos sofrimentos suportados por vós. O que falta às tribulações de Cristo, completo na minha carne, por Seu corpo que é a Igreja” (Cl 1, 24).

Esta passagem é assim comentada por Tanquerey: “Certamente, esta Paixão é, não somente completa, mas abundante e superabundante. No entanto, como Jesus é a cabeça de um corpo místico, do qual todos nós somos os membros, a Paixão deste Cristo místico se completa cada dia em seus membros sofredores, e ela não estará terminada senão quando o último dos eleitos tiver sofrido sua parte das dores de Cristo. [...] Então a dor terá um sentido, então seremos verdadeiramente os colaboradores do Divino Salvador na obra da salvação das almas”.7

Crisol onde Deus lança as almas muito amadas

Levando isto em consideração, o papel da dor na vida humana adquire uma perspectiva tão elevada que torna inteiramente fora de propósito qualquer queixa ou inconformidade de nossa parte em relação às cruzes que Deus tenha por bem nos enviar.

Na aceitação inteira da vontade divina encontramos o melhor meio de restituir ao Criador a glória que Lhe foi negada pela primitiva desobediência, manifestando-Lhe, por um ato de conformidade com Seus desígnios, nosso tributo de amor e de reparação à Sua Majestade ofendida.

Ao mesmo tempo, se encetarmos as veredas da dor com ânimo resoluto, é-nos oferecida a ocasião de alcançar preciosos benefícios para o progresso de nossa vida sobrenatural. Dada a tendência natural do homem para o egoísmo, facilmente ele se esquece de Deus quando a felicidade e o sucesso parecem seguir seus empreendimentos. A adversidade é, pois, um poderoso auxílio para purificar a alma do apego excessivo às criaturas, obrigando-a a considerar a inanidade dos bens passageiros e voltar-se só para Deus, único Bem do qual tudo se pode esperar.

Tais disposições perante o sofrimento conferem um caráter respeitável àquele sobre o qual este se abate, tornando-o digno de admiração.

Nos dias de hoje, o sentido cristão da palavra “admirável” vai-se perdendo, dando lugar a conceitos deturpados, segundo os quais o homem, para alcançar a plena realização de sua personalidade, deve ser bem sucedido na vida, correr de vitória em vitória, sem jamais ser incomodado por qualquer revés ou dificuldade; só assim se tornará merecedor do aplauso e da aceitação dos demais. A experiência histórica, porém, nos revela o contrário: os homens sofredores, que ao longo de sua existência tiveram de enfrentar perigos, angústias, incompreensões e até mesmo aparentes catástrofes, mas, fortalecidos pela graça divina, acabaram vencendo, esses sim são verdadeiramente dignos da aprovação dos demais homens e do beneplácito de Deus.

A dor é, pois, o crisol onde a Providência lança as almas muito amadas, sobre as quais repousa uma especial predileção de Sua parte, para delas recolher apenas a prata finíssima, livre de qualquer impureza. O Livro do Eclesiástico deita uma luz sobre essa atraente temática: “Meu filho, se entrares para o serviço de Deus, permanece firme na justiça e no temor, e prepara a tua alma para a provação; humilha teu coração, espera com paciência, dá ouvidos e acolhe as palavras de sabedoria; não te perturbes no tempo da infelicidade, sofre as demoras de Deus; dedica-te a Deus, espera com paciência, a fim de que no derradeiro momento tua vida se enriqueça. Aceita tudo o que te acontecer. Na dor, permanece firme; na humilhação, tem paciência. Pois é pelo fogo que se experimentam o ouro e a prata, e os homens agradáveis a Deus, pelo cadinho da humilhação” (Eclo 2, 1-5).

Duas atitudes perante a tragédia

Recebida com resignação, ou com sobrenatural entusiasmo, a dor enaltece o homem e o convida a uma doação generosa de si mesmo, da qual, na prosperidade, talvez ele não se julgasse capaz. Assim, pode haver circunstâncias infelizes que, de modo inesperado, reduzam à derrota alguém anteriormente coroado de êxito. Colocado diante de sua própria tragédia, ele poderá chorar, lamentando seu fracasso, e afundar-se no abatimento e na revolta contra Deus; ou então ele se erguerá com uma grandeza de alma triunfal, compreendendo a beleza de seu infortúnio, já que este o aproxima mais da Divina Vítima do Calvário.

Em palavras dirigidas aos peregrinos reunidos na Praça de São Pedro, assim se exprimia o hoje Papa Emérito Bento XVI: “Jesus sofre e morre na Cruz por amor. Deste modo, considerando bem, deu sentido ao nosso sofrimento, um sentido que muitos homens e mulheres de todas as épocas compreenderam e fizeram seu, experimentando uma profunda serenidade também na amargura de árduas provas físicas e morais”.8

No instante em que o homem se abraça à Cruz e a toma como um presente da munificência divina, manifesta-se todo o poder sublime e ao mesmo tempo misterioso do holocausto. Sua dor torna-se fecunda e profícua, mais eficaz na ordem da Comunhão dos Santos e na realização dos desígnios de Deus do que seus esforços naturais ou suas demais obras apostólicas. Oferecido o sacrifício, algo na alma germina, nasce e gera frutos, elevando-se diante de Deus como oblação grata e imaculada, e dando ao homem uma alegria e uma paz interior que todas as riquezas e glórias do mundo jamais poderão proporcionar-lhe.

Nos dias cheios dos imponderáveis sérios e graves da Semana Santa, acheguemo-nos aos pés da Cruz onde pende o Salvador, abandonado por quase todos — sobretudo neste século em que tantos e tantos homens só procuram o prazer e bem-estar pessoal — e coloquemos nas mãos da Mater Dolorosa, cuja alma foi transpassada pelo gládio da dor, toda a nossa entrega e disposição de padecer por Cristo e por Sua Igreja. As lágrimas de Maria purificarão nossa oferta das eventuais misérias das quais possa estar manchada e a tornarão útil para a edificação de Seu Reino e o triunfo de Seu Imaculado Coração.

1 AGOSTINHO, Santo. A Cidade de Deus. l. 1, c. 8.
2 Cf. ROYO MARÍN, OP, Fr. Antonio. Jesucristo y la vida cristiana. Madrid: BAC, 1961, p. 324.
3 Cf. DENZINGER, H.. HÜNEMANN, P. Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral. São Paulo: Loyola; Paulinas, 2007, p. 328, n. 1.025.
4 HAMON, M. André-Jean-Marie. Méditations. Paris: Lecoffre, 1933, v I, p. 55-56.
5 MONTFORT, São Luís Maria de. Carta-circular aos amigos da Cruz. Cântico “O Triunfo da Cruz”. Trad. Maria Helena Montezuma Pohle. Rio de Janeiro: Santa Maria, 1954, p. 67-68.
6 Cf. CANTALAMESSA, OFMCap, Raniero. Obediencia. Trad. Ricardo M. Lázaro Barceló. 3. ed. Valencia: Edicep, 2002, p. 71. TANQUEREY, Adolphe. La divinisation de la souffrance. Paris-Tournai-Rome: Desclée de Brouwer, 1931, p. IX-X. Ângelus, 01/02/2009.
7 TANQUEREY, Adolphe. La divinisation de la souffrance. Paris-Tournai- Rome: Desclée de Brouwer, 1931, p. IX-X.
8 Ângelus, 01/02/2009.

“PONDE, SENHOR, UMA GUARDA EM MINHA BOCA”

Aline Karolina de Souza Lima

Desejoso de presentear seus amigos com um banquete, o filósofo Xanthus encarregou seu escravo Esopo de comprar no mercado o que havia de melhor.

Pelo caminho ia Esopo pensativo:

- Tenho de ajudar meu amo, coitado, o ponto fraco dele é a língua, só diz bagatelas e nunca glorifica a Deus com seus lábios. Já sei !!!

Esopo comprou línguas e temperou-as com excelente molho.

