As três ofertas

 Ir Patricia Rivas, EP

3º ano de Ciências Religiosas

Conta-se, nas crônicas da Ordem dos Menores, que, certa vez, Nosso Senhor apareceu a São Francisco de Assis, pedindo-lhe três ofertas. Ao que o santo respondeu: “Não tenho nada para oferecer, porque já me entreguei todo a Vós, e tudo o que me pertence vos pertence. O único que tenho é esta túnica e esta corda, que também são vossas”.

Nosso Senhor insistiu, dizendo-lhe que colocasse a mão no peito e tirasse daí uma oferta. São Francisco obedeceu, e tirou de seu peito uma moeda de ouro tão brilhante como nunca vira antes. Entregou-a a Nosso Senhor, que lhe ordenou repetir o gesto, e, pela segunda vez, o Santo encontrou uma moeda. Faltava apenas a terceira oferta. Nosso Senhor mandou o monge fazer o mesmo pela terceira vez e, assim, completaram-se  as três ofertas pedidas.

Nosso Senhor então lhe explicou que as três moedas simbolizavam a dourada obediência, a preciosa pobreza e a formosa castidade. São Francisco então declarou que em nada lhe remordia a consciência pelo fato de guardar tais moedas no peito…

No dia de nosso Juízo, quando formos cobrados por Deus, poderemos dizer como este grande Santo que tudo o que temos guardado conosco em nada nos remorde a consciência?

 

O cálice da obediência

Ir. Juliane Campos,EP

O sofrimento que tanto causa horror ao homem moderno é um dos meios mais eficazes de conferir celebridade. É o que encontramos nestas linhas sobre Santa Rita.

A obediência é uma das virtudes mais difíceis de serem praticadas, pois obedecer significa contrariar a própria vontade para fazer a de outrem, mortificando de modo especial a natureza humana, que recebeu de Deus a liberdade.

A História nos revela inúmeros belos exemplos de obediência. O mais sublime, sem dúvida, é o de Jesus, o qual, para redimir o gênero humano, “fez-se obediente até a morte, e morte de cruz”.

Abaixo do Salvador, o mais excelso modelo de obediência é Maria Santíssima, a perfeita discípula de seu Filho Divino, nesta como em todas as outras virtudes.

Convido o leitor a passear comigo, neste artigo, pela vida de uma santa que sorveu desde menina o cálice da obediência, seguindo o exemplo supremo de Jesus e excelso de Maria: Santa Rita de Cássia. Sua festa se celebra no dia 22 de maio. Ela é invocada especialmente como protetora das causas impossíveis, pelo motivo que o leitor verá adiante.

Menina privilegiada

Embora já de avançada idade, Antonio Mancini e sua esposa, Amanta, não cessavam de rogar a Deus, confiante e insistentemente, a bênção de terem um filho que lhes alegrasse o lar. Viviam eles na pequena aldeia de Rocca Porena, em Cássia, na Úmbria.

Para atender às preces desse piedoso casal, realizou Deus o primeiro “impossível” da vida de Santa Rita: seu nascimento no dia 22 de maio de 1381. Era uma encantadora menina. E desde sua mais tenra idade, a Divina Providência começou a manifestar especiais desígnios a seu respeito. Segundo narra uma tradição, enquanto ela dormia na cestinha que lhe servia de berço, com frequência apareciam umas raras abelhas brancas que esvoaçavam em torno dela e depositavam suavemente mel em seus lábios, sem feri-la ou despertá-la. Um dos camponeses vizinhos, presenciando a cena por primeira vez, quis afastar os insetos com a mão aleijada que tinha. No mesmo instante sua mão ficou curada.

Depois da morte de Santa Rita, essas mesmas abelhas brancas começaram a aparecer anualmente no mosteiro das agostinianas, onde ela passou os últimos anos de sua vida. Lá chegavam na Semana Santa e permaneciam até o dia 22 de maio. Depois se retiravam, para retornarem na Semana Santa seguinte. Até hoje podem ser vistos pelos peregrinos os buraquinhos feitos por elas nas paredes do mosteiro.

Infância marcada pela piedade e obediência

Desde pequena, demonstrava Rita grande inclinação para a piedade. Seus pais, apesar de não saberem ler nem escrever, ensinaram-lhe o Catecismo e a história de Jesus. Dedicava-se com grande gosto à oração, meditava sempre sobre a Paixão de Nosso Senhor. Não sabia ler nem escrever. Entretanto, “lia” continuamente o mais magnífico de todos os livros: o Crucifixo.

Além de ser especialmente devota de Nossa Senhora, escolheu como padroeiros São João Batista, Santo Agostinho e São Nicolau de Tolentino. Procurava abster-se de brinquedos e travessuras próprias à idade infantil, como mortificação para consolar a Jesus Crucificado.

O maior anseio de sua alma era ser religiosa. Exatamente neste ponto, exigiu dela a Providência um enorme ato de obediência, aceitando um estado de vida oposto ao chamado religioso que sentia na alma. Com apenas 12 anos de idade, foi obrigada pelos pais a contrair matrimônio com o noivo por eles escolhido, chamado Paulo Ferdinando.

Sofrimentos na família

O marido logo revelou-se um homem agressivo, de mau gênio, beberrão e dissoluto, o que fazia Rita sofrer tremendamente. Ela, entretanto, não só lhe foi sempre fiel, como também suportou tudo isso com extrema paciência, durante 18 anos, sempre rezando e oferecendo esta espécie de martírio pela conversão dos pecadores, sobretudo de seu detestável marido.

E mais uma vez o “impossível” se realizou na vida dessa mulher exemplar. Teve ela, afinal, a alegria de ver o esposo converter-se e pedir-lhe perdão por todos os maus tratos e pela vida devassa que havia levado. Quão oportuna foi esta conversão! Pouco tempo depois de reconciliar-se com Deus, pelo Sacramento da confissão, Paulo Ferdinando foi assassinado por alguns dos maus companheiros que tivera.

Os filhos do casal, dois gêmeos, então com 14 anos, juraram vingar a morte do pai. Vendo Santa Rita quanto os filhos haviam herdado as más tendências do pai, e temendo pelo destino eterno dos dois, dirigiu a Deus uma súplica: preferia ver seus filhos mortos a seguirem o caminho da perdição. Logo demonstrou o Pai de Misericórdia seu comprazimento com essa súplica de uma mãe verdadeiramente católica. Em menos de um ano, os dois ficaram doentes e faleceram, perdoando os assassinos de Paulo Ferdinando.

Entrada na vida religiosa

Viúva, sem filhos, livre de tudo que poderia atá-la ao mundo, Rita desejava fazer-se religiosa. Pediu para ser aceita no mosteiro das freiras agostinianas de Cássia, onde sempre quisera ter estado. Mas — oh decepção! — a superiora lhe disse que infelizmente não podiam aceitar viúvas na congregação, a qual era destinada apenas a virgens. Imagine-se sua desilusão e tristeza ao voltar para casa!… Mas ela era uma mulher santa. Enquanto tal, em vez de deixar-se abater ou desanimar, decidiu seguir com mais ardor ainda do que antes sua vida de oração e penitência.

Acorreram em seu auxílio seus padroeiros, Santo Agostinho, São João Batista e São Nicolau de Tolentino, obtendo da Medianeira de todas as graças a realização de mais um “impossível” em favor de sua protegida.

Conta-se que numa noite, estando ela imersa em oração, apareceram-lhe estes três Santos e convidaram-na a segui-los. Em êxtase, ela os acompanhou. Quando voltou a si, estava dentro do mosteiro das agostinianas… Havia entrado lá milagrosamente, pois todas as portas e janelas encontravam-se perfeitamente fechadas.

Na manhã seguinte, a madre superiora reconheceu nesse prodigioso fato uma clara indicação da vontade divina e decidiu acolher Rita como noviça nessa santa congregação.

Obediência recompensada pelo milagre

Já revestida do hábito, a nova religiosa foi um exemplo de virtude para todas as suas irmãs de vocação. Dos três votos da religião, aquele em que mais se esmerava era o de obediência, fazendo sempre a vontade das outras em tudo, até mesmo no que poderia parecer ridículo e insensato. Por exemplo, a superiora mandou-lhe regar todos os dias uma parreira que já estava seca e morta. A obediente freira cumpriu rigorosamente a ordem durante um ano. Uma vez mais o que parecia impossível se realizou: do tronco morto brotaram sarmentos que cresceram e produziram flores e frutos! Existe ainda essa “videira de Santa Rita”, que produz uvas de um sabor especial, as quais amadurecem em novembro.

Partícipe das dores de Jesus coroado de espinhos

Durante a Quaresma de 1443, o grande pregador Santiago de Monte Brandone fez em Cássia um magnífico sermão sobre a Paixão de Jesus, destacando sobretudo o episódio da coroação de espinhos. Depois de ouvir esse sermão, Santa Rita sentiu-se tomada do desejo de participar dos sofrimentos de Nosso Senhor nesse lance de sua Paixão.

Rezando diante de seu crucifixo, viu espargir-se dele suavemente uma luz, e um espinho desprender-se da coroa e cravar-se em sua fronte, provocando-lhe uma ferida que a fez sofrer durante seus últimos 15 anos de vida. Além de exalar mau odor, essa provocava-lhe muitas enfermidades. Assim, teve ela atendido deu desejo de ser verdadeiramente partícipe das dores de Jesus coroado de espinhos.

Morte santa, a recompensa

Santa Rita teve uma morte santa, sendo obediente à vontade de Deus até o fim.

Estando já muito enferma, pediu a Jesus um sinal de que seus filhos estavam no Céu. Em meio a um rigoroso inverno, recebeu uma rosa colhida no jardim de sua antiga casa, em Rocca Porena… Pediu um segundo sinal e, no fim do inverno, recebeu um figo, também de seu jardim. Com a realização desses dois “impossíveis”, Deus, por assim dizer, mostra seu comprazimento em que essa grande Santa seja invocada como a “Advogada dos impossíveis”.

No dia 22 de maio de 1457, voou para o Céu a bela alma de Santa Rita.

