O QUE É MAIS IMPORTANTE?

Ir. Letícia Gonçalves de Sousa, EP

Depois do pecado original, a natureza humana tornou-se mais tendente a buscar sua felicidade nas coisas materiais vinculadas facilmente aos sentidos do que naquelas ligadas ao espiritual. Quiçá seja este o motivo pelo qual o Divino Mestre perfumou as páginas do Evangelho com ensinamentos a respeito da grandeza do Reino do Céu a fim de que, encantados pela beleza deste, os homens perdessem o desejo de gozar desta terra passageira e corrompida.

Nosso Senhor também Se utilizou das parábolas do Reino para falar do caráter militante da Igreja: “quando é semeado, é a menor de todas as sementes. Mas, depois de semeado, cresce, torna-se maior que todas as hortaliças e estende de tal modo os seus ramos, que as aves do céu podem abrigar-se à sua sombra” (Mc 4, 31-32).

Assim sendo, facilmente podemos responder à seguinte pergunta: o que mantém viva, influente e em contínua expansão a Esposa Mística de Cristo? É a estirpe de almas que, escutando as divinas palavras de Nosso Senhor, avançam para fazer com que um dia venha a nós o reino do Pai. A maior arma de apostolado destes apóstolos não é outra senão a vida interior.

São Carlos Borromeu tem um sábio conselho neste sentido: “Não descuides de tua própria alma; se descuidares de tua alma, não poderás dar aos outros o que deves dar”.[1] Este é o segredo do desenvolvimento e da força dessa árvore sagrada, que um dia foi um grão de mostarda. Sua seiva é o auxílio da graça divina, e não a força humana. Portanto, se realizamos boas obras, “não devemos nos pôr a pergunta se os homens reconhecerão nossas realizações e nossas grandezas. Importa sabermos que Deus nos assiste, perscrutando no fundo das almas o amor com que O servimos”.[2]

Podemos dar muita glória a Deus em nossas ações de cada dia, desde que tenhamos as vistas postas no sobrenatural e, não apenas no concreto, sendo perfeitos “como o Pai celeste é perfeito” (Mt 5, 48). “Assim fez Cristo Jesus durante Sua vida pública: ocupadíssima, intensíssima, entretanto, sempre impregnada de oração e contemplação”.[3] Sigamos, pois, os seus passos.

[1] CARLOS BORROMEU, Santo. Sermão. In: COMISSÃO EPISCOPAL DE TEXTOS LITÚRGICOS. Liturgia das Horas. Petrópolis: Vozes; Paulinas; Paulus; Ave Maria; 2000, v. IV, p. 1436.

[2] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Santidade, o ideal de todo homem. In: Dr. Plinio.  São Paulo, Ano IV, n. 44, nov. 2001, p.10.

[3] CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O amor imperfeito de Maria e a preocupação naturalista de Marta. In: Arautos do Evangelho. São Paulo: Ano IX, n. 103, jul. 2010, p. 15.

A raiz de todos os males (cont)

Ir Ariane da Silva Santos, EP

No post anterior, foi analisada a figura de Lúcifer e seus sequazes que por um ato de insubmissão foram expulsos do Céu, agora consideraremos o homem.

“Sereis como deuses…”

Deus criou Adão em estado de justiça original e o introduziu no Paraíso. Enquanto permaneceu inocente, o homem viveu feliz naquele lugar de delícias, em companhia de Eva, tendo, entretanto, de obedecer à ordem que o Senhor lhes havia dado: “Não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal; porque no dia em que dele comeres, morrerás indubitavelmente” (Gn 2, 17).

Se nossos primeiros pais tivessem sido fiéis a este preceito, Deus os confirmaria na graça e todos os seus descendentes nasceriam também em estado de justiça. Depois de concluir o curso de sua existência no Paraíso, entrariam na felicidade perfeita, na bem-aventurança eterna. Ademais, tinham eles outras prerrogativas:

Não havia para o homem a possibilidade de morte, nem de enfermidade. Devido à sujeição das forças inferiores à razão, reinava nele uma completa tranquilidade de espírito, porque a razão humana não era perturbada por nenhuma paixão desordenada. Pelo fato de sua vontade estar submissa a Deus, ele dirigia tudo para Deus, como seu fim último, e nisso consistiam sua justiça e sua inocência. 1

Contudo, Eva deixou-se enganar pelas palavras da serpente: “Oh, não! Vós não morrereis! Mas Deus bem sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão, e sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal!” (Gn 3, 4-5). Como a soberba já ofuscava o espírito de Eva, ela tomou o fruto, comeu-o e ofereceu-o ao seu marido, que também o comeu. “A sedução da mulher, embora precedesse o pecado de ação, foi, entretanto, subsequente a um pecado de orgulho interior”,2 ensina São Tomás de Aquino. E nesse mesmo sentido, afirma Santo Agostinho: “Não se deve imaginar que o tentador teria conseguido vencer o homem se no espírito dele não tivesse surgido antes um sentimento de orgulho, o qual ele deveria reprimir”.3

Ainda a respeito do pecado original, o Aquinate explica:

A primeira desordem do apetite humano consistiu em desejar, de forma desordenada, algum bem espiritual. Mas não o teria desejado desordenadamente se o tivesse feito na medida estabelecida pela lei divina. Logo, o primeiro pecado foi o desejo de um bem espiritual, fora da medida conveniente. E isso é próprio da soberba. Por conseguinte, o primeiro pecado do primeiro homem foi manifestadamente a soberba. 4

“A soberba precede à ruína; e o orgulho, à queda” (Pr 16, 18), ressalta o livro dos Provérbios. E foi o que sucedeu ao homem: perdeu todos os dons da graça que de Deus havia recebido, e foi expulso do Paraíso para este vale de lágrimas.

Podemos, assim, constatar uma estreita semelhança entre o pecado dos anjos e o dos homens:

Bem se pode afirmar que o pecado de nossos primeiros pais foi diabólico, pois, na sua essência, foi idêntico ao dos anjos maus. E isso pode ser dito também do vício de orgulho pelo qual somos levados a amar-nos mais a nós mesmos do que a Deus.5

Como castigo, toda a humanidade nasce com a mancha original e sofre suas mazelas, tendo de comer o pão com o suor de seu rosto (cf. Gn 3, 19).

Foi desse modo que o homem iniciou sua luta sobre a terra, tendo de enfrentar não só as adversidades da vida, mas, sobretudo, os vícios da alma. Nesta batalha, os verdadeiros heróis são aqueles que vencem seu próprio orgulho. Ao longo da História, muitos saem vitoriosos, pois sabem confiar em Deus mais do que em si mesmos. Muitos outros, entretanto, são derrotados e, em consequência, sofrem terríveis desastres.

1 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Compendium theologiae. L.I, C. 186.
2 Id. Suma Teológica. I, q. 94, a. 4, ad 1.
3 SANTO AGOSTINHO. De Genesi ad litteram. L. XI, c. 5; ML 34, 432.
4 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica, II-II, q. 163, a. 1.
5 SOLERA LACAYO, Rodrigo Alonso. Foram Adão e Eva enganados pela serpente? In: Arautos do Evangelho. São Paulo. n. 131, Nov. 2012, p. 22.

O pecado

Anna Luiza Cendon Finotti

Deus submeteu à prova nossos primeiros pais1 a fim de merecerem o céu. No entanto, eles não permaneceram fiéis ao transgredirem o mandato divino 2 e,“ao lermos o Gênesis, entristece-nos a história do primeiro pecado do homem” 3 (Cf. Gen 3, 1-24), pois é a fonte dos desequilíbrios de toda a humanidade. O homem, criatura nobre de Deus, ficou, assim, desfigurado pelo pecado e sujeito às más tendências.

Entretanto, “antes de sentenciar os sofrimentos aos quais a natureza humana estaria sujeita na terra de exílio, Deus nos prometeu a vinda de um Salvador, […]garantindo-nos o perdão”. 4 Igualmente, deu-nos o sacramento do Batismo que apaga o pecado original e “nos eleva muito acima da nossa natureza humana para nos tornarmos verdadeiros filhos e herdeiros da Santíssima Trindade” 5.

Contudo, quando pecamos afastamo-nos novamente de Deus e rompemos com essa amizade, pois, como tão bem define Santo Agostinho, o pecado constitui uma aversio a Deo et conversio ad creaturas, afastar-se de Deus e um voltar-se a criatura.

Por qual motivo, então, permitiu Deus o pecado? Entre outras razões, explica Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP:

[…] em primeiro lugar, a fim de nos enviar um Salvador que operasse a Redenção. Por isso, na Liturgia da Vigília Pascal se canta “ó culpa tão feliz que há merecido a graça de um tão grande Redentor”. Em segundo lugar, para evitar o amolecimento e a tibieza dos justos. […] Por último, porque permitindo o mal Deus quer um bem superior que dele resulta acidentalmente.6

E essa fraqueza do homem, por onde muitas vezes ele prefere o mal ao bem, é ainda uma consequência do pecado original. O próprio São Paulo descreve esta luta interior:

Não entendo, absolutamente, o que faço, pois não faço o que quero; faço o que aborreço. E, se faço o que não quero, reconheço que a lei é boa. Mas, então, não sou eu que o faço, mas o pecado que em mim habita. Eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita o bem, porque o querer o bem está em mim, mas não sou capaz de efetuá-lo. Não faço o bem que quereria, mas o mal que não quero. Ora, se faço o que não quero, já não sou eu que faço, mas sim o pecado que em mim habita. Encontro, pois, em mim esta lei: quando quero fazer o bem, o que se me depara é o mal. Deleito-me na lei de Deus, no íntimo do meu ser. Sinto, porém, nos meus membros outra lei, que luta contra a lei do meu espírito e me prende à lei do pecado, que está nos meus membros. (Rm 7, 15-23).

É nessa constante luta que vive o homem sobre a terra. Dela saem vitoriosos e alcançam a felicidade eterna aqueles que, com o auxílio da graça, souberem observar as Leis de Deus e renunciar a todo pecado.7

O pecado é algo horroroso e as palavras do Beato João Paulo II bem o confirma: “Aquilo que se opõe mais diretamente à caminhada do homem em direção a Deus é o pecado, o perseverar no pecado, enfim, a negação de Deus.”

Acrescenta Mons. João:

A gravidade da ofensa se mede sobretudo pela dignidade da pessoa ofendida. Uma agressiva bofetada desfechada por alguém a seu igual merece uma penalidade muito menor do que uma outra, da mesma intensidade, desferida contra uma grande e representativa personalidade. O castigo sempre deverá ser aplicado em proporção à categoria do ofendido. Ora, se a pessoa ultrajada é infinita, o castigo só poderá ser eterno; tanto mais que, para reparar o pecado, quis o Verbo de Deus encarnar-Se e sofrer todos os tormentos da Paixão.8

Os pecados dos homens fazem sofrer o Sagrado Coração de Jesus, tão sensível às ingratidões recebidas. Disso são testemunhas inúmeras revelações privadas, como por exemplo, nesta em que Ele dirigiu a Santa Maria Margarida as seguintes palavras:

Eis este Coração que tanto amou os homens até se consumir para testemunhar seu amor. E como reconhecimento só recebe da maioria ingratidões por suas irreverências e sacrilégios, e pelas friezas e desprezos que têm para comigo neste Sacramento de amor. E o que é para Mim ainda mais sensível são corações consagrados a mim que também procedem da mesma maneira. 9

Como não se compadecer do Coração de Jesus continuamente atormentado pelos pecados dos homens? Dia e noite o Senhor Jesus é abandonado no Santíssimo Sacramento, em todos os instantes os homens pecam, e como outros tantos Pilatos, Caifás e Herodes, condenam o Justo à morte. Não há minuto na face da Terra em que o Sagrado Coração não seja alvo de novos escárnios e bem dizia Santa Teresa de Jesus: “Não há coração que não sofra por tantas calamidades, mesmos os nossos que são tão ruins…”10, e ainda São Luís Maria Grignion de Monfort exclama: “Não é melhor para mim morrer do que Vos ver, meu Deus, todos os dias, tão cruelmente ofendido?”.11

1 TANQUEREY, Adolphe. Compêndio de Teologia Ascética e Mística. Porto: Apostolado da Imprensa, 1961, p. 34.
2 Cf. ROYO MARÍN, Antonio. Somo hijos de Dios. Madrid: BAC, 1977, p. 10; TANQUEREY, loc. cit.
3 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Paz! Onde estás?. In: O inédito sobre os Evangelhos. Città del Vaticano: LEV, 2012, v. V, p. 101.
4 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Entre o perdão e a perseverança Deus prefere o quê?. In: O inédito sobre os Evangelhos. Città del Vaticano: LEV, 2012, v. VI, p. 342.
5 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Pertencemos à família de Deus!. In: O inédito sobre os Evangelhos. Città del Vaticano: LEV, 2012, v. V, p. 411.
6 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Até na hora da aparente derrota, o Sumo Bem sempre vence. In: O inédito sobre os Evangelhos, op. cit. v. V, p. 253.
7 Cf. CCE n.2015.
8 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O pobre e o rico. In: O inédito sobre os Evangelhos, op. cit. v. VI, p.379.
9 DUFOUR, Gerard. Na Escola do Coração de Jesus com Margarida Maria. São Paulo: Edições Loyola, 2000, p.87.
10 SANTA TERESA DE JESUS. Caminho de perfeição. In: Obras Completas. São Paulo: Loyola, 2002, c.XXXV, n. 4, p. 408.
11 SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. La oración abrasada. In: Obras. Madrid: BAC, 1953, p.599.

Os homens são filhos de Deus?

Ir. Juliane Campos, EP

Na ordem puramente natural, Deus Criador nos comunica, através de nossos pais, o ser e a natureza específica do homem, mas não seu próprio ser e sua natureza divina. O homem foi criado à imagem de Deus, segundo o Gênesis: “Deus criou o homem à sua imagem; criou-o à imagem de Deus, criou o homem e a mulher” (Gn 1,27), mas não lhe foi dada a natureza divina no momento da criação. É uma simples criatura saída das mãos de Deus, ainda que muito perfeita; inferior apenas aos anjos.

Conforme explica o padre Royo Marín, “toda verdadeira filiação ― seja de que ordem for ― consiste em receber, por via de geração natural, a vida e a natureza específica do próprio pai. Não há outro procedimento possível para estabelecer a relação pai-filho ― falando propriamente e em sentido estrito ― que a via de causalidade geradora”.1

É a graça que dá ao ser humano a condição de filho de Deus. Desde o princípio Deus elevou o homem à ordem sobrenatural, constituindo-o fundamentalmente pela graça e justiça original, sem que jamais haja existido para o homem um estado de simples natureza. Desde o primeiro instante de sua existência, nosso primeiro pai, Adão, “recebeu de Deus a santidade e a justiça” (D 788) , ou seja, foi criado no estado de graça santificante. Eis o que expressa o Concílio Vaticano I: “Deus, por sua infinita bondade, ‘ordenou o homem a um fim sobrenatural’, isto é, a participar dos bens divinos que sobrepujam totalmente a inteligência da mente humana, pois, em verdade, ‘nem o olho viu, nem o ouvido ouviu, nem o coração do homem provou o que Deus preparou para os que O amam’ (1 Cor 2,9; Can. 2 e 3)” (D 1786) .

De maneira clara e simples pode-se dizer, então, que a graça é, pois, um dom divino, que Deus infunde na alma humana, dando-lhe uma participação na Sua própria natureza divina, fazendo o homem semelhante a Ele em sua própria divindade. O que quer dizer, tornando-o filho, por esta participação em Sua própria natureza. Divinizando a cada um, com d minúsculo.

Um exemplo muito elucidativo, baseado em São Boaventura e apresentado em uma conferência pelo Mons. João Clá Dias, faz compreender bem o que seria a natureza em estado puro ou tomada pela graça: seria o de uma catedral, cheia de vitrais, mas à meia-noite e sem nenhuma iluminação. Tudo escuro. Entra-se às apalpadelas e vão se acostumando as vistas. Consegue-se divisar um pequeno ponto de luz vermelha bruxuleando ao fundo, e é a pequena lamparina do Santíssimo, única e tênue iluminação visível. Passa-se o tempo, começa a amanhecer o dia e a iluminar-se os vitrais.

Chega uma certa hora em que o sol bate forte nos vitrais e aquela luz toda se estende pelo chão com cores e mais cores. É uma feeria que eleva a alma e fica-se extasiado por ver os magníficos vitrais iluminados pelo sol. O que é o vitral à meia-noite? É a alma humana sem a graça. O vitral banhado pelo sol é a alma banhada pela graça. É o vitral que, sem ser luz, passa a iluminar, pela luz do sol que ele incorpora. Assim é a alma humana que, sem ser Deus, incorpora a vida divina em si mesma e vê as coisas, as compreende de dentro da vida de Deus, pela graça“.2

Mas o homem, infelizmente, não ficou fiel às exigências que lhe foram impostas por esta elevação gratuita à ordem sobrenatural. O homem transgrediu o mandamento de Deus e pecou. Esclarece Royo Marín que “pelo pecado original, nossos primeiros pais perderam, para si e para todos os seus descendentes, o imenso tesouro sobrenatural que haviam recebido de Deus, e que teriam herdado todos os seus filhos, se não o perdessem irremediavelmente pelo pecado”. 3

Todas as graças, virtudes e dons que havia recebido de Deus ficaram perdidos. A filiação divina ficou maculada, pois não pode um filho de Deus, no sentido mais exato do termo, desobedecer às leis prescritas por Ele mesmo. Ficou manchada toda a criação humana.

O Concílio de Trento definiu assim esta doutrina:

Se alguém não acredita que o primeiro homem, Adão, ao transgredir o mandamento de Deus no Paraíso, perdeu imediatamente a santidade e justiça em que havia sido constituído (…), seja anátema (D 788).

Se alguém afirma que a prevaricação de Adão só prejudicou a ele, e não à sua descendência; ou que a santidade e justiça recebida de Deus, perdida por ele, perdeu-a só para si, e não também para todos nós; ou ainda que, manchado ele pelo pecado da desobediência, transmitiu ao gênero humano somente a morte e as penas do corpo, mas não o pecado, que é a morte da alma, seja anátema, pois contradiz o Apóstolo que declara: ‘Por um só homem entrou o pecado no mundo, e, pelo pecado, a morte, porquanto todos pecaram’”. (Rom 5,12) (D 789)

O Pecado Original trouxe conseqüências desastrosas para a humanidade. O homem ficou com sua natureza desordenada, com suas paixões desenfreadas, com um egoísmo desmedido e ficou capaz de cometer muitos outros atos maus, ou seja, outros pecados pessoais.

Define-se, pois, o pecado, segundo a Suma Teológica:

O pecado, segundo foi dito, é o ato humano mau. Um ato é humano desde que seja voluntário, ou de modo elícito, como o querer e o escolher; ou de maneira imperada, como os atos exteriores da palavra ou da ação. Um ato humano é mau porque lhe falta a devida medida. Toda medida de uma coisa se toma por comparação a uma regra, da qual, se ela se afasta, será sem medida. Para a vontade humana há duas regras. Uma, bem próxima e homogênea, que é a própria razão humana. A outra, que serve de regra suprema, é a lei eterna, de certo modo a razão de Deus. Eis porque Agostinho afirmou duas coisas na definição de pecado. Uma diz respeito à substância do ato humano, e é por assim dizer o material no pecado, ao dizer: ‘dito, feito, desejado’. A outra refere-se à razão de mal, e é por assim dizer o formal no pecado ao dizer: ‘contra a lei eterna’.4

O pecado é, portanto, a violação consciente e voluntária da lei da razão, da consciência e da lei de Deus.

Perdida a vida divina sobrenatural com o pecado, o homem ficou reduzido às suas próprias forças, que de si mesmas jamais poderiam reparar a catástrofe produzida pelo pecado original ou por seus pecados pessoais, pelo abismo infinito que existe entre Deus e o homem. Era impossível cobrir esta distância pelas potências humanas, tão debilitadas pelas consequências do pecado.

Assim como a graça foi dada gratuitamente por Deus, também a reparação do pecado o foi. Diz o Apóstolo Paulo, revelando o grande mistério de nossa redenção e reconciliação com o Criador:

Mas Deus, que é rico em misericórdia, pelo grande amor com que nos amou, estando nós mortos por nossos delitos, deu-nos a vida por Cristo – gratuitamente fomos salvos – e nos ressuscitou e deu-nos assento nos céus em Cristo Jesus, a fim de mostrar nos séculos vindouros a excelsa riqueza de sua graça por sua bondade para conosco em Cristo Jesus. Pois gratuitamente fostes salvos pela fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus (Ef 2,4-8).

Desse modo, Cristo passou a ser, depois do pecado, a única fonte da vida sobrenatural, portanto da graça. Esclarece ainda Royo Marín que “Não se concedeu, nem se concederá jamais ao gênero humano uma só graça sobrenatural a não ser por Cristo ou em atenção a Ele, pois de ‘sua plenitude recebemos, todos, graça sobre graça’ (Jo 1,16). O mesmo Cristo manifestou expressamente, com inefável amor e misericórdia, que viera ao mundo ‘para que os homens tenham vida, e a tenham em abundância’(Jo 10,10)”.5

Com a redenção, o homem não só pôde seguir sendo filho de Deus, através do batismo, recuperando a graça perdida com o pecado, mas tornou-se ainda mais semelhante a Ele na irmandade com Jesus Cristo encarnado.

