Amor eucarístico: origem da festa de “Corpus Christi”

Irmã Clara Isabel Morazzani Arráiz, EP

Corpus Christi Arautos

Vários motivos conduziram a Sé Apostólica a dar um novo impulso à piedade eucarística, estendendo a toda a Igreja uma devoção que já se praticava em certas regiões da Bélgica, Alemanha e Polônia. O primeiro deles remonta à época em que Urbano IV, então membro do clero de Liège, na Bélgica, analisou de perto o conteúdo das revelações com as quais o Senhor Se dignara favorecer uma jovem religiosa do mosteiro agostiniano de Mont Cornillon, próximo a essa cidade.

Em 1208, quando contava apenas 16 anos, Juliana fora objeto de uma singular visão: um refulgente disco branco, semelhante à lua cheia, tendo um dos seus lados obscurecido por uma mancha. Após alguns anos de intensa oração, fora-lhe revelado o significado daquela luminosa “lua incompleta”: ela simbolizava a Liturgia da Igreja, à qual faltava uma solenidade em louvor ao Santíssimo Sacramento. Santa Juliana de Mont Cornillon fora por Deus escolhida para comunicar ao mundo esse desejo celeste.

Mais de vinte anos se passaram até que a piedosa monja, dominando a repugnância proveniente de sua profunda humildade, se decidisse a cumprir sua missão, relatando a mensagem que recebera. A pedido seu, foram consultados vários teólogos, entre o quais o padre Jacques Pantaléon — futuro Bispo de Verdun e Patriarca de Jerusalém —, e este mostrou-se entusiasta das revelações de Juliana.

Transcorridas algumas décadas, e já após a morte da santa vidente, quis a Divina Providência que ele fosse elevado ao Sólio Pontifício, em 1261, tomando o nome de Urbano IV.

milagre eucaristico bolsenaEncontrava-se esse Papa em Orvieto, no verão de 1264, quando chegou a notícia de que, a pouca distância dali, na cidade de Bolsena, durante uma Missa na Igreja de Santa Cristina, o celebrante — que passava por provações quanto à presença real de Cristo na Eucaristia — vira transformar-se em suas próprias mãos a Sagrada Hóstia em um pedaço de carne, que derramava abundante sangue sobre os corporais.

A notícia do milagre espalhou-se rapidamente pela região. Informado de todos os detalhes, o Papa mandou trazer as relíquias para Orvieto, com a reverência e a solenidade devidas. E ele mesmo, acompanhado de numerosos Cardeais e Bispos, saiu ao encontro da procissão formada para conduzi-las à catedral.

milagre orvietoPouco depois, em 11 de agosto do mesmo ano, Urbano IV emitia a bula Transiturus de hoc mundo, pela qual determinava a solene celebração da festa de Corpus Christi em toda a Igreja. Uma afirmação contida no texto do documento deixava entrever ainda um terceiro motivo que contribuíra para a promulgação da mencionada festa no calendário litúrgico: “Ainda que renovemos todos os dias na Missa a memória da instituição desse Sacramento, estimamos todavia, conveniente que seja celebrada mais solenemente pelo menos uma vez ao ano para confundir particularmente os hereges; pois, na Quinta-Feira Santa a Igreja ocupa-se com a reconciliação dos penitentes, a consagração do santo crisma, o lava-pés e muitas outras funções que lhe impedem de voltar-se plenamente à veneração desse mistério”.

Assim, a solenidade do Santíssimo Corpo de Cristo nascia também para contra restar a perniciosa influência de certas ideias heréticas que se alastravam entre o povo, em detrimento da verdadeira Fé.

Já no século XI, Berengário de Tours se opusera abertamente ao Mistério do Altar, negando a transubstanciação e a presença real de Jesus Cristo em Corpo, Sangue, Alma e Divindade nas sagradas espécies. Segundo ele, a Eucaristia não passava de um pão bento, dotado de um simbolismo especial. E em inícios do século XII, o heresiarca Tanquelmo espalhara seus erros em Flandres, principalmente na cidade de Antuérpia, afirmando que os Sacramentos, e sobretudo, a Santíssima Eucaristia, não possuíam valor algum.

Embora todas essas falsas doutrinas já estivessem condenadas pela Igreja, algo de seus ecos nefandos ainda se faziam sentir pela Europa cristã. Assim, Urbano IV não julgou supérfluo censurá-las publicamente, de modo a tirar-lhes todo prestígio e penetração.

A Eucaristia passa a ser o centro da vida cristã

Corria o ano de 1264. O Papa Urbano IV mandara convocar uma seleta assembleia que reunia os mais famosos mestres de Teologia daquele tempo. Entre eles encontravam-se dois varões conhecidos não só pelo brilho da inteligência e pureza da doutrina, mas, sobretudo, pela heroicidade de suas virtudes: São Tomás de Aquino e São Boaventura.

A razão da convocatória relacionava-se com a recente bula Pontifícia instituindo uma festa anual em honra do Santíssimo Corpo de Cristo. Para o máximo esplendor desta comemoração, desejava Urbano IV que fosse composto um Ofício, bem como o próprio da Missa a ser cantada naquela solenidade. Assim, solicitou de cada um daqueles doutos personagens uma composição a ser-lhe apresentada dentro de alguns dias, a fim de ser escolhida a melhor.

Célebre tornou-se o episódio ocorrido durante a sessão. O primeiro a expor foi Frei Tomás. Serena e calmamente, desenrolou um pergaminho e os circunstantes ouviram a declamação pausada da Sequência por ele composta:

Lauda Sion Salvatorem, lauda ducem et pastorem in hymnis et canticis (Louva, Sião, o Salvador, o teu guia, o teu pastor com hinos e cânticos) … Maravilhamento geral.

Frei Tomás concluiu: …tuos ibi commensales, cohæredes et sodales, fac sanctorum civium (admiti-nos no Céu, à Vossa mesa, e fazei-nos co-herdeiros na companhia dos que habitam a Cidade Santa).

Frei Boaventura, digno filho do Poverello, rasgou sem vacilações sua composição, e os demais o imitaram, rendendo tributo ao gênio e à piedade do Aquinate. A posteridade não conheceu as demais obras, sem dúvida sublimes também, mas imortalizou o gesto de seus autores, verdadeiro monumento de humildade e despretensão.

adoração arautosA devoção eucarística começou a desabrochar com maior vigor entre os fiéis: os hinos e antífonas compostos por São Tomás de Aquino passaram a ocupar lugar de destaque dentro do tesouro litúrgico da Igreja.

No transcurso dos séculos, sob o sopro do Espírito Santo, a piedade popular e a sabedoria do Magistério infalível aliaram-se na constituição dos costumes, usos, privilégios e honras que hoje acompanham o Serviço do Altar, formando uma rica tradição eucarística.

Ainda no século XIII, surgiram as grandes procissões conduzindo o Santíssimo Sacramento pelas ruas, primeiro dentro de uma âmbula coberta, e mais tarde exposto no ostensório. Também neste ponto o fervor e o senso artístico das várias nações esmeraram-se na elaboração de custódias que rivalizavam em beleza e esplendor, na confecção de ornamentos apropriados e na colocação de imensos tapetes florais ao longo do caminho a ser percorrido pelo cortejo.

