O que nos torna íntimos aos santos?

Joice Silvino Santos

Ao se aproximarem do presbitério da Basílica Nossa Senhora do Rosário, os fiéis se deparam com várias relíquias de santos postas sob a mesa do altar.

Mas, se perguntássemos ao leitor por que damos culto às relíquias, a resposta seria convincente e segura? Caso não fosse, não se sinta constrangido, pois dá-la-emos agora.

A palavra relíquia vem do latim, provavelmente de relíquus (restante) ou relinquere (deixar). Portanto, “relíquia” designa aquilo que restou dos santos ou as coisas que por ele foram deixadas.

Como todos sabem, existem dois tipos de relíquias: as diretas e as indiretas. As diretas são alguma parte da carne, dos ossos ou das cinzas. As relíquias indiretas são algo que por eles foi tocado. Alguém poderia se perguntar: “Nossa! Existe uma quantidade imensa de relíquias indiretas, como um santo pôde ter tocado em tantos objetos?” Na verdade, nem todas as relíquias indiretas foram tocadas pelos santos, pois algumas foram simplesmente encostadas em suas relíquias diretas.

Quando uma pessoa toca em alguma coisa, algo dela passa para o objeto que foi tocado. Tomemos como exemplo o recipiente em que foram lavadas as mãos de Pilatos. Se alguém lhe desse de presente, o leitor aceitaria? Provavelmente não, pois, alguma coisa do ato infame de Pilatos passou para o objeto. Algo análogo acontece com as relíquias indiretas.

Já as relíquias diretas, como um pedaço de carne ou de osso são parte de uma pessoa que se encontra no Céu. Desse modo, quando o santo ressuscitar, aquele fragmento se unirá ao seu corpo e passará para o estado glorioso. Assim, a relíquia direta é, em certo sentido, a presença física de um bem-aventurado entre nós.

Portanto, as relíquias são um verdadeiro tesouro! Se por acaso o leitor possui alguma, venere-a e não a deixe guardada em alguma gaveta no meio de objetos profanos. Devemos osculá-las todos os dias pelo menos, de manhã ou à noite. E, além do mais, procurar sempre conhecer a vida do santo a que correspondem, para termos uma piedade fogosa. Lembremo-nos de que elas são uma arma para o combate.

Certos militares levavam uma relíquia incrustada na espada… É bom, nas horas de perigo, tê-las sempre junto a nós para garantirmos que, na luta contra o demônio, não batalhamos sozinhos, mas contamos com a presença de santos vitoriosos!

Os Reis Magos, representantes dos povos gentios

Irmã Maria Teresa Ribeiro Matos,EP

Causou sensação em Jerusalém a chegada de três importantes personagens — Gaspar, Melchior e Baltazar — acompanhados de numeroso séquito e rica equipagem.

São reis? — perguntavam-se os habitantes da grande cidade.

Sim, respondiam uns. Não, mais parecem ser sacerdotes caldeus, opinavam outros. Nada disso, são magos, homens sábios que conhecem os segredos da astronomia, sentenciavam alguns eruditos da época.

Como eram os Reis Magos?

Nos presépios e nas pinturas, são eles apresentados em geral como homens de idade madura, e até mesmo já idosos, às vezes com uma barba branca descendo até o peito, mas todos fortes e resistentes. Segundo a imaginação popular, andam devagar e com ar pensativo, cobertos de ricos mantos, portando coroas com pedras preciosas fulgurantes.

A iconografia corrente apresenta Gaspar e Melchior como sendo de raça branca. O terceiro, Baltazar, um gigante de ébano, é o mais pitoresco dos três. Tem pouca barba, olhos redondos e escuros, bem abertos, lábios rubros e dentes alvos como a neve. Sua fisionomia é a de um homem sério e compenetrado, aberto para a contemplação das coisas maravilhosas, caminho para chegar a Deus.

Os bons presépios nos mostram os Reis Magos chegando em fila, trazendo nas mãos seus presentes. O Menino Jesus, divinamente alegre, está sentado no colo de sua Mãe. Todos olham para Ele, inclusive Nossa Senhora, a qual é apresentada discretamente em segundo plano.

Eram sábios e reis

Na Catena Áurea, São Tomás afirma: “Esses magos eram reis”. E acrescenta que devia ser grande sua comitiva, pois puseram em alvoroço Herodes e Jerusalém inteira. São João Crisóstomo é de opinião de que “esses Reis Magos que vieram do Oriente adorar o Menino Jesus, são os filósofos dos caldeus, homens muito considerados em seu país. Seus reis e príncipes aconselham-se com eles, por causa da sua ciência. Assim é que foram os primeiros a tomar conhecimento do nascimento do Senhor”.

O Evangelho resume nestas curtas frases o objetivo de sua viagem:

— Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Vimos sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo.

Segundo São Tomás, eles chegaram a Jerusalém três dias após o nascimento de Jesus, o que levanta uma curiosa questão: como fizeram em tão curto tempo a longa viagem? Antiga tradição do tempo de Moisés fala de um antepassado deles que profetizou o nascimento de uma estrela em Judá. Este era de uma nação vizinha de Israel, situada do lado oriental.

São João Crisóstomo é de opinião oposta, declarando ser possível que eles tenham iniciado a caminhada dois anos antes. Esta opinião encontra fundamento no texto evangélico. Pois Herodes os inquiriu sobre a época em que lhes havia aparecido a estrela e “mandou massacrar em Belém e nos seus arredores todos os meninos de dois anos para baixo, conforme o tempo exato que havia indagado dos Magos” (Mt 2,16).

Informados de que Belém era a terra natal de Jesus, para lá partiram os Magos. E a mesma estrela que os havia guiado de seus países até Jerusalém apareceu-lhes novamente e os foi precedendo até chegar sobre o lugar onde estava o Menino, e ali parou.

Era mesmo uma estrela?

Santos, doutores e teólogos interessaram-se por esta pergunta, pois tudo quanto diz respeito a nosso Salvador é, de si, muito interessante.

A ser uma estrela, era diferente de todas as outras. Pois, ao contrário dos demais astros — os quais, desde a criação do universo, seguem regularmente a órbita fixada para cada um no espaço sideral —, esta percorria um roteiro reduzido e, por assim dizer, terreno. Além do mais, parava e punha-se de novo em movimento segundo as conveniências dos Magos, fazendo-se visível não só à noite, mas também durante o dia.

Isso, comenta São João Crisóstomo, é próprio de um ser inteligente, não de uma estrela comum. De onde deduz ele que “não era simplesmente uma estrela, mas uma virtude invisível tomou a forma de uma estrela”.

Segundo São Remígio, alguns crêem que essa estrela era o Espírito Santo, outros que era um Anjo, talvez o mesmo que apareceu aos pastores perto da Gruta de Belém.

Santo Agostinho opina de modo mais afirmativo: “Era um astro novo, criado para anunciar o parto da Virgem e para oferecer seu ministério, marchando diante dos Magos que procuravam a Cristo e conduzi-los ao lugar onde estava o Verbo, Menino-Deus”.

O fato indiscutível é que a estrela — corpo celeste físico ou não — cumpriu de forma exímia sua missão: levou os Reis Magos até a casa onde estava o Menino Jesus. Informados de que Belém era a terra natal de Jesus, para lá partiram os Magos. E a mesma estrela que os havia guiado de suas terras até Jerusalém apareceu-lhes novamente. Nesta reaparição da estrela, os Magos viram uma confirmação toda divina da informação que tinham recebido. A partir daí, o brilhante astro os foi precedendo até o lugar onde estava o Menino, e ali parou. Entrando na casa, encontraram o Divino Infante com Maria, sua mãe. Prostrando-se diante d’Ele, o adoraram. Depois abriram seus tesouros e lhe ofereceram como presente ouro, incenso e mirra.

Ninguém procurou e encontrou mais venturosamente a Cristo, que aquele devoto e santo cortejo dos Reis do Oriente. Sumamente alegres, seguiram a estrela até Belém onde acharam o Rei, recém-nascido. Mas, com quem O acharam? Acharam o menino com Maria sua Mãe. Quereis achar Jesus, procuraiO onde estiver sua Mãe, e O achareis!” (Pe.Vieira)

Três dons simbólicos

São Tomás apresenta uma bela interpretação desse fato: “Quando se diz que ofereceram ao Menino-Deus três dons — ouro, incenso e mirra — não significa que eram apenas três, mas que neles estavam representadas todas as nações descendentes dos três filhos de Noé, que haviam de ser chamadas à Fé”.

Também Santo Agostinho tece elevados comentários na mesma linha. Epifania, ensina ele, é uma palavra grega que significa “manifestação”. Na pessoa dos Reis Magos, o Menino-Deus se revelou a todas as nações que, no futuro, seriam iluminadas pela luz da Fé. “Toda a Igreja dos Gentios quis que esse dia fosse celebrado com a máxima devoção, pois, que são os Magos senão as primícias da gentilidade?” — conclui o Bispo de Hipona.

E o Papa São Leão Magno dá esta outra interpretação do significado dos presentes dos reis: “Os Magos realizam, pois, o seu desejo, e guiados pela mesma estrela, chegam até o menino, o Senhor Jesus Cristo. Adoram o Verbo na carne, a Sabedoria na infância, a Força na fraqueza, e o Senhor de majestade na realidade de um homem. E para apresentarem uma homenagem de sua fé e de sua compreensão, testemunham, por meio de dons, aquilo que crêem em seus corações. Oferecem incenso ao Deus, mirra ao homem e ouro ao rei, venerando conscientemente na unidade a natureza divina e a natureza humana”.

Oração: condições para ser atendido

oração ArautosIrmã Ana Rafaela Maragno,EP

O homem, em sua debilidade, não pode, sem a graça, alcançar certos favores, mas poderá obtê-los através da oração, pois “o Espírito vem em auxílio à nossa fraqueza; porque não sabemos o que devemos pedir, nem orar como convém, mas o Espírito mesmo intercede por nós com gemidos inefáveis” (Rm 8, 26).

A oração deve estar presente em todos os dias da nossa peregrinação terrena; assim jamais haverá de nos faltar o necessário quando pedirmos socorro. Pode ser que a espera se prolongue, que não haja consolações interiores, ou mesmo sensação de completo abandono, na qual o Céu parece toldado por densas nuvens escuras. Sejam quais forem essas situações, estejamos certos de que nunca devemos desanimar nem desistir. Do mesmo modo como não nos esquecemos de tomar alimento, para manter o vigor e a saúde do corpo, assim também não devemos negligenciar a oração, para que nossa alma, faminta, não venha a desfalecer.

Não obstante, existe um problema. Sabemos, pelo Espírito Santo, o que devemos pedir. Mas, como enunciar essas súplicas e quais as condições para torná-las infalíveis diante de Deus?

As condições para ser atendido

“Se permaneceis em mim e minhas palavras permanecerem em vós, pedireis tudo o que quiserdes e vos será feito” (Jo 15, 7). Nosso Senhor promete de maneira clara, em inúmeras circunstâncias de sua vida terrena a onipotência da oração. “Pedi e se vos dará. Buscai e achareis. Batei e vos será aberto. Porque todo aquele que pede, recebe. Quem busca, acha. A quem bate abrir-se-á” (Mt 7, 7-8). Quem colocaria em dúvida o juramento do Divino Salvador? Quem ousaria contradizê-Lo?

Alguém poderia contestar, com argumentos pouco convincentes, mostrando que, em muitas ocasiões, essa promessa não se cumpriu e inúmeros pedidos pareceram não ter chegado nunca aos ouvidos de Deus. O Apóstolo São Tiago responde a essa objeção: “Pedis e não recebeis, porque pedis mal” (Tg 4, 3).

Ora, se a prece mal feita não é atendida, quais são os requisitos necessários para a infalibilidade da oração? Quatro são, segundo São Tomás, as condições para obtermos aquilo que pedimos: “por nós mesmos, pedir coisas necessárias à salvação, devotamente e com perseverança”.1

“Por nós mesmos”

Quando alguém pede algo em favor de si próprio, já possui a disposição para receber a graça, mas, se intercede por outro, nem sempre este terá a alma aberta para acolhê-la e poderá colocar obstáculos à ação de Deus, como bem expressa Royo Marín: “Deus respeita a liberdade do homem, e não costuma conceder suas graças a quem não quer recebê-las”.2 Isto não significa que rezar pelo próximo seja ineficaz, mas, sim que não teremos certeza da utilidade da oração na vontade daquele por quem pedimos, pois, “a promessa foi feita, não para os que rezam para outros, mas para os que rezam para si mesmos: Dar-se-vos-á”.3

“Coisas necessárias à salvação”

Ao solicitar de Deus a graça da eterna salvação ou dos meios que a ela conduzem, Ele nunca deixa de atender, pois deseja-a mais do que nós mesmos e é Ele mesmo quem nos inspira os anelos de santidade. Contudo, por falta de sabedoria, nem sempre pedimos o que nos convém em ordem à felicidade eterna, donde o Criador, em sua infinita Bondade, não poderá nos conceder algo que venha a prejudicar a prática da virtude, pois, como diz Santo Agostinho “o que é útil ao doente, o médico sabe melhor do que ele.4

“Se não recebes, é porque pedes uma pedra. Porque, se é certo que és filho, não basta isso para receber, antes, a qualidade de filho é obstáculo para receber se, sendo filho, pedes o que não te convém, pelo contrário, também te garante que não podes receber quando peças o que não te convém. Não peças, pois, nada mundano; pede tudo espiritual, e infalivelmente receberás. […] Porque também vós – nos diz o Senhor –, que sois pais, esperais que vossos filhos vos peçam; e, se vos pedem algo inconveniente, lho negais; assim como, naturalmente, lhes concedeis o conveniente. […] Se com este espírito te aproximas de Deus e lhe dizes: “se não recebo, não me retiro”, indefectivelmente receberás. Isto sim, com a condição de que peças o que está bem te dê Aquele a quem o pedes e que te convenha a ti, que pedes.”5

“Devotamente e com perseverança”

Explica o “Doutor da oração”6, comentando o trecho citado de São Tomás, que na palavra “devotamente” o Doutor Angélico encerrou todas as condições que se requerem por parte do sujeito que ora; isto é, humildade, confiança e perseverança, sem deixar de rezar até o instante da partida deste mundo para encontrar o Supremo Bem, objeto dos anelos nas orações fervorosas feitas nesta Terra. Outro ponto é a insistência na oração.

Vejamos separadamente cada uma destas condições.

  • Humildade
    “Deus resiste aos soberbos, mas dá sua graça aos humildes” (Tg 4, 6). É próprio ao presunçoso contar consigo mesmo, depositando sua segurança nas capacidades que tem, sejam elas reais ou imaginárias, e confiando em suas próprias forças. Possui uma venda nos olhos e não quer pedir para ver a luz. O humilde, pelo contrário, reconhece que toda sua energia vem de Deus e nada pode sem Nosso Senhor Jesus Cristo.

    Deus, diz a Escritura, “apaga a memória dos orgulhosos” (Eclo 10, 21), mas desdobra-se sobre os humildes, em atenções e ternuras, e sempre está pronto para derramar com abundância os tesouros de sua liberalidade.

    Uma vez curvados ante a divina majestade, com o espírito despretensioso como o publicano da parábola (Cf. Lc 18, 9-14), devemos esperar com inteira confiança as graças pedidas. Ninguém, ao pedir um favor a outrem, crê não poder recebê-lo, pois, do contrário, não se atreveria a tentar conseguir o esperado. Se assim acontece entre os homens, como duvidar de Deus?

  • Confiança
    Apraz a Deus nossa fé em sua misericórdia, porque deste modo reconhecemos sua bondade, manifestada ao criar-nos e ao conceder-nos tantos dons. Abandonando-nos completamente nas mãos do Criador podemos esperar grandes coisas, pois sua indulgência é uma fonte inesgotável e nossa confiança pode ser comparada a um vaso vazio: quanto maior for este, maior será sua capacidade de receber e, em consequência, maior o número de graças de que será cumulado.7

    Essa confiança cega em Deus deverá ser conservada mesmo nas ocasiões de aridez espiritual, nas quais não parecem ser ouvidas nossas súplicas favoravelmente. Contudo, é preciso permanecer, segundo o conselho do Apóstolo, “esperando contra toda esperança” (Rm 4, 18). Assim, a oração tornar-se-á mais agradável à Divina Providência, pois nela reconhecemos nosso nada e calcamos a inclinação de auto-suficiência, inerente à natureza humana decaída, para esperar unicamente os bens que de Deus provêm.

  • Perseverança
    Esta confiança caminha sempre intimamente unida a outro valor: a insistência na súplica. Em certos casos, Deus não atende nossa prece com a rapidez que nós desejaríamos, para provar nossa fé e esperança. Dada a inconstância consequente do pecado, Deus experimenta nossas disposições, para não sermos levados por qualquer vento dos sentimentos ou arrastados pelas ondas das paixões, mas darmos frutos na perseverança (Cf. Lc 8, 15).

    Com efeito, muitas vezes, nos momentos de fervor, estamos animados por um desejo ardente, acompanhado da vontade de rezar e da certeza da obtenção da graça solicitada; entretanto, aparentemente recusado o primeiro pedido, – porque não é o momento oportuno de Deus conceder, ou mesmo porque Ele quer coroar nossa alma com o mérito da pertinácia –perdemos o entusiasmo inicial e abandonamos logo a oração.

    Ao dirigir a palavra a uma pessoa, ninguém, após tê-la chamado uma primeira vez sem obter resposta e nem mesmo a sua atenção, desiste de falar-lhe novamente. Ao contrário, repete o apelo, até esta lhe prestar ouvido. Se assim agimos nas relações humanas, porque razão não insistir na prece feita a Deus? Ele nos acolhe antes mesmo de formularmos nossa petição, e não deixará de atender com largueza.

    “Não sabemos quantas vezes quererá Deus que repitamos nossa oração para obter o que pedimos. Em todo caso, a demora mais ou menos prolongada ordena-se a nosso maior bem: para redobrar nossa confiança n’Ele, nossa fé, nossa perseverança”.8

    É preciso bater à porta divina até ela nos ser aberta. Cabe dizer que, quanto mais a demora se prolongue, maior será o dom, quando ele vier. Deus sabe dispor a ocasião adequada para derramar seus favores. “Quando Deus tarda em intervir é por razões mais altas e porque certamente nos dará com superabundância”.9

    “Deixai que Ele vos instigue a multiplicar vossas orações, não as atendendo senão depois do centésimo pedido. Ele disse que é preciso rezar sempre, deixai-o comportar-se em relação a vós de maneira a que rezeis sempre. Crede que isso vos será vantajoso”.10

    Pedir a perseverança final

    Quando devemos rezar? Sempre. Não há época, lugar e circunstâncias nas quais possamos dispensar a oração e nos abster da prática dela. Ela nos deverá acompanhar de modo contínuo até o momento de nossa morte, para o qual devemos implorar, sobretudo, a graça da perseverança final. Quantos são os pecadores arrependidos que tornaram a pecar, por não terem sido assíduos na oração! “Quem começa a orar deixa de pecar, quem deixa de orar começa a pecar”.11Salomão pediu a sabedoria e sua súplica agradou ao Senhor (Cf. 1 Re 3, 10), mas, no fim de sua vida, desviou-se seu coração e transgrediu a Lei de Deus (Cf. 1 Re 11, 4-10), porque não havia pedido a perseverança.

    A vida do homem sobre a Terra é uma constante luta! (Cf. Jó 7, 1) E ai dos que não persistem na oração! Durante todo o tempo de nosso combate é preciso ter essa poderosa arma nas mãos. Ela nos torna robustos e alcança-nos o prêmio da vitória!

    Teremos a certeza de que “se nossa oração reúne as condições que acabamos de mostrar, obterá infalivelmente, mais cedo ou mais tarde, o que nela pedimos a Deus. De fato, na prática obtemos muitíssimas coisas de Deus sem reunir todas estas condições, por um efeito superabundante da misericórdia divina. Mas, reunindo estas condições, obteríamos sempre, infalivelmente, – pela promessa divina e fidelidade de Deus em suas palavras –, inclusive aquelas graças que, como a perseverança final, ninguém pode merecer senão somente impetrar”.12

  • 1 “Ut sciliset pro se petat, necessaria ad salutem, pie et perseveranter” (SÃO TOMÁS DE AQUINO. Summa Theologiae. II-II, q. 83, a.15, ad 2. Para as citações da Suma Teológica, neste trabalho será sempre utilizada a tradução das Edições Loyola).
    2 “Dios respeta la libertad del hombre, y no suele conceder sus gracias a quien no quiere recibirlas” (ROYO MARÍN, Antonio. Teología de la Perfección Cristiana. 11. ed. Madrid: BAC, 2006. p.426. Tradução da autora).
    3 SANTO AFONSO DE LIGÓRIO. Op. cit. p. 57.
    4“Quid enim infirmo sit utile magis novit medicus quam aegrotus” (SANTO AGOSTINHO, apud SÃO TOMÁS DE AQUINO. S.Th. II-II, q. 83, a.15, ad 2).
    5 “Si no recibes, es porque pides una piedra. Porque, si es cierto que eres hijo, no basta eso para recibir; más bien la cualidad de hijo es obstáculo para recibir si, siendo hijo, pides lo que no te conviene, al contrario, también te garantiza que no puedes recibir cuando pidas lo que no te conviene. No pidas, pues, nada mundano; pide todo espiritual, e infaliblemente recibirás. […] Porque también vosotros – nos viene a decir el Señor –, aunque sois padres, esperáis que os pidan vuestros hijos; y, si os piden algo inconveniente, se lo negáis; así como, naturalmente, les concedéis y procuráis lo conveniente. […] Si con este espíritu te acercas a Dios y le dices: ‘Si no recibo, no me retiro’, indefectiblemente recibirás. Eso sí, a condición que pidas lo que está bien te dé Aquel a quien se lo pides y que te convenga a ti que lo pides” (SÃO JOÃO CRISÓSTOMO. Homilía 23, 4. In: Obras de San Juan Crisóstomo: Homilías sobre el Evangelio de Mateo. 2. ed. Madrid: BAC, 2007. p. 479. Tradução da autora).
    6 SANTO AFONSO DE LIGÓRIO. Op. Cit. p. 63.
    7 Ibid. p. 73.
    8 “No sabemos cuántas veces querrá Dios que repitamos nuestra oración para obtener lo que pedimos. En todo caso, la dilación más o menos prolongada se ordena a nuestro mayor bien: para redoblar nuestra confianza en El, nuestra fe, nuestra perseverancia” (ROYO MARÍN, Antonio. Nada te turbe, nada te espante. 2. ed. Madrid: Palabra, 1982. p. 115. Tradução da autora).
    9 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. A Ressurreição de Lázaro. In: Arautos do Evangelho. São Paulo, n. 39, mar. 2005. p. 9.
    10 “Laissez-le donc vous pousser à multiplier vos prières, en ne les exauçant qu’après la centième demande. Il a dit qu’il faut toujours prier, laissez-le se conduire à votre égard de manière à ce que vous priiez toujours. Cela vous sera avantageux, croyez-le” (BOUCHAGE, F. Pratique des vertus. 2. ed. Paris: Gabriel Beauchesne, 1918. Vol. III. p. 380. Tradução da autora).
    11 SANTO AGOSTINHO apud SPIRAGO, Francisco. Catecismo Católico popular. Trad. Artur Bivar. 6. ed. Lisboa: União, 1958. p. 291.
    12 “Si nuestra oración reúne las condiciones que acabamos de señalar, obtendrá infaliblemente, más pronto o más tarde, lo que en ella pedimos a Dios. De hecho, en la práctica obtenemos muchísimas cosas de Dios sin reunir todas estas condiciones, por un efecto sobreabundante de la misericordia divina. Pero, reuniendo esas condiciones, obtendríamos siempre, infaliblemente, – por la promesa divina y fidelidad de Dios a sus palabras – incluso aquellas gracias que, como la perseverancia final, nadie absolutamente puede merecer sino solamente impetrar” (ROYO MARÍN, Antonio. Nada te turbe, nada te espante. Op. cit. p. 115. Tradução da autora).

    O Papa, sol da Igreja

    São Pedro3Irmã Clara Isabel Morazzani, EP

    Em certa ocasião, vi no jardim de um palácio, um relógio de sol. Pareceu-me algo bem curioso. Aproximei-me para analisá-lo e comprovei que ele marcava a hora certa: nove e meia. Entre os variados e utilíssimos benefícios que nos proporciona a luz do astro rei, há um ao qual muitos não dão a devida importância, e, entretanto, ele é indispensável: o de indicar com exatidão a hora certa para toda a humanidade.

    Houve época em que os homens se guiavam durante o dia pelo sol, e à noite pelas estrelas. Se assim não fosse, como poderiam saber se eram nove horas da manhã ou três da tarde? Podemos imaginar as divergências de opiniões que daí decorreriam, pois cada qual quereria adaptar o horário segundo suas próprias conveniências…

    Assim, para presidir o tempo, Deus criou o curso solar, o qual segue com pontualidade imutável as leis estabelecidas pelo Supremo Artífice.

    O sol, símbolo da Virgem Maria

    Este pensamento leva-nos a considerações mais elevadas: ao ordenar o universo, o Criador fê-lo de forma hierarquizada, de tal modo que os seres inferiores simbolizam os superiores, tornando assim mais fácil às criaturas racionais — anjos e homens — subir até Ele.

    Por isso, entre os louvores dirigidos à Santíssima Virgem no Pequeno Ofício da Imaculada Conceição, canta a Igreja: “E a representou maravilhosamente em todas as suas obras”. O sol é nomeado inúmeras vezes no Ofício da Bem-Aventurada Virgem Maria como figura do nascimento do Salvador ou da beleza de Nossa Senhora: “Nascerá como o sol o Salvador do mundo e descerá ao seio da Virgem como a chuva sobre a relva”, “Ó Virgem prudentíssima, para onde ides como a aurora extremamente rutilante? Filha de Sião, toda formosa e suave sois, bela como a lua, eleita como o sol”, “Vossa maternidade, ó Virgem Mãe de Deus, anunciou a alegria a todo o universo: de Vós nasceu o Sol de Justiça, Cristo Deus nosso”, “Vossas vestes são alvas como a neve, e vosso semblante fulgura como o sol.”

    O Papa, fundamento da unidade

    Sol VaticanoMas, enquanto regulador do tempo, o sol simboliza o precioso legado deixado por Jesus Cristo antes de subir ao Céu, a realização da promessa feita aos Apóstolos — “Eu estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28, 20) —, que faz da Igreja um só rebanho reunido em torno de um só pastor: a autoridade suprema do Papa infalível.

