Oração: condições para ser atendido

oração ArautosIrmã Ana Rafaela Maragno,EP

O homem, em sua debilidade, não pode, sem a graça, alcançar certos favores, mas poderá obtê-los através da oração, pois “o Espírito vem em auxílio à nossa fraqueza; porque não sabemos o que devemos pedir, nem orar como convém, mas o Espírito mesmo intercede por nós com gemidos inefáveis” (Rm 8, 26).

A oração deve estar presente em todos os dias da nossa peregrinação terrena; assim jamais haverá de nos faltar o necessário quando pedirmos socorro. Pode ser que a espera se prolongue, que não haja consolações interiores, ou mesmo sensação de completo abandono, na qual o Céu parece toldado por densas nuvens escuras. Sejam quais forem essas situações, estejamos certos de que nunca devemos desanimar nem desistir. Do mesmo modo como não nos esquecemos de tomar alimento, para manter o vigor e a saúde do corpo, assim também não devemos negligenciar a oração, para que nossa alma, faminta, não venha a desfalecer.

Não obstante, existe um problema. Sabemos, pelo Espírito Santo, o que devemos pedir. Mas, como enunciar essas súplicas e quais as condições para torná-las infalíveis diante de Deus?

As condições para ser atendido

“Se permaneceis em mim e minhas palavras permanecerem em vós, pedireis tudo o que quiserdes e vos será feito” (Jo 15, 7). Nosso Senhor promete de maneira clara, em inúmeras circunstâncias de sua vida terrena a onipotência da oração. “Pedi e se vos dará. Buscai e achareis. Batei e vos será aberto. Porque todo aquele que pede, recebe. Quem busca, acha. A quem bate abrir-se-á” (Mt 7, 7-8). Quem colocaria em dúvida o juramento do Divino Salvador? Quem ousaria contradizê-Lo?

Alguém poderia contestar, com argumentos pouco convincentes, mostrando que, em muitas ocasiões, essa promessa não se cumpriu e inúmeros pedidos pareceram não ter chegado nunca aos ouvidos de Deus. O Apóstolo São Tiago responde a essa objeção: “Pedis e não recebeis, porque pedis mal” (Tg 4, 3).

Ora, se a prece mal feita não é atendida, quais são os requisitos necessários para a infalibilidade da oração? Quatro são, segundo São Tomás, as condições para obtermos aquilo que pedimos: “por nós mesmos, pedir coisas necessárias à salvação, devotamente e com perseverança”.1

“Por nós mesmos”

Quando alguém pede algo em favor de si próprio, já possui a disposição para receber a graça, mas, se intercede por outro, nem sempre este terá a alma aberta para acolhê-la e poderá colocar obstáculos à ação de Deus, como bem expressa Royo Marín: “Deus respeita a liberdade do homem, e não costuma conceder suas graças a quem não quer recebê-las”.2 Isto não significa que rezar pelo próximo seja ineficaz, mas, sim que não teremos certeza da utilidade da oração na vontade daquele por quem pedimos, pois, “a promessa foi feita, não para os que rezam para outros, mas para os que rezam para si mesmos: Dar-se-vos-á”.3

“Coisas necessárias à salvação”

Ao solicitar de Deus a graça da eterna salvação ou dos meios que a ela conduzem, Ele nunca deixa de atender, pois deseja-a mais do que nós mesmos e é Ele mesmo quem nos inspira os anelos de santidade. Contudo, por falta de sabedoria, nem sempre pedimos o que nos convém em ordem à felicidade eterna, donde o Criador, em sua infinita Bondade, não poderá nos conceder algo que venha a prejudicar a prática da virtude, pois, como diz Santo Agostinho “o que é útil ao doente, o médico sabe melhor do que ele.4

“Se não recebes, é porque pedes uma pedra. Porque, se é certo que és filho, não basta isso para receber, antes, a qualidade de filho é obstáculo para receber se, sendo filho, pedes o que não te convém, pelo contrário, também te garante que não podes receber quando peças o que não te convém. Não peças, pois, nada mundano; pede tudo espiritual, e infalivelmente receberás. […] Porque também vós – nos diz o Senhor –, que sois pais, esperais que vossos filhos vos peçam; e, se vos pedem algo inconveniente, lho negais; assim como, naturalmente, lhes concedeis o conveniente. […] Se com este espírito te aproximas de Deus e lhe dizes: “se não recebo, não me retiro”, indefectivelmente receberás. Isto sim, com a condição de que peças o que está bem te dê Aquele a quem o pedes e que te convenha a ti, que pedes.”5

“Devotamente e com perseverança”

Explica o “Doutor da oração”6, comentando o trecho citado de São Tomás, que na palavra “devotamente” o Doutor Angélico encerrou todas as condições que se requerem por parte do sujeito que ora; isto é, humildade, confiança e perseverança, sem deixar de rezar até o instante da partida deste mundo para encontrar o Supremo Bem, objeto dos anelos nas orações fervorosas feitas nesta Terra. Outro ponto é a insistência na oração.

Vejamos separadamente cada uma destas condições.

  • Humildade
    “Deus resiste aos soberbos, mas dá sua graça aos humildes” (Tg 4, 6). É próprio ao presunçoso contar consigo mesmo, depositando sua segurança nas capacidades que tem, sejam elas reais ou imaginárias, e confiando em suas próprias forças. Possui uma venda nos olhos e não quer pedir para ver a luz. O humilde, pelo contrário, reconhece que toda sua energia vem de Deus e nada pode sem Nosso Senhor Jesus Cristo.

    Deus, diz a Escritura, “apaga a memória dos orgulhosos” (Eclo 10, 21), mas desdobra-se sobre os humildes, em atenções e ternuras, e sempre está pronto para derramar com abundância os tesouros de sua liberalidade.

    Uma vez curvados ante a divina majestade, com o espírito despretensioso como o publicano da parábola (Cf. Lc 18, 9-14), devemos esperar com inteira confiança as graças pedidas. Ninguém, ao pedir um favor a outrem, crê não poder recebê-lo, pois, do contrário, não se atreveria a tentar conseguir o esperado. Se assim acontece entre os homens, como duvidar de Deus?

  • Confiança
    Apraz a Deus nossa fé em sua misericórdia, porque deste modo reconhecemos sua bondade, manifestada ao criar-nos e ao conceder-nos tantos dons. Abandonando-nos completamente nas mãos do Criador podemos esperar grandes coisas, pois sua indulgência é uma fonte inesgotável e nossa confiança pode ser comparada a um vaso vazio: quanto maior for este, maior será sua capacidade de receber e, em consequência, maior o número de graças de que será cumulado.7

    Essa confiança cega em Deus deverá ser conservada mesmo nas ocasiões de aridez espiritual, nas quais não parecem ser ouvidas nossas súplicas favoravelmente. Contudo, é preciso permanecer, segundo o conselho do Apóstolo, “esperando contra toda esperança” (Rm 4, 18). Assim, a oração tornar-se-á mais agradável à Divina Providência, pois nela reconhecemos nosso nada e calcamos a inclinação de auto-suficiência, inerente à natureza humana decaída, para esperar unicamente os bens que de Deus provêm.

  • Perseverança
    Esta confiança caminha sempre intimamente unida a outro valor: a insistência na súplica. Em certos casos, Deus não atende nossa prece com a rapidez que nós desejaríamos, para provar nossa fé e esperança. Dada a inconstância consequente do pecado, Deus experimenta nossas disposições, para não sermos levados por qualquer vento dos sentimentos ou arrastados pelas ondas das paixões, mas darmos frutos na perseverança (Cf. Lc 8, 15).

    Com efeito, muitas vezes, nos momentos de fervor, estamos animados por um desejo ardente, acompanhado da vontade de rezar e da certeza da obtenção da graça solicitada; entretanto, aparentemente recusado o primeiro pedido, – porque não é o momento oportuno de Deus conceder, ou mesmo porque Ele quer coroar nossa alma com o mérito da pertinácia –perdemos o entusiasmo inicial e abandonamos logo a oração.

    Ao dirigir a palavra a uma pessoa, ninguém, após tê-la chamado uma primeira vez sem obter resposta e nem mesmo a sua atenção, desiste de falar-lhe novamente. Ao contrário, repete o apelo, até esta lhe prestar ouvido. Se assim agimos nas relações humanas, porque razão não insistir na prece feita a Deus? Ele nos acolhe antes mesmo de formularmos nossa petição, e não deixará de atender com largueza.

    “Não sabemos quantas vezes quererá Deus que repitamos nossa oração para obter o que pedimos. Em todo caso, a demora mais ou menos prolongada ordena-se a nosso maior bem: para redobrar nossa confiança n’Ele, nossa fé, nossa perseverança”.8

    É preciso bater à porta divina até ela nos ser aberta. Cabe dizer que, quanto mais a demora se prolongue, maior será o dom, quando ele vier. Deus sabe dispor a ocasião adequada para derramar seus favores. “Quando Deus tarda em intervir é por razões mais altas e porque certamente nos dará com superabundância”.9

    “Deixai que Ele vos instigue a multiplicar vossas orações, não as atendendo senão depois do centésimo pedido. Ele disse que é preciso rezar sempre, deixai-o comportar-se em relação a vós de maneira a que rezeis sempre. Crede que isso vos será vantajoso”.10

    Pedir a perseverança final

    Quando devemos rezar? Sempre. Não há época, lugar e circunstâncias nas quais possamos dispensar a oração e nos abster da prática dela. Ela nos deverá acompanhar de modo contínuo até o momento de nossa morte, para o qual devemos implorar, sobretudo, a graça da perseverança final. Quantos são os pecadores arrependidos que tornaram a pecar, por não terem sido assíduos na oração! “Quem começa a orar deixa de pecar, quem deixa de orar começa a pecar”.11Salomão pediu a sabedoria e sua súplica agradou ao Senhor (Cf. 1 Re 3, 10), mas, no fim de sua vida, desviou-se seu coração e transgrediu a Lei de Deus (Cf. 1 Re 11, 4-10), porque não havia pedido a perseverança.

    A vida do homem sobre a Terra é uma constante luta! (Cf. Jó 7, 1) E ai dos que não persistem na oração! Durante todo o tempo de nosso combate é preciso ter essa poderosa arma nas mãos. Ela nos torna robustos e alcança-nos o prêmio da vitória!

    Teremos a certeza de que “se nossa oração reúne as condições que acabamos de mostrar, obterá infalivelmente, mais cedo ou mais tarde, o que nela pedimos a Deus. De fato, na prática obtemos muitíssimas coisas de Deus sem reunir todas estas condições, por um efeito superabundante da misericórdia divina. Mas, reunindo estas condições, obteríamos sempre, infalivelmente, – pela promessa divina e fidelidade de Deus em suas palavras –, inclusive aquelas graças que, como a perseverança final, ninguém pode merecer senão somente impetrar”.12

  • 1 “Ut sciliset pro se petat, necessaria ad salutem, pie et perseveranter” (SÃO TOMÁS DE AQUINO. Summa Theologiae. II-II, q. 83, a.15, ad 2. Para as citações da Suma Teológica, neste trabalho será sempre utilizada a tradução das Edições Loyola).
    2 “Dios respeta la libertad del hombre, y no suele conceder sus gracias a quien no quiere recibirlas” (ROYO MARÍN, Antonio. Teología de la Perfección Cristiana. 11. ed. Madrid: BAC, 2006. p.426. Tradução da autora).
    3 SANTO AFONSO DE LIGÓRIO. Op. cit. p. 57.
    4“Quid enim infirmo sit utile magis novit medicus quam aegrotus” (SANTO AGOSTINHO, apud SÃO TOMÁS DE AQUINO. S.Th. II-II, q. 83, a.15, ad 2).
    5 “Si no recibes, es porque pides una piedra. Porque, si es cierto que eres hijo, no basta eso para recibir; más bien la cualidad de hijo es obstáculo para recibir si, siendo hijo, pides lo que no te conviene, al contrario, también te garantiza que no puedes recibir cuando pidas lo que no te conviene. No pidas, pues, nada mundano; pide todo espiritual, e infaliblemente recibirás. […] Porque también vosotros – nos viene a decir el Señor –, aunque sois padres, esperáis que os pidan vuestros hijos; y, si os piden algo inconveniente, se lo negáis; así como, naturalmente, les concedéis y procuráis lo conveniente. […] Si con este espíritu te acercas a Dios y le dices: ‘Si no recibo, no me retiro’, indefectiblemente recibirás. Eso sí, a condición que pidas lo que está bien te dé Aquel a quien se lo pides y que te convenga a ti que lo pides” (SÃO JOÃO CRISÓSTOMO. Homilía 23, 4. In: Obras de San Juan Crisóstomo: Homilías sobre el Evangelio de Mateo. 2. ed. Madrid: BAC, 2007. p. 479. Tradução da autora).
    6 SANTO AFONSO DE LIGÓRIO. Op. Cit. p. 63.
    7 Ibid. p. 73.
    8 “No sabemos cuántas veces querrá Dios que repitamos nuestra oración para obtener lo que pedimos. En todo caso, la dilación más o menos prolongada se ordena a nuestro mayor bien: para redoblar nuestra confianza en El, nuestra fe, nuestra perseverancia” (ROYO MARÍN, Antonio. Nada te turbe, nada te espante. 2. ed. Madrid: Palabra, 1982. p. 115. Tradução da autora).
    9 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. A Ressurreição de Lázaro. In: Arautos do Evangelho. São Paulo, n. 39, mar. 2005. p. 9.
    10 “Laissez-le donc vous pousser à multiplier vos prières, en ne les exauçant qu’après la centième demande. Il a dit qu’il faut toujours prier, laissez-le se conduire à votre égard de manière à ce que vous priiez toujours. Cela vous sera avantageux, croyez-le” (BOUCHAGE, F. Pratique des vertus. 2. ed. Paris: Gabriel Beauchesne, 1918. Vol. III. p. 380. Tradução da autora).
    11 SANTO AGOSTINHO apud SPIRAGO, Francisco. Catecismo Católico popular. Trad. Artur Bivar. 6. ed. Lisboa: União, 1958. p. 291.
    12 “Si nuestra oración reúne las condiciones que acabamos de señalar, obtendrá infaliblemente, más pronto o más tarde, lo que en ella pedimos a Dios. De hecho, en la práctica obtenemos muchísimas cosas de Dios sin reunir todas estas condiciones, por un efecto sobreabundante de la misericordia divina. Pero, reuniendo esas condiciones, obtendríamos siempre, infaliblemente, – por la promesa divina y fidelidad de Dios a sus palabras – incluso aquellas gracias que, como la perseverancia final, nadie absolutamente puede merecer sino solamente impetrar” (ROYO MARÍN, Antonio. Nada te turbe, nada te espante. Op. cit. p. 115. Tradução da autora).

    O Papa, sol da Igreja

    São Pedro3Irmã Clara Isabel Morazzani, EP

    Em certa ocasião, vi no jardim de um palácio, um relógio de sol. Pareceu-me algo bem curioso. Aproximei-me para analisá-lo e comprovei que ele marcava a hora certa: nove e meia. Entre os variados e utilíssimos benefícios que nos proporciona a luz do astro rei, há um ao qual muitos não dão a devida importância, e, entretanto, ele é indispensável: o de indicar com exatidão a hora certa para toda a humanidade.

    Houve época em que os homens se guiavam durante o dia pelo sol, e à noite pelas estrelas. Se assim não fosse, como poderiam saber se eram nove horas da manhã ou três da tarde? Podemos imaginar as divergências de opiniões que daí decorreriam, pois cada qual quereria adaptar o horário segundo suas próprias conveniências…

    Assim, para presidir o tempo, Deus criou o curso solar, o qual segue com pontualidade imutável as leis estabelecidas pelo Supremo Artífice.

    O sol, símbolo da Virgem Maria

    Este pensamento leva-nos a considerações mais elevadas: ao ordenar o universo, o Criador fê-lo de forma hierarquizada, de tal modo que os seres inferiores simbolizam os superiores, tornando assim mais fácil às criaturas racionais — anjos e homens — subir até Ele.

    Por isso, entre os louvores dirigidos à Santíssima Virgem no Pequeno Ofício da Imaculada Conceição, canta a Igreja: “E a representou maravilhosamente em todas as suas obras”. O sol é nomeado inúmeras vezes no Ofício da Bem-Aventurada Virgem Maria como figura do nascimento do Salvador ou da beleza de Nossa Senhora: “Nascerá como o sol o Salvador do mundo e descerá ao seio da Virgem como a chuva sobre a relva”, “Ó Virgem prudentíssima, para onde ides como a aurora extremamente rutilante? Filha de Sião, toda formosa e suave sois, bela como a lua, eleita como o sol”, “Vossa maternidade, ó Virgem Mãe de Deus, anunciou a alegria a todo o universo: de Vós nasceu o Sol de Justiça, Cristo Deus nosso”, “Vossas vestes são alvas como a neve, e vosso semblante fulgura como o sol.”

    O Papa, fundamento da unidade

    Sol VaticanoMas, enquanto regulador do tempo, o sol simboliza o precioso legado deixado por Jesus Cristo antes de subir ao Céu, a realização da promessa feita aos Apóstolos — “Eu estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28, 20) —, que faz da Igreja um só rebanho reunido em torno de um só pastor: a autoridade suprema do Papa infalível.

    Com efeito, o que seria da Esposa Mística de Cristo se ela não estivesse estruturada em torno de um único detentor da verdade que, quando se pronuncia ex cathedra sobre assuntos de fé e moral, faz ouvir uma palavra absolutamente inerrante? Há muito tempo teria ela desmoronado como casa construída sobre a areia, corroída pelas dissensões e heresias, privada de seus próprios fundamentos.

    Se, pois, a Igreja atravessa triunfante e inabalável o curso dos séculos, é porque ela se encontra estabelecida sobre o Apóstolo Pedro como um edifício sobre seus alicerces. E ai de quem não queira se submeter à sua autoridade! Poderíamos compará-lo a um pobre louco que, vendo o sol brilhar ao meio-dia, insistisse em afirmar que é meia-noite. Em nada a fulgurância do sol se veria diminuída…

    Cristo instituiu a Igreja como sociedade visível

    Ao deixar este mundo e subir aos Céus, Cristo Jesus encerrou de forma gloriosa sua permanência física entre os homens, para sentar-Se à direita do Pai na eternidade. Doravante faria sentir sua presença através do poder sobrenatural e invisível da graça. Porém, assim como o homem é um composto de corpo e alma, no qual espírito e matéria se harmonizam e se completam, tornava-se necessário que a Igreja por Ele fundada não só vivesse do sopro do Espírito Santo, mas estivesse solidamente constituída como sociedade visível e jurídica, na pessoa dos Apóstolos e de seus sucessores.

    Para o exercício de tão alta missão, o Redentor, com didática divina, preparou seus discípulos ao longo de três anos de convívio, durante os quais os fez progredir no conhecimento e no amor das verdades eternas, destacando-os das influências mundanas. O ponto culminante dessa ruptura com o mundo parece ter-se dado no momento em que Jesus, após perguntar-lhes quais as opiniões dos judeus a respeito do Filho do Homem, inquiriu: “E vós, quem dizeis que Eu sou? (Mt 16, 15). Certamente criou-se um suspense, todos entreolharam-se hesitantes. Então o fogoso Simão, cedendo à inspiração da graça no fundo de sua alma, lançou-se aos pés do Mestre, exclamando: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo!” (Mt 16, 16).

    Pedro é o alicerce da Igreja

    Desde toda a eternidade o Verbo de Deus conhecia aquela cena. Enquanto Homem, porém, ardia em desejos de constatá-la com seus olhos carnais, e pode-se dizer que, desde o primeiro instante de sua concepção, seu Sagrado Coração pulsava com santa pressa de ouvir aquelas palavras que determinariam o nascimento da mais bela instituição da História. Possivelmente tenha experimentado uma divina emoção ao responder ao Apóstolo: “Feliz és, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que te revelou isto, mas meu Pai que está nos Céus. E Eu te declaro: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos Céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos Céus” (Mt 16, 17-19).

    Com esta solene promessa o Salvador acabava de anunciar o fundamento de sua Igreja: a pessoa de Pedro. Ele o revestiria do mesmo poder com o qual o Pai O enviara. “Foi a Pedro que o Senhor falou: a um só, a fim de fundar a unidade em um só”.1

    O Primado de Pedro: de Jerusalém a Roma

    Após a Ascensão do Senhor e a descida do Espírito Santo, os Apóstolos iniciaram sua pregação na cidade de Jerusalém. A autoridade de Pedro sobre eles foi reconhecida desde o começo, e o Cenáculo passou a ser o berço da Igreja. Os primeiros anos do ministério de Pedro foram particularmente árduos: lemos nos Atos a descrição, palpitante como um livro de aventuras, dos sucessos e reveses apostólicos pelos quais passaram o primeiro Papa e a nascente comunidade cristã. Deixando a sede episcopal de Jerusalém sob o encargo de Tiago o Menor, Pedro transladou-se para Antioquia; em seguida, guiado pelos desígnios de Deus, instalou-se definitivamente em Roma.

    A Providência, que tudo dispõe com sabedoria, preparava-lhe os caminhos e iria se servir dos restos do Império decadente como de uma plataforma, para sobre ela construir a Civilização Cristã.

    1São Paciano, Bispo de Barcelona, 3ª carta a Semprônio, n. 11.

    O amor a Deus, ato principal da caridade

    São VicenteEmelly Tainara Schnorr

    A excelência da caridade sobre as outras virtudes consiste, e de maneira especial, na razão do objeto material primário ao qual se relaciona, ou seja, o próprio Deus, com o Qual nos unimos.1 Além disso, seu objeto se estende por dois aspectos – a nós mesmos e ao próximo –, mas sempre em função de Deus:

    O objeto material sobre o que recai a caridade o constitui primariamente a Deus, e secundariamente a nós mesmos e todas as criaturas racionais que chegaram ou podem chegar à eterna bem-aventurança, e ainda, em certo modo, todas as criaturas, enquanto são ordenáveis à glória de Deus”.2

    Em sua dimensão fundamental – o amor a Deus em Si mesmo –, a caridade é definida por São Tomás como uma “amizade do homem para com Deus”:

    “[…] Já que há uma certa comunhão do homem com Deus, pelo fato que Ele nos torna participantes da bem-aventurança, é preciso que uma certa amizade se funde sobre esta comunhão. […] O amor fundado sobre esta comunhão é a caridade. É, pois, evidente que a caridade é uma amizade do homem para com Deus”.3

    Acrescenta ainda o Doutor Angélico que, para se ter uma amizade verdadeira, é preciso que o amor seja recíproco:

    “Segundo Aristóteles, não é qualquer amor que se realiza a noção de amizade, mas somente o amor de benevolência, pelo qual queremos bem a quem amamos. […] Entretanto, a benevolência não é suficiente para se constituir uma amizade, é preciso que haja reciprocidade de amor”.4

    Essa reciprocidade de amor é um ponto dominante no dinamismo da caridade. Desde antes da existência do mundo, o amor de Deus foi derramado sobre nós com abundância – “na vontade, no amor e no coração d’Ele, eu estive sendo amado por Ele desde toda a eternidade”.5

    Além de nos criar, Deus está constantemente nos sustentando no ser; faz-nos participar de sua própria natureza e nos cumula de favores e graças. Ademais, Ele arde em anseios pela nossa salvação, para, no Céu, gozarmos eternamente de seu convívio numa felicidade eterna: “Nós estaremos cheios de alegria quando entrarmos no Céu, mas Deus também estará contentíssimo por ver que, afinal, o plano eterno d’Ele a meu respeito se realizou. E a alegria d’Ele será maior do que a nossa, porque Ele nos ama, Ele nos quer!”.6

    Como retribuir a Deus essa infinitude de amor e dileção manifestado por nós? Diz um adágio: “Amor com amor se paga”. Portanto, Ele somente procura a nossa correspondência de amor; o que Ele mais deseja é que também O amemos.

    “O amor é o único entre todas as tendências, sentidos e afeições da alma, com o qual a criatura pode responder a seu Autor, não com plena igualdade, mas sim de uma maneira muito semelhante. […] Pois quando Deus ama, não deseja outra coisa senão que Lhe amemos; porque não ama para outra coisa senão para ser amado, sabendo que basta o amor para que sejam felizes os que se amam”.7

    E é este amor o ato principal da caridade, o qual apresenta duas formas características: o amor afetivo e o amor efetivo. Entre ambos, o mais importante e fundamental é o amor afetivo, pois se trata do exercício direto e imediato da virtude da caridade considerada em si mesma, consistindo no próprio amor a Deus, tal como brota da vontade informada pelo hábito infuso da divina caridade.8

    É um amor cheio de complacência e afeto, produzindo descanso e um gozo fruitivo na vontade. Isto se passa, porque, dado que o amor é um movimento da vontade em procurar o bem, quando o encontra, enche-se de gáudio e emoção. Ora, Deus é o Supremo Bem, em cuja contemplação a alma “sente frêmitos e ímpetos de alegria sem igual pelo prazer que tem de olhar os tesouros das perfeições do rei de seu santo amor”.9

    Tomada por esse amor, a alma suspira em desejos de estar com o Amado e de atingir uma plena e definitiva união com Ele. Entretanto, dificilmente neste vale de lágrimas ela poderá saciar este anseio, esperando, por esta razão, a vida eterna.

    “O coração, pois, que neste mundo não pode nem cantar nem ouvir os louvores divinos a seu gosto, entra em desejos sem igual de ser liberto dos laços desta vida para ir à outra onde se louva tão perfeitamente o bem-amado celeste, e, havendo-se esses desejos apoderado do coração, tornam-se tão poderosos e prementes no peito dos amantes sagrados, que, banindo quaisquer outros desejos, põem em desgosto todas as coisas terrenas, e tornam a alma toda desfalecida e doente de amor; e mesmo essa paixão progride às vezes tanto, que, se Deus o permitir, morre-se dela”.10

    Entretanto, é salutar ter bem presente que o amor não se traduz somente nas alegrias e consolos espirituais internos que dele dimanam, mas exige que tenha uma comprovação manifestada em obras, pois, do contrário, correria o risco de ser um amor romântico, baseado puramente em sentimentos. A sua perfeição só se completa com a outra forma de amor, que é o efetivo.

    “O amor verdadeiro não vai unido necessariamente a essas doçuras e consolações sensíveis, ainda pode ajudar-se delas quando aparecem espontaneamente como um presente de Deus. A pedra de toque do verdadeiro amor consiste no exercício das virtudes: “O amor – diz São Gregório – tem que comprová-lo com as obras”.11

    N S JesusAssim, o amor efetivo apresenta dois corolários: o cumprimento da lei divina e a perfeita conformidade da nossa vontade com a de Deus.12

    Esta conformidade de nossa vontade com a de Deus, deve ser inteira e amorosa. Exemplo disso foi o piedoso Jó que, tendo sido provado ao máximo, perdendo todos os seus bens, familiares e amigos, conformou-se com a vontade de Deus, dizendo: “Nu saí do ventre de minha mãe, nu voltarei. O Senhor deu, o Senhor tirou: bendito seja o nome do Senhor! Como foi do agrado do Senhor, assim aconteceu” (Jo 1, 21).

    Quanto à lei divina, ela deve ser praticada por puro amor, ou seja, necessita ser cumprida para agradar a Deus e não pelo interesse que poderia proporcionar a recompensa eterna; poderia não haver Céu nem inferno, mas a alma continuaria amando e temendo a Deus.

    Donde a importância do primeiro mandamento, que, no Decálogo, ocupa um lugar proeminente sobre os outros nove, devendo, por isso, ser praticado com um zelo maior. Do contrário, os demais sofreriam um abalo, ocasionando sérias consequências tanto no desenvolvimento pessoal, quanto no social. Mons. João Clá confirma o acima dito:

    “[…] O Primeiro Mandamento é o mais importante de todos, e é ele que nos dá a possibilidade de compreender bem todos os outros. A prática do Primeiro Mandamento da Lei de Deus é fundamental, e essa prática nós temos que realizar desde o momento em que acordamos até o momento em que vamos dormir, constantemente devemos estar com o nosso pensamento, nossa preocupação e nosso amor colocado nas coisas de Deus”.13

    1 Cf. ROYO MARIN, Antonio. Teología de la perfección cristiana. Op. cit. p. 126.
    2“El objeto material sobre que recae la caridad lo constituye primariamente Dios, y secundariamente nosotros mismos y todas las criaturas racionales que han llegado o pueden llegar a la eterna bienaventuranza, y aun, en cierto modo, todas las criaturas, en cuanto son ordenables a la gloria de Dios” (Ibid. p. 511. Tradução da autora).
    3 “[…] Sit aliqua communicatio hominis ad Deum secundum quod nobis suam beatitudinem communicat, super hac communicatione oportet aliquam amicitiam fundari. […] Amor autem hac communicatione fundatus est caritas. Unde manifestum est quod caritas amicitia quaedam est hominis ad Deum” (SÃO TOMÁS DE AQUINO. Summa Theologiae. II-II, q. 23, a. 1).
    4 “Secundum Philosophum, in VIII Ethic., non quilibet amor habet rationem amicitiae, sed amor qui est cum benevolentia: quando scilicet sic amamus aliquem ut ei bonum velimus. […] Sed nec benevolentia sufficit ad rationem amicitiae sed requiritur quaedam mutua amatio: quia amicus est amico amicus. Talis autem mutual benevolentia fundatur super aliqua communicatione” (Loc. cit).
    5 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Homilia da 4ª feira, da XIV Semana do Tempo Comum. Caieiras, 9 jul. 2008. (Arquivo IFTE).
    6 Loc. cit.
    7 “Solus est amor ex omnibus animae motibus, sensibus atque affectibus, in quo potest creatura, etsi non ex aequo, respondere Auctori, vel de simili mutuam rependere vicem. […] Nam cum amat Deus, non aliud vult, quam amari: quippe non ad aliud amat, nisi ut ametur, sciens ipso amore beatos, qui si amaverint” (SÃO BERNARDO DE CLARAVAL. Sermones sobre el Cantar de los Cantares. In: Obras completas. Madrid: BAC, 1987. Vol. V. p. 1030).
    8 Cf. ROYO MARIN, Antonio. Teología de la caridad. Op. cit. p. 219-220; 231.
    9 SÃO FRANCISCO DE SALES. Op. cit. p. 248.
    10 Ibid. p. 274.
    11 “El amor verdadero no va unido necesariamente a esas dulzuras e consolaciones sensibles, aunque puede ayudarse de ellas cuando se presentan espontáneamente como un regalo de Dios. La piedra de toque del verdadero amor consiste en el ejercicio de las virtudes: ‘El amor – dice San Gregorio – hay que probarlo con las obras’” (ROYO MARÍN, Antonio. Teología de la caridad. Op. cit. p. 232. Tradução da autora).
    12 Cf. Ibid. p. 233-242.
    13 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Homilia da 4ª feira, da III Semana da Quaresma. Caieiras, 12 mar. 2008. (Arquivo IFTE).

