Mudança de mentalidade do homem

Cristo Rey Sainte Chapelle-ParisIrmã Juliane Vasconcelos Almeida Campos, EP

A teoria de Kant* arruinou toda e qualquer fé em verdades gerais e transcendentes, pois estas passaram a existir só para quem as forjasse para si mesmo. “O seu subjetivismo fazia a experiência religiosa perder-se numa bruma de boas intenções e de crenças afinal irracionais 1 . Tudo isso introduziu uma desordem no pensar do homem, sobretudo ao expulsar Deus de seu ser, deificando-se a si próprio, e tornando-se legislador universal.

Ora, em sua parte animal, o homem tem paixões e tendências que às vezes o levam a reagir de forma irracional. De si mesmas as paixões humanas são neutras, mas não é raro que se tornem avassaladoras 2 . E por ter uma razão lógica, ao encontrar argumentos que lhe permitam justificar-se, subjetivamente, em suas transgressões morais ― em virtude destas paixões e más tendências, já sem freios, haverem se tornado dominantes ―, se introduz a desordem também na sociedade, que entra em lenta e profunda crise. Aberta a porta do subjetivismo e perdido o referencial do Ser Absoluto, o homem foi perdendo a noção da experiência transcendental, mais além de si mesmo.

O problema passa a ser mais antropológico-ético que ontológico-metafísico.

Com efeito ― como Paul Bourget pôs em evidência em sua célebre obra ‘Le Démon du Midi’ ―’cumpre viver como se pensa, sob pena de, mais cedo ou mais tarde, acabar por pensar como se viveu’ (Op. Cit., v.II, Paris: Librarie Plon, 1914. p. 375). Assim, inspiradas pelo desregramento das tendências profundas, doutrinas novas eclodem. Elas procuram por vezes, de início, um ‘modus vivendi’ com as antigas, e se exprimem de maneira a manter com estas em simulacro de harmonia que habitualmente não tarda em se romper em luta declarada 3 .

Não se trata aqui de fazer uma análise histórico-sociológica das mudanças ocorridas na sociedade, no mundo e no homem ocidental, desde então. Mas sim de fazer uma reflexão sobre o quanto as novas doutrinas abalaram o homem em seu próprio ser, mudando-lhe a mentalidade, o que se refletiu em seu comportamento ético e em seu senso moral.

Já Descartes havia substituído a busca da “ordem da razão” pela “ordem das coisas”, aparecendo o homem científico. A ciência passou a ser vista como autógena 4 e apareceu como a mais deslumbrante e assombrosa das estrelas da cultura, considerada como um bem em si mesma, atividade produtora de novas ideias 5 . O racionalismo científico determinava que só o que se explicasse pelo método científico era verdadeiro. Fascinado pela ciência, o homem elevou-a até ocupar o lugar do sagrado. Mas não era um simples conflito entre a ciência e a fé. Por trás de tudo aquilo latejava um empenho de proclamar a salvação da humanidade por si mesma, e o advento de uma sociedade iluminada unicamente pela razão humana 6 .

Até onde penetraram essas novas hermenêuticas? Não se pode imaginar um declínio total e imediato. Mas é impossível negar que a influência que exerceram foi considerável. Sendo limitado o número de intelectuais, no limiar do século XVIII as ideias avançadas de racionalismo e libertinagem alcançavam apenas homens de letras, nobres ou grandes burgueses ávidos de bel esprit. E apesar de tantas transformações e crises, aqueles que se tardaram a separar a Razão da Fé ― ou seja, sobretudo os que se mantinham cristãos ―, apoiados nos alicerces da Fé e de tradições antigas e sólidas, se mantiveram ainda mais arrazoados e menos abalados em seu próprio ser 7 .

Isso porque quando a Razão se separou da Fé, não só proclamou-se independente desta, mas lhe declarou guerra e começaram os grandes dramas da sociedade 8 . Morta a metafísica da causalidade, com Kant ― e separada a Razão da Fé ―, já Hegel tinha uma concepção de religião como “um momento lógico, natural da evolução do Espírito Absoluto e, contra qualquer subordinação da religião à filosofia”. E em fins do século XVIII, entrando pelo XIX, “por obra de Marx, Engels, Comte, Nietzsche e Freud, irrompe a desmistificação da religião, a qual encontra amplos consensos e muitíssimos defensores num momento em que impera o positivismo e o materialismo” 9 .

Por isso, diz João Paulo II 10 que não é exagerado afirmar que boa parte do pensamento filosófico moderno se desenvolveu afastando-se progressivamente da Fé Cristã. E a partir do subjetivismo e da perda do referencial Absoluto bem como com seu relativismo moral, a filosofia deu origem a uma mentalidade difusa, chegando a um pensamento niilista, onde não se deve assumir qualquer compromisso, porque tudo é fugaz e provisório.

Dominando a ciência e bastando-se a si mesmo, o homem provocou uma verdadeira revolução na sociedade humana. Deixou de ser visto como o sujeito da história, relegando a tradição e a iniciativa, a herança filosófico-cultural e o gênio criador, caindo em um morboso naturalismo dessacralizador, desfigurando a imagem ontológica do homo Dei 11 . Este novo homem, seguro de ter o domínio da ciência e da técnica, se afastou até de si mesmo como seu próprio fim e passou a ser dominado e controlado por elas, considerando-as como algo e fim último, desligado da consciência das pessoas 12 , degradando-se a si mesmo, perdendo seu senso moral.