Os convidados elogiaram no princípio os manjares, mas, ao fim, se cansaram de tanta língua. Xanthus, furioso, disse ao escravo:

- Não te encarreguei que comprasse o que havia de melhor?

- Mas, meu senhor, o que há de melhor que a língua? Com ela podemos proclamar o bem e falar para edificação do próximo, rezar, expandir a fé, dar bons conselhos e cantar louvores a Deus. Para quantas coisas ela é útil!

- Pois bem, disse Xanthus – que achou ter posto seu escravo em apuros – então comprarás amanhã tudo o que houver de pior. Pois, se para ti o que há de bom é língua, o que há de pior deve ser um pouco melhor.

- Está bem, respondeu o escravo, farei isso com todo gosto.

No dia seguinte Esopo comprou mais línguas, e justificou-se diante de seu senhor, dizendo:

- A língua é o pior que há no mundo! É a mãe da calúnia, da crítica, da mentira. É o órgão do terror! Além do mais, é usada para proferir palavras ociosas, banais, palavras de vaidade, murmurações… Se não é bem empregada, traz inúmeros males.

Relicário com a língua incorrupta de Santo Antonio de Pádua

O Espírito Santo diz “No muito falar, não faltará a culpa” (Pr 10, 19). São Tiago afirma: “Se alguém não cair por palavras, este é um homem perfeito” (Tg 3, 2). E ainda no Eclesiástico: “Bem-aventurado quem não peca com a língua” (Eclo 25, 11). Não se trata de ficar sempre calados, mas simplesmente refletir antes de falar. Santo Ambrósio diz: “Ou cala, ou dize coisas melhores que o silêncio”.

Deixamos aqui uma pergunta: Quais os assuntos de nossas conversas? Fazemos como Xanthus, pronunciando palavras ociosas e banalidades? Lembremo-nos de que a língua é um ótimo instrumento para glorificar a Deus e praticar a caridade. Saibamos, então, usá-la convenientemente.

O que nos torna íntimos aos santos?

Joice Silvino Santos

Ao se aproximarem do presbitério da Basílica Nossa Senhora do Rosário, os fiéis se deparam com várias relíquias de santos postas sob a mesa do altar.

Mas, se perguntássemos ao leitor por que damos culto às relíquias, a resposta seria convincente e segura? Caso não fosse, não se sinta constrangido, pois dá-la-emos agora.

A palavra relíquia vem do latim, provavelmente de relíquus (restante) ou relinquere (deixar). Portanto, “relíquia” designa aquilo que restou dos santos ou as coisas que por ele foram deixadas.

Como todos sabem, existem dois tipos de relíquias: as diretas e as indiretas. As diretas são alguma parte da carne, dos ossos ou das cinzas. As relíquias indiretas são algo que por eles foi tocado. Alguém poderia se perguntar: “Nossa! Existe uma quantidade imensa de relíquias indiretas, como um santo pôde ter tocado em tantos objetos?” Na verdade, nem todas as relíquias indiretas foram tocadas pelos santos, pois algumas foram simplesmente encostadas em suas relíquias diretas.

Quando uma pessoa toca em alguma coisa, algo dela passa para o objeto que foi tocado. Tomemos como exemplo o recipiente em que foram lavadas as mãos de Pilatos. Se alguém lhe desse de presente, o leitor aceitaria? Provavelmente não, pois, alguma coisa do ato infame de Pilatos passou para o objeto. Algo análogo acontece com as relíquias indiretas.

Já as relíquias diretas, como um pedaço de carne ou de osso são parte de uma pessoa que se encontra no Céu. Desse modo, quando o santo ressuscitar, aquele fragmento se unirá ao seu corpo e passará para o estado glorioso. Assim, a relíquia direta é, em certo sentido, a presença física de um bem-aventurado entre nós.

Portanto, as relíquias são um verdadeiro tesouro! Se por acaso o leitor possui alguma, venere-a e não a deixe guardada em alguma gaveta no meio de objetos profanos. Devemos osculá-las todos os dias pelo menos, de manhã ou à noite. E, além do mais, procurar sempre conhecer a vida do santo a que correspondem, para termos uma piedade fogosa. Lembremo-nos de que elas são uma arma para o combate.

Certos militares levavam uma relíquia incrustada na espada… É bom, nas horas de perigo, tê-las sempre junto a nós para garantirmos que, na luta contra o demônio, não batalhamos sozinhos, mas contamos com a presença de santos vitoriosos!

Bakhita, a afortunada

Irmã Clara Isabel Morazzani Arráiz, EP

Desde as mais remotas épocas, a escravidão era praticada entre os povos antigos, afundados na barbárie e no paganismo após o desastre da Torre de Babel. Se uma nação triunfava sobre outra na guerra, os derrotados eram levados para o cativeiro e condenados à humilhante servidão. Até no Império Romano, tão civilizado sob muitos aspectos, os escravos tinham o status jurídico de coisa (res), sobre a qual o direito conferia aos senhores poder de vida ou morte.

A Igreja une a humanidade

Foi a Igreja Católica que, como mãe bondosa, suavizou aos poucos o duro jugo imposto pela crueldade, ao ensinar por todas as partes o “Amai-vos uns aos outros” (Jo 13, 34), o novo mandamento de Jesus, e conduziu as relações humanas a um equilíbrio cristão. Pregando a existência de uma alma racional e imortal, elevada à participação da vida divina pelo Batismo, a doutrina católica alça todos à dignidade a que são chamados.

Longe de abolir as desigualdades decorrentes da missão ou dos dons conferidos pelo Criador a cada alma em particular, a Igreja convida os homens a um relacionamento de mútuo respeito: os inferiores submetendo-se com alegria aos superiores, por verem neles um reflexo do próprio Deus, e estes debruçando-se sobre os primeiros com verdadeiro afeto e proteção.

Já no século I, o grande São Paulo escrevia aos Efésios uma síntese deste estado de espírito: “Servos, obedecei aos vossos senhores temporais, com temor e solicitude, de coração sincero, como a Cristo [...]. Senhores, procedei também assim com os servos. Deixai as ameaças. E tende em conta que o Senhor está no Céu, Senhor tanto deles como vosso, que não faz distinção de pessoas” (Ef 6, 5.9).

Almas modelo

Entretanto, dado o orgulho do coração humano, ao longo da História, as admoestações do Apóstolo das Gentes e de tantos outros santos e pregadores, muitas vezes não foram ouvidas, quer pelos grandes, quer pelos pequenos. Daí a tirania por parte de uns e rebeliões por parte de outros, dando origem a guerras e dissensões cuja narração nos faz estremecer de horror.

Deus, porém, tem suscitado incontável número de homens e mulheres que não só ouviram Sua Palavra, mas souberam pôla em prática, constituindo assim uma coorte de modelos a serem imitados pelos demais. Todos eles, cada um a seu modo e segundo sua vocação específica, compreenderam a fundo a lei do Amor trazida pelo Divino Mestre e conformaram com ela suas existências.

Tal foi a vida da jovem escrava sudanesa Josefina Bakhita, cuja docilidade de alma foi tão grata aos olhos de Deus que a levou à honra dos altares.

Os caminhos da obediência

Dotada de um caráter fácil e submisso, com uma marcada propensão para fazer o bem aos outros, a pequena descendente da tribo dos Dagiu dava, desde a mais tenra infância, mostras de ser uma predileta de Deus.

Certa vez, estando com uma amiga nas proximidades de sua aldeia, situada na região de Darfur, no oeste do Sudão, Bakhita deparou-se com dois homens que surgiram de improviso de trás de uma cerca. Um deles pediu-lhe que fosse pegar um pacote que esquecera no bosque vizinho e disse à sua companheira que podia continuar o caminho, pois ela logo a alcançaria. “Eu não duvidava de nada, obedeci imediatamente, como sempre fazia com a minha mãe” — narrou ela. 1

Protegidos pela floresta e longe de qualquer testemunha importuna, os dois estrangeiros agarraram a menina e levaram-na à força com eles, ameaçando-a com um punhal. Sua ingenuidade, bem compreensível em seus oito anos, custara-lhe caro.

