Livrai-nos do mal

María Alejandra Acevedo Sánchez

Numa tarde, encontrava-se São João Bosco, que tinha profundo conhecimento das almas, percorrendo as avenidas da sua cidade natal, com o objetivo de conquistar almas para Deus. Eis que, naquele instante, avista, do outro lado da rua, um rapaz que sofria fortes tentações, pois estava sendo atormentado por uma multidão de demônios.

 De repente, o santo vê ao longe um outro menino que se aproxima do rapaz. Chegando ao seu encontro, todos os demônios que ali atormentavam o jovem fogem imediatamente. Ao contemplar esta cena, o homem de Deus se pergunta:

 — Que menino misterioso! Quem poderá ser, pois conseguiu enxotar todos os demônios! Será por acaso o Menino Jesus ou o Anjo da Guarda do pobre rapaz?

Talvez o leitor tenha pensado em idênticas perguntas.

 Nesse mesmo momento, aparece ao justo sacerdote o seu Anjo Custódio, que lhe pergunta:

— Gostarias de saber quem é aquele menino que conseguiu afugentar o esquadrão de demônios? Obtendo uma resposta afirmativa, o Anjo prossegue:

— Aquele menino é uma má amizade, que equivale a toda aquela presença diabólica. Assim, os demônios, ao verem o menino mau se aproximar, partiram tranquilos, sabendo que aquela amizade valia pelo trabalho de todos eles.

É o caso de dizer: “ Diz-me com que andas e dir-te-ei quem és”!

 

Onde está o pulchrum?

Ir Denise Maria Paschoal Rocha, EP

3º ano de Ciências religiosas

Deus é a fonte da pulcritude e não pode criar seres contrários a Si. Portanto, todas as criaturas têm algum aspecto pelo qual refletem a beleza d’Ele.

Em tese, essa afirmação é facilmente aceita. Mas, se a aplicarmos a algo concreto, não será tão simples assim… Por exemplo, quem ousaria responder a esta questão que Plinio Corrêa de Oliveira levantou certa vez: onde está a pulcritude da barata?

Difícil, não é? Para alguns, causará até certo mal-estar só o fato de pensar nesse inseto… Mas Dr. Plinio, com seu perfeito senso de justiça, sabia dar a cada ser o devido valor. Assim, ao responder à referida questão, ele disse que a pulcritude da barata está na casca dela, no seu marrom furta-cor que até parece um verniz. Além disso, embora seja um inseto insignificante, ela é superior a uma pedra preciosa, pois possui vida e a pedra não. Tem, portanto, uma pulcritude ontológico-metafisica em algo superior a uma joia.

A paz que o mundo ignora

Ir. Lucía Ordóñez Cebolla, EP

Encontrava-se um cartuxo, certa vez, cavando no exterior do seu convento quando, inesperadamente, deparou-se com um vulto. Era o corpo de um monge ali enterrado fazia muito tempo, mas que se conservava incorrupto, como se estivesse vivo, a ponto de haver jorrado sangue fresco dele quando o irmão bateu-lhe com sua pá. Cheio de emoção, o religioso correu para comunicar o milagre ao padre superior, o qual, sem perder a serenidade, lhe disse: “Voltai a fechar a cova”.

Tal episódio, que chegou até nós conservando o anonimato de seus protagonistas, bem poderia ter-se dado na Cartuxa onde faleceu seu santo fundador – o Êremo de Santa Maria da Torre, na Calábria -, pois faz parte da regra serem enterrados sem mais caixão do que seu próprio hábito e sem mais epitáfio do que uma cruz.

Esta ordem religiosa, fundada por São Bruno em 15 de agosto de 1084, atravessou os séculos sem sofrer mudança nos seus estatutos: “numquam reformata quia numquam deformata – nunca foi reformada, porque nunca foi deformada”.2 Até hoje, seus conventos brilham por uma mesma forma de vida contemplativa, na qual a austeridade da penitência, o silêncio, o trabalho manual e a oração comunitária se fundem, transformando a vida dos seus integrantes num holocausto de agradável perfume que se evola até Deus.

O local onde São Bruno viveu seus últimos anos encontra-se numa região montanhosa, regada por rios e pequenos lagos. Em certas estações do ano, a neblina e o frio realçam e enaltecem o envolvente mistério do lugar. Dificilmente se encontram no mundo paragens como esta, onde a vontade de voltar o espírito a Deus em oração desponte de maneira tão intensa e profunda. Nos seus jardins há, sem dúvida, uma discreta ação do Espírito Santo, convidando-nos a elevar a mente rumo às montanhas eternas.

Entretanto, longe de destacar-se do resto da Igreja militante, a Cartuxa da Serra de São Bruno, embebida sobremaneira do carisma de seu fundador, rege a vida da cidadezinha que a circunda, visto que, embora radical no seu afastamento do mundo, a ordem impregna com sua sacralidade os que por ela se deixam influenciar.

– É a primeira vez que estais vindo? – perguntou-nos um ­montanhês da região – Pois voltareis, porque São Bruno atrai, ele vos puxa!

E assim foi. Apenas alguns minutos de passeio pelos bosques que circundam o mosteiro bastaram para descobrir quanto pode falar o silêncio sem precisar de palavras e quanto a solidão leva a conviver com o próprio Deus. Neste ambiente pervadido de graças, até o rigor do trabalho e da penitência se dulcifica no contato com o mundo sobrenatural, incomparavelmente superior àquele que apalpamos.

Depois de haver conhecido esta Cartuxa, pudemos compreender melhor as palavras proferidas pelo Divino Mestre: “Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada” (Lc 10, 42)… As almas que se deixam arrebatar pela contemplação “são a mola oculta, o motor que dá impulso, nesta Terra, a tudo ­quanto diz respeito à glória de Deus, ao Reino de seu Filho e ao cumprimento perfeito da vontade divina”.

Uma lápide do museu da Certosa di Santo Stefano, pertencente ao mesmo complexo religioso, resume tudo o que ali se experimenta, numa belíssima frase de São Bruno: “Aqui, pela fadiga do combate, Deus dá aos seus atletas a desejada recompensa, isto é, a paz que o mundo ignora e a alegria no Espírito Santo”.

Revista Arautos do Evangelho, Março 2016

Quando Deus conduz um homem…

Ir. Maria Beatriz Ribeiro Matos, EP

3ª ano de Ciências Religiosas

Belo erguia-se o castelo de Kerlois, da família Keriolet, de elevada linhagem da Bretanha. Nascido o único filho varão em 1602, o horizonte familiar começa a se toldar, pois o menino, chamado Pierre, logo se revelou indisciplinado e desobediente.

Mandaram-no para ser educado com os jesuítas. Ali sua diversão era roubar o chapéu e o manto dos alunos e debicar dos sacerdotes. Seus pais, aflitos, tentavam reconduzi-lo ao bom caminho, ora com castigos, ora com afagos. Tudo se mostrava inútil! Despediram-no de casa.

Errante, pobre e orgulhoso, Pierre foi parar na rua. Entretanto, quando soube da morte do pai, exultou de alegria: estava rico! Voltando ao castelo, esbanjava seus bens numa vida dissoluta, e nada o amedrontava. Nem mesmo os vários avisos recebidos da Providência.

Numa noite de tempestade, Pierre dormia quando um raio atingiu sua cama: a metade em que ele estava ficou intacta e a outra em chamas. Irado, ele apanhou a pistola e atirou para o Céu, em desafio a Deus que se “atrevia” a ameaçá-lo.

Certo dia, foi a uma cidade vizinha com uns amigos para se divertir. No caminho, foram assaltados e espancados. Ficando gravemente ferido, ele fez uma promessa a Nossa Senhora de Liesse: visitaria seu santuário se não morresse. Passado o perigo, foi-se a piedade de Pierre. Apenas rezava todos os dias três Ave- Marias, sem saber por que o fazia…

Em outra ocasião, sonhou que descia uma rampa vertiginosa, ouvindo risos estridentes, blasfêmias e zombarias, cada vez mais próximas: estava no inferno. Assustado, despertou, decidido a mudar de vida, e ingressou na Cartuxa… onde morou oito dias!

De volta ao século, a vida de antes não o contentava mais e tornou-se ainda pior. Até que soube das ursulinas de Loudun — caso famoso em toda a França —, que, sem culpa própria, ficaram possuídas pelo Maligno. Quanto mais elevado fosse o posto da religiosa na hierarquia conventual, mais demônios tinha no corpo. Já havia alguns meses que se faziam contínuos exorcismos.

Todas as pessoas receavam acercar-se da cidade, Pierre quis mostrar sua bravura e, por orgulho, para lá se dirigiu. Ao deparar-se com a capela do mosteiro, decidiu entrar: viu uma religiosa debatendo-se no chão e vociferando, não obstante as ordens do exorcista. O jovem julgou ser este um espetáculo atraente e divertido, e sentou-se no fundo da igreja. A possessa voltou-se para ele e disse:

— Oh, meu amigo, que fazes aqui?

Ante o assombro dos assistentes, Pierre não se espantou:

— Vim para meus afazeres…

— Sim, para teus afazeres — respondeu o demônio num tom

sarcástico — Tu nem sabes o que estás fazendo!

Pierre gostou desta primeira experiência e se propôs voltar. Por nove dias nada de extraordinário aconteceu. No décimo dia, entretanto, como o demônio não saía, o padre lhe perguntou:

— Por que te recusas a sair?

— É porque Ela não me dá permissão, até que aquele homem se converta!

A possessa voltou-se e apontou para Pierre que, desta vez, ficou terrificado!

O demônio pôs-se a blasfemar e a acusar a justiça de Deus, por ter Ele condenado tantos anjos por um só pecado e por querer perdoar aquele homem abominável:

— Ó miserável, eu julgava possuir-te e te levava ao inferno, até que fizeste a Nossa Senhora de Liesse aquele voto que nunca chegaste a cumprir. Ingrato e indigno das prodigalidades desta Virgem! Blasfemador e ateu! É possível que tal homem receba misericórdia? Ó injustiça divina!

Pierre estava vencido. Arrependeu-se no mesmo momento e fez uma confissão pública. No outro dia; prosternado na igreja, expiando seus pecados, Pierre viu começar novo exorcismo. O demônio, furioso por tal perda, não se continha:

— Ele está em tal estado que, se continua assim, estará tão alto no Céu como esteve fundo no inferno conosco.

— Quem trabalha tão poderosamente para sua salvação? — perguntou o sacerdote.

— É a Virgem Maria, a grande amiga deste homem! — respondeu o demônio.

Pierre passou a ser ardente devoto de sua Benfeitora e foi ordenado sacerdote por vontade expressa d’Ela, tornando-se ele próprio exorcista, pelo que o demônio sempre esbravejava por obedecer a quem antes lhe servira. Em seu túmulo, uma frase resume sua vida: “Aqui jaz Pierre de Keriolet, conquista de Maria. Ela o tornou seu fiel e zeloso servidor”.

“Já não sou eu que vivo”

Ir. Maria Teresa Ribeiro Matos, EP

O confessor, que muito conhecia e admirava Catarina, não sabia o que pensar sobre o que esta dizia em sua última confissão. No princípio, achava tratar-se simplesmente de um exagero de expressão, próprio à nacionalidade de ambos, mas a santa de Siena continuava de modo sério:

— É verdade, Padre. Posso dizer que estou privada de meu coração. O Senhor me apareceu, abriu-me o peito do lado esquerdo, e o levou consigo.

Tentou então o Padre dissuadi-la, dizendo ser impossível continuar viva sem tal órgão. Ela, porém, retrucava dizendo que para Deus nada é impossível, e que estava convencida de não possuir mais o coração.