A chaga de sua fronte transformou-se em uma mancha vermelha como um rubi, de onde se exalava uma agradável fragrância. Sua cela ficou iluminada por uma luz celestial e os sinos, sozinhos, repicaram num toque de júbilo e glória.

Foi velada na igreja, aonde acorreu uma multidão de pessoas para vê-la e venerá-la. De seu santo corpo emanava um tal perfume que nunca foi enterrado. Permanece incorrupto até hoje, exposto à veneração dos fiéis no convento de Cássia.

Mensagem de Santa Rita para os dias atuais

Qual é a mensagem que esta grande Santa nos transmitiria nestes dias em que vivemos?

Creio que a resposta está nas palavras proferidas pelo Papa São João Paulo II ao saudar os devotos de Santa Rita que faziam uma peregrinação jubilar 1:

“É uma mensagem que brota de sua vida: a humildade e a obediência foram o caminho que Rita percorreu para uma semelhança cada vez mais perfeita com Cristo crucificado. O estigma que brilha em sua fronte é a autenticação de sua maturidade cristã. Na cruz com Jesus culminou o amor que já havia conhecido e expressado de modo heroico em seu lar e mediante a participação nas vicissitudes de sua cidade.

Seguindo a espiritualidade de Santo Agostinho, fez-se discípula do Crucificado e ‘especialista em sofrimento’, aprendeu a compreender as penas do coração humano. Deste modo, Rita se converteu na advogada dos pobres e dos desesperados, obtendo inumeráveis graças de consolo e fortaleza aos que a invocam nas mais diversas situações.”

Que Santa Rita de Cássia nos ajude a compreender os desígnios de Deus para cada um de nós individualmente, e a sorver até a última gota o cálice da obediência à sua vontade santíssima, ao longo de nossa existência.

1 São João Paulo II. Saudação aos peregrinos. 20 de maio de 2000

Revista Arautos do Evangelho n.17. maio 2003

Liberdade e disciplina

Ir. Flávia Cristina de Oliveira, EP

Sob influência das ideias da Revolução Francesa, cujo lema era: liberdade, igualdade e fraternidade, a humanidade passou a buscar desnorteadamente uma liberdade desenfreada e mal concebida, com a ilusão de que encontraria a felicidade. Segundo esse princípio, “a liberdade e a igualdade produziam a fraternidade, desde que os homens fossem inteiramente livres de fazer tudo quanto quisessem, fossem totalmente iguais – não houvesse nenhum superior nem inferior –, eles se sentiriam completamente irmãos. Então, a fraternidade seria uma flor nascida dessa dupla semente da liberdade e da igualdade”.1Assim sendo, o indivíduo inteiramente livre seria aquele que fizesse tudo o que há de mais deleitável, sem que ninguém o impedisse.

Vejamos alguns exemplos. Um menino que naturalmente, pela tenra idade, gosta muito de brincar. E para se distrair toma, por hábito, reunir-se com seus companheiros para lutar com espadinhas feitas de taquara, e com as mesmas fingem furar um o olho do outro. A mãe do menino, logo que vê tal brincadeira, toma providências para que ela não se repita e inclusive ameaça de punição àquele que for apanhado em tal brincadeira.

Agora perguntamos: A mãe, tendo esta atitude, agiu tiranicamente impedindo que as crianças fizessem aquilo que a elas parecia muito agradável e suprimiu-lhes a liberdade?

A resposta no-la dá Plinio Correa de Oliveira: “Numa idade extremamente jovem, a criança faz coisas que não são racionais, ela é vítima da tirania da falta de maturidade. Para defendê-la contra essa tirania, os pais obrigam-na a fazer uma coisa ou outra”, e desta forma protegem a liberdade da criança. “É uma proibição na aparência; de fato é uma garantia da liberdade”.2

O mesmo se aplica, por exemplo, em um acontecimento muito frequente nas grandes cidades: o suicídio. Há pessoas que param sobre uma ponte ou viaduto e ficam analisando; em determinado momento sobrevêm-lhes a tentação de se lançar do alto da mesma para se livrar dos problemas da vida, de uma crise ou qualquer outra coisa do gênero. Muitas vezes, a pessoa, levada por um desespero, acaba se atirando mesmo. Para evitar tais ocorrências, existem policiais cuja função é segurar o indivíduo que tenta se suicidar. O fato de a pessoa se lançar da ponte não é um ato de liberdade, mas uma debilidade, uma fraqueza da natureza humana que, face às dificuldades da vida, não tem força para enfrentá-las. Por isso o policial que impede uma pessoa de suicidar-se garante-lhe a liberdade, pois lhe assegura a vida.

Sustenta Dr. Plinio: “proibir uma pessoa de fazer uma coisa que é contra o bom senso, contra a razão, é uma defesa da liberdade”.3 Assim, é errôneo o princípio de liberdade cujo objetivo consiste em afirmar que a liberdade é uma possibilidade dada ao homem pela qual ele pode optar pelo bem ou pelo mal, e que, portanto, o próprio pecado é um ato de liberdade. Ora, Nosso Senhor Jesus Cristo afirma “todo aquele que comete pecado é escravo do pecado” (Jo 8, 34).

A este respeito esclarece o Pe. Royo Marín:

É grande erro, com efeito, crer que a faculdade ou poder de pecar pertença à essência da liberdade. Pelo contrário, essa defectibilidade da liberdade humana que lhe põe nas mãos o triste privilégio de poder pecar, é um grande defeito e imperfeição da mesma liberdade, que afeta unicamente às criaturas defectíveis […]. A faculdade de poder pecar não é liberdade, mas sim depravação, libertinagem e, em definitivo, triste e vergonhosa escravidão.4

Onde se encontra então esta liberdade extremamente procurada? A liberdade consiste em que o homem siga aquele primeiro impulso que o incita invariavelmente para o bem5. De acordo com o ensinamento de Leão XIII, em sua encíclica Libertas praestantissimum:

Tal é a lei natural, a mais eminente de todas, escrita e gravada no coração de cada ser humano, pois a própria razão humana ordena fazer o bem e proíbe pecar. Mas esta prescrição da razão humana só pode ter força de lei porque é voz e intérprete de uma razão mais elevada, à qual se devem submeter nosso espírito e nossa liberdade (D 3247).

Imaginemos uma gaivota que, após ter levantado voo sobre o mar, aproxima-se das águas para capturar o peixe; mas uma vez apanhado sua presa, tenta voar novamente, mas não consegue, pois foi enredada por um pescador. Imediatamente vem-nos a ideia de que a liberdade da gaivota ficou impedida. Neste caso houve uma real coerção da liberdade, pois é próprio à gaivota alimentar-se dos peixes e levantar voo, sendo este o seu primeiro impulso natural e ordenado para o qual Deus a criou.

Fazendo um paralelo com a gaivota constatamos o que ocorre com o homem. A alma humana tem uma série de primeiros movimentos bons que o inclinam à prática da virtude e, portanto, ao cumprimento da vontade de Deus, assim como a gaivota, por um impulso animal, anseia por voar. De maneira que:

A dignidade do homem exige que ele proceda segundo a própria consciência e por livre adesão […] O homem atinge essa dignidade quando, libertando-se das escravidões das paixões, tende para o fim pela livre escolha do bem e procura a sério e com diligente iniciativa os meios convenientes (VS 42).

Assim sendo, “o homem verdadeiramente livre não é aquele que faz tudo quanto lhe passa pela cabeça, inclusive o mal, mas é o homem que aceita o seu primeiro impulso bom, o segue sempre e não admite embaraços que venham tolher este impulso”.6

Além de seguir este impulso, ele precisa enfrentar uma luta árdua, pois está dito: militia est vitam homines super terram (Jó 7, 1), a vida do homem sobre a Terra é uma constante luta contra as más tendências e obstáculos que procuram afastá-lo deste ideal. Por isso, Deus nos deu uma lei e conforme ponderou o Papa João Paulo II: “Modelada por Deus, a liberdade do homem não só não é negada pela obediência à lei divina, mas apenas mediante essa obediência, ela permanece na verdade e é conforme à dignidade do homem […]” (VS, 42).

1 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plínio. O verdadeiro conceito de liberdade. In: Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei. n. 163, out. 2011. p. 10. Este autor será, daqui em diante, referido apenas como Dr. Plinio, no texto.
2 Ibid. p.11.
3 Loc. cit.
4 “Es un gran error, en efecto, creer que la facultad o poder de pecar pertenezca a la esencia de la libertad. Al contrario, esa defectibilidad de la libertad humana que le pone en las manos el triste privilegio de poder pecar, es un gran defecto e imperfección de la misma libertad, sino depravación, libertinaje y, en definitiva, triste y vergonzosa esclavitud” (ROYO MARIN, Antonio. Jesucristo y la vida cristiana. Madrid: BAC, 1961. p. 167. Tradução da autora).
5 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. A liberdade e a virtude. In: Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei. n. 163, out.  2011. p. 22.
6 Ibid. p. 23.

   

A Vida Consagrada: um caminho para a santidade

Ir. Maria Cecília Lins Brandão Veas

O círculo e o losango são as mais perfeitas figuras geométricas segundo o conceito de São Tomás de Aquino, pois representam o movimento do efeito que retorna à sua causa. Assim, a forma mais excelente de glorificação a Deus é o homem, criado à sua imagem e semelhança, entregar-se por completo a Ele, o fim último e causa de sua existência. Esta disposição de espírito é efetuada com maior dimensão de frutos pela profissão de votos próprios aos religiosos. Estes, chamados a trilharem mais eficazmente o caminho de Nosso Senhor Jesus Cristo na prática assídua da castidade, pobreza e obediência, servem de esteios para a Santa Igreja e baluartes que anunciam a vida eterna. (cân. 573) Para melhor compreensão, exporemos brevemente alguns pontos constitutivos dos estatutos da Sociedade de Vida Apostólica Regina Virginum.

As atividades diárias iniciam com o cântico do Credo, seguido da exposição do Santíssimo Sacramento e da Liturgia das Horas recitada em conjunto, após a qual há um período de recolhimento onde pode-se cumprir os demais atos de piedade a saber: a comunhão sacramental, meia hora de adoração ao Santíssimo, o Rosário completo, leituras espirituais, a renovação da Consagração a Nossa Senhora, entre outros. (cân. 663) Tendo ordenado a vida interior, que prima sobre as coisas palpáveis e tangíveis, a religiosa estará apta para os deveres de seu estado, conforme ponderava Plinio Corrêa de Oliveira: “ O homem recolhido no pensamento é contínuo na ação”.

