Porque muito amou…

Ir. Ana Lucía Castañeda Ocano, EP

Como Maria Madalena, Margarida também caiu. Mas os mesmos prodígios da graça e as mesmas lágrimas de amor atraíram para ela uma sentença de perdão.

Quem, tendo a oportunidade de ir a lugares ermos, desprovidos de iluminação elétrica, não terá apreciado o maravilhoso espetáculo das estrelas cintilando ao entardecer? Mal se oculta o Sol no horizonte, o céu começa a se revestir de astros coruscantes, com tamanho, intensidade e matizes de cores diferentes, belamente conjugados segundo a magnífica harmonia celeste.

Muito mais digno de admiração é, porém, o vastíssimo firmamento da Igreja triunfante. Nele encontramos a luz clara e forte dos Patriarcas e Profetas, o áureo fulgor dos Apóstolos, o delicado esplendor das Virgens, o rubro reluzir dos Mártires, o chamejar dos Doutores e o brilho incomparável de uma multidão incontável de Santos a resplandecer como sóis por toda a eternidade.

No entanto, esta magnífica sinfonia não estaria completa sem a discreta luminosidade das almas penitentes, como Santa Margarida de Cortona.

Dramática perda da mãe em plena infância

Na segunda metade do século XIII, vivia em Laviano, pequena aldeia da Itália central, a piedosa e modesta família que, em 1247, viu nascer Margarida. Levada à pia batismal bem cedo, a menina logo aprendeu a pronunciar os santos nomes de Jesus e Maria, e aos pés de um Crucifixo repetia esta singela oração aprendida dos lábios maternos: “Senhor Jesus, rogo-Vos pela salvação de todos aqueles por quem desejais ser rogado”.1

Os dias de alegria primaveril, todavia, foram breves. A morte da mãe, tendo ela apenas sete anos de idade, marcou-a profundamente.

Dois anos depois, o pai contraiu segundas núpcias com uma mulher de temperamento ácido e colérico, que nutriu desde o começo uma verdadeira antipatia pela enteada.

Tão significativa perda, em plena infância, e a aversão manifestada pela madrasta deixaram Margarida muito vulnerável aos ataques do inimigo do gênero humano. Transformada numa jovem de beleza singular, à qual se somavam os encantos de uma personalidade viva e graciosa, começou ela a procurar em perigosos divertimentos a felicidade que lhe faltava no lar.

Nove anos de vida licenciosa

Certo dia, passeando ociosamente pelos arredores de sua casa, deparou-se com o marquês del Monte, senhor de Valiano e da vila de Palazzi, em Montepulciano, o qual, deslumbrado por sua beleza, a incitou a acompanhá-lo, oferecendo-lhe uma vida cheia de deleites, com a promessa de um casamento nunca realizado… Semelhante oferta seduziu aquela pobre aldeã de 17 anos, que o seguiu sem refletir. Afinal, a vida parecia sorrir-lhe! Em Montepulciano receberia honras e prazeres, e poderia esquecer-se das amarguras da casa paterna.

Quanto estava enganada! Durante os nove anos de vida licenciosa passados junto àquele fidalgo, seu coração não deixava de censurá-la… Encontrar um lírio branco no campo ou contemplar uma criança inocente nos braços da mãe bastava para aguilhoar-lhe a consciência… No meio dos faustos e dos adornos, sentia a alma suja.

Para abafar os remorsos, dava esmolas com generosidade. E quando os pobres lhe vinham agradecer sua oferta, dizia: “Uma pecadora como eu não merece essas manifestações de respeito”.2 Anos mais tarde, Margarida assim se referia a esta etapa de sua vida: “Em Montepulciano perdi a honra, a dignidade, a paz, perdi tudo, menos a fé”.3 E a partir da fé, tudo é passível de restauração.

Numerosas vezes ela sentiu na alma a moção da graça, convidando-a a abandonar o pecado. Mas sua adesão de vontade a esses impulsos não era suficiente para levá-la a empreender o caminho de volta. Parecia-lhe mais fácil adiar a decisão, com o pretexto de encontrar-se na flor da juventude…

Em um instante percebeu a fugacidade da vida

Um dia, estando em Palazzi, Margarida permaneceu em casa, enquanto seu desditoso companheiro saía para resolver uma questão com uns proprietários vizinhos, levando o garboso galgo que nunca o abandonava. As horas se passaram e o infeliz não voltava. Transcorridos dois dias, apareceu o fiel animal. Uivava desesperadamente, lambia a mão de sua dona e procurava arrastá-la pelo vestido, como se dissesse: “Vem comigo”.

Com um mau pressentimento, Margarida o seguiu pelo bosque de Petrignano. Ao chegarem debaixo de um carvalho, o cão se deteve, latindo lugubremente. Havia ali uns ramos arrancados e amontoados em desalinho. Afastando-os, encontrou o cadáver do marquês com feridas horríveis, já em putrefação. Decerto fora assaltado e apunhalado.

Qual terá sido a impressão da jovem, ao ver tão espantoso espetáculo? Num primeiro impulso, execrou a maldade dos assassinos, mas em seguida se lhe afigurou na mente a cena do supremo tribunal divino, no qual a misericórdia nem sempre consegue triunfar da justiça…

Em um instante percebeu a fugacidade da vida: juventude, prazeres e beleza desaparecem como o vento! A lembrança da infância lhe veio ao espírito, carregada do doce aroma da fé e da alegria brindada pela inocência. Ante a gravidade daquele fato, a mudança de vida se apresentou não mais como uma louvável alternativa, senão como uma exigência a ser atendida de imediato.

A caminho de Cortona

Continua no próximo post.

Agitação: o extremo oposto da contemplação

Ir. Ariane Heringer Tavares, EP

Após o pecado original e o consequente enfraquecimento da natureza humana, a inquietação do espírito pode derivar-se da desordem das paixões, fascinadas por algo que não é lícito. Mas, há outro fator: “o demônio, vosso adversário, anda ao redor, como um leão que ruge, buscando a quem devorar” (I Pe 5, 8). Inúmeras vezes, é ele quem provoca na alma estados de perturbação, aguçando ainda mais as más tendências. Como Lúcifer e seus sequazes não cumpriram a finalidade para a qual foram criados, por se terem revoltado contra Deus, buscam a todo custo a mesma desgraça para os homens com o intuito de privá-los das alegrias da eterna contemplação.

São Francisco de Sales qualifica o frenesi como o maior mal que pode sobrevir à alma, depois do pecado:

Porque assim como as perturbações e sedições interiores de uma república a arruínam por completo e a embaraçam a ponto de que não possa resistir ao estrangeiro, assim o nosso coração, estando perturbado e inquieto em si mesmo perde a força de conservar as virtudes que tinha adquirido e ao mesmo tempo o meio de resistir às tentações do inimigo. [1]Com efeito, o demônio procura exacerbar essa debilidade, utilizando-se da agitação constante, especialmente propagada com a Revolução Industrial.

Revolução Industrial: a embriaguez da agitação

É inegável que o desenvolvimento da tecnologia e da ciência geram inúmeros benefícios e facilidades para a sociedade contemporânea. Com efeito, seria um absurdo se, ainda nos dias atuais, as cirurgias fossem realizadas sem o uso de anestésicos, se para o envio de uma carta fossem utilizados os famosos “pombos-correio” ou, para deslocar-se de um país para outro, não houvesse outro meio senão empreender uma longa viagem marítima ou a cavalo.

Entretanto, muitas vezes, pelo mau uso de tais tecnologias e máquinas, surgem problemas bastante complexos, cuja existência talvez nem seria cogitada em épocas anteriores. Um efeito devastador desse mau uso foi o fato de esse espírito prático, fortemente tendente à velocidade, à agitação e, consequentemente, ao esquecimento do sobrenatural, ter penetrado na alma humana e afetado todo o seu modo de ser.

A máquina — a “alma” de quase toda técnica — tende a sujeitar inteiramente a seu ritmo mecânico todo o trabalho humano. E mais do que o trabalho as diversões, a vida de família, toda a existência. Em todos os domínios, o homem vai se utilizando cada vez mais largamente da máquina, e aceitando adaptar-se a ela, para fruir as vantagens que ela proporciona. Nestas condições, a influência da máquina tende a penetrar nas esferas mais delicadas e mais altas da vida humana, isto é, tende a criar um estilo de vida, um modo de conceber os problemas e de os resolver, uma mentalidade enfim, inteiramente mecanizada. Homens estandardizados, com ideias e gostos padronizados, imersos num estado de espírito de um tédio sombrio, displicente, pesado, cheio de fadiga, interrompido apenas pelas excitações delirantes do cinema, da televisão, do rádio, ou das “torcidas” esportivas.[2]

Até o século XIX, podia-se afirmar que a maior parte das pessoas ainda levava uma vida muito estável, penetrada, em muitos aspectos, pelos costumes tradicionais e carregados de simbolismo das civilizações anteriores. Contudo, o surgimento das indústrias e a realização de tantos avanços científicos e tecnológicos contribuiu decisivamente para que se operasse uma mudança radical nas mentalidades e no modo de viver de toda sociedade. O “progresso” e o “desenvolvimento”, tão difundidos desde o final do século XVIII, prometiam uma era de paz e segurança, na qual o homem seria o rei absoluto de si mesmo e de suas ações.

Essa brusca transformação da cultura e dos ambientes causada pela Revolução Industrial exerceu uma profunda ação sobre as tendências humanas, pois “os ambientes [o mesmo pode ser aplicado à cultura], na medida em que favorecem os costumes bons e maus, podem opor à Revolução as admiráveis barreiras de reação; ou […] podem comunicar às almas as toxinas e as energias tremendas do espírito revolucionário”, [3] que incentivam a revolta das paixões.

Com as tendências amortecidas, torna-se mais fácil ao homem a aderência aos fatos que se concretizam depois. Por isso, ao longo do processo de industrialização, rapidamente se consolidou e difundiu o mito de que o homem, por si só, era capaz de produzir coisas extraordinárias e numerosas, independentes de Deus. O otimismo contaminou de tal maneira os espíritos que despertou neles uma crescente apetência de fruição e um verdadeiro horror ao recolhimento e ao sacrifício.

Pode-se acrescentar ainda a ação do demônio que, aproveitando-se deste estado de espírito reinante, começou a propagar a ideia de que a máquina e a velocidade podem proporcionar ao ser humano a plenitude do gozo, dando a entender que “a excitação era a única forma de gozar a vida”.[4]

O desejo da novidade passou a ser, então, o dogma da sociedade contemporânea, levando o homem a se cansar rapidamente das coisas, querendo continuamente substituí-las por outras, o que o tornou incapaz da estabilidade e, portanto, do estado espírito exigido pela contemplação. Esta, junto com muitas outras práticas da Religião, foi sendo cada vez mais relegada a um segundo plano, até se dissociar completamente da vida cotidiana:

No fundo, tratava-se de um laicismo que não consistia apenas em silenciar os temas referentes a Deus e ao mundo sobrenatural, mas em apresentar uma visão das atividades do homem diante da qual a Religião era considerada uma coisa com la quale o senza la quale il mondo va tale e quale[com a qual ou sem a qual o mundo continua tal e qual].[5]

Quebrava-se assim, de forma mais ou menos explícita, a necessidade da relação que deve existir entre as criaturas contingentes e o Criador, resultando no mundo pragmático e materialista de nossos dias.

De fato, aquilo que satanás promete, é exatamente o que vai tirar: as promessas de paz e segurança. Basta frequentar qualquer um dos grandes centros urbanos do mundo contemporâneo: em vez de paz, encontra-se agitação; em vez de realização, frustração e infelicidade quase irreversíveis. A alma que voluntariamente se entrega a este estado de espírito se expõe a receber constantes influências malignas.

[…] há um barulho, um ruído ensurdecedor no mundo que seduz as pessoas e estas, em tais condições, não escutam a suave voz do Divino Mestre. Esse barulho, embora possa ser tomado no sentido material da palavra, antes de tudo significa o tumulto das paixões humanas desordenadas que nos levam a agir e a nos movimentarmos de maneira igualmente desordenada. Donde uma espécie de perturbação difusa nas grandes cidades, uma agitação da vida moderna e seus acontecimentos, que embriagam e fascinam imensa parcela dos habitantes dos maiores centros urbanos. Ora, enquanto houver numa alma esse deleite com o tumultuar do século, algo da delicada voz de Nosso Senhor Jesus Cristo não chegará até ela. Nesta sua lamentável surdez irão esbarrar e se deter as inspirações da graça.[6]

Como diz a Sagrada Escritura: “Non in commotione Dominus” (Vulgata: III Rs 19, 11) — “O Senhor não está na agitação”— e nem pode ser causa dela.

________________________________________
[1] SÃO FRANCISCO DE SALES. Introdução à vida devota. 5.ed. Porto: Porto Médico, 1948, p.270.
[2] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Vida mecânica, vida natural. In: Catolicismo. São Paulo, n. 55, jul. 1955, [s. p.].
[3] Id. Revolução e Contra-Revolução. 5. ed. São Paulo: Retornarei, 2002, p.85.
[4] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Notas Autobiográficas. São Paulo: Retornarei, 2010, v.II, p.103.
[5] Ibid. p.107.
[6] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. O partido de Jesus e o do mundo. In: Dr. Plinio. São Paulo: ano XI, n. 118. jan. 2008, p. 12.

38 horas no Purgatório? Ou 38 anos na Terra?

Ir. María José Vicmary Féliz Gómez
2º ano de Ciências Religiosas

Era 14 de abril de 1433, Páscoa da Ressurreição. Grande parte do povo de Shiedam, na Holanda, reunia-se diante da casa de uma moribunda.

– O que está acontecendo? – perguntou um viajante.

– É Ludovina. Hoje se completam trinta e oito anos de seu martírio.

– Ludovina? Eu já ouvi esse nome… Sempre achei que fosse uma lenda… Dizem que ela está sobrevivendo há sete anos só com a Sagrada Comunhão. Não consigo acreditar…

– Meu caro senhor, eu também não acreditava – respondeu com ar grave um homem que ouvira o diálogo. Há doze anos, tomei a decisão de acabar com a fama de santidade desta mulher, que eu julgava ser uma farsante. Passei dias e noites junto ao seu leito de dor, com a esperança de confirmar minhas suspeitas. No entanto, foi ela quem me confirmou na fé: agora não só acredito no poder da Eucaristia, como também confesso firmemente as virtudes heroicas de Ludovina.

– O senhor a reconhece então como uma santa? Pode explicar-me, por favor, a razão de tão ousada afirmação? – replicou o viajante.

– Até os quinze anos – começou o interlocutor – ela levou a vida comum das moças de sua idade. Porém, sofreu uma queda patinando no gelo e, como consequência, sua coluna vertebral quebrou-se, transformando sua vida inteiramente: paralisia completa, cegueira, contínuos vômitos, enxaquecas, febres, nervos inflamados e um abcesso dolorosíssimo no ombro esquerdo.

– Meu Deus! É um verdadeiro purgatório em vida! – exclamou assombrado o visitante.

O devoto continuou:

– Nós não fazemos ideia do que é o Purgatório. Ludovina tampouco o sabia e lamentava-se continuamente por Deus ter permitido tão horrível martírio. Foi assim até a noite em que Nosso Senhor lhe apareceu em sonho e fez-lhe uma proposta: “Como expiação dos teus pecados, o que preferes: trinta e oito horas no Purgatório ou trinta e oito anos sofrendo como estás?” E ela respondeu sem titubear: “Senhor, prefiro trinta e oito horas no Purgatório!”. Nessa mesma hora, Ludovina sentiu que morria, e começou a padecer os atrozes tormentos do lugar de purificação.

Sem embargo, vendo que as horas se escoavam e seu padecimento não terminava, aproveitou a passagem de um Anjo e perguntou-lhe:

– Por que Nosso Senhor não cumpriu o contrato feito comigo? Acho que já se passaram três mil e oitocentas horas…

O Anjo lhe respondeu:

– Crês que estás aqui há três mil e oitocentas horas? Não faz nem sequer cinco minutos que morreste! Teu corpo ainda está quente!

Aterrada, Ludovina implorou a Jesus: “Senhor, prefiro passar trinta e oito anos sofrendo como antes a ficar mais um instante neste lugar!” Nesse momento, ela acordou. A partir de então, nunca mais se queixou de seus sofrimentos. Ao contrário, amou tanto sua cruz que passou a repetir frequentemente: “Senhor, é tão séria a vossa justiça e eu a amo tanto que, se me bastasse rezar uma pequena oração para ficar curada, eu não a rezaria”.

Impressionado, o viajante caiu de joelhos. A luz que se encontrava acesa na casa apagou-se nesse momento, anunciando ao povo a partida de Ludovina para a eternidade. E dos lábios daquele que até há pouco fora um incrédulo, brotou este ato de fé: “Santa Ludovina, rogai por nós, para aprendermos a amar nossa cruz e, sobretudo, para crescermos no amor Àquele que por nós tudo sofreu!”.

No ano de 1890, o Papa Leão XIII oficializou o culto a Santa Ludovina, declarando-a padroeira dos patinadores e dos doentes.

É necessária a intercessão dos Santos?

Ir.Lays Gonçalves de Sousa, EP

Ao longo do percurso pela montanha da santificação, encontramos incontáveis obstáculos, tanto por nossa fraqueza quanto pelas investidas do demônio. Em determinadas circunstâncias parecer-nos-á impossível prosseguir caminho tão árduo, pois mesmo a oração aparentará não ter valor. Às vezes, estando próximos do píncaro onde nos será possível contemplar as magnificências de Deus, desencadeia-se uma tempestade violenta, as pedras do caminho tornam-se mais escorregadias e uma avalanche de misérias quererá derrubar-nos. A quem recorrer nestas ocasiões?

Se voltarmos os olhos ao cume da montanha, facilmente veremos aqueles que, tendo combatido o bom combate e não desistindo da luta, gozam da luz puríssima que de Deus irradia. Contemplando tamanha bem-aventurança, que fazer senão pedir-lhes que nos estendam a mão e nos levem a desfrutar dos mesmos benefícios?

Deus constituiu os Santos como mediadores dos homens e, por isso, é utilíssimo suplicar-lhes o auxílio. “Somos obrigados também à intercessão dos santos, para observar a ordem que Deus estabeleceu sobre nossa salvação, isto é, que os inferiores se salvem, implorando o auxílio dos superiores”.1

Podemos, também, gozar da intercessão dos santos vivos, como ensina Santa Teresa: “É de grandíssima vantagem para uma alma que se dá à oração tratar com os que deveras servem a Deus. […] De tanto conversar com eles, resulta trazê-la para onde estão”.2

Aos poucos estas santas almas nos conduzem ao patamar tão desejado e acabam por nos fazer exercitar a humildade, visto que, sem as súplicas destas não ousaríamos avançar.

A comunicação espiritual com aqueles que já estão desapegados de tudo é de enorme proveito para conhecermo-nos a nós mesmos. Além disso, dá-nos muito ânimo vermos praticados por outros, com tanta suavidade, sacrifícios que nos parecem impossíveis de abraçar. Vendo seus altos voos, nós nos atrevemos a voar também, do mesmo modo que os filhotes das aves o aprendem. Embora não se arrisquem logo a dar grandes voos, pouco a pouco imitam seus pais.3

Se os santos possuem audiência na corte celeste a ponto de poderem salvar inúmeras almas, que dizer d’Aquela que é a Aurora e esplendor da Igreja Triunfante, a Medianeira Onipotente?

Reservamos, portanto, ao próximo post, o papel de Nossa Senhora enquanto Intercessora e Advogada infalível daqueles que a Ela recorrem com verdadeira confiança, por meio da oração.

1 SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO. A Oração. Trad. Henrique Barros. 24. ed. São Paulo: Santuário, 2012. p. 37.
2 SANTA TERESA. Castelo interior ou Moradas. 11. ed. São Paulo: Paulus, 2003. p. 45.