De fato, tempos antes, em um dia no qual a santa rezava com grande fervor o salmo de Davi: “Ó meu Deus, criai em mim um coração puro, e renovai-me o espírito de firmeza”, (Sl 50, 12) lhe havia parecido o Divino Mestre, e, tendo aberto o peito dela, tirou-lhe o coração. Daí fazer tal afirmação com tanta certeza.

E, assim, viveu sem o órgão vital durante certo tempo. Um dia, porém, estava ela na capela da Igreja dos frades pregadores, onde costumavam reunir-se as irmãs da Penitência de São Domingos. Terminada as orações, todas se retiraram. Catarina, contudo, ficou sozinha rezando. Quando já ia sair, uma forte luz a envolveu, e lhe apareceu o Senhor, tendo nas mãos um coração humano resplandecente. O Redentor se aproximou dela, abriu-lhe o peito e disse:

— Caríssima filha, como no outro dia tomei teu coração, dou-te pois agora o meu.

Catarina tomada de uma grande alegria sentia em seu interior as palavras de São Paulo: “Eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim” (Gl, 2, 20).

E no seu peito ficou para sempre a cicatriz da sublime ferida. 1

1 Cf. UNDSET, Sigrid. Santa Catarina de Siena. Trad. Maria Helena Amoroso Lima Senise. Rio de Janeiro: Agir, 1956, p. 91.

Os nossos maiores benfeitores

Ir Clotilde Neuburger, EP

No primeiro dia da criação, Deus fez a luz. Certamente este trecho não se refere à luz material, pois esta seria criada no quarto dia. Do que se trata, então? Como ensina São Tomás de Aquino, esta seria uma outra “luz” imensamente superior: a formação da criatura espiritual, os Anjos.

Apesar de muito se ouvir falar deles, nem todos têm um exato conhecimento da finalidade para qual eles foram criados. E, com relação a nós, humanos, em que nos ajudam e favorecem?

Todas as criaturas de Deus, sejam Anjos, homens, animais ou seres inanimados, têm relação entre si, porém, mais especialmente os Anjos para com os homens. Na verdade, ao criá-los, Deus não teve em vista somente a Sua glória extrínseca. Em Sua infinita Providência, outorgou-lhes todo o governo sobre estes mesmos homens, para ajudá-los neste vale de lágrimas e guiá-los em seu percurso rumo à eternidade.

Tanto é assim que, segundo afirma Santo Agostinho, não podemos considerar duas sociedades separadas, uma dos Anjos e outra dos homens, pois se assim fosse, estes nada teriam a ver com aqueles, e vice-versa.

Anjos e homens formam uma só sociedade, que se entrelaça e se inter-relaciona. Mons João Clá Dias comenta que “os Anjos são muito mais exemplos para os homens do que os próprios homens são exemplos para outros homens.”

Mas nesta nossa relação com os Anjos, quais são os benefícios que eles nos trazem? Os teólogos costumam reduzi-los a doze:

  1. Repreendem nossas faltas.

Muitas vezes, quando sentimos uma dor de consciência por termos feito algo de errado, é um anjo que nos está admoestando.

  1. Ajudam a nos livrar do pecado.
  2. Afastam os obstáculos que atrapalham nosso progresso espiritual.

Eles nos amparam e nos dão forças para evitar certas ocasiões e más companhias que impedem nosso progresso.

  1. Fazem-nos evitar as tentações.
  2. Instruem-nos.

Eles iluminam nossa inteligência e fortalecem nossa vontade para praticarmos o bem e a virtude, afastando-nos do caminho do mal.

  1. Revelam-nos, ocasionalmente, segredos.

Por exemplo: Podemos sentir, dentro de nós, uma inspiração para rezarmos por alguém que está passando por dificuldades. É o Anjo revelando-nos que aquela pessoa está necessitando de orações.

  1. Consolam-nos.

Às vezes estamos em uma situação de grande provação e, de repente, sentimos dentro da alma uma consolação. São os Anjos.

  1. Fortalecem-nos.
  2. Guiam-nos à Pátria Celeste.
  3. Expulsam e vencem nossos inimigos.

Os Anjos, quando se aproximam de nós, fazem com que os demônios fujam espavoridos.

  1. Suavizam as tentações.
  2. Rezam por nós e apoiam as nossas orações.

Inúmeras vezes fazemos uma oração sem grande valor e obtemos um resultado enorme. Não nos enganemos! São os Anjos que se uniram às nossas orações, dando-lhes força.

Assim, chegamos à seguinte conclusão: o fato de termos recebido de Deus um Anjo da Guarda pessoal é um presente incomparável. Devemos ter para com ele uma amizade pessoal, que nos faça um só com ele. Nunca nos deixemos iludir, pensando estar sozinhos ou nos imaginando capazes de praticar qualquer ato bom, sem o auxílio da graça e dos Anjos.

bem-feitores

Sede pobres!

Ir Letícia Sousa, EP

“Decapitai-o! Morte ao rei! Abaixo a monarquia! Viva a república!” Frases como essas retumbavam fortemente nas ruas de Paris nos anos da Revolução Francesa. O populacho acorria à capital por falta de pão e, estando lá, se unia aos revolucionários republicanos contra o Monarca e a nobreza.

Mas, essa situação, outrora protegida pelo lema “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, com o passar dos anos nos deixou uma incógnita: Será que a doce França conheceu melhores dias que os que antecederam a era do terror? Ou realmente a falta de pão, “causa” da revolta do povo, trouxe igualdade, pão e bens materiais para todos?

Acaso a afirmação de Nosso Senhor no Evangelho, “pobres sempre tereis entre vós” (Jo 12,8), foi apagada da bíblia que usavam os revolucionários nas terras da Filha Primogênita da Igreja? Pois, se não é assim, por que tentar estabelecer a nivelação de bens a todas as classes?

O problema, na realidade, não está em ter ou não ter bens materiais, riquezas, tesouros, e sim, ser ou não ser pobre de espírito, pois São Mateus no Evangelho frisou a profundidade da primeira bem-aventurança: “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 5,3).

Há um matiz esquecido pelos tempos atuais da necessidade desta pobreza ser de “espírito”. O autêntico pobre de espírito é aquele que reconhece que tudo vem de Deus, conformando-se com a administração Divina em dar a cada um conforme sua vontade.

O que de fato convém a todos é seguir, em graus diversos, o conselho do Divino Mestre: “Não vos aflijais, nem digais: Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos? São os pagãos que se preocupam com tudo isso. Ora, vosso Pai celeste sabe que necessitais de tudo isso. Procurai o Reino de Deus e sua justiça e o resto vos será dado por acréscimo” (Mt 6, 3 1-33).

“Nosso Senhor não me diz aqui de que as riquezas deste mundo vão ser dadas a mim como prêmio da minha piedade, não, não diz isso. Ele afirma que, se eu me entregar sinceramente à busca do Reino d’Ele, à perfeição, portanto, da santidade, vou receber essas riquezas na medida em que esta perfeição exija, na medida em que eu tenha necessidade delas, elas me virão às mãos”. [1]

Há momentos na vida terrena de Jesus em que realmente Ele critica o apego à riqueza material. O moço rico do evangelho, por exemplo, recusou um chamado tão sublime de Nosso Senhor: a ser apóstolo. “Moço rico, escolhido para ser Apóstolo, não quis. Por que não quis? Porque tinha muita riqueza e ele não quis vender tudo e distribuir aos pobres”. [2]

Entretanto, o que Cristo recomenda no evangelho não é que todos os homens vivam sem bens, mas que o principal objetivo seja buscar o reino de Deus que não é perecível.

Sigamos o exemplo de Nosso Senhor Jesus Cristo que, sendo a Riqueza, para nós se tornou pobre para nos enriquecer. Imitemos tantos santos na história que, seguindo os passos do Salvador, foram verdadeiramente pobres e, desta maneira, teremos os Céus abertos para nós, recebendo o cêntuplo já aqui nesta terra.

Acrescenta ainda nosso fundador Mons João Clá Dias que, não basta abandonar materialmente:

“Se o moço rico tivesse vendido tudo, dado aos pobres e seguido a Nosso Senhor, mas, se julgasse que ele era um grande homem porque tinha feito uma grande coisa, não adiantaria nada! Porque quando ele chegasse na hora de entrar no Céu, ele ia bater na porta da eternidade, mas as portas não iam se abrir, porque as portas não se abrem àqueles que são orgulhosos”. [3]

Portanto, peçamos a Maria Santíssima, Mãe da despretensão e da justiça, a graça de abandonarmos tudo que nos prenda a esta terra perecível e sermos pobres de espírito, e, assim, poderemos entrar nos Céus e o que precisarmos nesta terra nos será dado por acréscimo segundo o beneplácito Divino.

[1] CLA DIAS, Mons. João Scognamiglio. Meditação — 16/11/1992 (arquivo IFTE)

[2] Id. 2°Homilia 2 1/8/2007 (arquivo IFTE)

[3]  Ibid.

Você conhece Lucius Amarus?

Ir Cecilia Maria Almeida, EP

Quem de nós, acompanhando as notícias e contemplando o cenário político-social do Brasil e do mundo, no terá ouvido algumas (ou muitas!) vezes as palavras “fraude”, “propina”, “operação lava-jato”. “impeachment”… O que pensar disso, senão que vivemos num mundo de LARÁPIOS?

LARÁPIO… Para os jovens leitores que não sabem o significado desta palavra aqui está a simples definição segundo o dicionário da Língua Portuguesa: indivíduo que furta; ladrão.

Mas qual será a origem deste termo tão incisivo?

A palavra LARÁPIO tem origem interessante: havia em Roma um juiz que vendia sentenças. O juiz se chamava Lucius Amarus Rúfilus Apius. Quando proferia suas sentenças assinava: L.A.R. Apius. Daí surgiu o termo LARÁPIO.

Mas será que LARÁPIOS são apenas aqueles que violam o 7º mandamento da Lei de Deus no tocante aos bens alheios? Pode em nosso meio existir também LARÁPIOS? Não seremos nós também um deles? Vejamos o que nos diz nosso Fundador Mons. João Clá Dias a respeito:

“Humildade é aquela virtude que nos faz ter uma visão clara, equilibrada a respeito do que somos, temos, podemos. Não é uma visão diminuída a respeito de si próprio, é uma visão equilibrada. E, portanto, não é uma exacerbação do juízo que se faz a respeito de si mesmo. Isto é fruto da virtude da temperança. Quem tem humildade e mansidão é pequenino, este é pequenino.

E os que são mansos e humildes recebem estas coisas que os sábios e os entendidos não recebem, porque os “sábios”, entre aspas!, os “entendidos “, entre aspas!, são aqueles que se julgam muito mais capazes do que na realidade. São aqueles que atribuem a si o que pertence a Deus e, portanto, são uns ladrões,  ladrões de Deus. São “teolarápios “, roubam a Deus. Essa é a realidade. E esse é todo o orgulhoso. É um ladrão de Deus, cleptomaníaco de Deus, “teoclepto”, aí está. 1

O início do ano é um tempo propício para um sério exame de consciência. E se percebermos em nós algo do tal Lucius Rufus, não percamos a confiança, pois Mons. João Clá Dias ademais de nos alertar nos dá o remédio para a cura deste mal:

O que é preciso é tomar essa posição de filho da Igreja e de Nossa Senhora, não reservando nada para si, restituindo tudo, reportando tudo, servindo desinteressadamente até o último ponto, depois dizendo:

‘“Eu sei que eu não sou apenas um servo inútil, mas que eu sou um servo infiel, que eu não fiz tudo quanto deveria fazer. Mas ao menos essa tristeza de não ter chegado até o limite, Nossa Senhora preencha com sua misericórdia e com minhas lágrimas, de maneira a chegar até o limite’. Esse é o programa da fidelidade. […] Pedir a Nossa Senhora que nos comunique uma centelha da alma d’Ela, através de São Luís Grignion, um pouco do espírito de Elias, do espírito de São Luís Grignion, de maneira tal que queiramos ser isso como ideal de nossa vida: o servo bom e fiel que foi filho em toda linha e que restituiu tudo aquilo que tinha de restituir.

