Deus me vê

Deus e a criacao1Irmã Teresita Morazzani Arráiz, EP

Quando contemplamos, num belo anoitecer de verão, a abóbada celeste, percebemos miríades de estrelas que aos poucos vão se acendendo aqui, lá e acolá. Na verdade, além das que vemos, existem milhões e milhões de outras que só com a ajuda de boas lunetas conseguiríamos ver. E ainda resta um número quase incontável que nem sequer a ciência, com todos os seus recursos, logrou ainda observar.

Pois bem, mesmo sendo o universo tão imenso a ponto de nos parecer sem limites, há um Ser superior a isso tudo, que tudo criou, tudo governa e tudo vê: Deus infinito. Ele está presente em tudo, não há lugar onde Ele não possa estar, como diz o Salmista: “Tu me envolves por todo lado e sobre mim colocas a tua mão. Onde eu poderia ocultar-me do teu Espírito? Para onde poderia fugir da tua presença? Se subir até os céus, Tu lá estás; se descer ao mundo dos mortos, ali Te encontras” (Sl 138, 5.7-8). Também lemos nos Atos dos Apóstolos que em Deus “vivemos, nos movemos e existimos” (At 17, 28).

O modo de Deus estar presente na criação

Ensina-nos o grande São Tomás de Aquino que existem três modos de Deus estar presente na obra da Criação. Primeiro, por potência, influxo ou poder, pois tudo está submetido a seu domínio; se Ele “cochilasse” um instante, tudo voltaria ao nada. Segundo, por presença, visão ou conhecimento, pois tudo está patente e como que descoberto a seus olhos; nada Lhe escapa, nem sequer os mais ocultos pensamentos. Terceiro, por essência ou substância, pois Ele está em tudo, como causa de seu ser.

Falando em termos mais específicos, existem outras presenças de Deus, como a inabitação na alma do justo, realizada através da graça. Também a presença pessoal ou hipostática, única e exclusivamente de Cristo, pela qual sua humanidade adorável subsiste na própria pessoa do Verbo Divino. Por isso Ele é pessoalmente Deus, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade encarnada. Temos, ademais, a presença sacramental ou eucarística, na qual Jesus Cristo está realmente presente sob as espécies do pão e do vinho.

Há, por fim, a presença de visão ou manifestação, que é a do Céu. Deus está presente em toda parte, porém, não Se deixa ver em todo lugar, mas somente no Céu. Só na Visão Beatífica Ele Se manifesta face a face aos bem-aventurados.
Lembremo-nos dia e noite do olhar de Deus

Portanto, Deus está presente em toda parte e constantemente nos vê.
Oh! quantos crimes seriam evitados, quantos problemas seriam resolvidos, quantas lágrimas seriam enxugadas,quantas aflições seriam suavizadas se a humanidade tivesse consciência do olhar de Deus sempre pousando sobre nós! “Deus está no Templo santo e no Céu tem o seu trono, volta os olhos para o mundo, seu olhar penetra os homens” (Sl 10.4).

Estamos aflitos, necessitando de uma palavra de conforto e ânimo para superar algum obstáculo? Precisamos de um coração com o qual possamos nos abrir? Ou de um amigo a quem falar? Por que não recorrer ao melhor dos amigos, ao mais suave, compreensivo e cheio de compaixão, que é o próprio Deus? Ele nos conhece até o fundo e sabe tudo de que precisamos; seu Divino Coração arde em desejos de ajudar e consolar as almas abatidas e de aliviar as costas carregadas de fardos: “ Vinde a Mim todos vós que estais cansados e oprimidos, que Eu hei de aliviar-vos” (Mt 11,28).

Queremos servir a Deus com mais amor e perfeição? Lembremo-nos de seu olhar dia e noite. Certa vez Santo Inácio de Loiola, vendo um de seus irmãos trabalhar de modo relaxado, perguntou-lhe:
— Irmão, para quem trabalhas?
— Para Deus — respondeu-lhe ele.
— Se me dissesses que trabalhas para um homem, eu compreenderia tua moleza, mas isso é imperdoável quando se trabalha para Deus.

São Francisco de Sales vivia tão compenetrado da presença de Deus que, estando sozinho ou em sociedade, conservava um porte digno, modesto e grave. Costumava dizer que não sentia constrangimento algum na frente de reis ou príncipes, pois estava habituado a encontrar-se na presença de um Rei muito maior que lhe inspirava respeito.

A oração torna a vida mais leve, suave e amena

A oração freqüente é um meio eficaz para nos recordar a presença de Deus. É tão fácil — durante nossos afazeres, no trabalho, na escola ou em casa, andando pela rua, dirigindo no trânsito ou já deitado para o descanso — fazer uma prece, uma jaculatória que seja, a Deus, ao Sagrado Coração de Jesus e oferecer-Lhe os problemas, pedir-Lhe ajuda e proteção!

Caro leitor, eu o convido a fazer isso diariamente, com amor e confiança, e você verá que aos poucos sua vida irá se tornando mais leve, suave e amena.

Diz Jesus no Evangelho: ‘Pedi e ser-vos-á dado; procurai e encontrareis; batei e hão de abrir-vos” (Lc 11.9). Por que desprezamos essa promessa proferida por lábios divinos e que nos dá a garantia absoluta de sermos ouvidos? Poder-se-ia dizer que Nosso Senhor como que Se inclina do Céu sobre a terra, à espreita de que Lhe façamos pedidos, desde os mais simples até os mais ousados, para ter Ele a alegria de atender-nos e encher-nos de dons e graças.

O exemplo de dois santos

Davi encontrava força e consolo em pensar que o Senhor conhecia seus sofrimentos, e exclamava cheio de confiança: “Ainda que atravesse vales tenebrosos, de nenhum mal terei medo porque Tu estás comigo” (Sl 22, 4).

Efrém era um jovem que se entregara a todo tipo de vícios. Porém, reconhecendo seus desvios, arrependeu-se e retirou-se à solidão. Um dia veio até ele uma mulher de costumes pouco recomendáveis, para tentá-lo. O homem de Deus prometeu-lhe fazer tudo quanto ela quisesse, com a condição de que primeiro ela o seguisse. Mas a infeliz, vendo que o santo a conduzia a uma praça pública, disse-lhe que não teria coragem de dar-se em espetáculo. Respondeu-lhe Santo Efrém: “Tens vergonha de pecar diante dos homens e não te envergonhas de pecar diante de Deus que tudo vê e tudo conhece?!” Estas palavras tocaram profundamente a pecadora; ela mudou de conduta e levou até o fim de seus dias uma vida santa.

Deus nos fez herdeiros e merecedores do Céu

Havia antigamente na Alemanha o costume de pintar um “olho de Deus” nas igrejas, nas escolas ou nas casas, para lembrar ao povo que o olhar do Altíssimo nos acompanha a cada passo de nossa existência. Esse hábito salutar perdeu-se de todo e atualmente muitas pessoas vivem no esquecimento quase completo de Deus.

Imaginemos um artista que esculpisse uma belíssima estátua e recebesse de um anjo o poder de infundir nessa sua obra a própria vida humana dele. A estátua começaria a mover-se e a conversar, teria desejos e apetências, as potências da alma desabrochariam nela e a veríamos dotada de personalidade, mentalidade, espírito. O escultor ficaria encantado e deitaria todo o seu amor e seu desvelo na educação desse seu “novo filho”. Preocupar-se-ia com sua instrução, ele mesmo lhe daria aulas e faria dele um jovem perfeito e acabado.
Como deveriam ser a gratidão e a reciprocidade desse ser tão aquinhoado? Não é necessário dizer…

Porém, um belo dia o pai nota que seu filho está diferente, algo nele mudou. Aos poucos, ele foi deixando de ser aquele menino dócil, afável, carinhoso e desejoso de aprender; agora está revoltado, não quer mais saber de seu benfeitor, chega até a desprezá-lo e responder-lhe com rudeza; por fim, toma a atitude de não lhe dirigir mais a palavra e nem sequer olhá-lo. O pobre pai tenta atrair o jovem a si por meio de redobrado afeto e de apelos a seu amor de outrora, mas… em vão!

Que ingratidão monstruosa! — diria alguém. Pois bem, esta metáfora nos dá apenas uma pálida idéia de nosso procedimento quando voltamos as costas para Deus, O rejeitamos, esquecemo-nos d’Ele e nem mesmo nos lembramos de que continuamente está Ele a nosso alcance, desejando nos favorecer e nos prodigalizar seu carinho e sua misericórdia infinita.

Ele escolheu-nos dentre uma multidão infinita de seres possíveis, tirou-nos do nada, deu-nos a vida, infundiu em nós uma alma racional dotada de inteligência, vontade e sensibilidade, encheu-nos de dons naturais e, como se tudo isso fosse pouco, nos deu o Batismo, fazendo-nos viver da própria vida d’Ele. Está sempre à nossa disposição no Sacramento da Eucaristia, esperando ser recebido por nós e nos beneficiar com seu convívio todo feito de doçura e suavidade. E nós, como correspondemos a essa torrente infinita de bondade, a esse amor que O levou a entregar-Se e morrer crucificado como vil malfeitor para redimir-nos e nos fazer herdeiros e merecedores do Céu?

“Oxalá ouvísseis hoje a sua voz: não endureçais os vossos corações” (Sl 94, 7-8). Voltemos nosso coração e toda a nossa vida para Aquele que Se voltou todo para nós e sua vida nos deu. Façamos d’Ele o centro de nossa existência e Ele, a rogos de sua e nossa misericordiosíssima Mãe, um dia nos acolherá na eterna bemaventurança.

O amor do Sagrado Coração de Jesus: fonte de toda santidade

Sagrado Coração de JesusFernanda Cordeiro da Fonseca

Ao percorrermos as palpitantes páginas do Evangelho, que narram os trinta e três anos nos quais a humanidade foi beneficiada pela presença física e adorável de Nosso Senhor Jesus Cristo, nos deparamos com infinitos aspectos e perfeições de Sua Alma Santíssima.

Todavia, neste caleidoscópio de aspectos, pré-figura da visão beatífica, há um que nos atrai de modo particular: a demonstração das afeições e do amor do Divino Mestre pelo discípulo amado, o Apóstolo São João Evangelista.

Em sua juventude, João — cujo nome significa “em quem está a graça” — tornou-se seguidor do Precursor, e esperava ardentemente a vinda do Messias e a libertação do Povo Eleito de seus opressores (WERNER, 2007). Exercia, com dignidade, o ofício de pescador herdado de seu pai no Lago de Genesaré, até o momento em que estando a consertar as redes com Tiago, seu irmão, deu-se um fato que mudaria o rumo de suas existências: Nosso Senhor fitou-os e convidou-os a segui-Lo.

Fieis à graça e entusiasmados por esse Varão, cuja voz e olhar penetraram no mais íntimo das suas almas, não hesitaram e “deixando imediatamente a barca e o pai, seguiram-No” (Mt 4, 22).

A partir desse momento, São João foi incluído no Colégio Apostólico, e de mero pescador de peixes, se transformou em pescador de homens para a Barca de Cristo, que é a Igreja Católica, Apostólica e Romana.

Ele tinha um temperamento forte e impetuoso, que lhe mereceu, juntamente com Tiago, o cognome de Boanerges, ou seja, “Filhos do Trovão” (Mc 3,17). Este caráter veemente de ambos deixou-os, de tal modo indignados ao presenciar a rejeição dos samaritanos à visita de Nosso Senhor, que Lhe indagaram: “ Senhor, queres que mandemos que desça fogo do céu e os consuma? Jesus voltou-se e repreendeu-os severamente. (Lc 9, 54).

Embora os “Filhos do Trovão” desejassem a vingança, segundo Maldonado, este sentimento não era fruto do amor-próprio, mas de um empenho em defender a honra de seu Amado. Ora, se não houve nenhum resquício de culpa nesta demonstração de ardoroso zelo, segundo as perspectivas humanas, por qual motivo os discípulos receberam uma repreensão do Senhor?

Nascidos e educados nos costumes da Antiga Aliança, os irmãos estavam habituados à pena de talião: “olho por olho, dente por dente”, onde reina o princípio de que, se os homens agem mal, merecem imediatamente o proporcionado castigo, sem confiança na misericórdia (CLÁ DIAS, 2010). Contudo, Nosso Senhor eleva a Lei à sua plenitude e ensina um Mandamento novo: “Amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei” (Jo 15, 12).