1ROYO MARÍN, Antonio. Teología de la Salvación. 4. ed. Madrid : B.A.C., 1997. p. 3
2CLÁ DIAS, João S. Conferência. São Paulo, 25 nov. 1996.
3ROYO MARÍN, António. Op. cit. p. 10
4SÃO TOMÁS DE AQUINO. S.Th. I-II, q.71, a.6
5ROYO MARÍN, António. Op. cit. p. 11.

Enviai, ó Senhor, vosso Espírito

Maria Cecília Lins Brandão Veas

Panfletos e noticiários que transmitem últimos acontecimentos os há em abundância. Mas, onde encontrarmos subsídios que nos comuniquem o fim último e a realização suprema da existência dos homens? Assim sendo, pareceu-nos oportuno tecermos, neste artigo, esta realidade oculta, mas sublime, que encerra em si a grandeza dos arcanos de Deus: a conquista do Reino dos Céus, iniciado na Terra com a inabitação da Santíssima Trindade na alma.

Tendo a serpente entrado no Paraíso, penetrou com ela o veneno de morte fatal, que Adão e Eva sorveram como a mais ordinária bebida. Insidioso, o demônio saíra vencedor, não na totalidade, mas em larga medida. E eis que as gerações procedentes, manchadas pela culpa original, lutariam desfalecidas por esta terra de exílio, à espera do Salvador. Durante séculos, a História conheceu um de seus mais lânguidos, desolados e pungentes períodos, nos quais eram constantes as penitências, jejuns e preces que, na economia da graça, se erguiam aos Céus.

No momento determinado, entretanto, a Salvação se dignou vir das alturas. O Filho Unigênito de Deus, encarna-se triunfando vitorioso sobre o príncipe da morte, sublimando a obra de suas mãos. As portas do Céu reabrem-se, e é iniciado o Reino da graça e da benção, para o qual Deus chama a cada alma, renovando o convite feito a Adão: “Meu filho, eu te dei a condição de homem, não queres ser mais? Não queres ser um príncipe na minha criação? Eu te concedo uma participação criada na minha própria vida. Eu habitarei em ti, e tu serás templo no qual Eu viverei. Far-te-ei meu herdeiro”. 1 E no momento em que as águas batismais recaíram sobre nossas cabeças, ingressamos no imenso cortejo de almas ousadas que galgam à Pátria Celeste.

Mas, as consequências do pecado original vociferam em nosso interior: concupiscências, desejos desenfreados, intemperanças, frequentemente tomam-nos por inteiro levando-nos a empregar os esforços, onde lucro algum lograremos obter: o pecado. Por isso, pensaria alguém: “Ser herdeiros do reino Céus? Haverá o que sobrepuje mais profundamente a capacidade humana?” A resposta o Salvador a deu, quando exortou aos seus discípulos: “O que é impossível aos homens é possível a Deus”. (Le 18, 27)

É indubitável o fato de a vida ser dura e repleta de dificuldades. Porém, ai dos que agravam o exílio nesta Terra, fechando as janelas de sua alma que dão para o Céu! O que, pois, deveria estar ao alcance de nossa consideração, senão o imenso amor que Deus manifesta constantemente aos homens? As Três Pessoas Divinas incorrem infalivelmente ao nosso encalço: o Pai adota-nos como filhos, no Batismo; o Filho torna nosso irmão e redime-nos; o Espírito Santo santifica-nos. “É esta a grande obra de amor de Deus ao homem, e é o Espírito Santo o Amor essencial no seio da Trindade Santíssima”. 2

A Graça Santificante infundida em nossas almas no momento do Batismo, misteriosamente eleva-nos à natureza divina, tomando-nos dela partícipes. Ora, “esta realidade criada, que é a Graça Santificante, leva sempre consigo, inseparavelmente, outra realidade absolutamente divina e menada, que não é outra coisa senão o mesmo Deus, uno e trino, que vem inabitar no fundo de nossas almas3. De fato, “aos que chamou, também os justificou”, (Rm 8, 28) unindo-Se intimamente, como Pai e como Amigo.

O que é um bom filho senão a glória do Pai, e o que é um verdadeiro amigo senão aquele que devota fidelidade? Se a meta suprema da inabitação Trinitária é fazer-nos participantes do mistério da vida divina, transformando-nos em Deus 4, por que vivemos indiferentes à essas realidades?