A modernidade, chegando ao seu auge na era da pós-modernidade, revela uma questão antropológica complexa e articulada, que se verifica nas reflexões filosóficas dos últimos séculos. Não foi ela um simples fenômeno cultural que mudou as sociedades, mas, na realidade, obriga a uma compreensão mais exata do que ocorreu com o espírito humano 13 . O temperamento da opinião pública passou a ser tão vegetativo, que a vida de pensamento parece eliminada dela. Os mais tremendos acontecimentos não afetam mais o indiferente homem egocêntrico e globalizado, já sem referencial de fim último. Frente a manifestações de degradação moral, a mais completa, apresenta uma atonia radical, pela qual nem o sim é o sim, nem o não é o não, nem o bem é o bem, nem o mal é o mal. Ele a tudo olha com indiferença e apatia, exceto para sua vidinha pessoal 14 .

Aquela luz que a razão projeta sobre todas as coisas ― o lumen rationis ―, dando uma visão integral destas, parece estar se extinguindo do ser humano. O homem foi ficando cada vez menos sensível à contradição, ao ilogismo, mesmo ao disparate ou ao estapafúrdio, significando uma insensibilidade para com a própria razão. Essa evanescença do lumen rationis produz um cambalear geral da humanidade, que passa a ser presa fácil de qualquer força que a queira conduzir. Perdida a luz do Absoluto, que antes lhe iluminava a razão, o homem passa a ter seu lumen rationis cada vez mais esmaecido, “reduzido a uma brasa ou a um farolete de lanterna, que está apenas ― para me exprimir assim ― comburente, mas que não projeta mais, não põe em claridade zonas de uma sala, apenas na sala se percebe que ele está lá. É um lumen rationis coincé, quer dizer, comprimido de vários lados e reduzido ao seu estado inicial” 15 .

Assim, o sonho iniciado nos séculos XVI-XVII ― de que homem se converteria em senhor e possuidor da natureza e do mundo ―, afinal gerou uma nova humanidade autônoma e aparentemente livre, mas que na realidade perdeu o rumo de seu próprio ser, quase incapaz de pensar com clareza e lucidez, que transformou sua liberdade em libertinagem, produzindo um caos nas mentes, perdendo o sentido do humano, ademais do divino.

Sem embargo, como uma brasa que ainda fumega, a luz da razão vai, como que, se despertando. Como um movimento pendular que tende a voltar ao seu badalar equilibrado ― depois de atingir o outro extremo e dele se ter saturado ―, o século XX se iniciou com um resgate da metafísica, pela analítica dos neotomistas, abrindo as portas para um novo diálogo filosófico com a causalidade e uma redescoberta do transcendente.

* ver artigo “morte” da metafísica
1DANIEL-ROPS, Henri. A Igreja dos tempos clássicos: (II) a era dos grandes abalos. São Paulo: Quadrante, 2001. p.69.
2CLÁ DIAS, João Scognamiglio. A maior felicidade. Em: Revista Arautos do Evangelho. São Paulo. No. 55 (Jul., 2006); p.8-9.
3CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Revolução e Contra-Revolução. 2a. ed. São Paulo: Diário das Leis, 1982. p.23.
4MARITAIN, Jacques. De Bergson a Thomas d’Aquin. New York: Maison Française, 1944. p.208-209.
5BUNGE, Mario. La ciencia, su método y su filosofía. Citado por: URIBE CARVAJAL, Ángel Hernando y OSORIO, Byron. Cultura y espiritualidad. Medellín: UPB, 2008. p.34.
6AGUILÓ, Alfonso. Pode a ciência controlar-se a si mesma? [Em linha]. [Consulta: 25 Mar., 2009].
7DANIEL-ROPS, Op. Cit., p.80-81.
8CASTÉ, Juan Carlos. Fé e razão, fraterna e alcandorada união. Em: Revista Arautos do Evangelho. São Paulo. No. 89 (Mai., 2009); p.20.
9MONDIN, Op. Cit., p.98.
10JOÃO PAULO II. Encíclica Fides et Ratio. No.46.
11RODRÍGUEZ Y RODRÍGUEZ, Victorino. Temas-clave de humanismo cristiano. adrid: Speiro, 1984. p.235.
12ADORNO, Theodor. Educação após Auschwitz. Citado por: DOMINGUES, Ivan. Ética, ciência e tecnologia. Em: Kriterion. Belo Horizonte. Vol. 45, No. 109 (Jan. – Jun., 2004); p.162.
13BENTO XVI. Alargar os horizontes da racionalidade. Em: Revista Arautos do Evangelho. São Paulo. No. 80 (Ago., 2008); p.8.
14CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. O lumen rationis em nossos dias. Conferências. São Paulo: s.n., 1975;1983. s.p.
15Ibid., s.p.

Uma ideia sobre “Mudança de mentalidade do homem

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *