A abertura do ser humano para o transcendente

Ser_AbsolutoIrmã Maria Cecília Seraidarian,EP

A existência humana está vinculada a uma abertura ao infinito. A experiência mística é universal: em todos os tempos e lugares, sempre houve, há e haverá místicos, pois operar misticamente é uma necessidade ineludível do ser humano, como a filosofia ou a poesia 1 . Assim, a vocação mística é inerente à natureza humana, que deseja a comunhão com o Ser Infinito, a união com o divino. Essa relação Infinito-finito, Criador-criatura, está muito bem sintetizada no seguinte trecho da Gaudium et Spes:

A razão mais sublime da dignidade do homem consiste na sua vocação à união com Deus. É desde o começo da sua existência que o homem é convidado a dialogar com Deus: pois, se existe, é só porque, criado por Deus por amor, é por Ele por amor constantemente conservado; nem pode viver plenamente segundo a verdade, se não reconhecer livremente esse amor e se entregar ao seu Criador 2 .

Segundo demonstra o dominicano Victorino Rodriguez 3 , o homem está ontologicamente vinculado a Deus, devido à presença íntima, total e universal do Criador em todas as criaturas, especialmente no ser humano. Sua existência contingente e a limitação de suas perfeições são o fundamento da ascensão gnosiológico-metafísica do homem em direção ao Ser por Essência, causa de todo dinamismo ou atualização, todo existir contingente e toda perfeição participada: Aquele que é. Deus está presente ab intrinseco no ser e no atuar de toda criatura, em toda sua plenitude e luminosidade, poder e inteligência. Ou seja, onde está a ação imediata do Ser Absoluto, aí estão necessariamente sua natureza, sua inteligência, seu amor e sua pessoa trina. Portanto, o homem está onticamente relacionado com Deus pela irrupção causal do divino em todo o seu ser como projeção transcendente.

Além do vínculo ontológico, Rodriguez 4 salienta uma vinculação natural psicológico-moral do ser humano com o divino, caracterizada pela ação aproximativa do homem a Deus. Esta pode realizar-se em dois modos distintos: um explícito e consciente, que não ocorre com todos os homens; outro implícito e inconsciente, que ocorre sempre com todos os homens. O primeiro é realizado por todo homem que chega a conhecer a Deus, ama-o, busca conhecê-lo mais e o reverencia. Sob esta forma, vincular-se-ia o metafísico, através do estudo do ser em todas as suas dimensões; ou o “metafísico espontâneo” que percebe a Deus na contemplação do cosmos ou em sua interioridade; ou ainda o crédulo que vive docilmente as crenças religiosas de outros. O resultado é uma atitude de oração. O segundo modo de vinculação está latente ou implícito, subjetiva e objetivamente, na fonte interior do pensar e do querer humano, antes de qualquer reflexão ou escolha. Trata-se da presença implícita de Deus como verdade e como bem nas primeiras intuições do intelecto – os primeiros princípios inerrantes – e na apetência fundamental do bem ou o amor inicial do bem comum, do qual nasce todo o dinamismo humano. Essas vivências são caracteristicamente tão fortes, naturais e universais, que transcendem final e eficientemente o homem. Nascem de um princípio supra ou pré-humano e ultrapassam toda bondade e toda verdade intramundanas. Não são verdades eternas explícitas nem amor pessoal a Deus, mas de um campo tão amplo e indeterminado de verdade e de bem que evoca quase espontaneamente ao divino.

A ligação homem-infinito, homem-transcendente, pode também ser vista sob o aspecto alma humana, como o faz Edith Stein 5 em Ser finito y ser eterno. Ela chama a atenção para a vocação da alma à união com o divino, fundando-a na vocação para a vida eterna, pois a alma humana, enquanto espiritual, é naturalmente imortal. Entende ainda a interioridade mais profunda da alma como “morada de Deus”, que deve reproduzir Sua imagem de modo totalmente único e pessoal. Onipresente, Ele está presente sempre e onde quer: nas criaturas inanimadas e nas irracionais que não podem acolhê-lo como a alma. Está presente na alma exteriorizada e voltada para o mundo, incapaz de percebê-lo em seu interior. A união com o Criador é, portanto, uma abertura livre da alma a Ele. Trata-se de uma união de amor, pois Deus é amor e a garantia dessa união é a participação do Ser Divino, que deve ser uma participação de amor segundo a peculiaridade de cada alma.

Essa abertura do ser humano para o Transcendente leva-o a procurar o Ser Supremo, o único que pode realizar o bem universal, apreendido pela inteligência, e o bem ilimitado, desejado pela vontade, pois somente Deus pode satisfazer plenamente a vontade humana 6 . Embora finito, o homem possui como que uma semente do infinito, pois foi criado à imagem e semelhança de Deus, o Infinito, para o qual está feito: quer conhecer a Verdade infinita e amar o Bem infinito. Suas faculdades superiores – a inteligência e a vontade – possuem uma amplitude infinita. Os sentidos percebem somente uma modalidade sensível do ser ou da realidade, mas a inteligência apreende o ser, a realidade das coisas, sua existência, e percebe que o ser, de si, não tem limites. Desta forma, muito superior aos sentidos e à imaginação, a inteligência humana almeja conhecer não somente os seres limitados e finitos, mas também o Ser Infinito, na medida em que este lhe seja cognoscível. Almeja conhecer não apenas as verdades múltiplas e restritas das ciências, mas também a Verdade suprema e infinita, eminente princípio de todas as outras verdades 7 .