    Jesus: exemplo de obediência

    Flávia Cristina de Oliveira
    Sagrada Familia2

    Diz um conhecido provérbio: verba volant, exempla trahunt, isto é, as palavras voam, mas são os exemplos que arrastam e movem a vontade do homem. Desta forma, não basta uma explicação teórica ou um tratado de moral para convencer uma pessoa a praticar certa virtude; o que é preciso, antes de tudo, é tê-la visto gravada não num papel, mas em alguém.

    Este foi o procedimento de Nosso Senhor Jesus Cristo ao se encarnar. Não seria convincente que Ele apenas viesse à Terra, ditasse sua doutrina a alguns homens e depois retornasse para o Céu, “era necessário vê-Lo vivo, como modelo daquilo que Ele mesmo havia ensinado”.1 Por isso que, depois do lava-pés Ele ainda disse aos seus discípulos: “Dei-vos o exemplo para que, como eu vos fiz, assim façais também vós” (Jo 13,15). Desta forma, o Divino Mestre estimulava os seus discípulos a modelarem não só seus atos, mas o coração conforme ao d’Ele.

    A esse respeito, Hamon deixou excelente explicação:

    Quando Deus, em seus eternos decretos, decidiu a encarnação do Verbo, Ele se propôs mostrar aos olhos dos homens o modelo da vida nova que deveria salvá-los. Como homem, o Verbo encarnado lhes mostraria o caminho; como Deus, Ele lhes daria a garantia da perfeição do modelo. Suas virtudes seriam imutáveis, pois elas seriam a ação de um homem, e elas seriam uma regra segura, já que seria a ação de um Deus.2

    Na encarnação, obediência ao Pai

    Foi por meio da virtude da obediência que se realizou o sublime mistério da encarnação do Verbo e da redenção da humanidade. O Filho Unigênito de Deus se antecipou em fazer a vontade do Pai. Conforme o próprio Padre Eterno revelara a Santa Catarina de Sena:

    A humanidade que eu tanto amava, já não conseguia atingir sua meta, que sou eu. Impelido pela minha grande caridade, tomei nas mãos as chaves da obediência e a entreguei a meu Filho. […] Agora, quero que compreendas como essa grande virtude foi praticada pelo Cordeiro imaculado […]. Qual foi a razão pela qual se mostrou ele tão obediente? Foi seu amor pela minha glória e pela salvação dos homens. […] O Verbo encarnado foi fiel a mim, Pai eterno; por isso correu apaixonado pelo caminho da obediência. […]É no Verbo encarnado, portanto, que encontramos a obediência total. 3

    O divino exemplo de Nosso Senhor Jesus Cristo descrito pela pluma dos evangelistas, sob o influxo do Espírito Santo, é posto em realce sob um aspecto essencial de sua missão nesta Terra: Ele se encarnou a fim de cumprir a vontade do Pai, fazendo-se obediente até a morte.

    Nesta submissão, Jesus quis mostrar aos homens o quanto amou a obediência, pois sendo consubstancial com o Pai, abandonou esta igualdade para revestir-se de nossa carne, assumindo a condição de escravo (Fl 2, 7). Encontramos nos textos sagrados que “o Verbo se fez carne” (Jo 1, 14), em outra parte da escritura : “e se fez obediente” (Fl 2,8). Por isso, afirma Gay: “Fazer-se carne é sua constituição; se fazer obediente, é sua condição: uma resulta da outra, e esta se apoia sobre aquela; donde vem que ela é essencial e não pode mudar”.4

    Imediatamente ao entrar neste mundo, nosso Redentor deu-nos mostra do valor da obediência através de sua humildade. Ele, enquanto Deus e Senhor de todas as coisas, poderia ter criado um palácio suntuoso para nascer em meio às riquezas, contudo preferiu uma simples gruta, numa das cidades mais apagadas de Judá e para berço escolheu uma pobre manjedoura composta de palhas. De sua primeira atitude poderíamos esperar que Ele tivesse manifestado algum desejo. Qual terá sido?

    O Filho de Deus, entrando no mundo, não disse: eu farei isso, eu irei para lá, eu morarei em tal casa, eu seguirei o gênero de vida que me aprouver, eu contentarei todos os meus desejos. Passando do seio da virgem para uma pobre manjedoura, apenas vê a luz deste mundo quando já olha para o céu, entreabre seus bracinhos e diz com amor a seu Pai Divino: “Eis-me aqui, eu venho, ó Deus, para fazer a vossa vontade” (Hb 10, 9).5

    Tendo abraçado a inteira obediência a vontade do Pai, Jesus não se negou a obedecer também às prescrições legais da época, uma vez que já no seio da virgem submeteu-se ao decreto de César Augusto. Além disso, Ele, o Supremo Legislador e Pai de Moisés, quis demonstrar sua fidelidade e obediência à lei Mosaica, aceitando a circuncisão e a apresentação no templo, e em outras ocasiões compareceu no templo para comemorar as festas dos judeus. Empreende a viagem para o Egito, a fim de cumprir docilmente a ordem dada pelo anjo. Pouco depois, em Nazaré, quase nada se sabe apenas uma frase de São Lucas que percorrerá a História até o fim dos séculos: “E era-lhes submisso” (Lc 2, 51). Nisso se resume o programa de vida de Nosso Senhor, sob a autoridade de Maria e de José.

    Nos três anos de vida pública, Ele não cessou de ensinar a seus discípulos para que, em todas as coisas, eles tivessem uma inteira conformidade com a vontade de Deus. Não se limitou às palavras, mas quis que seus discípulos tivessem isso bem presente até mesmo em suas orações, quando ensinando-lhes a rezar, colocou como principal esta petição: “Seja feita a vossa vontade assim na terra como no Céu” (Mt 6,10), e para firmar a doutrina deu-lhes o seu exemplo: “Meu alimento é fazer a vontade do Pai” (Jo 4, 34)6, e em outra ocasião reafirmou: “Pois desci do Céu não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (Jo 6, 38).7

    Obediente até a morte

    cruz2Foi o próprio Nosso Senhor quem disse a Santa Teresa: não é obediente quem não está disposto a padecer, e por isso deveriam olhar para os sofrimentos d’Ele pois desta forma a prática da obediência iria lhes facilitar.8 De fato, nos momentos de padecimento, tornou-se mais explicita sua obediência por meio dos sofrimentos, pois a vontade do Pai consistia especialmente nisso. Para cumprir o mandato do Pai em relação aos homens Ele se fez obediente, remediando assim a falta de obediência de Adão, de acordo com o dizer do Apóstolo, em sua carta aos Romanos: “assim como pela desobediência de um só homem foram todos constituídos pecadores, assim pela obediência de um só todos se tornarão justos” (Rm 5, 19).

    Jesus Cristo quis padecer todos os tormentos possíveis para assim purificar o homem de todas as suas malícias e reparar o pecado de desobediência. Ele assumiu todos os tormentos até o momento supremo do Consummatum est.

    Morre só quando “tudo está consumado”, com uma obediência perfeita: Dixit: Consummatum est, et inclinatio capite, et tradidit spiritum (Jo 19, 30). O Consummatum est é a expressão mais adequada de toda a sua vida e obediência: como um eco do Ecce venio da encarnação. 9

    “Permanecerei convosco até o fim dos tempos”

    Nosso Redentor amou tanto o Pai que após ter padecido no Calvário, fez com que este mesmo sacrifício fosse renovado diariamente entre os homens, através da Celebração Eucaristia, podendo assim permanecer no meio dos homens.

    Neste sublime sacramento Jesus Cristo permanece para servir os homens com o banquete de seu Corpo e de seu Sangue; mais uma vez a presença d’Ele se encontra com a marca da obediência. Ele obedece prontamente à voz do sacerdote, seja ele quem for, tendo ou não alguma virtude ou devoção, bastando que pronuncie as palavras da consagração para que o Pão Vivo se faça presente; Ele fica no tabernáculo a espera de que alguma alma venha adorá-Lo ; deixando-Se conduzir por qualquer pessoa. “Qualquer que seja o número dos fiéis que desejam comungar Ele se submete à vontade deles, entra em seus corações para santificá-los, consolá-los, dar-lhes a felicidade do espírito, e, por vezes, para receber o beijo da traição“.10

    Em Jesus Sacramentado encontra-se um perfeitíssimo modelo de obediência: obedece em tudo, a todos e sempre; não exige condições, nada recusa, não se desculpa, não sabe senão obedecer.

    1 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plínio. Ser mestre e modelo para o próximo. In: Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei. n. 106, jan. 2007. p. 13.
    2 “Quand Dieu, dans sés décrets éternels, décida l’incarnation du Verbe, il se proposa de placer sous les yeux des hommes le modèle de la vie nouvelle qui devait les sauver. Comme homme, le Verbe incarné leur montrerait la voie; comme Dieu, il leur garantirait la perfetion du modèle. Ses vertus seraient imitables, puisqu’elles seraient le fait d’un homme, et elles seraient une règle sûre, puisqu’elles seraient le fait d’un Dieu” (HAMON, M. Méditations. Paris: Lecoffre, 1933. Vol I. p. 55- 56. Tradução da autora).
    3 SANTA CATARINA DE SENA. O Diálogo. Trad. João Alves Basílio. São Paulo: Paulinas, 1984. p. 358.
    4 “être fait chair, c’est sa contitution; être fait obeissant, c’est sa condition: l’une sort de l’autre, et celle-ci s’appuie sur celle-là; d’où vient qu’elle est comme essentielle et ne saurait changer” (GAY, Charles. De la vie et des vertus chrétiennes. Poitiers: H. Oudin Frères, 1878. p. 360. Tradução da autora).
    5 “Le Fils de Dieu entrant au monde n’a pas dit: Je farei ceci, j’irai là, j’habiterai telle maison, je suivrai le genre de vie qui me plaira, je contenterai tous mes désirs. Passant du sein de la Vierge dans une pauvre crèche, Il n’est plus tôt à la lumière du monde qu’il regarde vers le ciel, entr’ouvre ses petits bras et dit avec amours à son Père divin: Me voici, je viens, ô Dieu pour faire ce que vous voulez” (BOUCHAGE, F. Pratique des vertus. Paris: Gabriel Beauchesne, 1908. Vol. II. p. 301. Tradução da autora).
    6 Cf. RODRÍGUEZ, Alonso. Op. cit. p. 446.
    7 A respeito desta última frase de Nosso Senhor, “Eu desci do Céu não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (Jo 6, 38), é de muita importância fazer uma observação. Para não ocorrer nenhuma dificuldade em compreender como poderia haver alguma diferença de vontades entre a do Pai e a do Verbo encarnado, sendo Ele a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, a teologia nos explica: “Cristo en cuanto Verbo tenía ciertamente voluntad divina; y como la voluntad divina de Cristo coincide y se identifica absolutamente con la voluntad del Padre (ya que es un atributo de la divindad, comun a las tres divinas personas) síguese que en esos textos y otros parecidos alude Cristo a su voluntad humana en cuanto distinta de su voluntad divina, que coincide en absoluto con la de su Padre Celestial. […]El argumento para demonstrarlo es muy sencillo. Si en Cristo hay dos naturalezas integras y perfectas – como nos enseña la fe –, hay que concluir que había en el dos voluntades perfectamente distintas, la divina y la humana. De lo contrario habria que decir, o que la voluntad racional no pertenece ala integridad y parfeccion de la naturaleza humana ( lo que seria un disparate mayúsculo), o que la naturaleza humana de Jesucristo no era integra y perfecta (lo que seria herético). No hay subterfugio posible. Luego en Cristo, además de la voluntad racional humana hubo también voluntad sensible o apetite sensitivo, porque lo exige así la perfecta integridad de su naturaleza humana, si bien este apetito inferior estuvo enteramente subordinado y controlado por la voluntad racional” (ROYO MARIN, Antonio. Op. cit. 163).
    8 SANTA TERESA DE JESUS. Livro da Vida. Op. cit. p. 170.
    9 “Il ne meurt que lorsqu’il a ‘tout consommé’ par une parfaite obéissance: ‘Dixit: Consummatum est, et inclinatio capite, et tradidit spiritum’ (Jo 18, 30). Le Consummatum est: est l’expressin la plus vraie et la plus adéquate de toute as vie d obeissance; elle fait écho a l’Ecce venio de l’instant de l’incarnation. Ces deux paroles sont dês cris d’obeissant; et toute l’existace terrestre du Chrit Jésus tourne autour de l’axe reposant sur ces deux pôles (MARMION, Columba. Le Christ, idéal du moine. [s.l.]: [s.n], 1947. Vol. II. p. 339. Tradução da autora).
    10 Cualquiera que sea él número de fieles que quieren comulgar, Jesús se somete a la voluntad de ellos, entra en su corazón para santificarles, consolarles, darles la felicidad del espirito, y a veces para recibir el beso de la traición.(MAUCOURANT, F. Op. cit. p. 194- 195).

    O mais suave e santo dos nomes

    Sagrado CoraçãoIrmã Elizabeth MacDonald, EP

    Nem todos têm presente quanto a invocação do nome de Jesus é eficaz para obter graças e favores celestiais.

    “E seu nome será: Conselheiro Admirável, Deus Forte, Pai Eterno, Príncipe da Paz” (Is 9, 5).

    Sim, quanto é maravilhoso, rico e simbólico este nome que, segundo o Profeta Isaías, significa “Deus conosco”! Como o Arcanjo Gabriel deve ter enlevado a Santíssima Virgem Maria — que ponderava todas as coisas em seu coração — com estas palavras no momento da Anunciação: “E Lhe porás o nome de Jesus”! (Lc 1,31).

    Fecunda fonte de inspiração

    Esta frase, que ficou indelevelmente gravada no Imaculado Coração de Maria, chega aos ouvidos dos fiéis de todos os tempos, no orbe terrestre inteiro, fecundando os bons afetos de todo homem batizado. Ao longo dos séculos, diversas almas monásticas e contemplativas foram inspiradas por ela a tal ponto que inúmeras composições de canto gregoriano versam sobre o suave nome do Filho de Deus.

    Há uma misteriosa e insondável relação entre o nome de Jesus e o Verbo Encarnado, não sendo possível conceber outro que lhe seja mais apropriado.

    É o mais suave e santo dos nomes. Ele é um símbolo sacratíssimo do Filho de Deus, e sumamente eficaz para atrair sobre nós as graças e favores celestiais. O próprio Nosso Senhor prometeu: “Qualquer coisa que peçais a meu Pai em meu nome, Ele vo-la concederá” (Jo 14,13). Que magnífico convite para repeti-lo sem cessar e com ilimitada confiança!

    Invoque este nome poderosíssimo!

    A Santa Igreja, mãe próvida e solícita, concede indulgências a quem invocá-lo com reverência, inclusive põe à disposição de seus filhos a Ladainha do Santíssimo Nome de Jesus, incentivando-os a rezá-la com frequência.

    No século XIII, o Papa Gregório X exortou os bispos do mundo e seus sacerdotes a pronunciar muitas vezes o nome de Jesus e incentivar o povo a colocar toda sua confiança neste nome todo poderoso, como um remédio contra os males que ameaçavam a sociedade de então. O Papa confiou particularmente aos dominicanos a tarefa de pregar as maravilhas do Santo Nome, obra que eles realizaram com zelo, obtendo grandes sucessos e vitórias para a Santa Igreja.

    Um vigoroso exemplo da eficácia do Santo Nome de Jesus verificou-se por ocasião de uma epidemia devastadora surgida em Lisboa em 1432. Todos os que podiam, fugiam aterrorizados da cidade, levando assim a doença para todos os recantos de Portugal. Milhares de pessoas morreram. Entre os heróicos membros do clero que davam assistência aos agonizantes estava um venerável bispo dominicano, Dom André Dias, o qual incentivava a população a invocar o Santo Nome de Jesus.

    Ele percorria incansavelmente o país, recomendando a todos, inclusive aos que ainda não tinham sido atingidos pela terrível enfermidade, a repetir: Jesus, Jesus! “Escrevam este nome em cartões, mantenham esses cartões sobre seus corpos; coloquem-nos, à noite, sob o travesseiro; pendurem-nos em suas portas; mas, acima de tudo, constantemente invoquem com seus lábios e em seus corações este nome poderosíssimo”.

    Maravilha! Em um prazo incrivelmente curto o país inteiro foi libertado da epidemia, e as pessoas agradecidas continuaram a confiar com amor no Santo Nome de nosso Salvador. De Portugal, essa confiança espalhou-se para a Espanha, França e o resto do mundo.

    Uma retribuição agradável a Deus

    O ardoroso São Paulo é o apóstolo por excelência do Santo Nome de Jesus. Diz ele que este é “o nome acima de todos os nomes”, e louva seu poder com estas palavras: “Ao nome de Jesus dobrem-se todos os joelhos nos céus, na terra e nos infernos” (Fil 2,10).

    São Bernardo era tomado de inefável alegria e consolação ao repetir o nome de Jesus. Ele sentia como se tivesse mel em sua boca, e uma deliciosa paz em seu coração. São Francisco de Sales não hesita em dizer que quem tem o costume de repetir com frequência o nome de Jesus, pode estar certo de obter a graça de uma morte santa e feliz. Outro imenso favor!

    Mas este grande dom não nos pede alguma retribuição?

    Sim. Além de muita confiança e gratidão, o desejo sincero de viver em inteira consonância com as infinitas belezas contidas no santíssimo Nome de Jesus. E também — a exemplo do venerável bispo português Dom André Dias — o empenho em divulgá-lo aos quatro ventos. Digna de honra e louvor é a mãe verdadeiramente católica, que ensina seus filhos a pronunciar os doces nomes de Jesus e de Maria mesmo antes de dizer mamãe e papai, bem como a pautar sua vida pela desses dois modelos divinos.

    A herança espiritual de João Paulo II

    Papa João Paulo IIMadre Mariana Morazzani Arráiz, EP

    Terna devoção a Nossa Senhora em todos os momentos da vida e um comovedor apelo à Santidade estão no cerne da herança espiritual deixada pelo Papa João Paulo II.

    O Papa do Rosário, o Papa da Eucaristia, o Papa de Nossa Senhora de Fátima, o Papa da Consagração a Maria, o Papa impulsionador da santidade, o Papa dos movimentos leigos, o Papa da oração — são alguns títulos que caberiam a João Paulo II. Tantos são os aspectos de seu rico pontificado que alguns receberam menor atenção, e aqui pretendemos lembrá-los.

    Misericórdia e escapulário do Carmo

    Terá sido por mera coincidência que João Paulo II faleceu após haver assistido a uma Missa da Festa da Divina Misericórdia?

    Ora, foi ele um incentivador dessa devoção, canonizando santa Faustina Kowalska — a vidente polonesa falecida em 1930 — e reservando o segundo domingo da Páscoa para essa festa. Jesus pedira sua instauração nessa data, na qual perdoaria todas as culpas e penas para quem se confessasse e comungasse.

    Mas esta não é a única “coincidência”. Também é digno de nota que ele tenha morrido num sábado — dia relacionado com o escapulário de Nossa Senhora do Carmo —, e por sinal primeiro sábado do mês, o que nos fala dos pedidos da Santíssima Virgem em Fátima. João Paulo II usava o escapulário, que recebera quando era ainda menino.
    Bendito Rosário de Maria

    Era também intimamente relacionado com as aparições de Maria aos Três Pastorinhos, chegando a atribuir sua milagrosa sobrevivência ao atentado de 1981 à proteção da Virgem de Fátima. Teve em alta consideração as palavras de Maria, classificando-as de “extraordinária mensagem”, que “continua a ressoar com toda a sua força profética, convidando todos à constante oração, à conversão interior e a um generoso empenho de reparação dos próprios pecados e daqueles de todo o mundo”. Mas não é possível falar de Fátima sem recordar a devoção de João Paulo II ao Rosário. Já as primeiras fotografias dele, difundidas nos anos iniciais de seu pontificado, mostravam-no amiúde de terço em punho. Uma de suas últimas iniciativas foi declarar o Ano do Rosário e publicar a Carta Apostólica “Rosarium Virginis Mariae”, acrescentando os “Mistérios Luminosos” a esta devoção. Fez sua a comovente súplica do Beato Bártolo Longo: “Ó Rosário bendito de Maria, doce cadeia que nos prende a Deus, vínculo de amor que nos une aos Anjos, torre de salvação contra os assaltos do inferno, porto seguro no naufrágio geral, não te deixaremos nunca mais. Serás o nosso conforto na hora da agonia. Seja para ti o último ósculo da vida que se apaga”.

    Fé e entusiasmo pela Eucaristia

    Contudo, seu relacionamento com a Virgem tinha fundamento ainda mais sólido. Quando jovem seminarista, consagrara-se a Ela como “escravo de amor”, segundo a espiritualidade de São Luís Maria Grignion de Montfort. Ao se tornar Papa, incluiu no seu brasão o lema Totus Tuus (Sou todo Teu), para significar essa consagração.

    Relacionada com a devoção marial está a devoção à Eucaristia, como João Paulo II afirmou na Carta Apostólica “Mane nobiscum Domine”. Neste documento, insistiu na importância da Adoração eucarística, durante a qual devemos reparar “as negligências, esquecimentos e até ultrajes que o nosso Salvador Se vê obrigado a suportar em tantas partes do mundo”. Em 7 de outubro de 2004, o mundo pôde contemplá-lo constantemente ajoelhado durante a Missa e a hora de Adoração, no lançamento do Ano da Eucaristia. É fácil imaginar o quanto isto custou de sofrimento a seu debilitado organismo. Entretanto, quis ele nos dar esse magnífico exemplo de entranhada devoção eucarística.

    Desejava ele “alimentar a fé e o entusiasmo” pela Eucaristia, vendo-a homenageada, venerada, adorada nos espaços públicos: “A fé neste Deus que, tendo se encarnado, fez-se nosso companheiro de viagem, seja proclamada por toda parte, particularmente pelas nossas ruas e nas nossas casas, como expressão do nosso amor agradecido e fonte inexaurível de bênção”.

    Ostentar sem respeito humano os sinais da Fé

    Com agudo discernimento, percebeu a ação do Espírito Santo nos numerosos movimentos e associações leigas que surgiram um pouco por toda parte, trazendo novos carismas e novos métodos de apostolado para a Igreja. Para o Papa, eles constituem “uma ajuda preciosa em favor de uma vida cristã coerente com as exigências do Evangelho e de um empenhamento missionário e apostólico”. Na Encíclica “Redemptoris missio”, recomendava que esses movimentos crescessem “sobretudo entre os jovens”.

    E foi especialmente aos jovens que ele dirigiu as palavras “não tenhais medo!”, bradadas na primeira Missa dominical como Papa, em 22 de outubro de 1978. Muito se escreveu sobre o real significado desse apelo, mas João Paulo II mesmo se encarregou de esclarecer seu sentido: um apelo à santidade, ao testemunho e à evangelização. Muitas vezes bradaria depois: “Não tenhais medo de ser santos!”

    “Neste Ano da Eucaristia — escreveu na “Mane nobiscum, Domine” — haja um empenho, por parte dos cristãos, de testemunhar com mais vigor a presença de Deus no mundo. Não tenhamos medo de falar de Deus e de ostentar sem vergonha os sinais da fé.”

    Ensinou também pelo exemplo pessoal

    João Paulo II nos deu o exemplo. Não teve medo de enfrentar os males de hoje, reafirmando a doutrina perene da Igreja contra o aborto, a eutanásia e o relativismo moral; defendendo os valores da família e a dignidade do ser humano; pregando a prática da castidade, como naquele memorável dia no Estádio Nakibubo, em Uganda, em 1993, quando disse aos jovens: “A pureza de costumes, disciplinadora da atividade sexual, é o único modo seguro e virtuoso para pôr fim à trágica praga da Aids, que tem ceifado tantos jovens”.

    Mostrava o Papa que, apesar de toda a pressão em contrário, a castidade é uma virtude acessível a todos.

    É bom saber: Uganda é o único país da África onde a batalha contra a Aids está sendo vencida. Qual a fórmula do sucesso? A prática da castidade, estimulada pelo governo, tal qual o Papa havia aconselhado.

    Que aqueles que formarão o mundo do futuro não se esqueçam jamais do apelo de João Paulo II, feito a eles durante a Jornada da Juventude de 2000: “Jovens de todos os continentes, não tenhais medo de ser os santos do novo milênio!”

    A intuição do divino

    NennolinaMaria Teresa Ribeiro Matos

    Querido Deus Pai, vós que sois tão bom, perdoai e fazei que logo possa receber vosso filho Jesus. Querido Jesus, vos quero tanto, tanto, querido Jesus, vós quando nascestes na gruta em Belém sofríeis tanto também e tínheis tanto frio. Querido Jesus, eu quero remediar estas vossas dores. Querido Espírito Santo, vós que sois o amor do Pai e do Filho, iluminai meu coração e minha alma e abençoai-me“.
    Essas frases não saíram da pluma de um renomado teólogo, nem de uma venerável religiosa, mas das mãos de uma criança de seis anos.

    Na cidade eterna, próximo à Basílica de Santa Croce in Gerusalemme, no ano de mil novecentos e trinta e seis, a pequena Antonietta Meo, apelidada de Nennolina, teve sua perna amputada devido ao diagnóstico de osteossarcoma, um tumor maligno. A menina, então, começou a escrever uma série de cartas até o dia de sua morte. Os destinatários destas missivas não eram pobres mortais, mas a Virgem Santíssima, o Menino Jesus, o Espírito Santo e a Santíssima Trindade. Com simplicidade e tão ardente amor penetrava nesses altos mistérios de nossa fé.

    “Eu te bendigo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequenos” (Mt 11, 25).

    Deus muitas vezes não age conforme os critérios humanos. “Pois meus pensamentos não são os vossos, e vosso modo de agir não é o meu, diz o Senhor; mas tanto quanto o céu domina a terra, tanto é superior à vossa a minha conduta e meus pensamentos ultrapassam os vossos” (Is 55, 8-9). O Altíssimo opera maravilhas através de pessoas que aos olhos do mundo não tem nenhuma importância. Ele escolhe os que são considerados fracos para assim confundir os fortes, e os que são considerados estultos para confundir os entendidos (I Cor 1, 27). A estes ele pode dar a conhecer verdades que cientistas e filósofos abandonados a seus próprios esforços não atinam.

    Acima da natureza humana criada por Deus, está outra criatura, a graça, que aperfeiçoa a natureza e é distribuída a todos em medida determinada unicamente por Ele. Essa vida da graça infundida em nossa alma pelo batismo, se desenvolve através das virtudes e dons do Espírito Santo. Entre eles destacamos , o dom da inteligência, que nos dá penetrante intuição das coisas reveladas e naturais em ordem ao fim último sobrenatural.

    O Espírito Santo punha em movimento este dom, de maneira peculiar, na alma de Nennolina, como ela mesma lho pedia freqüentemente: “Querido Jesus, diga ao Espírito Santo que me ilumine de amor e me cumule de seus sete dons”. Possuía um tão ardente amor a Jesus Eucarístico que mesmo antes de fazer a primeira comunhão, escrevia-Lhe inúmeras cartas, obtendo a graça de recebê-lo na noite de Natal de mil novecentos e trinta e seis, quando permaneceu quase uma hora de joelhos em ação de graças, apesar dos graves incômodos que dessa posição lhe resultava pelo uso da perna ortopédica. Durante os últimos dias de sua existência a Eucaristia era-lhe levada todos os dias, sendo a última recebida no dia dois de julho de mil novecentos e trinta e sete, um dia antes de sua morte.

    Assim, Antonietta, que teve uma curta existência terrena, deixou testemunho de uma densa e penetrante intuição sobrenatural adquirida através do dom de inteligência, instrumento direto e imediato do Divino Paráclito.

    Uma grande alegria

    Natal4Irmã Clara Isabel Morazzani Arráiz,EP

    Assim como os pastores encontraram aquele adorável Menino reclinado sobre as palhas do presépio, nós também podemos reencontrá-Lo “reclinado” nos Tabernáculos de todo o mundo.
    Era noite. Os pastores que apascentavam seus rebanhos tinham acabado de ouvir o anúncio da Boa Nova que o Anjo lhes fizera, e disseram entre si: “Vamos até Belém e vejamos o que se realizou e o que o Senhor nos manifestou” (Lc 2, 15). Partiram então “com grande pressa” (Lc 2, 16) para a gruta, a fim de adorar o Verbo feito carne e servir de testemunhas do grande acontecimento para as épocas futuras.

    Docilidade à voz do Anjo

    Ao compreenderem o significado da notícia — a chegada do Messias — os pastores haviam sido tomados de um misto de temor reverencial e de consolação, mas não duvidaram sequer um segundo. Bastou a mensagem transmitida pelo celeste embaixador para robustecê-los na fé e confirmar suas esperanças.

    Sem dúvida, a luminosa aparição do Anjo veio acompanhada de uma graça especial que os fazia pressentir a grandeza do acontecimento anunciado. Flexíveis à voz do sobrenatural, não manifestaram reservas, não opuseram objeções; pelo contrário, deixaram tudo, abandonando com presteza até mesmo os rebanhos confiados à sua guarda e se dirigiram sem demora em busca do “Recém-nascido, envolto em faixas e posto numa manjedoura” (Lc 2, 12).

    Ali, como os Apóstolos que, anos mais tarde, seriam chamados de bem-aventurados pelo Divino Mestre, também eles poderiam ter ouvido dos lábios do Salvador: “Felizes os vossos olhos porque vêem! Ditosos os vossos ouvidos porque ouvem!” (Mt 13, 16).

    A humildade dos pastores atraiu o olhar de Deus

    Aqueles rudes camponeses foram objeto dessa predileção, por parte da Bondade Divina, muito mais por serem pobres de espírito do que por sua modesta condição social. A virtude da humildade, que os tornava aptos para compreender os mistérios de Deus, sem opor ceticismos arrogantes, atraiu sobre eles os olhares do Altíssimo, da mesma forma como Maria Santíssima, por Sua insuperável despretensão, foi escolhida para ser Mãe do Redentor.