Por meio desta correção, o Divino Mestre incita-nos a abandonar os critérios antigos e aderir à Lei da caridade. Quanto à São João Evangelista, “sem deixar de se manifestar ardoroso, acrescia-se à sua personalidade aquela doçura que é propriamente o sinal indelével de um seguidor de Cristo” (WERNER, p.23, 2007).

Assim, aos poucos, a alma desse grande apóstolo foi sendo modelada no convívio com a Pessoa de Nosso Senhor. Quanta manifestação de bondade e de amor!

São João esteve presente nos momentos ápices da vida de seu Mestre; contemplando sua glória no Monte Thabor; recostando sua cabeça no Sagrado Coração durante a Santa Ceia, na qual estava tão próximo da fonte de luz, que absorveu dela os mais altos segredos e mistérios para posteriormente derramá-los sobre a Igreja (SANTO AGOSTINHO apud LAGRANGE, 1936), e na agonia de Nosso Senhor, no Horto das Oliveiras.

Entretanto, o auge da benquerença deu-se ao pé da Cruz quando Nosso Senhor ofereceu-lhe o que possuía de mais precioso: Sua Mãe Santíssima.

Foi nesse convívio embebido por um imenso amor ao Mestre que o discípulo amado conformou sua alma com Nosso Senhor. No entanto, a fonte caudalosa, abundante e eficiente desse amor era o próprio Sagrado Coração que lhe dispensava.

Posteriormente, em uma de suas Epístolas, São João explicita: “Não fomos nós que amamos a Cristo, mas Ele que nos amou primeiro.” (1 Jo4, 19).

Ensina-nos São Tomás de Aquino (S.T.I q.20, a.2) que o amor divino se difere do humano, pois é a bondade das coisas ou pessoas, verdadeira ou pressuposta, que move a nossa vontade a amá-las e a desejar-lhes toda espécie de bem sem interesse próprio. O amor de Deus, ao contrário, infunde e cria a bondade nas criaturas, de sorte que só podemos encontrar nelas alguma forma de bem por serem objetos do amor abrangente do Altíssimo.

O Divino Coração abrasa cada um de acordo com sua vontade, mas quando lhe apraz arrebatar uma alma em especial, “abrasa-a em tão sublime grau de amor que a alma sente estar ardendo sobre todos os ardores do mundo.” (CRUZ, p.56, 1999).

Portanto, a fonte da santidade almejada por tantas almas não se encontra no esforço e sacrifícios humanos, mas principalmente no infinito amor de Deus por nós.

A verdade: guia terrestre para chegar à luz celeste

Ego sumEmelly Tainara Schnorr

“O que é a verdade?” (Jo 18, 38). É esta uma indagação feita por Pilatos a Nosso Senhor, e que se repetiu ao longo dos séculos diante de santos e mártires, por parte de reis e imperadores.

A natureza humana possui uma tendência profunda a procurar a verdade. “A sede de verdade está tão radicada no coração do homem que se tivesse de prescindir dela, a sua existência estaria comprometida” (JOÃO PAULO Il, Fides et Ratio, n. 29).

Segundo S. Agostinho, a verdade se apresenta e se oferece a todos os que são dotados de inteligência para contemplar as realidades. E é ela uma realidade muito mais sublime do que a nossa razão e a nossa mente.

A verdade está em nossa inteligência e vive na mente humana. “O verdadeiro e o falso não estão nas coisas, mas no intelecto” (ARISTÓTELES apud SÃO TOMÁS DE AQUINO, S.T. I, q. 16, a.1) .

Ela consiste em julgar que as coisas são o que na realidade são. “Dizer que é, o que é; e que não é, o que não é: eis a verdade” (ARISTÓTELES apud GILSON, p.476). E ainda: “Uma conformidade entre o que o espírito julga, e o que é” (GILSON, 1970, p. 258).

Já os sentidos não podem alcançar esta conformidade que há — “(…) esta conformidade os sentidos não conhece de modo algum” (SAO TOMÁS DE AQUINO, S.T. I, q. 16, a.1). A tal ponto que um animal, isento da capacidade intelectiva, não percebe o verum, não sabe que ele existe, pois “a verdade é a própria essência dos seres enquanto cognoscíveis pela inteligência” (JOVILET, 1972, p. 246).

Desta maneira, a verdade consistirá numa relação entre a coisa e o intelecto. Quando a coisa se conforma com o intelecto, denominamos verdade transcendental. “É uma relação de identidade de natureza entre uma coisa dada e um pressuposto ideal” (JOVILET, 1972, p. 246). Irreversivelmente, a verdade tornar-se-á conhecida para nós apenas quando o nosso intelecto se conformar com a coisa. “Daí resulta que conhecer tal conformidade é conhecer a verdade” (SÃO TOMÁS DE AQUINO, S.T. I, q. 16, a. 2).

Sem embargo, esta relação da coisa com o intelecto, pode ser uma relação por si (per se), quando a coisa depende do ser. Ou por acidente (per accidens), quando se refere ao intelecto pelo qual ela é cognoscível. (SAO TOMÁS DE AQUINO, S.T. I, q. 16, a. 1).

No momento em que o intelecto humano se conformar com o objeto conhecido, temos uma verdade lógica. “É uma propriedade não mais das coisas, mas da inteligência cognoscente” (JOVILET, 1972, p. 247).

Entretanto, todas as verdades existentes são destinadas a refletir uma única Verdade, que é Deus, e tão somente através do intelecto divino é que as coisas são verdadeiras. É como se fosse um vitral atravessado pelo sol, espargindo diversas cores, as verdades são cada uma destas cores, segundo o seu próprio modo de ser, todas espelhando a Verdade Suprema.

“A perfeição do intelecto é o verdadeiro enquanto conhecido” (SÃO TOMÁS DE AQUINO, S.T. I, q.16, a.1). Diz a Escolástica que a felicidade do entendimento é o repouso na contemplação da Verdade.

Ora, dissemos anteriormente que o homem sempre está a procura da verdade. Como explicar, então, que possa cair no erro e na falsidade?

A falsidade é o oposto da verdade. “O verdadeiro e o falso se opõem como contrários” (SÃO TOMÁS DE AQUINO, S.T. I, q. 17, a. 4). Ou seja, se da verdade se pode definir o que é, a falsidade consiste em afirmar “que não é o que é; ou que é o que não é” (GILSON, 1970, p. 475), sendo esta uma afirmação contraditória com a verdade. Em outro lugar: “A falsidade consiste na não-conformidade entre o conhecimento e a coisa” (SÃO TOMÁS DE AQUINO. In: Pensadores, 1996, p. 115-116).

Por exemplo, quando em um objeto aparecem externamente qualidades sensíveis as quais demonstram uma natureza que não lhe corresponde, dizemos que este objeto é falso.

A natureza humana é tão propensa à verdade que quando o homem ama algo contrário a ela, ele quer que este algo seja verdadeiro. Com isto, cai em erro, persuadindo-se de que é verdadeiro o que na realidade é falso (AGOSTINHO apud CORRÊA DE OLIVEIRA, 2002, n49, p. 30).

Monsenhor João Clá explica que o homem não pratica o mal pelo mal, assim como também não pratica o erro pelo erro. Então, ele porá aspectos de verdade ao erro que abraçou.Por conseguinte, a falsidade se inviscerará na verdade, necessitando alimentar-se dela. “Tudo o que é falso está fundado em algo verdadeiro” (SÃO TOMÁS DE AQUINO, S.T. I, q. 17, a. 4).

Destarte, contemplando a humanidade hodierna, percebemos o quanto ela se desviou do “Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14, 6), que é Nosso Senhor. Conseqüentemente, escravizou-se à falsidade, embriagando-se de todos os vícios que dela provém.

Compreendemos, então, o quanto a verdade é a nossa guia terrena e tendo-a encontrado, devemos aderir e adequar nossa vida a ela para chegarmos à morada celeste.

Pobre por amar os pobres, mas rico em santidade

Irmã Clara Isabel Morazzani, EP

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São José Benedito Cottolengo

“Tereis sempre pobres entre vós” (Mt 26, 11). São José Cottolengo abraçou avidamente essa preciosa herança deixada por Jesus à sua Igreja e a eles dedicou toda a sua existência.

A santidade não provém de um puro esforço feito pelo homem, mas sim de uma singular graça concedida por Deus. Ora, Jesus, Homem-Deus, sendo o Criador e, ao mesmo tempo, o escrínio de todas as graças, pode e quer dispensá-las a todos que delas necessitem e as desejem. O heroísmo na prática das virtudes, como se pode definir a santidade, é, pois, uma graça participativa dessa maravilhosa plenitude que habita em Nosso Senhor e é liberalmente outorgada por Ele. Um desses privilegiados foi José Benedito Cottolengo, suscitado por Deus na conjuntura dos séculos XVIII e XIX.

Atraído pela compaixão de Jesus para com os pequeninos

Sem deixar de ver a Deus na sua totalidade, cada santo põe um acento todo especial na contemplação de algum aspecto pelo qual é particularmente cativado e convidado a ser reflexo. Em concreto, José Cottolengo sentiu-se atraído pela bondade e compaixão de Jesus em relação aos pequeninos, aos pobres e doentes. Compreendeu em profundidade as riquezas de amor do Coração de um Deus por aqueles a quem denominou como os “menores de meus irmãos” (Mt 25, 40).

No alto da Cruz, o Salvador obteve por seu Sangue a filiação divina e a filiação de Maria para toda a humanidade. Por esta dupla dádiva, tornou-Se Ele mesmo nosso verdadeiro irmão. Quanta união, quanto embricamento de afeto há entre os filhos nascidos de uma mesma família! E, entretanto, esses laços de sangue são apenas pálidas imagens do insuperável amor fraterno que Jesus nutre por todos nós! São José Benedito Cottolengo penetrou nesse mistério e procurou manifestá-lo em sua vida, dedicando-se com total desinteresse àqueles que se acham na orfandade natural e espiritual, aliviando-lhes não só as dores corporais mas também as enfermidades de alma.

Primeiros passos na vocação

José Benedito Cottolengo nasceu em Bra, no Piemonte, em maio de 1786. Desde a infância deu provas de sua vocação, sendo encontrado um dia medindo um dos quartos de sua casa com o objetivo de saber quantas camas caberiam ali para receber doentes.

Terminados os estudos, dos quais saiu-se brilhantemente graças à intercessão de São Tomás de Aquino, foi ordenado sacerdote e mais tarde, em 1818, eleito cônego do cabido de Corpus Domini em Turim.

Em 1827 deu início à sua obra, fundando a “Pequena Casa da Divina Providência”, onde acolheu inúmeros enfermos e abandonados. Para o cuidado destes, criou primeiro um instituto de religiosas chamado “Filhas de São Vicente” e, alguns anos depois, outro, denominado “Irmãos de São Vicente de Paulo”.

Confiança cega na Providência

As dificuldades para a realização de seus desígnios não foram pequenas. Muitos outros dotados de uma fé robusta, mas não cega como a sua, teriam desanimado na metade do caminho. Continuamente achava-se sem recursos e acossado por credores incompreensivos exigindo o pagamento das dívidas. Por outro lado, via crescer todo dia o número de seus protegidos que acorriam à “Pequena Casa”, atraídos, não só pelas necessidades de saúde, mas, sobretudo, pela fama de sua bondade sem limites.

Quem conhecesse a atividade incessante dessa obra, acreditaria ser seu fundador um homem inquieto e preocupado, metido nos assuntos materiais, desejoso de tudo vigiar e governar. Nenhum juízo poderia ser tão falso a seu respeito: São José Benedito era um varão essencialmente contemplativo e desapegado das coisas terrenas. A característica preponderante de sua santidade e de sua missão era a inteira confiança na Divina Providência. Poder-se-ia dizer que toda a sua espiritualidade sintetizava-se nesta frase do Evangelho: “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas por acréscimo” (Mt 6, 33).

Com freqüência costumava dizer aos seus: “Estai certos de que a Divina Providência nunca falta; poderão faltar as famílias, os homens, mas a Providência não nos faltará. Isso é de fé. Portanto, se em alguma ocasião faltar algo, isso só poderá ser atribuído à nossa falta de confiança. É necessário confiar sempre em Deus; e, se Deus responde com sua Divina Providência à confiança ordinária, proverá extraordinariamente a quem extraordinariamente confiar”.

“Por que vos inquietais por tão pouco?”

