Beleza quase paradisíaca

Ir. Allana Neves Colati, EP

Dentre as distintas paisagens criadas por Deus e espalhadas pelo mundo, há algumas que nos enchem de admiração. Como não se encantar com as águas, ora azuis, ora verdes, dos mares tropicais? Ou com o níveo manto que recobre as regiões mais frias do planeta? Mas quiçá seja o outono nos bosques do Hemisfério Norte um dos mais extraordinários espetáculos que a natureza nos pode oferecer.

Nesta estação do ano, a temperatura começa a descer, tornando o bosque mais calmo e silencioso. Aproxima-se o inverno, sempre rigoroso naquelas regiões, mas, paradoxalmente, a fascinante coloração que tomam as folhas das árvores nesta época reveste a paisagem com um manto de vitalidade.

Elas têm diferentes formatos, tamanhos e tonalidades: algumas suavemente rosadas, outras, intensamente rubras ou resplandecentes como ouro. E compõem um lindo conjunto, que adquire cores muito variadas segundo o local, a perspectiva ou a iluminação do dia.

Tão maravilhosa cena, porém, não dura muito… Logo as folhas que irradiavam aquele glorioso esplendor são levadas ao léu por uma súbita rajada de vento ou secam e caem, para depois – como tudo na vida – desaparecerem.

Se no auge de sua magnificência uma dessas árvores, carregada de estupenda folhagem, fosse capaz de pensar, ao sentir uma brisa intensa e rápida a sacudir-lhe os ramos, poderia se perguntar:

– Será sinal da tempestade que se aproxima?

O vento frio, ainda suave, indica que a frágil vida das formosas folhinhas outonais está chegando ao fim… Em pouco tempo ele se transforma em uma forte ventania, que agita a árvore, sem interrupção, durante vários minutos.

Inicia-se, então, a segunda etapa do espetáculo, que já não tem mais por cenário as alturas admiráveis dos galhos, mas o prosaico solo. Ali aquelas folhas de feéricas cores, desligadas do tronco que as alimentava e as mantinha com vida, ornam nobremente a grama, compondo sobre ela um tapete de singular colorido. Dir-se-ia que elas aproveitam seus últimos haustos de vida para concluir a missão que Deus lhes dera: irradiar, no fim de sua existência, uma forma de beleza quase paradisíaca que, sob certo aspecto, supera à da primavera.

Revista Arautos do Evangelho, Abril 2015

Um altíssimo chamado… para todos!

Bruna Almeida Piva

No calendário litúrgico, o mês de novembro se inicia com a Solenidade de Todos os Santos, instituída no século IX, a fim de louvar e festejar a multidão dos justos: “aqueles que habitam a Jerusalém Celestial, canonizados ou não, bem como os vivos que se encontram na graça de Deus e conservam sua amizade”.1

Porém, para que servem aos santos nossos elogios? Que lhes importam as honras terrenas, enquanto o próprio Deus os glorifica? 2 De fato, nossos louvores não são necessários a eles, mas o são a nós mesmos, pois intercedem por nós ao Pai, e sua lembrança nos estimula e incita a “gozarmos de sua tão amável companhia e de merecermos ser concidadãos e comensais dos espíritos bem-aventurados, de unir-nos ao grupo dos patriarcas, às fileiras dos profetas, ao senado dos apóstolos, ao numeroso exército dos mártires, ao grêmio dos confessores, aos coros das virgens, de associar-nos, enfim, à comunhão de todos os santos e com todos nos alegrarmos”.3 É, portanto, uma festa que nos convida à santidade.

Em nossa busca pela felicidade e realização, não podemos ter ambição mais bela e mais nobre do que a de ser santos. E muito enganado estaria quem pensasse ser esse chamado feito somente a uma minoria de almas seletas, que um dia são elevadas à glória dos altares. Com o auxilio da Graça, todos somos feitos para essa imensa, criteriosa, sábia, mas ousada aventura, na qual ordenamos nossa alma para Deus, a purificamos e embelezamos, dispondo-a à bem-aventurança eterna, à corte celestial onde um assento nos está reservado.4

Diante de tão alto chamado, quais são as nossas disposições de alma? Estamos dispostos a abandonar o pecado e abraçar as vias da virtude rumo à santidade? Ou será que, diante da assembleia dos justos que nos deseja e aguarda, somos indiferentes e nos esquivamos? Se temos boas disposições, agradeçamos a Deus que no-las concedeu e peçamos perseverança em nossos bons propósitos; se nos sentimos fracos e débeis ante tão grande batalha, roguemos aos santos do Céu que nos concedam sua força e coragem, proteção e auxílio.

Entretanto, seja qual for nossa disposição ou vocação, o caminho é o mesmo: o amor. “Amai a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo”, recomendava insistentemente Nosso Senhor Jesus Cristo em suas pregações. E também São João da Cruz ensinava: “No entardecer desta vida, sereis julgados segundo o amor”.5 O amor nos faz grandes aos olhos de Deus, e somente por amor somos capazes de abandonar nossos vícios e realizar os sacrifícios, grandes ou pequenos, que a santidade exige.

Que, nesta Festa de todos os Santos, a Santíssima Virgem e todos os bem-aventurados nos alcancem de Deus o amor mais puro e ardente que a natureza humana possa ter em relação a Ele, e, consequentemente, a santidade plena, pois “é na esperança de podermos viver, de batalhar pela nossa santificação e de morrer na paz de Deus, confiantes em Nossa Senhora, agradecendo a Ela porque nos obteve graças para nos tornarmos outros heróis na Fé e príncipes do Céu, que devemos atravessar nossos dias nesta terra de exílio”.6

1 EDITORIAL. Todos são chamados à santidade. Dr. Plinio. São Paulo, ano 7, n. 80, nov. 2004, p. 4.
2 Cf. Bernardo, Santo. Dos Sermões. In: LITURGIA das Horas: Segundo o rito romano. Tradução para o Brasil da segunda edição típica. São Paulo: Ave-Maria, 2000, v. 4, p. 1421.
3 Loc. cit.
4 Cf. CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Santidade, o ideal de todo homem. Dr. Plinio, São Paulo, ano 6, n. 44, nov. 2001, p. 8-10.
5 JOÃO DA CRUZ, Santo apud CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Op. cit., p. 10.
6 Loc. cit.

O senso do ser

Ir. Juliane Vasconcelos Almeida Campos, EP

A ideia fundamental que é ponto de partida para todas as outras ideias de um ser inteligente é que ele existe. Seria impossível ao homem conceber qualquer ideia se não tivesse o apoio da ideia de que algo é, pois, ignorando o que é o ser, não saberia que algo é. Ser e essência ― o quid, o que a coisa é ― são, portanto, as duas primeiras concepções do intelecto, pressupostos de todas as demais ideias. O homem é, portanto, a única criatura entre as materiais ― racional e espiritual ― que, além de existir, sabe que existe, por possuir uma intuição, uma noção que é anterior até mesmo a este elementar conhecimento intelectual de si mesmo. Segundo o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, “de fato há algo anterior: a matéria-prima para a noção de ser é inata.1 Ela se desperta no contato com a realidade. É um conhecimento germinativo primeiro, é o conhecimento que o ser tem de que ele é. E algo, que não é ele, é também. Tem a capacidade de refletir: ele se conhece e conhece a coisa, e refletindo desenvolve o primeiro conhecimento”.2 Esta noção é chamada de senso do ser. Este não exige nem mesmo o pleno uso da razão ― funciona como um hábito existencial ―, e só a partir dele será possível chegar a todos os outros conhecimentos.