3 Ibid. p. 67.

Nossa Senhora Aparecida

Letícia Costa
1º ano de Ciências Religiosas

Aparecida… Nome que traz à mente de todo brasileiro a doce lembrança da Santíssima Virgem. Lembrança da demonstração de amor e predileção dEla por esta terra de Santa Cruz.

Há 298 anos, três pescadores lançavam suas redes no Rio Paraíba, com a esperança de apanharem peixes e, assim, atender ao pedido feito pela Câmara Municipal. Estupefatos, retiraram apenas um pequeno objeto, do qual notaram faltar uma parte. Novamente lançando as redes, recolheram das águas a parte que faltava e perceberam tratar-se de uma imagem da Mãe de Deus.

Logo após a milagrosa pesca, a devoção espalhou-se com impressionante rapidez. Incontáveis milagres sucederam desde então, dentre os quais podemos citar a história de um homem sem fé e com ódio da Santa Religião que partiu de Cuiabá (MT) com a intenção de entrar na igreja montado em seu cavalo e derrubar a Virgem do altar que ocupava. Qual não foi a surpresa do malfeitor quando, ao chegar às escadarias do local, viu-se impedido de avançar, pois as patas do cavalo ficaram presas nas pedras!

Entretanto, no ano de 1978, a pequena imagem foi alvo de uma brutal profanação por um membro da religião protestante. Tomado de ódio, o rapaz esperou que a atenção de todos os que estavam na Antiga Basílica se voltasse à Santa Missa, que estava sendo celebrada naquele momento, para só então atacar o nicho onde se conservava a imagem e agarrá-la. Na tentativa de fugir em posse dela, foi derrubado por guardas da Basílica. Deu-se então o triste incidente: caindo ao chão, a imagem partiu-se em pedaços.

Após um árduo trabalho de restauração, a imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida foi novamente levada à Basílica para veneração dos fiéis.

Justamente esse título “da Conceição”, tão esquecido pela maioria das pessoas, é que nos dá um aspecto importante da devoção. O professor Plinio Corrêa de Oliveira, grande devoto da Santíssima Virgem, em uma conferência de 12 de outubro de 1970, afirma: “exatamente a partir do aparecimento dessa imagem, um século inteiro antes da definição dogmática, foi o Brasil colocado sob o patrocínio da Imaculada Conceição. Isso indica um chamado especial da Mãe de Deus para nossa Pátria e é motivo de imenso júbilo para todos os brasileiros devotos da Santíssima Virgem”.

Vê-se nisso que Ela quis, não só mostrar sua presença junto a nós, mas também indicar que tem desígnios especiais para o país. Além disso, é um sinal de como devemos ser devotos mais fervorosos de tão boa Mãe, que quis que o Brasil fosse consagrado a um de seus maiores atributos. Reflitamos, pois, neste 12 de outubro, como temos correspondido à tão pródiga demonstração de afeto dAquela que é a mais perfeita das criaturas, e peçamos a graça de amá-La sempre mais.

É possível sentir Jesus na Comunhão?

Bruna Almeida Piva

Eucaristia

Nosso Senhor Jesus Cristo está verdadeiramente presente no Santíssimo Sacramento. Porém, não O está sensivelmente, ou seja, não O podemos ouvir, ver ou tocar, pois está oculto sob as sagradas espécies. Deus assim quis para que, pelos méritos da fé, obtivéssemos a salvação eterna.

Imaginemos se isto não fosse assim, e se Nosso Senhor Se fizesse perceptível aos nossos sentidos; se nós pudéssemos ver, por exemplo, “um pequeno movimento de sua mão divina, e observar seu pulso, considerando que ali pulsa o Sagrado Coração de Jesus, uma vez que a pulsação do Coração se reflete nas veias”[1]; ou se pudéssemos ouvir sua santa voz, grave, séria e muito suave ao mesmo tempo, nos dizendo palavras de consolação, ou mesmo de correção. Que respeito, que júbilo, que alegria não teríamos em relação a esse sublime Sacramento!

Ora, Nosso Senhor está na Hóstia; nós não O vemos, mas cremos. Ao chegar a hora da comunhão na Santa Missa quantas vezes pensamos: “Agora vou comungar, e Jesus vai estar realmente presente em mim. Será que Ele não vai me dizer nada?” Sim! No interior de nossas almas, Ele dirá: “Meu filho, quando dois estão juntos, um sente o outro. Será que quando Eu estou em ti não sentes nada? Ouve a linguagem silenciosa de minha presença, que não te fala aos ouvidos. Presta atenção em Mim! Eu estou em ti, a graça te fala. Tu não sentes nada?”[2]

Já dizia um sábio sacerdote do século XIX: “Voz de Cristo, voz misteriosa da graça que ressoais no silêncio dos corações, vós murmurais no fundo das nossas consciências palavras de doçura e de paz”.[3] É um silêncio que diz muito mais que mil palavras; “é algo que comunica luz, amor, força. E permanece em nossa alma, embora para muitos pareça ser passageiro”.[4] Apesar de não O podermos perceber através dos sentidos, Ele não deixa de nos falar à alma, e de nos enriquecer com Sua presença. A cada comunhão que, pelos rogos de Maria Santíssima, recebemos, a inteligência se torna mais perspicaz para os assuntos da fé, o amor a Deus e ao sobrenatural cresce, e nossas forças para vencer as tentações e fazer sacrifícios, assim como a vontade de lutar contra nossos pecados e más inclinações, se multiplicam por si mesmas.[5]

Nesta vida, pode nos ser uma provação o fato de não podermos ver a Nosso Senhor na Eucaristia. Porém, se ficarmos firmes na fé, e formos ardorosos devotos desse sublime Sacramento, na vida futura isso nos será motivo de grande alegria, como diz São Pedro: “Deste modo, a vossa fé será provada como sendo verdadeira,mais preciosa que o ouro perecível, que é provado no fogo, e alcançará louvor, honra e glória, no dia da manifestação de Jesus Cristo. Sem ter visto o Senhor, vós o amais. Sem o ver ainda, nele acreditais. Isso será para vós fonte de alegria indizível e gloriosa, pois obtereis aquilo em que acreditais: a vossa salvação”. (I Pd 1, 7-9)

Sejamos assíduos frequentadores das Santas Missas, fervorosos “ouvintes” das misteriosas vozes divinas que clamam em nós, seja em meio às consolações ou durante as provações, e, no Céu, poderemos, enfim, ver, sentir e até mesmo abraçar a Nosso Senhor Jesus Cristo durante toda a Eternidade.

________________________________________
[1] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. A Eucaristia, eixo da piedade católica. Dr. Plinio, São Paulo, n. 156, mar. 2011, p. 30.
[2] Cf. Loc. cit.
[3] SAINT-LAURENT, Thomas de. O livro da Confiança. São Paulo: Teixeira, [s. d.], p. 9.
[4] CORRÊA DE OLIVEIRA. Op. cit., p. 30.
[5] Cf. Loc. cit.

Que venha o Reino de Cristo e o Reino de Maria!

Caroline Fugiyama Nunes

Das profundas trevas do pecado, entregue à mercê de sua própria concupiscência e paixões desenfreadas, parecia estar a humanidade regida pelo “príncipe” das trevas, ou seja, o demônio. Após longos séculos de gemidos, à espera de um Libertador, Deus enviou ao mundo seu Filho Primogênito em resgate desta humanidade extraviada de seu único Senhor e Deus.

Analisando o agir de Deus no decorrer da História, pode surgir em nosso espírito a seguinte questão: por que teria Deus permitido que houvesse na obra da criação o pecado? Não teria sido melhor criar um mundo onde este não existisse, e no qual todos fossem, portanto, santíssimos e perfeitos? Teria Deus errado ao criar este mundo?

Quão infeliz e errado estaria quem assim pensasse! Partindo do princípio de que tudo o que Deus faz é perfeito, tendo ele criado um mundo onde houve o pecado, era o que havia de melhor e mais santo.

Nossa_Senhora Joao_cla_diasAfirmam os teólogos que se não tivesse havido o pecado de nossos primeiros pais, o Verbo Eterno não teria tomado nossa mesma carne. E concluem que, embora o pecado tenha sido um mal, significou uma grande vantagem para o homem. Por isso, a Liturgia canta no Sábado Santo: “O felix culpa, quae talem ac tantum meruit habere Redemptorem!” — “Ó culpa tão feliz que há merecido a graça de um tão grande Redentor!”. 1 Quer dizer, sem a culpa original não teríamos a felicidade de possuir o próprio Deus Encarnado como nosso Salvador.

Devemos, então, reconhecer que a Encarnação do Verbo é a o episódio culminante da História da humanidade, que a dividiu em dois: um antes e um depois.

Quiçá, sem a Encarnação e a Redenção não teríamos provas tão palpáveis do extremo e ilimitado amor de Deus por nós. Maior prova de amor do que esta jamais houve e nem haverá. Tal magnífica obra de bondade e misericórdia não teria seu esplendor e não se poria tão em manifesto aos homens, como o foi tendo havido o pecado. E, sobretudo, não teríamos uma Mãe e Advogada agindo em nosso favor ― pecadores que somos ―, como medianeira entre Deus e os homens, Maria Santíssima.

Segundo Garrigou-Lagrange: “a encarnação do Verbo fortifica, assim, grandemente, a nossa fé, nossa esperança, nossa caridade, nos dá o exemplo de todas as virtudes e, sobretudo, é o princípio, na santíssima alma de Jesus, de um ato de amor redentor, que agrada mais a Deus do que todos os pecados podem desagradar-lhe. […]. Verdadeiramente, podemos, com uma profunda gratidão, dizer como São Paulo: “Deus que é rico em misericórdia, pelo grande amor com que nos amou, e estando nós mortos pelos nossos delitos, nos deu vida por Cristo, por cuja graça haveis sido salvos”. 2

Portanto, mais do que uma mera reparação, a Encarnação e a Redenção foram por onde o verdadeiro Reino de Deus foi triunfalmente trazido à face da Terra: “eis que o Reino de Deus está no meio de vós” (Lc 17, 21).

E este Reino se mantém entre nós pela presença de seu Corpo Místico, do qual todos os batizados fazem parte como membros vivos: a Santa Igreja Católica Apostólica Romana. “Ela reluz tudo quanto há n’Ele, quando visto na sua autenticidade […]. Ver a Santa Igreja Católica é ver Nosso Senhor Jesus Cristo” 3. É nela que estão entesourados os benefícios da Redenção; é por sua influência “que nascem todas as condições para uma sociedade virtuosa” 4 fazer cumprir nesta Terra o pedido de todos os cristãos há dois mil anos: “seja feita a vossa vontade, assim da Terra como no Céu” (Mt 6, 10).

Entretanto, se por culpa dos próprios homens que se deixam levar por suas “leis contraditórias” este pedido ainda não se realizou em sua perfeição nesta Terra, o mistério de amor da Redenção nos leva a crer que dia virá em que seus frutos atingirão a plenitude e a graça fará aquilo que a natureza por si mesma não é capaz: “onde abundou o pecado, superabundou a graça” (Rm 5, 20). E se Cristo quis vir ao mundo para trazer a salvação e a graça por meio de Maria Santíssima, é também por Ela que Ele quer reinar nos corações dos homens.

Adveniat Regnum Christi, adveniat Regnum Mariae!

1 LITURGIA DA RESSURREIÇÃO DO SENHOR. Vigília Pascal. In: MISSAL ROMANO. Trad. portuguesa da 2a. ed. típica para o Brasil realizada e publicada pela CNBB com acréscimos aprovados pela Sé Apostólica. 9. ed. São Paulo: Paulus, 2004. p. 275.

2 GARRIGOU-LAGRANGE, Réginald. El Salvador y su amor por nosotros. Trad. José Antonio Millán. Madrid: Rialp, 1977. p. 170.

3 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. O Patriarcado e o Sagrado Coração de Jesus: Conferência. São Paulo, 11 jan. 1986. (Arquivo IFTE).

4 Loc. cit.

Bem e felicidade

Ir. Juliane Vasconcelos Almeida Campos, EP

Fr. Garrigou-Lagrange afirma que a busca da própria finalidade é a tendência de tudo o que existe, “desde o grão de areia até Deus. Nossa inteligência conhece sua própria finalidade: julgar em conformidade com a natureza e com a existência das coisas e elevar-se à sua Causa primeira e a seu Fim último”. 1

Fototropismo_Essa tendência da busca de seu fim pode ser natural e inconsciente, sem sensibilidade nenhuma, como ocorre com os seres sem razão: um ser mineral, por exemplo, sempre tenderá para o centro da Terra, para sua estabilidade. Ou com sensibilidade vegetativa, como as plantas tendem para a luz e o calor do Sol; ou ainda com certo conhecimento sensível, como os animais que buscam alimento e defendem a própria vida, protegendo-se e evitando os perigos, que para eles constituem o contrário do bem ao qual tendem. Já os seres inteligentes devem querer seu fim de modo racional. Por isso, segundo São Tomás, no homem, “as coisas para as quais tem inclinação natural, a razão apreende como bens e, em consequência, como algo que deve ser buscado. E o contrário destas são como males, que devem ser evitados”. 2

Como ser racional, o homem é dono de seus atos, age pela razão e pela vontade, e estas faculdades atuam segundo seu livre-arbítrio. A busca do bem como seu fim é, portanto, o princípio do agir humano. E como o bem próprio e fim último dos seres inteligentes é a felicidade, o fim das ações humanas tem que ser a felicidade, 3 busca do homem de todos os tempos, meta moral, de caráter metafísico-antropológico, ou bem-aventurança. É esta a aquisição ou gozo do Bem Absoluto, o Sumo Bem. 4 Tal felicidade que o homem busca com desejo infinito não é senão Deus. Com razão diz o Catecismo da Igreja Católica: “O desejo de Deus está inscrito no coração do homem, já que o homem é criado por Deus e para Deus; e Deus não cessa de atrair o homem a si, e somente em Deus o homem há de encontrar a verdade e a felicidade que não cessa de procurar” (CCE 27).

É por isso, diz ainda o Fr. Garrigou-Lagrange, 5 que quando a criança chega ao uso da razão, tem a intuição simples do primeiro princípio da lei moral: “É preciso fazer o bem e evitar o mal”, pois este é o oposto de seu anseio primeiro, a felicidade. Ele faz uso das próprias palavras de São Tomás:

Assim como o primeiro olhar da inteligência especulativa leva ao ser, a do entendimento prático leva ao bem. Pois todo agente obra por um fim, que é um bem. E, portanto, o primeiro princípio da razão prática está fundado na noção de bem. E se expressa assim: é preciso fazer o bem e evitar o mal; este é o primeiro preceito da lei natural, sobre o qual se fundamentam todos os demais. 6

coracao_Jesus_arautosTão elevada ideia tem São Tomás deste primeiro olhar da inteligência sobre o bem, que, segundo ele, fica justificada a criança não batizada, educada entre os pagãos se, ao chegar ao pleno uso da razão, ama um bem honesto em si superior, mais do que a ela mesma, afirma Fr. Garrigou-Lagrange. 7 Por quê? Porque assim ama a Deus, autor da natureza e soberano Bem, confusamente conhecido; amor eficaz, que em estado de queda não é possível senão pela graça que eleva e cura. 8 E vai mais além, ainda, com uma audácia admirável: “Quando começa a ter o uso da razão, o primeiro que o homem deve fazer é deliberar sobre si mesmo. E, se ordena sua vida ao devido fim, ao verdadeiro bem (amando eficazmente o bem honesto mais que a si mesmo), recebe pela graça a remissão do pecado original”.9 Esta é uma das formas do batismo de desejo, porque manifesta uma misteriosa luz sobrenatural, suficiente para um ato de fé sobrenatural e para a infusão da graça santificante e da caridade, sem as quais não seria perdoada a culpa original.10

Estes princípios todos são chamados de primeiros e são indeléveis, não podem ser apagados do ser do homem. Contudo, os desejos desordenados e as paixões desequilibradas da natureza humana podem aplicá-los mal ou fazer mau uso deles. Mas é preciso uma racionalização ― ou seja, dar uma justificativa racional ―, para permitir que a transgressão seja aceita pela própria inteligência. Por isso é impossível ao homem fazer o mal pelo mal. Sempre precisa dar-lhe uma aparência de bem, para que todo o seu ser se lance, como a realização e o encontro com seu próprio fim. E, mesmo assim, no caso de uma transgressão racionalizada, esta noção genérica e verdadeira de bem ainda permanecerá em uma espécie de “câmara obscura” da alma. De maneira que, aos poucos, pode-se trabalhar esta ideia esquecida, por exemplo, no contato com alguém virtuoso, em quem se encontra o bem “encarnado”. Nesse contato, o transgressor pode sentir a necessidade, então, de ir à la recherche d’une notion perdue. É por onde, muitas vezes, pessoas entregues ao vício podem vir a regenerar-se, revertendo o processo. 11

1) GARRIGOU-LAGRANGE, Réginald. El realismo del principio de finalidad. Buenos Aires: Desclée de Brouwer, 1947, p. 11.
2) TOMÁS DE AQUINO, Santo. Suma Teológica, I-II, q. 94, a. 2. Do ser ao Ser: um encontro com Deus
3) A esse respeito, ver: Id. Suma Teológica, I-II, q. 1, a. 1; Suma contra os Gentios, lib. I, c. 100, n. 2-3.
4) Cf. Id. Suma Teológica. I-II, q. 3, a. 1; ad 2.
5) Cf. GARRIGOU-LAGRANGE. El sentido común: la filosofía del ser y las fórmulas dogmáticas. Op. cit. p. 336-338.
6) TOMÁS DE AQUINO, Santo. Suma Teológica, I-II, q. 94, a. 2.
7) Cf. GARRIGOU-LAGRANGE. El sentido común: la filosofía del ser y las fórmulas dogmáticas. Op. cit. p. 338.
8) Cf. TOMÁS DE AQUINO, Santo. Suma Teológica, I-II, q. 109, a. 3, co.
9) Ibid. q. 89, a. 6.
10) Cf. GARRIGOU-LAGRANGE. El sentido común: la filosofía del ser y las fórmulas dogmáticas. Op. cit. p. 339.
11) Cf. CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Primeiro olhar e inocência. São Paulo, 29 maio 1974. Palestra. (Arquivo IFAT).

Texto extraído da revista Lumen Veritatis – Vol. 6 – Nº 22 – Janeiro a Março – 2013

O caminho de dor anuncia a vitória

Ir. Rafela Grossi, EP
1º Ano de Ciências Religiosas

S_Joao_Batista

Muitos já devem ter ouvido falar de cristãos que morreram por não quererem negar a Religião Católica. Não será que cometeram uma imprudência com tal atitude? Devemos analisar, antes de tudo, o seguinte: qual era o objetivo de suas entregas? Por quem arriscavam a vida? O que os levava a superar o próprio instinto de conservação?

Voltemos a atenção sobre um comentário de Santa Teresinha do Menino Jesus: “O amor nutre-se de sacrifícios. Quanto mais a alma se nega às exigências da natureza, tanto mais robusta e abnegada se torna sua ternura”. Sendo assim, podemos considerar o sacrifício do martírio como uma prova sublime de amor e de entrega a Nosso Senhor Jesus Cristo. Pois Ele próprio disse: “Ninguém tem um maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos (Jo 15, 13). Quando a alma está arrebatada de fervor pela Igreja Católica, nada a impede de derramar seu sangue, até a última gota, para que o Nome de Jesus seja glorificado. O seu único desejo é lutar em defesa da Igreja e de realizar as obras mais heroicas: percorrer a Terra e implantar em todas as partes a gloriosa Cruz de Cristo; anunciar o Evangelho no mundo inteiro, até nas mais longínquas ilhas; enfim, fazer de sua existência um contínuo holocausto a serviço da Causa Católica, sem importar-se com as opiniões alheias e o perigo de vida a que se expõe por realizar tal ato, porque sabe que depois de ter abraçado e osculado a sua cruz receberá do Divino Mestre a coroa da vitória, reservada àqueles que renunciaram a si mesmos para seguir os passos do seu Bem-Amado.

