Por uma gota de dor, torrentes de graças

Luisa Gurgel

2º ano de Ciências Religiosas

Todo homem nasce com uma vocação específica. Entretanto, algo em comum é dado a todos: o chamado à santidade. E o que significa alcançar a santidade? Significa receber, como prêmio, a vida eterna no Céu, depois de uma vida santa de lutas bem travadas, com o auxílio divino.

Realmente, uma eternidade feliz é a melhor recompensa que qualquer um poderia receber. Porém, para alcançá-la, é necessário sofrer: “Militia est vita hominis super terram”. Por mais que se fuja da Cruz, ela é inerente à vida humana e é a única condição que Deus nos pede em troca do Céu. O que são dez, vinte, trinta, cem anos de sofrimento? Deus nos quer dar a alegria eterna, se aceitarmos o pouco de dor que Ele nos pede.

Saibamos, então, dar a gota que fomos chamados a dar e esperemos confiantes as torrentes de graças que a Providência deseja nos conceder, lembrando-nos das palavras de Plinio Corrêa de Oliveira: “A autêntica satisfação da vida é aquela sensação de limpeza de alma que se possui quando fitamos de frente a nossa cruz e dizemos SIM a ela”. 1

1 CORREA DE OLIVEIRA, Plinio. A exaltação da Santa Cruz em nós e fora de nós. Dr Plinio, São Paulo, ano 3, n. 30, set. 2000, p. 16.

“O precioso vinho espiritual da santidade”

Ir. Daniela Chacaliaza, EP

Imaginemos que fôssemos contratados para um novo emprego e ninguém nos explicasse o que deveríamos fazer; difícil seria poder exercê-lo com competência.  Ou, então, que comprássemos um aparelho eletrônico de manuseio complicado e que, dentro da caixa, não encontrássemos o manual de instruções. Certamente, nosso desapontamento não seria pequeno, pois quão difícil seria colocá-lo em funcionamento. Que alivio se achássemos um manual!

Na  vida quotidiana, vemos, com frequência, que os homens redigem manuais para facilitar o desenvolvimento dos afazeres humanos. Se isto é assim com os homens, não seria possível que o Criador do Universo, o nosso Pai Celestial, nos privasse de modelos para podermos exercer o papel mais importante desta vida: conquistar o Céu através da luta quotidiana.

Desta maneira, o Altíssimo nos deu um manual que, quando visto e lido através dos olhos d’Ele, é um farol que nos ensina a trilhar os caminhos da vida. Este guia é a natureza. Ora, toda a Obra da Criação foi feita para, de uma ou de outra forma, servir ao homem.

Pousemos, então, nosso olhar num fruto maravilhoso da terra que Deus quis utilizar como matéria para o Sacramento mais sublime: a uva que, depois de passar por certo processo, se transforma em vinho.

Ao analisar o procedimento que se realiza para obter um saboroso vinho, vemos que as uvas devem passar, por assim dizer, por certas circunstâncias difíceis: ao ser levadas ao lagar, elas são esmagadas — pisadas, literalmente —, para produzir esta bebida. Ademais, é um fato digno de ser considerado e ressaltado que não é em todo tempo que as uvas dão seus produtos mais insignes. Existe uma época específica do ano em que a videira dá seus melhores frutos. Curiosamente, enquanto os outros alimentos que a terra produz precisam de um terreno fértil, a boa videira prefere solo seco e pedregoso. Quer dizer, para obter um vinho de boa qualidade, é preciso a videira ter nascido em condições aparentemente adversas.

Assim também é o ser humano. Para florescerem heróis, muitas vezes, Deus permite e quer que estes passem, in tempore opportuno, pelas situações mais adversas e por dores tremendas. De fato, a História nos prova quão mais valiosos são os varões ou mulheres que foram submetidos pela Providência a terríveis sofrimentos e provações. Sendo esta terra um vale de lágrimas, é preciso que os homens passem pelas cruzes para alcançar o prêmio esperado.

“E, de fato, tal como o fruto da videira necessita ‘sofrer’ e ‘esperar’ para alcançar o requinte de seu próprio sabor, assim é o ser humano: para adquirir a plenitude de sua personalidade, não requer comodidades nem prazeres, mas padecimentos e docilidade à vontade divina. O sofrimento é, pois, um valioso bem para o homem. […] Com a dor, o ser humano sai de seu egoísmo, compreende a sua contingência e se abre para o sobrenatural. […] O sofrimento bem aceito produz o precioso vinho espiritual da santidade”.[1] E assim, seguindo o exemplo de Nosso Senhor Jesus Cristo, é pela cruz que o homem chegará à luz.

[1] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Editorial. Dr. Plinio, São Paulo, ano 14, n. 164, nov. 2011, p. 4.

A pátria da dor e da misericórdia

  Ana Laura de Oliveira Bueno – 1° ano de Ciências Religiosas

Eis o lugar onde os minutos são séculos intermináveis, onde a dor e a expiação se misturam à alegria e à consolação da esperança de poder ver a Deus num face a face eterno: o caro leitor certamente já concluiu que se trata da Igreja padecente.

De fato, ninguém merece o Céu facilmente. O purgatório é a pátria da justiça rigorosa e, ao mesmo tempo, é a pátria da infinita misericórdia de Deus: pois, para nós é uma grandíssima misericórdia encontrar, após a morte, um lugar de expiação e apesar do grande rigor da justiça divina, consola-nos a ideia de que no purgatório deve haver consolações e alegrias.

Alegrias? Pode haver neste estado onde almas, inclusive santas, passam anos num fogo expiatório – semelhante ao da negra prisão do inferno – por pecados veniais alguma alegria autêntica?

São Francisco de Sales é quem nos vai dizer que as alegrias e as consolações que de fato existem no purgatório são um bálsamo suavizante para as almas. No tocante a este assunto, o Bispo e Doutor da Igreja sintetizou alguns pontos a respeito das almas padecentes:

  1. As almas do purgatório estão numa contínua união com Deus e perfeitamente submissas à vontade d’Ele. Não podem deixar esta união divina e nunca podem contradizer a divina vontade, como infelizmente acontece conosco, neste mundo;
  2. Elas se purificam com muito amor e com muito boa vontade, porque sabem que é esta a vontade de Deus. Sofrer para fazer a vontade de Deus é uma alegria para elas.
  3. Elas querem ficar à maneira que Deus quer e quanto tempo Ele quiser.
  4. Elas são impecáveis e não podem experimentar nem o mais leve movimento de impaciência, nem cometer uma imperfeição sequer.
  5. Amam a Deus mais do que a si próprias e mais que todas as coisas e com amor muito puro e desinteressado.
  6. As almas são consoladas pelos Anjos.
  7. Elas estão seguras da sua salvação e com uma segurança que não pode ser confundida.
  8. As amarguras que experimentam são muito grandes, mas numa paz profunda e perfeita.
  9. Se, pelo que padecem, estão como numa espécie de inferno, quanto à dor, é um paraíso de doçura, quanto à caridade, mais forte do que a morte.

Com efeito, há uma esperança da salvação certa, não obstante o grande sofrimento, mormente no escuro e fundo purgatório. E a nós, filhos e filhas daquele que não admite pequenas concessões e é absolutamente intransigente em relação aos pecados veniais, vale sempre a máxima: “Sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito”. Ou seja: nossa santidade deve ser tal, que não se concebe sequer que esperemos passar por um longo purgatório! Em nossas almas não deve haver espaço para semi-fidelidades, semi-virtudes e pequenas concessões, mas antes devem ser receptáculos de um desejo radical de entrega completa ao sofrimento nesta terra de exílio e de uma cega confiança em Nossa Senhora, que abaterá todas as nossas misérias se estivermos em consonância com Ela, levando-nos ao convívio completo e eterno pelo qual tanto e tanto almejamos.

Peçamos, pois, esta graça, pela intercessão de nossos santos padroeiros e das santas almas do purgatório: retidão absoluta e santidade levada até as últimas consequências!

                            

 

O caminho de dor anuncia a vitória

Ir. Rafela Grossi, EP
1º Ano de Ciências Religiosas

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Muitos já devem ter ouvido falar de cristãos que morreram por não quererem negar a Religião Católica. Não será que cometeram uma imprudência com tal atitude? Devemos analisar, antes de tudo, o seguinte: qual era o objetivo de suas entregas? Por quem arriscavam a vida? O que os levava a superar o próprio instinto de conservação?

Voltemos a atenção sobre um comentário de Santa Teresinha do Menino Jesus: “O amor nutre-se de sacrifícios. Quanto mais a alma se nega às exigências da natureza, tanto mais robusta e abnegada se torna sua ternura”. Sendo assim, podemos considerar o sacrifício do martírio como uma prova sublime de amor e de entrega a Nosso Senhor Jesus Cristo. Pois Ele próprio disse: “Ninguém tem um maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos (Jo 15, 13). Quando a alma está arrebatada de fervor pela Igreja Católica, nada a impede de derramar seu sangue, até a última gota, para que o Nome de Jesus seja glorificado. O seu único desejo é lutar em defesa da Igreja e de realizar as obras mais heroicas: percorrer a Terra e implantar em todas as partes a gloriosa Cruz de Cristo; anunciar o Evangelho no mundo inteiro, até nas mais longínquas ilhas; enfim, fazer de sua existência um contínuo holocausto a serviço da Causa Católica, sem importar-se com as opiniões alheias e o perigo de vida a que se expõe por realizar tal ato, porque sabe que depois de ter abraçado e osculado a sua cruz receberá do Divino Mestre a coroa da vitória, reservada àqueles que renunciaram a si mesmos para seguir os passos do seu Bem-Amado.

Com efeito, um exemplo de abnegação e entrega podemos observar na história de São João Batista. Sendo ele chamado a preparar o caminho do Salvador, anunciou ao povo judeu a necessidade de uma conversão sincera e realmente frutuosa. A sua única preocupação era a de cumprir a vocação para a qual fora chamado e levar os corações a se purificarem para receber dignamente o Messias. Ele produzia um choque em muitos, pois era inteiramente reto, simples e eloquente. E bradava em todos os lugares: “Fazei penitência.”

Ora, Herodes, o tetrarca, repreendido por ter tomado Herodíades, mulher de seu irmão Felipe, como esposa e por causa de todos os crimes que praticara, mandou encarcerar o Batista. Já tinha os planos preparados para matá-lo; contudo, temia a multidão que considerava João como profeta.

Na festa do aniversário de Herodes, a filha de Herodíades dançou em sua presença, o que lhe agradou enormemente… então, disse à moça:
– Prometo com juramento dar-te tudo o que me pedires!

Sendo instigada por sua mãe, que também possuía um ódio mortal a João, a moça declarou o seu pedido:
– Dá-me, num prato, a cabeça de João Batista!