    Com efeito, o que seria da Esposa Mística de Cristo se ela não estivesse estruturada em torno de um único detentor da verdade que, quando se pronuncia ex cathedra sobre assuntos de fé e moral, faz ouvir uma palavra absolutamente inerrante? Há muito tempo teria ela desmoronado como casa construída sobre a areia, corroída pelas dissensões e heresias, privada de seus próprios fundamentos.

    Se, pois, a Igreja atravessa triunfante e inabalável o curso dos séculos, é porque ela se encontra estabelecida sobre o Apóstolo Pedro como um edifício sobre seus alicerces. E ai de quem não queira se submeter à sua autoridade! Poderíamos compará-lo a um pobre louco que, vendo o sol brilhar ao meio-dia, insistisse em afirmar que é meia-noite. Em nada a fulgurância do sol se veria diminuída…

    Cristo instituiu a Igreja como sociedade visível

    Ao deixar este mundo e subir aos Céus, Cristo Jesus encerrou de forma gloriosa sua permanência física entre os homens, para sentar-Se à direita do Pai na eternidade. Doravante faria sentir sua presença através do poder sobrenatural e invisível da graça. Porém, assim como o homem é um composto de corpo e alma, no qual espírito e matéria se harmonizam e se completam, tornava-se necessário que a Igreja por Ele fundada não só vivesse do sopro do Espírito Santo, mas estivesse solidamente constituída como sociedade visível e jurídica, na pessoa dos Apóstolos e de seus sucessores.

    Para o exercício de tão alta missão, o Redentor, com didática divina, preparou seus discípulos ao longo de três anos de convívio, durante os quais os fez progredir no conhecimento e no amor das verdades eternas, destacando-os das influências mundanas. O ponto culminante dessa ruptura com o mundo parece ter-se dado no momento em que Jesus, após perguntar-lhes quais as opiniões dos judeus a respeito do Filho do Homem, inquiriu: “E vós, quem dizeis que Eu sou? (Mt 16, 15). Certamente criou-se um suspense, todos entreolharam-se hesitantes. Então o fogoso Simão, cedendo à inspiração da graça no fundo de sua alma, lançou-se aos pés do Mestre, exclamando: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo!” (Mt 16, 16).

    Pedro é o alicerce da Igreja

    Desde toda a eternidade o Verbo de Deus conhecia aquela cena. Enquanto Homem, porém, ardia em desejos de constatá-la com seus olhos carnais, e pode-se dizer que, desde o primeiro instante de sua concepção, seu Sagrado Coração pulsava com santa pressa de ouvir aquelas palavras que determinariam o nascimento da mais bela instituição da História. Possivelmente tenha experimentado uma divina emoção ao responder ao Apóstolo: “Feliz és, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que te revelou isto, mas meu Pai que está nos Céus. E Eu te declaro: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos Céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos Céus” (Mt 16, 17-19).

    Com esta solene promessa o Salvador acabava de anunciar o fundamento de sua Igreja: a pessoa de Pedro. Ele o revestiria do mesmo poder com o qual o Pai O enviara. “Foi a Pedro que o Senhor falou: a um só, a fim de fundar a unidade em um só”.1

    O Primado de Pedro: de Jerusalém a Roma

    Após a Ascensão do Senhor e a descida do Espírito Santo, os Apóstolos iniciaram sua pregação na cidade de Jerusalém. A autoridade de Pedro sobre eles foi reconhecida desde o começo, e o Cenáculo passou a ser o berço da Igreja. Os primeiros anos do ministério de Pedro foram particularmente árduos: lemos nos Atos a descrição, palpitante como um livro de aventuras, dos sucessos e reveses apostólicos pelos quais passaram o primeiro Papa e a nascente comunidade cristã. Deixando a sede episcopal de Jerusalém sob o encargo de Tiago o Menor, Pedro transladou-se para Antioquia; em seguida, guiado pelos desígnios de Deus, instalou-se definitivamente em Roma.

    A Providência, que tudo dispõe com sabedoria, preparava-lhe os caminhos e iria se servir dos restos do Império decadente como de uma plataforma, para sobre ela construir a Civilização Cristã.

    1São Paciano, Bispo de Barcelona, 3ª carta a Semprônio, n. 11.

    Nossa Senhora das Maravilhas

    Madre Mariana Morazzani Arráiz, EP

    “Maria produziu, com o Espírito Santo, a maior maravilha que existiu e existirá: um Homem-Deus; e Ela produzirá, por conseguinte, as coisas mais admiráveis que hão de existir nos últimos tempos” (São Luís Grignion de Montfort).

    São inumeráveis as maravilhas operadas pela Mãe de Deus ao longo desses vinte séculos de História da Igreja. Com razão, pois, o povo fiel, entre centenas de outros títulos, invoca a Imaculada Esposa do Espírito Santo como Senhora das Maravilhas.

    Quando brotou da alma católica essa invocação?

    Sabemos que ela já existia pelo menos desde as primeiras décadas da descoberta da América.

    Na Catedral de Salvador, Bahia

    Quando, em 1552, aportou na Bahia o primeiro Bispo do Brasil, Dom Pero Fernandes Sardinha, trazia ele uma preciosa imagem de Nossa Senhora das Maravilhas, presente do Rei Dom João III à recém-descoberta Terra de Santa Cruz.

    Concluída a construção da Catedral da Sé de Salvador em 1624, seu Bispo, Dom Marcos Teixeira, entronizou na principal capela lateral a imagem de Nossa Senhora das Maravilhas, onde a Mãe de Deus passou a acolher com benevolência todos quantos a Ela vêm pedir auxílio.

    Nossa Senhora das Maravilhas BrasilPoucos anos depois de ser entronizada nesta capela, o Menino Jesus que ela traz nos braços foi sacrilegamente furtado, quebrado em vários pedaços, lançado no lixo da cidade, onde foi depois encontrado, faltando uma das perninhas. Uma mulher ao procurar lenha encontrou esta perninha, e não sabendo o que era, lançou-a no fogo. Oh, maravilha! Para admiração da mulher, aquele pedacinho de madeira saltou para fora do fogo, sendo preservado. Deste modo se pôde restaurar o Divino Menino que foi devolvido aos braços da Mãe, com muito grande devoção.

    O “estalo” do Padre Antonio Vieira

    Por meio dessa imagem, o Senhor tem operado muitos e grandes milagres. Um dos mais conhecidos deu-se com o famoso Padre Antonio Vieira.

    Tendo vindo menino para o Brasil, iniciou ele seus estudos no Colégio dos Jesuítas na Bahia. Nos primeiros tempos não passava de estudante medíocre, mal compreendendo as lições, a ponto de pensarem os superiores em dispensá-lo do Colégio.

    Em seu grande desejo de ingressar na Companhia de Jesus, certo dia, já quase desesperado com sua dificuldade nos estudos, foi Vieira suplicar auxílio aos pés da Senhora das Maravilhas. No meio da oração, sentiu como um “estalo” em sua cabeça, acompanhado de uma dor muito forte que o prostrou por terra, dando-lhe a impressão de que ia morrer. Ao voltar a si, deu-se conta de que aquelas coisas que antes pareciam inatingíveis e obscuras à sua inteligência, tornaram-se claras. Assim, Vieira percebeu a enorme transformação ocorrida em sua mente.

    Ao chegar ao Colégio, pediu que o deixassem participar das disputas com os colegas. Para espanto dos mestres, venceu todos os companheiros com o brilho de seu raciocínio. Daí por diante foi o primeiro e mais distinto aluno em todas as disciplinas, tornando-se um dos maiores oradores sacros e escritores da língua portuguesa.

    Devoção na Espanha: o Menino Jesus das Maravilhas

    Na Capital espanhola, o nome de Nossa Senhora das Maravilhas tem sua origem em fatos encantadores e poéticos, próprios à Virgem das Virgens.

    Passeando pelo jardim de seu convento num dia de 1620, algumas fervorosas freiras carmelitas descobriram uma imagem do Menino Jesus recostada sobre um tufo de flores conhecidas pelo nome de maravilhas.

    Cheias de surpresa, não sabiam elas o que mais admirar, se o diminuto tamanho do Menino, de apenas sete centímetros, se sua extrema formosura, ou se as circunstâncias em que foi descoberto. Com grande alegria e devoção, levaram-no para a capela, onde lhe improvisaram um altar ornado com as flores irisadas de amarelo e alaranjado, sobre as quais havia sido encontrado.

    E começaram a invocá-lo como o Menino Jesus das Maravilhas.

    Nossa Senhora das Maravilhas1Nossa Senhora das Maravilhas, imagem de madeira

    Poucos anos depois, chegou a Madri uma antiga imagem da Virgem, cuja origem também está envolta nas brumas da história.

    Consta ser ela do século XIII. Em 1585, estava exposta à veneração dos fiéis no povoado de Rodas-viejas, mas em tão deplorável estado de conservação que o Bispo de Salamanca mandou retirá-la da igreja. Alguns paroquianos, entretanto, não se conformaram com essa decisão. E um deles obteve autorização para ficar com a imagem em sua própria residência.

    Tinha porém a Santíssima Virgem desígnios admiráveis a respeito dessa sua imagem. Após algumas vicissitudes, foi ela parar em Madri, tornando-se propriedade de Ana Carpia, esposa do escultor Francisco de Albornoz, o qual a restaurou na perfeição.

    À residência desse católico casal começaram a afluir, em número cada vez maior, vizinhos e conhecidos para rezar diante dessa imagem, pois correra a notícia de que ali a Mãe de Bondade concedia favores a seus devotos.
    Um estupendo milagre tornou-a famosa na cidade inteira. Numa lamentável explosão de ira, um caçador apunhalou brutalmente um jovenzinho das vizinhanças, deixando-o meio morto. A mãe do menino foi correndo prostrar-se diante da imagem, implorando a Nossa Senhora a cura do filho. Pouco depois, ficou ele totalmente são e salvo.

    Diante desse prodígio, seguido de muitos outros, o Vigário Geral da Diocese ordenou a Ana Carpia que entregasse a imagem a alguma igreja. Como se vê, a própria Mãe de Deus se ocupou de, por meio de milagres, recuperar para essa sua imagem um trono em algum edifício sagrado.

    Para qual igreja levá-la?

    No mosteiro das carmelitas

    A senhora Carpia decidiu escolher, mediante sorteio, um dos quatro conventos carmelitas então existentes em Madri. A sorte recaiu sobre o mosteiro onde aparecera anos antes o Menino Jesus das Maravilhas.

    Assim, em 17 de janeiro de 1627, Ana Carpia e seu esposo fizeram lavrar em cartório o ato de doação da milagrosa imagem às freiras carmelitas. No dia 1º de fevereiro desse ano, foi ela transladada para o mosteiro em solene procissão, assinalada por um significativo fato: durante todo o trajeto, uma branca pomba sobrevoou a imagem e entrou com ela no interior da ermida, onde se deixou colher pelas monjas. Estas a consagraram à Virgem no dia seguinte, 2 de fevereiro, festa da Purificação de Maria, e a retiveram no convento.
    As freiras ornavam as mãos sagradas da imagem com as flores chamadas de maravilhas. Em certo momento, uma delas teve a inspirada ideia de colocar sobre essas flores a minúscula imagem do Menino Jesus das Maravilhas, o qual adquiriu especial encanto posto nesse trono floral. Com isto, a Mãe acabou tomando o nome do Filho: Nossa Senhora das Maravilhas.

    É esta a origem do belo nome da imagem venerada em Madri.

    O manto de Nossa Senhora cura o Rei Felipe IV

    Em 1639, atacado por conspiradores, ficou o rei gravemente ferido.

    A notícia comoveu toda a corte. Ordenaram-se orações em todos os templos pela saúde do rei, especialmente na ermida da Senhora das Maravilhas.

    A rainha Mariana d’Áustria pediu às carmelitas um manto da Virgem para colocá-lo sobre o leito do monarca. Apenas foi colocado, com grande surpresa para todos, o rei perguntou à rainha: “O que pusestes sobre mim, que me encontro inteiramente bem?”

    Em gratidão por tão grande favor da Virgem das Maravilhas, o rei mandou construir às suas expensas a atual igreja, inaugurada em 1646. Ademais, criou um patronato presidido pela rainha e vários personagens da corte, com a obrigação de dotar o convento das Maravilhas com uma renda anual. O rei muitas vezes ia fazer exercícios espirituais com as carmelitas, dizendo que “lhe davam alentos para o exercício de seus altos deveres de Estado”.

    Prodígios da Virgem das Maravilhas

    Além da cura do rei e do menino moribundo, muitos outros fatos extraordinários aconteceram ao longo da história desta imagem.

    Em 12 de agosto de 1675 armou-se uma grande tempestade durante o canto da Salve Rainha, entrando na igreja uma fagulha de um raio que causou dano a várias pessoas, entre elas uma menina de três anos que ficou como morta.

    Aflito, seu pai a tomou nos braços e a pôs sobre o altar da Virgem, implorando misericórdia. Surpreendentemente, aos poucos, a menina voltou a si como se nada tivesse acontecido.

    E em 1689, um pintor que estava trabalhando na abóbada da igreja, caiu sobre as pedras do presbitério, parecendo morto. Ante a invocação da Virgem e a aplicação de uma sua estampa, voltou a si e foi para sua casa andando normalmente.

    Invocação mais bela e sugestiva não poderíamos sugerir a nossos leitores. Peçamos a Nossa Senhora que inunde a Terra com as torrentes da graça de que Ela é cheia, fazendo triunfar de maneira fulgurante o seu Imaculado Coração, abrindo para a humanidade, o quanto antes, uma nova era dos esplendores mariais.

    Necessidade da oração

    adoraçãoAna Rafaela Maragno

    Imaginemos a seguinte conjuntura: o entrechoque de dois exércitos inimigos. Um deles conta com soldados adestrados, tanques de guerra, munições, granadas… O outro se destaca por possuir armas poderosíssimas, superiores a quaisquer outros instrumentos bélicos. Entretanto, apesar de ter ao alcance tão precioso recurso, os seus combatentes se veem numa trágica situação: nenhum deles sabe manusear tais armas! São elas excelentes, e constituem poderoso auxílio na luta contra o adversário, mas exigem peritos que conheçam as suas funções, pois, do contrário, de nada valerá possuí-las, se não lograrem pô-las em movimento.

    Tal dilema, no qual se encontram estes pobres militares, representa bem a imagem do cristão que não recorre à oração.

    Após ter cometido o pecado original, o homem, outrora favorecido pela graça e por todos os dons que Deus lhe havia concedido no Paraíso, introduziu em si mesmo uma raiz de pecado e viu-se privado de todos os privilégios, à mercê de suas paixões desregradas e das misérias de sua frágil natureza. Lançado no mar impetuoso da existência neste vale de lágrimas, constantemente vê-se na contingência de enfrentar adversários poderosíssimos: ora o demônio, ora o mundo, ora as más inclinações da própria carne. Estes três inimigos possuem armas eficazes para tentar o homem e fazê-lo tropeçar ao longo do caminho. Ora, Deus, que jamais abandona os seus filhos, concede um meio infalível, ao mesmo tempo espada e escudo, para vencer tais contendores: a Oração! E o cristão que desconhece o valor e os benefícios dela, bem pode ser comparado àqueles soldados que contam com armas grande alcance, mas não sabem fazer uso delas.

    Assim como para a subsistência do corpo é necessário o alimento, assim também é a oração para a vida da alma.

    Para isso, é indispensável ter sempre presente o conselho dado pelo Apóstolo: “orai sem cessar” (1 Ts 5, 17). Em todas as circunstâncias da vida, em qualquer idade, em todos os lugares, que ninguém se julgue dispensado da oração, por mais virtuoso que pareça! Ademais de nos proporcionar uma aproximação com o Criador, ela também tem a finalidade de “tirar do caminho da morte as almas dos defuntos, robustecer os fracos, curar os enfermos, libertar os possessos, abrir as portas das prisões, romper os grilhões dos inocentes. Ela perdoa os pecados, afasta as tentações, faz cessar as perseguições, reconforta os de ânimo abatido, enche de alegria os generosos, conduz os peregrinos, acalma as tempestades, detém os ladrões, dá alimento aos pobres, ensina os ricos, levanta os que caíram, sustenta os que vacilam, confirma os que estão em pé”1.

    capelaA oração nos ajuda a vencer todos os obstáculos e nos dá sustento e fortaleza para galgarmos a montanha da perfeição. Encontraremos neste caminho muitas pedras e borrascas: momentos de escuridão, sensações de abandono, quedas inevitáveis, trechos íngremes onde nos parece faltar o fôlego; por outro lado, teremos também as consolações e os gáudios indizíveis, nos quais nos sentiremos afagados e carregados pela Providência.

    Em todas estas situações, sempre será a oração “[…] um simples olhar lançado ao Céu, um grito de reconhecimento e de amor no meio da provação ou no meio da alegria”2. Devemos, portanto, intensificar de contínuo nossas invocações e súplicas e rezar em todas as ocasiões, em união com Nosso Senhor Jesus Cristo, implorando a Ele as graças necessárias para nosso progresso na vida espiritual e nossa salvação. Como bem afirma Santo Agostinho, Ele é quem “ora por nós como nosso sacerdote; ora em nós como nossa cabeça; a recebe a nossa oração como nosso Deus. Reconheçamos nele a nossa voz, e em nós a sua voz”3.

    1 TERTULIANO. Do tratado sobre a oração. In: LITURGIA DAS HORAS. São Paulo: Vozes, Paulinas, Paulus, Ave-Maria, 2001. Vol. II. p. 222.
    2 “[…] c’est un simple regard jeté vers le Ciel , c’est un cri de reconnaissance et d’amour au sein de l’épreuve comme au sein de la joie” (SANTA TERESA DO MENINO JESUS E DA SAGRADA FACE. Histoire d’une ame: manuscrits autobiographiques. 35. ed. Paris: Saint- Paul, 1978. p. 276. Tradução da autora)
    3 SANTO AGOSTINHO. Dos Comentários sobre os Salmos. In: LITURGIA DAS HORAS. São Paulo: Vozes, Paulinas, Paulus, Ave-Maria, 2000. Vol.II. p. 329.

    O mais precioso perfume

    Irmã Angelis Ferreira, EP

    “Construirás um altar para queimares sobre ele o incenso”, ordenou o Senhor a Moisés, na mesma ocasião em que lhe entregou as Tábuas da Lei. O próprio Deus indicou como deveria ser feita essa mistura de essências odoríferas”.

    incenso

    Quem não se rejubila ao ver, nas solenidades litúrgicas, elevarem-se dos turíbulos aquelas ondas que impregnam de suave perfume todo o recinto sagrado? Perfeita imagem da oração que sobe como oblação de agradável odor até o trono de Deus, nas Sagradas Escrituras incenso e prece são apresentados como termos reversíveis um no outro: “Suba direita a minha oração como incenso na tua presença” (Sl 140, 2).

    Na mesma linha, lê-se no livro do Apocalipse: “Depois veio outro anjo e parou diante do altar, tendo um turíbulo de ouro. Foram-lhe dados muitos perfumes, a fim de que oferecesse as orações de todos os santos sobre o altar de ouro, que está diante do trono de Deus” (8, 3-4).

    Uma história de mais de três mil anos

    A utilização dessa essência no culto divino provém de uma prescrição feita pelo Senhor a Moisés, na mesma ocasião em que Este lhe entregou, no Monte Sinai, as Tábuas da Lei. O próprio Deus lhe ditou como deveria ser feito:

    “Toma aromas: estoraque, ônix, gálbano de bom cheiro, incenso lucidíssimo, tudo em peso igual. Farás um perfume composto segundo a arte de perfumador, manipulado com cuidado, puro e digníssimo de ser oferecido. E, quando tiveres reduzido tudo a um pó finíssimo, pô-lo-ás diante do tabernáculo do testemunho, no lugar em que eu te aparecer. Este perfume será para vós uma coisa santíssima” (Ex 30, 34-36).

    Deus não deixa a menor dúvida de que essa essência odorífera deveria ser usada exclusivamente para o esplendor do culto divino: “Todo homem que fizer uma composição semelhante para gozar de seu cheiro, perecerá no meio do seu povo” (Ex 30,38).

    Assim, obedecendo ao que Deus determinou a Moisés, o povo eleito queimou durante vários séculos, pela manhã e pela tarde, em homenagem ao Senhor um incenso de suave fragrância.

    Os Reis Magos ofereceram ouro, incenso e mirra ao Menino Jesus

    Os Reis Magos ofereceram ouro, incenso e mirra ao Menino Jesus

    No Novo Testamento, ele surge já nos primeiros dias do Menino Jesus. Entrando os Reis Magos na casa onde estava Ele com sua Mãe, prostraram-se e O adoraram, em seguida abriram seus tesouros e lhe ofereceram ouro, incenso e mirra. “O incenso era para Deus, a mirra para o Homem e o ouro para o Rei”, diz São Leão Magno (Sermão n. 31). Portanto, dos três dons oferecidos, o de maior valor simbólico era o incenso.

    A serviço do esplendor da Liturgia

    Devido ao fato de os povos pagãos costumarem queimar todo tipo de perfumes em seus cultos idolátricos, por cautela a Igreja demorou certo tempo em admitir seu uso nas cerimônias litúrgicas.

    Logo, porém, que a Liturgia começou a se desenvolver, ele fez seu aparecimento. Assim, nas primeiras décadas do quarto século, o Imperador Constantino ofereceu à Basílica de Latrão dois incensórios, feitos de ouro puro, os quais provavelmente permaneciam fixos em seus lugares e eram usados para perfumar o lugar santo.

    incenso2O Papa Sérgio I (687–701) mandou dependurar na igreja um grande incensador de ouro para que, “durante as Missas solenes, o incenso e o odor de suavidade se elevassem mais abundantemente para o Deus Onipotente”.

    Surgiu depois o turíbulo, mas, de início, sua utilização consistia apenas em ser levado pelo subdiácono à frente do cortejo litúrgico, perfumando o percurso do celebrante na entrada e na saída da Missa, e na procissão do Evangelho.

    No correr do tempo, com o aperfeiçoamento das celebrações, instituiu-se a incensação no momento do Evangelho, depois no Ofertório e, por fim, no séc. XIII, na elevação da hóstia e do cálice.

    Atualmente a incensação durante a Missa é facultativa, podendo ser feita durante a procissão de entrada, no início da Celebração, na proclamação do Evangelho, no Ofertório, e na elevação da hóstia e do cálice após a Consagração (cf. IGrMR, 235).

    Efeitos e finalidades

    O celebrante põe incenso no turíbulo e o benze com o sinal-da-cruz. Essa bênção faz dele um sacramental, isto é, um “sinal sagrado” mediante o qual, imitando de certo modo os sacramentos, “são significados principalmente efeitos espirituais que se alcançam por súplica da Igreja” (CIC nº 1166).

    Um desses efeitos pode ser verificado no motivo da incensação do altar e das oferendas, na Missa. Incensa-se o altar para purificá-lo de qualquer ação diabólica, e as oferendas para torná-las dignas de serem usadas no Mistério Eucarístico.

    O incenso é primordialmente um ato de homenagem a Deus, a Nosso Senhor Jesus Cristo, bem como aos homens e objetos consagrados ao culto divino.

    Segundo São Tomás de Aquino, a incensação tem duas finalidades. A primeira é fomentar o respeito ao sacramento da Eucaristia, já que ela serve para eliminar, com um perfume agradável, os maus odores que poderiam existir no lugar. A segunda, representar a graça, da qual, como um bom aroma, Cristo estava cheio.

    Por fim, o carvão aceso no turíbulo e o perfume que se evola servem também para nos advertir que, se queremos ver nossas orações subirem assim até o trono de Deus, devemos nos esforçar para ter o coração ardente com o fogo da caridade e da devoção.

    O amor ao próximo: manifestação do amor a Deus

    Jesus ensinandoEmelly Tainara Schnorr

    O amor ao próximo é uma das mais belas manifestações do amor a Deus, através do qual, a lei atinge a sua plenitude, segundo ensina São Paulo: “Porque toda Lei se encerra num só preceito: Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Gl 5, 14). Também foi do agrado do Divino Redentor deixá-lo para nós como elemento para a prática da virtude. Assim Ele determina:

    “O próximo, eis o meio que vos dei para praticardes e manifestardes a virtude que existe em vós. Como nada podeis fazer de útil para mim, deveis ser de utilidade ao homem. Esta é a prova de que estou presente em vós pela graça: se auxiliais os outros com orações numerosas e humildes, se desejais minha glória e a salvação dos homens. Quem se apaixona por Mim, jamais cessa de trabalhar pelos outros, de modo geral ou particular, com maior ou menor empenho, segundo as disposições do beneficiado e do benfeitor”.1

    Pendor natural para o amor mútuo

    Se analisarmos sob um prisma meramente natural, há na natureza humana um pendor para o amor mútuo, desejoso de prestar auxílio e socorro aos demais, quando necessário, embora, muitas vezes, careça de algum relacionamento específico, mesmo até de conhecimento. Isso pela única razão de semelhança de espécies, que causa no homem uma grande alegria.2 Confirma o Eclesiástico: “Todo ser vivo ama o seu semelhante, assim todo homem ama o seu próximo. Toda carne se une a outra carne de sua espécie, e todo homem se associa ao seu semelhante” (13, 19-20).

    Entretanto, devido ao pecado original, é impossível ao homem praticar a virtude estavelmente, sem o auxílio da graça. Desta maneira, se tão só nos limitarmos ao campo natural, a prática do amor ao próximo encontrará dificuldades ao deparar-se com egoísmos, invejas, rivalidades e interesses próprios, tanto de si mesmo como dos outros.3

    O amor sobrenatural ao próximo

    A virtude sobrenatural da caridade é a que proporciona as forças suficientes para superar todos esses obstáculos e misérias humanas, resultando num amor puro pelos demais:

    “A caridade é paciente, a caridade é bondosa. Não tem inveja. A caridade não é orgulhosa. Não é arrogante. Nem escandalosa. Não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1 Cor 13, 4-7).

    Se lançarmos um olhar sobre a vida de Nosso Senhor Jesus Cristo, em diversas passagens do Evangelho, encontraremos n’Ele o modelo perfeitíssimo de caridade, dirigindo-se a Deus como Senhor e Pai, a Quem obedece e faz a vontade. Um tocante exemplo dá-se na Ceia derradeira, onde o Salvador faz uma oração ao Pai celeste, expressando o seu forte amor por Ele (Cf. Jo 17). Sua total aceitação em fazer a vontade do Pai está em sua súplica no Getsêmani: “Meu Pai, se é possível, afasta de mim este cálice! Todavia não se faça o que eu quero, mas sim o que tu queres” (Mt 26, 39). E no momento da Ressurreição, ainda diz: “Subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus” (Jo 20, 17).