Essa posição é o suco da pequena via — tenho certeza disso — do filho amoroso, desinteressado, abrasadamente amoroso. Este é o tal amor que move as criaturas, é a mola do universo. […]2

Como alcançar esta graça da restituição, a qual consiste essencialmente em atribuir a Deus os dons d’Ele recebidos? Nossa Senhora é a garantia. Deixemo-La agir na alma e ” Ela nos ensinará a glorificar ao Senhor por ter contemplado o nosso nada e, como resultado, nosso espírito exultará de paz e alegria (cf. Lc 1, 47).”3

1 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Homilia. Mairiporã, 2008.

2 Id. Conversa, 1970

3 Id. O precursor e a restituição. In: Arautos do Evangelho. São Paulo: Ano IV, n. 37, jan. 2005, p. 11.

O primeiro apóstolo dos últimos tempos (cont)

Continuação do post anterior

Ir. Juliane Vasconcelos Almeida Campos, EP

Em 1693 dirigiu-se a Paris, a fim de preparar-se para o sacerdócio. Deixava para trás a terra natal e a família, e quis percorrer a pé os mais de 300 km que o separavam da capital francesa. Este será invariavelmente seu modo de viajar, seja em peregrinação, seja em missão.

Já nesse remoto século XVII, Paris exercia sobre seus visitantes fascinante atração. Ao entrar na cidade, o primeiro sacrifício feito por Luís foi o da mortificação da curiosidade: estabeleceu um pacto com seus olhos, negando-lhes o lícito prazer de contemplar as incomparáveis obras de arte parisienses. Assim, quando partiu, dez anos depois, nada havia visto que satisfizesse seus sentidos.

Começou os estudos no seminário do padre Claude de la Barmondière, destinado a receber jovens pouco afortunados. Com a morte deste religioso, Montfort se transferiu para o Colégio Montaigu, dirigido pelo padre Boucher. A alimentação ali era muito deficiente e suas penitências tão austeras que lhe abalaram a saúde e o levaram ao hospital. Todos acreditavam que morreria, tão grave era seu estado, mas ele nunca duvidou da cura, pois sentia não haver chegado sua hora. E, de fato, logo se restabeleceu.

Quis a Divina Providência obter-lhe os meios para terminar os estudos no Pequeno Seminário de Saint-Sulpice. O diretor daquela instituição, conhecedor da fama de santidade do seminarista, “encarou como uma grande graça de Deus a entrada deste jovem eclesiástico na sua casa. Para prestar a Deus ações de graças, mandou rezar o Te Deum”.9 Entretanto, tratava-o com muito rigor, para pôr à prova suas virtudes; começou então para nosso Santo uma via de humilhações, que se prolongou ao longo de toda a sua vida.

Por fim, sacerdote!

Executava com a maior perfeição possível as funções que lhe eram designadas, quer nos serviços mais humildes ou nos estudos, quer na ornamentação da igreja do seminário ou como cerimoniário litúrgico, no serviço do altar.

Suas primeiras missões remontam a esta época. Algumas eram feitas internamente, para aumentar a devoção de seus confrades; outras consistiam em aulas de catecismo ou pregações, para pessoas de fora do seminário. “Possuía um raro talento para tocar os corações”: às crianças falava de Deus, da bondade de Maria, dos Sacramentos que precisavam receber; aos adultos pedia que santificassem seu labor com as mentes postas no Céu.

Esforçava-se por comunicar a prática da escravidão de amor a Nossa Senhora a seus condiscípulos e estabeleceu no seminário uma associação dos escravos de Maria. Todavia, não faltaram opositores que o taxaram de exagerado. Aconselhado pelo padre Louis Tronson, superior de Saint-Sulpice, passou a designar esses devotos como “escravos de Jesus em Maria”,11 e vai ser esta expressão que mais tarde ficará consignada no seu Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem.

“À medida que a aurora do sacerdócio despontava no horizonte, Luís Maria sentia mais do que nunca a necessidade de separar-se da Terra a fim de se recolher completamente em Deus”.12 Foi ordenado em 5 de junho de 1700, dia de Pentecostes, e quis celebrar sua primeira Missa na capela de Maria Santíssima, situada atrás do coro da Igreja de Saint-Sulpice, tantas vezes ornada por ele durante os anos passados no seminário. Blain, seu amigo e biógrafo, resumiu em quatro palavras suas impressões sobre aquele espetáculo sobrenatural: era “um anjo no altar”.

De Nantes a Poitiers

O espírito sacerdotal do padre Luís Maria sentia insaciável sede de almas e as missões em terras distantes o atraíam sobremaneira. Perguntava-se: “Que fazemos nós aqui […] enquanto há tantas almas que perecem no Japão e na Índia, por falta de pregadores e catequistas?”.

No entanto, tinha Deus outros planos para seu missionário naquele momento. Designado para exercer o ministério na comunidade de eclesiásticos Saint-Clément, em Nantes, na qual se pregavam retiros anuais e conferências dominicais para o clero da região, dirigiu-se para onde o mandava a obediência. Seu coração, porém, se dividia entre o desejo da vida oculta e recolhida e o apelo às missões populares, que tanto o atraíam.

Uma feliz experiência missionária em Grandchamps, nos arredores de Nantes, foi decisiva para tornar patentes seus dotes como evangelizador. Algum tempo depois, o Bispo de Poitiers o chamou para trabalhar no hospital desta cidade, pois uma curta permanência sua anterior por lá deixara tal rastro sobrenatural, que os pobres internos o solicitavam para capelão. Foi também nesta cidade que conheceu Catherine Brunet e Maria Luísa Trichet, com quem fundaria mais tarde, em Saint-Laurent-sur-Sèvre, as Filhas da Sabedoria.

Bênção papal: missionário apostólico

A ação missionária de São Luís Grignion acabou por despertar ciúmes, intrigas e até perseguições por parte dos que o deveriam defender, obrigando-o a regressar a Paris. Iniciava-se, assim, um longo caminho de dor que haveria de continuar nas subsequentes missões por ele empreendidas. A autenticidade de suas palavras e de seu exemplo despertavam tantas incompreensões e calúnias que o missionário decidiu peregrinar a Roma, a pé, a fim de procurar junto ao Papa uma luz que desse o rumo de sua vida. “Tanta dificuldade em fazer o bem em França e tanta oposição de todos os lados”15 o levaram a pensar se não seria mesmo o caso de exercer seu ministério num outro país.

Recebido com extrema bondade por Clemente XI, este o encorajou a continuar exercendo seu trabalho missionário na própria França. E para “lhe conferir mais autoridade, deu ao padre Montfort o título de Missionário apostólico”. 16 A pedido do Santo, concedeu o Pontífice indulgência plenária a todos os que osculassem seu Crucifixo de marfim, na hora da morte, “pronunciando os nomes de Jesus e Maria com contrição dos seus pecados”.

Fortalecido pela bênção papal e com o Crucifixo afixado no alto do cajado que o acompanhava nas missões, Grignion voltou às terras gaulesas e, impertérrito, sem nada temer das perseguições ou contrariedades, continuou semeando por toda parte o amor à Sabedoria Eterna e a Nossa Senhora, e a excelência do Santo Rosário. Converteu populações inteiras, mudou costumes licenciosos no campo, nas cidades e aldeias, levantou Calvários, restaurou capelas e combateu o espírito jansenista, tão disseminado na época.

No entanto, foi pouco compreendido por muitos eclesiásticos seus contemporâneos e viu desencadear-se sobre si uma onda de interdições. Prosseguia sua missão, sem desanimar, sendo acolhido pelos Bispos das Dioceses de Luçon e La Rochelle, na Vandeia, região que reagirá, no fim daquele século, à impiedade difundida pela Revolução Francesa, sem dúvida como fruto de sua semeadura.

Olhar posto no futuro…

Seria um erro, contudo, considerar São Luís Grignion apenas como um excelente missionário na França do século XVIII. Com o olhar posto no futuro, sua fogosa alma tinha por meta estender o Reino de Cristo, por meio de Maria, e para isto servia-se de uma forma de evangelização que hoje não poderia ser mais atual: “ir de paróquia em paróquia, catequizar os pequeninos, converter os pecadores, pregar o amor a Jesus, a devoção à Santíssima Virgem e reclamar, em voz alta, uma Companhia de missionários a fim de abalar o mundo através do seu apostolado”.

Num élan profético, previu ele a vinda de missionários que, por seu inteiro abandono nas mãos da Virgem Maria, satisfariam os mais íntimos anseios do Coração de seu Divino Filho: “Deus quer que sua Santíssima Mãe seja agora mais conhecida, mais amada, mais honrada, como jamais o foi”.19 Não obstante, se perguntava: “Quem serão estes servidores, escravos e filhos de Maria?”.20 Serão eles, afirmava, “os verdadeiros apóstolos dos últimos tempos, aos quais o Senhor das virtudes dará a palavra e a força para operar maravilhas”. Antevia que seriam inteiramente abrasados pelo fogo do amor divino: “sacerdotes livres de vossa liberdade, desapegados de tudo, sem pai, sem mãe, sem irmãos, sem irmãs, sem parentes segundo a carne, sem amigos segundo o mundo, sem bens, sem obstáculos, sem cuidados, e até mesmo sem vontade própria”.

São Luís Maria Grignion de Montfort não foi senão o precursor desses apóstolos dos últimos tempos. Modelo vivo dos ardorosos missionários que prognosticava, manteve a certeza inabalável de que, quando se conhecesse e se praticasse tudo quanto ele ensinava, chegariam indefectivelmente os tempos que previa: “Ut adveniat regnum tuum, adveniat regnum Mariæ”23 — Para vir o Reino de Cristo, venha o Reino de Maria. Reino este que, em germe, já habitava em sua alma, tornando-o o primeiro apóstolo dos últimos tempos.

9 BLAIN, op. cit., p.77.

10 GRANDET, Joseph. La vie de Messire Louis-Marie Grignion de Montfort, prêtre, missionnaire apostolique, composée par un prêtre du clergé, apud LE CROM, op. cit., p.93.

11 SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. Traité de la vraie dévotion à la Sainte Vierge, n.244. In: OEuvres Complètes. Paris: Du Seuil, 1966, p.651.

12 LE CROM, op. cit., p.97.

13 BLAIN, op. cit., p.99.

14 LE CROM, op. cit., p.102.

15 BLAIN, op. cit., p.174.

16 LE CROM, op. cit., p.184.

17 Idem, ibidem.

18 Idem, p.107.

19 SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT, Traité de la vraie dévotion à la Sainte Vierge, op. cit, n.55, p.520.

20 Idem, n.56, p.520.

21 Idem, n.58, p.521.

22 SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. Prière Embrasée, n.7. In: OEuvres Complètes, op. cit., p.678.

23 SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT, Traité de la vraie dévotion à la Sainte Vierge, op. cit, n.217, p.635.