O rei, como cumprimento de seu juramento, mandou seus servos até o cárcere para decapitar João. Trouxeram, então, a cabeça e a entregaram à moça que logo após deu à sua mãe.

Analisando este fato, alguém poderia se perguntar: que glória teve João Batista morrendo sozinho num cárcere? Por que entregou sua vida tão facilmente e sem resistências? Isso não é uma loucura? Não seria melhor arrepender-se de tudo e ser libertado?

Ora, nada é mais nobre e mais bonito, nada revela mais integridade de alma do que aceitar sofrer por Nosso Senhor Jesus Cristo. Quando uma alma resolve abraçar a dor, barreiras enormes são abatidas, dificuldades aterrorizantes caem por terra e se abre o caminho para a visão beatífica. De fato, João verteu o seu sangue em união com o Cordeiro de Deus, que logo seria também imolado no Calvário. Como um herói, enfrentou Herodes e morreu mártir, dando um exemplo sublime de grandeza e de serenidade.

Assim sendo, quando Deus nos oferecer cruzes e perplexidades difíceis de enfrentarmos, saibamos seguir os exemplos dos Santos, abraçando a dor com entusiasmo e ufania.

“Ainda que eu atravesse o vale escuro, nada temerei”

Ir. Thaynara Ramos Siedlarczyk, EP

A porta para a eterna felicidade é estreita como diz Nosso Senhor: “Procurai entrar pela porta estreita; porque, digo-vos, muitos procurarão entrar e não o conseguirão” (Lc 13, 24). Não obstante, nem sempre Deus premia os seus com consolações na hora da morte. Muitas almas eleitas morrem nas noites escuras da provação, da dúvida, do abandono, à semelhança de Nosso Senhor Jesus Cristo, que no alto da Cruz bradou: “Meu Deus, meu Deus, por que Me abandonaste?” (Mt 27, 46). Ele, que era Deus, quis deixar seu exemplo para muitos que morreriam não apenas sentindo-se abandonados, mas no meio de terríveis provações, as quais, às vezes, parecem contradizer a própria vocação recebida de Deus. É desse modo que Deus costuma tratar certas almas às quais muito ama!

Assim sucedeu com a virgem de Lucca, Santa Gema. Após uma vida repleta de demonstrações de predileção da parte de Deus, ela consumou seu holocausto de amor num tremendo abandono. Nos seus últimos dias, ficou sozinha, apenas assistida por algumas mulheres piedosas. Recebeu todos os sacramentos, mas nenhuma daquelas pessoas que a haviam guiado na vida espiritual a acompanhou nos seus derradeiros instantes. “Este isolamento foi certamente querido pela Providência para elevar ao mais alto grau de martírio o mérito de sua Serva”.1 Ela mesma, minutos antes da morte, dizia estar preparada para aquele momento terrível sem nenhuma consolação da parte de Deus, como relata o Padre Germano, seu biógrafo:

Finalmente, aniquilada pela veemência do mal, esmagada sob o peso de imensas dores, atormentada em todas as faculdades da alma e do corpo pelos espíritos infernais, sem conforto nem do Céu e nem da terra, a inocente mártir elevou a voz quase apagada e pronunciou estas últimas palavras: “Agora é bem verdade que não posso mais. Jesus, encomendo-Vos a minha pobre alma… Jesus!”. Era o consumatum est e o in manus tuas do Salvador expirando sobre a cruz.2

Mesmo após os sofrimentos da doença, ela não perdera a beleza angélica da fisionomia. A tal ponto que os presentes pensavam que ela dormia, pois em sua face transparecia uma serenidade celestial, como descreve uma das testemunhas:

Um doce sorriso lhe bailou nos lábios, inclinou docemente a cabeça e deixou de viver do mesmo modo que Nosso Senhor, segundo se lê no Evangelho: Et inclinato capite tradidit spiritum. Imediatamente a sua alma seráfica, recreada, como firmemente creio, pela presença visível do seu muito Amado Jesus, da sua Mãe, do seu Anjo da Guarda, de São Paulo da Cruz que tantas vezes invocava nos seu últimos momentos, de São Gabriel, de quem era muito devota, esta alma seráfica, carregada de coroas e palmas, voou para o seio de Deus.3

Naquele completo abandono, Santa Gema não se revoltou, aceitou a desolação e bebeu dessa taça amarga até a última gota!

Também Santa Teresinha do Menino Jesus nos oferece um sublime exemplo. Chegou ela a afirmar que seu maior desejo era morrer, para estar bem perto do Bom Deus. E, ao atender seu amoroso pedido, o Senhor não lhe enviou nenhuma gota de consolação, como atestam as próprias palavras da Santa, dirigidas à sua madre superiora:

– Ó minha Madre, asseguro-vos, o cálice está cheio até a borda!… Mas o bom Deus, com toda certeza, não me abandonará!… Ele nunca me abandonou!… Sim, meu Deus, tudo o que quiserdes, mas tende piedade de mim! 4

Além dos sofrimentos que a doença lhe causava, houve um tormento muito maior: terríveis tentações contra a fé, que lhe atormentavam o espírito. Mas sua virtude foi em grau tão heroico que jamais se perturbou, nem se desviou de seus pensamentos elevadíssimos. Ao entrar na agonia, invocou o nome do Bom Deus com muito amor e toda flexibilidade, disposta a aceitar o que Ele quisesse. Uma das religiosas presentes relata o acontecido com aquela alma virginal que viria ser um grande exemplo para os séculos futuros:

Mal as irmãs ajoelharam-se ao redor de seu leito, foram testemunhas do êxtase de nossa santinha moribunda. Seu rosto retomara a mesma cor de lírio, quando em plena saúde; seus olhos se fixaram-se no alto, brilhantes de paz e alegria…Irmã Maria da Eucaristia aproximou-se com uma vela para ver mais de perto esse sublime olhar. A luz não provocou, em suas pálpebras, nenhum movimento. Esse êxtase durou o espaço de um Credo, exalando em seguida o seu último suspiro. 5

Outro fulgurante exemplo de heroísmo foi o de Santa Joana d’Arc, a frágil menina que lutou como um valente guerreiro no campo de batalha. Traída e presa pela Inquisição inglesa, Santa Joana d’Arc viu-se isolada pelo próprio Rei da França, Carlos VII, por quem ela havia lutado valorosamente. Acusada de bruxaria, foi condenada à morte na fogueira. Enquanto seu corpo era consumido pelas chamas, não cessou de repetir que não haviam mentido as vozes que lhe haviam indicado o caminho ousado e glorioso de sua vocação. Supremo ato de fidelidade, em meio ao completo abandono!

Se a morte fosse o fim de tudo, nada justificaria renunciar a uma vida de gozo desenfreado. Com sua Ressurreição, Cristo comprou a nossa própria ressurreição, dando-nos a confiança de que com Ele reinaremos eternamente: “Quando Cristo, vossa vida, aparecer, então também vós aparecereis com Ele na glória” (I Cor 15, 19).

1 SANTO ESTANISLAU, Germano de. Biografia da Serva de Deus Gema Galgani. 2. ed. Porto: [s.n.], 1923, p. 330.
2 Ibid. p. 331.
3 Ibid. p. 332.
4 SANTA TERESINHA DO MENINO JESUS. Não morro… Entro na vida. Últimos Colóquios. 3. ed. São Paulo: Paulinas, 1981, p. 185.
5 Ibid. p. 188.

A causa de nossa santificação: o sofrimento

Raphaela Nogueira Thomaz

Muito diferente d’Aquela Divina Figura que os Apóstolos contemplaram no Tabor, estava Nosso Senhor Jesus Cristo pregado na Cruz, com os braços abertos para atrair a Si a Humanidade inteira. Enquanto Homem-Deus, padeceu os mais atrozes tormentos, sendo abandonado, desprezado e humilhado. Talvez, até os que haviam sido objeto de Sua maior compaixão, clamavam por Sua morte.

Tudo parecia irremediavelmente perdido. Entretanto, dessa divina tragédia floriu gloriosa a Santa Igreja, nascida do flanco aberto deste Cordeiro sem mácula: o próprio objeto de irrisão dos algozes acabou por ser o manancial de onde surgiu para eles a salvação.

Dizem os teólogos que bastaria um simples gesto ou uma gota de sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo oferecidos a Deus-Pai para operar a Redenção. No entanto, Ele preferiu derramar Seu Preciosíssimo Sangue até a morte. E, desse modo, deu uma lição de conformidade com a dor para que cada homem tivesse completamente a coragem de carregar o seu próprio sofrimento. De fato, o sofrimento, sendo um dom admirável de Deus para que o homem, auxiliado pela graça, tempere e eleve sua personalidade, constitui o caminho necessário para a nossa santificação.

É o que assegura Mons João Clá Dias:

Desde que eu aceite o sofrimento que Deus me manda, desde que eu aceite o drama que passa por minha vida, com integridade de alma e com resignação… Ele, Nosso Senhor, não tem nenhuma falha e não há nada que se possa dizer: “Foi por causa de tal defeito que isso aconteceu…” Não. Ele assumiu sobre si todos os nossos pecados, e Ele sofre tudo isso por causa nossa. Ele sofre para nos dar a vida, Ele morre para nos libertar da morte. E, entretanto, sabemos perfeitamente que Ele, passando por tudo isso, recebe depois a glória que Ele tem enquanto homem, porque enquanto Deus, Ele é Senhor absoluto de todas as coisas, mas enquanto homem, Ele conquista esse poder sobre todas as coisas pelo seu sofrimento, pelo seu tormento.

Portanto, quando a cruz nos apanhar no caminho da nossa vida – será uma doença grave, será um desastre familiar, será o ter que enfrentar o drama destes contra aqueles, será inclusive, ter a desilusão: eu criei para mim um sonho que, de repente, se desfez, se quebrou – aceitar isto com humildade, aceitar isto com resignação, significa estar comprando o prêmio que virá.1

Evidentemente, sem o auxílio da graça, o ser humano não pode suportar retamente e em sua totalidade os esforços e sacrifícios que a vida impõe. Peçamos à Santíssima Virgem, cuja existência foi pervadida de sofrimentos e que culminaram no Calvário, para que possamos corresponder à graça de sermos capazes de uma inteira conformidade com a dor.

1 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Homilia do dia 21/03/2008 (Arquivo IFTE).

A dor

Anna Luiza Cendon Finotti

Quando Deus criou o homem, ademais de todas as maravilhas que lhe concedeu no Paraíso, cumulou-o de bens sobrenaturais.

As qualidades sobrenaturais concedidas ao primeiro homem foram: a graça santificante, as virtudes teologais e os dons do Espírito Santo. Deus punha sua complacência em habitar no homem como num magnífico santuário por Ele mesmo ornado. Sua vinda sensível ao Paraíso Terrestre, de que nos fala a Escritura, era um símbolo dos dulcíssimos e invisíveis liames de amizade que existiam entre o homem em estado de graça e o Criador.1

Ou seja, o ser humano foi criado num estado magnífico, com graças especialíssimas. Sua alma estava toda propensa ao bem, possuía a própria vida divina, as virtudes teologais: fé, esperança e caridade, e ainda os dons do Espírito Santo: ciência, inteligência, sabedoria, prudência, fortaleza, temor, piedade, conselho e fortaleza. Além disso, Deus concedeu-lhe também os dons preternaturais.