Contudo, eram essas as misteriosas vias da Providência, por meio das quais se realizariam os desígnios de Deus a seu respeito.

Se tal fato não tivesse ocorrido talvez sua vida teria continuado na normalidade do convívio familiar, em meio aos afazeres domésticos e às práticas rituais do culto animista que professavam seus parentes. Provavelmente ela jamais conheceria a Fé Católica, e permaneceria submersa nas trevas do paganismo.

Uma escravidão providencial

Empurrada violentamente por seus raptores, foi levada para uma cruel e penosa escravidão. E embora ela o ignorasse, estava dando os primeiros passos que a conduziriam, à custa de sofrimentos atrozes, rumo à verdadeira liberdade de espírito e ao encontro com o grande Senhor a Quem já amava antes de conhecer.

Sim, desde muito pequena, Bakhita deleitava-se em contemplar o Sol, a Lua, as estrelas e as belezas da natureza, perguntando-se maravilhada:

Quem é o patrão destas coisas tão bonitas? E sentia uma grande vontade de vê-lo, de conhecê-lo, de prestar-lhe homenagem”.

Ensina São Tomás de Aquino que “uma pessoa pode conseguir o efeito do Batismo pela força do Espírito Santo, sem Batismo de água e até sem Batismo de sangue, quando seu coração é movido pelo Espírito Santo a crer e amar a Deus e a arrepender-se de seus pecados”. 2 É o que se chama Batismo “de desejo”, ou “de penitência”. Apoiando-nos nessa doutrina, podemos supor que na alma admirativa da escrava sudanesa brilhava a luz da graça santificante, muito antes de ela receber o Batismo sacramental.

Para Bakhita, porém, apenas começara a terrível série de padecimentos que se prolongaria durante 10 anos. Tal foi o choque produzido em seu espírito pela violência do sequestro, que ela esqueceu-se até do próprio nome. Assim, quando foi interrogada pelos bandidos, não pôde pronunciar sequer uma palavra. Então um deles disse-lhe: “Muito bem. Chamar-te-emos Bakhita”. Em sua voz havia um acento irônico, uma vez que este nome, em árabe, significa “afortunada”.

Padecimentos no cativeiro

Chegando a um povoado, Bakhita foi introduzida numa cabana miserável e trancada num quarto estreito e escuro, onde permaneceu durante um mês. “Quanto eu tenha sofrido naquele lugar, não se pode dizer com as palavras”, escreveria ela mais tarde. Por fim, depois desses dias nos quais a porta não se abria senão para deixar passar um parco alimento, a prisioneira pôde sair, não para ser posta em liberdade, mas para ser entregue a um traficante de escravos que acabava de adquiri-la.

Bakhita haveria de ser vendida cinco vezes sucessivas, aos mais variados patrões, exposta nos mercados, presa pelos pés a pesadas correntes e obrigada a trabalhar sem descanso para satisfazer os caprichos de seus amos. Colocada a serviço da mãe e da esposa de um general, a jovem escrava ali enfrentou os piores anos de sua existência, como ela mesma descreve: “As chicotadas caíam em cima de nós sem misericórdia; de modo que nos três anos que estive a serviço deles, não me lembro de ter passado um só dia sem feridas, porque não havia ainda sarado dos golpes recebidos e recebia outros ainda, sem saber a causa. [...] Quantos maus tratos os escravos recebem sem nenhum motivo! [...] Quantas companheiras minhas de desventura morreram pelos golpes sofridos!”.

Além desses e de outros tormentos, fizeram-lhe uma tatuagem que a obrigou a permanecer imóvel sobre sua esteira por mais de um mês. Bakhita conservou até o fim da vida 144 cicatrizes sobre o corpo, além de um leve defeito ao caminhar.

Certa vez, interrogada sobre a veracidade de tudo quanto fora contado a seu respeito, ela afirmou ter omitido em suas narrativas detalhes verdadeiramente espantosos, vistos apenas por Deus e impossíveis de serem ditos ou escritos. Entretanto, a mão do Senhor não a abandonou sequer um instante. Mesmo nos piores momentos, Bakhita sentia dentro de si uma força misteriosa que a sustentava, impelindo-a a comportar-se com docilidade e obediência, sem nunca se desesperar.

Proteção amorosa de Deus

Anos mais tarde, lançando um olhar sobre seu passado, reconhecia a intervenção divina nos acontecimentos de sua vida: “Posso dizer realmente que não morri por um milagre do Senhor, que me destinava a coisas melhores”. E a Ele manifestava sua gratidão: “Se eu ficasse de joelhos a vida inteira, não diria, nunca, o bastante, toda a minha gratidão ao bom Deus”.

Prova dessa proteção amorosa de Deus, que a acompanhou desde a infância, foi a preservação de alma e de corpo na qual se manteve, mesmo em meio às torturas, sem que jamais sua castidade fosse atingida. “Eu estive sempre no meio da lama, mas não me sujei. [...] Nossa Senhora me protegeu, ainda que eu não A conhecesse. [...] Em várias ocasiões me senti protegida por um ser superior”.

A mudança para a Itália

Em 1882, o general que a comprara teve de retornar à Turquia, seu país, e pôs à venda seus numerosos escravos. Bakhita, fazendo jus a seu nome, logo despertou a simpatia do cônsul italiano Calixto Legnani, que se dispôs a adquiri-la. “Desta vez fui verdadeiramente afortunada, porque o novo patrão era bastante bom e começou a querer-me tanto bem”.

Embora o cônsul não pareça ter-se esforçado em iniciar nas verdades da Fé a jovem escrava, durante os anos em que esta viveu em sua casa, este período foi para ela a aurora do encontro com a Igreja. Como católico que era, Legnani tratou Bakhita com bondade. Ali não havia castigos, pancadas, nem mesmo repreensões, e ela pôde gozar da doçura característica das relações entre aqueles que procuram cumprir os mandamentos da caridade cristã.

Ante o avanço de uma revolução nacionalista no Sudão, Calixto Legnani teve de voltar para a Itália. A pedido de Bakhita, levou-a consigo. Porém, chegados a Gênova, o cônsul cedeu a jovem sudanesa a seus amigos, o casal Michieli. Assim, ela passou a morar na residência desta família, em Mirano, na região do Veneto, tendo por encargo especial o cuidado da filha, a pequena Mimina.

O encontro com seu verdadeiro Patrão e Senhor

Estando ali, Bakhita recebeu de um amável senhor, que se interessara por ela, um belo crucifixo de prata: “Explicou-me que Jesus Cristo, Filho de Deus, tinha morrido por nós. Eu não sabia quem fosse [...]. Recordo que às escondidas o olhava e sentia uma coisa em mim que não sei explicar”. Pouco a pouco, a graça foi trabalhando a alma sensível da ex-escrava africana, abrindo-a para as realidades sobrenaturais que ela desconhecia.

Em sua Encíclica Spe Salvi, o Santo Padre Bento XVI assim descreve o milagre que se operou no Restos mortais de Santa Josefina Bakhita na Igreja da Sagrada Família, interior de Bakhita: em Schio, Itália “Depois de ‘patrões’ tão terríveis que a tiveram como sua propriedade até agora, Bakhita acabou por conhecer um ‘patrão’ totalmente diferente — no dialeto veneziano que agora tinha aprendido, chamava ‘Paron’ ao Deus vivo, ao Deus de Jesus Cristo. Até então só tinha conhecido patrões que a desprezavam e maltratavam ou, na melhor das hipóteses, a consideravam uma escrava útil. Mas agora ouvia dizer que existe um ‘Paron’ acima de todos os patrões, o Senhor de todos os senhores, e que este Senhor é bom, a bondade em pessoa. Soube que este Senhor também a conhecia, tinha-a criado; mais ainda, amava-a. Também ela era amada, e precisamente pelo ‘Paron’ supremo, diante do qual todos os outros patrões não passam de miseráveis servos. Ela era conhecida, amada e esperada; mais ainda, este Patrão tinha enfrentado pessoalmente o destino de ser flagelado e agora estava à espera dela ‘à direita de Deus Pai’”. 3

Uma inesperada decisão cheia de valentia

Mais sofrimentos ainda a aguardavam, embora de ordem muito diversa dos anteriormente suportados: Deus lhe pediria uma prova de sua entrega, de sua renúncia a tudo, em razão do amor a Ele, oferecida de livre e espontânea vontade.

