Doce presença de Jesus Cristo sobre a Terra

Bruna Almeida Piva

Encontramos no Evangelho inúmeras passagens que narram milagres feitos por Nosso Senhor Jesus Cristo. Vemos cegos, coxos, paralíticos e leprosos sendo curados, e até mesmo alguns, como Lázaro e a filha de Jairo, sendo ressuscitados pela misericórdia do Salvador.

Conhecendo tão estupendos milagres, quantos de nós já desejamos ardentemente viver na mesma época de Nosso Senhor, para assim alcançar d’Ele algum prodígio semelhante! Quantos de nós já ansiamos, ao menos, poder tocar em sua túnica e receber assim alguma graça especial… Porém, apesar desses desejos serem inteiramente legítimos, estamos enganados se pensamos que essas graças somente são alcançadas por aqueles que tiveram o privilégio de estar junto a Jesus Cristo no tempo de sua vida terrena.

Corpus_Christi_ArautosCerta vez, o Profº Plinio Corrêa de Oliveira comentou que ele não compreenderia se Nosso Senhor, em sua infinita misericórdia, houvesse partido para o Céu e deixado, de alguma maneira, de estar presente sobre a face da terra. 1 De fato, Ele não o fez, pois na quinta-feira anterior ao seu Sacrifício, deixou-nos o inestimável e magnífico tesouro da Santíssima Eucaristia. “Seu Coração Eucarístico nos deu a presença real de seu Corpo, Sangue, Alma e Divindade. Ele está presente por toda a terra, em todos os tabernáculos onde há hóstias consagradas, desde as mais belas catedrais até as missões mais longínquas e pobres. Ali está Ele como doce companheiro de nosso exílio, à nossa espera, com pressa para nos salvar, desejando que lhe peça”. 2

Com efeito, Nosso Senhor está todo nesse excelso sacramento em Corpo, Sangue e Alma, e em Divindade. A hóstia que vemos no altar é o próprio Cristo, presente da mesma forma que estava entre seus apóstolos e discípulos, apesar de nossos sentidos não poderem percebê-Lo.

Outro obséquio é de podermos receber este preciosíssimo Sacramento na Comunhão, graça superior até mesmo à que recebeu Santo Estevão quando criança, ao ser abraçado por Nosso Senhor, ou à que obteve o Apóstolo São João, ao recostar-se sobre o Sagrado Coração de Jesus na última Ceia. Pois, ao comungarmos, Cristo não só nos abraça, mas nos possui inteiramente, não só nos faz reclinar a cabeça sobre seu peito, mas põe seu Coração junto ao nosso; e nossa alma, nesse celestial encontro, se reveste da alvura e santidade do próprio Senhor Jesus.

“Nosso Senhor não podia inclinar-se mais a nós, os mais pobres, os mais necessitados e miseráveis, não podia demonstrar mais o seu amor quando, no momento supremo de privar-nos de sua presença sensível, quis deixar-se a Si mesmo entre nós, sob os véus eucarísticos”. 3

Portanto, quando nos sobrevier o desejo de estar pessoalmente diante de Nosso Senhor Jesus Cristo, de progredir nas vias da virtude, ou quando quisermos alcançar d’Ele alguma graça, não sintamos que Ele está longe de nós, mas nos aproximemos do Santíssimo Sacramento, e certamente obteremos tais favores com a mesma eficácia – ou até maior, pelo mérito da fé – do que se estivéssemos na frente de Nosso Senhor da mesma forma que os Apóstolos.

Diante de tanto consolo e amor que encontramos nesse insigne sacramento, grande é a vontade de passar a eternidade inteira desfrutando de seus benefícios. Ora, sabemos que eles nos são concedidos enquanto ainda vivemos nesta terra. Continuaremos nós a recebê-los no Céu? Ou será da vontade de Nosso Senhor que essas graças sejam recebidas somente pelos homens em estado de prova?

Neste sentido, Monsenhor João explica que, uma vez que o sacramento visa produzir a graça, de acordo com o que a forma e a substância simbolizam, não faz sentido que haja comunhão ou qualquer outro sacramento no Céu 4, pois a graça existirá em nossa alma de maneira estável e permanente. Recebemos nessa vida a presença eucarística real de Nosso Senhor em nossa alma para que Ele nos santifique, nos torne semelhantes a Ele, e nos fortaleça contra todo mal; no Céu isso não será necessário, pois o veremos face-a-face e o possuiremos em tempo integral.

Ademais, segundo os teólogos católicos 5, não haverá Missa Sacramental na Eternidade. Haverá a Missa Mística: “Nosso Senhor Jesus Cristo passará a eternidade enquanto homem, de dentro de Sua humanidade, oferecendo [ao Pai], como Sumo Sacerdote, […] a glória do Sacrifício oferecido por Ele. […] Nós teremos constantemente no Céu a Missa sendo celebrada misticamente, […] e nós estaremos eternamente participando deste oferecimento feito por Nosso Senhor”. 6

Contudo, apesar da visão beatífica ser o maior prêmio que Deus poderia conceder aos homens justos, o que está presente no Santíssimo Sacramento é o próprio Autor da Graça. “É, portanto, algo que vale mais do que toda a ordem da Criação, vale mais do que, inclusive, a ordem da Graça. Juntemos todas as graças que a humanidade recebe, receberá e recebeu; todas as graças que existem em Nossa Senhora não dão, nem de longe, o que está numa partícula consagrada: a recapitulação do Universo (cf. Ef 1, 10) num pedaço de pão”. 7

Diante de tão inefável dom, o que podemos fazer para agradecer a Deus, ou ao menos, para Lhe conceder alguma alegria, por tanta bondade? Certamente, está fora do alcance de qualquer ser humano agradecer-Lhe dignamente; porém, Ele nada pede de nós a não ser que sejamos devotos da Sagrada Eucaristia, tanto quanto se possa ser. Comunguemos frequentemente, com as devidas disposições; visitemos as igrejas e capelas nas quais Ele se encontra exposto; entreguemo-nos por inteiro a Ele, com tudo quanto somos e possuímos, e Lhe daremos a melhor recompensa, em busca da qual Ele aceitou ser morto e crucificado: a nossa salvação.


1 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. A presença de Cristo entre os homens na sua vida terrena e na Eucaristia. Revista Dr. Plinio. São Paulo. Ano VI. n. 63 (Junho, 2003); p. 23.
2 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Conferência. São Paulo. Arquivo IFTE.
3 CLÁ DIAS, João Scognamiglio apud MORAZZANI ARRÁIZ, Teresita. Aula de Teologia Sacramental no Instituto Filosófico-Teológico Santa Escolástica – IFTE. Caieiras, 2015. (Apostila).
4 Cf. Ibidem.
5 Ibidem.
6 Ibidem.
7 Ibidem.

O Todo-Poderoso

Ir. Maria José Vicmary Feliz Gómez, EP

Titanic

Era o ano de 1912. Contando com 2201 passageiros, o maior barco do mundo o “invencível Titanic, que nem Deus podia afundar” colidiu inevitavelmente com um grande iceberg, sem chegar a seu destino.

Esqueceram-se os homens de que o “Senhor é quem dirige os passos do homem”?(Pr 20,24) Quão apropriadas são as palavras do salmista: “Pois não ouvirá quem fez o ouvido? O que formou o olho não verá?” (Sl 93,9) ou a declaração divina que consta no Gênesis “Eu sou o Deus todo-poderoso”.(Gn 35, 11)

Narram os céus a glória de Deus (Sl 18,2)

É inegável que as distintas belezas da criação, desde uma frágil e singela borboleta até o grandioso e imponente sol que silenciosamente anuncia a chegada do dia, de alguma forma falam ao homem de algo que transcende as coisas materiais. Assim explica São Paulo em sua carta aos Romanos: “Desde a criação do mundo, as perfeições invisíveis de Deus, o seu sempiterno poder e divindade, se tornam visíveis à inteligência, por suas obras. (Rm 1,20)

Conhecida é a sensibilidade sobrenatural com a qual São Paulo da Cruz contemplava as maravilhas da criação e que, sem poder conter sua emoção ante a impressão que aquelas belezas lhe causavam,exclamava docemente enquanto tocava delicadamente, com seu bastão, as flores que se encontravam ao seu alcance: “Calai-vos, calai-vos! Já sei que é de Deus que me falais”

Deus é Todo-Poderoso, Criador e Governador supremo de todas as coisas. Assim o confessamos no Símbolo de nossa fé; “Creio em um só Deus Pai Todo-Poderoso, Criador do céu e da terra de todas as coisas visíveis e invisíveis…”

Sem embargo, ao longo da história, admiramo-nos com a quantidade de heresias que pretendiam ofuscar o brilho divino da Doutrina Católica, entre as quais aquelas que, sem negar explicitamente a Deus, O concebiam como um ser supremo que, depois de criar todas as coisas, deixou-as ao acaso. Este erro até hoje se manifesta, não somente por palavras mas também por obras, quando o homem pretende atuar à margem dAquele que governa o mundo de acordo com um plano eterno 1 .

Em resposta a tais afirmações, Santo Agostinho declara que Deus, como Governante Supremo de tudo o que existe, não deixou nada sem harmonia. Portanto, nada há que escape de seu poder: nem homem nem anjo, nem o pior de todos os animais; nem sequer a flor de uma árvore existe sem que esteja submetido ao Todo-Poderoso 2 .

De fato, o Catecismo da Igreja define que a onipotência de Deus é universal, pois Ele criou tudo, Ele governa tudo e pode tudo 3. Da mesma maneira, encontramos na Sagrada Escritura: “Senhor, Senhor, rei Todo-Poderoso, em cujo poder estão todas as coisas […]”(Est 4,17)

Assim, sendo Deus o Autor de toda a criação, nada poderia subsistir, nem sequer um instante, se não fosse conservada na existência pela operação do poder divino 4. Comenta Mons João Clá Dias que se Deus pudesse se distrair, esquecer-se e deixar de sustentar alguma coisa em seu ser, esta desapareceria instantaneamente 5. Deus, como Ordenador do Universo, “sustenta o universo com o poder da sua palavra”. (cf. Hb 1, 3)

Narram os Evangelhos que, estando Jesus dormindo na barca que compartilhava com seus discípulos, houve uma grande tempestade e as ondas cobriram a embarcação. O mesmo que dormia placidamente e despreocupadamente, movia majestosamente as águas do mar. Desesperados, os discípulos despertaram Nosso Senhor pedindo que os salvasse. Levantando-se, o Rei do céu e da terra, increpou os ventos e o mar e sobreveio uma grande calmaria. Quem é este, que até os ventos e o mar lhe obedecem? “perguntavam uns aos outros. (Mt 8, 23-27)

Por que duvidaram, oh discípulos, se estavam com Aquele que faz tudo o que lhe apraz? (Sl 113,11). A onipotência de Nosso Senhor deve ser, mais do que uma simples admiração, um motivo de confiança sem limites. Por esta razão, Santa Teresinha chegou a exclamar, referindo-se a esta narração evangélica, que ela nunca teria despertado Jesus, mas teria permanecido contemplando-O a dormir.

É essa confiança e esse amor que devemos ter: no meio das maiores tempestades, ainda quando Ele pareça dormir, colocarmo-nos nas mãos de Deus com os olhos fechados, pois Ele sabe tudo e tudo pode, estando atento e mais perto de nós do que podemos imaginar; “ mesmo aí a tua mão há de guiar-me e a tua direita me sustentará”.(Sl 138, 10)

1 TOMÁS DE AQUINO, São. Suma Teológica. II-I, q. 103, a.1.
2 TOMAS DE AQUINO, São. Suma Teológica. II-I, q. 103, a.5.
3 Catecismo da Igreja Católica. So Paulo: Edições Loyola. 1999. C. III, Art. 1, 268. Pág. 80
4 TOMÁS DE AQUINO, São Suma Teológica. II-I, q. 104, a.1.
5 CLA DIAS, João Scognamigilo. Palestra. São Paulo, 25 de abril de 2002.