Enquanto os dons sobrenaturais faziam sentir sua benéfica influência sobretudo na parte racional do homem, os dons preternaturais cumulavam de perfeição a parte sensível. Eram estes em número de três:integridade, imortalidade, impassibilidade.2

O dom de integridade ordenava inteiramente a natureza humana. “Esse dom especialíssimo fazia com que todas as inclinações e os impulsos da natureza estivessem em harmonia com a lei divina”3. Pelo dom imortalidade os homens não passariam pela morte, “depois de uma permanência mais ou menos prolongada no Paraíso Terrestre, seriam transladados definitivamente ao céu sem passar pelo transe terrível da dor, da enfermidade”.4

E finalmente pelo dom de impassibilidade o homem estava isento de qualquer mal-estar, pois este “lhe proporcionava a isenção de dores e sofrimentos. Sem perturbação orgânica, psicológica, o homem gozava de uma felicidade perfeita. Nada perturbava sua paz e tranquilidade.5

Pelo pecado nossos primeiros pais foram expulsos do Paraíso e privados desses privilégios e assim o sofrimento, a morte, as doenças tornaram-se companheiros da humanidade tisnada pelo pecado original.6

Desde os seus primeiros instantes, vê o homem erguer-se diante de si o espectro da dor. Não há escritor, por mais profundo ou por mais banal, que não tenha descrito, entre atônito e temeroso, o terrível combate entre o homem e a dor. A existência humana nada mais é do que uma luta entre o homem e a dor. Luta trágica, luta terrível, em que a dor sempre vence o homem.7

A dor física e dor moral

São João Paulo II, em sua Carta Apostólica Salvifici Doloris, afirma ser o sofrimento “algo essencial à natureza humana. […] parece pertencer à transcendência do homem; é um daqueles pontos em que o homem está, em certo sentido, ‘destinado’ a superar-se a si mesmo; e é chamado de modo misterioso a fazê-lo”.8 A natureza humana por ser um composto de corpo e alma não sofre apenas dores físicas, mas sobretudo dores morais.

O homem sofre de diversas maneiras, que nem sempre são consideradas pela medicina, nem sequer pelos seus ramos mais avançados. O sofrimento é algo mais amplo e mais complexo do que a doença e, ao mesmo tempo, algo mais profundamente enraizado na própria humanidade. É-nos dada uma certa ideia quanto a este problema pela distinção entre sofrimento físico e sofrimento moral. Esta distinção toma como fundamento a dupla dimensão do ser humano e indica o elemento corporal e espiritual como o imediato e ou direto sujeito do sofrimento. Ainda que se possam usar até certo ponto como sinônimas as palavras “sofrimento” e “dor”, o sofrimento físico dá-se quando, seja de que modo for, “dói” o corpo; enquanto que o sofrimento moral é “dor da alma”.9

Das mais variadas formas o homem pode sofrer fisicamente —doenças, fome, acidentes, frio, e quantas outras coisas, independente da idade, raça ou condição social — e, na maioria das vezes, esses são acompanhados de sofrimentos morais. Para melhor compreendermos a ligação que há entre um sofrimento e outro, transcrevemos aqui um exemplo dado por Mons. João Scognamiglio Clá Dias: um lutador de karatê, quando está em uma competição recebe toda espécie de pancadas e isso lhe causa dor. Entretanto, se ele tem o apoio da torcida, ainda que seu corpo sofra em decorrência dos golpes que leva, por assim dizer em sua alma ele não sofre porque sente a adesão e o estímulo da torcida. Por outro lado, pode uma pessoa sofrer na alma sem ter recebido nenhuma pancada, por exemplo, um inocente que se vê objeto de todo tipo de calúnia e humilhações.10

Podemos relembrar também outro caso, ocorrido com o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira e que muito o impressionou. Certa feita, encontrava-se num restaurante e enquanto esperava o que havia pedido, passou a analisar os circunstantes. No meio de tantas pessoas dissipadas e agitadas com os seus problemas, admirou-se ao ver um homem sério e reflexivo, sentado num canto do recinto, tomando seu lanche a sós. Qual seria o motivo deste estado de espírito tão pouco frequente em nossos dias? Sua indagação foi respondida quando chegou o dono do estabelecimento e pôs-se a conversar com dito personagem:

— Oh!que bom vê-lo por aqui! Mas, onde estão seus amigos?

— Pois é… Eles sempre estavam comigo, mas depois que perdi minha perna, todos me abandonaram…

Assim, Dr. Plinio compreendeu que aquele estado de espírito provinha do abandono em que o homem se encontrava. Era uma “dor de alma” profunda consequente de um acidente físico. Nesta situação o que mais lhe fazia sofrer: o fato de estar sem perna ou sem amigos? Se ele estivesse fisicamente dolorido, mas houvesse quem lhe confortasse a alma, não seria para ele uma alegria? Por outro lado, se possuísse o físico perfeito, mas fosse considerado um pária na sociedade, não seria melhor a primeira situação? Isso ocorre pois o instinto de sociabilidade no ser humano é profundamente mais forte do que o instinto de conservação. Inúmeros são os que preferem arriscar a própria vida a serem considerados como covardes pelos demais.11

O sofrimento bem aceito é “o que mais eleva a alma de uma pessoa. Nesta terra não há individuo mais indigente do que aquele a quem Deus não manda dores”.12 A partir dessa compreensão da dor podemos admirar melhor o que afirma Dom Chaudard em seu livro A alma de todo apostolado: o sofrimento é o oitavo sacramento,13 tal é o seu valor aos olhos de Deus.

Sofrer, todos sofrem, o grande problema está no modo como se enfrenta a dor pois, “as mesmas misérias levam alguns para o céu e outros para o inferno”.14 No alto do Calvário, encontramos a mais bela lição nessa matéria: Três homens estão crucificados. O do centro, Nosso Senhor Jesus Cristo, nos dá o mais belo exemplo: sofre como inocente pelos pecados alheios. Ao lado direito de Jesus, o Bom Ladrão sofre como penitente, mas do lado esquerdo do Divino Redentor, o mau ladrão sofre como um condenado.15

1 CAMPANA, op. cit. p. 24.
2 Ibid. p. 26. (Grifo da autora)
3 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. No sofrimento, a raiz da glória. In: O inédito sobre os Evangelhos, op. cit. v. V, p. 323.
4 ROYO MARÍN, Antonio. Nada te turbe. Madrid: Palabra, 1982, p. 15. (Tradução da autora)
5 FORMENT, Eudaldo. Id a Tomás: Principios fundamentales del pensamiento de Santo Tomás. Pamplona: Fundacion Gratis Datæ, 2005, p. 69. (Tradução da autora)
6 Cf. CCE 1264.
7 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Na Academia Jackson de Figueiredo. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano IX, n. 94, Jan. 2006, p. 5.
8 JOÃO PAULO II. Salvifici doloris, n.2.
9 Ibid. n.5.
10 CLÁ DIA, João Scognamiglio. Palestra. São Paulo, 30 dez.2001. (Arquivo do IFTE)
11 Cf. Id. O Sermão da Montanha. In: O inédito sobre os Evangelhos, op. cit. v. VI, p. 85.
12 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. PLINIO CORREA DE OLIVERIRA: Notas Autobriográficas. São Paulo: Retornarei,2008, v. I, p. 294.
13 Cf. CHAUTARD, OSCO, Jean-Baptiste. A alma de todo apostolado. São Paulo: FTD, 1962, p. 112
14 SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO. A prática do amor a Jesus Cristo. Aparecida: Santuário, 2004, p. 56.
15 Cf. SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. Carta circular a los amigos de la Cruz.n.33.In: Obras. Madrid: BAC, 1953, p.245.

O Espírito da Alegria

Mariana Iecker Xavier Quimas de Oliveira

O teólogo Marie-Michael Philipon 1 afirma que o Espírito Santo é quem nos faz encontrar, em Deus, gozo e deleite, lembrando a famosa a enumeração dos frutos do Espírito Santo dada por São Paulo aos Gálatas (Gl 5, 22-23): caridade, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, longanimidade, mansidão, fé, modéstia, continência e castidade.

Os frutos do Espírito Santo se distinguem das virtudes do mesmo modo que uma potência difere do ato. Por esta razão são chamados “frutos”, pois o fruto é aquilo que a planta produz ao atingir o auge de seu desenvolvimento e que traz em si certa suavidade e deleite.

A princípio, os atos das virtudes muitas vezes são difíceis e exigem esforço, assim como o fruto que ainda não está maduro e que deixa os dentes embotados. No entanto, quando já se está adestrado na prática da virtude, repete-se com facilidade e prontidão estes atos; estes são os frutos. Em consequência disso, nem todos os atos de virtude são merecedores do nome “fruto”, somente aqueles que são acompanhados de certo deleite espiritual.

Trata-se, contudo, de um gozo espiritual, que pode dar-se ainda em atos virtuosos que, como a paciência e a longanimidade, se exercem em situações aflitivas. É uma satisfação para o espírito não se sentir perturbado e conservar a paz e tranquilidade da alma em meio às penalidades”. 2

Uma vez que os frutos do Espírito Santo advêm da prática assídua da virtude, é correto afirmar que a alegria é um fruto do Espírito Santo, no sentido que procede da virtude. É importante esclarecer que a verdadeira alegria não consiste na virtude; esta é apenas o fundamento de um edifício muito mais excelente do que a virtude, que é o próprio Deus e n’Ele a vida da graça. “A alegria […] vem da paz de consciência. Quando eu estou em ordem com Deus, estou em ordem com os seus mandamentos, estou, portanto, dentro da graça de Deus, eu estou na alegria“, 3 explica Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias

Pondera São Tomás 4 que os atos de todos os demais dons que orientam para o bem se reduzem à caridade, à alegria e à paz. A alegria figura nesta enumeração seguindo a caridade, pois, como já foi visto, aquela procede desta, de sorte que quem ama se alegra de estar unido ao amado, “a alegria é a presença e a posse daquele a quem se ama”. 5 A este respeito, parafraseando um dito famoso de Dona Lucilia Corrêa de Oliveira, 6 podemos afirmar convictamente que alegrar-se é estar juntos, olhar-se e querer-se bem.

