Por uma gota de dor, torrentes de graças

Luisa Gurgel

2º ano de Ciências Religiosas

Todo homem nasce com uma vocação específica. Entretanto, algo em comum é dado a todos: o chamado à santidade. E o que significa alcançar a santidade? Significa receber, como prêmio, a vida eterna no Céu, depois de uma vida santa de lutas bem travadas, com o auxílio divino.

Realmente, uma eternidade feliz é a melhor recompensa que qualquer um poderia receber. Porém, para alcançá-la, é necessário sofrer: “Militia est vita hominis super terram”. Por mais que se fuja da Cruz, ela é inerente à vida humana e é a única condição que Deus nos pede em troca do Céu. O que são dez, vinte, trinta, cem anos de sofrimento? Deus nos quer dar a alegria eterna, se aceitarmos o pouco de dor que Ele nos pede.

Saibamos, então, dar a gota que fomos chamados a dar e esperemos confiantes as torrentes de graças que a Providência deseja nos conceder, lembrando-nos das palavras de Plinio Corrêa de Oliveira: “A autêntica satisfação da vida é aquela sensação de limpeza de alma que se possui quando fitamos de frente a nossa cruz e dizemos SIM a ela”. 1

1 CORREA DE OLIVEIRA, Plinio. A exaltação da Santa Cruz em nós e fora de nós. Dr Plinio, São Paulo, ano 3, n. 30, set. 2000, p. 16.

38 horas no Purgatório? Ou 38 anos na Terra?

Ir. María José Vicmary Féliz Gómez
2º ano de Ciências Religiosas

Era 14 de abril de 1433, Páscoa da Ressurreição. Grande parte do povo de Shiedam, na Holanda, reunia-se diante da casa de uma moribunda.

– O que está acontecendo? – perguntou um viajante.

– É Ludovina. Hoje se completam trinta e oito anos de seu martírio.

– Ludovina? Eu já ouvi esse nome… Sempre achei que fosse uma lenda… Dizem que ela está sobrevivendo há sete anos só com a Sagrada Comunhão. Não consigo acreditar…

– Meu caro senhor, eu também não acreditava – respondeu com ar grave um homem que ouvira o diálogo. Há doze anos, tomei a decisão de acabar com a fama de santidade desta mulher, que eu julgava ser uma farsante. Passei dias e noites junto ao seu leito de dor, com a esperança de confirmar minhas suspeitas. No entanto, foi ela quem me confirmou na fé: agora não só acredito no poder da Eucaristia, como também confesso firmemente as virtudes heroicas de Ludovina.

– O senhor a reconhece então como uma santa? Pode explicar-me, por favor, a razão de tão ousada afirmação? – replicou o viajante.

– Até os quinze anos – começou o interlocutor – ela levou a vida comum das moças de sua idade. Porém, sofreu uma queda patinando no gelo e, como consequência, sua coluna vertebral quebrou-se, transformando sua vida inteiramente: paralisia completa, cegueira, contínuos vômitos, enxaquecas, febres, nervos inflamados e um abcesso dolorosíssimo no ombro esquerdo.

– Meu Deus! É um verdadeiro purgatório em vida! – exclamou assombrado o visitante.

O devoto continuou:

– Nós não fazemos ideia do que é o Purgatório. Ludovina tampouco o sabia e lamentava-se continuamente por Deus ter permitido tão horrível martírio. Foi assim até a noite em que Nosso Senhor lhe apareceu em sonho e fez-lhe uma proposta: “Como expiação dos teus pecados, o que preferes: trinta e oito horas no Purgatório ou trinta e oito anos sofrendo como estás?” E ela respondeu sem titubear: “Senhor, prefiro trinta e oito horas no Purgatório!”. Nessa mesma hora, Ludovina sentiu que morria, e começou a padecer os atrozes tormentos do lugar de purificação.

Sem embargo, vendo que as horas se escoavam e seu padecimento não terminava, aproveitou a passagem de um Anjo e perguntou-lhe:

– Por que Nosso Senhor não cumpriu o contrato feito comigo? Acho que já se passaram três mil e oitocentas horas…

O Anjo lhe respondeu:

– Crês que estás aqui há três mil e oitocentas horas? Não faz nem sequer cinco minutos que morreste! Teu corpo ainda está quente!

Aterrada, Ludovina implorou a Jesus: “Senhor, prefiro passar trinta e oito anos sofrendo como antes a ficar mais um instante neste lugar!” Nesse momento, ela acordou. A partir de então, nunca mais se queixou de seus sofrimentos. Ao contrário, amou tanto sua cruz que passou a repetir frequentemente: “Senhor, é tão séria a vossa justiça e eu a amo tanto que, se me bastasse rezar uma pequena oração para ficar curada, eu não a rezaria”.

Impressionado, o viajante caiu de joelhos. A luz que se encontrava acesa na casa apagou-se nesse momento, anunciando ao povo a partida de Ludovina para a eternidade. E dos lábios daquele que até há pouco fora um incrédulo, brotou este ato de fé: “Santa Ludovina, rogai por nós, para aprendermos a amar nossa cruz e, sobretudo, para crescermos no amor Àquele que por nós tudo sofreu!”.

No ano de 1890, o Papa Leão XIII oficializou o culto a Santa Ludovina, declarando-a padroeira dos patinadores e dos doentes.

A paz de Cristo: um objetivo inatingível?

Irmã Maria Angélica Iamasaki, EP

Paz! Paz! Poucas palavras são tão repetidas quanto esta em nossos dias, ante a inclemência de guerras, revoluções, discórdias políticas, violência urbana, desunião familiar e atrocidades provocadas pelo acirramento de ódios étnicos.

Todos a desejam, dela muito se fala e se escreve, por toda parte se propõem meios para alcançá-la, mas… quem sabe dizer precisamente o que é paz? Para uns, ela consiste na ausência de qualquer confronto, físico ou ideológico, mesmo se obtida à custa da renúncia a princípios morais ou a importantes parcelas das próprias convicções. Para outros, viver em paz supõe fugir da realidade em busca de um utópico equilíbrio de espírito, alheio ao que se passa a seu redor. Não faltam também aqueles que a identificam com valores parciais, embora nobres, como o silêncio, a segurança ou o respeito à natureza.

A maior ou menor relação desses conceitos com a paz é inegável. Contudo, todos eles se desviam da essência desse bem fundamental para a sociedade, restringindo seu escopo e profundidade à realização de algum legítimo desejo pessoal.

Ora, “quem não sabe o que procura, não sabe o que encontra”, diz bem a propósito a sabedoria popular.

O que é a paz?

Para o cristão, a paz representa muito mais do que a simples inexistência de luta armada. Ela “não é ausência de guerra, nem se reduz ao estabelecimento do equilíbrio entre as forças adversas, nem resulta duma dominação despótica”, 1 lembra o Concílio Vaticano II.

Com razão afirmou Santo Agostinho ser ela um bem tão nobre que, ainda quando considerada apenas sob o ponto de vista terreno, “habitualmente nada se ouve com maior complacência, nada se deseja de mais atraente, enfim, nada se consegue de mais belo”. 2

Não existe paz sem o Criador, pois, ela “comporta uma exigência moral; além disso, tem relação com Deus: é de ordem transcendental e de ordem teologal”

No clássico ensinamento desse insigne Padre da Igreja, que marcou a teologia ocidental e vem ecoando na Cristandade por mais de quinze séculos, encontramos que a paz é a tranquilidade da ordem: “A paz do corpo é a ordenada complexão de suas partes; a da alma irracional, a ordenada calma de suas apetências. A paz da alma racional é a ordenada harmonia entre o conhecimento e a ação. […] A paz dos homens entre si, sua ordenada concórdia. A paz de casa é a ordenada concórdia entre os que nela mandam e os que obedecem; a paz da cidade, a ordenada concórdia entre governantes e governados. […] A paz de todas as coisas, a tranquilidade da ordem”. 3

Uma bela imagem de ordem — o principal elemento da definição agostiniana — é-nos oferecida pela harmonia sideral. Os astros, quais incontáveis joias refulgentes, preenchem a vastidão do firmamento de maneira singularmente ordenada e bela, dando a impressão de que na gigantesca abóbada celeste impera uma soberana paz. E não podia ser de outra forma, pois Deus “criou os céus com sabedoria” (Sl 135, 5).

Vemos, pois, que quando cada elemento de um conjunto encontra-se em seu devido lugar, cumprindo sua finalidade específica e proporcionando às demais criaturas o melhor de si, origina-se uma harmoniosa tranquilidade, fruto da reta disposição das coisas segundo sua natureza e de acordo com um determinado fim.

Não é qualquer tranquilidade, portanto, que merece ser chamada de paz, mas apenas aquela resultante da ordem. A pseudopaz instaurada com base em alguma situação desordenada, cedo ou tarde ruirá. A partir do momento em que os seres — quaisquer que sejam eles — deixam de agir conforme as regras da ordem, a paz esvanece.
São Tomás de Aquino, na questão da Suma dedicada à paz, mostra como ela está relacionada com o desejo do bem, uma vez que a ordenação interior do homem tende com veemência àquilo que lhe traz felicidade: “A verdadeira paz não pode existir senão com o desejo de um bem verdadeiro, porque todo mal, mesmo sob a aparência de bem pela qual satisfaz parcialmente o apetite, encerra muitas deficiências, e por causa delas o apetite permanece inquieto e perturbado. A verdadeira paz, portanto, só pode existir no bem e entre os bons. Logo, a paz dos maus é aparente e não verdadeira”. 4

Sendo Deus o único Ser capaz de saciar a apetência de infinito do homem, e uma vez que a ordem da criação foi instituída por Ele, podemos concluir não existir paz sem o Criador, pois ela “comporta uma exigência moral; além disso, tem relação com Deus: é de ordem transcendental e de ordem teologal”. 5

A santidade, meio mais eficaz de instaurar a paz

A filial submissão aos desígnios de Deus torna o homem de tal modo equilibrado e fortalecido na virtude, que ele, em consequência, pacifica tudo a seu redor. Onde está um santo, ali há grande paz, porque ele ordena todas as coisas de acordo com o estado de seu interior. Com efeito, a santidade possui mais eficácia na instauração da paz do que os tratados diplomáticos, quase sempre todos condicionados a uma política volúvel, instável e nem sempre ordenada. E os justos desejam ser pacíficos pelo mais elevado motivo: o de serem chamados filhos de Deus (cf. Mt 5, 9).

Em seu livro Jesus de Nazaré, o Papa Bento XVI ressalta que “a inimizade com Deus é o ponto de partida de toda corrupção do homem; superá-la é o pressuposto fundamental para a paz no mundo. Só o homem reconciliado com Deus pode estar reconciliado e em harmonia também consigo mesmo; e somente o homem reconciliado com Deus e consigo mesmo pode difundir paz em seu redor e em todo o mundo”. 6

Na base do ensinamento do atual Pontífice está a repulsa ao pecado, o qual exclui qualquer forma de paz. Nesse sentido, a explicação oferecida pelo Doutor Angélico mostra como uma falsa paz pode enganar o homem, se ele não goza da perfeita união com Deus: “Ninguém é privado da graça santificante a não ser em razão do pecado, razão pela qual o homem se afasta do verdadeiro fim e estabelece o fim em algo não verdadeiro. Assim sendo, seu apetite não adere principalmente ao verdadeiro bem final, mas a um bem aparente. Por esta razão, sem a graça santificante não pode haver verdadeira paz, mas somente uma paz aparente”.7

Portanto, o empenho de estar em ordem com o Criador é condição essencial de qualquer forma de paz. Sem isso, prevalecem os interesses pessoais e os egoísmos, fonte das disputas.