Uma fé assim levada a grau tão heróico só poderia obter resultados miraculosos, e estes foram abundantes ao longo da existência de nosso santo. Em certa ocasião, a religiosa encarregada da cozinha veio anunciar-lhe:
— Nada resta de farinha na casa… Amanhã não haverá pão para alimentar os indigentes!

— Por que vos inquietais por tão pouco? Bem vedes como a chuva cai às torrentes e é impossível mandar alguém sair neste momento — respondeu ele.

A boa irmã, que não atingira na perfeição aquele santo abandono de seu Fundador, retirou-se muito descontente com a resposta. Alguns instantes depois, Cottolengo entrou no refeitório e — imaginando-se só, sem desconfiar que outra irmã o espiava pelo buraco da fechadura — ajoelhou-se diante da imagem da Santíssima Virgem e orou fervorosamente com os braços em cruz.

Passaram-se apenas alguns minutos e um homem, conduzindo uma carroça, apresentou-se à porta do estabelecimento. Sem querer informar de onde vinha nem por quem fora enviado, declarou ter o encargo de depositar na “Pequena Casa” toda a farinha que trazia em seu veículo. As freiras logo acorreram, alvoroçadas, para contar tudo ao santo cônego. Este acolheu a notícia sem manifestar a menor surpresa e tranqüilamente lhes deu ordem de fazer o pão.

O dinheiro apareceu no bolso

Em outra ocasião, São José Benedito viu-se diante de uma situação ainda mais apertada. Um de seus credores chegou a ameaçá-lo de morte caso não lhe pagasse a dívida naquele mesmo instante. Ele desculpou-se, pediu-lhe para ter um pouco mais de paciência, prometendo fazê-lo tão logo fosse possível. Mas o homem mostrou-se inflexível e, sem mais, tirou de dentro de sua vestimenta uma arma com a qual se dispunha a acabar com a vida do santo. Num gesto maquinal, este levou a mão ao bolso e, para sua grande surpresa, encontrou um rolo contendo exatamente a soma reclamada. Entregou-a logo ao credor e este partiu dali confuso por sua atitude violenta, e impressionado diante do milagre e do exemplo de serena confiança que acabava de presenciar.

Abandono à vontade de Deus

Seu desejo de fazer o bem a todos quantos dele se aproximavam não conhecia restrições nem obstáculos: chegava ao extremo de prodigalizar os cuidados mais humildes aos doentes e de entrar nos jogos dos débeis mentais, com o intuito de distraí-los. Não considerava isto uma humilhação, pois analisava tudo com vistas sobrenaturais, sabendo que o importante não está em fazer grandes obras ou realizar prodígios estupendos, mas sim em ser aos olhos de Deus aquilo que Ele quer de nós. Dessa elevada concepção da vida, que impregnava todos os seus atos, decorria o alegre desprendimento com o qual se abandonava à vontade de Deus, repetindo sempre: “Por que ficais angustiados pelo dia de amanhã? A Providência não pensará nisso, pois já pensastes vós. Não arruineis, portanto a sua obra e deixai-a agir. Embora nos seja permitido pedir um bem temporal determinado, entretanto, quanto ao que a mim se refere, temeria cometer uma falta se pedisse algo nesse sentido”.

Em 1842 faleceu José Benedito Cottolengo. Durante sua permanência neste mundo, os anseios de seu coração e a vida de sua alma estiveram voltados unicamente para a glória de Deus. Por isso deixou atrás de si uma obra monumental de Caridade para com próximo, que hoje está presente em quatro continentes, como prova irrefutável da veracidade da promessa de Jesus Cristo. Ele só procurara o Reino de Deus e sua justiça, Nosso Senhor lhe concedera tudo por acréscimo.

Um lugar de honra lhe está reservado entre os cordeiros da direita naquele dia supremo, quando o justo Juiz dirá: “Vinde, benditos de meu Pai! Recebei como herança o Reino que meu Pai vos preparou desde a criação do mundo! Pois Eu estava com fome e Me destes de comer; estava com sede e Me destes de beber; era estrangeiro e Me recebestes em casa; estava nu e Me vestistes; estava doente e cuidastes de Mim; estava n prisão e fostes Me visitar (,..)

Em verdade Eu vos digo que todas as vezes que fizestes isso a um dos menores de meus irmãos, foi a Mim que o fizestes!” (Mt 25,34-36 e 40)

Unum: A quintessência do princípio monárquico na Criação

saotomasThaliane Neuburger

Em todas as coisas existem qualidades ou propriedades, que estão além da matéria, formando um só todo com o ser e de maneira inseparável (ab intrínseco), denominadas de transcendentais.

Os transcendentais do ser são: unum, bonum, verum, pulchrum (unidade, ente indiviso; bom; verdadeiro e belo). São Tomás de Aquino acrescenta uma quinta propriedade: aliquid, aquilo que torna um ser diferente de outro, indicando o caráter de alteridade e delimitação em relação aos entes.

Analisemos o trasncendental unun, talvez o mais importante e essencial de todos.
Aristóteles afirma que ser e unidade são uma mesma coisa e um não se separa do outro, pois a unidade nasce e perece com o ser, e a partir do momento em que este perde a unidade, deixa de ser um determinado ser, para se transformar em outros seres. (Cfr. Metafísica, L.IV, c.II). Portanto; a primeira noção é que todo ser é uno por essência.

Se todos os seres são unos (ou indivisos), pelo próprio fato de que são seres, cada tipo de ser é uno, de uma unidade que lhe é própria. Por isso, o Estagirita divide-a em três graus:

1. Essencial: é o unum substancial existente em cada ser, por exemplo, em uma pedra, no homem, etc.

2. Acidental: é o unum produzido por um causa extrínseca ao ser, por exemplo, uma obra de arte, uma casa, as quais atingiram o unum não por sua própria natureza, mas pela ação de quem as formou.

3. Por continuidade: é o unum identificado pela inteligência, pois abarca o ser unicamente de modo intelectivo, por exemplo, o todo formado por uma cordilheira ou pela abóboda celeste.

Por sua vez, Santo Tomás de Aquino classifica o unum essencial em simples e compostos (Cfr. São Tomás I, q.11, a.1).
Os simples que não tem partes ou seja, Deus e os Anjos que são indivisos em ato e potência, e constituídos sem mistura alguma de matéria; e os compostos que se compõe de partes- como o homem, por exemplo, que estão constituídos por matéria e forma. Estes só terão o ser enquanto suas partes estiverem unidas, mais ou menos como um colar de pérolas, que só será colar, enquanto as diversas pérolas estiverem todas juntas num fio, formando assim o colar.

Ora, sendo Deus o Unum em essência, criou todas as coisas unas e colocou nos homens e nos animais um instinto, intimamente ligado e fundamentado no unum de cada ser: o de conservação.
É por esse instinto tão entranhado nestas criaturas que “todo ser, enquanto pode, rechaça sua própria divisão, para defender-se de não ser” (S.G. L.I, c.42, tradução nossa).

Tomando como base a cognição da unidade, dos vários ununs que constituem a variedade das coisas criadas, podemos concluir com o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira – “verifica-se que na estética da criação, do universo, tudo tende para o unum, para um princípio monárquico que traduz esta tendência de buscar o mais perfeito: reductio ad unum. Isto é a quintessência do princípio monárquico na Criação e é o modo pelo qual as coisas se reduzem à simplicidade, e podemos dizer que é a aparência de Deus na terra. Propriamente a busca de Deus se dá pela procura do unum” (Plinio Correa de Oliveira, palestra. 1963. Arquivo IFTE ).

A mensageira do Sagrado Coração de Jesus

Irmã Laura de Melo Aquino, EP

A mensagem da qual ela foi portadora mostraria à humanidade, de um modo nunca antes imaginado, a insondável intensidade do amor que Ele tem a cada um de nós.

ParayLeMonialBasiliqueQuando Margarida Maria Alacoque tinha apenas quatro anos de idade, começou a sentir-se levada a dizer diversas vezes: “Ó meu Deus, eu Vos consagro minha pureza e Vos faço voto de castidade perpétua”. Algo surpreendente numa menininha daquela idade, que nem sabia o que isso significava — como diria mais tarde em suas memórias.

Era já o início extraordinário da história desta alma, na qual a graça divina agia preparando-a para pertencer somente a Jesus. Assim, ela poderia cumprir eximiamente uma crucial missão em benefício da humanidade: ser a mensageira do Sagrado Coração.

Luta entre a vocação e o atrativo pela vida comum

Margarida nasceu em 22 de julho de 1647 na Borgonha, França. Seu pai era juiz e notário real, mas homem de pequenas posses.

Quando tinha 8 anos de idade, foi surpreendida pelo falecimento de seu pai, e a família precisou enviá-la para a escola das clarissas de Charolles. Ali, uma estranha enfermidade reduziu-a a um tal estado de debilidade que, ao cabo de algum tempo, sua mãe a levou de volta para casa. “Passei quatro anos sem poder caminhar”, dirá ela depois. Vendo a ineficácia dos remédios, voltou-se para a Virgem das Virgens e fez-lhe o voto de entrar para a vida religiosa, se ficasse curada. Foi atendida com rapidez, restabelecendo-se instantaneamente.

Entretanto, quando Margarida completou 17 anos, sua mãe e seus irmãos decidiram que ela devia se casar. Deixando-se levar pelo amor filial, a jovem aos poucos começou a tomar parte nos folguedos de sua idade — embora se guardando de ofender a Deus — e a acariciar a idéia de contrair matrimônio, mesmo porque já tinha vários pretendentes. No seu interior travou-se então uma demorada e intensa batalha: de um lado, a atração pela vida comum lhe sussurrava ser até um dever de piedade filial constituir um lar, pois assim poderia amparar melhor sua mãe enferma. De outro, a voz da graça lembrava-lhe o voto de castidade perfeita que fizera já na infância, bem como a promessa de fazer-se esposa de Cristo. Não importa, você era muito criança para entender o que dizia, portanto, essas promessas não tinham valor; você agora é livre! — era a resposta que lhe vinha em seguida à mente.

Esse cruel embate de alma durou alguns anos. Mas, ajudada de modo sensível por Nosso Senhor, a vocação religiosa acabou por vencer: em 1671, ela entrou como postulante no Mosteiro da Visitação, de Paray-le-Monial.

Santa Margarida Maria AlacoqueSanta ou visionária?

Desde a infância, Margarida fora beneficiada por experiências místicas. As mais importantes, porém, ocorreram no convento, a partir de 27 de dezembro de 1673, quando passou a receber uma série de revelações do Sagrado Coração de Jesus, o qual a incumbia de ser a encarregada de divulgar essa devoção.

As três superioras que, a cada seis anos, assumiram sucessivamente a autoridade no convento de Paray-le-Monial convenceram-se da santidade de Margarida e da autenticidade das revelações que recebia. Contudo, ela sofreu acirrada oposição dentro da comunidade, que a tratava como uma excêntrica visionária. Seu principal apoio veio de São Cláudio de la Colombière, jovem sacerdote jesuíta que foi durante certo tempo confessor das freiras e testemunhou serem reais as visões da Santa.

São Cláudio foi enviado à Inglaterra, como confessor da duquesa de York — esposa do futuro rei Jaime II —, e ali pregou pela primeira vez a devoção ao Sagrado Coração de Jesus, obtendo várias conversões entre as damas da nobreza. No entanto, sofreu perseguição em virtude de um complô anticatólico, e passou um tempo na prisão. De volta à França, com a saúde abalada, poucas vezes pôde encontrar-se com Santa Margarida, morrendo muito cedo. Sua partida deste mundo, porém, não abalou a religiosa. Por sua perseverança, docilidade, espírito de obediência e caridade, ela acabou vencendo as oposições e conseguiu cumprir sua missão, começando por introduzir em 1686 — no início para um círculo restrito de seu próprio convento — a festa do Sagrado Coração de Jesus. Esta se espalhou com rapidez por outros mosteiros da Visitação, e transbordou para o exterior da congregação.

Após uma existência na qual consumiu-se sem cessar no amor ao Sagrado Coração de Jesus, Santa Margarida Maria Alacoque morreu em 17 de outubro de 1690, aos 43 anos de idade. Foi canonizada por Bento XV em 1920. Seu corpo está colocado sob o altar da capela do convento onde viveu, e os peregrinos que ali vão rezar a ela alcançam insignes graças.