Modelo para pais e educadores

Irmã Isabel Cristina Lins Brandão Veas, EP

São conhecidos os apuros pelos quais passou o jovem camponês João Batista Maria Vianney quando teve de enfrentar os estudos no seminário. O futuro Santo Cura d’Ars, apesar de muito se esforçar, saía-se tão mal nos exames que foi quase um milagre o ter sido aprovado. Sua piedade, porém, superava em muito a rudeza de sua inteligência, e a graça supriu com largueza o que a natureza não lhe concedera. Ordenado sacerdote, atraiu multidões à pequena Ars e seu nome tornou-se famoso em toda a França, tanto por sua sabedoria no trato com as almas quanto por sua ciência das coisas de Deus.

Curiosamente, entre os companheiros de seminário do Cura d’Ars esteve um personagem que, naqueles primórdios do século XIX, passou do mesmo modo por sérias dificuldades no aprendizado: São Marcelino Champagnat, fundador da Congregação dos Irmãos Maristas.

Também autêntico filho do campo, de físico robusto e espírito pertinaz, ele ingressou no seminário tão decidido a ser sacerdote quanto a ser santo. Formado desde o berço nos sólidos princípios da Religião, faltavam-lhe os conhecimentos, mas não a fé. Por isso, quando os superiores quiseram despedi-lo, alegando sua incapacidade de concluir com êxito os prolongados estudos eclesiásticos, não hesitou em apelar para sua grande Protetora, a Mãe de Deus. Confiou aos cuidados d’Ela sua vocação, suplicando-Lhe que o ajudasse nas agruras estudantis. E obteve muito mais do que havia pedido. A tal ponto que, no dia de sua canonização, a Igreja, grande Mestra da vida, coroou seus méritos chamando-o de “modelo para os pais e os educadores”.1

“Um menino vigoroso, dotado de alma excelente”

“Eu era um menino vigoroso, dotado de alma excelente” (Sb 8, 19). Nenhuma expressão parece tão adequada para descrever a infância do nosso Santo quanto este elogio que o Sábio faz de si mesmo. Nascido em 20 de maio de 1789, poucas semanas antes de estourar a Revolução Francesa, Marcelino José Bento Champagnat foi o penúltimo de dez irmãos, e veio ao mundo na pequenina aldeia de Le Rosey, situada na região montanhosa do Loire. Criança saudável, de temperamento alegre e expansivo, logo assimilou a devoção a Nossa Senhora que a mãe desde cedo procurou inculcar-lhe.

Certamente por uma proteção especial de Maria, os ventos de irreligião que devastaram a França durante a infância de São Marcelino não penetraram no lar dos Champagnat. E como o menino demonstrasse acentuado interesse por todos os assuntos relacionados à Religião, decidiram antecipar sua Primeira Comunhão para os 11 anos, dois a menos da idade prescrita pela Igreja naquela época. A essas alturas, a vida religiosa começava a voltar ao normal no país e Marcelino pôde ser inscrito no primeiro grupo de neocomungantes de 1800, na Paróquia de Marlhes, à qual pertencia o povoado de Le Rosey.

Primeiros contatos com o mundo da educação

Já no curso preparatório para o momento solene da Eucaristia, São Marcelino começou a observar, com singular tino pedagógico, o mundo da educação. Estava-se em plena aula quando o professor perdeu a paciência com certo aluno indisciplinado e, num acesso de irritação, se pôs a recriminá-lo com palavras ásperas, dando-lhe um humilhante apelido. Os outros meninos acharam graça e, desde aquele dia, troçavam de seu companheiro, repetindo de modo jocoso o apelido.

Para livrar-se das zombarias, a única saída encontrada pelo faltoso foi o isolamento. Isto fez dele, com o tempo, um adolescente taciturno, grosseiro e de trato difícil. “Aí está uma educação falha”, concluía São Marcelino, ao narrar este fato aos Irmãos Maristas, décadas mais tarde. “E a criança, exposta a se tornar, por seu mau caráter, o tormento de seu lar e, quem sabe, o flagelo de seus vizinhos! Tudo isso por causa de uma palavra dita levianamente num momento de nervosismo e de impaciência que não teria sido difícil dominar”.2

Na escola infantil da aldeia, teve ele outra experiência pouco feliz. Além de lecionar num espaço bastante precário, o professor costumava resolver os problemas disciplinares à base de castigos corporais, segundo a praxe da época. No primeiro dia de aula, São Marcelino viu-o aplicar uma dessas punições, tomando uma atitude brusca que mais merecia o nome de manifestação de cólera que o de correção. Sentiu tal aversão àquela falta de retidão e de justiça, que decidiu nunca mais voltar à escola. Contava então com pouco menos de 12 anos, e estava determinado a passar a vida bem longe da escola e dos livros. Até o dia em que conheceu a vontade de Deus a seu respeito…

O chamado ao sacerdócio

Havia pouco que a Concordata assinada pelo Papa Pio VII e por Napoleão restabelecera na França a liberdade religiosa. O Cardeal Fesch, tio de Bonaparte, governava a Diocese de Lyon, à qual a Paróquia de Marlhes fora anexada e, diante das numerosas lacunas deixadas pela Revolução nas fileiras eclesiásticas, envidava esforços para conquistar novas vocações. Reabriu os antigos seminários, inaugurou outros e pedia aos párocos que indicassem candidatos entre os seus fiéis.

Assim sendo, em fins de 1803, quando nosso Santo tinha 14 anos, chegou à aldeia de Le Rosey um sacerdote enviado pelo vigário-geral da Diocese, com a incumbência de recrutar jovens desejosos de “estudar latim”, na expressão comum que se utilizava para dizer “estudar para ser padre”. Por recomendação do pároco, o visitador dirigiu-se diretamente à casa dos Champagnat, a fim de verificar se algum dos rapazes da família aspirava ao sacerdócio. Os dois filhos mais velhos negaram, mas Marcelino nada conseguiu responder. O padre resolveu então chamá-lo à parte e, após um breve diálogo, constatou nele o perfil de um autêntico sacerdote. E disse-lhe de modo paternal e muito categórico: “Meu rapaz, você precisa estudar latim e ser padre; Deus o quer”.3

Até pouco antes dessa visita, o jovem jamais cogitara em abraçar o estado sacerdotal. Tinha pensado em seguir a profissão dos pais, lavradores e proprietários de um moinho, e depois decidira arquitetar seu futuro como comerciante, pois possuía habilidade para as finanças. Contudo, as palavras daquele ministro de Deus foram suficientes para desfazer por completo tais planos humanos. Atendeu com prontidão ao chamado divino, e desde esse dia sua vida adquiriu nova perspectiva, bem diferente dos estreitos limites da economia, e bem mais adequada, aliás, à nobreza de sua alma e à robustez de sua fé.

Um grupo de elite no seminário

Depois de vários meses tentando aprender algumas noções de latim, o jovem Marcelino ingressou, em 1805, no Seminário Menor de Verrières. Enfrentou momentos difíceis, por causa de sua inaptidão inicial para os estudos, mas, sob o amparo de Nossa Senhora e à custa de muito empenho, conseguiu vencê-los e chegou a surpreender seus professores quando ultrapassou os outros alunos, conseguindo concluir num ano dois períodos letivos.

Em 1813, já no Seminário Maior de Lyon, promoveu a formação de um grupo de fervorosos alunos — entre eles, o futuro Cura d’Ars —, cujo ideal era restaurar a Fé no mundo por meio da devoção a Maria. Juntos, discutiam os melhores meios de apostolado para realizar esse nobre objetivo e salvar o maior número possível de almas, dentro de dois campos de ação nos quais almejavam trabalhar: as missões e a evangelização da juventude.

Lançaram-se assim os alicerces da Sociedade de Maria ou Congregação dos Padres Maristas, obra que seria mais tarde consolidada e fundada pelo Venerável Padre Jean-Claude-Marie Coli. É este sacerdote quem atesta, em suas memórias, o fato de São Marcelino, “impressionado pelas dificuldades enfrentadas para se instruir”,4 ter proposto durante uma das reuniões desse grupo de elite a criação de outro instituto — não de sacerdotes, mas de irmãos docentes —, destinado à educação das crianças e dos jovens, unindo num mesmo método o ensino das verdades da Fé e o das ciências primárias.

A ideia foi aprovada, ficando a cargo de São Marcelino sua realização. Logo após receber a ordenação sacerdotal, em 22 de julho de 1816, ele encontrou as circunstâncias propícias para concretizar o projeto.

Nascem os Irmãozinhos de Maria

Designado como coadjutor da populosa Paróquia de La Valla-en-Gier, o jovem padre conheceu de perto a triste realidade de desordem moral e afastamento das práticas piedosas na qual vivia grande parte daquele povo. A ignorância religiosa — uma das mais nefastas sequelas da Revolução de 1789 — era quase generalizada ali, e não havia no local um professor sequer para alfabetizar as crianças e transmitir-lhes os conhecimentos elementares. Nessas condições, seu plano da nova fundação tornou-se quase uma exigência do apostolado.

Antes de tomar qualquer medida concreta, teve o cuidado de pôr o empreendimento nas mãos de Nossa Senhora, tomando-A como Mãe, Padroeira, Modelo e Primeira Superiora do futuro Instituto. Decidiu também que os religiosos seriam chamados Irmãozinhos de Maria, certo de que bastaria o nome da Virgem para atrair muitos candidatos.

Em pouco tempo se apresentaram os primeiros aspirantes: dois rapazes da paróquia, dotados de bom caráter, frequentadores dos Sacramentos e desejosos de abraçar a vida religiosa. Entusiasmados pelo ideal proposto, logo começaram a viver em comunidade, numa modesta casa próxima à igreja paroquial. Assim, em janeiro de 1817, menos de seis meses após a chegada do padre Champagnat a La Valla, iniciava-se a história dos Irmãozinhos de Maria — também conhecidos como Irmãos Maristas —, os quais, em meados do século XX, chegariam a ser mais de oito mil, com 700 colégios espalhados por todo o mundo. O Santo fundador tinha então somente 28 anos de idade.

A partir daí, a vida de São Marcelino seguiu o caminho trilhado por todos os fundadores, os quais compram com o próprio sofrimento a fidelidade de seus seguidores e a glória de sua obra. Até sua morte, ocorrida aos 51 anos, reveses de toda ordem deram à sua existência a nota distintiva dos homens agradáveis a Deus: a de serem provados “pelo cadinho da humilhação” (Eclo 2, 5).

Foi caluniado pelos inimigos e contrariado por alguns de seus próprios discípulos; faltaram-lhes os meios financeiros e, num determinado período, até mesmo as vocações. As tribulações terminaram por consumir sua saúde, abreviando-lhe os dias. Poucos minutos antes de sua morte, porém, seu rosto recobrou a cor e, olhando fixamente para o alto, disse com um sorriso: “Estou sorrindo porque vejo Nossa Senhora. Ela está aí e vem buscar-me”.5

E os frutos de sua ação, que se multiplicaram depois de sua partida deste mundo, nos permitem considerá-lo como prova incontestável da eficácia do amor de Maria, a qual faz de seus filhos diletos “a boa terra em que o Divino Lavrador colhe o tríntuplo ou mais do que semeou”.6

1 BEATO JOÃO PAULO II. Homilia na Canonização de Marcelino Champagnat, João Calábria e Agostina Lívia Pietrantoni, de 18/4/1999. 2SÃO MARCELINO CHAMPAGNAT, apud FURET, Jean-Baptiste. Vida de Sã o Marcelino José Bento Champagnat. São Paulo: Loyola, 1999, p.6.
3 FURET, op. cit., p.10.
4 COLIN, Jean-Claude. Memórias, apud FURET, op. cit., p.28.
5 SÃO MARCELINO CHAMPAGNAT, apud FURET, op. cit., p.317.
6 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Ladainha de invocações a Nossa Senhora. In: Opera Omnia. Reedição de escritos, pronunciamentos e obras. São Paulo: Retornarei, 2011, v.III, p.410.