Com efeito, um exemplo de abnegação e entrega podemos observar na história de São João Batista. Sendo ele chamado a preparar o caminho do Salvador, anunciou ao povo judeu a necessidade de uma conversão sincera e realmente frutuosa. A sua única preocupação era a de cumprir a vocação para a qual fora chamado e levar os corações a se purificarem para receber dignamente o Messias. Ele produzia um choque em muitos, pois era inteiramente reto, simples e eloquente. E bradava em todos os lugares: “Fazei penitência.”

Ora, Herodes, o tetrarca, repreendido por ter tomado Herodíades, mulher de seu irmão Felipe, como esposa e por causa de todos os crimes que praticara, mandou encarcerar o Batista. Já tinha os planos preparados para matá-lo; contudo, temia a multidão que considerava João como profeta.

Na festa do aniversário de Herodes, a filha de Herodíades dançou em sua presença, o que lhe agradou enormemente… então, disse à moça:
– Prometo com juramento dar-te tudo o que me pedires!

Sendo instigada por sua mãe, que também possuía um ódio mortal a João, a moça declarou o seu pedido:
– Dá-me, num prato, a cabeça de João Batista!

O rei, como cumprimento de seu juramento, mandou seus servos até o cárcere para decapitar João. Trouxeram, então, a cabeça e a entregaram à moça que logo após deu à sua mãe.

Analisando este fato, alguém poderia se perguntar: que glória teve João Batista morrendo sozinho num cárcere? Por que entregou sua vida tão facilmente e sem resistências? Isso não é uma loucura? Não seria melhor arrepender-se de tudo e ser libertado?

Ora, nada é mais nobre e mais bonito, nada revela mais integridade de alma do que aceitar sofrer por Nosso Senhor Jesus Cristo. Quando uma alma resolve abraçar a dor, barreiras enormes são abatidas, dificuldades aterrorizantes caem por terra e se abre o caminho para a visão beatífica. De fato, João verteu o seu sangue em união com o Cordeiro de Deus, que logo seria também imolado no Calvário. Como um herói, enfrentou Herodes e morreu mártir, dando um exemplo sublime de grandeza e de serenidade.

Assim sendo, quando Deus nos oferecer cruzes e perplexidades difíceis de enfrentarmos, saibamos seguir os exemplos dos Santos, abraçando a dor com entusiasmo e ufania.

Uma vida mais suave

Ir. Juliane Vasconcelos Almeida Campos, EP

boda_campestre_arautos

“Quem não viveu no século XVIII, antes da Revolução, não conheceu a doçura de viver e não pode imaginar quanto é possível ter felicidade na vida”! 1 Famosa se tornou esta frase de Talleyrand, referindo-se à Revolução Francesa, que deitou por terra, entre muitas outras coisas, o respeito e a afabilidade predominantes no relacionamento humano até então. De maneira análoga, também se poderia dizer que não conheceu a serenidade quem não viveu antes que a sociedade fosse marcada a fundo pelos desenvolvimentos tecnológicos decorrentes da Revolução Industrial, que mudou a fisionomia do mundo.

De fato, em épocas anteriores tinha-se tempo para conversar e pensar, para longos períodos de distensão e despreocupação. Quando, porém, a produção econômica, a máquina e a técnica se sobrepuseram aos valores do espírito, o mundo se tornou ansioso por ter, fazer, comprar, consumir, correr… As lentidões que permitiam experimentar os deleites de uma existência calma e equilibrada deram lugar a uma incessante sofreguidão.

Num mundo agora transformado em imensa “aldeia global”, a enxurrada de informações imediatas e transmitidas de forma fragmentária, como em relâmpago, excitam e provocam agitação. O ritmo dos acontecimentos torna-se frenético. Já não se tem tempo para nada e o lema é ser fast: na comida, no relacionamento, na locomoção.

O retorno a uma vida mais “slow

No entanto, quando a vitória da velocidade e do frenesi parecia ter atingido todos os aspectos do nosso cotidiano, levantam-se aqui e ali brados de revanche do bom senso, visando restabelecer a cidadania do mundo slow

Assim, no ocaso do acelerado século XX, em 1999, surge em Orvieto uma associação internacional denominada Cittaslow, que pretende recuperar a identidade própria e as especificidades de cada território, a fim de promover para seus habitantes uma melhor qualidade de vida, com uma particular atenção à cultura da alimentação e do bom viver. Apesar de reconhecer que a globalização pode ser útil para a difusão do comércio e da cultura, Cittaslow afirma que tal fenômeno tende a achatar as diferenças e a esquecer as características peculiares de cada realidade singular, propondo modelos medianos que não pertencem a ninguém e geram, inevitavelmente, a mediocridade.

Na Itália, Alemanha, Polônia, Noruega, Inglaterra e Brasil já existe uma rede própria do movimento, mas cidades de outros países, como França, Espanha, Austrália e Japão, também aderiram à iniciativa. Para ser uma Cittaslow, a cidade deve possuir até 50 mil habitantes e precisa atender a, pelo menos, 50% dos critérios de uma lista com 60 itens.

Cittaslow nasceu inspirada em outro movimento, a Slow Food, associação surgida em oposição ao conceito de Fast Food e ao estilo de vida rápido, e pretende defender a legítima gastronomia e o prazer de um agradável e sossegado convívio à mesa. Ela estende sua atividade desde o campo agrícola à cozinha, propondo um modelo de desenvolvimento sustentável, onde prevalece o respeito pela biosfera e pela sociosfera, com base no uso responsável dos recursos naturais e dos valores culturais.

Tal modo de vida slow — fala-se também em Slow Schools, Slow Tourism, Slow Aging… — se caracteriza pelo desejo de um retorno aos ritmos mais lentos e humanos, que permitam combater o stress, a pressão para alcançar objetivos concretos e artificiais, e a pressa generalizada que marca o nosso dia a dia.

Este regresso à mentalidade de uma vida mais lenta e orgânica nos recorda um velho adágio francês: “Chassez le naturel, il revient au galop — Retirai o que é natural, ele retorna a galope”!

Composto de matéria e espírito, necessita o homem de um ritmo de vida mais tranquilo para desfrutar de certos prazeres da alma que as velocidades desordenadas não permitem sequer vislumbrar. A boa conversa ou a contemplação, por exemplo, só são viáveis em um contexto desprovido de agitação. O silêncio, tantas vezes tão eloquente, é irmão da serenidade e do recolhimento, e nele Deus costuma Se encontrar com os homens.

O exemplo de Jesus

Em vários episódios narrados pelos Evangelhos, Jesus Se retirava para rezar, fugindo das turbas e do bulício: “E despedido que foi o povo, retirou-Se ao monte para orar” (Mc 6, 46); “Jesus retirou-Se a uma montanha para rezar, e passou aí toda a noite orando a Deus” (Lc 6, 12).

Diz São João Crisóstomo que o Divino Mestre assim fazia “para nos ensinar a descansar, a todo o momento, do alvoroço e do barulho, pois a solidão é conveniente para a meditação. […] quem se aproxima de Deus necessita afastar-se do ruído e buscar tempo e lugar distante do tumulto”. 2

“Jesus, no Evangelho” — afirma Cantalamessa — “nunca dá a impressão de estar asfixiado pela pressa. Às vezes, até perde tempo: todos O procuram e Ele não Se deixa encontrar, tão absorto está na oração. […] Se a lentidão tem conotações evangélicas, é importante dar valor às ocasiões de descanso ou de demora que estão distribuídas ao longo da sucessão dos dias. O domingo, as festas, se bem utilizados, permitem cortar o ritmo de vida demasiado excitado e estabelecer uma relação mais harmônica com as coisas, as pessoas e, sobretudo, consigo mesmo e com Deus”. 3

Quantos benefícios pode nos trazer a lentidão, e em quantas circunstâncias! Quão salutar pode ser ela para o bom relacionamento entre os homens, e o destes para com Deus! Oxalá possa o mundo contemporâneo reconquistar uma vida mais slow, na certeza de que não adianta se desgastar e correr tanto para obter bens materiais sem conta, relegando ao esquecimento princípios e virtudes. Tudo isso passa e o que realmente tem valor são as riquezas do espírito que perduram na vida eterna, onde, aliás, não há relógio!…

1 TALLEYRAND-PÉRIGORD, Charles-Maurice. La confession de Talleyrand. Paris: L. Sauvaitre, 1891, p.57.
2 SÃO JOÃO CRISÓSTOMO. Homilía XLII, n.1. In: Homilías sobre el Evangelio de San Juan (30-60). Madrid: Ciudad Nueva, 2001, v.II, p.137.
3 CANTALAMESSA, OFM Cap, Raniero. Echad las redes. Reflexiones sobre los Evangelios. Ciclo B. Valencia: Edicep, 2003, p.259.

Revista Arautos do Evangelho dez 2014

E os Anjos proclamavam “Glória”!

Maria Beatriz Ribeiro Matos

Em uma noite fria e silenciosa, pelas montanhas e campos da Judeia, ecoou um cântico sonoro e festivo, trazendo uma mensagem para a humanidade: “Glória a Deus no mais alto dos Céus, e paz na Terra aos homens, objeto da boa vontade de Deus” (Lc 2, 14)! Ao longo dos tempos, em cada Natal os lábios dos fiéis repetem este hino, enquanto seus corações sentem-se, mais uma vez, pervadidos pelas harmonias celestiais que impregnaram aquela Noite Santa em que “o Verbo Se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1, 14).

Pelos séculos vindouros, a Igreja jamais cessará de recordar a jubilosa homenagem que os coros dos Anjos prestaram ao Deus Menino, nascido em Belém: “Glória a Deus no mais alto dos Céus”.

Glória! Não há quem não a almeje! E quantos correm atrás dela… Entretanto, poucos a encontram.

Há aqueles que baseando-se nos próprios dotes — reais ou imaginários — creem já tê-la conquistado, atribuindo ao próprio mérito aquilo que de Deus receberam ou que sua fantasia forjou para si. Tal glória, contudo, é inteiramente subjetiva, pois só é comprovada pela própria pessoa.

Outros, embora constatando suas deficiências, procuram revestir suas ações de uma aparência extraordinária, no intuito de serem tidos em grande conta e ganhar os aplausos dos demais. Também esta é uma glória irreal, já que, longe de se fundamentar em fatos, procede da opinião errônea de outrem.

Ora, a glória verdadeira atinge o seu ápice quando alguém, notando em si a excelência de uma virtude, reconhece não estar nele a origem dela, mas sim numa dádiva divina.

Exemplo incomparável encontramos na manjedoura da Gruta de Belém. Ali está reclinado o doce Menino Jesus. Ele tem um conhecimento absoluto de Si e de sua origem eterna, enquanto Unigênito de Deus, como também tem perfeita consciência, enquanto Homem, da glória que Lhe foi concedida pelo Pai ao entrar no mundo e ser constituído centro do universo, Juiz dos vivos e dos mortos.

Dos homens, pobres criaturas, Ele apenas exige um reconhecimento simples: nossos louvores nada Lhe acrescentam, porém, são o tributo humilde da homenagem que Lhe devemos, como poderiam ser as aclamações feitas por crianças, colocadas à beira do caminho, a um vencedor em seu desfile triunfal.

Deus é o único Ser que merece toda a glória. Neste Natal, unamos as vozes de nossos corações aos cânticos angélicos e aproximemo-nos do Presépio onde repousa o Divino Infante para render-Lhe nossa adoração. Confessemos nossa contingência e reconheçamos sua infinita grandeza, que se dignou assumir nossa carne para tornar-nos partícipes de sua glória por toda a eternidade!

Revista Arautos do Evangelho dez 2013

AS GRANDEZAS DA ARTE GÓTICA

Ir. Carmela Werner Ferreira, EP

O gótico é, antes de tudo, um vôo de espírito. Estilo caracteristicamente medieval, foi engendrado por gerações de Fé, cujo maior desejo era erigir templos à altura de sua finalidade: abrigar o Santíssimo Sacramento, celebrar diariamente a Sagrada Eucaristia, prestar homenagem à Santíssima Mãe de Deus e aos santos. Inúmeras são as construções espalhadas pela Europa que ainda hoje nos fazem conhecer a harmonia perfeita, a elegância e a leveza que a pedra trabalhada e o vidro colorido são capazes de transmitir.

Desejoso de exprimir através do belo o seu amor a Deus, o homem medieval escreveu o Evangelho em pedra e vidro, de modo que todos, grandes e pequenos, alfabetizados e analfabetos, pudessem, pelos séculos afora, conhecer melhor a Nosso Senhor.

Consideremos, por exemplo, a catedral de Reims, localizada na região da Champanha, na França. Está erguida no local onde foi batizado Clóvis, rei dos Francos, no final do século V, acontecimento que tornou Reims a cidade na qual os reis franceses eram coroados, além de marcar nas páginas da história o surgimento da primeira nação católica do mundo.

A construção do edifício que atualmente lá se contempla teve início em 1211, e a parte essencial da Catedral foi completada em menos de um século, o que para a época era de uma considerável rapidez. O interior foi terminado no fim do século XIII. Infelizmente, inúmeras dificuldades intervieram e o exterior não chegou a ser concluído. Faltam-lhe as torres, que cada admirador pode construir em sua própria imaginação.

Quem transpõe seus umbrais tem a impressão de sair desta terra. Arcadas e ogivas formam um conjunto de incomparável harmonia, e o colorido dos vitrais como que espalha pelo chão pedras preciosas de rara beleza. Seu interior incita-nos ao recolhimento e à meditação, ao mesmo tempo que nos invade uma alegria verdadeiramente sobrenatural. O gótico é uma arte constituída sobretudo de elevação de espírito, de Fé e de amor a Deus.

Revista Arautos do Evangelho abril 2002

O olhar de Nosso Senhor Jesus Cristo

Beatriz Alves dos Santos

Um olhar… À primeira vista, um simples vocábulo, mas que, muitas vezes, exprime mais do que mil palavras! Um olhar: um universo de riquezas! Nele se exprime o que há de mais íntimo no ser humano: a alma.

Analisando a estreita união entre a alma e o olhar, entende-se a capacidade de atração de algumas fisionomias, cujo olhar denota inocência, sacralidade e elevação e, em sentido oposto, a penumbra espiritual que transparece de modo inevitável nos indivíduos fora da graça de Deus…

Porém, se o olhar de qualquer ser humano tem essa força de manifestação e essa riqueza de matizes, como terá sido o olhar do mais sublime dos homens: o de Nosso Senhor Jesus Cristo?

Primeiramente, deve-se considerar a grandeza do Homem-Deus. A esse propósito, comenta o professor Plinio Corrêa de Oliveira:

Nosso Senhor deveria ter tido um poder tal que, quando Ele passava, as flores se voltavam para Ele; os animais vinham prestar-Lhe homenagem; os animais daninhos saíam fugindo; as plantas e as ervas se estendiam à procura dos pés d’Ele para, pelo menos, serem calcadas por Ele; as brisas iam de encontro a Ele. No considerar o olhar d’Ele, as águas se refletiam e estremeciam de alegria!1

O Divino Salvador deve ter sido de tal beleza, que os que O viam ficavam atordoados de admiração! Segundo narra a beata Ana Catarina Emmerich em uma de suas visões privadas, o Divino Mestre tinha “a fronte alta e larga, e o rosto belo e ovalado. O cabelo, de um castanho-avermelhado e não áspero, singelamente repartido desde o alto da cabeça, caía-lhe sobre os ombros. A barba, não sendo comprida, era aparada em ponta e repartida na altura do queixo”.2 Conta a Tradição que seus os olhos eram cor castanho claro, e irradiavam uma bondade imensa, capaz de levantar do pecado os piores criminosos, e arrasar com intransigência os mais empedernidos de coração.

Pode-se imaginar que, à medida que Jesus pregava, a cor de seus olhos se modificava. Quando, por exemplo, seu ardente zelo pela glória do Pai se manifestava, é de se acreditar que seus olhos mudavam para um tom castanho escuro e, ao perdoar, clareavam-se, dando ao pecador a impressão de estar mergulhando num oceano de perdão… Como imaginar o olhar do Homem-Deus?

É ainda o professor Plinio Corrêa de Oliveira quem imagina ser este “um olhar muito sereno, aveludado, que revelava, entretanto, uma sabedoria, retidão, firmeza e força” 3 inigualáveis. E acrescenta:

“Um olhar que contém tudo o que há de mais celeste, de dignidade, de meiguice, de bondade, de perdão e sabedoria a perder de vista. Todas as perfeições da ordem do universo estão contidas no olhar de Nosso Senhor Jesus Cristo, de maneira que Ele tem estados de alma que correspondem a todas as belezas da criação”. 4

Considerando todas as grandezas humanas que a História apresenta, todos os sábios, todos os santos, os grandes pensadores, os pregadores, os magnatas, todos os reis, todas as perfeições do Céu, da Terra e do mar, toda a variedade da fauna e da flora, todas os atos heróicos dos grandes homens da história, tudo é nada em comparação com um olhar de Jesus!5 “O que são os vitrais das catedrais, o que são as estrelas do Céu, o que são os reflexos do Sol sobre as águas dos oceanos, em comparação simplesmente com um minuto em que se pudesse fitar o Vosso olhar!?”.6

Àqueles que se aproximavam implorando perdão, Nosso Senhor lhes deitava um olhar de suma misericórdia; àqueles, porém, que queriam pôr obstáculos à sua missão redentora, lançava um olhar de indignação, como se pode encontrar em todo o capítulo 23 do Evangelho de São Mateus, em suas pugnas com os fariseus.

Verdadeiramente, em toda a sua vida pública, Nosso Senhor quis fazer o bem a todos que com Ele se encontravam. Entretanto, fica claro, pela narração apostólica, que diante do olhar de Nosso Senhor Jesus Cristo, não há terceira posição: ou se tem admiração ou se tem ódio. Ver-se-ão agora alguns exemplos, onde nitidamente aparecem essas duas atitudes.

Exemplos evangélicos

Percorrendo as riquíssimas páginas dos Sagrados Evangelhos, encontram-se inúmeras passagens onde o olhar de Jesus se faz especialmente notar. Já em seu nascimento, Deus quis que os olhos do infante Jesus recaíssem em algo que fosse o resumo de todas as maravilhas do universo: o olhar de Nossa Senhora. O Menino-Deus viu a face esplendorosa de Maria, sua Mãe, discerniu sua alma e seu Imaculado Coração.

Não se pode com palavras explicar, nem com o entendimento humano compreender a alegria que a puríssima Virgem teve no instante do nascimento de Jesus […]. Prostrando-se diante d’Ele com profundíssima reverência, disse: Bene veneris, Deus meus, Domine meus et Filius meus – Sejas bem-vindo, meu Deus, meu Senhor e meu Filho. E assim O adorou, e beijou seus pés como a Deus, a mão como a seu Senhor, e a face como a seu Filho.7

E então, “pode-se supor que o Divino Infante sorriu. Ele desejou um afeto de mãe quando abriu os olhos para este mundo; e quis um carinho materno quando os fechou”.8

A Virgem Santíssima cuidou com todo amor e carinho de seu Filho e, à medida que o tempo passava, o Menino Jesus crescia e se fortalecia (Cf. Lc 2, 40). Porém, dos trinta anos de vida oculta em Nazaré, pouco se conta nos Evangelhos. No entanto, pode-se afirmar, sem dúvida, que a casa de Nazaré transformou-se num relicário de olhares, onde somente os Anjos puderam contemplar…

Contudo, de sua vida pública, registram-se uma série de olhares que passaram para a História pela pluma dos evangelistas.