Quando Bakhita, já instruída na Religião Católica pelas Irmãs Canossianas de Veneza, preparava-se para receber o Batismo, sua patroa quis levá-la de novo ao Sudão, onde a família Michieli resolvera fixar-se definitivamente. De caráter flexível e submisso, acostumada a se considerar propriedade de seus donos, revelou ela, naquela conjuntura, uma coragem até então desconhecida mesmo pelos seus mais próximos. Temendo que aquela volta pusesse em risco sua perseverança, negou-se a seguir sua senhora.

As promessas de uma vida fácil, a perspectiva de rever sua pátria, a profunda afeição a Mimina e a gratidão a seus amos, nada disso pôde mudar sua decisão de dar-se a Jesus Cristo para sempre. Bakhita mostrara-se sempre dócil a seus superiores. Agora manifestava de outra forma essa virtude, obedecendo mais a Deus do que aos homens (cf. At 4, 19). “Era o Senhor que me infundia tanta firmeza, porque queria fazer-me toda sua”.

A entrega definitiva a Deus

Tendo saído vitoriosa dessa batalha, Bakhita foi batizada, crismada e recebeu a Eucaristia das mãos do Patriarca de Veneza, no dia 9 de janeiro de 1890. Foram-lhe postos os nomes de Josefina Margarida Afortunada. “Recebi o santo Batismo com uma alegria que só os Anjos poderiam descrever”, narraria mais tarde.

Pouco depois, querendo selar sua entrega a Deus de maneira irreversível, solicitou seu ingresso no Instituto das Filhas da Caridade, fundado por Santa Madalena de Canossa, a quem devia sua entrada na Igreja. Na festa da Imaculada Conceição, em 1896, após cumprir seu noviciado com exemplar fervor, Josefina pronunciou seus votos na Casa-Mãe do Instituto, em Verona.

A partir daí sua vida foi um constante ato de amor a Deus, um dar-se aos outros, sem restrições, nem reservas. Ora encarregada de funções humildes, como a cozinha ou a portaria, ora enviada em missão através da Itália, a santa sudanesa aceitava com verdadeira alegria tudo quanto lhe ordenavam, conquistando a simpatia daqueles que a rodeavam, sem se cansar de dizer: “Sede bons, amai o Senhor, rezai por aqueles que não O conhecem”.

Sobre o espírito missionário de Bakhita comenta Bento XVI em sua encíclica: “A libertação recebida através do encontro com o Deus de Jesus Cristo, sentia que devia estendê-la, tinha de ser dada também a outros, ao maior número possível de pessoas. A esperança, que nascera para ela e a ‘redimira’, não podia guardá-la para si; esta esperança devia chegar a muitos, chegar a todos”. 4

Submissão até o fim

Por fim, após mais de 50 anos de frutuosa vida religiosa, durante os quais suas virtudes se acrisolaram no fogo da caridade, Bakhita sentiu a morte aproximar-se. Atacada por repetidas bronquites e pneumonias que foram minando sua saúde, suportou tudo com fortaleza de ânimo. Em suas últimas palavras, proferidas pouco antes de seu falecimento, deixou transparecer o gozo que lhe enchia a alma: “Quando uma pessoa ama tanto uma outra, deseja ardentemente ir para junto dela: por que, então, tanto medo da morte? A morte nos leva a Deus”.

Em 8 de fevereiro de 1947, a Irmã Josefina recebeu os últimos Sacramentos, acompanhando com atenção e piedade todas as orações. Avisada de que aquele dia era um sábado, seu semblante pareceu iluminar-se e exclamou com alegria: “Como estou contente! Nossa Senhora, Nossa Senhora!”. Foram estas suas últimas palavras antes de entregar serenamente sua alma e encontrar-se face a face com o “Paron”, que desde pequenina ansiava por conhecer.

Seu corpo, transladado para junto da igreja, foi objeto da veneração de numerosos fiéis, que durante três dias ali afluíram, desejosos de contemplar pela última vez a querida Madre Moretta, como era carinhosamente conhecida, que com tanta bondade os tratara sempre. Miraculosamente, seus membros conservaram-se flexíveis durante esse período, sendo possível mover seus braços para pôr sua mão sobre a cabeça das crianças.

Por este meio, Santa Josefina Bakhita revelava o grande segredo de sua santidade, refletido em seu próprio corpo. A via pela qual Deus a chamara fora a da submissão heroica à vontade divina e, para a posteridade, ela deixava um modelo a ser seguido. A humildade, a mansidão e a obediência transparecem em suas palavras, numa disposição verdadeiramente sublime de sua alma: “Se encontrasse aqueles negreiros que me raptaram, e mesmo aqueles que me torturaram, ajoelhar-me-ia para beijar as suas mãos; porque, se isto não tivesse acontecido, eu não seria agora cristã e religiosa”.

1Salvo indicação em contrário, todas as citações entre aspas pertencem a DAGNINO, Ir. Maria Luísa, Bakhita racconta la sua storia. Trad. Cecília Maríngolo, Canossiana. Roma: Città Nuova, 1989. p. 38.
2Cf. Suma Teológica, III, q. 66, a.11.
3BENTO XVI, Carta Encíclica Spe Salvi, 30/11/2007, n. 3.
4BENTO XVI, Carta Encíclica Spe Salvi, 30/11/2007, n. 3.

Nos umbrais da morte

Ariane Heringer Tavares

Em um hospital militar, onde se encontram alguns dos feridos durante os combates da Primeira Guerra Mundial, podem-se presenciar cenas que demonstram tão alto grau de heroísmo quanto no próprio campo de batalha. Os que lá deram mostras de coragem, aqui não deixam de manifestar sua fortaleza de alma.

Sentindo que a morte se aproximava, um dos moribundos sentiu a necessidade de purificar sua alma antes de comparecer diante do Supremo Juiz. Ao ver uma das freiras que cuidavam dos feridos passar ao lado de seu leito, o pobre pecador chamou-a e pediu um padre. Contudo, naquele momento, não estava ali nenhum sacerdote.

A religiosa, percebendo que o soldado poderia falecer a qualquer momento, antes mesmo de receber a absolvição, sussurrava em seu ouvido palavras de contrição, ajudando-o a arrepender-se. Porém, não conseguindo conter sua emoção, exclamou:

— Não é possível que aqui não haja nenhum padre que possa atender este homem em confissão!

Ouvindo a queixa, um dos pacientes comunicou-lhe que no fundo do quarto havia um sacerdote-soldado, mas estava tão mal que não teria forças para atender o pobre moribundo.

A religiosa correu ao leito do sacerdote e constatou que estava com o corpo completamente paralisado. Vivo, porém a um passo da morte. Apesar disso, encheu-se de esperança, e confiando no impossível, perguntou:

— Padre, o senhor me ouve?

Para surpresa de todos os olhos do sacerdote se entreabriram. A freira, compreendendo que lhe restavam poucos momentos de vida, transmitiu-lhe o pedido de confissão. Lentamente, quatro enfermeiros ergueram a cama e levaram-na para junto do enfermo que o solicitara. Os dois moribundos tinham consciência de que podiam morrer a qualquer instante.

