A “oitava Palavra” de Jesus

Ir. Mariana Morazzani Arráiz, EP

Barrabás, famoso ladrão e assassino, o pior criminoso que Israel conhecera, encontra- se encarcerado na Torre Antônia, em Jerusalém. Era então costume entre os judeus, por ocasião da Páscoa, conceder a liberdade a algum preso, em memória da saída dos israelitas do cativeiro no Egito. O procurador romano na Judeia, Pôncio Pilatos, propõe dois nomes para o povo escolher: Barrabás ou Jesus.

Símbolo da ilegalidade, motivo de terror para todos, cujo aprisionamento constituía o alívio e a segurança da região, o maior malfeitor da época é contraposto Àquele que perdoava os pecados, curava leprosos, cegos e paralíticos, ressuscitava mortos e andara “por toda a parte, fazendo o bem” (At 10, 38)?

Ora, qual a gratidão suscitada por tantos ensinamentos, favores e milagres? O populacho, a uma voz, prefere Barrabás…

Surpresa e pânico do bandido

Podemos conjecturar a reação do chefe da prisão ao receber a ordem do magistrado romano de liberar naquele mesmo dia o terrível bandido.

— Soltar esse homem por causa de um absurdo costume judaico? Esse criminoso vai repetir suas loucuras! Vão se arrepender… Mas, enfim, cabe-me só cumprir ordens. Vamos!

Desce até o calabouço do Pretório e introduz a chave na fechadura de uma cela. Rangendo, abre-se a porta do repugnante recinto e o carcereiro chama:

— Barrabás!

Com os cabelos desalinhados, o olhar desvairado e cheio de terror, balbucia o delinquente:

— Vou ser crucificado?!

— Não! Fora daqui! — responde o guarda com rudeza e desgosto.

— Mas… o que vão fazer comigo?

— Fora!

Saindo, trêmulo, ainda indaga:

— O que aconteceu?

— Estás livre! Vá para a rua!

— Eu, livre? Eu, que já sentia as cordas nas minhas mãos e experimentava prematuramente a asfixia da crucifixão pela qual iria morrer! Eu, solto depois de tudo o que fiz? Eu, Barrabás, homicida detestado por todo o mundo?… Vou cobrir um pouco a cabeça para não ser reconhecido na rua… Preciso me disfarçar para sair, pois podem me matar. Mas… estou livre! Será possível? Eu me apalpo e vejo que… é verdade!

Sem rumo fixo, caminha aturdido pelas ruas de Jerusalém quando, de repente, escuta não muito longínquo o lúgubre rufar de tambores:

— O que é isso? O anúncio de uma crucifixão? Estão levando alguém para o suplício!

Experimentando um calafrio de pavor, suspira:

— Poderia ter sido eu… Oh, horror!

Continua em direção à turbamulta, que está quase chegando no Monte Calvário. Ao se aproximar, percebe a identidade do condenado: é Jesus de Nazaré… e vai ser crucificado!

A “oitava Palavra”

Se uma graça fulgurante de arrependimento rasgasse a sordidez de sua alma endurecida e nela penetrasse, Barrabás, cheio de compunção, ter-se-ia lançado aos pés de Nosso Senhor Jesus Cristo, já deitado sobre o madeiro da Cruz.

Nesse momento, o Divino Redentor estaria experimentando em suas divinas mãos e adoráveis pés as inenarráveis dores ocasionadas pela perfuração dos pregos. Mas isso não O impediria de pousar seu sacratíssimo olhar na figura horrenda daquele a quem a perfídia dos homens tinha preferido a Ele, Jesus, o Filho de Deus, a Beleza Infinita.

Sob o influxo de tal graça, o criminoso, ajoelhado, diria:

— Senhor, eu deveria estar sendo crucificado e não Vós! Vós ireis morrer por mim quando sou eu, infame, merecedor desse castigo por meus pecados! Senhor, perdão por tanta maldade! Senhor, eu me arrependo, detesto meus crimes e quero me assemelhar a Vós!

E o Salvador teria pronunciado aí a primeira das Palavras, que não mais seriam sete, como registram os Evangelhos, mas oito; de seus divinos lábios brotaria esta manifestação de poder, bondade e amor infinitos:

— Meu filho, vá porque teus pecados estão perdoados! Vá porque soubeste aceitar as graças de penitência e de arrependimento que Eu mesmo para ti suscitei! Vá e não peques mais!

Somos também “barrabases”

A História não conta qual foi o destino de Barrabás uma vez fora da prisão. Ignoramos se continuou na esteira dos crimes e desvarios que o caracterizavam, enchendo novamente de sobressalto e pavor o povo que clamara por sua libertação, ou se houve uma conversão semelhante à que acabamos de imaginar.

Uma coisa é certa: a cada ano, na liturgia da Semana Santa, ao ser mencionado o nome do bandido na leitura da Paixão segundo São João, vibram os corações e ardem em desejos de vingar e reparar tamanha ignomínia.

É justo, porém, descarregarmos toda a nossa ira sobre o terrível criminoso, esquecendo que fomos nós também “barrabases” em algum momento da vida? Não ofendemos brutalmente o Coração de Jesus ao cometer um pecado ou ao apegar- -nos a um vício? E não agimos como o povo judeu escolhendo o famoso malfeitor, ao trocar a obediência aos Mandamentos por uma transgressão grave e voluntária à Lei?

Se alguma vez pecamos gravemente contra algum Mandamento da Lei de Deus, somos comparáveis a Barrabás e àqueles que o preferiram a Jesus! Deveríamos estar sendo crucificados, quando é Ele, ao contrário, que sofre por nós! Que terrível verdade: ao pecar, prefiro Barrabás como meu amigo e crucifico a Jesus em minha alma!

Em vista disso, o que farei? Formular essa pergunta é fruto de uma graça que parte de Jesus em direção a mim. Diante dela só cabe uma súplica à Mãe do perdão e da divina graça, cujos rogos me obtiveram esse benefício:

“Oh, Virgem Santíssima, minha Mãe, dai-me a convicção de que só existem dois caminhos: um é o de Barrabás e outro, o de Jesus.