Assim como a inteligência tende à amplidão do ilimitado, sendo capaz de conhecer o bem universal e, portanto, o Bem Supremo, também a vontade humana tende a isso. De fato, a vontade está dirigida pela inteligência, que, além do bem sensível (deleitável e útil), concebe o bem em si, o bem honesto (a virtude, a justiça, o valor, etc.). Não se limita ela a determinado bem honesto, mas compreende, no bem universal, todo e qualquer bem capaz de acarretar perfeição. Finalmente, a inteligência sobe até o conhecimento do Bem supremo e infinito, causa dos demais bens. A vontade, então, devidamente esclarecida pela inteligência, deseja e apetece a esse Bem supremo e infinito. No entanto, inteligência e vontade somente podem chegar até Deus, por via natural, através das perfeições das criaturas que, como um espelho, refletem as perfeições do Criador 8 .

Outra dimensão pela qual se pode observar a relação homem-transcendente é a espiritual. Segundo Von Balthasar 9 , o espírito humano é luz enquanto intelectus agens e como tal está aberto a Deus. A propósito do Livro X das Confissões, comenta que Santo Agostinho estremece diante da constatação da profundidade de seu próprio espírito, onde cabem todas as coisas – materiais ou espirituais – e onde Deus mesmo tem o seu lugar. Diz que o Hiponense define o espírito humano como uma luz em permanente atitude de escuta e diálogo com a Verdade eterna, absoluta. No diálogo, o espírito se submete ao Infinito. O importante, para Von Balthasar, é a experiência fundamental de que a luz do Ser não está ao alcance do espírito, como a do intelecto agente. O espírito deve remeter-se a uma “graça”, uma Revelação, uma abertura, que é a tendência a ultrapassar os limites do profano, dirigindo-se ao domínio onde Deus se faz visível – ainda que como mero “pressentir”. Ocorre, porém, que a luz do espírito jamais poderá ser totalmente separada da Luz Suprema, e isso constitui precisamente a “espiritualidade do espírito”, sua transcendência para além do mundo.

Assevera ainda que a realidade, da qual todas as coisas dependem, é a relação real do homem com Deus. À luz dessa relação, tudo deste mundo torna-se realidade do homem e, por ele, toma parte no esplendor que, desde a verdade absoluta e eterna, se derrama sobre o mundo temporal e relativo. Esse encontro está baseado na vontade de Deus que, criando, decidiu manifestar-se aos seres finitos por meio da própria Criação ou de outra forma mais elevada. A contingência, a incerteza definitiva está em saber que o “eu” não é ele mesmo a luz, sendo obrigado a dirigir-se a essa luz desconhecida e insondável, chamando-a “Tu”; um “Tu” que tudo criou e tudo conserva em suas relações 10 .

Assim sendo, seria próprio ao ser humano admirar em todas as coisas o reflexo do divino Artífice; através das criaturas, comunicar-se com o Criador e alcançar a união com Ele. Em busca da explicação última de todas as coisas e de si mesmo, o homem sobe, de causa em causa, até a Causa causarum, a “Luz inacessível” 11 onde habita a Essência divina e invisível “dAquele que é”. Tal verdade é a suma explicação de tudo, nela o ser humano experimenta a presença de uma vida nova, pujante, superior, divina.

1URIBE CARVAJAL, Ángel Hernando e OSORIO, Bayron. Cultura y espiritualidad. Medellín: UPB, 2008. p. 112.
2Gaudium et Spes. No. 19.
3RODRÍGUEZ. Victorino. Temas-clave de humanismo cristiano. Madrid: Speiro, 1984. p. 56-59.
4Ibid., p. 59-64.
5STEIN, Edith. Ser finito y ser eterno: ensayo de una ascensión al sentido del ser. México: Fondo de Cultura Económica, 1994. p. 518-519.
6SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma teológica. I-II, q. 2, a. 8.
7GARRIGOU-LAGRANGE, Réginald. La providencia y la confianza en Dios: fidelidad y abandono. 2a. ed. Buenos Aires: Desclée de Brower, 1942. p. 92.
8Ibid., p. 93.
9VON BALTHASAR, Hans Urs. El problema de Dios en el hombre actual. 2a. ed. Madrid: Castilla, 1966. p. 126-129.
10Ibid., p. 131.
11Cfr. 1Tm. 6, 16.

4 ideias sobre “A abertura do ser humano para o transcendente

  1. Eu creio que a transcendentalidade humana é a passagem desta vida material à vida espiritual, ou seja, o indivíduo enquanto ser existencial que foi neste mundo terreno, encontra-se em uma outra dimensão, em um outro estágio de vida. A alma (espírito) precede e transcende à vida material e terrena e, a ela sobreviverá aquem da existência vital.

    • E da experiencia. religiosa que nasce da fé, desta forma a religiao impregna a todas as formas de vida principalmente. naquela que tange a espiritualidade.

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