Abade, pai e mestre no século XX

Irmã Carmela Werner Ferreira, EP

Beato Columba Marmion

O peregrino que se proponha conhecer as origens cristãs do Velho Continente não pode deixar de visitar a gruta de Subiaco, local escolhido pelo jovem Bento de Núrsia para consumar sua entrega a Deus, abandonando a vida de estudos que até então levava na Roma dos retóricos e literatos. E os que hoje trilham seus passos sentem uma forte atração pelo local, marcado misteriosamente pela presença do santo Patriarca e Patrono da Europa.

Enquanto se sobe pelos íngremes caminhos que conduzem ao mosteiro — exercício desde logo recompensado pelo belíssimo panorama —, o visitante pode discernir, se não através de voz humana, certamente pela da graça, aquele chamado do varão de Deus que atraiu legiões de almas à vida monástica: “Escuta, filho meu, os preceitos do mestre, e inclina o ouvido do teu coração. Recebe de bom grado o conselho de um bom pai, e cumpre-o eficazmente, para que, pelo trabalho da obediência, voltes Àquele de Quem te havias afastado”. 1

Ao atento observador não passarão despercebidas algumas árvores que adornam o caminho, as quais bem simbolizam a história desta instituição. São vegetais de inacreditável robustez, cujas raízes se embrenharam pelo solo pedregoso e lograram subsistir em condições desfavoráveis. Enfrentaram os ventos das intempéries e os da História, mantendo-se eretas apesar das adversidades, e ostentando uma vitalidade que desperta surpresa e admiração.

Assim é a Ordem Beneditina. Nascida da vocação de São Bento, conta ela hoje quase 1.500 anos de existência. Atravessou todas as catástrofes, venceu as rudezas das guerras e as deficiências dos homens, e olha sobranceira para um passado que lhe valeu uma legião de filhos canonizados e dezesseis Papas saídos do silêncio de seus claustros. Dezesseis também foram os sucessores de São Pedro que se colocaram sob a proteção deste santo fundador — curiosamente, nenhum deles foi beneditino —, entre os quais nosso atual Romano Pontífice, Bento XVI.

Se a Europa cristã deve, em larga medida, a esta Ordem seu itinerário de conversão e civilização, também o século XX, palco de acontecimentos que mudaram os rumos da humanidade, recebeu a ação benéfica dela emanada, por meio de uma figura talvez pouco conhecida: o Beato Columba Marmion.

O menino vestido de negro

Nasceu ele em Dublin, Irlanda, a 1 de abril de 1858, no seio de uma família de sólida formação católica. Sendo de frágil compleição, seus pais, William Marmion e Herminie Cordier, se apressaram em conduzilo à fonte batismal, dando-lhe o nome de José.

Criança de privilegiada inteligência e equilíbrio temperamental, parecia externar sob todos os aspectos uma vocação sacerdotal, embora não dispensasse os entretenimentos próprios à idade. Observando estes sinais, os pais tomaram uma singular decisão: vesti-lo sempre de negro, prevendo o hábito eclesiástico que um dia haveria de tomar.

Explicaram-lhe que procediam assim porque seria sacerdote. Mas o menino pareceu não se importar muito com isso. Estava mais interessado em escalar árvores e capturar borboletas. Enquanto os irmãozinhos trajavam alegres e coloridas vestimentas, segundo o gosto irlandês, José se distinguia por sua escura roupagem que, de fato, um dia trocaria pela batina.

Sacerdote aos 23 anos

Dentre os seis filhos daquele lar cristão, quatro foram agraciados pela vocação religiosa. Três irmãs de José seguiram a vida consagrada e ele próprio, após realizar com êxito promissor os primeiros estudos, ingressou no seminário diocesano de Dublin.