“Quando vosso Divino Filho voltar no fim dos tempos para exercer o julgamento de todos os homens, reunidos no Vale de Josafá e não mais no Pretório de Pilatos, a humanidade estará dividida entre os que O quiseram crucificar e se entregaram ao pecado, e aqueles que aceitaram o convite de seu divino e arrebatador olhar, e quiseram viver sempre na sua graça e na prática da virtude.

“Pelos méritos infinitos da Paixão, fazei que eu esteja entre estes últimos!

“E se tiver a desgraça de Vos ofender, que eu me aproxime, com toda pressa, do Sacramento da Penitência e possa, arrependido e humilhado, ouvir aquela ‘oitava Palavra’ dirigida ao hipotético Barrabás convertido: ‘Vá, meu filho, minha filha, teus pecados estão perdoados!'”.

Adaptação da palestra pronunciada por Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP, em 27/5/1990 – Revista Arautos do Evangelho, Março-2015

Silêncio: somente para os religiosos?

Ir. Denise Maria Paschoal Rocha

2º ano de Ciências Religiosas

Em determinado mosteiro, duas freiras eram muito amigas uma da outra, mas… não eram muito amigas da perfeição: sempre quebravam o silêncio durante o Oficio. Seguindo o costume do convento, cada irmã possuía um lugar fixo nas estalas do coro. As duas religiosas sentavam-se próximas uma da outra e, pelo menor pretexto, começavam a falar…

Certo dia, uma delas morreu. Quando foram cantar o Ofício na manhã seguinte, depois do enterro, qual não foi a surpresa da amiga ao ver que o lugar da falecida não estava vazio, mas ocupado pela própria defunta! Assustada, foi contar à Madre. Esta lhe ordenou que, se visse a tal irmã outra vez, lhe perguntasse se estava precisando de orações ou de alguma outra coisa.

No dia seguinte, a alma da irmã falecida novamente apareceu na hora do Oficio, e a amiga lhe perguntou o que fazia ali. Ela lhe respondeu: “Estou aqui para purgar os meus pecados. Nós conversávamos durante o Oficio, quebrando o silêncio e perturbando o cerimonial. Eu deveria ter empregado esse tempo para conversar com Nossa Senhora!”

E nós, quantas e quantas vezes não conservamos um recolhido silêncio nas igrejas e capelas? Lembremo-nos: cumprir os momentos de silêncio é uma forma de educar a alma, além de nos abrir o coração para as grandes conversas com Deus.

Como nos ensinou Plinio Corrêa de Oliveira: “O silêncio é uma espécie de câmara obscura, na qual se vai procurar as joias daquilo que se pensou, daquilo que se sentiu, para depois dizer a palavra acertada, a palavra que tem carga, que tem amor, tem afeto e entusiasmo”.

Beleza quase paradisíaca

Ir. Allana Neves Colati, EP

Dentre as distintas paisagens criadas por Deus e espalhadas pelo mundo, há algumas que nos enchem de admiração. Como não se encantar com as águas, ora azuis, ora verdes, dos mares tropicais? Ou com o níveo manto que recobre as regiões mais frias do planeta? Mas quiçá seja o outono nos bosques do Hemisfério Norte um dos mais extraordinários espetáculos que a natureza nos pode oferecer.

Nesta estação do ano, a temperatura começa a descer, tornando o bosque mais calmo e silencioso. Aproxima-se o inverno, sempre rigoroso naquelas regiões, mas, paradoxalmente, a fascinante coloração que tomam as folhas das árvores nesta época reveste a paisagem com um manto de vitalidade.

Elas têm diferentes formatos, tamanhos e tonalidades: algumas suavemente rosadas, outras, intensamente rubras ou resplandecentes como ouro. E compõem um lindo conjunto, que adquire cores muito variadas segundo o local, a perspectiva ou a iluminação do dia.

Tão maravilhosa cena, porém, não dura muito… Logo as folhas que irradiavam aquele glorioso esplendor são levadas ao léu por uma súbita rajada de vento ou secam e caem, para depois – como tudo na vida – desaparecerem.

Se no auge de sua magnificência uma dessas árvores, carregada de estupenda folhagem, fosse capaz de pensar, ao sentir uma brisa intensa e rápida a sacudir-lhe os ramos, poderia se perguntar:

– Será sinal da tempestade que se aproxima?

O vento frio, ainda suave, indica que a frágil vida das formosas folhinhas outonais está chegando ao fim… Em pouco tempo ele se transforma em uma forte ventania, que agita a árvore, sem interrupção, durante vários minutos.

Inicia-se, então, a segunda etapa do espetáculo, que já não tem mais por cenário as alturas admiráveis dos galhos, mas o prosaico solo. Ali aquelas folhas de feéricas cores, desligadas do tronco que as alimentava e as mantinha com vida, ornam nobremente a grama, compondo sobre ela um tapete de singular colorido. Dir-se-ia que elas aproveitam seus últimos haustos de vida para concluir a missão que Deus lhes dera: irradiar, no fim de sua existência, uma forma de beleza quase paradisíaca que, sob certo aspecto, supera à da primavera.

Revista Arautos do Evangelho, Abril 2015

Fonte de riqueza para a Igreja

Ir. Michelle Sangy,EP

Conta-se um fato curioso da vida de São Francisco Xavier que, encontrando-se nas longínquas terras das Índias, recém-chegado de Portugal, iniciou sua missão apostólica entre este povo completamente desconhecido para ele. À medida que o tempo passava, São Francisco descobria a mentalidade e o modo de ser dos orientais, encontrando neles grandes habilidades que muito poderiam contribuir para a glorificação e expansão do Cristianismo naquelas paragens.

Em uma de suas atividades apostólicas, deparou-se pela primeira vez com um grupo de pessoas provindas do Japão, encantando-se , sobretudo, com a grande sabedoria desta gente. Nesta ocasião, São Francisco, como um bom filho de Santo Inácio, não tardou a usar sua esperteza para tentar, através destes japoneses, expandir, de alguma forma, o seu apostolado. Suplicou então a eles que fizessem chegar ao Rei um pedido de sua parte: uma autorização para evangelizar o Japão.