O primeiro apóstolo dos últimos tempos

Ir. Juliane Vasconcelos Almeida Campos, EP

Corria o ano de 1716. A missão em Saint-Laurent-sur-Sèvre — que seria a última! — começara em princípios de abril. Consumido pelo trabalho, o dedicado pregador foi acometido por uma pleurisia aguda, mas não cancelou o sermão prometido para a tarde da visita do Bispo de La Rochelle, Dom Étienne de Champflour, em 22 de abril, no qual falou sobre a doçura de Jesus. Contudo, teve de ser levado do púlpito quase agonizante…

Passados alguns dias, pressentindo a morte que já previra para aquele ano, ele pediu que, quando o pusessem no ataúde, lhe fossem mantidas no pescoço, nos braços e nos pés as cadeias que usava como sinal de escravidão de amor à Santíssima Virgem. Em 27 de abril, o enfermo ditou seu testamento e legou sua obra missionária ao padre René Mulot. Continue lendo

As três rosas de inverno

Ir. Mariana de Oliveira

No gélido mês de dezembro, a cidade de Edimburgo fica coberta de floquinhos de neve; nenhuma cor na natureza, com exceção dos elegantes, altaneiros e sempre verdes pinheiros. Flores, frutos, animais? Nem pensar! Tudo nesse mês cessa para que todas as atenções se voltem para um grande acontecimento: o Natal.

A alegria já começa a tomar conta dos habitantes, os quais saem, o quanto antes, para comprar enfeites, bolas coloridas, luzes e presentes para colocá-los debaixo da árvore de Natal. Entretanto, não são todos os que sentem esse santo prazer…

Numa casa bem afastada, vivia um homem chamado Jacob Grimm, de idade perfeita, fortuna perfeita e azedume perfeito… Todos lhe tinham medo; só o aspecto melancólico de sua casa toda de ébano, já despertava um arrepio; Mr. Grimm não era feio, mas seus traços refletiam muita severidade. Não tinha amigos, não por falta de tentativa, pois muitos tentavam superar o receio e iniciavam uma conversa, mas pouco depois o assunto morria. Não sorria porque há tempos não sabia o que era se sentir feliz.

O que será que angustiava aquele coração que parecia de pedra? Há dez anos, Mr. Grimm perdera a mãe, uma santa mulher que ficara viúva quando o pequeno Jacob contava três meses e lhe ensinara tudo sobre a verdadeira Religião. Porém, a dor de perdê-la foi para o jovem, de somente vinte anos, irreparável. Desde daquele dia, Mr. Grimm nunca mais falou nada sobre Deus, sobre a Virgem e sobre o Céu. Vivia frustrado e o Natal para ele era um tormento pois lembrava-se mais de sua mãe do que propriamente do nascimento do filho de Deus. Entretanto, do Céu, sua mãe lhe preparava um Natal diferente naquele ano…

No dia 23 de dezembro, a neve foi mais clemente e deixou o Sol brilhar por quase toda manhã. Aproveitando os raios benfazejos do astro rei, Mr. Grimm sentou-se na sacada e por lá ficou acariciando seu gato, quando, subitamente, ouviu uma vozinha pueril, cantando uma alegre canção natalina, que, curiosamente, sua mãe cantava. A pequena sem titubear abriu o portão da casa de Mr. Grimm e, naquela terra dura pela neve, colocou um pequeno grãozinho e saiu. No dia seguinte, a mesma, não mais menina, agora jovem, como por magia, entrou novamente no “jardim” e depositou, sem perceber que estava sendo vigiada por Mr. Grimm, um outro grão. O proprietário não tinha forças para mandar a jovem embora, ela parecia com alguém… Quando já escurecia, no meio de uma feroz nevasca, a jovem que se tornara uma senhora luzidia, aproximou-se, e, deitando a terceira semente no gélido solo, chamou-o:

— Grimm!

Fora de si de júbilo, Mr. Grimm reconheceu a voz de sua mãe, e imediatamente exclamou:

— Mamãe!

Desceu ao jardim e, no meio da neve, três rosas lindas estavam cravadas: uma rubra, em cujas pétalas lia-se o nome de Jesus, outra dourada, com o nome de Maria, e, por fim, uma branca contendo o nome de José. Mr. Grimm emocionado procurava por sua mãe em todos os cantos, mas não via ninguém… Desesperado, observou novamente as três rosas e debaixo das mesmas descobriu um bilhete. Abriu-o e reconheceu a letra de sua querida mãe:

Se deixares que estas três rosas brotem e alegrem o teu coração, tu me verás um dia.”

Obrigação de dar bom exemplo

Ir. Patricia Victoria Jorge Villegas, EP

Nada é tão eficaz na observância do mandamento divino de amar o próximo por amor a Deus, quanto um comportamento edificante e o exemplo de uma vida íntegra, com vistas à salvação eterna de nossos irmãos.

Quem assim age faz o papel de um eloquente arauto da verdade. Recordemos, a propósito, o fato ocorrido com o grande São Francisco de Assis, cuja preocupação primordial era instruir os homens pelo exemplo, mais que pelas palavras.

Certo dia, convidou ele um monge a acompanhá-lo em uma pregação. Após dar algumas voltas pelas ruas, retornavam ambos ao mosteiro sem ter pronunciado palavra. Surpreso, o companheiro perguntou-lhe: “Mas, e a pregação?”. Respondeu-lhe o Santo que o simples fato de dois religiosos se apresentarem com modéstia diante da população constituía já um sermão.1 São Francisco, com efeito, não se cansava de ensinar a seus primeiros seguidores: “Todos os irmãos devem pregar com as suas obras!”.2

Ao longo da História, muitos Santos deram às almas, pela simples presença, a esmola do bom exemplo. “Vi Deus num homem!”, exclamou um advogado de Lyon, referindo-se a São João Maria Vianney, ao ser interrogado sobre o que havia conhecido em Ars.3 Segundo narram as crônicas, um irmão leigo da Companhia de Jesus, saindo todos os dias para fazer compras, ganhou mais almas para Deus com suas conversações e bons exemplos do que muitos missionários com suas pregações.4 Convidado certo dia pelo Arcebispo de Évora a fazer uma pregação na catedral, São Francisco de Borja tentou esquivar-se, alegando cansaço e enfermidade, mas recebeu esta resposta: “Não quero que faça sermão, mas que suba ao púlpito e todos possam ver um homem que, por amor a Deus, abandonou tudo quanto tinha”.5

1 Cf. SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO. La dignidad y santidad sacerdotal. La Selva. Sevilla: Apostolado Mariano, 2000, p.306.

2 JOERGENSEN, Johannes. São Francisco de Assis. 3.ed. Petrópolis: Vozes, 1932, p.355.

3 Cf. JOÃO PAULO I. Discurso ao clero romano, 7/9/1978.

4 Cf. MUÑANA, SJ, Ramón de. Verdad y vida. 2.ed. Bilbao: El mensajero del Corazón de Jesús, 1948, t.II, p.577.

5 Idem, p.576-577.

Texto extraído da Revista Arautos do Evangelho – dez 2015  A importância do exemplo

Como um toque de sino…

Ir. Adriana María Sánchez García, EP

Blém! Blém! Blém!

Toca o sino da capela do palácio. Acompanham-no outros maiores, bem como os das igrejas dos arredores. Dali a pouco, os bordões das basílicas também começam a soar. Por toda a redondeza o som se espalha, como um belo carrilhão, proclamando a grande notícia: nascera o primogênito real!

Se era assim que em muitos reinos do passado se anunciava a ricos e pobres, a grandes e pequenos, a chegada de um novo herdeiro, bem poderíamos falar, por analogia, de um sino magnífico que tocou na História marcando o fim da Antiga Lei e o começo da era da graça, ao nascer o Salvador, o Filho Unigênito de Deus! E até hoje, ao comemorarmos tão magno acontecimento, soam novas badaladas deste místico sino convidando-nos a­ ­contemplar um dos maiores mistérios da nossa Fé.

Através dos apelos da graça, Deus fala conosco a todo instante. Porém, só O ouvimos “no recolhimento, na paz e no silêncio. Sua voz é tão suave que nosso interior deve estar completamente em silêncio; é uma doce melodia. A linguagem de satanás é barulhenta: ela é agitada, impulsiva, perturbadora e abrupta”.

Se criarmos as condições para escutar sua voz, Deus nos convidará a amá-Lo mais, seja infundindo em nossos corações o desejo de praticar a virtude ao ver um bom exemplo, seja enriquecendo-nos com sentimentos de piedade ao entrarmos num ambiente sagrado, seja fazendo ecoar em nosso interior palavras de repreensão por alguma má atitude ou de advertência diante de ocasiões próximas de pecado.

Quando nos sentimos angustiados, tomados pela agitação e sem serenidade de alma, podemos ter a certeza de que não é uma voz sobrenatural que está falando conosco. A dissipação, a velocidade das máquinas e o espírito de frenesi e de competição, que dominam o mundo moderno, impedem-nos de entrar em contato com Deus. Pior, fazem com que nos esqueçamos d’Ele.

É ao oposto deste estado de espírito que o Menino Jesus nos convida no Natal. Ele nos atrai ao recolhimento, pede que deixemos de lado as atividades que d’Ele nos afastam e renovemos nossa vida espiritual. Que, como um toque de sino, o término deste ano anuncie a chegada de uma nova etapa de nossa existência, na qual fiquem para trás os momentos em que, fechados às moções da graça, nos deixamos levar por nossos impulsos e más inclinações.

Peçamos, não só ao Divino Infante, mas a todos os Anjos e Santos do Céu, que a partir deste Natal eles nos façam ouvir sua voz e adoremos com especial afeto o Redentor posto no Presépio, lembrando-nos de que este terno Menino está disposto a renascer em nosso íntimo para transformar-nos por inteiro. Ele que, enquanto Deus, nos criou a cada um de nós, sem nada termos feito para merecê-lo, e Se faz Homem na Noite Santa para nos redimir.

Comuniquemo-nos com Ele por meio da oração e estejamos atentos às suas palavras. “Oxalá que ouças hoje a sua voz: não endureçais os vossos corações” (Sl 94, 7-8), nos recorda o Salmo. Abramos nossa alma para que o Menino Jesus aí nasça e permaneça para sempre. Assim, também nós seremos como sinos, a ressoar o seu amor e a despertar, com nosso exemplo, bons sentimentos naqueles que nos cercam.1

UM SANTO NATAL A TODOS OS NOSSOS LEITORES!

1 Revista Arautos do Evangelho, Dezembro – 2015

“O precioso vinho espiritual da santidade”

Ir. Daniela Chacaliaza, EP

Imaginemos que fôssemos contratados para um novo emprego e ninguém nos explicasse o que deveríamos fazer; difícil seria poder exercê-lo com competência.  Ou, então, que comprássemos um aparelho eletrônico de manuseio complicado e que, dentro da caixa, não encontrássemos o manual de instruções. Certamente, nosso desapontamento não seria pequeno, pois quão difícil seria colocá-lo em funcionamento. Que alivio se achássemos um manual!

Na  vida quotidiana, vemos, com frequência, que os homens redigem manuais para facilitar o desenvolvimento dos afazeres humanos. Se isto é assim com os homens, não seria possível que o Criador do Universo, o nosso Pai Celestial, nos privasse de modelos para podermos exercer o papel mais importante desta vida: conquistar o Céu através da luta quotidiana.

Desta maneira, o Altíssimo nos deu um manual que, quando visto e lido através dos olhos d’Ele, é um farol que nos ensina a trilhar os caminhos da vida. Este guia é a natureza. Ora, toda a Obra da Criação foi feita para, de uma ou de outra forma, servir ao homem.

Pousemos, então, nosso olhar num fruto maravilhoso da terra que Deus quis utilizar como matéria para o Sacramento mais sublime: a uva que, depois de passar por certo processo, se transforma em vinho.