A paz na terra é consequência da paz com Deus

Na Santa Ceia, Nosso Senhor deu-nos como herança um dom precioso: “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não vo-la dou como o mundo a dá” (Jo 14,27).

A paz na Terra é consequência natural da paz com Deus, como deixou consignado o Beato João XXIII: “Em última análise, só haverá paz na sociedade humana se essa estiver presente em cada um dos membros, se em cada um se instaurar a ordem querida por Deus. Assim interroga Santo Agostinho ao homem: ‘Quer a tua alma vencer tuas paixões? Submeta-se a quem está no alto e vencerá o que está embaixo. E haverá paz em ti, paz verdadeira, segura, ordenadíssima. Qual é a ordem dessa paz? Deus comandando a alma, a alma comandando o corpo’”. 8

E o Papa Bento XVI, após ressalvar a relevância dos fatores de ordem cultural, política e econômica para se obter a paz, acrescenta: “Mas, em primeiro lugar a paz deve ser construída nos corações. De fato é neles que se desenvolvem sentimentos que podem alimentá-la ou, ao contrário, ameaçá-la, enfraquecê-la, sufocá-la. Aliás, o coração do homem é o lugar das intervenções de Deus. Portanto, ao lado da dimensão ‘horizontal’ das relações com os outros homens, revela-se de importância fundamental, nesta matéria, a dimensão ‘vertical’ da relação de cada um com Deus, no qual tudo tem o seu fundamento”. 9

Ensina-nos o Doutor Angélico que há no ser humano três classes de ordem: consigo mesmo, com Deus e com o próximo. 10 Donde decorrem três tipos de paz: do homem consigo mesmo, ou paz interior; do homem com Deus, decorrente de sua inteira submissão à vontade divina; e do homem com os seus semelhantes, que consiste em viver em concórdia com todos. A paz numa coletividade será a resultante da concórdia entre os indivíduos que a compõem; a concórdia entre as várias colectividades de uma nação equivale à sua paz interna. E, por fim, a concórdia entre as nações corresponde à tão sonhada paz internacional.

Com razão escreveu São Tomás: “A justiça produz a paz indiretamente, removendo-lhe os obstáculos. Mas a caridade a produz diretamente, porque ela é, por sua própria razão, causa da paz”.11 E a Constituição pastoral Gaudium et spes nos oferece este belo ensinamento: “A paz é assim também fruto do amor, o qual vai além do que a justiça consegue alcançar. A paz terrena, nascida do amor do próximo, é imagem e efeito da paz de Cristo, vinda do Pai. Pois o próprio Filho encarnado, Príncipe da Paz, reconciliou com Deus, pela Cruz, todos os homens; restabelecendo a unidade de todos num só povo e num só corpo, extinguiu o ódio e, exaltado na Ressurreição, derramou nos corações o Espírito de amor”. 12

A paz de Cristo no reino de Cristo

Em sua Encíclica Ubi arcano, o Papa Pio XI valeu-se de uma fórmula em extremo acertada, a qual permanece até nossos dias como o paradigma a ser atingido não só pelos cristãos, mas por toda a humanidade: “A paz de Cristo no reino de Cristo”. 13

Quando, na Santa Ceia, o Senhor transmitiu os últimos ensinamentos aos Apóstolos, deu-nos como herança um dom precioso: “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não vo-la dou como o mundo a dá” (Jo 14, 27). Mais tarde, ao aparecer no Cenáculo e encontrar os discípulos amedrontados e pusilânimes, suas primeiras palavras foram: “A paz esteja convosco!” (Jo 20, 19). Ainda outras vezes falou Jesus sobre a paz, mas sempre com uma nota muito peculiar: a sua paz, e não outra qualquer.

Distinta das fruições do mundo, caracterizadas pela agitação que imprimem na alma, a paz de Cristo aquieta as paixões desordenadas e conduz ao “gozo perfeito do bem supremo, que une e pacifica todos os anseios”. 14 Ela “reside nas profundezas da alma”, 15 incita a praticar a justiça unida à caridade e ensina a paciência. Quem possui essa paz ama o direito e a autoridade. Ela não se alimenta de bens perecíveis, mas de realidades sobrenaturais, nem se perturba com as maiores desgraças, porque está fundada sobre a rocha firme da fé.

Dizemos com propriedade ser essa a paz de Cristo porque, antes d’Ele, o mundo vivia nas trevas do paganismo em que vigoravam atrocidades de todos os tipos, prevalecendo a máxima: homo homini lupus — o homem é lobo do homem. Por isso, Santo Efrém de Nisibi pôde afirmar que “no nascimento e na morte de Jesus de Nazaré, o Céu e a Terra se fundem num abraço de paz”. 16

Quanto ao reino messiânico instituído pelo Divino Mestre, este se distingue substancialmente de todos os reinos terrenos, porque jamais existiu um soberano dotado da capacidade de governar o interior de seus súditos. Tal privilégio pertence ao Homem-Deus, que não deseja imperar apenas no exterior, mas sim renovar o âmago de suas criaturas: “Dentro de vós meterei meu espírito, fazendo com que obedeçais às minhas leis e sigais e observeis os meus preceitos” (Ez 36, 27).

Se fecharmos as portas da alma ao suave jugo de Jesus, e deixarmos nela penetrar o pecado, abandonaremos a paz de Cristo e o reino de Cristo. É por se terem “miseravelmente separado de Deus e de Jesus Cristo” que os homens caíram no abismo de males da I Guerra Mundial, acentuou em sua encíclica Ubi arcano o Papa Pio XI. E acrescentou: “Já que foram renegados os preceitos da Sabedoria cristã, não há motivo para admirar-se de que os germes da discórdia — semeados por toda parte como em solo bem preparado — tenham produzido esse execrável fruto de uma guerra que, longe de enfraquecer pelo cansaço os ódios internacionais e sociais, alimentou-os mais abundantemente pela violência e pelo sangue”. 17

A Igreja é a grande propulsora da paz

Tocante é o relato do Evangelista São Lucas sobre a comoção de Nosso Senhor no Domingo de Ramos, quando Se aproximou da Cidade Santa e chorou sobre ela, dizendo: “Oh! Se também tu, ao menos neste dia que te é dado, conhecesses o que te pode trazer a paz!… Mas não, isso está oculto aos teus olhos” (Lc 19, 42). Ele, o “Príncipe da paz” (Is 9, 5), que viera a este mundo para salvar, é recusado até pelos seus. Portador de divinas soluções para todas as desordens da humanidade, é desprezado por não dar assentimento ao pecado dominante nos corações orgulhosos de uma geração má e perversa.

A nós, porém, filhos da Santa Igreja, a paz de Cristo não é um objetivo inalcançável, porque não está velado aos nossos olhos Quem a pode comunicar. Embora tenha ascendido gloriosamente aos Céus, Ele está presente em seu Corpo Místico, a Santa Igreja Católica, defensora intrépida do direito, da vida, da justiça e da caridade. Ou ainda, como a qualificou o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, “a depositária da Verdade, e Arca dos Sacramentos, inestimável obra-prima de Deus”. 18

Convicto de ser a Igreja a grande propulsora da paz, comenta esse eminente líder católico: “Só as virtudes que a Igreja ensina, e por meio dos Sacramentos ajuda a praticar, é que são realmente o fundamento da paz. E, assim, a virtude só vencerá onde vencer a Santa Igreja de Deus. Em outros termos, não haverá verdadeira paz senão na medida em que houver um triunfo da Santa Igreja. […] A exaltação da Santa Igreja, isto é, que a Igreja seja reconhecida por todos os povos no reinado universal que de direito lhe cabe sobre o mundo inteiro, é este o grande anelo que deve estar indissoluvelmente ligado a todos os nossos anseios de paz”. 19

Que a humanidade tenha, portanto, os olhos fixos na Igreja e ponha amorosamente em prática seus sapienciais ensinamentos, eis o meio seguro de extirpar todas as desordens, individuais e sociais, que campeiam pelo mundo afora e são causa das discórdias, guerras, violências e tantos outros males que afligem o mundo atual. À Santa Igreja se aplica com propriedade a profecia de Isaías: “Eis o que diz o Senhor: vou fazer a paz correr para ela como um rio” (Is 66, 12).

1CONCÍLIO VATICANO II. Gaudium et spes, n.78.
2SANTO AGOSTINHO. A cidade de Deus. l.19, c.11.
3Idem, 1.19, c.13.
4SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica, II-II, q.29, a.2, ad.3.
5HENRY, OP, Antonin-Marcel. Introdução e notas ao Tratado da Caridade. In: Suma Teológica. São Paulo: Loyola, 2004, v.V, p.406, nota a.
6RATZINGER, Joseph. Gesù di Nazaret. Città del Vaticano: Libreria Vaticana, 2007, p.110.
7SÃO TOMÁS DE AQUINO, op. cit., II-II, q.29, a.3, ad.1.
8JOÃO XXIII. Pacem in terris, n.164.
9BENTO XVI. Mensagem no 20º aniversário do Encontro Interreligioso de oração pela paz, convocado por João Paulo II, 20/9/2066.
10Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Super Evangelium Ioannis, c.14, lect.7.
11Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica, II-II, q.29, a.3.
12CONCÍLIO VATICANO II, op.cit., ibidem.
13PIO XI. Ubi arcano, 23/12/1922.
14Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica, II-II, q.29, a.2, ad.4.
15PIO XI, op. cit., ibidem.
16SANTO EFRÉM DE NISIBI, apud ODEN, Thomas C. (Ed.). La Biblia comentada por los padres de la Iglesia y otros autores de la época patrística. Evangelio según San Lucas. Madrid: Ciudad Nueva, 2006, v.III, p.82.
17PIO XI, op. cit., ibidem.
18CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Opus justitiæ pax. In: O Legionário. São Paulo. N.434. (5/1/1941); p.2
19CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Justitia et pax. In: O Legionário. São Paulo. N.517. (9/8/1942); p.2.

O “sensus pulchrum”: chave do relacionamento com Deus

montefuji1-horzIrmã Juliane Vasconcelos Almeida Campos, EP

A emoção estética faz com que o espírito humano se abra para a transcendência. O maravilhamento ante a beleza serve, muitas vezes, como pedestal para a ação da graça, transformando repentinamente numa experiência mística sobrenatural a luz que brilha no plano natural.

Definir o que seja a beleza é uma intricada tarefa. Afinal, como diz o adágio popular, “gosto não se discute”… E se isto sempre foi difícil, mais ainda resulta hoje, num mundo globalizado que se movimenta em torno da máxima informação no mínimo de espaço e de tempo.

Com efeito, agitada por constantes e profundas renovações tecnológicas, nossa sociedade mundializou a cultura, mas à custa de tornar onipresente uma estética irrefletida, escrava dos impulsos e das sensações passageiras, vazia de significado, quando não extravagante.