Apesar de tudo, alegre

Acabamos de ver que os frutos do Espírito Santo são exercidos até mesmo em situações aflitivas e dramáticas. São um sopro do Divino Espírito que dão paz e tranquilidade à alma em meio às dificuldades, conforme afirma São Paulo em sua primeira carta aos Tessalonicenses (I Ts 1, 6): “Vós vos tornastes imitadores nossos, e do Senhor, acolhendo a Palavra com a alegria do Espírito Santo, apesar de tantas tribulações“. Portanto, aquela ideia hipotética de bem-aventurança terrena não tem fundamento, pois a felicidade não pressupõe a ausência de sofrimento; a alegria é fruto da caridade, do Espírito Santo, mas não do bem-estar terreno. 7 Analisemos um fato narrado pelo Professor Plinio Corrêa de Oliveira na Folha de São Paulo:

“Vindo uma vez São Francisco de Perusa para Santa Maria dos Anjos com frei Leão, em tempo do inverno, e o grandíssimo frio fortemente o atormentasse, […] frei Leão perguntou-lhe: Pai, peço-te, da parte de Deus, que me digas onde está a perfeita alegria. E São Francisco assim lhe respondeu: Quando chegarmos a Santa Maria dos Anjos, inteiramente molhados pela chuva e transidos de frio, cheios de lama e aflitos de fome, e batermos à porta do convento, e o porteiro chegar irritado e disser: Quem são vocês? E nós dissermos: Somos dois dos vossos irmãos, e ele disser: Não dizem a verdade; são dois vagabundos que andam enganando o mundo e roubando as esmolas dos pobres; fora daqui: e não nos abrir […] então, se suportarmos tal injúria e tal crueldade, tantos maus tratos, prazenteiramente, sem nos perturbarmos e sem murmurarmos contra ele […], nisso está a perfeita alegria. E se ainda, constrangidos pela fome, pelo frio e pela noite batermos mais, chamarmos e pedirmos pelo amor de Deus com muitas lágrimas que ele nos abra a porta e nos deixe entrar, e se ele mais escandalizado disser: Vagabundos importunos, pagar-lhes-ei como merecem; e sair com um bastão nodoso e nos agarrar pelo capuz e nos atirar ao chão e nos arrastar pela neve e nos bater com o pau de nó em nó; se nós suportarmos todas estas coisas pacientemente e com alegria, pensando nos sofrimentos de Cristo Bendito, os quais devemos suportar por seu amor: ó irmão Leão, escreve que aí e nisso está a perfeita alegria”
. 8

Pareceria um paradoxo considerar este testemunho partindo do princípio que a alegria deriva do encontro e da posse de um bem; como encontrar alegria em meio a tal situação, onde parece não haver bem nenhum? Do ponto de vista meramente natural, realmente seria impossível. Entretanto, não se pode olvidar que a alegria é algo inteiramente transcendente e sobrenatural.

A alegria cristã

“O homem, a mulher quando caem numa situação de penúria, de sofrimento, de angústia, de drama tem dois caminhos diante de si: um é a tristeza pela situação em que se encontra, outra é a alegria. ‘Mas, escute, alegria? Alegria numa situação dessas? Isso é sinônimo de loucura.’ É sinônimo de loucura desde que a pessoa não esteja pondo a sua alegria em Cristo Jesus. Porque se ela está sofrendo aquilo por um desígnio de Deus, e se ela está sofrendo aquilo por permissão de Deus, é sinal de que a vontade de Deus é que ela sofra“. 9

O verdadeiro cristão deve seguir o modelo do Divino Mestre na agonia do Horto das Oliveiras e no sacrifício do Calvário chegando ao auge do sofrimento com um amor incondicional ao Pai. “É misterioso, Ele está coberto de dores, mas se percebe n’Ele uma congruência, um vigor, uma coerência, uma resignação que me levam a dizer: nunca um homem foi tão invejável como o Homem-Deus no auge de sua tristeza“. 100

É por isso que nas igrejas costuma-se colocar Cristo bem no alto e na atenção de todos. Porque ali está a verdadeira alegria [em] considerar a cruz como um mérito, como um dom de Deus. […] A pessoa batizada passa por dramas, mas olhando, fixando a atenção bem no olhar […] vê-se um brilho por onde a pessoa tem uma substância, um suporte que em certo momento pousa a graça de Deus, um toque do Espírito Santo, enche a pessoa de ânimo e passa por aquela situação com outro estado de espírito“. 11

É necessário ver a vida sempre de dentro dos olhos de Deus, procurando o bem maior que Ele pretende quando permite as tribulações, seja para nos provar na fé, ou simplesmente para nos premiar com mais méritos no Céu. Precisamos considerar que todos os prazeres da vida passam com a morte e o único que levaremos desta Terra quando levantarmos voo rumo ao céu é o amor a Deus.

“O bom católico […] compreende o valor do sofrimento, do qual os pseudo-felizes tanto fogem. De fato, a dor é para a alma humana o que é o fogo para um metal que deve ser separado da ganga e purificado: sofre-se, porém com resignação e dignidade. Isso dá à alma uma tranquilidade, uma harmonia, uma força que não há prazer que pague. Oh, o bem estar da dor cristã!” 12

Esse é o verdadeiro espírito da alegria!

1PHILIPON, Marie-Michael. Los dones del Espíritu Santo. 2.ed. Madrid: Palabra, 1983, p. 59.
2 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Pequeno Ofício da Imaculada Conceição: Comentado. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2011, v. II, p. 235.
3 Id. Homilia do XIV domingo do Tempo Comum. Op. cit.
4 SÃO TOMÁS DE AQUINO. S. Th. I-II, q. 70, a. 3.
5 PHILIPON. Los dones del Espíritu Santo. Op. Cit. p. 59: “La alegría es la presencia y la posesión de aquél a quien se ama” (Tradução da autora).
6 “Viver é estar juntos, olhar-se e querer-se bem” apud CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Dona Lucilia. São Paulo: Artpress, 1995, v. II, p. 267.
7 Claro está que este tema está sendo desenvolvido de maneira didática para a maior compreensão, mas a alegria é uma só, vista apenas de vários ângulos diferentes: um fruto da caridade, do Espírito Santo. Portanto, aquele mesmo fogo de amor a Deus que produz a alegria, nos faz passar por cima de todas as aflições sem que a elas prendamos o coração, pois para quem ama verdadeiramente a Deus, Ele é o único bem realmente lhe importa.
8 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. A perfeita alegria. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano I, n. 3, jun. 1998, p. 24-25.
9 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Homilia do III domingo do Advento. Caieiras, 13 dez. 2009. (Arquivo IFTE).
10 CORRÊA DE OLIVEIRA. A verdadeira felicidade. Op. cit. p. 17.
11 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Homilia do III domingo do Aadvento. Caieiras, 14 dez. 2008. (Arquivo IFTE).
12 CORRÊA DE OLIVEIRA. A verdadeira felicidade. Op. cit. p. 17.

A dor, mistério do amor

Irmã Clara Isabel Morazzani Arráiz, EP

Era o Templo restaurado por Herodes. Embora “feito de belas pedras e recamado de ricos donativos” (Lc 21, 5), bem longe estava de possuir o esplendor e a magnificência do anterior, erigido segundo a capacidade e a sabedoria de Salomão.

Naquele dia, um casal, levando o mais belo de todos os meninos, atravessou os umbrais do recinto sagrado, com o intuito de cumprir as prescrições da Lei a respeito dos primogênitos. Na aparência, aquela cena nada tinha de extraordinário: com muita frequência as famílias israelitas, vindas das mais variadas cidades, chegavam a Jerusalém, trazendo seus filhos para apresenta-los ao Senhor e oferecer o sacrifício prescrito pela Lei: um par de rolas ou dois pombinhos (cf. Lc 2-24). Quase sempre as mães preferiam associar esta cerimônia àquela da sua própria purificação, à qual estavam obrigadas pelas rígidas normas do Levítico.

Entretanto, nessa ocasião, o ritual da apresentação revestia-se de dimensões verdadeiramente divinas e fora previsto com séculos de antecedência pelo profeta Ageu: “Encherei de minha glória este templo — diz o Senhor do universo. A prata e o ouro me pertencem — oráculo do Senhor do universo. O esplendor futuro deste templo será maior que o primeiro — oráculo do Senhor do universo. Neste lugar Eu darei a paz — diz o Senhor do universo” (Ag 2, 7b-10). E por Malaquias: “Logo chegará a seu templo o Dominador, que vós procurais, e o Anjo da Aliança, que vós desejais” (Ml 3, 1b).

Com efeito, aquela arrebatadora criança, conduzida nos braços de sua Mãe para submeter-Se humildemente aos preceitos da Lei mosaica, era o próprio Dominador, o Filho Unigênito de Deus, nascido sob o domínio da Lei, para resgatar os que se encontravam sob o domínio da Lei (cf. Gl 4, 5).

Dia de gáudio e de glória aquele em que, por fim, as profecias atingiam sua realização e o Divino Menino começava a ser reconhecido pelos que “em Jerusalém esperavam a redenção” (Lc 2, 38).

“Uma espada transpassará a Tua alma”

Entrando no templo, Maria e José depararam-se com um ancião de venerável aspecto, que para lá se dirigira, cheio de esperança, sob a inspiração do Espírito Santo (cf. Lc 2, 27). Ao ver o Menino Jesus, Simeão, que poderia ser denominado o varão-esperança, logo começou a bendizer a Deus e a profetizar a respeito dEle, deixando admirados Seu pai e Sua mãe (cf. Lc 2, 33). Também Ana, a profetisa, que se encontrava no Templo, pôs-se a falar sobre Ele, tornando-se uma das primeiras anunciadoras da missão redentora de Jesus. Maria e José ouviam todas essas palavras, e Seus corações enchiam-se de gozo ao constatarem que o inefável mistério do qual ambos eram depositários, Deus Se dignara comunicá-lo também a outras almas, manifestando-lhes a presença de Cristo no mundo.

Simeão tomou o Menino nos braços e, após ter sido pago o imposto, entregou-O à Sua Mãe, dizendo-Lhe: “Uma espada transpassará a Tua alma” (Lc 2, 35).

Que contraste impressionante! Ali estava o casal princeps, duas criaturas escolhidas por Deus para servir de arquetipia à humanidade: Maria e José. Nesses momentos de consolação, nos quais a Luz descida do Céu para revelar-Se às nações começava a deitar seus primeiros raios, abria-se já, de maneira oficial, a “via dolorosa” que o Senhor apontava à Sua Santa Mãe. A alegria de Maria — de possuir um Filho que é Deus e de pertencer a um Deus que é Seu Filho — naquele instante transformou-se em tristeza. Auge de alegria e auge de tristeza conjugaram-se no coração da Virgem: quanta perplexidade nessa ocasião em que tudo deveria falar de júbilo e, entretanto… “uma espada transpassará a Tua alma”!