    Já em Seu nascimento Jesus mostrava, assim, Seu amor pelos mais pequeninos, por aqueles que, reconhecendo seu nada ou até mesmo sua falência espiritual, põem toda a sua confiança no poder de Deus.

    Há quem possa ver nessa atitude de submissão diante de Deus, tão própria aos santos de todos os tempos, uma desprezível manifestação de ignorância ou insuficiência. Mas essa é a opinião daqueles que o próprio Jesus denominaria como os “sábios e entendidos” (Mt 11, 25) deste mundo e que, por conseguinte, acham-se privados do conhecimento das coisas divinas, por cegarem-se a si mesmos.

    A sabedoria verdadeira — esta sim, possuíam-na os pastores —, alcançaraa em altíssimo grau a virginal Senhora que Se inclinava em adoração ante a mísera manjedoura transformada em trono real. Movidos por essa “sabedoria da humildade”, os pastores haviam corrido até o estábulo e contemplavam a Sabedoria em Pessoa, que repousava placidamente sobre as palhas: “Ela apareceu sobre a terra, e habitou entre os homens” (Br 3, 38).

    O presépio de Belém e os altares da Igreja

    Hoje, de certo modo, se repete a cada dia o mistério de Belém. Dois milênios depois do nascimento de Cristo, as igrejas se encontram multiplicadas pelo mundo, e nos seus Tabernáculos repousa Jesus, verdadeiramente presente, embora oculto sob os véus do Pão Eucarístico, assim como repousou outrora sobre as palhas da manjedoura, envolto nos panos que Maria Santíssima Lhe preparara.

    A mesma presteza que admiramos nos pastores deve impelir-nos, também nós, a deixar tudo e correr para o altar, a fim de encontrar o Senhor que desce do Céu. Nos altares da Igreja, obediente à voz do sacerdote, nasce Nosso Senhor Jesus Cristo uma vez mais, fazendo-nos lembrar a maneira como Ele Se apresentou ante os olhares maravilhados da Virgem Mãe, de São José e dos pastores, naquela noite santa.

    O Natal não é uma mera recordação histórica

    A festa de Natal encerra um significado litúrgico extraordinário: embora o Santo Sacrifício seja oferecido todos os dias nos altares de tantas igrejas espalhadas pelo mundo, ele se reveste de uma unção e densidade simbólicas particulares na noite de 24 para 25 de dezembro.

    Não se trata apenas da recordação de fatos históricos envoltos nas brumas do passado, mas de uma realidade mais profunda do que aquela que captamos através dos sentidos. A Liturgia do Natal traz um conjunto de graças vinculadas a esse mistério, as quais se derramam sobre nossos corações quando o celebramos com fervor sincero.

    O ano litúrgico — ensinava o Sumo Pontífice Pio XII — que a piedade da Igreja alimenta e acompanha, não é uma fria e inerte representação de fatos que pertencem ao passado, ou uma simples e nua evocação da realidade de outros tempos. É, antes, o próprio Cristo, que vive sempre na sua Igreja e que prossegue o caminho de imensa misericórdia por Ele iniciado, piedosamente, nesta vida mortal, quando passou fazendo o bem, com o fim de colocar as almas humanas em contato com os Seus mistérios e fazê-las viver por eles, mistérios que estão perenemente presentes e operantes, não de modo incerto e nebuloso, de que falam alguns escritores recentes, mas porque, como nos ensina a doutrina católica e segundo a sentença dos doutores da Igreja, são exemplos ilustres de perfeição cristã e fonte de graça divina pelos méritos e intercessão do Redentor”.1

    igreja_arautosA Fé em Nosso Senhor, deitado na manjedoura e presente na Eucaristia

    Hoje não vemos, como os pastores, o Divino Menino deitado sobre as palhas, mas contemplamo-Lo, com os olhos da Fé, na Hóstia imaculada que o sacerdote apresenta para a adoração dos fiéis; não ouvimos as vozes dos anjos fazendo ecoar o “Glória!” pelas vastidões dos céus, mas chega até nós o apelo da Igreja, convidando seus filhos: “Venite gentes et adorate!”.

    Se grande foi a Fé daqueles homens simples ao acreditarem que, naquele pequenino vindo à terra em tal despojamento, e aquecido tão-só pelo bafo dos animais, ocultava-Se o próprio Deus, a nossa Fé poderá alcançar grau mais elevado se considerarmos esse mesmo Deus escondido na Eucaristia. E poderemos, nós também, ser contados entre os homens que o Senhor chamou de bem-aventurados: “Felizes aqueles que crêem sem ter visto!” (Jo 20, 29).

    Jesus, a Beleza suprema, vela-Se em vão aos olhos de quem tem Fé: apesar da infância à qual O reduziu seu amor, seu poder se manifesta nesse dia, e só Ele — quer sob a figura de frágil criança, quer sob as espécies eucarísticas — derrota os infernos e resgata a humanidade da vil escravidão do pecado.

    Natal: uma “clareira” alegre e luminosa

    Quantas graças de alegria e consolação concedidas por ocasião do Natal! A cada ano, em todas as épocas da Era Cristã, esta festa máxima abre uma “clareira” alegre e luminosa no curso normal, por vezes tão cheio de sofrimentos e angústias, da vida de todos os dias. Dominados pelas preocupações concretas ou pela ilusão deste mundo passageiro, os homens esquecem-se facilmente da eternidade que os espera e olham para esta terra como para seu fim último.

    Todos se afanam em busca da felicidade; entretanto, só uma é a verdadeira, e o Divino Menino vem para apontar o único caminho que a ela conduz: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14, 6). E nessa noite silenciosa, todos param diante da gruta de Belém, gozando, ainda que por alguns instantes, dessa alegria envolvente, trazida pelo Redentor. “Ali, os maus cessam seus furores, ali, repousam os exaustos de forças, ali, os prisioneiros estão tranquilos, já não mais ouvem a voz do exator. Ali, juntos, os pequenos e os grandes se encontram, o escravo ali está livre do jugo do seu senhor” (Jó 3, 17-19).

    De onde vem a felicidade que sentimos no Natal?

    Prolonguemos esses momentos de alegria vividos aos pés da manjedoura ou em torno do altar. De onde nos vem, ao certo, essa felicidade? Onde a poderemos encontrar?

    Encarnando-Se, Deus quis fazer-Se um de nós, para tornar essa felicidade ainda mais acessível, mais atraente, mais encantadora. Ao entrar neste mundo, o Divino Infante abre seus braços num gesto que prenuncia Sua missão salvadora e parece exclamar: “Eis que venho. […] Com prazer faço a vossa vontade” (Sl 39, 8-9), manifestando neste ato Sua perfeita obediência ao Pai, selada no Getsêmani: “Faça-se a vossa vontade e não a minha” (Lc 22, 42).

    Assim, na esplendorosa noite de Natal inicia-se o grande mistério da Redenção, em sua dupla perspectiva: é o perdão concedido ao homem réu, manchado pela culpa de Adão e por suas más ações; e também a elevação desse mesmo homem à ordem sobrenatural, convidando-o a participar da Família Divina, pelo dom da graça. Nessa adorável Criança vemos nossa pobre natureza galgar alturas inimagináveis, às quais seria incapaz de subir por suas próprias forças, e entrar na intimidade do Deus inacessível e infinito.

    Celebramos a nossa própria deificação

    O santo Papa Leão Magno, em seu célebre sermão sobre o Natal, mostrou, com palavras inspiradas, essa alegria universal que nos traz o nascimento de Cristo:

    “Ninguém está excluído da participação nesta felicidade. A causa da alegria é comum a todos, porque Nosso Senhor, vencedor do pecado e da morte, não tendo encontrado ninguém isento de culpa, veio libertar a todos. Exulte o justo, porque se aproxima da vitória; rejubile o pecador, porque lhe é oferecido o perdão; reanime-se o pagão, porque é chamado à vida”.2

    No Redentor, reclinado no presépio, vemos nossa humanidade, reconhecemos nEle um Irmão, “em tudo semelhante a nós, exceto no pecado” (Hb 4, 15); nos pastores, e em todos aqueles que circundam a manjedoura ou o altar, admiramos uma luz, de fulgor até então desconhecido, que brilha, expulsando as trevas da maldição do pecado no qual estavam envoltos. “Oh admirável intercâmbio! O Criador do gênero humano, assumindo corpo e alma, quis nascer de uma Virgem; e, tornando-Se homem sem intervenção do homem, nos doou sua própria divindade!”.3

    Celebramos, pois, no Natal, a nossa própria deificação.

    É preciso retribuir todo esse amor
    Quem não corresponderá com amor ao próprio Amor em Pessoa? Quem, remido, não se ajoelhará em adoração ante a fragilidade de um Redentor que Se faz pequeno para engrandecer os homens? Também nós, resta-nos retribuir esse mesmo amor ao Pequeno Rei que hoje Se nos entrega no mistério do altar.

    O amor torna o amante semelhante ao amado, afirma o grande místico São João da Cruz. Para consolidar essa união é necessário, entretanto, que Um desça até o outro pela ternura, ou que o segundo suba até o Primeiro pela veneração. Jesus já desceu até nós pela compaixão, pelo afeto, pela ternura… Subamos até Ele, ou melhor, peçamos, por intercessão de sua Mãe Santíssima, que Ele mesmo nos faça subir.

    Bem junto ao altar, entoando com os lábios o “Venite gentes et adorate” da Liturgia, cantemos com o coração nossa entrega sem reservas ao Menino Salvador.

    1 Pio XII, Mediator Dei, n. 150. Sermo 1 in Nativitate Domini.
    2 Sermo 1 in Nativitate Domini
    3Liturgia das Horas. Antífona da Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, I Vésperas.

    Quando o amor vence a razão

    SEscolastica1Irmã Juliane Campos, EP

    Quando Nosso Senhor veio ao mundo, trouxe-nos um mandamento novo: “Como eu vos tenho amado, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros”(Jo 13,34). Este amor levado às últimas consequências propiciou-nos a Redenção. E um relacionamento humano regrado e bem conduzido deve seguir o exemplo do Divino Mestre. O verdadeiro amor ao próximo é aquele que se nutre por outrem por amor a Deus e que tem o Criador como centro, visando a santidade daqueles que se amam. Já ensinava Santo Agostinho que só existem dois amores: ou se ama a si mesmo até o esquecimento de Deus, ou se ama a Deus até o esquecimento de si mesmo.

    Assim foi Santa Escolástica, alma inocente e cheia de amor a Deus, de quem pouco se conhece, mas que, abrindo-se à sua graça, adquiriu excepcional força de alma e logrou chegar à honra dos altares. Sua história está intimamente ligada à daquele que por desígnios da Providência nasceu com ela para a vida, o grande São Bento, seu irmão gêmeo e pai do monacato ocidental, a quem amou com todo o seu coração.

    Nasceram Escolástica e Bento em Núrsia, na Úmbria, região da Itália situada ao pé dos montes Apeninos, no ano 480. Como seu irmão, teve ela uma educação primorosa. Com seus pais, muito católicos e tementes a Deus, constituíam uma das famílias mais distintas daquelas montanhas. Modelo de donzela cristã, Escolástica era piedosa, virtuosa, cultivava a oração e era inimiga do espírito do mundo e das vaidades.

    Sempre caminhou em uníssono com seu irmão Bento, unidos já antes de nascer e irmãos gêmeos também de alma.

    Com a morte dos pais, Escolástica vivia mais recolhida no retiro de sua casa. Quando se inteirou que seu irmão deixara o deserto de Subiaco e fundara o célebre mosteiro de Monte Cassino, decidiu ela professar a mesma perfeição evangélica, distribuindo todos os seus haveres aos pobres e partindo com uma criada em busca do irmão.

    Encontrando-o, explicou-lhe suas intenções de passar o resto da vida numa solidão como a dele e suplicou-lhe que fosse seu pai espiritual, prescrevendo-lhe as regras que deveria seguir para o aperfeiçoamento de sua alma. São Bento, já conhecendo a vocação da irmã, aceitou-a e mandou construir para ela e a criada uma cela não muito longe do mosteiro, dando-lhe basicamente a mesma regra de seus monges.

    A fama de santidade desta nova eremita foi crescendo e, pouco a pouco, se juntaram a ela muitas outras jovens que se sentiam chamadas para a vida monástica, colocando-se todas sob a sua direção, juntamente com a de São Bento, formando assim uma nova Ordem feminina, mais tarde conhecida como das Beneditinas, que chegou a ter 14.000 conventos espalhados por todo o Ocidente.

    A cada ano, alguns dias antes da Quaresma, encontravam-se Bento e Escolástica a meio caminho entre os dois conventos, numa casinha que ali havia para este fim. Passavam o dia em colóquios espirituais, para depois tornarem a ver-se no ano seguinte. Um dos capítulos do livro “Diálogos”, de São Gregório Magno, ajudou a salvar do esquecimento o nome desta grande santa que tem lugar de predileção entre as virgens consagradas. O grande Papa santo narra com simplicidade o último encontro de São Bento e Santa Escolástica, em que a inocência e o amor venceram a própria razão.

    Era a primeira quinta-feira da Quaresma de 547. São Bento foi estar com sua irmã na casinha de costume. Passaram todo o dia falando de Deus. Ao entardecer, levantou-se São Bento decidido a regressar a seu mosteiro, para voltar apenas no próximo ano.

    Pressentindo que sua morte viria logo, Santa Escolástica pediu ao irmão que passassem ali a noite e não interrompessem tão abençoado convívio. Ao que o irmão respondeu:

    — Que dizes? Não sabes que não posso passar a noite fora da clausura do convento?

    Escolástica nada disse. Apenas abaixou a cabeça e, na inocência de seu coração, pediu a Deus que lhe concedesse a graça de estar um pouco mais com seu irmão e pai espiritual, a quem tanto amava.

    No mesmo instante o céu se toldou. Raios e trovões encheram o firmamento de luz e estrondos. A chuva começou a cair torrencialmente. Era impossível subir o Monte Cassino naquelas condições.

    Escolástica apenas perguntou a seu irmão?

    — Então, não vais sair? São Bento, percebendo o que se havia passado, perguntou-lhe:

    — Que fizeste, minha irmã? Deus te perdoe por isso…

    — Eu te pedi e não quiseste me atender. Pedi a Deus e Ele me ouviu — respondeu a cândida virgem.

    SBento_escolasticaPassaram aquela noite em santo convívio, podendo o santo fundador regressar ao seu mosteiro apenas no outro dia pela manhã. De fato, confirmou-se o pressentimento de Escolástica. Entregou sua alma ao Criador três dias depois deste belo fato. São Bento viu, da janela de sua cela, a alma de Escolástica subir ao céu sob a forma de uma branca pomba, símbolo da inocência que ela sempre teve. Levou o corpo para seu mosteiro e aí o enterrou no túmulo que havia preparado para si próprio. Alguns meses mais tarde também faleceu São Bento. Ficaram assim unidos na morte aqueles dois irmãos que na vida terrena se haviam unido pela vocação.

    Comentando este fato da vida dos dois grandes santos, São Gregório diz que o procedimento de Santa Escolástica foi correto, e Deus quis mostrar a força de alma de uma inocente, que colocou o amor a Ele acima até da própria razão ou regra. Segundo São João, “Deus é amor” (I Jo 4, 7) e não é de admirar que Santa Escolástica tenha sido mais poderosa que seu irmão, na força de sua oração cheia de amor. “Pôde mais quem amou mais”, ensina São Gregório. Aqui o amor venceu a razão, nesta singular contenda.

    Peçamos a Santa Escolástica a graça da restauração de nossa inocência batismal, para que cresça o amor a Deus em nossa alma e possamos ter sua força espiritual para dizer com toda propriedade as palavras de São Paulo: “Tudo posso naquele que me conforta” (Fl 4, 13).

    Liberdade ou escravidão?

    juizo fra_angelico1Madre Mariana Morazzani Arráiz, EP

    Aquele que quer ser livre eximindo-se da servidão legítima de Deus, transforma-se num escravo e, pelo contrário, aquele que se faz escravo da vontade de Deus progride infinitamente na liberdade.

    “No principio Deus criou o homem, e o entregou ao seu próprio juízo” (Eclo 15,14). A liberdade é um dom conferido por Deus exclusivamente aos seres racionais – anjos e homens.

    “A liberdade da pessoa, de fato, tem o seu fundamento na sua dignidade transcendente: uma dignidade que lhe foi doada por Deus, seu Criador, e que a orienta para o mesmo Deus. O homem, porque criado à imagem de Deus (cf. Gen. 1,27), é inseparável da liberdade, daquela liberdade que nenhuma força ou constrangimento exterior jamais poderá tirar-lhe e que constitui seu direito fundamental, quer como indivíduo, quer como membro da sociedade. O homem é livre porque possui a faculdade de se determinar em função da verdade e do bem. O homem é livre porque possui a faculdade de escolher « movido e determinado por uma convicção pessoal interior, e não simplesmente por efeito de impulsos instintivos cegos ou por mera coacção externa » (Const. past. Gaudium et Spes, n. 17). Ser livre é poder e querer escolher, é viver segundo a própria consciência”1.

    A liberdade é, portanto, um atributo da vontade humana, em virtude dela, pode-se executar uma coisa ou não, ou ainda pode-se escolher entre duas coisas opostas (libertas arbitrii, liberdade de escolher ou potestas ad opposita ou poder dos contrários)2. É ainda a faculdade de escolher os meios dentro da ordem (facultas electiva mediorum servato ordine finis)3.

    Assim, sendo a vontade uma faculdade que deve querer o que o entendimento lhe propõe como reto e conforme à ordem do ser, a liberdade não só não desaparece por seguir os ditames da razão, senão que encontra nesta a sua perfeição4. O conhecimento intelectual precede à vontade e ilumina o caminho, à maneira de uma tocha nas mãos de um viajante ou um farol a guiar a rota de um navio.

    Entretanto, ela não pode estar sujeita às paixões. Quanto mais seja a vontade independente do impulso das paixões, mais livre ela será. Quanto maiores sejam as influências alheias a ela, tanto maior desgaste sofrerá a liberdade. A dignidade do homem exige que ele proceda segundo sua livre e consciente escolha, isto é, movido e induzido pessoalmente por dentro e não levado por cegos impulsos interiores ou por mera coação externa(D 4317) .

    Se as paixões humanas, desregradas por influência exterior, como, por exemplo, o consumo de drogas, a sujeição a práticas de hipnotismo, o emprego de narco-análises, etc., chegassem a obnubilar o entendimento ou a anular a vontade, esta deixaria de ser livre.

    A falsa liberdade, ostentada por aqueles que se julgam livres, quando se negam a obedecer a lei de Deus, torna-os semelhantes aos seres brutos (animais) que obedecem somente aos próprios instintos e sob o impulso exclusivo da natureza procuram o que lhes convém e fogem daquilo que lhes é prejudicial. Eles não possuem leis que reprimam seus apetites, pois são inaptos para conhecê-las. Por isso, são incapazes de praticar a verdadeira liberdade 5.

    TERTULIANO comenta com toda propriedade a esse respeito: “Deus deu a lei ao homem não para privá-lo de sua liberdade, mas pelo contrário, para manifestar-lhe o seu apreço”6. Portanto, a razão pede a lei. Precisamente por ser livre, o homem deve estar submetido à lei.

    Convém ressaltar que, em relação a Deus, a liberdade pede o reconhecimento voluntário da dependência devida ao Criador. Assim no-lo explica a Carta Encíclica Libertas Praestantissimum, de LEÃO XIII:

    A natureza da liberdade humana, […] inclui a necessidade de obedecer a uma razão suprema e eterna, que não é outra do que a autoridade de Deus impondo seus mandamentos e preceitos. E este justíssimo domínio de Deus sobre os homens está longe de suprimir ou sequer enfraquecer a liberdade humana, mas faz precisamente todo o contrário: a defende e a aperfeiçoa; porque a perfeição verdadeira de todo ser criado consiste em tender a seu próprio fim e alcançá-lo. Ora, o fim supremo ao qual deve aspirar a liberdade humana não é outro que o próprio Deus. 7

    O contrário não é liberdade, mas libertinagem. Segundo um pensamento de SANTO AGOSTINHO, o primeiro libertino da história da humanidade foi o próprio Adão que se perdeu ao confundir liberdade com independência de Deus8. É cabível, então ponderar, ter sido Lúcifer o máximo libertino dos seres espirituais, quando ao proferir o brado de non serviam, “Escalarei os céus e erigirei meu trono acima das estrelas. Assentar-me-ei no monte da assembleia, no extremo norte. Subirei sobre as nuvens mais altas e me tornarei igual ao Altíssimo” (Is 14, 13-14), julgou estar reafirmando sua liberdade, mas, no entanto, permanece eternamente como o maior escravo e derrotado da história.

    O Cardeal JOSEPH RATZINGER, atual Papa BENTO XVI, assim se referiu ao problema da liberdade: “[…] A ideia de que ao rejeitar o que é mau fica tolhida minha liberdade, constitui uma perversão da liberdade. Em efeito, a liberdade só encontra seu espaço criativo no âmbito do bem”9

    Deus criou o homem perfeitamente livre, e o pecado não é senão um defeito da verdadeira liberdade. O ponto vulnerável da natureza humana é esta liberdade imperfeita e caprichosa, e enquanto o homem permanece neste mundo tem o triste privilégio de poder desviar-se rumo ao pecado. Segundo TANQUEREY: “A criatura […] pode, efetivamente, desviar os olhos do bem verdadeiro para os voltar para o bem aparente, apegar-se a este último e preferi-lo ao primeiro; e é precisamente esta preferência que constitui o pecado”10

    Em consequência, pode-se afirmar que o verdadeiro uso da liberdade não inclui a faculdade de pecar. “A escolha da desobediência e do mal é um abuso da liberdade e conduz à «escravidão do pecado» (Rm 6,17)” (CIC 1733) . Assim, a possibilidade de se afastar do bem não participa da essência da liberdade. Se tal fosse, teríamos que cair na aberração de afirmar que Deus, Jesus Cristo, os anjos, os santos do céu, que carecem dessa possibilidade, não são livres ou pelo menos o são menos perfeitamente do que o homem em estado de prova.

    Deus é libérrimo, entretanto impecável porque não pode operar nada contrário a sua própria natureza. Afirma ROYO MARIN:

    É um grande erro, com efeito, acreditar que a faculdade ou poder de pecar pertença à essência da liberdade. Pelo contrario, essa defectibilidade da liberdade humana que lhe põe nas mãos o triste privilégio de poder pecar, é um grande defeito e imperfeição da mesma liberdade, que unicamente afeta às criaturas defectíveis (que podem falhar), não a Deus nem a Jesus Cristo homem que são intrínsecamente impecáveis por sua própria natureza divina 11.

    A esse respeito são luminosos os ensinamentos de SÃO TOMÁS, em seus comentários ao Evangelho de São João, contidos na Carta Encíclica Libertas Praestantissimum:

    Todo ser é o que lhe compete ser por sua própria natureza. Em consequência, quando é estimulado por um agente exterior, não opera por sua própria natureza, mas por um impulso alheio, o qual é próprio de um escravo. Ora, o homem, por sua própria natureza, é um ser racional. Portanto, quando opera segundo a razão, age em virtude de um impulso próprio e de acordo com a sua natureza: nisso consiste precisamente a liberdade. Mas quando peca, age à margem da razão, atua como se fosse impelido por um outro e estivesse submetido ao domínio de outrem; por isto, quem comete o pecado, é servo do pecado 12.

    E completa SANTO AGOSTINHO:

    É esta a nossa liberdade: submetermo-nos a essa Verdade; [tal liberdade] é o nosso mesmo Deus, que nos livra da morte, ou seja da condenação do pecado. Com efeito, essa mesma Verdade, [que é] também um homem a falar com os homens, diz aos que acreditam: se permanecerdes na minha palavra sereis verdadeiramente meus discípulos, e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará (Jo 8,31). Efectivamente, de nada a alma disfrui com liberdade, a não ser o que disfrui com segurança.13

    À luz desses princípios fica evidente que deixar-se levar pelas paixões não significa exercer a própria liberdade, senão operar com uma liberdade defectiva e até mesmo inclusive cair na escravidão.

    Conclui-se que, se a liberdade é a faculdade de eleger, quanto mais numerosos sejam os obstáculos vencidos por ela, mais fica demonstrada a sua força. Deixar-se arrastar pela correnteza é fácil e, pelo contrário, a liberdade, operando segundo a razão contra as inclinações viciosas, manifesta toda sua plenitude e vigor.

    Em sentido oposto, as paixões desregradas obnubilam o entendimento e debilitam a vontade. Quem terá suficiente má fé para afirmar que nisto consiste a liberdade?

    Finalmente, aquele que se deixa levar pelas más paixões passa facilmente do ato ao costume, e portanto ao vício; do vício à abulia (inércia da vontade); da abulia ao envilecimento. Ora, isto não é escravidão?

    1Beato João Paulo II, Mensagem para o XIV Dia Mundial da Paz , 1/1/1981 {HYPERLINK “http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19651207_gaudium-et-spes_po.html”}
    2JOLIVET, Régis. Traité de Philosophie II. 5. ed. Paris: Emmanuel Vitte, 1955. p.606.
    3 HERRERA ORIA, Angel . La palavra de Cristo. 1953, VIII, p.760.
    4Ibid.p.607
    5 Cf. LEÃO XIII. Libertas praestantissimum, 1888, nº3. http://www.vatican.va/holy_father/leo_xiii/encyclicals/documents/hf_l- xiii_enc_20061888_libertas_sp.html . Acessado em 22, Novembro, 2007.
    6Apud: HERRERA ORIA. vol III, p. 680. – Dios dió la ley al hombre no para privarle de su libertad, sino para manifestarle su aprecio.
    7La naturaleza de la libertad humana, (…) incluye la necesidad de obedecer a una razón suprema y eterna, que no es otra que la autoridad de Dios imponiendo sus mandamientos y prohibiciones. Y este justísimo dominio de Dios sobre los hombres está tan lejos de suprimir o debilitar siquiera la libertad humana, que lo que hace es precisamente todo lo contrario: defenderla y perfeccionarla; porque la perfección verdadera de todo ser creado consiste en tender a su propio fin y alcanzarlo. Ahora bien: el fin supremo al que debe aspirar la libertad humana no es otro que el mismo Dios.(LEÃO XIII. Libertas praestantissimum, 1888, Op. cit. nº 4. Tradução do autor)
    8Apud HERRERA ORIA, vol III, p. 680.
    9BENTO XVI.HYPERLINK “http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19651207_gaudium-et-spes_po.html” (2005, p. 89).
    10TANQUEREY, Adolphe. Compêndio de Teologia Ascética e Mística. Lisboa: Editorial Áster, 1961. p.35.
    11Es un gran error, en efecto, creer que la facultad o poder de pecar pertenezca a la esencia de la libertad. Al contrario, esa defectibilidad de la libertad humana que le pone en las manos el triste privilegio de poder pecar, es un gran defecto e imperfección de la misma libertad, que únicamente afecta a las criaturas defectibles (que pueden fallar), no a Dios ni a Jesucristo hombre que son intrínsecamente impecables por su misma naturaleza divina.( ROYO MARIN, Antonio. Jesucristo y la vida cristiana. Madrid: B.A.C 1961, p.167, tradução do autor)
    12Todo ser es lo que le conviene ser por su propia naturaleza. Por consiguiente, cuando es movido por un agente exterior, no obra por su propia naturaleza, sino por un impulso ajeno, lo cual es propio de un esclavo. Ahora bien: el hombre, por su propia naturaleza, es un ser racional. Por tanto, cuando obra según la razón, actúa en virtud de un impulso propio y de acuerdo con su naturaleza, en lo cual consiste precisamente la libertad; pero cuando peca, obra al margen de la razón, y actúa entonces lo mismo que si fuese movido por otro y estuviese sometido al dominio ajeno; y por esto, el que comete el pecado es siervo del pecado.(LEÃO XIII. Libertas praestantissimum, 1888, Op. cit. Tradução do autor)
    13 AGOSTINHO. Trad. Antônio Soares Pinheiro. O livre arbítrio. 3. ed. Braga: Publicações da Faculdade de Filosofia da UCP, 1988. p. 134.

    A vida consagrada na Sociedade Regina Virginum

    regina_viginumFahima Akram Salah Spielmann

    O sino soa, mais uma vez, no silêncio dos corredores de um mosteiro da Sociedade de Vida Apostólica de Direito Pontifício Regina Virginum. Um ruído corriqueiro e banal para o mundo moderno, mas ali, para as religiosas, reveste de grandeza, convidando cerca de sessenta almas “anônimas” – que sentem em si o chamado para o heroísmo – para um ato da comunidade: a recitação do Rosário.

    Num mundo onde a grande maioria dos homens é sôfrega de liberdade, qual seria a razão de tantas jovens renegarem sua vontade própria, e com alegria sujeitarem-se, em obediência a uma regra, a um simples badalar de sino?

    A resposta encontra-se no apelo para a santidade (VS 17-19). Todos os batizados são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade. Contudo, os religiosos vão mais além e consagraram a própria vida ao Senhor, no espírito e na prática dos conselhos evangélicos: obediência, pobreza e castidade. 1

    Segundo o atual Código de Direito Canônico, a principal característica de quem aderiu a vida consagrada é uma entrega total nas mãos do Superior, mediante votos perpétuos ou temporários, implicando a “separação do mundo que é própria da índole e finalidade de cada instituto” (Cân 607 §3).

    _ND35796“Cesse a vontade própria, e já não haverá inferno” dizia São Bernardo. Segundo as normas da Sociedade Regina Virginum, é “regulamentado o alcance da obediência2, e determinado os graus de obrigação com o cerimonial correspondente”. A este respeito comenta Mons. João S. Clá Dias, o seu Fundador: “o voto de obediência, que assim está bem designado, não estaria mal se se chamasse ‘voto de liberdade’, pois é nesse voto que o membro da instituição se vê livre dos erros e faltas que poderia cometer caso seguisse o impulso de seus instintos”.

    Quanto à prática do conselho evangélico da pobreza, o próprio Cristo ordenou-a aos seus seguidores: “Qualquer um de vós, que não renuncia a tudo o que possui, não pode ser meu discípulo” (Lc 14,33). Conforme o Magistério da Igreja, “o preceito do desprendimento das riquezas é obrigatório para se entrar no Reino dos céus” (CEC 2544).