Assim, quando a criança está ainda no berço, com suas primeiras percepções, investigando o que existe, com um olhar perscrutador, está no alvorecer do seu senso do ser posto já em movimento, conhecendo. Tal noção de ser é sumamente substanciosa para o homem, como alimento próprio à sua inteligência, pois é o que lhe permite conhecer todas as coisas, garantindo-lhe a sanidade mental, uma vez que se não fossem verdadeiras e reais suas apreensões, ele não poderia fazer o uso reto de sua razão. O mesmo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira chega a afirmar:

No espírito humano as regras da lógica são subconscientes. A lógica não faz senão explicitar essas regras. Um homem que não tivesse essas regras invisceradas, como coisas conaturais a seu espírito, seria louco. Um espírito pode ser extremamente primitivo e, ao mesmo tempo, inteiramente lógico. No subconsciente humano cabem tesouros de filosofia, de conhecimento, que, embora implicitamente, são condições para a sanidade mental.3

Esses estímulos iniciais e espontâneos do ser humano, enquanto racional, lhe dão segurança na busca dos objetivos aos quais foi destinado. Por exemplo, se forem dadas algumas bolinhas de cores diferentes a um bebê, para brincar, ele vai escolher a que mais lhe agrada; depois escolherá outra e assim sucessivamente. É a busca instintiva do verdadeiro, do bem e do belo que o levará a escolher uma das bolinhas como a principal, que para ele será a melhor e mais bonita. São os reflexos que antecedem a capacidade de julgar conforme princípios claros e estabelecidos.4 E a criança sabe que a bola não é ela e que uma bola não é a outra. Tem inatos os princípios de identidade e contradição: “o que é, é; o que não é, não é” e “o que é, não é o que não é”.5

Tal conhecimento já começa a manifestar-se quando o bebê abre seus olhos para a luz, distinguindo seu ser do de sua mãe; percebendo que o chocalho é real e verdadeiro, pois escuta seu barulho, que o leite é branco e lhe satisfaz a sensação de fome, sendo por isso bom, que a luz e as cores são atraentes e belas, entretendo-o e fazendo com que ele queira conhecer e aprender mais e mais. Tem ele uma intuição de que sempre há algo mais para conhecer, para além daquela realidade que vê e apreende experimentalmente, ainda sem compreender conceitualmente qualquer expressão abstrata e formal. Em nenhuma época se aprende tanto como quando se é criança, e esta não dissocia o entreter-se do compreender. “Neste nosso mundo de seres ao qual ela acaba de aportar, o ser do homem desabrocha e exclama por consonância com a verdade, bondade e beleza dos seres que observa”.6

Sem saber ainda nenhum conceito metafísico, está a criança ordenadamente conhecendo cada ente em suas propriedades transcendentais ― res, unum, aliquid, verum, bonum, pulchrum ―, seguindo a lógica de seu processo dedutivo, de modo instintivo pelo seu senso do ser. Para o Fr. Garrigou-Lagrange, OP,7 a primeira apreensão intelectual leva precisamente ao ser inteligível das coisas sensíveis. Enquanto a vista alcança o real material, a forma e a cor, a inteligência o alcança como real inteligível. Assim como o ouvido alcança o real como sonoro, e o paladar percebe o mais ou o menos gostoso, a inteligência o capta como real inteligível e verdadeiro. Tem assim, em seu primeiro contato com as coisas, uma primeira noção confusa do ser e do verdadeiro. A partir daí, a inteligência busca o que excede aos sentidos e à imaginação: as razões de ser das coisas, seu porquê, sua causa. Por exemplo: por que um relógio se movimenta, razão que nenhum animal pode perguntar-se.

Deste modo, nossa inteligência, desde o primeiro contato com o real inteligível, compreende que o verdadeiro é o que é, e o juízo verdadeiro é aquele que é conforme com a realidade.

1) O conceito “inato” é empregado neste artigo no sentido de uma percepção intuitiva inerente ao próprio ser humano ― mesmo não tendo ainda ideias concebidas ―, supondo o pleno desenvolvimento do uso da razão para sua perfeita intelecção. De modo que, se falta a um indivíduo a sanidade mental, ser-lhe-á inteiramente impossível tomar consciência desta intuição, que se desperta no contato com as realidades e circunstâncias exteriores.
2) CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. O alvorecer do senso do ser. São Paulo, 4 maio 1988. Palestra. (Arquivo IFAT).
3) Id. Considerações sobre o processo humano. São Paulo, 1973. Conferência. (Arquivo IFAT).
4) Cf. CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Os dois filhos da parábola, e os dois outros. Arautos do Evangelho, São Paulo, ano 4, n. 45, set. 2005, p. 7-8.
5) Para mais detalhes, ver: GARRIGOU-LAGRANGE, Réginald. El sentido común: la filosofía del ser y las fórmulas dogmáticas. Buenos Aires: Desclée de Brouwer, 1945, p. 148-149.
6) CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O primeiro olhar da inteligência. Lumen Veritatis, São Paulo, ano 3, n. 12, jul./set. 2010, p. 14.
7) Cf. GARRIGOU-LAGRANGE. Op. cit. p. 330-332.

Lumen Veritatis – Vol. 6 – Nº 22 – Janeiro a Março – 2013

Entre Deus e os homens…

Irmã Mariana Morazzani Arráiz, EP

Criado para as alegrias do eterno convívio com Deus, o homem procura naturalmente o infinito, o bem íntegro, a verdade absoluta. Esta aspiração, infundida em seu próprio ser a fim de facilitar as relações entre ele e o Criador, nem os piores crimes ou os fugazes e enganosos prazeres desta vida conseguem apagar. Numa palavra, a paz e a felicidade autênticas só podem ser encontradas em Deus. O grande Santo Agostinho descreveu tal anelo da alma humana, em célebre e poética frase: “porque nos fizeste para Ti, inquieto está o nosso coração enquanto em Ti não repousar”. 1

“O homem se transformou em criminoso”

Todavia, se o pecado original e a expulsão do Paraíso não fizeram desaparecer esta sede de infinito, o homem começou a experimentar as terríveis consequências de sua desobediência: apreensões, incerteza, dor, sofrimento, tendência a praticar o mal, desamparo em uma Terra sobre a qual não tinha mais o domínio, e na qual a sua natureza sentia-se apequenada e ameaçada pela justa cólera de um Deus ofendido. “De filho de Deus, o homem se transformou em criminoso. Extinguiu-se nele a vida sobrenatural. Passou a ser um condenado à morte e à perda do Céu, um ser débil, enfermiço, fatigado, devastado interiormente por problemas e lutas cruciantes”. 2 Continue lendo

O que importa é glorificar

Ir Ariane da Silva Santos, EP

“Não a nós, ó Senhor, não a nós, ao vosso nome, porém, toda a glória” (Sl 113, 9), canta o Salmista, sintetizando, em poucas palavras, o desejo que anima o coração dos justos. Nenhum outro sinal é tão revelador da santidade de alguém quanto esse infatigável anseio de direcionar a Deus os louvores recebidos, e de procurar a máxima glória d’Ele em todas as coisas.