Revista Arautos do Evangelho – jun 2013

Fera ou Anjo

Irmã Isabel Cristina Lins Brandão Veas, EP

Encantadoramente vivaz, delicado e distinto em todos os seus gestos, o gato é um verdadeiro bibelô vivo. Mas conserva em seu olhar a terrível e atraente superioridade do mistério.

Apesar de tão irracionais quanto o universo inanimado, os animais realçam aos nossos olhos a grandeza e a sabedoria do Altíssimo, no insondável mistério da vida, a qual enobrece as criaturas a ponto de uma minúscula formiguinha ocupar, na ordem dos seres, posto mais elevado do que um imponente penhasco sobre o qual esteja caminhando.

Mas o mundo animal nos sugere também outras ideias. Enquanto as espécies mais elegantes e atraentes nos reportam logo à Beleza Suprema, diante daquelas disformes e repulsivas “sentimos melhor nossa dignidade natural, compreendemos a fundo a hierarquia que o Senhor pôs no universo e, amando nossa própria superioridade e a santa desigualdade da criação, elevamo-nos também até o Criador”. 1

Ademais, tal é a magnificência da fauna que, observando-a em seus detalhes, veremos como muitas espécies apresentam, em seu modo de ser, analogias com qualidades e defeitos do homem, proporcionando valiosos conhecimentos a quem as analisa. Pode-se aplicar, aqui, as palavras de Jó: “Pergunta, pois, aos animais, e eles te ensinarão, às aves do céu e elas te instruirão. Fala aos répteis da terra, e eles te responderão, e aos peixes do mar, e eles te darão lições” (Jó 12, 7-8).

Vejamos, então, que ensinamentos nos proporciona um animal de extraordinária riqueza de aspectos: o gato.

Difícil de ser definido é o seu comportamento, capaz de atingir extremos opostos. Tomando ares de pouco caso a respeito do que se passa à sua volta, o sutil felino não se desliga em nenhum momento da realidade exterior; deita de vez em quando um olhar vigilante, deixando entrever uma cautela disfarçada pela aparente despreocupação. Cautela tão acesa que ele nunca escorrega dos estreitos muros onde caminha, dando mostras de desconhecer a vertigem. E, se o derrubam, sempre cai de pé. Porém, ao mesmo tempo, por detrás dos olhos perscrutadores desse membro da família dos felídeos, se oculta um tigrezinho disposto a arranhar, morder ou quebrar tudo quanto estiver à sua frente, quando alguém ousa perturbá-lo.

Contudo, quando essa pequena fera é domesticada, sua rudeza natural desaparece e ela se transforma em um animal “encantadoramente vivaz, delicado e distinto em todos os seus gestos, expressivo em suas atitudes, carinhoso, mimoso, em suma, um verdadeiro bibelô vivo. Bibelô, entretanto, que não tem certo ar de bagatela, inseparável em geral até dos bibelôs mais finos. Porque em seu olhar, que tem algo de magnético e insondável, de reservado e enigmático, o gato conserva a terrível e atraente superioridade do mistério”. 2 Amansado pelos cuidados da civilização e acostumado ao convívio das pessoas educadas, o bichano adquire um cunho de graça e vivacidade, e quase parece ter algo de espiritual.

Sob tal aspecto, não será difícil ao homem encontrar nesse felino uma semelhança com sua própria natureza, pois, muito mais do que no gato, há nesta uma dualidade: “O homem, concebido em pecado original, tem em si, por assim dizer, uma fera e um anjo”.3

Com o Batismo, é dado ao homem o elemento indispensável para tornar-se semelhante aos espíritos celestes: a graça. Fiel a ela, o cristão adquire tal similitude com o mundo angélico que o Apóstolo não hesita chamá-lo de “homem espiritual” (I Cor 2, 15). E aqui cessam as analogias entre gato e homem, sob este ponto de vista. A alma santificada em nada se assemelhará a um mimoso felino, porque a graça não produz bibelôs, mas forma heróis, em sua principal e constante batalha contra a “fera” que se encontra dentro de si mesma.

1CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Não se deve tirar o pão dos filhos para lançá-lo aos cães. Ambientes, Costumes, Civilizações. In: Catolicismo. Campos dos Goytacazes. Ano VII. N.81 (Set., 1957); p.7.
2 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Civilização e Tradição. Ambientes, Costumes, Civilizações. In: Catolicismo. Campos dos Goytacazes. Ano X. N.109 (Jan., 1960); p.7.
3 Idem, ibidem.

Abade, pai e mestre no século XX

Irmã Carmela Werner Ferreira, EP

Beato Columba Marmion

O peregrino que se proponha conhecer as origens cristãs do Velho Continente não pode deixar de visitar a gruta de Subiaco, local escolhido pelo jovem Bento de Núrsia para consumar sua entrega a Deus, abandonando a vida de estudos que até então levava na Roma dos retóricos e literatos. E os que hoje trilham seus passos sentem uma forte atração pelo local, marcado misteriosamente pela presença do santo Patriarca e Patrono da Europa.

Enquanto se sobe pelos íngremes caminhos que conduzem ao mosteiro — exercício desde logo recompensado pelo belíssimo panorama —, o visitante pode discernir, se não através de voz humana, certamente pela da graça, aquele chamado do varão de Deus que atraiu legiões de almas à vida monástica: “Escuta, filho meu, os preceitos do mestre, e inclina o ouvido do teu coração. Recebe de bom grado o conselho de um bom pai, e cumpre-o eficazmente, para que, pelo trabalho da obediência, voltes Àquele de Quem te havias afastado”. 1

Ao atento observador não passarão despercebidas algumas árvores que adornam o caminho, as quais bem simbolizam a história desta instituição. São vegetais de inacreditável robustez, cujas raízes se embrenharam pelo solo pedregoso e lograram subsistir em condições desfavoráveis. Enfrentaram os ventos das intempéries e os da História, mantendo-se eretas apesar das adversidades, e ostentando uma vitalidade que desperta surpresa e admiração.

Assim é a Ordem Beneditina. Nascida da vocação de São Bento, conta ela hoje quase 1.500 anos de existência. Atravessou todas as catástrofes, venceu as rudezas das guerras e as deficiências dos homens, e olha sobranceira para um passado que lhe valeu uma legião de filhos canonizados e dezesseis Papas saídos do silêncio de seus claustros. Dezesseis também foram os sucessores de São Pedro que se colocaram sob a proteção deste santo fundador — curiosamente, nenhum deles foi beneditino —, entre os quais nosso atual Romano Pontífice, Bento XVI.

Se a Europa cristã deve, em larga medida, a esta Ordem seu itinerário de conversão e civilização, também o século XX, palco de acontecimentos que mudaram os rumos da humanidade, recebeu a ação benéfica dela emanada, por meio de uma figura talvez pouco conhecida: o Beato Columba Marmion.

O menino vestido de negro

Nasceu ele em Dublin, Irlanda, a 1 de abril de 1858, no seio de uma família de sólida formação católica. Sendo de frágil compleição, seus pais, William Marmion e Herminie Cordier, se apressaram em conduzilo à fonte batismal, dando-lhe o nome de José.

Criança de privilegiada inteligência e equilíbrio temperamental, parecia externar sob todos os aspectos uma vocação sacerdotal, embora não dispensasse os entretenimentos próprios à idade. Observando estes sinais, os pais tomaram uma singular decisão: vesti-lo sempre de negro, prevendo o hábito eclesiástico que um dia haveria de tomar.

Explicaram-lhe que procediam assim porque seria sacerdote. Mas o menino pareceu não se importar muito com isso. Estava mais interessado em escalar árvores e capturar borboletas. Enquanto os irmãozinhos trajavam alegres e coloridas vestimentas, segundo o gosto irlandês, José se distinguia por sua escura roupagem que, de fato, um dia trocaria pela batina.

Sacerdote aos 23 anos

Dentre os seis filhos daquele lar cristão, quatro foram agraciados pela vocação religiosa. Três irmãs de José seguiram a vida consagrada e ele próprio, após realizar com êxito promissor os primeiros estudos, ingressou no seminário diocesano de Dublin.

Junto aos oitenta jovens que ali almejavam o estado de perfeição, Marmion iniciou uma trajetória luminosa, assinalada desde os primórdios por uma avidez teológica e ardente piedade, o que faria um colega seminarista testemunhar: “Ele era um jovem santo e cheio de ideias”. 2

O aproveitamento nos estudos fez seus superiores depositarem nele as melhores esperanças. Enviaram-no a Roma, onde estudou no Pontifício Colégio Irlandês e, em seguida, no Propaganda Fide. Neste último, distinguiu-se em todas as matérias, e sob a égide do futuro Cardeal Francesco Satolli tornou-se um tomista de escol. Os ensinamentos do Doutor Angélico beneficiaram decisivamente sua vida espiritual, pois dele aprendeu a nunca dissociar da vida de santidade o conhecimento doutrinário, tal como ensinaria mais tarde a seus monges:

“Um raio de luz do alto é mais eficaz do que todos os raciocínios humanos”. 3

Esse progresso fê-lo caminhar a passos rápidos para a ordenação. Em 16 de abril de 1881 recebeu o diaconato, e a 16 de junho do mesmo ano foi ordenado sacerdote na igreja romana de Santa Ágata dos Godos. Contava, na ocasião, 23 anos.

A pedido de seu Bispo, logo retornou para a Irlanda levando na alma mil propósitos salutares, algumas incógnitas, e um antigo sonho: ser missionário na Austrália.

Sua alma permanecia insatisfeita

De volta à pátria, padre Marmion foi designado pároco no vilarejo de Dundrum, ofício ao qual se entregou de corpo e alma. Por pouco tempo, porém, pois ao cabo de um ano, foi chamado pelo Bispo de Dublin para lecionar no Seminário maior de Clonliffe.

Nesses primeiros tempos de sacerdócio sua alma, contudo, permanecia insatisfeita. Encontrava-se como acéfalo em seu percurso espiritual. Sentia precisar de um mestre que o guiasse para a Pátria celeste. Uma pergunta rodava em seus pensamentos: não estaria chamado à vida religiosa, ao invés de integrar o clero secular? E a continua lembrança de um encontro que o marcara a fundo acabaria por pesar, em definitivo, neste caudal de incertezas, conduzindo-o para o claustro.

Encontro com o carisma beneditino

Tal encontro dera-se no mês de julho de 1881, quando o jovem presbítero retornava de Roma com o coração ainda acalentado pelas graças da ordenação. A fim de visitar um amigo do seminário que se fizera beneditino em Maredsous, na Bélgica, alterou o percurso de volta e, na noite do dia 23, apresentou-se nessa abadia, onde o irmão porteiro o recebeu com a hospitalidade característica da Ordem.

A abadia de Maredsous constitui, por si só, um espetáculo consolador para qualquer católico. Quando o padre Marmion a conheceu, nela viviam 130 monges, segundo o mais puro espírito da fundação. A igreja, centro da vida comunitária, ergue-se no alto de uma montanha, em grandioso estilo neogótico, parecendo simbolizar, ela mesma, o voto de estabilidade feito pelos membros da Ordem.