Ora, a realização de sua ideia não foi tão fácil quanto pensara. Após várias tentativas de um encontro com o monarca, que resultaram frustradas, cogitou o seguinte: conhecendo a apetência dos japoneses por tudo o que há de beleza, tentaria, de alguma maneira, apresentar-se diante do Rei, vestindo as suntuosas vestes daquela nação. Desta forma, poderia conseguir mais facilmente a estima do monarca, reluzindo aos seus olhos como alguém de valor.

De fato, assim foi feito! Em uma das cerimônias realizadas no palácio real, São Francisco conseguiu se apresentar diante do monarca, levando consigo mais vinte e nove portugueses, todos vestidos com trajes de gala.

Chegando ao palácio, São Francisco organizou uma entrada em cortejo com um quadro de Nossa Senhora, desejando que a Virgem Santíssima, com suas graças, começasse naquele instante a tocar as almas. Em poucos minutos, São Francisco estava diante do monarca pagão. Ele e seus companheiros o saudaram com grandes vênias e,em seguida, o apóstolo pronunciou um discurso, espargindo o bom odor de Nosso Senhor Jesus Cristo perante todos. Diante de tanta beleza, pompa e, sobretudo, vendo de perto a magnificência do espírito católico naqueles trinta ocidentais, o monarca comoveu-se e tornou realidade o sonho de São Francisco de evangelizar e converter o Japão.

Este fato, acontecido no Japão do séc. XVI, bem pode representar a atuação do cerimonial na História. Deus criou os homens com uma natureza que constantemente O busca na Criação. Tal como os japoneses conhecidos por São Francisco, frequentemente, o ser humano cria símbolos, ritos e cerimônias para transpor, de forma material, aquela sede do Divino posta em sua alma.

Assim, por disposição divina, a humanidade foi chamada a refletir o próprio Deus na esfera temporal, seja nos seus atos, seja em suas obras, em qualquer época da História, procurando sobretudo em Deus o seu modelo perfeito. De fato, a glória de Deus é o fim último de todas as coisas, e, compete sobretudo aos seres inteligentes, mediante o reto uso de seu livre-arbítrio, oferecer um louvor voluntário ao seu Criador.

Entretanto, ao longo dos séculos os homens voltaram-se para si, esqueceram-se de seu Criador e decaíram tanto a ponto de se tornarem os neopagãos do século XXI.

Mas Deus não abandona os seus filhos e, para trazê-los novamente a Si, suscita, na Igreja, instituições que, através da beleza, sobretudo presente nas cerimônias, despertam neles ― como já havia feito com os de outrora ― o senso do maravilhoso adormecido em suas almas, inclusive convidando muitos deles a servirem de forma especial como instrumentos para a implantação do Reino do Imaculado Coração de Maria, que não é senão o próprio Reino de Cristo, na Terra.

Fazer tudo com espírito sobrenatural

Ir. Ariane Heringer Tavares, EP

Quem se dispõe verdadeiramente a seguir os passos de Nosso Senhor Jesus Cristo, não caminha, mas voa nas vias da virtude. E justamente por isso, faz de sua vida um contínuo sacrifício de louvor, desejando antecipar cada vez mais o dia em que o convívio com a Santíssima Trindade será eterno. A vida dos santos nos dá prova que, independentemente da vocação à qual foram chamados, ao longo de sua caminhada neste vale de lágrimas, não sabem senão falar com Deus ou de Deus para todos os que os rodeiam.

Santa Teresinha do Menino Jesus, como mestra de noviças no Carmelo de Lisieux, tinha um profundo zelo pela boa formação de suas subalternas, não perdendo nenhuma ocasião de dar-lhes algum ensinamento por meio de palavras e, principalmente, de exemplos. Certa vez em que a comunidade se ocupava com a lavagem das roupas, tocou o sino que indicava o término das funções e convidava todas à oração. Porém, como ainda faltasse muito por ser feito, a superiora julgou conveniente prolongar os trabalhos por mais algum tempo. Santa Teresinha, então, observando que uma das noviças trabalhava com especial ardor, aproximou-se dela e perguntou: “‘Que estais fazendo?’ ‘Eu lavo’, respondeu ela. ‘Está bem, mas interiormente deveis fazer oração; este tempo é do Bom Deus, não temos o direito de tomá-lo’”. 1

Este fato mostra claramente como uma alma verdadeiramente contemplativa pode, mesmo em meio às atividades mais corriqueiras do dia-a-dia, estar em contínua comunicação com Deus, rendendo-Lhe glória. É o que se passava em grau eminente com a Santíssima Virgem, que ao girar, por exemplo, a maçaneta de uma porta, dava mais glória a Deus do que muitos outros santos no momento de seu martírio.2

Tal vigor de alma não pode ser concebido sem se tomar em consideração a vida sobrenatural. O papel da graça consiste exatamente em iluminar a inteligência, em robustecer a vontade e em temperar a sensibilidade de maneira que se voltem para o bem. De sorte que a alma lucra incomensuravelmente com a vida sobrenatural, que a eleva acima das misérias da natureza decaída, e do próprio nível da natureza humana.3

É o que também se passava inúmeras vezes com outra Santa Teresa, a grande reformadora do Carmelo, que, apesar de suas frequentes viagens e trabalhos relativos à fundação de novos conventos, nutria uma intensa vida interior, que era a alma de todo o seu agir. Um dia, preparava ela deliciosas e frescas panquecas que seriam servidas no almoço do convento. Enquanto as fritava, seus pensamentos se elevaram a tão alto patamar que, de repente, viu-se objeto de um êxtase que a deixou transfigurada e extremamente luminosa. O mais interessante foi que, mesmo durante uma tão intensa comunicação sobrenatural, nenhuma panqueca se queimou. Pelo contrário, acabaram ficando ainda mais perfeitas e suculentas. Esse é um “belo símbolo do equilíbrio entre a contemplação e a ação. Quem deseja fazer boas ‘panquecas’ em matéria de apostolado, reze fervorosamente; se orar, o apostolado dará bons frutos; sem oração, os frutos serão menores ou nulos”. 4

Há, porém, da parte de alguns, uma desculpa frequentemente utilizada para deixar de lado o recolhimento: a famosa falta de tempo ou o excesso de ocupações, que preenchem os horizontes do homem, sobretudo na sociedade contemporânea.