Cada alma constitui uma província de eleição no Reino de Deus. E a fim de levarmos a cabo essa missão, o próprio Espírito Santo auxilia-nos constantemente com o bafejo de seus dons. Neste sentido, canta a Igreja no Veni Sancte Spiritus: Doce Hóspede da Alma. “Quando o Espírito vem e possui totalmente a alma com seus conselhos, instruções e impulsos de amor, nos comunica por meio de nossos pensamentos a voz do Senhor, ilumina nossa inteligência, inflama a vontade”. 5 Eis, pois, a chave de ouro da santidade!

Nada é mais bonito na Terra do que ver diretamente nas almas a santificação delas operada pelo Espírito Santo”. 6 Com as chamas do intenso amor, o Paráclito inculca quais as veredas que a alma deve trilhar para alcançar o píncaro da santidade. Muitos são os carismas, e inúmeras as vocações. Porém, se há algo que não se extingue, indiferente do chamado, é a luta contínua para efetivar a santificação. E tomando o leme de nossas almas, o Espírito Santo como que sopra no interior de nossas almas dizendo: “Você não está lutando por si, você está lutando por Mim, e lutando por Mim, o patrão de sua luta sou Eu” 7.

Assim consignou Nosso Senhor a Santa Catarina de Siena: “O Espírito Santo é o patrão das naves fundadas à luz da santíssima fé, conhecendo por ela, que o mesmo Espirito Santo, será quem as governe”. 8 Como um navegante que se subjuga às ordens do capitão, abandonemo-nos ao sopro do Espírito Santo, para bem chegarmos ao cais da eternidade. Somente assim estaremos devidamente preparados para o grande dia de nosso encontro com Deus.

Não nos esqueçamos, porém, que qualquer falta grave expulsa implacavelmente o Guia de nossas almas. “Não sabeis que sois templos de Deus, e que o Espirito de Deus habita em vós?.” (1Cor 4, 17) Esmeremo-nos, pois, ardentemente em manter em nosso templo o Divino Espírito. Invoquemo-Lo, sobretudo quando as rajadas do infortúnio afligirem nossas almas, para que perscrute o nosso coração derramando a abundância de seus dons, de maneira a transformar-nos por completo.

Dessa necessidade vem a prece que há séculos reza a Santa Igreja: Emitte Sputum tuum, et renovabis faciem terrae.

“Ou seja, antes de tudo, a face dessa nossa “terra” interior, da nossa própria alma, pode ser renovada de um instante para outro, por uma graça do Espírito Santo. Igualmente por uma particular intervenção d’Ele, há de ser regenerada a face do mundo, através do apostolado de autênticos católicos, inspirados pela Sabedoria divina, cheios de força e valor para enfrentar os inimigos da fé, assim como para atrair e fazer o bem a todos que devam pertencer à Santa Igreja”. 9

1 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Harmonia: Uma criatura de Deus. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano XII, n. 137, ago. 2009, p. 20.
2 ROYO MARÍN, Antônio. El gran desconocido. Madrid: BAC, 2004, p. 71.
3 Ibid. p. 70.
4 Ibid. p. 76.
5 SAO BERNARDO. Obras Completas, y. IV. BAC: Madrid, 2006, serm. 2, 6.
6 CORREADE OLIVEIRA, Plinio. Nossa Senhora do Rosário, uma festa de glória! In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano XV, n. I75, out. 2012, p. 18-19.
7 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Memórias: Palestra. São Paulo, 17 set. 1989. (Arquivo IFTE)
8 SANTA CATALINA DE SIENA. Obras de Catalina de Siena. 3. ed. Madrid: BAC, 2002. p. 406.
9 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Emite Spiritum tuum et creabuntur. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano XII, n.134, maio. 2009, p. 4.

O pecado original e os dons preternaturais

Bárbara Honório

Adao0

Ao criar o primeiro homem a Sua imagem e semelhança, Deus conferiu-lhe dons extraordinários, alguns muito acima da natureza humana: os sobrenaturais, que pela graça divina tornava-o participante da Sua própria natureza; e os preternaturais, comuns à natureza dos anjos, tais como a integridade, imortalidade, impassibilidade, perfeito domínio sobre os animais e sabedoria insigne.

O dom da integridade consiste na total imunidade de concupiscência desordenada. Ou seja, o primeiro homem tinha sua razão submetida ao mais elevado — a Deus; seu apetite sensitivo não possuía nenhum movimento desordenado. Ele se alimentava para conservar sua própria vida e se unia à sua mulher para propagar a espécie, segundo o mandamento do Senhor: “Procriai e multiplicai-vos (Gen.I, 28). Este dom removia do homem todos os obstáculos de ordem moral que pudessem impedir a vida sobrenatural da graça.