Corre-se o risco, afirma Bento XVI, de considerar a vida como uma mera sucessão de fatos e experiências, em detrimento da busca da verdade, do bem e da beleza, que nos proporcionam a felicidade e a alegria. Porém, os homens não podem ser vistos “como meros consumidores num mercado de possibilidades indiferenciadas, onde a escolha em si mesma se torna o bem, a novidade se contrabandeia como beleza e a experiência subjetiva suplanta a verdade”.1

Portanto, hoje mais do que nunca é oportuno perguntar: é a beleza uma simples questão de gosto? Devemos renunciar definitivamente a dar-lhe um sentido objetivo e passar a analisá-la sob o prisma de uma psicologia individualista? Até que ponto seu conceito é influenciado pela política ou pela economia, com seus peculiares interesses de mercado? Altera-se sua essência com a voragem das modas cambiantes e contraditórias, tão própria de uma sociedade de consumo? Ou há uma maior profundidade filosófica nesta questão, que envolve a existência humana e sua finalidade, e a torna objetiva?

Nossa sociedade parece ter relegado ao esquecimento os valores transcendentais2 — verdade, bem e beleza —, gravados por Deus no fundo da alma do homem. Ora, significa isso ter ele perdido definitivamente a disposição natural de admirar, de buscar a beleza? Cremos que não. Parece-nos, pelo contrário, que a saturação informativa e sensorial do nosso dia a dia torna a alma dos nossos contemporâneos mais sequiosa do que nunca desses valores.

Uma intuição do belo e do bem

Conta Mons. João Scognamiglio Clá Dias que, há alguns anos, estando em Paris, observou uma cena muito expressiva, apesar de sua aparência corriqueira: duas meninas brincavam num jardim público, correndo de um lado para outro. Era visível serem irmãs, uma maiorzinha, com seus sete anos, e outra menor, quiçá com apenas três. Em determinado momento, a menor começou a correr sobre um dos canteiros floridos, onde era proibido pisar, e sua irmã admoestou-a: “Madeleine, ce n’est pas beau!” — “Madalena, isto não é belo!”. Foi o suficiente para a pequena parar e dar meia volta, corada e desconcertada.3

O que fez essa menina, ainda sem idade para ter o pleno uso da razão, ficar envergonhada por haver realizado um ato que não era belo? Por que sua irmã não lhe disse: “Madeleine, ce n’est pas bien!” — “Madalena, isto não está bem”? Como sabe a criança que o mal é feio e errado? Por que, já desde a aurora de sua existência nesta Terra, a criatura racional relaciona o bem com a beleza? É a criança um pequeno “filósofo”, que sabe fazer uso dos conceitos transcendentais?

Tal exemplo demonstra possuir o homem intuições que fazem transparecer a riqueza de uma realidade talvez pouco notada. E descortina o amplo panorama da natureza humana, com suas capacidades e potências, tocando num ponto chave do existir do homem: sua transcendentalidade e seu relacionamento com as realidades metafísico-espirituais, ou seja, a abertura de sua alma para além da matéria visível.

Os instintos espirituais

Com efeito, existem no ser do homem — por ser este uma criatura inteligente — “instintos espirituais” que se manifestam justamente quando ele começa a ter conhecimento de que existe, pela noção de seu próprio ser e do ser de tudo aquilo com o que entra em contato.4 Esta noção, sumamente substanciosa, é como o alimento próprio de sua inteligência, pois é o que lhe permite conhecer todas as coisas, garantindo-lhe a sanidade mental. Se suas apreensões não fossem verdadeiras e reais, enlouqueceria.

Este conhecimento começa a se pôr em evidência quando a criança abre os olhos para a luz, distinguindo seu ser do ser de sua mãe, mas dela dependente; percebendo que o chocalho é real e verdadeiro, pois escuta seu ruído; que o leite lhe satisfaz a sensação de fome, sendo por isso bom; que a luz e as cores são atraentes e belas, entretendo-a e fazendo com que ela queira conhecer e aprender mais e mais. Tem ela uma intuição de que sempre há algo mais para conhecer, para além daquela realidade que vê e apreende experimentalmente, ainda sem compreender conceitualmente qualquer expressão abstrata e formal. Em nenhuma época se aprende tanto como quando se é criança, e esta não dissocia o entreter-se do compreender. “Neste nosso mundo de seres ao qual ela acaba de aportar, o ser do homem desabrocha e exclama por consonância com a verdade, bondade e beleza dos seres que observa”.5

Sendo prévio a qualquer raciocínio com princípios claros e estabelecidos, esse conhecimento do próprio ser e do ser inteligível e verdadeiro das coisas sensíveis é, todavia, uma apreensão intelectual ainda confusa, sem explicitações racionais, e se dá na inteligência espontânea, chamada habitualmente de senso comum. Ela admite verdades e princípios a respeito dos quais o homem não se equivoca, tais como o de identidade e seu corolário, o de contradição — cada ser é o que é e não pode ser outra coisa; o de causalidade — todo efeito supõe uma causa; ou o de finalidade — todo agente obra por fim, que é o seu próprio bem.

Esta intuição, chamada sindérese, é um hábito da razão com o qual os homens nascem, não o adquirem pela repetição dos atos 6 ou por um dom divinamente infuso. Ela permite conhecer estes primeiros princípios, bem como perceber as propriedades transcendentais de todos os entes. Entretanto, como os demais atos intelectuais, este hábito exige o desenvolvimento da inteligência. Poderia ser chamado de protoconsciência, como um selo de lógica, verdade, bem e beleza presente na alma humana, pois impulsiona ao bem, censurando o mal, impulsionando, por conseguinte, à verdade e à beleza, e admoestando seus contrários ou opostos.

O papel dos sentidos na percepção da beleza

São Tomás admite o argumento aristotélico de que nada existe no intelecto sem antes haver passado pelos sentidos, considerando-o apenas na ordem da natureza e não da graça, pois esta última não está subjugada às leis naturais. Deste modo, afirma ele que, sendo o homem composto de matéria e espírito, “todo conhecimento tem sua origem nos sentidos”7, pois os dados da experiência sensível tornam-se inteligíveis pela ação do intelecto, que os abstrai e eleva à condição de realidades imateriais e espirituais.

Dentre os sentidos externos, há dois que são superiores, a visão e a audição. Segundo o Angélico, é verdade que se diz sons e imagens belas, mas não perfumes, sabores ou texturas belas8. Esses dois sentidos são, portanto, os que abrem para a razão a via de acesso ao belo, que nele se deleita, pois o belo, na concepção tomista é “id quod visum placet — aquilo que, visto, agrada”9.

Não obstante, a beleza não se restringe à percepção sensorial, sendo percebida pelo homem, também, em todas as suas dimensões espirituais, uma vez que esta percepção é intrínseca a seu próprio ser. Os sentidos externos são instrumentos para a percepção sensível, porém, é o intelecto que, por assim dizer, “lê” o belo das coisas, em razão de sua verdade e bem.

Aparece claramente, então, a transcendentalidade da beleza, que tem algo em comum com a verdade e a bondade, pois manifesta a relação da coisa bela com o espírito, despertando um prazer espiritual, ainda que seja na contemplação da beleza sensível, pois só é possível captar a beleza, enquanto tal, espiritualmente. Por este motivo, não é raro, diante de algo muito belo, uma pessoa ficar sem ter o que dizer. Ela compreende e capta a mensagem, nem tendo necessidade do conceito estético. E é pela mesma razão que, em sentido oposto, a pequena Madeleine identificou uma ação de si mesma má e errada, por romper com as regras estabelecidas, como feia.

O “sensus pulchrum”

É por isso que há no ser humano uma espécie de atração, um magnetismo pela beleza, já manifesto na mais tenra infância, pelo qual a criança busca as coisas bonitas nos seus primeiros contatos com estas. É clássico o exemplo das bolinhas de cores diferentes que são apresentadas a um bebê para com elas brincar. Ele vai escolher primeiro a de cor mais viva e atraente. Só depois se interessará pelas outras. Assim, vemos que esta espécie de instinto do belo é o ponto de partida para encontrar, de modo quase subconsciente, a verdade e o bem.

Isso porque a beleza não é senão o esplendor de todos os transcendentais reunidos. Ou, como afirma Vilela, é “o ‘splendor veri’ dos platônicos, o ‘splendor ordinis’ de Santo Agostinho; e mais: é dizer que ela é ‘splendor boni’ e ‘splendor perfectionis’. […] É o resplendor do ser, do ser que é um, através de sua perfeição, de sua verdade e de sua bondade resplandecentes, enquanto apreendido esse resplendor, pela inteligência, e enquanto essa apreensão é fonte de alegria para a vontade. E para o homem todo, já que no homem as coisas entram no espírito pelos sentidos. Daí ser a beleza tão envolvente!”10.

Von Balthasar corrobora inteiramente tal pensamento: “Nossa palavra inicial se chama beleza. A beleza, última palavra à qual pode chegar o intelecto reflexivo, já que é a auréola de resplendor indelével que rodeia a estrela da verdade e do bem e sua indissociável união”11.

Mons. João faz uma interessante analogia a tal respeito: assim como as plantas possuem o instinto da procura do sol — o heliotropismo —, a criança tem “um agudo senso do maravilhoso que a atrai ao belo, devido ao qual ela olha com indiferença aquilo que não satisfaça seu desejo neste sentido. Essa espécie de ‘kaloi-tropismo’ [atração pelo belo] indica que, ao lado dos diversos transcendentais, o pulchrum tem um papel absolutamente insubstituível para a conservação e o aperfeiçoamento do primeiro olhar sobre o ser”12.

A essa espécie de instinto espiritual da beleza chamamos de “sensus pulchrum”.

A percepção do belo como via para o relacionamento com Deus

É possível deduzir, por todo o exposto, que a beleza é conatural ao homem, assim como ele é conatural ao bem, sua finalidade última. É por esse instinto da alma — o sensus pulchrum — que ele percebe o perfeito, o proporcionado e o luminoso. E no conhecimento de todas as coisas, encontra como que “degraus” que o elevam mais nessa “escada” da busca do bem e da beleza — e também da verdade — compreendendo que deve haver um arquétipo de tudo: a Verdade, o Bem e a Beleza em substância. A cada passo, seu espírito se deleita e se aquieta na contemplação, pois, afirma São Tomás, “pertence à essência do belo que, com sua vista ou conhecimento, se aquiete o apetite”13.

Contudo, tal apetite nunca se sente plenamente satisfeito nesta Terra. Provido de inteligência e vontade, o homem tem necessidade de conhecer e amar com sede de infinito, pois, dentro do limite da matéria, seu espírito busca o ilimitado. O limite repugna ao homem; à natureza humana apetece a plenitude.