Profeta da alegria cristã

S Filippo Neri
Irmã Carmela Werner Ferreira,EP

Na Cidade Eterna, avançava para seu final a noite calma e silenciosa. Após mais uma jornada na qual conduzira com valor a Barca de Pedro, o Sumo Pontífice descansava por algumas horas, para retomar seu posto aos primeiros clarões da aurora.
Nem todos, porém, repousavam naquela madrugada de 1544. A célebre Via Ápia, outrora palmilhada nessas horas pelos vigias de César e por cristãos que procuravam refúgio nas catacumbas, presenciava agora os passos de um humilde fiel chamado Filipe Néri, então com 29 anos de idade. Percorreu pouco mais de três quilômetros até a ponta da escadaria da Catacumba de São Sebastião, seu local predileto de oração e recolhimento.

O “pentecostes” de São Filipe

A Santa Igreja atravessava as conturbações religiosas do século XVI. Preparavam-se em Trento as seções do grande Concílio e o mundo cristão vivia uma encruzilhada histórica, de desfecho pouco previsível. Posto nessa situação, Filipe erguia do fundo daquelas úmidas e escuras galerias uma prece que se confundia com o clamor dos mártires: “Enviai, Senhor, o vosso Espírito, e renovareis a face da Terra”.

Enquanto rezava, sentiu seu coração encher-se “de grande e inusitada alegria, uma alegria feita de amor divino, mais forte e veemente que qualquer outra sentida antes”. Uma bola de fogo — símbolo do Espírito Santo — refulgiu diante dele, entrou por sua boca e pousou em seu coração. Num instante, viu-se tomado de excepcional amor e entusiasmo pelas coisas divinas, bem como de uma capacidade incomum de comunicá-los. Sua constituição física, não podendo conter o ímpeto da ação sobrenatural, modelou-se milagrosamente a ela: o coração aumentou de tamanho e buscou lugar entre a quarta e a quinta costelas, as quais se arquearam docilmente para dar-lhe um maior espaço.

Esse episódio miraculoso, ocorrido na vigília de Pentecostes, passaria para a História como “o pentecostes de São Filipe Néri”. E os frutos de tamanho prodígio não se fizeram esperar: “É assim que esse homem, admirável pela doçura, a persuasão e o fogo da caridade, começou essa santa renovação social pela qual regenerará os povos da Itália; sublime obra de humildade, paciência e devotamento, que ele realizou antes de morrer, e sua congregação continuou depois tão gloriosamente”.

Peculiar vocação

Filipe Romolo Néri nasceu num bairro popular de Florença, a 22 de julho de 1515. Aos 18 anos, seu pai, Francesco Néri, o enviou à casa de um tio, em San Germano, a fim de aprender o ofício de comerciante. Da bela cidade onde nascera, que deixava para sempre, haveria de conservar como um tesouro a formação religiosa recebida dos dominicanos do Convento de São Marcos: “Tudo quanto tenho de bom, recebi dos padres de São Marcos”, repetirá ao longo da vida.

Sua vocação, porém, não era mercantil. Desapontado com as perspectivas de um lucro que hoje se conquista e amanhã se perde, ele se interessava muito mais por acumular tesouros no Céu, “onde não os consomem a traça nem a ferrugem, e os ladrões não furtam nem roubam” (Mt 6, 20). Partiu para Roma no ano seguinte, abandonando o tio e os negócios.

O problema de uma vocação “oficial” não se pôs para este jovem, já decidido a entregar-se a Deus. Não quis ser padre, nesse então, nem ir para um convento, nem integrar qualquer instituição eclesial da época. Entretanto, dificilmente encontraremos entre o clero, nos claustros ou confrarias daquele século, pessoa mais devota do que ele. Desde sua juventude, Filipe teve a característica de escapar dos esquemas habituais, para mostrar que a única regra perfeita em si mesma é a caridade, e nenhuma disciplina tem valor quando se afasta da obediência a Jesus Cristo.

Com efeito, levava no mundo uma vida espiritual admirável! Tendo recebido asilo na casa de um nobre florentino, estabelecido na Cidade Eterna, ali passou vários anos em isolamento, oração e severa penitência. Frequentava com avidez a Roma Antiga, deixando-se ficar longas horas em oração nos sagrados lugares. Alguns anos mais tarde, sentiu-se atraído a estudar Filosofia e Teologia, e os mestres da Sapienza e do Studium agostiniano se assombraram perante o voo intelectual desse homem que vivia como um mendigo.

Tais anos de estudo foram altamente fecundos, a ponto de lhe valerem para o resto da vida e darem-lhe a justificada fama de possuir uma sabedoria em nada inferior à dos maiores teólogos que esta época conheceu. São Tomás de Aquino será para sempre seu mestre; a Suma Teológica, seu livro de cabeceira.

Difundia a alegria da santidade

Em pouco tempo, por toda a Urbe, comentava-se a santidade desse peregrino de vida edificante. Solidificado na virtude, pelo longo período de recolhimento, ele sentiu ter chegado a hora de iniciar sua obra evangelizadora. Para isso, escolheu as regiões mais pobres e “em todos os bairros, mesmo nos de pior fama, pregava ao ar livre a ouvintes benévolos e obtinha conversões extraordinárias”. Sua fórmula para interpelar um pecador consistia em pousar a mão em seu ombro, no lugar onde o encontrasse, e dizer: “Vamos ver, irmão, é hoje que nos decidimos a comportar-nos bem?”.

Dotado de grande atrativo pessoal, Filipe Néri difundia ao seu redor a alegria da santidade, perto da qual a satisfação efêmera do pecado não passa de grotesca caricatura. Todos queriam estar perto dele e receber o transbordamento de seu amor a Deus. Os jovens se comprimiam ao seu redor, para ouvi-lo falar das coisas do Céu e brincarem juntos, em ruidosa algazarra. A um adulto ranzinza que reclamava do barulho, respondeu com um só argumento: “Eles não cometem nenhum pecado!”. Com efeito, no inovador método de evangelização desse apóstolo leigo, tudo era permitido, menos o pecado e a tristeza.

Assim era a amizade desses santos…

Lançando-se num incansável apostolado junto aos leitos dos doentes, Filipe livrou do desespero e conduziu à morte santa muitos moribundos. No ano de 1548 fundou, juntamente com seu confessor, Persiano Rosa, a Confraria da Santíssima Trindade, destinada a atender os enfermos e peregrinos.

Santo Inácio de Loyola percebia o valor de Filipe e fez-lhe reiterados convites para ingressar na Companhia de Jesus, mas este preferiu continuar na condição de pietoso lazzarone (piedoso mendigo).

Admirado pela legião de pessoas que, movidos por suas palavras, abraçavam a vida consagrada, Santo Inácio o cognominou de “o Sino”, dando a seguinte explicação: “Assim como um sino de paróquia, que chama todo mundo para a igreja e permanece no seu lugar, este homem apostólico faz os outros entrarem na vida religiosa e permanece de fora”. Em contrapartida, Filipe — que se sentia chamado para suscitar religiosos, mas não para ser um deles — manifestava grande entusiasmo pelo convertido de Manresa; chegou a afirmar que nunca contemplava sua fisionomia sem vê-lo resplandecente como um Anjo de luz. Assim era a amizade de tais santos!

A peregrinação das sete igrejas

Em 23 de maio de 1551, recebeu a ordenação sacerdotal. Contava 36 anos, e agora executaria, como ministro do Senhor, os trabalhos de sua vinha. No exercício do ministério sacerdotal, aos discípulos pobres se juntariam nobres, burgueses, artistas e cardeais. Qual o principal método de atuação escolhido por São Filipe para atraí-los? A originalíssima “peregrinação às sete igrejas”.

O programa da “peregrinação” começava na Basílica de São Pedro, onde, após a leitura espiritual, fazia-se uma exposição doutrinária. Os participantes meditavam, comentavam, e Padre Filipe tirava a conclusão. Em seguida, todos se levantavam e se dirigiam para a Basílica de São Paulo, cantando hinos e salmos em compenetrada devoção. Ali chegando, ouviam uma nova conferência sobre a História da Igreja, a vida dos santos ou a Bíblia. E assim prosseguiam até o meio dia, quando assistiam à Missa e comungavam na Igreja de São Sebastião ou na de Santo Estevão.

Em seguida, servia-se uma refeição nos jardins da redondeza, sempre animada pela contagiante alegria de São Filipe. A “peregrinação” recomeçava com novo cortejo musical, passando por outros templos veneráveis. O número de conversões ultrapassava todas as expectativas.

Membros de importantes famílias, como a dos Médici e a dos Borromeu, estiveram, lado a lado, com crianças órfãs e humildes artesãos nesse exercício que, por seu fervor, censurava os cristãos tíbios e ao mesmo tempo os conclamava. Poderemos contar até mil pessoas peregrinando juntas num mesmo dia, entre elas quatro futuros papas — Gregório XIII, Gregório XIV, Clemente VIII e Leão XI — e o genial compositor Giovanni Pierluigi da Palestrina. São Felipe, porém, dava pouca importância aos cargos e talentos, se discernia nas almas a fealdade do pecado. Ele cumpria sua missão de purificá-las e torná-las humildes, quaisquer que fossem.

Ao cair da tarde, findava a meditação na Basílica de Santa Maria Maior, todos voltavam para casa carregados de bons propósitos e, o que é mais importante, com força para cumpri-los.

Santas peripécias

Entre os historiadores que retrataram a figura deste insigne Santo, alguns o descreveram com traços inexatos, como se ele fosse um comediante, interessado apenas em despertar o riso com seus ditos jocosos. Na verdade, a alegria deste varão sobrenatural provinha de sua união com Deus, do sentir em seu interior a presença consoladora do Espírito Santo e poder comunicá-la ao mundo. Melhor que ninguém, conhecia a imensa riqueza que significa a posse do estado de graça, bem preciosíssimo, em comparação com o qual nada tem valor. A consideração dos mistérios divinos o cumulava de imensa felicidade, e desta brotava a peculiaridade de sua atividade evangelizadora.

Filipe obtinha de Deus o favor de muitos milagres, que o povo não deixava de relacionar com a eficácia de suas preces. Para evitar isso, ele arranjou uma grande bolsa, onde afirmava estarem preciosas relíquias. Tocava os enfermos com ela, e quando algum se curava, atribuía o fato ao poder das relíquias. Esse argumento convenceu a muitos, até o dia em que se fez uma grande descoberta: a sacola estava vazia!

Em certa ocasião, dois padres do Oratório tiveram um sério desentendimento e não queriam se reconciliar. Filipe chamou-os à sua presença e, em nome da santa obediência, mandou cada um deles cantar e dançar uma música folclórica para o outro. Com esse inusitado espetáculo, operou-se a reconciliação.

Numa “peregrinação às sete igrejas”, São Felipe notou a presença de certa dama da nobreza que ostentava um aparatoso vestido, joias e imenso penteado. Percebendo não estar a senhora tão preocupada com as coisas de Deus quanto com sua aparência pessoal, o Santo pendurou-lhe no nariz seus próprios óculos. O público estalou em sonoras risadas. Ela entendeu a lição e terminou com devoto recolhimento o exercício começado com frivolidade.

Poderíamos multiplicar indefinidamente o relato de episódios como estes, todos surpreendentes, cheios de candura e de presença de espírito.

S_Filipo_Neri
“Eis a Fonte de toda a minha alegria!”

São Filipe Néri deixou este mundo aos 80 anos. Segundo o Cardeal Angelo Bagnasco, viveu numa época na qual “a Igreja conheceu um inaudito florescimento — seria melhor dizer uma ‘verdadeira concentração’ — de santos e santas que, por número e qualidade, dificilmente se encontra na História da Igreja”. Nesse contexto, seu papel não foi pequeno.

Seu amor à Santa Igreja, sua entranhada devoção à Santa Missa e à Santíssima Virgem, somados à disposição de servir o próximo, produziram copiosos frutos. Sofreu o inenarrável por causa de uma frágil saúde, perseguições e invejas, sem por isso perder o sorriso, quase sempre mantido com heroísmo. No dia de sua morte, 26 de maio de 1595, ele ainda celebrou Missa, atendeu várias confissões e manteve com os padres do Oratório umas últimas horas de convívio. Ao receber o Viático, pronunciou estas palavras, resumitivas de sua existência: “Eis a Fonte de toda a minha alegria!”.