Continua no próximo post.

1 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Todas as belezas reunidas num Homem: Conferência, São Paulo: [s.d]. (Arquivo IFTE).
2 EMMERICH, Ana Catarina. A Paixão de Jesus Cristo. São Paulo: Paulus, 2004. p. 246.
3 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. O Sacrossanto olhar de Jesus. In: Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei, n. 70, jan. 2004. p. 19.
4 Id. O olhar de Nosso Senhor Jesus Cristo: Conferência. São Paulo: [s.d.]. (Ver Anexos, FOTO 2)
5 Loc. cit.
6 Id. E seremos repletos de grandeza… In: Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei, n. 49, abr. 2002. p. 18-19.
7 “No se puede con palabras explicar ni con entendimiento humano comprender el gozo que la purísima Virgen tuvo en aquel punto del nacimiento de Jesús. […].postrándose delante de Él con profundísima reverencia, dicen que dijo: Bene veneris, Deus meus, Domine meus et Filius meus: Bien seáis venido, mi Dios, y mi Señor, y mi Hijo. Y así Le adoró, y besó los pies como a Dios, la mano como a su Señor y el rostro como a su Hijo” (TRUYOLS, Andres F. Vida de Nuestro Señor Jesucristo. 2 ed. Madrid: BAC. 1954. p. 47.)
8 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. O Quadrinho: presença de uma mãe. In: Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei. n. 119, fev. 2008. p. 8.

Pedras

Fahima Spielmann

Jerusalém, ano 33DC. Enquanto todos se ocupam dos preparativos para a Páscoa, entre pré-figuras e holocaustos, eis que, rompendo a habitualidade daquilo que já era passado, ecoa-se: “Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor, o rei de Israel!” (Jo 12, 13).

Era Jesus, o autêntico Cordeiro, que em instantes conferiria verdadeiro significado àquela festa que há séculos era comemorada.

Simultaneamente, não na escuridão da noite, mas na obscuridade da fé, os fariseus fazem ouvir, com veemência, suas vozes, por verem novamente arruinados seus planos para ocultar o Mestre: “Estais vendo que nada conseguis? Olhai, todo mundo se foi, atrás dele!” (Jo 12, 19). E numa maquiavélica tentativa, exigem que Jesus mande todos se calarem. “Digo-vos que se estes se calarem, clamarão as pedras!” (Lc 19, 40).

Sim! As pedras clamarão, disse a Divina Verdade. A quem falam as pedras? Falam às almas que querem ser penetradas pela graça divina e não se deixam ensurdecer na ânsia desenfreada pelo prazer.

Que relação poderia haver entre pedras e almas? Dividamos as pedras em duas categorias: as preciosas e as brutas. As primeiras: translúcidas e diáfanas, possuem a capacidade de captar a luz, e, sem retê-la para si, expandem-na, enriquecendo-a gratuitamente com seus matizes variados. Semelhantes a essas pedras são as almas que, livres de todo peso do apego ou egoísmo, transmitem e tamisam a graça, refletindo algo da luz do Criador, que em nenhuma outra alma brilhará com igual colorido. São pedras preciosas de virtude que clamam as glórias d’Aquele que as fez; brutas criaturas transformadas em novos filhos de Abraão (cf. Lc 3, 8).

Trataremos agora das pedras brutas. Por mais que sobre elas incida a luz benfazeja do Sol em seu zênite, ou quiçá o facho luzidio de um holofote, são incapazes de refletir um só raio de luz. Todo o fulgor que recebem não o transforma senão em sombra. São aquelas almas que, cheias de si, fazem resistência e se fecham ao impulso da graça, preferindo a surdez e a cegueira da carne, incapazes de cantar as glórias do que lhes é superior.

Preciosas ou brutas, ambas passam por um processo; são lapidadas na lâmina terrível e benéfica do sofrimento. Para as primeiras, a lapidação produzirá efeitos tão mais esplêndidos quanto em maior quantidade os traços do corte. Para as segundas, à força do lapidar, os cascalhos e abrolhos podem se destacar, e finalmente, nasce a luz em todo o seu fulgor. Limpa de qualquer sordície, até esta bruta pedra poderá cintilar durante os momentos em que a luz a penetrar. Ao menos durante alguns instantes, coruscará como uma esmeralda.

Em análoga posição, se os judeus, que rodeavam a Nosso Senhor permitissem que o Sol da salvação transpusesse suas almas e as transformassem em jóias, aclamariam, de alguma maneira, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade como seu Soberano.

Mas, hélas! Na mesma cidade onde ecoaram as aclamações a Cristo com ramos e brados de entusiasmo, ouviram-se, alguns dias depois, as vociferações que pediriam a Pilatos sua crucifixão. O que aconteceu? Por acaso deixou o Sol de brilhar? Não, foram as pedras que, num arrefecimento cada vez maior, acharam menos interesse n’Aquela Luz que as transformava, preferindo ser elas mesmas, brutas e opacas.

Peçamos a Maria Santíssima, a insuperável Jóia, que jamais permita, que nos assemelhemos a um pedregulho opaco diante da Luz de seu Divino Filho, mas que possamos formar parte do conjunto das pedras que cantarão as glórias da verdadeira Luz.

In hoc signo vinces

Ir. Clara María Morazzani,EP

A mais conturbada das manhãs de toda a História.

O sol já havia nascido, deitando o calor de seus raios sobre a praça do Pretório, cujo tribunal, formado com pedras multicolores, era chamado em grego Lithostrotos, que significa lajedo ou montículo de pedras. Nada melhor para aquecer-se, sob o calor do sol, do que a pedra. Nem a água tem a capacidade de guardar os ardores do astro-rei como a pedra. Debaixo daquela luz criada por Deus, estava o próprio Deus a ser julgado.

Todavia, não eram só as manifestações minerais que ali se faziam sentir. A ordem da natureza emanada das mãos do Onipotente, as criaturas inconscientes e sem vida, cumprem seu desígnio por uma determinação divina. Há seres que possuem livre arbítrio, mas nem sempre usam retamente desse dom recebido do Senhor de toda a Criação. Pior ainda, às vezes o utilizam maldosamente em sentido contrário. Ao longo da História, entretanto, nunca houve tamanha carga de ódio contra o Criador, no mau emprego do livre arbítrio.

A Cruz que dividiu a História

Naquela praça, sol e pedra mantinham-se fiéis à ordem de Deus. Porém, um governador romano — que passou para a História e até hoje é nomeado todos os dias no Credo que rezamos — não se deixava influenciar pela voz da consciência e da graça no seu interior: ele não deveria condenar, mas, como todo aquele que relativiza o absoluto da Lei de Deus, estava querendo encontrar uma solução intermediária entre a condenação e a adoração.

O povo exigia…

Quantas vezes o povo agiu bem, pedindo a condenação de um réu! No entanto, se alguma vez o povo errou — e quanto deve ter acontecido — nunca se equivocou tanto como naquela ocasião. Era só o povo? Não… Ali estavam os fariseus e os escribas, incentivando todos a gritar contra o próprio Criador uma sentença, não só injusta, mas deicida: “Crucifica-O! Crucifica-O!”

Nada fazia calar o populacho, até um determinado momento em que o símbolo que marcaria mais tarde as coroas e o frontispício das igrejas, entrou na praça: era a Cruz! A própria figura da vergonha, da ignomínia e da derrota começava agora sua marcha triunfal através dos séculos.

Aquela Cruz que seria abraçada e osculada pelo Divino Redentor, e com tanto A Cruz, sinal de ignomínia, foi abraçada amor carregada nos seus adoe osculada pelo Divino Redentor (Via-Sacra, Igreja de Santa Maria de Týn, Praga) ráveis ombros até o Calvário, além de produzir um grande silêncio, fendeu a multidão de um lado e de outro, revelando simbolicamente qual o seu papel ao longo da História: diante dela a impiedade sorrirá, a devoção a venerará; à sua vista uns escarnecerão, outros se prostrarão, uns proferirão palavras de desprezo, outros derramarão lágrimas de ternura; por sua causa muitos tremerão de pavor, enquanto outros desfalecerão de amor. Até o dia supremo em que aparecerá “no céu o sinal do Filho do Homem” (Mt 24, 30), e dividirá também a humanidade reunida no Vale de Josafá: à direita os que ressurgem em corpo glorioso; à esquerda aqueles que retomam seus corpos para serem ainda mais atormentados no inferno. “Separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. Colocará as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda” (Mt 25, 32-33).

E a cruz figurará para sempre no esplendoroso trono de Jesus Cristo, transformada de lenho de tortura em árvore de luz.

O mais humilhante suplício

Entre os homens da Antigüidade, a crucifixão era conhecida como o mais atroz e humilhante dos castigos — “maldição de Deus”, como nolo refere o próprio Livro do Deuteronômio (21, 23) — reservado sobretudo aos escravos e também aos malfeitores, assassinos e ladrões cuja punição pública deveria servir de exemplo para todo o povo. Mais tarde, com a dominação de Roma, a lei isentava de tal pena os cidadãos romanos, por mais grave que fosse o seu delito, não permitindo, deste modo, que a dignidade do Império ficasse manchada. E esta foi, precisamente, a morte que Cristo permitiu para Si, assumindo a condição de escravo, não só para redimir-nos da escravidão do pecado, mas até para fazer-nos reis: um suplício usual do código penal, com o procedimento que era aplicado vulgarmente aos bandidos; sem dúvida, o pior.

Descrição de um médico

Segundo interessantes estudos realizados no século passado por conceituados médicos europeus, a morte de cruz possui como causa determinante a asfixia. Logo após a crucifixão, o condenado apresenta violentas contrações, generalizadas, o rosto fica violáceo, abundante suor corre-lhe da face e de todo o corpo, tornando-se especialmente profuso nos poucos minutos que precedem a morte. Os crucificados morriam, em média, ao fim de três horas, após atroz período de luta.

Em sua obra “A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo o cirurgião”, o Dr. Pierre Barbet afirma: “Toda a agonia se passava na alternativa de abatimentos e soerguimentos, de asfixia e respiração. Disso temos a prova material no Santo Sudário, onde podemos assinalar um duplo fluxo de sangue vertical que sai da chaga da mão, com um afastamento angular de alguns graus. Um corresponde à posição de abatimento e o outro à de soerguimento. Percebe-se logo que um indivíduo esgotado, como estava Jesus, não poderia prolongar essa luta por muito tempo”.

O mistério da Cruz

A partir de um olhar humano e materialista, o Cordeiro imolado no alto da Cruz não passava de um pobre ser maltratado e injuriado por todos, um homem falido e derrotado para sempre; debaixo da luz sobrenatural, porém — e esta é a única visualização verdadeira — Jesus achavaSe ali elevado como um Rei em seu sólio de glória, atraindo para Si todas as criaturas. Este divino mistério, os Apóstolos, sobretudo São Paulo, compreenderam-no com profundidade: “Julguei não dever saber outra coisa entre vós a não ser Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado” (1Cor 2, 2). E ainda: “Quanto a mim, porém,de nada me quero gloriar, a não ser na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo” (Gl 6, 14).

O lento despontar da Cruz

Mas para os primitivos cristãos, embebidos dos conceitos e tradições antigas, a cruz conservava ainda seu terrível significado, a ponto de se terem passado vários séculos antes de aparecerem as primeiras representações do Salvador pregado nela. Tal repulsa via-se acrescida pelo fato de muitos membros da Igreja nascente terem visto em Roma parentes próximos sofrer este tipo de martírio, durante as sangrentas perseguições promovidas pelos imperadores pagãos.

Nos séculos segundo e terceiro, os fiéis preferiram, pois, adotar a imagem do peixe (em grego Ichthys), como representação de Cristo. Nesta simbologia, as letras da palavra Ichthys contêm as iniciais da frase: Iesous Christos Theou Yios Soter (Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador). A partir do século quarto, após o reconhecimento da religião católica, por Constantino o Grande, o simbolismo do peixe diminuiu gradualmente, cedendo lugar à cruz, que começou a aparecer esculpida sobre os sarcófagos, os cofres e outros objetos, tornando-se o principal emblema da Cristandade. Uma das primeiras expressões artísticas ocidentais do sacrifício do Calvário é a famosa porta de cipreste da Basílica de Santa Sabina, no monte Aventino, em Roma, construída nas primeiras décadas do século quinto.

Foi nessa mesma época que se instituiu o atual sinal-da-cruz, embora já antes existisse o piedoso costume de fazer a tríplice marca sobre a fronte, os lábios e o peito, pois as três partes superiores do homem — inteligência, amor e força — ficavam assim sob a proteção da cruz.

Santa Helena resgata a verdadeira Cruz

No início do século quarto, um inconcebível abandono pesava sobre os Santos Lugares a ponto de achar-se coberta de escombros a própria colina do Gólgota. Movida por forte impulso da graça, a imperatriz Helena — que acabara de obter por suas maternais preces o esplêndido milagre da Ponte Mílvio e a impressionante conversão de seu filho Constantino, com a conseqüente liberdade para o Cristianismo (28 de outubro de 312) — decidiu empreender uma longa viagem até Jerusalém, no intuito de descobrir a verdadeira Cruz de Nosso Senhor. Santa Helena penetrava intimamente no significado dos mistérios: aquela cruz luminosa que brilhara nos céus, circundada pelos dizeres In hoc signo vinces (Com este sinal vencerás), ante o olhar maravilhado do jovem César, não era uma clara manifestação dos desígnios da Providência, prenunciando um triunfal ressurgimento da Igreja, por meio do escândalo da cruz?

Buscar a Cruz era empresa árdua e difícil. Não, porém, para o caráter enérgico da velha imperatriz que não se abatera com os azares da fortuna nem com as duras provações da vida. Após algumas semanas de penoso trabalho e de muita terra removida, durante as quais Helena alentou com seu ânimo e suas orações os numerosos operários, foram encontradas num fosso, em meio ao espanto e à comoção geral, três cruzes!

Apresentava-se, então, uma perplexidade: como reconhecer o Lenho sagrado sobre o qual o Redentor padecera sua dolorosa agonia, banhando-o com as últimas gotas de Sangue? Instado por Helena, São Macário, Patriarca de Jerusalém, logo acudiu em seu auxílio. Reuniu o povo e orou fervorosamente, suplicando ao Senhor uma intervenção que esclarecesse os fiéis, de forma evidente. Mandou em seguida trazer uma pobre mulher que se achava desenganada pelos médicos e prestes a morrer. Em contato com as duas primeiras cruzes, a moribunda permaneceu insensível; mas, ao tocar a terceira, levantou-se logo, completamente curada, louvando a Deus entre os gritos de alegria da multidão entusiasmada.

A notícia do prodígio espalhou-se com rapidez por todo o mundo cristão. Deu-se início, assim, a uma grande devoção às relíquias da Paixão.

Ao retornar de sua peregrinação, após erigir várias igrejas em honra da Paixão do Senhor, a virtuosa imperatriz levou consigo para a Cidade Eterna um pedaço considerável da Santa Cruz, conservando-se em Jerusalém a parte mais importante. Trouxe também os cinco cravos que encontrara na mesma ocasião, e os deu de presente a seu filho Constantino, o qual mandou colocar um deles na armação do diadema imperial. Talvez esteja esse piedoso gesto na origem do belo costume de encimar com uma cruz as coroas dos soberanos católicos.

Entrada triunfal da Santa Cruz em Jerusalém

Três séculos após esses admiráveis acontecimentos, Cosroes II, rei da Pérsia, saqueou a Cidade Santa, matou grande número de cristãos e apoderou-se do precioso Madeiro, levando-o entre as muitas riquezas que compunham seus despojos de guerra.

Grande foi a consternação daqueles fiéis do Oriente, ao saberem estar o mais inestimável de seus tesouros em poder de idólatras. O imperador Heráclio iniciou então uma campanha para recuperá-lo, o que conseguiu após quinze longos anos de esforços e aventuras. Finalmente, chegava Heráclio diante de Jerusalém, dando graças ao Senhor pela vitória alcançada.

Organizou-se uma grande cerimônia, com a maior solenidade e pompa possíveis. De todas as partes acorriam os fiéis para venerar a relíquia felizmente recuperada. Em companhia do patriarca Zacarias e rodeado dos grandes de sua corte, de incontáveis clérigos e de uma fervorosa multidão, o imperador carregou sobre seus ombros a verdadeira Cruz, dispondose a entrar na cidade pela porta que conduz ao Calvário. Mas ao chegar diante dela ficou subitamente imóvel, sentindo-se incapaz de avançar um passo sequer. Zacarias, que caminhava a seu lado, inclinou-se para ele e lhe fez ver que a púrpura imperial e suas suntuosas vestes não estavam em conformidade com o exemplo de humildade de Jesus, o qual carregara a sua Cruz às costas, por aquelas mesmas ruas, todo chagado e coberto de opróbrios. Ouvindo isto, Heráclio depôs as insígnias reais e a coroa de ouro. Coberto de saco e descalço, continuou sem dificuldade a piedosa procissão. A Cruz foi triunfalmente restituída ao patriarca Zacarias, em meio às aclamações de júbilo da multidão enlevada e reverente.

O tempo confundiu a data dos dois acontecimentos: a descoberta da Cruz pela imperatriz Santa Helena e o resgate desta pelo augusto Heráclio. Mas em todo o Ocidente cristão, há séculos, celebra-se no dia 3 de maio a descoberta do sagrado Lenho e a 14 de setembro a sua Exaltação.

A Cruz, sinal de salvação

Pouco a pouco, por entre as obscuras ruínas do paganismo podre e decadente, surgia um mundo novo, todo ele “cruciforme”, banhado pela luz pura e coruscante das doutrinas do Evangelho, fazendo sentir de modo suave e misterioso a dulcis praesentia d’Aquele que, no alto da Cruz, com o divino rosto coberto de escarros e feridas, deixara escapar de seus chagados lábios o brado lancinante que haveria de ecoar pelos céus da História: “Meu Deus, meu Deus, por que Me abandonastes?” (Mc 15, 34). Agora, porém, uma inefável nota de paz e de júbilo, decorrente de um forte imponderável de vitória, impregnava o progressivo desenvolvimento da Esposa Mística de Cristo.

A Cruz passou a ser o centro da espiritualidade católica, o sinal distintivo dos seguidores de Cristo, o ponto para o qual convergem todas as aspirações, todos os amores, toda a ternura e o respeito da alma verdadeiramente cristã.

Por toda parte o nobre símbolo da Redenção projeta sua sombra protetora, lembrando-nos as dores suportadas com infinita paciência pelo Homem-Deus em favor da pobre humanidade mergulhada nas trevas do erro, do pecado e da morte, ao mesmo tempo que transmite a muda — porém, quão eloqüente! — mensagem de esperança: “O Bem vencerá! Eu colocarei teus adversários como escabelo de teus pés”.

Com inspiradas palavras, exclama Santo André de Creta: “Se não houvesse a cruz, Cristo não seria crucificado. Se não houvesse a cruz, a vida não seria pregada no lenho com cravos. Se a vida não tivesse sido cravada, não brotariam do lado as fontes da imortalidade, o sangue e a água, que lavam o mundo. Não teria sido rasgado o documento do pecado, não teríamos sido declarados livres, não teríamos provado da árvore da vida, não se teria aberto o Paraíso. Se não houvesse a cruz, a morte não teria sido vencida e não teria sido derrotado o inferno.

“É, portanto, grande e preciosa a cruz. Grande sim, porque por ela grandes bens se tornaram realidade; e tanto maiores quanto, pelos milagres e sofrimentos de Cristo, mais excelentes quinhões serão distribuídos. Preciosa, também, porque a cruz é paixão e vitória de Deus: paixão, pela morte voluntária nesta mesma paixão; e vitória porque o diabo é ferido e com ele a morte é vencida. Assim, arrebentadas as prisões dos infernos, a cruz também se tornou a comum salvação de todo o mundo.”