A prática da castidade, pobreza e obediência

Conta a tradição, que certo monge anacoreta debatia-se fortemente contra a tentação de abandonar a castidade unindo-se a uma mulher que com frequência lhe induzia ao pecado. Prescindindo dos auxílios sobrenaturais, cedeu à solicitação pecaminosa. Ao cair em si, dando-se conta do triste estado em que se encontrava, percebeu que a mulher era o próprio demônio que ria e zombava de sua fraqueza. Envergonhado de seu estado, entrou em desespero e entregou-se definitivamente aos prazeres mundanos.

Triste situação, porém não longe de nosso alcance. As concupiscências e desejos desenfreados constantemente nos solicitam ao pecado. Ora, se é verdade que padecemos da fomis peccati e das tentações do demônio, não podemos expor-nos ao perigo. Por este motivo, nas casas em que residem as religiosas, tem-se por norma vigente a clausura onde a consagrada mantém-se alheia ao mundanismo, pois a continência perfeita no celibato provém de um coração puro de apegos carnais às criaturas e de um desejo sempre mais sublime de se unir a Cristo.

Despojando-se de toda Sua Glória, quis o Verbo Eterno tornar-se réu de nossas culpas, assumindo a forma humana para nos redimir. Se assim procedeu o Criador, porque não renunciaríamos nós aos bens terrenos, infinitamente inferiores à glória de ser Deus? (cân. 600) Assim, para pôr em prática esta sobriedade, insinuam as normas, que as religiosas nada possuam sem que antes tenha sido previamente autorizado pela superiora, e que nada tenham de supérfluo.

Assinalava São Luís Maria Grignion de Monfort que “para esvaziar-nos de nós mesmos é necessário, todos os dias, morrer a nós mesmos: é preciso renunciar às operações das potências de nossa alma e dos sentidos do corpo; ver como se não víssemos, ouvir como se não ouvíssemos, servir-se das coisas deste mundo como se não nos servíssemos delas”. Desse modo, uma vez desprendidas dos bens tangíveis, as consagradas estarão aptas à prática da obediência, que consiste na renúncia do que no homem há de mais íntimo: a vontade própria. (cân. 601)

Na hierarquia da criação, há homens que foram constituídos para governarem os demais, e na voz destes, reconhece-se mais facilmente a vontade de Deus. Por este motivo, as religiosas estão ao dispor do beneplácito do Superior. Se forem enviadas às missões, lá estarão; à contemplação, lá contemplarão; às atividades, lá trabalharão, utilizando sempre o dizer de Samuel: Praesto Sum!

Obedecer: como?

Irmã Clara Isabel Maria de la Asunción Morazzani Arráiz, EP

A obediência vale mais que as vítimas; e é melhor obedecer do que oferecer a gordura dos carneiros” (1Sm 15, 22) .

A palavra obediência, derivada do latim, ob audire, significa ouvir ou escutar. A obediência implica, pois, da parte daquele que a pratica, uma atitude de escuta submissa e atenta com relação aos conselhos ou ordens que o superior venha a lhe dar.

Vejamos agora os diversos graus da perfeição da obediência, definidos por Santo Inácio de Loyola em sua carta aos religiosos de Portugal1:

1°) Obediência de execução:

Como indica seu nome, trata-se de uma obediência meramente natural, que executa exteriormente as ordens do superior, sem conformar a vontade com a deste. Esta obediência carece totalmente de méritos sobrenaturais e mais se parece ao automatismo de uma máquina.

2°) Obediência de vontade:

Implica numa submissão interna, por parte do inferior, em relação à vontade do superior. Aquele considera este como representante de Deus nesta terra e submete sua vontade alegremente, disposto a superar todos os sacrifícios que lhe são exigidos, ainda que experimente uma involuntária repugnância, nascida de sua natureza, em relação à ordem recebida. Esta repugnância, ao contrário, lhe proporcionará um aumento dos méritos. Assim afirma São Tomás de Aquino:
“Se porém, o ato prescrito não é de maneira alguma querido por si mesmo, contraria a própria vontade, como ocorre nas coisas difíceis, então fica absolutamente evidente que a ordem só é cumprida por causa do preceito”.2

Por isso Gregório afirma: “A obediência que se realiza plenamente quando é agradável é nula ou menor”, porque a vontade própria não parece tender essencialmente ao cumprimento do preceito, mas simplesmente à satisfação de seu próprio querer. “Nas dificuldades, porém, ou em coisas difíceis a obediência é maior”, porque a vontade própria não tende a outra coisa a não ser ao cumprimento do preceito.

Entretanto, a obediência de vontade, não atinge ainda a suprema perfeição nesta virtude. “Com a obediência de vontade, assinala Royo Marín, cabe ainda a discrepância de juízo”.3

3°) Obediência de juízo:

Este último grau de obediência é assim definido por Royo Marín:

Consiste em obedecer a ordem recebida, não somente com prontidão de vontade, mas rendendo inclusive nosso juízo interior para conformá-lo com o do superior”.4

Assim se exprime o próprio Santo Inácio em sua famosa carta: “Mas quem pretende fazer inteira e perfeita oblação de si mesmo, além da vontade, é necessário que ofereça o entendimento (que é outro grau e supremo da obediência), não somente tendo um querer, mas tendo um mesmo sentir com o superior, sujeitando o próprio juízo ao seu, em tudo o que a devota vontade possa inclinar o entendimento”.5

Em breves palavras, Maucourant nos descreve o estado de alma daquele que atinge essa plenitude: “A alma que chega a tal estado de união permanece humana, isto é, sensível às coisas exteriores, sensível à tentação e à prova; mas sua vontade permanece irrevogavelmente unida a Deus”.6

Séculos antes, São Basílio estabelecera uma escala na obediência, semelhante à definida por Santo Inácio:

Há três modos diferentes de obedecer: separando-nos do mal pelo temor do castigo, e, então, colocamo-nos numa atitude servil; ou com o objetivo de alcançar o prêmio oferecido, e neste caso assemelhamo-nos aos mercenários; ou por amor ao bem e por afeto àquele que nos manda, e então, imitamos a conduta dos bons filhos.7

A perfeição se cifra num supremo ato de amor, que chega ao holocausto da vontade e do entendimento, oferecendo a Deus a entrega radical do próprio ser. “Vivo, mas já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (Gl. 2, 20).

Entre as muitas qualidades que caracterizam a perfeita obediência, há duas de capital importância e sobre as quais é forçoso falar. São elas: prontidão e alegria.

Prontidão

“Retardar uma ação que nos é mandada, explica Maucourant, é torná-la defeituosa, pois equivale a substituir-se à regra e aos superiores numa parte do ato, atribuindo-se o direito de determinar a hora”.8

Os exemplos na vida dos santos nos fornecem largamente argumentos para perceber o quanto Deus ama essa presteza e diligência em obedecer. Certa vez, contam as crônicas cistercienses, o sino do mosteiro tocou, chamando os monges para as tarefas de limpeza. São Bernardo achava-se neste momento arroubado em êxtase diante do próprio Jesus que lhe aparecera. Apesar disso, dispôs-se ele a atender a voz do sino. Ao voltar, encontrou Jesus que o esperava: “Bernardo, disse-lhe, se tu não me houvesses deixado, te haveria deixado Eu”.9

Na disciplina militar, o soldado que, recebendo a ordem de um oficial, não corre apressado para cumpri-la é condenado a algumas horas de prisão. Se assim se passa entre os homens do século, quanto mais deverá ser entre os servidores de Deus, não pelo temor do castigo, mas pelo amor Àquele que manda e que promete tantas recompensas?

Quem, pois, obedece prontamente, deve estar convicto de que, procedendo assim, está acumulando méritos duplamente e se assemelhará mais a Cristo que “entrando no mundo” exclama: “Eis que venho fazer a tua vontade”(Hb 10, 5.9).

Alegria

Para o obediente fervoroso, não basta apenas dar tudo e com presteza, é preciso dar alegremente, pois “Deus ama o que dá com alegria” (2Cor. 9, 7).

Quem obedece de má vontade e com queixas, não ama verdadeiramente a Deus, nem os mandatos transmitidos por seus ministros. Embora haja tanta glória, doçura e proveito em servir a Deus, prefere seus próprios interesses a doar-se inteiramente!

Essa alegria que deve acompanhar a obediência é qualificada por São Bernardo como “o colorido que faz a formosura desta e seu ornamento e brilho.10

Finalmente, esta alegria comove tanto o coração de Jesus Cristo, que Ele, por assim dizer, não pode resistir, nem negar nada àquele que assim procede. Por isso diz o Salmista: “Põe as tuas delícias no Senhor, e te concederá o que teu coração deseja” (Sl. 36, 4). Sirva como exemplo disto o patriarca Abraão que se apressou em cumprir, com alegria e confiança, a ordem dada por Deus de imolar o próprio filho e por isso mereceu dar origem ao povo da promessa. “Porque fizeste tal coisa, e não perdoaste a teu filho único por amor de mim, eu te abençoarei”(Gn. 22, 16).

1 1ROYO MARÍN, Antonio. La Vida Religiosa. 2. ed .Madrid: BAC,1968, pp. 350-351
2 S.Th. II-II , q.104, a. 2.
3 ROYO MARIN, Op. cit.p.352.
4 loc. cit.
5 Ibid. p. 355
6 MAUCOURANT, F. Probación religiosa de la Obediencia. Trad. del décimo millar francés por José Domingo Corbató. París: Garnier Hermanos, Libreros-Editores, 1901, p. 90
7 FERNÁNDEZ-CARVAJAL, Francisco. Antologia de textos. 13. ed. Madrid: Ediciones Palabra, 2003. , p. 674
8 MAUCOURANT, Op. cit. p. 111
9 ROYO MARIN, Op. cit. p. 366.
10 MAUCOURANT, Op. cit. p. 114.