A Congregação por ele fundada, inovadora sob muitos aspectos, assumiu a missão de continuar sua obra baseada na caridade, isenta de rígidas normas que poderiam cercear uma atividade evangelizadora a ser exercida no meio do mundo, em benefício das almas imersas nas preocupações do mundo.

Conservam-se ainda hoje, como eloquentes testemunhas da “pentecostes” de São Filipe, suas duas costelas arqueadas: uma no Oratório de Roma e a outra no de Nápoles. Essas preciosas relíquias parecem proclamar a seus filhos espirituais e a todas as almas chamadas à atividade apostólica: “Os homens que deixam seu coração moldar-se pela ação do Espírito Santo são os que verdadeiramente colaboram para renovar a face da Terra”.

Fé e razão: arco do conhecimento

agustin_2 copyLuisana Miguelina Estévez

Deus, ao criar o homem à Sua imagem, num ato libérrimo, “deu-lhe alma, dotada de razão e de inteligência, que o tornou superior aos animais restantes, terrestres, nadadores e voadores, destituídos de mente” (SANTO AGOSTINHO. A cidade de Deus. L.XII, c.XXIII). E também lhe deu a plena liberdade, infundindo-lhe no coração o desejo de conhecer a Verdade Absoluta, que é Ele, para que conhecendo-O e amando-O possa chegar à verdade plena e perfeita de si mesmo (JOÃO PAULO II. Fides et Ratio).

Ora, o entendimento humano, na luta por alcançar tais verdades, depara-se, pelo caminho, com uma série de dificuldades, produto das sequelas do pecado de Adão; e estas, muitas vezes, levam-no a desistir ou a duvidar, em sua procura, ou até mesmo, em certas ocasiões, a negar aquilo que não quer admitir como verdadeiro.

Disto resulta que muitos dos filósofos antigos, no seu interesse por querer explicar a origem de todas as coisas, caíam, na maioria dos casos, em grandes erros, posto que suas teorias eram unicamente baseadas no que o intelecto humano podia alcançar, sendo que existem verdades que não podem ser demonstradas pela razão humana. Quão equivocados estiveram estes homens “que desejaram a natureza sem a graça [e] a razão sem a fé” (CLÁ DIAS, 1996, s.p.).

O Doutor Angélico (S.C.G., L.I, c.4) ensina que este descobrimento possui uma profundidade tal, que faz com que o entendimento humano, só depois de muito exercício, se encontre em condições para captá-lo pela via racional. Devido a estas dificuldades, o conhecimento pleno de Deus é mais acessível com o apoio da Revelação. Por isso, o apóstolo Paulo menciona e adverte que o cognoscível de Deus se compreende porque Ele mesmo o manifestou (Rm 1, 19).

Desta maneira, se faz mister a Revelação Divina, uma vez que Deus quer que “omnes homines vult salvos fieri et ad agnitionem veritatis venire” ― todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade (I Tim 2, 4). E a própria Sagrada Escritura ressalta o papel fundamental da fé nos homens, quando nos diz que “a fé é o fundamento da esperança, é uma certeza a respeito do que não se vê” (Hb 11, 1).

Apesar de tudo isso, não se pode negar o importante papel que desempenha a razão, nem se quer estabelecer um divórcio entre uma e outra, mas o que se quer é acentuar e tonificar a união fraterna que deve existir entre ambas, já que se poderia dizer que constituem duas asas com as quais o espírito humano se eleva para a contemplação da Verdade (JUAN PABLO II, Fides et Ratio). Diz Clá Dias (2010) que a fé é um rationabile obsequium, um reforço da inteligência, já que lhe proporciona o que esta não consegue alcançar. Corrobora tal afirmação João Paulo II (Fides et Ratio, no.42) quando afirma: “a fé requer que seu objetivo seja compreendido com ajuda da razão; por sua vez a razão, no apogeu de sua indagação, admite como necessário aquilo que a fé lhe apresenta”.

Consequentemente, uma leva a outra pela mão. A fé, que diviniza os atributos humanos, e a razão que, divinizada pela fé, compreende melhor o que por si só não compreenderia.

Esse problema da relação entre Filosofia e Teologia, ciência e fé, razão e Revelação esteve presente já em muitas das indagações dos primeiros Padres da Igreja, nos primeiros tempos do Cristianismo, como nos explica Adriano (2007, p.36): “a questão era saber se com o surgimento da fé […], a razão ainda conservaria qualquer utilidade ou se tornaria um perigo para o crente”. Enquanto uns discutiam sobre a antinomia entre ambas e seu total desacordo, outros defendiam sua completa harmonia, afirmando serem elas “duas forças noéticas que trabalham para o mesmo objetivo: a posse da verdade” (ADRIANO, 2007, p.36).

Não pode haver uma separação entre fé e razão, posto que “formam nisto um par de gêmeas peculiares, não podendo nenhuma das duas separar-se totalmente uma da outra e, todavia, cada uma deve conservar sua própria tarefa e identidade” (BENTO XVI, 2008, apud CASTÉ, 2009, p.24), pois o mesmo Deus, que dispôs a Revelação para a salvação do homem, infundiu no espírito deste a luz da razão (PIO IX, Dei filius), para que fazendo uso dela demonstre quão certas são aquelas verdades à que se teve acesso pela fé.

O batismo do sino

Sino1 Irmã Carmela Werner Ferreira,EP

Melodioso, disciplinado e amigo, o sino sempre nos lembra seu caráter genuinamente cristão.

Quem não se encanta ao ouvir o sonoro timbre do sino que, do alto do campanário, nos convida a elevar nossa mente ao Céu e dirigir a Deus uma súplica, um louvor?

O sino é uma verdadeira maravilha da arte, pela simplicidade de suas linhas, beleza de suas proporções e riqueza de suas notas.

Origem do sino
Os judeus e os pagãos conheceram somente o tintinnabulum ou campainha. Esta miniatura do sino é nomeada pela primeira vez no livro do Êxodo. Deus ordenou a Moisés guarnecer de campainhas de ouro a orla inferior do manto de Aarão, o primeiro Sumo Sacerdote, e acrescentou: “Aarão será revestido desse manto quando exercer suas funções, a fim de se ouvir o som das campainhas quando entrar no Santuário, diante do Senhor, e quando sair” (Ex 28, 35). Em número de 72, destinavam-se elas a recordar aos filhos de Israel que a Lei lhes havia sido dada ao som da trombeta.

Entre os gregos e romanos, as campainhas eram usadas em diversos atos civis e religiosos, desde a abertura dos banhos públicos até a consagração de algum templo.

Durante o período das perseguições, deveriam ser silenciosos os meios de chamar os cristãos para as reuniões, de modo a não despertar a atenção dos pagãos. Depois de Constantino, a Igreja do Ocidente passou a servir-se de trombetas para essa finalidade, e a do Oriente usava duas lâminas de cobre, que se batiam uma contra a outra.

Não se sabe quem foi o idealizador do sino como hoje o conhecemos. Segundo relato de Santo Isidoro de Sevilha, falecido em 636, sua origem é a região da Campânia, Itália, muito provavelmente a cidade de Nola.

Sino5 copyO sino nasceu católico
Nos tempos de Carlos Magno, que reinou de 768 a 814, os sinos eram já muito conhecidos. A propósito da solicitude deste soberano pelas coisas eclesiásticas, o monge de Saint Gall nos conta este singular fato:
“No império de Carlos Magno vivia um hábil fundidor que fez um excelente sino. Apenas soube disso, o imperador ficou penetrado de admiração. Prometeu-lhe o fundidor fazer um muito mais belo se, em vez de estanho, ele lhe desse cem libras de prata.
“A soma foi-lhe logo entregue; mas esse mau homem usou estanho, em vez de prata, e em pouco tempo apresentou o novo sino a Carlos Magno. Gostou dele o imperador e ordenou que lhe pusessem o badalo e o içassem ao campanário.
“O guardião da igreja e os outros capelães tentaram tocá-lo, mas não conseguiram. Vendo isso, o fundidor pegou na corda presa ao badalo e pôsse a puxá-la. Mas o badalo se desprendeu, caiu-lhe na cabeça e o matou.”
E o monge cronista conclui: “Aquilo que é mal adquirido, a ninguém aproveita”.

O sino nasceu católico, sua invenção foi reservada à Igreja. E esta o ama como a um filho, a ponto de até batizá-lo. Bem entendido, não se trata do Batismo sacramental, que nos torna filhos de Deus, mas de um cerimonial de consagração, como se faz com os vasos sagrados.

A cerimônia de batismo
O batismo ou bênção do sino era uma cerimônia outrora reservada ao bispo, e somente os sacerdotes tinham o direito de tocá-lo.

Vejamos como antigamente ela se realizava.

Era um ato solene. Reuniam-se os fiéis em torno do sino, suspenso alguns metros acima do solo. Perto dele estavam colocados a água, o sal, os santos óleos, o incenso, a mirra, o turíbulo aceso. O bispo apresentava-se em trajes pontificais, acompanhado do clero e seguido do padrinho e da madrinha do sino. Depois de cantar sete salmos que exaltam o poder e a bondade do Criador e, num contraste tocante, confessar a fraqueza e as necessidades do homem, o bispo benzia a água e aspergia o sino, ao qual conferia o poder e a missão de afastar de todos os lugares, onde o seu som repercutisse, as potências inimigas do homem e de seus bens: os demônios, o raio, o granizo, os animais maléficos, as tempestades e todos os espíritos de destruição.

Em seguida, os diáconos o lavavam com água benta, por dentro e por fora, e o enxugavam. Logo após, recitavam com o bispo seis salmos que convidam todas as criaturas a louvar o Senhor e agradecer-Lhe por seus benefícios.

Seguiam-se as unções com os óleos sagrados, traçadas pelo bispo em forma de cruz: sete no exterior do sino, com o óleo dos enfermos, simbolizando os sofrimentos e a morte do nosso Salvador; e quatro no interior, com o óleo da crisma, significando a Ressurreição de Cristo e as quatro qualidades dos corpos ressuscitados, que são a agilidade, a claridade, a sutileza e a impassibilidade.

Em seguida, o ministro deitava incenso e outros perfumes no turíbulo, e colocava-o debaixo do sino, enchendo o seu interior de uma nuvem suave e odorífera.

Cabia aos padrinhos escolheremlhe um nome, o qual devia ser sempre o de um Bem-Aventurado do Céu. Uma vez escolhido o nome — por exemplo, São Miguel —, o bispo dirigia-se ao próprio sino: “Em honra de São Miguel, a paz doravante esteja contigo, caro sino”.

A cerimônia terminava pelo canto do trecho do Evangelho no qual é relatado o simbólico episódio de Marta e de Maria (cf. Lc 10, 38-42). Uma eloqüente maneira de dizer que o sino ensina aos cristãos a vida ativa de Marta, mas sem descuidar a vida contemplativa de Maria.

Quando estiver suspenso no campanário, seu bronze sonoro convocará os vivos, chorará os mortos, reunirá o clero, dará brilho às solenidades. Ele será arauto de Deus, colocado entre o céu e a terra.

Abba e a filiação divina

Irmã Clarissa Ribeiro de Sena, EP

“Aproximemo-nos da manjedoura na gruta em Belém e contemplemos um Menino reluzente de vitalidade, sabedoria e graça. A diplomacia divina não podia haver elaborado melhor forma para remediar todos os males trazidos pelo pecado. Um Homem-Deus… […] Ali está Quem não só nos abriu as portas do Céu, mas também nos elevou à categoria de filhos de Deus”(CLÁ DIAS).
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Pela Encarnação e Redenção, não apenas foi reparado o pecado de nossos primeiros pais em que amizade com Deus tinha sido abalada, mas o homem foi reintegrado à ordem sobrenatural, e elevado ao mais alto grau de união com Deus a que pode chegar uma criatura: a filiação divina.

Este novo relacionamento entre Deus e os homens encontra-se bem caracterizado em um sugestivo termo utilizado por escritores sagrados: Abba. Qual é a sua vinculação com a filiação divina?

Muito decidora é a passagem em que os discípulos pedem a Jesus que lhes ensine a rezar. Como observa Von Balthasar, por muito particular que fosse a intimidade de Nosso Senhor com o Pai, Ele não ensina seus discípulos a rezarem de maneira distinta à que Ele mesmo faz; ao contrário, instrui-os a invocá-lo como Pai ― Ἀββά.

O vocábulo ἁββά ― um semitismo lexical ― é usado apenas três vezes no Novo Testamento: em Mc 14,36; Rm 8,15 e Gl 4,615.