    Ora, este amor que Ele devotava ao Pai também se estendia aos pecadores, os quais eram também os seus próximos: “Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores” (Mt 9, 13). Jesus Cristo, portanto, assumindo todas as contingências de um corpo padecente, estava disposto a percorrer todas as cidades, aldeias e povoados em busca das almas que necessitavam de sua ajuda, beneficiando-as ao máximo. Não obstante entregou sua própria vida, de uma maneira ignominiosa, tendo como único objetivo nos resgatar e obter a nossa salvação eterna.

    “Esse amor em Nosso Senhor Jesus Cristo é sobre todas as coisas. Porque Nosso Senhor Jesus Cristo amou o Pai e amou-nos até a morte de Cruz. Ele se entregou à morte, Ele se entregou à flagelação, Ele se entregou à Via Crucis, Ele se entregou à crucifixão por amor ao Pai e por amor a nós. Então, esta caridade, este amor não está à procura de nenhuma recompensa, de nada, é sobre todas as coisas e disposto a abandonar tudo!”4

    Ademais, o Divino Redentor não se importou com todas as ingratidões e traições – sobretudo da parte dos mais íntimos – presentes ao longo de toda a sua vida pública. O que fizeram os Apóstolos no momento auge da Paixão? Fugiram (Cf. Mt 26, 56). Do mesmo modo, com que ingratidão São Pedro, São Tiago e São João responderam a Jesus na hora da agonia, no Horto das Oliveiras, por todo o bem que lhes havia feito? Com um sono profundo (Cf. Mt 26, 40), justo na hora em que Ele mais precisava de um apoio. Contudo, a atitude do Salvador foi a de aumentar ainda mais o seu amor por todos, a ponto de, no alto da Cruz, rogar a Deus que tivesse misericórdia de seus algozes: “Pai, perdoa-lhes; porque não sabem o que fazem” (Lc 23, 34).

    “Que todos sejam um”

    E é a esta perfeição de amor ao próximo que Nosso Senhor nos convida, determinando o nível que a caridade deve atingir: “Para que todos sejam um, assim como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, para que também eles estejam em nós e o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 17, 21). Portanto, Ele deseja que em nós haja um amor e uma união análogos ao que há na Santíssima Trindade.

    Desta forma, compreendemos que o amor ao próximo deve ser primeiramente coroado pelo amor a Deus, colocando-O no centro de todo e qualquer ato fraterno:

    “Assim como a água verdadeiramente pura não é aquela que nasce nos vales sombrios, mas aquela que, saída do mais profundo das entranhas da terra, se eleva até o cume dos montes, de onde brota em veios cristalinos, assim também a verdadeira caridade não é o sentimento que tem sua origem nas afeições naturais, transitórias e caprichosas dos homens uns pelos outros, mas sim o amor que, saído do mais profundo do coração humano, se eleva a Deus, e de lá, em veio límpido e cristalino, desce, como do alto de uma montanha, sobre todas as criaturas.”5

    Pela mesma razão, ainda podemos afirmar que quem não tem amor ao próximo, não possui verdadeiro amor a Deus, e quem não ama a Este não tem real amor àquele, pois ambos são indissociáveis entre si: “É impossível separar o amor sobrenatural ao próximo do amor de Deus, porque quem ama verdadeiramente a Deus, não pode deixar de amar o que Deus ama, e é sabido quanto Deus ama a todos os homens, a quem criou para o céu e a quem remiu com o preço de seu sangue”.6 São João, em uma de suas epístolas, também foi muito categórico ao asseverar esta verdade: “Se alguém disser: ‘Amo a Deus’, mas odeia seu irmão, é mentiroso. Porque aquele que não ama seu irmão, a quem vê, é incapaz de amar a Deus, a quem não vê. Temos de Deus este mandamento: o que amar a Deus, ame também o seu irmão” (1 Jo 4, 20-21).

    E este amor aos irmãos deve ser desinteressado, isento de qualquer egoísmo, sem caprichos e apegos. Ou seja, por obrigação, o zelo fraterno tem de abarcar não só àqueles a quem se estima, mas também aos que se tem antipatias. Procurar, portanto, favorecer a todos e auxiliá-los na prática da virtude e da santidade, visando a sua salvação eterna.

    Assim, a nossa atitude em relação aos demais deve ser de atenuar os defeitos alheios, perdoar todas as injúrias que nos são feitas e suprimir de nossas almas nossos próprios defeitos, os quais constituem empecilhos em nosso organismo espiritual, dificultando o bom progresso na prática da caridade fraterna.

    “[…] Essa caridade deve ser praticada, eliminando os apegos, os amores estúpidos, humanos e egoístas, os amores-próprios, as ideias erradas que me levam a amar aquilo que não devo, etc. Tudo isto constitui obstáculos que eu preciso eliminar, que eu preciso pulverizar, que eu preciso tornar inteiramente inertes e anulados dentro da minha alma. Porque, sem tirar os obstáculos, esse amor não cresce em mim, os apegos me fazem diminuir nesse amor.”7

    Ao progredir nesse amor fraterno, pode-se atingir píncaros inimagináveis, a ponto de operar naquele que o pratica uma disposição tal que, se for preciso, sacrifica a própria vida pelos outros, a exemplo de Nosso Senhor e que nos ensinou: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos” (Jo 15, 13).

    1 SANTA CATARINA DE SENA. Op. cit. p. 39.
    2 Cf. ROYO MARÍN, Antonio. Teología de la caridad. Op. cit. p. 363-364.
    3 Loc. cit.
    4 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Homilia do Domingo, da XXX Semana do Tempo Comum. Caieiras, 26 out. 2008. (Arquivo IFTE).
    5 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. A verdadeira caridade. In: Revista Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei, n. 19, out. 1999. p. 12.
    6 GONZALEZ Y GONZALEZ, Emílio. A perfeição cristã. Porto: Figueirinhas, [s.d.]. p 340-341.
    7 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Homilia do Domingo, da XXX Semana do Tempo Comum. Op. cit.

    A herança espiritual de João Paulo II

    Papa João Paulo IIMadre Mariana Morazzani Arráiz, EP

    Terna devoção a Nossa Senhora em todos os momentos da vida e um comovedor apelo à Santidade estão no cerne da herança espiritual deixada pelo Papa João Paulo II.

    O Papa do Rosário, o Papa da Eucaristia, o Papa de Nossa Senhora de Fátima, o Papa da Consagração a Maria, o Papa impulsionador da santidade, o Papa dos movimentos leigos, o Papa da oração — são alguns títulos que caberiam a João Paulo II. Tantos são os aspectos de seu rico pontificado que alguns receberam menor atenção, e aqui pretendemos lembrá-los.

    Misericórdia e escapulário do Carmo

    Terá sido por mera coincidência que João Paulo II faleceu após haver assistido a uma Missa da Festa da Divina Misericórdia?

    Ora, foi ele um incentivador dessa devoção, canonizando santa Faustina Kowalska — a vidente polonesa falecida em 1930 — e reservando o segundo domingo da Páscoa para essa festa. Jesus pedira sua instauração nessa data, na qual perdoaria todas as culpas e penas para quem se confessasse e comungasse.

    Mas esta não é a única “coincidência”. Também é digno de nota que ele tenha morrido num sábado — dia relacionado com o escapulário de Nossa Senhora do Carmo —, e por sinal primeiro sábado do mês, o que nos fala dos pedidos da Santíssima Virgem em Fátima. João Paulo II usava o escapulário, que recebera quando era ainda menino.
    Bendito Rosário de Maria

    Era também intimamente relacionado com as aparições de Maria aos Três Pastorinhos, chegando a atribuir sua milagrosa sobrevivência ao atentado de 1981 à proteção da Virgem de Fátima. Teve em alta consideração as palavras de Maria, classificando-as de “extraordinária mensagem”, que “continua a ressoar com toda a sua força profética, convidando todos à constante oração, à conversão interior e a um generoso empenho de reparação dos próprios pecados e daqueles de todo o mundo”. Mas não é possível falar de Fátima sem recordar a devoção de João Paulo II ao Rosário. Já as primeiras fotografias dele, difundidas nos anos iniciais de seu pontificado, mostravam-no amiúde de terço em punho. Uma de suas últimas iniciativas foi declarar o Ano do Rosário e publicar a Carta Apostólica “Rosarium Virginis Mariae”, acrescentando os “Mistérios Luminosos” a esta devoção. Fez sua a comovente súplica do Beato Bártolo Longo: “Ó Rosário bendito de Maria, doce cadeia que nos prende a Deus, vínculo de amor que nos une aos Anjos, torre de salvação contra os assaltos do inferno, porto seguro no naufrágio geral, não te deixaremos nunca mais. Serás o nosso conforto na hora da agonia. Seja para ti o último ósculo da vida que se apaga”.

    Fé e entusiasmo pela Eucaristia

    Contudo, seu relacionamento com a Virgem tinha fundamento ainda mais sólido. Quando jovem seminarista, consagrara-se a Ela como “escravo de amor”, segundo a espiritualidade de São Luís Maria Grignion de Montfort. Ao se tornar Papa, incluiu no seu brasão o lema Totus Tuus (Sou todo Teu), para significar essa consagração.

    Relacionada com a devoção marial está a devoção à Eucaristia, como João Paulo II afirmou na Carta Apostólica “Mane nobiscum Domine”. Neste documento, insistiu na importância da Adoração eucarística, durante a qual devemos reparar “as negligências, esquecimentos e até ultrajes que o nosso Salvador Se vê obrigado a suportar em tantas partes do mundo”. Em 7 de outubro de 2004, o mundo pôde contemplá-lo constantemente ajoelhado durante a Missa e a hora de Adoração, no lançamento do Ano da Eucaristia. É fácil imaginar o quanto isto custou de sofrimento a seu debilitado organismo. Entretanto, quis ele nos dar esse magnífico exemplo de entranhada devoção eucarística.

    Desejava ele “alimentar a fé e o entusiasmo” pela Eucaristia, vendo-a homenageada, venerada, adorada nos espaços públicos: “A fé neste Deus que, tendo se encarnado, fez-se nosso companheiro de viagem, seja proclamada por toda parte, particularmente pelas nossas ruas e nas nossas casas, como expressão do nosso amor agradecido e fonte inexaurível de bênção”.

    Ostentar sem respeito humano os sinais da Fé

    Com agudo discernimento, percebeu a ação do Espírito Santo nos numerosos movimentos e associações leigas que surgiram um pouco por toda parte, trazendo novos carismas e novos métodos de apostolado para a Igreja. Para o Papa, eles constituem “uma ajuda preciosa em favor de uma vida cristã coerente com as exigências do Evangelho e de um empenhamento missionário e apostólico”. Na Encíclica “Redemptoris missio”, recomendava que esses movimentos crescessem “sobretudo entre os jovens”.

    E foi especialmente aos jovens que ele dirigiu as palavras “não tenhais medo!”, bradadas na primeira Missa dominical como Papa, em 22 de outubro de 1978. Muito se escreveu sobre o real significado desse apelo, mas João Paulo II mesmo se encarregou de esclarecer seu sentido: um apelo à santidade, ao testemunho e à evangelização. Muitas vezes bradaria depois: “Não tenhais medo de ser santos!”

    “Neste Ano da Eucaristia — escreveu na “Mane nobiscum, Domine” — haja um empenho, por parte dos cristãos, de testemunhar com mais vigor a presença de Deus no mundo. Não tenhamos medo de falar de Deus e de ostentar sem vergonha os sinais da fé.”

    Ensinou também pelo exemplo pessoal

    João Paulo II nos deu o exemplo. Não teve medo de enfrentar os males de hoje, reafirmando a doutrina perene da Igreja contra o aborto, a eutanásia e o relativismo moral; defendendo os valores da família e a dignidade do ser humano; pregando a prática da castidade, como naquele memorável dia no Estádio Nakibubo, em Uganda, em 1993, quando disse aos jovens: “A pureza de costumes, disciplinadora da atividade sexual, é o único modo seguro e virtuoso para pôr fim à trágica praga da Aids, que tem ceifado tantos jovens”.

    Mostrava o Papa que, apesar de toda a pressão em contrário, a castidade é uma virtude acessível a todos.

    É bom saber: Uganda é o único país da África onde a batalha contra a Aids está sendo vencida. Qual a fórmula do sucesso? A prática da castidade, estimulada pelo governo, tal qual o Papa havia aconselhado.

    Que aqueles que formarão o mundo do futuro não se esqueçam jamais do apelo de João Paulo II, feito a eles durante a Jornada da Juventude de 2000: “Jovens de todos os continentes, não tenhais medo de ser os santos do novo milênio!”

    Isaías, o Príncipe dos Profetas

    IsaiasMadre Mariana Morazzani Arráiz,EP

    Oito séculos antes, ele anunciou com tantos pormenores a vinda do Messias, que um comentarista chega a afirmar: “Isaías escreveu antecipadamente o Evangelho.

    Grandiosa é a cena da visão que teve Isaías, no ano 740 antes de Cristo. Deus está sentado num elevado trono, no Templo; junto d’Ele, os Serafins cantam: “Santo, santo, santo é o Senhor Deus do universo! A terra inteira proclama sua glória!” A este brado, as portas estremecem em seus gonzos e o recinto enche-se de fumaça.

    Ele grita: “Ai de mim! Estou perdido porque sou um homem de lábios impuros, e, entretanto, meus olhos viram o Senhor dos exércitos!” Um dos serafins, porém, aplica-lhe na boca uma brasa viva, dizendo: “Tendo esta brasa tocado teus lábios, teu pecado foi tirado, e tua falta, apagada”.

    Nesse instante, ouve ele a voz do Senhor que pergunta: — Quem enviarei Eu? E quem irá por nós?

    — Eis-me aqui, enviai-me — prontificou-se ele.

    Deus o enviou, e ele transmitiu com fidelidade a palavra do Altíssimo para o povo eleito e todas as nações da terra.

    “Apóstolo” e “Evangelista”

    Quase nada relata a Escritura Sagrada sobre a vida de Isaías. Sabe-se apenas que era de nobre família, casou-se e teve, pelo menos, dois filhos aos quais deu nomes carregados de mistério e simbolismo: Sear-Iasub (Um-resto-voltará) e Maher-Shalat-Hash-Baz (Pronto-saque-próxima-pilhagem).

    Entretanto, suas palavras e seu nome ressoam em incontáveis passagens do Novo Testamento. Tudo quanto dizem os outros profetas sobre o Reino universal de Deus, a ser instaurado pelo Messias, está de alguma forma contido no livro de Isaías, e com tanta clareza e amplitude que São Cirilo não hesita em dar-lhe o qualificativo de “apóstolo”, e São Jerônimo de “evangelista”.

    Profeta messiânico por excelência

    De todos os profetas — são 17 os que deixaram obra escrita — nenhum fez o relato completo da vinda do Redentor. Cada um deu sua contribuição parcial para a formação do grandioso conjunto. Seus oráculos se fizeram ouvir sobretudo sob os reis de Judá e na época do Cativeiro de Babilônia, mas a obra só ficou concluída com Malaquias, o derradeiro dos profetas. E quando no deserto o Precursor indicou aos judeus “o Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo” (Jo 1,29), ficou dita a última palavra: estava presente o Simbolizado, Jesus de Nazaré; as expressões simbólicas não mais tinham razão de ser.

    Entretanto, quem mais contribuiu para a construção desse magnífico edifício profético foi Isaías, a ponto de poder ele ser considerado o profeta messiânico por excelência.

    Tudo quanto havia de bom na humanidade clamava a Deus, implorando a vinda do Redentor. Isaías exprime, em forma de oração, esse ardente desejo: “Derramai das alturas, ó Céus, o vosso orvalho, e as nuvens façam chover o Justo; abra-se a terra e brote a felicidade e ao mesmo tempo faça germinar a justiça” (45, 8).

    E é ele ainda quem declara que Jesus será da estirpe de Davi, cujo pai era Jessé: “Um ramo novo sairá do tronco de Jessé, e um rebento brotará de suas raízes. Sobre ele repousará o Espírito do Senhor (…) o rebento de Jessé, posto como estandarte para os povos, será procurado pelas nações e gloriosa será sua morada” (11, 1-10).

    Narração antecipada do Evangelho

    Quando o Arcanjo Gabriel saudou a Virgem Maria na humilde casa de Nazaré, cumpriu-se uma das mais importantes profecias de Isaías: “Uma virgem conceberá e dará à luz um filho, e o chamará Deus Conosco” (7, 14).

    Em termos poéticos, anuncia ele, com oito séculos de antecedência, a entrada do Messias neste mundo: “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz; sobre aqueles que habitavam uma região tenebrosa resplandeceu uma luz” (9, 1). Previsão cujo cumprimento São João comprova em seu Evangelho, empregando os mesmos vocábulos: “A luz resplandece nas trevas (…) a verdadeira luz que, vindo ao mundo, ilumina todo homem” (Jo 1, 5 e 9).

    São Lucas relata como o próprio Jesus confirma que em sua Pessoa Divina se cumpriam os oráculos desse grande profeta:

    “Dirigiu-se a Nazaré, onde se havia criado. Entrou na sinagoga em dia de sábado, segundo seu costume, e levantou-se para ler. Foi-lhe dado o livro do profeta Isaías. Desenrolando o livro, escolheu a passagem onde está escrito: ‘O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu; e enviou-me para anunciar a boa nova aos pobres, para sarar os contritos de coração, para anunciar aos cativos a redenção, aos cegos a restauração da vista, para pôr em liberdade os cativos, para publicar o ano da graça do Senhor’. E enrolando o livro, deu-o ao ministro e sentou-se; todos quantos estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele. Ele começou a dizer-lhes: Hoje se cumpriu este oráculo que vós acabais de ouvir” (Lc 4, 16-21 – Is 61, 1-2).

    Não menos categóricas são suas previsões a respeito da Paixão e Morte do Salvador: “Ele foi castigado por nossos crimes, e esmagado por nossas iniquidades (…) como um cordeiro que se conduz ao matadouro, e uma ovelha muda nas mãos do tosquiador, Ele não abriu a boca. Por um iníquo julgamento foi arrebatado. (…) ao morrer, achava-se entre malfeitores” (53, 5-9).

    Ao ler tudo isso, não se pode deixar de concordar com a afirmação de um comentarista: “Isaías escreveu antecipadamente o Evangelho”.

    Aspecto importante das profecias

    Entretanto, as profecias não se limitam à vinda do Filho de Deus, sua Paixão, Morte e Ressurreição. Elas abrangem também a fundação e a expansão de sua Igreja, construída sobre a rocha inabalável.

    No próprio dia de Pentecostes, a Igreja de tal forma brilhou diante de numerosos judeus, que foram batizadas três mil pessoas só nessa ocasião.

    Deve ela, entretanto, resplandecer muito mais, na terra inteira. São bem ilustrativos, a este respeito, os dois trechos abaixo, de Isaías:

    “No fim dos tempos, acontecerá que a montanha da casa do Senhor estará colocada no cume das montanhas. Todos as nações acorrerão para ela, e virão numerosos povos, dizendo: Vinde, subamos à montanha do Senhor, à casa do Deus de Jacó; ele nos ensinará seus caminhos, e nós trilharemos as suas veredas” (2, 1-3).

    O profeta se vale da realidade conhecida (o monte do Templo, em Jerusalém), como símbolo para exprimir aquilo que lhe é revelado: na era messiânica, a montanha da casa do Senhor (a Igreja Católica) estará estabelecida “no cume das montanhas”, isto é, colocada em posição de ser vista e reconhecida por todas as nações da terra. Pelo esplendor de sua luz, ela atrairá a si todos os povos e lhes ensinará o caminho da salvação.

    Mais adiante, novo oráculo mostra o imenso amor de Deus pela sua Igreja, a qual Ele recobrirá dos mais preciosos ornamentos da santidade, simbolizados da seguinte forma: “Eis que eu alinharei tuas pedras e te edificarei em pedras de jaspe, sobre alicerces de safira. Farei tuas portas de cristal, e de pedras preciosas todo o teu recinto. Todos os teus filhos serão instruídos pelo Senhor” (54, 11-13).

    De que modo, e quando, se cumprirão por inteiro essas profecias? Não se referem elas ao triunfo do Imaculado Coração anunciado por Nossa Senhora em Fátima?

    O santo que transformou Viena

    schonbrunn1Irmã Carmela Werner Ferreira, EP

    São Clemente Maria Hofbauer

    Deus é admirável nos seus santos”, diz com sabedoria um secular canto litúrgico. E, de fato, onde poderemos distinguir com maior facilidade o braço poderoso do Altíssimo do que nas figuras incomparáveis de Seus justos e eleitos? Representantes de todas as raças, povos e condições sociais, em suas pessoas pulsa a força do evangelho, brilha a luz da virtude e se torna realidade o título de nossa Santa Igreja, uma vez que a chamamos Católica porque essa palavra quer dizer “universal”.

    Sempre que nos aprofundamos no conhecimento da alma de um bem-aventurado, deparamos invariavelmente com admiráveis reflexos da pessoa adorável de Jesus, que ali encontrou correspondência à voz de Sua graça: “Se alguém Me ama, guardará a minha palavra e meu Pai o amará, e Nós viremos a ele e nele faremos a nossa morada” (Jo 14, 23). Nesse sentido, o Santo Padre Bento XVI nos ensina: “Cada santo que entra na História já constitui uma pequena porção do retorno de Cristo, um novo ingresso d’Ele no tempo, que nos mostra Sua imagem de um novo modo e nos deixa seguros de Sua presença”1.

    Um luzeiro para o norte da Europa

    Numa manifestação de imensa bondade, Deus suscitou no intrincado período de passagem do século XVIII para o XIX grandes homens segundo o Seu coração, que empunharam corajosamente a chama da caridade. Foram santos tão modelados segundo as máximas do Evangelho que quase diríamos terem seguido pessoalmente as pegadas do Mestre nas míticas paragens de Israel.

    São_Clemente_HofbauerÉ entre tais heróis que encontramos São Clemente Maria Hofbauer, um dos gloriosos padroeiros de Viena, suscitado pelo Senhor para transformar a sociedade de seu tempo com as simples armas do fervor e da oração.

    Nosso Santo veio ao mundo em Tasswitz, pequena aldeia rural, hoje pertencente à República Checa, situada a cem quilômetros ao norte de Viena. Levado à pia batismal no mesmo dia de seu nascimento, 26 de dezembro de 1751, recebeu o nome de João Evangelista. Sua humilde família foi abençoada com doze filhos, entre os quais João era o nono.

    Apesar das muitas dificuldades enfrentadas pelos pais, reinava naquele lar cristão um grande zelo pela Lei de Deus, no cumprimento da qual todas as crianças foram formadas. Quando a morte arrebatou a vida do chefe da família Hofbauer, a mãe de Clemente — seu nome de religioso, com o qual passou para a História — levou-o aos pés do crucifixo da paróquia e lhe disse: “Meu filho, a partir de agora, é Ele o teu pai. Cuida de andar sempre pelos caminhos que são do Seu agrado”. Tinha ele, por essa época, apenas sete anos.

    Discípulo sem mestre

    Assim se descortinaram para São Clemente, em tão tenra idade, os grandes obstáculos da vida a serem vencidos. Encontramo-lo ainda criança como aprendiz de padeiro, e na adolescência como auxiliar no refeitório da abadia premonstratense de Klosterbruck. Ansiava ele pela vida consagrada, sem discernir claramente sua vocação específica nem possuir meios para trilhar esta sublime via. Pode-se dizer que toda a sua juventude foi uma incessante busca pelos desígnios divinos a seu respeito.

    Sem se sentir chamado a ser um dos filhos de São Norberto, junto aos quais trabalhou com dedicação e aprendeu as primeiras letras, partiu o jovem de 24 anos para um local retirado em Mühlfrauen e viveu aí como eremita por um ano.

    Num paradoxal trajeto forçado pelas circunstâncias e permitido por Deus, teve de abandonar sua ermida e voltar aos trabalhos de panificação, para depois retomar a vida de absoluto recolhimento e oração, quando retornava de uma peregrinação a Roma. Encantou-se nesta circunstância com os ermitões de Tívoli, aos quais se uniu com alegria por um fecundo período.

    Pode parecer surpreendente que um santo tão chamado ao apostolado e à pregação quanto São Clemente tenha passado metade da vida sem descobrir sua vocação, e longos períodos em completo silêncio e isolamento. Mas Deus nada faz de muito grande repentinamente, nem confia Seus superiores desígnios a homens pouco experimentados nas vias espirituais. Nos períodos de trabalho como padeiro ou de recolhimento e solidão, germinava na alma do humilde camponês a semente de uma transformadora santidade, a qual só cresce à sombra da piedade e só frutifica na proporção da solidez de suas raízes.

    A força de um novo carisma

    Seu desejo de se tornar sacerdote intensificou-se na vida eremítica. Convencido interiormente de que chegara o momento, São Clemente partiu rumo a Viena, onde tinha esperanças de começar os estudos eclesiásticos. Ali, três nobres damas se compadeceram dele e pagaram suas despesas, o que lhes mereceu para sempre a gratidão do santo e as copiosas bênçãos de Deus.

    Após um período em Viena, São Clemente partiu outra vez para a Cidade Eterna, desejando completar sua formação teológica. Grande foi sua consolação quando lá conheceu, com um companheiro de viagem, Tadeu, os sacerdotes da Congregação do Santíssimo Redentor, a instituição fundada havia pouco por Santo Afonso de Ligório. Já no primeiro contato, sentiu que estavam encerrados os anos de incessante procura: Deus o chamava para ser redentorista, e não deixava lugar para dúvidas.

    Era o ano de 1784, e o venerando fundador, próximo já dos noventa anos, passava os dias sofrendo e rezando por seus filhos. Quando soube do ingresso desses dois virtuosos jovens germânicos no noviciado, Santo Afonso consolou-se sobremaneira e fez esta impressionante profecia: “Não duvideis, a Congregação há-de durar até o dia do Juízo, porque não é obra minha, mas de Deus. Enquanto eu viver, ela continuará na obscuridade e nas humilhações; depois da minha morte, porém, ela estenderá suas asas, sobretudo nos países do Norte. Estes padres farão muito pela glória de Deus2. Não se enganava o eminente Doutor da Igreja, pois a grandiosa expansão dos padres redentoristas pelo mundo deveu-se em larga medida ao impulso inicial dado por aquele novo filho, um dos consolos de sua ancianidade.