Os Papas Martinho V (1417-1431) e Eugênio IV (1431-1447) concederam generosas indulgências a quem participasse das procissões. Mais tarde, o Concílio de Trento — no seu Decreto sobre a Eucaristia, de 1551 — sublinharia o valor dessas demonstrações de Fé: “O santo Sínodo declara que é piedoso e religioso o costume, introduzido na Igreja de Deus, de celebrar todos os anos com singular veneração e solenidade, em dia festivo e peculiar, este excelso e venerável Sacramento, levando-O em procissões por vias e locais públicos com reverência e honra”.1

O amor eucarístico do povo fiel não se restringiu, porém, a manifestações externas; pelo contrário, elas eram a expressão de um sentimento profundo posto pelo Espírito Santo nas almas, no sentido de valorizar o precioso dom da presença sacramental de Jesus entre os homens, conforme Suas próprias palavras: “Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28, 20). O mistério de amor de um Deus que não só Se fez semelhante a nós para resgatar-nos da morte do pecado, mas quis, num extremo de ternura, permanecer entre os Seus, ouvindo seus pedidos e fortalecendo-os em suas tribulações, passou a ser o centro da vida cristã, o alimento dos fortes, a paixão dos santos.

São Pedro Julião Eymard, ardoroso devoto e apóstolo da Eucaristia, exprimiu em termos cheios de unção esta celestial “loucura” do Salvador ao permanecer como Sacramento de vida para nós:

“Compreende-se que o Filho de Deus, levado por Seu amor ao homem, tenha-Se feito homem como ele, pois era natural que o Criador tivesse interesse na reparação da obra saída de Suas mãos. Que, por um excesso de amor, o Homem-Deus morresse sobre a Cruz, compreende-se também. Mas o que já não se compreende, aquilo que espanta os débeis na Fé e escandaliza os incrédulos, é que Jesus Cristo glorioso e triunfante, depois de ter terminado Sua missão na terra, queira ainda permanecer conosco, num estado mais humilhante e aniquilado do que em Belém e no Calvário”.2

1 DENZINGER-HÜNERMANN, n. 1644.
2 EYMARD, São Pedro Julião. Obras Eucarísticas, “Eucaristía”. 4. ed. Madrid: 1963, p. 65.

Necessidade da oração

adoraçãoAna Rafaela Maragno

Imaginemos a seguinte conjuntura: o entrechoque de dois exércitos inimigos. Um deles conta com soldados adestrados, tanques de guerra, munições, granadas… O outro se destaca por possuir armas poderosíssimas, superiores a quaisquer outros instrumentos bélicos. Entretanto, apesar de ter ao alcance tão precioso recurso, os seus combatentes se veem numa trágica situação: nenhum deles sabe manusear tais armas! São elas excelentes, e constituem poderoso auxílio na luta contra o adversário, mas exigem peritos que conheçam as suas funções, pois, do contrário, de nada valerá possuí-las, se não lograrem pô-las em movimento.

Tal dilema, no qual se encontram estes pobres militares, representa bem a imagem do cristão que não recorre à oração.

Após ter cometido o pecado original, o homem, outrora favorecido pela graça e por todos os dons que Deus lhe havia concedido no Paraíso, introduziu em si mesmo uma raiz de pecado e viu-se privado de todos os privilégios, à mercê de suas paixões desregradas e das misérias de sua frágil natureza. Lançado no mar impetuoso da existência neste vale de lágrimas, constantemente vê-se na contingência de enfrentar adversários poderosíssimos: ora o demônio, ora o mundo, ora as más inclinações da própria carne. Estes três inimigos possuem armas eficazes para tentar o homem e fazê-lo tropeçar ao longo do caminho. Ora, Deus, que jamais abandona os seus filhos, concede um meio infalível, ao mesmo tempo espada e escudo, para vencer tais contendores: a Oração! E o cristão que desconhece o valor e os benefícios dela, bem pode ser comparado àqueles soldados que contam com armas grande alcance, mas não sabem fazer uso delas.

Assim como para a subsistência do corpo é necessário o alimento, assim também é a oração para a vida da alma.

Para isso, é indispensável ter sempre presente o conselho dado pelo Apóstolo: “orai sem cessar” (1 Ts 5, 17). Em todas as circunstâncias da vida, em qualquer idade, em todos os lugares, que ninguém se julgue dispensado da oração, por mais virtuoso que pareça! Ademais de nos proporcionar uma aproximação com o Criador, ela também tem a finalidade de “tirar do caminho da morte as almas dos defuntos, robustecer os fracos, curar os enfermos, libertar os possessos, abrir as portas das prisões, romper os grilhões dos inocentes. Ela perdoa os pecados, afasta as tentações, faz cessar as perseguições, reconforta os de ânimo abatido, enche de alegria os generosos, conduz os peregrinos, acalma as tempestades, detém os ladrões, dá alimento aos pobres, ensina os ricos, levanta os que caíram, sustenta os que vacilam, confirma os que estão em pé”1.

capelaA oração nos ajuda a vencer todos os obstáculos e nos dá sustento e fortaleza para galgarmos a montanha da perfeição. Encontraremos neste caminho muitas pedras e borrascas: momentos de escuridão, sensações de abandono, quedas inevitáveis, trechos íngremes onde nos parece faltar o fôlego; por outro lado, teremos também as consolações e os gáudios indizíveis, nos quais nos sentiremos afagados e carregados pela Providência.

Em todas estas situações, sempre será a oração “[…] um simples olhar lançado ao Céu, um grito de reconhecimento e de amor no meio da provação ou no meio da alegria”2. Devemos, portanto, intensificar de contínuo nossas invocações e súplicas e rezar em todas as ocasiões, em união com Nosso Senhor Jesus Cristo, implorando a Ele as graças necessárias para nosso progresso na vida espiritual e nossa salvação. Como bem afirma Santo Agostinho, Ele é quem “ora por nós como nosso sacerdote; ora em nós como nossa cabeça; a recebe a nossa oração como nosso Deus. Reconheçamos nele a nossa voz, e em nós a sua voz”3.

1 TERTULIANO. Do tratado sobre a oração. In: LITURGIA DAS HORAS. São Paulo: Vozes, Paulinas, Paulus, Ave-Maria, 2001. Vol. II. p. 222.
2 “[…] c’est un simple regard jeté vers le Ciel , c’est un cri de reconnaissance et d’amour au sein de l’épreuve comme au sein de la joie” (SANTA TERESA DO MENINO JESUS E DA SAGRADA FACE. Histoire d’une ame: manuscrits autobiographiques. 35. ed. Paris: Saint- Paul, 1978. p. 276. Tradução da autora)
3 SANTO AGOSTINHO. Dos Comentários sobre os Salmos. In: LITURGIA DAS HORAS. São Paulo: Vozes, Paulinas, Paulus, Ave-Maria, 2000. Vol.II. p. 329.

O mais precioso perfume

Irmã Angelis Ferreira, EP

“Construirás um altar para queimares sobre ele o incenso”, ordenou o Senhor a Moisés, na mesma ocasião em que lhe entregou as Tábuas da Lei. O próprio Deus indicou como deveria ser feita essa mistura de essências odoríferas”.

incenso

Quem não se rejubila ao ver, nas solenidades litúrgicas, elevarem-se dos turíbulos aquelas ondas que impregnam de suave perfume todo o recinto sagrado? Perfeita imagem da oração que sobe como oblação de agradável odor até o trono de Deus, nas Sagradas Escrituras incenso e prece são apresentados como termos reversíveis um no outro: “Suba direita a minha oração como incenso na tua presença” (Sl 140, 2).