    Na Sociedade Regina Virginum, a regra, ou ordo, “incentiva o desprendimento dos bens materiais, dispondo deles com a prévia autorização da superiora”, havendo um cerimonial específico para a distribuição de bens.3

    A Castidade4, também chamada virtude angélica, “é a maneira eminente de se dedicar mais facilmente a Deus com coração indiviso” (CEC 2349).

    Aos membros desta sociedade, ela é estimulada, ao mesmo tempo em que é proporcionada a fuga das ocasiões próximas. Por exemplo, temos em nossos meios a prática da sábia norma de antigas regras de quase todos os mosteiros posteriores ao século V, onde se vedava a possibilidade de sair sozinha, inclusive em missão, além de outras normas como a proibição do acesso a algumas comunicações sociais, como a internet, sem a autorização expressa da Superiora, e o relacionamento com pessoas do outro gênero sem a licença da mesma”.

    Além de praticar os conselhos evangélicos, as religiosas cumprem as normas que estão sob o carisma do fundador, conforme o cânon 576 12. “O fundador representa para o religioso uma imagem divina, um modelo que, na sua vida e em seu ensinamento, reproduz a Cristo de maneira adaptada a seus filhos”, segundo as sábias palavras do Padre Gilmont.5

    Nos pilares da espiritualidade da Sociedade Regina Virginum encontramos “uma concisa expressão: a devoção a Jesus Eucarístico e a Maria Santíssima, e a fidelidade ao Papa”.

    “Pela recepção frequente ou diária da Santíssima Eucaristia, aumenta-se a união com Cristo; alimenta-se abundantemente a vida espiritual; a alma se enriquece com as virtudes e, a quem a recebe, é dado um penhor mais seguro da felicidade eterna” (EM 37), além das comunhões diárias, há a adoração ao Santíssimo Sacramento que é exposto habitualmente nas casas dessa Sociedade.6

    _ND35929Cônscias de que por suas próprias forças não conseguem alcançar a santidade, as jovens religiosas, com assídua frequência ao Sacramento da Penitência, rezam, quotidianamente, além da Liturgia das Horas e de diversas orações, os vinte mistérios do Rosário. Voltando-se para Maria Santíssima, “a primeira e perfeita consagrada, carregada por aquele Deus que Ela leva nos braços; Virgem, pobre e obediente, toda dedicada a nós, porque é toda de Deus” 7, com a Sua materna ajuda renovam, diária e constantemente, o seu “Praesto sum”, “eis me aqui”, para comunicar aos outros a dádiva do seu carisma (cf. 1 Cor 14, 12) e testemunhar em primeiro lugar o maior carisma, que é a caridade (cf. 1 Cor 13)8.

    1 Cân 573, § 1: “A vida consagrada pela profissão dos conselhos evangélicos é uma forma estável de viver, pela qual os fiéis, seguindo mais de perto a Cristo sob a ação do Espírito Santo, consagram-se totalmente a Deus sumamente amado, para assim, dedicados por título novo e especial a sua honra, à construção da Igreja e à salvação do mundo, alcançarem a perfeição da caridade no serviço do Reino de Deus e, transformados em sinal preclaro na Igreja, prenunciarem a glória celeste”.
    2 Cân 601: “0 conselho evangélico da obediência, assumido com espírito de fé e amor no seguimento de Cristo obediente até à morte, obriga a submissão da vontade aos legítimos Superiores, que fazem as vezes de Deus quando ordenam de acordo com as próprias instituições”.
    3 Ordo de Costumes. Arautos do Evangelho. 2001, p.56.
    4 Cân 599: “0 conselho evangélico da castidade, assumido por causa do Reino dos céus e que é sinal do mundo futuro e fonte de maior fecundidade num coração indiviso, implica a obrigação da continência perfeita no celibato”.
    5 GILMONT. Jean François. Paternité et Médiation du Fondateur d’Odre. Toulousse:1964. p. 416-4 17.
    6 Cân. 663 §2: “Os membros quanto possível, participem todos os dias do sacrificio eucarístico, recebam o santíssimo Corpo de Cristo e adorem o próprio Senhor presente no Sacramento”.
    7. Papa Bento XVI, homilia, 2 de fevereiro de 2010.
    8. Papa Bento XVI, homilia, 2 de fevereiro de 2009.

    “SOU CRISTÃO”

    martirJuliana Montanari

    Fazer tal afirmação, nos dias atuais, não causa tantas contrariedades como nos antigos tempos, em que incontáveis mártires deram suas vidas com derramamento de sangue, e regaram o solo para que esta afirmação pudesse perdurar pelos séculos futuros. De fato, ao olharmos para o passado, quanto sangue, suor e lágrimas foram necessários para que hoje se pudesse dizer com toda propriedade e ufania que somos filhos de Nosso Senhor Jesus Cristo e da Santa Igreja.

    Nos primeiros séculos, os imperadores romanos infligiam aos cristãos torturas as mais cruéis possíveis, pensando assim que acabariam com a verdadeira religião. No entanto, quanto mais os justos vertiam sangue, mais faziam a Igreja florescer, pois, vendo a coragem com que os mártires entregavam-se nas mãos dos carrascos e das feras por amor a Cristo Jesus, e a audácia com que increpavam seus algozes, multidões se convertiam. Segundo a famosa frase de Tertuliano, “o sangue dos mártires era a semente de cristãos”.

    Assim, aconteceu nas cidades de Lyon e Vienne, onde o enorme crescimento de cristãos, fez aumentar o ódio do cruel imperador Marco Aurélio, determinando que, nestas duas cidades da Gália, aquele que se apresentasse como cristão, por lei, deveria ser morto. Entre o povo se espalhava inúmeras calúnias contra os cristãos, que os tornavam mal vistos nos mercados, nas ruas e nas praças públicas. O furor desta população se manifestou principalmente contra um diácono chamado Santo, natural de Vienne que exercia seu ministério na cidade de Lyon. Conseguiram prendê-lo e levaram-no ao tribunal. Como era estrangeiro interrogaram-no: “Qual é o seu nome?”. Ele respondeu: “Sou cristão”.

    Estupefatos com tal resposta, perguntaram: “Qual é sua pátria?”. Santo respondeu: “Sou cristão”. Confusos e com muito ódio perguntaram: “Qual é o seu ofício, e o que faz?”. Sem temor e com toda convicção, replicou mais uma vez: “Sou cristão”. E a todas as perguntas que lhe faziam, respondia jubilosamente somente com essas palavras: “Sou cristão!”.

    Esta afirmação ressoou aos ouvidos dos carrascos como sinal de condenação, que indignados e furiosos açoitaram Santo com lâminas de bronze incandescentes, de modo que seu corpo tomou-se uma única chaga, perdendo o aspecto humano. Como ainda lhe restara vida, o imperador mandou estendê-lo sobre o potro (cavalo de madeira em que se torturavam os condenados), mas qual não foi sua surpresa quando, tendo acabado esse suplício, o corpo de Santo recuperou-se miraculosamente voltando à forma normal.

    Por fim, levaram o diácono Santo e mais um companheiro, que também aderira ao cristianismo, ao anfiteatro onde foram flagelados, arrastados pelas feras, sentados em cadeiras de ferro em brasas e, permanecendo firmes na fé, foram por fim degolados. Para os imperadores, acabar com a existência de um cristão era uma pseudo vitória, mas “para a Igreja de Cristo era mais um mártir e no céu mais um santo”.1

    Este sangue gloriosamente derramado trouxe muitos frutos para a Igreja, pois, o ardente desejo de derramarem todo seu sangue em defesa da Fé, fez com que não só eles recebessem a coroa da glória eterna, mas também muitos outros que, vendo o exemplo destes mártires, se converteram, e os que haviam apostatado covardemente, movidos por um verdadeiro arrependimento, confessaram novamente a fé e foram também martirizados.

    Alguém poderia objetar, dizendo que seria melhor que eles vivessem para expandir o Reino de Deus. Porém, a ideia de serem apóstolos de outra maneira nem lhes passava pela cabeça, pois “o exemplo heróico do martírio dos primeiros cristãos atraiu para a Fé muito mais gente do que se eles não tivessem oferecido suas próprias vidas, de modo que morrendo, eles faziam mais apostolado que vivendo”.2 Muitas pessoas perseveraram ao longo dos séculos, entraram para a Igreja e se santificaram em virtude desse exemplo, como São Santo, santo não só pelo nome, mas também pelo modelo de vida.

    Quão grandioso é, depois de dois mil anos, sentir-se incorporado ao santos mártires na mesma Fé e como irmãos na grande família cristã. Sejamos, pois, imitadores destes magníficos exemplos, e se no futuro tivermos que sofrer por causa do nome de Cristo, glorifiquemos a Deus que nos deu o exemplo máximo do martírio morrendo na Cruz, confiantes de que, se permanecermos firmes na Fé, receberemos a coroa da glória que nos espera!

    1CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Na avenida dos becos sem saída, a vitória de Cristo Triunfador: Conferência. São Paulo, 3O jun. 1993. (Arquivo IFTE).
    2CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Organização e sabedoria na Igreja das catacumbas: Conferência. São Paulo, 1O jul. 1982. (Arquivo IFTE).

    Manso e humilde de coração

    SFranciscoSalesIrmã Juliane Vasconcelos Almeida Campos,EP

    Stress… Palavra talismânica criada aparentemente para justificar todos os males que acometem os homens de nosso tempo. Quem não dorme bem é porque está com stress; quem fica nervoso no trabalho, está stressado. Problemas familiares? Ora, a culpa também é do stress. Até mesmo o mau gênio, como é popularmente conhecido o temperamento colérico, encontra justificativa no stress. Embora a vida agitada e insegura de hoje realmente provoque stress, este não pode ser o escudo atrás do qual se esconde quem não quer combater seus defeitos temperamentais.

    Vejamos o exemplo de um homem de temperamento, o qual, com o auxílio da graça, soube dominar-se a ponto de ficar conhecido e venerado por todos como o santo da doçura e da amabilidade: São Francisco de Sales.

    A infância de um menino inocente

    Primogênito do Barão de Boisy, nasceu Francisco em 1567 no castelo de Sales, na Sabóia, naquele tempo um país independente que abarcava territórios hoje pertencentes à França, Itália e Suíça. Sua mãe, Dona Francisca de Boisy, senhora muito virtuosa, soube incutir-lhe desde a mais tenra infância o amor a Jesus e Maria. Quiçá também dela tenha recebido a salutar influência que lhe permitiu adquirir uma das virtudes que mais o caracterizaram: nunca perder a calma, nunca inquietar-se, ter inteiramente a alma nas mãos.

    Sua mãe ensinava-lhe o catecismo e narrava-lhe belos exemplos da vida dos santos. Isto fez nascer na alma do pequeno Francisco o desejo da santidade e o zelo pelas coisas de Deus.

    Desde criança sempre foi muito ativo e cheio de vida. Um fato pitoresco de sua infância denota seu carácter combativo, mas irascível. Bem pequeno ainda, ouvira falar dos calvinistas que haviam dominado a Suíça e boa parte da França. Um dia, soube que um desses hereges estava de visita no castelo de seus pais. Como não podia entrar na sala para protestar, pegou um pedaço de pau e, cheio de indignação, entrou no galinheiro e lançando-se contra as galinhas a pauladas gritava: “Fora com os hereges! Não queremos hereges!”As pobres galinhas fugiam cacarejando ante seu inesperado atacante. Foram salvas pelos criados que conseguiram tirar o menino dali a tempo.

    Francisco chegará a ter um génio tão doce e bondoso que fez São Vicente de Paulo exclamar, quando teve a oportunidade de conviver com ele: “Ó meu Deus, se Francisco de Sales é tão amável, como sereis Vós?””

    As batalhas da juventude

    Na juventude nasceu-lhe um grande desejo de consagrar-se inteiramente a Deus. Mas seu pai tinha outros planos. Foi mandado a Paris para estudar no colégio dos jesuítas, onde conheceu o bom Pe. Déage, que foi seu diretor espiritual. Mais tarde mudou-se para Pádua a fim de estudar Direito Civil, como queria seu pai, e Direito Canônico, como desejava o ardor religioso de seu coração. Também praticava esgrima, equitação e frequentava bailes.

    Viver na graça de Deus naqueles ambientes não era nada fácil, mas Francisco soube fugir das ocasiões perigosas e de toda amizade que pudesse ofender a Deus. Na Universidade, alguns estudantes perversos, para humilhá-lo por ser tão piedoso, atacaram-no. Francisco, que era perito na arte da esgrima, tirou sua espada e derrotou a todos. Vendo-os desarmados e impotentes, retirou-se, dizendo: “E agradeçam a Deus em quem creio, pois é por isso que não lhes faço mal”.

    Quando, devido ao seu temperamento, o sangue lhe subia ante humilhações e burlas, ele se continha de tal maneira que muitos pensavam que nunca se encolerizava. O demônio, vendo ser impossível vencê-lo com as tentações mais comuns, atacou-o com violência num ponto muito sensível e difícil: a terrível tentação do desespero da salvação.

    Tinha 20 anos quando isso aconteceu.

    Conhecera a doutrina de Calvino sobre a predestinação, e não conseguia tirar da cabeça a ideia fixa de que ia se condenar. Perdeu o apetite e o sono. Sempre dizia a Nosso Senhor que, se por sua infinita justiça o condenasse ao inferno, concedesse-lhe a graça de continuar amando-O nesse lugar de tormentos. Essa oração lhe devolvia a paz de alma em parte, mas a tentação sempre voltava. O remédio definitivo veio quando, entrando numa igreja em Paris e ajoelhando-se diante de uma imagem da Santíssima Virgem, rezou a conhecidíssima oração de São Bernardo: “Lembrai-Vos, ó piíssima Virgem Maria…” Ao terminar, os pensamentos de tristeza e desespero o abandonaram para sempre e veio-lhe a segurança de que “Deus não enviou o Filho ao mundo para condená-lo, mas para que o mundo seja salvo por Ele” (Jo. 3, 17).

    A vida religiosa e a conquista dos calvinistas

    De volta à casa paterna, aos 24 anos, recusou um casamento brilhante e um posto no Senado do Reino. Embora contra a vontade de seu pai, assumiu o cargo de deão da Catedral de Chambéry – por influência de seu tio, Luís de Sales, cônego da Catedral de Genebra, que obteve tal nomeação do Papa e pouco tempo depois foi ordenado sacerdote.

    Pregou em Annecy e outras cidades. Embora dotado de grande cultura, suas práticas eram simples, atraindo enormemente todos os que o ouviam.

    Mas sua dura batalha começou quando se ofereceu para reconquistar Chablais, na costa sul do lago de Genebra. Esta região estava totalmente dominada pelos calvinistas, cujo exército não deixava os habitantes católicos viverem em paz.

    Em 14 de setembro de 1594, dia da exaltação da Santa Cruz, com a autorização do bispo Cláudio de Granier, partiu Francisco de Sales a pé para a grande missão. Provações não lhe faltaram. Muitas vezes teve de dormir ao relento. Em uma ocasião refugiou-se no alto de uma árvore durante toda a noite para escapar ao risco de ser devorado pelos lobos. Na manhã seguinte, foi salvo por um casal de camponeses calvinistas que adquiriram grande simpatia por ele.

    Posteriormente esses camponeses se converteram, dando início à grande transformação religiosa da região. A cada noite, São Francisco e seus companheiros católicos passavam de casa em casa, jogando debaixo das portas folhetos escritos à mão, nos quais eram refutados os falsos argumentos da heresia calvinista. Esse fato lhe valeu o título de patrono dos escritores e jornalistas católicos. Esses escritos foram posteriormente reunidos e publicados sob o nome de Controvérsias.

    Poucos anos mais tarde, depois de duras lutas e perseguições, Chablais se converteu totalmente, e o Pe. Francisco foi nomeado bispo coadjutor de Genebra. Para receber a sagração episcopal, dirigiu-se a Roma, onde o próprio Papa Clemente VIII o interrogou sobre 35 pontos difíceis de Teologia, em presença do Colégio cardinalício. “Ninguém dos que examinamos mereceu nossa aprovação de maneira tão completa!”– exclamou o Papa ao descer de seu trono para abraçá-lo.

    Bispo príncipe de Genebra

    Com a morte de D. Garnier, São Francisco de Sales assumiu o cargo vacante. A generosidade e a caridade, a humildade e a clemência do santo eram inesgotáveis. Em seu trato com as almas foi sempre bondoso, sem cair na debilidade; sabia ser firme quando necessário.

    StaJoanaChantalFundou a Ordem da Visitação com sua dirigida espiritual, Santa Joana de Chantal, em 1604. Entre as obras por ele escritas destacam-se o Tratado do Amor de Deus, que lhe valeu o título de Doutor da Igreja, e Introdução à vida devota – Filotéia, nascida das anotações enviadas à sua prima, Senhora de Chamoisy.

    A medida de amar a Deus

    A medida de amar a Deus consiste em amá-Lo sem medida.” Este ensinamento de São Francisco de Sales talvez possa resumir toda a sua existência, pois ele não foi senão um exemplo vivo de tudo o que ensinava.

    Estando ele ainda vivo, havia já pessoas devotas que guardavam como relíquias os objetos por ele usados.

    Vítima de uma paralisia, perdeu a palavra e algo da sua lucidez, porém, recuperou-as em breve tempo. Os esforços médicos feitos para salvá-lo de nada adiantaram. Em seu leito repetia: “Pus toda a minha esperança no Senhor; Ele escutou minha súplica e me tirou do fosso da miséria e do pântano da iniquidade”.”

    Faleceu aos 56 anos de idade, na festa dos Santos Inocentes, em 28 de dezembro de 1622. Seu fígado, devido ao constante esforço para controlar seus ímpetos de cólera, havia-se transformado em pedra. Seu corpo foi encontrado incorrupto 10 anos após seu falecimento.

    Ele soube viver inteiramente o conselho de Nosso Senhor no Evangelho: “Aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração, e achareis descanso para vossas almas” (Mt. 11, 29).

    São João Bosco de tal modo o admirou que o escolheu para patrono da sua congregação. E Santa Joana de Chantal dele dizia: “Era uma imagem viva do Filho de Deus, porque verdadeiramente a ordem e a economia dessa santa alma era toda sobrenatural e divina”.

    A obediência e humildade de Maria

    Ana Rafaela Maragno

    Difícil é encontrar, hoje, na sociedade almas submissas à vontade de Deus e conformes aos seus mandamentos.
    Que pensar, então, da humanidade, há cerca de dois milénios atrás, submersa nas sombras do paganismo? Os gentios tinham por lei o amor a si e o esquecimento dos outros. Os judeus, embora tivessem a luz das profecias sendo conhecedores do Deus verdadeiro, esfriavam sempre mais na expectação da vinda de seu Redentor e como consequência esqueciam-se da fidelidade a uma vida virtuosa.

    Ignoravam estes, porém, que na pequena cidade de Belém, um altamente nobre, humilde e santo casal já adorava um Deus-Bebê que uma Virgem dera à luz e afagava-O em seus braços. Um Homem-Deus que veio fazer a vontade do Pai e que praticou a humildade até mesmo antes de nascer, encerrando-se nove meses no seio de Maria, ocultando seus atributos divinos; sofrendo as repulsas que sua Mãe foi vítima quando não a quiseram receber em Belém; nascendo em uma gruta e posto sobre palhas em uma manjedoura.

    Após seu nascimento, o santo casal esperou completarem-se os quarenta dias para a purificação da Mãe e a apresentação do Menino no Templo, conforme ordenava a lei de Moisés. Que necessidade havia de o Autor da Lei e a Mãe da graça observarem os preceitos mosaicos? Entretanto, por um amor à lei que Ele mesmo havia criado e por uma humildade profunda, dirigiram-se ao Templo a fim de a cumprirem.

    praesentatioTomaram o caminho de Jerusalém. Foi a primeira passagem de Jesus por aquela cidade, que haveria de percorrer anos mais tarde fazendo o bem a todas as suas criaturas, até o momento de atravessá-la novamente carregando sua cruz às costas para consumar sua obra de amor. Ocultos aos olhos humanos, mas espetáculo para todos os anjos que guiavam os seus caminhos, avistaram as muralhas do Templo. O Divino Menino entraria nele, pela primeira vez, levado nos braços de sua Santíssima Mãe.

    A Virgem parou “à porta do tabernáculo, como as outras mães de Israel, que não podiam entrar nele, antes de serem purificadas”. 1 Não haveria necessidade de purificar-se quem é a Rainha das virgens, porém quis praticar esse ato de humildade e se apresentou ao sacerdote.

    Neste momento, deu-se o encontro com o velho Simeão que, movido pelo Espírito Santo, dirigiu-se àquele jovem casal que portava a mais preciosa criatura: o Homem-Deus. Simeão O tomou nos braços e “cantou a glória d’Ele, profetizando tudo quanto Ele seria. E Nosso Senhor, frágil criança, na aparência sem entender, compreendia e inspirava aquele cântico…” 2 Ao mesmo tempo, profetizou sobre os sofrimentos da Mãe : “e uma espada transpassará a tua alma”(Lc 2,35).

    Ambos vieram ocultados sob o véu da humildade e foram distinguidos e proclamados: o Menino como luz das nações e glória do povo de Israel (cf. Lc 2,32); a Virgem, sendo a Mãe de Deus e Co-redentora. O consentimento de Nossa Senhora em que seu Filho fosse imolado de forma tão cruel e dilacerante pela remissão de nossos pecados, os méritos desse sofrimento indizível da Virgem unidos aos méritos infinitos do martírio de Jesus, tudo isso granjeou-Lhe o título de Co-redentora do gênero humano.

    O que mais conhecemos da vida de Maria? As Sagradas Escrituras relatam a preocupação de Nossa Senhora na perda e o encontro do Menino Jesus no templo e o milagre de Jesus nas Bodas de Canã por intercessão dela. Em algumas circunstâncias de sua vida, Maria foi tratada por seu Divino Filho de mulier – mulher – como a uma estrangeira para lhe favorecer a humildade, conquanto em Seu coração, a estimasse e amasse mais do que todos os anjos e homens. Embora Deus–Pai lhe tivesse outorgado o poder de fazer milagres, consentiu que jamais em sua vida Nossa Senhora fizesse algum, ao menos um milagre visível e retumbante.

    Entretanto, Maria é Rainha do Universo, dos anjos e dos homens porque é a mais humilde de todas as criaturas; escolheu o último lugar, o mais próximo ao Filho que, embora sendo Deus, se fez “obediente até a morte e morte de cruz”.

    Ensina-nos o Divino Mestre: “Todo aquele que se exaltar será humilhado, e todo aquele que se humilhar será exaltado” (Lc 14,11). Esse é o prêmio dos humildes: quanto mais se apagam, mais Deus os eleva e os faz fulgurar com brilho cada vez maior.

    Ao contrário, os orgulhosos quanto mais correm atrás das glórias mundanas, tanto mais são sepultados no isolamento e no esquecimento, pois “o orgulho é impaciente e malévolo; invejoso, arrogante, ambicioso, busca só os seus próprios interesses, pervadido de irritações e de ressentimentos pelo mal sofrido”, porque o orgulho “nada desculpa, de tudo desconfia, nada espera e nada suporta” (parafraseando São Paulo, I Cor 13, 4 a 7).

    Sigamos o exemplo de Maria. Ela é a Rainha da humildade e por uma palavra sua tudo pode obter-nos de seu Filho diletíssimo, a nós miseráveis pecadores que Ela vela com verdadeiro amor de Mãe. Deixemos para trás o orgulho e obedeçamos às leis Deus.

    1 AQUINO, Maria Teresa. Aula de Mariologia no Instituto Filosófico-Teológico Santa Escolástica — IFTE. Caieiras, 20maio2011. (Subsídios).
    2CORREA DE OLIVEIRA, Plinio. A Apresentação do Menino Jesus. In: Dr Plinio. São Paulo: Retornarei, n.71, fev. 2004. p. 2.

    Médica dos corpos e das almas

    Sta Hidelgarda1Irmã Carmela Werner Ferreira,EP

    Santa Hildegarda de Bingen

    Dotada de um carisma excepcional, a envergadura de sua obra vai desde a descrição de plantas e minerais, inclui a medicina, e atinge a mais elevada teologia e contemplação mística. Sua vida foi a composição de uma verdadeira “sinfonia divina”.

    Naqueles dias primevos da Criação, o Senhor manifestava generosamente a sua onipotência e se comprazia em tirar do nada as incontáveis maravilhas que compõem o Universo. Quando a luminosidade do sol já marcava o decurso do dia e o colorido das plantas adornava a singeleza da terra, Ele exerceu sobre este elemento seu poder criador e ordenou: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. Que ele reine sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos e sobre toda a terra, e sobre todos os répteis que se arrastem sobre a terra” (Gn 1, 26).

    Assim, era na elevada condição de realeza que a obra-prima saída das mãos de Deus despertava para o conhecimento das realidades exteriores. Cada um dos seres vivos, e até mesmo os elementos, estavam a seu serviço, dispondo instintivamente o requinte de suas qualidades ao beneplácito do homem racional. Nisto estava a glória do Pai: em que, utilizando- se daquela multidão de criaturas, Adão fosse feliz e restituísse ao seu Criador o bem, a verdade e a beleza, reconhecendo-as como postas por Ele na admirável ordem do Universo.

    O pecado rompe a harmonia

    Mas… que triste estrago veio fazer o pecado original no estado de perfeição do primitivo casal! Expulsos do Paraíso, voltaram para a terra de onde foram tirados e tiveram de comer o pão com o suor de seu rosto, perdendo aquele domínio absoluto sobre as criaturas do qual gozavam no Éden. Contudo, em sua insondável misericórdia, Deus não destituiu o gênero humano da supremacia e precedência que lhe havia conferido. Quis que nele permanecesse a capacidade de utilizar-se de todos os seres e descobrir as valiosas propriedades encerradas em cada um dos elementos a seu serviço.

    Até hoje, os filhos de Adão não esgotaram as possibilidades das criaturas que o cercam, e quão longe estão de fazê-lo! Chegam-nos todos os dias notícias surpreendentes acerca das descobertas feitas ao redor do mundo nas quais, por vezes, de causas singelas tiram-se efeitos assombrosos. O lado triste deste fato é que em nossa época o homem endureceu seu coração na busca desenfreada da ciência, omitindo culposamente para si mesmo e para os demais que, se algo há que possa estar na raiz dessas descobertas, são os dons do próprio Deus.

    Não é nesta perspectiva que a Igreja forma seus filhos, e nem assim pensaram os santos. Quem se aproxima, por exemplo, da extraordinária figura que foi Santa Hildegarda de Bingen, muito em breve dá graças ao Pai “porque escondeu estas coisas aos sábios e prudentes, e as revelou aos pequeninos” (Lc 10, 21).
    Sta Hidelgarda
    Nasce uma menina predestinada

    Num agradável dia do verão de 1098 nascia no castelo de Böckekheim, na região do Reno, o décimo filho do casal Hildebert e Matilde de Bermersheim. Era uma encantadora menina, batizada com o nome de Hildegarda. Apesar da frágil saúde, dava ela — desde os primeiros anos de existência — mostras de aguda inteligência e inclinação religiosa.
    A Providência quis ainda muito cedo atrair para Si esta angélica criança, que já aos três anos de idade era favorecida com luzes e revelações celestes. Pensando que todos recebiam igual sorte de favores, comentava entusiasmada a beleza do que via, causando estupor e maravilhamento nos que a ouviam.

    Certo dia, caminhando com sua aia pelas redondezas do castelo, exclamou radiante: “Veja aquele bezerrinho, como é bonito! Todo branco, tem manchas apenas na cabeça e nas patas. Ah! tem uma também no lombo!” A criada, olhando para os lados e nada vendo, perguntou-lhe onde estava o bezerro. Sem compreender como ela não via o animalzinho, a menina apontou uma grande vaca e disse incisiva: “Está ali! Está ali!” Perplexa, a mulher pensou estar ouvindo mais uma fantasia infantil e, em tom de gracejo, contou o sucedido à mãe de Hildegarda. Entretanto, algum tempo depois nasceu um bezerro e ninguém mais riu: possuía exactamente o aspecto predito pela menina!

    No silêncio da clausura germina um grande futuro

    Como Hildegarda dava sinais inequívocos de vocação contemplativa, e a nobre condessa Jutta de Spanheim abandonara nessa mesma época suas glórias e riquezas mundanas para tornar- se monja beneditina, os pais de Hildegarda não hesitaram em confiar a formação da filha ao zelo dessa mulher virtuosa.

    Foi assim que, aos oito anos de idade, ela ingressou na ermida de Disibodemberg, onde “cresceu em graça e santidade” a exemplo do Menino Deus. O silêncio da clausura, as sábias orientações que lhe eram dadas, a participação nos atos litúrgicos e o carisma de São Bento foram modelando sua alma segundo o mais puro ideal monástico: refletir em todos os aspectos da vida as divinas perfeições de Jesus Cristo.

    Havia, entretanto, um fator que a unia especialmente a Deus: as comunicações sobrenaturais de que era objeto. Iniciadas as visões na primeira infância e tendo continuidade ao longo de toda a sua vida, elas deram a Santa Hildegarda um discernimento profundo da ação do bem e do mal, da graça e do pecado, da realização da vontade de Deus a que o homem é chamado e a facilidade que este tem em desprezar os desígnios divinos.

    Essa riqueza de compreensão foi-lhe facultada visando o cumprimento de sua missão junto aos grandes do mundo, aos pobres do povo e à posteridade ao longo dos séculos. Com efeito, os ensinamentos de Santa Hildegarda possuem em nossos dias uma atualidade igual ou maior do que quando ela viveu, há mais de 800 anos.

    Uma admirável compreensão do Universo

    Nos trinta anos em que Jutta conduziu o mosteiro, grandes foram os progressos feitos por Santa Hildegarda na via espiritual. Com a morte dessa abadessa, a comunidade não encontrou senão em sua discípula a sucessora ideal. Muito a seu pesar, enfrentando admoestações interiores que lhe ditavam a humildade, Santa Hildegarda dobrou-se ante o jugo da obediência e passou a orientar aquelas almas eleitas. Com tanta perfeição exerceu esse encargo que precisou fundar dois novos mosteiros — o de Rupertsberg em 1148 e o de Eibingen em 1165 — para acolher as numerosas vocações que a ela acorriam.

    Transcorria o quinto ano de seu abadessado quando a voz divina que a acompanhava indicou-lhe uma ordem expressa: “Manifesta as maravilhas que aprendes. Escreve e fala!” Assim originou-se a principal obra escrita de Santa Hildegarda, “Liber Scivias”, o qual recebeu nada menos que o louvor de São Bernardo de Claraval e a aprovação do Papa Eugênio III. Ambos reconheceram em suas palavras e em sua vida a autenticidade das revelações.