    Ergue-se a chama do fervor

    Os abençoados dias de noviciado foram de imenso valor para São Clemente, que teve a alma modelada segundo o espírito do fundador e o carisma da ordem. Sua profissão religiosa não tardou muito, e a ansiada ordenação sacerdotal se deu no dia 29 de março de 1785, quando contava 34 anos de idade. Logo ele se transformou, à imagem de Jesus, no bom pastor que dá a vida por suas ovelhas.

    Os superiores enviaram-no para além dos Alpes, incumbindo-o de atividades missionárias junto aos pobres. Seu trabalho apostólico iniciou-se em Varsóvia, onde lhe foi confiada a Igreja de São Beno, nessa época completamente abandonada. O triste estado material do templo bem representava o desamparo espiritual das almas que na cidade viviam, afundadas na indiferença e tibieza, sem instrução religiosa nem vida sacramental.

    São Clemente tinha consciência do perigo que corria aquele rebanho, e lançou-se com ardor na obra de evangelização. Começou com os meninos abandonados, para os quais fundou uma escola nas próprias dependências de São Beno. Compadecia-se da ignorância geral sobre as verdades da Fé, tanto entre o povo humilde como entre as pessoas ilustres; para solucionar esse problema, pregava constantemente. Aos poucos, o singular sacerdote ia vencendo a inércia espiritual. Crianças, jovens, operários, damas e cavalheiros, todos sem exceção, lotavam a igreja para ouvir suas palavras cheias de unção, capazes não apenas de convencer, mas também de mover os corações para as vias da santidade.

    Necessidades supremas, remédios extraordinários

    Durante os vinte anos de sua permanência na Polônia, as atividades realizadas na comunidade de São Beno foram o foco de uma imensa transformação, duradoura e eficaz. Para a obtenção desse êxito, o principal recurso do santo, o mesmo que usou depois em Viena, foi simples e digno de nota: tratou ele de revestir de beleza e magnificência todas as cerimônias litúrgicas, estimulando nas almas o senso do sagrado. “As solenidades públicas atraem por seu esplendor e aos poucos cativam o povo, o qual ouve mais com os olhos do que com os ouvidos3, costumava dizer.

    Com efeito, São Clemente revestia de preciosos ornatos o recinto sagrado, particularmente nos dias festivos. Os paramentos, os cânticos, o cerimonial impecável, tudo concorria para que se revelasse aos olhos dos assistentes a pulcritude da Santa Igreja, a Esposa Mística de Cristo “toda gloriosa, sem mácula, sem ruga, sem qualquer outro defeito semelhante, mas santa e irrepreensível” (Ef 5, 27).

    Acompanhemos a sua própria narrativa do que então se realizava num único dia na igreja dos redentoristas:

    Aos domingos e dias santos, às cinco horas da manhã há instrução para os operários e empregados, que não podem ouvir, em outra hora, a palavra divina, havendo em seguida uma Missa para eles […]. Todos os dias há uma Missa às seis horas com exposição do Santíssimo, durante a qual o povo canta, havendo em seguida uma instrução ao povo em polonês. Durante a instrução celebram-se Missas para aqueles que não compreendem alemão nem polonês. Às oito horas, Missa cantada a cantochão com uma pregação em polonês, e logo em seguida uma outra em alemão. Terminada essa instrução os meninos da escola vão à igreja, onde começa a Missa solene com a grande orquestra: assim encerra-se o culto da manhã.

    Depois do meio-dia: aos domingos e dias santos há catecismo para as crianças às duas horas; às três horas as irmandades cantam o Ofício Parvo de Nossa Senhora; às quatro horas há pregação para os alemães, seguida de Vésperas Solenes. Terminadas estas, uma pregação em polonês e enfim a visita ao Santíssimo Sacramento e a Nossa Senhora segundo o método do venerável Servo de Deus, Afonso de Ligório. Nos dias úteis os exercícios da tarde começam só depois da aula. Todos os dias às cinco horas da tarde há pregação em alemão, visita ao Santíssimo e em seguida outra pregação em polonês, via-sacra e cânticos sacros em louvor de Jesus Sacramentado e da Santíssima Virgem; rematando tudo, se faz com o povo o exame de consciência, rezam-se os atos cristãos, procede-se à leitura da vida do Santo cuja festa a Igreja celebra no dia seguinte, e por fim a Ladainha de Nossa Senhora, findo o que fecha-se a igreja”4.

    Essa impressionante atividade apostólica, que alguns qualificavam de exagerada, não era suficiente para atender todos os fiéis, pois muitos tinham que se contentar com a assistência do lado de fora. Tampouco esgotava o desejo que São Clemente sentia de fazer o bem, e representa apenas uma parcela de seu apostolado. Dedicava-se ademais à formação dos noviços, à fundação de novas casas da Congregação, às obras de caridade, à imprensa católica… Não é fácil, senão impossível, enumerar todos os benefícios que brotaram de seu insaciável coração.

    O apóstolo de Viena

    Eram dias difíceis para a liberdade religiosa aqueles do final do século XVIII. As novas instituições não eram vistas com bons olhos, o que levou o rei Frederico Augusto da Saxônia a assinar um decreto de expulsão dos redentoristas de Varsóvia. Apesar do grande sofrimento, mas com cristã resignação, São Clemente partiu da Polônia com os seus. Ele soube ver aí um sinal da Providência: “Deus é o Senhor que dirige tudo para a Sua glória e o nosso bem; quem se levanta contra nós, leva-nos para onde Deus quer5.

    Foi deste modo que a comunidade se dispersou e ele chegou a Viena em 1808. Restavam-lhe os últimos 12 anos de vida, nos quais transformaria a cidade imperial. A princípio trabalhou na igreja dos italianos, até que foi como capelão para o convento das ursulinas. Lá, iniciou a pregação e o apostolado que atraía milhares de pessoas, especialmente jovens e intelectuais. Os versados em ciência viam nele uma luz superior a seus próprios conhecimentos, e se deixavam instruir pelo sacerdote que os conduzia para a Fé. Não passava uma única semana sem que ele levasse a cabo alguma grande conversão.

    Eis uma amostra da impressão causada por suas pregações: “Ele prega como alguém que tem poder. O poder da sua vocação vem da força da sua Fé, que se acha como que encarnada nele e se expressa em cada feição do seu rosto e em cada um dos seus movimentos6”. Disse outra testemunha: “Nunca vi alguém que soubesse tornar o cristianismo tão amável, como ele. Durante suas pregações penso muitas vezes que deve ter sido assim que pregaram os apóstolos7”.

    Triunfal glorificação

    Não havia entre os católicos quem não conhecesse e estimasse o padre Clemente: as crianças, que o seguiam por todas as partes; os necessitados e doentes, que o tinham sempre à cabeceira como insuperável consolo; os jovens, que enchiam sua casa para serem formados nos mais nobres princípios cristãos; e os grandes aos olhos do mundo, os quais perto de São Clemente tornavam-se como crianças junto a seu pai.

    tumulo_SCHofbauerQuando ele morreu, em 15 de março de 1820, uma enorme multidão veio prestar sua última homenagem ao pastor insuperável que o Senhor e Sua Mãe lhes enviaram. Era o início da glorificação do Servo de Deus, cuja memória haveria de figurar não só entre os homens, mas, sobretudo, no Coração de Deus. O irmão que salva seu irmão salva sua própria alma, e brilhará no Céu como um Sol por toda a eternidade.

    1) Discurso de Bento XVI à Cúria Romana em 21 de dezembro de 2007.
    2 ) Apud AZEREDO, Oscar Chagas. São Clemente Maria Hofbauer. Aparecida: Livraria Nossa Senhora Aparecida, 1926, p. 3.
    3 ) Apud AZEREDO. Ibidem, p. 50.
    4) Apud AZEREDO. Ibidem, pp. 47-48.
    5 ) Apud AZEREDO. Ibidem, p. 85.
    6 ) HEINZMANN, Josef. Vida de São Clemente Hofbauer. Aparecida: Santuário, 1988, p. 169.
    7) Ibidem, pp. 168-169.

    O conde que se tornou pregador

    São_NorbertoIrmã Clara Isabel Morazzani Arráiz,EP

    São Norberto de Magdeburgo

    Ao ser derrubado do cavalo por um raio, como São Paulo, o vaidoso conde abandonou radicalmente os costumes mundanos. Desde aquele momento, transformou-se em pedra de escândalo e varão de contradição.

    A velha catedral de Colônia acolhia naquela ocasião grande número de fiéis que se acotovelavam ao longo da ampla nave, disputando espaço para assistir ao ato que em breve iria começar. Corria o ano de 1115, provavelmente no mês de dezembro, e naquele dia, o arcebispo Frederico ia conferir a vários jovens a ordem do presbiterato. A cerimônia iniciou-se com esplendor, em meio à luz de incontáveis círios.

    Bem à frente dos assistentes, chamava a atenção de todos o conde de Gennep, luxuosamente ataviado, com as insígnias de sua alta posição. Muitos ali conheciam sua vida leviana e vaidosa, e estranhavam vê-lo agora em atitude tão recolhida. Um murmúrio de admiração percorreu a assembléia quando, tendo sido chamados os ordinandos, também ele se levantou e foi colocar-se ao lado destes. Mas o jovem aristocrata, imperturbável, fez sinal a um dos seus servidores e este lhe apresentou uma rude túnica de peles. O conde, desfazendo-se de suas ricas roupagens, vestiu aquele hábito de penitência. Era a reparação pública pela vida mundana que até então levara.

    Depois, subindo ao presbitério, recebeu sucessivamente o diaconato e o presbiterato. O brilhante fidalgo transformava-se em humilde servo de Jesus Cristo; interiormente revestido da sublime dignidade sacerdotal e, no exterior, à imitação de João Batista, da pobreza daquela veste singular.

    A vaidade abafa uma vocação

    Norberto, filho primogênito de Heriberto, conde de Gennep, nasceu em 1080, na cidade de Xanten, Alemanha. Seus pais almejavam para ele a carreira eclesiástica, pois fora revelado à piedosa condessa Hedwiges que seu filho seria um grande prelado e prestaria relevantes serviços a Deus.

    Mas, desde cedo, o menino começou a manifestar tendências mundanas e ambiciosas que contrariavam os piedosos desejos paternos. A aguda inteligência de Norberto e sua facilidade em assimilar tudo quanto lhe era ensinado talvez tenham contribuído para acentuar nele uma inata inclinação para a vaidade. Com efeito, uma rara eloqüência e notáveis qualidades literárias conferiam grande atração à sua pessoa, e isso não poderia deixar de ensoberbecer um jovem principiante como ele.

    Ambição e prestígio na corte

    Terminados os estudos, Norberto recebeu a ordem do subdiaconato. Depois disso, sua ascensão foi rápida. Junto ao príncipe-arcebispo de Colônia, iniciou-se nas questões diplomáticas. Pouco tempo depois, transferiuse para a corte do rei da Alemanha, Henrique V. A personalidade irradiante e os modos graciosos do jovem conde chamaram a atenção do soberano, que o nomeou conselheiro de Estado. Norberto movia-se com desembaraço nos luxuosos cenários das intrigas palatinas, deixando todos admirados com seu talento e superioridade de espírito.

    O prestígio de que gozava permitia-lhe acariciar sonhos para o futuro, dando vazão a um orgulho que só tendia a crescer e a dominar sua alma. Pouco a pouco, a influência do ambiente mundano ia amolecendo sua natural seriedade e tornando levianos seus costumes.

    Entretanto, aquele despreocupado clérigo, tão esquecido de seus deveres religiosos, conservava ainda sentimentos de piedade que lhe aguilhoavam a consciência, provocando em sua alma a insatisfação própria daqueles a quem Deus reserva um chamado ad maiora.

    Um sacrilégio choca a alma de Norberto

    Em 1110, Henrique V viajou para Roma, a fim de ser coroado imperador pelo Papa. Norberto o acompanhou, junto com outros dignitários e um numeroso exército. Já na Cidade Eterna, o imperador se desentendeu com o Papa e deu ordem a seus soldados de arrancar-lhe os paramentos e as insígnias e levá-lo prisioneiro.
    Norberto sofreu um choque ao presenciar aquela cena sacrílega. Na mesma noite, foi prostrar-se aos pés do Pontífice preso, implorando perdão. Era o primeiro passo do filho pródigo na estrada que o traria de volta à casa paterna.

    A luta interior

    A partir daquele momento, a voz da graça passou a falar com maior veemência no seu interior e ele começou a dar-lhe ouvidos. De volta à Alemanha, após a libertação do Papa, Norberto permaneceu na corte por mais alguns anos, até que, em 1115, Henrique V acabou sendo excomungado.

    Por fidelidade à Santa Sé, Norberto abandonou Henrique V e se retirou para suas terras de Xanten. No isolamento da pequena cidade, suas ambições sentiam-se coarctadas. Mas, acostumado aos elogios e ao incenso, o conde ainda desejava vivamente satisfazer seu orgulho.

    Convertido por um raio e uma voz

    Com esses anseios na alma, partira Norberto para Wreden, distante uns 50 quilômetros de Xanten, numa luminosa manhã de primavera. A certa altura da viagem, o céu começou a cobrir-se de espessas nuvens negras. De repente ressoou um trovão. Norberto esporeou o cavalo, na esperança de alcançar refúgio, mas foi inútil. Um violentíssimo raio caiu aos pés de sua cavalgadura e o animal, assustado, derrubou-o da sela.

    O conde permaneceu uma hora desmaiado no lodo, sob chuva torrencial, ante o olhar estarrecido de seu escudeiro. Tendo recuperado os sentidos, ouviu uma voz interior que lhe dizia: “Deixa o mal e faze o bem, procura a paz e segue-a””1. Norberto levantou-se contrito e radicalmente determinado a abraçar para sempre as vias da virtude.

    A partir desse dia, passou a levar uma vida de recolhimento e oração, submetendo seu corpo a rigorosas penitências. Instruído por Conon, abade do mosteiro beneditino de Siegburg, começou a sentir novamente o chamado para o sacerdócio e apresentou-se ao bispo de Colônia pedindo ser ordenado. Assim foi que, poucos meses após sua conversão, foram-lhe conferidas no mesmo dia, por um especial favor, as ordens do diaconato e do presbiterato.

    Lutas na vida sacerdotal

    Após um retiro de 40 dias na abadia de Siegburg, Norberto celebrou em Xanten sua primeira missa e começou a pregar. Falava principalmente sobre o transitório dos bens deste mundo e as obrigações do homem perante Deus. Seu fervor não agradou a certos clérigos que, usando como argumento a conduta pouco recomendável do pregador no passado, organizaram uma oposição contra ele. O ódio chegou até o extremo de pagarem a um homem para insultá-lo e cuspir-lhe no rosto.

    Descalço, trajando sua túnica de penitência, Norberto partiu de Xanten e começou a percorrer cidades e povoados. As multidões lhe seguiam, atraídas pela eloqüência com a qual anunciava “a palavra de Deus cheia de fogo, que queimava os vícios, estimulava as virtudes e enriquecia as almas bem dispostas com a sua sabedoria””2.

    Sua pregação via-se confirmada pelos milagres, pelo dom de línguas e, sobretudo, por um singular carisma de apaziguar, com sua simples presença, as dissensões e inimizades. O povo corria ao encontro desse sacerdote que já se tornara conhecido pelo afetuoso apelido de “Anjo da Paz”.

    Um coração inovador

    Apesar dos brilhantes resultados de sua ação missionária, os detratores de Norberto persistiam em difamá-lo e criar obstáculos a seu apostolado. Por isso, em outubro de 1119, foi ele ajoelhar-se aos pés do Papa Calisto II, durante um concílio em Reims, para lhe expor sua situação e seus anseios de se entregar à vida religiosa.

    Se o feitio daquele humilde peregrino impressionou favoravelmente o Pontífice, também não passou despercebido aos olhos do bispo de Laon, Dom Bartolomeu de Viry. Este soube discernir em Norberto as características de um chamado excepcional e propôs-se ajudá-lo em tudo quanto pudesse.

    Não se enganava o arguto bispo: pulsava em Norberto um coração de inovador, dócil às inspirações do Espírito Santo. Seu projeto era formar uma congregação de clérigos postos em vida comunitária, que buscassem na oração, na penitência, no silêncio e na vida interior; o fundamento do seu apostolado. Ao harmonizar por primeira vez as doçuras da contemplação com a ação evangelizadora, Norberto tornar-se-ia fundador da chamada “vida mista”.

    São_Norberto1-horzAssim, sob os auspícios do Santo Padre e de Dom Bartolomeu, iniciou ele sua grande obra. Na pantanosa e sombria floresta de Coucy, próxima a Laon, existia um vale conhecido pelo nome de Premontré (prado mostrado). Ali, sobre as ruínas de uma capela abandonada, começou a erguer seu primeiro mosteiro. No Natal de 1121, Norberto e seus numerosos discípulos pronunciaram seus votos de religião, abraçando a regra agostiniana. Estava fundada a Ordem dos Cônegos Regulares de Premontré, hoje conhecidos como Premonstratenses.

    Crescimento do instituto e fundação feminina

    Pouco a pouco afluíram as vocações, e naquele bosque escuro e desabitado logo foi elevada a igreja de Santa Maria de Premontré. Em torno dela foram construídas as moradias dos clérigos.

    A Europa contemplou admirada aqueles homens vestidos de branco, saídos do silencioso vale de Premontré, percorrendo desde as grandes cidades até as menores aldeias, como incansáveis anjos da Boa Nova, inculcando nos corações o amor à Eucaristia e a devoção terna à Virgem Santíssima, que haviam haurido no convívio com Norberto.

    Dado o crescimento prodigioso de sua obra, teve ele de empreender contínuas viagens para estabelecer novas fundações na Alemanha, na Bélgica, na França e em outras regiões. Junto aos mosteiros dos cônegos, surgiram depois os das Irmãs da Segunda Ordem, conhecidas como Norbertinas, onde se observava o mesmo rigor de vida, em inteira consonância com o fundador.

    Elevação ao episcopado

    A Providência, entretanto, reservava a Norberto outra missão. Em 1126, em circunstâncias inesperadas e totalmente contra a sua vontade, foi eleito Arcebispo de Magdeburgo. Poucos dias depois, fez sua entrada nessa cidade, recebendo as homenagens do clero, dos nobres e do povo.

    O aspecto do novo Arcebispo não se diferenciava muito ao do pobre penitente que anos atrás percorrera as aldeias, arrastando a todos com a eficácia de sua palavra. Terminadas as cerimônias, dirigiu-se ao palácio episcopal onde doravante deveria residir. Mas o porteiro, ao vê-lo, tomouo por um indigente, e disse-lhe:

    — Chegaste tarde, já foi repartida a comida aos necessitados.

    Quando lhe avisaram que aquele era seu novo senhor, logo sua rudeza se mudou em confusão. Norberto, porém, sorrindo com afabilidade, respondeu:

    — Tu me conheces melhor e viste mais claro do que aqueles que me conduziram a este palácio ”3.

    Oito anos durou seu ministério pastoral em Magdeburgo. Com sua característica retidão, logo notou os relaxamentos existentes na diocese e tomou enérgicas medidas em prol da ordem. Isso suscitou rancores, e alguns descontentes planejaram matá-lo. Como, porém, esse plano falhou, eles recorreram à arma da calúnia e amotinaram a turba contra o Arcebispo. Também isso foi em vão, pois a bondade e a coragem do santo em pouco tempo fizeram serenar os ânimos e restabelecer a paz.

    Grande na humildade, humilde na grandeza

    Em inícios de 1130 faleceu o Papa Honório II, e o mundo católico recebeu a desconcertante notícia da eleição de dois sucessores para o sólio pontifício: Inocêncio II e Anacleto II. O perigo de um cisma era iminente.

    Movido pelo Espírito Santo, São Bernardo de Claraval logo se levantou, na França, a favor de Inocêncio, conclamando todos a defender o verdadeiro Papa, que chegava a esse reino fugindo do usurpador.

    Na Alemanha, o rei Lotário demorava em tomar posição. Só o Arcebispo de Magdeburgo, no qual depositava sua confiança, poderia pesar favoravelmente em sua determinação. Norberto não poupou esforços: apresentando provas e documentos, e valendo-se de sua eloqüência, mostrou-lhe a legitimidade de Inocêncio enquanto sucessor de Pedro. Sua voz foi aceita como um verdadeiro oráculo pelo soberano, e toda a Alemanha colocou-se resolutamente do lado do Papa legítimo.

    Assim, Norberto salvou sua pátria do risco de um fatal rompimento com a Igreja. Este foi o último e, talvez, o mais belo lance de sua vida.

    De volta a Magdeburgo, seu já abalado estado de saúde agravou-se de modo alarmante. Mesmo assim, durante alguns meses de dolorosa enfermidade, realizou milagres assombrosos, como a ressurreição de três mortos num mesmo dia.
    Por fim, a 6 de junho de 1134, na oitava de Pentecostes, sentindo a morte iminente, quis ser colocado, conforme o costume daquela época, sobre uma cruz de cinzas traçada no solo. Nessa posição, à imitação do Redentor, expirou da mesma forma como havia vivido: grande na humildade e humilde na grandeza.

    Uma vida definida por uma única palavra: integridade

    A partir do instante de sua conversão, a peregrinação de São Norberto neste mundo poderia ser definida por uma única palavra: integridade. Foi por excelência o varão da despretensão, da entrega generosa e desinteressada de si, pela glória da Igreja. Uma vez posta a mão no arado, seus olhos jamais se voltaram para contemplar as brilhantes promessas que o mundo lhe oferecia. Pelo contrário, ele se apresentou ante o olhar surpreso dos seus coetâneos, como o fundador e arquétipo de um novo estilo de vida, austero e abnegado.

    É necessário notar, porém, que a rutilância de suas virtudes, acentuada por uma personalidade rica em dotes naturais, dividia as opiniões e separava nitidamente os bons dos maus. São Norberto foi, a exemplo do Divino Mestre, pedra de escândalo e varão de contradição. Sua própria bondade, que cativava as almas santas e impelia os pecadores a abraçarem o bom caminho, era causa de contínuas perseguições.

    Ciente de que o verdadeiro sentido da existência se cifra unicamente em agradar a Deus, São Norberto era em vão acossado pelos seus adversários. Seu superior poder desarmava o ódio, fazia procurar a virtude e transformava a ira em amor.

    1ADRIAANSEN, Vita c. XIII, p. 24.
    2 LITURGIA DAS HORAS, vol. II, p. 6.
    3 ADRIAANSEN, Vita c. XLIII, p. 215.

    A alegria de ter um superior

    Cristo_Rei1Maria Teresa Ribeiro Matos

    Deus criou o mundo onde os seres, apesar de possuírem uma igualdade elementar, são profundamente desiguais, unidos e harmonizados pela mais perfeita hierarquia. O universo assim ordenado faz resplandecer a beleza de Deus.

    Como seria tétrico nos depararmos com o cadáver de alguém que cortara sua própria cabeça, alegando demasiada opressão desta sobre o resto do corpo! Pior ainda, se a decapitação fosse obra não da própria pessoa, mas de outrem. Nesse caso, o ato não seria apenas tétrico, mas digno de compaixão e de ódio. Compaixão pela desgraça que se abatera sobre aquela vítima, ódio para com os inventores desta tremenda injustiça.

    Mas alguém poderia objetar: injustiça? Não é injusto o modo como a cabeça se aproveita do corpo? Tem a cabeça o direito de sugar as energias, beneficiar-se dos alimentos trabalhados pelo aparelho digestivo, usar dos membros para pôr em execução seus planos e pensamentos? Tudo isso não é uma exploração dos membros inferiores? Não é uma vergonha para os demais membros e partes do corpo estar mais baixo e ter constantemente sobre si a cabeça?

    Essas perguntas absurdas, que pareceriam brotadas de uma mente insana, surgiram na mente e nos lábios de homens que se diziam adoradores da razão e contagiaram uma nação, não apenas no âmbito individual, mas no corpo de toda uma sociedade. “A Revolução Francesa foi o triunfo do igualitarismo em dois campos. No campo religioso, sob a forma do ateísmo, especiosamente rotulado de laicismo. E na esfera política, pela falsa máxima de que toda desigualdade é uma injustiça, toda autoridade um perigo, e a liberdade [libertinagem] o bem supremo”1.

    Agitada por tais ideias revolucionárias, a França viu seus soberanos decapitados, seus nobres e seu clero massacrados. Enquanto em nome do povo se praticavam estas barbaridades, o verdadeiro povo, no oeste do país, dava sua vida em defesa de seu Deus e seu Rei.

    Em defesa de Deus? Mas o ataque não era contra os nobres, ricos e opressores? Basta analisar os fatos históricos e as doutrinas revolucionárias para concluirmos que o ódio dos revolucionários era no fundo contra Deus.

    As autoridades, tão ferozmente atacadas, não são senão um reflexo do Altíssimo e representantes d’Ele na Terra. “Toda autoridade existente na terra é significado de Deus. […] Não se trata da pessoa do rei, que pode ser um crápula, mas a autoridade do rei – os atributos, a missão, o poder, o cargo régios – é um fulgor de Deus”2. Aprouve ao Senhor criar um mundo onde os seres, apesar de possuírem uma igualdade elementar, são profundamente desiguais, unidos e harmonizados pela mais perfeita hierarquia. O universo assim ordenado faz resplandecer a beleza de Deus. Os superiores são completados pelos inferiores e vice-versa. A missão do superior não é de ser um opressor em relação ao inferior, mas seu pai e protetor; quanto ao inferior, não deve ser um contestatário, que se revolta contra o que está acima, mas é aquele que encontra toda sua alegria em poder servir. Esta é, de fato, a maior alegria que um homem pode ter nesta Terra, a de ter um superior a quem servir. E este gáudio é acessível a todos os homens, posto que o mais ilustre dos Papas ou dos Reis está infinitamente abaixo de Deus e deve-lhe toda veneração e obediência, tendo recebido d’Ele a autoridade.

    1CORREA DE OLIVEIRA, Plinio. Revolução e Contra-Revolução. 5 ed. São Paulo: 2002. p. 15.
    2CORREA DE OLIVEIRA, Plinio. As realidades visíveis sinais de ralidades invisíveis. In: Dr. Plinio.São Paulo: Retornarei, n. 49, abr.2002. p. 20-25.

    Convertida pelo Santíssimo Sacramento

    Santa Elizabeth SetonIrmã Isabel Cristina Lins Brandão Veas,EP

    Santa Elizabeth Ann Seton

    Do seio da aristocracia anglicana norte-americana, a Providência chama uma alma de escol para mudar os rumos da educação nos Estados Unidos. Ela funda uma congregação sobre a rocha inabalável da Eucaristia, à sombra da qual florescem os carismas e se solidificam as obras de Deus.