Junto aos oitenta jovens que ali almejavam o estado de perfeição, Marmion iniciou uma trajetória luminosa, assinalada desde os primórdios por uma avidez teológica e ardente piedade, o que faria um colega seminarista testemunhar: “Ele era um jovem santo e cheio de ideias”. 2

O aproveitamento nos estudos fez seus superiores depositarem nele as melhores esperanças. Enviaram-no a Roma, onde estudou no Pontifício Colégio Irlandês e, em seguida, no Propaganda Fide. Neste último, distinguiu-se em todas as matérias, e sob a égide do futuro Cardeal Francesco Satolli tornou-se um tomista de escol. Os ensinamentos do Doutor Angélico beneficiaram decisivamente sua vida espiritual, pois dele aprendeu a nunca dissociar da vida de santidade o conhecimento doutrinário, tal como ensinaria mais tarde a seus monges:

“Um raio de luz do alto é mais eficaz do que todos os raciocínios humanos”. 3

Esse progresso fê-lo caminhar a passos rápidos para a ordenação. Em 16 de abril de 1881 recebeu o diaconato, e a 16 de junho do mesmo ano foi ordenado sacerdote na igreja romana de Santa Ágata dos Godos. Contava, na ocasião, 23 anos.

A pedido de seu Bispo, logo retornou para a Irlanda levando na alma mil propósitos salutares, algumas incógnitas, e um antigo sonho: ser missionário na Austrália.

Sua alma permanecia insatisfeita

De volta à pátria, padre Marmion foi designado pároco no vilarejo de Dundrum, ofício ao qual se entregou de corpo e alma. Por pouco tempo, porém, pois ao cabo de um ano, foi chamado pelo Bispo de Dublin para lecionar no Seminário maior de Clonliffe.

Nesses primeiros tempos de sacerdócio sua alma, contudo, permanecia insatisfeita. Encontrava-se como acéfalo em seu percurso espiritual. Sentia precisar de um mestre que o guiasse para a Pátria celeste. Uma pergunta rodava em seus pensamentos: não estaria chamado à vida religiosa, ao invés de integrar o clero secular? E a continua lembrança de um encontro que o marcara a fundo acabaria por pesar, em definitivo, neste caudal de incertezas, conduzindo-o para o claustro.

Encontro com o carisma beneditino

Tal encontro dera-se no mês de julho de 1881, quando o jovem presbítero retornava de Roma com o coração ainda acalentado pelas graças da ordenação. A fim de visitar um amigo do seminário que se fizera beneditino em Maredsous, na Bélgica, alterou o percurso de volta e, na noite do dia 23, apresentou-se nessa abadia, onde o irmão porteiro o recebeu com a hospitalidade característica da Ordem.

A abadia de Maredsous constitui, por si só, um espetáculo consolador para qualquer católico. Quando o padre Marmion a conheceu, nela viviam 130 monges, segundo o mais puro espírito da fundação. A igreja, centro da vida comunitária, ergue-se no alto de uma montanha, em grandioso estilo neogótico, parecendo simbolizar, ela mesma, o voto de estabilidade feito pelos membros da Ordem.

Emoldurado por árvores — que quase ousaríamos qualificar como “disciplinadas” e “monacais” —, o templo sagrado se desdobra num conjunto arquitetônico imponente, no qual transparece um equilíbrio perfeito entre o rigor e a suavidade, a seriedade e o sorriso.

Ali se desenvolviam as múltiplas atividades dos monges: o trabalho manual, a administração de duas escolas para meninos e jovens, o cultivo da horta, o labor intelectual e literário, o esmero pelo canto gregoriano e, sobretudo, uma impecável Liturgia, expressão mais elevada do ideal beneditino.

Foi por acaso que padre Marmion chegou a Maredsous. Mas no silêncio reinante no interior daquelas paredes de pedra encontrou o que até então buscara com afã. E se quase quinze séculos o separavam da morte de São Bento, a figura do fundador da Ordem permanecia tão viva ali, que o jovem sacerdote tinha a impressão de tê-lo acabado de cumprimentar nesse momento.

Voltou para Dublin cativado por aquela atmosfera monástica, com as palavras do Abade Plácido Wolter latejando em sua consciência: “Tens uma vocação beneditina muito maior que a de teu amigo”. 4

Noviciado e vida de recolhimento

Seguindo o conselho do seu Bispo, esperou algum tempo antes de tomar uma decisão. Mas transcorridos cinco anos de ministério em sua cidade natal, padre Marmion não mais se questionava sobre a autenticidade de seu chamado para a vida religiosa. Havia decidido ouvi-lo.