Jesus: exemplo de obediência

Flávia Cristina de Oliveira
Sagrada Familia2

Diz um conhecido provérbio: verba volant, exempla trahunt, isto é, as palavras voam, mas são os exemplos que arrastam e movem a vontade do homem. Desta forma, não basta uma explicação teórica ou um tratado de moral para convencer uma pessoa a praticar certa virtude; o que é preciso, antes de tudo, é tê-la visto gravada não num papel, mas em alguém.

Este foi o procedimento de Nosso Senhor Jesus Cristo ao se encarnar. Não seria convincente que Ele apenas viesse à Terra, ditasse sua doutrina a alguns homens e depois retornasse para o Céu, “era necessário vê-Lo vivo, como modelo daquilo que Ele mesmo havia ensinado”.1 Por isso que, depois do lava-pés Ele ainda disse aos seus discípulos: “Dei-vos o exemplo para que, como eu vos fiz, assim façais também vós” (Jo 13,15). Desta forma, o Divino Mestre estimulava os seus discípulos a modelarem não só seus atos, mas o coração conforme ao d’Ele.

A esse respeito, Hamon deixou excelente explicação:

Quando Deus, em seus eternos decretos, decidiu a encarnação do Verbo, Ele se propôs mostrar aos olhos dos homens o modelo da vida nova que deveria salvá-los. Como homem, o Verbo encarnado lhes mostraria o caminho; como Deus, Ele lhes daria a garantia da perfeição do modelo. Suas virtudes seriam imutáveis, pois elas seriam a ação de um homem, e elas seriam uma regra segura, já que seria a ação de um Deus.2

Na encarnação, obediência ao Pai

Foi por meio da virtude da obediência que se realizou o sublime mistério da encarnação do Verbo e da redenção da humanidade. O Filho Unigênito de Deus se antecipou em fazer a vontade do Pai. Conforme o próprio Padre Eterno revelara a Santa Catarina de Sena:

A humanidade que eu tanto amava, já não conseguia atingir sua meta, que sou eu. Impelido pela minha grande caridade, tomei nas mãos as chaves da obediência e a entreguei a meu Filho. […] Agora, quero que compreendas como essa grande virtude foi praticada pelo Cordeiro imaculado […]. Qual foi a razão pela qual se mostrou ele tão obediente? Foi seu amor pela minha glória e pela salvação dos homens. […] O Verbo encarnado foi fiel a mim, Pai eterno; por isso correu apaixonado pelo caminho da obediência. […]É no Verbo encarnado, portanto, que encontramos a obediência total. 3

O divino exemplo de Nosso Senhor Jesus Cristo descrito pela pluma dos evangelistas, sob o influxo do Espírito Santo, é posto em realce sob um aspecto essencial de sua missão nesta Terra: Ele se encarnou a fim de cumprir a vontade do Pai, fazendo-se obediente até a morte.

Nesta submissão, Jesus quis mostrar aos homens o quanto amou a obediência, pois sendo consubstancial com o Pai, abandonou esta igualdade para revestir-se de nossa carne, assumindo a condição de escravo (Fl 2, 7). Encontramos nos textos sagrados que “o Verbo se fez carne” (Jo 1, 14), em outra parte da escritura : “e se fez obediente” (Fl 2,8). Por isso, afirma Gay: “Fazer-se carne é sua constituição; se fazer obediente, é sua condição: uma resulta da outra, e esta se apoia sobre aquela; donde vem que ela é essencial e não pode mudar”.4

Imediatamente ao entrar neste mundo, nosso Redentor deu-nos mostra do valor da obediência através de sua humildade. Ele, enquanto Deus e Senhor de todas as coisas, poderia ter criado um palácio suntuoso para nascer em meio às riquezas, contudo preferiu uma simples gruta, numa das cidades mais apagadas de Judá e para berço escolheu uma pobre manjedoura composta de palhas. De sua primeira atitude poderíamos esperar que Ele tivesse manifestado algum desejo. Qual terá sido?

O Filho de Deus, entrando no mundo, não disse: eu farei isso, eu irei para lá, eu morarei em tal casa, eu seguirei o gênero de vida que me aprouver, eu contentarei todos os meus desejos. Passando do seio da virgem para uma pobre manjedoura, apenas vê a luz deste mundo quando já olha para o céu, entreabre seus bracinhos e diz com amor a seu Pai Divino: “Eis-me aqui, eu venho, ó Deus, para fazer a vossa vontade” (Hb 10, 9).5

Tendo abraçado a inteira obediência a vontade do Pai, Jesus não se negou a obedecer também às prescrições legais da época, uma vez que já no seio da virgem submeteu-se ao decreto de César Augusto. Além disso, Ele, o Supremo Legislador e Pai de Moisés, quis demonstrar sua fidelidade e obediência à lei Mosaica, aceitando a circuncisão e a apresentação no templo, e em outras ocasiões compareceu no templo para comemorar as festas dos judeus. Empreende a viagem para o Egito, a fim de cumprir docilmente a ordem dada pelo anjo. Pouco depois, em Nazaré, quase nada se sabe apenas uma frase de São Lucas que percorrerá a História até o fim dos séculos: “E era-lhes submisso” (Lc 2, 51). Nisso se resume o programa de vida de Nosso Senhor, sob a autoridade de Maria e de José.

Nos três anos de vida pública, Ele não cessou de ensinar a seus discípulos para que, em todas as coisas, eles tivessem uma inteira conformidade com a vontade de Deus. Não se limitou às palavras, mas quis que seus discípulos tivessem isso bem presente até mesmo em suas orações, quando ensinando-lhes a rezar, colocou como principal esta petição: “Seja feita a vossa vontade assim na terra como no Céu” (Mt 6,10), e para firmar a doutrina deu-lhes o seu exemplo: “Meu alimento é fazer a vontade do Pai” (Jo 4, 34)6, e em outra ocasião reafirmou: “Pois desci do Céu não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (Jo 6, 38).7

Obediente até a morte

cruz2Foi o próprio Nosso Senhor quem disse a Santa Teresa: não é obediente quem não está disposto a padecer, e por isso deveriam olhar para os sofrimentos d’Ele pois desta forma a prática da obediência iria lhes facilitar.8 De fato, nos momentos de padecimento, tornou-se mais explicita sua obediência por meio dos sofrimentos, pois a vontade do Pai consistia especialmente nisso. Para cumprir o mandato do Pai em relação aos homens Ele se fez obediente, remediando assim a falta de obediência de Adão, de acordo com o dizer do Apóstolo, em sua carta aos Romanos: “assim como pela desobediência de um só homem foram todos constituídos pecadores, assim pela obediência de um só todos se tornarão justos” (Rm 5, 19).

Jesus Cristo quis padecer todos os tormentos possíveis para assim purificar o homem de todas as suas malícias e reparar o pecado de desobediência. Ele assumiu todos os tormentos até o momento supremo do Consummatum est.

Morre só quando “tudo está consumado”, com uma obediência perfeita: Dixit: Consummatum est, et inclinatio capite, et tradidit spiritum (Jo 19, 30). O Consummatum est é a expressão mais adequada de toda a sua vida e obediência: como um eco do Ecce venio da encarnação. 9

“Permanecerei convosco até o fim dos tempos”

Nosso Redentor amou tanto o Pai que após ter padecido no Calvário, fez com que este mesmo sacrifício fosse renovado diariamente entre os homens, através da Celebração Eucaristia, podendo assim permanecer no meio dos homens.

Neste sublime sacramento Jesus Cristo permanece para servir os homens com o banquete de seu Corpo e de seu Sangue; mais uma vez a presença d’Ele se encontra com a marca da obediência. Ele obedece prontamente à voz do sacerdote, seja ele quem for, tendo ou não alguma virtude ou devoção, bastando que pronuncie as palavras da consagração para que o Pão Vivo se faça presente; Ele fica no tabernáculo a espera de que alguma alma venha adorá-Lo ; deixando-Se conduzir por qualquer pessoa. “Qualquer que seja o número dos fiéis que desejam comungar Ele se submete à vontade deles, entra em seus corações para santificá-los, consolá-los, dar-lhes a felicidade do espírito, e, por vezes, para receber o beijo da traição“.10

Em Jesus Sacramentado encontra-se um perfeitíssimo modelo de obediência: obedece em tudo, a todos e sempre; não exige condições, nada recusa, não se desculpa, não sabe senão obedecer.

