O amor do Sagrado Coração de Jesus: fonte de toda santidade

Sagrado Coração de JesusFernanda Cordeiro da Fonseca

Ao percorrermos as palpitantes páginas do Evangelho, que narram os trinta e três anos nos quais a humanidade foi beneficiada pela presença física e adorável de Nosso Senhor Jesus Cristo, nos deparamos com infinitos aspectos e perfeições de Sua Alma Santíssima.

Todavia, neste caleidoscópio de aspectos, pré-figura da visão beatífica, há um que nos atrai de modo particular: a demonstração das afeições e do amor do Divino Mestre pelo discípulo amado, o Apóstolo São João Evangelista.

Em sua juventude, João — cujo nome significa “em quem está a graça” — tornou-se seguidor do Precursor, e esperava ardentemente a vinda do Messias e a libertação do Povo Eleito de seus opressores (WERNER, 2007). Exercia, com dignidade, o ofício de pescador herdado de seu pai no Lago de Genesaré, até o momento em que estando a consertar as redes com Tiago, seu irmão, deu-se um fato que mudaria o rumo de suas existências: Nosso Senhor fitou-os e convidou-os a segui-Lo.

Fieis à graça e entusiasmados por esse Varão, cuja voz e olhar penetraram no mais íntimo das suas almas, não hesitaram e “deixando imediatamente a barca e o pai, seguiram-No” (Mt 4, 22).

A partir desse momento, São João foi incluído no Colégio Apostólico, e de mero pescador de peixes, se transformou em pescador de homens para a Barca de Cristo, que é a Igreja Católica, Apostólica e Romana.

Ele tinha um temperamento forte e impetuoso, que lhe mereceu, juntamente com Tiago, o cognome de Boanerges, ou seja, “Filhos do Trovão” (Mc 3,17). Este caráter veemente de ambos deixou-os, de tal modo indignados ao presenciar a rejeição dos samaritanos à visita de Nosso Senhor, que Lhe indagaram: “ Senhor, queres que mandemos que desça fogo do céu e os consuma? Jesus voltou-se e repreendeu-os severamente. (Lc 9, 54).

Embora os “Filhos do Trovão” desejassem a vingança, segundo Maldonado, este sentimento não era fruto do amor-próprio, mas de um empenho em defender a honra de seu Amado. Ora, se não houve nenhum resquício de culpa nesta demonstração de ardoroso zelo, segundo as perspectivas humanas, por qual motivo os discípulos receberam uma repreensão do Senhor?

Nascidos e educados nos costumes da Antiga Aliança, os irmãos estavam habituados à pena de talião: “olho por olho, dente por dente”, onde reina o princípio de que, se os homens agem mal, merecem imediatamente o proporcionado castigo, sem confiança na misericórdia (CLÁ DIAS, 2010). Contudo, Nosso Senhor eleva a Lei à sua plenitude e ensina um Mandamento novo: “Amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei” (Jo 15, 12).

Por meio desta correção, o Divino Mestre incita-nos a abandonar os critérios antigos e aderir à Lei da caridade. Quanto à São João Evangelista, “sem deixar de se manifestar ardoroso, acrescia-se à sua personalidade aquela doçura que é propriamente o sinal indelével de um seguidor de Cristo” (WERNER, p.23, 2007).

Assim, aos poucos, a alma desse grande apóstolo foi sendo modelada no convívio com a Pessoa de Nosso Senhor. Quanta manifestação de bondade e de amor!

São João esteve presente nos momentos ápices da vida de seu Mestre; contemplando sua glória no Monte Thabor; recostando sua cabeça no Sagrado Coração durante a Santa Ceia, na qual estava tão próximo da fonte de luz, que absorveu dela os mais altos segredos e mistérios para posteriormente derramá-los sobre a Igreja (SANTO AGOSTINHO apud LAGRANGE, 1936), e na agonia de Nosso Senhor, no Horto das Oliveiras.

Entretanto, o auge da benquerença deu-se ao pé da Cruz quando Nosso Senhor ofereceu-lhe o que possuía de mais precioso: Sua Mãe Santíssima.

Foi nesse convívio embebido por um imenso amor ao Mestre que o discípulo amado conformou sua alma com Nosso Senhor. No entanto, a fonte caudalosa, abundante e eficiente desse amor era o próprio Sagrado Coração que lhe dispensava.

Posteriormente, em uma de suas Epístolas, São João explicita: “Não fomos nós que amamos a Cristo, mas Ele que nos amou primeiro.” (1 Jo4, 19).

Ensina-nos São Tomás de Aquino (S.T.I q.20, a.2) que o amor divino se difere do humano, pois é a bondade das coisas ou pessoas, verdadeira ou pressuposta, que move a nossa vontade a amá-las e a desejar-lhes toda espécie de bem sem interesse próprio. O amor de Deus, ao contrário, infunde e cria a bondade nas criaturas, de sorte que só podemos encontrar nelas alguma forma de bem por serem objetos do amor abrangente do Altíssimo.

O Divino Coração abrasa cada um de acordo com sua vontade, mas quando lhe apraz arrebatar uma alma em especial, “abrasa-a em tão sublime grau de amor que a alma sente estar ardendo sobre todos os ardores do mundo.” (CRUZ, p.56, 1999).

Portanto, a fonte da santidade almejada por tantas almas não se encontra no esforço e sacrifícios humanos, mas principalmente no infinito amor de Deus por nós.

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