Pelo pecado, o sofrimento tornou-se inerente à condição humana

Por que quis Deus unir a dor à alegria num verdadeiro paradoxo, inevitável na vida humana? Todos nós, pelas inclinações da natureza, sempre propensa a buscar a felicidade e a fugir de qualquer sofrimento, somos incapazes de compreender essa maravilha, se não for por um especial auxílio da graça. Fora da filosofia cristã iluminada pela fé, o problema da dor tem sido sempre algo difícil de resolver. Enquanto alguns a concebem como um mal a ser evitado a todo custo, outros, passando ao extremo oposto, consideram-na imprescindível e chegam a fazer dela um prazer malsão e amargo, única saída para sua falta de esperança.

A Igreja, ao contrário, sempre tratou desse assunto de forma equilibrada. Em virtude do pecado original, o sofrimento tornou-se inerente à condição humana, e o homem deve utilizar-se dele para o serviço de Deus, transformando-o numa fonte de méritos e até de glória.

A respeito do modo de como os homens, tanto os bons quanto os maus, suportam as tribulações, assim escreve Santo Agostinho: “Embora justos e pecadores sofram um mesmo tormento, o resultado não é o mesmo. O mesmo fogo faz resplendecer o ouro, purificando-o, e a palha lançar fumaça; o mesmo trilho serve para limpar os grãos e quebrar as arestas… Assim também, uma mesma adversidade purifica e aperfeiçoa os bons, e destrói e aniquila os maus. Por conseguinte, numa mesma calamidade, os pecadores se revoltam e blasfemam contra Deus, enquanto os justos O glorificam e pedem misericórdia; a grande diferença de sentimentos não está na qualidade do mal que uns e outros padecem, mas na das pessoas que o sofrem. Sacudidos de um mesmo modo, o lodo exala um mau cheiro insuportável, e o bálsamo precioso um suavíssimo odor”.1

Cristo quis assumir a nossa carne em estado padecente

Para conhecermos a fundo todo o valor que se desprende da dor quando santamente aceita, bastanos observar que esta foi a via escolhida pela Providência para o próprio Homem-Deus e Sua Mãe Santíssima. Ao nos aproximarmos de um altar em qualquer igreja da terra, sempre o encontraremos presidido por um Crucifixo; e, aos pés dessa Cruz, indissociável do Filho, imaginamos uma Mãe que chora: Stabat Mater dolorosa, juxta crucem lacrimosa

Reza a teologia que, para resgatar o gênero humano, teria bastado Nosso Senhor Jesus Cristo oferecer a Deus Pai um simples gesto, uma curta palavra, ou até mesmo um piscar de olhos, por serem de valor infinito todos os Seus atos.2 Portanto, uma única gota de sangue derramada durante a Circuncisão seria suficiente para consumar a obra da Redenção.3

Entretanto, decretou o Padre Eterno que Ele sofresse a Paixão e Morte de Cruz, pois não poderia permitir que a Seu Verbo — “efusão da luz eterna, espelho sem mancha da atividade de Deus, imagem de Sua bondade” (Sb 7, 26) — fosse negada uma glória em plenitude e esplendor. Foi por ilimitado amor ao Seu Unigênito que Deus permitiu as ignomínias da Flagelação, as humilhações do Ecce Homo, a exaustão da Via-Sacra e os tormentos da Crucifixão. O Filho, que por Sua natureza divina não era capaz de sofrer, quis assumir nossa carne em estado padecente, e não em corpo glorioso, como correspondia à Sua alma, a qual se encontrava na visão beatífica desde o primeiro instante da Encarnação.

Agindo desse modo, Deus não visou apenas operar a Redenção da forma mais esplêndida, mas quis propor aos homens de todos os tempos o Modelo perfeito a ser seguido. Assim se expressa a respeito deste tema o piedoso Pe. André Hamon: “Quando Deus, em Seus eternos decretos, decidiu a Encarnação do Verbo, propôs-Se apresentar aos olhos dos homens o modelo da vida nova que deveria salvá-los. Como homem, o Verbo Encarnado lhes mostraria o caminho; como Deus, lhes daria a garantia da perfeição do modelo. Suas virtudes seriam imitáveis, pois seriam a ação de um homem; e uma regra segura, já que seriam a ação de um Deus”.4

O mistério profundíssimo da Cruz

Ora, ao contemplarmos o Homem-Deus, deparamo-nos com esse profundo mistério: Ele, o Onipotente, o Senhor da Glória, a quem os Anjos adoram sem cessar, “fez-Se em tudo semelhante a nós, exceto no pecado” (Hb 4, 15), e sofreu as contingências da condição humana como fome, sede, sono, e fadiga. Para a mentalidade do homem moderno — pervadida pela ideia de um triunfalismo mal compreendido, da qual desapareceu quase completamente o verdadeiro sentido da dor —, a figura de Nosso Senhor Jesus Cristo cravado na Cruz, clamando ao Pai a magnitude de Seu abandono, aparece como a de um fracassado. “Em verdade, Ele tomou sobre Si nossas enfermidades, e carregou os nossos sofrimentos: e nós O reputávamos como um castigado, ferido por Deus e humilhado” (Is 53, 4).

Entretanto, devemos procurar discernir a sublime lição contida no Sacrifício do Calvário, cuja renovação incruenta se opera diariamente em todos os altares do mundo. Em seu poema O Triunfo da Cruz, assim canta São Luís Maria Grignion de Montfort: “É a Cruz, sobre a terra mistério profundíssimo, que não se conhece sem muitas luzes. Para compreendê-lo é necessário um espírito elevado. Entretanto, é preciso entendê-lo para que nos possamos salvar. […] A Cruz é necessária. É preciso sofrer sempre: ou subir ao Calvário ou perecer eternamente. E Santo Agostinho exclama que somos réprobos se Deus não nos castiga e nos prova”.5

Deus quis submeter o homem à prova

A vida no Paraíso Terrestre era isenta de qualquer incômodo. O homem estava mergulhado na felicidade: os vegetais se encontravam à sua disposição, os animais o serviam, não havia doenças nem cansaço, e, por um especial favor do Criador, a ameaça da morte não o atingia. Também sua alma vivia em paz, pois, graças ao dom da integridade, a carne e o espírito não entravam em conflito, e todas as paixões se ordenavam à luz da Fé.

Não obstante, em meio àquela agradável existência cheia de delícias, Deus quis que houvesse uma prova e, em consequência, uma pequena dor: “Não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal; porque no dia em que dele comeres, morrerás indubitavelmente” (Gn 2, 17).

Era conveniente que Deus, seriedade infinita, exigisse do homem um tributo de sua submissão, por meio do qual este demonstrasse a autenticidade dos louvores e das honras que prestava a seu Criador. A aceitação desta prova era uma renúncia magnífica e uma homenagem ímpar, que partia da humanidade logo em seu nascedouro e se elevava até o trono de Deus.

O pecado e suas consequências

Ora, Adão e Eva sucumbiram à tentação. Talvez lhes tenha sobrevindo a ideia, não explícita, de que não deveria existir a mais leve dor na ordem da criação, e perante a prova que Deus lhes impunha tomaram uma atitude de revolta interior, induzidos a roubar a própria honra de Deus.

Os nossos primeiros pais pecaram. E a queda trouxe o castigo, em sentença proferida pelo próprio Deus: “Multiplicarei teus sofrimentos […] maldita seja a terra por tua causa. Tirarás dela com trabalhos penosos o teu sustento todos os dias de tua vida” (Gn 3, 16-17).

O pecado produziu uma revolução nessa harmonia interior e exterior na qual antes viviam: o homem encontrou-se de repente cercado de mil perigos da natureza, os animais se lhe tornaram hostis, a terra produziu espinhos e abrolhos, e ele viu-se obrigado a comer o pão com o suor de seu rosto (cf. Gn 3, 18-19). Sua alma tornou-se vítima das más inclinações, sujeita ao erro e à rebeldia dos instintos contra os ditames da razão. E a História passou a registrar a peregrinação árdua e dolorosa de uma humanidade em guerra constante contra si mesma, conforme diz o Livro de Jó: “A vida do homem sobre a terra é uma luta” (Jó 7, 1).

A culpa de nossos primeiros pais atraiu sobre eles, e sobre sua posteridade, a maldição e a perda da amizade de Deus, reparável somente por meio do Batismo e da graça. Mas atingiu também a ordem do universo, da qual Adão fora feito rei: “Deste-lhe poder sobre as obras de Vossas mãos, Vós lhe submetestes todo o universo” (Sl 8, 7).

Afirma São Paulo: “A criação foi sujeita à vaidade (não voluntariamente, mas por vontade daquele que a sujeitou), todavia com a esperança de ser também ela libertada do cativeiro da corrupção, para participar da gloriosa liberdade dos filhos de Deus. Pois sabemos que toda a criação geme e sofre como que dores de parto até o presente dia” (Rm 8, 20-22).

Um Deus abraçado à Cruz

Apesar de ter maculado a Criação, o pecado não conseguiu frustrar os planos de Deus, como era intuito do demônio. Pelo contrário, determinou Ele, em Seus insondáveis desígnios de misericórdia, estabelecer uma ordem do universo ainda mais bela e esplendorosa, nascida da Encarnação e do sacrifício de seu Filho Unigênito.

Na harmonia dessa nova ordem, haveria de ser preponderante o papel da dor. Tendo sido mal correspondida a prova no Paraíso, a vida da graça, trazida pela Redenção, não poderia conceber-se sem sofrimento, de modo que os “degredados filhos de Eva” reparassem a falta de seus pais.

Era preciso que os homens adorassem um Deus abraçado à Cruz, o Vir dolorum previsto por Isaías, cravado sobre o madeiro do opróbrio e da ignomínia, e tivessem diante do Homem-Deus moribundo todas as ternuras e venerações de que o coração humano é capaz.

Ele desceu a esta terra de exílio, atravessando as brumas do pecado sem Se deixar tocar por ele, e, tomando sobre Si as nossas fraquezas, com elas subiu ao Gólgota para ali consumar Seu holocausto e restituir aos homens a paz e a felicidade que haviam perdido.

É bem verdade que, ao longo dos três anos de vida pública, teve Ele um período brilhante aos olhos do mundo, durante o qual as multidões iam à sua procura, sôfregas de ouvir Seus ensinamentos e beneficiar-se de Seus milagres. Quando de Sua entrada solene em Jerusalém, a multidão cantava “hosana ao Filho de Davi” (Mt 21, 9). Houve, inclusive, aqueles que quiseram proclamá-Lo rei (cf. Jo 6, 15). Mas, em meio a todos os êxitos, a pior das dores incrustava-se em Seu Coração, delineando Sua missão de Servo Sofredor e deitando uma sombra sobre o futuro que O esperava: era a brutal falta de correspondência daqueles que mais O deveriam reconhecer. “Veio para o que era Seu, mas os Seus não O receberam” (Jo 1, 11).