E chegado o momento da absolvição. O sacerdote lutava contra a própria natureza a fim de erguer a mão sobre o soldado arrependido e traçar o sinal da cruz, que consumaria o perdão. Apesar de todos os esforços, a mão permanecia imóvel, sendo impossível levantá-la sem a ajuda de alguém. Com um olhar, pediu auxílio à religiosa para levantar o braço e, dessa forma, terminar de cumprir o seu ministério. Pronunciou as decisivas palavras: “Ego te absolvo a peccatis tuis in nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti”.

Ante a admirável grandeza desse ato divino, os enfermeiros caíram de joelhos e os feridos ergueram-se em seus leitos a fim de assistirem a tão magnífica cena.

Cumprida a missão, expirou não só o sacerdote, como também aquele a quem acabara de salvar. Obedecendo ao chamado do Mestre, ambos os soldados partiram, e, juntos, cruzaram os umbrais da eternidade.

Santa Luzia: luz, dor e glória

Irmã Lucía Ordóñez, EP

Deus, por vezes, manifesta seu poder através dos mais fracos. Luzia, uma frágil jovem de Siracusa, era forte de alma, por ser virgem. Deus deu-lhe o dom de vencer, não só com seus argumentos, mas também pela força, os perseguidores pagãos.

Foi dentro das fronteiras do Império Romano que, por desígnio do Altíssimo, nasceu a Santa Igreja Católica. No entanto, esse imenso poder temporal, vendo o poder espiritual nascer misteriosamente e florescer com rapidez desconcertante, mostrou-se de início intrigado e receoso, e, por fim, hostil a ponto de chegar às violências mais extremas.

Os sublimes ensinamentos cristãos contradiziam frontalmente os costumes vigentes entre aqueles homens de coração duro. Vítima de toda sorte de calúnias, a Igreja nascente viu-se alvo de sangrentas perseguições desencadeadas pelas autoridades romanas com o objetivo de sufocá-la de modo inexorável.

No entanto, era o próprio Deus quem permitia que sua Igreja passasse pela longa prova da dor e do sacrifício. Com efeito, após cada perseguição, o Cristianismo ressurgia mais numeroso, brilhante e cheio de fé!

No reinado de Diocleciano (284305), esse clima de horror chegou ao auge. Por um edito deste imperador, todas as igrejas deveriam ser demolidas e todos os cristãos que exerciam cargos públicos seriam obrigados a abjurar a fé em Cristo.

É nesta última fase do período das grandes perseguições que surge uma alma de rara virtude: a jovem Luzia.

Voto de virgindade

O nome Luzia tem sua origem na palavra latina “lux”, e ressoa em nossos ouvidos carregado de conotações heróicas, trazendo-nos à memória uma vida cheia de luz e de glória, porque feita de sangue e dor.

Nascida em Siracusa, e oriunda de uma família nobre e cristã, logo no desabrochar da adolescência consagrou-se a Jesus, oferecendo-Lhe a flor da sua virgindade.

Esta promessa de castidade perfeita não era incomum nos primórdios do Cristianismo, pois o próprio Salvador chamava grande número de almas à pratica desta angélica virtude. Um dia, respondendo a uma pergunta dos discípulos sobre os pesados encargos do casamento, disse-lhes o Mestre: “Nem todos são capazes de compreender esta doutrina, mas somente aqueles a quem foi concedido do alto” (Mt 19-11). Há homens, prosseguiu Ele, que são inaptos para a vida conjugal, e outros, pelo contrário, que de livre e espontânea vontade renunciaram ao matrimônio “por amor ao Reino dos Céus” (Mt 19,12). Pela primeira vez ressoava na História o chamado cristão à virgindade, e seu eco repercutiria em almas como as de Cecília, Ágata, Inês, e tantas outras que, sobrepondo-se às leis da carne e da matéria, se lançariam alegres em voos admiráveis de perfeição espiritual.

Intercessão de Santa Ágata

Seu pai faleceu quando ela era ainda muito menina. Sua mãe, Eutícia, embora cristã, não tinha se despojado totalmente das glórias e atrações deste mundo. Assim, desejosa de proporcionar à sua filha um futuro cheio de fama e de honra, a exortava a casar-se com um jovem rico e bem colocado, mas pagão.

A casta Luzia — que mantinha seu voto em segredo — procurava sempre se esquivar desse assunto. Punha toda a sua confiança em Deus e aguardava uma oportunidade providencial para revelar à mãe sua resolução firme e decidida de pertencer somente a Cristo. As fervorosas orações feitas por ela nessa intenção foram prontamente atendidas: logo se apresentou uma boa ocasião.

Apesar das atrozes perseguições aos cristãos, celebrava-se todo ano na própria Sicília a festa de Santa Ágata, a virgem da cidade de Catânia, martirizada por volta do ano 250. Os prodígios por ela operados tornaram-na tão conhecida que acorria gente de todas as partes para implorar sua intercessão. Ora, havia já alguns anos, Eutícia sofria muito de um fluxo de sangue. Por isso Luzia, que tinha grande devoção a essa virgem mártir, sua conterrânea, persuadiu a mãe a ir em peregrinação até seu túmulo para implorar a cura de tal enfermidade.

Quando entraram na igreja, o assombro tomou conta das duas. Transcorria uma solene Celebração e naquele exato momento proclamava-se a Palavra do Santo Evangelho: “Então, uma mulher que havia doze anos padecia um fluxo de sangue, e gastara tudo quanto possuía sem ter sentido melhoras, tendo ouvido falar de Jesus, foi por detrás entre a multidão e tocou o seu manto. Imediatamente parou o fluxo de sangue e sentiu no seu corpo estar curada do mal. Jesus, conhecendo logo em Si mesmo a força que saíra d’Ele, voltado para a multidão, disse: ‘Quem tocou os meus vestidos?’. Os seus discípulos responderam: ‘Tu vês que a multidão Te comprime, e perguntas: Quem Me tocou?’ E Jesus olhava em volta para ver quem tinha feito aquilo. Então a mulher, que sabia o que se tinha passado nela, foi prostrar-se diante d’Ele, e disse-Lhe toda a verdade. Jesus disse-lhe: ‘Filha, a tua fé te salvou; vai em paz e fica curada do teu mal’” (Mc 5, 25-34).

Estupefatas e em extremo comovidas ao ouvirem essa passagem do Evangelho, caíram de joelhos e começaram a rezar. Assim ficaram durante muito tempo. Terminou a cerimônia, todos se retiraram, e elas, dando-se conta de que estavam sós, prostraram-se diante do sepulcro de Santa Ágata para implorar a bondade de Deus, pela intercessão da tão poderosa advogada.

Quis, porém, o Senhor manifestarSe a Luzia por meio de um sonho profético. Cansada pela fadiga da viagem, acabou a jovem caindo num sono profundo. Enquanto dormia, apareceu-lhe Santa Ágata, rodeada de um coro de anjos. Seu vestido era de uma beleza sem par, adornado de safiras e pérolas finas. Seu rosto, alegre e sereno, resplandecia como o sol enquanto ela dizia: “Minha queridíssima irmã e virgem consagrada a Deus, por que pedes pela intercessão de outrem o que tu mesma podes obter para tua mãe? Eis que ela se encontra já curada pela fé que tu tens em Jesus Cristo! Assim como Ele tornou célebre a cidade de Catânia por minha causa, tornará também gloriosa a cidade de Siracusa pela tua mediação, pois soubeste preparar no teu puro coração uma agradável morada para teu Criador”.

Ao ouvir estas palavras, levantou-se Luzia ainda mais convicta de sua consagração a Deus. Contou então à sua mãe a reconfortante visão e acrescentou que, pela graça de Deus, ela estava totalmente curada de sua enfermidade. E a jovem aproveitou a oportunidade para dizer-lhe confiante:

— Agora, minha mãe, uma só coisa te peço: em nome d’Aquele mesmo que te devolveu a saúde, deixa-me conservar minha virgindade, pertencendo somente ao nosso Criador. Repartamos entre os pobres os bens que preparaste para o meu casamento, e teremos grande tesouro no Céu!