Com efeito, se até mesmo os seres inanimados glorificam a Deus pelo fato de existirem — “os céus publicam a glória de Deus, e o firmamento anuncia a obra das suas mãos” (Sl 18, 3) — muito mais deveriam glorificá-lo os homens, criados à sua imagem e semelhança, e “realmente filhos de Deus e co-herdeiros com Cristo” (Rm 8, 17) pelo Batismo ! Contudo, enquanto as outras criaturas invariavelmente louvam a Deus, os homens nem sempre querem cumprir com essa obrigação, por causa do orgulho. E muitas vezes trocam “a sua glória pela estátua de um touro que come feno”… (Sl 105, 20).

São João Batista é um modelo exímio da prática da restituição, virtude que resume em si a humildade, a gratidão e o desejo de servir a Deus. Sua vida não foi senão um desdobramento de fidelidades, restituindo em grau supremo tudo aquilo que recebeu de Deus, desde o primeiro contato com Ele através da voz de Maria, ainda no claustro materno. Comentam alguns teólogos que, nesse momento, pela excelência arrebatadora da voz de Nossa Senhora, a vida divina foi transmitida a São João Batista. O fato de ele ter saltado no ventre de Santa Isabel significa que lhe foi apagada a mancha do pecado original, como se ele tivesse sido batizado.[1] A partir de então, inúmeras outras graças lhe foram sendo concedidas em função dessa graça primeira, como comenta o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira:

Vê-se que Nossa Senhora comunicou aí, misteriosamente, o espírito d’Ela a São João Batista. E tudo quanto ele fez na vida dele era uma decorrência dessa graça inicial, e que pelos rogos d’Ela foi constantemente intensificada, até chegar ao auge, quando ele morreu. E aí nós podemos ver São João Batista enquanto asceta austero, enquanto pregador do Cordeiro de Deus que viria e, depois, como herói que enfrenta Herodes e morre como mártir sublime de grandeza e de serenidade.1

Foi ele um “um facho ardente de amor a Deus”, que só viveu para a realização de sua missão, tendo somente “Deus diante dos olhos”.2

Não buscava os vestidos preciosos do mundo quem havia desprezado o próprio mundo; nem esperava uma comida opulenta quem pisoteava as delícias do mundo. Que necessidade tinha dos preciosos trajes do mundo a quem estava revestido com a veste da justiça? Que alimentos delicados da terra poderia desejar quem se banqueteava com as palavras divinas, aquele para quem o verdadeiro alimento era a lei de Cristo?3

E, de correspondência em correspondência, de entrega em entrega, quis diminuir para que crescesse a glória d’Aquele a quem os céus e a terra não puderam conter.

Com toda certeza, São João Batista diminuiu em vida, mas cresceu para a eternidade e para todas as eras vindouras, tornando-se o arquétipo de humildade cuja luz brilha diante dos homens e os leva a glorificar a Deus! (cf. Mt 5, 16)

Aprendamos com ele a estar constantemente indicando aos outros a verdadeira Luz, para, no final de nossa vida, proclamarmos com todas as fimbrias de nossa alma:

Eu sou vosso, Senhor, nem devo pertencer senão a Vós; a minha alma é vossa, e não deve viver senão para Vós; a minha vontade é vossa, e não deve amar a ninguém senão por vosso amor; o meu amor é vosso, e não deve visar senão a Vós. Devo amar-vos como meu primeiro princípio, porque vim de Vós; devo amar-vos como meu fim supremo e meu repouso, porque fui criado para Vós; devo amar-vos mais do que ao meu ser, porque este ser subsiste por Vós; devo amar-vos mais do que a mim próprio, porque vos pertenço e resido em Vós.4

1 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Conferência. São Paulo, 11 set. 1967. (Arquivo IFTE).
2 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Conferência. São Paulo, 17 nov. 1972.
3 CROMACIO DE AQUILEYA. Comentarios al Evangelio de San Mateo, apud LA BIBLIA COMENTADA POR LOS PADRES DE LA IGLESIA. Madrid: Ciudad Nueva, 2004, p. 84: “No buscaba los vestidos preciosos del mundo quien había despreciado el mismo mundo; ni aguardaba una comida opulenta quien pisoteaba las delicias del mundo?¿Que necesidad tenía de los preciosos trajes del mundo quien estaba ataviado con la vestidura de la justicia? ¿O que alimentos delicados de la tierra podía desear quien se apacentaba con las palabras divinas, aquel para quien el verdadero alimento era la ley de Cristo?” (Tradução da autora)
4 SÃO FRANCISCO DE SALES. Tratado do amor de Deus. 3 ed. Porto: Apostolado da Imprensa, 1958.

Bem-aventurados os que choram

Ir. Letícia Gonçalves de Sousa, EP

Ao longo da história, Deus quis revelar e consignar nas Sagradas Escrituras não só sua divindade, mas também o modo de como devemos buscar a santidade; quer seja pela inocência, quer seja pela penitência.

Antes do pecado original, reinou a via da inocência. Adão e Eva, no paraíso, estando na graça primeva em que Deus os tinha criado, “ eram inocentes e tinham em si, em gérmen e raiz, todas as qualidades que o gênero humano possuiria, até o fim. Eles eram, portanto, inteligentíssimos, inocentíssimos, retíssimos, ‘pulquérrimos’, distintíssimos, nobilíssimos, autoritários, amenos e gentis”. 1 Todavia, neste paraíso de inocência, não passando pela prova permitida pelo Altíssimo e caindo no pecado, o homem perdeu o estado de graça: o paraíso da alma. Começou, assim, uma vida de contradição, de luta e de sofrimento. O homem percebeu que já não governava mais a si mesmo. A vida terrena, para a grande maioria dos homens, passou a ser uma via de penitência.

Na lei antiga, ainda sem a existência da graça cristã, podemos notar facilmente a presença de uma educação divina. Por exemplo, nos Salmos, um dos livros sapienciais e poéticos do Antigo Testamento, encontram-se os salmos penitenciais que são “um canto a Deus, no qual o autor exprime a sua penitência. E a penitência pressupõe que ele pecou; que, depois de ter pecado, se arrependeu; e que, uma vez vitorioso nele esse sentimento de arrependimento, ele reflete sobre a falta cometida”. 2 Este será o ponto no qual nos deteremos, visando a via da penitência.

O rei Davi, o escolhido do Senhor, um homem segundo o seu coração, inocente e guiado pelo Espírito, seguia a voz onipotente de Deus. Sob a ação da graça, fazia grandes prodígios. Contudo, há horas na vida de um homem em que ele deve fazer esforço, lutar para retribuir a Deus, com a glória de um combatente, as benevolências dadas por seu Criador.