Emoldurado por árvores — que quase ousaríamos qualificar como “disciplinadas” e “monacais” —, o templo sagrado se desdobra num conjunto arquitetônico imponente, no qual transparece um equilíbrio perfeito entre o rigor e a suavidade, a seriedade e o sorriso.

Ali se desenvolviam as múltiplas atividades dos monges: o trabalho manual, a administração de duas escolas para meninos e jovens, o cultivo da horta, o labor intelectual e literário, o esmero pelo canto gregoriano e, sobretudo, uma impecável Liturgia, expressão mais elevada do ideal beneditino.

Foi por acaso que padre Marmion chegou a Maredsous. Mas no silêncio reinante no interior daquelas paredes de pedra encontrou o que até então buscara com afã. E se quase quinze séculos o separavam da morte de São Bento, a figura do fundador da Ordem permanecia tão viva ali, que o jovem sacerdote tinha a impressão de tê-lo acabado de cumprimentar nesse momento.

Voltou para Dublin cativado por aquela atmosfera monástica, com as palavras do Abade Plácido Wolter latejando em sua consciência: “Tens uma vocação beneditina muito maior que a de teu amigo”. 4

Noviciado e vida de recolhimento

Seguindo o conselho do seu Bispo, esperou algum tempo antes de tomar uma decisão. Mas transcorridos cinco anos de ministério em sua cidade natal, padre Marmion não mais se questionava sobre a autenticidade de seu chamado para a vida religiosa. Havia decidido ouvi-lo.

Após obter as licenças necessárias, chegou a Maredsous no mês de novembro de 1886, desta vez para ficar. Durante o noviciado, precisou mudar de costumes, cultura e língua, o que não foi fácil, mas em meio a tais lutas confessou: “Estou convencido de estar no lugar onde Deus me quer. Encontrei grande paz, e sinto-me extremamente feliz”. 5 Escolheu o nome de Columba, evocando o santo missionário irlandês do período merovíngio, e pôs-se a praticar as palavras da Regra: “Escuta, filho meu, os preceitos do mestre, e inclina o ouvido do teu coração”.

A almejada profissão se deu em 1891, após a qual os superiores pensaram em enviá-lo ao Brasil. Por fim, acabaram encaminhando-o para Lovaina, onde a Abadia de Maredsous pretendia fundar um novo mosteiro.

O período decorrido desde seu noviciado até o fim da permanência em Lovaina constituiu o cerne de sua vida de recolhimento. Oculto, submisso e modesto, Frei Columba transformou-se num contemplativo. Buscava Cristo e Sua Mãe a todo momento, compreendendo ser no silêncio que Eles Se deixam encontrar: “Se nossa alma se fechar aos rumores da Terra, ao tumultuar das paixões e dos sentidos, o Verbo Encarnado tomará pouco a pouco posse dela; far-nos-á compreender que as mais profundas alegrias são aquelas que encontramos no seu serviço”. 6

Mais do que nunca, via a santidade como um dom de Deus, esmola divina que homem algum jamais merecerá: “Nossa vida sobrenatural oscila entre estes dois polos: de um lado, devemos ter a convicção íntima de nossa incapacidade de atingir a perfeição sem o auxílio de Deus; de outro, devemos estar possuídos da inabalável esperança de tudo encontrarmos na graça de Jesus Cristo”. 7

Qual dócil menino, ele se deixava plasmar pelas mãos de seus superiores, um dos quais registrará: “Nunca vi um religioso mais obediente”. 8 A paz e a serenidade lhe foram dadas em recompensa pelos sofrimentos heroicamente suportados, levando-o a dizer: “Agora que fiz todos os sacrifícios, Nosso Senhor devolveu-me, pelo caminho da obediência, tudo quanto por Ele eu havia abandonado”. 9

Exímio pregador de retiros, Frei Columba era solicitado por conventos e comunidades, nos quais sua presença não se apagava de nenhuma memória. Era instrumento de conversões, suscitava vocações, ensinava através da própria conduta.

Alma ornada pela virtude da sabedoria

Teve, porém, de voltar para Maredsous. O mesmo claustro que o recebera como noviço, aos 27 anos de idade, viu-o retornar de Lovaina aos 51, pronto para exercer a mais alta missão que o Senhor lhe haveria de destinar.

Dom Hildebrando de Hemptinne, que vinha governando Maredsous por muitos anos, fora designado pelo Papa primeiro Primaz da Confederação Beneditina e, devido às suas frequentes permanências em Roma, tornou-se necessário escolher outro abade para o mosteiro. O Capítulo elegeu, por grande maioria, Marmion, precisamente por encontrar nele o perfil do autêntico beneditino. “Eu obedeço e aceito a vontade de Deus”, disse no dia da eleição, em outubro de 1909.

Enquanto abade, Dom Columba foi, antes de tudo, um mestre espiritual, conhecedor das vias por onde as almas devem ser conduzidas. Suas conferências semanais para a comunidade suscitavam o entusiasmo dos monges. Um deles, não se conformando em ver aquelas maravilhas confinadas na sala capitular, tomou a iniciativa de anotá-las e torná-las públicas. Assim se originou a trilogia: Cristo, vida da alma (1917), Cristo em seus mistérios (1919), e Cristo, ideal do monge (1922), três obras que são expressões fidedignas do espírito cristocêntrico do autor. O Papa Bento XV que fazia uso pessoal de Cristo, vida da alma, chegou a recomendá-lo a um Bispo nestes termos: “Leia isto. É a doutrina da Igreja”. 10

Dom Marmion teve de enfrentar questões espinhosas no exercício de seu cargo, e tornou patente aos olhos dos monges de Maredsous que a virtude da sabedoria, tema frequente de suas prédicas, era um ornato de sua própria alma. Atuou como homem-chave nas negociações que trouxeram ao seio da Igreja um convento anglicano; foi solicitado a fundar uma abadia no Congo; por manifesto desejo do Papa, enviou monges para cuidar da Abadia da Dormição, em Jerusalém. Corolário de suas atividades foi a fundação da Congregação Belga da Anunciação, nova jurisdição da Ordem, sediada em Maredsous.

Mostrou assim não estarem as qualidades diplomáticas, administrativas e psicológicas em choque com o espírito de contemplação. Pelo contrário, uma vida interior bem levada conduz a resolver com o maior acerto as questões temporais que a Providência puser no nosso caminho.

O Abade Marmion amava seus filhos espirituais e era estimado por eles. Sob seus cuidados e vigilância, Maredsous progrediu a olhos vistos, parecendo espelhar a vida que os bem-aventurados gozam no Céu. O Senhor lhe deu uma comunidade louvável, na qual as virtudes e dotes naturais se traduziam em obras de excelência e perfeição.

E quando o horizonte ameno da Abadia se obscureceu pelos estertores da Primeira Guerra Mundial, os monges puderam comprovar a veracidade da palavra do Evangelho: “O bom pastor dá a vida por suas ovelhas” (Jo 10, 11).

Despendendo as últimas energias

Embora preservados dos bombardeios de tropas inimigas, os habitantes de Maredsous sofreram quase tanto quanto se a abadia tivesse sido destruída. A cada instante, esperava-se um desenlace trágico que viesse reduzi-la a pó, ocasionando uma apreensão não pequena nos monges. A fome e toda sorte de privações rondavam a comunidade, que abriu suas portas para os feridos e desabrigados.

Vivendo na quadra mais dramática de sua existência, o Abade Columba lutava por salvar a formação dos noviços, levando-os para o exílio. Esta decisão lhe causou incontáveis dissabores e, para completar as amarguras que o contristaram, via seus monges serem arrancados da vida monástica para servir o exército, expostos a todos os perigos de corpo e de espírito.

Em 1918, quando a Guerra terminou, restavam-lhe os últimos cinco anos de vida, e ele os empregou totalmente na restauração da disciplina em Maredsous, despendendo nesse último esforço as poucas energias que ainda lhe restavam. Na tarde de 30 de janeiro de 1923, vítima de uma epidemia de gripe que assolava a Bélgica, ele rendeu sua alma ao Criador.

Alquebrado por uma existência empregada no serviço de Deus, Dom Columba Marmion abandonava-se, uma vez mais, naquele supremo momento, aos desígnios de Jesus Crucificado, que ele viera buscar e encontrara no claustro. Seus filhos espirituais, recebendo de suas mãos, agora trêmulas, a tocha da caridade, tinham consciência de que aquele pai e mestre lhes transmitia e deixava como herança a realização das palavras com as quais São Bento concluiu seus ensinamentos: “Tu, pois, quem quer que sejas, que te apressas rumo à Pátria celeste, cumpre, com o auxílio de Cristo, esta Regra, e então chegarás por fim, com a proteção de Deus, aos maiores cumes da doutrina e das virtudes”. 11

1Regra de São Bento, Prólogo, n. 1-2.
2TIERNEY, OSB, Mark. Blessed Columba Marmion: a short biography. Dublin: The Columba, 2000, p. 22.
3MARMION, OSB, Beato Columba. Jesus Cristo nos seus mistérios: conferências espirituais. 2. ed. Singeverga: Ora et Labora, 1951, p. 452.
4TIERNEY, OSB. Op. cit., p. 23.
5Idem, p. 35.
6MARMION, OSB. Op. cit., p. 289.
7Idem, p. 469.
8TIERNEY, OSB. Op. cit., p. 45.
9Idem, ibidem.
10Apud GARRIDO BONAÑO, OSB, Manuel. Beato Columba Marmion. In: Nuevo Año Cristiano: Enero. 4. ed. José Antonio Martínez Puche, OP (Org.). Madrid: Edibesa, 2003, p. 618.
11Regra de São Bento, c. 73, n. 8-9.

Abadia de Maredsous – Namur (Bélgica)
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A era do perdão

Nascimento JesusBeatriz Alves dos Santos

Nosso Senhor quis fazer-se Homem porque, sendo “doente, nossa natureza precisava ser curada; decaída, ser reerguida; morta, ser ressuscitada. Havíamos perdido a posse do bem, era preciso no-la restituir. Enclausurados nas trevas, era preciso trazer-nos à luz; cativos, esperávamos um salvador; prisioneiros, um socorro; escravos, um libertador”.1

O Verbo se encarnou para ser nosso modelo de santidade, para que conhecêssemos o amor de Deus: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo 15, 12). Nosso Senhor veio trazendo uma clave completamente nova de amor ao próximo, de perdão e de caridade, como se lê no evangelho de São Mateus: “Se alguém te ferir a face direita, oferece-lhe também a outra” (Mt 5, 39), e ainda “amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos [maltratam e] perseguem […], pois se amais somente os que vos amam, que recompensa tereis?” (Mt 5, 44. 46).

Deus está constantemente querendo comunicar-se com o pecador para o atrair a Si e nunca lhe nega a graça suficiente. A respeito desta vontade salvífica universal de Deus, afirma Royo Marin:

[…] Deus quer seriamente – com toda a seriedade que há na face de um Deus crucificado – que todos os homens se salvem. […] É uma verdade clara e explícita na divina Revelação: isto é bom e grato a Deus, nosso Salvador, o qual quer que todos os homens sejam salvos e venham ao conhecimento da verdade (1 Tm. 2, 3-4). Pois Deus não enviou seu Filho ao mundo para julgar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele (Jo 3,17).2

Este amor de Deus não exclui ninguém, pois Ele mesmo o disse na parábola da ovelha perdida: “não é vontade de vosso Pai que está nos céus que se perca nem um só destes pequenos” (Mt 18, 14). Ele também revela que veio “dar sua vida em resgate por muitos” (Mt 20, 28).