Conta-se que Dom Chautard,5 um ilustre monge trapista, autor de “A Alma de todo apostolado”, certa vez foi abordado pelo primeiro ministro da França, Benjamin Clemenceau,6 que o indagou a respeito de como conseguia encontrar tempo para fazer tanta coisa. O religioso, com muita simplicidade, respondeu: “Acrescente às minhas ocupações diárias a celebração da Missa, a leitura do breviário, outras tantas práticas de vida de piedade, e então sobra tempo para as demais atividades”.7 A resposta impressionou profundamente o primeiro ministro, que não imaginava que o fato de acrescentar atos de piedade aos afazeres diários poderia fazer sobrar mais tempo para estes.

É, portanto, um “erro funesto pensar que o espírito prático é o oposto do contemplativo, gerando a falsa ideia de que a piedade de uma pessoa realizadora e dinâmica deve diminuir na proporção de suas obras, e que o tempo por ela dedicado à oração prejudica seus empreendimentos”.8

1 SANTA TERESA DE LISIEUX. Conselhos e lembranças. 4. ed. Trad. Carmelitas Descalças do Carmelo do Imaculado Coração de Maria e Santa Teresinha. São Paulo: Paulus, 1984, p. 71.
2 Cf. SÃO LUÍS MARIA GRIGNON DE MONTFORT . traité de la vraie dévotion à la Sainte Vierge, n. 222. In: Œuvres Complètes. Paris: Du Seil, 1996, p. 638.
3 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Revolução e Contra-Revolução.5.ed.São Paulo: Retornarei, 2002 p.131.
4 Id. Santa Teresa: alma de rara grandeza. In: Dr. Plinio. São Paulo: ano IX, n. 103, out. 2006, p. 29.
5 Jean-Baptiste Chautard (*1858 – †1935), cisterciense trapista, abade do mosteiro de Sept-Fons (França).
6 Jorge Benjamin Eugênio Clemenceau. Político, escritor e médico francês. (*1841 – †1911).
7 CHAUTARD, Jean-Baptiste apud CORRÊA DE OLIVEIRA. Santa Teresa: alma de rara grandeza. Op.cit. p. 28.
8 CORRÊA DE OLIVEIRA. Santa Teresa: alma de rara grandeza .5.ed.São Paulo: Retornarei, 2002 p. 28.

A misericórdia atraiu o maior milagre da História

Ir. Mariana de Oliveira, EP

Após o pecado original, a humanidade havia contraído uma dívida com o Criador. Normalmente, quando alguém deve determinada quantia a outrem, paga-lhe exatamente o débito ou, às vezes, devolve-lhe com juros. Porém, como poderia o homem, finito como é, satisfazer o Infinito? Só mesmo alguém Infinito poderia oferecer, com idêntica dignidade, a paga ao Deus infinito, em lugar dos homens finitos: este foi precisamente o motivo da Encarnação de Jesus Cristo. 1

Entretanto, consideremos um pouco a amplitude de tal satisfação, que manifesta um grande amor de Deus para conosco e um reflexo tão alto do poder divino que escapa completamente tanto à cogitação humana quanto à angélica, 2 pois, “[…] ao Se encarnar no seio puríssimo de Maria, Nosso Senhor fez o milagre negativo de assumir um corpo padecente”. 3 Eis o mistério que pasma toda criatura: Ele veio à nossa humanidade, sem deixar a divindade, para ser imolado no Sagrado Madeiro e, assim, comprar e reatar nossa amizade com Deus!

De fato, milagre é aquilo que faz Deus, cuja causa nos é oculta. 4 Muitas vezes, é a transformação de algo pequeno, ou até insignificante, em obra de grande valor. Por exemplo, ninguém prestava muita atenção no coxo que ficava à Porta Formosa do Templo pedindo esmolas (cf. At 3, 1-2). Supomos que as pessoas deviam, de vez em quando, se compadecer e dar-lhe algum óbolo. Mas, poucos anos depois de sua morte, quem se lembraria dele? Decerto, a História não conheceria jamais sua existência se um dia não tivesse sido alvo do retumbante milagre de voltar a andar, pela virtude do nome de Jesus (cf. At 3, 6-9). Digamos ter sido este um milagre “positivo”. Mas que seria fazer um milagre “negativo”? Seria como se o mesmo coxo fosse um homem atlético, ativo e de muito bom porte físico e, certo dia, um dos Apóstolos, olhando bem para ele, ordenasse o “milagre” de instantaneamente ficar deficiente. Chamaríamos isto de desgraça, pois é algo negativo, e nunca de prodígio.

Ora, Nosso Senhor Jesus Cristo quis assumir sobre Si, por sua misericórdia infinita, as deficiências corporais da natureza humana 5 e assim lavar-nos da infelicidade do pecado. Paradoxo maior não há, por ser Ele o Inocente! É o que a Deus aprouve fazer por nós: “Se encarnou pela nossa salvação” (Dz 40), “realizando um milagre contra Si mesmo, pois preferiu tomar um corpo padecente”, 6 Aquele que pela sua vida na glória não podia padecer!

O que a misericórdia do Todo-Poderoso não é capaz de fazer! Quanto poder! Muitos milagres na História já houve, sempre para melhor; porém, para o ínfimo, e não para com outros, mas para consigo mesmo, só Um teve coragem de fazer, com o fim de resgatar os que Ele ama.