Após obter as licenças necessárias, chegou a Maredsous no mês de novembro de 1886, desta vez para ficar. Durante o noviciado, precisou mudar de costumes, cultura e língua, o que não foi fácil, mas em meio a tais lutas confessou: “Estou convencido de estar no lugar onde Deus me quer. Encontrei grande paz, e sinto-me extremamente feliz”. 5 Escolheu o nome de Columba, evocando o santo missionário irlandês do período merovíngio, e pôs-se a praticar as palavras da Regra: “Escuta, filho meu, os preceitos do mestre, e inclina o ouvido do teu coração”.

A almejada profissão se deu em 1891, após a qual os superiores pensaram em enviá-lo ao Brasil. Por fim, acabaram encaminhando-o para Lovaina, onde a Abadia de Maredsous pretendia fundar um novo mosteiro.

O período decorrido desde seu noviciado até o fim da permanência em Lovaina constituiu o cerne de sua vida de recolhimento. Oculto, submisso e modesto, Frei Columba transformou-se num contemplativo. Buscava Cristo e Sua Mãe a todo momento, compreendendo ser no silêncio que Eles Se deixam encontrar: “Se nossa alma se fechar aos rumores da Terra, ao tumultuar das paixões e dos sentidos, o Verbo Encarnado tomará pouco a pouco posse dela; far-nos-á compreender que as mais profundas alegrias são aquelas que encontramos no seu serviço”. 6

Mais do que nunca, via a santidade como um dom de Deus, esmola divina que homem algum jamais merecerá: “Nossa vida sobrenatural oscila entre estes dois polos: de um lado, devemos ter a convicção íntima de nossa incapacidade de atingir a perfeição sem o auxílio de Deus; de outro, devemos estar possuídos da inabalável esperança de tudo encontrarmos na graça de Jesus Cristo”. 7

Qual dócil menino, ele se deixava plasmar pelas mãos de seus superiores, um dos quais registrará: “Nunca vi um religioso mais obediente”. 8 A paz e a serenidade lhe foram dadas em recompensa pelos sofrimentos heroicamente suportados, levando-o a dizer: “Agora que fiz todos os sacrifícios, Nosso Senhor devolveu-me, pelo caminho da obediência, tudo quanto por Ele eu havia abandonado”. 9

Exímio pregador de retiros, Frei Columba era solicitado por conventos e comunidades, nos quais sua presença não se apagava de nenhuma memória. Era instrumento de conversões, suscitava vocações, ensinava através da própria conduta.

Alma ornada pela virtude da sabedoria

Teve, porém, de voltar para Maredsous. O mesmo claustro que o recebera como noviço, aos 27 anos de idade, viu-o retornar de Lovaina aos 51, pronto para exercer a mais alta missão que o Senhor lhe haveria de destinar.

Dom Hildebrando de Hemptinne, que vinha governando Maredsous por muitos anos, fora designado pelo Papa primeiro Primaz da Confederação Beneditina e, devido às suas frequentes permanências em Roma, tornou-se necessário escolher outro abade para o mosteiro. O Capítulo elegeu, por grande maioria, Marmion, precisamente por encontrar nele o perfil do autêntico beneditino. “Eu obedeço e aceito a vontade de Deus”, disse no dia da eleição, em outubro de 1909.

Enquanto abade, Dom Columba foi, antes de tudo, um mestre espiritual, conhecedor das vias por onde as almas devem ser conduzidas. Suas conferências semanais para a comunidade suscitavam o entusiasmo dos monges. Um deles, não se conformando em ver aquelas maravilhas confinadas na sala capitular, tomou a iniciativa de anotá-las e torná-las públicas. Assim se originou a trilogia: Cristo, vida da alma (1917), Cristo em seus mistérios (1919), e Cristo, ideal do monge (1922), três obras que são expressões fidedignas do espírito cristocêntrico do autor. O Papa Bento XV que fazia uso pessoal de Cristo, vida da alma, chegou a recomendá-lo a um Bispo nestes termos: “Leia isto. É a doutrina da Igreja”. 10

Dom Marmion teve de enfrentar questões espinhosas no exercício de seu cargo, e tornou patente aos olhos dos monges de Maredsous que a virtude da sabedoria, tema frequente de suas prédicas, era um ornato de sua própria alma. Atuou como homem-chave nas negociações que trouxeram ao seio da Igreja um convento anglicano; foi solicitado a fundar uma abadia no Congo; por manifesto desejo do Papa, enviou monges para cuidar da Abadia da Dormição, em Jerusalém. Corolário de suas atividades foi a fundação da Congregação Belga da Anunciação, nova jurisdição da Ordem, sediada em Maredsous.