Na mesma linha, lê-se no livro do Apocalipse: “Depois veio outro anjo e parou diante do altar, tendo um turíbulo de ouro. Foram-lhe dados muitos perfumes, a fim de que oferecesse as orações de todos os santos sobre o altar de ouro, que está diante do trono de Deus” (8, 3-4).

Uma história de mais de três mil anos

A utilização dessa essência no culto divino provém de uma prescrição feita pelo Senhor a Moisés, na mesma ocasião em que Este lhe entregou, no Monte Sinai, as Tábuas da Lei. O próprio Deus lhe ditou como deveria ser feito:

“Toma aromas: estoraque, ônix, gálbano de bom cheiro, incenso lucidíssimo, tudo em peso igual. Farás um perfume composto segundo a arte de perfumador, manipulado com cuidado, puro e digníssimo de ser oferecido. E, quando tiveres reduzido tudo a um pó finíssimo, pô-lo-ás diante do tabernáculo do testemunho, no lugar em que eu te aparecer. Este perfume será para vós uma coisa santíssima” (Ex 30, 34-36).

Deus não deixa a menor dúvida de que essa essência odorífera deveria ser usada exclusivamente para o esplendor do culto divino: “Todo homem que fizer uma composição semelhante para gozar de seu cheiro, perecerá no meio do seu povo” (Ex 30,38).

Assim, obedecendo ao que Deus determinou a Moisés, o povo eleito queimou durante vários séculos, pela manhã e pela tarde, em homenagem ao Senhor um incenso de suave fragrância.

Os Reis Magos ofereceram ouro, incenso e mirra ao Menino Jesus

Os Reis Magos ofereceram ouro, incenso e mirra ao Menino Jesus

No Novo Testamento, ele surge já nos primeiros dias do Menino Jesus. Entrando os Reis Magos na casa onde estava Ele com sua Mãe, prostraram-se e O adoraram, em seguida abriram seus tesouros e lhe ofereceram ouro, incenso e mirra. “O incenso era para Deus, a mirra para o Homem e o ouro para o Rei”, diz São Leão Magno (Sermão n. 31). Portanto, dos três dons oferecidos, o de maior valor simbólico era o incenso.

A serviço do esplendor da Liturgia

Devido ao fato de os povos pagãos costumarem queimar todo tipo de perfumes em seus cultos idolátricos, por cautela a Igreja demorou certo tempo em admitir seu uso nas cerimônias litúrgicas.

Logo, porém, que a Liturgia começou a se desenvolver, ele fez seu aparecimento. Assim, nas primeiras décadas do quarto século, o Imperador Constantino ofereceu à Basílica de Latrão dois incensórios, feitos de ouro puro, os quais provavelmente permaneciam fixos em seus lugares e eram usados para perfumar o lugar santo.

incenso2O Papa Sérgio I (687–701) mandou dependurar na igreja um grande incensador de ouro para que, “durante as Missas solenes, o incenso e o odor de suavidade se elevassem mais abundantemente para o Deus Onipotente”.

Surgiu depois o turíbulo, mas, de início, sua utilização consistia apenas em ser levado pelo subdiácono à frente do cortejo litúrgico, perfumando o percurso do celebrante na entrada e na saída da Missa, e na procissão do Evangelho.

No correr do tempo, com o aperfeiçoamento das celebrações, instituiu-se a incensação no momento do Evangelho, depois no Ofertório e, por fim, no séc. XIII, na elevação da hóstia e do cálice.

Atualmente a incensação durante a Missa é facultativa, podendo ser feita durante a procissão de entrada, no início da Celebração, na proclamação do Evangelho, no Ofertório, e na elevação da hóstia e do cálice após a Consagração (cf. IGrMR, 235).

Efeitos e finalidades

O celebrante põe incenso no turíbulo e o benze com o sinal-da-cruz. Essa bênção faz dele um sacramental, isto é, um “sinal sagrado” mediante o qual, imitando de certo modo os sacramentos, “são significados principalmente efeitos espirituais que se alcançam por súplica da Igreja” (CIC nº 1166).

Um desses efeitos pode ser verificado no motivo da incensação do altar e das oferendas, na Missa. Incensa-se o altar para purificá-lo de qualquer ação diabólica, e as oferendas para torná-las dignas de serem usadas no Mistério Eucarístico.

O incenso é primordialmente um ato de homenagem a Deus, a Nosso Senhor Jesus Cristo, bem como aos homens e objetos consagrados ao culto divino.

Segundo São Tomás de Aquino, a incensação tem duas finalidades. A primeira é fomentar o respeito ao sacramento da Eucaristia, já que ela serve para eliminar, com um perfume agradável, os maus odores que poderiam existir no lugar. A segunda, representar a graça, da qual, como um bom aroma, Cristo estava cheio.

Por fim, o carvão aceso no turíbulo e o perfume que se evola servem também para nos advertir que, se queremos ver nossas orações subirem assim até o trono de Deus, devemos nos esforçar para ter o coração ardente com o fogo da caridade e da devoção.

A caridade segundo São João Crisóstomo

S.Joao_crisostomo

Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver caridade, sou um bronze que soa, ou como um címbalo que tine. E ainda que eu tivesse […] toda a fé a ponto de transportar montanhas, se não tivesse caridade, não seria nada” (1 Cor 13, 2-3).

Essa magna e excelentíssima virtude, fundamento de toda a vida espiritual, “a mais excelente das virtudes”1, foi vivida e transmitida nas pregações e obras do grande Padre da Igreja Oriental, São João Crisóstomo. Sua existência centrou-se num contínuo viver de amor pela Igreja e pelo próximo.

Natural de Antioquia, nascido por volta do ano 347 numa família cristã, estudou, na escola de Libânio, filosofia e retórica, na qual teve grande êxito, sendo considerado um dos maiores oradores, não somente por sua ilustre cultura, mas, principalmente, por serem suas palavras embebidas de intensa piedade e ardente amor evangélico.2 Compôs várias obras e estas se tornaram de tal maneira apreciadas que o próprio São Tomás de Aquino, Doutor Angélico, desejava lê-las.

Conta-se que em certa ocasião, voltando de Saint Denis juntamente com alguns frades de sua ordem, São Tomás viu de longe a imensa cidade de Paris. Um de seus companheiros comentou como seria de grande proveito para a obra de São Domingos serem possuidores da cidade de Paris. O Doutor Angélico, atônito, perguntou-lhe, então, o que haveriam de fazer com ela. O frade deu-lhe a idéia de vendê-la ao Rei da França e, com o dinheiro, mandar construir mosteiros para que a Ordem pudesse receber mais vocações. Porém, para o espanto do frade, São Tomás respondeu-lhe que preferia antes os comentários de São João Crisóstomo sobre o evangelho de São Mateus, por serem eles de grande valor teológico e de enorme benefício às almas.3

O amor pelas coisas sagradas já se fazia sentir quando São João Crisóstomo era muito jovem, possuindo grande apreço pelas Sagradas Escrituras, aprofundando seus estudos de teologia junto a Diodoro de Tarso, na mesma cidade de Antioquia.