Uma condição para o perdão

Deus está pronto a perdoar a qualquer um, a todo momento, basta reconhecer que errou e pedir perdão. Esta afeição de Deus para com os homens e a beleza do perdão estão divinamente manifestadas na parábola do filho pródigo, cujo centro é o pai misericordioso que perdoa o filho. Fascinado por uma ilusória liberdade, o filho mais novo abandona a casa paterna, entra por caminhos errados, perde a herança em jogos e diversões; rebaixa-se cuidando de porcos para se sustentar e, pior, passa a disputar a ração com os porcos… Em certo momento, recebe uma graça de arrependimento, por onde ele reconhece em que abismo chegou, arrepende-se e corre de encontro ao pai; e este lhe cobre de afetos e o perdoa.

Porém, há uma condição para ser perdoado: “perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido” (Mt 6,12).

São Pedro pergunta a Nosso Senhor quantas vezes devia perdoar quando um irmão pecasse contra ele. Até sete? E Jesus respondeu-lhe que não somente sete vezes, mas setenta vezes sete! (Cf. Mt 18, 21- 22) Comenta Lagrange: “Pedro sabe bem que é preciso perdoar a um irmão. Mas quais são os limites? Julga ele estar bem de acordo com o espírito de Jesus, propondo sete vezes”.3 Mas Ele contou-lhe uma parábola:

“Porque o Reino dos céus é comparado a um rei que quis fazer as contas com os seus servos. Pronto a fazer as contas, apresentaram-lhe um que lhe devia dez mil talentos. Tendo começado a fazer as contas, foi-lhe apresentado um que lhe devia dez mil talentos. Como não tivesse com que pagar, mandou o seu senhor que fosse vendido ele, sua mulher, seus filhos e tudo o que tinha, e se saldasse a dívida. Porém o servo, lançando-se-lhe aos pés, lhe suplicou. Tem paciência comigo, eu te pagarei tudo. E o senhor, compadecido daquele servo, deixou-o ir livre, e perdoou-lhe a dívida. Mas esse servo, tendo saído, encontrou um dos seus companheiros, que lhe devia cem dinheiros, e, lançando-lhe a mão, o sufocava dizendo: Paga o que me deves’. O companheiro, lançando-se-lhe aos seus pés, lhe suplicou: ‘Tem paciência comigo, eu te pagarei’. Porém ele recusou e foi mandá-lo meter na prisão, até pagar a dívida. Os outros servos seus companheiros, vendo isto, ficaram muito contristados, e foram referir ao seu senhor tudo o que tinha acontecido. Então o senhor chamou-o, e disse-lhe: ‘Servo mau, eu perdoei-te a dívida toda, porque me suplicaste. Não devias tu logo compadecer-te também do teu companheiro, como eu me compadeci de ti? E o seu senhor, irado, entregou-o aos algozes, até que pagasse toda a dívida. Assim também vos fará meu Pai celestial, se cada um não perdoar do íntimo do seu coração a seu irmão (Mt 18, 23-35)”.

Esta parábola é muito eloquente e ensina, com clareza, como se deve perdoar e amar aos outros, sempre e de coração. Santa Teresa de Jesus adverte às suas religiosas sobre a importância do perdão ao próximo, dizendo que Nosso Senhor podia ter-nos ensinado “perdoai-nos, Senhor, porque fazemos muitas penitências”, ou então “porque rezamos muito, jejuamos, deixamos tudo por Vós e muito vos amamos”. Não. Ele disse somente: “assim como nós perdoamos”.4

São Francisco de Sales também foi ousado em afirmar:

“Muitos dizem: – Amo em grande medida o meu próximo, e bem quero prestar-lhe algum serviço. – Isto está muito bem […], mas não basta; há que fazer mais. – Oh! Quanto o amo! Amo-o tanto que de boa vontade empregaria meus bens por ele. – Isto já é mais e está melhor, mas ainda não é bastante. […] Tem que ir mais longe; pois há algo mais alto nesse amor. Entregar-se até dar a vida pelo próximo não é tanto como abandonar-se ao capricho dos demais para eles ou por eles”.5

Ajuda sobrenatural

Meramente com nossas forças nada podemos ou conseguimos, entretanto, temos em nosso auxílio uma protecção sobrenatural, sobre-humana, que é a protecção de Nossa Senhora. Entre Cristo e os homens, ensina o Professor Plinio Corrêa de Oliveira, há algo em comum, tão extraordinário que não se compreende profundamente: ter a mesma Mãe! Essa Mãe d’Ele, e também Mãe dos pecadores, tem misericórdia do filho mais estropiado, mais fraco, mais torto, desarranjado, e quanto mais esfarrapado e miserável, maior sua compaixão. Por isso, em diversas ocasiões, recomenda a importante necessidade de possuir uma inteira confiança em Nossa Senhora.

Quando uma alma é generosa em perdoar e suportar as misérias dos demais, por mais que tenha pecado, se pedir o auxílio da Mãe de misericórdia, Ela olhará com compaixão e indulgência e obterá o perdão de Deus.

Quer dizer, inesgotável, clementíssima, pacientíssima, pronta a perdoar a qualquer momento, de modo inimaginável, sem nunca um suspiro de cansaço, de extenuação, de agastamento. […] Dispensada essa misericórdia, se ela for mal correspondida, vem uma misericórdia maior. E, por assim dizer, nossos abismos de ingratidão vão atraindo a luz para o fundo, quanto mais fugimos d’Ela, mais as suas graças se prolongam e se iluminam em nossa direção.6

Nos momentos de dificuldade, de aflição e necessidade deve-se correr para Eles e jamais fugir d’Eles, como fez o filho da perdição, Judas. Entretanto, se depois de ter vendido Nosso Senhor por trinta dinheiros tivesse tido um movimento de devoção a Nossa Senhora, rezado a Ela, certamente obteria uma ajuda. Se ele A procurasse e dissesse: “Eu não sou digno de chegar próximo de Vós, de Vos olhar, de me dirigir a Vós, sou Judas, o imundo… mas, Vós sois minha Mãe, tende pena de mim”, Ela o teria acolhido e tratado com benevolência sem par, aquele cujo nome é sinônimo de horror: Judas Iscariotes.7

Se a Virgem Santíssima é tão indulgente com o pecador, não se deve imitá-La, uma vez que Ela é louvada pelo título de Mãe dos pecadores? Os homens, portanto, têm o dever de amar o próximo, pois é na disposição de perdoar que a pessoa manifesta a verdadeira grandeza de alma. “Se pagar o bem com o mal é diabólico, e pagar o bem com o bem é mera obrigação, contudo, pagar o mal com o bem é divino”.8

Essa retribuição de bondade, mesmo recebendo somente o mal, foi a nota marcante da vida de Nosso Senhor. A qualquer um que lhe pedisse algo, a cura, o perdão, tanto os bens do corpo como também os da alma, o Divino Mestre a tudo atendia com superabundância divina.

Crucifixão entre 2 ladrões-horzUma das mais tocantes provas dessa misericórdia infinita deu-se no último lance da Paixão, quando no alto da cruz um dos ladrões lhe pediu perdão e Jesus disse-lhe: “Hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23 , 43), ou seja, Ele perdoou o bandido e transformou-o em santo.

Assim deve ser a confiança do homem no perdão de Deus; por pior que seja a situação em que se encontre, deve ele rezar a Nosso Senhor e dizer: “Se Vós para tantos homens sois misericordioso e os mantendes, então também a mim, criatura humana que sou, perdoai-me. Não mereço vossa indulgência, mas a misericórdia é para os que não a merecem!”. Assim, Ele mesmo nos concederá o perdão, Ele mesmo nos receberá de volta, Ele mesmo curará os nossos males produzidos pelas nossas faltas.

1SÃO GREGÓRIO DE NISSA. Oratio catechetica, 15, apud CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. 11. ed. São Paulo: Loyola, 2001. p. 129.
2“Dios quiere seriamente – con toda seriedad que hay en la cara de un Dios crucificado – que todos los hombres se salven. […] Es una verdad clara y explícitamente contenida en la divina Revelación: esto es bueno y grato ante Dios nuestro Salvador, el cual quiere que todos los hombres sean salvos y vengan al conocimiento de la verdad (I Tim. I, 15). Pues Dios no ha enviado a su Hijo al mundo para que juzgue al mundo, sino para que el mundo sea salvo por El (Io. 3, 17)” (ROYO MARÍN, Antonio. Teologia de la Salvacion. 4. ed. Madrid: BAC, 1997. p. 26-27).
3LAGRANGE, Marie-Joseph apud CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Devo perdoar uma só vez? Op. cit. p.13.
4SANTA TERESA DE JESUS. Caminho de perfeição. C. 36, n. 7. São Paulo: Loyola, 1995. p. 410-412.
5“Muchos dicen: – Amo en gran manera a mi prójimo, y bien quisiera prestarle algún servicio. – Eso está muy bien […], pero no basta; hay que seguir más adelante. ¡Oh, cuanto le amo! Le amo tanto que de buena gana quisiera emplear todos mis bienes por él. – Esto es ya más y está mejor, pero no es bastante todavía. […] Hay que ir más lejos; pues hay algo más alto en este amor. Entregarse hasta dar la vida por el prójimo no es tanto como abandonarse al capricho de los demás para ellos o por ellos” (SÃO FRANCISCO DE SALES. Obras Selectas. Madrid: BAC, 1953. Vol. I. p. 327. Tradução da autora).
6CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Num olhar de Maria, a imensidade de suas virtudes. In: Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei, n.13, abr. 1999. p. 27.
7Id. Nossa Senhora Auxiliadora: bondade e misericórdia incansáveis. In: Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei, n. 98, maio, 2006, p.26.
8CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Devo perdoar uma só vez? Op. cit. p.16.

Convertida pelo Santíssimo Sacramento

Santa Elizabeth SetonIrmã Isabel Cristina Lins Brandão Veas,EP

Santa Elizabeth Ann Seton

Do seio da aristocracia anglicana norte-americana, a Providência chama uma alma de escol para mudar os rumos da educação nos Estados Unidos. Ela funda uma congregação sobre a rocha inabalável da Eucaristia, à sombra da qual florescem os carismas e se solidificam as obras de Deus.

Qual radiante flor, com o perfume de uma inocência batismal ilibada, Teresa entra para o Carmelo de Lisieux e aí, seguindo a “Pequena Via”, realiza sua vocação.

Com Agostinho sucedeu algo bem diferente. Quando já adentrava a plena idade madura, após uma juventude de pecado, é visitado pela graça, converte-se e caminha a passos largos na virtude e na sabedoria.

Um e outro caso ilustram as diferentes circunstâncias nas quais Deus vai buscar alguns eleitos, e os caminhos “personalizados” que lhes traça. “Há diversas operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos. A cada um é dada a manifestação do Espírito para proveito comum” (I Cor 12, 6-7).

Elizabeth Ann Seton foi colhida numa situação muito particular. De religião anglicana, casada com um rico comerciante e tendo cinco filhos, nada parecia indicar os elevados desígnios para os quais a Providência ia chamá-la. Mas de sua correspondência à graça dependeriam milhares de almas e, em certo sentido, um país inteiro.

E ela disse: “sim!”. Tomada de entusiasmo pela Presença Real de Nosso Senhor na Eucaristia, fez-se filha da Igreja Católica. Essa conversão transformaria não só sua vida, mas também a história do Catolicismo nos Estados Unidos. Dois séculos após seu nascimento, ela foi proclamada santa, sendo a primeira norte-americana elevada à honra dos altares.

Uma infância sofrida

Segunda filha do famoso médico Richard Bayley e de Catherine Charlton, Elizabeth Ann Bayley veio ao mundo em 18 de agosto de 1774, meses antes de eclodir a Guerra da Independência dos Estados Unidos. A família residia em Nova York, descendendo dos primeiros colonos da região. Como acontecia com a maioria dos membros da alta sociedade nova-iorquina, eram anglicanos praticantes.