Se, em Sua trajetória terrena, Nosso Senhor tivesse recebido sempre todas as glorificações do Tabor e do Domingo de Ramos, algo da Sua benquerença pelos homens e da Sua disposição de entregar a vida por eles teria deixado de refulgir aos nossos olhos, e não compreenderíamos suficientemente o mistério de amor que se discerne na Cruz e no Santo Sepulcro. “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos” (Jo 15, 13).

Somos chamados a colaborar na obra da Redenção

Ora, movido por Seu ilimitado amor aos homens, Jesus quis também a participação deles na Sua dor. Ele não necessita de concurso humano algum para redimir-nos, uma vez que o Preciosíssimo Sangue derramado na Paixão bastaria para apagar os pecados de infinitas criaturas, mas deseja associar-nos a Seus sofrimentos e assim fazer-nos partícipes de Seus méritos e de Sua glória. É este o simbolismo da água que o sacerdote mistura ao vinho, na preparação do cálice para o Santo Sacrifício. Nossas dores, de si, valem menos até do que umas poucas gotas de água, pois, o mais das vezes, estão contaminadas por imperfeições e misérias; mas unidas ao “vinho que engendra virgens”, podem aquelas tornar-se uma “mesma e única bebida de salvação”.6

São Paulo mostrou ter penetrado a fundo nesse mistério, quando escreveu em sua epístola aos Colossenses: “ Agora me alegro nos sofrimentos suportados por vós. O que falta às tribulações de Cristo, completo na minha carne, por Seu corpo que é a Igreja” (Cl 1, 24).

Esta passagem é assim comentada por Tanquerey: “Certamente, esta Paixão é, não somente completa, mas abundante e superabundante. No entanto, como Jesus é a cabeça de um corpo místico, do qual todos nós somos os membros, a Paixão deste Cristo místico se completa cada dia em seus membros sofredores, e ela não estará terminada senão quando o último dos eleitos tiver sofrido sua parte das dores de Cristo. […] Então a dor terá um sentido, então seremos verdadeiramente os colaboradores do Divino Salvador na obra da salvação das almas”.7

Crisol onde Deus lança as almas muito amadas

Levando isto em consideração, o papel da dor na vida humana adquire uma perspectiva tão elevada que torna inteiramente fora de propósito qualquer queixa ou inconformidade de nossa parte em relação às cruzes que Deus tenha por bem nos enviar.

Na aceitação inteira da vontade divina encontramos o melhor meio de restituir ao Criador a glória que Lhe foi negada pela primitiva desobediência, manifestando-Lhe, por um ato de conformidade com Seus desígnios, nosso tributo de amor e de reparação à Sua Majestade ofendida.

Ao mesmo tempo, se encetarmos as veredas da dor com ânimo resoluto, é-nos oferecida a ocasião de alcançar preciosos benefícios para o progresso de nossa vida sobrenatural. Dada a tendência natural do homem para o egoísmo, facilmente ele se esquece de Deus quando a felicidade e o sucesso parecem seguir seus empreendimentos. A adversidade é, pois, um poderoso auxílio para purificar a alma do apego excessivo às criaturas, obrigando-a a considerar a inanidade dos bens passageiros e voltar-se só para Deus, único Bem do qual tudo se pode esperar.

Tais disposições perante o sofrimento conferem um caráter respeitável àquele sobre o qual este se abate, tornando-o digno de admiração.

Nos dias de hoje, o sentido cristão da palavra “admirável” vai-se perdendo, dando lugar a conceitos deturpados, segundo os quais o homem, para alcançar a plena realização de sua personalidade, deve ser bem sucedido na vida, correr de vitória em vitória, sem jamais ser incomodado por qualquer revés ou dificuldade; só assim se tornará merecedor do aplauso e da aceitação dos demais. A experiência histórica, porém, nos revela o contrário: os homens sofredores, que ao longo de sua existência tiveram de enfrentar perigos, angústias, incompreensões e até mesmo aparentes catástrofes, mas, fortalecidos pela graça divina, acabaram vencendo, esses sim são verdadeiramente dignos da aprovação dos demais homens e do beneplácito de Deus.

A dor é, pois, o crisol onde a Providência lança as almas muito amadas, sobre as quais repousa uma especial predileção de Sua parte, para delas recolher apenas a prata finíssima, livre de qualquer impureza. O Livro do Eclesiástico deita uma luz sobre essa atraente temática: “Meu filho, se entrares para o serviço de Deus, permanece firme na justiça e no temor, e prepara a tua alma para a provação; humilha teu coração, espera com paciência, dá ouvidos e acolhe as palavras de sabedoria; não te perturbes no tempo da infelicidade, sofre as demoras de Deus; dedica-te a Deus, espera com paciência, a fim de que no derradeiro momento tua vida se enriqueça. Aceita tudo o que te acontecer. Na dor, permanece firme; na humilhação, tem paciência. Pois é pelo fogo que se experimentam o ouro e a prata, e os homens agradáveis a Deus, pelo cadinho da humilhação” (Eclo 2, 1-5).

Duas atitudes perante a tragédia

Recebida com resignação, ou com sobrenatural entusiasmo, a dor enaltece o homem e o convida a uma doação generosa de si mesmo, da qual, na prosperidade, talvez ele não se julgasse capaz. Assim, pode haver circunstâncias infelizes que, de modo inesperado, reduzam à derrota alguém anteriormente coroado de êxito. Colocado diante de sua própria tragédia, ele poderá chorar, lamentando seu fracasso, e afundar-se no abatimento e na revolta contra Deus; ou então ele se erguerá com uma grandeza de alma triunfal, compreendendo a beleza de seu infortúnio, já que este o aproxima mais da Divina Vítima do Calvário.

Em palavras dirigidas aos peregrinos reunidos na Praça de São Pedro, assim se exprimia o hoje Papa Emérito Bento XVI: “Jesus sofre e morre na Cruz por amor. Deste modo, considerando bem, deu sentido ao nosso sofrimento, um sentido que muitos homens e mulheres de todas as épocas compreenderam e fizeram seu, experimentando uma profunda serenidade também na amargura de árduas provas físicas e morais”.8

No instante em que o homem se abraça à Cruz e a toma como um presente da munificência divina, manifesta-se todo o poder sublime e ao mesmo tempo misterioso do holocausto. Sua dor torna-se fecunda e profícua, mais eficaz na ordem da Comunhão dos Santos e na realização dos desígnios de Deus do que seus esforços naturais ou suas demais obras apostólicas. Oferecido o sacrifício, algo na alma germina, nasce e gera frutos, elevando-se diante de Deus como oblação grata e imaculada, e dando ao homem uma alegria e uma paz interior que todas as riquezas e glórias do mundo jamais poderão proporcionar-lhe.

Nos dias cheios dos imponderáveis sérios e graves da Semana Santa, acheguemo-nos aos pés da Cruz onde pende o Salvador, abandonado por quase todos — sobretudo neste século em que tantos e tantos homens só procuram o prazer e bem-estar pessoal — e coloquemos nas mãos da Mater Dolorosa, cuja alma foi transpassada pelo gládio da dor, toda a nossa entrega e disposição de padecer por Cristo e por Sua Igreja. As lágrimas de Maria purificarão nossa oferta das eventuais misérias das quais possa estar manchada e a tornarão útil para a edificação de Seu Reino e o triunfo de Seu Imaculado Coração.

1 AGOSTINHO, Santo. A Cidade de Deus. l. 1, c. 8.
2 Cf. ROYO MARÍN, OP, Fr. Antonio. Jesucristo y la vida cristiana. Madrid: BAC, 1961, p. 324.
3 Cf. DENZINGER, H.. HÜNEMANN, P. Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral. São Paulo: Loyola; Paulinas, 2007, p. 328, n. 1.025.
4 HAMON, M. André-Jean-Marie. Méditations. Paris: Lecoffre, 1933, v I, p. 55-56.
5 MONTFORT, São Luís Maria de. Carta-circular aos amigos da Cruz. Cântico “O Triunfo da Cruz”. Trad. Maria Helena Montezuma Pohle. Rio de Janeiro: Santa Maria, 1954, p. 67-68.
6 Cf. CANTALAMESSA, OFMCap, Raniero. Obediencia. Trad. Ricardo M. Lázaro Barceló. 3. ed. Valencia: Edicep, 2002, p. 71. TANQUEREY, Adolphe. La divinisation de la souffrance. Paris-Tournai-Rome: Desclée de Brouwer, 1931, p. IX-X. Ângelus, 01/02/2009.
7 TANQUEREY, Adolphe. La divinisation de la souffrance. Paris-Tournai- Rome: Desclée de Brouwer, 1931, p. IX-X.
8 Ângelus, 01/02/2009.

Dignidad humana en el mundo contemporáneo

Irmã Martha Lucía Ovalle Pinzón,EP

Continuación del post anterior

El significado de dignidad, en la concepción de la Época Moderna, fue reformulado: la dignidad del hombre deriva de su naturaleza humana pero esta se desvincula progresivamente de cualquier origen divino.

Hernán Mora comenta: “Como en la Época Pre-Moderna se hace un elogio de las capacidades humanas pero, esta vez, deduciendo de éstas mismas la dignidad del hombre, sin acudir a ningún parentesco religioso”1.

Debido a esta separación del hombre y Dios, surge el debate secular en el que la persona misma o terceros deciden el momento de terminar con la existencia en casos “especiales”. Se podría pensar que se le da a la vida un valor mensurable si se compara con otra. En este sentido, defendiendo la eutanasia, Iribarren2, en un artículo de la revista Derecho a morir dignamente, se refiere al pensamiento de Kant, afirmando que la dignidad del ser humano consiste en ser considerado como un fin en sí mismo. Ésta idea de dignidad, para él, va íntimamente unida al deseo de libertad y autonomía del ser humano y, por lo tanto, al desarrollo de aquellos valores que pertenecen a lo más íntimo del hombre.

De un sistema de homogeneidad de valores hemos pasado a otro en el que la pluralidad y la lucha por la misma han ocupado el primer lugar, con la disculpa de respetar la opinión de los demás, pues todos tenemos la razón en algo. Como ejemplo de un concepto de respeto, valorando la dignidad humana, el Doctor Mejía afirma: “El respeto comporta no el distanciamiento de las otras personas por temor a ofenderlas o hacerles daño, sino el asumir la dignidad propia que esa persona posee independientemente de su edad, sexo, condición social, raza o cultura”3.

doentesEl ser humano no dejará de ser digno por muy pobre, viejo o enfermo que se encuentre. Siempre será hombre y siempre será digno. Cada vida es única por tener su origen y raíz en la bondad de Dios, ya que por voluntad propia quiso infundirla en múltiples seres de la tierra. El mismo Mejía añade que: “el hombre actual teniendo a sus pies los atributos de Dios en la tecnología, el desarrollo de las ciencias y el florecimiento de una civilización opulenta, es capaz de enfrentar a Dios y de querer manipularlo”4. Pretende igualarse al punto de querer ser como Él, decidiendo así en diferentes realidades temporales que no le competen, como el momento de dar término a una vida humana.