Após algum tempo, quis buscar algo mais excelente para sua vida espiritual. No pleno ardor de sua juventude, marchou rumo aos montes vizinhos. Ali, pôs-se sob orientação de um ancião virtuoso, disposto a imitar sua austeridade de vida.

Durante dois anos, recebeu ensinamentos de seu mestre. Ao cabo desse período de intenso estudo, resolveu isolar-se numa gruta, vivendo um rigoroso ascetismo e dedicando a maior parte do tempo à contemplação e à oração. Entretanto, devido ao rigor de suas penitências, caiu gravemente enfermo, sendo obrigado a voltar à vida comum.4

A sua volta foi, sem dúvida, providencial. Após o regresso, foi ordenado e logo lhe mandaram fazer pregações na principal igreja da cidade. Este foi o período mais fecundo de sua vida, proferindo as homilias mais excelentes que lhe valeram o qualitativo que passou a fazer parte do seu nome: Crisóstomo, isto é, Boca de Ouro.1

Entre suas inúmeras homilias encontra-se uma sobre o amor de Cristo na célebre afirmação de São Paulo: “Eis por que sinto alegria nas fraquezas, nas afrontas, nas necessidades, nas perseguições, no profundo desgosto sofrido por amor de Cristo” (2 Cor 12,10).

Sendo a caridade a virtude teologal por excelência, mestra das demais virtudes como afirma o padre Royo Marín: ela “é a rainha de todas as virtudes, a mais excelente, a forma de todas as demais. Todas as outras virtudes – inclusive a fé a esperança – estão ao serviço dela e tem a missão de defendê-la e robustecê-la”6, asseverava que o Apóstolo “só se alegrava no amor de Cristo, que era para ele o maior de todos os bens; com isto julgava-se o mais feliz dos homens”.7

Como Santa Teresinha que através do “amor misericordioso” satisfez todos os seus anseios:

A caridade deu-me a chave de minha vocação. (…) Compreendi que só o Amor encerra todas as vocações, que o Amor é tudo, que abraça todos os tempos e lugares… Numa palavra, ele é eterno!… Então, no auge da minha alegria delirante, exclamei: Oh, Jesus, meu Amor…Encontrei, enfim, minha vocação; minha vocação é o Amor!… Sim, encontrei meu lugar na Igreja, e este lugar, oh meu Deus, fostes vós que mo destes…No Coração da Igreja, minha Mãe, serei o Amor…8

Aquele cuja alma está interiormente tomada por esse amor, a ponto de desprezar por causa de Deus a si mesmo e tudo o que possui, este é perfeito”.9 Movido assim, São Paulo desprezava seu instinto de sociabilidade para ser amado por Cristo. A ver-se privado desse amor e bem visto pelos homens “preferia ser o último de todos, isto é, ser contado entre os réprobos, do que encontrar-se no meio de homens famosos, mas privados do amor de Cristo”.10

E São João Crisóstomo acrescenta:
Tal é, com efeito, [o amor] que não deixa em nós nenhum desejo do terreno e nos transporta ao outro amor. Aquele que por este amor está possuído, por mais que tenha que renunciar os seus bens, rir-se da glória, ou ainda entregar sua própria vida, tudo faz com suma facilidade11

E é amando que a pessoa chega a praticar atos heróicos de despretensão, como bem afirma o padre Royo Marín 12: “O amor é a alavanca da vida espiritual, o procedimento mais rápido para chegar ao heroísmo”.

Para o Apóstolo, continua São João, “gozar do amor de Cristo era a vida, o mundo, o anjo, o presente, o futuro, o reino, a promessa, enfim, todos os bens. Fora disto nada tinha por triste ou alegre”. Ó mistério do amor!

“Quem poderá explicar o amor de Cristo?… Calem-se os homens, calem-se as criaturas… Calemos a tudo, para que no silêncio ouçamos os sussurros do Amor, do Amor humilde, do Amor paciente, do Amor imenso, infinito que nos oferece Jesus com seus braços abertos na Cruz”.13.

São João Crisóstomo viveu, também, inteiramente abrasado de amor, e pelo poder da caridade alcançou a mais plena união com Deus, pois “a grandeza de uma vida é medida pelo amor” e é ele que faz heróis e santos.14

1 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica, II-II, q.23, a.6
2 LLORCA B.; VILLOSLADA, R.G; LABOA, J.M. Historia de la Iglesia. Madrid: BAC, 2005.
Teresinha. São Paulo: Paulus, 2002.
3 CRISÓSTOMO. Homilías sobre el Evangelio de San Mateo. Texto griego, version española y notas de Daniel Ruiz Bueno. 2.ed. Madrid: BAC, 2007.
4 COLOMBAS, G. M. El monacato primitivo. 2.ed. Madrid: BAC, 1998.
5 CRISÓSTOMO, S.J. Vida e obras. Disponível em Acesso em 05 out. 2010.
6 ROYO MARÍN, A. Los grandes maestros de la vida espiritual. Madrid: BAC, 2002. p. 369
7 Cf CRISÓSTOMO. Homilías sobre el Evangelio de San Mateo. p. 1208
8 LISIEUX, T.. Obras Completas de Santa Teresa do Menino Jesus e da Santa Face. Tradução das. Monjas do Carmelo do Imaculado Coração de Maria e Santa.
9 TORREL, J-P. Santo Tomás de Aquino. Tradução de J. Pereira. 2.ed. São Paulo: Loyola, 2008. p. 424
10 Cf CRISÓSTOMO. Homilías sobre el Evangelio de San Mateo p. 1209
11 Loc.cit. p.115
12 Cf ROYO MARÍN, A. Op. cit p. 368
13 ARNÁIZ BARÓN, R. Obras Completas. 4. ed. Burgos: Monte Carmelo, 2002. p. 869
14 PHILIPON, M. O sentido do eterno. Tradução de Maria Cecília de M. Duprat. São Paulo: Flamboyant, 1964. p. 49

Dignidad humana en el mundo contemporáneo

Irmã Martha Lucía Ovalle Pinzón,EP

Continuación del post anterior

El significado de dignidad, en la concepción de la Época Moderna, fue reformulado: la dignidad del hombre deriva de su naturaleza humana pero esta se desvincula progresivamente de cualquier origen divino.

Hernán Mora comenta: “Como en la Época Pre-Moderna se hace un elogio de las capacidades humanas pero, esta vez, deduciendo de éstas mismas la dignidad del hombre, sin acudir a ningún parentesco religioso”1.

Debido a esta separación del hombre y Dios, surge el debate secular en el que la persona misma o terceros deciden el momento de terminar con la existencia en casos “especiales”. Se podría pensar que se le da a la vida un valor mensurable si se compara con otra. En este sentido, defendiendo la eutanasia, Iribarren2, en un artículo de la revista Derecho a morir dignamente, se refiere al pensamiento de Kant, afirmando que la dignidad del ser humano consiste en ser considerado como un fin en sí mismo. Ésta idea de dignidad, para él, va íntimamente unida al deseo de libertad y autonomía del ser humano y, por lo tanto, al desarrollo de aquellos valores que pertenecen a lo más íntimo del hombre.