Essa cruz, vemo-la ornar ricamente as coroas dos monarcas, brilhar com esplendor no peito dos bispos, presidir gloriosa as solenes liturgias; vemo-la elevada sobre as torres dos templos — quer de imponentes basílicas e imensas catedrais, quer das mais modestas e desconhecidas capelas e oratórios —, arvorada nas bandeiras militares, plantada no meio de silenciosos claustros; vemo-la ainda agitada pelas mãos incansáveis do missionário, carregada sobre os fatigados ombros do penitente, osculada pelos lábios trêmulos do moribundo… Em seu louvor, canta a Igreja no ofício da Semana Santa, este belíssimo hino:

Ó Cruz fiel, és a árvore Mais nobre em meio às demais, Que selva alguma produz Com flor e frutos iguais. Ó lenho e cravos tão doces, Um doce peso levais. (…)

Só tu, ó Cruz, mereceste Suster o preço do mundo E preparar para o náufrago Um porto em mar tão profundo. Quis o Cordeiro imolado Banhar-te em sangue fecundo.

Uma só Cruz! Entretanto, no Calvário havia três. Sim, uma só, porque daqueles três condenados, um só era Inocente! Nunca passou pela mente de ninguém a idéia de levantar uma segunda cruz, apesar de ter sido São Dimas canonizado em vida pela própria voz do Salvador. Nunca, porque somente o sangue sem mácula é merecedor de veneração, assim como adorado só pode ser o de Deus. Uma só atraiu todos os povos, uma só marcou os tempos e a eternidade!

Unamo-nos, na adoração da Santa Cruz, Àquela que estava de pé, venerando seu Filho, naquele instrumento de suplício: Stabat Mater dolorosa juxta crucem lacrimosa. Estejamos pois, cheios de esperança, recolhendo também as puríssimas lágrimas de Nossa Senhora, que são para nós penhor de confiança e de certeza de perdão.

Revista Arautos do Evangelho n.57 set 2006

Parai e vede se há dor semelhante à minha dor

Lucía Pérez Wheefock

É impossível não sentir profunda emoção ao contemplar alguma expressiva imagem da Mater Dolorosa e meditar estas palavras do Profeta Jeremias, que a piedade católica aplica à Mãe de Deus: “Ó vós todos que passais pelo caminho, parai e vede se há dor semelhante à minha dor” (Lm 1, 12).

A esta meditação nos convida a Liturgia do dia 15 deste mês, dedicado a Nossa Senhora das Dores.

Quatro grandes privilégios

“Não te esqueças dos gemidos de tua mãe” (Eclo 7, 29). É grato imaginar que este preceito do Espírito Santo tenha inspirado aos cristãos dos primeiros séculos uma veneração especial pelos sofrimentos da Mãe de Deus e nossa.

A este respeito, Santa Isabel de Hungria (+1231) relata ter sido beneficiada por uma aparição na qual São João Evangelista lhe revelou que, justamente no dia da partida da Virgem Maria para o Céu, ele teve uma visão de como foi o encontro d’Ela com seu Divino Filho.

Nesse primeiro encontro — narrou São João — o Redentor e sua Mãe conversaram sobre os sofrimentos que ambos suportaram no Calvário. No final, a Virgem Maria pediu a Jesus graças e privilégios especiais para todos aqueles que, na terra, se lembrassem e se compadecessem dos gemidos, das lágrimas e das dores que Ela padeceu, em união com Ele, para nossa Redenção. E seu Divino Filho atendeu prontamente esse pedido, concedendo-Lhe quatro grandes favores:

Primeiro: quem invocar a Virgem Maria por suas dores e prantos terá a ventura de fazer verdadeira penitência de seus pecados antes de morrer.

Segundo: terá a proteção e o amparo de Nossa Senhora das Dores em todas as adversidades e trabalhos, especialmente na hora da morte.

Terceiro: quem, por memória das dores e prantos de Nossa Senhora, incluir em seu entendimento também as da Paixão, receberá no Céu um prêmio especial.

Quarto: e obterá dessa Soberana Senhora tudo quanto pedir para sua salvação e sua utilidade espiritual.

Como progrediu essa devoção

Já no séc. IV alguns insignes doutores da Igreja — Santo Efrém, Santo Ambrósio e Santo Agostinho — teceram comoventes considerações sobre as dores de Maria. No fim do séc. XI, outro doutor da Igreja, Santo Anselmo, propagava a devoção a Nossa Senhora das Dores. Muitos monges beneditinos e cistercienses faziam coro com ele nessa propagação. No século seguinte, o grande São Bernardo de Claraval, também doutor da Igreja, levou mais longe a prática dessa devoção. A todos esses se juntaram os ardorosos frades servitas, já no séc. XIII.

Em decorrência desse aumento de devoção, logo floresceram esplêndidos monumentos artísticos e literários em louvor à Mãe das Dores. Um deles — o hino Stabat Mater, composto por Iacopone de Todi por volta de 1300 — foi adotado na Liturgia e desperta nos ouvintes os melhores sentimentos de ternura e compaixão para com a Virgem sofredora: “Estava a Mãe dolorosa aos pés da Cruz, lacrimosa, da qual o Filho pendia…”

No campo das imagens sagradas, destacam-se as da “Piedade”: a Mãe dolorosa e lacrimosa contemplando o corpo sacratíssimo do Filho que jaz inerte em seus braços virginais. E as da “Soledade”: o Filho já foi sepultado, a Mãe não tem mais nem sequer o cadáver para contemplar, em suas mãos resta apenas um sudário!

Em 1423, para reparar os ultrajes dos hereges hussitas que, com sacrílego furor, desfiguravam as imagens de Nosso Senhor e da Virgem Santíssima, o Concílio Provincial de Colônia instituiu a comemoração litúrgica das Dores de Maria. Três séculos depois, em 1727, o Papa Bento XIII inscreveu-a no Calendário Romano, estendendo a celebração para a Igreja no mundo inteiro.

Atualmente, a Liturgia cultua Nossa Senhora das Dores no dia 15 de setembro, data estabelecida pelo Papa São Pio X em 1913.

As Sete Dores de Maria

As sete dores, as sete tristezas ou as sete espadas… O relato dos Santos Evangelhos forneceu à piedade popular os elementos para formar a coleção dos sete grandes padecimentos da Virgem Mãe.

“Uma espada transpassará tua alma” (Lc 2, 35), profetizou Simeão a Maria, no Templo. Esta foi sua primeira grande dor. Seguem-se depois as demais, na ordem cronológica do Evangelho: a fuga para o Egito, a perda do Menino Jesus no Templo, a ida para o Calvário, a Crucifixão de Nosso Senhor, a descida da Cruz, e o sepultamento.

Durante certo tempo, a memória de Nossa Senhora das Dores se comemorava sob o título de celebração das Sete Dores de Maria, introduzida na Liturgia em 1668, por iniciativa da Ordem dos Frades dos Servos de Maria (Servitas). Essa Ordem goza do privilégio de um Prefácio próprio para a comemoração litúrgica de 15 de setembro, no qual se faz esta comovedora oração a Deus Pai, uma verdadeira obra-prima de piedade e teologia:

“Vós, para restaurar o gênero humano, em sábio desígnio, associaste benignamente a Virgem a vosso Filho Unigênito; e Ela que, pela ação fecundante do Espírito, tinha-se tornado a Mãe d’Ele, por novo dom de vossa bondade tornou-se sua auxiliar na Redenção; e as dores que Ela não sofreu ao dar ao mundo seu Filho, sofreu, gravíssimas, para fazer-nos renascer em Vós.”

Revista Arautos do Evangelho n.45 set 2005

O Evangelho como história de amor

Irmã Juliane Vasconcelos Almeida Campos, EP

A espiritualidade de Dom Luís Guanella baseava-se na compreensão do Evangelho como a história de amor de um pai para com seus filhos: Deus cuida de cada um, especialmente dos mais débeis e necessitados.

Na tarde de 15 de março de 2002, um jovem americano, William Glisson, patinava sem capacete em alta velocidade por uma rua de Springfield, em Filadélfia, quando sofreu uma queda violenta, com consequências gravíssimas devido a um forte traumatismo craniano.

Levado ao hospital em estado de coma, foi submetido a várias intervenções cirúrgicas nos dias subsequentes. Entretanto, sua situação se agravava cada vez mais, restando-lhe poucas esperanças de sobreviver, na melhor das hipóteses, com sequelas bem desafortunadas.

Quatro dias depois do acidente, na solenidade de São José, a Dra. Noreen M. Yoder, amiga da família, entregou à mãe de William duas relíquias do Beato Fundador da ordem religiosa à qual pertencia o hospital onde trabalhava, recomendando-lhe recorrer a ele para obter a cura do rapaz. A piedosa senhora prendeu uma das relíquias no pulso do filho e reteve consigo a outra, para pedir ao Bem-aventurado o milagre. Logo se formou uma cadeia de orações nessa intenção.

Contra todas as expectativas médicas, o jovem começou a reagir e vinte dias depois recebeu alta, apenas com a prescrição de um programa de reeducação funcional neuromotora. Oito meses após o acidente, já inteiramente restabelecido, voltou a trabalhar como carpinteiro na empresa do pai.

Tal milagre, realizado por intermédio do Beato, permitiu satisfazer a última exigência de seu processo de canonização. E será ele elevado à honra dos altares, no rol dos santos da Igreja Católica, no dia 23 deste mês, na Praça de São Pedro, em Roma.

Quem é este intercessor? Luís Antonio Guanella Bianchi, fundador da Congregação das Filhas de Santa Maria da Providência e dos Servos da Caridade, também conhecidos como guanellianos.

Equilíbrio entre firmeza e doçura

Nascido em 19 de dezembro de 1842, na aldeia alpina de Fraciscio di Campodolcino, Luís foi o nono dos treze filhos de uma família montanhesa dotada de sólidos princípios cristãos.

O pai, Lorenzo di Tomaso Guanella, corpulento, robusto e de rija personalidade, inspirava confiança pela sua simples presença. Assim o descreverá o filho, em sua Autobiografia: “Esbanjava saúde e seu caráter era firme e decidido, à semelhança do monte Calcagnolo, logo acima de Fraciscio”. 1

A mãe, Maria Antonieta Bianchi, piedosa e dedicada ao trabalho, como o marido, contrastava com este por sua notável doçura de trato. A seu respeito escreveu o padre Luís Guanella: “O peso da autoridade paterna, no tocante aos filhos, era contrabalançado, providencialmente, pela mãe […] uma mulher criativa e muito amorosa; um tesouro da Providência!”. 2

Entre os irmãos, todos se relacionavam bem. Mas Catarina, apenas um ano mais velha, foi sua predileta. Ainda crianças, conversavam sobre as peripécias dos santos e aprenderam a ver nos pobres a figura de Jesus. Perto de sua casa, havia uma rocha com cavidades que pareciam panelas. Ali, as inocentes crianças misturavam água e terra, e mexiam aquela mescla dizendo: “Quando formos adultos, faremos assim a sopa dos pobres”. 3

Sinais precoces da vocação

Desde muito cedo, numerosos indícios, premonições e acontecimentos extraordinários iam indicando ao pequeno Luís as vias traçadas para ele pela Providência Divina.

O primeiro desses fatos ocorreu tendo ele apenas seis anos de idade, na festa de São João Batista. Encontrava-se na Praça da Matriz de Campodolcino, junto com o tio e o cunhado, quando este último deu-lhe de presente um saquinho de diavoletti, deliciosas balas de menta, justamente na hora de soar o sino para a Missa.

Não querendo entrar na igreja com os doces na mão, foi escondê-los num monte de lenha, onde estariam a salvo da cobiça de outra criança. Nesse momento, ouviu palmas e viu junto à porta da Prefeitura um velhinho que o fitava. O santo o descreve na mesma Autobiografia: “Era franzino, de cabelos brancos, rosto moreno; trajava calças curtas, as meias eram de lã não tingida, seu rosto amável como que implorava aqueles doces”. 4 Com medo, escondeu as balas e, quando se voltou para olhar, o homem havia desaparecido…

Aquela imagem nunca mais se apagou de sua mente. Ela sempre vai retornar “quando do encontro com outros velhinhos, suplicando por um pouco de bem e de doçura ao término da vida”. 5

Outro fato marcante aconteceu no dia de sua Primeira Comunhão, aos nove anos. Por ser Quinta-Feira Santa, não houve festa e, regressando a casa, mandaram-no cuidar das ovelhas, como em qualquer dia comum. Ainda tocado pela graça, sentou-se em um dos gramados da colina Motto, parecido a um sofá, onde costumava descansar enquanto pastava o rebanho, e pôs-se a rezar a Nossa Senhora, agradecendo-Lhe a ventura de haver recebido Jesus em seu coração.

Sentia-se tomado por uma suave doçura que o impelia a fazer generosos bons propósitos. Contudo, a certa altura caiu no sono com seu livrinho de orações nas mãos e foi acordado por uma voz feminina que o chamava pelo nome. Não vendo ninguém ao redor, julgou tratar-se de um sonho. Retomou a leitura e adormeceu novamente.

Mais uma vez, o fato se repetiu. E, como aconteceu com Samuel (cf. II Sm 3, 8), ainda houve uma terceira vez, na qual a voz se fez ouvir mais forte e nítida: “Luís, Luís”. Nesse momento, narra o santo, “eis que vejo uma Senhora estendendo seu braço direito como a indicar alguma coisa. Ela me disse: ‘Quando você for adulto, fará tudo isso em prol dos pobres’. E como num telão, vi tudo o que deveria fazer”. 6

Forjando o temperamento

Aos doze anos Luís recebeu uma bolsa de estudos e matriculou-se no Colégio Gálio, em Como. Para esse pastorzinho acostumado às liberdades do campo e aos grandiosos panoramas alpinos, não faltaram sofrimentos na adaptação à rígida disciplina escolar. O colégio lhe parecia uma prisão. Não obstante, isso o ajudou a dominar seu caráter enérgico, por vezes impulsivo e irascível, e a manifestar os aspectos amáveis, expansivos e afetuosos do seu temperamento, herdados da mãe.

Fortalecido pela frequência aos Sacramentos e sua ardorosa devoção a Maria, ali cultivou os germens da vocação, manteve-se firme em seus princípios e inabalável no grande apreço às virtudes da castidade e da modéstia, apesar dos ventos revolucionários e liberais que sopravam na Itália e no mundo.

Após seis anos de colégio, ingressou no seminário diocesano Santo Abôndio, onde ficou ainda mais vincada a vocação específica que a Providência lhe dera desde a infância. Ao retornar, durante as férias, à sua aldeia natal, empenhava-se em ajudar os pobres e enfermos da região, sobretudo os mais desamparados.

“Uma espada de fogo no ministério santo”

Em um ambiente de ressentimento e raiva, marcado pelas profanações de igrejas realizadas em Como pelos seguidores de Garibaldi, Luís foi ordenado presbítero, em 26 de maio de 1866, por Dom Bernardino Frascolla, Bispo de Foggia.

Naquele dia, com a alma transbordante de júbilo, o novo sacerdote fez uma promessa a Deus e a seus irmãos: “Quero ser uma espada de fogo no ministério santo!”. 7 Com semelhante propósito, explica um dos seus biógrafos, “o jovem demonstrara capacidade de sonhar e de ‘almejar coisas grandiosas’; desposar a causa dos mais pobres, priorizando o amor a Deus e aos irmãos”. 8

Celebrou sua primeira Missa em Prosto, onde havia servido como diácono, na solenidade de Corpus Christi, e ali permaneceu cerca de um ano como vigário.

Nomeado pároco de Savogno, valeu-se de seu diploma de mestre para ali abrir uma escola, que logo se encheu de alunos. Dedicou-se, então, com grande entusiasmo ao apostolado com os mais pobres durante oito anos. Dava formação religiosa a pessoas de todas as idades, convidando-as a se unirem ao Santo Padre e alertando-as a respeito das novas doutrinas da época, hostis à Igreja. Por isso e, sobretudo, pela publicação de um livreto intitulado Saggio di ammonimenti, contendo tais ensinamentos, acabou sendo fichado pela autoridade civil como “elemento perigoso”. Sua escola foi fechada e ele viu-se forçado a sair da diocese.

Três anos de “aprendizagem” com Dom Bosco

Atraído pela pessoa de São João Bosco, optou por se dirigir a Turim. Ali passou três anos (1875-1878) em “aprendizagem”, como diria depois, seguindo os passos do fundador dos salesianos no caminho da santidade e colaborando com sua obra pedagógica em favor da juventude. Nesta mesma ocasião, conheceu a obra caritativa de São José de Cottolengo, a qual também deixou profundas impressões em sua alma.

Contudo, tinha muitas dúvidas e inquietações. Estaria seguindo o caminho para o qual se sentia chamado? Onde ficava a realização de tudo quanto vira no dia de sua Primeira Comunhão? Em seu coração continuava a soar a voz da Providência, incitando-o a fundar uma instituição própria, para o que muito colaborou todo esse tempo de provações e experiência.

Convocado por seu Bispo, regressou à Diocese de Como. Sair de Turim, separar-se dos salesianos e principalmente de Dom Bosco, foi-lhe muito doloroso. “Não senti tamanha dor nem mesmo quando faleceram meus pais, tendo-os em meus braços” 9, afirma em sua Autobiografia.

Primeira casa da Divina Providência

Na paróquia de Traona, para onde foi enviado em 1878, com a missão de ajudar o pároco enfermo, tentou transformar um antigo convento em escola para jovens pobres aspirantes ao sacerdócio, no estilo salesiano. Entretanto, era ainda considerado um “padre sob suspeita” e não conseguiu a necessária autorização do poder civil.

O Bispo transferiu-o, em 1881, para Olmo, paróquia confinada entre altas montanhas, onde talvez pudesse ficar livre da desconfiança de exercer “perigosas influências” contra o governo. Ali, sentia-se exilado e abandonado por Deus, vendo impossível a realização de seu chamado.

Poucos meses depois, recebeu ordem de ir para Pianello, onde haveriam de cessar essas provações. Encontrou ali um orfanato e um asilo fundados por seu predecessor recém-falecido, o padre Carlos Coppini, postos sob os cuidados de algumas jovens aspirantes à vida religiosa. Foi a partir deste empreendimento que se originou, em 1886, sua primeira fundação, a Congregação das Filhas de Santa Maria da Providência, contando com a valiosa colaboração da Madre Marcelina Bosatta e de sua irmã, a Beata Clara Bosatta.

Sempre dócil à vontade divina, dizia Dom Guanella: “O segredo da perfeição é fazer a vontade de Deus”. 10 Abriu por fim, em Como, a primeira Casa da Divina Providência — mesmo nome utilizado por São José de Cottolengo —, com o objetivo de atender os pobres e necessitados. A instituição começou a crescer e não faltaram generosos benfeitores nem almas dispostas a se dedicarem àquela obra de caridade.

Numa viagem a Turim, pediu orientação a Dom Bosco sobre seu desejo de fundar também um instituto masculino. Este lhe mostrou a conveniência de tal empresa e nasceu, assim, sob as bênçãos do Arcebispo de Milão, Beato André Carlos Ferrari — que até 1874 fora Bispo de Como — a Congregação dos Servos da Caridade.

Erigida a obra canonicamente, com a colaboração dos padres Aurélio Bacciarini e Leonardo Mazzucchi, no dia 24 de março de 1908, chegou o momento tão longamente aguardado: Dom Guanella e um pequeno grupo de sacerdotes emitiram diante do sacrário os votos perpétuos de pobreza, castidade e obediência.

Chamados a pertencer à família divina

A espiritualidade do santo fundador baseava-se na compreensão do Evangelho como a história de amor de um progenitor para com seus filhos: Deus é Pai de todos, e Pai Providente, que cuida de cada um, especialmente dos mais débeis e necessitados.