Plinio Corrêa de Oliveira recorre a uma metáfora muito interessante para explicar este fenômeno, utilizando-se da imagem do monte Fuji, no Japão, o qual se eleva de forma imponente numa paisagem encantadora. No entanto, por ser de origem vulcânica, à sua forma cônica, regular e perfeita, falta o vértice. Vendo essa imagem de cone truncado, tem-se a tendência de logo imaginar o pico que o completaria. Ele fazia a analogia desta tendência com a busca da perfeição no homem: está sempre à procura dos “cones do Fujiyama”, não só de si mesmo, mas também de todas as coisas, algo que os aperfeiçoe e assemelhe à Perfeição Absoluta, que é Deus, dando-lhe a clave da impostação de sua alma nesta vida terrena.14

Muitas vezes, entretanto, preso às realidades concretas e temporais, busca o homem nas criaturas esse vértice que lhe falta, sem êxito, encontrando apenas a frustração, pois as coisas deste mundo tão somente fazem parte de um conjunto cuja cúspide se encontra no Céu, onde está Quem lhe poderá saciar a sede de infinito. Tal é a admoestação que faz o livro da Sabedoria: “Se tomaram essas coisas por deuses, encantados por sua beleza, saibam, então, quanto seu Senhor prevalece sobre elas, porque é o criador da beleza que fez estas coisas. Se o que os impressionou é a sua força e o seu poder, que eles compreendam, por meio delas, que seu criador é mais forte; pois é a partir da grandeza e da beleza das criaturas que, por analogia, se conhece o seu autor” (Sb 13, 3-5).

basilica-sao-pedro1-horzPortanto, a percepção da beleza, o encanto e o maravilhamento com algo belo levam a perceber a Deus, que não é senão o Autor de toda a beleza, sendo Ele próprio a Beleza em si mesma. Dessa maneira, na contemplação das belezas da grandeza do mar ou do silêncio das montanhas, do céu estrelado, de uma paisagem deserta ou de uma fonte, dá-se um conhecimento experimental, movendo os sentidos externos e internos, num autêntico processo estético e místico: “Não custa trabalho ver em tudo isso a caligrafia do Criador”15.

Santo Agostinho, o grande cantor da beleza, também afirma falarem as coisas criadas, em si mesmas, de Deus: a beleza das coisas as transcende e revela o Criador, pois, se são belas as coisas que fez, quanto mais belo será quem as fez16. E esta é uma das principais inquietudes dos homens: pela “obra de arte” conhecer o “Artista”. De grau em grau, pela admiração e maravilhamento, a razão vai galgando a montanha do concreto em direção a seu “cone”, o imponderável, seguindo as pegadas desse Artista, para tentar penetrar em seus mistérios e com Ele relacionar-se.

Maravilhar-se: um ato de religião

Desse modo, podemos afirmar com Soto Posada que o “gozo estético não é meramente sensível ou inteligível, mas tem um plano moral e religioso”17. O agrado — o placet que São Tomás afirma provocar no ser do homem o conhecimento da beleza — se dá porque “como todo ser participa do ser de Deus, gozar de sua beleza é gozar de Deus: a experiência estética se faz fruição teológica e mística”18. A experiência estética, a admiração, o assombro diante da beleza que placet torna-se, então, uma ponte para a espiritualidade, pois a sede de infinito do homem só será saciada no encontro com Deus. Maravilhar-se é, pois, um ato de religião. Nas imortais e belas palavras de Santo Agostinho: “Tu nos fizeste para Ti, Senhor, e irrequieto está nosso coração enquanto em Ti não repousar”19.

Esta concepção se fez sentir de modo especial nas artes medievais, que eram feitas de maneira a maravilhar o homem e ajudá-lo a entrar em contato com Deus. Umberto Eco, analisando a arte e a estética na Idade Média — na qual foram desenvolvidos os problemas estéticos a partir da Antiguidade Clássica, sob um prisma cristão —, é da opinião de que esse significado novo dado ao tema do belo só se tornou possível porque esta concepção de beleza cristã foi introduzida no sentimento do homem, do mundo e da divindade. O filósofo medieval não falava de todos esses conceitos de modo abstrato, mas o remetia a coisas concretas e seu campo de interesse estético era muito mais amplo que o dos dias atuais, porque estava estimulado pela consciência da beleza como dado metafísico. O homem moderno superestima as artes plásticas, porque perdeu esse sentido de beleza inteligível. Para os medievais, a beleza inteligível constituía uma realidade moral e psicológica, e a cultura da época ficaria insuficientemente iluminada se não tomasse em conta este fator.20

A consequência de tal mentalidade medieval foi que se degustava o belo com a finalidade de amar a Deus, por isso havia uma inclinação — secundária, no sentido de que era em função desse amor —, um “amor ornamenti, às igrejas suntuosas, ao belo canto e à bela música”21 , sem desprezar a beleza moral, também “sensível”, presente nos ascetas e místicos.

O flash: clave para alcançar a santidade

Não cabe dúvida, então, de que a emoção estética, a admiração — o sensus pulchrum em ação — abre o espírito humano para a luz da transcendência. Por isso, muitas vezes, esse maravilhamento pode ser uma espécie de pedestal para a ação de uma graça, uma luz que brilha repentinamente, e a alma sai do plano natural para ter uma experiência mística sobrenatural.

É ainda Plinio Corrêa de Oliveira quem definia essa contemplação ou experiência mística como sendo um flash, uma graça que parte do Espírito Santo, iluminando a alma, como um maravilhamento, à semelhança da emoção estética22. O motivo da escolha da palavra flash, segundo ele, é porque “assim como na hora de tirar uma fotografia é produzida pela máquina uma luz intensa e rápida, cujo repentino clarão permite fixar a imagem e sem o qual ela não se fixaria, assim também essa graça atua à maneira de um flash, emitindo uma luz intensa. Essa luz faz a ‘objetiva’ de nossa alma ver e gravar aspectos que normalmente não veria ou não gravaria. Essa figura, tirada de um aspecto técnico da vida contemporânea, ilustra didaticamente este fenômeno sobrenatural”23.

Pode-se dizer, analogamente, que a percepção estética também seria como um flash que ilumina a sensibilidade e a inteligência, maravilhando, agradando — “id quod visum placet” — e aquietando o apetite instintivo do ser humano. O sensus pulchrum, sendo o motor deste assombro, do maravilhamento, do flash, torna-se a chave para abrir as portas do ser do homem para seu encontro e relacionamento com Deus, a quem o homem busca por instinto espiritual e conaturalidade, uma vez que busca a Verdade, o Bem e a Beleza na plenitude, encontrando a santidade.

A beleza salvará o mundo?

Tem a beleza, portanto, a capacidade de abrir a mente e o coração do homem para o encontro com Deus, sua salvação, a quem procura quiçá sem saber. A partir da experiência do encontro com o belo, por meio desse assombro, desse maravilhamento, desse flash, abre-se para a humanidade uma Via Pulchritudinis, a qual “não se pode reduzir a um confronto filosófico. Porém, a observação do metafísico ajuda a compreender por que a beleza é uma via real para conduzir a Deus”24. É uma forma superior de conhecimento, que “desperta o homem para a real estatura da verdade”, a verdade bela, “a verdade que redime”, que em Cristo iluminou “o mundo de beleza criado pela fé”, e na face dos santos “sua própria luz se torna visível”25, pois a famosa beleza que salva, de Dostoievski, não é outra senão a beleza redentora do Salvador.

Apesar dessa linguagem atualmente apresentar um esteticismo globalizado e afastado da verdadeira ideia de beleza — como vimos no início destas linhas —, o sensus pulchrum continua latente nos corações dos homens e é através dele que se abre a possibilidade de seu resgate e de sua salvação, para por meio dele encontrar-se com Deus.

Com palavras cheias de esperança, assegura Mons. João: “O homem de hoje não perdeu a capacidade de admirar, por mais que a sociedade lhe faça muitos outros convites. É preciso proporcionar-lhe ocasiões para, maravilhando-se, discernir nas coisas aquilo que elas têm de belo, de bom e de verdadeiro, ou sua ausência, e com isto poder voltar-se para o essencial: Deus”26.

Fica, portanto, aqui um convite aos nossos leitores: que eles possam ser testemunhos vivos de toda a explanação doutrinária aqui desenvolvida, e não façam calar seu sensus pulchrum, maravilhando-se e abrindo-se para esta transcendência e para o flash — pois só a espiritualidade da beleza, chamada kalós pelos gregos, pode fazer o homem reencontrar-se com a presença da Beleza Divina —, tornando-se teokalófaros, na feliz expressão de Arboleda Mora. Diz este que quem porta algo é porque possui esse algo. Assim, “alguns dos primeiros monges da Igreja antiga eram conhecidos pela santidade de sua vida e por isso o povo os denominava teóforos — portadores de Deus. Quem expressa através de sua vida a beleza de Deus, bem pode ser chamado teokalóforo — portador da beleza de Deus”27. Quem encontra e ama, possui o que ama, e deve ser, portanto, portador do que possui.

É neste sentido que podemos definitivamente terminar com Dostoievski, com toda propriedade: “a beleza salvará o mundo”! Pois, se “a alma maravilhável é uma alma maravilhosa, capaz de fazer maravilhas”28, com almas maravilháveis e maravilhosas, que se relacionam e se unem a Deus, reconhecendo a maravilha da criação e da redenção, maravilhas podem ser feitas neste mundo e a face da Terra pode ser renovada.

1BENTO XVI. Welcoming Celebration by the Young People Address of His Holiness Benedict XVI. Barangaroo, Sydney Harbour, 17/07/2008.
2Todo ente possui algumas qualidades inerentes ao seu próprio ser, que são suas propriedades intrínsecas, as quais vão além, transcendem a ordem categorial. E, como tais, acrescentam algo ao conhecimento do ente, estando sempre presentes nele e intimamente ligadas entre si. São chamadas, por isso, de transcendentais e costuma-se reduzi-las a quatro: unum, verum, bonum, pulchrum — a unidade, a verdade, o bem e a beleza. Sobre este tema, ver FORMENT, Eudaldo. Id a Tomás: Principios fundamentales del pensamiento de Santo Tomás. 2.ed. Pamplona: Fundación Gratis Date, 2005, p.66-74.
3Cf. CLÁ DIAS, EP, João Scognamiglio. La “primera mirada” del conocimiento y la educación: un estudio de casos. Tese de Mestrado em Psicologia. Bogotá: Universidade Católica de Colômbia (UCC). Faculdade de Psicologia, 2009, p.112.
4Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica, I, q.5, a.2.
5CLÁ DIAS, EP, João Scognamiglio. O primeiro olhar da inteligência. In: Lumen Veritatis. São Paulo. Ano III. N.12 (Jul.- Set., 2010); p.14.
6Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO, op. cit., I, q.79, a.12.
7Idem, I, q.1, a.9.
8Cf. Idem, I-II, q.27, a.1, ad.3.
9Idem, I, q.5, a.4, ad.1.
10VILELA. Orlando O. Alma criadora de símbolos. 2.ed. Belo Horizonte: Diálogo, 1954, p.100-101.
11VON BALTHASAR, Hans Urs. Gloria: Una estética teológica. La percepción de la forma. Madrid: Encuentro, 1985, p.22.
12CLÁ DIAS, La “primera mirada” del conocimiento y la educación: un estudio de casos, op. cit., p.110.
13SÃO TOMÁS DE AQUINO, op. cit., I-II, q.27, a.1, ad.3.
14Cf. CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Contemplar o “cone do Fujiyama” — ver as coisas na sua ordem ideal paradisíaca: Palestra. São Paulo: 10 nov. 1989.
15VON BALTHASAR, Hans Urs. El problema de Dios en el hombre actual. 2.ed. Madrid: Castilla, 1966, p.139.
16Cf. SANTO AGOSTINHO. Sermo CXLI, c.2, n.2: ML 38, 776; Enarratio in Psalmo CXLVIII, n.15: ML 36, 1947.
17SOTO POSADA, Gonzalo. La estética medieval. In: Cuestiones Teológicas y Filosóficas. Medellín. UPB. N.43-44 (1989); p.171.
18SOTO POSADA, Gonzalo. El arte y el artista en la Baja Edad Media. In: Cuestiones Teológicas. Medellín. UPB. v.XXXV, N.83 (Jan.-Jun., 2008); p.136.
19SANTO AGOSTINHO. Confessionum. L.I, c.1, n.1: ML 32, 661.
20Cf. ECO, Umberto. Arte y belleza en la estética medieval. 2.ed. Barcelona: Lumen, 1999, p.13-14.
21Idem, p.15.
22Cf. CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. A fidelidade ao alcandorado: Palestra. São Paulo, 16 jun. 1978.
23CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. O “flash”, o que é?: Conferência. São Paulo: 15 maio 1973.
24PONTIFÍCIO CONSELHO DA CULTURA. Concluding Document of the Plenary Assembly – 27-28 March 2006 – The Via pulchritudinis. Beauty as a Way for Evangelisation and Dialogue. 2, 2.2. In: Culture e Fede. Civitas Vaticana: Pontificium Consilium de Cultura, 2006, v.XIV/2, p.121.
25RATZINGER, Joseph. A beleza e a verdade de Cristo. In: Communio. Revista Internacional de Teologia e Cultura. v.XXVII, N.4 (Out.-Dez., 2008); p.920; 924.
26CLÁ DIAS, EP, João Scognamiglio. Beleza e Nova Evangelização. In: Lumen Veritatis. São Paulo. Ano IV. N.14 (Jan.-Mar., 2011); p.25.
27ARBOLEDA MORA, Carlos Ángel. Um carisma encantador. Os Arautos do Evangelho como teokalófaros. In: Arautos do Evangelho. São Paulo. N.99 (Mar., 2010); p.36.
28CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. A admiração é a nossa estrela de Belém: Palestra. São Paulo, 13 maio 1988.