Antes de completar três anos ficou órfã de mãe, e seu pai contraiu novo matrimônio, do qual nasceram mais sete filhos. A pequena enteada era desprezada pela madrasta, o que lhe fazia sentir sobremaneira a falta da mãe. Também o pai, absorvido por serviços e pesquisas médicas, não conseguia retribuir os carinhosos sentimentos de sua afetuosa filha.

Por tais circunstâncias, Elizabeth, aos oito anos de idade, foi enviada à fazenda de um tio paterno, para aí viver em companhia de seus primos. Esse período passado no ambiente tranquilo do campo determinou a formação de seu caráter contemplativo e decidido.

Matrimônio na alta sociedade

Aos dezesseis anos, Elizabeth voltou para Nova York. O viço e a graça de sua juventude, a distinção da fisionomia e a nobreza do porte fizeram com que, em pouco tempo, sua presença se tornasse muito requisitada nas reuniões da sociedade nova-iorquina.

Antes de completar vinte anos, ela casou-se com William Magee Seton, de uma conceituada família de comerciantes. Os primeiros oito anos do casal transcorreram prósperos e tranquilos. Agraciados com cinco filhos — Anna, Richard, William, Catherine e Rebecca —, os Seton residiam num dos melhores bairros de Nova York, levando uma vida regalada.

Muito religiosa e caridosa, Elizabeth participava das atividades promovidas pela Igreja Anglicana e se preocupava com os sofrimentos do próximo. Doía-lhe sobremaneira ver as agruras pelas quais passavam as viúvas pobres. Para lhes dar assistência, organizou, em união com outras damas ricas, uma associação caritativa. A jovem senhora Seton não podia imaginar que, dentro de poucos anos, estaria em situação análoga à daquelas mulheres…

Chegam as tribulações

Em 1803 os negócios da família Seton faliram. Ao mesmo tempo, William foi acometido pela tuberculose. A fim de mudar de clima, numa última tentativa para a recuperação da saúde do esposo, Elizabeth partiu para Livorno, Itália, com ele e a filha mais velha, então com oito anos de idade, apelidada Annina. Aos olhos dos familiares e amigos, essa viagem parecia uma loucura. Entretanto, cada um daqueles dias constituía um trecho do longo caminho traçado pela Providência para conduzir Elizabeth à Igreja Católica. Entre os muitos contatos comerciais que William Seton mantinha com a Europa, figuravam os irmãos Antonio e Filippo Filicchi, de Livorno, com quem tinha feito sólida amizade. Assim sendo, os Seton combinaram de hospedar-se em casa dos Filicchi durante o tempo que ali passassem.

Contudo, ao aportar em Livorno, as autoridades sanitárias decretaram quarentena aos tripulantes do navio recém-chegado, devido à notícia de que a febre amarela grassava em terras americanas. Os Seton foram então encaminhados para o lazareto, um prédio de paredes frias e úmidas, onde a saúde de William piorara ainda mais.

As primeiras graças de conversão

Isolada de todos, vendo o marido definhar dia após dia e sofrendo privações, Elizabeth pôs-se a pensar mais em Deus e a considerar sua vida através de um prisma mais sobrenatural. O confinamento físico tornava sua alma mais aberta às inspirações da graça, e ela começou a ouvir com atenção as explicações a respeito da Doutrina Católica que lhe davam as poucas pessoas com quem tinha contato durante esse período.

Terminada a quarentena, os Seton se dirigiram a Pisa. Enfraquecido pelos dias passados no lazareto, William faleceu em menos de duas semanas. Elizabeth tinha então trinta anos de idade.

A família Filicchi, imbuída da verdadeira caridade cristã, acolheu em seu lar a viúva e sua filhinha. Desejosos de distraí-las um pouco, propuseram-lhes visitar Florença enquanto aguardavam a partida do navio que as levaria de volta à América. Elizabeth aceitou o convite.

Num domingo, a esposa de Antonio Filicchi, Amabilia, convidou-as a assistir à Missa na Igreja da Annunziata. Ao entrar no templo sagrado, Elizabeth se sentiu tocada no mais fundo da alma. Reinava certa penumbra no recinto. Em torno do altar, muitas pessoas rezavam o Rosário, cheias de devoção. O olhar maravilhado de Elizabeth percorreu as obras de arte que embelezavam o ambiente: entalhes em madeira, bonitas pedras de diferentes cores, pinturas representando cenas da Escritura. Ao sair dali, ela escreveria em seu diário: “Não se consegue ter uma ideia de como é tudo isso por meio de uma simples descrição”.1 Depois desse dia, Elizabeth sentiu uma mudança em seu interior. O que havia nos templos católicos para atraí-la tanto?

A Providência Se faz sentir

Entre visitas a igrejas e outros monumentos, transcorreram os dias aprazados para a volta a Nova York. No entanto, por motivos técnicos, a partida do navio foi adiada.

Os Filicchi aproveitaram esse tempo para instruí-la ainda mais na Fé, expondo-lhe a doutrina da Presença Real de Cristo na Eucaristia. Elizabeth ficou encantada com a ideia de poder encontrar-se com Nosso Senhor Jesus Cristo nas Sagradas Espécies.

Alguns dias mais tarde, Deus lhe enviaria uma graça sensível para fazê-la acreditar nessa sublime verdade da Fé. Em companhia da família Filicchi, ela assistia à Missa na Igreja da Madonna delle Grazie, em Livorno. Quando o celebrante estava elevando a Sagrada Hóstia, após a Consagração, alguém se ajoelhou ao lado de Elizabeth e lhe disse ao ouvido: “Aí está o que se chama ‘Presença Real’”. Arrebatada por tais palavras, ela inclinou-se cheia de veneração e, pela primeira vez, adorou a Jesus na Eucaristia, enquanto tentava conter as lágrimas.

Mais tarde ela escreveria à sua cunhada, Rebecca Seton, que ficara em Nova York: “Como seríamos felizes se crêssemos no que essas boas almas crêem! Possuem Deus no Sacramento, Ele permanece em suas igrejas e é levado aos doentes! Oh, meu Deus! Quando eles passam com o Santíssimo Sacramento debaixo da minha janela, ainda que sentindo solidão e tristeza pela minha situação, não posso controlar minhas lágrimas, pensando: ‘Meu Deus, quão feliz eu seria, se, mesmo estando longe de tudo quanto me é querido, pudesse encontrar-Vos na igreja, como eles Vos encontram!’”.2

O encontro com a verdadeira Mãe

Começava para Elizabeth uma de suas mais árduas lutas espirituais. Abandonar o anglicanismo significava renunciar à religião na qual nascera e vivera até então, mas Jesus Eucarístico a atraía à Igreja Católica.

Também a pequena Annina já estava maravilhada pelo catolicismo e não poucas vezes repetia: “Mamãe, não existem católicos na América? Quando voltarmos para casa, nós vamos ser da Igreja Católica?”.3

Como boa mãe, ela sentia-se responsável, não só por sua própria salvação, mas também pela de seus filhos. Portanto, pôs-se a rezar, pedindo a Deus uma orientação.

Certo dia, Elizabeth deparou-se com um livrinho de orações pertencente à Sra. Filicchi, posto sobre a mesa. Abriu-o a esmo e começou a ler: “Lembrai-Vos, ó piíssima Virgem Maria, que nunca se ouviu dizer…” Cada uma das palavras do Memorare soou em sua alma como uma consolação: ela, que na infância tanto sentira a falta do afeto materno, na realidade tinha uma Mãe que dela cuidava com inefável bondade! Passou então a invocar Nossa Senhora, pedindo que Ela lhe mostrasse o caminho que deveria seguir.

Novas adversidades

Em 8 de abril de 1804, mãe e filha embarcaram de volta aos Estados Unidos, em companhia de Antonio Filicchi. Uma nova série de adversidades e grandes transformações aguardava a jovem viúva em sua terra natal.

Apesar da felicidade de rever os outros quatro filhinhos, Elizabeth trazia na alma um profundo dilema: abraçar o catolicismo significava comprar o isolamento da parte de todos os familiares e amigos americanos. Mas, de outro lado, ela já não conseguia viver sem pensar no Santíssimo Sacramento. Passava longas horas do dia fazendo comunhões espirituais e, estando na igreja anglicana de São Paulo, dali adorava Jesus presente no tabernáculo da Igreja Católica de São Pedro, que podia vislumbrar pelas janelas.

Em vão, várias de suas amigas aristocratas tentaram dissuadi-la da conversão. O próprio ministro anglicano que outrora lhe dera orientação espiritual via que seus argumentos eram também inúteis: ela ainda não pertencia formalmente à Igreja, mas seu coração já era católico.

A conversão

Na Quarta-Feira de Cinzas de 1805, diante do tabernáculo da Igreja de São Pedro, Elizabeth tomou a decisão irrevogável de fazer-se católica, com seus cinco filhos. Dez dias depois, em 14 de março, fez sua profissão de Fé, na mesma igreja.
Na festa da Anunciação, 25 de março, realizou-se o seu mais ardente desejo: recebeu a Primeira Comunhão. Cheia de alegria, escreveu à amiga italiana: “Por fim, Amabilia — por fim! — Deus é meu e eu sou d’Ele! Agora, aconteça o que acontecer, eu O recebi!”.4

Sobre esse dia, Elizabeth anotaria em seu diário: “Meu Deus, até o meu último suspiro me lembrarei daquela noite que passei à espera de que o sol nascesse! Meu pobre coração ansiava pela longa caminhada até a cidade, em que cada passo significava estar mais perto daquela rua, mais perto daquele tabernáculo, mais perto daquele momento em que Ele entraria em minha morada pobre e pequena, mas inteiramente d’Ele!”.5

Santa Elizabeth Seton1Funda uma nova Congregação religiosa

No ano seguinte, encontrando-se em Nova York Dom John Carroll — primeiro Bispo de Baltimore e dos Estados Unidos —, Elizabeth recebeu a Confirmação. Preocupada com a educação de seus filhos e a formação das crianças católicas, tentou abrir uma escola em sua cidade natal. No entanto, seus planos foram frustrados, devido ao desprezo e incompreensão por parte daqueles que não aprovavam sua conversão. Mais tarde, em 1808, sob o amparo de Dom Carroll, Elizabeth transladou-se para Baltimore, onde fundou um colégio destinado à educação de meninas. Não demoraram a aparecer jovens que se sentiam chamadas à vida religiosa e queriam seguir Elizabeth, em seu nobre ideal de caridade.

Com a ajuda de um generoso doador, a pequena comunidade se estabeleceu em Emmitsburg, Maryland, no ano de 1809. Nasceu assim a primeira congregação religiosa dos Estados Unidos: Congregação das Irmãs de Caridade de São José, segundo a regra das Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo, e dedicada à educação.

Uma bela peculiaridade do carisma da instituição se encontra assim expressa no texto de suas constituições: “O fim secundário, mas não menos importante, é honrar a Santa Infância de Jesus nas meninas, cujo coração está chamado a amar a Deus mediante a prática das virtudes e do conhecimento da religião; ao mesmo tempo, semearão em suas mentes os germes de um saber útil”.6

Acompanhada por dezessete discípulas, Elizabeth fez os votos em 21 de julho de 1813. Madre Seton, como passou a ser chamada após a fundação, foi diretora geral da Congregação até o fim de sua vida, empenhando-se em formar as freiras segundo o espírito de Santa Luísa de Marillac e de São Vicente de Paulo.