Ao analisar o procedimento que se realiza para obter um saboroso vinho, vemos que as uvas devem passar, por assim dizer, por certas circunstâncias difíceis: ao ser levadas ao lagar, elas são esmagadas — pisadas, literalmente —, para produzir esta bebida. Ademais, é um fato digno de ser considerado e ressaltado que não é em todo tempo que as uvas dão seus produtos mais insignes. Existe uma época específica do ano em que a videira dá seus melhores frutos. Curiosamente, enquanto os outros alimentos que a terra produz precisam de um terreno fértil, a boa videira prefere solo seco e pedregoso. Quer dizer, para obter um vinho de boa qualidade, é preciso a videira ter nascido em condições aparentemente adversas.

Assim também é o ser humano. Para florescerem heróis, muitas vezes, Deus permite e quer que estes passem, in tempore opportuno, pelas situações mais adversas e por dores tremendas. De fato, a História nos prova quão mais valiosos são os varões ou mulheres que foram submetidos pela Providência a terríveis sofrimentos e provações. Sendo esta terra um vale de lágrimas, é preciso que os homens passem pelas cruzes para alcançar o prêmio esperado.

“E, de fato, tal como o fruto da videira necessita ‘sofrer’ e ‘esperar’ para alcançar o requinte de seu próprio sabor, assim é o ser humano: para adquirir a plenitude de sua personalidade, não requer comodidades nem prazeres, mas padecimentos e docilidade à vontade divina. O sofrimento é, pois, um valioso bem para o homem. […] Com a dor, o ser humano sai de seu egoísmo, compreende a sua contingência e se abre para o sobrenatural. […] O sofrimento bem aceito produz o precioso vinho espiritual da santidade”.[1] E assim, seguindo o exemplo de Nosso Senhor Jesus Cristo, é pela cruz que o homem chegará à luz.

[1] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Editorial. Dr. Plinio, São Paulo, ano 14, n. 164, nov. 2011, p. 4.

Convite

Os Arautos do Evangelho cordialmente lhe convidam a comparecer à VIII Romaria ao Santuário de Aparecida promovida pelo Apostolado do Oratório nos próximos dias 12 e 13 de agosto.

Acorramos com alegria para venerar a Mãe de Deus, agradecer-Lhe os favores recebidos durante o ano e apresentar-Lhe os nossos pedidos.

PROGRAMAÇÃO

12 de agosto, 6ª feira

18h – Missa na Basílica Velha, presidida pelo Reitor do Santuário.

19h – Procissão Luminosa, da Basílica Velha até a Basílica Nova.

Sexta-feira, a partir das 13h às 16h: Mostruário, projeção do vídeo, entrega de lembranças e atendimento às delegações no Auditório Padre Noé Sotillo (em frente da Casa do Pão, subsolo do Santuário).

13 de Agosto, sábado

08h – Terço na Tribuna Papa Bento XVI, com a presença da cópia da Imagem de Nossa Senhora Aparecida e animação do Coro Internacional dos Arautos do Evangelho.

10:30 – Missa presidida pelo Cardeal Arcebispo de Aparecida Dom Raymundo Damasceno.

Sábado, a partir das 06:00 até 16:00: Mostruário, projeção do vídeo, entrega de lembranças e atendimento as delegações no Auditório Padre Noé Sotillo (em frente da Casa do Pão).

Para mais informações entre em contato através do telefone (11) 2973-9477 ou pelo whatsapp: (11) 98872-1366

As três ofertas

 Ir Patricia Rivas, EP

3º ano de Ciências Religiosas

Conta-se, nas crônicas da Ordem dos Menores, que, certa vez, Nosso Senhor apareceu a São Francisco de Assis, pedindo-lhe três ofertas. Ao que o santo respondeu: “Não tenho nada para oferecer, porque já me entreguei todo a Vós, e tudo o que me pertence vos pertence. O único que tenho é esta túnica e esta corda, que também são vossas”.

Nosso Senhor insistiu, dizendo-lhe que colocasse a mão no peito e tirasse daí uma oferta. São Francisco obedeceu, e tirou de seu peito uma moeda de ouro tão brilhante como nunca vira antes. Entregou-a a Nosso Senhor, que lhe ordenou repetir o gesto, e, pela segunda vez, o Santo encontrou uma moeda. Faltava apenas a terceira oferta. Nosso Senhor mandou o monge fazer o mesmo pela terceira vez e, assim, completaram-se  as três ofertas pedidas.

Nosso Senhor então lhe explicou que as três moedas simbolizavam a dourada obediência, a preciosa pobreza e a formosa castidade. São Francisco então declarou que em nada lhe remordia a consciência pelo fato de guardar tais moedas no peito…

No dia de nosso Juízo, quando formos cobrados por Deus, poderemos dizer como este grande Santo que tudo o que temos guardado conosco em nada nos remorde a consciência?

 

O valor de uma crase

Ana Laura de Oliveira Bueno

Dir-se-ia que interpretar é — apreender o sentido verdadeiro de um texto. Assim, embora haja muitas maneiras de se interpretar uma frase, nem sempre as interpretações conferem com o que o texto quer dizer, podendo ser contraditórias e até mesmo absurdas. Deste ponto de vista, podemos considerar a estreita relação existente entre as interpretações corretas, o perfeito entendimento do que se lê e o bom conhecimento das áridas regras gramaticais.

Tomemos como exemplo a conhecida e belíssima frase do Gênesis que, por trás de uma crase, esconde um verdadeiro tesouro teológico: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança” (Gn 1, 26). Considerando que imagem é aquilo que procede de um objeto real em que pode ou não haver igualdade, é manifesto que se encontra no homem certa semelhança de Deus, semelhança esta que deriva de Deus como de seu modelo. No entanto, não é uma semelhança de igualdade, uma vez que o modelo ultrapassa infinitamente o modelado. Assim, se diz que há no homem uma imagem de Deus, não perfeita, mas imperfeita.

A preposição a, com efeito, indica certa distância, isto é, o homem jamais poderia ser chamado de “a imagem de Deus” sem o acento grave, pois isto cabe única e exclusivamente a Nosso Senhor Jesus Cristo, Imagem do Pai, idêntica a Ele em substância, Imagem perfeita de Deus. Do homem se diz que é à imagem por causa da imperfeição da semelhança.

Assim, aquele que desconsiderar o valor da pequenina e “insignifcante’ crase pode estar sujeito a interpretar um absurdo e deixar passar essa oportunidade de contemplar o infinito abismo existente entre o Primogênito de toda criatura, a Imagem, e as meras criaturas, feitas à sua imagem, por sua bondade.

Lembremo-nos, portanto das valiosas regras gramaticais, sempre eficazes e importantíssimas a quem quer interpretar corretamente um texto.

O monte do príncipe dos profetas

Ir. Juliane Vasconcelos Almeida Campos, EP

Do alto do Carmelo a voz de Elias parece ecoar ainda hoje, prenunciando uma era mariana que virá como chuva benfazeja para fecundar a aridez espiritual de nossos dias.

Bela e altaneira ergue-se no solo sagrado da Terra Santa uma emblemática cadeia montanhosa que evoca grandes lances do passado e aponta para um futuro de glória. Seu nome? Monte Carmelo.

Na região que circunda o imponente conjunto de rochedos há inúmeras grutas, uma das quais, conforme a tradição recolhida pelos Padres da Igreja, abrigou o grande profeta Elias, cujas “palavras queimavam como uma tocha ardente” (Eclo 48, 1).

Ele foi “um príncipe entre os profetas, verdadeiro condutor do povo de Deus. Lutou contra os erros do seu tempo, nummomento em que a nação eleita estava muito deteriorada, e salvou-a da ruína. Escolhido para dirigir o povo de Deus num momento de hecatombe, ele concentrou em si todo o espírito que o Criador queria dar à nação judia a ser ressurgida. Nesse espírito derivado da Providência Divina foi formada uma rede de eleitos, sendo o mais famoso deles Eliseu, que pediu o duplo espírito de Elias, e o obteve”.1

Dominando a planície de Esdrelon com notável presença, carregada de significado, destaca-se ao sul do Monte Carmelo uma das suas principais elevações, o El-Muhraqa. Com mais de 500 m de altitude, divisa-se daquele ponto um grandioso panorama que chega até o mar. É ali que as Sagradas Escrituras situam o famoso episódio narrado no Primeiro Livro dos Reis (cf. I Rs 18, 19-39), no qual Elias vence os falsos profetas de Baal “com uma prece simples, cheia de beleza”.2

Também a tradição nos revela ser nessa região que Elias e Eliseu se reuniam com seus discípulos. E, séculos depois, naquelas paragens se aglutinou um grupo de monges que constituiu os primórdios da Ordem do Carmo, a qual considera Elias como pai e fundador, e deu início a um filão de devoção a Nossa Senhora, algumas centenas de anos antes do nascimento da Virgem.

Muito simbolicamente, depois da seca imposta a Israel como punição por sua prevaricação, Elias vislumbrou “uma pequena nuvem do tamanho da palma da mão” (I Rs 18, 44) que subia do mar, prenúncio da caudalosa chuva que se aproximava para cessar o castigo e, segundo grande número de exegetas, pré-figura d’Aquela que traria para a humanidade as águas regeneradoras da Redenção: Maria Santíssima.

À Mãe de Deus – a Virgem e Flor do Carmelo – bem podem ser aplicadas as palavras de Isaías, o profeta da Encarnação por excelência: “O deserto e a terra árida regozijar-se-ão. A estepe vai ­alegrar-se e florir. Como o lírio ela florirá, exultará de júbilo e gritará de alegria. A glória do Líbano lhe será dada, o esplendor do Carmelo e de Saron; será vista a glória do Senhor e a magnificência do nosso Deus” (Is 35, 1-2).

Tendo sido arrebatado em “um carro de fogo” (II Rs 2, 11), Elias “deve voltar e restabelecer todas as coisas” (Mt 17, 11). Assim, hoje como ontem, do alto do Monte Carmelo sua voz parece ecoar o prenúncio de uma era mariana que virá como chuva benfazeja, para fecundar o solo árido de nossos dias, tão afastados de Cristo e de sua Mãe Santíssima.

1 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Santo Elias. In: Dr. Plinio. São Paulo. Ano XII. N.136 (Jul., 2009); p.2.

2 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Santo Elias, Profeta. In: Dr. Plinio. São Paulo. Ano XIII. N.148 (Jul., 2010); p.14.

Revista Arautos do Evangelho – Julho-2015

O primeiro sábado do mês…

Ir. Mariella Emily Abreu Antunes

Nas aparições de Fátima em 1917, Nossa Senhora anunciou que, para impedir as calamidades por Ela profetizadas, viria postular a consagração da Rússia ao seu Imaculado Coração e a Comunhão reparadora aos primeiros sábados. Esta promessa cumpriu-se no dia 10 de dezembro de 1925, quando a Santíssima Virgem apareceu aos pastorinhos com o Menino Jesus, e Ele lhe disse:

— Tem pena do Coração de tua Santíssima Mãe, que está coberto de espinhos que os homens ingratos a todos os momentos lhe cravam, sem haver quem faça um ato de reparação para tirá-los!

Nossa Senhora então mostrou seu Imaculado Coração à vidente, dizendo-lhe:

— Vê, minha filha, o meu Coração cercado dos espinhos que os homens ingratos a todos os momentos Me cravam, com blasfêmias e ingratidões. Tu, ao menos, vem Me consolar. Diz que todos aqueles que, durante cinco meses, no primeiro sábado, se confessarem, receberem a Sagrada Comunhão, rezarem um terço e Me fizerem quinze minutos de companhia, meditando num dos mistérios do Rosário, com o fim de Me desagravar, Eu prometo assisti-los na hora da morte com todas as graças necessárias para a salvação de suas almas.