En cuanto a la dignidad humana, la fundación para el Derecho a Morir Dignamente pone el concepto en el debate de cuál es su verdadera escala de medición, llegando a la conclusión de que cada cual tiene la suya, ya que cada ser dependiendo de las circunstancias construye y reconstruye sus bases morales, éticas y religiosas, conduciendo a un evidente relativismo. En contraposición a esta postura, se resalta el hecho de que todos los seres humanos tienen la capacidad de diferenciar entre el bien y el mal; “es una manifestación de lo que llamamos ley natural, es decir, la ley que Dios fija a través de la naturaleza y de la razón (…) esta es universal, la reconocieron y reconocen los griegos, romanos, los hindúes, judíos o musulmanes”5. En España los adversarios de la eutanasia sostienen el siguiente argumento frente a lo planteado por Derecho a morir dignamente: “Cualquiera que sea la situación física o psíquica en la que se encuentre la persona, ésta conserva su dignidad, la cual no es susceptible de grados: no podemos ni perderla ni ganarla, incrementarla o disminuirla, ni está sujeta a la calidad de vida, por lo que no varía por la enfermedad o el sufrimiento, la malformación o la demencia”6.

A causa de un relativismo en las ideas y costumbres que se extienden por el mundo actual, el hombre ha encontrado el punto exacto de no culpabilidad de los actos, tan solo se ampara en la múltiple posibilidad de verdades que pueden existir en el universo que representa la mente de cada ser humano y las circunstancias en que este se inscribe, llegando finalmente al relativismo ético que a su vez afirma que “no hay verdades absolutas, ni bien o mal que no sean relativos7”. En contraposición Santo Tomás afirma: “Toda ley puesta por los hombres tiene razón de ley cuando deriva de la ley natural. Por el contrario, si contradicen en cualquier cosa la ley natural no será ley sino corrupción de la ley8”. Al respecto, el Papa Benedicto XVI 9 afirma que cuando están en juego las exigencias fundamentales de la dignidad de la persona, de su vida y los derechos primordiales, ninguna ley hecha por los hombres puede trastocar la norma escrita por el Creador; así la ley natural es la garantía de la persona para vivir libre, respetada y protegida de toda manipulación ideológica.

Hernán Mora9 hace una referencia al pensamiento de Juan Pablo II, que por su parte afirma que la dignidad del ser humano no es un fundamento materialista, ni biológico; ésta se inicia al aceptar que tanto hombre como mujer son seres creados a imagen y semejanza de Dios; en esa realidad que es ontológica se cifra la dignidad humana.

En medio de esta bella concepción de dignidad, el uso de la libertad se manifiesta en la elección concreta incluso de su último fin – Dios –, el cual, aunque ya sea determinado por la naturaleza, el hombre con su capacidad de raciocinio, puede o no aceptarlo; de esta forma marca la distancia que separa al hombre de las formas y las existencias inferiores y funda el clarísimo indicio de la condición personal del ser humano dentro del mundo, el cual determina su realidad y en consecuencia su dignidad. Siendo esta capacidad exclusiva para el hombre, “la vida humana es el fundamento de todos los bienes, la fuente y condición necesaria de toda actividad y convivencia social”10.

Con relación a la eutanasia, en nombre de la dignidad como fundamento filosófico que apela a la libertad y a la autodeterminación, un peticionante puede pedir la muerte de acuerdo a las condiciones que éste considera indignas para sí: estado terminal, alteraciones neurológicas severas, entre otros.

Para G. Herranz11 hay dos nociones de dignidad, que definen la posición desde las dos orillas de la discusión; los que están en contra y a favor de la eutanasia. En una se proclama la dignidad impalpable de toda la vida humana, incluso a la hora de la muerte. Se puede decir que esta dignidad se extiende hasta después del trance de la misma, pues el cadáver, aunque ya sin vida, fue hombre y nos recuerda la dignidad de la persona que existió. Es por esto que se tiene la costumbre de homenajear de alguna forma, según cada creencia, a aquel que dejó una huella histórica en el existir. Retomando la opinión de Herranz, todas las vidas humanas, en toda la duración, tienen una dignidad intrínseca, objetiva, en la misma dimensión. Quienes están a favor de la eutanasia afirman que la vida es un don, que tiene una reconocida dignidad, pero que ésta es desigual en todos los seres humanos, y que en cada uno puede sufrir variaciones con el pasar del tiempo, pudiendo aminorarse hasta llegar a desaparecer. Esto depende de la calidad de la vida, pues, si se viera afectada de manera crítica, la persona humana deja de ser digna, pues su vida ya no es vida.

En el ámbito de la bioética – que es literalmente la ética de la vida –, el respeto de la vida puede considerarse como su principio y su fin último, ya que desde Hipócrates la defensa de la misma ha sido la razón de ser de aquel que ejerce la medicina: “juro… que no daré a nadie un veneno, aunque me lo pida, ni tomaré iniciativa de cualquier sugerencia en este sentido (…)”12. La razón de ser de este imperativo es comprensible si se tiene en cuenta que para una persona la vida es el valor fundamental y depende de éste que se lleven a cabo todos los demás.

Sobre el valor de la vida el Doctor Andorno afirma que:

(…) la vida física es el valor supremo de la persona. Su cuerpo es parte constitutiva de su ser-en-el-mundo. Es gracias a su cuerpo que ella vive en el espacio y en el tiempo. Por ello, ella tiene el deber de conservarlo, es decir, de cuidar su salud y al mismo tiempo de respetar el de los demás. El respeto de la vida es, en efecto, el primer imperativo ético del hombre para consigo mismo y con los demás13.

La vida, el acto de existir, le brinda al ser humano la posibilidad de hacer uso de sus potencialidades y tomar decisiones; he aquí el uso de la libertad. Dicha existencia, aunque está determinada por factores intrínsecos y extrínsecos, debe en todos los casos buscar la supervivencia y el bienestar dentro de las posibilidades, hablando en un plano natural – sin olvidar el plano sobrenatural.

Es por esto que optar por una posición a favor de acabar con la vida puede ser un acto inhumano e indigno.

1 PELÈ, Antonio. Una aproximación al concepto de dignidad humana. [En línea]. [Consulta: 13 Jul., 2009].
2 IRIBARREN, Sebastián. Dios mío ¿por qué me has abandonado? En: Revista Derecho a Morir Dignamente. Madrid. No. 49 MEJÍA, Op. Cit., p. 32.
3 Ibid., p. 26.
4 MARTINEZ SAEZ, Santiago. Relativismo ético. En: Persona y Bioética. Chía. Vol. 12, No. 1. (Ene. – Jun., 2008); p. 33.
5 LAFRANCONI, María Lucía. Dignidad, eutanasia y derechos humanos. [En línea]. [Consulta: 18 May., 2009].
6 MARTÍNEZ SAEZ, Op. Cit., p. 33.
7 SANTO TOMÁS DE AQUINO. Suma de Teología. I-II, c. 95, a. 2.
8 BENEDICTO XVI. El progreso depende del respeto a la ley moral. En: Revista Heraldos del Evangelio. Bogotá. No. 52. (Nov., 2007); p. 45.
9 MORA CALVO, Op Cit., p. 90.
10 JUAN PABLO II. Declaración “Iura et Bona”, sobre la eutanasia. En: El don de la vida. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, 1996. p. 401.
11 HERRANZ, Gonzalo. La metamorfosis del activismo pro eutanasia. En: Persona y Bioética. Chía. Vol. 8, No. 22. (May. – Ago., 2004); Citado por SERRANO RUIZ-CALDERÓN, José M. La eutanasia y su regulación. En: TOMÁS Y GARRIDO, Gloria María y POSTIGO SOLANO, María Elena. Bioética personalista: ciencia y controversias. Madrid: Internacionales Universitarias, 2007. p. 404.
12 HIPÓCRATES. Juramento [En línea]. [Consulta: 22 May., 2009].
13 ANDORNO, Roberto. Bioética y dignidad de la persona. Madrid: Tecnos, 1998. p. 37.

A princesa africana

S Teresa JulianaIrmã Lucía Ordoñez Cebolla, EP

“Morreu tendo vivido setenta e dois anos sem mancha de pecado mortal”. Esse magnífico epitáfio resume a vida de uma africana, nobre por seu sangue, mas muito mais pela virtude de sua alma.
Era o ano de 1676, quando os olhos de Tshikaba contemplaram pela primeira vez a luz deste mundo. Nascida na África Ocidental, às margens do Golfo da Guiné, era a última dos quatro filhos de uma família de reis. Bem cedo, demonstrara inteligência incomum e, por isso, comentava-se ser ela quem governaria após a morte de seus pais.

O reino de Tshikaba era pagão e seus habitantes adoravam o Sol. Ansiosos, aguardavam as primeiras luzes do alvorecer para saírem ao encontro do astro-rei com cantos e aclamações rituais. Mas Tshikaba era uma menina diferente das outras. Reflexiva e contemplativa, indagava o sentido de todas as coisas ao seu redor, procurando responder à pergunta que surgia invariavelmente no seu interior: quem comanda e mantém esta natureza tão exuberante e repleta de beleza? Sem ela perceber, a sede insaciável do Absoluto brotava do mais profundo de sua alma inocente.

Angustiada em seu pueril intelecto, foi interrogar seu irmão, o qual apenas soube lhe dizer que a “Estrela da Manhã” era, indiscutivelmente, a grande divindade à qual era preciso adorar. Insatisfeita e cheia de perplexidades, foi interrogar o rei:

— Papai, o astro que cultuamos está no céu como todos os outros. Nada o diferencia, a não ser seu brilho. Alguém o pôs lá; e esse alguém tem de ser muito mais poderoso do que o Sol. É esse Ser misterioso que procuro e desejo conhecer, porque só Ele deve ser adorado!

O pai não teve resposta para dar à menina, inspirada pelo sopro da graça.

Um propósito aos nove anos

Tshikaba gostava de caminhar pelo campo entregando-se às suas meditações. Em um dos seus passeios, sentou-se para descansar um pouco, perto da nascente de um rio. Ao contemplá-la, perguntava-se: “Quem será esse Ser desconhecido que colocou aqui esta fonte?”.

De repente, a menina levantou os olhos e viu, extasiada, ao lado do manancial, uma Senhora de pele alva como a neve, carregando nos braços um belíssimo Menino que, sorrindo, acariciava a cabeça da princesa moreninha. Ali, por fim, o Divino Infante — o verdadeiro Deus tão almejado — lhe revelou Seus segredos e Sua Mãe Santíssima lhe falou a respeito de Sua vida. Que terão dito? Tshikaba preferiu manter silêncio, mas a partir desse encontro sua vida mudou completamente.