Nesse momento, Davi prevaricou. Caiu nos pecados de adultério e assassinato. Mas “o Senhor pune o filho a quem muito estima” (Pr 3, 12) Tendo sido repreendido, Davi se arrependeu, bateu no peito, chorou seus pecados e ,como pedido de perdão, compôs os salmos penitencias.

“Bem- aventurados os que choram porque serão consolados” (Mt 5, 4). Há uma consonância entre os salmos penitenciais e as bem- aventuranças que é o elemento para a contrição perfeita: a santa tristeza e o arrependimento das faltas cometidas por amor perfeito a Deus e uma confiança na Providência Divina.

O salmista sentiu o peso de seu pecado porque a consciência o revelou. Dirigiu-se a Deus com um grito de pedido de auxílio ‘tende misericórdia de mim’ (Cf. Sl 50, 3), apoiando-se não em sua inocência, senão na bondade e na imensa misericórdia de Deus […] E o pedido do salmista vai mais além de um simples pedido de perdão; suplica que Deus não o castigue pelo pecado. Roga a Deus que, mediante um ato de criação, o renove no mais íntimo do seu ser de forma que possa permanecer na presença de Deus e gozar da vida que Ele possui e concede.3

“Minhas culpas se elevaram acima de minha cabeça, como pesado fardo me oprimem em demasia.” (Sl 37, 5). Este canto a Deus é categórico, exprime com energia o mal que há no pecado e o arrependimento intenso mostra a autêntica contrição. “Lavai-me todo inteiro do pecado e apagai completamente a minha culpa”. (Cf. Sl 50, 4). O verbo apagar nos recorda a função de um apagador utilizado para eliminar o que se está escrito num quadro-negro. Nele pode estar o exame de acusações contra o pecador, contudo, se alguém passar o apagador, o giz se desfaz em pó. Assim Deus age com quem se arrepende. Pecou, mas se o Altíssimo ‘passar o apagador’, sua alma ficará límpida como se não tivesse pecado4.

“Criai em mim um coração que seja puro, dai-me de novo o espírito decidido. Não me afasteis de Vossa face, nem retireis de mim o vosso Santo Espírito” (Cf. Sl 50,12) Estas palavras do salmista nos remonta com exatidão àquelas proferidas pelo Divino Mestre no Sermão da Montanha: “Bem- aventurados os puros de coração, porque verão a Deus”(Mt 5, 8).

Entretanto, aquele que, pela falta cometida, tornou seu coração um abismo sem fundo de maldade, não é digno de contemplar o mar infinito da perfeição. “Se do inferno se pudesse tirar o pecado, o inferno não seria mais inferno; e, caso, no Paraíso celeste, se pudesse introduzir o pecado, o Paraíso não seria mais Paraíso”. 5 Ora, para ver a Deus e gozar da visão beatífica, é necessário ter um coração puro, um olho límpido, e uma alma de cristal; seja ela virginal pela via de inocência ou como uma preciosa ametista pela via da penitência.

Entra agora tu em ti mesmo, e examina bem o teu coração, talvez oculto não menos aos outros que a ti mesmo, e poderá ser que aches nele todas estas faltas. Nas ocasiões quão facilmente te esqueces das luzes que o Senhor te tem dado para conhecer a vileza dos gostos e dos bens terrenos; e te esqueces disto depois de o teres tantas vezes experimentado, achando sempre os mesmos bens e gostos terrenos e mentirosos! Fazes qualquer obra boa, mas quem sabe se misturas nela algum fim mundano de seres estimado mais que os outros? E o pior é querer um partido do meio, de dar-te, nem todo a Deus, nem todo ao mundo, buscando um caminho que nem seja o largo da perdição, nem o estreito da salvação6.

São Tomás afirma que a culpa é tirada pela contrição, unida ao propósito de se confessar7, como diz o salmista: “Eu irei confessar ao Senhor a minha iniquidade, e perdoastes a pena do meu pecado”. (Sl 31, 5). E convertendo-se, o pecador perde o gosto pelas coisas que o prendia ao mundo, pois não encontra prazer no que antes o deleitava; estas são as épocas na vida espiritual que a alma procura o sobrenatural. “Fizeste-nos para ti, e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em ti”. 8 “Não ando à procura de grandeza nem tenho pretensões ambiciosas” (Sl 130, 1) Os prazeres terrenos perdem seu sabor, “bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos céus” (Mt 5, 3). A alegria passa a estar em alcançar o perdão e, assim, a vida eterna.

“Bem-aventurados os misericordiosos porque alcançaram misericórdia” (Mt 5, 7). O homem perdoado, limpo, reintroduzido no amor de Deus sabe que o Rei celeste almeja a salvação de cada um. Portanto, agradá-Lo-á sendo misericordioso para com os outros como foi o proceder de Deus para consigo.“Ensinarei vosso caminho aos pecadores e para Vós se voltarão os transviados” (Cf. Sl 50, 15).

O Senhor nos tem dado tanto, como poderíamos abusar de tudo isso e ofendê-Lo? Devemos amá-Lo com todas as forças.

Cabe-nos meditar sobre a misericórdia do Divino Rei que ama um coração arrependido e pedir que Ele nos cumule de um espírito novo e puro para que possamos ser uma morada de seu repouso e alcançar a bem-aventurança eterna.

1 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Adão homem dos homens, no qual existia a raiz de todos os homens. Conferência, 10. nov. 1979. (Arquivo do IFTE).
2 Id. Tende piedade de mim ó Deus. In: Dr. Plinio. Sao Paulo: Ano VI, n.63, jun. 2003, p.7.
3 CASCIARO, Jose Maria et al. Sagrada Biblia – Antiguo testamento —Livros poéticos y sapienciales. Pamplona: Faculdade de Teologia universidade de Navarra, 2008, p. 326. (Tradução da autora)
4 Cf. CORRÊA DE OLIVEIRA. Op. cit. p.8.
5 PINAMONTI, S. J; ROSIGNOLI, S. J. Exercícios de Santo Inácio e leituras espirituais. 4. ed. Porto: Apostolado de Imprensa, 1953, p. 56.
6 PINAMONTI; ROSIGNOLI. Op. Cit. p.176.
7 Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. A luz da fé. Lisboa: Verbo, 2002, p.113.
8 SANTO AGOSTINHO. Confissões. São Paulo: Paulus, 1984, p. 15.

Pináculo de pedra, auge de amor

Fahima Spielmann

Pam! Pam! Pam!

— O martelo! — pede alguém.

— Cuidado com as pedras! — avisa outro.

Estamos em meio a uma grande construção. Às tantas, alguém resolve inquirir os operários a respeito do trabalho que realizam.

— O que fazes?

— Como vês, estou quebrando pedras — responde o primeiro.

A mesma pergunta é feita a outro, que diz:

— Trabalho arduamente, levantando estas sólidas paredes de pedra, para ganhar o sustento de minha família.

Por fim, a indagação é dirigida a um terceiro trabalhador:

— E tu, o que fazes?

— Para glória do bom Deus e salvação das almas, estou construindo uma catedral!