1 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plínio. Ser mestre e modelo para o próximo. In: Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei. n. 106, jan. 2007. p. 13.
2 “Quand Dieu, dans sés décrets éternels, décida l’incarnation du Verbe, il se proposa de placer sous les yeux des hommes le modèle de la vie nouvelle qui devait les sauver. Comme homme, le Verbe incarné leur montrerait la voie; comme Dieu, il leur garantirait la perfetion du modèle. Ses vertus seraient imitables, puisqu’elles seraient le fait d’un homme, et elles seraient une règle sûre, puisqu’elles seraient le fait d’un Dieu” (HAMON, M. Méditations. Paris: Lecoffre, 1933. Vol I. p. 55- 56. Tradução da autora).
3 SANTA CATARINA DE SENA. O Diálogo. Trad. João Alves Basílio. São Paulo: Paulinas, 1984. p. 358.
4 “être fait chair, c’est sa contitution; être fait obeissant, c’est sa condition: l’une sort de l’autre, et celle-ci s’appuie sur celle-là; d’où vient qu’elle est comme essentielle et ne saurait changer” (GAY, Charles. De la vie et des vertus chrétiennes. Poitiers: H. Oudin Frères, 1878. p. 360. Tradução da autora).
5 “Le Fils de Dieu entrant au monde n’a pas dit: Je farei ceci, j’irai là, j’habiterai telle maison, je suivrai le genre de vie qui me plaira, je contenterai tous mes désirs. Passant du sein de la Vierge dans une pauvre crèche, Il n’est plus tôt à la lumière du monde qu’il regarde vers le ciel, entr’ouvre ses petits bras et dit avec amours à son Père divin: Me voici, je viens, ô Dieu pour faire ce que vous voulez” (BOUCHAGE, F. Pratique des vertus. Paris: Gabriel Beauchesne, 1908. Vol. II. p. 301. Tradução da autora).
6 Cf. RODRÍGUEZ, Alonso. Op. cit. p. 446.
7 A respeito desta última frase de Nosso Senhor, “Eu desci do Céu não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (Jo 6, 38), é de muita importância fazer uma observação. Para não ocorrer nenhuma dificuldade em compreender como poderia haver alguma diferença de vontades entre a do Pai e a do Verbo encarnado, sendo Ele a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, a teologia nos explica: “Cristo en cuanto Verbo tenía ciertamente voluntad divina; y como la voluntad divina de Cristo coincide y se identifica absolutamente con la voluntad del Padre (ya que es un atributo de la divindad, comun a las tres divinas personas) síguese que en esos textos y otros parecidos alude Cristo a su voluntad humana en cuanto distinta de su voluntad divina, que coincide en absoluto con la de su Padre Celestial. […]El argumento para demonstrarlo es muy sencillo. Si en Cristo hay dos naturalezas integras y perfectas – como nos enseña la fe –, hay que concluir que había en el dos voluntades perfectamente distintas, la divina y la humana. De lo contrario habria que decir, o que la voluntad racional no pertenece ala integridad y parfeccion de la naturaleza humana ( lo que seria un disparate mayúsculo), o que la naturaleza humana de Jesucristo no era integra y perfecta (lo que seria herético). No hay subterfugio posible. Luego en Cristo, además de la voluntad racional humana hubo también voluntad sensible o apetite sensitivo, porque lo exige así la perfecta integridad de su naturaleza humana, si bien este apetito inferior estuvo enteramente subordinado y controlado por la voluntad racional” (ROYO MARIN, Antonio. Op. cit. 163).
8 SANTA TERESA DE JESUS. Livro da Vida. Op. cit. p. 170.
9 “Il ne meurt que lorsqu’il a ‘tout consommé’ par une parfaite obéissance: ‘Dixit: Consummatum est, et inclinatio capite, et tradidit spiritum’ (Jo 18, 30). Le Consummatum est: est l’expressin la plus vraie et la plus adéquate de toute as vie d obeissance; elle fait écho a l’Ecce venio de l’instant de l’incarnation. Ces deux paroles sont dês cris d’obeissant; et toute l’existace terrestre du Chrit Jésus tourne autour de l’axe reposant sur ces deux pôles (MARMION, Columba. Le Christ, idéal du moine. [s.l.]: [s.n], 1947. Vol. II. p. 339. Tradução da autora).
10 Cualquiera que sea él número de fieles que quieren comulgar, Jesús se somete a la voluntad de ellos, entra en su corazón para santificarles, consolarles, darles la felicidad del espirito, y a veces para recibir el beso de la traición.(MAUCOURANT, F. Op. cit. p. 194- 195).

A excelência da obediência na vida religiosa

obediênciaFlávia Cristina de Oliveira

A palavra obediência, proveniente do latim, ob audire, significa estar pronto para ouvir ou escutar. Por conseguinte, a obediência constitui um elo pelo qual o inferior une sua vontade à do superior para ouvir suas ordens de forma atenta e submissa. E conforme define São Tomás “a obediência torna a vontade do homem disposta a fazer a vontade de outro, a saber, daquele que manda”.1

A obediência é uma virtude moral e encontra-se em total dependência com a virtude cardeal da justiça, posto que dela deriva através da observância. Esta última, com efeito, tem por objeto próprio dar a cada um o que lhe corresponde.2

Deus constituiu o Universo de forma hierárquica, de maneira que os seres de naturezas inferiores fossem governados pelos superiores, embora pertençam a naturezas diversas; o mesmo ocorre com os seres dentro de um comum gênero: de animal para animal, de homem para homem, de anjo para anjo.

Levando isto em consideração, conclui-se que esta obediência que o inferior deve prestar ao superior é de direito natural, pois está inteiramente de acordo com a ordem posta por Deus no Universo, conforme nos propõe o Doutor Angélico:

“Como as ações das coisas naturais procedem das forças naturais, assim também as operações humanas procedem da vontade humana. Foi conveniente que, nas coisas naturais, as superiores movessem as inferiores à sua própria ação pela excelência do poder natural que Deus lhes concedeu. Portanto, nas coisas humanas, é necessário que as superiores movam por sua vontade as inferiores por força da autoridade concedida por Deus. Ora, mover pela razão e pela vontade é mandar. Por isso, como pela ordem natural instituída por Deus, nas coisas naturais, as inferiores são necessariamente submetidas à moção das superiores, assim também nas humanas, pela ordem do direito natural e do divino, as inferiores são obrigadas a obedecer às superiores”.3

Esta autoridade exercida por aqueles que são superiores é conferida por Deus. Pois, como afirma São Paulo, “não há autoridade que não venha de Deus” (Rm 13, 1). Por isso, toda autoridade legítima é merecedora de respeito e veneração.

Este foi o procedimento de Deus para com os homens desde o Antigo Testamento, enviando ao povo eleito, guias, “[…] patriarcas, homens de virtude excelsa e personalidade robusta, de Fé inquebrantável como Abraão, de pertinácia infatigável como Isaac”,4 e insignes profetas, como Elias, Moisés e tantos outros.

Isto se sublimou em alto grau no Novo Testamento. O Divino Mestre formou os seus Apóstolos nesta escola, e estes, transmitiram para toda a Igreja nascente: “Por amor ao Senhor, sede submissos a toda autoridade humana, quer ao rei, como soberano, quer aos governadores, como enviados por ele, para castigo dos malfeitores e para favorecer as pessoas honestas” (1 Pd 2, 13-14).

A submissão

Como vimos, a prática da obediência é necessária a todos os homens, pois ela está de acordo com a ordem posta por Deus no Universo, mas com o pecado original esta necessidade tornou-se mais viva na existência do homem. Em qualquer estado em que se encontre, ele se deparará nesta ou naquela circunstância às quais deverá obedecer. Se analisarmos a vida de um homem, veremos continuamente presente a obediência, a começar pela infância, quando terá ele de submeter-se aos pais, logo depois ao entrar para o colégio deverá obediência a seus professores; e, por fim, ao atingir a maturidade e optar por uma profissão será necessário impor-se dentro de certa disciplina a fim de alcançar determinado objetivo, ou então, se esta pessoa é chamada a uma vocação religiosa mais acentuada ainda será esta exigência, pois ela estará sujeita a um superior.

Será um mero acaso esta prática da obediência que vem inserida em todos os campos da vida humana?

Bem sabemos que isso não se trata de uma casualidade, mas de um meio de nos educarmos, pois uma vida de obediência bem levada põe em ordem a nossa vontade que se tornou tão corrompida pelo pecado original e, sobretudo, nos ensina qual deve ser nossa disposição de alma em face de nosso Redentor. Eis como exclama Santa Teresa: “ó virtude de obedecer que tudo podes!”,5 e São Francisco de Sales: “bem-aventurados os obedientes, porque Deus nunca permitirá que se extraviem!”.6

O sublime estado religioso

E se esta disposição de alma é exigida a qualquer cristão, podemos imaginar quanto mais daquele que por um desígnio especial de Deus é chamado a uma vocação religiosa, o que supõe sempre “um grande mistério de predileção para uma determinada alma […] e um abismo de amor seletivo por parte de Deus”,7 segundo as palavras do teólogo Padre Antonio Royo Marin. Devido a este extremado amor, cabe ao religioso uma única resposta que consiste numa dedicação total, sem condições.

Este estado de perfeição centra-se fundamentalmente na virtude da religião, em levá-la até as suas últimas consequências, nesta vida. “Nela nada há – na prática nada deve haver – que não seja total e essencialmente religioso.”8 Daí deriva este termo para aqueles que ingressam por esta via de entrega a Deus. Vejamos como nos explica São Tomás:

“O que convém em comum a muitos, atribui-se por antonomásia àquele a que convém por excelência. Assim, o nome de fortaleza vindica-o para si aquela virtude que nos faz conservar a firmeza de alma em face dos maiores perigos; […]. Ora, a religião, como estabelecemos, é uma virtude, pela qual nos dedicamos ao serviço e ao culto de Deus. Donde o se chamarem por antonomásia religiosos os que totalmente se consagram ao serviço divino, quase oferecendo-se em holocausto a Deus. Por isso diz Gregório: “Há pessoas que nada reservam para si, mas imolam os sentidos, a língua, a vida e a substância que receberam, ao Senhor onipotente”.9

O voto

Este oferecimento feito pelos religiosos baseia-se, sobretudo, na prática dos conselhos evangélicos, mediante os votos de pobreza, castidade e obediência (CIC 487); por meio destes, os religiosos têm a possibilidade de consagrar toda a sua vida a Deus e atingir mais facilmente a perfeição da caridade.

Uma vez que o holocausto significa entregar a Deus todos os bens e não reservar nada para si, nestes três votos estão contidas as três espécies de bens que o homem possui, a saber: os bens materiais que são entregues a Deus pelo voto de pobreza; o bem do próprio corpo que é consagrado a Deus pelo voto de castidade e por fim os bens da alma, que são oferecidos a Deus pelo voto de obediência. Este último constitui o mais excelente, pois se trata de oferecer a Deus a própria vontade.

Obediência religiosa excede os demais votos

Por isso o voto de obediência torna-se o principal dentre os outros, pois ele de si já contém os demais.

Uma razão mais nos dá o Doutor Angélico acerca da importância deste voto: afirma ser ele o mais essencial ao estado religioso, pois a obediência se refere propriamente aos atos relacionados ao fim da vida religiosa, e é justamente esta proximidade com o fim que lhe dá maior excelência. Desta forma, ninguém poderá pretender ser religioso se não tem o voto de obediência, ainda que tenha feito os votos de pobreza e castidade.10

A respeito desta temática, Plinio Correa de Oliveira comenta:

“Como é belo ser virgem, mais belo ainda é ser monge!” [afirma Santo Agostinho]. […] como o monge renuncia à sua própria vontade para, dentro de um convento e dentro de uma clausura, fazer a vontade de Deus, ele fica elevado a um estado que é mais belo que o próprio estado de virgindade. De maneira que alguém que tivesse a virgindade no século, mas não fosse monge, este não teria a alma tão bela quanto alguém que fosse um bom monge, embora antes tivesse tido a desgraça de perder a virgindade. Quer dizer, existe neste ato de conformidade, neste ato de obediência, por onde a gente se enclausura, por onde a gente faz inteiramente a vontade de Nossa Senhora, e vive de acordo com um regulamento que a vocação suscitou em nós, neste ato pelo qual a gente renuncia a fazer seus caprichos, a estar correndo de um lado para o outro, toma uma diretriz dentro da vida, consagra toda a sua vida a servir Nossa Senhora. Existe nisso uma beleza tal, que é mais bela do que a própria beleza da virgindade”.11

E [São Tomas de Aquino] diz: “A virgindade prepara o homem para cogitar as coisas de Deus; a vida monacal é mais bela do que isso, por que já é a própria cogitação das coisas de Deus”.