Frutos de uma alma eucarística

Quanto a seus filhos, todos viveram e morreram como bons católicos. Annina foi noviça na Congregação de sua mãe e faleceu aos dezessete anos, logo após emitir os votos. Os dois filhos, Richard e William, alistaram-se na marinha. O primeiro morreu aos vinte e cinco anos. William casou-se e teve sete filhos, dentre os quais um seria Arcebispo. Catherine fez-se religiosa, na Congregação fundada por sua mãe. Rebecca expirou nos braços de Santa Elizabeth, tendo apenas quatorze anos de idade.

Como sói acontecer com os Fundadores, a missão de Madre Seton se prolongaria após sua morte. Ela assistiria, do Céu, ao crescimento de sua obra. Ao entregar sua alma a Deus, em 4 de janeiro de 1821, Santa Elizabeth tinha apenas cinquenta freiras, espalhadas por colégios e orfanatos. No dia de sua canonização, 14 de setembro de 1975, elas eram mais de oito mil, pois sua Congregação se fundara sobre a rocha inabalável da Eucaristia, à sombra da qual florescem os carismas e se solidificam as obras de Deus.

1MARIE CELESTE, Sister. Elizabeth Ann Seton – A Self-Portrait. A study of her spirituality in her own words. Libertyville (Illinois): S.C. Franciscan Marytown Press, 1986. p. 70.
2MARIE CELESTE, Sister. Elizabeth Ann Seton – Collected Writings, edited by Regina Bechtle, S.C, and Judith Metz, S.C.; mss, editor, Ellin Kelly. 2000-2006. Vol. I, p. 289.
3MARIE CELESTE, Sister. Elizabeth Ann Seton – A Self-Portrait. A study of her spirituality in her own words. Libertyville (Illinois): S.C. Franciscan Mary town Press, 1986. pp. 80-81.
4MARIE CELESTE, Sister. Elizabeth Ann Seton – Collected Writings, edited by Regina Bechtle, S.C, and Judith Metz, S.C.; mss, editor, Ellin Kelly. 2000-2006. Vol. I, p. 367.
5Idem, ibidem.
6www.famvin.stjohns.edu/es/downloads/santoralfv/isaseton.pdf

Uma grande alegria

Natal4Irmã Clara Isabel Morazzani Arráiz,EP

Assim como os pastores encontraram aquele adorável Menino reclinado sobre as palhas do presépio, nós também podemos reencontrá-Lo “reclinado” nos Tabernáculos de todo o mundo.
Era noite. Os pastores que apascentavam seus rebanhos tinham acabado de ouvir o anúncio da Boa Nova que o Anjo lhes fizera, e disseram entre si: “Vamos até Belém e vejamos o que se realizou e o que o Senhor nos manifestou” (Lc 2, 15). Partiram então “com grande pressa” (Lc 2, 16) para a gruta, a fim de adorar o Verbo feito carne e servir de testemunhas do grande acontecimento para as épocas futuras.

Docilidade à voz do Anjo

Ao compreenderem o significado da notícia — a chegada do Messias — os pastores haviam sido tomados de um misto de temor reverencial e de consolação, mas não duvidaram sequer um segundo. Bastou a mensagem transmitida pelo celeste embaixador para robustecê-los na fé e confirmar suas esperanças.

Sem dúvida, a luminosa aparição do Anjo veio acompanhada de uma graça especial que os fazia pressentir a grandeza do acontecimento anunciado. Flexíveis à voz do sobrenatural, não manifestaram reservas, não opuseram objeções; pelo contrário, deixaram tudo, abandonando com presteza até mesmo os rebanhos confiados à sua guarda e se dirigiram sem demora em busca do “Recém-nascido, envolto em faixas e posto numa manjedoura” (Lc 2, 12).

Ali, como os Apóstolos que, anos mais tarde, seriam chamados de bem-aventurados pelo Divino Mestre, também eles poderiam ter ouvido dos lábios do Salvador: “Felizes os vossos olhos porque vêem! Ditosos os vossos ouvidos porque ouvem!” (Mt 13, 16).

A humildade dos pastores atraiu o olhar de Deus

Aqueles rudes camponeses foram objeto dessa predileção, por parte da Bondade Divina, muito mais por serem pobres de espírito do que por sua modesta condição social. A virtude da humildade, que os tornava aptos para compreender os mistérios de Deus, sem opor ceticismos arrogantes, atraiu sobre eles os olhares do Altíssimo, da mesma forma como Maria Santíssima, por Sua insuperável despretensão, foi escolhida para ser Mãe do Redentor.

Já em Seu nascimento Jesus mostrava, assim, Seu amor pelos mais pequeninos, por aqueles que, reconhecendo seu nada ou até mesmo sua falência espiritual, põem toda a sua confiança no poder de Deus.

Há quem possa ver nessa atitude de submissão diante de Deus, tão própria aos santos de todos os tempos, uma desprezível manifestação de ignorância ou insuficiência. Mas essa é a opinião daqueles que o próprio Jesus denominaria como os “sábios e entendidos” (Mt 11, 25) deste mundo e que, por conseguinte, acham-se privados do conhecimento das coisas divinas, por cegarem-se a si mesmos.

A sabedoria verdadeira — esta sim, possuíam-na os pastores —, alcançaraa em altíssimo grau a virginal Senhora que Se inclinava em adoração ante a mísera manjedoura transformada em trono real. Movidos por essa “sabedoria da humildade”, os pastores haviam corrido até o estábulo e contemplavam a Sabedoria em Pessoa, que repousava placidamente sobre as palhas: “Ela apareceu sobre a terra, e habitou entre os homens” (Br 3, 38).

O presépio de Belém e os altares da Igreja

Hoje, de certo modo, se repete a cada dia o mistério de Belém. Dois milênios depois do nascimento de Cristo, as igrejas se encontram multiplicadas pelo mundo, e nos seus Tabernáculos repousa Jesus, verdadeiramente presente, embora oculto sob os véus do Pão Eucarístico, assim como repousou outrora sobre as palhas da manjedoura, envolto nos panos que Maria Santíssima Lhe preparara.

A mesma presteza que admiramos nos pastores deve impelir-nos, também nós, a deixar tudo e correr para o altar, a fim de encontrar o Senhor que desce do Céu. Nos altares da Igreja, obediente à voz do sacerdote, nasce Nosso Senhor Jesus Cristo uma vez mais, fazendo-nos lembrar a maneira como Ele Se apresentou ante os olhares maravilhados da Virgem Mãe, de São José e dos pastores, naquela noite santa.

O Natal não é uma mera recordação histórica

A festa de Natal encerra um significado litúrgico extraordinário: embora o Santo Sacrifício seja oferecido todos os dias nos altares de tantas igrejas espalhadas pelo mundo, ele se reveste de uma unção e densidade simbólicas particulares na noite de 24 para 25 de dezembro.

Não se trata apenas da recordação de fatos históricos envoltos nas brumas do passado, mas de uma realidade mais profunda do que aquela que captamos através dos sentidos. A Liturgia do Natal traz um conjunto de graças vinculadas a esse mistério, as quais se derramam sobre nossos corações quando o celebramos com fervor sincero.

O ano litúrgico — ensinava o Sumo Pontífice Pio XII — que a piedade da Igreja alimenta e acompanha, não é uma fria e inerte representação de fatos que pertencem ao passado, ou uma simples e nua evocação da realidade de outros tempos. É, antes, o próprio Cristo, que vive sempre na sua Igreja e que prossegue o caminho de imensa misericórdia por Ele iniciado, piedosamente, nesta vida mortal, quando passou fazendo o bem, com o fim de colocar as almas humanas em contato com os Seus mistérios e fazê-las viver por eles, mistérios que estão perenemente presentes e operantes, não de modo incerto e nebuloso, de que falam alguns escritores recentes, mas porque, como nos ensina a doutrina católica e segundo a sentença dos doutores da Igreja, são exemplos ilustres de perfeição cristã e fonte de graça divina pelos méritos e intercessão do Redentor”.1

igreja_arautosA Fé em Nosso Senhor, deitado na manjedoura e presente na Eucaristia

Hoje não vemos, como os pastores, o Divino Menino deitado sobre as palhas, mas contemplamo-Lo, com os olhos da Fé, na Hóstia imaculada que o sacerdote apresenta para a adoração dos fiéis; não ouvimos as vozes dos anjos fazendo ecoar o “Glória!” pelas vastidões dos céus, mas chega até nós o apelo da Igreja, convidando seus filhos: “Venite gentes et adorate!”.

Se grande foi a Fé daqueles homens simples ao acreditarem que, naquele pequenino vindo à terra em tal despojamento, e aquecido tão-só pelo bafo dos animais, ocultava-Se o próprio Deus, a nossa Fé poderá alcançar grau mais elevado se considerarmos esse mesmo Deus escondido na Eucaristia. E poderemos, nós também, ser contados entre os homens que o Senhor chamou de bem-aventurados: “Felizes aqueles que crêem sem ter visto!” (Jo 20, 29).

Jesus, a Beleza suprema, vela-Se em vão aos olhos de quem tem Fé: apesar da infância à qual O reduziu seu amor, seu poder se manifesta nesse dia, e só Ele — quer sob a figura de frágil criança, quer sob as espécies eucarísticas — derrota os infernos e resgata a humanidade da vil escravidão do pecado.

Natal: uma “clareira” alegre e luminosa

Quantas graças de alegria e consolação concedidas por ocasião do Natal! A cada ano, em todas as épocas da Era Cristã, esta festa máxima abre uma “clareira” alegre e luminosa no curso normal, por vezes tão cheio de sofrimentos e angústias, da vida de todos os dias. Dominados pelas preocupações concretas ou pela ilusão deste mundo passageiro, os homens esquecem-se facilmente da eternidade que os espera e olham para esta terra como para seu fim último.

Todos se afanam em busca da felicidade; entretanto, só uma é a verdadeira, e o Divino Menino vem para apontar o único caminho que a ela conduz: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14, 6). E nessa noite silenciosa, todos param diante da gruta de Belém, gozando, ainda que por alguns instantes, dessa alegria envolvente, trazida pelo Redentor. “Ali, os maus cessam seus furores, ali, repousam os exaustos de forças, ali, os prisioneiros estão tranquilos, já não mais ouvem a voz do exator. Ali, juntos, os pequenos e os grandes se encontram, o escravo ali está livre do jugo do seu senhor” (Jó 3, 17-19).

De onde vem a felicidade que sentimos no Natal?

Prolonguemos esses momentos de alegria vividos aos pés da manjedoura ou em torno do altar. De onde nos vem, ao certo, essa felicidade? Onde a poderemos encontrar?

Encarnando-Se, Deus quis fazer-Se um de nós, para tornar essa felicidade ainda mais acessível, mais atraente, mais encantadora. Ao entrar neste mundo, o Divino Infante abre seus braços num gesto que prenuncia Sua missão salvadora e parece exclamar: “Eis que venho. […] Com prazer faço a vossa vontade” (Sl 39, 8-9), manifestando neste ato Sua perfeita obediência ao Pai, selada no Getsêmani: “Faça-se a vossa vontade e não a minha” (Lc 22, 42).

Assim, na esplendorosa noite de Natal inicia-se o grande mistério da Redenção, em sua dupla perspectiva: é o perdão concedido ao homem réu, manchado pela culpa de Adão e por suas más ações; e também a elevação desse mesmo homem à ordem sobrenatural, convidando-o a participar da Família Divina, pelo dom da graça. Nessa adorável Criança vemos nossa pobre natureza galgar alturas inimagináveis, às quais seria incapaz de subir por suas próprias forças, e entrar na intimidade do Deus inacessível e infinito.