Por meio de Jesus Cristo, todos são chamados a fazer parte da família divina. E nela merecem especial ajuda as pessoas mais necessitadas, como os anciãos abandonados, os órfãos, os enfermos terminais desenganados, ou os deficientes físicos e psíquicos.

Resumia ele a formação a ser dada dentro dessa família divina com o lema “Pão e Senhor”. 11 O “Pão” seria o desenvolvimento integral da pessoa: físico, intelectual, psíquico e social. E por “Senhor” entendia o atendimento das “necessidades mais profundas da alma humana, chamada a descobrir sua plenitude na vida de fé, esperança e caridade”. 12

Nessa família destaca-se a indispensável figura da Mãe, que encaminha todos a Cristo. Passava ele horas diante da imagem da Nossa Senhora da Divina Providência. Nunca duvidava da intercessão d’Aquela que lhe mostrara em sua infância a envergadura de sua obra: “Ficai perto de Maria e procedei com segurança” 13, recomendava a seus discípulos.

Mais necessário é morrer bem…

Depois de passar inúmeras vicissitudes e provas, Dom Guanella viu, no fim de sua existência, sua obra expandir-se por quatro continentes. Convencido de que os homens são meros instrumentos, pois “è Dio che fa” — quem faz é Deus —, o fundador estimulava o ardor missionário dos seus filhos e filhas dizendo-lhes: “Vossa pátria é o mundo”. 14 Ele próprio acompanhou a fundação de novas casas em outros países, como a dos Estados Unidos, em 1912.

A obra guanelliana contou com valiosos apoios, inclusive do Papa São Pio X, que distinguia o fundador com sua amizade. Ele mesmo lhe propôs a fundação, perto do Vaticano, da Paróquia de São José al Trionfale, hoje basílica menor, com uma casa assistencial para auxiliar as famílias que ali viviam em tugúrios.

Em meio a tantas atividades, ainda encontrou tempo para escrever numerosas obras de formação cristã, além de mais de três mil cartas nas quais transparecem suas virtudes, seu senso profético e seu particular amor aos pobres e abandonados.

Um de seus últimos empreendimentos, e talvez o mais popular, foi a Pia União do Trânsito de São José, erigida em 1913, para a assistência aos moribundos. “Existe uma necessidade de viver bem”, dizia ele, “mas mais necessário é morrer bem. Uma boa morte é tudo, especialmente na atualidade, quando as pessoas só pensam nas coisas materiais e em divertir-se, rejeitando a eternidade”. 15

Coroando uma vida santa, essa boa morte chegou também para Dom Guanella, em 24 de outubro de 1915, aos 73 anos de idade. Possa sua elevação à honra dos altares desvelar ao mundo de hoje, tão confiante em si mesmo, o segredo de sua santidade como modelo a ser seguido: abandonar-se nas mãos da Providência Divina, certo de que, por mais que os homens atuem, “è Dio che fa”!

1DOM LUIS GUANELLA. Autobiografia, apud CARRERA, Mario (Org.). Bem-aventurado Luís Guanella. São Paulo: Paulinas, 2007, p.71.
2 Idem, p.71-72.
3 Idem, p.74.
4 Idem, p.59.
5 CARRERA, op. cit., p.60.
6 DOM LUIS GUANELLA. Autobiografia, apud
7 CARRERA, op. cit., p.62.
8 Idem, p.103.
9 CARRERA, op. cit., p.103. Idem, p.117.
10 Idem, p.128.
11 MINETTI, SdC, Nino. Beato Luís Guanella. In: MARTINEZ PUCHE,OP, José A. (Org.) Nuevo Año Cristiano. 4.ed. Madrid: Edibesa, 2003, v.X, p.571.
12 Idem, ibidem.
13 AMARAL, Victor Vinícius M. Frase do Fundador. In: Efatá. Informativo do Aspirantado Guanelliano. Porto Alegre. Ano IV. N.27 (Maio, 2011); p.5.
14 MINETTI, op.cit., p.571572.
15 CARRO CELADA, José Antonio. Beato Luís Guanella. In: ECHEVERRIA, Lamberto de, LLORCA, Bernardino, REPETTO BETES, José Luís. (Org.). Año Cristiano. Madrid: BAC, 2006, v.X, p.659.

Revista Arautos do Evangelho n. 118. out.2011

Essa criatura de Deus

Ir. Elizabeth MacDonald,EP

AS CATARATAS DO NIÁGARA
Massas de água em constante e variado movimento refletem de forma fascinante a grandeza do Criador.

Abandone por alguns instantes, leitor, as suas preocupações do dia-a-dia e deixe-se maravilhar por estas fotos ( ou o vídeo abaixo) das Quedas do Niágara. Em seguida, feche os olhos do corpo e abra os da imaginação para ver estas cataratas em seu contínuo estado de movimento e renovação. A cada minuto que passa são toneladas de água que se despenham, batendo nas rochas embaixo, num ensurdecedor ruído de “trovão”.

Sua localização geográfica — na fronteira entre Nova York (EUA) e Ontário (Canadá) — não poderia ser melhor, uma vez que as quatro estações do ano são perfeitamente ordenadas nesta região, fato que contribui para aumentar ainda mais sua beleza. Nos dias ensolarados do verão, é quase impossível não se deixar hipnotizar pela magnificência da paisagem. Além de assistir às gaivotas brincando com a neblina produzida pelas fortes quedas d’água, é possível contemplar um magnífico espetáculo de arco-íris.

O inverno traz um aspecto novo, dando-lhe uma nota austera, o que não diminui o esplendor das cataratas mundialmente famosas. Seu barulho continua ensurdecedor como sempre e talvez até mais acentuado, devido ao silêncio produzido pela neve e o gelo das redondezas.

Sim, as Quedas de Niágara são deslumbrantes! Sua grandeza e elegância são um excelente reflexo do Divino Artista, o qual é a própria Beleza.

Antes mesmo de serem evangelizados pelos missionários jesuítas, vindos da França, os indígenas locais sentiam a força do sobrenatural no espetáculo produzido pelas águas. Atribuíam aquela grandiosidade à existência de um “deus”, o qual chamavam de “o deus do trovão”, que para eles morava nas cavernas existentes atrás das cortinas de água.

Somente depois de 1678 essa maravilha da natureza tornou-se conhecida além das fronteiras norte-americanas. Os primeiros olhos europeus que a contemplaram foram os do franciscano Frei Luís Hennepin, capelão da expedição promovida pelo desbravador francês La Salle. Maravilhado pela paisagem grandiosa, celebrou ali uma Missa em ação de graças, olhando para as cataratas, acompanhado por um grupo de índios Seneca. Apesar da gélida temperatura do mês de dezembro e do improvisado altar, o esplendor da região bem poderia ser comparado a algumas das belíssimas catedrais que ele havia deixado na Europa.

Desde então, mais de 12 milhões de turistas visitam anualmente as cataratas. Muitos, porém, as visitam não apenas enquanto simples turistas, mas também em espírito de peregrinação.

Um zeloso sacerdote, prevendo o grande número de pessoas que para lá afluiriam, resolveu construir uma pequena igreja no local onde fora celebrada a primeira Missa. Essa igreja recebeu o nome de Our Lady of Peace, isto é, Nossa Senhora da Paz, e acolhe não só os católicos da região mas todos os que de longe viajam sedentos de beleza.

Tempos depois, em 1861, o Papa Pio IX elevou a igrejinha à categoria de santuário mariano e local de peregrinação.

Assista ao vídeo das Cataratas do Niágara clicando no link abaixo.

http://www.gaudiumpress.org.br/tv/interna/id/6961/title/As+cataratas+do+Ni%C3%A1gara.html

Artigo extraído da Revista Arautos do Evangelho n.20. ago 2003

Um santo a ser conhecido

Ir Mónica María Barraza, EP
1º Ano de Ciências Religiosas

Maria Santíssima, Mãe nossa por excelência e grande Medianeira de todas graças, apresenta a Seu Divino Filho todas as nossas necessidades. Com efeito, Ela é o caminho mais seguro para alcançarmos tudo aquilo de que precisamos.

No entanto, pouco fala-se do poder de mediação de São José. Se analisarmos sua vida aqui na Terra, sendo pai adotivo de Nosso Senhor Jesus Cristo, compreenderemos melhor seu papel junto a cada um de nós.

O Padre Eterno confiou Seu amado Filho em suas mãos, este Tesouro, o maior que houve e haverá na História do universo! E tais mãos só podiam ser as de um homem de grande prudência e de elevado afeto. Pensemos também nos lábios que inúmeras vezes deram conselhos Àquele que é a Sabedoria Encarnada, nos braços que carregaram o Menino-Deus, enfim, um homem que mereceu ser chamado, pelo seu próprio Criador, de “pai”.

Descendendo da mais sublime dinastia que já houve no mundo, isto é, a de David, quis a Providência enobrecer a classe operária, fazendo com que o pai adotivo de Jesus fosse também trabalhador manual. Infelizmente, muitas vezes as pessoas possuem de São José uma visão parcial, vendo-o apenas como o “carpinteiro”.

Se este justo varão interceder por cada um de nós, Nosso Senhor não atenderá este nobre patriarca com toda a benevolência?

Recentemente, o papa Francisco autorizou a inclusão do nome de São José no texto do ordo da Missa. Ele é invocado logo após a referência que se faz da Virgem Maria.

Nestes tempos de catástrofes, confusões e guerras, estará Deus convidando-nos a conhecer mais profundamente este admirável santo, aumentar nossa devoção a ele e, assim beneficiar-nos de sua poderosa intercessão?

Uma aula de perfeição

Irmã Carmela Werner Ferreira, EP

O caminho da virtude, que outros apontaram através de páginas de sabedoria, a Doutora da Pequena Via nos indica aqui por meio de seu olhar.

Santa Teresinha do Menino Jesus nasceu após a invenção da fotografia, e graças às possibilidades por esta inauguradas, podemos acompanhá-la em todas as fases da vida, desde os primeiros anos até os últimos dias. Certamente não a conheceríamos tão bem nem aproveitaríamos tanto as páginas de seus Manuscritos Autobiográficos sem este valioso complemento, verdadeiro registro visual de seu progresso na virtude.

Entre os diversos retratos da carmelita de Lisieux, um chama de modo especial nossa atenção, pela fulgurante expressão de santidade que deixa transparecer. Trata-se da fotografia tirada aos seus oito anos, quando era aluna das religiosas beneditinas, na qual aparece trajada com uniforme escolar ao lado de sua irmã Celina.

Seu olhar honesto, sereno e despretensioso denota uma louçania cativante, reflexo da inocência batismal fielmente conservada. Sem estar rindo nem aparentar ter o hábito de fazê-lo a todo o momento, transmite uma alegria intensa e completa ausência de egoísmo. Diríamos que ela experimenta uma felicidade autêntica, pois “a criança não conhece a mentira, a falsidade nem a hipocrisia. Sua alma se espelha inteiramente em sua face; sua palavra traduz com fidelidade seu pensamento, com uma franqueza emocionante. Ela não tem as inseguranças da vaidade ou do respeito humano. Em uma palavra, ela e a simplicidade constituem uma sólida união”. 1

O Beato João Paulo II, ao proclamá-la Doutora da Igreja, incluiu seu nome no seleto rol de expoentes como Santo Agostinho, São João Crisóstomo e São Tomás de Aquino. Causa-nos surpresa que uma religiosa falecida aos 24 anos de idade tenha recebido esta honraria concedida apenas aos mais destacados teólogos da Santa Igreja.

Entretanto, melhor do que muitos luminares das ciências, a Doutora da Pequena Via ensinou que “se não vos transformardes e vos tornardes como criancinhas, não entrareis no Reino dos Céus” (Mt 18, 3), e justificou de maneira magnífica a oração do Divino Mestre: “Eu Te louvo, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos” (Mt 11, 25).

O Pontífice a exaltou não tanto por aquilo que ela fez, mas, sobretudo, pelo que ela foi. O caminho da virtude, que outros apontaram através de páginas de sabedoria, ela nos indica aqui por meio de seu olhar. Afinal, determo-nos por alguns minutos na contemplação deste semblante não equivale a receber uma aula de perfeição?

1CLÁ DIAS, EP, João Scognamiglio. O inédito sobre os Evangelhos. Roma/São Paulo: LEV/LumenSapientiæ, 2012, v.V, p.124. Março 2013 .

O convívio entre os santos

Ir. Angela Maria Tomé, EP

Dos incontáveis deuses da Antiguidade, qual deles dava a seus adoradores a honrosa qualificação de “amigo”? Qual estabeleceu o mútuo amor como padrão de relacionamento entre eles?

Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (Jo 13, 35). Este luminoso ensinamento de Nosso Senhor Jesus Cristo tem sido confirmado de várias maneiras ao longo dos dois mil anos da História da Igreja, especialmente através do comportamento dos santos, modelos de vida propostos pela sabedoria da Esposa Mística de Cristo à imitação de todos os fiéis.

O Filho da Virgem Maria operou na Terra tal transformação que é difícil ao homem hodierno fazer ideia de como era o mundo antes d’Ele

Um Deus que Se faz amigo e irmão

Logo de início, chama a atenção, no tocante ao relacionamento humano, o radical contraste entre a doutrina do Divino Mestre, com seu consequente modo de viver, e a mentalidade do mundo antigo.

Dos incontáveis deuses da Antiguidade, qual deles dava a seus adoradores a honrosa qualificação de “amigo”? Eram, ao contrário, prepotentes e egoístas, sujeitos às mesmas paixões desregradas dos seus seguidores, com os quais tinham um trato rude. Não faltavam sequer aqueles que exigiam sacrifícios humanos. Dessa aberração nem o povo eleito ficou isento, como afirma o Salmista: “Prestaram culto aos seus ídolos, que se tornaram um laço para eles. Imolaram os seus filhos e suas filhas aos demônios. Derramaram o sangue inocente: o sangue de seus filhos e de suas filhas, que aos ídolos de Canaã sacrificaram” (Sl 105, 36-38).

O Filho da Virgem Maria operou na Terra tal transformação que é difícil ao homem hodierno fazer ideia de como era o mundo antes d’Ele. Só Cristo, Deus e Homem verdadeiro, pôde dizer: “Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz seu senhor. Mas chamei-vos amigos, pois vos dei a conhecer tudo quanto ouvi de meu Pai” (Jo 15, 15). Deu-nos o sublime exemplo de um Deus cheio de amor por seus adoradores, a ponto de torná-los irmão; dar-lhes sua própria Mãe para ser também Mãe de cada um deles; de sacrificar sua vida, até à efusão da última gota de sangue, para remi-los. Nada mais compreensível, portanto, do que prescrever-lhes como norma de conduta um novo Mandamento: “Amai-vos uns aos outros como Eu vos tenho amado” (Jo 13, 34).

Esposa do Espírito Santo e perfeitíssima discípula do Verbo de Deus encarnado, Maria Santíssima cumpriu com toda integridade e brilho esse Mandamento antes mesmo de ele ser formulado pelo Divino Mestre. Embora os Evangelistas tenham sido muito comedidos em narrar fatos de sua vida, sabe-se que a visita a Santa Isabel foi um refulgir do amor de Deus transbordante do seu Imaculado Coração. Pode-se dizer o mesmo de sua intervenção nas bodas de Caná, livrando os noivos de uma constrangedora dificuldade. E quantos outros atos de amor ao próximo terão sido praticados por Ela, na esteira dourada das pegadas de seu Filho? Desses, só na eternidade teremos conhecimento.

São Francisco e o Irmão Bernardo

Felizmente para nossa edificação, é conhecida em detalhes a vida de muitos santos que seguiram os passos do Jesus Cristo Nosso Senhor.

Por exemplo, lê-se nas famosas Fioretti — compilação de “fatinhos” da vida de São Francisco de Assis — que certo dia ele foi à procura de Frei Bernardo, seu primeiro discípulo, com o qual desejava conversar. Chegando ao local onde este costumava orar, chamou-o por três vezes, sem obter resposta. Um pouco abatido, por julgar que o Irmão evitava sua companhia, o Poverello retirou-se. No caminho de volta, o Senhor lhe revelou que Frei Bernardo estava naquele momento num colóquio com Deus, e por isso não o havia ouvido. São Francisco voltou então e pediu-lhe humildemente perdão por haver pensado mal dele.

Contudo, a admiração deste discípulo por seu fundador era tão grande que ele nem queria ouvir o pedido de perdão. Mas São Francisco ordenou-lhe, em nome da santa obediência, que, como penitência por aquele mau pensamento, ele pisasse três vezes sobre seu pescoço e sua boca dizendo: “Aguenta aí, vilão, filho de Pedro Bernardone, de onde te vem tanta soberba, sendo tu a mais vil das criaturas?”.

Agindo da maneira mais delicada possível, Frei Bernardo executou a ordem. Em seguida, pediu a seu fundador que, por caridade, lhe prometesse algo: sempre repreendê-lo e corrigi-lo asperamente por seus defeitos, quando estivessem juntos. Daí em diante São Francisco passou a falar o mínimo possível com ele, pois o tinha em conta de homem muito virtuoso e santo, e por isso julgava-se indigno de corrigi-lo.

Um almoço singular

Outro fato muito edificante deu-se entre São Francisco e Santa Clara. Como se sabe, ela foi atraída à vida religiosa por ele e renunciou a uma situação cômoda no meio das riquezas, para abraçar a vocação franciscana. Apesar de ter frequentes palestras e reuniões com seu pai espiritual, para ficar bem formada no espírito da Ordem, ela manifestava o desejo de, um dia, partilhar com ele uma refeição. Mas o santo, por temor de dar-se a si mesmo esse deleite, sempre recusava. Seus irmãos e discípulos instavam com ele para atender ao pedido da pobre dama, uma vez que ela tinha renunciado a tudo por amor a Deus e era tão santa. São Francisco, muito cordato, acedeu: “Se vos parece que devo concordar, também a mim parece”. Convidou-a então para um almoço em Santa Maria dos Anjos, a igreja onde ela havia feito seus votos e cortado seus cabelos, símbolo de sua entrega total a Deus.

No dia combinado, lá foi ela, felicíssima, acompanhada de uma irmã. A pobre refeição foi servida, sentando-se à mesa São Francisco, Santa Clara, sua irmã e outro frade. Os demais religiosos da comunidade se aproximaram da mesa para acompanhar a refeição. Tão logo os comensais começaram a falar das coisas de Deus com suavidade, alegria e elevação, eles mesmos e todos quantos assistiam foram tomados pela abundância da graça divina e ficaram extasiados em Deus. Vistos de longe, a casa e o bosque ao lado pareciam estar ardendo em chamas, e muitas pessoas ali acorreram, temendo tratar-se de um incêndio. Nada encontraram, porém, como causa de tanta luz, a não ser um conjunto de santos que, com fisionomias alegres e embevecidas, se entretinham num êxtase comum e com isso glorificavam o Senhor.

* * *

A consideração desses singelos episódios não nos traz alívio e consolação? São manifestações de personalidades inocentes, despretensiosas, tão distantes das preocupações do mundo, que já vivem na atmosfera do Céu.

Redescubra a beleza da fé no novo livro de Mons João Clá Dias: O inédito sobre os Evangelhos

Considerando as leituras da Liturgia da Palavra na Santa Missa um incomparável meio de formação exegética, doutrinária e moral, Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias, EP, Presidente da Associação Arautos do Evangelho, oferece uma visualização nova, inédita nestes comentários litúrgicos.

A coleção “L’inedito sui Vangeli” é uma publicação conjunta internacional em quatro línguas da Librería Editrice Vaticana e os Arautos do Evangelho. O livro será lançado no próximo dia 28 de novembro, em Roma. Durante o ato será apresentado o Volume V da coleção -que comenta os Evangelhos dos domigos do Advento, Natal, Quaresma e Páscoa, e das Solenidades do Senhor no Tempo Ordinário do Ano C, e o volume VI, que comenta os Evangelhos dos Domingos do Tempo Ordinário do Ano C.