A renúncia da própria vontade

Nosso Senhor Jesus Cristo declara: “ninguém há que tenha abandonado, por amor do Reino de Deus, sua casa, sua mulher, seus irmãos, seus pais ou seus filhos, que não receba muito mais neste mundo e no mundo vindouro a vida eterna” (Lc 18, 29-30). Ora esta promessa de Nosso Senhor se realiza irrevogavelmente desde que haja uma sincera renúncia, conforme Ele afirma: “Se alguém me quer seguir, renuncie-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mc 8, 34). Esta disposição de alma consolida-se, sobretudo, na obediência.

À primeira vista, esta vida de obediência pode parecer algo impossível, pois, ao orgulho e ao desejo de ser senhor de suas vontades acrescenta-se mais um fator: “o maligno, sabendo que o caminho que leva mais depressa à suma perfeição é a obediência, põe muitos dissabores e dificuldades disfarçados de bem; […] parece sobremodo difícil (…) o contentar-nos com coisas que em tudo contradizem a nossa vontade, de acordo com o nosso natural.”12

Para certas pessoas, a própria vida de clausura é uma espécie de cárcere, onde é obrigada a cumprir uma porção de regras. Porém, a realidade é muito diferente, trata-se de um laço que nos une mais estreitamente a Ele, Nosso Senhor Jesus Cristo, pois nesta via de obediência “Deus fala não mais como Senhor que manda, senão um Pai que manifesta seu desejo. Esta obediência não é mais a atitude de quem serve sob a pena de não cobrar seu salário e perder seu pão, mas é a atitude do filho que extrai de seu amor as energias necessárias para fazer de boa vontade o que seu pai deseja”.13 E como nos ensina Santa Teresa:

“O amor, contudo, tem tamanha força, se for perfeito, que desprezamos nosso próprio contentamento para contentar aquele a quem amamos. […] Por maiores que sejam os sofrimentos, logo se tornam suaves quando sabemos que, com eles, agradamos a Deus. Quem chegou a esse ponto ama desse modo as perseguições, as desonras e as ofensas. […] O que pretendo explicar é o motivo de a obediência ser o caminho ou meio mais rápido para chegar a esse estado tão prazeroso. Como de maneira alguma somos senhores da nossa vontade, para empregá-la pura e simplesmente em Deus, enquanto não a tivermos submetido à razão, a obediência é a via régia para essa sujeição”.14

A este respeito encontramos o testemunho de grandes santos. Por exemplo, Santa Joana de Chantal exclamava: “Com vossa divina graça resolvo, Senhor, seguir em tudo vossas ordens e vossos desejos sem buscar jamais minha própria vontade”15 ; ou então, num exemplo ainda mais próximo de nós, Santa Teresinha do Menino Jesus, em uma carta que dirige à sua superiora: “Ó minha Madre, de quantas inquietações nos livramos fazendo voto de obediência! Como são felizes as simples religiosas! Já que a vontade dos superiores constitui sua única bússola, estão sempre seguras de se encontrarem no caminho reto”.16 Santa Teresinha alcançou a obediência perfeita e seguiu as vias de uma sujeição completa à vontade de Deus; sem se preocupar em fazer grandes mortificações físicas, se limitou apenas em cumprir as prescrições de sua Regra, pois tinha pela obediência um enorme apreço e chegou a escrever: “A Obediência é minha forte couraça e o escudo do meu coração”.17

Os frutos desta perfeita renúncia

É de muita valia ressaltar também alguns fatores que concorrem para a excelência da obediência na vida religiosa, segundo ensina Valuy.

a)No obséquio que se faz a Deus:

“Não se trata mais das riquezas da terra, como no voto de pobreza; nem das satisfações corporais, como a castidade; senão que consagra a Deus o que o homem tem de mais nobre, de mais precioso e de mais íntimo: sua própria liberdade”18; […] “já que é dom supremo do amor entregar não só o que se possui- coisa bem precária- mas o que se é”.19

b)Nos traços de semelhança que nos faz ter com Nosso Senhor Jesus Cristo:

O religioso pode afirmar com Ele, o Obediente por excelência: “não busco a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (Jo 5,30). E dizer também a respeito de si: “Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e cumprir a sua obra” (Jo 4,34); desta maneira ele se assemelha Àquele que é o modelo da mais sublime obediência.

c)Na dignidade e perfeição que comunica à vontade:

“A conformidade mais real, mais íntima, mais profunda, é a que existe entre duas vontades”20, assevera Tanquerey, e é propriamente esta afinidade que Deus quer estabelecer com os homens; este Seu desejo se satisfaz especialmente com aqueles que entregam a Ele sua vontade, pelo voto de obediência. E conforme atesta Santa Teresa, o nosso intelecto e a nossa vontade se enobrecem quando, esquecendo-se de si, tratam com Deus.21 Logo, “[…] pelo voto de obediência o religioso une seu entendimento e sua vontade ao entendimento e à vontade de Deus; faz-se um mesmo espírito com Deus e pode, com razão, lisonjear-se de pensar e de querer como Deus, de fazer o que Deus quer, como quer e porque quer”.22

d)Na influência que exerce sobre todas as virtudes:

“Se desejais enriquecer-vos pronta e facilmente de todas as demais virtudes, não abandoneis jamais o salutar exercício da obediência”23 , assegura Santa Maria Madalena de Pazzi. E continua Valuy: “Ela as planta, as rega e as faz frutificar; conserva-as, sustenta sintetiza e supre. Dá-lhes forma e mérito, valor e vida”.24

e)No sinal de predestinação que nela se encontra:

“Não sendo outra coisa o pecado, senão uma desobediência à lei divina, o que consagra a sua vida à obediência se coloca em certa impossibilidade de pecar; e, se o único obstáculo para a salvação está no pecado, ele toma o caminho mais seguro, curto e fácil para alcançar a salvação eterna. Que abundância de graças durante a vida, que consolos na hora da morte, que glória e que destino não concede Deus na eternidade, ao religioso que por seu amor sacrificou tudo e até a sua própria pessoa!”25

Desta maneira, o religioso ao passar desta vida para a eternidade, poderá com toda alegria exclamar:

“Senhor, eu também estive crucificado convosco, como Vós e por Vós. Meus pés e minhas mãos, minha língua e todos os meus sentidos, minha inteligência, minha liberdade, minha vontade, meu ser todo inteiro foi crucificado, […]. A obediência foi meus cravos e minha cruz. E agora, Senhor, posto que Vos segui até o Calvário, mandai-me entrar convosco na glória”.26

Por fim, cabe-nos reconhecer a grandeza desta virtude, para nos empenharmos em praticá-la e nela nos refugiarmos. A obediência nos dá uma felicidade insubstituível posto que ela nos faz renunciar o que há de mais precioso para nós: a nossa própria vontade.27

O fato de existir almas que amam e desejam praticar a virtude da obediência é uma proclamação da autêntica liberdade dos verdadeiros filhos da luz no meio das trevas desse mundo que se gloria da libertinagem das paixões e da total independência a qualquer forma de hierarquia e autoridade.