A humildade foi assumida pela Majestade, a fraqueza, pela Força, a mortalidade, pela Eternidade. Para saldar a dívida de nossa condição humana, a natureza impassível uniu-se à natureza passível. […] Assumiu a condição de escravo, sem mancha de pecado, engrandecendo o humano, sem diminuir o divino. Porque o aniquilamento, pelo qual o invisível se tornou visível, e o Criador de tudo quis ser um dos mortais, foi uma condescendência de sua misericórdia, não uma falha do seu poder. […] Entrou, portanto, o Filho neste mundo tão pequeno, descendo do trono celeste, mas sem deixar a glória do Pai; é gerado e nasce de modo totalmente novo. De modo novo porque, sendo invisível em si mesmo, torna-se visível como nós; incompreensível, quis ser compreendido; existindo antes dos tempos, começou a existir no tempo. O senhor do universo assume a condição de escravo, envolvendo em sombra a imensidão de sua majestade; o Deus impassível não recusou ser homem passível, o imortal submeteu-se às leis da morte. […] Contudo, nem Deus sofre mudança com esta condescendência da sua misericórdia nem o homem é destruído com sua elevação a tão alta dignidade. 7

1 Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica III, q. 1, a.2, ad 2.
2 Cf. CLÁ DIAS, João Scognamiglio. A fé de Pedro, fundamento do Papado. In: O inédito sobre os Evangelhos. Comentários aos Evangelhos dominicais do Tempo Comum. Ano A. Città del Vaticano-São Paulo: LEV; Lumen Sapientiae, 2013, v. II, p. 291.
3 Ibid. p. 292.
4 Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Op. cit. I, q.105, a.7.
5 Cf. Ibid. III, q.5, a.3
6 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O triunfo, a cruz e a glória. In: O inédito sobre os Evangelhos. Comentários aos Evangelhos dominicais. Advento, Natal, Quaresma e Páscoa. Solenidades do Senhor que ocorrem no Tempo Comum. Ano A. Città del Vaticano-São Paulo: LEV; Lumen Sapientiae, 2013, v. I, p. 259.
7 SÃO LEÃO MAGNO. Cartas. In: COMISSÃO EPISCOPAL DE TEXTOS LITÚRGICOS. Liturgia das Horas. Op. cit. v. II, p. 1506-1507.

À espera de um pedido

Ir. Ana Rafaela Maragno, EP

Apesar de tão numerosos favores concedidos pela Providência, Adão, enganado pela astuta serpente pecou acarretando para si a perda de todos os privilégios sobrenaturais com os quais Deus o havia cumulado. Expulso de seu reino e arrancada de sua fronte a coroa dos dons preternaturais, passou a viver na contingência de sua natureza formada do barro. Ecoava-lhe ainda aos ouvidos a sentença divina:

[…] maldita seja a terra por tua causa. Tirarás dela com trabalhos penosos o teu sustento todos os dias de tua vida. Ela te produzirá espinhos e abrolhos, e tu comerás a erva da terra. Comerás o teu pão com o suor do teu rosto até que voltes à terra da qual foste tirado; porque és pó, e ao pó te hás de tornar (Gn 3, 17-19).

Iniciou-se uma nova fase para Adão, caracterizada pela experiência das suas debilidades e fraquezas, consequência do seu pecado. E, agora, se encontravam irremediavelmente fechadas para ele as portas daquele jardim de delícias do qual fora expulso. Será que o relacionamento com seu Criador estava cortado para todo o sempre? Não haveria um meio de encontrar-se com Ele e de falar-lhe?

Esse grande meio Deus lho proporcionou através da oração. “Ela é o diálogo do homem com Deus” 1 . Por meio dela Adão e os seus filhos supririam em si aquelas saudades imensas do paraíso, diminuiriam a distância entre Criador e criatura, proporcionando a possibilidade de se aproximar, de falar e de conviver com Deus e conquistariam o Céu que lhes fora prometido.

A oração tem o poder de abrir os tesouros de Deus e atrair sobre o orante as chuvas das bênçãos divinas. Tanto agrada a Deus a prece sincera e confiante que, por vezes, Ele tarda em atender, a fim de que a alma, crescendo no desejo, redobre a insistência de seus pedidos e seja coroada de méritos.

Tendo o Filho de Deus vindo ao mundo, ensinou ao homem a importância da oração e incutiu-lhe a confiança nela, quer por meio de parábolas, quer, sobretudo, através de seu Divino exemplo, desdobrando-se em solicitude, desvelo e amor sobre todos aqueles que d’Ele requereram algum favor. Não houve ninguém que saísse de sua presença com as mãos vazias…

Esse mesmo Jesus que a todos atendeu com solicitude, não partiu para o Céu de maneira definitiva e irremediável, mas quis permanecer na Terra, convivendo entre os homens. “Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo!” (Mt 28, 20).

Ele encontra-Se em todos os sacrários do mundo, sob o véu das espécies eucarísticas, à espera de nossa visita, pronto para ouvir nossas súplicas. Feito Homem como nós e tendo experimentado a nossa fraqueza, conhece tudo aquilo de que carecemos e sabe compadecer-se de nossas misérias.

Como outrora pelas estradas da Galiléia ou sob os pórticos do Templo de Jerusalém, Jesus detém-se ante o triste espetáculo da lepra espiritual que corrói as almas ou da cegueira que as mantêm longe de seu amor. Contudo, seu olhar misericordioso abrange a todos num infinito desejo de perdoar, inclinando-se sobre cada um de seus filhos, com ternura de pai e benquerença de irmão, para cumulá-los de dons e atendê-los em seus anseios. Está apenas à espera de um pedido, de uma súplica, de um simples suspiro a Ele dirigido, para cumprir sua irrevogável promessa: “Qualquer coisa que me pedirdes em Meu nome, vo-lo farei” (Jo 14, 14).

1“Es el dialogo del hombre con Dios” (SÃO JOÃO CLÍMACO. In: LOARTE, José Antonio. El tesoro de los Padres: Selección de textos de los Santos Padres para el Cristiano del tercer milenio. Madrid: Rialp, 1998. p. 345.

Considerai os lírios do campo…

Ana Ximena del Rosario Fernández Granados

Qualquer um dos seres criados, ao ser mencionado pelos divinos lábios do Salvador, passou a desfrutar de uma especial distinção e grandeza.

Quem ousaria dizer que houve, em toda a história, orador mais hábil e envolvente que Nosso Senhor Jesus Cristo? Isto, sem mencionar o aspecto da graça, que foge a qualquer termo possível de comparação.

Nos três anos de sua vida pública, Ele procurou, em Suas parábolas, usar figuras comuns e acessíveis às pessoas de então. Entre Seus ouvintes, misturavam-se fariseus, romanos, pescadores e camponeses. Pessoas cosmopolitas como os habitantes de Jerusalém, ou acanhados e simples, como os galileus do norte de Israel. Ricos comerciantes, ou paupérrimos pedintes das portas do Templo.