De un sistema de homogeneidad de valores hemos pasado a otro en el que la pluralidad y la lucha por la misma han ocupado el primer lugar, con la disculpa de respetar la opinión de los demás, pues todos tenemos la razón en algo. Como ejemplo de un concepto de respeto, valorando la dignidad humana, el Doctor Mejía afirma: “El respeto comporta no el distanciamiento de las otras personas por temor a ofenderlas o hacerles daño, sino el asumir la dignidad propia que esa persona posee independientemente de su edad, sexo, condición social, raza o cultura”3.

doentesEl ser humano no dejará de ser digno por muy pobre, viejo o enfermo que se encuentre. Siempre será hombre y siempre será digno. Cada vida es única por tener su origen y raíz en la bondad de Dios, ya que por voluntad propia quiso infundirla en múltiples seres de la tierra. El mismo Mejía añade que: “el hombre actual teniendo a sus pies los atributos de Dios en la tecnología, el desarrollo de las ciencias y el florecimiento de una civilización opulenta, es capaz de enfrentar a Dios y de querer manipularlo”4. Pretende igualarse al punto de querer ser como Él, decidiendo así en diferentes realidades temporales que no le competen, como el momento de dar término a una vida humana.

En cuanto a la dignidad humana, la fundación para el Derecho a Morir Dignamente pone el concepto en el debate de cuál es su verdadera escala de medición, llegando a la conclusión de que cada cual tiene la suya, ya que cada ser dependiendo de las circunstancias construye y reconstruye sus bases morales, éticas y religiosas, conduciendo a un evidente relativismo. En contraposición a esta postura, se resalta el hecho de que todos los seres humanos tienen la capacidad de diferenciar entre el bien y el mal; “es una manifestación de lo que llamamos ley natural, es decir, la ley que Dios fija a través de la naturaleza y de la razón (…) esta es universal, la reconocieron y reconocen los griegos, romanos, los hindúes, judíos o musulmanes”5. En España los adversarios de la eutanasia sostienen el siguiente argumento frente a lo planteado por Derecho a morir dignamente: “Cualquiera que sea la situación física o psíquica en la que se encuentre la persona, ésta conserva su dignidad, la cual no es susceptible de grados: no podemos ni perderla ni ganarla, incrementarla o disminuirla, ni está sujeta a la calidad de vida, por lo que no varía por la enfermedad o el sufrimiento, la malformación o la demencia”6.

A causa de un relativismo en las ideas y costumbres que se extienden por el mundo actual, el hombre ha encontrado el punto exacto de no culpabilidad de los actos, tan solo se ampara en la múltiple posibilidad de verdades que pueden existir en el universo que representa la mente de cada ser humano y las circunstancias en que este se inscribe, llegando finalmente al relativismo ético que a su vez afirma que “no hay verdades absolutas, ni bien o mal que no sean relativos7”. En contraposición Santo Tomás afirma: “Toda ley puesta por los hombres tiene razón de ley cuando deriva de la ley natural. Por el contrario, si contradicen en cualquier cosa la ley natural no será ley sino corrupción de la ley8”. Al respecto, el Papa Benedicto XVI 9 afirma que cuando están en juego las exigencias fundamentales de la dignidad de la persona, de su vida y los derechos primordiales, ninguna ley hecha por los hombres puede trastocar la norma escrita por el Creador; así la ley natural es la garantía de la persona para vivir libre, respetada y protegida de toda manipulación ideológica.

Hernán Mora9 hace una referencia al pensamiento de Juan Pablo II, que por su parte afirma que la dignidad del ser humano no es un fundamento materialista, ni biológico; ésta se inicia al aceptar que tanto hombre como mujer son seres creados a imagen y semejanza de Dios; en esa realidad que es ontológica se cifra la dignidad humana.

En medio de esta bella concepción de dignidad, el uso de la libertad se manifiesta en la elección concreta incluso de su último fin – Dios –, el cual, aunque ya sea determinado por la naturaleza, el hombre con su capacidad de raciocinio, puede o no aceptarlo; de esta forma marca la distancia que separa al hombre de las formas y las existencias inferiores y funda el clarísimo indicio de la condición personal del ser humano dentro del mundo, el cual determina su realidad y en consecuencia su dignidad. Siendo esta capacidad exclusiva para el hombre, “la vida humana es el fundamento de todos los bienes, la fuente y condición necesaria de toda actividad y convivencia social”10.

Con relación a la eutanasia, en nombre de la dignidad como fundamento filosófico que apela a la libertad y a la autodeterminación, un peticionante puede pedir la muerte de acuerdo a las condiciones que éste considera indignas para sí: estado terminal, alteraciones neurológicas severas, entre otros.

Para G. Herranz11 hay dos nociones de dignidad, que definen la posición desde las dos orillas de la discusión; los que están en contra y a favor de la eutanasia. En una se proclama la dignidad impalpable de toda la vida humana, incluso a la hora de la muerte. Se puede decir que esta dignidad se extiende hasta después del trance de la misma, pues el cadáver, aunque ya sin vida, fue hombre y nos recuerda la dignidad de la persona que existió. Es por esto que se tiene la costumbre de homenajear de alguna forma, según cada creencia, a aquel que dejó una huella histórica en el existir. Retomando la opinión de Herranz, todas las vidas humanas, en toda la duración, tienen una dignidad intrínseca, objetiva, en la misma dimensión. Quienes están a favor de la eutanasia afirman que la vida es un don, que tiene una reconocida dignidad, pero que ésta es desigual en todos los seres humanos, y que en cada uno puede sufrir variaciones con el pasar del tiempo, pudiendo aminorarse hasta llegar a desaparecer. Esto depende de la calidad de la vida, pues, si se viera afectada de manera crítica, la persona humana deja de ser digna, pues su vida ya no es vida.

En el ámbito de la bioética – que es literalmente la ética de la vida –, el respeto de la vida puede considerarse como su principio y su fin último, ya que desde Hipócrates la defensa de la misma ha sido la razón de ser de aquel que ejerce la medicina: “juro… que no daré a nadie un veneno, aunque me lo pida, ni tomaré iniciativa de cualquier sugerencia en este sentido (…)”12. La razón de ser de este imperativo es comprensible si se tiene en cuenta que para una persona la vida es el valor fundamental y depende de éste que se lleven a cabo todos los demás.

Sobre el valor de la vida el Doctor Andorno afirma que:

(…) la vida física es el valor supremo de la persona. Su cuerpo es parte constitutiva de su ser-en-el-mundo. Es gracias a su cuerpo que ella vive en el espacio y en el tiempo. Por ello, ella tiene el deber de conservarlo, es decir, de cuidar su salud y al mismo tiempo de respetar el de los demás. El respeto de la vida es, en efecto, el primer imperativo ético del hombre para consigo mismo y con los demás13.

La vida, el acto de existir, le brinda al ser humano la posibilidad de hacer uso de sus potencialidades y tomar decisiones; he aquí el uso de la libertad. Dicha existencia, aunque está determinada por factores intrínsecos y extrínsecos, debe en todos los casos buscar la supervivencia y el bienestar dentro de las posibilidades, hablando en un plano natural – sin olvidar el plano sobrenatural.

Es por esto que optar por una posición a favor de acabar con la vida puede ser un acto inhumano e indigno.