1 “obedientiam reddit promptam hominis voluntatem ad implendam voluntatem alterius, scilicet praecipientis” (Ibid. II-II, q. 104, a 2 ad. 3).
2 ROYO MARÍN, Antonio. La vida religiosa. 2. ed. Madrid: BAC, 1965. p. 325.
3 “Respondeo dicendum quod sicut actiones rerum naturalium procedunt ex potentiis naturalibus, ita etiam operationes humanae procedunt ex humana voluntate. Oportuit autemin rebús naturalibus ut superiora moverent inferiora ad suas actiones, per excellentiam naturalis virtutes collatae divinitus. Unde etiam oportet in rebús humanis quod superiores moveant inferiores per suam voluntatem, ex vi auctoritatia divinitus ordinatae. Movere autem per rationem te voluntatem est praecipere. Et ideo, sicut ex ipso ordine naturali divinitus instituto inferiora in rebús naturalibus necesse habent subdi motioni superiorum, ita etiam in rebús humanis, ex ordine iuris naturalis et divini, tenentur inferiores suis superioribus obedire” (SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. II-II, q. 104, a.1).
4 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. A Imagem Sacra pode expressar muito mais do que a palavra. Op. cit. p.10
5 SANTA TERESA DE JESUS. Livro da vida. In: Obras Completas. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2002. p. 115.
6 “Bienaventurados los obedientes, porque Dios nunca permitirá que se extravíen” (SÃO FRANCISCO DE SALES. Obras selectas. Madrid: BAC, 1953. Vol. I. p. 153. Tradução da autora).
7 “[…] un gran misterio de predilección hacia una determinada alma […] un abismo de amor selectivo por parte de Dios” (ROYO MARIN, Antonio. La vida religiosa. Op.cit. p. 145.Tradução da autora).
8 “Nada hay- en la práctica nada debe haber- en ella que no sea total y esencialmente religioso” (Ibid. p. 135. Tradução da autora).
9 “Id quod communiter multis convenit, antonomastice attribuitur ei cui per excellentiam convenit: sicut nomen fortitudinis vindicat sibi illa virtus quae circa difficillima firmitatem animi servat;[…]. Religio autem, ut supra habitum est, est quaedam virtus, per quam aliquis ad Dei servitium et cultum aliquid exhibet. Et ideo antonomastice religiosi dicuntur illi qui se totaliter mancipant divino servitio, quasi holocaustum Deo offerentes. Unde Gregorius dicti, super Ezech. (Homil. XX): Sunt quidam qui nihil sibimetipsis reservant; sed sensum, linguam, vitam atque substantiam, quam perceperunt omnipotenti Domino immolant” (SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. II-II, q. 186, a.1).
10 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. II-II, q.186, a. 8.
11 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Este êremo é a obra-prima de Nossa Senhora: Palestra. São Paulo, 13 set. 1971. (Arquivo IFTE).
12 SANTA TERESA DE JESUS. Fundações. In: Obras Completas. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2002. p. 616.
13 “[…] nos fala Dios, no ya como Señor que manda, sino como Padre que manifiesta un deseo. Esta obediencia no es ya el acto del que sirve bajo pena de no cobrar su salario y perder su pan, sino el acto del hijo que saca de su amor energías para hacer lo que su padre desea de su buena voluntad” (MAUCOURANT, F. Op. cit. p. 61. Tradução da autora).
14 SANTA TERESA DE JESUS. Fundações. Op. cit. p. .
15 “Con vuestra divina gracia resuelvo, Señor, seguir en todo as vuestras ordenes y vuestros deseos sin buscar jamás mi proprio gusto” (MAUCOURANT, F. Op. Cit. p.56. Tradução da autora).
16 SANTA TERESINHA DO MENINO JESUS. Caminhando para Deus. 9. ed. São Paulo: Paulus, 1997. p. 254.
17 Ibid. p. 257.
18 “no es ya la fortuna de la tierra, como la pobreza; ni las satisfacciones corporales, como la castidad; sino que consagra a Dios lo que tiene el hombre de más noble, de más precioso y de más intimo: su misma libertad” (VALUY, Las virtudes del religioso, apud ROYO MARIN, Antonio. La vida religiosa. Op. cit. p. 333. Tradução da autora).
19 “ya que es don supremo del amor entregar no sólo lo que se posee -cosa bien minguada-, sino lo que uno es” (VALUY, Tratado breve del religioso, apud ROYO MARIN, Antonio. La vida religiosa. p. 331. Tradução da autora).
20 TANQUEREY, Adolfe. Compêndio de Teologia ascética e mística. 6. ed. Porto: Apostolado da Imprensa, 1961, p. 238.
21 SANTA TERESA DE JESUS. Castelo interior. In: Obras Completas. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2002. p. 449.
22 “[…] por el voto de obediencia une el religioso su entendimiento y su voluntad al entendimiento y voluntad de Dios; se hace un mismo espíritu con Dios y puede, con razón, lisonjearse de pensar y de querer como Dios quiere, como lo quiere y porque quiere” (VALUY, Las virtudes del religioso, apud ROYO MARIN, Antonio. La vida religiosa. Op.cit. p. 334. Tradução da autora).
23 “Si deseáis enriqueceros pronta y fácilmente de todas las virtudes, no abandonéis jamás el salutable ejercicio de la obediencia” (SANTA MARIA MADALENA DE PAZZI apud MAUCOURANT, F. Op. cit. p.141. Tradução da autora).
24 “Ella las planta, las riega y las hace fructificar; las conserva, las sostiene, las compendia y las suple; les da forma y mérito, precio y vida” (Id. Las virtudes del religioso, apud ROYO MARIN, Antonio. La vida religiosa. p. 334).
25 “No siendo otra cosa el pecado que una desobediencia a la ley divina, el que consagra su vida a la obediencia se pone en cierta imposibilidad de pecar; y, por cuanto el único obstáculo para salvación está en el pecado, toma el más seguro, el más corto y el más fácil camino para la salvación. ¡Qué abundancia de gracias durante la vida, qué consuelos en la hora de la muerte, qué gloria y que dicha no concede Dios en eternidad al religioso que por su amor lo ha sacrificado todo, y se ha sacrificado a si mismo!” (Loc. Cit. Tradução da autora).
26 “yo también, Señor, he estado crucificado con Vos, como Vos e por Vos. Mis pies y mis manos, mi lengua, todos mis sentidos, mi inteligencia, mi libertad, mi voluntad, mi ser todo entero ha sido crucificado, […]. La obediencia ha sido mis clavos y mi cruz. Y ahora, Señor, puesto que os he seguido al Calvario, mandadme entrar con Vos en la gloria” (Loc. Cit. Tradução da autora).
27 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Obedecer sempre e com alegria: Homilia. São Paulo, 18 jan. 2010. (Arquivo IFTE).

A alegria de ter um superior

Cristo_Rei1Maria Teresa Ribeiro Matos

Deus criou o mundo onde os seres, apesar de possuírem uma igualdade elementar, são profundamente desiguais, unidos e harmonizados pela mais perfeita hierarquia. O universo assim ordenado faz resplandecer a beleza de Deus.

Como seria tétrico nos depararmos com o cadáver de alguém que cortara sua própria cabeça, alegando demasiada opressão desta sobre o resto do corpo! Pior ainda, se a decapitação fosse obra não da própria pessoa, mas de outrem. Nesse caso, o ato não seria apenas tétrico, mas digno de compaixão e de ódio. Compaixão pela desgraça que se abatera sobre aquela vítima, ódio para com os inventores desta tremenda injustiça.

Mas alguém poderia objetar: injustiça? Não é injusto o modo como a cabeça se aproveita do corpo? Tem a cabeça o direito de sugar as energias, beneficiar-se dos alimentos trabalhados pelo aparelho digestivo, usar dos membros para pôr em execução seus planos e pensamentos? Tudo isso não é uma exploração dos membros inferiores? Não é uma vergonha para os demais membros e partes do corpo estar mais baixo e ter constantemente sobre si a cabeça?

Essas perguntas absurdas, que pareceriam brotadas de uma mente insana, surgiram na mente e nos lábios de homens que se diziam adoradores da razão e contagiaram uma nação, não apenas no âmbito individual, mas no corpo de toda uma sociedade. “A Revolução Francesa foi o triunfo do igualitarismo em dois campos. No campo religioso, sob a forma do ateísmo, especiosamente rotulado de laicismo. E na esfera política, pela falsa máxima de que toda desigualdade é uma injustiça, toda autoridade um perigo, e a liberdade [libertinagem] o bem supremo”1.

Agitada por tais ideias revolucionárias, a França viu seus soberanos decapitados, seus nobres e seu clero massacrados. Enquanto em nome do povo se praticavam estas barbaridades, o verdadeiro povo, no oeste do país, dava sua vida em defesa de seu Deus e seu Rei.

Em defesa de Deus? Mas o ataque não era contra os nobres, ricos e opressores? Basta analisar os fatos históricos e as doutrinas revolucionárias para concluirmos que o ódio dos revolucionários era no fundo contra Deus.

As autoridades, tão ferozmente atacadas, não são senão um reflexo do Altíssimo e representantes d’Ele na Terra. “Toda autoridade existente na terra é significado de Deus. […] Não se trata da pessoa do rei, que pode ser um crápula, mas a autoridade do rei – os atributos, a missão, o poder, o cargo régios – é um fulgor de Deus”2. Aprouve ao Senhor criar um mundo onde os seres, apesar de possuírem uma igualdade elementar, são profundamente desiguais, unidos e harmonizados pela mais perfeita hierarquia. O universo assim ordenado faz resplandecer a beleza de Deus. Os superiores são completados pelos inferiores e vice-versa. A missão do superior não é de ser um opressor em relação ao inferior, mas seu pai e protetor; quanto ao inferior, não deve ser um contestatário, que se revolta contra o que está acima, mas é aquele que encontra toda sua alegria em poder servir. Esta é, de fato, a maior alegria que um homem pode ter nesta Terra, a de ter um superior a quem servir. E este gáudio é acessível a todos os homens, posto que o mais ilustre dos Papas ou dos Reis está infinitamente abaixo de Deus e deve-lhe toda veneração e obediência, tendo recebido d’Ele a autoridade.

1CORREA DE OLIVEIRA, Plinio. Revolução e Contra-Revolução. 5 ed. São Paulo: 2002. p. 15.
2CORREA DE OLIVEIRA, Plinio. As realidades visíveis sinais de ralidades invisíveis. In: Dr. Plinio.São Paulo: Retornarei, n. 49, abr.2002. p. 20-25.

A vida consagrada na Sociedade Regina Virginum

regina_viginumFahima Akram Salah Spielmann

O sino soa, mais uma vez, no silêncio dos corredores de um mosteiro da Sociedade de Vida Apostólica de Direito Pontifício Regina Virginum. Um ruído corriqueiro e banal para o mundo moderno, mas ali, para as religiosas, reveste de grandeza, convidando cerca de sessenta almas “anônimas” – que sentem em si o chamado para o heroísmo – para um ato da comunidade: a recitação do Rosário.

Num mundo onde a grande maioria dos homens é sôfrega de liberdade, qual seria a razão de tantas jovens renegarem sua vontade própria, e com alegria sujeitarem-se, em obediência a uma regra, a um simples badalar de sino?

A resposta encontra-se no apelo para a santidade (VS 17-19). Todos os batizados são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade. Contudo, os religiosos vão mais além e consagraram a própria vida ao Senhor, no espírito e na prática dos conselhos evangélicos: obediência, pobreza e castidade. 1

Segundo o atual Código de Direito Canônico, a principal característica de quem aderiu a vida consagrada é uma entrega total nas mãos do Superior, mediante votos perpétuos ou temporários, implicando a “separação do mundo que é própria da índole e finalidade de cada instituto” (Cân 607 §3).

_ND35796“Cesse a vontade própria, e já não haverá inferno” dizia São Bernardo. Segundo as normas da Sociedade Regina Virginum, é “regulamentado o alcance da obediência2, e determinado os graus de obrigação com o cerimonial correspondente”. A este respeito comenta Mons. João S. Clá Dias, o seu Fundador: “o voto de obediência, que assim está bem designado, não estaria mal se se chamasse ‘voto de liberdade’, pois é nesse voto que o membro da instituição se vê livre dos erros e faltas que poderia cometer caso seguisse o impulso de seus instintos”.