    Qual radiante flor, com o perfume de uma inocência batismal ilibada, Teresa entra para o Carmelo de Lisieux e aí, seguindo a “Pequena Via”, realiza sua vocação.

    Com Agostinho sucedeu algo bem diferente. Quando já adentrava a plena idade madura, após uma juventude de pecado, é visitado pela graça, converte-se e caminha a passos largos na virtude e na sabedoria.

    Um e outro caso ilustram as diferentes circunstâncias nas quais Deus vai buscar alguns eleitos, e os caminhos “personalizados” que lhes traça. “Há diversas operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos. A cada um é dada a manifestação do Espírito para proveito comum” (I Cor 12, 6-7).

    Elizabeth Ann Seton foi colhida numa situação muito particular. De religião anglicana, casada com um rico comerciante e tendo cinco filhos, nada parecia indicar os elevados desígnios para os quais a Providência ia chamá-la. Mas de sua correspondência à graça dependeriam milhares de almas e, em certo sentido, um país inteiro.

    E ela disse: “sim!”. Tomada de entusiasmo pela Presença Real de Nosso Senhor na Eucaristia, fez-se filha da Igreja Católica. Essa conversão transformaria não só sua vida, mas também a história do Catolicismo nos Estados Unidos. Dois séculos após seu nascimento, ela foi proclamada santa, sendo a primeira norte-americana elevada à honra dos altares.

    Uma infância sofrida

    Segunda filha do famoso médico Richard Bayley e de Catherine Charlton, Elizabeth Ann Bayley veio ao mundo em 18 de agosto de 1774, meses antes de eclodir a Guerra da Independência dos Estados Unidos. A família residia em Nova York, descendendo dos primeiros colonos da região. Como acontecia com a maioria dos membros da alta sociedade nova-iorquina, eram anglicanos praticantes.

    Antes de completar três anos ficou órfã de mãe, e seu pai contraiu novo matrimônio, do qual nasceram mais sete filhos. A pequena enteada era desprezada pela madrasta, o que lhe fazia sentir sobremaneira a falta da mãe. Também o pai, absorvido por serviços e pesquisas médicas, não conseguia retribuir os carinhosos sentimentos de sua afetuosa filha.

    Por tais circunstâncias, Elizabeth, aos oito anos de idade, foi enviada à fazenda de um tio paterno, para aí viver em companhia de seus primos. Esse período passado no ambiente tranquilo do campo determinou a formação de seu caráter contemplativo e decidido.

    Matrimônio na alta sociedade

    Aos dezesseis anos, Elizabeth voltou para Nova York. O viço e a graça de sua juventude, a distinção da fisionomia e a nobreza do porte fizeram com que, em pouco tempo, sua presença se tornasse muito requisitada nas reuniões da sociedade nova-iorquina.

    Antes de completar vinte anos, ela casou-se com William Magee Seton, de uma conceituada família de comerciantes. Os primeiros oito anos do casal transcorreram prósperos e tranquilos. Agraciados com cinco filhos — Anna, Richard, William, Catherine e Rebecca —, os Seton residiam num dos melhores bairros de Nova York, levando uma vida regalada.

    Muito religiosa e caridosa, Elizabeth participava das atividades promovidas pela Igreja Anglicana e se preocupava com os sofrimentos do próximo. Doía-lhe sobremaneira ver as agruras pelas quais passavam as viúvas pobres. Para lhes dar assistência, organizou, em união com outras damas ricas, uma associação caritativa. A jovem senhora Seton não podia imaginar que, dentro de poucos anos, estaria em situação análoga à daquelas mulheres…

    Chegam as tribulações

    Em 1803 os negócios da família Seton faliram. Ao mesmo tempo, William foi acometido pela tuberculose. A fim de mudar de clima, numa última tentativa para a recuperação da saúde do esposo, Elizabeth partiu para Livorno, Itália, com ele e a filha mais velha, então com oito anos de idade, apelidada Annina. Aos olhos dos familiares e amigos, essa viagem parecia uma loucura. Entretanto, cada um daqueles dias constituía um trecho do longo caminho traçado pela Providência para conduzir Elizabeth à Igreja Católica. Entre os muitos contatos comerciais que William Seton mantinha com a Europa, figuravam os irmãos Antonio e Filippo Filicchi, de Livorno, com quem tinha feito sólida amizade. Assim sendo, os Seton combinaram de hospedar-se em casa dos Filicchi durante o tempo que ali passassem.

    Contudo, ao aportar em Livorno, as autoridades sanitárias decretaram quarentena aos tripulantes do navio recém-chegado, devido à notícia de que a febre amarela grassava em terras americanas. Os Seton foram então encaminhados para o lazareto, um prédio de paredes frias e úmidas, onde a saúde de William piorara ainda mais.

    As primeiras graças de conversão

    Isolada de todos, vendo o marido definhar dia após dia e sofrendo privações, Elizabeth pôs-se a pensar mais em Deus e a considerar sua vida através de um prisma mais sobrenatural. O confinamento físico tornava sua alma mais aberta às inspirações da graça, e ela começou a ouvir com atenção as explicações a respeito da Doutrina Católica que lhe davam as poucas pessoas com quem tinha contato durante esse período.

    Terminada a quarentena, os Seton se dirigiram a Pisa. Enfraquecido pelos dias passados no lazareto, William faleceu em menos de duas semanas. Elizabeth tinha então trinta anos de idade.

    A família Filicchi, imbuída da verdadeira caridade cristã, acolheu em seu lar a viúva e sua filhinha. Desejosos de distraí-las um pouco, propuseram-lhes visitar Florença enquanto aguardavam a partida do navio que as levaria de volta à América. Elizabeth aceitou o convite.

    Num domingo, a esposa de Antonio Filicchi, Amabilia, convidou-as a assistir à Missa na Igreja da Annunziata. Ao entrar no templo sagrado, Elizabeth se sentiu tocada no mais fundo da alma. Reinava certa penumbra no recinto. Em torno do altar, muitas pessoas rezavam o Rosário, cheias de devoção. O olhar maravilhado de Elizabeth percorreu as obras de arte que embelezavam o ambiente: entalhes em madeira, bonitas pedras de diferentes cores, pinturas representando cenas da Escritura. Ao sair dali, ela escreveria em seu diário: “Não se consegue ter uma ideia de como é tudo isso por meio de uma simples descrição”.1 Depois desse dia, Elizabeth sentiu uma mudança em seu interior. O que havia nos templos católicos para atraí-la tanto?

    A Providência Se faz sentir

    Entre visitas a igrejas e outros monumentos, transcorreram os dias aprazados para a volta a Nova York. No entanto, por motivos técnicos, a partida do navio foi adiada.

    Os Filicchi aproveitaram esse tempo para instruí-la ainda mais na Fé, expondo-lhe a doutrina da Presença Real de Cristo na Eucaristia. Elizabeth ficou encantada com a ideia de poder encontrar-se com Nosso Senhor Jesus Cristo nas Sagradas Espécies.

    Alguns dias mais tarde, Deus lhe enviaria uma graça sensível para fazê-la acreditar nessa sublime verdade da Fé. Em companhia da família Filicchi, ela assistia à Missa na Igreja da Madonna delle Grazie, em Livorno. Quando o celebrante estava elevando a Sagrada Hóstia, após a Consagração, alguém se ajoelhou ao lado de Elizabeth e lhe disse ao ouvido: “Aí está o que se chama ‘Presença Real’”. Arrebatada por tais palavras, ela inclinou-se cheia de veneração e, pela primeira vez, adorou a Jesus na Eucaristia, enquanto tentava conter as lágrimas.

    Mais tarde ela escreveria à sua cunhada, Rebecca Seton, que ficara em Nova York: “Como seríamos felizes se crêssemos no que essas boas almas crêem! Possuem Deus no Sacramento, Ele permanece em suas igrejas e é levado aos doentes! Oh, meu Deus! Quando eles passam com o Santíssimo Sacramento debaixo da minha janela, ainda que sentindo solidão e tristeza pela minha situação, não posso controlar minhas lágrimas, pensando: ‘Meu Deus, quão feliz eu seria, se, mesmo estando longe de tudo quanto me é querido, pudesse encontrar-Vos na igreja, como eles Vos encontram!’”.2

    O encontro com a verdadeira Mãe

    Começava para Elizabeth uma de suas mais árduas lutas espirituais. Abandonar o anglicanismo significava renunciar à religião na qual nascera e vivera até então, mas Jesus Eucarístico a atraía à Igreja Católica.

    Também a pequena Annina já estava maravilhada pelo catolicismo e não poucas vezes repetia: “Mamãe, não existem católicos na América? Quando voltarmos para casa, nós vamos ser da Igreja Católica?”.3

    Como boa mãe, ela sentia-se responsável, não só por sua própria salvação, mas também pela de seus filhos. Portanto, pôs-se a rezar, pedindo a Deus uma orientação.

    Certo dia, Elizabeth deparou-se com um livrinho de orações pertencente à Sra. Filicchi, posto sobre a mesa. Abriu-o a esmo e começou a ler: “Lembrai-Vos, ó piíssima Virgem Maria, que nunca se ouviu dizer…” Cada uma das palavras do Memorare soou em sua alma como uma consolação: ela, que na infância tanto sentira a falta do afeto materno, na realidade tinha uma Mãe que dela cuidava com inefável bondade! Passou então a invocar Nossa Senhora, pedindo que Ela lhe mostrasse o caminho que deveria seguir.

    Novas adversidades

    Em 8 de abril de 1804, mãe e filha embarcaram de volta aos Estados Unidos, em companhia de Antonio Filicchi. Uma nova série de adversidades e grandes transformações aguardava a jovem viúva em sua terra natal.

    Apesar da felicidade de rever os outros quatro filhinhos, Elizabeth trazia na alma um profundo dilema: abraçar o catolicismo significava comprar o isolamento da parte de todos os familiares e amigos americanos. Mas, de outro lado, ela já não conseguia viver sem pensar no Santíssimo Sacramento. Passava longas horas do dia fazendo comunhões espirituais e, estando na igreja anglicana de São Paulo, dali adorava Jesus presente no tabernáculo da Igreja Católica de São Pedro, que podia vislumbrar pelas janelas.

    Em vão, várias de suas amigas aristocratas tentaram dissuadi-la da conversão. O próprio ministro anglicano que outrora lhe dera orientação espiritual via que seus argumentos eram também inúteis: ela ainda não pertencia formalmente à Igreja, mas seu coração já era católico.

    A conversão

    Na Quarta-Feira de Cinzas de 1805, diante do tabernáculo da Igreja de São Pedro, Elizabeth tomou a decisão irrevogável de fazer-se católica, com seus cinco filhos. Dez dias depois, em 14 de março, fez sua profissão de Fé, na mesma igreja.
    Na festa da Anunciação, 25 de março, realizou-se o seu mais ardente desejo: recebeu a Primeira Comunhão. Cheia de alegria, escreveu à amiga italiana: “Por fim, Amabilia — por fim! — Deus é meu e eu sou d’Ele! Agora, aconteça o que acontecer, eu O recebi!”.4

    Sobre esse dia, Elizabeth anotaria em seu diário: “Meu Deus, até o meu último suspiro me lembrarei daquela noite que passei à espera de que o sol nascesse! Meu pobre coração ansiava pela longa caminhada até a cidade, em que cada passo significava estar mais perto daquela rua, mais perto daquele tabernáculo, mais perto daquele momento em que Ele entraria em minha morada pobre e pequena, mas inteiramente d’Ele!”.5

    Santa Elizabeth Seton1Funda uma nova Congregação religiosa

    No ano seguinte, encontrando-se em Nova York Dom John Carroll — primeiro Bispo de Baltimore e dos Estados Unidos —, Elizabeth recebeu a Confirmação. Preocupada com a educação de seus filhos e a formação das crianças católicas, tentou abrir uma escola em sua cidade natal. No entanto, seus planos foram frustrados, devido ao desprezo e incompreensão por parte daqueles que não aprovavam sua conversão. Mais tarde, em 1808, sob o amparo de Dom Carroll, Elizabeth transladou-se para Baltimore, onde fundou um colégio destinado à educação de meninas. Não demoraram a aparecer jovens que se sentiam chamadas à vida religiosa e queriam seguir Elizabeth, em seu nobre ideal de caridade.

    Com a ajuda de um generoso doador, a pequena comunidade se estabeleceu em Emmitsburg, Maryland, no ano de 1809. Nasceu assim a primeira congregação religiosa dos Estados Unidos: Congregação das Irmãs de Caridade de São José, segundo a regra das Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo, e dedicada à educação.

    Uma bela peculiaridade do carisma da instituição se encontra assim expressa no texto de suas constituições: “O fim secundário, mas não menos importante, é honrar a Santa Infância de Jesus nas meninas, cujo coração está chamado a amar a Deus mediante a prática das virtudes e do conhecimento da religião; ao mesmo tempo, semearão em suas mentes os germes de um saber útil”.6

    Acompanhada por dezessete discípulas, Elizabeth fez os votos em 21 de julho de 1813. Madre Seton, como passou a ser chamada após a fundação, foi diretora geral da Congregação até o fim de sua vida, empenhando-se em formar as freiras segundo o espírito de Santa Luísa de Marillac e de São Vicente de Paulo.

    Frutos de uma alma eucarística

    Quanto a seus filhos, todos viveram e morreram como bons católicos. Annina foi noviça na Congregação de sua mãe e faleceu aos dezessete anos, logo após emitir os votos. Os dois filhos, Richard e William, alistaram-se na marinha. O primeiro morreu aos vinte e cinco anos. William casou-se e teve sete filhos, dentre os quais um seria Arcebispo. Catherine fez-se religiosa, na Congregação fundada por sua mãe. Rebecca expirou nos braços de Santa Elizabeth, tendo apenas quatorze anos de idade.

    Como sói acontecer com os Fundadores, a missão de Madre Seton se prolongaria após sua morte. Ela assistiria, do Céu, ao crescimento de sua obra. Ao entregar sua alma a Deus, em 4 de janeiro de 1821, Santa Elizabeth tinha apenas cinquenta freiras, espalhadas por colégios e orfanatos. No dia de sua canonização, 14 de setembro de 1975, elas eram mais de oito mil, pois sua Congregação se fundara sobre a rocha inabalável da Eucaristia, à sombra da qual florescem os carismas e se solidificam as obras de Deus.

    1MARIE CELESTE, Sister. Elizabeth Ann Seton – A Self-Portrait. A study of her spirituality in her own words. Libertyville (Illinois): S.C. Franciscan Marytown Press, 1986. p. 70.
    2MARIE CELESTE, Sister. Elizabeth Ann Seton – Collected Writings, edited by Regina Bechtle, S.C, and Judith Metz, S.C.; mss, editor, Ellin Kelly. 2000-2006. Vol. I, p. 289.
    3MARIE CELESTE, Sister. Elizabeth Ann Seton – A Self-Portrait. A study of her spirituality in her own words. Libertyville (Illinois): S.C. Franciscan Mary town Press, 1986. pp. 80-81.
    4MARIE CELESTE, Sister. Elizabeth Ann Seton – Collected Writings, edited by Regina Bechtle, S.C, and Judith Metz, S.C.; mss, editor, Ellin Kelly. 2000-2006. Vol. I, p. 367.
    5Idem, ibidem.
    6www.famvin.stjohns.edu/es/downloads/santoralfv/isaseton.pdf

    A intuição do divino

    NennolinaMaria Teresa Ribeiro Matos

    Querido Deus Pai, vós que sois tão bom, perdoai e fazei que logo possa receber vosso filho Jesus. Querido Jesus, vos quero tanto, tanto, querido Jesus, vós quando nascestes na gruta em Belém sofríeis tanto também e tínheis tanto frio. Querido Jesus, eu quero remediar estas vossas dores. Querido Espírito Santo, vós que sois o amor do Pai e do Filho, iluminai meu coração e minha alma e abençoai-me“.
    Essas frases não saíram da pluma de um renomado teólogo, nem de uma venerável religiosa, mas das mãos de uma criança de seis anos.

    Na cidade eterna, próximo à Basílica de Santa Croce in Gerusalemme, no ano de mil novecentos e trinta e seis, a pequena Antonietta Meo, apelidada de Nennolina, teve sua perna amputada devido ao diagnóstico de osteossarcoma, um tumor maligno. A menina, então, começou a escrever uma série de cartas até o dia de sua morte. Os destinatários destas missivas não eram pobres mortais, mas a Virgem Santíssima, o Menino Jesus, o Espírito Santo e a Santíssima Trindade. Com simplicidade e tão ardente amor penetrava nesses altos mistérios de nossa fé.

    “Eu te bendigo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequenos” (Mt 11, 25).

    Deus muitas vezes não age conforme os critérios humanos. “Pois meus pensamentos não são os vossos, e vosso modo de agir não é o meu, diz o Senhor; mas tanto quanto o céu domina a terra, tanto é superior à vossa a minha conduta e meus pensamentos ultrapassam os vossos” (Is 55, 8-9). O Altíssimo opera maravilhas através de pessoas que aos olhos do mundo não tem nenhuma importância. Ele escolhe os que são considerados fracos para assim confundir os fortes, e os que são considerados estultos para confundir os entendidos (I Cor 1, 27). A estes ele pode dar a conhecer verdades que cientistas e filósofos abandonados a seus próprios esforços não atinam.

    Acima da natureza humana criada por Deus, está outra criatura, a graça, que aperfeiçoa a natureza e é distribuída a todos em medida determinada unicamente por Ele. Essa vida da graça infundida em nossa alma pelo batismo, se desenvolve através das virtudes e dons do Espírito Santo. Entre eles destacamos , o dom da inteligência, que nos dá penetrante intuição das coisas reveladas e naturais em ordem ao fim último sobrenatural.

    O Espírito Santo punha em movimento este dom, de maneira peculiar, na alma de Nennolina, como ela mesma lho pedia freqüentemente: “Querido Jesus, diga ao Espírito Santo que me ilumine de amor e me cumule de seus sete dons”. Possuía um tão ardente amor a Jesus Eucarístico que mesmo antes de fazer a primeira comunhão, escrevia-Lhe inúmeras cartas, obtendo a graça de recebê-lo na noite de Natal de mil novecentos e trinta e seis, quando permaneceu quase uma hora de joelhos em ação de graças, apesar dos graves incômodos que dessa posição lhe resultava pelo uso da perna ortopédica. Durante os últimos dias de sua existência a Eucaristia era-lhe levada todos os dias, sendo a última recebida no dia dois de julho de mil novecentos e trinta e sete, um dia antes de sua morte.

    Assim, Antonietta, que teve uma curta existência terrena, deixou testemunho de uma densa e penetrante intuição sobrenatural adquirida através do dom de inteligência, instrumento direto e imediato do Divino Paráclito.

    Pode existir uma santa pressa?

    angelico29Maria Teresa Matos

    No mundo atual, não há quem não tenha tomado contato, visto, e mesmo experimentado a pressa.

    Corre-se para não chegar atrasado em um compromisso, corre-se para fazer um negócio e lucrar muito dinheiro, corre-se atrás de bons estudos e da boa fama. Enfim, corre-se a todo o momento e por qualquer motivo. As invenções técnicas e científicas, como automóveis, aviões, celulares e internet concorreram para acelerar, ainda mais, o ritmo de vida.

    O homem contemporâneo bem poderia ser qualificado de ‘o homem do corre-corre’, que depois de tanto correr, nada alcançou além de decepções, frustrações e calamidades.

    Alguém, deformado pelos conceitos hodiernos, abrindo as páginas do Evangelho, encontraria dificuldades em compreender esta curta, mas intensa frase: “Naqueles dias, Maria levantou-se e dirigiu-se apressadamente às regiões montanhosas da Judéia” (Lc 1, 39).

    Qual seria a razão de uma jovem, consagrada ao Templo desde a sua infância e criada nas sublimes delícias da contemplação, lançar-se de tal modo na ação? Ademais, acabara de se dar o acontecimento ápice, não só da vida dela, mas de toda a História: concebera pela ação do Espírito Santo. Ou seja, em suas entranhas puríssimas, o próprio Filho Unigênito de Deus, gerado e não criado, consubstancial ao Pai, para nossa salvação, assumira nossa carne. Aquele a quem os céus não podiam conter, encerrara-se no seio de Maria. Haverá graça mais sublime? Existirá ocasião mais propícia para os mais altos êxtases? Que meditações e contemplações não poderiam derivar desse convívio?! Não seria a hora d’Ela recolher-se e aproveitar os nove meses de intimidade mais completa e absoluta com Seu Filho e Seu Deus?

    Entretanto, o Evangelho nos narra ter a Virgem, logo após a Anunciação, levantado e se dirigido apressadamente até a Judéia, empreendendo essa viagem a fim de ajudar sua prima Isabel.

    Que pressa era esta que a movia? Algum interesse pessoal? Poderia se cogitar, sem blasfemar, que na alma imaculada de Maria existisse alguma agitação?

    Como resposta a essas perguntas, bem poderíamos pôr nos lábios da Virgem as palavras do profeta Elias: “Zelus zelatus sum pro Domino Deo Exercituum” (1Rs 19,14). Sim, o zelo pela causa de Deus a consumia, tomava todo o seu ser e impulsionava-a, se necessário fosse, a correr por toda a Terra para servi-lO e glorificá-lO.

    Essa viagem era empreendida por Ela sem abandonar em nenhum instante a clave altíssima de suas contemplações. Maria queria servir sua prima, não por afeição familiar ou mera filantropia, mas por amor a Deus. A virtude da Caridade a levava a ajudar Isabel e o menino João, corporal e espiritualmente, santificando a criança ainda no ventre materno e produzindo em sua prima extraordinárias manifestações de enlevo e admiração pelo Messias ali presente.

    Portanto, qual é a diferença entre essa santa pressa de Maria Santíssima na visitação a sua prima santa Isabel e a pressa do mundo moderno?

    Hoje corre-se, impaciententemente, por interesse próprio, enquanto Nossa Senhora indicou que os homens devem ser pressurosos na caridade, uns para com os outros, auxiliando com entusiasmo, sem egoismo ou delongas, a que se encontre já nesta Terra o Caminho, a Verdade e a Vida.

    Quando o amor vence a razão

    SEscolastica1Irmã Juliane Campos, EP

    Quando Nosso Senhor veio ao mundo, trouxe-nos um mandamento novo: “Como eu vos tenho amado, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros”(Jo 13,34). Este amor levado às últimas consequências propiciou-nos a Redenção. E um relacionamento humano regrado e bem conduzido deve seguir o exemplo do Divino Mestre. O verdadeiro amor ao próximo é aquele que se nutre por outrem por amor a Deus e que tem o Criador como centro, visando a santidade daqueles que se amam. Já ensinava Santo Agostinho que só existem dois amores: ou se ama a si mesmo até o esquecimento de Deus, ou se ama a Deus até o esquecimento de si mesmo.

    Assim foi Santa Escolástica, alma inocente e cheia de amor a Deus, de quem pouco se conhece, mas que, abrindo-se à sua graça, adquiriu excepcional força de alma e logrou chegar à honra dos altares. Sua história está intimamente ligada à daquele que por desígnios da Providência nasceu com ela para a vida, o grande São Bento, seu irmão gêmeo e pai do monacato ocidental, a quem amou com todo o seu coração.

    Nasceram Escolástica e Bento em Núrsia, na Úmbria, região da Itália situada ao pé dos montes Apeninos, no ano 480. Como seu irmão, teve ela uma educação primorosa. Com seus pais, muito católicos e tementes a Deus, constituíam uma das famílias mais distintas daquelas montanhas. Modelo de donzela cristã, Escolástica era piedosa, virtuosa, cultivava a oração e era inimiga do espírito do mundo e das vaidades.

    Sempre caminhou em uníssono com seu irmão Bento, unidos já antes de nascer e irmãos gêmeos também de alma.

    Com a morte dos pais, Escolástica vivia mais recolhida no retiro de sua casa. Quando se inteirou que seu irmão deixara o deserto de Subiaco e fundara o célebre mosteiro de Monte Cassino, decidiu ela professar a mesma perfeição evangélica, distribuindo todos os seus haveres aos pobres e partindo com uma criada em busca do irmão.

    Encontrando-o, explicou-lhe suas intenções de passar o resto da vida numa solidão como a dele e suplicou-lhe que fosse seu pai espiritual, prescrevendo-lhe as regras que deveria seguir para o aperfeiçoamento de sua alma. São Bento, já conhecendo a vocação da irmã, aceitou-a e mandou construir para ela e a criada uma cela não muito longe do mosteiro, dando-lhe basicamente a mesma regra de seus monges.

    A fama de santidade desta nova eremita foi crescendo e, pouco a pouco, se juntaram a ela muitas outras jovens que se sentiam chamadas para a vida monástica, colocando-se todas sob a sua direção, juntamente com a de São Bento, formando assim uma nova Ordem feminina, mais tarde conhecida como das Beneditinas, que chegou a ter 14.000 conventos espalhados por todo o Ocidente.

    A cada ano, alguns dias antes da Quaresma, encontravam-se Bento e Escolástica a meio caminho entre os dois conventos, numa casinha que ali havia para este fim. Passavam o dia em colóquios espirituais, para depois tornarem a ver-se no ano seguinte. Um dos capítulos do livro “Diálogos”, de São Gregório Magno, ajudou a salvar do esquecimento o nome desta grande santa que tem lugar de predileção entre as virgens consagradas. O grande Papa santo narra com simplicidade o último encontro de São Bento e Santa Escolástica, em que a inocência e o amor venceram a própria razão.

    Era a primeira quinta-feira da Quaresma de 547. São Bento foi estar com sua irmã na casinha de costume. Passaram todo o dia falando de Deus. Ao entardecer, levantou-se São Bento decidido a regressar a seu mosteiro, para voltar apenas no próximo ano.

    Pressentindo que sua morte viria logo, Santa Escolástica pediu ao irmão que passassem ali a noite e não interrompessem tão abençoado convívio. Ao que o irmão respondeu:

    — Que dizes? Não sabes que não posso passar a noite fora da clausura do convento?

    Escolástica nada disse. Apenas abaixou a cabeça e, na inocência de seu coração, pediu a Deus que lhe concedesse a graça de estar um pouco mais com seu irmão e pai espiritual, a quem tanto amava.

    No mesmo instante o céu se toldou. Raios e trovões encheram o firmamento de luz e estrondos. A chuva começou a cair torrencialmente. Era impossível subir o Monte Cassino naquelas condições.

    Escolástica apenas perguntou a seu irmão?

    — Então, não vais sair? São Bento, percebendo o que se havia passado, perguntou-lhe:

    — Que fizeste, minha irmã? Deus te perdoe por isso…

    — Eu te pedi e não quiseste me atender. Pedi a Deus e Ele me ouviu — respondeu a cândida virgem.