“Encontramos caracterizada com frequência nestas páginas a solução aos problemas espirituais do homem do século XXI”, afirma o Cardeal Rodé na apresentação que faz do livro.

http://es.gaudiumpress.org/content/42013-Libro-del-Presidente-de-los-Heraldos-del-Evangelio-sera-lanzado-en-Roma

Um guerreiro bem armado

Esther Pinales

O século XVI foi, sem dúvida, um dos mais agitados na história eclesial. A Europa, desde a revolta de Martinho Lutero e o surgimento dos sofismas e heresias de Zwinglio, Calvino, Henrique VIII e outros, viveu horas trágicas com agitações profundas, extensas e violentas no campo religioso e até mesmo no social.

A luminosidade, os encantos e a beleza do pensamento do homem medieval quebraram-se, abrindo passo à renascença, “a qual caminhava orgulhosa dos inegáveis talentos dos homens suscitados na ocasião em que ela se desenvolveu. Laica, voltada para os prazeres da Terra, tisnada de neo-paganismo” (PCO, 05/08/78).

Lamentável era a situação do Clero e das ordens religiosas, algumas em franca decadência. No ar, sentia-se a grande corrupção de costumes e a liberdade das más tendências; cristãos vivendo como pagãos e negando praticamente o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo: rebeliões, sacrilégios e escândalos cobriram todo o continente europeu.

No entanto, Deus na Sua Providência misericordiosa, jamais abandonou nem abandonará a sua Igreja. É o que em diversas ocasiões nos ensina Monsenhor João Clá Dias. Fato surpreendente e admirável! Sempre nas horas mais calamitosas e de maior corrupção e misérias morais e heresias, surgem extraordinários santos e heróis.

No século da revolta protestante (XVI), Deus suscitou um Inácio de Loyola, uma Santa Teresa de Ávila, São Caetano Thiene, São Jerônimo Emiliano, São Felipe Neri, Santo Antonio Zacarias, São Luis Gonzaga, e uma série de bem-aventurados. Nesta formosa constelação, como resposta do céu à heresia que negava a santidade da igreja, brilha também a figura singular de Roberto Belarmino.

Este santo foi um dos mais valentes defensores da Igreja Católica, Apostólica e Romana contra os ataques dos protestantes. Seus livros são tão sábios e cheios de argumentos convincentes que um dos mais famosos chefes protestantes exclamou ao ler um deles: “Com escritores como este, nós estamos perdidos, não há como responder-lhe”.

São Roberto nasceu em Itália, na cidade de Montelpuciano, Toscana, no ano 1542. A sua mãe era irmã do Papa Marcelo II. Conta-se que já em terna idade o menino Roberto dava mostras de possuir uma inteligência superior à dos seus companheiros e uma memória prodigiosa. Ele recitava de cor muitas páginas em latim do poeta Virgílio, como se as estivesse lendo.

Em resposta à sua entrega a Deus, lê-se em suas memórias: “Num instante, quando mais desejoso eu estava de conseguir cargos honoríficos, de repente me veio à mente a rapidez com que passam os bens da terra e a conta que todos nós vamos ter que dar a Deus, e me produziu o ideal de entrar na vida religiosa”. Roberto foi recebido na Ordem dos Jesuítas em Roma no ano 1560; ele entrava na companhia para escapar de cargos honoríficos tais como ser bispo ou cardeal, pois as regras dos jesuítas na época proibiam ambas as posições. Mas os planos da divina providência eram outros. Roberto negava-se aceitar tão alto cargo dizendo que os regulamentos da companhia de Jesus proibiam aceitar a títulos elevados da Igreja. O Papa respondeu-lhe que ele tinha o poder para dispensá-lo, e por fim lhe mandou, sob pena de pecado mortal, aceitar o cardinalato.

Os protestantes (evangélicos, luteranos, anglicanos, entre outros) tinham publicado uma série de livros contra a Fé Católica, e estes não encontravam como se defender. Então, o Sumo Pontífice solicitou ao santo preparar os sacerdotes para enfrentar os inimigos da Religião e a dirigir os jovens seminaristas, entre eles São Luis Gonzaga.

Ele fundou um curso que se chamava “Las Controversias”, para ensinar seus alunos discutir com os adversários e escreveu o CATECISMO RESUMIDO, o qual foi traduzido em 55 línguas e 300 edições.

Morreu no dia 17 de Setembro de 1621, e o Sumo Pontífice Pio XI o declarou Santo em 1930, e Doutor da Igreja em 1931.

Peçamos a São Roberto Belarmino um ardente desejo de conhecer, amar e defender a Doutrina Cristã.

A excelência da obediência na vida religiosa

obediênciaFlávia Cristina de Oliveira

A palavra obediência, proveniente do latim, ob audire, significa estar pronto para ouvir ou escutar. Por conseguinte, a obediência constitui um elo pelo qual o inferior une sua vontade à do superior para ouvir suas ordens de forma atenta e submissa. E conforme define São Tomás “a obediência torna a vontade do homem disposta a fazer a vontade de outro, a saber, daquele que manda”.1

A obediência é uma virtude moral e encontra-se em total dependência com a virtude cardeal da justiça, posto que dela deriva através da observância. Esta última, com efeito, tem por objeto próprio dar a cada um o que lhe corresponde.2

Deus constituiu o Universo de forma hierárquica, de maneira que os seres de naturezas inferiores fossem governados pelos superiores, embora pertençam a naturezas diversas; o mesmo ocorre com os seres dentro de um comum gênero: de animal para animal, de homem para homem, de anjo para anjo.

Levando isto em consideração, conclui-se que esta obediência que o inferior deve prestar ao superior é de direito natural, pois está inteiramente de acordo com a ordem posta por Deus no Universo, conforme nos propõe o Doutor Angélico:

“Como as ações das coisas naturais procedem das forças naturais, assim também as operações humanas procedem da vontade humana. Foi conveniente que, nas coisas naturais, as superiores movessem as inferiores à sua própria ação pela excelência do poder natural que Deus lhes concedeu. Portanto, nas coisas humanas, é necessário que as superiores movam por sua vontade as inferiores por força da autoridade concedida por Deus. Ora, mover pela razão e pela vontade é mandar. Por isso, como pela ordem natural instituída por Deus, nas coisas naturais, as inferiores são necessariamente submetidas à moção das superiores, assim também nas humanas, pela ordem do direito natural e do divino, as inferiores são obrigadas a obedecer às superiores”.3

Esta autoridade exercida por aqueles que são superiores é conferida por Deus. Pois, como afirma São Paulo, “não há autoridade que não venha de Deus” (Rm 13, 1). Por isso, toda autoridade legítima é merecedora de respeito e veneração.

Este foi o procedimento de Deus para com os homens desde o Antigo Testamento, enviando ao povo eleito, guias, “[…] patriarcas, homens de virtude excelsa e personalidade robusta, de Fé inquebrantável como Abraão, de pertinácia infatigável como Isaac”,4 e insignes profetas, como Elias, Moisés e tantos outros.

Isto se sublimou em alto grau no Novo Testamento. O Divino Mestre formou os seus Apóstolos nesta escola, e estes, transmitiram para toda a Igreja nascente: “Por amor ao Senhor, sede submissos a toda autoridade humana, quer ao rei, como soberano, quer aos governadores, como enviados por ele, para castigo dos malfeitores e para favorecer as pessoas honestas” (1 Pd 2, 13-14).

A submissão

Como vimos, a prática da obediência é necessária a todos os homens, pois ela está de acordo com a ordem posta por Deus no Universo, mas com o pecado original esta necessidade tornou-se mais viva na existência do homem. Em qualquer estado em que se encontre, ele se deparará nesta ou naquela circunstância às quais deverá obedecer. Se analisarmos a vida de um homem, veremos continuamente presente a obediência, a começar pela infância, quando terá ele de submeter-se aos pais, logo depois ao entrar para o colégio deverá obediência a seus professores; e, por fim, ao atingir a maturidade e optar por uma profissão será necessário impor-se dentro de certa disciplina a fim de alcançar determinado objetivo, ou então, se esta pessoa é chamada a uma vocação religiosa mais acentuada ainda será esta exigência, pois ela estará sujeita a um superior.

Será um mero acaso esta prática da obediência que vem inserida em todos os campos da vida humana?

Bem sabemos que isso não se trata de uma casualidade, mas de um meio de nos educarmos, pois uma vida de obediência bem levada põe em ordem a nossa vontade que se tornou tão corrompida pelo pecado original e, sobretudo, nos ensina qual deve ser nossa disposição de alma em face de nosso Redentor. Eis como exclama Santa Teresa: “ó virtude de obedecer que tudo podes!”,5 e São Francisco de Sales: “bem-aventurados os obedientes, porque Deus nunca permitirá que se extraviem!”.6

O sublime estado religioso

E se esta disposição de alma é exigida a qualquer cristão, podemos imaginar quanto mais daquele que por um desígnio especial de Deus é chamado a uma vocação religiosa, o que supõe sempre “um grande mistério de predileção para uma determinada alma […] e um abismo de amor seletivo por parte de Deus”,7 segundo as palavras do teólogo Padre Antonio Royo Marin. Devido a este extremado amor, cabe ao religioso uma única resposta que consiste numa dedicação total, sem condições.

Este estado de perfeição centra-se fundamentalmente na virtude da religião, em levá-la até as suas últimas consequências, nesta vida. “Nela nada há – na prática nada deve haver – que não seja total e essencialmente religioso.”8 Daí deriva este termo para aqueles que ingressam por esta via de entrega a Deus. Vejamos como nos explica São Tomás:

“O que convém em comum a muitos, atribui-se por antonomásia àquele a que convém por excelência. Assim, o nome de fortaleza vindica-o para si aquela virtude que nos faz conservar a firmeza de alma em face dos maiores perigos; […]. Ora, a religião, como estabelecemos, é uma virtude, pela qual nos dedicamos ao serviço e ao culto de Deus. Donde o se chamarem por antonomásia religiosos os que totalmente se consagram ao serviço divino, quase oferecendo-se em holocausto a Deus. Por isso diz Gregório: “Há pessoas que nada reservam para si, mas imolam os sentidos, a língua, a vida e a substância que receberam, ao Senhor onipotente”.9

O voto

Este oferecimento feito pelos religiosos baseia-se, sobretudo, na prática dos conselhos evangélicos, mediante os votos de pobreza, castidade e obediência (CIC 487); por meio destes, os religiosos têm a possibilidade de consagrar toda a sua vida a Deus e atingir mais facilmente a perfeição da caridade.

Uma vez que o holocausto significa entregar a Deus todos os bens e não reservar nada para si, nestes três votos estão contidas as três espécies de bens que o homem possui, a saber: os bens materiais que são entregues a Deus pelo voto de pobreza; o bem do próprio corpo que é consagrado a Deus pelo voto de castidade e por fim os bens da alma, que são oferecidos a Deus pelo voto de obediência. Este último constitui o mais excelente, pois se trata de oferecer a Deus a própria vontade.

Obediência religiosa excede os demais votos

Por isso o voto de obediência torna-se o principal dentre os outros, pois ele de si já contém os demais.

Uma razão mais nos dá o Doutor Angélico acerca da importância deste voto: afirma ser ele o mais essencial ao estado religioso, pois a obediência se refere propriamente aos atos relacionados ao fim da vida religiosa, e é justamente esta proximidade com o fim que lhe dá maior excelência. Desta forma, ninguém poderá pretender ser religioso se não tem o voto de obediência, ainda que tenha feito os votos de pobreza e castidade.10

A respeito desta temática, Plinio Correa de Oliveira comenta:

“Como é belo ser virgem, mais belo ainda é ser monge!” [afirma Santo Agostinho]. […] como o monge renuncia à sua própria vontade para, dentro de um convento e dentro de uma clausura, fazer a vontade de Deus, ele fica elevado a um estado que é mais belo que o próprio estado de virgindade. De maneira que alguém que tivesse a virgindade no século, mas não fosse monge, este não teria a alma tão bela quanto alguém que fosse um bom monge, embora antes tivesse tido a desgraça de perder a virgindade. Quer dizer, existe neste ato de conformidade, neste ato de obediência, por onde a gente se enclausura, por onde a gente faz inteiramente a vontade de Nossa Senhora, e vive de acordo com um regulamento que a vocação suscitou em nós, neste ato pelo qual a gente renuncia a fazer seus caprichos, a estar correndo de um lado para o outro, toma uma diretriz dentro da vida, consagra toda a sua vida a servir Nossa Senhora. Existe nisso uma beleza tal, que é mais bela do que a própria beleza da virgindade”.11

E [São Tomas de Aquino] diz: “A virgindade prepara o homem para cogitar as coisas de Deus; a vida monacal é mais bela do que isso, por que já é a própria cogitação das coisas de Deus”.

A renúncia da própria vontade

Nosso Senhor Jesus Cristo declara: “ninguém há que tenha abandonado, por amor do Reino de Deus, sua casa, sua mulher, seus irmãos, seus pais ou seus filhos, que não receba muito mais neste mundo e no mundo vindouro a vida eterna” (Lc 18, 29-30). Ora esta promessa de Nosso Senhor se realiza irrevogavelmente desde que haja uma sincera renúncia, conforme Ele afirma: “Se alguém me quer seguir, renuncie-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mc 8, 34). Esta disposição de alma consolida-se, sobretudo, na obediência.

À primeira vista, esta vida de obediência pode parecer algo impossível, pois, ao orgulho e ao desejo de ser senhor de suas vontades acrescenta-se mais um fator: “o maligno, sabendo que o caminho que leva mais depressa à suma perfeição é a obediência, põe muitos dissabores e dificuldades disfarçados de bem; […] parece sobremodo difícil (…) o contentar-nos com coisas que em tudo contradizem a nossa vontade, de acordo com o nosso natural.”12

Para certas pessoas, a própria vida de clausura é uma espécie de cárcere, onde é obrigada a cumprir uma porção de regras. Porém, a realidade é muito diferente, trata-se de um laço que nos une mais estreitamente a Ele, Nosso Senhor Jesus Cristo, pois nesta via de obediência “Deus fala não mais como Senhor que manda, senão um Pai que manifesta seu desejo. Esta obediência não é mais a atitude de quem serve sob a pena de não cobrar seu salário e perder seu pão, mas é a atitude do filho que extrai de seu amor as energias necessárias para fazer de boa vontade o que seu pai deseja”.13 E como nos ensina Santa Teresa:

“O amor, contudo, tem tamanha força, se for perfeito, que desprezamos nosso próprio contentamento para contentar aquele a quem amamos. […] Por maiores que sejam os sofrimentos, logo se tornam suaves quando sabemos que, com eles, agradamos a Deus. Quem chegou a esse ponto ama desse modo as perseguições, as desonras e as ofensas. […] O que pretendo explicar é o motivo de a obediência ser o caminho ou meio mais rápido para chegar a esse estado tão prazeroso. Como de maneira alguma somos senhores da nossa vontade, para empregá-la pura e simplesmente em Deus, enquanto não a tivermos submetido à razão, a obediência é a via régia para essa sujeição”.14

A este respeito encontramos o testemunho de grandes santos. Por exemplo, Santa Joana de Chantal exclamava: “Com vossa divina graça resolvo, Senhor, seguir em tudo vossas ordens e vossos desejos sem buscar jamais minha própria vontade”15 ; ou então, num exemplo ainda mais próximo de nós, Santa Teresinha do Menino Jesus, em uma carta que dirige à sua superiora: “Ó minha Madre, de quantas inquietações nos livramos fazendo voto de obediência! Como são felizes as simples religiosas! Já que a vontade dos superiores constitui sua única bússola, estão sempre seguras de se encontrarem no caminho reto”.16 Santa Teresinha alcançou a obediência perfeita e seguiu as vias de uma sujeição completa à vontade de Deus; sem se preocupar em fazer grandes mortificações físicas, se limitou apenas em cumprir as prescrições de sua Regra, pois tinha pela obediência um enorme apreço e chegou a escrever: “A Obediência é minha forte couraça e o escudo do meu coração”.17

Os frutos desta perfeita renúncia

É de muita valia ressaltar também alguns fatores que concorrem para a excelência da obediência na vida religiosa, segundo ensina Valuy.

a)No obséquio que se faz a Deus:

“Não se trata mais das riquezas da terra, como no voto de pobreza; nem das satisfações corporais, como a castidade; senão que consagra a Deus o que o homem tem de mais nobre, de mais precioso e de mais íntimo: sua própria liberdade”18; […] “já que é dom supremo do amor entregar não só o que se possui- coisa bem precária- mas o que se é”.19

b)Nos traços de semelhança que nos faz ter com Nosso Senhor Jesus Cristo:

O religioso pode afirmar com Ele, o Obediente por excelência: “não busco a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (Jo 5,30). E dizer também a respeito de si: “Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e cumprir a sua obra” (Jo 4,34); desta maneira ele se assemelha Àquele que é o modelo da mais sublime obediência.

c)Na dignidade e perfeição que comunica à vontade:

“A conformidade mais real, mais íntima, mais profunda, é a que existe entre duas vontades”20, assevera Tanquerey, e é propriamente esta afinidade que Deus quer estabelecer com os homens; este Seu desejo se satisfaz especialmente com aqueles que entregam a Ele sua vontade, pelo voto de obediência. E conforme atesta Santa Teresa, o nosso intelecto e a nossa vontade se enobrecem quando, esquecendo-se de si, tratam com Deus.21 Logo, “[…] pelo voto de obediência o religioso une seu entendimento e sua vontade ao entendimento e à vontade de Deus; faz-se um mesmo espírito com Deus e pode, com razão, lisonjear-se de pensar e de querer como Deus, de fazer o que Deus quer, como quer e porque quer”.22

d)Na influência que exerce sobre todas as virtudes:

“Se desejais enriquecer-vos pronta e facilmente de todas as demais virtudes, não abandoneis jamais o salutar exercício da obediência”23 , assegura Santa Maria Madalena de Pazzi. E continua Valuy: “Ela as planta, as rega e as faz frutificar; conserva-as, sustenta sintetiza e supre. Dá-lhes forma e mérito, valor e vida”.24

e)No sinal de predestinação que nela se encontra:

“Não sendo outra coisa o pecado, senão uma desobediência à lei divina, o que consagra a sua vida à obediência se coloca em certa impossibilidade de pecar; e, se o único obstáculo para a salvação está no pecado, ele toma o caminho mais seguro, curto e fácil para alcançar a salvação eterna. Que abundância de graças durante a vida, que consolos na hora da morte, que glória e que destino não concede Deus na eternidade, ao religioso que por seu amor sacrificou tudo e até a sua própria pessoa!”25

Desta maneira, o religioso ao passar desta vida para a eternidade, poderá com toda alegria exclamar:

“Senhor, eu também estive crucificado convosco, como Vós e por Vós. Meus pés e minhas mãos, minha língua e todos os meus sentidos, minha inteligência, minha liberdade, minha vontade, meu ser todo inteiro foi crucificado, […]. A obediência foi meus cravos e minha cruz. E agora, Senhor, posto que Vos segui até o Calvário, mandai-me entrar convosco na glória”.26

Por fim, cabe-nos reconhecer a grandeza desta virtude, para nos empenharmos em praticá-la e nela nos refugiarmos. A obediência nos dá uma felicidade insubstituível posto que ela nos faz renunciar o que há de mais precioso para nós: a nossa própria vontade.27

O fato de existir almas que amam e desejam praticar a virtude da obediência é uma proclamação da autêntica liberdade dos verdadeiros filhos da luz no meio das trevas desse mundo que se gloria da libertinagem das paixões e da total independência a qualquer forma de hierarquia e autoridade.