    Mas, afinal, qual é o teor de seus ensinamentos?

    Numa linguagem isenta de qualquer pretensão literária e repleta do colorido próprio à sua época, Santa Hildegarda fala a respeito da relação entre Deus e os homens, da Criação e do Juízo Final, e insiste sobre o papel da Igreja na história da salvação. Seu coração filial transborda em exaltações à Santíssima Trindade, não exclui vigorosas denúncias aos erros morais da humanidade e fala da importância dos sacramentos na santificação das almas.

    Para ela, o Universo criado é um espelho admirável das realidades espirituais e divinas: “Deus, que fez todas as coisas por um ato de sua vontade e as criou para tornar conhecido e honrado o seu nome, não se contenta em mostrar através do mundo apenas o que é visível e temporal, mas manifesta nele aquelas realidades que são invisíveis e eternas. Isto é o que me foi revelado”.

    Uma alma cheia da ciência divina

    Todavia, se Santa Hildegarda logrou surpreender os estudiosos ao longo dos tempos, foi sobretudo por suas ousadas afirmações medicinais. Demonstrou ela uma penetração abarcativa nas relações entre o homem e o mundo, sua constituição espiritual e física, e as propriedades benéficas dos seres vivos. São de sua autoria as duas únicas obras médicas compostas no Ocidente ao longo do século XII, de que temos notícia.

    Afirma ela que os desequilíbrios nervosos e espirituais se refletem de modo inevitável na saúde corporal, originando os problemas de metabolismo que conduzem à depressão. Em nenhum momento Santa Hildegarda deixa de considerar a mútua influência que corpo e alma exercem entre si. Na sua opinião, a vida religiosa deve buscar um sábio ponto de equilíbrio entre os dois fatores. Defende ainda a tese de que a saúde se mantém essencialmente por um sadio regime alimentar, e se detém em explicar com riqueza e profundidade as características de centenas de plantas medicinais e nutritivas. Nem mesmo as pedras escapam à sua análise, sendo vistas como excelentes elementos canalizadores da energia humana.

    E se ainda fosse pouco esse vasto conhecimento empregado generosamente no cuidado da comunidade e de todos os necessitados que acorriam ao mosteiro, Santa Hildegarda foi também uma notável musicista. Dotada de rara acuidade, bela voz e originalidade, ela compôs em torno de setenta sinfonias segundo os estilos de seu tempo. Eis o que ela afirma sobre a música:

    “Lembremo-nos de que, com o pecado, Adão perdeu sua inocência e, em conseqüência, perdeu também a voz que antes possuía, semelhante à dos anjos do Céu. Tendo perdido essa capacidade de louvar a Deus, os profetas, inspirados pelo Espírito Santo, inventaram os salmos e os cânticos para incitar os homens a se voltarem para esta doce recordação do louvor da qual gozava Adão no Paraíso. Também os instrumentos musicais, pela emissão de múltiplos sons, podem instruir espiritualmente os homens.”
    Uma mulher prega nas catedrais

    Na conjuntura da sociedade em que vivia a santa abadessa, a Igreja passava por perigos que comprometiam a paz e a salvação das almas. O Papa estava sendo perseguido pelo Imperador Frederico Barba-Roxa, o qual, julgando-se possuidor de maior poder espiritual que o Sucessor de Pedro, sentia-se no direito de destroná-lo e de colocar em seu lugar quem favorecesse seus intentos ambiciosos. Há pouco eclodira a heresia dos cátaros, que tão profundamente marcaria a época, num delírio de aversão à vida e ao verdadeiro Deus. Por fim, reinava um visível relaxamento de costumes que gradualmente conduzia os homens para o abismo da perdição.

    Santa Hildegarda não restringe sua atuação ao âmbito do mosteiro; é necessário fazer ressoar sua voz profética nas abóbadas das igrejas, apontar com sua sabedoria os erros de um século surdo à voz de Deus; urge que uma alma fervorosa faça trepidar a modorra da tibieza. Ela parte, já idosa, para pregar — coisa impensável — nas grandes catedrais repletas pelo clero, nobreza e povo, desejosos de ouvir suas justas admoestações.

    Sucessivamente, as catedrais de Mainz, Bamberg, Tréveris, Colônia e muitas outras são palco de seu apostolado. Os efeitos não se fazem esperar: multiplicam-se as conversões e se espalha a fama de taumaturga da santa abadessa a cujas palavras seguiam-se os prodígios. Além das pregações, ela enviou muitas cartas a diversas personalidades, sempre exortando a uma maior observância do Evangelho.

    O prêmio do bom combate

    Aos 81 anos, sem dobrar-se ante o peso das fadigas e dos sofrimentos, aquela que nunca recusou socorro aos filhos de Deus entregou sua alma em meio à grande paz e serenidade de seu mosteiro. Era o dia 17 de setembro de 1179. Em pouco tempo, encheu-se de peregrinos o seu túmulo, multiplicaram- se os milagres, cresceu o número de seus admiradores e devotos. Em nossos dias, numerosos países contam com associações dedicadas a estudos de sua medicina natural.

    Neste conjunto brilhante formado pelas conquistas e feitos heróicos de Santa Hildegarda, sobressai-se a prática de uma virtude preciosa: a humildade, que caracteriza aqueles que são os verdadeiros depositários dos tesouros de Deus. Sem jamais se vangloriar de suas prerrogativas ou utilizar em benefício próprio os dons recebidos, ela pode ser definida com estas suas próprias palavras: “Aqueles que, na elevação de sua alma, gozaram da sabedoria de Deus e se portaram com humildade, converteram-se em colunas do Céu”.

    Beauty in the liturgy

    _DSC9111Irmã Monica Erin MacDonald,EP

    The liturgical celebration of the Eucharist, height of Christian worship, “the summit towards which the activity of the Church is directed (…) and fount from which all her power flows” * , is a synthesis and apex of religious expression in its diverse aspects. The powerful experience within in the Liturgy, which culminates in mystical union in the Eucharist, arouses a consideration of the celebration in its artistic and transcendental dimension. It encompasses not only the spiritual faculties, the understanding and the will, but also the sensitive faculties: internal and external senses, passions and affections 2 . Clearly, the liturgical act employs diverse means of communication that encompass the entire human person 3 , in a celebration of the Divine. It is at once a moment of festive exultation in which the faithful speak through, words, music and gestures, while at the same time a moment of silent contemplation, an ecstasy of admiration and awe, wherein the spirit is receptive to Divine communications. The course of the liturgical celebration encompasses time, space and symbolic forms that harmonize in a synthesis of beauty. It constitutes, at the same time, the greatest mystical journey possible in the human experience, leading to a destination of mystical union in communion.

    In this epoch of pragmatism, industrialization and globalization, the Liturgy takes on a new dimension as a reservoir of pulchrum, intense symbolism and call to transcendence. If a “world without beauty” – today’s world – is immersed in conflict and horror, one finds within the liturgical celebration an oasis of the true expression of verum and bonum in a harmonious contemplation of beauty. The Liturgy, regardless of its accidental transformations throughout the ages, has persistently remained a bulwark of the transcendental in the human experience. In its symbolism and mystical composition, it fulfills the complex needs of the human soul, in its invariable search for the Absolute.

    LITURGICAL BEAUTY

    The Liturgy, veritatis splendor, is intrinsically associated with beauty 4 . Beauty has a unique ability to attract and open the human spirit, in a more effective way than abstract ideas or doctrines. Navone 5 speaks of our incapacity to live without beauty, manifested in the most basic needs of the mind and heart. He emphasizes beauty as a call to transcendence, for that which attracts us by its beauty and goodness, implicitly calls us beyond, to a beauty and goodness even greater 6 . The Eucharistic Celebration, in its resplendent conjugation of sights, sounds and smells, is an efficacious instrument in captivating the human spirit, attracting it through beauty to the Supreme Good. In it, contrasting elements are harmoniously combined: words and silence, gesture and stillness, light and darkness. In the beauty of the mysteries celebrated, man experiences pulchrum, as the splendour of verum and bonum.

    Clearly, a consideration of the beauty within the Liturgy brings to light some metaphysical aspects. The Concluding document of the General Assembly,Via Pulchritudinis points out the role of beauty in its relation to the true and the good.

    Beauty itself cannot be reduced to simple pleasure of the senses: this would be to deprive it of its universality, its supreme value, which is transcendent. Perception requires an education, for beauty is only authentic in its link to the truth – of what would brilliance be, if not truth? – and it is at the same time “the visible expression of the good, just as the good is the metaphysical expression of beauty‟ 7 .

    Since Kant, philosophy has, to a great extent, reduced the conception of beauty to a merely subjective element, depriving it of its ontological dimension. However, according to the philosophia perennis, beauty is a transcendental property of being; that is, a perfection found in all things, without exception. According to Saint Thomas 8 , the transcendentals are unum, bonum, verum, pulchrum – unity, goodness, truth, and beauty. When a being is what it should be, that is, when it possesses truth in its essence, it is also good, and, depending on the sphere to which it belongs, beautiful, holy, noble and useful 9 . Since the transcendentals are aspects of being, they form a union with it, so inseparable among themselves that the lack of care with one would be a catastrophe for the others, as Von Balthasar 10 points out.

    Plato called beauty the splendour of truth, and Saint Augustine defined it as the splendour of order 11 . In the Thomistic vision it is seen as the splendour of truth and goodness 12 . For Saint Thomas, beauty is the synthesis of three fundamental qualities, “Beauty includes three conditions, integrity or perfection (…); due proportion or harmony; and lastly, brightness, or clarity”*. Integrity is related to unity, proportion to goodness, and clarity to truth.

    The Greek word for beautiful, kalos, interestingly comes from the Greek verb kaleo, which means, “to call”. The beautiful, the good, attracts us evoking happiness and delight 13 . The Greek philosophers, conscious of the relationship between the good and the beautiful, combined the two concepts in one phrase: kalokagathía, or beauty-goodness. On this point Plato writes: “The power of the Good has taken refuge in the nature of the Beautiful‟ 14 . Beauty is then, the center of all motivation, decision and human action, for we do not act without being motivated by the attractiveness of a specific good 15 .

    Hans Urs Von Balthasar 16 affirmed that in a world without beauty, the good loses its force of attraction, and truth, its cogency. He bases his profound reflection on beauty in the consideration of God as the font of all beauty, and all created beauty as a reflection of this beauty. Beauty is not just an external form; rather it is a light that radiates from within, an exterior form of the interior. Something is beautiful when it radiates splendor, the reverberation of a hidden light, splendour of the being. The synthesis of the truth and good produce a light that infiltrate to the exterior, an illumination that attracts and fascinates. Von Balthasar 17 employs the terms kabôd, dóxa, glória as synonymous of this beauty, for this scriptural term defines this luminosity that is a manifestation of the Divine splendour. “Beauty is the word that shall be our first. Beauty is the last thing which the thinking intellect has the courage to approach, since only it dances as an uncontained brilliance around the double constellation of the true and the good and their inseparable relation to one another 18 ”.

    The manifold interpretations of beauty throughout the ages enrich our perspective in a consideration of its multifaceted role within the human experience. What becomes insistently clear is that beauty intrinsically moves the entire person “spirit and heart, intelligence and reason, creative capacity and imagination 19 ”. Beauty has the capacity to lower the barriers of our egoism in such a way that when we are touched by it, we are overcome and liberated from our selfishness as though from a prison. With the barriers of egoism struck down, one leaves oneself, and in this liberation comes an ecstasy in which one gives oneself, not in an oppressive way, but as a true donation of oneself. It possesses a dynamism that fulfils the deepest of human yearnings for it invites one to leave the transient and ordinary, to rise to the Transcendent and Mystery, ultimately seeking the source of all beauty, God 20 .

    The beauty of the Liturgy is a beauty that transcends us 21 . It is a beauty that speaks through the simplicity and originality of its symbols, but also through the splendour and nobility of its ritual. It is a beauty that is revealed gradually, demanding time and attentiveness to be entirely disclosed. It is a beauty that leads to contemplation through the synthesis of its diverse manifestations. It cannot be denied that within the Liturgy the aesthetic sentiment and activity is copiously engaged in the music, choreography, art and architecture 22 . The timeless passage of Saint Augustine seems to reflect the yearnings of contemporary man, aptly fulfilled in the multiple dimensions of the liturgical experience, in which the five senses are touched and overcome by the experience of Beauty so ancient, Beauty so new.

    Late have I loved You, O Beauty so ancient, O Beauty so new, too late have I loved You! Behold, You were within me and I was outside, and it was there that I sought You. Deformed as I was, I ran after those beauteous things that You have made. You were with me, but I was not with You, for those things kept me far from You, which, unless they existed in You, would have no being. You have called. You have cried out and pierced my deafness. You have poured forth Your light. You have shone forth and dispelled my blindness. You have sent forth Your fragrance, and I have inhaled and panted after You. I have tasted You, and I hunger and thirst for You. You have touched me, and I am inflamed with the desire for your peace 23 .

    Liturgical beauty is truly an epiphany of the true and the good in today’s world, lifting man in his entirety to transcend the physical realities. Particularly through its symbolism, the Liturgy manifests its splendour and diversity.

    * Sacrosanctum Concilium, 10
    2 VAGAGGINI, Cipriano. El sentido teológico de la liturgia. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos,1959. p. 278.
    3 BENEDICT XVI. Sacramentum Caritatis, 40. [On line]. [Consulted: 19 Mar., 2009]
    4 Ibid., p. 35.
    5 NAVONE, John J. Em busca de uma teologia da beleza. Tradução Elizabeth Leal F. Barbosa. São Paulo: Paulus, 1999. p. 41.
    6 Ibid., p. 83.
    7 CONCLUDING DOCUMENT of the General Assembly. The Via Pulchritudinis, II.I. Privileged Pathway for Evangelisation and Dialogue. [On line]. [Consulted: 25 Nov., 2008]
    8 NICOLAS, Marie-Joseph. Vocabulário da Suma Teológica. In: Suma Teológica. 2a.ed. São Paulo: Loyola, 2003. p. 101.
    9 STEIN, Edith. Ser finito y ser eterno: ensayo de una ascensión al sentido del ser. México: Fondo de Cultura Económica, 1994. p. 334.
    10 VON BALTHASAR, Hans Urs. Gloria. Una estética teológica. La percepción de la forma. Madrid: Encuentro, 1985. p.15.
    11 PANELLA, Federico L. La Belleza en la Liturgia. In: Phase. Barcelona. No .253, 2003. p. 9.
    12 FORTE, Bruno. A porta da beleza: por uma estética teológica. Aparecida: Idéias & Letras, 2006. p. 34-35.
    * SAINT THOMAS AQUINAS, Summa Theologica, I q.39, a.8.
    13 NAVONE, Op Cit., p. 83.
    14 JOHN PAUL II. Letter to Artists, 3 [On line]. [Consulted: Mar. 19, 2009]
    15 NAVONE, Op. Cit., p. 40.
    16 VON BALTHASAR, Op. Cit., p. 23.
    17 Ibid., p. 40.
    18 VON BALTHASAR, Op. Cit., p. 22. (Personal translation)
    19 CONCLUDING DOCUMENT of the General Assembly, Op. Cit. II.3.
    20 Ibid., II.3.
    21 MARINI, Piero. Liturgy and Beauty. [On line]. [Consulted: 19 Mar., 2009]
    22 VAGAGGINI, Op. Cit., p. 289.
    23 SAINT AUGUSTINE. On Christian Doctrine. Chicago: Encyclopedia Britannica, 1952. p. 297-298.

    The Middle Ages and Modernity

    ReimsIrmã Margaret Louise Bassi

    No historic epoch can be entirely detached from its past and an analysis of historical events is always a fruitful exercise. The philosophies that shaped the eras directly preceding the present contribute greatly to today’s thought.

    Over the last five centuries, the image of the Middle Ages ― denominated as “the Dark Ages” ― was upheld as a time that contributed nothing to humanity. Rather it was said to have hindered progress and stagnated philosophical thought, most especially due to the influence it received from Christianity while Modernity came to be known as an era open to progress and thought. This partial vision of reality though, is now widely disputed.

    The Middle Ages, built upon the ruins of the Roman Empire and the consequences of the Barbarian invasions, was based on the teachings of the Catholic Church. During its initial development it was not characterized by a philosophy of its own, in the sense that philosophy has now come to be understood. Christian tenets guided human life and answered the questions of medieval man. He considered eternal happiness to be goal and the cross of Christ as his path. He faced difficulties with a spirit of sacrifice in the pilgrimage toward the celestial homeland. Philosophy therefore, was intertwined with religion and this ensemble merged with the life of society, which had proceeded organically from the historical circumstance of that time. It has been said that the philosophy of the Gospel guided the peoples of medieval Western Europe.

    With Saint Thomas Aquinas and Scholasticism a systemization of Christian philosophy, as a rational foundation for revealed truths, attainable by intelligence, was developed. He distinguished faith from reason and after clearing defining them he united them in a close philosophical relationship. Making use of the contributions of the ancient philosophers and thinkers in their search for truth, knowledge that had been safeguarded in the monasteries under the protection of the Church during the tumultuous epoch of wars and invasions, he strove to bring reason to an apex and to an encounter with revelation. With Scholasticism, and most especially the institution of the universities, the Western medieval world came into contact with non-Christian interpretations of man.

    In this context, culture continued to develop ― principally in the fields of literature and arts with Italy among European cultural centres ― leading to the onset of the Renaissance and an aura of suspicion toward the medieval system. The initial signs of a “new spirit” appeared that would seem to substitute Christian social ideals for increasingly materialistic and mercantile values. In the cultural sphere, Humanism emerged as a super-valuation of man in detriment to the former theo-centric medieval concept. New philosophies, tantalizing to souls in search of novelties, abounded. Oftentimes faith was relegated to a secondary plane and reason was given prominence. Modernity arrived on the scene of History, severing with the past and heralding a future which claimed to give free reign to progress and thought.

    Within a few centuries the fermentation of a new mentality and the transformation of the Western world was effected. Illuminism, then, appeared on the historical scene claiming to be the antidote to the so-called “darkness of ignorance”. The philosophies introduced by Renaissance and Illuminist ideas contrasted with the theological and philosophical foundations of medieval Christian thought. Where Scholastic Christian thought sought answers to human questions enlightened by Christian faith and customs, Modernity believed it was necessary to break with tradition. A large portion of Western Europe was transformed ― taking into consideration the epoch ― in a rapid, abrupt and revolutionary way.

    catedral-modernaThese transformations completely altered the Western scenario and the consequences of Modernity were immediately experienced. The illusion of progress slowly waned as it became apparent that the positive sciences, which had occupied the place of philosophy and theology, were unable to provide answers to the central human questions. These effects are still felt by contemporary man who is restless and seeks to satisfy the transcendental dimension that was abandoned by rationalism and the subsequent philosophies.

    Toma e lê

    agostinho-267x300Thaynara Ramos Siedlarczyk

    Ao percorrermos a história dos santos, encontramos algumas almas “a quem o Senhor acariciou desde o berço até a sepultura, retirando de seu caminho todos os obstáculos que as impedisse de se elevar até Ele sem manchar suas vestes batismais”1, e outras maculadas, que ao receber favores tão extraordinários de Deus se convertem e trilham a via da penitência, tornando-se modelos de santidade.

    Entre essas almas encontramos o grande Santo Agostinho.

    Chamava-se Aurélio Agostinho e viveu maior parte de sua vida em Tagaste, no norte da África. Herdou de sua mãe toda ternura e inclinação para a contemplação, mas, infelizmente, não deixou de possuir o temperamento forte de seu pai Patrício, entregando-se a uma vida pecaminosa.

    Ainda jovem, ambicionando uma grande carreira, dirigiu-se a Cartago para estudar em famosas academias. Aos vinte anos interessou-se pelo maniqueísmo e adotou essa forma de pensamento para justificar sua vida moral cômoda e relativista. Nesse período, teve um filho chamado Adeodato.

    Frustrado pelas desilusões, e apesar de estar “envolvido na escuridão da carne”2, Agostinho sentiu-se impelido pela busca da verdade. E para atender essa aspiração, abandonou o maniqueísmo e aderiu ao neoplatonismo que, longe de possuir o que ele tanto buscava, consistia numa nova interpretação da doutrina de Platão, sob um prisma religioso.

    Entretanto, sua virtuosa mãe, Santa Mônica, rezava e pedia a Deus pela conversão de seu filho. Tal era a sua preocupação pela salvação eterna dele, que aflita procurou um bispo, a fim de que este intercedesse pela conversão de Agostinho. Após inúmeras insistências, o bispo lhe diz: “Vá tranquila, pois é impossível que pereça um filho tão chorado”.

    Ao inteirar-se da intenção de Agostinho de viajar para Roma, Santa Mônica correu ao porto a fim de acompanhá-lo. Porém, seu filho a enganou e partiu escondido naquela mesma noite.

    Contudo, a Providência não o abandonou e, em Milão, ele conheceu o bispo Ambrósio. Devido à sua retórica, Agostinho passou a ir às missas celebradas por ele a fim de ouvir suas pregações que tanto o deliciavam. Sua admiração pelo prelado era tal, que Agostinho permanecia horas no seu gabinete, observando-o a preparar seus sermões. Assim, aos poucos, o exemplo e os ensinamentos de Santo Ambrósio foram penetrando em sua alma, transformando-o.

    Enquanto isso, Santa Mônica não cessava de rezar e chorar pela alma de seu filho, pedindo a Deus pela sua conversão e foi reconfortada por um sonho:

    Viu-se num bosque, chorando pela perda espiritual de seu filho, quando se aproximou dela um personagem luminoso e resplandescente, que lhe disse: “ Teu filho voltará para ti”.Este sonho,reforçando em seu espírito as confortadoras palavras do bispo, deu-lhe grande ânimo na luta sem tréguas pela conversão do filho”.

    Desejosa de encontrar seu filho, partiu para Roma. Quando lá chegou, soube que Agostinho abandonara a filosofia dos maniqueus. Confiante, Santa Mônica pressentiu que sua total conversão estava próxima.

    Entretanto, “ o espírito está pronto, mas a carne é fraca” (Mt 14,38). Agostinho não tinha forças suficientes para abandonar os vícios aos quais se entregara e não cessava de exclamar: “E tu Senhor, até quando? Até quando continuarás irritado? Não te lembres de nossas culpas passadas! Por quanto tempo, por quanto tempo direi ainda: amanhã, amanhã? Por que não agora? Por que não pôr fim agora à minha indignidade?3

    Assim, ainda indeciso sobre qual rumo tomar em sua vida, se deveria ou não se entregar totalmente à fé cristã, a Providência interveio, enviando-lhe as graças necessárias para dar os passos em vista a sua completa conversão. Estando no jardim de sua casa, de repente, ouviu cânticos de criança que diziam: “toma e lê, toma e lê”. Julgando ser um sinal divino, pegou o livro das Epístolas de São Paulo e abriu-o e leu: “Não em orgias e bebedeiras, nem na devassidão e libertinagem, nem nas rixas e ciúmes. Mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não procureis satisfazer os desejos da carne” (Rm 13, 13). Não foi necessário continuar a ler… Neste momento sentiu uma luz penetrar em todas as trevas e dúvidas do seu coração.

    Convertido e exultante, foi anunciar à sua mãe o fato ocorrido, deixando-a radiante de alegria como menciona em seu livro “Confissões” (VIII-12):

    Ela rejubila. Contamos-lhe como o caso se passou. Exulta e triunfa, bendizendo-Vos, senhor, ‘ que sois poderoso para fazer todas as coisas mais superabundantemente do que pedimos ou entendemos’. Bendizia-Vos porque via que, em mim, lhe tínheis concedido muito mais do que ela costumava pedir, com tristes e lastimosos gemidos”.

    Agostinho fez um retiro e foi batizado por Santo Ambrósio. Em um arroubo de fervor, “segundo a tradição, terminada a cerimônia do Batismo, Santo Ambrósio exclamou: ‘Te Deum laudamus!’ e Santo Agostinho acrescentou: ‘Te Dominum confitemur!’; e assim, alternando suas frases um e outro, entre os dois improvisaram naquela ocasião os conceitos e palavras que compõem o cântico litúrgico do ‘Te Deum’”4.

    Logo após ser batizado, Agostinho decidiu voltar a Tagaste com sua mãe. Ao chegar em Óstia, devido ao mau tempo, não puderam embarcar logo. Neste dia, entraram em êxtase durante um colóquio sobrenatural e, no fim deste, Mônica revelou a Agostinho que não mais possuía desejo de viver.

    “Meu filho, nada mais me atrai nesta vida; não sei o que estou fazendo ainda aqui, nem porque ainda estou aqui. Já se acabou toda esperança terrena. Por um só motivo desejava prolongar minha vida nesta terra: ver-te católico antes de eu morrer5.

    Poucos dias após esse episódio, Santa Mônica adoeceu gravemente e faleceu antes de regressar a Tagaste.
    Santo Agostinho, determinado a levar uma vida cristã, voltou à sua terra natal onde fez penitência e pôs-se a escrever livros e transmitir seus conhecimentos a outros. Sua reputação espalhou-se rapidamente e, em pouco tempo, fizeram-lhe bispo de Hipona.

    Um pouco antes de sua morte, pediu que escrevessem na parede de sua cela, em tamanho grande, os sete salmos penitenciais, os quais recitava todos os dias em seu leito com muita lucidez. Entrou para a morada celeste aos 77 anos.

    Assim, deu-se a conversão de uma alma que, após uma vida devassa, atingiu a mais excelsa virtude, entregando-se com tal radicalidade às vias da perfeição, que se tornou uma das maiores riquezas da Igreja com seus escritos e ensinamentos.

    1 SANTA TERESINHA, História de uma alma. 20.ed. São Paulo Paulus,1979. p.26
    2 SGARVOSSA,Mário; GIOVANNINI, Luigi. Um santo para cada dia. 4.ed.Roma Paulus, 1978. p. 272-273
    3 SANTO AGOSTINHO, Confissões; Edições Paulinas, 2º edição – 1986, São Paulo. Pág.213
    4 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Santo Agostinho, farol de sabedoria e de amor a Deus. In: Dr Plinio, São Paulo: Retornarei, n. 89, ago. 2005. p. 26.
    5 SANTO AGOSTINHO, Confissões; Edições Paulinas, 2º edição – 1986, São Paulo. Pág.239.

    A sublime montanha da santidade

    HimalayaIrmã Maria Cecília Seraidarian,EP

    Muitas vezes, na vida de um alpinista, depois de escalar inúmeros picos, montes e colinas, superando suas próprias capacidades, nasce o desejo de vencer o desafio de chegar ao cume de uma determinada montanha. Sua vida, por assim dizer, só terá sentido se conseguir realizar esse anelo.

    O alpinista, então, passa anos analisando e estudando a tal montanha com o intuito de um dia realizar essa importante conquista. Conhecedor dos perigos e dificuldades que poderá encontrar em sua empresa, ele começa a cuidar de todos os preparativos e em determinado momento vai de encontro ao seu objetivo.

    Ao chegar bem cedo ao sopé da montanha, ele a vê banhada por uma luz dourada pelos primeiros dilúculos da aurora que se aproxima, tornando-a ainda mais bela. Passados esses momentos de admiração, o alpinista escolhe uma face da montanha e começa a desafiante, longa e árdua subida.

    Apesar de ter tomado todas as precauções necessárias, frequentemente, ele sofrerá quedas e terá que voltar a percorrer um trecho que parecia definitivamente conquistado. Outras vezes, ver-se-á diante de obstáculos aparentemente intransponíveis e será tentado a desistir. Quando menos ele espera, encontrará ganchos deixados por outros montanhistas, auxiliando-o nos momentos perigosos e a subida tornar-se-á mais fácil.

    Se esse alpinista for perseverante e souber vencer os inúmeros obstáculos dessa árdua tarefa, sem desistir como tantos outros fizeram, chegará o momento em que ele transporá a última pedra e encontrar-se-á no topo da montanha. Nessa hora, todas as dificuldades terão ficado para trás, todos os precipícios estarão a seus pés e uma enorme felicidade inundará a sua alma, por ter realizado seu objetivo. Do alpinista terá desabrochado o herói!

    Podemos comparar esse herói às almas cristãs que são chamadas por Deus, através do batismo para galgar a sublime montanha da santidade, como alpinistas de si mesmas. Contudo, sabemos que a “santidade, a plenitude da vida cristã, não consiste em realizar empreendimentos extraordinários, mas em unir-se a Cristo, em viver os seus mistérios, em fazer nossas as suas atitudes, pensamentos e comportamentos” (cf. Bento XVI, Audiência Geral, 13/4/2011).

    Entretanto, para percorrer esse caminho da santidade e responder ao apelo de Nosso Senhor: “Sede perfeitos, assim como vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5, 48), torna-se necessário ao homem travar uma constante e penosa luta ao longo de toda a sua vida. E qual a explicação para isso?

    O homem é considerado um pequeno universo, um microcosmo, pois tem em si a natureza mineral, vegetal, animal, intelectual e sobrenatural. Cada uma dessas naturezas possui leis próprias e muitas vezes contrárias entre si. No Paraíso, pelo dom de integridade, essas leis estavam todas ordenadas e as naturezas inferiores, perfeitamente submetidas às superiores. Com o pecado original o homem perdeu, entre outros, o dom de integridade e todas essas naturezas, com suas leis, passaram a um estado de desordem total: “os desejos da carne se opõem aos do Espírito, e estes aos da carne; pois são contrários uns aos outros” (Gal 5, 17).

    Por um lado, Deus, infinitamente Perfeito e Bem-aventurado em si mesmo, em um desígnio de pura bondade, cria livremente o homem para fazê-lo participar de sua vida bem-aventurada. Chama-o e ajuda-o a procurá-lO, a conhecê-lO e a amá-lO com todas as suas forças. Convoca todos os homens, dispersos pelo pecado, para a unidade de sua família, a Igreja. Faz isto por meio de seu Filho, que enviou como Redentor e Salvador quando os tempos se cumpriram. Nele e por Ele, chama os homens a se tornarem, no Espírito Santo, seus filhos adotivos e, portanto, os herdeiros de sua vida bem-aventurada.