    SBento_escolasticaPassaram aquela noite em santo convívio, podendo o santo fundador regressar ao seu mosteiro apenas no outro dia pela manhã. De fato, confirmou-se o pressentimento de Escolástica. Entregou sua alma ao Criador três dias depois deste belo fato. São Bento viu, da janela de sua cela, a alma de Escolástica subir ao céu sob a forma de uma branca pomba, símbolo da inocência que ela sempre teve. Levou o corpo para seu mosteiro e aí o enterrou no túmulo que havia preparado para si próprio. Alguns meses mais tarde também faleceu São Bento. Ficaram assim unidos na morte aqueles dois irmãos que na vida terrena se haviam unido pela vocação.

    Comentando este fato da vida dos dois grandes santos, São Gregório diz que o procedimento de Santa Escolástica foi correto, e Deus quis mostrar a força de alma de uma inocente, que colocou o amor a Ele acima até da própria razão ou regra. Segundo São João, “Deus é amor” (I Jo 4, 7) e não é de admirar que Santa Escolástica tenha sido mais poderosa que seu irmão, na força de sua oração cheia de amor. “Pôde mais quem amou mais”, ensina São Gregório. Aqui o amor venceu a razão, nesta singular contenda.

    Peçamos a Santa Escolástica a graça da restauração de nossa inocência batismal, para que cresça o amor a Deus em nossa alma e possamos ter sua força espiritual para dizer com toda propriedade as palavras de São Paulo: “Tudo posso naquele que me conforta” (Fl 4, 13).

    Maria Santíssima: O arco-íris da esperança

    arco_iris2Maria Teresa Pinheiro Lisboa Miranda

    Após uma forte chuva numa pequena cidade do interior, onde não havia arranha-céus para encobrir o horizonte, deparei-me com um lindo arco-íris. Maravilhada, lembrei-me da história de Noé e da surpreendente afirmação que ouvi em idos tempos numa aula de catecismo: o arco-íris surgido no céu após o dilúvio foi uma pré-figura de Nossa Senhora. Recordemos um pouco a história narrada pelo Gênesis, para melhor compreendermos tão belo simbolismo.

    Naquele tempo, “o Senhor viu que a maldade dos homens era grande na Terra (…) Então Deus disse a Noé: ‘Faze para ti uma arca de madeira resinosa (…) Eis que vou fazer cair o dilúvio sobre a Terra (…) Tudo que está sobre a Terra morrerá. Mas farei aliança contigo: entrarás na arca com teus filhos, tua mulher, e as mulheres dos teus filhos. De tudo o que vive, de cada espécie de animais farás entrar na arca dois, macho e fêmea, para que vivam contigo”.

    “O dilúvio caiu sobre a Terra durante quarenta dias. (…) As águas inundaram tudo com violência, e cobriram toda a Terra, e a arca flutuava na superfície das águas. (…) As águas cobriram todos os altos montes. (…) Elas cobriram a Terra pelo espaço de cento e cinquenta dias.””Depois do dilúvio, disse também Deus a Noé: “Faço esta aliança convosco: nenhuma criatura será mais destruída pelas águas do dilúvio (…) Ponho o meu arco nas nuvens, para que ele seja o sinal da aliança entre mim e a Terra”.”

    Decorridos alguns milênios tendo o coração dos homens se voltado novamente para o mal e chegada a hora de misericórdia prevista pelos profetas Deus enviou o seu próprio Filho para tirar a humanidade do dilúvio de iniquidade que inundava a Terra, e convidar os homens para entrar na nova arca. Não em uma arca material, construída por mãos humanas, mas sim, na arca por excelência: a Santa Igreja edificada pelo próprio Filho de Deus feito Homem. E para nos proteger e manter uma estreita aliança conosco, nos enviou também um arco-íris. Mas… que arco-íris? Não um mero fenômeno natural mostrando sete cores, mas sim um arco-íris vivo: Maria, a Mãe de Deus, Aquela na qual os sete dons do Espírito Santo refulgem com inigualável magnificência.

    Eis o que, no século XIV, Nossa Senhora, dirigindo-se a Santa Brígida, afirmou:
    Eu me estendo sobre o mundo em contínua oração, assim como sobre as nuvens está o arco-íris, que parece voltar-se para a Terra e tocá-la com suas extremidades. Este arco-íris, sou Eu mesma que, por minhas preces, abaixo-me e me debruço sobre os bons e os maus habitantes da Terra. Inclino-me sobre os bons para ajudá-los a permanecerem fiéis e devotos na observância dos preceitos da Igreja; e sobre os maus, para impedi-los de irem adiante na sua malícia e se tornarem piores”.”

    São Bernardino de Siena, ilustrando seu discurso sobre o Santo Nome de Maria, comenta: “Maria une e concilia a Igreja Triunfante à Igreja Militante. Seu nascimento anuncia que, doravante, existirá a paz entre o Céu e a Terra. Ela é o arco-íris dado pelo Senhor a Noé em sinal de aliança, e como penhor de que o gênero humano não será mais destruído. E por quê? Porque é Ela que trouxe à luz Aquele que é nossa paz”.”

    Quanta consolação, quanta esperança nos evocam essas palavras! Neste mundo, em que somos peregrinos, sofrimentos, tentações e perplexidades são inerentes à nossa vida. Contudo, em meio às dores e aflições, sempre vislumbramos a esperançosa figura de um incomparável arco-íris: Maria Santíssima! É Ela quem nos guia em nossa peregrinação rumo à Pátria Celestial, ajudando-nos em todas as nossas necessidades e envolvendo-nos com seu maternal, constante e infatigável amor.

    “O arco-íris alegra a Terra e lhe proporciona uma chuva abundante e benfazeja. Do mesmo modo, Maria consola aos fracos, enchendo de júbilo os aflitos e inundando copiosamente os áridos corações dos pecadores, pela fecunda chuva de graça”, comenta o Pe. Jourdain em sua obra dedicada às grandezas de Maria.

    Confiantes e extremamente gratos por tão insondável proteção, procuremos amá-La, honrá-La, invocá-La e servi-La a cada momento de nossas vidas, propagando sempre uma devoção piedosa e sincera a Ela, que é o único e verdadeiro Arco-Íris que nos une ao seu Divino Filho, o instrumento de aliança entre Deus e os homens.

    A vida consagrada na Sociedade Regina Virginum

    regina_viginumFahima Akram Salah Spielmann

    O sino soa, mais uma vez, no silêncio dos corredores de um mosteiro da Sociedade de Vida Apostólica de Direito Pontifício Regina Virginum. Um ruído corriqueiro e banal para o mundo moderno, mas ali, para as religiosas, reveste de grandeza, convidando cerca de sessenta almas “anônimas” – que sentem em si o chamado para o heroísmo – para um ato da comunidade: a recitação do Rosário.

    Num mundo onde a grande maioria dos homens é sôfrega de liberdade, qual seria a razão de tantas jovens renegarem sua vontade própria, e com alegria sujeitarem-se, em obediência a uma regra, a um simples badalar de sino?

    A resposta encontra-se no apelo para a santidade (VS 17-19). Todos os batizados são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade. Contudo, os religiosos vão mais além e consagraram a própria vida ao Senhor, no espírito e na prática dos conselhos evangélicos: obediência, pobreza e castidade. 1

    Segundo o atual Código de Direito Canônico, a principal característica de quem aderiu a vida consagrada é uma entrega total nas mãos do Superior, mediante votos perpétuos ou temporários, implicando a “separação do mundo que é própria da índole e finalidade de cada instituto” (Cân 607 §3).

    _ND35796“Cesse a vontade própria, e já não haverá inferno” dizia São Bernardo. Segundo as normas da Sociedade Regina Virginum, é “regulamentado o alcance da obediência2, e determinado os graus de obrigação com o cerimonial correspondente”. A este respeito comenta Mons. João S. Clá Dias, o seu Fundador: “o voto de obediência, que assim está bem designado, não estaria mal se se chamasse ‘voto de liberdade’, pois é nesse voto que o membro da instituição se vê livre dos erros e faltas que poderia cometer caso seguisse o impulso de seus instintos”.

    Quanto à prática do conselho evangélico da pobreza, o próprio Cristo ordenou-a aos seus seguidores: “Qualquer um de vós, que não renuncia a tudo o que possui, não pode ser meu discípulo” (Lc 14,33). Conforme o Magistério da Igreja, “o preceito do desprendimento das riquezas é obrigatório para se entrar no Reino dos céus” (CEC 2544).

    Na Sociedade Regina Virginum, a regra, ou ordo, “incentiva o desprendimento dos bens materiais, dispondo deles com a prévia autorização da superiora”, havendo um cerimonial específico para a distribuição de bens.3

    A Castidade4, também chamada virtude angélica, “é a maneira eminente de se dedicar mais facilmente a Deus com coração indiviso” (CEC 2349).

    Aos membros desta sociedade, ela é estimulada, ao mesmo tempo em que é proporcionada a fuga das ocasiões próximas. Por exemplo, temos em nossos meios a prática da sábia norma de antigas regras de quase todos os mosteiros posteriores ao século V, onde se vedava a possibilidade de sair sozinha, inclusive em missão, além de outras normas como a proibição do acesso a algumas comunicações sociais, como a internet, sem a autorização expressa da Superiora, e o relacionamento com pessoas do outro gênero sem a licença da mesma”.

    Além de praticar os conselhos evangélicos, as religiosas cumprem as normas que estão sob o carisma do fundador, conforme o cânon 576 12. “O fundador representa para o religioso uma imagem divina, um modelo que, na sua vida e em seu ensinamento, reproduz a Cristo de maneira adaptada a seus filhos”, segundo as sábias palavras do Padre Gilmont.5

    Nos pilares da espiritualidade da Sociedade Regina Virginum encontramos “uma concisa expressão: a devoção a Jesus Eucarístico e a Maria Santíssima, e a fidelidade ao Papa”.

    “Pela recepção frequente ou diária da Santíssima Eucaristia, aumenta-se a união com Cristo; alimenta-se abundantemente a vida espiritual; a alma se enriquece com as virtudes e, a quem a recebe, é dado um penhor mais seguro da felicidade eterna” (EM 37), além das comunhões diárias, há a adoração ao Santíssimo Sacramento que é exposto habitualmente nas casas dessa Sociedade.6

    _ND35929Cônscias de que por suas próprias forças não conseguem alcançar a santidade, as jovens religiosas, com assídua frequência ao Sacramento da Penitência, rezam, quotidianamente, além da Liturgia das Horas e de diversas orações, os vinte mistérios do Rosário. Voltando-se para Maria Santíssima, “a primeira e perfeita consagrada, carregada por aquele Deus que Ela leva nos braços; Virgem, pobre e obediente, toda dedicada a nós, porque é toda de Deus” 7, com a Sua materna ajuda renovam, diária e constantemente, o seu “Praesto sum”, “eis me aqui”, para comunicar aos outros a dádiva do seu carisma (cf. 1 Cor 14, 12) e testemunhar em primeiro lugar o maior carisma, que é a caridade (cf. 1 Cor 13)8.

    1 Cân 573, § 1: “A vida consagrada pela profissão dos conselhos evangélicos é uma forma estável de viver, pela qual os fiéis, seguindo mais de perto a Cristo sob a ação do Espírito Santo, consagram-se totalmente a Deus sumamente amado, para assim, dedicados por título novo e especial a sua honra, à construção da Igreja e à salvação do mundo, alcançarem a perfeição da caridade no serviço do Reino de Deus e, transformados em sinal preclaro na Igreja, prenunciarem a glória celeste”.
    2 Cân 601: “0 conselho evangélico da obediência, assumido com espírito de fé e amor no seguimento de Cristo obediente até à morte, obriga a submissão da vontade aos legítimos Superiores, que fazem as vezes de Deus quando ordenam de acordo com as próprias instituições”.
    3 Ordo de Costumes. Arautos do Evangelho. 2001, p.56.
    4 Cân 599: “0 conselho evangélico da castidade, assumido por causa do Reino dos céus e que é sinal do mundo futuro e fonte de maior fecundidade num coração indiviso, implica a obrigação da continência perfeita no celibato”.
    5 GILMONT. Jean François. Paternité et Médiation du Fondateur d’Odre. Toulousse:1964. p. 416-4 17.
    6 Cân. 663 §2: “Os membros quanto possível, participem todos os dias do sacrificio eucarístico, recebam o santíssimo Corpo de Cristo e adorem o próprio Senhor presente no Sacramento”.
    7. Papa Bento XVI, homilia, 2 de fevereiro de 2010.
    8. Papa Bento XVI, homilia, 2 de fevereiro de 2009.

    Manso e humilde de coração

    SFranciscoSalesIrmã Juliane Vasconcelos Almeida Campos,EP

    Stress… Palavra talismânica criada aparentemente para justificar todos os males que acometem os homens de nosso tempo. Quem não dorme bem é porque está com stress; quem fica nervoso no trabalho, está stressado. Problemas familiares? Ora, a culpa também é do stress. Até mesmo o mau gênio, como é popularmente conhecido o temperamento colérico, encontra justificativa no stress. Embora a vida agitada e insegura de hoje realmente provoque stress, este não pode ser o escudo atrás do qual se esconde quem não quer combater seus defeitos temperamentais.

    Vejamos o exemplo de um homem de temperamento, o qual, com o auxílio da graça, soube dominar-se a ponto de ficar conhecido e venerado por todos como o santo da doçura e da amabilidade: São Francisco de Sales.

    A infância de um menino inocente

    Primogênito do Barão de Boisy, nasceu Francisco em 1567 no castelo de Sales, na Sabóia, naquele tempo um país independente que abarcava territórios hoje pertencentes à França, Itália e Suíça. Sua mãe, Dona Francisca de Boisy, senhora muito virtuosa, soube incutir-lhe desde a mais tenra infância o amor a Jesus e Maria. Quiçá também dela tenha recebido a salutar influência que lhe permitiu adquirir uma das virtudes que mais o caracterizaram: nunca perder a calma, nunca inquietar-se, ter inteiramente a alma nas mãos.

    Sua mãe ensinava-lhe o catecismo e narrava-lhe belos exemplos da vida dos santos. Isto fez nascer na alma do pequeno Francisco o desejo da santidade e o zelo pelas coisas de Deus.

    Desde criança sempre foi muito ativo e cheio de vida. Um fato pitoresco de sua infância denota seu carácter combativo, mas irascível. Bem pequeno ainda, ouvira falar dos calvinistas que haviam dominado a Suíça e boa parte da França. Um dia, soube que um desses hereges estava de visita no castelo de seus pais. Como não podia entrar na sala para protestar, pegou um pedaço de pau e, cheio de indignação, entrou no galinheiro e lançando-se contra as galinhas a pauladas gritava: “Fora com os hereges! Não queremos hereges!”As pobres galinhas fugiam cacarejando ante seu inesperado atacante. Foram salvas pelos criados que conseguiram tirar o menino dali a tempo.

    Francisco chegará a ter um génio tão doce e bondoso que fez São Vicente de Paulo exclamar, quando teve a oportunidade de conviver com ele: “Ó meu Deus, se Francisco de Sales é tão amável, como sereis Vós?””

    As batalhas da juventude

    Na juventude nasceu-lhe um grande desejo de consagrar-se inteiramente a Deus. Mas seu pai tinha outros planos. Foi mandado a Paris para estudar no colégio dos jesuítas, onde conheceu o bom Pe. Déage, que foi seu diretor espiritual. Mais tarde mudou-se para Pádua a fim de estudar Direito Civil, como queria seu pai, e Direito Canônico, como desejava o ardor religioso de seu coração. Também praticava esgrima, equitação e frequentava bailes.

    Viver na graça de Deus naqueles ambientes não era nada fácil, mas Francisco soube fugir das ocasiões perigosas e de toda amizade que pudesse ofender a Deus. Na Universidade, alguns estudantes perversos, para humilhá-lo por ser tão piedoso, atacaram-no. Francisco, que era perito na arte da esgrima, tirou sua espada e derrotou a todos. Vendo-os desarmados e impotentes, retirou-se, dizendo: “E agradeçam a Deus em quem creio, pois é por isso que não lhes faço mal”.

    Quando, devido ao seu temperamento, o sangue lhe subia ante humilhações e burlas, ele se continha de tal maneira que muitos pensavam que nunca se encolerizava. O demônio, vendo ser impossível vencê-lo com as tentações mais comuns, atacou-o com violência num ponto muito sensível e difícil: a terrível tentação do desespero da salvação.

    Tinha 20 anos quando isso aconteceu.

    Conhecera a doutrina de Calvino sobre a predestinação, e não conseguia tirar da cabeça a ideia fixa de que ia se condenar. Perdeu o apetite e o sono. Sempre dizia a Nosso Senhor que, se por sua infinita justiça o condenasse ao inferno, concedesse-lhe a graça de continuar amando-O nesse lugar de tormentos. Essa oração lhe devolvia a paz de alma em parte, mas a tentação sempre voltava. O remédio definitivo veio quando, entrando numa igreja em Paris e ajoelhando-se diante de uma imagem da Santíssima Virgem, rezou a conhecidíssima oração de São Bernardo: “Lembrai-Vos, ó piíssima Virgem Maria…” Ao terminar, os pensamentos de tristeza e desespero o abandonaram para sempre e veio-lhe a segurança de que “Deus não enviou o Filho ao mundo para condená-lo, mas para que o mundo seja salvo por Ele” (Jo. 3, 17).

    A vida religiosa e a conquista dos calvinistas

    De volta à casa paterna, aos 24 anos, recusou um casamento brilhante e um posto no Senado do Reino. Embora contra a vontade de seu pai, assumiu o cargo de deão da Catedral de Chambéry – por influência de seu tio, Luís de Sales, cônego da Catedral de Genebra, que obteve tal nomeação do Papa e pouco tempo depois foi ordenado sacerdote.

    Pregou em Annecy e outras cidades. Embora dotado de grande cultura, suas práticas eram simples, atraindo enormemente todos os que o ouviam.

    Mas sua dura batalha começou quando se ofereceu para reconquistar Chablais, na costa sul do lago de Genebra. Esta região estava totalmente dominada pelos calvinistas, cujo exército não deixava os habitantes católicos viverem em paz.

    Em 14 de setembro de 1594, dia da exaltação da Santa Cruz, com a autorização do bispo Cláudio de Granier, partiu Francisco de Sales a pé para a grande missão. Provações não lhe faltaram. Muitas vezes teve de dormir ao relento. Em uma ocasião refugiou-se no alto de uma árvore durante toda a noite para escapar ao risco de ser devorado pelos lobos. Na manhã seguinte, foi salvo por um casal de camponeses calvinistas que adquiriram grande simpatia por ele.

    Posteriormente esses camponeses se converteram, dando início à grande transformação religiosa da região. A cada noite, São Francisco e seus companheiros católicos passavam de casa em casa, jogando debaixo das portas folhetos escritos à mão, nos quais eram refutados os falsos argumentos da heresia calvinista. Esse fato lhe valeu o título de patrono dos escritores e jornalistas católicos. Esses escritos foram posteriormente reunidos e publicados sob o nome de Controvérsias.

    Poucos anos mais tarde, depois de duras lutas e perseguições, Chablais se converteu totalmente, e o Pe. Francisco foi nomeado bispo coadjutor de Genebra. Para receber a sagração episcopal, dirigiu-se a Roma, onde o próprio Papa Clemente VIII o interrogou sobre 35 pontos difíceis de Teologia, em presença do Colégio cardinalício. “Ninguém dos que examinamos mereceu nossa aprovação de maneira tão completa!”– exclamou o Papa ao descer de seu trono para abraçá-lo.

    Bispo príncipe de Genebra

    Com a morte de D. Garnier, São Francisco de Sales assumiu o cargo vacante. A generosidade e a caridade, a humildade e a clemência do santo eram inesgotáveis. Em seu trato com as almas foi sempre bondoso, sem cair na debilidade; sabia ser firme quando necessário.

    StaJoanaChantalFundou a Ordem da Visitação com sua dirigida espiritual, Santa Joana de Chantal, em 1604. Entre as obras por ele escritas destacam-se o Tratado do Amor de Deus, que lhe valeu o título de Doutor da Igreja, e Introdução à vida devota – Filotéia, nascida das anotações enviadas à sua prima, Senhora de Chamoisy.

    A medida de amar a Deus

    A medida de amar a Deus consiste em amá-Lo sem medida.” Este ensinamento de São Francisco de Sales talvez possa resumir toda a sua existência, pois ele não foi senão um exemplo vivo de tudo o que ensinava.

    Estando ele ainda vivo, havia já pessoas devotas que guardavam como relíquias os objetos por ele usados.

    Vítima de uma paralisia, perdeu a palavra e algo da sua lucidez, porém, recuperou-as em breve tempo. Os esforços médicos feitos para salvá-lo de nada adiantaram. Em seu leito repetia: “Pus toda a minha esperança no Senhor; Ele escutou minha súplica e me tirou do fosso da miséria e do pântano da iniquidade”.”

    Faleceu aos 56 anos de idade, na festa dos Santos Inocentes, em 28 de dezembro de 1622. Seu fígado, devido ao constante esforço para controlar seus ímpetos de cólera, havia-se transformado em pedra. Seu corpo foi encontrado incorrupto 10 anos após seu falecimento.

    Ele soube viver inteiramente o conselho de Nosso Senhor no Evangelho: “Aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração, e achareis descanso para vossas almas” (Mt. 11, 29).

    São João Bosco de tal modo o admirou que o escolheu para patrono da sua congregação. E Santa Joana de Chantal dele dizia: “Era uma imagem viva do Filho de Deus, porque verdadeiramente a ordem e a economia dessa santa alma era toda sobrenatural e divina”.

    A fé, se não se traduz em obras, por si só está morta

    martiresCaroline Fugiyama Nunes

    Ao analisarmos a história do cristianismo, constatamos que, durante séculos, os cristãos sofreram perseguições atrozes por parte de imperadores, foram levados a tribunais onde, com ufania, proclamavam a crença em um único Deus verdadeiro e, em Jesus Cristo, Homem-Deus, Redentor do gênero humano, sendo por isso torturados e condenados à morte.

    O objetivo dessa ousadia era espalhar a semente do Evangelho por todo mundo, convertendo-o de bárbaros homens que eram em homens de Fé, exemplos de santidade. Ora, essa enorme e difícil tarefa, humanamente impossível, realizou-se através do oferecimento da vida de um grande número de mártires. “Por mais que seja refinada — escreve Tertuliano –, vossa crueldade não serve de nada: ainda mais, para nossa comunidade constitui um convite. Depois de cada um de vossos golpes de machado, nós nos tornamos mais numerosos: o sangue dos cristãos é semente eficaz!” , “semen est sanguis christianorum” ( Apologético 50, 13).

    Entre as histórias destes heróis, as que causam mais admiração são as dos Santos Apóstolos.

    Sabemos que entre os que Nosso Senhor havia escolhido para serem seus discípulos, Pedro se destacava por possuir uma alma muito manifestativa e impetuosa. E estas suas características peculiares levaram-no, muitas vezes, a afirmar verdades que nenhum outro Apóstolo jamais se atreveria a dizer. Entretanto, cheio de fé, fervoroso e até imprudente, São Pedro passava facilmente do maior fervor ao temor mais declarado. No início da Paixão de seu Divino Mestre, por exemplo, ele O negou três vezes.

    Contudo, depois da Ressurreição, antes mesmo de subir aos Céus, estando Jesus com seus discípulos à beira do mar de Tiberíades, perguntou a Pedro se este O amava. Quer dizer, Ele queria provar se Pedro era capaz de padecer tormentos, inclusive entregar sua vida, se fosse preciso, em função desse amor que ele acabava de declarar. E o Divino Mestre concluiu dizendo: “Em verdade te digo: quando eras jovem, amarravas teu cinto e andavas por onde querias; quando, porém, fores velho, estenderás as mãos e outro te amarrará e te levará para onde não queres ir” (Jo 21, 18). E São João comenta em seu evangelho que estas palavras significavam a morte com que Pedro ia dar glória a Deus (Cf. Jo 21, 19).

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    E assim se fez. Durante a perseguição do Imperador Nero, Pedro foi preso e levado para o Cárcere Mamertino, em Roma. Um ano depois, o Príncipe dos Apóstolos, condenado à morte, foi conduzido à Colina Vaticana e, conforme seu pedido, foi crucificado de cabeça para baixo, pois não se achava digno de morrer da mesma forma que seu amado Mestre.

    Conta uma lenda que antes de ser crucificado, Pedro, não medindo as consequências de seus atos, fugiu. A certa altura do caminho, deparou-se com Nosso Senhor que vinha em direção contrária. Expressivo e arrojado como era, Pedro perguntou: “Domine, quo vades?” (Senhor onde vais?); o Divino Mestre respondeu que estava voltando para ser crucificado no lugar dele. Estas palavras soaram de tal maneira na alma de Pedro que, mais uma vez arrependido e envergonhado, voltou e foi martirizado.

    “A fé, se não se traduz em obras, por si só está morta”, afirma São Tiago (Tg 2, 17). Entretanto, a caridade também não se resume em meras palavras. O amor a Deus para ser perfeito, tem que se traduzir em obras, acima de tudo, numa inteira disposição de alma para enfrentar qualquer situação, padecer qualquer tormento e se for preciso entregar a própria vida.

    O poder do Rosário

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    Irmã Elizabeth MacDonald, EP

    Corria o ano de 1879. O bom pároco da igrejinha da vila de Cap-de-la-Madeleine, em Quebec, Canadá, achava-se diante de um sério problema: o inverno tinha sido demasiadamente ameno…

    Os que já experimentaram a intensidade do inverno na América do Norte, com seus ventos cortantes, nevadas colossais e temperaturas de gelar os ossos, por certo achariam estranho, ver o pároco todo posto em oração, não para agradecer uma estação tão suave, mas para implorar à Santíssima Virgem com ardor, frio, muito frio…

    Nossa Senhora, como verdadeira mãe, compreendeu o que ele queria e o atendeu generosamente. E essa é a nossa história, na qual poderemos venerar a solicitude e o zelo com que Maria guia seus filhos para a glória de Cristo Nosso Senhor.

    Quando o Pe. Desilets recebeu, em 1864, uma igreja pequenina nessa província francófona, encontrou uma paróquia em crise.

    Por ter ficado muito tempo sem pároco, recebendo apenas a visita de padres viajantes que ministravam os sacramentos em numerosas igrejas daquele vasto território, muitos fiéis tornaram-se indiferentes à sua fé Católica. A capelinha, apesar de tão pequena, era ampla demais para o reduzido número de fiéis que ainda frequentavam as Missas.