Meses depois, apareceu-lhe novamente o Menino Jesus perguntando se ela estava divulgando a devoção. A Irmã Lúcia respondeu que a Superiora lhe punha muitos obstáculos para isso e que o Confessor havia dito que tal devoção não seria nenhuma novidade para a população de Portugal, pois muitas pessoas já comungavam aos primeiros sábados em honra a Nossa Senhora, completando um número de quinze sábados em atenção aos quinze mistérios do Rosário.

Ouvindo isso, o Menino Jesus ponderou:

— É verdade que muitas almas praticam essa devoção, mas o fazem apenas com o intuito de receber as graças que lhes são prometidas. Agradam-Me mais os cinco sábados com fervor e com o desejo de desagravar o Coração de minha Mãe, do que os quinze sábados com tibieza, egoísmo e presunção…

Eis aí uma divina queixa de Nosso Senhor em favor de sua Santíssima Mãe. Cabe-nos, agora, a pergunta: em qual categoria de almas devotas me encontro?

Reunião com os Anjos?

Ir Bruna Almeida Piva

Conta-se que, no século XVIII, ingressou na Ordem dos dominicanos um jovem muito fervoroso, que nos fulgores das graças primaveris era constantemente assistido por seu superior. Qualquer função que devesse desempenhar, ou qualquer dificuldade que encontrasse, estava ali seu encarregado para auxiliá-lo ou ensinar-lhe os pontos da regra.

Certa vez, porém, o superior entrou em retiro, ficando o pobre noviço obrigado a passar um longo período sem a ajuda de seu protetor.

Passados alguns dias, as graças iniciais que costumavam inundá-lo começaram a rarear, as provações e tentações comuns da vida religiosa passaram a visitá-lo com mais frequência. Atordoado e inexperiente em meio ao desconhecido mundo espiritual, pensava haver perdido a vocação, ter sido abandonado pela Providência, ou mesmo ter cometido algum pecado grave… No entanto, pedir auxílio ao encarregado ser-lhe-ia impossível até o término do retiro.

O que fazer? Como resolver tamanho impasse?

Os dias foram correndo, e chegou um momento em que o noviço já não aguentava mais: decidiu pedir um conselho ao superior. Acabado o último ato em conjunto do dia, o cântico da Salve Rainha, dirigiu-se rapidamente à cela do religioso e bateu à porta, um tanto aflito. O superior porém, sem sequer abrir a porta respondeu:

– Agora não! Estou ocupado!

Um encarregado ocupado, durante um recolhimento? O que estaria acontecendo? Teria o jovem se enganado, atribuindo ao seu protetor virtudes que na verdade não possuía? Sua necessidade de um apoio espiritual, porém, era muito grande; optou por insistir mais uma vez:não desistiria facilmente, viu-se obrigado a atendê-lo. Abriu um pouquinho a porta e, por uma fresta, perguntou-lhe o que desejava.

– Perdão, mas… preciso da ajuda do senhor! Estou passando por uma dificuldade assim…

– Não se preocupe – interrompeu-o o superior – Quero que veja uma coisa.

Abriu, então, por inteiro a porta da sua cela e o noviço não pôde acreditar no que estava vendo: inúmeros Anjos ao redor da mesa onde trabalhava o superior. Este, notando a perplexidade do jovem, explicou-lhe:

Anjos_arautos— Estes são os Anjos da guarda de todos os meus subalternos. Eles me comunicam as provações e necessidades espirituais de cada um para que eu tome alguma providência, lhes escreva uma carta ou os chame para uma conversa e, assim, os ajude no que for preciso. E não por acaso, está também aqui no meio deles, o seu Anjo da guarda que acaba de narrar-me as dificuldades que lhe atormentam…

Diante de tão grande santidade de seu superior e de um tão sublime milagre, dissipou-se na alma do noviço toda e qualquer sombra da provação que lhe afligia, e ele pode, assim, seguir sua vocação religiosa, rezando aos santos Anjos da guarda sempre que as dificuldades e dúvidas se lhe apresentavam.

Vemos nesse belo fato a importância da devoção aos nossos celestes Protetores que não hesitam em nos auxiliar sempre, especialmente quando invocamos sua ajuda.

Se conhecesses o dom de Deus

Ir Nágela Shayenne da Silva Pinheiro, EP

Certa vez, o grande pintor e escultor Michelangelo esculpiu uma estátua que representava Moisés. A imagem era de tamanho e espessura naturais e o olhar, idêntico ao do modelo. Tão real parecia que, ao contemplá-la, não se conteve e bradou: “Parla! Perché non parli?” (Fala! Por que não falas?) Ele foi capaz de fazer uma escultura perfeita, mas nela não conseguiu injetar a vida. [1]

Valendo-nos da metáfora acima, poderíamos dizer que todo homem, ao nascer, é uma estátua de Deus, pois não passa de mera criatura dotada de vida racional. Entretanto, “Deus, por sua infinita bondade, ordenou o homem a um fim sobrenatural, isto é, a participar dos bens divinos que sobrepujam totalmente a inteligência da mente humana, pois, em verdade, ‘nem o olho viu, nem o ouvido ouviu, nem o coração do homem provou o que Deus preparou para os que O amam.” (1 Cor 2, 9) (Dz 1789).

Este fim sobrenatural dado por Deus àqueles que Ele criou como “sua imagem e semelhança” (Gn 1, 26) é a participação do homem na sua vida divina.

Infinitamente superior a este escultor, é Deus que deseja comunicar sua própria vida aos homens, criados livremente por Ele, para fazê-los, no seu Filho único, filhos adotivos (cf. CCE 54).

Mas, infelizmente o homem não permaneceu fiel às exigências impostas por sua elevação gratuita à ordem sobrenatural. Nosso primeiro pai, Adão, constituído “em santidade e justiça” (Dz 788), possuía a ciência infusa e o dom da integridade, pelo qual nenhum sofrimento o afetaria e passaria desta vida à eternidade sem passar pela morte. Ademais, tinha em altíssimo grau as virtudes e os dons do Espírito Santo.

Contudo, o varão predileto recebeu de Eva o fruto proibido e o comeu. Estava consumado o pecado original. No mesmo instante, foi ele despojado de todos os privilégios paradisíacos e abriu-se uma era de pobreza, de cativeiro, de cegueira e de opressão para todos os seus descendentes. Fecharam-se as portas do Céu para a humanidade, restando apenas dois destinos: limbo ou inferno.[2]ida

Todavia, séculos depois:

Deus enviou o seu anjo Gabriel a uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um homem que se chamava José, da casa de Davi e o nome da virgem era Maria. O Anjo disse-lhe: “Eis que conceberás e darás à luz um filho e lhe porás o nome de Jesus”. Maria perguntou ao anjo: “Como se fará isso, pois eu não conheço homem?” Respondeu-lhe o anjo: ‘O Espírito Santo descerá sobre ti, e a força do Altíssimo te envolverá com a sua sombra. Por isso, o ente santo que nascer de ti será chamado Filho de Deus. Então, disse Maria: “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra’ (Lc 1, 26-28.31.34-35.37)

Neste mesmo instante, o Filho de Deus, por obra do Espírito Santo, encarnou-Se nas puríssimas entranhas desta Virgem Santíssima, sem deixar de ser verdadeiro Deus e verdadeiro homem.

A divina justiça exigia uma reparação; por isso, tendo Se encarnado, quis Ele assumir sobre Si os crimes e misérias de toda a humanidade. Iniciou-se, deste modo, a redenção do gênero humano.[3]

A Segunda Pessoa da Santíssima Trindade veio habitar entre nós (cf. Jo 1, 14) para que todos pudessem ter vida, e não uma vida meramente natural, mas sim a sobrenatural, a graça. Deus quis nos divinizar, conforme afirma São Tomás.[4]

Explica Monsenhor João Clá Dias que isso se dá não à maneira de um reboco em uma parede, que não a modifica no seu interior, mas como se alguém injetasse ouro nos tijolos, a ponto de se poder dizer “parede de ouro”. Esta figura, segundo o referido autor, é pobre para exprimir o que se passa em uma alma quando lhe é infundida a vida divina.[5]

E é através da instituição dos Sacramentos feita pelo Divino Redentor que o homem pode usufruir dos benefícios que Deus lhe reservou desde toda a eternidade.

Atualmente postos em uma crise de decadência moral e dos costumes, os cristãos desconhecem os sacramentos – batismo, crisma, eucaristia, penitência, unção dos enfermos, ordem e matrimônio –, julgando muitas vezes serem práticas familiares, ou até mesmo supersticiosas, não compreendendo os benefícios, as graças que por meio deles são dispensadas e os auxílios que eles proporcionam para os combates espirituais que todo batizado trava ao longo de sua vida.

Vive-se em um  mundo ávido de paz exterior, mas que não orienta e direciona as almas para um píncaro de perfeição que traria consigo a solução de muitos problemas.

 [1] Cf. CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Eternidade feliz. In: O inédito sobre os Evangelhos. Comentários aos Evangelhos dominicais. Domingos do Advento, Natal, Quaresma e Páscoa, Solenidades do Senhor que ocorrem no Tempo Comum – Ano A. Città del Vaticano-São Paulo: LEV; Lumen Sapientiae, 2013, v. I. p. 111.

[2] Cf. CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Jesus prega em Nazaré. In: O inédito sobre os Evangelhos. Comentários aos Evangelhos dominicais. Domingos do Advento, Natal, Quaresma e Páscoa, Solenidades do Senhor que ocorrem no Tempo Comum – Ano C. Città del Vaticano-São Paulo: LEV; Lumen Sapientiae, 2012, v. VI. p. 43.

[3] Cf. SÃO PIO X. Catecismo Maior. Goiás: Serviço de Animação Eucarística Mariana, 2005, p. 325.

[4] Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. I-II, q. 112, a.1.

[5]Cf. CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O Batismo que conquistou nosso Batismo. In: O inédito sobre os Evangelhos. Op. cit. p. 169.

Diminuto reflexo da Inocência

Ir. Ariane Heringer Tavares, EP

Ao passearmos por um jardim, é frequente nos depararmos com singelas cenas que nos encantam. Será um pássaro colorido bicando frutas e levando alimento para o ninho; será uma abelha a extrair o néctar das flores; ou, ainda, uma fileira de disciplinadas formigas carregando provisões para o inverno. Poucas descobertas, entretanto, são tão agradáveis quanto encontrar uma joaninha sobre as folhas de um arbusto, adornando-o qual pedra preciosa.

Embora pertença à família dos rudes besouros, a graciosa aparência deste diminuto inseto pouco tem em comum com a maior parte deles. Simpática, delicada e de cores brilhantes, quase ninguém se contenta em admirá-la apenas com os olhos… E ao nos aproximarmos, ela não opõe resistência: com suavidade, passa da pétala de uma flor à mão de quem a contempla embevecido.

Apesar de seu aspecto insignificante, a joaninha tem um importante papel na agricultura, pois se alimenta das pragas que costumam atacar as lavouras. Uma bela lenda medieval põe em realce esta qualidade, narrando um fato acontecido quando as plantações de certa região da Inglaterra estavam sendo devastadas por pulgões.

Os camponeses, homens religiosos e confiantes no auxílio da Providência, resolveram fazer uma promessa à Santíssima Virgem, implorando que os livrasse daquela terrível peste. E Nossa Senhora, que nunca deixa de ouvir as súplicas de seus filhos, logo os atendeu de maneira singular: apareceram nos campos nuvens de joaninhas que, seguindo a ordem de seus instintos, exterminaram os nocivos parasitas e salvaram a colheita.