Toma e lê

agostinho-267x300Thaynara Ramos Siedlarczyk

Ao percorrermos a história dos santos, encontramos algumas almas “a quem o Senhor acariciou desde o berço até a sepultura, retirando de seu caminho todos os obstáculos que as impedisse de se elevar até Ele sem manchar suas vestes batismais”1, e outras maculadas, que ao receber favores tão extraordinários de Deus se convertem e trilham a via da penitência, tornando-se modelos de santidade.

Entre essas almas encontramos o grande Santo Agostinho.

Chamava-se Aurélio Agostinho e viveu maior parte de sua vida em Tagaste, no norte da África. Herdou de sua mãe toda ternura e inclinação para a contemplação, mas, infelizmente, não deixou de possuir o temperamento forte de seu pai Patrício, entregando-se a uma vida pecaminosa.

Ainda jovem, ambicionando uma grande carreira, dirigiu-se a Cartago para estudar em famosas academias. Aos vinte anos interessou-se pelo maniqueísmo e adotou essa forma de pensamento para justificar sua vida moral cômoda e relativista. Nesse período, teve um filho chamado Adeodato.

Frustrado pelas desilusões, e apesar de estar “envolvido na escuridão da carne”2, Agostinho sentiu-se impelido pela busca da verdade. E para atender essa aspiração, abandonou o maniqueísmo e aderiu ao neoplatonismo que, longe de possuir o que ele tanto buscava, consistia numa nova interpretação da doutrina de Platão, sob um prisma religioso.

Entretanto, sua virtuosa mãe, Santa Mônica, rezava e pedia a Deus pela conversão de seu filho. Tal era a sua preocupação pela salvação eterna dele, que aflita procurou um bispo, a fim de que este intercedesse pela conversão de Agostinho. Após inúmeras insistências, o bispo lhe diz: “Vá tranquila, pois é impossível que pereça um filho tão chorado”.

Ao inteirar-se da intenção de Agostinho de viajar para Roma, Santa Mônica correu ao porto a fim de acompanhá-lo. Porém, seu filho a enganou e partiu escondido naquela mesma noite.

Contudo, a Providência não o abandonou e, em Milão, ele conheceu o bispo Ambrósio. Devido à sua retórica, Agostinho passou a ir às missas celebradas por ele a fim de ouvir suas pregações que tanto o deliciavam. Sua admiração pelo prelado era tal, que Agostinho permanecia horas no seu gabinete, observando-o a preparar seus sermões. Assim, aos poucos, o exemplo e os ensinamentos de Santo Ambrósio foram penetrando em sua alma, transformando-o.

Enquanto isso, Santa Mônica não cessava de rezar e chorar pela alma de seu filho, pedindo a Deus pela sua conversão e foi reconfortada por um sonho:

Viu-se num bosque, chorando pela perda espiritual de seu filho, quando se aproximou dela um personagem luminoso e resplandescente, que lhe disse: “ Teu filho voltará para ti”.Este sonho,reforçando em seu espírito as confortadoras palavras do bispo, deu-lhe grande ânimo na luta sem tréguas pela conversão do filho”.

Desejosa de encontrar seu filho, partiu para Roma. Quando lá chegou, soube que Agostinho abandonara a filosofia dos maniqueus. Confiante, Santa Mônica pressentiu que sua total conversão estava próxima.

Entretanto, “ o espírito está pronto, mas a carne é fraca” (Mt 14,38). Agostinho não tinha forças suficientes para abandonar os vícios aos quais se entregara e não cessava de exclamar: “E tu Senhor, até quando? Até quando continuarás irritado? Não te lembres de nossas culpas passadas! Por quanto tempo, por quanto tempo direi ainda: amanhã, amanhã? Por que não agora? Por que não pôr fim agora à minha indignidade?3

Assim, ainda indeciso sobre qual rumo tomar em sua vida, se deveria ou não se entregar totalmente à fé cristã, a Providência interveio, enviando-lhe as graças necessárias para dar os passos em vista a sua completa conversão. Estando no jardim de sua casa, de repente, ouviu cânticos de criança que diziam: “toma e lê, toma e lê”. Julgando ser um sinal divino, pegou o livro das Epístolas de São Paulo e abriu-o e leu: “Não em orgias e bebedeiras, nem na devassidão e libertinagem, nem nas rixas e ciúmes. Mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não procureis satisfazer os desejos da carne” (Rm 13, 13). Não foi necessário continuar a ler… Neste momento sentiu uma luz penetrar em todas as trevas e dúvidas do seu coração.

Convertido e exultante, foi anunciar à sua mãe o fato ocorrido, deixando-a radiante de alegria como menciona em seu livro “Confissões” (VIII-12):

Ela rejubila. Contamos-lhe como o caso se passou. Exulta e triunfa, bendizendo-Vos, senhor, ‘ que sois poderoso para fazer todas as coisas mais superabundantemente do que pedimos ou entendemos’. Bendizia-Vos porque via que, em mim, lhe tínheis concedido muito mais do que ela costumava pedir, com tristes e lastimosos gemidos”.

Agostinho fez um retiro e foi batizado por Santo Ambrósio. Em um arroubo de fervor, “segundo a tradição, terminada a cerimônia do Batismo, Santo Ambrósio exclamou: ‘Te Deum laudamus!’ e Santo Agostinho acrescentou: ‘Te Dominum confitemur!’; e assim, alternando suas frases um e outro, entre os dois improvisaram naquela ocasião os conceitos e palavras que compõem o cântico litúrgico do ‘Te Deum’”4.

Logo após ser batizado, Agostinho decidiu voltar a Tagaste com sua mãe. Ao chegar em Óstia, devido ao mau tempo, não puderam embarcar logo. Neste dia, entraram em êxtase durante um colóquio sobrenatural e, no fim deste, Mônica revelou a Agostinho que não mais possuía desejo de viver.

“Meu filho, nada mais me atrai nesta vida; não sei o que estou fazendo ainda aqui, nem porque ainda estou aqui. Já se acabou toda esperança terrena. Por um só motivo desejava prolongar minha vida nesta terra: ver-te católico antes de eu morrer5.

Poucos dias após esse episódio, Santa Mônica adoeceu gravemente e faleceu antes de regressar a Tagaste.
Santo Agostinho, determinado a levar uma vida cristã, voltou à sua terra natal onde fez penitência e pôs-se a escrever livros e transmitir seus conhecimentos a outros. Sua reputação espalhou-se rapidamente e, em pouco tempo, fizeram-lhe bispo de Hipona.

Um pouco antes de sua morte, pediu que escrevessem na parede de sua cela, em tamanho grande, os sete salmos penitenciais, os quais recitava todos os dias em seu leito com muita lucidez. Entrou para a morada celeste aos 77 anos.

Assim, deu-se a conversão de uma alma que, após uma vida devassa, atingiu a mais excelsa virtude, entregando-se com tal radicalidade às vias da perfeição, que se tornou uma das maiores riquezas da Igreja com seus escritos e ensinamentos.

1 SANTA TERESINHA, História de uma alma. 20.ed. São Paulo Paulus,1979. p.26
2 SGARVOSSA,Mário; GIOVANNINI, Luigi. Um santo para cada dia. 4.ed.Roma Paulus, 1978. p. 272-273
3 SANTO AGOSTINHO, Confissões; Edições Paulinas, 2º edição – 1986, São Paulo. Pág.213
4 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Santo Agostinho, farol de sabedoria e de amor a Deus. In: Dr Plinio, São Paulo: Retornarei, n. 89, ago. 2005. p. 26.
5 SANTO AGOSTINHO, Confissões; Edições Paulinas, 2º edição – 1986, São Paulo. Pág.239.

A sublime montanha da santidade

HimalayaIrmã Maria Cecília Seraidarian,EP

Muitas vezes, na vida de um alpinista, depois de escalar inúmeros picos, montes e colinas, superando suas próprias capacidades, nasce o desejo de vencer o desafio de chegar ao cume de uma determinada montanha. Sua vida, por assim dizer, só terá sentido se conseguir realizar esse anelo.

O alpinista, então, passa anos analisando e estudando a tal montanha com o intuito de um dia realizar essa importante conquista. Conhecedor dos perigos e dificuldades que poderá encontrar em sua empresa, ele começa a cuidar de todos os preparativos e em determinado momento vai de encontro ao seu objetivo.

Ao chegar bem cedo ao sopé da montanha, ele a vê banhada por uma luz dourada pelos primeiros dilúculos da aurora que se aproxima, tornando-a ainda mais bela. Passados esses momentos de admiração, o alpinista escolhe uma face da montanha e começa a desafiante, longa e árdua subida.

Apesar de ter tomado todas as precauções necessárias, frequentemente, ele sofrerá quedas e terá que voltar a percorrer um trecho que parecia definitivamente conquistado. Outras vezes, ver-se-á diante de obstáculos aparentemente intransponíveis e será tentado a desistir. Quando menos ele espera, encontrará ganchos deixados por outros montanhistas, auxiliando-o nos momentos perigosos e a subida tornar-se-á mais fácil.