1 “obedientiam reddit promptam hominis voluntatem ad implendam voluntatem alterius, scilicet praecipientis” (Ibid. II-II, q. 104, a 2 ad. 3).
2 ROYO MARÍN, Antonio. La vida religiosa. 2. ed. Madrid: BAC, 1965. p. 325.
3 “Respondeo dicendum quod sicut actiones rerum naturalium procedunt ex potentiis naturalibus, ita etiam operationes humanae procedunt ex humana voluntate. Oportuit autemin rebús naturalibus ut superiora moverent inferiora ad suas actiones, per excellentiam naturalis virtutes collatae divinitus. Unde etiam oportet in rebús humanis quod superiores moveant inferiores per suam voluntatem, ex vi auctoritatia divinitus ordinatae. Movere autem per rationem te voluntatem est praecipere. Et ideo, sicut ex ipso ordine naturali divinitus instituto inferiora in rebús naturalibus necesse habent subdi motioni superiorum, ita etiam in rebús humanis, ex ordine iuris naturalis et divini, tenentur inferiores suis superioribus obedire” (SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. II-II, q. 104, a.1).
4 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. A Imagem Sacra pode expressar muito mais do que a palavra. Op. cit. p.10
5 SANTA TERESA DE JESUS. Livro da vida. In: Obras Completas. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2002. p. 115.
6 “Bienaventurados los obedientes, porque Dios nunca permitirá que se extravíen” (SÃO FRANCISCO DE SALES. Obras selectas. Madrid: BAC, 1953. Vol. I. p. 153. Tradução da autora).
7 “[…] un gran misterio de predilección hacia una determinada alma […] un abismo de amor selectivo por parte de Dios” (ROYO MARIN, Antonio. La vida religiosa. Op.cit. p. 145.Tradução da autora).
8 “Nada hay- en la práctica nada debe haber- en ella que no sea total y esencialmente religioso” (Ibid. p. 135. Tradução da autora).
9 “Id quod communiter multis convenit, antonomastice attribuitur ei cui per excellentiam convenit: sicut nomen fortitudinis vindicat sibi illa virtus quae circa difficillima firmitatem animi servat;[…]. Religio autem, ut supra habitum est, est quaedam virtus, per quam aliquis ad Dei servitium et cultum aliquid exhibet. Et ideo antonomastice religiosi dicuntur illi qui se totaliter mancipant divino servitio, quasi holocaustum Deo offerentes. Unde Gregorius dicti, super Ezech. (Homil. XX): Sunt quidam qui nihil sibimetipsis reservant; sed sensum, linguam, vitam atque substantiam, quam perceperunt omnipotenti Domino immolant” (SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. II-II, q. 186, a.1).
10 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. II-II, q.186, a. 8.
11 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Este êremo é a obra-prima de Nossa Senhora: Palestra. São Paulo, 13 set. 1971. (Arquivo IFTE).
12 SANTA TERESA DE JESUS. Fundações. In: Obras Completas. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2002. p. 616.
13 “[…] nos fala Dios, no ya como Señor que manda, sino como Padre que manifiesta un deseo. Esta obediencia no es ya el acto del que sirve bajo pena de no cobrar su salario y perder su pan, sino el acto del hijo que saca de su amor energías para hacer lo que su padre desea de su buena voluntad” (MAUCOURANT, F. Op. cit. p. 61. Tradução da autora).
14 SANTA TERESA DE JESUS. Fundações. Op. cit. p. .
15 “Con vuestra divina gracia resuelvo, Señor, seguir en todo as vuestras ordenes y vuestros deseos sin buscar jamás mi proprio gusto” (MAUCOURANT, F. Op. Cit. p.56. Tradução da autora).
16 SANTA TERESINHA DO MENINO JESUS. Caminhando para Deus. 9. ed. São Paulo: Paulus, 1997. p. 254.
17 Ibid. p. 257.
18 “no es ya la fortuna de la tierra, como la pobreza; ni las satisfacciones corporales, como la castidad; sino que consagra a Dios lo que tiene el hombre de más noble, de más precioso y de más intimo: su misma libertad” (VALUY, Las virtudes del religioso, apud ROYO MARIN, Antonio. La vida religiosa. Op. cit. p. 333. Tradução da autora).
19 “ya que es don supremo del amor entregar no sólo lo que se posee -cosa bien minguada-, sino lo que uno es” (VALUY, Tratado breve del religioso, apud ROYO MARIN, Antonio. La vida religiosa. p. 331. Tradução da autora).
20 TANQUEREY, Adolfe. Compêndio de Teologia ascética e mística. 6. ed. Porto: Apostolado da Imprensa, 1961, p. 238.
21 SANTA TERESA DE JESUS. Castelo interior. In: Obras Completas. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2002. p. 449.
22 “[…] por el voto de obediencia une el religioso su entendimiento y su voluntad al entendimiento y voluntad de Dios; se hace un mismo espíritu con Dios y puede, con razón, lisonjearse de pensar y de querer como Dios quiere, como lo quiere y porque quiere” (VALUY, Las virtudes del religioso, apud ROYO MARIN, Antonio. La vida religiosa. Op.cit. p. 334. Tradução da autora).
23 “Si deseáis enriqueceros pronta y fácilmente de todas las virtudes, no abandonéis jamás el salutable ejercicio de la obediencia” (SANTA MARIA MADALENA DE PAZZI apud MAUCOURANT, F. Op. cit. p.141. Tradução da autora).
24 “Ella las planta, las riega y las hace fructificar; las conserva, las sostiene, las compendia y las suple; les da forma y mérito, precio y vida” (Id. Las virtudes del religioso, apud ROYO MARIN, Antonio. La vida religiosa. p. 334).
25 “No siendo otra cosa el pecado que una desobediencia a la ley divina, el que consagra su vida a la obediencia se pone en cierta imposibilidad de pecar; y, por cuanto el único obstáculo para salvación está en el pecado, toma el más seguro, el más corto y el más fácil camino para la salvación. ¡Qué abundancia de gracias durante la vida, qué consuelos en la hora de la muerte, qué gloria y que dicha no concede Dios en eternidad al religioso que por su amor lo ha sacrificado todo, y se ha sacrificado a si mismo!” (Loc. Cit. Tradução da autora).
26 “yo también, Señor, he estado crucificado con Vos, como Vos e por Vos. Mis pies y mis manos, mi lengua, todos mis sentidos, mi inteligencia, mi libertad, mi voluntad, mi ser todo entero ha sido crucificado, […]. La obediencia ha sido mis clavos y mi cruz. Y ahora, Señor, puesto que os he seguido al Calvario, mandadme entrar con Vos en la gloria” (Loc. Cit. Tradução da autora).
27 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Obedecer sempre e com alegria: Homilia. São Paulo, 18 jan. 2010. (Arquivo IFTE).

A força do olhar

Felipe_ II EspanhaBeatriz Alves dos Santos

Conta-se que o rei Filipe II, da Espanha, ao visitar o magnífico edifício do Escorial que havia mandado construir, deparou-se com uma coluna no centro de uma das salas que não havia planejado colocar. Ordenou, então, que se chamasse o arquiteto responsável e lhe interrogou a respeito. Rindo-se do que havia feito, o chefe de construção deu um golpe na coluna e esta se desfez: a pilastra era falsa. O rei olhou-o seriamente, repreendendo-o com esse olhar, e retirou-se sem proferir uma só palavra. Alguns dias mais tarde, o arquiteto morreu de desgosto.

Diante de tal fato, poderíamos perguntar: que força há no olhar humano capaz de mudar a vida de um homem? Há pessoas que têm o dom de elevar e encantar; outras, o poder de desnortear, ou até mesmo de atemorizar pelo simples fato de olhar. Não é, pois, verdade que um olhar de reprovação, vindo de alguém a quem se ama, dói mais do que um castigo físico? De onde procede, então, esse misterioso poder do olhar?

Consideremos a hierarquia do corpo humano: a cabeça é o membro mais nobre, pois aí se reúnem os principais sentidos. Todas as funções vitais são comandadas pelo cérebro, e este emite mensagens para os membros inferiores, a fim de que cada qual cumpra com a sua função.

No reino vegetal, entretanto, está “a parte superior voltada para o que é mais baixo do mundo, pois as raízes correspondem à boca […]. Os animais, por sua vez, se acham numa situação intermediária, pois a parte superior do animal é aquela pela qual recebe comida”1; o homem, porém, tem o cérebro na parte mais elevada.

Ao homem, os sentidos foram dados com vistas ao conhecimento e à contemplação. Por essa razão, têm o tronco ereto para que, valendo-se dos sentidos, e principalmente da visão, que é “o mais sutil e o que mostra mais diferença nas coisas”2, possam conhecer todo o sensível, tanto do firmamento, como da Terra.

Diversamente dos homens, o animal possui os sentidos visando simplesmente a sua própria sustentação e defesa. Por isso, tem o focinho inclinado para a terra, como para buscar alimento e prover-se do necessário para viver3.

Se a visão é o sentido que mais permite receber novos conhecimentos das coisas, das pessoas, das circunstâncias, e o que vai atrás do chamativo e curioso, podemos, então, afirmar que este é o “mais nobre dos sentidos”4.

Ora, se todo conhecimento exterior, segundo São Tomás, que se fixou no intelecto passou antes pelos sentidos, sendo estes imprescindíveis no processo do conhecimento, a visão tem primazia na ordem do conhecimento.

Analisando o belo e o bem, e a percepção dos mesmos, “são a vista e a audição os sentidos superiores, por satisfazerem a razão”:

“O belo é idêntico ao bem mas possui uma diferença de razão. De fato, sendo o bem o que todos desejam, é de sua razão acalmar o apetite. Ao passo que é da razão do belo acalmar o apetite com sua vista ou conhecimento. Por isso referem-se principalmente ao belo os sentidos mais cognoscitivos, a saber, a vista e a audição, que servem à razão. Assim, dizemos, belas vistas e belos sons. […] Aos outros sentidos não usamos a palavra beleza; pois não dizemos belos sabores nem belos odores”5.

Ora, se através do olhar, o mundo exterior pode penetrar no interior do homem, em sentido inverso, é também por meio do olhar que melhor se pode conhecer o que se passa no interior de cada pessoa, como afirma Cornélio a Lápide, nos comentários aos versículos 26 e 27 do capítulo 19 do Eclesiástico:

Pelo semblante se conhece a pessoa; pelos traços do rosto, a pessoa sensata. A roupa da pessoa, o seu sorriso e o jeito de andar, tudo revela de quem se trata. Assim como se conhece uma pessoa pelo seu modo de ser, também se conhece o segredo da alma de uma pessoa pela sua face. […] A face, portanto, é a imagem do coração, e os olhos são o espelho da alma e de suas afeições. […] assim, a face e os olhos indicam alegria ou tristeza da alma, seu amor ou seu ódio; como também a honestidade ou deslealdade e hipocrisia6.

Crucifixo1Por de trás do olhar humano revela-se uma gama de sentimentos ocultos, quer seja no brilho inocente dos olhos de uma criança, na experiência da vida que se reflete nas pálpebras enrugadas de alguém no declínio de sua existência, ou ainda no olhar de um criminoso, o qual parece acusar suas más intenções. Esse é um vastíssimo e riquíssimo universo, que continuamente proclama a própria existência através de suas várias manifestações, e “a alma humana, é um dos mais eloquentes reflexos do Criador”7.

Afirma Monsenhor João Clá: “o olhar é a alma da fisionomia, de maneira que as demais expressões do rosto e até o timbre de voz são apenas um reflexo do olhar”8. Compreendendo isso, fica patente a procedência da força e atração do olhar, pois à maneira de uma janela que se abre para ver o interior de um recinto, a alma faz-se ver desde os olhos.

Compreendendo a estreita união entre a alma e o olhar, entende-se a capacidade de atração de algumas fisionomias, cujo olhar denota inocência, sacralidade e elevação; e, em sentido oposto, a penumbra espiritual que transparece de modo inevitável nos indivíduos fora da graça de Deus…

1“Plantae vero habent superius sui versus inferius mundi (nam radices sunt ori proportionales), […]. Animalia vero bruta medio modo: nam superius animalis est pars qua accipit alimentum (SÃO TOMÁS DE AQUINO. Op. cit.. I-II, q.91, a.3. Tradução de Aldo Vannucchi et al.).
2“[…] qui es subtilior et plures diffrentias rerum ostendit” (Ibid. I, q.91, a.3, ad. 3. Trad. Aldo Vannucchi et al.).
3 Ibid. q.91, a.4.
4CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Prefácio. In: CAVALCANTI, Lamartine de Holanda. Psicologia geral, sob enfoque tomista. São Paulo: Sedes Sapientiae, 2009. p. 10.
5“Pulchrum est idem Bono, sola ratione differens. Cum enim bonum sit quod omnia appetunt, de ratione boni est quod in eo quietetur appetitus: sed ad rationem pulchri pertinet quod in eius aspectu seu cognitione quietetur appetitus. Unde et illi sensus praecipue respiciunt pulchrum, qui máxime cognoscitivi sunt, scilicet visus et auditus rationi deservientes: dicimus enim pulchra visibilia et pulchros sonos. […] Aliorum sensuum, non utimur nomine pulchritudinis: non enim dicimus pulchros sapores aut odores” (SÃO TOMÁS DE AQUINO. Op.cit. I-II, q.27, a.1, ad. 3. Trad. Aldo Vannucchi et al.).]
6 CORNELIUS A LAPIDE, apud CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Prefácio. In: CAVALCANTI, Lamartine de Holanda. Op. cit. p. 12.
8 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. O olhar de Jesus: Conferência. São Paulo: s.n, 1986.

Doçura no sofrimento

Virgem DolorosaIrmã Lucía Ordóñez, EP

Leitor, procure analisar com atenção a imagem da Virgem Maria estampada ao lado e note como ela o impressionará profundamente. Por quê?

Essa imagem representa Nossa Senhora de modo realista ao extremo, e exprime muito bem a ideia de quanto Maria é a obra-prima do Criador.

Quem a contempla tem quase a impressão de estar vendo uma aparição, de tal maneira nela transparece o fundo de alma da Virgem das Virgens. Sua face transmite piedade de modo excelso, e convida à oração. A par do instinto maternal, sua fisionomia torna patente uma inimaginável bondade, da qual somente Deus poderia ser o autor.

É interessante notar como esse semblante, com seu ar de suavidade, doçura, bondade, dor lancinante — tudo mesclado com serenidade e paz — parece exprimir também de modo fiel o temperamento próprio aos santos.

Certas pessoas poderiam julgar que Nossa Senhora, ao contemplar os sofrimentos aos quais seu Divino Filho esteve sujeito por causa de nossos pecados, se deixaria levar por algum movimento de ressentimento… Entretanto, aqui, a Santíssima Virgem nos convence, por sua manifestação de amor, de que não são esses os sentimentos da Advogada dos Pecadores. Apesar de ver seu Filho crucificado, e sabendo que somos nós a causa desses sofrimentos, Maria tem para conosco um olhar pleno de sobrenatural afeto.

Ela nos dá um conselho materno:

— Meu filho, quando te sentires miserável por tuas quedas, procura ter no fundo da alma a certeza de que, do alto do Céu, eu te olho com a mesma doçura expressa nesse meu olhar, disposta a obter de Jesus, para ti, o perdão de todos os teus pecados.

Necessidade da oração

adoraçãoAna Rafaela Maragno

Imaginemos a seguinte conjuntura: o entrechoque de dois exércitos inimigos. Um deles conta com soldados adestrados, tanques de guerra, munições, granadas… O outro se destaca por possuir armas poderosíssimas, superiores a quaisquer outros instrumentos bélicos. Entretanto, apesar de ter ao alcance tão precioso recurso, os seus combatentes se veem numa trágica situação: nenhum deles sabe manusear tais armas! São elas excelentes, e constituem poderoso auxílio na luta contra o adversário, mas exigem peritos que conheçam as suas funções, pois, do contrário, de nada valerá possuí-las, se não lograrem pô-las em movimento.

Tal dilema, no qual se encontram estes pobres militares, representa bem a imagem do cristão que não recorre à oração.

Após ter cometido o pecado original, o homem, outrora favorecido pela graça e por todos os dons que Deus lhe havia concedido no Paraíso, introduziu em si mesmo uma raiz de pecado e viu-se privado de todos os privilégios, à mercê de suas paixões desregradas e das misérias de sua frágil natureza. Lançado no mar impetuoso da existência neste vale de lágrimas, constantemente vê-se na contingência de enfrentar adversários poderosíssimos: ora o demônio, ora o mundo, ora as más inclinações da própria carne. Estes três inimigos possuem armas eficazes para tentar o homem e fazê-lo tropeçar ao longo do caminho. Ora, Deus, que jamais abandona os seus filhos, concede um meio infalível, ao mesmo tempo espada e escudo, para vencer tais contendores: a Oração! E o cristão que desconhece o valor e os benefícios dela, bem pode ser comparado àqueles soldados que contam com armas grande alcance, mas não sabem fazer uso delas.

Assim como para a subsistência do corpo é necessário o alimento, assim também é a oração para a vida da alma.

Para isso, é indispensável ter sempre presente o conselho dado pelo Apóstolo: “orai sem cessar” (1 Ts 5, 17). Em todas as circunstâncias da vida, em qualquer idade, em todos os lugares, que ninguém se julgue dispensado da oração, por mais virtuoso que pareça! Ademais de nos proporcionar uma aproximação com o Criador, ela também tem a finalidade de “tirar do caminho da morte as almas dos defuntos, robustecer os fracos, curar os enfermos, libertar os possessos, abrir as portas das prisões, romper os grilhões dos inocentes. Ela perdoa os pecados, afasta as tentações, faz cessar as perseguições, reconforta os de ânimo abatido, enche de alegria os generosos, conduz os peregrinos, acalma as tempestades, detém os ladrões, dá alimento aos pobres, ensina os ricos, levanta os que caíram, sustenta os que vacilam, confirma os que estão em pé”1.

capelaA oração nos ajuda a vencer todos os obstáculos e nos dá sustento e fortaleza para galgarmos a montanha da perfeição. Encontraremos neste caminho muitas pedras e borrascas: momentos de escuridão, sensações de abandono, quedas inevitáveis, trechos íngremes onde nos parece faltar o fôlego; por outro lado, teremos também as consolações e os gáudios indizíveis, nos quais nos sentiremos afagados e carregados pela Providência.

Em todas estas situações, sempre será a oração “[…] um simples olhar lançado ao Céu, um grito de reconhecimento e de amor no meio da provação ou no meio da alegria”2. Devemos, portanto, intensificar de contínuo nossas invocações e súplicas e rezar em todas as ocasiões, em união com Nosso Senhor Jesus Cristo, implorando a Ele as graças necessárias para nosso progresso na vida espiritual e nossa salvação. Como bem afirma Santo Agostinho, Ele é quem “ora por nós como nosso sacerdote; ora em nós como nossa cabeça; a recebe a nossa oração como nosso Deus. Reconheçamos nele a nossa voz, e em nós a sua voz”3.

1 TERTULIANO. Do tratado sobre a oração. In: LITURGIA DAS HORAS. São Paulo: Vozes, Paulinas, Paulus, Ave-Maria, 2001. Vol. II. p. 222.
2 “[…] c’est un simple regard jeté vers le Ciel , c’est un cri de reconnaissance et d’amour au sein de l’épreuve comme au sein de la joie” (SANTA TERESA DO MENINO JESUS E DA SAGRADA FACE. Histoire d’une ame: manuscrits autobiographiques. 35. ed. Paris: Saint- Paul, 1978. p. 276. Tradução da autora)
3 SANTO AGOSTINHO. Dos Comentários sobre os Salmos. In: LITURGIA DAS HORAS. São Paulo: Vozes, Paulinas, Paulus, Ave-Maria, 2000. Vol.II. p. 329.