Falando a um público tão heterogêneo, como atingir a todos? Para se fazer entender, ora usava, o Divino Mestre, exemplos de ofícios como o de pescador, lavrador e soldado; ora recorria aos pequenos problemas comerciais ou domésticos, mencionando juros, dívidas e falências, questões sempre familiares a toda gente.

Também empregava as figuras dos animais: a águia, a pomba, a serpente e até a trivial galinha entraram em cena nas parábolas evangélicas. E por fim, o reino vegetal se apresentou, nas palavras do Salvador: a figueira estéril foi condenada, as uvas e as vinhas apareceram diversas vezes, e a expressão “pelos frutos conhecereis a árvore” (cf. Mt 12, 33) tornou-se tão corrente que até ateus a empregam hoje.

E são justamente as simples plantas que oferecem um dos mais belos e poéticos trechos das Escrituras, no sexto capítulo de São Mateus:

“Considerai como crescem os lírios do campo; não trabalham nem fiam. Entretanto, eu vos digo que o próprio Salomão no auge de sua glória não se vestiu como um deles” (Mt 6, 28-30 Lc 12, 27-31).

Se Deus veste assim a erva dos campos, que hoje cresce e amanhã será lançada ao fogo, quanto mais a vós, homens de pouca fé? Não vos aflijais, nem digais: Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos?

São os pagãos que se preocupam com tudo isso. Ora, vosso Pai celeste sabe que necessitais de tudo isso. “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo” (Mt 6, 33)

Qualquer um dos seres criados, ao ser mencionado pelos divinos lábios do Salvador, passou a desfrutar de uma especial distinção e grandeza. As raposas eram diferente até Ele ter dito: “As raposas têm suas tocas … mas o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça” (Mt 8, 20). Depois disso, passaram a ser outras.

Também as flores em geral — e os lírios em particular — ficaram engrandecidos pela menção que lhes fez Nosso Senhor. Depois daquele dia, num campo da Judéia, ficará difícil a uma pessoa de fé contemplar a beleza das flores sem se lembrar do Reino de Deus.

Abade, pai e mestre no século XX

Irmã Carmela Werner Ferreira, EP

Beato Columba Marmion

O peregrino que se proponha conhecer as origens cristãs do Velho Continente não pode deixar de visitar a gruta de Subiaco, local escolhido pelo jovem Bento de Núrsia para consumar sua entrega a Deus, abandonando a vida de estudos que até então levava na Roma dos retóricos e literatos. E os que hoje trilham seus passos sentem uma forte atração pelo local, marcado misteriosamente pela presença do santo Patriarca e Patrono da Europa.

Enquanto se sobe pelos íngremes caminhos que conduzem ao mosteiro — exercício desde logo recompensado pelo belíssimo panorama —, o visitante pode discernir, se não através de voz humana, certamente pela da graça, aquele chamado do varão de Deus que atraiu legiões de almas à vida monástica: “Escuta, filho meu, os preceitos do mestre, e inclina o ouvido do teu coração. Recebe de bom grado o conselho de um bom pai, e cumpre-o eficazmente, para que, pelo trabalho da obediência, voltes Àquele de Quem te havias afastado”. 1

Ao atento observador não passarão despercebidas algumas árvores que adornam o caminho, as quais bem simbolizam a história desta instituição. São vegetais de inacreditável robustez, cujas raízes se embrenharam pelo solo pedregoso e lograram subsistir em condições desfavoráveis. Enfrentaram os ventos das intempéries e os da História, mantendo-se eretas apesar das adversidades, e ostentando uma vitalidade que desperta surpresa e admiração.

Assim é a Ordem Beneditina. Nascida da vocação de São Bento, conta ela hoje quase 1.500 anos de existência. Atravessou todas as catástrofes, venceu as rudezas das guerras e as deficiências dos homens, e olha sobranceira para um passado que lhe valeu uma legião de filhos canonizados e dezesseis Papas saídos do silêncio de seus claustros. Dezesseis também foram os sucessores de São Pedro que se colocaram sob a proteção deste santo fundador — curiosamente, nenhum deles foi beneditino —, entre os quais nosso atual Romano Pontífice, Bento XVI.

Se a Europa cristã deve, em larga medida, a esta Ordem seu itinerário de conversão e civilização, também o século XX, palco de acontecimentos que mudaram os rumos da humanidade, recebeu a ação benéfica dela emanada, por meio de uma figura talvez pouco conhecida: o Beato Columba Marmion.

O menino vestido de negro

Nasceu ele em Dublin, Irlanda, a 1 de abril de 1858, no seio de uma família de sólida formação católica. Sendo de frágil compleição, seus pais, William Marmion e Herminie Cordier, se apressaram em conduzilo à fonte batismal, dando-lhe o nome de José.

Criança de privilegiada inteligência e equilíbrio temperamental, parecia externar sob todos os aspectos uma vocação sacerdotal, embora não dispensasse os entretenimentos próprios à idade. Observando estes sinais, os pais tomaram uma singular decisão: vesti-lo sempre de negro, prevendo o hábito eclesiástico que um dia haveria de tomar.

Explicaram-lhe que procediam assim porque seria sacerdote. Mas o menino pareceu não se importar muito com isso. Estava mais interessado em escalar árvores e capturar borboletas. Enquanto os irmãozinhos trajavam alegres e coloridas vestimentas, segundo o gosto irlandês, José se distinguia por sua escura roupagem que, de fato, um dia trocaria pela batina.

Sacerdote aos 23 anos

Dentre os seis filhos daquele lar cristão, quatro foram agraciados pela vocação religiosa. Três irmãs de José seguiram a vida consagrada e ele próprio, após realizar com êxito promissor os primeiros estudos, ingressou no seminário diocesano de Dublin.