Nas três ocorrências, Ἀββά aparece na função de vocativo, indicando uma interpelação a Deus. Seu uso, com esta finalidade, não é registrado em nenhuma passagem do Antigo Testamento, nem nos textos extra-bíblicos. Os autores atribuem este silêncio a um fator linguístico: a origem da palavra ἁββά.

Em aramaico, ἁββά, é originário do linguajar infantil, com o significado de “papai”. No período pré-cristão, recebeu um sentido mais amplo, sendo utilizado também pelos filhos e filhas adultos. Chegou a substituir, nos textos hebraicos, a expressão “meu pai”, significando também “seu pai” e “nosso pai”; suplantou, ademais, a forma determinada do substantivo “pai”. Contudo, apesar destes desenvolvimentos, não se olvidou sua procedência de um balbucio infantil. Assim, aplicar a Deus um termo tão corriqueiro e familiar, talvez tenha soado um tanto desrespeitoso aos compatrícios de Jesus. O mesmo não ocorreu com São Marcos, que não hesitou em colocá-lo nos lábios do Divino Mestre.

horto 150Nos Evangelhos, a invocação Ἀββά, está atestada expressamente somente na perícope da Oração no Horto que nos oferece São Marcos. Contudo, afirmam vários autores que é a palavra aramaica Ἀββά, que subjaz nas várias versões gregas da palavra “Pai”, usada por Jesus ― segundo o testemunho unânime dos Evangelhos ― para dirigir-se a Deus em todas as suas orações. Portanto, “quando Jesus se dirigia a Deus chamando-o “Pai”, utilizava o termo arameu Abba”.

Os exegetas fundamentam esta afirmação na oscilação das formas da interpelação a Deus como Pai apresentadas pela tradição: “Encontramos, de um lado, a forma grega correta do vocativo πάτερ , acompanhado de pronome pessoal em Mateus (πάτερ μον), e, do outro lado, o nominativo com artigo (ὁ πάτερ) como vocativo. Chama especial atenção que numa só e mesma oração encontramos lado a lado πάτερ e ὁ πάτερ vocativo, a saber em Mt 11.25s par. Lc 10.21”.
Esta variação aponta para um Ἀββά, subjacente que, como visto anteriormente, era usado tanto como interpelação, quanto como o estado determinado “o pai”, ou como a forma com o sufixo da primeira pessoa (“meu pai”, “nosso pai”).

Outro fato reforça esta hipótese: o testemunho de Rm 8,15 e Gl 4,6 que revela o uso de Ἀββά, nas comunidades cristãs primitivas, costume pressuposto por São Paulo tanto em suas próprias comunidades (Gálatas), quanto naquelas não fundadas por ele (Romanos). Para Kittel, o Ἀββά ὁ Πάτερ presente nas duas epístolas, evoca uma reminiscência litúrgica, possivelmente o início do “Pai-Nosso”. Tal proposição é corroborada pelo verbo χράζω que, segundo Kuhn, tem o “sentido de clamor extático na assembléia da comunidade”. Este uso litúrgico justificaria a familiaridade com a palavra Ἀββά em regiões tão distantes da Palestina. De qualquer forma, a subsistência de um termo de origem aramaica em ambientes estranhos a esta língua, parece indicar ser este um eco da voz do próprio Jesus.

Este é um termo que expressa a peculiar, afetuosa e entranhada relação entre Jesus e o Pai. E é deste invulgar relacionamento, que o Salvador quis fazer partícipes os seus.

O uso de Ἀββά nas cartas paulinas também denota uma experiência, por parte dos primeiros cristãos, da familiaridade com o Pai proclamada e vivida por Jesus; nas duas epístolas, Ἀββά ὁ Πατήρ é mencionado como manifestação do relacionamento filial dos romanos e gálatas com Deus.

Ἀββά! Em uma simples palavra, encontra-se contida tão insigne realidade: pelos méritos de Cristo, somos filhos de Deus! Não nos esqueçamos, porém, de que noblesse oblige. Se Deus assim nos convida a tal intimidade consigo, cabe, de nossa parte, uma resposta à altura. Que esta não seja como a de Adão e Eva no Paraíso; mas semelhante à de Jesus no Horto das Oliveiras ― que antepõe a vontade do Pai à sua ― e a dos discípulos de Roma e da Galácia, convocados por Paulo a viver segundo a fé em Jesus Cristo. Desta forma, poderemos unirmo-nos a eles, e dizer com toda propriedade: Ἀββά ὁ Πατήρ!

Os sacramentais, o que são?

Ana Rafaela Maragno

altar

Quando entramos em uma igreja e impulsionados pelos imponderáveis do ambiente, nos ajoelhamos diante do Sacrário, rezamos o Pai-Nosso, ou quando fazemos uso da água benta, temos uma noção bem exata desse ato que praticamos?

Muito ao nosso alcance e de grande benefício espiritual, está a riqueza dos sacramentais.

“Chamam-se sacramentais os sinais sagrados instituídos pela Igreja cuja finalidade é preparar os homens para receberem os frutos dos sacramentos e santificarem as diferentes circunstâncias da vida”(CEC 1677).

Batismo6“Os sacramentais não conferem a graça do Espírito Santo à maneira dos sacramentos, mas oferecem aos fiéis bem-dispostos a possibilidade de santificarem quase todos os acontecimentos da vida por meio da graça divina que deriva do mistério pascal da paixão, morte e ressurreição de Cristo” (CEC 1670).

Há distinções substanciais entre o sacramento e o sacramental.

  1. Os sacramentos produzem seu efeito ex opere operato (“pela obra realizada”) por sua própria virtude, quando devidamente ministrados e recebidos ; a eficácia dos sacramentais, ex opere operantis (“pela ação daquele que opera”) pela disposição dos que os recebem. Assim, para que haja um frutuoso efeito das graças dos sacramentais, são necessárias também nossa plena consciência e boa disposição ao recebê-los.
  2. Os sacramentos contêm e conferem a graça habitual ou santificante que é a graça que nos dá uma verdadeira e real participação na vida do próprio Deus; os sacramentais nos preparam para receber e cooperar com as graças atuais as quais, como o próprio nome indica, são atos fugazes e transitórios e, não hábitos permanentes como o é a graça santificante.
  3. Os sacramentos foram instituídos por Nosso Senhor Jesus Cristo, e são apenas sete (batismo, crisma, eucaristia, confissão, unção dos enfermos, ordem e matrimônio) Já os sacramentais são instituídos pela Igreja, que pode aumentar o seu número, se julgar conveniente para o bem das almas.

    Mas, quais são os sacramentais ?

    Por serem numerosos, muitos teólogos reduzem a seis grupos:

    1. Orans (Orante): algumas orações, tais como o Pai-Nosso e as orações que, publicamente, costuma rezar a Igreja: as Ladainhas, por exemplo.
    2. Tinctus (Molhado): o uso da água benta; certas unções que se usam na administração de alguns sacramentos e que não pertencem à sua essência.
    3. Edens (Comido); indica o uso do pão bento ou outros alimentos santificados pela bênção de um Sacerdote.
    4. Confessus ( Confessado): quando se reza o Confiteor, individual ou publicamente. – Ou seja, rezando o Confiteor para pedir perdão a Nosso Senhor por tantas falhas que cometemos , sem lembrar-Se mais da falta, Ele, já neste ato, nos cumula de graças.
    5. Dans (Dado): esmolas espirituais ou corporais, bem como os atos de misericórdia, prescritos pela Igreja. – Acima das esmolas que possamos dar, está o bem espiritual que possamos fazer ao próximo. Além desse ato ser um sacramental, adquirimos uma série de méritos pela caridade fraterna e pelas outras virtudes que a acompanham.
    6. Benedicens ( Bendizente): as bênçãos que dão o Papa, os Bispos e os sacerdotes; os exorcismos; a bênção de reis, abades ou virgens e, em geral, todas as bênçãos sobre coisas santas.

      Quantas graças, quantas dádivas da Santa Igreja à nossa disposição!

      Os efeitos que produzem ou podem produzir os sacramentais dignamente recebidos são muitos. Em geral:

      1. Obtêm graças atuais, com especial eficácia, pela intervenção da Igreja( ex opere operandis Ecclesiae).
      2. Perdoam os pecados veniais por via de impetração, enquanto que, pelas boas obras que fazem praticar e pela virtude das orações da Igreja, excitam-nos aos sentimentos de contrição e atos de caridade.
      3. Às vezes, perdoam toda pena temporal, atinente aos pecados passados, em virtude das indulgências que costumam acompanhar o uso dos sacramentais. Por exemplo, a água benta.
      4. Obtêm-nos graças temporais, se convenientes para nossa salvação. Por exemplo, saúde corporal, defesa contra as tempestades, uma viagem bem-sucedida, etc.

        Embora os efeitos dos sacramentais não dependam, principalmente, da disposição com que são administrados ou recebidos, é necessário estar na graça de Deus para receber as graças atuais dos sacramentais com maior eficácia.

        Dentro desta perspectiva, “não há uso honesto das coisas materiais que não possa ser dirigido à santificação dos homens e o louvor a Deus.”(II Concílio do Vaticano, Const. Sacrosanctum Concilium, 61: AAS 56 (1964) 116-117)

Fundamento da dignidade humana

Emelly Tainara Schnorr

Na ordem puramente natural dos seres criados, se encontra a figura senhorial do “homo sapiens”. Este está acima dos brutos animais, pois é dotado de inteligência, que o torna capaz de entender, aprender, conhecer as coisas, as verdades e, sobretudo, chegar à existência de Deus, puramente pela razão que possui. Desta maneira, supera, de um modo incomparável, o cego instinto dos animais, sendo “o saber umas das coisas mais valiosas e dignas de estima” (ARISTÓTELES, De Anina, L.I, c.1, 402a, tradução nossa) pertencente a ele. O homem possui também a vontade, que governa a sensibilidade, os apetites e as paixões desregradas a partir da mancha original.

Ele encerra o mundo material, pois também foi formado do barro desta Terra (Gn 2, 7). Diz São Tomás (S.T. I, q.91, a.1, ad.1) que a natureza humana foi feita a partir da matéria dos quatro elementos tendo algo em comum com os corpos inferiores para mediar entre as substâncias espirituais e corporais.

A parte corporal do homem é comunicada, pelo Criador, através de nossos pais, por geração, formando o seu ser e a sua natureza específica. Por ser entende-se que é tudo o que existe; é, portanto, uma realidade a existência humana.

Segundo o Aquinate (S.T. I, q.78, a.2), as funções corporais do homem se baseiam em operações básicas, regidas pela razão, a qual o diferencia enormemente dos outros seres vivos, embora haja similitudes. A primeira delas é a vegetativa, que consiste na nutrição, crescimento e geração; a segunda é a sensitiva, que são os sentidos externos e internos; a terceira é a apetitiva ou instintiva, que consiste nos desejos e impulsos; a quarta é a motora, que é o movimento de translação.

Ora, “a alma é o princípio vital dos seres” (CAMPOS, 2009, p.1), ou seja, é ela que dá vida ao homem, no qual se constitui o composto hilemórfico. Assim, sendo de substância espiritual, ela está “no limite das criaturas espirituais e corporais” (SÃO TOMÁS DE AQUINO, S.T. I, q.17, a.2). Ou seja, é através dela que o homem toca no mundo espiritual sem deixar o mundo material, não sendo o homem um puro espírito.

Falamos que a alma é quem dá a vida ao corpo, então seria interessante ressaltar, para melhor compreensão, o que é a vida. Segundo Tomás y Garrido (2006, p.27, tradução nossa), “a vida humana tem sua identidade genética, que responde a uma singularidade biológica; é individual, irrepetível e, paradoxalmente, apresenta interioridade e abertura”. A vida não é somente a essência da existência do homem no mundo ― vendo-a desde o meramente biológico ―, mas também “se refere à vida plena, objeto do desígnio criador de Deus, que, em sentido próprio, é a que tem valor absoluto” (SARMIENTO, 1996, p.31, tradução nossa). Ademais, a vida é uma inter-relação de todos os homens, uns com os outros, na qual se deve buscar o bem comum.

A alma é, também, a forma do corpo, segundo a concepção escolástica: “anima forma corporis” (CAMPOS, 2009, p.1); mas, embora todas as almas sejam da mesma substância, nenhuma é igual à outra, denotando-se, consequentemente, em cada pessoa, uma característica diversa do corpo (CLÁ DIAS, 2009).