Se esse alpinista for perseverante e souber vencer os inúmeros obstáculos dessa árdua tarefa, sem desistir como tantos outros fizeram, chegará o momento em que ele transporá a última pedra e encontrar-se-á no topo da montanha. Nessa hora, todas as dificuldades terão ficado para trás, todos os precipícios estarão a seus pés e uma enorme felicidade inundará a sua alma, por ter realizado seu objetivo. Do alpinista terá desabrochado o herói!

Podemos comparar esse herói às almas cristãs que são chamadas por Deus, através do batismo para galgar a sublime montanha da santidade, como alpinistas de si mesmas. Contudo, sabemos que a “santidade, a plenitude da vida cristã, não consiste em realizar empreendimentos extraordinários, mas em unir-se a Cristo, em viver os seus mistérios, em fazer nossas as suas atitudes, pensamentos e comportamentos” (cf. Bento XVI, Audiência Geral, 13/4/2011).

Entretanto, para percorrer esse caminho da santidade e responder ao apelo de Nosso Senhor: “Sede perfeitos, assim como vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5, 48), torna-se necessário ao homem travar uma constante e penosa luta ao longo de toda a sua vida. E qual a explicação para isso?

O homem é considerado um pequeno universo, um microcosmo, pois tem em si a natureza mineral, vegetal, animal, intelectual e sobrenatural. Cada uma dessas naturezas possui leis próprias e muitas vezes contrárias entre si. No Paraíso, pelo dom de integridade, essas leis estavam todas ordenadas e as naturezas inferiores, perfeitamente submetidas às superiores. Com o pecado original o homem perdeu, entre outros, o dom de integridade e todas essas naturezas, com suas leis, passaram a um estado de desordem total: “os desejos da carne se opõem aos do Espírito, e estes aos da carne; pois são contrários uns aos outros” (Gal 5, 17).

Por um lado, Deus, infinitamente Perfeito e Bem-aventurado em si mesmo, em um desígnio de pura bondade, cria livremente o homem para fazê-lo participar de sua vida bem-aventurada. Chama-o e ajuda-o a procurá-lO, a conhecê-lO e a amá-lO com todas as suas forças. Convoca todos os homens, dispersos pelo pecado, para a unidade de sua família, a Igreja. Faz isto por meio de seu Filho, que enviou como Redentor e Salvador quando os tempos se cumpriram. Nele e por Ele, chama os homens a se tornarem, no Espírito Santo, seus filhos adotivos e, portanto, os herdeiros de sua vida bem-aventurada.

E por outro lado, os instintos desregrados sugerem-nos desejos contrários ao nosso fim. Portanto, o grande esforço do homem consiste em dominar o instinto e agir de acordo com a razão iluminada pela fé. Mas não podemos nos esquecer que “uma vida santa não é fruto principalmente do nosso esforço, das nossas ações, porque é Deus, o três vezes Santo (cf. Is 6,3), que nos torna santos, é a ação do Espírito Santo que nos anima a partir de dentro, é a própria vida de Cristo Ressuscitado que nos é comunicada e que nos transforma (cf. Bento XVI, Audiência Geral, 13/4/2011).

Assim, criado por Deus e para Deus, o homem somente encontrará a felicidade em seu Criador, como bem diz Santo Agostinho: “Fizeste-nos para ti, e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em ti”. (1984, p. 15).

Impelidos por esse desejo de Deus e pela sede de infinito que está no coração de cada homem, subamos como um heróico alpinista a sublime montanha da santidade.

O desenvolvimento da vida espiritual

STeresa_dAvilaIrmã Maria Cecília Seraidarian, EP

Em sua Teologia da Perfeição Cristã, o Pe Royo Marín (1968, p 273) salienta que :

Cada alma segue seu próprio caminho rumo à santidade sob a direção e o impulso supremo do Espírito Santo. Não há duas fisionomias inteiramente iguais no corpo nem na alma. Contudo, os mestres da vida espiritual tem tentado diversas classificações atendendo às disposições predominantes das almas, que não deixam de ter sua utilidade ao menos como ponto de referência para precisar o grau aproximado de vida espiritual em que se encontra uma determinada alma. (…)

São três, parece-nos, as principais classificações que foram propostas ao longo de toda a história da espiritualidade cristã: a clássica das três vias: purgativa, iluminativa e unitiva; a do Doutor Angélico, baseada nos três graus de principiantes adiantados e perfeitos; e a de Santa Teresa de Jesus em seu genial Castelo interior ou livro das Moradas.

A obra de Santa Teresa de Jesus, Castelo interior ou Moradas, é tomada como exemplo pela maioria dos autores de vida espiritual, pois explica de modo excelente as fases da vida cristã rumo à santidade, baseando-se nos graus de oração. Esta Doutora da Igreja compara a alma a um castelo e os diversos graus da vida espiritual, aos aposentos desse castelo: “consideremos nossa alma como um castelo, feito de um só diamante ou de limpidíssimo cristal. Neste castelo existem muitos aposentos, assim como no céu há muitas moradas” (1981, p. 19).

Santa Teresa divide o desenvolvimento da vida espiritual em sete moradas:

a) Primeiras Moradas (ibidem, p. 19-37) – considera a beleza de uma alma em estado de graça e lamenta aquelas almas que jamais entram no castelo, ficam ao redor dele, obstinadas no pecado. Afirma ainda que a porta de entrada desse castelo é a oração. Trata da hediondez de uma alma em estado de pecado mortal e da importância da humildade e do conhecimento de si mesmo, através do conhecimento de Deus. Adverte também sobre as artimanhas do demônio para impedir que as almas progridam dessas primeiras moradas para as seguintes. Nesse estágio, as almas desejam não ofender a Deus e praticar boas obras, no entanto, estão ainda absorvidas pelo mundo.

b) Segundas Moradas (ibidem, p. 41-49) – aqui as almas já se preocupam em servir a Deus, fogem das distrações fúteis e buscam uma vida de oração e recolhimento, embora com muitas quedas e falhas. Têm aversão ao pecado mortal, porém, pouco cuidado em evitar as ocasiões. Sofrem por sentirem cada vez mais claro o chamado de Deus e não terem ânimo suficiente para se entregarem inteiramente. Nesta fase, a Santa encoraja-as a não desanimarem diante dos ataques do demônio mas serem humildes e se confiarem à Misericórdia Divina, a fim de perseverarem.

c) Terceiras Moradas (ibidem, p. 53-68) – nestas moradas as almas passam a ter mais oração e recolhimento, evitam os pecados veniais e fazem penitência. Quando são provadas pelo Senhor com securas e aridezes, desanimam porque ainda são débeis. Aconselha a estas almas a fuga das ocasiões e a perseverança na humildade e na oração, sem fazer caso de provações ou de consolações.

d) Quartas Moradas (ibidem, p. 71-95) – é nesta etapa que ocorre a transição da ascética para a mística. As tentações trazem benefícios e são ocasião de mérito. Tem-se o início das orações contemplativas. Santa Teresa ressalta a importância de crescer no amor, condição para progredir às moradas seguintes.

e) Quintas Moradas (ibidem, p. 99-130) – a Santa Doutora descreve longamente a união da alma com Deus na oração contemplativa. A experiência mística é intensificada e aumentam as purificações passivas. As almas experimentam grande amor ao próximo e têm necessidade de muita vigilância para não cair nas sutilezas do demônio.

f) Sextas Moradas (ibidem, p. 133-224) – nesta fase as almas recebem grandes favores e padecem terríveis provações; Deus opera maravilhas naqueles que alcançam estas moradas. O amor a Deus é levado até o esquecimento de si mesmo. Os fenômenos místicos se multiplicam. As almas têm desejo de unir-se intimamente a seu Senhor, abandonando esta vida.

g) Sétimas Moradas (ibidem, p. 227-260) – Perfeição – dá-se o “matrimônio espiritual”, a união transformante em que a alma se faz uma com Deus, sente em si a inabitação da Santíssima Trindade. As almas atingem um estado de paz e tranqüilidade inalteráveis, preocupam-se unicamente com a glória de Deus.

Diante dessa impressionante descrição de Santa Teresa de Jesus, um dos luminares da mística experimental, percebe-se o belo mas árduo caminho a percorrer para alcançar a santidade, uma vez que é preciso arrancar da alma todo o apego às coisas terrenas e o apego a si mesmo para poder seguir a Nosso Senhor Jesus Cristo (Lc 9, 23): “se alguém quer vir após mim, renegue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me” (BÍBLIA SAGRADA, 1996). Sem um constante auxílio de Deus, que com sua graça atrai as almas, sustenta-as e faz avançar nas vias da santidade, não seria possível ao homem chegar à perfeição por suas próprias forças.

O amor do Sagrado Coração de Jesus: fonte de toda santidade

Sagrado Coração de JesusFernanda Cordeiro da Fonseca

Ao percorrermos as palpitantes páginas do Evangelho, que narram os trinta e três anos nos quais a humanidade foi beneficiada pela presença física e adorável de Nosso Senhor Jesus Cristo, nos deparamos com infinitos aspectos e perfeições de Sua Alma Santíssima.

Todavia, neste caleidoscópio de aspectos, pré-figura da visão beatífica, há um que nos atrai de modo particular: a demonstração das afeições e do amor do Divino Mestre pelo discípulo amado, o Apóstolo São João Evangelista.

Em sua juventude, João — cujo nome significa “em quem está a graça” — tornou-se seguidor do Precursor, e esperava ardentemente a vinda do Messias e a libertação do Povo Eleito de seus opressores (WERNER, 2007). Exercia, com dignidade, o ofício de pescador herdado de seu pai no Lago de Genesaré, até o momento em que estando a consertar as redes com Tiago, seu irmão, deu-se um fato que mudaria o rumo de suas existências: Nosso Senhor fitou-os e convidou-os a segui-Lo.

Fieis à graça e entusiasmados por esse Varão, cuja voz e olhar penetraram no mais íntimo das suas almas, não hesitaram e “deixando imediatamente a barca e o pai, seguiram-No” (Mt 4, 22).

A partir desse momento, São João foi incluído no Colégio Apostólico, e de mero pescador de peixes, se transformou em pescador de homens para a Barca de Cristo, que é a Igreja Católica, Apostólica e Romana.

Ele tinha um temperamento forte e impetuoso, que lhe mereceu, juntamente com Tiago, o cognome de Boanerges, ou seja, “Filhos do Trovão” (Mc 3,17). Este caráter veemente de ambos deixou-os, de tal modo indignados ao presenciar a rejeição dos samaritanos à visita de Nosso Senhor, que Lhe indagaram: “ Senhor, queres que mandemos que desça fogo do céu e os consuma? Jesus voltou-se e repreendeu-os severamente. (Lc 9, 54).

Embora os “Filhos do Trovão” desejassem a vingança, segundo Maldonado, este sentimento não era fruto do amor-próprio, mas de um empenho em defender a honra de seu Amado. Ora, se não houve nenhum resquício de culpa nesta demonstração de ardoroso zelo, segundo as perspectivas humanas, por qual motivo os discípulos receberam uma repreensão do Senhor?

Nascidos e educados nos costumes da Antiga Aliança, os irmãos estavam habituados à pena de talião: “olho por olho, dente por dente”, onde reina o princípio de que, se os homens agem mal, merecem imediatamente o proporcionado castigo, sem confiança na misericórdia (CLÁ DIAS, 2010). Contudo, Nosso Senhor eleva a Lei à sua plenitude e ensina um Mandamento novo: “Amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei” (Jo 15, 12).