Eutícia se deixou convencer e, voltando a Siracusa, ambas distribuíram suas riquezas entre os mais necessitados, segundo as instruções da comunidade cristã à qual pertenciam.

Ora, isto chegou aos ouvidos do jovem pretendente. Cheio de fúria, este foi ter com Eutícia e testemunhou, com seus próprios olhos, mãe e filha dando aos pobres suas jóias e objetos preciosos. Fora de si, correu até Pascásio, então prefeito da cidade, para acusar Luzia de praticar a religião cristã. Assim iniciou-se o processo que levaria esta Santa a brilhar no mais alto dos Céus, junto à nobre multidão dos gloriosos mártires!

Diante do tribunal

Edificante e arrebatador foi o julgamento da corajosa jovem. Refutou todos os argumentos e ameaças de Pascásio, e seu simples olhar impunha respeito. Vendo o juiz a serena segurança da prisioneira, tentou primeiramente persuadi-la com suaves palavras a oferecer sacrifícios aos deuses pagãos. Depois, ante a irredutível fé de Luzia, passou das adulações para a mais terrível ferocidade. Impávida, ela respondeu-lhe sem hesitar:

— Tu te preocupas em seguir as leis dos príncipes desta terra, enquanto eu procuro meditar dia e noite os mandamentos do Senhor. Tu te preocupas em comprazer o imperador, eu tudo faço para agradar a meu Deus, a quem consagrei minha própria virgindade.

— Pois bem — disse Pascásio — eu te farei conduzir a um lugar onde perderás tua castidade, assim o Espírito Santo te abandonará e deixarás de ser seu templo!

— A violência feita ao corpo não arranca a pureza da alma, se minha vontade não consente. Ao contrário, esta violência me proporcionará duas coroas: a da virgindade e a do martírio — respondeu a virgem.

Imediatamente Pascásio deu aos carrascos ordem de amarrar a inocente vítima e arrastá-la até uma casa de infâmia, para ela perder a honra da virgindade antes de ser decapitada.

Ora, o que podem todas as forças humanas contra a omnipotência de Deus? Os olhos do Bom Pastor pousavam sobre sua serva fiel e por isso impediu que os verdugos conseguissem tirá-la do lugar onde se encontrava. Tentavam em vão empurrá-la: Luzia permanecia imóvel, detida por uma mão invisível. Nem mesmo várias juntas de bois, aos quais a amarraram, conseguiram removê-la.

Obstinado no mal, Pascácio mandou levantar em volta da Santa uma enorme fogueira. Ela fitava sem medo o tirânico juiz, dizendo: “Pedirei ao Senhor que este fogo não me atinja, para que os fiéis reconheçam o poder de Deus e os infiéis fiquem ainda mais confundidos”. E efetivamente as chamas também fracassaram: a jovem ficou incólume em meio às labaredas.

Derrotado, Pascásio ordenou finalmente que a cabeça da virgem fosse cortada à espada. Uma celestial alegria transpareceu em seu semblante, ao ver que tinha chegado a hora do supremo encontro com seu Redentor. Entretanto, não morreu naquele instante. Caindo de joelhos, foi acolhida nos braços de alguns cristãos que assistiam ao seu martírio.

Antes de falecer, a virgem mártir prognosticou o fim das perseguições de Diocleciano e Maximiano, e o início de uma era de grande paz para a Santa Igreja. Esta profecia não tardou a tornar-se realidade: apenas dois anos após sua morte, subiu ao trono Constantino o Grande, que promulgou em 313 o Edito de Milão, concedendo liberdade ao culto Cristão, em toda a vastidão do Império.

Estavam, assim, largamente abertas as portas para a Igreja desenvolver-se triunfante, ao longo dos séculos.

* * *

A gloriosa Santa Luzia entregou sua alma a Deus no ano 304 da era do Senhor. Um raio da Graça tinha pousado sobre ela. Na Igreja de Cristo luzia mais uma mártir, no Céu mais uma santa!

Tu vincis inter martyres! — Tu vences, ó Cristo, pelas provas dos mártires!

Sinal de uma Noite Feliz

Silvana Gabriela Chacaliaza Panez

Deixemos que os inconfundíveis acordes da música natalina por excelência nos transportem misticamente à noite do nascimento do Divino Rei.

Quantas vezes um perfume, uma imagem, um som, um sabor, uma música ou até mesmo uma palavra nos recordam certa época de nossa vida, lembram algum episódio histórico, ou nos fazem reviver momentos especiais. Assim acontece, já no mês de novembro, quando ruas e lojas começam a se preparar para uma das festas mais importantes do ano: o nascimento do Menino Jesus.

São muitos os sinais que evocam, sob aspectos diferentes, o momento no qual os Céus se abriram para permitir a descida do Redentor, vindo ao mundo por amor aos homens.

A árvore de Natal, belamente enfeitada de bolas coloridas e feéricas luzes, lembra-nos, com seus presentes, o maior dom dado por Deus à humanidade: seu próprio Filho! No presépio representa-se a adoração que os Reis do Oriente renderam ao Menino Jesus, levando-Lhe ouro por ser o Rei dos reis, incenso por ser Deus verdadeiro em sua verdadeira humanidade, e mirra por ser o Redentor, que haveria de comprar com seu sofrimento a salvação dos homens.

Não podemos nos esquecer do menu da Ceia, parte importante da celebração natalina. Pensado com antecedência, ele procura simbolizar os manjares celestiais em torno dos quais se reúnem os bem-aventurados no Céu empíreo, a fim de propiciar uma conversa amena e um convívio agradável.

Mas talvez o que mais fale à alma sejam as músicas natalinas, pervadidas de inocência e transbordantes de afeto para com o Deus Menino nascido em Belém. E, entre todas, expressando por excelência o significado do Natal, está o Stille Nacht.
Conta a tradição haver nascido esta famosa canção do coração de dois homens. Um deles foi o padre Joseph Mohr, a quem podemos imaginar no pequeno povoado austríaco de Obendorf, no ano de 1818, preparando seu sermão para a Missa do Galo. Eis que, enquanto ele se encontrava imerso na leitura das Sagradas Escrituras, deitando toda sua atenção sobre elas, tocou à sua porta uma camponesa pedindo-lhe ir abençoar o bebê recém-nascido de um lenhador.

O sacerdote agasalhou-se e acompanhou a boa mulher. Pelo caminho, permanecia absorto, pensando na homilia que haveria de pregar, mas ao chegar à humilde cabana, o cenário com que se deparou marcou-o profundamente. Banhado por débil luz e aquecido por fraca lareira, um leito simples acolhia a jovem mãe com o recém-nascido doce e serenamente adormecido em seus braços, aguardando ser abençoado.

Quanta paz! Quanta inocência! Quanta presença do sobrenatural havia naquela singela cena!

No retorno, um poema fluiu com extrema facilidade de sua pena descrevendo os sentimentos que embalaram sua alma na pobre choupana. Estava escrito o Stille Nacht!

Na manhã seguinte, o padre Mohr se dirigiu à casa de seu grande amigo, Franz Gruber, professor de música do lugar, e mostrou-lhe as linhas que havia escrito. Gruber se encantou com a poesia e, inspirado por sua natalina beleza, logo compôs uma melodia para ela.

A partir daí, aquela que marcaria a História como a canção de Natal arquetípica foi sendo difundida aos poucos pelo mundo. E não foram as belas vozes dos cantores nem o melodioso som dos instrumentos que a consagraram, mas sua virtude para impregnar de candura natalina os ambientes onde ela é entoada.

Saibamos aproveitar este tempo de Natal, pervadido de bênçãos e inocência, para ver, nas fragilidades de um Deus feito Menino, o Senhor e Criador do Universo. Que nossos sentimentos de ternura e compaixão ao contemplar sua infantil pequenez estejam cumulados de reverência e veneração, junto com o ardente desejo de que todos os homens Lhe entreguem suas vidas, sua vontade e todo o seu ser.