    E por outro lado, os instintos desregrados sugerem-nos desejos contrários ao nosso fim. Portanto, o grande esforço do homem consiste em dominar o instinto e agir de acordo com a razão iluminada pela fé. Mas não podemos nos esquecer que “uma vida santa não é fruto principalmente do nosso esforço, das nossas ações, porque é Deus, o três vezes Santo (cf. Is 6,3), que nos torna santos, é a ação do Espírito Santo que nos anima a partir de dentro, é a própria vida de Cristo Ressuscitado que nos é comunicada e que nos transforma (cf. Bento XVI, Audiência Geral, 13/4/2011).

    Assim, criado por Deus e para Deus, o homem somente encontrará a felicidade em seu Criador, como bem diz Santo Agostinho: “Fizeste-nos para ti, e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em ti”. (1984, p. 15).

    Impelidos por esse desejo de Deus e pela sede de infinito que está no coração de cada homem, subamos como um heróico alpinista a sublime montanha da santidade.

    Santa Clara de Assis – Discípula perfeita de São Francisco

    santa claraIrmã María Lucilia Morazzani,EP

    Inúmeros literatos, novelistas e romancistas ganharam celebridade narrando epopéias fictícias, produto de sua fértil imaginação. Nenhum deles, entretanto, seria capaz de inventar a história que Santa Clara deixou impressa no livro da vida, não imaginável pela mente humana.
    A começar pela maneira como recebeu o nome de Clara, que significa Resplandecente. Pouco antes do seu nascimento, sua piedosa mãe, rezando diante de um crucifixo pelo bom êxito de sua entrada no mundo, ouviu uma voz que lhe disse: “Não temas, darás ao mundo uma luz que tornará mais clara a própria luz. Por isso, chamarás Clara à menina”.

    Luta para seguir a Vocação

    Veio ela à luz em 11 de julho de 1193. Seus pais eram de família nobre e cavalheiresca, e donos de grande mfortuna. Desde tenra infância, causava admiração por suas virtudes, gostava da oração e desprezava os bens deste mundo. Jovem de grande formosura, de cabelos dourados e traços puros, muito cedo consagrou a Deus sua virgindade, desejosa de entregar-se por inteiro à Beleza infinita.

    Na flor da mocidade, aos 16 anos, ouviu diversas vezes as pregações de um frade cuja conversão havia comovido toda a cidade de Assis: São Francisco. A exemplo de Nossa Senhora, Clara meditava em seu coração as palavras incisivas do jovem pregador e não tardou a compreender que estava chamada a imitá-lo na santa vida que ele levava. Resolveu, então, tudo abandonar para seguir aquela testemunha viva de Deus.

    Seus pais, porém, tinham outros planos… Juntando à formosura, à nobreza e à riqueza um temperamento amável, essa moça tinha diante de si todas as possibilidades de um casamento brilhante e… proveitoso à família. Começou então para ela, não a luta de Santa Joana d’Arc nos campos de guerra, mas uma árdua batalha de palavras e atitudes para convencer seus pais a aceitarem uma decisão já tomada e irrevogável.

    Filha e discípula de São Francisco

    No domingo de Ramos de 1212, a jovem Clara se lançou numa aventura tão heróica que, a não ser inspirada pelo Espírito de Deus, faria tremer o mais audacioso dos Cruzados. Subtraindo- se à vigilância dos pais, acompanhada por uma parenta, foi ela confiar sua vocação ao bispo Guido, e seu porvir a um novo pai: São Francisco, o qual se tornou seu guia espiritual.

    Diante da imagem de Santa Maria dos Anjos, a jovem renunciou ao mundo por amor ao Menino Jesus, posto numa pobre manjedoura. Cobriu-se de uma túnica de lã e cingiu-se de uma corda, à maneira dos frades franciscanos, aos quais entregou suas luxuosas vestes. O próprio São Francisco cortou sua cabeleira de ouro e ela cobriu a cabeça com um véu negro, calçou sandálias de madeira e pronunciou os votos.

    Inconformados, seu pai e alguns parentes tentaram dissuadi-la de seguir o caminho por ela escolhido. Porém, firme na sua decisão, ela não se deixou em nada abalar pelos rogos e promessas que lhe fizeram. Quiseram, então, arrancá-la à força do Convento. Ela se pôs junto do altar e retirou o véu negro, mostrando-lhes a cabeça raspada, sinal do seu definitivo adeus ao mundo.

    A inconformidade da família cresceu quando sua irmã Inês, por força das orações de Clara, foi juntar-se a ela no mesmo ideal de vida. Nova investida dos parentes. Doze homens fortes e bem armados, comandados pelo tio Monaldo, receberam ordens do pai para trazer Inês de volta, ainda que por meios violentos. Diante daquela demonstração de força, as freiras de Santo Ângelo decidiram deixar a jovem partir.

    Esta, porém, disposta a tudo, reagiu tenazmente à pretensão paterna. Arrastada pelos cabelos por um dos esbirros e espancada com brutalidade, ela gritava, pedindo socorro a Clara. A Santa rezava, invocando ajuda de Deus. De súbito, o corpo da moça torna-se pesado e rígido como um compacto bloco de pedra. Os doze robustos homens esforçam-se por arrastá-la. Tomado de fúria, o tio tenta esmagar-lhe a cabeça com suas luvas de ferro, mas fica com o braço paralisado no ar. Clara, então, aproxima-se, toma sua irmã toda esfolada, semimorta, e a reconduz ao convento. Perplexos, os agentes da prepotência paterna se retiram.

    A partir deste fato, a família não mais pôs obstáculos à vocação das filhas. A fortaleza espiritual da virgem frágil havia mdomado a força bruta da matéria. Anos depois, outra irmã, Beatriz, foi juntar-se a elas no Convento de Santo Ângelo. Finalmente, Santa Clara teve a consolação de ver sua mãe e muitas outras damas da cidade entrarem pela via de santificação aberta por ela, nas pegadas de São Francisco.

    Fundadora e Abadessa

    São Francisco escreveu uma “Regra de Vida” para as freiras, a qual se resumia na prática da Pobreza Evangélica. E em 1215 obteve para elas a aprovação do Papa Inocêncio III. Nessa ocasião, Clara, por ordem expressa do Santo Fundador, aceitou o encargo de Abadessa.
    Estava fundada a Ordem das Clarissas.

    Com a morte do seu pai, Clara herdou uma grande fortuna, da qual nada reteve para o convento. Distribuiua totalmente aos pobres. O Papa Gregório IX procurou fazê-la aceitar para si e para o convento alguns bens temporais, argumentando que podia, para esse fim, desligá-la do voto de pobreza. Ela respondeu:

    — Santo Padre, desligai-me dos meus pecados, mas não da obrigação de seguir Jesus Cristo!

    A mais perfeita imagem de São Francisco

    Uma das mais admiráveis conquistas de São Francisco foi Santa Clara, cujo nome parecia projetar luz e cujo simples retrato, estampado numa das paredes da basílica de Assis, ainda hoje comove o visitante com seu encanto misterioso, penetrante e atraente.

    Assim como a Virgem Maria é o mais perfeito reflexo de Jesus Cristo, a Fundadora das Clarissas, à maneira feminina, projeta a imagem mais perfeita de São Francisco de Assis.

    Imensa era a admiração de Santa Clara e suas filhas pelo seu Pai espiritual. Costumava ela dizer-lhe: “Dispõe de mim como te aprouver. Estou às tuas ordens. Depois que fiz a Deus o sacrifício de minha vontade, não mais me pertenço!”

    Conta-nos o historiador Joergensen que, “não obstante a humildade do Santo, ele teve de reconhecer em que alto grau de admiração era tido por Clara e suas freiras, e de compreender como grande parte dos sentimentos religiosos delas se ligava a esta veneração para com sua pessoa”.

    Instrumento para a realização de um plano de Deus

    Um biógrafo de Santa Clara observa que, nessa época na qual a Cristandade começava a imergir num processo de decadência, o mundo já parecia decrépito e envelhecido. Escurecia-se a visão da Fé, vacilavam os costumes cristãos na sociedade, enfraquecia-se o vigor dos grandes empreendimentos pela glória de Deus e salvação das almas. O ressurgimento dos antigos vícios pagãos veio agravar essa decadência. A Cristandade tendia para a moleza, o relaxamento, a perda do senso do sobrenatural, e se inebriava com os bens materiais proporcionados pelo avanço da civilização.

    Nesse contexto, interveio Deus, suscitando varões como São Francisco e São Domingos, verdadeiros luminares do mundo, mestres e guias dos povos. Com eles despontou um fulgor de meio-dia num mundo em ocaso.

    A Providência Divina não haveria de deixar sem ajuda o sexo mais frágil. Por isto, suscitou Santa Clara, acendendo nela uma luz claríssima e apresentando-a como modelo a ser imitado pelas mulheres.
    Os resultados não se fizeram esperar.

    A santidade arrasta

    Rapidamente se espalhou a fama de santidade de Clara. De toda parte as virgens acorriam a ela, querendo, a seu exemplo, se consagrarema Cristo. Não só isto. Tomadas de admiração pela virgindade, as mulheres já casadas sentiram um forte convite da graça para viverem mais castamente, segundo o seu estado. Nobres e ilustres senhoras, abandonando vastos palácios, construíram sentiram um forte convite da graça para viverem mais castamente, segundo o seu estado. Nobres e ilustres senhoras, abandonando vastos palácios, construíram mosteiros para neles viverem com grande honra, pelo amor de Cristo.

    O encanto pela pureza foi reanimado até mesmo em rapazes, os quais, pelo exemplo de Santa Clara e suas filhas, passaram a desprezar os prazeres enganosos da carne e foram procurar a verdadeira felicidade nos mosteiros dos frades franciscanos ou dominicanos.

    Aquele século viu com admiração e espanto uma prodigiosa inversão de conceitos. Tornou-se comum ver mães oferecerem suas filhas a Cristo, ou as filhas arrastarem suas mães. A irmã atraía as irmãs; e a tia, as sobrinhas. Todas com fervorosa emulação desejavam servir a Cristo, em troca de uma parte nessa vida angelical que Clara fez brilhar nas trevas do mundo.

    A novidade de tais sucessos correu pelo mundo inteiro, ganhando almas para Cristo em toda parte. Da clausura monástica, ela começou a iluminar todo o mundo. A fama de suas virtudes invadiu os salões das senhoras ilustres, chegou aos palácios das duquesas e penetrou nos aposentos das rainhas. A nata da nobreza passou a seguir suas pegadas.

    Santa Clara abrira o caminho para se propagar a observância da castidade no mundo, imprimindo uma vida nova ao estado de virgindade.

    Austeridade alegre e feliz

    A santa Abadessa era um exemplo vivo para suas filhas espirituais. Era a primeira a cumprir a regra na perfeição. À imitação de São Francisco, essas freiras praticaram austeridades até então desconhecidas do sexo feminino. Usavam um rústico cilício feito de crina de animal, andavam descalças, dormiam no chão, tendo por leito agressivos ramos e por travesseiro um duro pedaço de pau. Jejuavam nas vigílias de todas as festas da Igreja, passavam a pão e água todo o tempo da Quaresma. Durante o Advento — 11 de novembro ao dia de Natal — não tomavam alimento algum nas segundas, quartas e sextas-feiras. E ainda se submetiam a rudes disciplinas. Em meio a todas essas austeridades, nada se notava de melancolia ou tristeza em Santa Clara. Pelo contrário, seu rosto era sempre jovial, radiante de felicidade, cheio de encantadora serenidade e doçura, só falando de coisas alegres.

    À imitação do Redentor, ela lavava os pés das irmãs, servia a mesa e cuidava das enfermas, principalmente daquelas vítimas das doenças mais repugnantes. Ela mesma freqüentemente doente, entretanto, nunca deixava de trabalhar. Quando não podia se levantar, acomodava-se no leito e punha-se a bordar paramentos para as igrejas pobres.

    A formação diária das Irmãs

    A santa Fundadora formava suas filhas espirituais com a pedagogia aprendida do Divino Mestre. Primeiro, mostrava-lhes como afastar da alma toda agitação, para poderem firmar-se somente na intimidade de Deus. Depois, ensinava-as a não se deixarem levar pelas lembranças dos ambientes sociais que deixaram, para viverem só para Cristo. Tinha cuidado em lhes fazer notar como o demônio insidioso arma laços ocultos para as almas puras e fervorosas, diferentes das tentações com que procura levar ao pecado as pessoas mundanas. Queria que todas tivessem tempos certos de trabalhos manuais, para fugir do torpor da negligência.

    No seu convento, eram perfeitas a observância do silêncio e a prática da honestidade. Entre essas virgens, não havia conversas vãs nem palavras levianas ou frívolas. A própria mestra, de poucas palavras, resumia em alocuções breves a abundância de sua mente.

    “Vai em paz, minha alma!”

    Santa Clara trabalhou incansavelmente na Seara do Senhor durante seus 41 anos de vida monástica. Recebeu de seu Divino Esposo grandes graças místicas. Foi favorecida com o dom de operar milagres, do qual fez uso largamente em benefício de inúmeros doentes. O próprio Papa — que bem sabia como é livre o acesso das virgens puras à presença da Divina Majestade — muitas vezes dirigia-se a ela, pedindo suas valiosas orações. E sempre foi prontamente atendido.
    Os rigores da regra, as fadigas dos muitos trabalhos, a vida de mortificação levaram-na a contrair uma incômoda enfermidade que ela carregou com ufania ao longo dos últimos 28 anos de sua vida.

    Em seu leito de morte, teve a graça insigne de receber a visita do Papa Inocêncio IV, acompanhado de seus cardeais.
    Entregou sua luminosa alma a Deus no dia 11 de agosto de 1253, aos 60 anos de idade.

    Sua última conversa foi com sua própria alma: “Vai em paz minha alma! Tens um guia seguro que te mostrará o caminho: Aquele que te criou, santificou, amou e não cessou de vigiar com ternura de uma mãe que zela pelo filho único de seu amor. Dou graças e bendigo ao Senhor porque Ele criou a minha vida”. Ouvindo-a falar, uma irmã lhe perguntou:

    — Com quem conversavas, minha Madre?

    — Com minha alma — respondeu a Santa.

    Em 1255, menos de dois anos após sua morte, foi incluída no catálogo dos santos pelo Papa Alexandre IV, ante a evidência dos milagres obtidos através de sua intercessão. Desde então, é uma lâmpada colocada sobre o candelabro para iluminar todos os que habitam a casa do Senhor.

    Mudança de mentalidade do homem

    Cristo Rey Sainte Chapelle-ParisIrmã Juliane Vasconcelos Almeida Campos, EP

    A teoria de Kant* arruinou toda e qualquer fé em verdades gerais e transcendentes, pois estas passaram a existir só para quem as forjasse para si mesmo. “O seu subjetivismo fazia a experiência religiosa perder-se numa bruma de boas intenções e de crenças afinal irracionais 1 . Tudo isso introduziu uma desordem no pensar do homem, sobretudo ao expulsar Deus de seu ser, deificando-se a si próprio, e tornando-se legislador universal.

    Ora, em sua parte animal, o homem tem paixões e tendências que às vezes o levam a reagir de forma irracional. De si mesmas as paixões humanas são neutras, mas não é raro que se tornem avassaladoras 2 . E por ter uma razão lógica, ao encontrar argumentos que lhe permitam justificar-se, subjetivamente, em suas transgressões morais ― em virtude destas paixões e más tendências, já sem freios, haverem se tornado dominantes ―, se introduz a desordem também na sociedade, que entra em lenta e profunda crise. Aberta a porta do subjetivismo e perdido o referencial do Ser Absoluto, o homem foi perdendo a noção da experiência transcendental, mais além de si mesmo.

    O problema passa a ser mais antropológico-ético que ontológico-metafísico.

    Com efeito ― como Paul Bourget pôs em evidência em sua célebre obra ‘Le Démon du Midi’ ―’cumpre viver como se pensa, sob pena de, mais cedo ou mais tarde, acabar por pensar como se viveu’ (Op. Cit., v.II, Paris: Librarie Plon, 1914. p. 375). Assim, inspiradas pelo desregramento das tendências profundas, doutrinas novas eclodem. Elas procuram por vezes, de início, um ‘modus vivendi’ com as antigas, e se exprimem de maneira a manter com estas em simulacro de harmonia que habitualmente não tarda em se romper em luta declarada 3 .

    Não se trata aqui de fazer uma análise histórico-sociológica das mudanças ocorridas na sociedade, no mundo e no homem ocidental, desde então. Mas sim de fazer uma reflexão sobre o quanto as novas doutrinas abalaram o homem em seu próprio ser, mudando-lhe a mentalidade, o que se refletiu em seu comportamento ético e em seu senso moral.

    Já Descartes havia substituído a busca da “ordem da razão” pela “ordem das coisas”, aparecendo o homem científico. A ciência passou a ser vista como autógena 4 e apareceu como a mais deslumbrante e assombrosa das estrelas da cultura, considerada como um bem em si mesma, atividade produtora de novas ideias 5 . O racionalismo científico determinava que só o que se explicasse pelo método científico era verdadeiro. Fascinado pela ciência, o homem elevou-a até ocupar o lugar do sagrado. Mas não era um simples conflito entre a ciência e a fé. Por trás de tudo aquilo latejava um empenho de proclamar a salvação da humanidade por si mesma, e o advento de uma sociedade iluminada unicamente pela razão humana 6 .

    Até onde penetraram essas novas hermenêuticas? Não se pode imaginar um declínio total e imediato. Mas é impossível negar que a influência que exerceram foi considerável. Sendo limitado o número de intelectuais, no limiar do século XVIII as ideias avançadas de racionalismo e libertinagem alcançavam apenas homens de letras, nobres ou grandes burgueses ávidos de bel esprit. E apesar de tantas transformações e crises, aqueles que se tardaram a separar a Razão da Fé ― ou seja, sobretudo os que se mantinham cristãos ―, apoiados nos alicerces da Fé e de tradições antigas e sólidas, se mantiveram ainda mais arrazoados e menos abalados em seu próprio ser 7 .

    Isso porque quando a Razão se separou da Fé, não só proclamou-se independente desta, mas lhe declarou guerra e começaram os grandes dramas da sociedade 8 . Morta a metafísica da causalidade, com Kant ― e separada a Razão da Fé ―, já Hegel tinha uma concepção de religião como “um momento lógico, natural da evolução do Espírito Absoluto e, contra qualquer subordinação da religião à filosofia”. E em fins do século XVIII, entrando pelo XIX, “por obra de Marx, Engels, Comte, Nietzsche e Freud, irrompe a desmistificação da religião, a qual encontra amplos consensos e muitíssimos defensores num momento em que impera o positivismo e o materialismo” 9 .

    Por isso, diz João Paulo II 10 que não é exagerado afirmar que boa parte do pensamento filosófico moderno se desenvolveu afastando-se progressivamente da Fé Cristã. E a partir do subjetivismo e da perda do referencial Absoluto bem como com seu relativismo moral, a filosofia deu origem a uma mentalidade difusa, chegando a um pensamento niilista, onde não se deve assumir qualquer compromisso, porque tudo é fugaz e provisório.

    Dominando a ciência e bastando-se a si mesmo, o homem provocou uma verdadeira revolução na sociedade humana. Deixou de ser visto como o sujeito da história, relegando a tradição e a iniciativa, a herança filosófico-cultural e o gênio criador, caindo em um morboso naturalismo dessacralizador, desfigurando a imagem ontológica do homo Dei 11 . Este novo homem, seguro de ter o domínio da ciência e da técnica, se afastou até de si mesmo como seu próprio fim e passou a ser dominado e controlado por elas, considerando-as como algo e fim último, desligado da consciência das pessoas 12 , degradando-se a si mesmo, perdendo seu senso moral.

    A modernidade, chegando ao seu auge na era da pós-modernidade, revela uma questão antropológica complexa e articulada, que se verifica nas reflexões filosóficas dos últimos séculos. Não foi ela um simples fenômeno cultural que mudou as sociedades, mas, na realidade, obriga a uma compreensão mais exata do que ocorreu com o espírito humano 13 . O temperamento da opinião pública passou a ser tão vegetativo, que a vida de pensamento parece eliminada dela. Os mais tremendos acontecimentos não afetam mais o indiferente homem egocêntrico e globalizado, já sem referencial de fim último. Frente a manifestações de degradação moral, a mais completa, apresenta uma atonia radical, pela qual nem o sim é o sim, nem o não é o não, nem o bem é o bem, nem o mal é o mal. Ele a tudo olha com indiferença e apatia, exceto para sua vidinha pessoal 14 .

    Aquela luz que a razão projeta sobre todas as coisas ― o lumen rationis ―, dando uma visão integral destas, parece estar se extinguindo do ser humano. O homem foi ficando cada vez menos sensível à contradição, ao ilogismo, mesmo ao disparate ou ao estapafúrdio, significando uma insensibilidade para com a própria razão. Essa evanescença do lumen rationis produz um cambalear geral da humanidade, que passa a ser presa fácil de qualquer força que a queira conduzir. Perdida a luz do Absoluto, que antes lhe iluminava a razão, o homem passa a ter seu lumen rationis cada vez mais esmaecido, “reduzido a uma brasa ou a um farolete de lanterna, que está apenas ― para me exprimir assim ― comburente, mas que não projeta mais, não põe em claridade zonas de uma sala, apenas na sala se percebe que ele está lá. É um lumen rationis coincé, quer dizer, comprimido de vários lados e reduzido ao seu estado inicial” 15 .

    Assim, o sonho iniciado nos séculos XVI-XVII ― de que homem se converteria em senhor e possuidor da natureza e do mundo ―, afinal gerou uma nova humanidade autônoma e aparentemente livre, mas que na realidade perdeu o rumo de seu próprio ser, quase incapaz de pensar com clareza e lucidez, que transformou sua liberdade em libertinagem, produzindo um caos nas mentes, perdendo o sentido do humano, ademais do divino.

    Sem embargo, como uma brasa que ainda fumega, a luz da razão vai, como que, se despertando. Como um movimento pendular que tende a voltar ao seu badalar equilibrado ― depois de atingir o outro extremo e dele se ter saturado ―, o século XX se iniciou com um resgate da metafísica, pela analítica dos neotomistas, abrindo as portas para um novo diálogo filosófico com a causalidade e uma redescoberta do transcendente.

    * ver artigo “morte” da metafísica
    1DANIEL-ROPS, Henri. A Igreja dos tempos clássicos: (II) a era dos grandes abalos. São Paulo: Quadrante, 2001. p.69.
    2CLÁ DIAS, João Scognamiglio. A maior felicidade. Em: Revista Arautos do Evangelho. São Paulo. No. 55 (Jul., 2006); p.8-9.
    3CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Revolução e Contra-Revolução. 2a. ed. São Paulo: Diário das Leis, 1982. p.23.
    4MARITAIN, Jacques. De Bergson a Thomas d’Aquin. New York: Maison Française, 1944. p.208-209.
    5BUNGE, Mario. La ciencia, su método y su filosofía. Citado por: URIBE CARVAJAL, Ángel Hernando y OSORIO, Byron. Cultura y espiritualidad. Medellín: UPB, 2008. p.34.
    6AGUILÓ, Alfonso. Pode a ciência controlar-se a si mesma? [Em linha]. [Consulta: 25 Mar., 2009].
    7DANIEL-ROPS, Op. Cit., p.80-81.
    8CASTÉ, Juan Carlos. Fé e razão, fraterna e alcandorada união. Em: Revista Arautos do Evangelho. São Paulo. No. 89 (Mai., 2009); p.20.
    9MONDIN, Op. Cit., p.98.
    10JOÃO PAULO II. Encíclica Fides et Ratio. No.46.
    11RODRÍGUEZ Y RODRÍGUEZ, Victorino. Temas-clave de humanismo cristiano. adrid: Speiro, 1984. p.235.
    12ADORNO, Theodor. Educação após Auschwitz. Citado por: DOMINGUES, Ivan. Ética, ciência e tecnologia. Em: Kriterion. Belo Horizonte. Vol. 45, No. 109 (Jan. – Jun., 2004); p.162.
    13BENTO XVI. Alargar os horizontes da racionalidade. Em: Revista Arautos do Evangelho. São Paulo. No. 80 (Ago., 2008); p.8.
    14CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. O lumen rationis em nossos dias. Conferências. São Paulo: s.n., 1975;1983. s.p.
    15Ibid., s.p.

    Cápua: preciosa lição de vida espiritual

    AnibalIrmã Clara Isabel Morazzani Arráiz, EP

    Aníbal foi um excelente general, astuto e ao mesmo tempo ousado. No entanto, no momento mais dramático de sua grandiosa campanha militar, faltou-lhe a prática de uma importantíssima virtude.

    Roma, a invencível, a poderosa, tremia… Num só dia perdera o escol de seus soldados e de sua cavalaria; deixara sobre o campo de batalha 50 mil mortos e vira cair nas mãos de seus inimigos mais de 10 mil prisioneiros. A soberba rainha das nações sofrera o maior desastre militar de toda a sua história. E a derrota não se limitava a estas conseqüências: era de temer- se que o adversário, alentado pela recente vitória, alcançada de forma tão fulminante, continuasse sua marcha triunfal até as portas da Cidade Eterna, derrubando sua supremacia e mudando completamente os rumos do Ocidente.

    Quem era o contendor que ousava opor resistência ao glorioso avanço das legiões romanas, levando sua audácia ao extremo de desafiá-las no coração de seu poderio? Quem era este que, num golpe estratégico magistral, se aventurara a frear a colossal força de Roma e agora a mantinha numa humilhante incerteza?

    Aníbal e a campanha contra Roma

    Havia já muitos anos, uma rivalidade surgira entre as duas potências da Antigüidade: Roma e Cartago. Não poupara a primeira, em seu ímpeto conquistador, os territórios da segunda situados nas ilhas de Sicília, Córsega e Sardenha, ocasionando a Primeira Guerra Púnica. Se Roma havia conseguido ampliar suas fronteiras, comprara ao mesmo tempo uma inimiga irreconciliável que nutria um profundo desejo de vingança.

    Em Cartago, entre os mais acirrados na oposição a Roma, achava-se a dinastia dos Barca, cujo chefe, Amílcar, distinguira-se por sua coragem e determinação ao longo das campanhas militares na Península Ibérica. Conta a tradição que ele obrigou seu filho Aníbal, de nove anos, a jurar diante dos altares dos deuses ódio eterno aos romanos.

    Pode-se dizer que a partir daí a vida de Aníbal não foi mais que o estrito cumprimento de sua promessa. Educado por seu pai nas rudes façanhas da guerra na Hispânia, o jovem descendente dos Barca reunia predicados aparentemente contraditórios: sabia aliar a astúcia à energia, o maior dos entusiasmos a um cálculo frio e sagaz; era ao mesmo tempo o melhor dos peões e o mais hábil dos cavaleiros, o primeiro no ataque e o último na retirada.

    Após a morte de seu pai e de seu cunhado, o exército cartaginês o elegeu general quando tinha apenas vinte e um anos. Aníbal revelou-se um excelente estrategista, demonstrou logo seu gênio improvisador nos combates e realizou verdadeiras proezas. Rompendo a trégua temporária que havia entre Cartago e Roma, atacou várias cidades pertencentes a esta na Hispânia, saindo sempre vencedor.

    Em 218 decidiu pôr em prática o sonho temerário de tomar Roma e destruir por completo sua primazia. Os romanos conheciam as intenções do jovem general e o esperavam no marcom uma numerosa frota; entretanto Aníbal, temendo ser derrotado numa batalha naval onde a superioridade de seus inimigos era patente, preferiu levar suas tropas por terra através da Hispânia e da Gália. Reuniu um exército de 100 mil guerreiros com 37 elefantes, transpôs o Ródano, os Pirineus e os Alpes, estes últimos cobertos de neve e cheios de perigos e obstáculos. Grande parte dos soldados pereceu ao longo da viagem, mas o general não se intimidou, e recrutou gauleses para reparar as perdas sofridas.

    Seu avanço militar pela Itália foi marcado por uma série de êxitos extraordinários. Chegando a Ticino, venceu o cônsul Cornélio Cipião e pouco mais tarde, em Trébia, infringiu uma vergonhosa derrota à legião comandada por Semprônio. No ano seguinte, obteve nova vitória às margens do lago Trasímeno, contra as forças lideradas pelo cônsul Flamínio. Com a chegada da notícia dessa batalha, o terror espalhou-se em Roma. Quinto Fábio Máximo, eleito ditador, pôs a cidade em estado de defesa e reuniu às pressas um novo contingente com o intuito de conservar ao menos a capital.

    Não obstante essas medidas de prudência tomadas por Fábio Máximo, o general púnico conseguiu atrair os cônsules Terêncio Varrão e Paulo Emílio a uma batalha em Cannas, em campo aberto, como era bem do seu gosto, pois sempre vencia nesse tipo de combate. Aníbal dispôs seus africanos, gauleses e íberos em ordem de batalha, armados de longas espadas e afiados alfanjes. A luta foi encarniçada. De ambos os lados, os guerreiros combateram heroicamente, mas Aníbal, apesar da inferioridade numérica de seu exército, saiu vencedor. Como afirmamos acima, Roma sofreu aí a pior derrota da história da República e viu cair sob os golpes dos cartagineses a fina flor de sua força combatente.

    O exército cartaginês se detém em Cápua

    Após a batalha de Cannas, muitos contemporâneos pensaram que Roma chegara ao fim de sua glória, e alguns de seus aliados italianos, julgando- a perdida, decidiram unir-se a Cartago. A queda da capital parecia uma conseqüência natural do avanço cartaginês.

    Entretanto, deu-se o inesperado: ao invés de lançar-se sobre a cidade no momento em que ela se achava indefesa e sem coordenação militar, Aníbal preferiu retirar-se para Cápua (uma das cidades que lhe haviam aberto as portas) a fim de ali passar o inverno e conceder um merecido descanso às suas tropas. Sem dar ouvidos às sugestões de seus oficiais, de logo invadir Roma, e aos acertados avisos de seu lugar-tenente Maarbal que lhe dizia: “Tu sabes vencer, Aníbal, mas não aproveitar da vitória”, ele deixou-se ficar em Cápua, gozando de uma vida ociosa e devassa. Seus soldados, que estavam no auge do furor bélico, ficaram de repente sem motivação por verem o próprio chefe abandonar seus objetivos para dedicar- se ao descanso, e entregaram-se aos prazeres de uma vida fácil, a ponto de, entre os romanos, dizer-se que eles “tendo entrado homens, saíram transformados em mulheres”.