Por conseguinte, o corpo e a alma são unidos, “caminham sempre juntos porque são uma só realidade: ‘a pessoa’” (CAMPOS, 2009, p.1). Por pessoa se entende, nada mais nada menos, do que a natureza racional, “o mais perfeito em toda a natureza, isto é, uma substância de natureza racional” (SÃO TOMAS DE AQUINO, S. T. I, q.29, a.3). Ora, a esta “pessoa” implica uma dignidade, sobretudo por ter sido elevada a “imagem de Deus” (Gn 1, 26), que está implícita na própria natureza humana.

Por esta forma, a dignidade do homem não está fundamentada no materialismo, mas sim nesta “imagem e semelhança” que o homem e a mulher têm com Deus. É nesta realidade que se cifra, ontologicamente, a dignidade humana (JOÃO PAULO II apud MORA CALVO, 2004).

Dignidade (do latim dignitas) significa decoro, qualidade superior, nobreza, excelência. Esta consiste numa certa intuição que o homem tem de si próprio, pelo reconhecimento de seu ser, “como alguém que merece respeito, protagonista de uma história única, singular, irrepetível, insubstituível” (OVALLE PINZÓN, 2009, p.24, tradução nossa).

“A pessoa humana é digna pelo mero fato de ser um indivíduo da espécie humana” (GARCÍA CUADRADO, 2003, p.138, tradução nossa). Portanto, só pelo fato de pertencer à natureza humana, todo homem, em qualquer situação que se encontre, é em si mesmo digno e merecedor de respeito. A esse propósito, Mejía (2008, p.32, tradução nossa) acrescenta: “O respeito comporta não o distanciamento das outras pessoas por temor de ofendê-las ou fazer-lhes mal, mas o assumir a dignidade própria que essa pessoa possui, independentemente de sua idade, sexo, condição social, raça ou cultura”.

Assim sendo, pelo fato de serem homens, participam todos dos mesmos direitos: direito à vida, à honra, a condições de existência suficientes, ao trabalho, a uma família, etc.; e tudo o que atenta contra esses direitos é contrário à dignidade humana (CORRÊA DE OLIVEIRA, 2002, p.71).

Todavia, é necessário ressaltar que a dignidade nos foi dada pelo fato de sermos humanos, por termos inteligência, vontade e liberdade, e não por características particulares, méritos ou circunstâncias que rodeiam a cada um. Sobre isto, afirma Mora Calvo (2004, p.91, tradução nossa), comentando o Papa João Paulo II:

A dignidade humana vem de Deus, de sermos suas criaturas, e esta se aperfeiçoa e atualiza, e assim se corrobora na construção que esta criatura faz de um mundo cada vez mais digno e justo, cada vez mais proporcional e adequado a essa semelhança natural e transcendente de quem o confere tão elevada dignidade.

Assim, demonstrado, notamos que não importa ser escravo ou livre, jovem ou ancião, doente, pobre ou rico, ou de qualquer raça que seja. O que importa é o ser humano tomar consciência de sua dignidade, é ele mesmo ser digno. Concluímos com as lúcidas palavras do Professor Plinio Corrêa de Oliveira (1966, s.p.), que eleva a pessoa humana ao verdadeiro lugar que deve ocupar:

Quando o homem inteligente toma conta de sua dignidade intrínseca do ser e mostra-se, pelo seu livre-arbítrio, à altura de sua bondade de ser inteligente, racional e livre, então ele adquire uma elevação que não é comparativa a nada, mas deduzida de sua própria natureza, de seu próprio ser. Assim, o mais ínfimo dos homens, consciente do que é ser homem, e mais ainda, do que é ser cristão, e um bom cristão, pode elevar-se a uma verdadeira majestade moral.

A Montanha na qual Deus quis morar

Qual seria essa Montanha na qual quis Deus habitar para sempre, prevista pelo Salmista no Antigo Testamento, e que teria um lugar único na obra da Salvação da Humanidade?

Beatriz Alves dos Santos

Quem viveu em alto de montanha pôde, sem dúvida, contemplar variados espetáculos da natureza. Ora é o Sol nascendo, começando a colorir o dia com seus primeiros raios dourados, parecendo renovar todas as coisas; ora é o ocaso, no qual o astro rei cede o lugar à rainha da noite, a Lua, encerrando o dia com cores fortes e vibrantes, numa despedida que não é senão um “até amanhã”.

MontanhasOutras vezes, as nuvens cobrem ou enfeitam o céu formando desenhos que alimentam a imaginação dos observadores. Mais sugestiva situação talvez seja quando a névoa envolve o panorama como um manto, deixando descobertos apenas os picos dos montes, fazendo-nos evocar o belo trecho do Pequeno Ofício da Imaculada Conceição: “E cobri como névoa a Terra toda”.

Tem sua beleza também o céu inteiramente límpido — “céu de brigadeiro”, dizem os aviadores —, quando no horizonte infindo a terra e o céu se encontram, quiçá simbolizando um ósculo entre o tempo e a eternidade…

* * *

Ao longo da História, Deus escolheu o alto dos montes para Se manifestar aos homens: no Sinai, entregou a Moisés as tábuas da Lei; as Bem-Aventuranças foram ensinadas pelo Divino Mestre no “Sermão da Montanha”; para transfigurar-Se ante três de seus discípulos, Cristo elegeu o Tabor; e no Calvário ofereceu-Se ao Pai como o Cordeiro sem mancha, para a Redenção do gênero humano.

E séculos antes de vir ao mundo o Homem Deus, havia já cantado o Salmista: “Monte de Deus é o monte de Basã, monte elevado é o monte de Basã. Por que tendes inveja, montes elevados, do monte que Deus escolheu para morar? O Senhor vai morar nele sempre” (Sl 68, 16-17).

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Qual seria essa montanha na qual quis Deus habitar para sempre, prevista já no Antigo Testamento?

São Luís Grignion de Montfort, na sua famosa Oração Abrasada proclama: “Qual é, Senhor Deus de verdade, essa montanha misteriosa de que nos dizeis tantas maravilhas, senão Maria, vossa diletíssima Esposa, cuja base pusestes sobre o cimo das mais altas montanhas? Fundamenta ejus in montibus sanctis” (Sl 87, 1).

É Maria, a Mãe de Deus, esse elo entre o tempo e a eternidade, entre a pequenez do ser humano e a infinitude de Deus que n’Ela Se fez homem para comunicar aos homens sua divindade. Ensina-nos a Igreja, num lindo hino da piedade católica: “Maria mons, Maria fons, Maria pons”. Maria é a montanha (mons) de todas as virtudes, a fonte (fons) da qual seu divino Filho faz jorrar todas as graças, a ponte (pons) que permite atravessar todos os abismos.

Portanto, apesar dos defeitos e lacunas inerentes à condição humana, nada devemos considerar como motivo de aflição, pois é Nossa Senhora a mais excelsa de todas as mães. A compaixão d’Ela vale mais do que os castigos merecidos por nossos delitos; e se nossos pecados constituem um abismo, sua clemência é uma verdadeira montanha.

Habitantes de um “vale de lágrimas”, galguemos essa Montanha de misericórdia na qual Deus Se compraz maravilhosamente, certos de que por intercessão d’Ela alcançaremos a Bem-Aventurança eterna.

Experiência Mística – exclusiva dos grandes místicos?

Irmã Maria Cecília Seraidarian,EP

O termo experiência, do latim experientia, tem vários significados, porém, a maioria deles possui em comum o fato de referir-se a uma apreensão imediata de uma realidade ou de “processos internos”. Filosoficamente, experiência tem dois sentidos fundamentais: como confirmação ou possibilidade de confirmação empírica de dados e como vivência de algo “dado”, antes de qualquer reflexão ou predicação. A experiência pode, portanto, designar a apreensão de “evidências” de caráter não-natural, isto é, místicas . Neste último caso, a experiência, o fato de ter “sentido”, “provado”, é fundamental para tornar crível o testemunho de quem fala do sobrenatural, de Deus . A palavra mística, do grego mystikós (o que concerne aos mistérios), por sua vez, pode ser definida como a atividade espiritual que procura efetuar a união da alma com a divindade. O contato com o divino, para o neoplatonismo, provoca uma iluminação interior que permite conhecer o ser da realidade divina . A mística é a união da alma com o seu Primeiro Princípio.

Experiência mística seria propriamente uma experiência do divino, o encontro com o divino de pessoa a pessoa; é um “sentir” a presença de Deus, um sentir-se tocado por Ele no mais íntimo. Esse “sentir” dá a certeza de que é Deus mesmo quem fala. A mística possui um extraordinário poder revelador, prefigurando a própria visão beatífica . É distintivo da experiência mística, ademais de unir o homem ao Absoluto, uma forma de conhecimento espiritual que não se deixa apreender conceitualmente nem se traduz em palavras . Outro elemento constitutivo da experiência mística é a absoluta manifestação, a absoluta iniciativa divina, que penetra no ser humano transformando-o, ampliando seus limites, fazendo-o apreender diretamente e sem mediações a presença do Infinito .

Sao_Joao_da_cruzSão João da Cruz, ao descrever as purificações da alma nas noites escuras e a posterior luz que a invade, elevando o espírito a um sentir divino, estranho e alheio a todo modo humano, assim se expressa: “a alma virá a ter um novo senso e conhecimento divino, muito abundante e saboroso, em todas as coisas divinas e humanas, que não pode ser encerrado no sentir comum e no modo de saber natural; porque então tudo verá com olhos bem diferentes de outrora, – diferença essa tão grande, como a que vai do sentido ao espírito” . Acrescenta, ainda, que esse conhecimento místico e amoroso ilumina a vontade e, ao mesmo tempo, fere e ilustra o entendimento, infundindo certo conhecimento e luz divina, com tanta delicadeza e suavidade, que a vontade se afervora extraordinariamente .

Composto de corpo e alma, matéria e espírito, inseparáveis , o ser humano necessita das exterioridades para, através de uma ação harmônica e complementar dos sentidos e da inteligência, conhecer o mundo. Ou seja, é pelos sentidos que se dá o conhecimento natural. O conhecimento sobrenatural ou místico não tem necessidade de passar pelos sentidos, é uma comunicação direta de Deus no fundo da alma. É uma espécie de iluminação que, atuando sobre a inteligência, vontade e sensibilidade, transporta o espírito humano para uma ordem metafísica e sobrenatural. A impressão causada pela experiência do divino proporciona uma clareza especial de visão, produzindo um amor que eleva a pessoa acima do seu próprio nível e a enche do desejo de dedicação, tornando-a entusiasmada e ansiosa por entregar-se .

A duração dos fenômenos místicos pode variar; geralmente eles são muito curtos, algo à maneira de um relâmpago ou flash, entretanto, deixam na alma marcas indeléveis. Nesse sentido, Santa Teresa, tratando das manifestações da “Sacratíssima Humanidade” de Jesus Cristo, afirma: “E, embora seja com tanta presteza, que a poderíamos comparar à de um relâmpago, fica tão esculpida na imaginação esta imagem gloriosíssima, que tenho por impossível que se lhe tire até que a veja onde sempre a possa gozar” . Longe de ser uma “via extraordinária”, exclusiva dos grandes místicos experimentais, a mística faz parte da experiência transcendente comum, “ordinária”. Sem “sentir” a proximidade do Ser Absoluto – causa primeira e fim último de todas as coisas –, sem “experimentar” a possibilidade de unir-se a Ele, o ser humano ficaria abalado em sua certeza axiológica e ontológica, perderia a noção do seu próprio ser.

A estrela de Belém ainda brilha?

estrela
Bárbara Honório

“Ó sol! Sem ti as coisas não seriam senão o que elas são”, exclamava Rostan. De que valeriam aos homens as proezas dos vôos dos pássaros, os matizes dos coloridos das flores, as tonalidades diversas dos oceanos, a alvura da neve ou a vastidão de um panorama sem o sol? Ele não só ilumina essas belezas criadas, mas está em suas raízes como fonte de vida.

Aterrador seria um mundo que vivesse em uma noite constante: a escuridão é propícia aos vícios, favorece os crimes e desnorteia os homens. Em uma palavra, a ausência permanente de luz reduziria o mundo a um estado de caos terrível e desolador.