Por meio desta correção, o Divino Mestre incita-nos a abandonar os critérios antigos e aderir à Lei da caridade. Quanto à São João Evangelista, “sem deixar de se manifestar ardoroso, acrescia-se à sua personalidade aquela doçura que é propriamente o sinal indelével de um seguidor de Cristo” (WERNER, p.23, 2007).

Assim, aos poucos, a alma desse grande apóstolo foi sendo modelada no convívio com a Pessoa de Nosso Senhor. Quanta manifestação de bondade e de amor!

São João esteve presente nos momentos ápices da vida de seu Mestre; contemplando sua glória no Monte Thabor; recostando sua cabeça no Sagrado Coração durante a Santa Ceia, na qual estava tão próximo da fonte de luz, que absorveu dela os mais altos segredos e mistérios para posteriormente derramá-los sobre a Igreja (SANTO AGOSTINHO apud LAGRANGE, 1936), e na agonia de Nosso Senhor, no Horto das Oliveiras.

Entretanto, o auge da benquerença deu-se ao pé da Cruz quando Nosso Senhor ofereceu-lhe o que possuía de mais precioso: Sua Mãe Santíssima.

Foi nesse convívio embebido por um imenso amor ao Mestre que o discípulo amado conformou sua alma com Nosso Senhor. No entanto, a fonte caudalosa, abundante e eficiente desse amor era o próprio Sagrado Coração que lhe dispensava.

Posteriormente, em uma de suas Epístolas, São João explicita: “Não fomos nós que amamos a Cristo, mas Ele que nos amou primeiro.” (1 Jo4, 19).

Ensina-nos São Tomás de Aquino (S.T.I q.20, a.2) que o amor divino se difere do humano, pois é a bondade das coisas ou pessoas, verdadeira ou pressuposta, que move a nossa vontade a amá-las e a desejar-lhes toda espécie de bem sem interesse próprio. O amor de Deus, ao contrário, infunde e cria a bondade nas criaturas, de sorte que só podemos encontrar nelas alguma forma de bem por serem objetos do amor abrangente do Altíssimo.

O Divino Coração abrasa cada um de acordo com sua vontade, mas quando lhe apraz arrebatar uma alma em especial, “abrasa-a em tão sublime grau de amor que a alma sente estar ardendo sobre todos os ardores do mundo.” (CRUZ, p.56, 1999).

Portanto, a fonte da santidade almejada por tantas almas não se encontra no esforço e sacrifícios humanos, mas principalmente no infinito amor de Deus por nós.

Pobre por amar os pobres, mas rico em santidade

Irmã Clara Isabel Morazzani, EP

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São José Benedito Cottolengo

“Tereis sempre pobres entre vós” (Mt 26, 11). São José Cottolengo abraçou avidamente essa preciosa herança deixada por Jesus à sua Igreja e a eles dedicou toda a sua existência.

A santidade não provém de um puro esforço feito pelo homem, mas sim de uma singular graça concedida por Deus. Ora, Jesus, Homem-Deus, sendo o Criador e, ao mesmo tempo, o escrínio de todas as graças, pode e quer dispensá-las a todos que delas necessitem e as desejem. O heroísmo na prática das virtudes, como se pode definir a santidade, é, pois, uma graça participativa dessa maravilhosa plenitude que habita em Nosso Senhor e é liberalmente outorgada por Ele. Um desses privilegiados foi José Benedito Cottolengo, suscitado por Deus na conjuntura dos séculos XVIII e XIX.

Atraído pela compaixão de Jesus para com os pequeninos

Sem deixar de ver a Deus na sua totalidade, cada santo põe um acento todo especial na contemplação de algum aspecto pelo qual é particularmente cativado e convidado a ser reflexo. Em concreto, José Cottolengo sentiu-se atraído pela bondade e compaixão de Jesus em relação aos pequeninos, aos pobres e doentes. Compreendeu em profundidade as riquezas de amor do Coração de um Deus por aqueles a quem denominou como os “menores de meus irmãos” (Mt 25, 40).

No alto da Cruz, o Salvador obteve por seu Sangue a filiação divina e a filiação de Maria para toda a humanidade. Por esta dupla dádiva, tornou-Se Ele mesmo nosso verdadeiro irmão. Quanta união, quanto embricamento de afeto há entre os filhos nascidos de uma mesma família! E, entretanto, esses laços de sangue são apenas pálidas imagens do insuperável amor fraterno que Jesus nutre por todos nós! São José Benedito Cottolengo penetrou nesse mistério e procurou manifestá-lo em sua vida, dedicando-se com total desinteresse àqueles que se acham na orfandade natural e espiritual, aliviando-lhes não só as dores corporais mas também as enfermidades de alma.

Primeiros passos na vocação

José Benedito Cottolengo nasceu em Bra, no Piemonte, em maio de 1786. Desde a infância deu provas de sua vocação, sendo encontrado um dia medindo um dos quartos de sua casa com o objetivo de saber quantas camas caberiam ali para receber doentes.

Terminados os estudos, dos quais saiu-se brilhantemente graças à intercessão de São Tomás de Aquino, foi ordenado sacerdote e mais tarde, em 1818, eleito cônego do cabido de Corpus Domini em Turim.

Em 1827 deu início à sua obra, fundando a “Pequena Casa da Divina Providência”, onde acolheu inúmeros enfermos e abandonados. Para o cuidado destes, criou primeiro um instituto de religiosas chamado “Filhas de São Vicente” e, alguns anos depois, outro, denominado “Irmãos de São Vicente de Paulo”.

Confiança cega na Providência

As dificuldades para a realização de seus desígnios não foram pequenas. Muitos outros dotados de uma fé robusta, mas não cega como a sua, teriam desanimado na metade do caminho. Continuamente achava-se sem recursos e acossado por credores incompreensivos exigindo o pagamento das dívidas. Por outro lado, via crescer todo dia o número de seus protegidos que acorriam à “Pequena Casa”, atraídos, não só pelas necessidades de saúde, mas, sobretudo, pela fama de sua bondade sem limites.

Quem conhecesse a atividade incessante dessa obra, acreditaria ser seu fundador um homem inquieto e preocupado, metido nos assuntos materiais, desejoso de tudo vigiar e governar. Nenhum juízo poderia ser tão falso a seu respeito: São José Benedito era um varão essencialmente contemplativo e desapegado das coisas terrenas. A característica preponderante de sua santidade e de sua missão era a inteira confiança na Divina Providência. Poder-se-ia dizer que toda a sua espiritualidade sintetizava-se nesta frase do Evangelho: “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas por acréscimo” (Mt 6, 33).

Com freqüência costumava dizer aos seus: “Estai certos de que a Divina Providência nunca falta; poderão faltar as famílias, os homens, mas a Providência não nos faltará. Isso é de fé. Portanto, se em alguma ocasião faltar algo, isso só poderá ser atribuído à nossa falta de confiança. É necessário confiar sempre em Deus; e, se Deus responde com sua Divina Providência à confiança ordinária, proverá extraordinariamente a quem extraordinariamente confiar”.

“Por que vos inquietais por tão pouco?”

Uma fé assim levada a grau tão heróico só poderia obter resultados miraculosos, e estes foram abundantes ao longo da existência de nosso santo. Em certa ocasião, a religiosa encarregada da cozinha veio anunciar-lhe:
— Nada resta de farinha na casa… Amanhã não haverá pão para alimentar os indigentes!

— Por que vos inquietais por tão pouco? Bem vedes como a chuva cai às torrentes e é impossível mandar alguém sair neste momento — respondeu ele.

A boa irmã, que não atingira na perfeição aquele santo abandono de seu Fundador, retirou-se muito descontente com a resposta. Alguns instantes depois, Cottolengo entrou no refeitório e — imaginando-se só, sem desconfiar que outra irmã o espiava pelo buraco da fechadura — ajoelhou-se diante da imagem da Santíssima Virgem e orou fervorosamente com os braços em cruz.

Passaram-se apenas alguns minutos e um homem, conduzindo uma carroça, apresentou-se à porta do estabelecimento. Sem querer informar de onde vinha nem por quem fora enviado, declarou ter o encargo de depositar na “Pequena Casa” toda a farinha que trazia em seu veículo. As freiras logo acorreram, alvoroçadas, para contar tudo ao santo cônego. Este acolheu a notícia sem manifestar a menor surpresa e tranqüilamente lhes deu ordem de fazer o pão.

O dinheiro apareceu no bolso

Em outra ocasião, São José Benedito viu-se diante de uma situação ainda mais apertada. Um de seus credores chegou a ameaçá-lo de morte caso não lhe pagasse a dívida naquele mesmo instante. Ele desculpou-se, pediu-lhe para ter um pouco mais de paciência, prometendo fazê-lo tão logo fosse possível. Mas o homem mostrou-se inflexível e, sem mais, tirou de dentro de sua vestimenta uma arma com a qual se dispunha a acabar com a vida do santo. Num gesto maquinal, este levou a mão ao bolso e, para sua grande surpresa, encontrou um rolo contendo exatamente a soma reclamada. Entregou-a logo ao credor e este partiu dali confuso por sua atitude violenta, e impressionado diante do milagre e do exemplo de serena confiança que acabava de presenciar.

Abandono à vontade de Deus

Seu desejo de fazer o bem a todos quantos dele se aproximavam não conhecia restrições nem obstáculos: chegava ao extremo de prodigalizar os cuidados mais humildes aos doentes e de entrar nos jogos dos débeis mentais, com o intuito de distraí-los. Não considerava isto uma humilhação, pois analisava tudo com vistas sobrenaturais, sabendo que o importante não está em fazer grandes obras ou realizar prodígios estupendos, mas sim em ser aos olhos de Deus aquilo que Ele quer de nós. Dessa elevada concepção da vida, que impregnava todos os seus atos, decorria o alegre desprendimento com o qual se abandonava à vontade de Deus, repetindo sempre: “Por que ficais angustiados pelo dia de amanhã? A Providência não pensará nisso, pois já pensastes vós. Não arruineis, portanto a sua obra e deixai-a agir. Embora nos seja permitido pedir um bem temporal determinado, entretanto, quanto ao que a mim se refere, temeria cometer uma falta se pedisse algo nesse sentido”.

Em 1842 faleceu José Benedito Cottolengo. Durante sua permanência neste mundo, os anseios de seu coração e a vida de sua alma estiveram voltados unicamente para a glória de Deus. Por isso deixou atrás de si uma obra monumental de Caridade para com próximo, que hoje está presente em quatro continentes, como prova irrefutável da veracidade da promessa de Jesus Cristo. Ele só procurara o Reino de Deus e sua justiça, Nosso Senhor lhe concedera tudo por acréscimo.

Um lugar de honra lhe está reservado entre os cordeiros da direita naquele dia supremo, quando o justo Juiz dirá: “Vinde, benditos de meu Pai! Recebei como herança o Reino que meu Pai vos preparou desde a criação do mundo! Pois Eu estava com fome e Me destes de comer; estava com sede e Me destes de beber; era estrangeiro e Me recebestes em casa; estava nu e Me vestistes; estava doente e cuidastes de Mim; estava n prisão e fostes Me visitar (,..)