Com o dom da imortalidade, o homem não sofreria a morte — que é a desagregação dos diversos elementos de toda matéria viva — e viveria algum tempo no Paraíso Terrestre, sendo transladado para o céu (visão beatífica), sem passar pelo terrível e doloroso transe da morte.

A isenção de toda dor ou sofrimento da alma e do corpo foi dada através do dom da impassibilidade. Nenhuma perturbação espiritual ou corporal podia alterar a perfeita felicidade natural de nossos primeiros pais no Paraíso para que sua união com Deus pudesse se desenvolver em paz e tranquilidade.

O primeiro homem criado em estado de inocência dominava perfeitamente os animais, pois as coisas inferiores estavam submissas às superiores. Em virtude desse privilégio preternatural, o homem agia como ministro da Divina Providência, fazendo com que todos os seres irracionais, inferiores ao homem lhe obedecessem como animais domésticos.

Além desses dons comuns a toda a humanidade, Adão recebeu, por ser o princípio, mestre e cabeça de todo gênero humano, um intransferível e magnífico dom: a Sabedoria e Ciência excelentíssimas.

Segundo São Tomás de Aquino, “como o primeiro homem foi instituído em estado perfeito quanto ao corpo, assim também foi instituído em estado perfeito à alma quanto, de modo a poder logo instruir e governar os outros seres” (Suma Teológica, q. 96, 1).

Como contrapartida a esses imensos benefícios, foi apresentada ao homem uma prova.

Devia ele cumprir de modo exímio a lei divina, guiando-se pelas exigências da lei natural gravada no seu coração, e respeitar uma única norma concreta que Deus lhe dera: a proibição de comer do fruto da árvore da ciência do bem e do mal, plantada no centro do Jardim do Éden (cf. Gn 2, 9-17).

Narra-nos a Sagrada Escritura como a serpente tentou Eva, e como caíram nossos primeiros pais e como foram expulsos do Paraíso (cf. Gn 3, 1-23).

Por isso diz Santo Agostinho que uma vez consumada a transgressão do preceito, no mesmo instante, destituída a alma da graça divina, envergonharam-se da nudez de seu corpo, pois sentiram em sua carne um movimento de rebeldia, como pena correspondente à sua desobediência. Quando a graça abandonou a alma, desapareceu a obediência das leis do corpo às da alma. O primeiro pecado foi uma revolta interna contra Deus, que rompeu a submissão da razão a Deus e produziu a ruptura e desordem das faculdades inferiores.

Mas Deus, em sua infinita misericórdia, não retirou-lhes os privilégios naturais, como descreve o douto Pe. Tanquerey: “Contentou-Se de os despojar dos privilégios especiais que lhes tinha conferido, isto é, dos dons preternaturais: conservando pois, a natureza e os seus privilégios naturais”.

Mas, por que o pecado de Adão foi transmitido a todos seus descendentes? Porque a justiça original foi um dom de Deus para toda natureza humana na pessoa de Adão, como cabeça de toda a humanidade. Se só Eva tivesse pecado, a natureza humana permaneceria intacta e conservaria todos os privilégios. Assim, pelo pecado de Adão — pecado original — entrou o mal no mundo, como afirma o Apóstolo São Paulo: “Por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte” (Rm 5,12).

O pecado original abriu entre Deus e os homens um abismo intransponível. As portas do Céu se fecharam e o homem contingente só podia oferecer a Deus uma reparação imperfeita da ofensa cometida. Estariam, então, os umbrais da felicidade eterna irrevogavelmente fechados? Não! Peremptoriamente atestam as palavras do Apóstolo: “Onde abundou o pecado, superabundou a graça” (Rm 5,20). Deus em sua infinita misericórdia prometeu o remédio para tal enfermidade e, no tempo previsto enviou Seu Filho Unigênito. “Ó feliz culpa que mereceu tão grande Salvador” (MISSALE ROMANUM, 2008, p.348).

O próprio Criador fez-Se criatura para, com uma generosidade inefável, saldar nossa dívida. O Filho “fazendo- Se obediente até a morte, e morte de cruz” (Fl 2, 8), restituiu ao homem a graça perdida com o pecado e abriu-nos as portas do céu.