O mundo antigo, imerso nas trevas do paganismo, se revolvia em meio a essa confusão. Não lhe faltava a luz material, mas sim a luz sobrenatural da fé. As suas falsas religiões adoravam os vícios como deuses, e suas “pseudocivilizações” exaltavam com naturalidade o crime. “O mundo estava mergulhado numa prolongada e terrível noite em que reinavam a devassidão moral, o egoísmo, a crueldade, a desumanidade e a opressão” (CLA DIAS, 2010a).

Porém, nem todos eram assim. “Havia minorias inconformes com aquela situação e preparadas para receber a pregação evangélica com a avidez de náufragos que encontram a tábua da salvação” (CLÁ DIAS, 2010a). No Oriente, alguns dizem que na Pérsia, outros na Caldéia, três pequenos reis, magos e astrólogos esperavam de modo implícito perceber no firmamento algo grandioso, uma luz nova que anunciasse a renovação da face da Terra. Talvez, tivessem eles conhecimento da profecia feita por Balaão a Balac, rei de Fegor: “ Eu o vejo, mas não é para agora, percebo-o, mas não de perto: um astro sai de Jacó, um cetro levanta-se de Israel ” (Nm 24,17).

Este oráculo, pronunciado durante a longa caminhada dos judeus rumo à terra prometida, realizar-se-ia treze séculos depois numa fria noite de inverno. Vendo a luz do astro, os magos compreenderam num relance a grandeza d’Aquele que é o Sol de Justiça.

O sinal era claro: nascera o rei dos judeus. Onde? A estrela os indicaria. Ora, esta era inteiramente incomum. “Pois, nenhuma estrela”, como nos diz São João Crisóstomo, ”tem a capacidade de guiar, não só movendo-se mas inclusive fazendo sinais”(CRISOSTOMO apud SIMONETTI, 2004 p. , tradução nossa). Ademais, continuava o santo, seu brilho persistia e era visível mesmo durante o dia, propriedade que nenhuma das estrelas possui.

De que natureza era, pois, a estrela? Seria um anjo que assumira a forma de um astro? Seria um cometa? Foram várias as hipóteses levantadas ao longo dos tempos. O Doutor Angélico (S.T. III q.36 a.7) , no entanto, nos apresenta a solução dizendo tratar-se provavelmente de uma estrela nova, criada por Deus para aquela ocasião, posta na atmosfera e dirigida pela vontade divina. Donde afirmar o Papa Leão Magno (SÃO LEÃO MAGNO,apud S.T. III q.36 a.7): “Apareceu aos três magos, na região do Oriente, uma estrela de uma nova claridade, mais refulgente e mais bela do que os outros astros, que atraía os olhos e os corações dos que a olhavam, para que compreendessem imediatamente que não carecia de significação o que parecia tão insólito ”. Por sua vez diz o bispo de Hipona: “Enquanto um Deus pende dos peitos maternos e sofre ser envolvido em panos vis, de repente brilhou no céu uma nova estrela”. Reis Magos

Mas, por que essa luz totalmente sui generis é seguida apenas por três reis? Todos os povos do Oriente devem tê-la avistado, inclusive o povo eleito. Santo Inácio de Antioquia nos testemunha em sua carta aos Efesios o fulgor desta estrela: Um astro brilhou no céu, mais que todos os astros, sua luz era inenarrável e sua novidade suscitou estranheza; todas as demais estrelas por sua vez junto com o sol e a lua formaram coro em torno do astro, ele, no entanto, projetava mais luz que todos os demais “(SANTO INACIO DE ANTIOQUIA. Carta aos efesios,19,2)” Por que, então, apenas três magos, vindos de terras longínquas, empreenderam a viagem sob a sua guia? Os reis possuíam viva a chama interior da fé, a ponto de tendo visto exteriormente no céu a estrela, logo reconhecerem ser a “stellam eius” d’Aquele a quem era devida toda a adoração; de um Rei que era Deus! “Nós vimos sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo” (Mt 2,).

O povo eleito, até então único receptáculo da Revelação e da Fé, não só tomou com indiferença a estrela, como mais tarde, quando esse “Menino já adulto, deu todas as provas de ser a Bondade, a Misericórdia, de ser o próprio Deus, eles não O aceitaram e mataram-no” (CLÁ DIAS, 2010b). Não se convenceram pela estrela e nem mesmo pelos milagres.

Ora, parou de brilhar a estrela que anunciava o nascimento do Messias? O Evangelho nos diz: “E eis que e estrela, que tinham visto no oriente, os foi precedendo até chegar sobre o lugar onde estava o menino e ali parou” (Mt 2,9), no entanto, quando saíram da gruta não foi a estrela que lhes indicou o caminho para que se desviassem de Herodes, mas sim foram avisados em sonho. Provavelmente, esta estrela material já cumprira sua missão e deixara de brilhar.

Entretanto, a estrela do Salvador não desapareceu e nunca desaparecerá da História da humanidade. Seu brilho, porém, torna-se por vezes mais intenso, por vezes menos, e, é na época mais sombria que o Pai das Luzes envia a mais rutilante das estrelas. Ela brilha nos santos e mártires, reluz nos profetas e nas virgens, corusca nos fundadores. Esse lumen Christi não se apaga nunca, ele é imortal, como imortal é a Santa Igreja.

Uma entrega cheia de enlevo

Natalia Yarima García Malaver

Múltiplos e apaixonantes exemplos de chamados e conversões encontramos na História da Igreja. Porém, não foi sem razão que uma vocação tão grandiosa como a de ser Apóstolo recebesse a honra de ser designada pelo próprio Nosso Senhor Jesus Cristo.

Veremos, pois, como se deu o chamado de São Mateus, o cobrador de impostos, e que estado de espírito, à semelhança deste apóstolo, deve ter aquele que é convocado a instaurar o Reino de Deus sobre a face da Terra.

Sendo os Apóstolos convocados a uma tão alta missão era necessário, de certa maneira, que o chamado que receberam procedesse também de uma categoria superior a qualquer outra, ou seja, que fosse promovido pelo próprio Jesus. Havendo recebido o chamado, era preciso da parte dos Apóstolos uma entrega total e um “sim” categórico para, dignamente, receber tão alto título. Segundo narram os Evangelhos sinópticos, cinco foram os chamados particulares que fez Nosso Senhor, recebendo por parte dos que foram agraciados: Simão, André, Tiago, João e Mateus uma contundente resposta afirmativa.

São Marcos (1, 16-20) narra em seu Evangelho:

Passando ao longo do mar da Galileia, viu Simão e André, seu irmão, que lançavam as redes ao mar, pois eram pescadores. Jesus disse-lhes: “Vinde após mim; eu vos farei pescadores de homens”. Eles, no mesmo instante, deixaram as redes e seguiram-no. Poucos passos mais adiante, viu Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, que estavam numa barca, consertando as redes. E chamou-os logo. Eles deixaram na barca seu pai Zebedeu com os empregados e O seguiram.

“Além do desapego total dos bens temporais e de um coração elevado à Jerusalém Celeste, Jesus exige do apóstolo a ruptura completa de todos os laços que o vinculavam ao mundo” (CLÁ DIAS, 2010, p.16), referindo-se aqui, principalmente, a laços familiares e sociais, como nos diz o próprio Evangelho visto acima: “Eles deixaram na barca seu pai Zebedeu com os empregados e O seguiram” (Mc 1, 20).

Passando agora para o Evangelho de São Lucas (5, 27-28) e chegando ao ponto do qual trataremos com especial ênfase ― a conversão de São Mateus ―, encontramos: “Depois disso, Jesus saiu e viu sentado ao balcão um coletor de impostos, por nome Levi, e disse-lhe: ‘Segue-me’. Ele se levantou e, deixando tudo, seguiu-O”.É uma atitude que fica como exemplo para todas as almas que recebem um chamado divino.
Assim afirma Mons. João Clá (2010, p.16): Quando Jesus disse: ‘Vem e segue-Me’, deve-se considerar como ‘mundo dos mortos’ tudo quanto ficou para trás e não mais se interessar pelos assuntos que antes lhe preocupavam. E isto de uma forma radical”.

A esse respeito, também ensina o ilustre Padre Royo Marín (1968, p.385):

O desprendimento de todo o criado é uma das condições mais importantes para chegar à santidade. […] De fato, a alma vai se enchendo de Deus na medida e no grau em que vai se esvaziando das criaturas. São João da Cruz é inflexível em exigir um desprendimento total da alma que quer voar para Deus. Se não é assim, é semelhante a uma ave presa por um fio delicado que, por muito fino que seja, a impede de voar.

Por esta razão, explica Mons. João Clá (2005) ― com uma nuance consoladora e cheia de alegria ― que quem toma a iniciativa de dizer “Segue-me” não somos nós, mas o próprio Deus. É Nosso Senhor quem escolhe e não olha para os pecados das pessoas. Ele não veio para eliminar os pecadores. Isso quer dizer que Deus não põe como condição primeira do chamado o não ter pecados; mas, ainda que os tenha, o mais importante é não se ater a eles e entregar-se a Deus radicalmente.

Interessante comentário acerca deste ponto faz São Cirilo (apud SÃO TOMÁS DE AQUINO, Catena Aurea IV, San Lucas, c.V, v.27-32) para demonstrar como ainda tendo defeitos e debilidades, próprias à natureza humana, mereceu tamanha misericórdia:

Levi era, pois, publicano, homem avarento, intemperante em relação às coisas supérfluas, ávido pelas coisas alheias (isto é o ofício dos publicanos); mas, foi arrancado das oficinas da malícia pelo chamado de Cristo: “e disse-lhe: ‘Segue-me’”.

Com esta magnífica frase, na qual Nosso Senhor manifesta claramente sua veemência e bondade para com o pecador, compreendemos que não é por mérito próprio que Deus escolhe seus instrumentos para a salvação das almas, mas, muitas vezes, se vale de quem é mais insignificante e desprezível para operar conversões e milagres. E se a alma é generosa em seu “sim”, será grande aos olhos de Deus,entretanto, seguirá desprezível aos olhos do mundo. É próprio às almas que se abandonam nas mãos de Deus agir conforme diz São Paulo em sua carta aos Gálatas (6, 14): “Quanto a mim, não pretendo, jamais, gloriar-me, a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo”.

São João Crisóstomo (apud SÃO TOMÁS DE AQUINO, Catena Aurea IV, San Lucas, c.V, v.27-32) realça e enobrece o “sim” decisivo de São Mateus:

Pode-se ver o poder de quem chama e a obediência do chamado. Não resistiu, nem sequer vacilou, obedeceu; e não quis nem mesmo voltar para sua casa e contar a sua família o que lhe sucedera, […]; o Senhor honrou o chamado de Levi que o aceitou imediatamente; isto lhe inspirou mais confiança

Esta confiança significa, pois, aquela paz e aquele fascínio das almas que tudo deixam para seguir um ideal, vendo o que têm diante de si e o que, como penhor de uma promessa, possuirão no final de suas vidas, tomando uma resolução firme e sem vacilações.

Compreendamos agora os movimentos de alma que inundaram São Mateus para fazê-lo aceitar o chamado. O que o moveu a dar esse “sim” radical? Ensina-nos, uma vez mais, Royo Marín (1968, p.383, tradução nossa) que “a vontade ― também chamada ‘apetite racional’ ― é a faculdade pela qual buscamos o bem conhecido pelo entendimento. […] O ato próprio da vontade é o amor, ou seja, a união afetiva da vontade com o bem conhecido”. Ora, foi desta submissão da vontade do Apóstolo para com o Bem em essência que se deu a correspondência ideal. Foi, portanto, um ato de admiração cheio de amor.

Esclarece-nos, ainda, a esse respeito, o Santo Doutor Angélico, na Suma Teológica (II-II, q.23, a.7-8), afirmando que a caridade é a raiz e regra de todas as demais virtudes, sem a qual nenhuma é verdadeira virtude.

Que outro nome tem esse amor? Enlevo. “É o amor de Deus que tocou o âmago da alma, o cerne da alma, e que deu uma ideia de quem é Ele. […] Quando a pessoa tem esse enlevo, pode-se dizer: ‘está conhecendo a Deus’” (CLÁ DIAS, 2008, s.p.).

São Mateus conheceu a Deus e, por isso, O seguiu. Ele se acusa a si mesmo de ser publicano, no entanto, foi convocado para a maior das batalhas ― conquistar almas para Cristo ―, a maior das ousadias, com o mais rigoroso desapego e a mais alta audácia que um homem possa ter: seguir Jesus.