    Era o toque de finados do sonho cartaginês: Aníbal cometera um erro irreparável. Ao facilitar o repouso e o relaxamento de seus valentes, concedendo-lhes tudo quanto quisessem, julgava que eles adquiririam assim um redobrado vigor para se jogarem de novo sobre o adversário. Entretanto, o resultado foi precisamente o contrário: de tanto descansar no meio dos prazeres, eles amoleceram e perderam o desejo de vencer. A inação dos cartagineses em Cápua deu aos romanos oportunidade de reagrupar suas forças e iniciar uma hábil contra-ofensiva, hostilizando a retaguarda africana e cortando-lhe o aprovisionamento. Aníbal jamais chegaria a entrar em Roma.

    Profunda lição de vida espiritual

    Após ter cruzado toda a Península Ibérica, transposto os Alpes e enfrentado vitoriosamente os poderosos exércitos romanos, o enérgico general africano sucumbiu em Cápua. O que, exatamente, teria acontecido?

    “Finis coronat opus” (o fim coroa a obra), diz o provérbio latino. Aníbal confiou demais nas suas próprias forças e já deu a vitória por obtida quando pouco lhe faltava para alcançar o termo final. Sem ter atingido o seu objetivo último, todas as suas lutas anteriores ficaram tremendamente destituídas de brilho e até mesmo, de certo modo, sem sentido.

    Ele foi um excelente general, astuto e ao mesmo tempo ousado. No entanto, no momento mais dramático de sua grandiosa campanha militar, faltou-lhe praticar a virtude que dispõe a razão a discernir em qualquer circunstância nosso bem, e a escolher os meios adequados para realizá-lo: a prudência.
    “O homem prudente vigia seus passos” (Pr 14,15), afirma a Sagrada Escritura. São Tomás, citando Aristóteles, ensina que a prudência é a “regra certa da ação” 1 . Ela é chamada “auriga virtutum” (o cocheiro, ou o portador, das virtudes), porque conduz as outras virtudes, indicando-lhes a regra e a medida. Graças à prudência, aplicamos sem erro os princípios morais aos casos particulares e superamos as dúvidas sobre o bem a fazer e o mal a evitar 2 .
    Onde falhou Aníbal? Tivesse ele sido prudente, teria considerado quanto risco havia em entregarem-se, ele e seus soldados, aos devaneios das paixões que Cápua oferecia, desviando-se assim de primordial, a conquista de Roma. A ele — que era pagão e desconhecia os salutares preceitos da moral cristã — teriam bastado os ensinamentos de Aristóteles, o qual previne os imprudentes contra o risco dos prazeres desregrados: “O deleitável e o triste pervertem no coração o conceito da prudência” 3 .

    Mas o Cristianismo vai muito além. Na Suma, o grande São Tomás disserta sobre a prudência de modo completo e profundo. E é muito claro ao afirmar que ela se perde, não tanto por distrações ou esquecimentos, mas, sobretudo, quando é enleada pelas paixões: “A prudência não desaparece diretamente pelo esquecimento. Ela, ao invés, corrompe-se pelas paixões” 4 .
    Deste fato histórico passado na antiqüíssima cidade itálica tiramos, sem dúvida, uma preciosa lição. Ele é útil tanto para quem adotou o estado religioso quanto para os cristãos que vivem na sociedade. A entrega a um vício, a uma paixão, por pequena, fugaz e sem importância que pareça, é sempre uma imprudência que pode arruinar anos de uma bem-levada vida devota. Pode destruir uma empresa, um casamento ou uma família, uma juventude brilhante ou uma respeitável maturidade. Quantas “Cápuas” não terão destituído da coroa da dignidade pessoas que passaram uma existência inteira na observância dos melhores preceitos morais, levando-as até a terem vergonha de si mesmas?

    O exemplo da derrota do infeliz Aníbal e, sobretudo, os sábios ensinamentos da Santa Igreja, são um sério e irrecusável convite a todos nós, no sentido de nunca fraquejarmos na prudente vigilância e no combate às más paixões. Além disso, nunca será demais recordar que nenhuma virtude pode ser estavelmente praticada sem o precioso auxílio da graça. Mas esta jamais será recusada àqueles que a pedem com insistência e confiança, sobretudo quando pela intercessão de Maria Santíssima. Sejamos prudentes e confiantes, e não haverá “Cápua” a nos desviar do caminho da eterna salvação.

    1) Suma Teológica II-II, q. 47, a. 2.
    2) Cf. CIC n. 1806.
    3) In VI Ethic.
    4) Suma Teológica, II-II q. 47, a. 16.

    Santa Maria Madalena – porque muito amou…

    tangere
    Thaliane Neuburger

    “Ama et quod vis fac”, ou seja, ama e faze o que quiseres. Frase ousada de Santo Agostinho, porém inteiramente teológica, por ser a caridade a virtude essencial, sem a qual, as demais virtudes carecem de valor 1 . O próprio São Paulo assim inicia seu nobre, distinto e angélico cântico sobre a rainha das virtudes: “Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver caridade sou como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine. Mesmo que eu tivesse o dom da profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência; mesmo que tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tiver caridade, não sou nada. Ainda que distribuísse todos os meus bens em sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tiver caridade, de nada valeria!” (1Cor 13, 1-3).

    Diversos autores afirmam que a caridade supera em beleza, valor e essência a todas as demais virtudes, inclusive a própria Fé e Esperança pelo fato de Deus constituir-Se no seu objeto primário e principal 2 , e porque estas não ultrapassarão os umbrais da eternidade, enquanto que “a caridade jamais acabará” (1Cor 13, 8).

    Segundo São Tomás , o progresso na vida sobrenatural consiste, essencialmente, na perfeição da caridade 3 . Ela é a virtude que nos une diretamente a Deus conforme no-lo demonstra o discípulo amado: “Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele” (1Jo 4, 16). Disto procede a supremacia do amor: porque as demais virtudes somente preparam e iniciam essa união, mas quem a realiza de modo pleno é a caridade 4 .

    Por outro lado, o Apóstolo São Paulo mostra-nos que “o amor de Cristo nos pressiona” (2Cor 5, 14). Mas, no que consiste esse “pressionar”? Vejamos o que nos explica o Revmo. Monsenhor João Clá:

    “É um modo de exprimir a força que tem o amor de Nosso Senhor por nós; este amor é transformante, infunde bondade e faz com que sejamos aquilo que jamais seríamos pelos nossos esforços ou natureza; é um amor que faz com que eu dê em relação ao Bem que é Ele, aquilo que eu nunca conseguiria dar por meu esforço. (..) Ele nos confisca [pois] é um amor tão superior, exuberante, rico, transbordante e incomensurável, que uma vez manifestado, torna-se impossível, de nossa parte, não vivermos para Ele” 5 .

    Estes foram os efeitos do amor do Divino Mestre em Santa Maria Madalena, “que foi cativada e transformada pela força deste amor, a tal ponto que depois de uma vida de vícios e desvarios, atingiu tão eminente grau de admiração e enlevo por Nosso Senhor Jesus Cristo e, sobretudo, foi tão amada por Ele que obteve a restauração da inocência” 6 .

    Voltemo-nos, pois, para sua vida e veremos as grandes maravilhas operadas por Deus naquela alma.

    Maria Madalena nasceu de uma família muito digna, talvez a mais rica de Israel. Possuindo, desde pequena, uma aparência privilegiada, sua mãe tinha o costume de colocá-la sentada encima de uma almofada na janela, para que todos pudessem admirar sua beleza e seu bom comportamento. As ruas daquela época eram estreitas e os que por ali transitavam viam-na, conversavam um pouco com ela e, encantados, elogiavam tão extraordinária menina. Elogios estes, que serviram para dar início a um processo que a levaria a cometer os piores pecados, porque, “quando a pessoa não sabe se defender dos elogios e restituí-los a Deus, isso produz na alma um estrago tremendo” 7 , pois, o “orgulho leva à impureza” 8 . Foi justamente o que aconteceu com a jovem Maria Madalena.

    Com a perda dos pais, deu-se a divisão da vasta herança. Coube a Lázaro — sendo o primogênito — herdar todas as terras e propriedades que possuíam em Jerusalém, assumindo com isso o encargo social e político da família. Marta, por sua vez, ficou em Betânia e viu-se obrigada a administrar as propriedades do irmão. Restou à Maria — por ser a caçula — o castelo que a família possuía em Mágdala, cidade muito mundana da época, devido à sua localização às margens do Mar da Galiléia.

    Chegando a idade das paixões que rejeitam todo freio; quando a presença de toda pessoa honesta e séria resulta-lhe pesada” e sendo Maria Madalena “muito adulada e muito bela, circundada de adoradores, desfrutando ao respirar o incenso agradável dos elogios e sobretudo o perfume embriagante do prazer, fugiu da companhia de sua irmã” 9 , aos quinze anos, para estabelecer-se em Mágdala. No entanto, em pouco tempo, “começou a levar uma vida afastada dos Mandamentos da Lei de Deus, tornando-se, assim, uma pecadora” 10 .

    Em certo momento chega a Mágdala rumores de estupefação, admiração e entusiasmo pelo grande profeta: Jesus Nazareno. Muito dada a estar de acordo com as notícias de acontecimentos mais recentes, Maria decidiu reunir uma caravana e ir ao encontro daquele, do qual todos comentavam. Quando chegaram ao lugar onde o Divino Mestre se encontrava, Ele “a viu, a olhou e a curou” 11 , e, sobretudo, infundiu em sua alma graças superabundantes, operando assim sua conversão. Abandonando tudo o que tinha e todos os antigos amigos que a levaram ao pecado, seguiu a Nosso Senhor.

    Entretanto, após passar um longo período acompanhando a Jesus juntamente com as outras Santas Mulheres, sentiu um desejo de voltar à Mágdala e à sua antiga vida. A pretexto de buscar algumas coisas, embora Marta e as outras insistissem à que não retornasse, ela decidiu ir e lá chegando retomou a sua vida de pecado.

    Um dia, estando Nosso Senhor a pregar perto de Cafarnaum, dá-se o reencontro. Aquele Divino Olhar recai sobre Maria, mas desta vez, “esse olhar do Salvador e essa palavra penetrante mudaram seu coração mais dolorido que endurecido. Em seguida, ela seguiu a Jesus e não O deixou mais” 12 .
    Algum tempo depois, o Divino Mestre é convidado para jantar em casa de um fariseu. Maria Madalena rompendo as praxes da época — as quais proibiam a entrada de mulheres durante os banquetes — foi até Jesus para assim manifestar publicamente seu arrependimento e seu amor por Aquele que a havia transformado. Ali entrando, permaneceu aos pés do Salvador, e lhe ofertou o que de mais precioso possuía: suas lágrimas que, como sinal de penitência, lavaram aqueles Sagrados Pés; em seguida enxugou-Os com seus próprios cabelos; beijou-Os e por último, Os ungiu com o mais precioso perfume. Atos simbólicos de “seu coração que ela se empenhava em lançar todo inteiro no coração do Mestre” 13 . Tal veneração e escravidão mereceu como recompensa do Salvador as seguintes palavras: “seus numerosos pecados estão perdoados, porque ela muito amou” (Lc 7, 47) e “em verdade vos digo: onde quer que for pregado em todo o mundo o Evangelho, será contado para sua memória o que ela fez” (Mc 14, 9).

    Estando o Mestre em Betânia, Maria despreocupava-se de todos os assuntos da casa e permanecia aos Seus pés, ouvindo-O e admirando-O. Tinha o pensamento unicamente posto no Salvador, já que guardava um delírio de amor a Ele e não se interessava por outra coisa, a não ser o Mestre, que para ela era tudo 14 . Por esta razão, recebeu esse elogio: “Maria escolheu a melhor parte e esta não lhe será tirada” (Lc 10,42). Ou seja, desde que a pessoa se ponha a amar, o demônio não consegue tirar nada e “ninguém rouba aquilo que o amor constrói” 15 .

    O Senhor concedeu imensos benefícios a Maria Madalena e distinguiu-a com sinais de predileção, infamou-a totalmente de amor por Ele e tornou-se íntimo dela.

    Uma das características do enlevo é fazer com que o enlevado saia de si e se fixe em algo que lhe é superior 16 , por isso, Santa Maria Madalena “se une a Ele em todos os estados pelos quais Ele faz passar sua humanidade. Ela se une a Jesus vivendo (…), a Jesus sofrendo (…) a Jesus morrendo e a Jesus morto” 17 , de tal maneira, que acompanhou o Divino Mestre até na hora suprema do “Consummatum est”, quando todos O abandonaram. Mostrando que o enlevo verdadeiro é aquele que está disposto até ao holocausto, se isso for necessário, em favor do Amado.

    Quando mataram a Nosso Senhor, ela — em contraposição aos discípulos, os quais “tinham fechado as portas do lugar onde se achavam, por medo dos judeus” (Jo 20,19) — ia por todos os cantos, proclamando que haviam cometido um crime infame contra o Mestre, pois Este não tinha feito outra coisa senão o bem. Atraindo para si, o ódio de todo Sinédrio.

    Sendo “a que mais fervorosamente amava o Senhor, (…) não podia conter-se de desejo de adorar e perfumar Seu sagrado Corpo” 18 . Por isso, já na madrugada do domingo, quando uma dama não podia estar andando pelas ruas, ainda sem o sol ter nascido, com verdadeiro empressement desejava chegar o quanto antes ao túmulo, para assim venerar o Corpo Daquele que era o objeto absoluto de seu encanto. Estava de tal modo inebriada de amor, que neste ato de “imprudência” nem sequer se preocupava com os guardas, nem com a pesada laje a ser removida.

    Chegando ao túmulo, encontrou-o aberto e os soldados não estavam mais lá. Aproximou-se e não viu o Sagrado Corpo do Redentor, julgando que o tivessem roubado. Sua primeira preocupação foi a de informar aos Apóstolos, demonstrando a pureza de seu amor todo feito de sabedoria e amor à hierarquia. Saiu correndo rumo ao Cenáculo. “Com seu ardor sem medida, Madalena contagiou os Apóstolos, e estes, associando-se aos mesmos sentimentos de amor, temor e esperança, partiram cheios de ânimo” 19 . São Pedro e São João entraram na gruta, constataram que de fato o corpo não estava ali e saíram. Ela ficou, pois não possuia outro desejo a não ser o de empregar todos os meios para saber onde colocaram o Divino Corpo de seu Mestre. Estando nesta aflição, aparecem dois Anjos. Estes lhe dirigem a palavra, interrogando-a sobre o porquê de seu pranto. Ela, tomada de zêlo, afirma: “Levaram o meu senhor e não sei onde o puseram” (Jo 20, 13), declarando, com isso, sua posição de escrava e incitando-os, respeitosamente, a dizer onde é que puseram o Corpo ou a indicar onde ele pudesse estar. O amor é cheio de educação, de elegância; o amor, quando é autêntico e puro, leva a um trato elevadíssimo 20 .

    Tendo dito isto, ela se volta para trás, e sem dar-se conta vê Nosso Senhor em pé, contudo, não O reconhece. E Nosso Senhor lhe pergunta: “Mulher, por que choras? Quem procuras?” (Jo 20,15). Jesus disse isto para fazer aumentar ainda mais o seu amor, pois este é passível de crescimento, ou de diminuição . E quanto mais a pessoa explicita o amor que tem, mais nele cresce. Por esta razão, era conveniente que Madalena externasse seu entusiasmo e enlevo.

    Então, Jesus disse: Maria! (Jo 20, 16). Bastou que o Salvador pronunciasse seu nome para que ela O reconhecesse. Imediatamente, atira-se aos pés de Nosso Senhor. Este, porém, a impede, para que sua Fé e Caridade atingissem um grau mais eminente. Maria obedece de imediato, por se tratar de uma ordem de ‘seu Senhor’.

    Quer dizer, ela procurava o Corpo, e o que encontrou? Encontrou o próprio Nosso Senhor Jesus Cristo. Este é, justamente, o fruto do amor. Quando a pessoa deseja com muito amor, devoção, enlevo, e sobretudo, com labaredas de entusiasmo, especialmente quando se trata de algo ligado a Deus, recebe mais do que aquilo que procura. O Criador sempre concede muito mais do que se pede.

    Durante as perseguições, Maria Madalena juntamente com seus irmãos foram postos em um barco à deriva que chegou em Marselha no sul da França onde pregou a doutrina de Cristo e converteu um bom número de pessoas.
    Morreu em um local solitário nas montanhas de Sainte-Baume, onde vivia em contemplação e penitência.

    Concluamos com as palavras cheias de veneração sobre Santa Maria Madalena de São Francisco de Sales : “Ainda que não a honremos como virgem, se levarmos em conta a eminentíssima pureza que guardou depois de sua conversão, deve ser chamada arqui-virgem, porque, uma vez purificada na fogueira do amor sagrado, recebeu tão excelente castidade, e tão perfeita caridade, que depois da Mãe de Deus, ela foi quem mais amou a Jesus Cristo. Amou-O com os serafins, e ao amá-Lo foi mais admirável que eles, pois os serafins obtêm o amor sem dificuldades e conservam, mas esta santa o adquiriu com grandes suores e cuidados e o conservou com temor e solicitude” 21 .

    1 Cf. ROYO MARÍN, A. Teología de la perfeccíon cristiana. Madrid: BAC, 2006.
    2 Cf. Clá Dias, João. Homilia sobre o enlevo. Caieiras: Igreja Nossa Senhora do Rosário, 9/5/2010.
    3 Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica, II-II q.184, a.1.
    4 Cf. ROYO MARÍN, op. cit., ibidem
    5 Clá Dias, João. Homilia sobre Santa Maria Madalena. Caieiras: Igreja Nossa Senhora do Rosário, 22/07/2008, p.1-2
    6 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Inocência e penitência. In: Dr. Plinio. São Paulo: Agosto, N.17, p.4, 1999.
    7 CLÁ DIAS, João , op. cit., p.3
    1 CLÁ DIAS, 2006, p.5(Arquivo IFTE)
    8 OLLIVIER, P. Les amitiés de Marie. L’Ami du clergé. Paris: Mai, n. 20, 8v., p.328, 1896.
    9 CLÁ DIAS, 2008, p.4(Arquivo IFTE)
    10 OLLIVIER, P. Les amitiés de Marie. L’Ami du clergé. Paris: Mai, n. 20, 8v., p.329, 1896.
    11 OLLIVIER, P. Les amitiés de Marie. L’Ami du clergé. Paris: Mai, n. 20, 8v., p.329, 1896.
    12 OLLIVIER, P. Les amitiés de Marie. L’Ami du clergé. Paris: Mai, n. 20, 8v.,330, 1896.
    13 Cf.CLÁ DIAS, 2006(Arquivo IFTE)
    14 CLÁ DIAS, 2008, p.4(Arquivo IFTE)
    15 Cf. CLÁ DIAS, 2010(Arquivo IFTE)
    16 MAITRIER, J. Petit sermon pour la féte de Sainte Marie-Madeleine. L’Ami du clergé. Paris: Juillet, n.28, 4v., 433-435, 1892.
    17CLÁ DIAS, 2008, p.13(Arquivo IFTE)
    18 CLÁ DIAS, 2008, p.15(Arquivo IFTE)
    19 Cf. CLÁ DIAS, 2008(Arquivo IFTE)
    20 Cf. CLÁ DIAS, 2008(Arquivo IFTE)
    21 SALLES, F. Obras Selectas. Madrid: BAC, 1953, 1v, p.432-433

    THE WILL AND THE GOOD IN BEING

    paisagemKYLA MARY ANNE MACDONALD

    “In the Thomistic synthesis, the good has an extraordinary importance. St. Thomas conceives it as the motive of creation and the end of the created” 1 .

    The Aristotelian concept of the universe is one of order. Transferred into Thomistic thought, the resultant concept of the universe is one in which each part has some relation to each other part, inasmuch as all parts are ultimately linked with the Creator-God. It is thus that the purpose of the will emerges in light of its object.

    THE GOOD

    It is in the first part of his Summa Theologica, in which St. Thomas treats of God and the divine attributes, that he first touches upon the idea of goodness. A superlative and causative goodness is imputed to God in the description of His essential perfection and being. Referring to Aristotle‟s Metaphysics, St. Thomas states that God is called universally perfect since He cannot lack any perfection that is found in any other genus. For by reason of His being effective cause, He possesses all that the effect possesses. Continuing, he expounds:

    God is existence itself, of itself subsistent. Consequently, He must contain within Himself the whole perfection of being. (…)

    Now all created perfections are included in the perfection of being, for things are perfect precisely so far as they have being after some fashion. It follows therefore that the perfection of no one thing is wanting to God. This line of argument, too, is implied by Dionysius (loc. cit.) when he says that “God exists not in any single mode, but embraces all being within Himself, absolutely, without limitation, uniformly”; and afterward he adds that He is the very existence to subsisting things 2 .

    This excerpt not only demonstrates the relation between being and perfection but also shows that a relation exists between created things, in their particular degrees of being and perfection, and God. This relation, in addition to being that of cause and effect, is one of a certain similarity: “all created things, so far as they are beings, are like God as the first and universal principal of being” 3 . It follows, as a consequence, that: “Every being that is not God, is God’s creature. Now every creature of God is good (1Tim 4:4): and God is the greatest good. Therefore every being is good” 4 .

    The infinite being and goodness of God is, therefore, represented in His work, His creation. However, creatures have but finite being and goodness; no one creature can adequately reflect the divine likeness. For this purpose, the existence of a multiplicity and variety of creatures are required 5 . It is important to note that the excellence of the divine agent is seen, therefore, in the totality of his work and not completely in any individual part. The resultant variety or distinction among creatures signifies unequal degrees of perfection, and where there are degrees of perfection there is necessarily a hierarchical order. In this order, plants are more perfect than minerals, animals above plants and man being the most perfect among animals 6 .

    This scale of greater and lesser perfection among created entities is nothing other than a scale of greater or lesser participation of being. Living things have more being than things that merely exist without life. That which understands surpasses life without understanding 7 . By virtue of the concept of all being as good, the universe is likewise conceived as the ordination of distinct levels of goodness according to their participation in the good 8 . Yet even seen thus, the most profound root is that of being; to have goodness, above all, is to have being 9 .

    The human person finds himself on the pinnacle of the material universe, ─ perfectissimum in tota natura (De Pot., I,29,3) ─ since he is endowed with the highest level of being which comprises intelligence and free will 10 . Among creatures, only an intelligent, personal being that is devoid of all material ─ angelic nature ─ can surpass human nature 11 . Yet in contrast with all created nature which has being in varying degrees, God is pure being, in such a way that He is His own being 12 . Being as a nature is present only in God 13 . In other words, this signifies that God is a necessary being, without need of cause, while all creatures are contingent beings in relation to God. Applying this principle to the goodness of God and creatures, God is His goodness while the goodness of creatures is a finite participation of the infinite goodness which is God 14-15 .

    This decidedly Theo-centric view of the ontological goodness of the universe illustrates the fundamental metaphysical optimism which characterizes the philosophy of St. Thomas. Chesterton identifies the primary target of these arguments as being the Manichean philosophy in its various manifestations. One such school assigns the production of the material world to an evil spirit, rendering all nature and being within it essentially evil, while the good spirit resides in an entirely separate spiritual world. Other developments present a different shade of dualism: God is the sole creator, but he creates and wills both good and evil in the world in a sort of equal and parallel position, in which neither can claim primacy 16 .

    In contrast, St. Thomas maintains that while God is the supreme and essential good that is the cause of all being and first principle of all good, there cannot be a supreme evil that is the first principle of all evil, since its very being would imply some good 17 . Evil, in the metaphysical sense, does not have positive existence, but can only be considered in a negative sense as the privation of good in the same way that darkness is but lack of light 18 . This concept will later be reconciled with the spectrum of moral good and evil, but for the present the ontological good is significant as we consider in its appetitive sense, as an object of the will.

    THE WILL IN THE GENUS OF APPETITE

    We have thus far considered the good as being. This is, in effect, to consider good as a transcendental of being, thereby sharing ─ with oneness and truth ─ the same identity as being. But although the transcendentals are in reality the same as being, they are not identical in concept 19 . In what sense, then, is the notion of good distinct from that of mere being in Aristotelian and Thomistic thought?

    Aristotle begins his Nichomachean Ethics with a definition of the good as that toward which all things tend: quod omnia appetunt. Thus, goodness refers to the relation between being and the appetite in the universal sense. In other words, goodness carries a nuance of meaning which the term being, alone, does not, namely, the aspect of appetibility 20 .
    Accordingly, the very criterion of what is good is its appetibility. “Everything is good so far as it is desirable, and is a term of the movement of the appetite” 21 .

    Given the metaphysical principle that every form elicits an inclination 22 , “appetition in general is a universal occurrence, existing in both inanimate and animate beings” 23 . Since the good exists in varying degrees in all levels of being, it stands to reason that this appetition is likewise of unequal degrees. “All things in their own way ─ says St. Thomas ─ are inclined by appetite towards good, but in different ways” 24 .

    In following, St. Thomas traces the presence of appetite throughout the various levels of being. Minerals or inanimate things and plants are inclined to good naturally and without knowledge; this inclination is called natural appetite. The next level is that of irrational animals which although without knowledge of the good in itself, apprehend some particular good by means of the senses, and the inclination which follows is duly named sensitive appetite. The most perfect inclination to what is good occurs in beings that have knowledge of the reason of goodness, goodness in its universal sense; in them this inclination is called rational appetite or will 25 .

    Appetites are aptly divided, then, into those of beings with knowledge and beings without. Clearly, appetition follows apprehension; therefore, a higher level of apprehension determines a superior type of appetition, as the following explanation illustrates:

    As forms exist in those things that have knowledge in a higher manner and above the manner of natural forms; so must there be in them an inclination surpassing the natural inclination which is called the natural appetite. And this superior inclination belongs to the appetitive power of the soul, through which the animal is able to desire what it apprehends, and not only that to which it is inclined by its natural form 26 .

    The irrational and hence inferior form of apprehension and inclination would hold little import for man if it were not for the fact that in the scale of being, each successively superior level possesses the potencies of the levels inferior to it, upon which something further has been added. Thus, sensitive nature includes natural or vegetative nature, and the human soul contains a spiritual nature in addition to all the preceding natures 27 . Considering that man´s position on the graduated scale of being is precisely at the intermediate point between the corporal and the spiritual world, between angels and brutes 28 , this accounts for an impressive diversity of natures at once present in the human being, rendering him the most complex of all beings, a composite of spiritual and corporal. St. Thomas 29 attests to this fact, stating that the human soul exists on the border of the spiritual and corporal worlds and for this reason, it possesses the potencies of both one and the other order.

    As diverse as these various vegetative, sensitive and rational potencies are ─ the vegetative and sensitive being corporal and the rational being spiritual, they are all present within the human soul, united as it is to the body as its one substantial form 30 . The vegetative or nutritive nature present in man involves only corporal functions over which the intelligence and will have no direct dominion. Much more significant to our study, then, is the presence of sensitive life in man, since this, in addition to his spiritual nature implies two distinct faculties of knowledge, sense and intellect. These faculties, being endowed with distinct means of knowing, give rise to the correspondingly diverse sensitive appetite and the will 31 . In St. Thomas´ own words: “Since what is apprehended by the intellect and what is apprehended by sense are generically different; consequently, the intellectual appetite is distinct from the sensitive” 32 .

    Endowed with these distinct potencies that reflect his composition of matter and form ─ in this case, soul and body ─, man is thus admirably equipped to live in a universe of which every part is made up of matter and form. For while the sensory perception is suited to capture the particular and individual aspect of things that present themselves in matter, the intellect is adapted to extract from this knowledge the universal, purely abstract* aspect which is reserved in the form of a given object 33 .

    The will comes into play in response to an object that is represented to it by the intellect as good, just as the sensitive appetite desires only the good that one or other sense has captured. As a spiritual potency, the will is capable of desiring purely spiritual goods, such as knowledge and virtue. But the will would not be a human faculty and would be of little use to man in the material world if it were not also able to choose between things that exist as material singulars. But even so, it desires these according to some reason of the universal aspect of good (bonum in universali): either as an end (bonum honestum), or a means towards that end (bonum utile), and if successful, it rejoices in them as a good attained (bonum delectabile) 34 . Thus, the will´s essential disposition emerges, fixed in the desire for good and an absolute incapacity of desiring evil:

    From this, the will cannot escape, and since all action is nothing more than a manifestation of nature, in all action which is fruit of the will can be seen the mark of the good and its influence. (…) To want evil, would be, truly, not to want, given that to want is, by definition, the seeking for the good, being the manifestation of an appetite of the good naturally executed. It could be said: The will does not want the good because it wants; it wants the good because it is: To want the good, for the will, is to be 35 .

