Proelium magnum in caelo

Ao tirar do nada o universo, quis o Divino Artífice fazer deste um reflexo seu, espelhando-se no homem, rei da criação e microcosmo, criando-o à sua imagem e semelhança” (Gn l, 26)

No ápice desta obra, superando em perfeição todas as criaturas visíveis, encontram-se os Anjos, seres dotados de inteligência e puros espíritos, com personalidade própria e exclusiva, distribuídos por Deus em nove coros: Serafins, Querubins, Tronos, Virtudes, Dominações, Potestades, Principados, Arcanjos e Anjos. Formam estes a milícia da Jerusalém celeste, com a missão de adorar continuamente a Santíssima Trindade, executar os desígnios de Deus e guardar o gênero humano, bem como governar toda a criação material.1

Imensa e inimaginável é esta corte celeste! “Porventura podem ser contadas as suas legiões?” — indaga o livro de Jó (25, 3). E o profeta Daniel, maravilhado exclama: “Milhares e milhares o serviam, dezenas de milhares o assistiam! ” (Dn 7, 10).

A tanta diversidade e beleza quis Deus colocar um ponto monárquico, um ser que representasse de modo inigualável a luz eterna. Obra-prima, esplendor dos esplendores, cintilava no mais alto do universo angélico, todos se extasiavam diante dele: o primeiro dos Serafins e seu nome era Lúcifer, “Aquele que portava a luz”. A ele se aplicavam as palavras de Ezequiel: “Tu és o selo da semelhança de Deus, cheio de sabedoria e perfeito na beleza; tu vivias nas delícias do paraíso de Deus e tudo foi empregado em realçar a tua formosura!” (Ez 28, 12-13).

Entretanto, a seres tão excelsos, reservada também estava uma prova. Apesar da perfeição da natureza angélica, não podiam os Anjos gozar da essência da bem-aventurança: a posse da visão beatífica. Diante deles a face do Senhor achava-se como que envolta em véus, e apenas seus reflexos animavam o ardente amor dos Anjos.

Segundo exegetas e teólogos, a prova que decidiu o destino eterno dos Anjos foi o anúncio da Encarnação do Verbo: Deus haveria de enviar seu Filho Unigênito, nascido de uma mulher, criatura que teria seu trono elevado acima das Potestades: Maria Santíssima, Regina Angelorum.

A esse propósito, diz-nos o Padre Pedro Morazzani: “O Criador eterno, inacessível, todo-poderoso, se uniria hipostaticamente à natureza humana, elevando-a assim até o trono do Altíssimo; e uma mulher, a Mãe de Deus, tornar-se-ia medianeira de todas as graças, seria exaltada por cima dos coros angélicos e coroada Rainha do universo”.2

O momento decisivo: amar sem entender; subjugar os próprios critérios aos critérios do Absoluto! Eis o ato que os confirmaria, in perpetuo, na graça e na glória!

“Foram eles submetidos a uma prova. No momento da prova, muitíssimos destes espíritos permaneceram fiéis a Deus; mas muitos outros pecaram. Seu pecado foi de soberba, querendo ser iguais a Deus e não depender dEle” (CCE 3399).

Lúcifer, soberbo e duvidoso, quis ultrapassar o mistério que seu entendimento não alcançava… Acreditava que o Senhor ignorava a superioridade da natureza angélica ao preferir unir-se a um ser tão inferior. E ao constatar que ele, o arquétipo dos Anjos, ver-se-ia na obrigação de adorar um Homem — ainda que Divino —, esta união hipostática pareceu-lhe intolerável.

O orgulho havia se apoderado daquele que era o perfeito desde o dia da criação, imaginando que, dando-se a Encarnação do Verbo, tornar-se-ia, assim, o mediador entre Criador e criatura… “Aquele que do nada fora tirado, comparando-se, cheio de altivez, pretendeu roubar o que pertencia ao próprio Unigênito do Pai.3 “O Anjo pecou querendo ser como Deus.4

Um odioso brado de revolta — inspiração de todos os gritos de insubmissão da Historia — fez-se ouvir no Céu: “Nom Serviam!” Subirei até o céu, estabelecerei o meu trono acima dos astros de Deus, sentar-me-ei sobre o monte da aliança! Serei semelhante ao Altíssimo!” ( Is 14,13-14).

“Quis ut Deus!” — bradou, levantando-se como uma tocha ardente de fidelidade, um Serafim forte e esplendoroso! Quem desafiava o maior entre os Anjos? Miguel, perfeito adorador de Verbo Divino, guerreiro irresistível e de santa tenacidade!

“Houve no Céu uma grande batalha. Miguel e seus Anjos lutavam contra o dragão, e o dragão e seus sequazes lutavam contra” (Ap 12, 7). Arrastando a terça parte dos Anjos, o “Portador da luz” foi precipitado no inferno, tornando-se o príncipe das trevas, e seu lugar não se encontrou mais nos Céus.

Como caístes, ó astro resplandecente, que na aurora brilhavas? “A tua soberba foi abatida até os infernos” (Is 14, 11-12).

No mesmo ato, o Arcanjo São Miguel era elevado a mais alta hierarquia celeste, condestável dos exércitos celestes, baluarte da Santíssima Trindade.

1 Cf. GILSON, Etienne. A filosofia na Idade Média. Trad. Eduardo Brandão. São Paulo: Mantins Fontes, 2007.
2 ARRAIZ, Padre Pedro Morazzani. Quem como Deus? In: Revista Arautos do Evangelho. São Paulo: n 69, set. (2007, p.l9.)
3 SÃO BERNARDO. Homilia sobre las excelências de la Virgem Madre. In: Madrid: BAC, 1953, v. J, p. 215 […] Aquel que, habiendo sido formado ángel e la nada» comparándose, lleno de soberbia, a su Hacedor, pretendía robar lo que es proprio del Hijo de Dios. (Tradução da autora)
4 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica I, q. 65, a. 5.

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