Mais tarde, seu irmão Juachipiter lhe disse terem decidido seus pais que seria ela quem os sucederia no governo, ao que a pequena respondeu: “Saiba que não irei me casar com ninguém deste mundo. Eu só quero saber de um Menino branco que conheci!”.

Tshikaba tinha apenas nove anos de idade.

Seqüestrada providencialmente

Algum tempo depois, saiu ela novamente a passear pelo campo. Nesse dia, porém, decidiu fazer outros caminhos, a fim de conhecer novas paisagens. Andando sem rumo, acabou por se perder, e nada do que via lhe era conhecido. Por fim, sentou-se junto a uma árvore, de onde podia avistar o mar.

Contemplando a vastidão do panorama, percebeu não muito longe a silhueta de um barco se aproximando. Era um navio espanhol. Imersa em sua constante preocupação, sentiu, de repente, que alguém a agarrava pelo braço. Um jovem desconhecido, sem dizer palavra alguma, a obrigava a segui-lo. Ela, dócil como toda criança, acompanhou-o, pensando que talvez ele pudesse ajudá-la a resolver o enigma que a atormentava.

O estranho visitante a conduzia cada vez para mais perto da costa. Quando quis perguntar-lhe quais eram suas intenções, não pode fazê-lo: tinha desaparecido. Assustada, olhou para frente e notou que o navio acabava de aportar. Tshikaba queria correr, mas suas pernas não lhe obedeciam. A tripulação, ao vê-la adornada com jóias e braceletes, logo percebeu tratar-se de uma menina com sangue real. E aqueles homens do mar a levaram para a nave, que logo retomou sua rota em direção à Espanha.

A pequena princesa, vendo sua terra natal se distanciar aos poucos, sentiu vontade de jogar-se nas águas, mas a Senhora do manancial apareceu a seu lado, dando-lhe consolo e coragem. Tshikaba tinha sido levada por um desígnio de Deus!

No percurso, ao passar pela cidade de São Tomé, os próprios marinheiros a batizaram, dando-lhe o nome de Teresa. Isto não lhe causou estranheza, pois, já na fonte, a alvíssima Senhora assim a chamara. O batismo era, no fundo, uma confirmação das promessas que Ela lhe fizera.

Assim, terminada a viagem, aos dez anos de idade, Teresa chegava ao porto de Sevilha.

Escalando a sagrada montanha do sofrimento

Da capital andaluza levaram-na a Madri, pois, sendo uma princesa, tinha de ser apresentada primeiramente ao rei. Carlos II acolheu-a com benignidade, e entregou- a aos cuidados do Marquês de Mancera, outrora vice-rei do México, com o encargo de lhe dar formação esmerada, começando por evangelizá-la.

No continente europeu, iniciou-se para Teresa outra etapa de sua vida: a cruz e o sofrimento seriam doravante seus companheiros inseparáveis, como o foram para Nosso Senhor, o Menino branco que a cativara e que ela já adorava como Deus.

Os nobres da casa de Mancera tratavam a pequena africana como a uma verdadeira filha, mas logo isso despertou inveja em toda a criadagem. Não foram poucos os maus-tratos e humilhações que Teresa teve de enfrentar. Mas ela tudo suportava com mansidão e paciência, indo se refugiar aos pés de uma comovedora imagem do Ecce Homo que havia num pequeno oratório do jardim. Ali, o próprio Cristo, chagado e ultrajado, Se encarregava de lhe mostrar as belezas incomparáveis do sofrimento, e ela compreendeu que no contato com a Cruz de Nosso Senhor a alma se purifica, as fraquezas são vencidas e se encontram forças para prosseguir na via da perfeição.

Por essa época, a jovenzinha manifestava forte entusiasmo pela vida religiosa, e revelou seu anseio aos marqueses. Sem colocarem oposição alguma, eles designaram o cavaleiro Diego Gamarra para encontrar um mosteiro no qual Teresa pudesse cumprir sua vocação. Este percorreu inúmeros conventos, porém sempre encontrava dificuldades e reticências para fazer admitir a pequena princesa, vinda de tão longínquas terras. Ela redobrou suas orações e penitências, implorando a Deus que, se realmente Ele a quisesse para Si, derrubasse todos os obstáculos que contra isso se levantavam.

Finalmente a Providência compadeceu-se de Teresa e Diego Gamarra conseguiu seu ingresso no Convento de Santa Maria Madalena, das Dominicanas da Penitência, em Salamanca; porém, apenas como terciária da ordem e servente da comunidade. Contente, ela abraçou essa humilhação na paz de espírito e na mansidão, conformada em nunca chegar a ser uma autêntica religiosa.

Serviço incondicional

Disposta a tudo, Teresa entrou no mosteiro para servir incondicionalmente às suas irmãs. Mas, em determinado momento, foi tomada por uma terrível provação: será que Deus realmente a queria ali? Não seria melhor voltar para a África e, como rainha, ser propulsora da fé cristã? A madre superiora, pessoa muito virtuosa, logo percebeu o estado espiritual de Teresa. Quando se lhe apresentou a oportunidade, interrogou-a. Vendo a bondade e o carinho da madre, a adolescente abriu-lhe a alma, reafirmando seu mais firme propósito de ser uma verdadeira religiosa.

Oito meses depois, o bispo de Salamanca autorizava Teresa a pronunciar os votos solenes, numa cerimônia que ele mesmo presidiria. Assim, no dia 29 de junho de 1704, aos 28 anos de idade, Teresa Juliana de São Domingos — confirmada para sempre na sua vocação — professava como terciária da Ordem Dominicana.

Acabada a cerimônia, Irmã Teresa caiu de joelhos ante o sacrário, transbordante de contentamento. Em meio às lágrimas de consolação, apareceu-lhe São Domingos de Gusmão, seguido de uma celestial comitiva, convidando-a a fazer os votos em suas próprias mãos! Após esta “profissão celeste”, seu Pai e Fundador a abençoou e desapareceu. As promessas da Senhora do manancial se cumpriam de forma total e completa!

Fazendo frente às bombas, pela devoção a São Vicente

Seria no quotidiano da vida monacal que aquela mítica princesa de um reino distante daria as melhores demonstrações de acrisolada virtude. Encarregaram-na de cuidar dos enfermos com as doenças mais repugnantes e aconselhar os atribulados, o que ela fazia com sobrenatural disposição. Tinha, ademais, o dom místico de discernir, pelo odor, as pessoas impuras, e isto a levava a mortificar seu próprio corpo, implorando a Deus que elas rompessem com o pecado. Era em extremo obediente, e sua vida de perfeição era exigida pelo próprio Céu: cada vez que cometia uma falta, apareciam Maria e Jesus para repreendê-la.

Sua fama de santidade espalhou-se rapidamente pela cidade inteira. Incontáveis salmantinos acudiam ao locutório do convento para expor-lhe seus problemas. Ela a todos recebia cheia de amabilidade, aconselhando a uns, obtendo por suas preces a saúde de outros, e até prevendo perigos ameaçadores.

Certa vez foi protagonista de um fato portentoso. Durante a Guerra de Sucessão, que naquela época sacudia a Espanha, a cidade de Salamanca estava sendo bombardeada. Irmã Teresa apressou-se a pôr numa janela do mosteiro uma estampa de São Vicente Ferrer, do qual era grande devota, para dele obter protecção contra qualquer ataque. E o resultado foi tão feliz que não só preservou seu mosteiro de todo dano, mas também, em breves minutos, espalhou-se a paz na cidade inteira.

Voando rumo à Pátria Celestial

Fazia já algum tempo que Irmã Teresa Juliana de São Domingos padecia de um tumor no joelho, quando, no outono de 1748, sofreu um forte ataque de paralisia. Estava ferida de morte, e a Providência lhe reservara para o período derradeiro a glória das grandes provações. Incertezas, dúvidas, aflições e o abandono dos homens tomaram-na inteiramente. Assim transcorreram seus últimos dias nesta terra, até que em 6 de Dezembro de 1748 recebeu os Sacramentos e entregou sua bela alma ao Redentor.

No dia seguinte, os sinos do convento de Santa Maria Madalena anunciavam o seu falecimento. Contam testemunhas de sua morte que, no momento de partir para a eternidade, sua pele ficou por alguns momentos alva como a neve. Ao mesmo tempo, seu corpo exalava um excepcional perfume.

Assim, a princesa africana — conhecida por todos com o carinhoso nome de La Negrita —, após ter escalado na terra os altos cumes da virtude, era elevada aos píncaros da perfeita união com Deus.

Beati mortui qui in Domino moriuntur. Admirável é a morte dos justos na presença do Senhor!

0 sofrimento, sinal de dileção

Lucia Nga Thi Vu

jesus gran poder

Em uma de suas homilias quando esteve no Brasil, o Papa João Paulo II afirmou: “A cruz, símbolo da fé, é também símbolo do sofrimento que conduz à glória e da paixão que conduz à Ressurreição. ‘Per crucem ad lucem’, pela cruz, chega-se à luz: este provérbio, profundamente evangélico, nos diz que, vivida em seu verdadeiro significado, a cruz do cristão é sempre uma cruz pascal” (Hom. Rio de Janeiro, 30/6/1980).

Segundo São Tomás, após o pecado original, estabeleceu-se na alma humana a necessidade do sofrimento para lhe facilitar a aceitação de seu estado de contingência e, assim, levá-la a recorrer ao auxílio sobrenatural. Sem esse poderoso auxílio, acentuar-se-ia no homem a tendência de fechar-se sobre si mesmo e constituir-se em centro do universo. A dor obriga-o a juntar as mãos em atitude de oração e a implorar a proteção de Deus.

A cruz é uma honra que Nosso Senhor dá para aqueles a quem ama. Por isso, Garrigou — Lagrange assinala: “Que maior prova de amor pode dar Deus a uma alma do que fazer dela uma vítima de amor, em união com o Crucificado?” (LAGRANGE, 1999, p.31 O).

O aceitar com resignação todos os sofrimentos e cruzes que, ao longo da vida, tem-se de carregar é de suma importância para todos aqueles que, por amor a Deus, resolvem trilhar as vias da virtude. Nosso Senhor Jesus Cristo deu-nos esse exemplo, ao submeter-se a dores atrozes, físicas e morais, no cumprimento de Sua missão redentora da humanidade.

Porém, a compaixão de Jesus para com todos aqueles que sofrem é tão grande que Ele se identifica com eles: “Estive doente e me visitastes” (Mt 25,36). Deste modo, cumpri-se de modo perfeito a profecia de Isaias: “Tomou nossas enfermidades e sobrecarregou-se dos nossos males” (Is 53,4).

Esse amor de predileção, por todos nós, alivia-nos os sofrimentos e ajuda-nos a encará-los como o Apóstolo Paulo: “Tenho para mim que os sofrimentos da presente vida não têm proporção alguma com a glória futura que nos deve ser manifestada” (Rm 8, 18).