Celebramos a nossa própria deificação

O santo Papa Leão Magno, em seu célebre sermão sobre o Natal, mostrou, com palavras inspiradas, essa alegria universal que nos traz o nascimento de Cristo:

“Ninguém está excluído da participação nesta felicidade. A causa da alegria é comum a todos, porque Nosso Senhor, vencedor do pecado e da morte, não tendo encontrado ninguém isento de culpa, veio libertar a todos. Exulte o justo, porque se aproxima da vitória; rejubile o pecador, porque lhe é oferecido o perdão; reanime-se o pagão, porque é chamado à vida”.2

No Redentor, reclinado no presépio, vemos nossa humanidade, reconhecemos nEle um Irmão, “em tudo semelhante a nós, exceto no pecado” (Hb 4, 15); nos pastores, e em todos aqueles que circundam a manjedoura ou o altar, admiramos uma luz, de fulgor até então desconhecido, que brilha, expulsando as trevas da maldição do pecado no qual estavam envoltos. “Oh admirável intercâmbio! O Criador do gênero humano, assumindo corpo e alma, quis nascer de uma Virgem; e, tornando-Se homem sem intervenção do homem, nos doou sua própria divindade!”.3

Celebramos, pois, no Natal, a nossa própria deificação.

É preciso retribuir todo esse amor
Quem não corresponderá com amor ao próprio Amor em Pessoa? Quem, remido, não se ajoelhará em adoração ante a fragilidade de um Redentor que Se faz pequeno para engrandecer os homens? Também nós, resta-nos retribuir esse mesmo amor ao Pequeno Rei que hoje Se nos entrega no mistério do altar.

O amor torna o amante semelhante ao amado, afirma o grande místico São João da Cruz. Para consolidar essa união é necessário, entretanto, que Um desça até o outro pela ternura, ou que o segundo suba até o Primeiro pela veneração. Jesus já desceu até nós pela compaixão, pelo afeto, pela ternura… Subamos até Ele, ou melhor, peçamos, por intercessão de sua Mãe Santíssima, que Ele mesmo nos faça subir.

Bem junto ao altar, entoando com os lábios o “Venite gentes et adorate” da Liturgia, cantemos com o coração nossa entrega sem reservas ao Menino Salvador.

1 Pio XII, Mediator Dei, n. 150. Sermo 1 in Nativitate Domini.
2 Sermo 1 in Nativitate Domini
3Liturgia das Horas. Antífona da Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, I Vésperas.

A abertura do ser humano para o transcendente

Ser_AbsolutoIrmã Maria Cecília Seraidarian,EP

A existência humana está vinculada a uma abertura ao infinito. A experiência mística é universal: em todos os tempos e lugares, sempre houve, há e haverá místicos, pois operar misticamente é uma necessidade ineludível do ser humano, como a filosofia ou a poesia 1 . Assim, a vocação mística é inerente à natureza humana, que deseja a comunhão com o Ser Infinito, a união com o divino. Essa relação Infinito-finito, Criador-criatura, está muito bem sintetizada no seguinte trecho da Gaudium et Spes:

A razão mais sublime da dignidade do homem consiste na sua vocação à união com Deus. É desde o começo da sua existência que o homem é convidado a dialogar com Deus: pois, se existe, é só porque, criado por Deus por amor, é por Ele por amor constantemente conservado; nem pode viver plenamente segundo a verdade, se não reconhecer livremente esse amor e se entregar ao seu Criador 2 .

Segundo demonstra o dominicano Victorino Rodriguez 3 , o homem está ontologicamente vinculado a Deus, devido à presença íntima, total e universal do Criador em todas as criaturas, especialmente no ser humano. Sua existência contingente e a limitação de suas perfeições são o fundamento da ascensão gnosiológico-metafísica do homem em direção ao Ser por Essência, causa de todo dinamismo ou atualização, todo existir contingente e toda perfeição participada: Aquele que é. Deus está presente ab intrinseco no ser e no atuar de toda criatura, em toda sua plenitude e luminosidade, poder e inteligência. Ou seja, onde está a ação imediata do Ser Absoluto, aí estão necessariamente sua natureza, sua inteligência, seu amor e sua pessoa trina. Portanto, o homem está onticamente relacionado com Deus pela irrupção causal do divino em todo o seu ser como projeção transcendente.

Além do vínculo ontológico, Rodriguez 4 salienta uma vinculação natural psicológico-moral do ser humano com o divino, caracterizada pela ação aproximativa do homem a Deus. Esta pode realizar-se em dois modos distintos: um explícito e consciente, que não ocorre com todos os homens; outro implícito e inconsciente, que ocorre sempre com todos os homens. O primeiro é realizado por todo homem que chega a conhecer a Deus, ama-o, busca conhecê-lo mais e o reverencia. Sob esta forma, vincular-se-ia o metafísico, através do estudo do ser em todas as suas dimensões; ou o “metafísico espontâneo” que percebe a Deus na contemplação do cosmos ou em sua interioridade; ou ainda o crédulo que vive docilmente as crenças religiosas de outros. O resultado é uma atitude de oração. O segundo modo de vinculação está latente ou implícito, subjetiva e objetivamente, na fonte interior do pensar e do querer humano, antes de qualquer reflexão ou escolha. Trata-se da presença implícita de Deus como verdade e como bem nas primeiras intuições do intelecto – os primeiros princípios inerrantes – e na apetência fundamental do bem ou o amor inicial do bem comum, do qual nasce todo o dinamismo humano. Essas vivências são caracteristicamente tão fortes, naturais e universais, que transcendem final e eficientemente o homem. Nascem de um princípio supra ou pré-humano e ultrapassam toda bondade e toda verdade intramundanas. Não são verdades eternas explícitas nem amor pessoal a Deus, mas de um campo tão amplo e indeterminado de verdade e de bem que evoca quase espontaneamente ao divino.

A ligação homem-infinito, homem-transcendente, pode também ser vista sob o aspecto alma humana, como o faz Edith Stein 5 em Ser finito y ser eterno. Ela chama a atenção para a vocação da alma à união com o divino, fundando-a na vocação para a vida eterna, pois a alma humana, enquanto espiritual, é naturalmente imortal. Entende ainda a interioridade mais profunda da alma como “morada de Deus”, que deve reproduzir Sua imagem de modo totalmente único e pessoal. Onipresente, Ele está presente sempre e onde quer: nas criaturas inanimadas e nas irracionais que não podem acolhê-lo como a alma. Está presente na alma exteriorizada e voltada para o mundo, incapaz de percebê-lo em seu interior. A união com o Criador é, portanto, uma abertura livre da alma a Ele. Trata-se de uma união de amor, pois Deus é amor e a garantia dessa união é a participação do Ser Divino, que deve ser uma participação de amor segundo a peculiaridade de cada alma.

Essa abertura do ser humano para o Transcendente leva-o a procurar o Ser Supremo, o único que pode realizar o bem universal, apreendido pela inteligência, e o bem ilimitado, desejado pela vontade, pois somente Deus pode satisfazer plenamente a vontade humana 6 . Embora finito, o homem possui como que uma semente do infinito, pois foi criado à imagem e semelhança de Deus, o Infinito, para o qual está feito: quer conhecer a Verdade infinita e amar o Bem infinito. Suas faculdades superiores – a inteligência e a vontade – possuem uma amplitude infinita. Os sentidos percebem somente uma modalidade sensível do ser ou da realidade, mas a inteligência apreende o ser, a realidade das coisas, sua existência, e percebe que o ser, de si, não tem limites. Desta forma, muito superior aos sentidos e à imaginação, a inteligência humana almeja conhecer não somente os seres limitados e finitos, mas também o Ser Infinito, na medida em que este lhe seja cognoscível. Almeja conhecer não apenas as verdades múltiplas e restritas das ciências, mas também a Verdade suprema e infinita, eminente princípio de todas as outras verdades 7 .

Assim como a inteligência tende à amplidão do ilimitado, sendo capaz de conhecer o bem universal e, portanto, o Bem Supremo, também a vontade humana tende a isso. De fato, a vontade está dirigida pela inteligência, que, além do bem sensível (deleitável e útil), concebe o bem em si, o bem honesto (a virtude, a justiça, o valor, etc.). Não se limita ela a determinado bem honesto, mas compreende, no bem universal, todo e qualquer bem capaz de acarretar perfeição. Finalmente, a inteligência sobe até o conhecimento do Bem supremo e infinito, causa dos demais bens. A vontade, então, devidamente esclarecida pela inteligência, deseja e apetece a esse Bem supremo e infinito. No entanto, inteligência e vontade somente podem chegar até Deus, por via natural, através das perfeições das criaturas que, como um espelho, refletem as perfeições do Criador 8 .

Outra dimensão pela qual se pode observar a relação homem-transcendente é a espiritual. Segundo Von Balthasar 9 , o espírito humano é luz enquanto intelectus agens e como tal está aberto a Deus. A propósito do Livro X das Confissões, comenta que Santo Agostinho estremece diante da constatação da profundidade de seu próprio espírito, onde cabem todas as coisas – materiais ou espirituais – e onde Deus mesmo tem o seu lugar. Diz que o Hiponense define o espírito humano como uma luz em permanente atitude de escuta e diálogo com a Verdade eterna, absoluta. No diálogo, o espírito se submete ao Infinito. O importante, para Von Balthasar, é a experiência fundamental de que a luz do Ser não está ao alcance do espírito, como a do intelecto agente. O espírito deve remeter-se a uma “graça”, uma Revelação, uma abertura, que é a tendência a ultrapassar os limites do profano, dirigindo-se ao domínio onde Deus se faz visível – ainda que como mero “pressentir”. Ocorre, porém, que a luz do espírito jamais poderá ser totalmente separada da Luz Suprema, e isso constitui precisamente a “espiritualidade do espírito”, sua transcendência para além do mundo.

Assevera ainda que a realidade, da qual todas as coisas dependem, é a relação real do homem com Deus. À luz dessa relação, tudo deste mundo torna-se realidade do homem e, por ele, toma parte no esplendor que, desde a verdade absoluta e eterna, se derrama sobre o mundo temporal e relativo. Esse encontro está baseado na vontade de Deus que, criando, decidiu manifestar-se aos seres finitos por meio da própria Criação ou de outra forma mais elevada. A contingência, a incerteza definitiva está em saber que o “eu” não é ele mesmo a luz, sendo obrigado a dirigir-se a essa luz desconhecida e insondável, chamando-a “Tu”; um “Tu” que tudo criou e tudo conserva em suas relações 10 .

Assim sendo, seria próprio ao ser humano admirar em todas as coisas o reflexo do divino Artífice; através das criaturas, comunicar-se com o Criador e alcançar a união com Ele. Em busca da explicação última de todas as coisas e de si mesmo, o homem sobe, de causa em causa, até a Causa causarum, a “Luz inacessível” 11 onde habita a Essência divina e invisível “dAquele que é”. Tal verdade é a suma explicação de tudo, nela o ser humano experimenta a presença de uma vida nova, pujante, superior, divina.

1URIBE CARVAJAL, Ángel Hernando e OSORIO, Bayron. Cultura y espiritualidad. Medellín: UPB, 2008. p. 112.
2Gaudium et Spes. No. 19.
3RODRÍGUEZ. Victorino. Temas-clave de humanismo cristiano. Madrid: Speiro, 1984. p. 56-59.
4Ibid., p. 59-64.
5STEIN, Edith. Ser finito y ser eterno: ensayo de una ascensión al sentido del ser. México: Fondo de Cultura Económica, 1994. p. 518-519.
6SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma teológica. I-II, q. 2, a. 8.
7GARRIGOU-LAGRANGE, Réginald. La providencia y la confianza en Dios: fidelidad y abandono. 2a. ed. Buenos Aires: Desclée de Brower, 1942. p. 92.
8Ibid., p. 93.
9VON BALTHASAR, Hans Urs. El problema de Dios en el hombre actual. 2a. ed. Madrid: Castilla, 1966. p. 126-129.
10Ibid., p. 131.
11Cfr. 1Tm. 6, 16.