1 PELÈ, Antonio. Una aproximación al concepto de dignidad humana. [En línea]. [Consulta: 13 Jul., 2009].
2 IRIBARREN, Sebastián. Dios mío ¿por qué me has abandonado? En: Revista Derecho a Morir Dignamente. Madrid. No. 49 MEJÍA, Op. Cit., p. 32.
3 Ibid., p. 26.
4 MARTINEZ SAEZ, Santiago. Relativismo ético. En: Persona y Bioética. Chía. Vol. 12, No. 1. (Ene. – Jun., 2008); p. 33.
5 LAFRANCONI, María Lucía. Dignidad, eutanasia y derechos humanos. [En línea]. [Consulta: 18 May., 2009].
6 MARTÍNEZ SAEZ, Op. Cit., p. 33.
7 SANTO TOMÁS DE AQUINO. Suma de Teología. I-II, c. 95, a. 2.
8 BENEDICTO XVI. El progreso depende del respeto a la ley moral. En: Revista Heraldos del Evangelio. Bogotá. No. 52. (Nov., 2007); p. 45.
9 MORA CALVO, Op Cit., p. 90.
10 JUAN PABLO II. Declaración “Iura et Bona”, sobre la eutanasia. En: El don de la vida. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, 1996. p. 401.
11 HERRANZ, Gonzalo. La metamorfosis del activismo pro eutanasia. En: Persona y Bioética. Chía. Vol. 8, No. 22. (May. – Ago., 2004); Citado por SERRANO RUIZ-CALDERÓN, José M. La eutanasia y su regulación. En: TOMÁS Y GARRIDO, Gloria María y POSTIGO SOLANO, María Elena. Bioética personalista: ciencia y controversias. Madrid: Internacionales Universitarias, 2007. p. 404.
12 HIPÓCRATES. Juramento [En línea]. [Consulta: 22 May., 2009].
13 ANDORNO, Roberto. Bioética y dignidad de la persona. Madrid: Tecnos, 1998. p. 37.

Pode existir uma santa pressa?

angelico29Maria Teresa Matos

No mundo atual, não há quem não tenha tomado contato, visto, e mesmo experimentado a pressa.

Corre-se para não chegar atrasado em um compromisso, corre-se para fazer um negócio e lucrar muito dinheiro, corre-se atrás de bons estudos e da boa fama. Enfim, corre-se a todo o momento e por qualquer motivo. As invenções técnicas e científicas, como automóveis, aviões, celulares e internet concorreram para acelerar, ainda mais, o ritmo de vida.

O homem contemporâneo bem poderia ser qualificado de ‘o homem do corre-corre’, que depois de tanto correr, nada alcançou além de decepções, frustrações e calamidades.

Alguém, deformado pelos conceitos hodiernos, abrindo as páginas do Evangelho, encontraria dificuldades em compreender esta curta, mas intensa frase: “Naqueles dias, Maria levantou-se e dirigiu-se apressadamente às regiões montanhosas da Judéia” (Lc 1, 39).

Qual seria a razão de uma jovem, consagrada ao Templo desde a sua infância e criada nas sublimes delícias da contemplação, lançar-se de tal modo na ação? Ademais, acabara de se dar o acontecimento ápice, não só da vida dela, mas de toda a História: concebera pela ação do Espírito Santo. Ou seja, em suas entranhas puríssimas, o próprio Filho Unigênito de Deus, gerado e não criado, consubstancial ao Pai, para nossa salvação, assumira nossa carne. Aquele a quem os céus não podiam conter, encerrara-se no seio de Maria. Haverá graça mais sublime? Existirá ocasião mais propícia para os mais altos êxtases? Que meditações e contemplações não poderiam derivar desse convívio?! Não seria a hora d’Ela recolher-se e aproveitar os nove meses de intimidade mais completa e absoluta com Seu Filho e Seu Deus?

Entretanto, o Evangelho nos narra ter a Virgem, logo após a Anunciação, levantado e se dirigido apressadamente até a Judéia, empreendendo essa viagem a fim de ajudar sua prima Isabel.

Que pressa era esta que a movia? Algum interesse pessoal? Poderia se cogitar, sem blasfemar, que na alma imaculada de Maria existisse alguma agitação?

Como resposta a essas perguntas, bem poderíamos pôr nos lábios da Virgem as palavras do profeta Elias: “Zelus zelatus sum pro Domino Deo Exercituum” (1Rs 19,14). Sim, o zelo pela causa de Deus a consumia, tomava todo o seu ser e impulsionava-a, se necessário fosse, a correr por toda a Terra para servi-lO e glorificá-lO.

Essa viagem era empreendida por Ela sem abandonar em nenhum instante a clave altíssima de suas contemplações. Maria queria servir sua prima, não por afeição familiar ou mera filantropia, mas por amor a Deus. A virtude da Caridade a levava a ajudar Isabel e o menino João, corporal e espiritualmente, santificando a criança ainda no ventre materno e produzindo em sua prima extraordinárias manifestações de enlevo e admiração pelo Messias ali presente.

Portanto, qual é a diferença entre essa santa pressa de Maria Santíssima na visitação a sua prima santa Isabel e a pressa do mundo moderno?

Hoje corre-se, impaciententemente, por interesse próprio, enquanto Nossa Senhora indicou que os homens devem ser pressurosos na caridade, uns para com os outros, auxiliando com entusiasmo, sem egoismo ou delongas, a que se encontre já nesta Terra o Caminho, a Verdade e a Vida.

Experiência mística: via normal de comunicação entre o infinito e o homem

Irmã Maria Cecília Seraidarian,EP

Analisando, sob o ponto de vista do humanismo tomista, a relação homem-divino na história da humanidade, Jacques Maritain1 afirma que considerados todos os esforços do homem, fora da tradição judaico-cristã, no âmbito da vida espiritual – que é o das aspirações ao sobre-humano –, vê-se que é o âmbito dos grandes fracassos e das supremas antinomias do ser humano. As grandes civilizações antigas – Grécia e Índia, sobretudo – reconheciam a superioridade da vida contemplativa sobre a ativa e que somente a primeira abria ao homem a beatitude antecipada da qual ele tem sede. Porém, não alcançaram dita beatitude porque puseram suas bases na inteligência e ela ficou reservada a um grupo privilegiado de “sábios”. Ora, Aristóteles e a sabedoria antiga tinham razão ao considerar a vida contemplativa superior à vida ativa e que aquela abria ao homem as portas de uma vida divina. Na verdade, eles desconheciam a profundidade do que diziam, pois foi o Evangelho que deu às fórmulas de Aristóteles seu mais íntimo significado.

Jacinta1A contemplação verdadeiramente libertadora e deiforme, não é a dos filósofos, que pára na inteligência e se funda no esforço humano, tendo por objetivo o esclarecimento e aperfeiçoamento supremo do próprio sábio; a contemplação dos santos – que, não parando na inteligência, passa ao coração e transborda – não se opera pela suprema tensão das forças naturais do homem, mas pelo amor de caridade, em um só espírito com Deus. Ocorre sob a inspiração superior dos dons divinos, é via de um sumo conhecimento experimental e não tem por fim o bem próprio do sábio e sua auto-suficiência, mas o amor Àquele que é contemplado. A comunicação do amor e a cooperação amorosa com Deus – que é o bem e a beleza – e a obra de bondade e salvação importam muitíssimo mais que o próprio bem e as próprias obras do sábio2.