Peçamos também a graça de ser inocentes, a fim de podermos entender a fundo o verdadeiro significado do que aconteceu na gruta de Belém. E deixemos que os acordes do Stille Nacht nos transportem misticamente à noite do nascimento do Divino Rei, para podermos rejubilar de alegria com toda a natureza, porque o Invisível se tornou visível, por sua Divina Humanidade, em uma “noite feliz”!

Santificador e guia da Igreja Católica

Elen Coelho

Inquietava-se a Santa Carmelita de Lisieux ao sentir que sua alma aspirava a outras vocações que transpunham os claustros de seu Carmelo. Almejava por todas as vocações: queria morrer em um campo de batalha em defesa da fé como um guerreiro ou um Zuavo Pontifício, ardia em desejo de derramar todo o seu sangue sofrendo os piores tormentos como um mártir dos primeiros tempos do cristianismo, desejava ser sacerdote para poder consagrar e distribuir o Santíssimo Corpo de seu divino Esposo, queria sair por toda a terra para apregoar as glórias de seu Bem-amado como os apóstolos, os profetas e os doutores.

Confessara então, que todos esses seus desejos lhe eram um verdadeiro martírio até que procurando uma resposta aos seus anseios, abriu as Cartas de São Paulo e encontrou um trecho no qual diz o Apostolo que nem todos podem ser tudo ao mesmo tempo: “São todos apóstolos? São todos profetas? São todos doutores? Fazem todos milagres? Têm todos a graça de curar? Falam todos em diversas línguas? Interpretam todos? Aspirai aos dons superiores. E agora, ainda vou indicar-vos o caminho mais excelente de todos”( 1 Cor 12, 29-31).

A resposta lhe pareceu clara, porém não satisfizera seus objetivos. Perseverou na leitura e deparou-se com outro versículo onde explicava o Apóstolo que todas as vocações não são nada sem o amor. Desta forma, compreendera afinal sua vocação e em um transporte de entusiasmo exclamou: “Ó Jesus, meu amor, minha vocação encontrei-a afinal: minha vocação é o amor. Sim, encontrei o meu lugar na Igreja [...]. No coração da Igreja, minha Mãe, serei o amor… Assim, serei tudo… O meu sonho se realizará”.1

O que ardentemente procurava Santa Teresinha do Menino Jesus era algo que pudesse unificar e realizar todas as aspirações de sua alma identificando-se em todos os carismas que compõe o Corpo Místico de Cristo.

Contudo, essa busca nos põe diante de outro panorama, se uma alma ante seus díspares anseios pode harmonizá-los ao abrir-se à caridade, muito mais todos os carismas existentes dentro da Santa Igreja encontram sua unificação Naquele que é designado dentro da Trindade como o Amor.

Deus Pai ao se contemplar em sua natureza e divindade, imediatamente gera outra Pessoa Divina: o Filho, que é o Seu Pensamento o Seu Verbo. E o Pai e o Filho ao se contemplaram mutuamente e se verem inteiramente idênticos, “o Pai ama o Filho, e O quer por inteiro e é um amor infinito, é um amor tão forte, tão forte, que encontra um eco no Filho, [...] não tem o que pôr nem tirar, a tal ponto que é um amor só. Esse amor o que é? Tão forte que é uma Pessoa.2 É a terceira Pessoa da Santíssima Trindade que, pelo amor, faz com que a união entre os membros da Esposa Mística de Cristo seja parecida com a que se desenrola no convívio Trinitário, sendo Ele a Alma da Igreja.3

Pois, assim como no princípio Deus criou um boneco de barro e inspirou-lhes nas narinas um sopro de vida e o homem se tornou um ser vivente, (Gn 2, 7) também, quis Deus que a Sua nascente Igreja recebesse, no dia de Pentecostes, uma alma que lhe desse plena vida e ação. “Pentecostes constituiu, sem dúvida, o último ato de fundação da Igreja [...] Do mesmo modo que Deus modelou o corpo do homem e, logo após lhe insuflou o espírito, Cristo formou o Corpo de sua Igreja com estrutura apostólica e, em seguida, lhe infundiu em Pentecostes o Espírito Santo em pessoa”.4

Por conseguinte, pode-se claramente afirmar: “A alma da Igreja é a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, o Defensor prometido e enviado, que a santifica e enriquece pela ação de Sua graça e Seus dons, impedindo que Ela venha a sucumbir, ou até mesmo enlanguescer sob os reiterados ataques de seus adversários.”5

Toda a diversidade de membros que existe dentro da Santa Igreja encontra sua unificação pela ação do Espírito Santo: os que estão dentro da hierarquia eclesiástica, os religiosos e os leigos. Portanto, dentro da Igreja estão inteiramente consonantes os carismas: os franciscanos com sua específica doçura e humildade, o ardor e a lógica dos Jesuítas e a ousadia e a clareza de um Dominicano, e assim por diante.

Desse modo, o Divino Paráclito atende ao desejo do Salvador: “Para que todos sejam um, assim como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, para que também eles estejam em nós e o mundo creia que tu me enviaste. Dei-lhes a glória que me deste, para que sejam um, como nós somos um” (Jo 17, 21-22).

Também é função do Espírito Santo acompanhar cada fiel conferindo-lhe graças para sua perseverança e todos os auxílios para alcançar a glória eterna. Esse auxílio foi prometido por Nosso Senhor e o vemos registrado nas Sagradas Páginas do Evangelho e nas Epístolas Paulinas: “É anunciado como o Advogado que ajudará aos discípulos (Jo 14,16) habitando em seu interior como em um templo (I Cor 3,16) e unindo-os em um mesmo corpo (ICor 12,13). Ele os ensinará o anunciado por Jesus (Jo 14,26), os guiando- a verdade completa (Jo 15,13). Ele será seu defensor ante os tribunais (Mt 10,20), quem os fortalecerá no testemunho (I Cor 12,3). [...] Ele fará dos cristãos moradas de Deus (Ef 2,21). E o auxílio dos cristãos em suas fraquezas (Rm 8,26) e é quem suscita no interior dos corações essa exclamação: ‘Abbá, oh Pai!’”6

Tudo o que existe na Barca de Pedro é movido e governado pelo Paráclito. Ele acompanha a cada passo. A esse respeito, teceu um belo comentário o prof. Plinio Correa de Oliveira: “Ao ver as coisas da Igreja, sentia eu uma impressão curiosa. Mais do que uma instituição, Ela me parecia uma alma imensa que se expressa através de mil aspectos, que possui movimentos, grandezas, santidades e perfeições, como se fosse uma só grande alma que se exprimiu através de todas os templos católicos do mundo, todas as liturgias, todas as imagens, todos os sons de órgão e de todos os dobrares de sinos. Essa “alma” chorou com os Réquiens, se alegrou com os bimbalhares da Páscoa e das noites de Natal; ela chora e se alegra comigo.[...] Depois vim a saber que “aquilo” que eu percebera era o Espírito Santo, a alma da Igreja”.7

Desta forma, concluímos que, mediante a assistência do Espírito Santo, a Santa Igreja Católica Apostólica e Romana pode levar a cabo com toda a perfeição sua missão santificadora, o Evangelho pode ser pregado por todos os povos, os papas podem, com toda segurança, transmitir seus ensinamentos. Surgem, então, novos carismas para fazer resplandecer mais uma faceta da Esposa de Cristo e o incessante florescimento de novas almas santas tornando-A assim “toda gloriosa, sem mácula, sem ruga, sem qualquer outro defeito semelhante, mas santa e irrepreensível.” (Ef 5, 27)

1SANTA TERESINHA DO MENINO JESUS. História de uma alma. 24. ed. São Paulo: Paulus, 2005, p. 214.
2 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Curso de Formação: Palestra. São Paulo, 17 set. 2002. (Arquivo IFTE).As matérias extraídas de exposições verbais — designadas neste trabalho, segundo sua índole, como “conferências”, “palestras”, “conversas” ou “homilias” — foram adaptadas para a linguagem escrita.
3ROYO MARIN, Antonio. El gran desconocido. Madrid: BAC, 2010.
4SAYES, José Antônio. La Iglesia de Cristo: Curso de Eclesiologia. 2. ed. Madrid: Palabra,2003 .p. 14 1-142.
5MORAZZANI ARRÁIZ, Clara Isabel. E renovareis a face da terrra… In: Arautos do Evangelho. São Paulo,n.77, maio. 2008. p.23.
6 CASERO LASANTA, Pedro Jesús, El Espírito Santo Alma de la Iglesia; Jubileu año 2000 . Salamanca: San Esteban, 2000.p.72-73. (Tradução da autora)
7CORREA DE OLIVEIRA, Plinio. Espírito Santo, alma da Igreja. In: Dr. Plinio. São Paulo: n.74, maio. 2004. p.4.