Aos olhos dos homens esses três operários realizavam o mesmo trabalho, mas os dois primeiros tinham os olhos da alma voltados para o chão, enquanto o espírito do terceiro apontava para o Céu, como o fariam em breve as pedras que lavrava com esmero para finalizar os pontos mais altos da catedral.

Com efeito, parecendo desafiar a lei da gravidade, os tão característicos pináculos da arquitetura gótica dão-nos a impressão de querer perfurar o firmamento, assemelhando-se à alma que, estando ainda na Terra, vive nas cogitações do Céu. Simbolizam essas agulhas de pedra a oração da Igreja ao Espírito Santo: “Ut mentes nostras ad cælestia desideria erigas! — Dai às nossas mentes o desejo das coisas do alto!”.

Ora, almas há que procuram viver o tempo todo buscando auges, como que “na ponta dos pés”, propondo-se metas ousadas para as quais apenas o Céu é o limite.

Um exemplo dessas almas pinaculares foi Santa Teresinha do Menino Jesus. Tendo ela abandonado tudo para encerrar-se na clausura do Carmelo, sentia-se ainda insatisfeita. “Sinto em mim a vocação de guerreiro, de sacerdote, de Apóstolo, de doutor, e de mártir” — clamava essa alma inocente. “Sinto a necessidade, o desejo de realizar por Ti, Jesus, todas as obras, as mais heroicas… […] Ó Jesus! Meu amor, minha vida!… Como conciliar estes contrastes? Como realizar os desejos de minha pobre alminha?…”. 1

A Doutora da Pequena Via compreendeu que não era impossível alcançar este auge. Bastava um elemento: o amor. Sua vida, que nas exterioridades nada parecia ter de extraordinário, transformou-se em modelo para o mundo. Soube ela colocar nos mínimos atos de sua existência o impulso que inspirava o nosso terceiro trabalhador, o qual sabia que cada martelada, cada parede levantada era, na verdade, um ato de amor a Deus. E se aquele bom homem colaborou para construir uma catedral, Santa Teresinha levou a cabo uma obra incomparavelmente mais grandiosa, a qual ultrapassou a elevação das agulhas de todas as catedrais da Terra.

1SANTA TERESA DE LISIEUX. Manuscrito B. Todas as obras, as mais heroicas. In: Obras Completas. São Paulo: Paulus, 2002, p.171.

Santíssima Virgem: intercessora e medianeira

Ir. Elen Coelho, EP

Chamada desde os primeiros tempos do Cristianismo de “nova Eva”, Maria Santíssima foi sempre considerada, pela piedade católica, Medianeira entre nós e seu Divino Filho; mediação inteiramente subordinada e dependente dos méritos de Cristo.

É evidente que Maria Santíssima não pode ser comparada a Deus por sua natureza e condição de criatura. Mas, apesar de ser pura criatura, Ela supera todas as demais, por todos os privilégios com os quais foi cumulada. Singular entre todas, bem mereceu o título de Medianeira, distribuindo aos homens os dons de Deus, tomando as orações dos homens e apresentando-as a Deus.

Essa intercessão, de si, não seria imprescindível, visto que a de Cristo é perfeita e não necessita ser completada. Porém, ela foi desejada pela Providência, comenta o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira:

“Escolhida para ser a Mãe do Verbo Encarnado, sempre imaculada e cheia de graça, a união que Nossa Senhora tem com Jesus é a mais alta que uma simples criatura humana pode ter com Deus. Em virtude desse vínculo extraordinário, Nosso Senhor nada recusa à sua Mãe, o que faz d’Ela uma intercessora onipotente, junto a Ele”.1

O privilégio universal de todas as graças é outro título de Maria Santíssima que está inteiramente vinculado ao de sua Mediação universal, visto que ambos se completam.

Os Evangelhos contam que, depois de receber a Anunciação do Anjo, Maria dirigiu-se apressadamente à região montanhosa da Judéia, a fim de ajudar sua prima Santa Isabel, que estava para dar à luz. Logo que Maria saudou Isabel, “a criança estremeceu no seu seio; e Isabel ficou cheia do Espírito Santo” (Lc 1, 40). Eis o primeiro fato público em que transparece Maria como Medianeira e Distribuidora de todas as graças: “O eco de sua voz transformou um homem, conferindo- lhe um eminente grau de santidade”. 2

Em outra passagem, São João relata que, Jesus estava juntamente com Maria Santíssima numa festa de casamento e, “como viesse a faltar vinho, a mãe de Jesus disse-lhe: “Eles já não têm vinho”. Respondeu-lhe Jesus: “Mulher, isso compete a nós? Minha hora ainda não chegou”. Disse, então, sua mãe aos serventes: “Fazei o que Ele vos disser”. (Jo 2, 3-5)

Nosso Senhor, que nunca recusa um pedido de sua Mãe, ordenou que lhe trouxessem as talhas com água, e a transformou no mais saboroso vinho que a História já conheceu.

Com efeito, Maria consegue de Seu Filho tudo aquilo que Lhe roga, “pois, Ele a fez soberana do céu e da terra, general de seus exércitos, tesoureira de suas riquezas, dispensadora de suas graças, artífice de suas grandes maravilhas, reparadora do gênero humano, mediadora para os homens, exterminadora dos inimigos de Deus e a fiel companheira de suas grandezas e de seus triunfos”. 3

Estes títulos de Maria – Medianeira e distribuidora de todas as Graças – há séculos vêm sendo afirmados pela Tradição da Igreja. Podemos encontrar já nos primeiros tempos do Cristianismo o testemunho de Santo Efrém: “A ti, portanto, Imaculada e Medianeira do mundo, te dirijo minhas súplicas em minha contrição perfeita”. 4

Durante o período luminar da escolástica, Santo Alberto Magno afirmou ser Maria “a fonte de água inesgotável, pela plenitude de sua mesma graça, pela qual recebe o pecador a absolvição que perdoa; o justo, a pureza da graça; o tentado, o refrigério; e o devoto, a fonte da sabedoria”. 5

Muitos dos pontífices foram unânimes em afirmar a mediação de Maria: Leão XIII, na Encíclica Iucunda Semper, escreve “que, rezando, pedimos a proteção de Maria é o que indubitavelmente tem seu fundamento no ofício de obter-nos a graça divina, ofício que Maria exerce continuamente junto de Deus”. 6

Bento XV instituiu a festa litúrgica de Maria Medianeira de todas as graças para as dioceses e ordens religiosas belgas que lhe pediram; 7 São Pio X diz que, tendo Maria Se associado aos sofrimentos de Cristo, mereceu ser considerada como “a onipotente Medianeira e Reconciliadora de toda a Terra junto de seu Filho único”. 8

E o Concílio Vaticano II afirmou claramente que Maria cuida, com amor materno, dos irmãos de seu Filho que, entre perigos e angústias, caminham ainda na terra, até chegarem à pátria bem-aventurada. Por isso, a Virgem é invocada na Igreja com os títulos de advogada, auxiliadora, socorro, medianeira. Mas isto entende-se de maneira que nada tire nem acrescente à dignidade e eficácia do único mediador, que é Cristo, para com os homens; não obscurece nem diminui a mediação única de Cristo, antes serve para demonstrar seu poder.9

Assim, através de sua maternal intercessão, Nossa Senhora tem favorecido de vários modos aos seus filhos, concedendo-lhes meios eficazes para obterem as graças que necessitam.