Junto aos oitenta jovens que ali almejavam o estado de perfeição, Marmion iniciou uma trajetória luminosa, assinalada desde os primórdios por uma avidez teológica e ardente piedade, o que faria um colega seminarista testemunhar: “Ele era um jovem santo e cheio de ideias”. 2

O aproveitamento nos estudos fez seus superiores depositarem nele as melhores esperanças. Enviaram-no a Roma, onde estudou no Pontifício Colégio Irlandês e, em seguida, no Propaganda Fide. Neste último, distinguiu-se em todas as matérias, e sob a égide do futuro Cardeal Francesco Satolli tornou-se um tomista de escol. Os ensinamentos do Doutor Angélico beneficiaram decisivamente sua vida espiritual, pois dele aprendeu a nunca dissociar da vida de santidade o conhecimento doutrinário, tal como ensinaria mais tarde a seus monges:

“Um raio de luz do alto é mais eficaz do que todos os raciocínios humanos”. 3

Esse progresso fê-lo caminhar a passos rápidos para a ordenação. Em 16 de abril de 1881 recebeu o diaconato, e a 16 de junho do mesmo ano foi ordenado sacerdote na igreja romana de Santa Ágata dos Godos. Contava, na ocasião, 23 anos.

A pedido de seu Bispo, logo retornou para a Irlanda levando na alma mil propósitos salutares, algumas incógnitas, e um antigo sonho: ser missionário na Austrália.

Sua alma permanecia insatisfeita

De volta à pátria, padre Marmion foi designado pároco no vilarejo de Dundrum, ofício ao qual se entregou de corpo e alma. Por pouco tempo, porém, pois ao cabo de um ano, foi chamado pelo Bispo de Dublin para lecionar no Seminário maior de Clonliffe.

Nesses primeiros tempos de sacerdócio sua alma, contudo, permanecia insatisfeita. Encontrava-se como acéfalo em seu percurso espiritual. Sentia precisar de um mestre que o guiasse para a Pátria celeste. Uma pergunta rodava em seus pensamentos: não estaria chamado à vida religiosa, ao invés de integrar o clero secular? E a continua lembrança de um encontro que o marcara a fundo acabaria por pesar, em definitivo, neste caudal de incertezas, conduzindo-o para o claustro.

Encontro com o carisma beneditino

Tal encontro dera-se no mês de julho de 1881, quando o jovem presbítero retornava de Roma com o coração ainda acalentado pelas graças da ordenação. A fim de visitar um amigo do seminário que se fizera beneditino em Maredsous, na Bélgica, alterou o percurso de volta e, na noite do dia 23, apresentou-se nessa abadia, onde o irmão porteiro o recebeu com a hospitalidade característica da Ordem.

A abadia de Maredsous constitui, por si só, um espetáculo consolador para qualquer católico. Quando o padre Marmion a conheceu, nela viviam 130 monges, segundo o mais puro espírito da fundação. A igreja, centro da vida comunitária, ergue-se no alto de uma montanha, em grandioso estilo neogótico, parecendo simbolizar, ela mesma, o voto de estabilidade feito pelos membros da Ordem.

Emoldurado por árvores — que quase ousaríamos qualificar como “disciplinadas” e “monacais” —, o templo sagrado se desdobra num conjunto arquitetônico imponente, no qual transparece um equilíbrio perfeito entre o rigor e a suavidade, a seriedade e o sorriso.

Ali se desenvolviam as múltiplas atividades dos monges: o trabalho manual, a administração de duas escolas para meninos e jovens, o cultivo da horta, o labor intelectual e literário, o esmero pelo canto gregoriano e, sobretudo, uma impecável Liturgia, expressão mais elevada do ideal beneditino.

Foi por acaso que padre Marmion chegou a Maredsous. Mas no silêncio reinante no interior daquelas paredes de pedra encontrou o que até então buscara com afã. E se quase quinze séculos o separavam da morte de São Bento, a figura do fundador da Ordem permanecia tão viva ali, que o jovem sacerdote tinha a impressão de tê-lo acabado de cumprimentar nesse momento.

Voltou para Dublin cativado por aquela atmosfera monástica, com as palavras do Abade Plácido Wolter latejando em sua consciência: “Tens uma vocação beneditina muito maior que a de teu amigo”. 4

Noviciado e vida de recolhimento

Seguindo o conselho do seu Bispo, esperou algum tempo antes de tomar uma decisão. Mas transcorridos cinco anos de ministério em sua cidade natal, padre Marmion não mais se questionava sobre a autenticidade de seu chamado para a vida religiosa. Havia decidido ouvi-lo.

Após obter as licenças necessárias, chegou a Maredsous no mês de novembro de 1886, desta vez para ficar. Durante o noviciado, precisou mudar de costumes, cultura e língua, o que não foi fácil, mas em meio a tais lutas confessou: “Estou convencido de estar no lugar onde Deus me quer. Encontrei grande paz, e sinto-me extremamente feliz”. 5 Escolheu o nome de Columba, evocando o santo missionário irlandês do período merovíngio, e pôs-se a praticar as palavras da Regra: “Escuta, filho meu, os preceitos do mestre, e inclina o ouvido do teu coração”.

A almejada profissão se deu em 1891, após a qual os superiores pensaram em enviá-lo ao Brasil. Por fim, acabaram encaminhando-o para Lovaina, onde a Abadia de Maredsous pretendia fundar um novo mosteiro.

O período decorrido desde seu noviciado até o fim da permanência em Lovaina constituiu o cerne de sua vida de recolhimento. Oculto, submisso e modesto, Frei Columba transformou-se num contemplativo. Buscava Cristo e Sua Mãe a todo momento, compreendendo ser no silêncio que Eles Se deixam encontrar: “Se nossa alma se fechar aos rumores da Terra, ao tumultuar das paixões e dos sentidos, o Verbo Encarnado tomará pouco a pouco posse dela; far-nos-á compreender que as mais profundas alegrias são aquelas que encontramos no seu serviço”. 6

Mais do que nunca, via a santidade como um dom de Deus, esmola divina que homem algum jamais merecerá: “Nossa vida sobrenatural oscila entre estes dois polos: de um lado, devemos ter a convicção íntima de nossa incapacidade de atingir a perfeição sem o auxílio de Deus; de outro, devemos estar possuídos da inabalável esperança de tudo encontrarmos na graça de Jesus Cristo”. 7

Qual dócil menino, ele se deixava plasmar pelas mãos de seus superiores, um dos quais registrará: “Nunca vi um religioso mais obediente”. 8 A paz e a serenidade lhe foram dadas em recompensa pelos sofrimentos heroicamente suportados, levando-o a dizer: “Agora que fiz todos os sacrifícios, Nosso Senhor devolveu-me, pelo caminho da obediência, tudo quanto por Ele eu havia abandonado”. 9

Exímio pregador de retiros, Frei Columba era solicitado por conventos e comunidades, nos quais sua presença não se apagava de nenhuma memória. Era instrumento de conversões, suscitava vocações, ensinava através da própria conduta.