Tal é, conclui, dentro das perspectivas tomistas, o fim ao qual tende a vida do espírito humano. Igualmente, vê-se que essa vida e os frutos da plenitude humana não são reservados a um grupo de privilegiados porque eles procedem muitíssimo menos do esforço humano do que da ação e generosidade divinas, são essencialmente sobrenaturais. A experiência mística contemplativa, a união de amor, não tem somente as formas descritas por uma Santa Teresa de Jesus ou um São João da Cruz, pode tomar na vida comum dos homens todos os disfarces, todas as formas mascaradas e secretas de que o Espírito, que sopra onde quer, é o único dono. Ele atrai a si, por um chamado próximo ou distante, todos os homens, de qualquer condição ou nível cultural. A essa sabedoria, que transcende todos os conceitos humanos e se esconde na obscuridade divina, todos são chamados. O mundo antes de Cristo jamais poderia ter uma idéia dela3.

No mesmo sentido caminha Garrigou-Lagrange4, ressaltando que a iluminação da inteligência, enquanto experiência mística, é concedida a todos e a qualquer um, segundo sua necessidade e generosidade. Quanto maior a abertura do homem ao transcendente, maior sua experiência do divino. O conhecimento experimental da presença do Absoluto em si mesmo é a verdadeira via mística, cume do desenvolvimento normal do ser humano. Todos são chamados, geral e particularmente, à união mística. No entanto, distingue entre o que seria a “via ordinária” e aquelas experiências “extraordinárias” da mística, tais como visões, revelações, etc., reservadas àqueles que atingem um grau eminente de perfeição.

Conforme Pieper5, é doutrina clássica que a contemplação – experiência transfigurante de saciedade do divino – pode vir a alguém de múltiplos modos. O estímulo mais trivial pode levar a pessoa a esse píncaro. Sendo assim, chega-se à arrebatadora e até abismante constatação – tão oposta a tudo o que habitualmente se pensa sobre o homem contemporâneo – de que a contemplação é muito mais difundida hoje do que as aparências indicam. Os aspectos significativos da experiência mística podem ser atingidos sem que a pessoa tenha consciência clara disso, nem saiba dar-lhe o nome correto. Com esse indicador, mais e mais formas novas de alcançar a contemplação se manifestam.

O homem é místico na medida em que cultiva a relação amorosa com o divino. A mística faz parte “da espontaneidade da vida cotidiana”, pois, sendo uma relação de amor, até o mais simples gesto pode ser feito com amor. Os fenômenos extraordinários – raptos, levitações, etc. – demonstram a imperfeição humana, surpreendida com a generosidade da ação divina, porque, quanto mais unida a Deus, com mais naturalidade a alma O acolhe. Eis a verdadeira mística. O Criador opera suavemente suas maravilhas de amor em toda a criação, deixando o homem estupefato diante de suas ações, uma vez que “mais que o som para o músico ou a cor para o pintor ou a palavra para o poeta, para a mística contam os infinitos matizes do amor”6.

Com efeito, segundo Von Balthasar7, é próprio ao ser humano contingente abandonar-se misticamente ao Absoluto. Está na natureza das coisas que haja um progresso autêntico desde o entusiasmo primeiro até o sentir-se inabitado por um espírito superior, divino. Esse fenômeno sempre foi vislumbrado pelos pagãos, mas somente os cristãos chegaram a experimentar. Ocorre em um momento de encanto, de arrebatamento e êxtase, em virtude da forma da beleza, que possui um poder de transcendência tal que facilmente eleva o espírito humano da esfera natural à sobrenatural. Somente através da forma é possível ver o “relâmpago da beleza eterna”.

1MARITAIN, Jacques. De Bergson à Thomas D’Aquin: essais de metaphysique et de morale. New York: Maison Française, 244. p. 262-263.
2 Ibid., p. 263-264.
3 Ibid., p. 264-265.
4 GARRIGOU-LAGRANGE, Op. Cit., p. 254-264.
5 PIEPER, Josef. Happiness and contemplation. South Bend: St. Augustine’s Press, 1998. p. 82-83.
6 URIBE CARVAJAL e OSORIO, Op. Cit., p. 116.
7 VON BALTHASAR, Hans Urs. Gloria: una estética teológica. La percepción de la forma. Madrid: Encuentro, 1985. p. 34-37. Vol. 1.

Maria Santíssima: O arco-íris da esperança

arco_iris2Maria Teresa Pinheiro Lisboa Miranda

Após uma forte chuva numa pequena cidade do interior, onde não havia arranha-céus para encobrir o horizonte, deparei-me com um lindo arco-íris. Maravilhada, lembrei-me da história de Noé e da surpreendente afirmação que ouvi em idos tempos numa aula de catecismo: o arco-íris surgido no céu após o dilúvio foi uma pré-figura de Nossa Senhora. Recordemos um pouco a história narrada pelo Gênesis, para melhor compreendermos tão belo simbolismo.

Naquele tempo, “o Senhor viu que a maldade dos homens era grande na Terra (…) Então Deus disse a Noé: ‘Faze para ti uma arca de madeira resinosa (…) Eis que vou fazer cair o dilúvio sobre a Terra (…) Tudo que está sobre a Terra morrerá. Mas farei aliança contigo: entrarás na arca com teus filhos, tua mulher, e as mulheres dos teus filhos. De tudo o que vive, de cada espécie de animais farás entrar na arca dois, macho e fêmea, para que vivam contigo”.

“O dilúvio caiu sobre a Terra durante quarenta dias. (…) As águas inundaram tudo com violência, e cobriram toda a Terra, e a arca flutuava na superfície das águas. (…) As águas cobriram todos os altos montes. (…) Elas cobriram a Terra pelo espaço de cento e cinquenta dias.””Depois do dilúvio, disse também Deus a Noé: “Faço esta aliança convosco: nenhuma criatura será mais destruída pelas águas do dilúvio (…) Ponho o meu arco nas nuvens, para que ele seja o sinal da aliança entre mim e a Terra”.”

Decorridos alguns milênios tendo o coração dos homens se voltado novamente para o mal e chegada a hora de misericórdia prevista pelos profetas Deus enviou o seu próprio Filho para tirar a humanidade do dilúvio de iniquidade que inundava a Terra, e convidar os homens para entrar na nova arca. Não em uma arca material, construída por mãos humanas, mas sim, na arca por excelência: a Santa Igreja edificada pelo próprio Filho de Deus feito Homem. E para nos proteger e manter uma estreita aliança conosco, nos enviou também um arco-íris. Mas… que arco-íris? Não um mero fenômeno natural mostrando sete cores, mas sim um arco-íris vivo: Maria, a Mãe de Deus, Aquela na qual os sete dons do Espírito Santo refulgem com inigualável magnificência.

Eis o que, no século XIV, Nossa Senhora, dirigindo-se a Santa Brígida, afirmou:
Eu me estendo sobre o mundo em contínua oração, assim como sobre as nuvens está o arco-íris, que parece voltar-se para a Terra e tocá-la com suas extremidades. Este arco-íris, sou Eu mesma que, por minhas preces, abaixo-me e me debruço sobre os bons e os maus habitantes da Terra. Inclino-me sobre os bons para ajudá-los a permanecerem fiéis e devotos na observância dos preceitos da Igreja; e sobre os maus, para impedi-los de irem adiante na sua malícia e se tornarem piores”.”