Um guerreiro bem armado

Esther Pinales

O século XVI foi, sem dúvida, um dos mais agitados na história eclesial. A Europa, desde a revolta de Martinho Lutero e o surgimento dos sofismas e heresias de Zwinglio, Calvino, Henrique VIII e outros, viveu horas trágicas com agitações profundas, extensas e violentas no campo religioso e até mesmo no social.

A luminosidade, os encantos e a beleza do pensamento do homem medieval quebraram-se, abrindo passo à renascença, “a qual caminhava orgulhosa dos inegáveis talentos dos homens suscitados na ocasião em que ela se desenvolveu. Laica, voltada para os prazeres da Terra, tisnada de neo-paganismo” (PCO, 05/08/78).

Lamentável era a situação do Clero e das ordens religiosas, algumas em franca decadência. No ar, sentia-se a grande corrupção de costumes e a liberdade das más tendências; cristãos vivendo como pagãos e negando praticamente o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo: rebeliões, sacrilégios e escândalos cobriram todo o continente europeu.

No entanto, Deus na Sua Providência misericordiosa, jamais abandonou nem abandonará a sua Igreja. É o que em diversas ocasiões nos ensina Monsenhor João Clá Dias. Fato surpreendente e admirável! Sempre nas horas mais calamitosas e de maior corrupção e misérias morais e heresias, surgem extraordinários santos e heróis.

No século da revolta protestante (XVI), Deus suscitou um Inácio de Loyola, uma Santa Teresa de Ávila, São Caetano Thiene, São Jerônimo Emiliano, São Felipe Neri, Santo Antonio Zacarias, São Luis Gonzaga, e uma série de bem-aventurados. Nesta formosa constelação, como resposta do céu à heresia que negava a santidade da igreja, brilha também a figura singular de Roberto Belarmino.

Este santo foi um dos mais valentes defensores da Igreja Católica, Apostólica e Romana contra os ataques dos protestantes. Seus livros são tão sábios e cheios de argumentos convincentes que um dos mais famosos chefes protestantes exclamou ao ler um deles: “Com escritores como este, nós estamos perdidos, não há como responder-lhe”.

São Roberto nasceu em Itália, na cidade de Montelpuciano, Toscana, no ano 1542. A sua mãe era irmã do Papa Marcelo II. Conta-se que já em terna idade o menino Roberto dava mostras de possuir uma inteligência superior à dos seus companheiros e uma memória prodigiosa. Ele recitava de cor muitas páginas em latim do poeta Virgílio, como se as estivesse lendo.

Em resposta à sua entrega a Deus, lê-se em suas memórias: “Num instante, quando mais desejoso eu estava de conseguir cargos honoríficos, de repente me veio à mente a rapidez com que passam os bens da terra e a conta que todos nós vamos ter que dar a Deus, e me produziu o ideal de entrar na vida religiosa”. Roberto foi recebido na Ordem dos Jesuítas em Roma no ano 1560; ele entrava na companhia para escapar de cargos honoríficos tais como ser bispo ou cardeal, pois as regras dos jesuítas na época proibiam ambas as posições. Mas os planos da divina providência eram outros. Roberto negava-se aceitar tão alto cargo dizendo que os regulamentos da companhia de Jesus proibiam aceitar a títulos elevados da Igreja. O Papa respondeu-lhe que ele tinha o poder para dispensá-lo, e por fim lhe mandou, sob pena de pecado mortal, aceitar o cardinalato.

Os protestantes (evangélicos, luteranos, anglicanos, entre outros) tinham publicado uma série de livros contra a Fé Católica, e estes não encontravam como se defender. Então, o Sumo Pontífice solicitou ao santo preparar os sacerdotes para enfrentar os inimigos da Religião e a dirigir os jovens seminaristas, entre eles São Luis Gonzaga.

Ele fundou um curso que se chamava “Las Controversias”, para ensinar seus alunos discutir com os adversários e escreveu o CATECISMO RESUMIDO, o qual foi traduzido em 55 línguas e 300 edições.

Morreu no dia 17 de Setembro de 1621, e o Sumo Pontífice Pio XI o declarou Santo em 1930, e Doutor da Igreja em 1931.

Peçamos a São Roberto Belarmino um ardente desejo de conhecer, amar e defender a Doutrina Cristã.

Evitar as doenças litúrgicas

Aline Karolina de Souza Lima

Um sacerdote anônimo de Zaragoza obteve por meio de sua experiência nos púlpitos de diversas comunidades cristãs, a compreensão de doenças graves que apenas se davam durante as celebrações. Tal ocorrência desejava ele combater, no entanto, essas enfermidades se tornavam tão mais expansivas quanto maior o número de fiéis. São elas:

Afasia litúrgica: É um súbito bloqueio dos órgãos vocais que ocorre nas pessoas ao entrarem pela porta da igreja. Nota-se durante os cânticos, nas respostas ao fim das orações e, inclusive, na hora de dizer “amém” ao receber a comunhão.

Vanguardofobia: Basta penetrar no santuário e não tarda em aparecer: pernas tremem e um medo implacável impede o indivíduo de pôr-se nos primeiros bancos da igreja. Sentem-se, talvez, aludidos com os apertos de Jesus no Evangelho aos fariseus, acusados de ocupar os primeiros lugares. É um mal muito útil para casos de incêndio.

Dupla corrente auricular: É a enfermidade mais grave. Deve-se a ampla abertura nos condutores auriculares permitindo que o som entre por um ouvido e saia, imediatamente, pelo outro, sem passar pelo cérebro, nem pelo coração. Os sintomas se intensificam em casos de avisos finais ou recomendações.

Síndrome Homilética: Trata-se de um estado de semi-transe. O paciente tende a perder o contato com a realidade e, em pouco tempo, entra numa total inconsciência. Apenas se manifesta quando o sacerdote começa a homilia. Desaparece quando os demais se põem em pé para cantar o Credo.

Precisamos nos precaver para que esses males não se abatam sobre nós. Pois, devemos tirar da Missa todo o proveito, visto que o Santo Sacrifício é a obra mais santa e agradável a Deus, é o que faz aplacar a cólera do Altíssimo, abater as forças do inferno, além de obter graças mais abundantes para os homens.

“O ponto verdadeiramente vital da luta da Revolução e da Contra-Revolução está em que sejam celebradas muitas Missas. Bem como d’Ela participem, também convenientemente os fiéis, quer acompanhando o rito da Missa, quer comungando [...]. Se acabassem as Missas, a Revolução acabaria por tomar conta do mundo num instante”. (Plinio Corrêa de Oliveira 22/08/88)

‘A Missa é o elemento essencial para a luta. É a melhor arma, é a melhor muralha. E a melhor forma de estarmos ligados ao Céu”. (Mons. João 10/05/10)

Portanto, cabe a todos fazer jus às graças que nos são obtidas todos os dias através das Missas. Assim como a Terra precisa do Sol, também os homens necessitam das Missas, pois, caso contrário, seriam privados de todos os bens e sobrecarregados de todos os males.