    Nessa lamentável situação, o novo pároco se dirigiu à Santíssima Virgem, sob a invocação de Nossa Senhora do Rosário. Zelosamente encorajava os seus paroquianos a rezarem o terço com piedade. Pregava a beleza e eficácia desta oração tão amada por Maria e consagrou a Ela a comunidade.

    Os resultados aos poucos se fizeram sentir! A graça foi operando prodígios nas almas, e o sacerdote, passados 15 anos desde que chegara àquele local, viu-se diante de um sério e agradável problema: ter de construir uma igreja bem maior.

    Em combinação com seus paroquianos, decidiu dar início ao projeto no inverno, quando o largo rio São Lourenço, que passava perto da igreja, se congela e sua superfície se transforma numa firme estrada de gelo, por onde podem passar os cavalos e trenós, carregando as pedras e outros materiais necessários para a construção; processo muito mais econômico do que o transporte em barcos.

    Chegado o mês de novembro, o Pe. Desilets e seus paroquianos começaram a rezar pela rápida formação do gelo. Porém, um inverno inesperadamente ameno nos meses de dezembro, janeiro e fevereiro foi adiando a realização do plano. O bom pároco, redobrando seu fervor, prometeu a Nossa Senhora que, se Ela obtivesse uma ponte de gelo, ele não só construiria uma nova igreja, mas preservaria a anterior e a dedicaria à sua honra, sob o título de Nossa Senhora do Rosário.

    Chegou o mês de março e começaram as chuvas. Os paroquianos, com bom senso e pouca fé, sugeriram ao pároco que esperasse até o inverno seguinte.

    Mas o sacerdote continuou rezando, cheio de confiança em Maria, argumentando que, se não construísse a igreja naquele ano, muitas Missas não seriam celebradas e, consequentemente, muitos pecados a mais talvez fossem cometidos.

    A primavera já se aproximava, mas, curiosamente, ou quiçá miraculosamente, a temperatura de repente começou a cair. A festa de São José, padroeiro e protetor do Canadá, se aproximava. O padre coadjutor anunciou que haveria uma Missa solene no dia 19 de março em honra do casto esposo da Santíssima Virgem, na qual se pediria, por sua intercessão, a formação da ponte de gelo.

    Após a Missa, juntamente com alguns paroquianos, o sacerdote foi examinar como estava o rio. Qual não foi a surpresa de todos, quando viram que o forte vento do dia anterior havia trazido grandes blocos de gelo, que se encaixaram perfeitamente de modo a formar uma ponte. Cheios de alegria, correram de volta para contar o ocorrido ao Pe. Desilets e a todo o povo.

    Com redobrada energia, a comunidade inteira pôs mãos à obra, aproveitando essa maravilha operada por Deus. O pároco, que havia rezado inúmeros terços pela obtenção do milagre, infelizmente não pôde estar junto a seus paroquianos, devido a uma súbita enfermidade, mas escreveu uma carta encorajando os fiéis, que lhes foi lida pelo padre coadjutor: “Vossas orações perseverantes estão sendo agora atendidas. Contra toda a expectativa, temos agora uma ponte pela qual podemos passar carregando as pedras para a nossa igreja. Vejam o poder da oração…””

    O trabalho começou na própria festa de São José e continuou por alguns dias. Em uma só jornada, passaram 175 trenós cheios de pedras pela “Ponte do Rosário” (popularmente assim chamada a ponte de gelo). Todos se dedicavam ao labor sem interrupção. “Era extraordinário, um verdadeiro milagre! Algo verdadeiramente impossível!” relatou um dos presentes, anos depois.

    O pároco convocou todas as mulheres e crianças para recitarem o terço, enquanto o projeto se transformava em realidade, e ele mesmo era visto muitas vezes, de terço na mão, rezando diante de uma imagem de Nossa Senhora, dentro da igreja. Os homens costumavam rezar inúmeras “Ave-Marias”” enquanto trabalhavam.

    Por fim, no preciso momento em que se completou a quantidade de pedras necessárias para a construção da nova igreja, a ponte começou a se desfazer. Então, a ação sobrenatural tornou-se evidente.

    Na festa do Santo Rosário do ano seguinte, a nova igreja foi inaugurada e a velha igrejinha anterior passou a ser conhecida como capela do Santo Rosário, tornando-se rapidamente um local de peregrinação.
    Contudo, o Pe. Desilets ansiava por mais um sinal do Céu, que confirmasse estarem seus anseios de acordo com os desejos de Nossa Senhora.

    No dia da dedicação oficial da capela em louvor a Maria, o sacerdote estava rezando diante da imagem de Nossa Senhora do Rosário, quando algo extraordinário aconteceu. O fato, presenciado por várias pessoas, foi assim descrito por uma das testemunhas: “A imagem da Virgem, cujos olhos estão voltados para baixo, repentinamente os levantou e permaneceu longo tempo com eles totalmente abertos. O olhar da Virgem era firme e voltado para frente. Não poderia ser uma ilusão, pois a face d’Ela estava inteiramente iluminada, devido aos brilhantes raios do sol que entravam pelas janelas, os quais, aliás, iluminavam o santuário todo. Os olhos bem formados eram negros e em admirável harmonia com as feições da sua face.””

    Estava concedido o sinal! Nossa Senhora assim mostrava a seus filhos canadenses e aos do mundo inteiro, que Ela não só atende os pedidos feitos através de recitação do Rosário, mas também acompanha, com um vivo olhar maternal, aqueles que a Ela recorrem com confiança.

    Cap-de-la-Madeleine tornou-se o Santuário Nacional do Canadá, tonificando dessa forma a devoção a Nossa Senhora do Rosário, magnífica invocação d’Aquela que sempre será a medianeira universal de todos os fiéis católicos.

    O pecado original e os dons preternaturais

    Bárbara Honório

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    Ao criar o primeiro homem a Sua imagem e semelhança, Deus conferiu-lhe dons extraordinários, alguns muito acima da natureza humana: os sobrenaturais, que pela graça divina tornava-o participante da Sua própria natureza; e os preternaturais, comuns à natureza dos anjos, tais como a integridade, imortalidade, impassibilidade, perfeito domínio sobre os animais e sabedoria insigne.

    O dom da integridade consiste na total imunidade de concupiscência desordenada. Ou seja, o primeiro homem tinha sua razão submetida ao mais elevado — a Deus; seu apetite sensitivo não possuía nenhum movimento desordenado. Ele se alimentava para conservar sua própria vida e se unia à sua mulher para propagar a espécie, segundo o mandamento do Senhor: “Procriai e multiplicai-vos (Gen.I, 28). Este dom removia do homem todos os obstáculos de ordem moral que pudessem impedir a vida sobrenatural da graça.

    Com o dom da imortalidade, o homem não sofreria a morte — que é a desagregação dos diversos elementos de toda matéria viva — e viveria algum tempo no Paraíso Terrestre, sendo transladado para o céu (visão beatífica), sem passar pelo terrível e doloroso transe da morte.

    A isenção de toda dor ou sofrimento da alma e do corpo foi dada através do dom da impassibilidade. Nenhuma perturbação espiritual ou corporal podia alterar a perfeita felicidade natural de nossos primeiros pais no Paraíso para que sua união com Deus pudesse se desenvolver em paz e tranquilidade.

    O primeiro homem criado em estado de inocência dominava perfeitamente os animais, pois as coisas inferiores estavam submissas às superiores. Em virtude desse privilégio preternatural, o homem agia como ministro da Divina Providência, fazendo com que todos os seres irracionais, inferiores ao homem lhe obedecessem como animais domésticos.

    Além desses dons comuns a toda a humanidade, Adão recebeu, por ser o princípio, mestre e cabeça de todo gênero humano, um intransferível e magnífico dom: a Sabedoria e Ciência excelentíssimas.

    Segundo São Tomás de Aquino, “como o primeiro homem foi instituído em estado perfeito quanto ao corpo, assim também foi instituído em estado perfeito à alma quanto, de modo a poder logo instruir e governar os outros seres” (Suma Teológica, q. 96, 1).

    Como contrapartida a esses imensos benefícios, foi apresentada ao homem uma prova.

    Devia ele cumprir de modo exímio a lei divina, guiando-se pelas exigências da lei natural gravada no seu coração, e respeitar uma única norma concreta que Deus lhe dera: a proibição de comer do fruto da árvore da ciência do bem e do mal, plantada no centro do Jardim do Éden (cf. Gn 2, 9-17).

    Narra-nos a Sagrada Escritura como a serpente tentou Eva, e como caíram nossos primeiros pais e como foram expulsos do Paraíso (cf. Gn 3, 1-23).

    Por isso diz Santo Agostinho que uma vez consumada a transgressão do preceito, no mesmo instante, destituída a alma da graça divina, envergonharam-se da nudez de seu corpo, pois sentiram em sua carne um movimento de rebeldia, como pena correspondente à sua desobediência. Quando a graça abandonou a alma, desapareceu a obediência das leis do corpo às da alma. O primeiro pecado foi uma revolta interna contra Deus, que rompeu a submissão da razão a Deus e produziu a ruptura e desordem das faculdades inferiores.

    Mas Deus, em sua infinita misericórdia, não retirou-lhes os privilégios naturais, como descreve o douto Pe. Tanquerey: “Contentou-Se de os despojar dos privilégios especiais que lhes tinha conferido, isto é, dos dons preternaturais: conservando pois, a natureza e os seus privilégios naturais”.

    Mas, por que o pecado de Adão foi transmitido a todos seus descendentes? Porque a justiça original foi um dom de Deus para toda natureza humana na pessoa de Adão, como cabeça de toda a humanidade. Se só Eva tivesse pecado, a natureza humana permaneceria intacta e conservaria todos os privilégios. Assim, pelo pecado de Adão — pecado original — entrou o mal no mundo, como afirma o Apóstolo São Paulo: “Por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte” (Rm 5,12).

    O pecado original abriu entre Deus e os homens um abismo intransponível. As portas do Céu se fecharam e o homem contingente só podia oferecer a Deus uma reparação imperfeita da ofensa cometida. Estariam, então, os umbrais da felicidade eterna irrevogavelmente fechados? Não! Peremptoriamente atestam as palavras do Apóstolo: “Onde abundou o pecado, superabundou a graça” (Rm 5,20). Deus em sua infinita misericórdia prometeu o remédio para tal enfermidade e, no tempo previsto enviou Seu Filho Unigênito. “Ó feliz culpa que mereceu tão grande Salvador” (MISSALE ROMANUM, 2008, p.348).

    O próprio Criador fez-Se criatura para, com uma generosidade inefável, saldar nossa dívida. O Filho “fazendo- Se obediente até a morte, e morte de cruz” (Fl 2, 8), restituiu ao homem a graça perdida com o pecado e abriu-nos as portas do céu.

    Cápua: preciosa lição de vida espiritual

    AnibalIrmã Clara Isabel Morazzani Arráiz, EP

    Aníbal foi um excelente general, astuto e ao mesmo tempo ousado. No entanto, no momento mais dramático de sua grandiosa campanha militar, faltou-lhe a prática de uma importantíssima virtude.

    Roma, a invencível, a poderosa, tremia… Num só dia perdera o escol de seus soldados e de sua cavalaria; deixara sobre o campo de batalha 50 mil mortos e vira cair nas mãos de seus inimigos mais de 10 mil prisioneiros. A soberba rainha das nações sofrera o maior desastre militar de toda a sua história. E a derrota não se limitava a estas conseqüências: era de temer- se que o adversário, alentado pela recente vitória, alcançada de forma tão fulminante, continuasse sua marcha triunfal até as portas da Cidade Eterna, derrubando sua supremacia e mudando completamente os rumos do Ocidente.

    Quem era o contendor que ousava opor resistência ao glorioso avanço das legiões romanas, levando sua audácia ao extremo de desafiá-las no coração de seu poderio? Quem era este que, num golpe estratégico magistral, se aventurara a frear a colossal força de Roma e agora a mantinha numa humilhante incerteza?

    Aníbal e a campanha contra Roma

    Havia já muitos anos, uma rivalidade surgira entre as duas potências da Antigüidade: Roma e Cartago. Não poupara a primeira, em seu ímpeto conquistador, os territórios da segunda situados nas ilhas de Sicília, Córsega e Sardenha, ocasionando a Primeira Guerra Púnica. Se Roma havia conseguido ampliar suas fronteiras, comprara ao mesmo tempo uma inimiga irreconciliável que nutria um profundo desejo de vingança.

    Em Cartago, entre os mais acirrados na oposição a Roma, achava-se a dinastia dos Barca, cujo chefe, Amílcar, distinguira-se por sua coragem e determinação ao longo das campanhas militares na Península Ibérica. Conta a tradição que ele obrigou seu filho Aníbal, de nove anos, a jurar diante dos altares dos deuses ódio eterno aos romanos.

    Pode-se dizer que a partir daí a vida de Aníbal não foi mais que o estrito cumprimento de sua promessa. Educado por seu pai nas rudes façanhas da guerra na Hispânia, o jovem descendente dos Barca reunia predicados aparentemente contraditórios: sabia aliar a astúcia à energia, o maior dos entusiasmos a um cálculo frio e sagaz; era ao mesmo tempo o melhor dos peões e o mais hábil dos cavaleiros, o primeiro no ataque e o último na retirada.

    Após a morte de seu pai e de seu cunhado, o exército cartaginês o elegeu general quando tinha apenas vinte e um anos. Aníbal revelou-se um excelente estrategista, demonstrou logo seu gênio improvisador nos combates e realizou verdadeiras proezas. Rompendo a trégua temporária que havia entre Cartago e Roma, atacou várias cidades pertencentes a esta na Hispânia, saindo sempre vencedor.

    Em 218 decidiu pôr em prática o sonho temerário de tomar Roma e destruir por completo sua primazia. Os romanos conheciam as intenções do jovem general e o esperavam no marcom uma numerosa frota; entretanto Aníbal, temendo ser derrotado numa batalha naval onde a superioridade de seus inimigos era patente, preferiu levar suas tropas por terra através da Hispânia e da Gália. Reuniu um exército de 100 mil guerreiros com 37 elefantes, transpôs o Ródano, os Pirineus e os Alpes, estes últimos cobertos de neve e cheios de perigos e obstáculos. Grande parte dos soldados pereceu ao longo da viagem, mas o general não se intimidou, e recrutou gauleses para reparar as perdas sofridas.

    Seu avanço militar pela Itália foi marcado por uma série de êxitos extraordinários. Chegando a Ticino, venceu o cônsul Cornélio Cipião e pouco mais tarde, em Trébia, infringiu uma vergonhosa derrota à legião comandada por Semprônio. No ano seguinte, obteve nova vitória às margens do lago Trasímeno, contra as forças lideradas pelo cônsul Flamínio. Com a chegada da notícia dessa batalha, o terror espalhou-se em Roma. Quinto Fábio Máximo, eleito ditador, pôs a cidade em estado de defesa e reuniu às pressas um novo contingente com o intuito de conservar ao menos a capital.

    Não obstante essas medidas de prudência tomadas por Fábio Máximo, o general púnico conseguiu atrair os cônsules Terêncio Varrão e Paulo Emílio a uma batalha em Cannas, em campo aberto, como era bem do seu gosto, pois sempre vencia nesse tipo de combate. Aníbal dispôs seus africanos, gauleses e íberos em ordem de batalha, armados de longas espadas e afiados alfanjes. A luta foi encarniçada. De ambos os lados, os guerreiros combateram heroicamente, mas Aníbal, apesar da inferioridade numérica de seu exército, saiu vencedor. Como afirmamos acima, Roma sofreu aí a pior derrota da história da República e viu cair sob os golpes dos cartagineses a fina flor de sua força combatente.

    O exército cartaginês se detém em Cápua

    Após a batalha de Cannas, muitos contemporâneos pensaram que Roma chegara ao fim de sua glória, e alguns de seus aliados italianos, julgando- a perdida, decidiram unir-se a Cartago. A queda da capital parecia uma conseqüência natural do avanço cartaginês.

    Entretanto, deu-se o inesperado: ao invés de lançar-se sobre a cidade no momento em que ela se achava indefesa e sem coordenação militar, Aníbal preferiu retirar-se para Cápua (uma das cidades que lhe haviam aberto as portas) a fim de ali passar o inverno e conceder um merecido descanso às suas tropas. Sem dar ouvidos às sugestões de seus oficiais, de logo invadir Roma, e aos acertados avisos de seu lugar-tenente Maarbal que lhe dizia: “Tu sabes vencer, Aníbal, mas não aproveitar da vitória”, ele deixou-se ficar em Cápua, gozando de uma vida ociosa e devassa. Seus soldados, que estavam no auge do furor bélico, ficaram de repente sem motivação por verem o próprio chefe abandonar seus objetivos para dedicar- se ao descanso, e entregaram-se aos prazeres de uma vida fácil, a ponto de, entre os romanos, dizer-se que eles “tendo entrado homens, saíram transformados em mulheres”.

    Era o toque de finados do sonho cartaginês: Aníbal cometera um erro irreparável. Ao facilitar o repouso e o relaxamento de seus valentes, concedendo-lhes tudo quanto quisessem, julgava que eles adquiririam assim um redobrado vigor para se jogarem de novo sobre o adversário. Entretanto, o resultado foi precisamente o contrário: de tanto descansar no meio dos prazeres, eles amoleceram e perderam o desejo de vencer. A inação dos cartagineses em Cápua deu aos romanos oportunidade de reagrupar suas forças e iniciar uma hábil contra-ofensiva, hostilizando a retaguarda africana e cortando-lhe o aprovisionamento. Aníbal jamais chegaria a entrar em Roma.

    Profunda lição de vida espiritual

    Após ter cruzado toda a Península Ibérica, transposto os Alpes e enfrentado vitoriosamente os poderosos exércitos romanos, o enérgico general africano sucumbiu em Cápua. O que, exatamente, teria acontecido?

    “Finis coronat opus” (o fim coroa a obra), diz o provérbio latino. Aníbal confiou demais nas suas próprias forças e já deu a vitória por obtida quando pouco lhe faltava para alcançar o termo final. Sem ter atingido o seu objetivo último, todas as suas lutas anteriores ficaram tremendamente destituídas de brilho e até mesmo, de certo modo, sem sentido.

    Ele foi um excelente general, astuto e ao mesmo tempo ousado. No entanto, no momento mais dramático de sua grandiosa campanha militar, faltou-lhe praticar a virtude que dispõe a razão a discernir em qualquer circunstância nosso bem, e a escolher os meios adequados para realizá-lo: a prudência.
    “O homem prudente vigia seus passos” (Pr 14,15), afirma a Sagrada Escritura. São Tomás, citando Aristóteles, ensina que a prudência é a “regra certa da ação” 1 . Ela é chamada “auriga virtutum” (o cocheiro, ou o portador, das virtudes), porque conduz as outras virtudes, indicando-lhes a regra e a medida. Graças à prudência, aplicamos sem erro os princípios morais aos casos particulares e superamos as dúvidas sobre o bem a fazer e o mal a evitar 2 .
    Onde falhou Aníbal? Tivesse ele sido prudente, teria considerado quanto risco havia em entregarem-se, ele e seus soldados, aos devaneios das paixões que Cápua oferecia, desviando-se assim de primordial, a conquista de Roma. A ele — que era pagão e desconhecia os salutares preceitos da moral cristã — teriam bastado os ensinamentos de Aristóteles, o qual previne os imprudentes contra o risco dos prazeres desregrados: “O deleitável e o triste pervertem no coração o conceito da prudência” 3 .

    Mas o Cristianismo vai muito além. Na Suma, o grande São Tomás disserta sobre a prudência de modo completo e profundo. E é muito claro ao afirmar que ela se perde, não tanto por distrações ou esquecimentos, mas, sobretudo, quando é enleada pelas paixões: “A prudência não desaparece diretamente pelo esquecimento. Ela, ao invés, corrompe-se pelas paixões” 4 .
    Deste fato histórico passado na antiqüíssima cidade itálica tiramos, sem dúvida, uma preciosa lição. Ele é útil tanto para quem adotou o estado religioso quanto para os cristãos que vivem na sociedade. A entrega a um vício, a uma paixão, por pequena, fugaz e sem importância que pareça, é sempre uma imprudência que pode arruinar anos de uma bem-levada vida devota. Pode destruir uma empresa, um casamento ou uma família, uma juventude brilhante ou uma respeitável maturidade. Quantas “Cápuas” não terão destituído da coroa da dignidade pessoas que passaram uma existência inteira na observância dos melhores preceitos morais, levando-as até a terem vergonha de si mesmas?

    O exemplo da derrota do infeliz Aníbal e, sobretudo, os sábios ensinamentos da Santa Igreja, são um sério e irrecusável convite a todos nós, no sentido de nunca fraquejarmos na prudente vigilância e no combate às más paixões. Além disso, nunca será demais recordar que nenhuma virtude pode ser estavelmente praticada sem o precioso auxílio da graça. Mas esta jamais será recusada àqueles que a pedem com insistência e confiança, sobretudo quando pela intercessão de Maria Santíssima. Sejamos prudentes e confiantes, e não haverá “Cápua” a nos desviar do caminho da eterna salvação.

    1) Suma Teológica II-II, q. 47, a. 2.
    2) Cf. CIC n. 1806.
    3) In VI Ethic.
    4) Suma Teológica, II-II q. 47, a. 16.

    THE WILL AND THE GOOD IN BEING

    paisagemKYLA MARY ANNE MACDONALD

    “In the Thomistic synthesis, the good has an extraordinary importance. St. Thomas conceives it as the motive of creation and the end of the created” 1 .

    The Aristotelian concept of the universe is one of order. Transferred into Thomistic thought, the resultant concept of the universe is one in which each part has some relation to each other part, inasmuch as all parts are ultimately linked with the Creator-God. It is thus that the purpose of the will emerges in light of its object.

    THE GOOD

    It is in the first part of his Summa Theologica, in which St. Thomas treats of God and the divine attributes, that he first touches upon the idea of goodness. A superlative and causative goodness is imputed to God in the description of His essential perfection and being. Referring to Aristotle‟s Metaphysics, St. Thomas states that God is called universally perfect since He cannot lack any perfection that is found in any other genus. For by reason of His being effective cause, He possesses all that the effect possesses. Continuing, he expounds:

    God is existence itself, of itself subsistent. Consequently, He must contain within Himself the whole perfection of being. (…)

    Now all created perfections are included in the perfection of being, for things are perfect precisely so far as they have being after some fashion. It follows therefore that the perfection of no one thing is wanting to God. This line of argument, too, is implied by Dionysius (loc. cit.) when he says that “God exists not in any single mode, but embraces all being within Himself, absolutely, without limitation, uniformly”; and afterward he adds that He is the very existence to subsisting things 2 .

    This excerpt not only demonstrates the relation between being and perfection but also shows that a relation exists between created things, in their particular degrees of being and perfection, and God. This relation, in addition to being that of cause and effect, is one of a certain similarity: “all created things, so far as they are beings, are like God as the first and universal principal of being” 3 . It follows, as a consequence, that: “Every being that is not God, is God’s creature. Now every creature of God is good (1Tim 4:4): and God is the greatest good. Therefore every being is good” 4 .

    The infinite being and goodness of God is, therefore, represented in His work, His creation. However, creatures have but finite being and goodness; no one creature can adequately reflect the divine likeness. For this purpose, the existence of a multiplicity and variety of creatures are required 5 . It is important to note that the excellence of the divine agent is seen, therefore, in the totality of his work and not completely in any individual part. The resultant variety or distinction among creatures signifies unequal degrees of perfection, and where there are degrees of perfection there is necessarily a hierarchical order. In this order, plants are more perfect than minerals, animals above plants and man being the most perfect among animals 6 .

    This scale of greater and lesser perfection among created entities is nothing other than a scale of greater or lesser participation of being. Living things have more being than things that merely exist without life. That which understands surpasses life without understanding 7 . By virtue of the concept of all being as good, the universe is likewise conceived as the ordination of distinct levels of goodness according to their participation in the good 8 . Yet even seen thus, the most profound root is that of being; to have goodness, above all, is to have being 9 .

    The human person finds himself on the pinnacle of the material universe, ─ perfectissimum in tota natura (De Pot., I,29,3) ─ since he is endowed with the highest level of being which comprises intelligence and free will 10 . Among creatures, only an intelligent, personal being that is devoid of all material ─ angelic nature ─ can surpass human nature 11 . Yet in contrast with all created nature which has being in varying degrees, God is pure being, in such a way that He is His own being 12 . Being as a nature is present only in God 13 . In other words, this signifies that God is a necessary being, without need of cause, while all creatures are contingent beings in relation to God. Applying this principle to the goodness of God and creatures, God is His goodness while the goodness of creatures is a finite participation of the infinite goodness which is God 14-15 .

    This decidedly Theo-centric view of the ontological goodness of the universe illustrates the fundamental metaphysical optimism which characterizes the philosophy of St. Thomas. Chesterton identifies the primary target of these arguments as being the Manichean philosophy in its various manifestations. One such school assigns the production of the material world to an evil spirit, rendering all nature and being within it essentially evil, while the good spirit resides in an entirely separate spiritual world. Other developments present a different shade of dualism: God is the sole creator, but he creates and wills both good and evil in the world in a sort of equal and parallel position, in which neither can claim primacy 16 .

    In contrast, St. Thomas maintains that while God is the supreme and essential good that is the cause of all being and first principle of all good, there cannot be a supreme evil that is the first principle of all evil, since its very being would imply some good 17 . Evil, in the metaphysical sense, does not have positive existence, but can only be considered in a negative sense as the privation of good in the same way that darkness is but lack of light 18 . This concept will later be reconciled with the spectrum of moral good and evil, but for the present the ontological good is significant as we consider in its appetitive sense, as an object of the will.

    THE WILL IN THE GENUS OF APPETITE

    We have thus far considered the good as being. This is, in effect, to consider good as a transcendental of being, thereby sharing ─ with oneness and truth ─ the same identity as being. But although the transcendentals are in reality the same as being, they are not identical in concept 19 . In what sense, then, is the notion of good distinct from that of mere being in Aristotelian and Thomistic thought?

    Aristotle begins his Nichomachean Ethics with a definition of the good as that toward which all things tend: quod omnia appetunt. Thus, goodness refers to the relation between being and the appetite in the universal sense. In other words, goodness carries a nuance of meaning which the term being, alone, does not, namely, the aspect of appetibility 20 .
    Accordingly, the very criterion of what is good is its appetibility. “Everything is good so far as it is desirable, and is a term of the movement of the appetite” 21 .