Quanto à prática do conselho evangélico da pobreza, o próprio Cristo ordenou-a aos seus seguidores: “Qualquer um de vós, que não renuncia a tudo o que possui, não pode ser meu discípulo” (Lc 14,33). Conforme o Magistério da Igreja, “o preceito do desprendimento das riquezas é obrigatório para se entrar no Reino dos céus” (CEC 2544).

Na Sociedade Regina Virginum, a regra, ou ordo, “incentiva o desprendimento dos bens materiais, dispondo deles com a prévia autorização da superiora”, havendo um cerimonial específico para a distribuição de bens.3

A Castidade4, também chamada virtude angélica, “é a maneira eminente de se dedicar mais facilmente a Deus com coração indiviso” (CEC 2349).

Aos membros desta sociedade, ela é estimulada, ao mesmo tempo em que é proporcionada a fuga das ocasiões próximas. Por exemplo, temos em nossos meios a prática da sábia norma de antigas regras de quase todos os mosteiros posteriores ao século V, onde se vedava a possibilidade de sair sozinha, inclusive em missão, além de outras normas como a proibição do acesso a algumas comunicações sociais, como a internet, sem a autorização expressa da Superiora, e o relacionamento com pessoas do outro gênero sem a licença da mesma”.

Além de praticar os conselhos evangélicos, as religiosas cumprem as normas que estão sob o carisma do fundador, conforme o cânon 576 12. “O fundador representa para o religioso uma imagem divina, um modelo que, na sua vida e em seu ensinamento, reproduz a Cristo de maneira adaptada a seus filhos”, segundo as sábias palavras do Padre Gilmont.5

Nos pilares da espiritualidade da Sociedade Regina Virginum encontramos “uma concisa expressão: a devoção a Jesus Eucarístico e a Maria Santíssima, e a fidelidade ao Papa”.

“Pela recepção frequente ou diária da Santíssima Eucaristia, aumenta-se a união com Cristo; alimenta-se abundantemente a vida espiritual; a alma se enriquece com as virtudes e, a quem a recebe, é dado um penhor mais seguro da felicidade eterna” (EM 37), além das comunhões diárias, há a adoração ao Santíssimo Sacramento que é exposto habitualmente nas casas dessa Sociedade.6

_ND35929Cônscias de que por suas próprias forças não conseguem alcançar a santidade, as jovens religiosas, com assídua frequência ao Sacramento da Penitência, rezam, quotidianamente, além da Liturgia das Horas e de diversas orações, os vinte mistérios do Rosário. Voltando-se para Maria Santíssima, “a primeira e perfeita consagrada, carregada por aquele Deus que Ela leva nos braços; Virgem, pobre e obediente, toda dedicada a nós, porque é toda de Deus” 7, com a Sua materna ajuda renovam, diária e constantemente, o seu “Praesto sum”, “eis me aqui”, para comunicar aos outros a dádiva do seu carisma (cf. 1 Cor 14, 12) e testemunhar em primeiro lugar o maior carisma, que é a caridade (cf. 1 Cor 13)8.

1 Cân 573, § 1: “A vida consagrada pela profissão dos conselhos evangélicos é uma forma estável de viver, pela qual os fiéis, seguindo mais de perto a Cristo sob a ação do Espírito Santo, consagram-se totalmente a Deus sumamente amado, para assim, dedicados por título novo e especial a sua honra, à construção da Igreja e à salvação do mundo, alcançarem a perfeição da caridade no serviço do Reino de Deus e, transformados em sinal preclaro na Igreja, prenunciarem a glória celeste”.
2 Cân 601: “0 conselho evangélico da obediência, assumido com espírito de fé e amor no seguimento de Cristo obediente até à morte, obriga a submissão da vontade aos legítimos Superiores, que fazem as vezes de Deus quando ordenam de acordo com as próprias instituições”.
3 Ordo de Costumes. Arautos do Evangelho. 2001, p.56.
4 Cân 599: “0 conselho evangélico da castidade, assumido por causa do Reino dos céus e que é sinal do mundo futuro e fonte de maior fecundidade num coração indiviso, implica a obrigação da continência perfeita no celibato”.
5 GILMONT. Jean François. Paternité et Médiation du Fondateur d’Odre. Toulousse:1964. p. 416-4 17.
6 Cân. 663 §2: “Os membros quanto possível, participem todos os dias do sacrificio eucarístico, recebam o santíssimo Corpo de Cristo e adorem o próprio Senhor presente no Sacramento”.
7. Papa Bento XVI, homilia, 2 de fevereiro de 2010.
8. Papa Bento XVI, homilia, 2 de fevereiro de 2009.

A obediência e humildade de Maria

Ana Rafaela Maragno

Difícil é encontrar, hoje, na sociedade almas submissas à vontade de Deus e conformes aos seus mandamentos.
Que pensar, então, da humanidade, há cerca de dois milénios atrás, submersa nas sombras do paganismo? Os gentios tinham por lei o amor a si e o esquecimento dos outros. Os judeus, embora tivessem a luz das profecias sendo conhecedores do Deus verdadeiro, esfriavam sempre mais na expectação da vinda de seu Redentor e como consequência esqueciam-se da fidelidade a uma vida virtuosa.

Ignoravam estes, porém, que na pequena cidade de Belém, um altamente nobre, humilde e santo casal já adorava um Deus-Bebê que uma Virgem dera à luz e afagava-O em seus braços. Um Homem-Deus que veio fazer a vontade do Pai e que praticou a humildade até mesmo antes de nascer, encerrando-se nove meses no seio de Maria, ocultando seus atributos divinos; sofrendo as repulsas que sua Mãe foi vítima quando não a quiseram receber em Belém; nascendo em uma gruta e posto sobre palhas em uma manjedoura.

Após seu nascimento, o santo casal esperou completarem-se os quarenta dias para a purificação da Mãe e a apresentação do Menino no Templo, conforme ordenava a lei de Moisés. Que necessidade havia de o Autor da Lei e a Mãe da graça observarem os preceitos mosaicos? Entretanto, por um amor à lei que Ele mesmo havia criado e por uma humildade profunda, dirigiram-se ao Templo a fim de a cumprirem.

praesentatioTomaram o caminho de Jerusalém. Foi a primeira passagem de Jesus por aquela cidade, que haveria de percorrer anos mais tarde fazendo o bem a todas as suas criaturas, até o momento de atravessá-la novamente carregando sua cruz às costas para consumar sua obra de amor. Ocultos aos olhos humanos, mas espetáculo para todos os anjos que guiavam os seus caminhos, avistaram as muralhas do Templo. O Divino Menino entraria nele, pela primeira vez, levado nos braços de sua Santíssima Mãe.

A Virgem parou “à porta do tabernáculo, como as outras mães de Israel, que não podiam entrar nele, antes de serem purificadas”. 1 Não haveria necessidade de purificar-se quem é a Rainha das virgens, porém quis praticar esse ato de humildade e se apresentou ao sacerdote.

Neste momento, deu-se o encontro com o velho Simeão que, movido pelo Espírito Santo, dirigiu-se àquele jovem casal que portava a mais preciosa criatura: o Homem-Deus. Simeão O tomou nos braços e “cantou a glória d’Ele, profetizando tudo quanto Ele seria. E Nosso Senhor, frágil criança, na aparência sem entender, compreendia e inspirava aquele cântico…” 2 Ao mesmo tempo, profetizou sobre os sofrimentos da Mãe : “e uma espada transpassará a tua alma”(Lc 2,35).

Ambos vieram ocultados sob o véu da humildade e foram distinguidos e proclamados: o Menino como luz das nações e glória do povo de Israel (cf. Lc 2,32); a Virgem, sendo a Mãe de Deus e Co-redentora. O consentimento de Nossa Senhora em que seu Filho fosse imolado de forma tão cruel e dilacerante pela remissão de nossos pecados, os méritos desse sofrimento indizível da Virgem unidos aos méritos infinitos do martírio de Jesus, tudo isso granjeou-Lhe o título de Co-redentora do gênero humano.

O que mais conhecemos da vida de Maria? As Sagradas Escrituras relatam a preocupação de Nossa Senhora na perda e o encontro do Menino Jesus no templo e o milagre de Jesus nas Bodas de Canã por intercessão dela. Em algumas circunstâncias de sua vida, Maria foi tratada por seu Divino Filho de mulier – mulher – como a uma estrangeira para lhe favorecer a humildade, conquanto em Seu coração, a estimasse e amasse mais do que todos os anjos e homens. Embora Deus–Pai lhe tivesse outorgado o poder de fazer milagres, consentiu que jamais em sua vida Nossa Senhora fizesse algum, ao menos um milagre visível e retumbante.

Entretanto, Maria é Rainha do Universo, dos anjos e dos homens porque é a mais humilde de todas as criaturas; escolheu o último lugar, o mais próximo ao Filho que, embora sendo Deus, se fez “obediente até a morte e morte de cruz”.

Ensina-nos o Divino Mestre: “Todo aquele que se exaltar será humilhado, e todo aquele que se humilhar será exaltado” (Lc 14,11). Esse é o prêmio dos humildes: quanto mais se apagam, mais Deus os eleva e os faz fulgurar com brilho cada vez maior.

Ao contrário, os orgulhosos quanto mais correm atrás das glórias mundanas, tanto mais são sepultados no isolamento e no esquecimento, pois “o orgulho é impaciente e malévolo; invejoso, arrogante, ambicioso, busca só os seus próprios interesses, pervadido de irritações e de ressentimentos pelo mal sofrido”, porque o orgulho “nada desculpa, de tudo desconfia, nada espera e nada suporta” (parafraseando São Paulo, I Cor 13, 4 a 7).

Sigamos o exemplo de Maria. Ela é a Rainha da humildade e por uma palavra sua tudo pode obter-nos de seu Filho diletíssimo, a nós miseráveis pecadores que Ela vela com verdadeiro amor de Mãe. Deixemos para trás o orgulho e obedeçamos às leis Deus.

1 AQUINO, Maria Teresa. Aula de Mariologia no Instituto Filosófico-Teológico Santa Escolástica — IFTE. Caieiras, 20maio2011. (Subsídios).
2CORREA DE OLIVEIRA, Plinio. A Apresentação do Menino Jesus. In: Dr Plinio. São Paulo: Retornarei, n.71, fev. 2004. p. 2.