Em verdade Eu vos digo que todas as vezes que fizestes isso a um dos menores de meus irmãos, foi a Mim que o fizestes!” (Mt 25,34-36 e 40)

Cluny: a força suave e irresistível da santidade

Irmã Clara Isabel Morazzani, EP

Numa época de crises que dominavam a sociedade temporal e ameaçavam derrubar o edifício sagrado da sociedade espiritual, ergueu-se do silêncio contemplativo dos claustros beneditinos um sopro renovador que conquistou a Europa inteira: o movimento reformador de Cluny.
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Século de guerras e rivalidades pessoais

O alvorecer do século X despontava nebuloso e indefinível. As luzes do império carolíngio haviam-se enfraquecido, cedendo lugar a um contínuo vaivém de dissensões e guerras que minavam a estrutura e a ordenação social iniciadas sob o impulso de Carlos Magno. Senhores, barões e príncipes digladiavam-se constantemente entre si, em defesa de seus interesses pessoais ou movidos por alguma obscura rivalidade.

E havia pior: a crise espalhara-se para além das fronteiras temporais, penetrando também no âmbito religioso. Dois males atingiam de modo especial a Igreja nesse século: o tráfico de cargos e dignidades eclesiásticas, conhecido pelo nome de simonia; e o nicolaísmo, palavra pela qual se designava o relaxamento de costumes dos clérigos.

Dentro dos próprios mosteiros a situação revelava-se difícil: estes, em geral, localizavam-se em territórios pertencentes a nobres que os consideravam patrimônio seu, intervindo nos assuntos da comunidade e reservando-se o direito de nomear o abade. Ora, freqüentemente a escolha por eles feita elevava a um cargo de importância homens desprovidos de aptidão e virtude para desempenhá-lo. Pode-se deduzir a decadência da disciplina regular, bem como as catástrofes daí decorrentes. Tais abusos acarretariam mais tarde conseqüências desastrosas, desembocando na célebre Querela das Investiduras.

Um sopro de renovação que cobriu a Europa

A Divina Providência, entretanto, não tardaria em suscitar a solução para esses e outros problemas da época, fazendo surgir de dentro do próprio monaquismo decadente um sopro de renovação que cobriria a Europa inteira.

Em 910, Guilherme o Piedoso, Duque da Aquitânia, atendendo ao pedido de Bernon, abade de Baume, doou uma terra situada em seu feudo de Mâcon, para a fundação de um novo mosteiro. A propriedade, uma pequena aldeia rodeada de bosques, levava um nome destinado a marcar os céus da História: Cluny ou Cluniacum. A abadia estaria isenta de qualquer jurisdição civil e eclesiástica, diretamente ligada à Cátedra de Pedro, tendo como protetores os Apóstolos Pedro e Paulo.

Desde seus primórdios, São Bernon nela implantou uma fervorosa observância beneditina, inculcando em seus seguidores os ideais da vida monástica: oração, pobreza, silêncio. Seu intuito era estabelecer ali um centro de contemplação, separado dos tumultos mundanos, no qual se cumprisse com rigorosa fidelidade a primitiva regra de São Bento e, ao mesmo tempo, fosse capaz de influir sobre a sociedade de maneira a renová-la.

Em pouco tempo Cluny transformou-se num mosteiro modelo para onde afluíam homens de escol que aspiravam à santidade. Os “monges negros” — assim chamados pela cor de seu hábito — adquiriram um prestígio considerável, a ponto de lhes ser confiada a fundação ou reforma de inúmeros mosteiros os quais passavam a ser afiliados à abadia de Cluny.

Na origem do sucesso, a santidade

Entretanto, o grande segredo de seu sucesso e da rápida ascensão com que se projetou pela Cristandade não repousava sobre o privilégio de sua dependência direta da Igreja de Roma, pois já muitos outros monastérios gozavam dessa prerrogativa sem haver obtido os mesmos resultados; também não podia atribuir-se unicamente à exatidão dos monges no cumprimento da estrita regra que viria a ser o ordo cluniacensis. A causa profunda da preeminência de Cluny foi a de ter à sua frente, durante dois séculos, homens excepcionais por sua têmpera, cultura e capacidade organizativa, e, sobretudo, todos animados por um mesmo espírito de perfeição, verdadeiros santos: São Bernon, Santo Odon, São Maïeul, Santo Odilon e Santo Hugo. Cada um a seu modo, segundo seus dons pessoais, trabalhou para levar essa grandiosa obra ao píncaro do esplendor.

Foi Santo Odon quem instalou definitivamente a reforma e plasmou as características essenciais do que poderia chamar-se o “carisma cluniacense”. Seu zelo pela glória de Deus movia-o a peregrinar de mosteiro em mosteiro, montado em um jumento, à procura de monges fervorosos que o ajudassem a pôr em marcha seu plano reformador. A fama de santidade deste grande asceta abria os caminhos e derrubava os obstáculos, facilitando o crescimento da nova rede monástica.

São Maïeul seguiu fielmente a linha de seus predecessores, acrescentando, porém, uma nota especial de suavidade e encanto que lhe conquistou a simpatia e admiração dos papas e dos monarcas. Seus contemporâneos descrevem a doçura de seu olhar, a elegância de seus gestos e a eloqüência de seus discursos, de tal modo que parecia ser “o mais belo de todos os mortais”. Pode-se medir o alcance da influência que exercia sobre os religiosos uma personalidade como a sua, continuamente apontando para as pulcritudes divinas.

Seu sucessor, Santo Odilon, diferia em temperamento, mas não em vocação. Seus olhos chamejantes revelavam um caráter vivo e enérgico. Severo para consigo e bondoso para com seus filhos, mereceu o título de “Arcanjo dos monges”. Seu ardor apostólico e os portentosos milagres por ele realizados contribuíram largamente para a expansão da obra cluniacense pelo resto da Europa.

Mas foi no tempo de Santo Hugo que Cluny alcançou seu apogeu, ao iniciar a construção da imensa basílica de cinco naves e sete torres, a maior de todo o Ocidente naqueles remotos séculos, e cujo altar-mor foi consagrado pelo Papa Urbano II, também ele cluniacense, por ocasião de sua viagem à França em 1095. Hugo de Semur distinguiu-se sobretudo pela virtude da caridade. Conta-se que certa vez dois cavaleiros vieram bater à porta do mosteiro, fazendo apelo ao direito de asilo, que punha ao abrigo da justiça humana qualquer criminoso refugiado em um recinto sagrado. O porteiro reconheceu com horror os assassinos do pai e do irmão do santo abade e correu para referir-lhe a situação. “Deixe-os entrar”, foi a resposta pronunciada com mansidão. E assim os criminosos foram salvos.

Os santos cluniacenses estão na origem de várias festas e memórias que hoje figuram no Calendário Romano. Santo Odilon instituiu em 2 de novembro a comemoração dos fiéis defuntos e promoveu amplamente as preces feitas em sufrágio das almas do Purgatório.

A devoção à Santíssima Virgem recebeu um grande impulso pelo apostolado de Cluny. Santo Hugo determinou que quando não ocorresse uma festa inamovível no sábado, em todos os mosteiros dependentes de Cluny se cantasse nesse dia o Ofício e a Missa de Beata, especialmente compostos em louvor da Mãe de Deus. E Urbano II mandou acrescentar ao Ofício Divino, neste dia da semana, o Pequeno Ofício de Nossa Senhora.

Embaixadores do Céu
0189 Cluny - Clocher de l'Eau Bénite - Tour de l'Horloge
Em Cluny a vida transcorre suave e calma. A Regra é vivida em toda a sua austeridade e simplicidade. O dia divide-se minuciosamente entre oração e trabalho manual, mas este tende a restringir-se cada vez mais, enquanto aumentam as horas dedicadas ao Ofício Divino. A espiritualidade cluniacense considera toda a magnificência, luxo ou beleza como coisas insuficientes para honrar a Deus: sua atividade organiza-se em função de uma perpétua cerimônia na qual os ornamentos do altar e do santuário, a harmonia musical e a disciplina dos ritos prefigurem as glórias da pátria celeste.

Sem esquecer as agruras e sacrifícios deste vale de lágrimas, o cluniacense procura tornar realidade a súplica tantas vezes repetida no Pai-Nosso: “Venha a nós o vosso reino, seja feita a vossa vontade assim na terra como no Céu”. Dessa enlevada visão do universo florescem naturalmente, como de uma fonte de água viva, as artes da pintura e da escultura, requinta-se a maravilha policromada dos vitrais e dá-se mais importância à Liturgia e ao canto gregoriano. Já desde a madrugada, os primeiros raios da aurora filtram- se através das rosáceas, inundando a igreja numa féerie de cores enquanto as vozes dos monges, unidas aos coros dos anjos, ecoam pelas altas abóbadas em louvor ao Pai das misericórdias e Deus de toda consolação.

Da mesma forma como o ambiente onde ele habita assemelha-se ao Paraíso, o monge deve buscar sempre a perfeição, procurando refletir, por meio da prudência de suas palavras e da nobreza de suas atitudes, o próprio Deus que é a Beleza Absoluta. Considerado enquanto indivíduo, o monge é nada e nada possui, mas, na sua coletividade face ao mundo exterior, tem a consciência de ser um embaixador do Céu. Voluntariamente submetido a uma obediência rígida, ele reconhece na voz de seus superiores os desígnios do Senhor e executa-os com humildade, sabendo-se servo inútil. A regra da castidade é observada com rigor, levando em conta que é na prática dessa virtude angélica que o religioso haure a seiva de sua vida espiritual. No silêncio, na contemplação e no cerimonial o monge passa os momentos mais felizes de sua existência, à espera das alegrias que gozará na eternidade.

Assim, sob o olhar sábio e vigilante dos mestres, vai-se formando uma nova milícia cristã, constituída de heróis, mais anjos que homens, cuja estrutura hierarquizada culmina na pessoa venerável do abade.

Pelo exemplo de suas vidas, eles conquistaram a Europa

A obra realizada por Cluny representa na História um papel de capital importância. Sua ascensão fulgurante e sua benéfica influência permitiram-lhe levar por toda parte o fermento evangélico que mais tarde produziu abundantes frutos de santidade. O solo do Velho Continente, calcado outrora pela marcha dos exércitos romanos, sentiu-se então sacudido por uma força irresistível que suscitou na sociedade um fenômeno contagiante, renovando todos os degraus da escala humana. Ela não impôs aos homens o pesado tributo dos césares, mas levou-lhes um convite: “Aceitem o suave jugo de Cristo”. Sem recorrer à violência das armas, os cluniacenses conquistaram o Ocidente pelo exemplo de suas vidas: penetraram nas cortes dos reis, nos palácios dos bispos, nos castelos dos nobres, nas aldeias da plebe… e mais: sobre o sólio de Pedro sentaram-se filhos dessa família espiritual, como o foram São Gregório VII e o Bem-Aventurado Urbano II.

Na raiz das solenes liturgias, das grandiosas catedrais, das harmonias do órgão, do aroma do incenso e de tudo quanto de belo nos legou o passado cristão, vemos em larga medida o trabalho feito por esses homens que só buscavam a Deus e que souberam encontrá-Lo.