Alma ornada pela virtude da sabedoria

Teve, porém, de voltar para Maredsous. O mesmo claustro que o recebera como noviço, aos 27 anos de idade, viu-o retornar de Lovaina aos 51, pronto para exercer a mais alta missão que o Senhor lhe haveria de destinar.

Dom Hildebrando de Hemptinne, que vinha governando Maredsous por muitos anos, fora designado pelo Papa primeiro Primaz da Confederação Beneditina e, devido às suas frequentes permanências em Roma, tornou-se necessário escolher outro abade para o mosteiro. O Capítulo elegeu, por grande maioria, Marmion, precisamente por encontrar nele o perfil do autêntico beneditino. “Eu obedeço e aceito a vontade de Deus”, disse no dia da eleição, em outubro de 1909.

Enquanto abade, Dom Columba foi, antes de tudo, um mestre espiritual, conhecedor das vias por onde as almas devem ser conduzidas. Suas conferências semanais para a comunidade suscitavam o entusiasmo dos monges. Um deles, não se conformando em ver aquelas maravilhas confinadas na sala capitular, tomou a iniciativa de anotá-las e torná-las públicas. Assim se originou a trilogia: Cristo, vida da alma (1917), Cristo em seus mistérios (1919), e Cristo, ideal do monge (1922), três obras que são expressões fidedignas do espírito cristocêntrico do autor. O Papa Bento XV que fazia uso pessoal de Cristo, vida da alma, chegou a recomendá-lo a um Bispo nestes termos: “Leia isto. É a doutrina da Igreja”. 10

Dom Marmion teve de enfrentar questões espinhosas no exercício de seu cargo, e tornou patente aos olhos dos monges de Maredsous que a virtude da sabedoria, tema frequente de suas prédicas, era um ornato de sua própria alma. Atuou como homem-chave nas negociações que trouxeram ao seio da Igreja um convento anglicano; foi solicitado a fundar uma abadia no Congo; por manifesto desejo do Papa, enviou monges para cuidar da Abadia da Dormição, em Jerusalém. Corolário de suas atividades foi a fundação da Congregação Belga da Anunciação, nova jurisdição da Ordem, sediada em Maredsous.

Mostrou assim não estarem as qualidades diplomáticas, administrativas e psicológicas em choque com o espírito de contemplação. Pelo contrário, uma vida interior bem levada conduz a resolver com o maior acerto as questões temporais que a Providência puser no nosso caminho.

O Abade Marmion amava seus filhos espirituais e era estimado por eles. Sob seus cuidados e vigilância, Maredsous progrediu a olhos vistos, parecendo espelhar a vida que os bem-aventurados gozam no Céu. O Senhor lhe deu uma comunidade louvável, na qual as virtudes e dotes naturais se traduziam em obras de excelência e perfeição.

E quando o horizonte ameno da Abadia se obscureceu pelos estertores da Primeira Guerra Mundial, os monges puderam comprovar a veracidade da palavra do Evangelho: “O bom pastor dá a vida por suas ovelhas” (Jo 10, 11).

Despendendo as últimas energias

Embora preservados dos bombardeios de tropas inimigas, os habitantes de Maredsous sofreram quase tanto quanto se a abadia tivesse sido destruída. A cada instante, esperava-se um desenlace trágico que viesse reduzi-la a pó, ocasionando uma apreensão não pequena nos monges. A fome e toda sorte de privações rondavam a comunidade, que abriu suas portas para os feridos e desabrigados.

Vivendo na quadra mais dramática de sua existência, o Abade Columba lutava por salvar a formação dos noviços, levando-os para o exílio. Esta decisão lhe causou incontáveis dissabores e, para completar as amarguras que o contristaram, via seus monges serem arrancados da vida monástica para servir o exército, expostos a todos os perigos de corpo e de espírito.

Em 1918, quando a Guerra terminou, restavam-lhe os últimos cinco anos de vida, e ele os empregou totalmente na restauração da disciplina em Maredsous, despendendo nesse último esforço as poucas energias que ainda lhe restavam. Na tarde de 30 de janeiro de 1923, vítima de uma epidemia de gripe que assolava a Bélgica, ele rendeu sua alma ao Criador.

Alquebrado por uma existência empregada no serviço de Deus, Dom Columba Marmion abandonava-se, uma vez mais, naquele supremo momento, aos desígnios de Jesus Crucificado, que ele viera buscar e encontrara no claustro. Seus filhos espirituais, recebendo de suas mãos, agora trêmulas, a tocha da caridade, tinham consciência de que aquele pai e mestre lhes transmitia e deixava como herança a realização das palavras com as quais São Bento concluiu seus ensinamentos: “Tu, pois, quem quer que sejas, que te apressas rumo à Pátria celeste, cumpre, com o auxílio de Cristo, esta Regra, e então chegarás por fim, com a proteção de Deus, aos maiores cumes da doutrina e das virtudes”. 11

1Regra de São Bento, Prólogo, n. 1-2.
2TIERNEY, OSB, Mark. Blessed Columba Marmion: a short biography. Dublin: The Columba, 2000, p. 22.
3MARMION, OSB, Beato Columba. Jesus Cristo nos seus mistérios: conferências espirituais. 2. ed. Singeverga: Ora et Labora, 1951, p. 452.
4TIERNEY, OSB. Op. cit., p. 23.
5Idem, p. 35.
6MARMION, OSB. Op. cit., p. 289.
7Idem, p. 469.
8TIERNEY, OSB. Op. cit., p. 45.
9Idem, ibidem.
10Apud GARRIDO BONAÑO, OSB, Manuel. Beato Columba Marmion. In: Nuevo Año Cristiano: Enero. 4. ed. José Antonio Martínez Puche, OP (Org.). Madrid: Edibesa, 2003, p. 618.
11Regra de São Bento, c. 73, n. 8-9.

Abadia de Maredsous – Namur (Bélgica)
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