A sublime montanha da santidade

HimalayaIrmã Maria Cecília Seraidarian,EP

Muitas vezes, na vida de um alpinista, depois de escalar inúmeros picos, montes e colinas, superando suas próprias capacidades, nasce o desejo de vencer o desafio de chegar ao cume de uma determinada montanha. Sua vida, por assim dizer, só terá sentido se conseguir realizar esse anelo.

O alpinista, então, passa anos analisando e estudando a tal montanha com o intuito de um dia realizar essa importante conquista. Conhecedor dos perigos e dificuldades que poderá encontrar em sua empresa, ele começa a cuidar de todos os preparativos e em determinado momento vai de encontro ao seu objetivo.

Ao chegar bem cedo ao sopé da montanha, ele a vê banhada por uma luz dourada pelos primeiros dilúculos da aurora que se aproxima, tornando-a ainda mais bela. Passados esses momentos de admiração, o alpinista escolhe uma face da montanha e começa a desafiante, longa e árdua subida.

Apesar de ter tomado todas as precauções necessárias, frequentemente, ele sofrerá quedas e terá que voltar a percorrer um trecho que parecia definitivamente conquistado. Outras vezes, ver-se-á diante de obstáculos aparentemente intransponíveis e será tentado a desistir. Quando menos ele espera, encontrará ganchos deixados por outros montanhistas, auxiliando-o nos momentos perigosos e a subida tornar-se-á mais fácil.

Se esse alpinista for perseverante e souber vencer os inúmeros obstáculos dessa árdua tarefa, sem desistir como tantos outros fizeram, chegará o momento em que ele transporá a última pedra e encontrar-se-á no topo da montanha. Nessa hora, todas as dificuldades terão ficado para trás, todos os precipícios estarão a seus pés e uma enorme felicidade inundará a sua alma, por ter realizado seu objetivo. Do alpinista terá desabrochado o herói!

Podemos comparar esse herói às almas cristãs que são chamadas por Deus, através do batismo para galgar a sublime montanha da santidade, como alpinistas de si mesmas. Contudo, sabemos que a “santidade, a plenitude da vida cristã, não consiste em realizar empreendimentos extraordinários, mas em unir-se a Cristo, em viver os seus mistérios, em fazer nossas as suas atitudes, pensamentos e comportamentos” (cf. Bento XVI, Audiência Geral, 13/4/2011).

Entretanto, para percorrer esse caminho da santidade e responder ao apelo de Nosso Senhor: “Sede perfeitos, assim como vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5, 48), torna-se necessário ao homem travar uma constante e penosa luta ao longo de toda a sua vida. E qual a explicação para isso?

O homem é considerado um pequeno universo, um microcosmo, pois tem em si a natureza mineral, vegetal, animal, intelectual e sobrenatural. Cada uma dessas naturezas possui leis próprias e muitas vezes contrárias entre si. No Paraíso, pelo dom de integridade, essas leis estavam todas ordenadas e as naturezas inferiores, perfeitamente submetidas às superiores. Com o pecado original o homem perdeu, entre outros, o dom de integridade e todas essas naturezas, com suas leis, passaram a um estado de desordem total: “os desejos da carne se opõem aos do Espírito, e estes aos da carne; pois são contrários uns aos outros” (Gal 5, 17).

Por um lado, Deus, infinitamente Perfeito e Bem-aventurado em si mesmo, em um desígnio de pura bondade, cria livremente o homem para fazê-lo participar de sua vida bem-aventurada. Chama-o e ajuda-o a procurá-lO, a conhecê-lO e a amá-lO com todas as suas forças. Convoca todos os homens, dispersos pelo pecado, para a unidade de sua família, a Igreja. Faz isto por meio de seu Filho, que enviou como Redentor e Salvador quando os tempos se cumpriram. Nele e por Ele, chama os homens a se tornarem, no Espírito Santo, seus filhos adotivos e, portanto, os herdeiros de sua vida bem-aventurada.

E por outro lado, os instintos desregrados sugerem-nos desejos contrários ao nosso fim. Portanto, o grande esforço do homem consiste em dominar o instinto e agir de acordo com a razão iluminada pela fé. Mas não podemos nos esquecer que “uma vida santa não é fruto principalmente do nosso esforço, das nossas ações, porque é Deus, o três vezes Santo (cf. Is 6,3), que nos torna santos, é a ação do Espírito Santo que nos anima a partir de dentro, é a própria vida de Cristo Ressuscitado que nos é comunicada e que nos transforma (cf. Bento XVI, Audiência Geral, 13/4/2011).

Assim, criado por Deus e para Deus, o homem somente encontrará a felicidade em seu Criador, como bem diz Santo Agostinho: “Fizeste-nos para ti, e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em ti”. (1984, p. 15).

Impelidos por esse desejo de Deus e pela sede de infinito que está no coração de cada homem, subamos como um heróico alpinista a sublime montanha da santidade.

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