    Given the metaphysical principle that every form elicits an inclination 22 , “appetition in general is a universal occurrence, existing in both inanimate and animate beings” 23 . Since the good exists in varying degrees in all levels of being, it stands to reason that this appetition is likewise of unequal degrees. “All things in their own way ─ says St. Thomas ─ are inclined by appetite towards good, but in different ways” 24 .

    In following, St. Thomas traces the presence of appetite throughout the various levels of being. Minerals or inanimate things and plants are inclined to good naturally and without knowledge; this inclination is called natural appetite. The next level is that of irrational animals which although without knowledge of the good in itself, apprehend some particular good by means of the senses, and the inclination which follows is duly named sensitive appetite. The most perfect inclination to what is good occurs in beings that have knowledge of the reason of goodness, goodness in its universal sense; in them this inclination is called rational appetite or will 25 .

    Appetites are aptly divided, then, into those of beings with knowledge and beings without. Clearly, appetition follows apprehension; therefore, a higher level of apprehension determines a superior type of appetition, as the following explanation illustrates:

    As forms exist in those things that have knowledge in a higher manner and above the manner of natural forms; so must there be in them an inclination surpassing the natural inclination which is called the natural appetite. And this superior inclination belongs to the appetitive power of the soul, through which the animal is able to desire what it apprehends, and not only that to which it is inclined by its natural form 26 .

    The irrational and hence inferior form of apprehension and inclination would hold little import for man if it were not for the fact that in the scale of being, each successively superior level possesses the potencies of the levels inferior to it, upon which something further has been added. Thus, sensitive nature includes natural or vegetative nature, and the human soul contains a spiritual nature in addition to all the preceding natures 27 . Considering that man´s position on the graduated scale of being is precisely at the intermediate point between the corporal and the spiritual world, between angels and brutes 28 , this accounts for an impressive diversity of natures at once present in the human being, rendering him the most complex of all beings, a composite of spiritual and corporal. St. Thomas 29 attests to this fact, stating that the human soul exists on the border of the spiritual and corporal worlds and for this reason, it possesses the potencies of both one and the other order.

    As diverse as these various vegetative, sensitive and rational potencies are ─ the vegetative and sensitive being corporal and the rational being spiritual, they are all present within the human soul, united as it is to the body as its one substantial form 30 . The vegetative or nutritive nature present in man involves only corporal functions over which the intelligence and will have no direct dominion. Much more significant to our study, then, is the presence of sensitive life in man, since this, in addition to his spiritual nature implies two distinct faculties of knowledge, sense and intellect. These faculties, being endowed with distinct means of knowing, give rise to the correspondingly diverse sensitive appetite and the will 31 . In St. Thomas´ own words: “Since what is apprehended by the intellect and what is apprehended by sense are generically different; consequently, the intellectual appetite is distinct from the sensitive” 32 .

    Endowed with these distinct potencies that reflect his composition of matter and form ─ in this case, soul and body ─, man is thus admirably equipped to live in a universe of which every part is made up of matter and form. For while the sensory perception is suited to capture the particular and individual aspect of things that present themselves in matter, the intellect is adapted to extract from this knowledge the universal, purely abstract* aspect which is reserved in the form of a given object 33 .

    The will comes into play in response to an object that is represented to it by the intellect as good, just as the sensitive appetite desires only the good that one or other sense has captured. As a spiritual potency, the will is capable of desiring purely spiritual goods, such as knowledge and virtue. But the will would not be a human faculty and would be of little use to man in the material world if it were not also able to choose between things that exist as material singulars. But even so, it desires these according to some reason of the universal aspect of good (bonum in universali): either as an end (bonum honestum), or a means towards that end (bonum utile), and if successful, it rejoices in them as a good attained (bonum delectabile) 34 . Thus, the will´s essential disposition emerges, fixed in the desire for good and an absolute incapacity of desiring evil:

    From this, the will cannot escape, and since all action is nothing more than a manifestation of nature, in all action which is fruit of the will can be seen the mark of the good and its influence. (…) To want evil, would be, truly, not to want, given that to want is, by definition, the seeking for the good, being the manifestation of an appetite of the good naturally executed. It could be said: The will does not want the good because it wants; it wants the good because it is: To want the good, for the will, is to be 35 .

    1 FORMENT, Eudaldo. Id a Tomás : Principios fundamentales del pensamiento de Santo Tomás. p.29. [On line]. [Consulted: 12 Nov., 2008]. “En la síntesis tomista tiene una importancia extraordinaria el bien. Santo Tomás lo concibe como motivo de la creación y como fin de lo creado”.
    2 ST. THOMAS AQUINAS. Summa Theologica I, q. 4., a. 2. “Deus est ipsum esse per se subsistens, ex quo oportet quod totam perfectionem essendi in se contineat.[…]. Omnium autem perfectiones pertinent ad perfectionem essendi, secundum hoc enim aliqua perfecta sunt, quod aliquo modo esse habent. Unde sequitur quod nullius rei perfectio Deo desit. Et hanc etiam rationem tangit Dionysius, cap. V de Div. Nom., dicens quod Deus non quodammodo est existens, sed simpliciter et incircumscripte totum in seipso uniformiter esse praeaccipit, et postea subdit quod ipse est esse subsistentibus”.
    3 Ibid., I, q. 4, a. 3. “Et hoc modo illa quae sunt a Deo, assimilantur ei inquantum sunt entia, ut primo et universali principio totius esse”.
    4 Ibid., I, q. 5, a. 3. “Omne ens quod non est Deus, est Dei creatura. Sed omnis creatura Dei est bona, ut diciter 1 Ti4,4: Deus vero est maxime bonus. Ergo omne ens est bonum”.
    5 SANTO TOMÁS DE AQUINO. Suma contra los gentiles. L. II, c. 45.
    6 GILSON, Étienne. El tomismo. 4a. ed. Pamplona: Universidad de Navarra, 2002. p. 205-206.
    7 FORMENT, Op. Cit., p. 45.
    8 Ibid., p. 30.
    9 GILSON, Étienne. Elementos de una metafísica tomista del ser. [On line]. In: Espiritu, No. 41 (1992). [Consulted : 9 Feb., 2009].
    10 RODRÍGUES, Victorino. Temas clave de humanismo cristiano. Madrid: Speiro, 1984. p. 19. Rodrigues outlines the key principles of the special dignity of human nature: “Hence the superior dignity of man above the other beings of this world: as much by reason of his quasi generic factor (to subsist in himself with, moreover, an ultra-temporal projection, due to the natural immortality of the human soul) as by reason of his quasi specific factor (rational and free). (“De ahí la superior dignidad del hombre sobre los demás seres de este mundo: tanto por parte de su factor cuasi genérico (subsistir por sí, con proyección, además, ultratemporal, debida a la inmortalidad natural del alma humana) como por parte de su factor cuasi específico (racional y libre).) p.261.
    11 SANCHEZ DE LEON, Pilar. 30 Temas de iniciación filosófica. Bogotá: Universidad de la Sabana, 1990. p. 92.
    12 GILSON, Étienne. Elementos de una metafísica tomista del ser, Op. Cit., p. 18.
    13 OWENS, Op. Cit., p. 48.
    14 GILSON, Étienne. A filosofia na idade média. 2a. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007. p. 659-663.
    15 Ibid., p. 663. This is far from the pantheistic interpretation that creatures are part of God and are, therefore, God, as Gilson explains: “To participate in the pure act or in the perfection of God is to possess a perfection that pre-existed in God, and which, in fact is found in Him without having been either augmented or diminished by the appearance of the creature which reproduces it in a limited, finite manner. To participate is not to be part of that of which is participated, it is to owe one‟s being and receive it from another being, and the fact of receiving from another is exactly what proves that one is not the other”. (Personal translation)
    16 CHESTERTON, G.K. St. Thomas Aquinas. [On line]. [Consulted: 12 Nov., 2008].
    17 ST. THOMAS AQUINAS. Summa Theologica I, q. 49, a. 2.
    18 Ibid., q. 48, a. 1.
    19 GARDEIL, H.D. Introduction to the Philosophy of St. Thomas Aquinas: Metaphysics. St. Louis: Herder Book, 1967. p. 126. Vol. 4.
    20 Ibid., p. 142, 143.
    21 St. THOMAS AQUINAS. Summa Theologica I, q. 5, a. 6. Nam bonus est aliquid, inquantum esta appetibile, et terminus motus appetitus.
    22 GARDEIL, H.D. Introduction to the Philosophy of St. Thomas Aquinas: Psychology. St. Louis: Herder Book, 1956. p. 197. Vol. 3.
    23 GARDEIL, H.D., Introduction to the philosophy of St. Thomas Aquinas: psychology, Op. Cit., p. 79.
    24 ST. THOMAS AQUINAS. Summa Theologica I, q. 59, a. I. “Omnia suo modo per appetitum inclinantur in bonum, sed diversamode”.
    25 Ibid.
    26 ST. THOMAS AQUINAS. I, q. 80, a. 1. “Sicut igitur formae altiori modo existunt in habentibus cognitionem supra modum formarum naturalium, ita oportet quod in eis sit inclinatio supra modum inclinationis naturalis, quae dicitur appetitus naturalis. Et haec superior inclinatio pertinet ad vim animae appetitivam, per quam animal appetere potest ea quae apprehendit, non solum ea ad quae inclinatur ex forma naturali”.
    27 GARRIGOU-LAGRANGE, Reginald. Reality: A Synthesis of Thomistic Thought. St. Louis: Herder, 1950. p. 184.
    28 SERTILLANGES, A. D. Foundations of Thomistic Philosophy. St Louis: Herder, 1931. p. 199.
    29 ST. THOMAS AQUINAS. Summa Theologica I, q. 77, a. 2.
    30 KRETZMANN, Norman. Philosophy of mind. In: The Cambridge Companion to Aquinas. Op. Cit., p. 131.This is an important factor in understanding the human soul as a “microcosm” in which all elements of the cosmos are represented. “In a theory that recognizes the soul of a plant as a merely nutritive first intrinsic principle of life, and the soul of a nonhuman animal as a nutritive + sensory principle of that sort, it comes as no surprise that the soul of a human
    being is to be analyzed as nutritive + sensory + rational. Aquinas thinks of the human soul not as three nested, cooperating substantial form, however, but as the single form that gives a human being its specifically human mode of existence, including potentialities and functions, from its genetic makeup on to its most creative talents”.
    31 GARDEIL, H.D. Introduction to the Philosophy of St. Thomas Aquinas : Psychology. Op. Cit., p. 198, 199.
    32 ST. THOMAS AQUINAS. Summa Theologica I, q. 80, a. 2. “Quia igitur est alterius generis apprehensum per intellectum et apprehensum per sensum, consequens est quod appetitus intellectivus sit alia potentia a sensitivo”.
    33 GILSON. A Filosofia na Idade Média. Op. Cit. p. 666 – 668.
    * Ibid., p. 666-668. Since an in-depth description of the process of abstraction is outside of the scope of this study, see this passage for an overview of the respective functions of agent intellect and possible intellect in the process of rendering intelligible the sensible species.
    34 GARDEIL, H.D. Introduction to the Philosophy of St. Thomas Aquinas : Psychology. Op. Cit., p. 199.
    35 SERTILLANGES, A. D. Santo Tomas de Aquino II. Buenos Aires : Desclée de Brouwer. p. 213 – 214. (Personal translation). “A esto no puede la voluntad escapar, y como toda acción no es en el fondo más que una manifestación de la naturaleza, en toda acción fruto de la voluntad se podrá ver La marca del bien y su influencia. (…) Querer el mal, será, en verdad, no querer, puesto que querer es, por definición, La búsqueda del bien, al ser la manifestación de un apetito del bien realizado naturalmente. Se podrá decir: La voluntad no quiere el bien porque quiere; quiere el bien porque ella es: Querer el bien, para ella es ser”.
    * This necessity is not equivalent to coercion, and is not incompatible with freedom. Davies explains that for St. Thomas, “it is not against will that one should be drawn to what one‟s nature needs for its fulfillment. This kind of necessity is, he thinks, essential to will, just as the being drawn of necessity to truth is needed for the intellect to be itself. (DAVIES, Op. Cit., p. 177.)

    O desenvolvimento da vida espiritual

    STeresa_dAvilaIrmã Maria Cecília Seraidarian, EP

    Em sua Teologia da Perfeição Cristã, o Pe Royo Marín (1968, p 273) salienta que :

    Cada alma segue seu próprio caminho rumo à santidade sob a direção e o impulso supremo do Espírito Santo. Não há duas fisionomias inteiramente iguais no corpo nem na alma. Contudo, os mestres da vida espiritual tem tentado diversas classificações atendendo às disposições predominantes das almas, que não deixam de ter sua utilidade ao menos como ponto de referência para precisar o grau aproximado de vida espiritual em que se encontra uma determinada alma. (…)

    São três, parece-nos, as principais classificações que foram propostas ao longo de toda a história da espiritualidade cristã: a clássica das três vias: purgativa, iluminativa e unitiva; a do Doutor Angélico, baseada nos três graus de principiantes adiantados e perfeitos; e a de Santa Teresa de Jesus em seu genial Castelo interior ou livro das Moradas.

    A obra de Santa Teresa de Jesus, Castelo interior ou Moradas, é tomada como exemplo pela maioria dos autores de vida espiritual, pois explica de modo excelente as fases da vida cristã rumo à santidade, baseando-se nos graus de oração. Esta Doutora da Igreja compara a alma a um castelo e os diversos graus da vida espiritual, aos aposentos desse castelo: “consideremos nossa alma como um castelo, feito de um só diamante ou de limpidíssimo cristal. Neste castelo existem muitos aposentos, assim como no céu há muitas moradas” (1981, p. 19).

    Santa Teresa divide o desenvolvimento da vida espiritual em sete moradas:

    a) Primeiras Moradas (ibidem, p. 19-37) – considera a beleza de uma alma em estado de graça e lamenta aquelas almas que jamais entram no castelo, ficam ao redor dele, obstinadas no pecado. Afirma ainda que a porta de entrada desse castelo é a oração. Trata da hediondez de uma alma em estado de pecado mortal e da importância da humildade e do conhecimento de si mesmo, através do conhecimento de Deus. Adverte também sobre as artimanhas do demônio para impedir que as almas progridam dessas primeiras moradas para as seguintes. Nesse estágio, as almas desejam não ofender a Deus e praticar boas obras, no entanto, estão ainda absorvidas pelo mundo.

    b) Segundas Moradas (ibidem, p. 41-49) – aqui as almas já se preocupam em servir a Deus, fogem das distrações fúteis e buscam uma vida de oração e recolhimento, embora com muitas quedas e falhas. Têm aversão ao pecado mortal, porém, pouco cuidado em evitar as ocasiões. Sofrem por sentirem cada vez mais claro o chamado de Deus e não terem ânimo suficiente para se entregarem inteiramente. Nesta fase, a Santa encoraja-as a não desanimarem diante dos ataques do demônio mas serem humildes e se confiarem à Misericórdia Divina, a fim de perseverarem.

    c) Terceiras Moradas (ibidem, p. 53-68) – nestas moradas as almas passam a ter mais oração e recolhimento, evitam os pecados veniais e fazem penitência. Quando são provadas pelo Senhor com securas e aridezes, desanimam porque ainda são débeis. Aconselha a estas almas a fuga das ocasiões e a perseverança na humildade e na oração, sem fazer caso de provações ou de consolações.

    d) Quartas Moradas (ibidem, p. 71-95) – é nesta etapa que ocorre a transição da ascética para a mística. As tentações trazem benefícios e são ocasião de mérito. Tem-se o início das orações contemplativas. Santa Teresa ressalta a importância de crescer no amor, condição para progredir às moradas seguintes.

    e) Quintas Moradas (ibidem, p. 99-130) – a Santa Doutora descreve longamente a união da alma com Deus na oração contemplativa. A experiência mística é intensificada e aumentam as purificações passivas. As almas experimentam grande amor ao próximo e têm necessidade de muita vigilância para não cair nas sutilezas do demônio.

    f) Sextas Moradas (ibidem, p. 133-224) – nesta fase as almas recebem grandes favores e padecem terríveis provações; Deus opera maravilhas naqueles que alcançam estas moradas. O amor a Deus é levado até o esquecimento de si mesmo. Os fenômenos místicos se multiplicam. As almas têm desejo de unir-se intimamente a seu Senhor, abandonando esta vida.

    g) Sétimas Moradas (ibidem, p. 227-260) – Perfeição – dá-se o “matrimônio espiritual”, a união transformante em que a alma se faz uma com Deus, sente em si a inabitação da Santíssima Trindade. As almas atingem um estado de paz e tranqüilidade inalteráveis, preocupam-se unicamente com a glória de Deus.

    Diante dessa impressionante descrição de Santa Teresa de Jesus, um dos luminares da mística experimental, percebe-se o belo mas árduo caminho a percorrer para alcançar a santidade, uma vez que é preciso arrancar da alma todo o apego às coisas terrenas e o apego a si mesmo para poder seguir a Nosso Senhor Jesus Cristo (Lc 9, 23): “se alguém quer vir após mim, renegue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me” (BÍBLIA SAGRADA, 1996). Sem um constante auxílio de Deus, que com sua graça atrai as almas, sustenta-as e faz avançar nas vias da santidade, não seria possível ao homem chegar à perfeição por suas próprias forças.

    Deus me vê

    Deus e a criacao1Irmã Teresita Morazzani Arráiz, EP

    Quando contemplamos, num belo anoitecer de verão, a abóbada celeste, percebemos miríades de estrelas que aos poucos vão se acendendo aqui, lá e acolá. Na verdade, além das que vemos, existem milhões e milhões de outras que só com a ajuda de boas lunetas conseguiríamos ver. E ainda resta um número quase incontável que nem sequer a ciência, com todos os seus recursos, logrou ainda observar.

    Pois bem, mesmo sendo o universo tão imenso a ponto de nos parecer sem limites, há um Ser superior a isso tudo, que tudo criou, tudo governa e tudo vê: Deus infinito. Ele está presente em tudo, não há lugar onde Ele não possa estar, como diz o Salmista: “Tu me envolves por todo lado e sobre mim colocas a tua mão. Onde eu poderia ocultar-me do teu Espírito? Para onde poderia fugir da tua presença? Se subir até os céus, Tu lá estás; se descer ao mundo dos mortos, ali Te encontras” (Sl 138, 5.7-8). Também lemos nos Atos dos Apóstolos que em Deus “vivemos, nos movemos e existimos” (At 17, 28).

    O modo de Deus estar presente na criação

    Ensina-nos o grande São Tomás de Aquino que existem três modos de Deus estar presente na obra da Criação. Primeiro, por potência, influxo ou poder, pois tudo está submetido a seu domínio; se Ele “cochilasse” um instante, tudo voltaria ao nada. Segundo, por presença, visão ou conhecimento, pois tudo está patente e como que descoberto a seus olhos; nada Lhe escapa, nem sequer os mais ocultos pensamentos. Terceiro, por essência ou substância, pois Ele está em tudo, como causa de seu ser.

    Falando em termos mais específicos, existem outras presenças de Deus, como a inabitação na alma do justo, realizada através da graça. Também a presença pessoal ou hipostática, única e exclusivamente de Cristo, pela qual sua humanidade adorável subsiste na própria pessoa do Verbo Divino. Por isso Ele é pessoalmente Deus, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade encarnada. Temos, ademais, a presença sacramental ou eucarística, na qual Jesus Cristo está realmente presente sob as espécies do pão e do vinho.

    Há, por fim, a presença de visão ou manifestação, que é a do Céu. Deus está presente em toda parte, porém, não Se deixa ver em todo lugar, mas somente no Céu. Só na Visão Beatífica Ele Se manifesta face a face aos bem-aventurados.
    Lembremo-nos dia e noite do olhar de Deus

    Portanto, Deus está presente em toda parte e constantemente nos vê.
    Oh! quantos crimes seriam evitados, quantos problemas seriam resolvidos, quantas lágrimas seriam enxugadas,quantas aflições seriam suavizadas se a humanidade tivesse consciência do olhar de Deus sempre pousando sobre nós! “Deus está no Templo santo e no Céu tem o seu trono, volta os olhos para o mundo, seu olhar penetra os homens” (Sl 10.4).

    Estamos aflitos, necessitando de uma palavra de conforto e ânimo para superar algum obstáculo? Precisamos de um coração com o qual possamos nos abrir? Ou de um amigo a quem falar? Por que não recorrer ao melhor dos amigos, ao mais suave, compreensivo e cheio de compaixão, que é o próprio Deus? Ele nos conhece até o fundo e sabe tudo de que precisamos; seu Divino Coração arde em desejos de ajudar e consolar as almas abatidas e de aliviar as costas carregadas de fardos: “ Vinde a Mim todos vós que estais cansados e oprimidos, que Eu hei de aliviar-vos” (Mt 11,28).

    Queremos servir a Deus com mais amor e perfeição? Lembremo-nos de seu olhar dia e noite. Certa vez Santo Inácio de Loiola, vendo um de seus irmãos trabalhar de modo relaxado, perguntou-lhe:
    — Irmão, para quem trabalhas?
    — Para Deus — respondeu-lhe ele.
    — Se me dissesses que trabalhas para um homem, eu compreenderia tua moleza, mas isso é imperdoável quando se trabalha para Deus.

    São Francisco de Sales vivia tão compenetrado da presença de Deus que, estando sozinho ou em sociedade, conservava um porte digno, modesto e grave. Costumava dizer que não sentia constrangimento algum na frente de reis ou príncipes, pois estava habituado a encontrar-se na presença de um Rei muito maior que lhe inspirava respeito.

    A oração torna a vida mais leve, suave e amena

    A oração freqüente é um meio eficaz para nos recordar a presença de Deus. É tão fácil — durante nossos afazeres, no trabalho, na escola ou em casa, andando pela rua, dirigindo no trânsito ou já deitado para o descanso — fazer uma prece, uma jaculatória que seja, a Deus, ao Sagrado Coração de Jesus e oferecer-Lhe os problemas, pedir-Lhe ajuda e proteção!

    Caro leitor, eu o convido a fazer isso diariamente, com amor e confiança, e você verá que aos poucos sua vida irá se tornando mais leve, suave e amena.

    Diz Jesus no Evangelho: ‘Pedi e ser-vos-á dado; procurai e encontrareis; batei e hão de abrir-vos” (Lc 11.9). Por que desprezamos essa promessa proferida por lábios divinos e que nos dá a garantia absoluta de sermos ouvidos? Poder-se-ia dizer que Nosso Senhor como que Se inclina do Céu sobre a terra, à espreita de que Lhe façamos pedidos, desde os mais simples até os mais ousados, para ter Ele a alegria de atender-nos e encher-nos de dons e graças.

    O exemplo de dois santos

    Davi encontrava força e consolo em pensar que o Senhor conhecia seus sofrimentos, e exclamava cheio de confiança: “Ainda que atravesse vales tenebrosos, de nenhum mal terei medo porque Tu estás comigo” (Sl 22, 4).

    Efrém era um jovem que se entregara a todo tipo de vícios. Porém, reconhecendo seus desvios, arrependeu-se e retirou-se à solidão. Um dia veio até ele uma mulher de costumes pouco recomendáveis, para tentá-lo. O homem de Deus prometeu-lhe fazer tudo quanto ela quisesse, com a condição de que primeiro ela o seguisse. Mas a infeliz, vendo que o santo a conduzia a uma praça pública, disse-lhe que não teria coragem de dar-se em espetáculo. Respondeu-lhe Santo Efrém: “Tens vergonha de pecar diante dos homens e não te envergonhas de pecar diante de Deus que tudo vê e tudo conhece?!” Estas palavras tocaram profundamente a pecadora; ela mudou de conduta e levou até o fim de seus dias uma vida santa.

    Deus nos fez herdeiros e merecedores do Céu

    Havia antigamente na Alemanha o costume de pintar um “olho de Deus” nas igrejas, nas escolas ou nas casas, para lembrar ao povo que o olhar do Altíssimo nos acompanha a cada passo de nossa existência. Esse hábito salutar perdeu-se de todo e atualmente muitas pessoas vivem no esquecimento quase completo de Deus.

    Imaginemos um artista que esculpisse uma belíssima estátua e recebesse de um anjo o poder de infundir nessa sua obra a própria vida humana dele. A estátua começaria a mover-se e a conversar, teria desejos e apetências, as potências da alma desabrochariam nela e a veríamos dotada de personalidade, mentalidade, espírito. O escultor ficaria encantado e deitaria todo o seu amor e seu desvelo na educação desse seu “novo filho”. Preocupar-se-ia com sua instrução, ele mesmo lhe daria aulas e faria dele um jovem perfeito e acabado.
    Como deveriam ser a gratidão e a reciprocidade desse ser tão aquinhoado? Não é necessário dizer…

    Porém, um belo dia o pai nota que seu filho está diferente, algo nele mudou. Aos poucos, ele foi deixando de ser aquele menino dócil, afável, carinhoso e desejoso de aprender; agora está revoltado, não quer mais saber de seu benfeitor, chega até a desprezá-lo e responder-lhe com rudeza; por fim, toma a atitude de não lhe dirigir mais a palavra e nem sequer olhá-lo. O pobre pai tenta atrair o jovem a si por meio de redobrado afeto e de apelos a seu amor de outrora, mas… em vão!

    Que ingratidão monstruosa! — diria alguém. Pois bem, esta metáfora nos dá apenas uma pálida idéia de nosso procedimento quando voltamos as costas para Deus, O rejeitamos, esquecemo-nos d’Ele e nem mesmo nos lembramos de que continuamente está Ele a nosso alcance, desejando nos favorecer e nos prodigalizar seu carinho e sua misericórdia infinita.

    Ele escolheu-nos dentre uma multidão infinita de seres possíveis, tirou-nos do nada, deu-nos a vida, infundiu em nós uma alma racional dotada de inteligência, vontade e sensibilidade, encheu-nos de dons naturais e, como se tudo isso fosse pouco, nos deu o Batismo, fazendo-nos viver da própria vida d’Ele. Está sempre à nossa disposição no Sacramento da Eucaristia, esperando ser recebido por nós e nos beneficiar com seu convívio todo feito de doçura e suavidade. E nós, como correspondemos a essa torrente infinita de bondade, a esse amor que O levou a entregar-Se e morrer crucificado como vil malfeitor para redimir-nos e nos fazer herdeiros e merecedores do Céu?

    “Oxalá ouvísseis hoje a sua voz: não endureçais os vossos corações” (Sl 94, 7-8). Voltemos nosso coração e toda a nossa vida para Aquele que Se voltou todo para nós e sua vida nos deu. Façamos d’Ele o centro de nossa existência e Ele, a rogos de sua e nossa misericordiosíssima Mãe, um dia nos acolherá na eterna bemaventurança.