    1 FORMENT, Eudaldo. Id a Tomás : Principios fundamentales del pensamiento de Santo Tomás. p.29. [On line]. [Consulted: 12 Nov., 2008]. “En la síntesis tomista tiene una importancia extraordinaria el bien. Santo Tomás lo concibe como motivo de la creación y como fin de lo creado”.
    2 ST. THOMAS AQUINAS. Summa Theologica I, q. 4., a. 2. “Deus est ipsum esse per se subsistens, ex quo oportet quod totam perfectionem essendi in se contineat.[…]. Omnium autem perfectiones pertinent ad perfectionem essendi, secundum hoc enim aliqua perfecta sunt, quod aliquo modo esse habent. Unde sequitur quod nullius rei perfectio Deo desit. Et hanc etiam rationem tangit Dionysius, cap. V de Div. Nom., dicens quod Deus non quodammodo est existens, sed simpliciter et incircumscripte totum in seipso uniformiter esse praeaccipit, et postea subdit quod ipse est esse subsistentibus”.
    3 Ibid., I, q. 4, a. 3. “Et hoc modo illa quae sunt a Deo, assimilantur ei inquantum sunt entia, ut primo et universali principio totius esse”.
    4 Ibid., I, q. 5, a. 3. “Omne ens quod non est Deus, est Dei creatura. Sed omnis creatura Dei est bona, ut diciter 1 Ti4,4: Deus vero est maxime bonus. Ergo omne ens est bonum”.
    5 SANTO TOMÁS DE AQUINO. Suma contra los gentiles. L. II, c. 45.
    6 GILSON, Étienne. El tomismo. 4a. ed. Pamplona: Universidad de Navarra, 2002. p. 205-206.
    7 FORMENT, Op. Cit., p. 45.
    8 Ibid., p. 30.
    9 GILSON, Étienne. Elementos de una metafísica tomista del ser. [On line]. In: Espiritu, No. 41 (1992). [Consulted : 9 Feb., 2009].
    10 RODRÍGUES, Victorino. Temas clave de humanismo cristiano. Madrid: Speiro, 1984. p. 19. Rodrigues outlines the key principles of the special dignity of human nature: “Hence the superior dignity of man above the other beings of this world: as much by reason of his quasi generic factor (to subsist in himself with, moreover, an ultra-temporal projection, due to the natural immortality of the human soul) as by reason of his quasi specific factor (rational and free). (“De ahí la superior dignidad del hombre sobre los demás seres de este mundo: tanto por parte de su factor cuasi genérico (subsistir por sí, con proyección, además, ultratemporal, debida a la inmortalidad natural del alma humana) como por parte de su factor cuasi específico (racional y libre).) p.261.
    11 SANCHEZ DE LEON, Pilar. 30 Temas de iniciación filosófica. Bogotá: Universidad de la Sabana, 1990. p. 92.
    12 GILSON, Étienne. Elementos de una metafísica tomista del ser, Op. Cit., p. 18.
    13 OWENS, Op. Cit., p. 48.
    14 GILSON, Étienne. A filosofia na idade média. 2a. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007. p. 659-663.
    15 Ibid., p. 663. This is far from the pantheistic interpretation that creatures are part of God and are, therefore, God, as Gilson explains: “To participate in the pure act or in the perfection of God is to possess a perfection that pre-existed in God, and which, in fact is found in Him without having been either augmented or diminished by the appearance of the creature which reproduces it in a limited, finite manner. To participate is not to be part of that of which is participated, it is to owe one‟s being and receive it from another being, and the fact of receiving from another is exactly what proves that one is not the other”. (Personal translation)
    16 CHESTERTON, G.K. St. Thomas Aquinas. [On line]. [Consulted: 12 Nov., 2008].
    17 ST. THOMAS AQUINAS. Summa Theologica I, q. 49, a. 2.
    18 Ibid., q. 48, a. 1.
    19 GARDEIL, H.D. Introduction to the Philosophy of St. Thomas Aquinas: Metaphysics. St. Louis: Herder Book, 1967. p. 126. Vol. 4.
    20 Ibid., p. 142, 143.
    21 St. THOMAS AQUINAS. Summa Theologica I, q. 5, a. 6. Nam bonus est aliquid, inquantum esta appetibile, et terminus motus appetitus.
    22 GARDEIL, H.D. Introduction to the Philosophy of St. Thomas Aquinas: Psychology. St. Louis: Herder Book, 1956. p. 197. Vol. 3.
    23 GARDEIL, H.D., Introduction to the philosophy of St. Thomas Aquinas: psychology, Op. Cit., p. 79.
    24 ST. THOMAS AQUINAS. Summa Theologica I, q. 59, a. I. “Omnia suo modo per appetitum inclinantur in bonum, sed diversamode”.
    25 Ibid.
    26 ST. THOMAS AQUINAS. I, q. 80, a. 1. “Sicut igitur formae altiori modo existunt in habentibus cognitionem supra modum formarum naturalium, ita oportet quod in eis sit inclinatio supra modum inclinationis naturalis, quae dicitur appetitus naturalis. Et haec superior inclinatio pertinet ad vim animae appetitivam, per quam animal appetere potest ea quae apprehendit, non solum ea ad quae inclinatur ex forma naturali”.
    27 GARRIGOU-LAGRANGE, Reginald. Reality: A Synthesis of Thomistic Thought. St. Louis: Herder, 1950. p. 184.
    28 SERTILLANGES, A. D. Foundations of Thomistic Philosophy. St Louis: Herder, 1931. p. 199.
    29 ST. THOMAS AQUINAS. Summa Theologica I, q. 77, a. 2.
    30 KRETZMANN, Norman. Philosophy of mind. In: The Cambridge Companion to Aquinas. Op. Cit., p. 131.This is an important factor in understanding the human soul as a “microcosm” in which all elements of the cosmos are represented. “In a theory that recognizes the soul of a plant as a merely nutritive first intrinsic principle of life, and the soul of a nonhuman animal as a nutritive + sensory principle of that sort, it comes as no surprise that the soul of a human
    being is to be analyzed as nutritive + sensory + rational. Aquinas thinks of the human soul not as three nested, cooperating substantial form, however, but as the single form that gives a human being its specifically human mode of existence, including potentialities and functions, from its genetic makeup on to its most creative talents”.
    31 GARDEIL, H.D. Introduction to the Philosophy of St. Thomas Aquinas : Psychology. Op. Cit., p. 198, 199.
    32 ST. THOMAS AQUINAS. Summa Theologica I, q. 80, a. 2. “Quia igitur est alterius generis apprehensum per intellectum et apprehensum per sensum, consequens est quod appetitus intellectivus sit alia potentia a sensitivo”.
    33 GILSON. A Filosofia na Idade Média. Op. Cit. p. 666 – 668.
    * Ibid., p. 666-668. Since an in-depth description of the process of abstraction is outside of the scope of this study, see this passage for an overview of the respective functions of agent intellect and possible intellect in the process of rendering intelligible the sensible species.
    34 GARDEIL, H.D. Introduction to the Philosophy of St. Thomas Aquinas : Psychology. Op. Cit., p. 199.
    35 SERTILLANGES, A. D. Santo Tomas de Aquino II. Buenos Aires : Desclée de Brouwer. p. 213 – 214. (Personal translation). “A esto no puede la voluntad escapar, y como toda acción no es en el fondo más que una manifestación de la naturaleza, en toda acción fruto de la voluntad se podrá ver La marca del bien y su influencia. (…) Querer el mal, será, en verdad, no querer, puesto que querer es, por definición, La búsqueda del bien, al ser la manifestación de un apetito del bien realizado naturalmente. Se podrá decir: La voluntad no quiere el bien porque quiere; quiere el bien porque ella es: Querer el bien, para ella es ser”.
    * This necessity is not equivalent to coercion, and is not incompatible with freedom. Davies explains that for St. Thomas, “it is not against will that one should be drawn to what one‟s nature needs for its fulfillment. This kind of necessity is, he thinks, essential to will, just as the being drawn of necessity to truth is needed for the intellect to be itself. (DAVIES, Op. Cit., p. 177.)

    “Morte” da metafísica: raiz da separação da Fé e Razão

    Sol06Irmã Juliane Vasconcelos Almeida Campos, EP

    Na observação e conhecimento da natureza e do que existe, São Tomás 1 , em seu realismo, desenvolve suas consagradas vias para o conhecimento de um Ser Absoluto, que ele chama Deus. Ao raciocinar em função da relação de causas e efeitos, evidencia que o efeito pode representar a causa, ainda que analogicamente, de maneiras diversas. Por exemplo: a fumaça representa o fogo pelo que denomina vestígio, pois é como o movimento de alguém que passou e já não é. Mas o efeito pode representar a causa também na semelhança com a forma dela, como o fogo gerado que representa o gerador, o que seria uma representação de imagem.

    Nesta perspectiva metafísica da Philosophia perennis, o Ser Absoluto deixa seus vestígios, de modo análogo a pegadas, nos efeitos que guardam menor relação com ele; e deixa sua imagem ― imago Dei ― naqueles que têm relação causal mais estreita com ele 2 , sendo, além de sua causa, seu fim último, atraindo-os para si, como é o caso dos seres inteligentes. É por isso que diz Dionísio: “Deus converte tudo para si” 3 .

    estrelasExiste, assim, um desejo natural interno ― desiderium naturale ―, uma busca deste Ser Absoluto, no qual todos os seres se fundamentam e que tudo mantém em seu próprio ser 4 . O princípio de causalidade é o que permite ao homem elevar-se a tal causa absoluta e primeira de todas as coisas. É este o movimento espontâneo em uma criança quando contempla, por exemplo, o firmamento e as estrelas. Logo compreende as palavras do salmista: “Narram os céus a glória de Deus, e o firmamento anuncia a obra de suas mãos” (Sl 18,2). “O primeiro olhar da inteligência sobre o céu estrelado conduz a Deus e faz vislumbrar sua grandeza” 5 . Pode-se dizer, então, que este primeiro olhar da inteligência humana sobre o real já contém, ainda que confusamente, “toda a verdade que a sabedoria filosófica descobrirá, que se elevará ao conhecimento do Ser supremo, Verdade primeira, o qual, segundo a Revelação se chama ‘Aquele que é’” 6 .

    Nesse sentido, pode-se afirmar que esta busca do Absoluto no homem é inerente ao seu próprio ser. Tinha razão quando afirmava São João Damasceno que “o conhecimento de que Deus existe está naturalmente inserido em todos” 7 . Por isso, o homem sempre teve o desejo de conhecê-lo conscientemente, tornando-se necessária sua explicitação racional. E quando, pelo raciocínio, o homem chega à contemplação de tal Absoluto ― que já estava em si mesmo, de maneira transcendental e intrínseca ―, ele se dá conta de que este era o objeto de seu desejo, sob o nome de felicidade, a qual perseguia como fim último.

    Ora, a modernidade irrompeu na História como algo novo e libertador, numa ruptura com todo o patrimônio da humanidade vindo do passado. A revolução científica dos séculos XVI-XVIII parecia desvendar um novo panorama de conhecimento para o homem. O racionalismo de Descartes ― considerado por muitos como o pai da filosofia moderna ―, pôs em descrédito tudo o que não fosse comprovado cientificamente, colocando a metafísica da causalidade entre parênteses. Assim, até a própria filosofia, antes tida e havida como a ciência da razão, do pensamento e da transcendência, a “scientia rerum per altissimas causas”, passa a ser pensada segundo o método experimental científico.

    Mas Descartes e os que o seguiam ainda “pensavam metafisicamente”, apesar do racionalismo e da desfiguração da metafísica escolástica. Por esta razão, costuma-se apontar para o fato de a filosofia moderna ter surgido, realmente, com a fundamentação crítica da filosofia tradicional, e de Kant ter sido justamente aquele que colocou em dúvida a possibilidade da metafísica 8 . Porém, a metafísica se ocupa das coisas divinas 9 , tendo por fundamento o princípio de causalidade, o qual ― ontológica e intrinsecamente ―, era o equilíbrio da razão e do ser humanos. E o que fez Kant foi tentar desmontar seus argumentos lógicos, eliminando-a do panorama filosófico. Consequentemente, uma vez “morta” a metafísica da causalidade, iniciou-se um processo que culminou ― na perspectiva metafísica do Ser Absoluto ― com Nietzsche, decretando a “morte” do próprio Deus.

    A partir de Kant, a questão religiosa tornou-se um dos pontos centrais da mudança de reflexão da filosofia, e ele a fundamenta na razão prática 10 . Contrariando tudo o que veio antes e separando a Razão da Fé, afirma que a filosofia não tem nenhuma relação com a religião, pois sua função seria apenas a de mostrar que não podemos saber se Deus existe ou não. Ele crê que a razão especulativa não leva a nenhuma crença, mas sim ao agnosticismo, uma vez que os argumentos tradicionais vão mais além da experiência humana. E sustenta que as provas especulativas da existência de Deus são insuficientes, sendo impossível o pensamento metafísico. Para Kant, a única prova da existência de Deus é “uma prova prática ou moral, que produz a fé moral, cuja certeza é subjetivamente suficiente ainda que insuficiente objetivamente (Crítica da Razão Prática, Parte I, Livro II, cap. II, 5)” 11 . A crítica kantiana e pós-kantiana subverteu, assim, as provas tradicionais da existência de Deus e a objetividade dos princípios racionais.

    Kant considera que o conceito tradicional de metafísica transformou-se, na Idade Média, em algo de tal modo extrínseco e em si confuso, que não se chega absolutamente ao ponto em que a metafísica mesma ou o μετά, em seu sentido próprio, passem a ser um problema filosófico, por causa da união entre Fé e Razão. Por isso, em sua concepção crítica elimina a Fé de seu pensamento, e se atém à tarefa de questionar a concepção dogmática do que chama de “filosofia primeira”, buscando em seu interior um impulso para “transformar a metafísica mesma em problema” 12 .

    Porém, sua “problematização” se reduz a responder às inquietudes filosóficas com a mera receptividade dos sentidos. Deste modo, segundo suas concepções, as noções que se tem a respeito do homem e da natureza, da vida e da morte, ou acerca do livre-arbítrio, da alma e de Deus permanecem completamente desconhecidos em si mesmos, porque não se pode ― em virtude da limitação dos sentidos ―, provar sua existência. Para Kant, não assiste ao homem nenhum direito de ser positivo a respeito de coisa alguma, e é mister pôr de parte todos os dogmas. “É interessante notar quão positivo pode ser este filósofo em sua enunciação do ponto de vista positivo. Kant acredita profundamente no testamento racional da descrença. Mata o dogma com espada dogmática” 13 .

    Kant distingue as ideias (puros conceitos da razão) e as categorias (conceitos intelectivos puros) como conhecimentos de espécie, origem e uso diversos, e afirma que essa distinção é importante elemento para a fundamentação de uma ciência que deva conter o sistema de todos esses conhecimentos a priori; sem essa distinção “a metafísica é absolutamente impossível ou, ao sumo, não passa de tentativa desordenada e imperfeita, sem conhecimento dos materiais que se manuseiam e da aptidão dos mesmos para serem aplicados desta ou daquela maneira, que se propõe apenas construir um castelo de cartas” 14 . Considera que se a Crítica da Razão Pura não houvesse conseguido outra coisa senão distinguir essa lacuna metafísica, já teria sido uma grande contribuição para a filosofia.

    Com a demolição da metafísica especulativa, feita por Kant, e, em consequência desta, o traslado do religioso ao espaço extrarracional e extrametafísico do sentimento que a ela se seguiu na evolução filosófica, abriu-se uma fossa insalvável entre a nova concepção metafísica e a religião, pois esta nova concepção passa a ser mera razão teorética, sem acesso a nenhum Deus. E religião não tem lugar no espaço da ratio 15 . Dá-se a ruptura entre Fé e Razão, e o Absoluto passa a ser uma mera ideia intuitiva.

    1 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. I, q.2, a.3; q.45, a.7.
    2 2 ROMERO-BARÓ, José M. La huella de Dios en la naturaleza: una aproximación trinitaria. Em: Science and Religion: Global Perspectives. Programa do Metanexus Institute. [Em linha]. Philadelphia, USA (Jun., 2005); p.6. [Consulta: 10 Nov., 2008].
    3 DIONISIO. De div. nom. C.4 § 10: MG 3,708. Citado por SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. I-II, q.109, a.6.
    4 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. I, q.12, a.8.
    5 GARRIGOU-LAGRANGE, Réginald. El sentido común: la filosofía del ser y las fórmulas dogmáticas. Buenos Aires: Desclée de Brouwer, 1945. p.335.
    6 Ibid., p.332.
    7 SÃO JOÃO DAMASCENO. De Fide Orthodoxa, 1, 1, 3 – PG 94, coll. 789, 793. Citado por GILSON, Étienne. Elementos de filosofía cristiana. Madrid: Rialp, 1970. p.58.
    8 HEIDEGGER, Martin. Os conceitos fundamentais da metafísica. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006. p.64.
    9 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma contra los gentiles. L.I, c.4.
    10 MONDIN, Battista. Introdução à filosofia. 16a. ed. São Paulo: Paulus, 2006. p.93-94.
    11 GARRIGOU-LAGRANGE, Réginald. Dios: la existencia de Dios. 2a. ed. Madrid: Palabra, 1980. p.28; 44.
    12 HEIDEGGER, Op. Cit., p. 54.
    13 THOMAS, Henry. Perfil biográfico: Immanuel Kant. Em: KANT, Immanuel. Fundamentação da metafísica dos costumes e outros escritos. São Paulo: Martin Claret, 2008. p.134-135.
    14 KANT, Immanuel. Prolegômenos: a toda metafísica futura que possa apresentar-se como ciência. São Paulo: Nacional, 1959. p.103.
    15 RATZINGER, Joseph. El Dios de la fe y el Dios de los filósofos. [Em linha]. [Consulta: 20 Jun., 2009].

    O desenvolvimento da vida espiritual

    STeresa_dAvilaIrmã Maria Cecília Seraidarian, EP

    Em sua Teologia da Perfeição Cristã, o Pe Royo Marín (1968, p 273) salienta que :

    Cada alma segue seu próprio caminho rumo à santidade sob a direção e o impulso supremo do Espírito Santo. Não há duas fisionomias inteiramente iguais no corpo nem na alma. Contudo, os mestres da vida espiritual tem tentado diversas classificações atendendo às disposições predominantes das almas, que não deixam de ter sua utilidade ao menos como ponto de referência para precisar o grau aproximado de vida espiritual em que se encontra uma determinada alma. (…)

    São três, parece-nos, as principais classificações que foram propostas ao longo de toda a história da espiritualidade cristã: a clássica das três vias: purgativa, iluminativa e unitiva; a do Doutor Angélico, baseada nos três graus de principiantes adiantados e perfeitos; e a de Santa Teresa de Jesus em seu genial Castelo interior ou livro das Moradas.

    A obra de Santa Teresa de Jesus, Castelo interior ou Moradas, é tomada como exemplo pela maioria dos autores de vida espiritual, pois explica de modo excelente as fases da vida cristã rumo à santidade, baseando-se nos graus de oração. Esta Doutora da Igreja compara a alma a um castelo e os diversos graus da vida espiritual, aos aposentos desse castelo: “consideremos nossa alma como um castelo, feito de um só diamante ou de limpidíssimo cristal. Neste castelo existem muitos aposentos, assim como no céu há muitas moradas” (1981, p. 19).

    Santa Teresa divide o desenvolvimento da vida espiritual em sete moradas:

    a) Primeiras Moradas (ibidem, p. 19-37) – considera a beleza de uma alma em estado de graça e lamenta aquelas almas que jamais entram no castelo, ficam ao redor dele, obstinadas no pecado. Afirma ainda que a porta de entrada desse castelo é a oração. Trata da hediondez de uma alma em estado de pecado mortal e da importância da humildade e do conhecimento de si mesmo, através do conhecimento de Deus. Adverte também sobre as artimanhas do demônio para impedir que as almas progridam dessas primeiras moradas para as seguintes. Nesse estágio, as almas desejam não ofender a Deus e praticar boas obras, no entanto, estão ainda absorvidas pelo mundo.

    b) Segundas Moradas (ibidem, p. 41-49) – aqui as almas já se preocupam em servir a Deus, fogem das distrações fúteis e buscam uma vida de oração e recolhimento, embora com muitas quedas e falhas. Têm aversão ao pecado mortal, porém, pouco cuidado em evitar as ocasiões. Sofrem por sentirem cada vez mais claro o chamado de Deus e não terem ânimo suficiente para se entregarem inteiramente. Nesta fase, a Santa encoraja-as a não desanimarem diante dos ataques do demônio mas serem humildes e se confiarem à Misericórdia Divina, a fim de perseverarem.

    c) Terceiras Moradas (ibidem, p. 53-68) – nestas moradas as almas passam a ter mais oração e recolhimento, evitam os pecados veniais e fazem penitência. Quando são provadas pelo Senhor com securas e aridezes, desanimam porque ainda são débeis. Aconselha a estas almas a fuga das ocasiões e a perseverança na humildade e na oração, sem fazer caso de provações ou de consolações.

    d) Quartas Moradas (ibidem, p. 71-95) – é nesta etapa que ocorre a transição da ascética para a mística. As tentações trazem benefícios e são ocasião de mérito. Tem-se o início das orações contemplativas. Santa Teresa ressalta a importância de crescer no amor, condição para progredir às moradas seguintes.

    e) Quintas Moradas (ibidem, p. 99-130) – a Santa Doutora descreve longamente a união da alma com Deus na oração contemplativa. A experiência mística é intensificada e aumentam as purificações passivas. As almas experimentam grande amor ao próximo e têm necessidade de muita vigilância para não cair nas sutilezas do demônio.

    f) Sextas Moradas (ibidem, p. 133-224) – nesta fase as almas recebem grandes favores e padecem terríveis provações; Deus opera maravilhas naqueles que alcançam estas moradas. O amor a Deus é levado até o esquecimento de si mesmo. Os fenômenos místicos se multiplicam. As almas têm desejo de unir-se intimamente a seu Senhor, abandonando esta vida.

    g) Sétimas Moradas (ibidem, p. 227-260) – Perfeição – dá-se o “matrimônio espiritual”, a união transformante em que a alma se faz uma com Deus, sente em si a inabitação da Santíssima Trindade. As almas atingem um estado de paz e tranqüilidade inalteráveis, preocupam-se unicamente com a glória de Deus.

    Diante dessa impressionante descrição de Santa Teresa de Jesus, um dos luminares da mística experimental, percebe-se o belo mas árduo caminho a percorrer para alcançar a santidade, uma vez que é preciso arrancar da alma todo o apego às coisas terrenas e o apego a si mesmo para poder seguir a Nosso Senhor Jesus Cristo (Lc 9, 23): “se alguém quer vir após mim, renegue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me” (BÍBLIA SAGRADA, 1996). Sem um constante auxílio de Deus, que com sua graça atrai as almas, sustenta-as e faz avançar nas vias da santidade, não seria possível ao homem chegar à perfeição por suas próprias forças.

    Deus me vê

    Deus e a criacao1Irmã Teresita Morazzani Arráiz, EP

    Quando contemplamos, num belo anoitecer de verão, a abóbada celeste, percebemos miríades de estrelas que aos poucos vão se acendendo aqui, lá e acolá. Na verdade, além das que vemos, existem milhões e milhões de outras que só com a ajuda de boas lunetas conseguiríamos ver. E ainda resta um número quase incontável que nem sequer a ciência, com todos os seus recursos, logrou ainda observar.

    Pois bem, mesmo sendo o universo tão imenso a ponto de nos parecer sem limites, há um Ser superior a isso tudo, que tudo criou, tudo governa e tudo vê: Deus infinito. Ele está presente em tudo, não há lugar onde Ele não possa estar, como diz o Salmista: “Tu me envolves por todo lado e sobre mim colocas a tua mão. Onde eu poderia ocultar-me do teu Espírito? Para onde poderia fugir da tua presença? Se subir até os céus, Tu lá estás; se descer ao mundo dos mortos, ali Te encontras” (Sl 138, 5.7-8). Também lemos nos Atos dos Apóstolos que em Deus “vivemos, nos movemos e existimos” (At 17, 28).

    O modo de Deus estar presente na criação

    Ensina-nos o grande São Tomás de Aquino que existem três modos de Deus estar presente na obra da Criação. Primeiro, por potência, influxo ou poder, pois tudo está submetido a seu domínio; se Ele “cochilasse” um instante, tudo voltaria ao nada. Segundo, por presença, visão ou conhecimento, pois tudo está patente e como que descoberto a seus olhos; nada Lhe escapa, nem sequer os mais ocultos pensamentos. Terceiro, por essência ou substância, pois Ele está em tudo, como causa de seu ser.

    Falando em termos mais específicos, existem outras presenças de Deus, como a inabitação na alma do justo, realizada através da graça. Também a presença pessoal ou hipostática, única e exclusivamente de Cristo, pela qual sua humanidade adorável subsiste na própria pessoa do Verbo Divino. Por isso Ele é pessoalmente Deus, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade encarnada. Temos, ademais, a presença sacramental ou eucarística, na qual Jesus Cristo está realmente presente sob as espécies do pão e do vinho.

    Há, por fim, a presença de visão ou manifestação, que é a do Céu. Deus está presente em toda parte, porém, não Se deixa ver em todo lugar, mas somente no Céu. Só na Visão Beatífica Ele Se manifesta face a face aos bem-aventurados.
    Lembremo-nos dia e noite do olhar de Deus

    Portanto, Deus está presente em toda parte e constantemente nos vê.
    Oh! quantos crimes seriam evitados, quantos problemas seriam resolvidos, quantas lágrimas seriam enxugadas,quantas aflições seriam suavizadas se a humanidade tivesse consciência do olhar de Deus sempre pousando sobre nós! “Deus está no Templo santo e no Céu tem o seu trono, volta os olhos para o mundo, seu olhar penetra os homens” (Sl 10.4).

    Estamos aflitos, necessitando de uma palavra de conforto e ânimo para superar algum obstáculo? Precisamos de um coração com o qual possamos nos abrir? Ou de um amigo a quem falar? Por que não recorrer ao melhor dos amigos, ao mais suave, compreensivo e cheio de compaixão, que é o próprio Deus? Ele nos conhece até o fundo e sabe tudo de que precisamos; seu Divino Coração arde em desejos de ajudar e consolar as almas abatidas e de aliviar as costas carregadas de fardos: “ Vinde a Mim todos vós que estais cansados e oprimidos, que Eu hei de aliviar-vos” (Mt 11,28).

    Queremos servir a Deus com mais amor e perfeição? Lembremo-nos de seu olhar dia e noite. Certa vez Santo Inácio de Loiola, vendo um de seus irmãos trabalhar de modo relaxado, perguntou-lhe:
    — Irmão, para quem trabalhas?
    — Para Deus — respondeu-lhe ele.
    — Se me dissesses que trabalhas para um homem, eu compreenderia tua moleza, mas isso é imperdoável quando se trabalha para Deus.

    São Francisco de Sales vivia tão compenetrado da presença de Deus que, estando sozinho ou em sociedade, conservava um porte digno, modesto e grave. Costumava dizer que não sentia constrangimento algum na frente de reis ou príncipes, pois estava habituado a encontrar-se na presença de um Rei muito maior que lhe inspirava respeito.

    A oração torna a vida mais leve, suave e amena

    A oração freqüente é um meio eficaz para nos recordar a presença de Deus. É tão fácil — durante nossos afazeres, no trabalho, na escola ou em casa, andando pela rua, dirigindo no trânsito ou já deitado para o descanso — fazer uma prece, uma jaculatória que seja, a Deus, ao Sagrado Coração de Jesus e oferecer-Lhe os problemas, pedir-Lhe ajuda e proteção!

    Caro leitor, eu o convido a fazer isso diariamente, com amor e confiança, e você verá que aos poucos sua vida irá se tornando mais leve, suave e amena.

    Diz Jesus no Evangelho: ‘Pedi e ser-vos-á dado; procurai e encontrareis; batei e hão de abrir-vos” (Lc 11.9). Por que desprezamos essa promessa proferida por lábios divinos e que nos dá a garantia absoluta de sermos ouvidos? Poder-se-ia dizer que Nosso Senhor como que Se inclina do Céu sobre a terra, à espreita de que Lhe façamos pedidos, desde os mais simples até os mais ousados, para ter Ele a alegria de atender-nos e encher-nos de dons e graças.

    O exemplo de dois santos

    Davi encontrava força e consolo em pensar que o Senhor conhecia seus sofrimentos, e exclamava cheio de confiança: “Ainda que atravesse vales tenebrosos, de nenhum mal terei medo porque Tu estás comigo” (Sl 22, 4).

    Efrém era um jovem que se entregara a todo tipo de vícios. Porém, reconhecendo seus desvios, arrependeu-se e retirou-se à solidão. Um dia veio até ele uma mulher de costumes pouco recomendáveis, para tentá-lo. O homem de Deus prometeu-lhe fazer tudo quanto ela quisesse, com a condição de que primeiro ela o seguisse. Mas a infeliz, vendo que o santo a conduzia a uma praça pública, disse-lhe que não teria coragem de dar-se em espetáculo. Respondeu-lhe Santo Efrém: “Tens vergonha de pecar diante dos homens e não te envergonhas de pecar diante de Deus que tudo vê e tudo conhece?!” Estas palavras tocaram profundamente a pecadora; ela mudou de conduta e levou até o fim de seus dias uma vida santa.

    Deus nos fez herdeiros e merecedores do Céu

    Havia antigamente na Alemanha o costume de pintar um “olho de Deus” nas igrejas, nas escolas ou nas casas, para lembrar ao povo que o olhar do Altíssimo nos acompanha a cada passo de nossa existência. Esse hábito salutar perdeu-se de todo e atualmente muitas pessoas vivem no esquecimento quase completo de Deus.

    Imaginemos um artista que esculpisse uma belíssima estátua e recebesse de um anjo o poder de infundir nessa sua obra a própria vida humana dele. A estátua começaria a mover-se e a conversar, teria desejos e apetências, as potências da alma desabrochariam nela e a veríamos dotada de personalidade, mentalidade, espírito. O escultor ficaria encantado e deitaria todo o seu amor e seu desvelo na educação desse seu “novo filho”. Preocupar-se-ia com sua instrução, ele mesmo lhe daria aulas e faria dele um jovem perfeito e acabado.
    Como deveriam ser a gratidão e a reciprocidade desse ser tão aquinhoado? Não é necessário dizer…

    Porém, um belo dia o pai nota que seu filho está diferente, algo nele mudou. Aos poucos, ele foi deixando de ser aquele menino dócil, afável, carinhoso e desejoso de aprender; agora está revoltado, não quer mais saber de seu benfeitor, chega até a desprezá-lo e responder-lhe com rudeza; por fim, toma a atitude de não lhe dirigir mais a palavra e nem sequer olhá-lo. O pobre pai tenta atrair o jovem a si por meio de redobrado afeto e de apelos a seu amor de outrora, mas… em vão!

    Que ingratidão monstruosa! — diria alguém. Pois bem, esta metáfora nos dá apenas uma pálida idéia de nosso procedimento quando voltamos as costas para Deus, O rejeitamos, esquecemo-nos d’Ele e nem mesmo nos lembramos de que continuamente está Ele a nosso alcance, desejando nos favorecer e nos prodigalizar seu carinho e sua misericórdia infinita.

    Ele escolheu-nos dentre uma multidão infinita de seres possíveis, tirou-nos do nada, deu-nos a vida, infundiu em nós uma alma racional dotada de inteligência, vontade e sensibilidade, encheu-nos de dons naturais e, como se tudo isso fosse pouco, nos deu o Batismo, fazendo-nos viver da própria vida d’Ele. Está sempre à nossa disposição no Sacramento da Eucaristia, esperando ser recebido por nós e nos beneficiar com seu convívio todo feito de doçura e suavidade. E nós, como correspondemos a essa torrente infinita de bondade, a esse amor que O levou a entregar-Se e morrer crucificado como vil malfeitor para redimir-nos e nos fazer herdeiros e merecedores do Céu?

    “Oxalá ouvísseis hoje a sua voz: não endureçais os vossos corações” (Sl 94, 7-8). Voltemos nosso coração e toda a nossa vida para Aquele que Se voltou todo para nós e sua vida nos deu. Façamos d’Ele o centro de nossa existência e Ele, a rogos de sua e nossa misericordiosíssima Mãe, um dia nos acolherá na eterna bemaventurança.