Mostrou assim não estarem as qualidades diplomáticas, administrativas e psicológicas em choque com o espírito de contemplação. Pelo contrário, uma vida interior bem levada conduz a resolver com o maior acerto as questões temporais que a Providência puser no nosso caminho.

O Abade Marmion amava seus filhos espirituais e era estimado por eles. Sob seus cuidados e vigilância, Maredsous progrediu a olhos vistos, parecendo espelhar a vida que os bem-aventurados gozam no Céu. O Senhor lhe deu uma comunidade louvável, na qual as virtudes e dotes naturais se traduziam em obras de excelência e perfeição.

E quando o horizonte ameno da Abadia se obscureceu pelos estertores da Primeira Guerra Mundial, os monges puderam comprovar a veracidade da palavra do Evangelho: “O bom pastor dá a vida por suas ovelhas” (Jo 10, 11).

Despendendo as últimas energias

Embora preservados dos bombardeios de tropas inimigas, os habitantes de Maredsous sofreram quase tanto quanto se a abadia tivesse sido destruída. A cada instante, esperava-se um desenlace trágico que viesse reduzi-la a pó, ocasionando uma apreensão não pequena nos monges. A fome e toda sorte de privações rondavam a comunidade, que abriu suas portas para os feridos e desabrigados.

Vivendo na quadra mais dramática de sua existência, o Abade Columba lutava por salvar a formação dos noviços, levando-os para o exílio. Esta decisão lhe causou incontáveis dissabores e, para completar as amarguras que o contristaram, via seus monges serem arrancados da vida monástica para servir o exército, expostos a todos os perigos de corpo e de espírito.

Em 1918, quando a Guerra terminou, restavam-lhe os últimos cinco anos de vida, e ele os empregou totalmente na restauração da disciplina em Maredsous, despendendo nesse último esforço as poucas energias que ainda lhe restavam. Na tarde de 30 de janeiro de 1923, vítima de uma epidemia de gripe que assolava a Bélgica, ele rendeu sua alma ao Criador.

Alquebrado por uma existência empregada no serviço de Deus, Dom Columba Marmion abandonava-se, uma vez mais, naquele supremo momento, aos desígnios de Jesus Crucificado, que ele viera buscar e encontrara no claustro. Seus filhos espirituais, recebendo de suas mãos, agora trêmulas, a tocha da caridade, tinham consciência de que aquele pai e mestre lhes transmitia e deixava como herança a realização das palavras com as quais São Bento concluiu seus ensinamentos: “Tu, pois, quem quer que sejas, que te apressas rumo à Pátria celeste, cumpre, com o auxílio de Cristo, esta Regra, e então chegarás por fim, com a proteção de Deus, aos maiores cumes da doutrina e das virtudes”. 11

1Regra de São Bento, Prólogo, n. 1-2.
2TIERNEY, OSB, Mark. Blessed Columba Marmion: a short biography. Dublin: The Columba, 2000, p. 22.
3MARMION, OSB, Beato Columba. Jesus Cristo nos seus mistérios: conferências espirituais. 2. ed. Singeverga: Ora et Labora, 1951, p. 452.
4TIERNEY, OSB. Op. cit., p. 23.
5Idem, p. 35.
6MARMION, OSB. Op. cit., p. 289.
7Idem, p. 469.
8TIERNEY, OSB. Op. cit., p. 45.
9Idem, ibidem.
10Apud GARRIDO BONAÑO, OSB, Manuel. Beato Columba Marmion. In: Nuevo Año Cristiano: Enero. 4. ed. José Antonio Martínez Puche, OP (Org.). Madrid: Edibesa, 2003, p. 618.
11Regra de São Bento, c. 73, n. 8-9.

Abadia de Maredsous – Namur (Bélgica)
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Uma ideia sobre “Abade, pai e mestre no século XX

  1. Es muy entusiasmante ver como la vida de contemplación y santidad, produce tanta abundancia de beneficios para la Iglesia.

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