Diz-se que daí provém o seu nome em inglês: Ladybug, ou seja, inseto de Maria, na forma abreviada de Our Lady. Sua denominação em alemão, Marienkäfer, cuja tradução é besouro de Maria, também recorda esta piedosa história. E um canto tradicional sueco a chama de jungfru Marias nyckelpiga, que quer dizer serva da Virgem Maria.

Não obstante, mesmo se deixamos de lado esta encantadora e conhecida legenda, não é difícil percebermos que esta minúscula criatura reflete com candura um aspecto do Autor de toda grandeza. “Quem tem a alma feita para adorar a Deus, está apto também para admirar tanto as coisas maiores como as menores criadas por Ele, encantando-se ao contemplar o Sol, mas também ao olhar para a terra e ver um bichinho”… nossa joaninha!

Se, ao considerarmos uma águia real, de imediato nos vem à mente a majestade do Senhor, que do alto governa e domina a obra de suas mãos, ao vermos a joaninha nos lembramos de que o Altíssimo é também a Inocência, que promete o Reino dos Céus aos pequeninos e Se compraz em revelar-lhes os mistérios de sua sabedoria.

Revista Arautos do Evangelho – Agosto 2015

A vil indiferença

Ir. Letícia Gonçalves de Sousa

Deus, em sua infinita bondade, quis dar aos Anjos o sublime e inexprimível dom de vê-Lo face a face. Mas as grandes graças só se obtêm mediante provas equivalentes ao prêmio prometido.

Foi o que sucedeu aos Anjos. Seres de inteligência tão elevada, de conhecimentos tão profundos e rápidos foram submetidos aos insondáveis desígnios divinos, a algo não cognoscitivo à própria mente angélica. Era uma prova de amor ao Altíssimo. Estariam todos dispostos a isso?

“Eu vi satanás cair do Céu como um relâmpago” (Lc 10,18), diz Nosso Senhor no Evangelho. Houve Anjos que se revoltaram e São Miguel os lançou no inferno, na mansão da desgraça incessante, total e inexpiável.

Ora, alguns Anjos não amaram o bem como deveriam. Acometidos pelo mal da indiferença, da indecisão e da moleza, tentando criar uma atmosfera de falsa paz, uniram-se à revolta. Perderam, assim, a luz, comprando também a morte eterna. São os chamados demônios dos ares.

Segundo Plinio Corrêa de Oliveira “são os demônios que não iniciaram a revolta, mas que se deixaram arrastar, e que, como tais, enquanto sendo menos super-péssimos, não foram desde logo lançados no inferno, só vão ser lançados no fim do mundo. Esses ficam pelos ares, não diretamente tentando para a ofensa a Deus, mas criando um estado de espírito propício para o pecado”.1

Estes são os demônios que mais tentam aos religiosos. Como estes  lutam por trilhar o caminho da perfeição, torna-se difícil ao demônio do inferno tentar diretamente ao pecado.  Então, entram em ação os demônios dos ares, criando um estado de espírito medíocre e indolente diante do grandioso panorama da vocação. Assim, pela falta de radicalidade dos bons,  frustram-se os grandes planos de Deus.

Exemplo contrário nos deram os Anjos fiéis. O total amor ao Bem se transformou em indignação e ódio contra o mal e, consequentemente, redundou num ato de suma fidelidade. Tenhamos, pois, um amor ardente e íntegro ao Bem para que a vil indiferença não nos conduza à nossa própria ruína!

CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Conferência. São Paulo, 21 jul. 1974. (Arquivo IFTE).

Uma decisão, uma vitória

Ir. Juliana Montanari

Cheiro de pólvora, cadáveres por todo o terreno. Um dos capelães do exército francês durante a Primeira Guerra Mundial conta que, numa trincheira, doze soldados discutiam qual seria a decisão a tomar. A maioria optava por se render, pois a tática adotada até então, de avançar de trincheira em trincheira até o campo do adversário, trouxera um resultado desolador: de trinta soldados, agora sobrava apenas uma dúzia. No entanto, para alcançarem o território alemão faltavam somente cinco trincheiras. Os mais entusiasmados, porém poucos, queriam enfrentar os tiros das metralhadoras, mesmo sabendo que provavelmente não chegariam vivos. Ante a possibilidade de serem encontrados pelos inimigos e mortos na trincheira, preferiam morrer em campo aberto. Depois de rápida discussão, um curto silêncio se fez, à espera da decisão do mais velho, pois o comandante da tropa já havia perecido:

No entanto, o  decano, aterrorizado por ver a morte tão perto e a grande responsabilidade pela vida daqueles soldados, sentou-se sem saber o que fazer e disse:

– Escolham um comandante entre vocês, pois não tenho coragem de assumir tal decisão.

Surpreendidos com a resposta, todos voltaram-se para trás e viram um soldado que até aquele momento não havia dado sua opinião. Calado e de joelhos, rezava o rosário. Quem era ele? Um seminarista, que, por lei, estava servindo o exército francês. Admirados, perguntaram sua idade.

– Vinte e dois anos –  respondeu.

Os demais entreolharam-se e concluíram ser ele o mais novo. Por unanimidade, os soldados declararam:

– A partir de agora, serás o nosso comandante. Estamos às ordens!

Levantando-se, o jovem soldado gritou:

–  Avante! Se for da vontade de Deus, morramos como corajosos!

A decisão foi imediatamente cumprida. Todos se lançaram no campo a correr, com os fuzis às costas, até a trincheira seguinte. Colocando as mochilas no peito como escudo, chegaram com alguns ferimentos à barricada, mas salvos. Apenas um ficou para trás: era o mais velho que, por falta de proteção, morreu com um tiro no peito e dois na cabeça…

Lembremo-nos que todos  os nossos atos serão julgados por Deus. Como comentou nosso fundador Mons. João Clá Dias em muitas ocasiões, pode ser que, em determinado momento, a Providência exija de nossa parte um passo decisivo. O que faremos nessa hora? O que dizer àqueles que, talvez, dependerão de nossa atitude ou de nossa palavra? Não façamos como o pobre decano desta história que não recorreu ao auxílio do Céu. Mas, cheios de confiança, unamos nossas ações às de Nossa Senhora e peçamos que Ela atue em nós. Assim, muito mais que salvar a própria vida, como fizeram esses soldados, estaremos conquistando a pátria celeste!

Como o cedro do Líbano…

Ir. Adriana María Sánchez García, EP

Nas regiões montanhosas do Oriente Médio próximas ao Mar Mediterrâneo, Deus convida o homem a contemplar uma beleza natural inteiramente mítica. Encontram-se ali paisagens cheias de mistério e poesia que parecem saídas de uma lenda, nas quais se erguem os famosos cedros-do-líbano. Árvores frondosas e majestosas, cuja folhagem se mantém sempre verde, podem alcançar os 40 m de altura e viver por séculos, atravessando incólumes invernos e verões.

Estes imponentes vegetais suportam bem a seca, mas necessitam da luz e do calor solar para se desenvolverem plenamente. Daí sua preferência pelos cumes dos montes, onde costumam formar florestas puras ou mistas com abetos-da-cilícia, pinheiros-larícios ou algumas espécies de juniperus, por exemplo. Quando se encontram em meio a outras espécies, os cedros levantam-se altaneiros acima delas, levando-nos a pensar naquela plêiade de almas que se sublimam por sua fidelidade e, destacando-se no cenário da História, apontam para o Céu: os Santos.

À semelhança dos cedros, também eles crescem sob a ação do Sol de Justiça, Jesus Cristo, e à medida que progridem na perfeição vão distanciando seu coração das coisas da Terra para fixá-lo nas maravilhas do Céu. Com as raízes bem fundadas na prática dos Mandamentos e na frequência aos Sacramentos, resistem não só às aridezes da vida espiritual, como também às tempestades das provações: “elevar-se-ão como o cedro-do-líbano. Plantados na casa do Senhor, nos átrios de nosso Deus hão de florir” (Sl 91, 13-14).

Ora, se tão excelente árvore representa os justos, com mais razão ainda simboliza Maria, a Rainha de todos os Santos, a quem Se aplica aquela passagem do Eclesiástico: “Elevei-me como o cedro-do-líbano” (24, 17).

Para melhor compreendermos este elogio bíblico, é mister lembrar que a madeira do cedro, aromática e incorruptível, foi utilizada pelo rei Salomão para revestir o interior do Templo de Jerusalém, como descrevem as Sagradas Escrituras: “Dentro do edifício o cedro era esculpido de coloquíntidas e flores abertas; tudo era de cedro; não se via a pedra” (I Rs 6, 18).

De forma análoga, Deus quis construir para Si um Templo esplendoroso e imaculado: desde toda a eternidade, Ele predestinou Maria Santíssima para ser a Mãe do seu Filho Unigênito e A preparou para esta missão, preservando-A da corrupção do pecado e ornando-A de inúmeras graças e privilégios, cujo agradável perfume atrai os bons e afugenta os maus.

A expressiva figura do cedro aplicada a Maria está consignada pela Igreja no belo texto do Pequeno Ofício da Imaculada Conceição, cuja recitação permite aos fiéis exaltar as grandezas de Nossa Senhora e, ao mesmo tempo, experimentar as ¬doçuras de sua maternal bondade. Por isso, ao chamá-La de “Cedro da pureza rara”,1 nesta oração, temos a certeza de que Ela, embora elevada acima de todas as criaturas, Se compadece de cada um de seus filhos e sobre eles Se debruça para alçá-los ao Céu. Pois, se foi Ela o “caminho pelo qual o Altíssimo desceu aos pequeníssimos”, é também Ela “o caminho pelo qual os pequeníssimos podem subir ao Altíssimo”!2

1 CLÁ DIAS, EP, João Scognamiglio. Pequeno Ofício da Imaculada Conceição comentado. 2.ed. São Paulo: ACNSF, 2010, v.I, p.243.

2 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Ladainha de invocações a Nossa Senhora. In: Opera Omnia. Reedição de escritos, pronunciamentos e obras. São Paulo: Retornarei, 2011, v.III, p.411.

 Revista Arautos do Evangelho –  Junho – 2015

Os frutos do recolhimento

Ir Ariane Heringer Tavares

Para que um mestre desempenhe com propriedade o ofício de ensinar, um conferencista realize com sucesso sua exposição, ou ainda um sacerdote obtenha  excelentes frutos espirituais com suas homilias e retiros, é indispensável que haja antes um período de preparação e estudo que os proporcione  um conhecimento mais amplo a respeito daquilo que transmitirão,  podendo, assim, satisfazer a sede de conhecimento dos seus discípulos. Já afirmava São Pio X a respeito das aulas de catecismo as quais, mesmo em meio às inúmeras ocupações pontificais, fazia questão de ministrar: para uma hora de catecismo são necessárias duas horas de estudo.[1] E isto sendo a maior parte dos ouvintes crianças…

No campo humano isto se entende sem muita dificuldade visto que conhecemos as limitações de nossa natureza. Mas,  o Homem-Deus também teria necessidade desta preparação para poder exercer bem sua missão salvadora?

De dentro dos próprios relatos bíblicos, brota-nos a resposta: segundo a narração de São Lucas, Jesus começou a exercer o seu ministério somente por volta dos trinta anos de idade (Cf. Lc 3, 23). Antes disso, porém, viveu na humilde casa de Nazaré, crescendo em graça e santidade, apenas diante de Deus, Nossa Senhora, São José, e algumas almas privilegiadíssimas que, de vez em quando, se encontravam com a Sagrada Família nas estradas da Judéia.