1 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Escravidão de amor a Nossa Senhora. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano VI, n.59, fev.2003, p. 9.
2 Id. O poder da voz de Nossa Senhora. Conferência. São Paulo, 2 jul. 1970. (Arquivo IFTE). As matérias extraídas de exposições verbais – designadas neste trabalho, segundo sua índole, como “conferências”, “palestras”, “conversas” ou “homilias” – foram adaptadas para a linguagem escrita.
3 SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, n.28.p.34-35.
4 SANTO EFRÉM, apud ALASTRUEY. Gregorio. Tratado de la Virgem Santissima. Madrid: BAC, 1956, p.634.
5 SANTO ALBERTO MAGNO, apud ALASTRUEY. Op.cit. p.639
6 LEÃO XIII. Iucunda Semper, 8 de dez.1894. apud ROSCHINI, Gabriel. Instruções Marianas. São Paulo: Paulinas, 1960, p.101.
7 ROSCHINI. Instruções Marianas. São Paulo: Paulinas, 1960 p.102.
8 SÃO PIO X. Encíclica Ad Diem Illum, 2 de dez.1854. apud ROSCHINI. Op.cit. p.102.
9 CONCÍLIO VATICANO II. Lumen Gentium, n 62.

O caleidoscópio divino

Ir Maria Teresa Ribeiro Matos, EP

Gira-se, gira-se, gira-se e sempre novas figuras aparecem. Ora uma linda rosácea dourada com matizes vermelhos, ora a moldura é rubra com pequenas florzinhas verdes, ora é a cor azul que sobressai dando uma especial nobreza à figura. A maravilha das cores brincando com a variedade das formas que se contempla num caleidoscópio não podem deixar de refletir, de maneira toda especial, a beleza da História da espiritualidade regida pelo próprio Deus.

Movidos pela graça divina, homens e mulheres, ricos e pobres, nobres e plebeus, jovens e anciãos deram seu contributo particular nessa história do relacionamento de Deus com os homens.

Suscitadas algumas vezes dentre famílias de almas, com as “cores” próprias de sua ordem religiosa, essas pessoas formam, entretanto, no decorrer de suas vidas de santidade, “figuras” singulares e especiais.

Vemos já no início da Igreja surgir, de dentro do colégio Apostólico, uma alma fogosa e contrita como a de São Pedro, ao lado de outra, contemplativa e altamente teológica, como a do discípulo amado.

Ou então, poderíamos admirar,no decorrer do quarto século, a intrepidez e a audácia de um Santo Atanásio combatendo, ainda enquanto diácono, a heresia ariana, apoiado pelo venerável anacoreta, Santo Antão que levava uma vida austera embebida de altas graças místicas.

Não passaria inadvertida aos nossos olhos a figura de um ex maniqueu que a Bondade Divina transformou nos maiores luminares da Igreja: Agostinho, bispo de Hipona.

Como esquecer as figuras tão luminosas, mas tão distintas dos fundadores, que penetraram seus discípulos e suas obras com carismas e “cores” peculiares? Em Subiaco, vemos o monge Bento de Núrsia, primando pelo trabalho e pela contemplação, “ora et labora”, e dando origem a uma família de almas da qual sairia todo o esplendor da Idade Média. Séculos depois, em Toulouse, um santo pregador, contra a heresia cátara, funda a ordem dos pregadores que seria a ponta de lança de todas as argumentações e pensamento doutrinário da Santa Igreja. Contemporâneo a ele, o “poverello” de Assis reúne os amantes da pobreza, e, pelo exemplo, arrasta reis e nobres pela via da austeridade e penitência.

Não seria demasiado lembrar a grande Teresa de Ávila, que aconselhando suas filhas a serem varões , reforma o Carmelo e lhe dá a verdadeira figura. Ou, o nobre herdeiro da casa de Loyola que renuncia seus títulos para seguir uma vida religiosa militante, recrutando as melhores vocações e formando a Companhia de Jesus para a maior glória de Deus.

Todas essas maravilhas e outras incontáveis, promoveu Deus ao longo da História como fruto do preciosíssimo Sangue de Seu Filho. A plenitude dos efeitos desse Sangue, porém, não se fizeram sentir ainda na História. Que feeria não aparecerá, que novas figuras não surgirão no “caleidoscópio divino” quando o Divino Artífice fizer sentir nas almas e na História a plenitude do relacionamento com ele, fruto do efeito total do sacrifício de Cristo? Qui vivra,vera.

Abade, pai e mestre no século XX

Irmã Carmela Werner Ferreira, EP

Beato Columba Marmion

O peregrino que se proponha conhecer as origens cristãs do Velho Continente não pode deixar de visitar a gruta de Subiaco, local escolhido pelo jovem Bento de Núrsia para consumar sua entrega a Deus, abandonando a vida de estudos que até então levava na Roma dos retóricos e literatos. E os que hoje trilham seus passos sentem uma forte atração pelo local, marcado misteriosamente pela presença do santo Patriarca e Patrono da Europa.

Enquanto se sobe pelos íngremes caminhos que conduzem ao mosteiro — exercício desde logo recompensado pelo belíssimo panorama —, o visitante pode discernir, se não através de voz humana, certamente pela da graça, aquele chamado do varão de Deus que atraiu legiões de almas à vida monástica: “Escuta, filho meu, os preceitos do mestre, e inclina o ouvido do teu coração. Recebe de bom grado o conselho de um bom pai, e cumpre-o eficazmente, para que, pelo trabalho da obediência, voltes Àquele de Quem te havias afastado”. 1

Ao atento observador não passarão despercebidas algumas árvores que adornam o caminho, as quais bem simbolizam a história desta instituição. São vegetais de inacreditável robustez, cujas raízes se embrenharam pelo solo pedregoso e lograram subsistir em condições desfavoráveis. Enfrentaram os ventos das intempéries e os da História, mantendo-se eretas apesar das adversidades, e ostentando uma vitalidade que desperta surpresa e admiração.

Assim é a Ordem Beneditina. Nascida da vocação de São Bento, conta ela hoje quase 1.500 anos de existência. Atravessou todas as catástrofes, venceu as rudezas das guerras e as deficiências dos homens, e olha sobranceira para um passado que lhe valeu uma legião de filhos canonizados e dezesseis Papas saídos do silêncio de seus claustros. Dezesseis também foram os sucessores de São Pedro que se colocaram sob a proteção deste santo fundador — curiosamente, nenhum deles foi beneditino —, entre os quais nosso atual Romano Pontífice, Bento XVI.

Se a Europa cristã deve, em larga medida, a esta Ordem seu itinerário de conversão e civilização, também o século XX, palco de acontecimentos que mudaram os rumos da humanidade, recebeu a ação benéfica dela emanada, por meio de uma figura talvez pouco conhecida: o Beato Columba Marmion.

O menino vestido de negro

Nasceu ele em Dublin, Irlanda, a 1 de abril de 1858, no seio de uma família de sólida formação católica. Sendo de frágil compleição, seus pais, William Marmion e Herminie Cordier, se apressaram em conduzilo à fonte batismal, dando-lhe o nome de José.

