A verdade: guia terrestre para chegar à luz celeste

Ego sumEmelly Tainara Schnorr

“O que é a verdade?” (Jo 18, 38). É esta uma indagação feita por Pilatos a Nosso Senhor, e que se repetiu ao longo dos séculos diante de santos e mártires, por parte de reis e imperadores.

A natureza humana possui uma tendência profunda a procurar a verdade. “A sede de verdade está tão radicada no coração do homem que se tivesse de prescindir dela, a sua existência estaria comprometida” (JOÃO PAULO Il, Fides et Ratio, n. 29).

Segundo S. Agostinho, a verdade se apresenta e se oferece a todos os que são dotados de inteligência para contemplar as realidades. E é ela uma realidade muito mais sublime do que a nossa razão e a nossa mente.

A verdade está em nossa inteligência e vive na mente humana. “O verdadeiro e o falso não estão nas coisas, mas no intelecto” (ARISTÓTELES apud SÃO TOMÁS DE AQUINO, S.T. I, q. 16, a.1) .

Ela consiste em julgar que as coisas são o que na realidade são. “Dizer que é, o que é; e que não é, o que não é: eis a verdade” (ARISTÓTELES apud GILSON, p.476). E ainda: “Uma conformidade entre o que o espírito julga, e o que é” (GILSON, 1970, p. 258).

Já os sentidos não podem alcançar esta conformidade que há — “(…) esta conformidade os sentidos não conhece de modo algum” (SAO TOMÁS DE AQUINO, S.T. I, q. 16, a.1). A tal ponto que um animal, isento da capacidade intelectiva, não percebe o verum, não sabe que ele existe, pois “a verdade é a própria essência dos seres enquanto cognoscíveis pela inteligência” (JOVILET, 1972, p. 246).

Desta maneira, a verdade consistirá numa relação entre a coisa e o intelecto. Quando a coisa se conforma com o intelecto, denominamos verdade transcendental. “É uma relação de identidade de natureza entre uma coisa dada e um pressuposto ideal” (JOVILET, 1972, p. 246). Irreversivelmente, a verdade tornar-se-á conhecida para nós apenas quando o nosso intelecto se conformar com a coisa. “Daí resulta que conhecer tal conformidade é conhecer a verdade” (SÃO TOMÁS DE AQUINO, S.T. I, q. 16, a. 2).

Sem embargo, esta relação da coisa com o intelecto, pode ser uma relação por si (per se), quando a coisa depende do ser. Ou por acidente (per accidens), quando se refere ao intelecto pelo qual ela é cognoscível. (SAO TOMÁS DE AQUINO, S.T. I, q. 16, a. 1).

No momento em que o intelecto humano se conformar com o objeto conhecido, temos uma verdade lógica. “É uma propriedade não mais das coisas, mas da inteligência cognoscente” (JOVILET, 1972, p. 247).

Entretanto, todas as verdades existentes são destinadas a refletir uma única Verdade, que é Deus, e tão somente através do intelecto divino é que as coisas são verdadeiras. É como se fosse um vitral atravessado pelo sol, espargindo diversas cores, as verdades são cada uma destas cores, segundo o seu próprio modo de ser, todas espelhando a Verdade Suprema.

“A perfeição do intelecto é o verdadeiro enquanto conhecido” (SÃO TOMÁS DE AQUINO, S.T. I, q.16, a.1). Diz a Escolástica que a felicidade do entendimento é o repouso na contemplação da Verdade.

Ora, dissemos anteriormente que o homem sempre está a procura da verdade. Como explicar, então, que possa cair no erro e na falsidade?

A falsidade é o oposto da verdade. “O verdadeiro e o falso se opõem como contrários” (SÃO TOMÁS DE AQUINO, S.T. I, q. 17, a. 4). Ou seja, se da verdade se pode definir o que é, a falsidade consiste em afirmar “que não é o que é; ou que é o que não é” (GILSON, 1970, p. 475), sendo esta uma afirmação contraditória com a verdade. Em outro lugar: “A falsidade consiste na não-conformidade entre o conhecimento e a coisa” (SÃO TOMÁS DE AQUINO. In: Pensadores, 1996, p. 115-116).

Por exemplo, quando em um objeto aparecem externamente qualidades sensíveis as quais demonstram uma natureza que não lhe corresponde, dizemos que este objeto é falso.

A natureza humana é tão propensa à verdade que quando o homem ama algo contrário a ela, ele quer que este algo seja verdadeiro. Com isto, cai em erro, persuadindo-se de que é verdadeiro o que na realidade é falso (AGOSTINHO apud CORRÊA DE OLIVEIRA, 2002, n49, p. 30).

Monsenhor João Clá explica que o homem não pratica o mal pelo mal, assim como também não pratica o erro pelo erro. Então, ele porá aspectos de verdade ao erro que abraçou.Por conseguinte, a falsidade se inviscerará na verdade, necessitando alimentar-se dela. “Tudo o que é falso está fundado em algo verdadeiro” (SÃO TOMÁS DE AQUINO, S.T. I, q. 17, a. 4).

Destarte, contemplando a humanidade hodierna, percebemos o quanto ela se desviou do “Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14, 6), que é Nosso Senhor. Conseqüentemente, escravizou-se à falsidade, embriagando-se de todos os vícios que dela provém.

Compreendemos, então, o quanto a verdade é a nossa guia terrena e tendo-a encontrado, devemos aderir e adequar nossa vida a ela para chegarmos à morada celeste.

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