Devido à sua natureza divina, Jesus não necessitava desta vida contemplativa como preparação para seu ministério. Contudo, ao assumir uma natureza como a nossa, tornou-Se nosso modelo e quis demonstrar, através de seus próprios atos, o imenso valor do recolhimento. É como uma arca em que se guarda aquilo que se pensou e que se sentiu, para, no momento oportuno, saber manifestar aos demais por meio de palavras e bons exemplos.

E isto se manifestou de maneira ainda mais enfática quando o Espírito O conduziu ao deserto, onde permaneceu quarenta dias e quarenta noites em oração e penitência, contemplando o grandioso e terrível panorama de sua missão salvadora e obtendo forças para beber o cálice de terríveis sofrimentos que o Pai lhe havia destinado.

 Se estes foram os sublimes exemplos deixados pelo próprio Deus, quanta lição devem deles tirar todos os que desejam que seu apostolado produza plenamente seus frutos!

 

 

[1] SÃO PIO X apud CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Subiremos ao Céu em virtude da Ascenção. O inédito sobre os Evangelhos. Comentários aos Evangelhos Dominicais. Advento, Natal, Quaresma e Páscoa – Ano B. Città del Vaticano – São Paulo: LEV; Lumen Sapientiae, 2014, Op.cit., v. III, p. 359.

Porque muito amou… ( cont )

smargaridacortonaContinuação do post anterior sobre a vida de Santa Margarida de Cortona.

A caminho de Cortona

O passo definitivo estava dado. A graça havia tocado o mais profundo da alma de Margarida, infundindo verdadeiro arrependimento de seus pecados e fortalecendo-lhe a vontade para levantar-se de tão triste estado.

Contudo, por onde começar? Entregou à família do marquês tudo quanto dele recebera, tomou seu filho de sete anos e voltou para Laviano, a fim de buscar refúgio junto ao pai. A cruel madrasta, porém, usou de toda espécie de artimanhas para ela nem sequer entrar em casa.

Abandonada à própria sorte, sem socorro material algum, Margarida se encontrava exposta aos maiores perigos. E o maligno, temeroso de perder sua presa, não tardou em aparecer. “Volta a mim, volta às delícias da vida, dizia-lhe. Tens inteligência, beleza, mocidade; possuirás o amor, e o mundo derramar-te-á ainda na taça todas as divinas ebriedades. Não tens que censurar-te, pois que teus pais te expulsam de sua casa”.4

Com a resolução própria às almas tocadas pelo sopro do Espírito Santo, se opôs à tentação: “Não, não, Margarida, replicou ela, com um tom de sublime energia, não te entregues de novo à ignomínia e ao remorso. Já por muito tempo desonraste a teu Criador, por longos anos fizeste guerra Àquele que te resgatou ao preço do seu Sangue. É chegada a hora de expiares as revoltas e ingratidões. Que importa a miséria? É preferível mendigares o pão a voltares ao mal. Teu pai da Terra te repeliu, teu Pai do Céu te receberá”.5 Mal formulara esta resolução, Margarida ouviu nitidamente uma voz interior a lhe dizer: “Vai a Cortona e coloca-te sob a direção dos frades menores”.6

Sem titubear nem considerar os obstáculos e os quase 30 km a serem percorridos a pé, ela se levantou e pôs-se a caminho.

Prova definitiva do perdão

Chegando a Cortona, foi acolhida pela condessa de Moscari e sua nora, as quais se encarregaram da educação de seu filhinho, que mais tarde se tornou religioso franciscano, e a encaminharam aos frades menores. Ali, um prudente e sábio diretor espiritual, o padre Giunta Bevegnati, passou a assumir o cuidado de sua alma; ele foi também seu mais fidedigno biógrafo.

A misericórdia divina é infinita. “Lavai-me e me tornarei mais branco do que a neve” (Sl 50, 9), cantou Davi penitente. Se o pecador se humilha e reconhece suas culpas, o perdão de Deus chega a extremos inimagináveis, restaurando mais do que foi perdido com a queda. E às vezes isto se dá de forma miraculosamente rápida.

Assim aconteceu com Santa Margarida. O próprio Cristo passou a guiá-la por meio de dons místicos, êxtases e locuções interiores, e de tal modo ela ficou transfigurada pela graça que passou, “de um salto, dos abismos da abjeção aos cimos da beleza moral”.7

No entanto, a dúvida do pleno perdão de seus numerosos pecados afligia seu dolorido coração, pois o Divino Salvador jamais a tratava de Filha, como tanto ansiava, mas sempre de Pobrezinha.

Só depois de uma penosa Confissão geral de toda a sua vida, a qual durou oito dias, Ele passou a tratá-la da forma tão anelada. Ao se aproximar da Sagrada Mesa para receber Jesus Eucarístico, a devoção e afetuosa piedade de Margarida agradaram tanto ao Senhor que Ele a chamou de minha filha, levando-a a suavíssimo êxtase. Ao voltar a si, exclamou: “Oh, infinita e suma doçura de Deus! Oh, dia feliz prometido por Cristo! Oh, palavra cheia de toda ternura, quando Vos dignastes chamar-me vossa filha!”.8 Era a prova definitiva do perdão!

Quis Jesus fazer conhecer sua clemência para com Margarida como um paradigma para todas as almas caídas, declarando: “Dispus que sejas como uma rede para os pecadores. Quero que o exemplo de tua conversão pregue a esperança aos pecadores desesperados. Quero que os séculos futuros se convençam de que sempre estou disposto a abrir os braços de minha misericórdia ao filho pródigo que, sincero, se volta a Mim”.9

“Venceste-me e vencer-te-ei”

Quem sabe medir a gravidade das culpas saberá estimar devidamente o valor incomensurável do perdão. Margarida se sentia inebriada de amor, ao considerar o abismo de comiseração do qual era objeto e, ao mesmo tempo, concebeu um ódio irreconciliável por tudo quanto lhe havia sido ocasião de pecado. Assim, se entregou a uma vida de penitência, a mais rigorosa possível, mostrando um verdadeiro ardor em restituir a seu Criador tudo o que recebera.

Para melhor levar a cabo esta tarefa, rogou aos frades menores para ser admitida como terciária. Foi-lhe exigida, por três anos, uma prova de perseverança, após a qual recebeu com indizível alegria o hábito da Ordem Terceira de São Francisco.

Costumava ela dizer a seu corpo: “Venceste-me e vencer-te-ei”.10 E o castigava com constantes jejuns e vigílias. Tal ímpeto de expiação a levou a encerrar-se numa estreita celinha, onde passava os dias sujeita a dura disciplina: um pedaço de pão e um pouco de água por alimento, o chão duro por leito e uma pedra por travesseiro.

Efeitos maravilhosos da graça

Recebia com frequência a visita de seu Anjo da Guarda, mas era o próprio Jesus Cristo quem falava muitas vezes com ela durante a oração, inundando-lhe a alma com a doçura de sua presença e modelando-a conforme os desejos divinos. A abundância de dons sobrenaturais por ela recebidos transbordava em favor de quantos a rodeavam. Muitos acudiam para pedir ajuda e conselho; a todos atendia, chegando a operar vários milagres.

Uma vez, em Sansepolcro, um espírito maligno apossou-se de um menino com tanta veemência, que três homens adultos não bastavam para detê-lo. Seus pais, desolados, não sabiam a quem recorrer. Decidiram levá-lo a Cortona, pois o próprio possesso dizia que seria libertado “por intercessão e pelos méritos da Irmã Margarida de Cortona”.11

Estavam a caminho, quando, apenas ao avistarem a pequena cidade do alto de um monte, o demônio se pôs em fuga, declarando estar aquele ambiente impregnado das orações e da santidade de Margarida, e isto o queimava como um fogo devorador. Os pais seguiram a viagem para pedir a bênção à Santa, mas ela, como jamais se reconhecia autora de tais prodígios, gemeu ante os agradecimentos recebidos: “Atribuí somente a Deus um milagre a que meus pecados e minhas ingratidões poderiam trazer obstáculos”.12

Com a aprovação do Bispo de Arezzo, a Bem-aventurada fundou nesta cidade o Hospital da Misericórdia, no qual, sob sua direção, formou-se uma comunidade franciscana regular de vida ativa, que tinha “a Ordem Terceira como regra, o véu por grades e o hospital por claustro”.13

A mais eficaz das penitências

Para compreender a vida de Santa Margarida é necessário, entretanto, considerar o papel transformante da caridade, a qual impregnava todos os seus atos. O amor reparador é a mais eficaz das penitências, pois nas chamas da caridade as almas se purificam de suas culpas e se elevam a perfeições insuspeitáveis.

À penitente de Cortona bem se poderiam aplicar as palavras dirigidas por Jesus, no Evangelho, à pecadora que Lhe lavou os pés com as lágrimas e os secou com os cabelos, na casa de Simão, o fariseu: “Seus numerosos pecados lhe foram perdoados, porque ela tem demonstrado muito amor” (Lc 7, 47).

Nos albores de 1297, o Anjo da Guarda lhe revelou estar chegando ao fim sua peregrinação terrena. Com a alma transbordante de alegria, dedicou seus últimos dias a preparar-se para o supremo juízo, confiando-se acima de tudo à divina misericórdia. A cidade de Cortona se comoveu com a notícia de sua breve partida e todos queriam receber seu testamento, “eco de sua confiança no amor: ‘O caminho da salvação é fácil; basta amar’”.14

No dia 22 de fevereiro, depois de ter consumido quase a metade de sua existência numa vida de penitência amorosa, Santa Margarida expirou. Neste momento, um grande contemplativo de Città di Castello viu sua alma elevar-se ao Céu em forma de um globo de fogo, escoltada por numerosas almas que, graças às suas orações e sacrifícios, tinham sido livradas do fogo do Purgatório.

Multidões acudiram para visitar os restos mortais da Santa, e qual não foi a surpresa geral ao ver seu rosto, tão castigado pela penitência, recobrar algo da beleza juvenil, e o leve sorriso nos lábios dava aos presentes a ideia de sua alma haver alcançado a bem-aventurança eterna.

Em 16 de maio de 1728, nas palavras pronunciadas na Missa em que promulgou o decreto de canonização da Santa, Bento XIII traçou um paralelo entre a Madalena do Evangelho e a da Ordem Seráfica: “A mesma queda e as mesmas desordens; iguais os prodígios da graça que atrai uma e outra aos pés do Salvador, as mesmas lágrimas de amor e a mesma sentença de perdão”.15

1 CHÉRANCÉ, Léopold de. Santa Margarida de Cortona. Salvador: S. Francisco, 1928, p.14.
2 MARÍA DE SAN PEDRO DE ALCÁNTARA, MR. Santa Margarita de Cortona. In: ECHEVERRÍA, Lamberto de; LLORCA, SJ, Bernardino; REPETTO BETES, José Luis (Org.). Año Cristiano. Madrid: BAC, 2003, v.II, p.470.
3 CHÉRANCÉ, op. cit., p.21.
4 Idem, p.25.
5 Idem, p.25-26.
6 Idem, p.26.
7 Idem, p.39.
8 MARCHESE, Francesco. Vita di Santa Margarita da Cortona. Napoli: Andrea Festa, 1854, v.I, p.41.
9 MARÍA DE SAN PEDRO DE ALCÁNTARA, op. cit., p.472.
10 CHÉRANCÉ, op. cit., p.35.
11 Idem, p.81.
12 Idem, ibidem.
13 Idem, p.76.
14 MARÍA DE SAN PEDRO DE ALCÁNTARA, op. cit., p.474.
15 BENTO XIII, apud CHÉRANCÉ, op. cit., p.172.