São Bernardino de Siena, ilustrando seu discurso sobre o Santo Nome de Maria, comenta: “Maria une e concilia a Igreja Triunfante à Igreja Militante. Seu nascimento anuncia que, doravante, existirá a paz entre o Céu e a Terra. Ela é o arco-íris dado pelo Senhor a Noé em sinal de aliança, e como penhor de que o gênero humano não será mais destruído. E por quê? Porque é Ela que trouxe à luz Aquele que é nossa paz”.”

Quanta consolação, quanta esperança nos evocam essas palavras! Neste mundo, em que somos peregrinos, sofrimentos, tentações e perplexidades são inerentes à nossa vida. Contudo, em meio às dores e aflições, sempre vislumbramos a esperançosa figura de um incomparável arco-íris: Maria Santíssima! É Ela quem nos guia em nossa peregrinação rumo à Pátria Celestial, ajudando-nos em todas as nossas necessidades e envolvendo-nos com seu maternal, constante e infatigável amor.

“O arco-íris alegra a Terra e lhe proporciona uma chuva abundante e benfazeja. Do mesmo modo, Maria consola aos fracos, enchendo de júbilo os aflitos e inundando copiosamente os áridos corações dos pecadores, pela fecunda chuva de graça”, comenta o Pe. Jourdain em sua obra dedicada às grandezas de Maria.

Confiantes e extremamente gratos por tão insondável proteção, procuremos amá-La, honrá-La, invocá-La e servi-La a cada momento de nossas vidas, propagando sempre uma devoção piedosa e sincera a Ela, que é o único e verdadeiro Arco-Íris que nos une ao seu Divino Filho, o instrumento de aliança entre Deus e os homens.

E renovareis a face da Terra…

Pentecostes4

Se da ação do Espírito Santo em Pentecostes nasceram tantas belezas da cultura e da civilização e, sobretudo, tantos milagres da graça, o que não aconteceria se houvesse um novo sopro do Paráclito sobre a face da Terra?

Irmã Clara Isabel Morazzani Arráiz, EP

Incansável, ardendo de zelo pela glória de Deus, o Apóstolo Paulo percorria as cidades da Grécia, pregando a todos o Evangelho de Cristo. Por vezes, a hostilidade de muitos se opunha a seu apostolado e atentava contra sua vida. Grande era, entretanto, o consolo que lhe proporcionavam as numerosas conversões. Chegando a Atenas — cidade rica e orgulhosa, centro da filosofia e do intelectualismo — o coração do Apóstolo das Gentes encheu-se de amargura, à vista de tanta idolatria (cf. At 17, 16). Entre os múltiplos locais de culto, onde eram oferecidos sacrifícios às divindades mais absurdas, deparou ele com um altar no qual figurava esta inscrição: “A um deus desconhecido”. Chocado ante a ignorância daquele povo, sem embargo tão inteligente, Paulo pôs-se a pregar no Areópago, exclamando: “O que adorais sem o conhecer, eu vo-lo anuncio!” (At 17, 23). E logo os iniciou no conhecimento da verdadeira religião.

Nos dias de hoje, em nosso Ocidente cristão, não vemos mais aqueles templos destinados à adoração dos ídolos, pobres imagens feitas por mãos humanas. Pelo contrário, passados quase dois mil anos de pregação apostólica, continuada fielmente pelo Magistério, erguem-se agora numerosos templos cristãos, ostentando no alto de suas torres o glorioso símbolo da cruz.

Entretanto, se a confissão de um só batismo e a crença na Trindade reúnem os cristãos, não faltam aqueles para os quais o Espírito Santo poderia chamar-Se o “Deus desconhecido”. Semelhantes aos discípulos de Éfeso que, interrogados por Paulo, responderam: “Nem sequer ouvimos dizer que há um Espírito Santo” (At 19, 2), muitos são hoje os que, sem chegar a esse extremo, desconhecem as características e os poderes do Paráclito e se esquecem de invocá-Lo.

Quanto mais O conhecemos, mais O amamos

No Antigo Testamento, a humanidade ignorava a existência de Três Pessoas em uma única Essência Divina; e se algumas expressões dos Livros Sagrados faziam vislumbrar esse conhecimento, eram apenas lampejos de uma Revelação que Deus Se reservava transmitir por meio de Seu Filho, na plenitude dos tempos.

Errôneo seria julgar que a doutrina sobre o Espírito Santo não deveria ser difundida entre os fiéis, por temor de causar confusões ou desvios. Não foi este o exemplo dado pelo Salvador, ao prometer a vinda do Paráclito ou ao explicar tal mistério ao velho Nicodemos, que não chegava a compreendê-lo. Também não foi essa a conduta observada pelos discípulos de Jesus ao escreverem repetidas vezes sobre a ação e a presença da Terceira Pessoa Divina no seio da Igreja.

Em sua Encíclica Divinum illud munus, o Santo Padre Leão XIII exortava aos pregadores a ensinar e inculcar essa devoção no povo cristão, visto que seus frutos haviam se revelado abundantes e profícuos:

“Insistimos nisso não só por tratar-se de um mistério que nos prepara diretamente para a vida eterna e que, por isso, é necessário crer firme e expressamente, mas também porque, quanto mais clara e plenamente conhecemos o bem, mais intensamente o queremos e o amamos. Isso é o que agora queremos recomendar-vos. Devemos amar o Espírito Santo, porque é Deus: ‘Amarás o Senhor teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças’ (Dt 6, 5). E deve ser amado porque é o Amor substancial eterno e primeiro, e não há coisa mais amável que o amor; portanto, tanto mais devemos amá-Lo quanto Ele nos cumulou de imensos benefícios que, se testemunham a benevolência do doador, exigem a gratidão da alma que os recebe” (Divinum illud munus, 13).

Entender como coração, e não apenas com o intelecto

Ao procurar nos aprofundar no conhecimento desse Divino Espírito, a quem a Igreja invoca como “Luz dos corações”, façamo-lo não apenas por um exercício do intelecto, mas compreendendo, sobretudo, o coração.

A inteligência,como explica São Tomás, é potência régia e imóvel: traz a si o objeto sobre o qual ela se aplica e o torna proporcionado à sua capacidade. Se esse objeto é superior à razão, ela forçosamente o diminuirá ao adaptá-lo a si. A vontade percorre o caminho inverso: naturalmente inclinada à entrega e à doação de si mesmo, ela voa até o objeto e adquire suas proporções. Quando este se manifesta superior, eIa se alarga e cresce até tomar as suas medidas.

Ora, no caso do Espírito Santo, não se trata de um objeto apenas superior ao pobre entendimento humano, mas de um Ser infinitamente distante de nossa frágil natureza. É necessário voarmos a Ele com a vontade, amando-O sem medida até nos tornarmos “deuses” como Ele mesmo afirma nas Escrituras (cL SL 81, 6; Jo 10, 34-35). Deste modo, estaremos aptos para anunciá-Lo àqueles que ainda não O conhecem, conforme a expressão de Lacordaire: “ La raison ne fait que parler, c’est l’amour qui chante!”– A razão só sabe falar, é o amor que canta!