Criança de privilegiada inteligência e equilíbrio temperamental, parecia externar sob todos os aspectos uma vocação sacerdotal, embora não dispensasse os entretenimentos próprios à idade. Observando estes sinais, os pais tomaram uma singular decisão: vesti-lo sempre de negro, prevendo o hábito eclesiástico que um dia haveria de tomar.

Explicaram-lhe que procediam assim porque seria sacerdote. Mas o menino pareceu não se importar muito com isso. Estava mais interessado em escalar árvores e capturar borboletas. Enquanto os irmãozinhos trajavam alegres e coloridas vestimentas, segundo o gosto irlandês, José se distinguia por sua escura roupagem que, de fato, um dia trocaria pela batina.

Sacerdote aos 23 anos

Dentre os seis filhos daquele lar cristão, quatro foram agraciados pela vocação religiosa. Três irmãs de José seguiram a vida consagrada e ele próprio, após realizar com êxito promissor os primeiros estudos, ingressou no seminário diocesano de Dublin.

Junto aos oitenta jovens que ali almejavam o estado de perfeição, Marmion iniciou uma trajetória luminosa, assinalada desde os primórdios por uma avidez teológica e ardente piedade, o que faria um colega seminarista testemunhar: “Ele era um jovem santo e cheio de ideias”. 2

O aproveitamento nos estudos fez seus superiores depositarem nele as melhores esperanças. Enviaram-no a Roma, onde estudou no Pontifício Colégio Irlandês e, em seguida, no Propaganda Fide. Neste último, distinguiu-se em todas as matérias, e sob a égide do futuro Cardeal Francesco Satolli tornou-se um tomista de escol. Os ensinamentos do Doutor Angélico beneficiaram decisivamente sua vida espiritual, pois dele aprendeu a nunca dissociar da vida de santidade o conhecimento doutrinário, tal como ensinaria mais tarde a seus monges:

“Um raio de luz do alto é mais eficaz do que todos os raciocínios humanos”. 3

Esse progresso fê-lo caminhar a passos rápidos para a ordenação. Em 16 de abril de 1881 recebeu o diaconato, e a 16 de junho do mesmo ano foi ordenado sacerdote na igreja romana de Santa Ágata dos Godos. Contava, na ocasião, 23 anos.

A pedido de seu Bispo, logo retornou para a Irlanda levando na alma mil propósitos salutares, algumas incógnitas, e um antigo sonho: ser missionário na Austrália.

Sua alma permanecia insatisfeita

De volta à pátria, padre Marmion foi designado pároco no vilarejo de Dundrum, ofício ao qual se entregou de corpo e alma. Por pouco tempo, porém, pois ao cabo de um ano, foi chamado pelo Bispo de Dublin para lecionar no Seminário maior de Clonliffe.

Nesses primeiros tempos de sacerdócio sua alma, contudo, permanecia insatisfeita. Encontrava-se como acéfalo em seu percurso espiritual. Sentia precisar de um mestre que o guiasse para a Pátria celeste. Uma pergunta rodava em seus pensamentos: não estaria chamado à vida religiosa, ao invés de integrar o clero secular? E a continua lembrança de um encontro que o marcara a fundo acabaria por pesar, em definitivo, neste caudal de incertezas, conduzindo-o para o claustro.

Encontro com o carisma beneditino

Tal encontro dera-se no mês de julho de 1881, quando o jovem presbítero retornava de Roma com o coração ainda acalentado pelas graças da ordenação. A fim de visitar um amigo do seminário que se fizera beneditino em Maredsous, na Bélgica, alterou o percurso de volta e, na noite do dia 23, apresentou-se nessa abadia, onde o irmão porteiro o recebeu com a hospitalidade característica da Ordem.

A abadia de Maredsous constitui, por si só, um espetáculo consolador para qualquer católico. Quando o padre Marmion a conheceu, nela viviam 130 monges, segundo o mais puro espírito da fundação. A igreja, centro da vida comunitária, ergue-se no alto de uma montanha, em grandioso estilo neogótico, parecendo simbolizar, ela mesma, o voto de estabilidade feito pelos membros da Ordem.

Emoldurado por árvores — que quase ousaríamos qualificar como “disciplinadas” e “monacais” —, o templo sagrado se desdobra num conjunto arquitetônico imponente, no qual transparece um equilíbrio perfeito entre o rigor e a suavidade, a seriedade e o sorriso.

Ali se desenvolviam as múltiplas atividades dos monges: o trabalho manual, a administração de duas escolas para meninos e jovens, o cultivo da horta, o labor intelectual e literário, o esmero pelo canto gregoriano e, sobretudo, uma impecável Liturgia, expressão mais elevada do ideal beneditino.

Foi por acaso que padre Marmion chegou a Maredsous. Mas no silêncio reinante no interior daquelas paredes de pedra encontrou o que até então buscara com afã. E se quase quinze séculos o separavam da morte de São Bento, a figura do fundador da Ordem permanecia tão viva ali, que o jovem sacerdote tinha a impressão de tê-lo acabado de cumprimentar nesse momento.

Voltou para Dublin cativado por aquela atmosfera monástica, com as palavras do Abade Plácido Wolter latejando em sua consciência: “Tens uma vocação beneditina muito maior que a de teu amigo”. 4

Noviciado e vida de recolhimento

Seguindo o conselho do seu Bispo, esperou algum tempo antes de tomar uma decisão. Mas transcorridos cinco anos de ministério em sua cidade natal, padre Marmion não mais se questionava sobre a autenticidade de seu chamado para a vida religiosa. Havia decidido ouvi-lo.

Após obter as licenças necessárias, chegou a Maredsous no mês de novembro de 1886, desta vez para ficar. Durante o noviciado, precisou mudar de costumes, cultura e língua, o que não foi fácil, mas em meio a tais lutas confessou: “Estou convencido de estar no lugar onde Deus me quer. Encontrei grande paz, e sinto-me extremamente feliz”. 5 Escolheu o nome de Columba, evocando o santo missionário irlandês do período merovíngio, e pôs-se a praticar as palavras da Regra: “Escuta, filho meu, os preceitos do mestre, e inclina o ouvido do teu coração”.

A almejada profissão se deu em 1891, após a qual os superiores pensaram em enviá-lo ao Brasil. Por fim, acabaram encaminhando-o para Lovaina, onde a Abadia de Maredsous pretendia fundar um novo mosteiro.

O período decorrido desde seu noviciado até o fim da permanência em Lovaina constituiu o cerne de sua vida de recolhimento. Oculto, submisso e modesto, Frei Columba transformou-se num contemplativo. Buscava Cristo e Sua Mãe a todo momento, compreendendo ser no silêncio que Eles Se deixam encontrar: “Se nossa alma se fechar aos rumores da Terra, ao tumultuar das paixões e dos sentidos, o Verbo Encarnado tomará pouco a pouco posse dela; far-nos-á compreender que as mais profundas alegrias são aquelas que encontramos no seu serviço”. 6

Mais do que nunca, via a santidade como um dom de Deus, esmola divina que homem algum jamais merecerá: “Nossa vida sobrenatural oscila entre estes dois polos: de um lado, devemos ter a convicção íntima de nossa incapacidade de atingir a perfeição sem o auxílio de Deus; de outro, devemos estar possuídos da inabalável esperança de tudo encontrarmos na graça de Jesus Cristo”. 7

Qual dócil menino, ele se deixava plasmar pelas mãos de seus superiores, um dos quais registrará: “Nunca vi um religioso mais obediente”. 8 A paz e a serenidade lhe foram dadas em recompensa pelos sofrimentos heroicamente suportados, levando-o a dizer: “Agora que fiz todos os sacrifícios, Nosso Senhor devolveu-me, pelo caminho da obediência, tudo quanto por Ele eu havia abandonado”. 9

Exímio pregador de retiros, Frei Columba era solicitado por conventos e comunidades, nos quais sua presença não se apagava de nenhuma memória. Era instrumento de conversões, suscitava vocações, ensinava através da própria conduta.

Alma ornada pela virtude da sabedoria

Teve, porém, de voltar para Maredsous. O mesmo claustro que o recebera como noviço, aos 27 anos de idade, viu-o retornar de Lovaina aos 51, pronto para exercer a mais alta missão que o Senhor lhe haveria de destinar.

Dom Hildebrando de Hemptinne, que vinha governando Maredsous por muitos anos, fora designado pelo Papa primeiro Primaz da Confederação Beneditina e, devido às suas frequentes permanências em Roma, tornou-se necessário escolher outro abade para o mosteiro. O Capítulo elegeu, por grande maioria, Marmion, precisamente por encontrar nele o perfil do autêntico beneditino. “Eu obedeço e aceito a vontade de Deus”, disse no dia da eleição, em outubro de 1909.

Enquanto abade, Dom Columba foi, antes de tudo, um mestre espiritual, conhecedor das vias por onde as almas devem ser conduzidas. Suas conferências semanais para a comunidade suscitavam o entusiasmo dos monges. Um deles, não se conformando em ver aquelas maravilhas confinadas na sala capitular, tomou a iniciativa de anotá-las e torná-las públicas. Assim se originou a trilogia: Cristo, vida da alma (1917), Cristo em seus mistérios (1919), e Cristo, ideal do monge (1922), três obras que são expressões fidedignas do espírito cristocêntrico do autor. O Papa Bento XV que fazia uso pessoal de Cristo, vida da alma, chegou a recomendá-lo a um Bispo nestes termos: “Leia isto. É a doutrina da Igreja”. 10

Dom Marmion teve de enfrentar questões espinhosas no exercício de seu cargo, e tornou patente aos olhos dos monges de Maredsous que a virtude da sabedoria, tema frequente de suas prédicas, era um ornato de sua própria alma. Atuou como homem-chave nas negociações que trouxeram ao seio da Igreja um convento anglicano; foi solicitado a fundar uma abadia no Congo; por manifesto desejo do Papa, enviou monges para cuidar da Abadia da Dormição, em Jerusalém. Corolário de suas atividades foi a fundação da Congregação Belga da Anunciação, nova jurisdição da Ordem, sediada em Maredsous.

Mostrou assim não estarem as qualidades diplomáticas, administrativas e psicológicas em choque com o espírito de contemplação. Pelo contrário, uma vida interior bem levada conduz a resolver com o maior acerto as questões temporais que a Providência puser no nosso caminho.

O Abade Marmion amava seus filhos espirituais e era estimado por eles. Sob seus cuidados e vigilância, Maredsous progrediu a olhos vistos, parecendo espelhar a vida que os bem-aventurados gozam no Céu. O Senhor lhe deu uma comunidade louvável, na qual as virtudes e dotes naturais se traduziam em obras de excelência e perfeição.

E quando o horizonte ameno da Abadia se obscureceu pelos estertores da Primeira Guerra Mundial, os monges puderam comprovar a veracidade da palavra do Evangelho: “O bom pastor dá a vida por suas ovelhas” (Jo 10, 11).

Despendendo as últimas energias

Embora preservados dos bombardeios de tropas inimigas, os habitantes de Maredsous sofreram quase tanto quanto se a abadia tivesse sido destruída. A cada instante, esperava-se um desenlace trágico que viesse reduzi-la a pó, ocasionando uma apreensão não pequena nos monges. A fome e toda sorte de privações rondavam a comunidade, que abriu suas portas para os feridos e desabrigados.

Vivendo na quadra mais dramática de sua existência, o Abade Columba lutava por salvar a formação dos noviços, levando-os para o exílio. Esta decisão lhe causou incontáveis dissabores e, para completar as amarguras que o contristaram, via seus monges serem arrancados da vida monástica para servir o exército, expostos a todos os perigos de corpo e de espírito.

Em 1918, quando a Guerra terminou, restavam-lhe os últimos cinco anos de vida, e ele os empregou totalmente na restauração da disciplina em Maredsous, despendendo nesse último esforço as poucas energias que ainda lhe restavam. Na tarde de 30 de janeiro de 1923, vítima de uma epidemia de gripe que assolava a Bélgica, ele rendeu sua alma ao Criador.

Alquebrado por uma existência empregada no serviço de Deus, Dom Columba Marmion abandonava-se, uma vez mais, naquele supremo momento, aos desígnios de Jesus Crucificado, que ele viera buscar e encontrara no claustro. Seus filhos espirituais, recebendo de suas mãos, agora trêmulas, a tocha da caridade, tinham consciência de que aquele pai e mestre lhes transmitia e deixava como herança a realização das palavras com as quais São Bento concluiu seus ensinamentos: “Tu, pois, quem quer que sejas, que te apressas rumo à Pátria celeste, cumpre, com o auxílio de Cristo, esta Regra, e então chegarás por fim, com a proteção de Deus, aos maiores cumes da doutrina e das virtudes”. 11

1Regra de São Bento, Prólogo, n. 1-2.
2TIERNEY, OSB, Mark. Blessed Columba Marmion: a short biography. Dublin: The Columba, 2000, p. 22.
3MARMION, OSB, Beato Columba. Jesus Cristo nos seus mistérios: conferências espirituais. 2. ed. Singeverga: Ora et Labora, 1951, p. 452.
4TIERNEY, OSB. Op. cit., p. 23.
5Idem, p. 35.
6MARMION, OSB. Op. cit., p. 289.
7Idem, p. 469.
8TIERNEY, OSB. Op. cit., p. 45.
9Idem, ibidem.
10Apud GARRIDO BONAÑO, OSB, Manuel. Beato Columba Marmion. In: Nuevo Año Cristiano: Enero. 4. ed. José Antonio Martínez Puche, OP (Org.). Madrid: Edibesa, 2003, p. 618.
11Regra de São Bento, c. 73, n. 8-9.

Abadia de Maredsous – Namur (Bélgica)
Beato Columba Marmion, abade , Abadia de Maredsous – Namur Bélgica, beneditino, Dublim, Irlanda, Mons João S Clá Dias, Arautos do Evangelho sector feminino, serra da Cantareira, Irmãs Regina Virginum, Formação académica Arautos, IFTE