Por uma gota de dor, torrentes de graças

Luisa Gurgel

2º ano de Ciências Religiosas

Todo homem nasce com uma vocação específica. Entretanto, algo em comum é dado a todos: o chamado à santidade. E o que significa alcançar a santidade? Significa receber, como prêmio, a vida eterna no Céu, depois de uma vida santa de lutas bem travadas, com o auxílio divino.

Realmente, uma eternidade feliz é a melhor recompensa que qualquer um poderia receber. Porém, para alcançá-la, é necessário sofrer: “Militia est vita hominis super terram”. Por mais que se fuja da Cruz, ela é inerente à vida humana e é a única condição que Deus nos pede em troca do Céu. O que são dez, vinte, trinta, cem anos de sofrimento? Deus nos quer dar a alegria eterna, se aceitarmos o pouco de dor que Ele nos pede.

Saibamos, então, dar a gota que fomos chamados a dar e esperemos confiantes as torrentes de graças que a Providência deseja nos conceder, lembrando-nos das palavras de Plinio Corrêa de Oliveira: “A autêntica satisfação da vida é aquela sensação de limpeza de alma que se possui quando fitamos de frente a nossa cruz e dizemos SIM a ela”. 1

1 CORREA DE OLIVEIRA, Plinio. A exaltação da Santa Cruz em nós e fora de nós. Dr Plinio, São Paulo, ano 3, n. 30, set. 2000, p. 16.

A pátria da dor e da misericórdia

  Ana Laura de Oliveira Bueno – 1° ano de Ciências Religiosas

Eis o lugar onde os minutos são séculos intermináveis, onde a dor e a expiação se misturam à alegria e à consolação da esperança de poder ver a Deus num face a face eterno: o caro leitor certamente já concluiu que se trata da Igreja padecente.

De fato, ninguém merece o Céu facilmente. O purgatório é a pátria da justiça rigorosa e, ao mesmo tempo, é a pátria da infinita misericórdia de Deus: pois, para nós é uma grandíssima misericórdia encontrar, após a morte, um lugar de expiação e apesar do grande rigor da justiça divina, consola-nos a ideia de que no purgatório deve haver consolações e alegrias.

Alegrias? Pode haver neste estado onde almas, inclusive santas, passam anos num fogo expiatório – semelhante ao da negra prisão do inferno – por pecados veniais alguma alegria autêntica?

São Francisco de Sales é quem nos vai dizer que as alegrias e as consolações que de fato existem no purgatório são um bálsamo suavizante para as almas. No tocante a este assunto, o Bispo e Doutor da Igreja sintetizou alguns pontos a respeito das almas padecentes:

  1. As almas do purgatório estão numa contínua união com Deus e perfeitamente submissas à vontade d’Ele. Não podem deixar esta união divina e nunca podem contradizer a divina vontade, como infelizmente acontece conosco, neste mundo;
  2. Elas se purificam com muito amor e com muito boa vontade, porque sabem que é esta a vontade de Deus. Sofrer para fazer a vontade de Deus é uma alegria para elas.
  3. Elas querem ficar à maneira que Deus quer e quanto tempo Ele quiser.
  4. Elas são impecáveis e não podem experimentar nem o mais leve movimento de impaciência, nem cometer uma imperfeição sequer.
  5. Amam a Deus mais do que a si próprias e mais que todas as coisas e com amor muito puro e desinteressado.
  6. As almas são consoladas pelos Anjos.
  7. Elas estão seguras da sua salvação e com uma segurança que não pode ser confundida.
  8. As amarguras que experimentam são muito grandes, mas numa paz profunda e perfeita.
  9. Se, pelo que padecem, estão como numa espécie de inferno, quanto à dor, é um paraíso de doçura, quanto à caridade, mais forte do que a morte.

Com efeito, há uma esperança da salvação certa, não obstante o grande sofrimento, mormente no escuro e fundo purgatório. E a nós, filhos e filhas daquele que não admite pequenas concessões e é absolutamente intransigente em relação aos pecados veniais, vale sempre a máxima: “Sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito”. Ou seja: nossa santidade deve ser tal, que não se concebe sequer que esperemos passar por um longo purgatório! Em nossas almas não deve haver espaço para semi-fidelidades, semi-virtudes e pequenas concessões, mas antes devem ser receptáculos de um desejo radical de entrega completa ao sofrimento nesta terra de exílio e de uma cega confiança em Nossa Senhora, que abaterá todas as nossas misérias se estivermos em consonância com Ela, levando-nos ao convívio completo e eterno pelo qual tanto e tanto almejamos.

Peçamos, pois, esta graça, pela intercessão de nossos santos padroeiros e das santas almas do purgatório: retidão absoluta e santidade levada até as últimas consequências!

                            

 

O dom do Sagrado Coração de Jesus

Ir Camila Cordeiro da Fonseca, EP

No Evangelho escrito por São Marcos nos deparamos com o seguinte trecho: “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mc 8, 34).

À primeira vista, poderíamos ter um sobressalto com essa afirmação. De fato, absolutamente falando, abraçar o sofrimento e suportar as adversidades e provações não é fácil para ninguém. Há muitos cristãos que se transviam do caminho da virtude e desanimam… Entretanto, se confiassem no poder e na misericórdia infinitos do Sagrado Coração de Cristo Jesus, que possui tesouros incomensuráveis para distribuir a todos os homens, a prática da virtude seria mais estável e sólida. “Se a cruz de todos os dias lhes parece pesada, esquecem-se de que Jesus carregou primeiro a d’Ele, sem recuar, sem desfalecer, sem a largar à beira do caminho, mesmo quando caiu sob o peso dela…”1 Lemos ainda: “então O levaram para crucificá-lo [a Jesus Cristo]. Os soldados obrigaram alguém que lá passava voltando do campo, Simão de Cirene, […] a carregar a cruz” (Mc 15, 20-21).

Ora, “Jesus teve um Cireneu, que O ajudou a levar a cruz. Não nos esqueçamos de que nós temos um Divino Cireneu, que está disposto a todo o momento a nos ajudar a carregar a cruz: basta que lhe peçamos auxílio; basta ter confiança n’Ele”.2

Deste modo, exprimiu-se João Paulo II à humanidade, fazendo referência ao Sagrado Coração de Jesus: “Em seu Coração encontrará paz e descanso; ali, sua dúvida se transformará em certeza; a ânsia, em quietude; a tristeza, em alegria; a perturbação, em serenidade”.3 E prosseguiu: “Ali encontrará alívio para a dor, força para superar o medo, generosidade para não render-se ao envilecimento e para retomar o caminho da esperança”.4

Em uma das aparições a Santa Faustina Kowalska, Nosso Senhor lhe disse: “Fica sabendo, minha filha, que o meu Coração é a própria Misericórdia. Desse mar de misericórdia, derramam-se graças pelo mundo todo. Nenhuma alma que de Mim se tenha aproximado, saiu sem consolo”.5 E, em várias outras ocasiões, Jesus lhe transmitia palavras inundadas de amor: “Meu Coração está repleto de grande misericórdia para com as almas, e especialmente para com os pobres pecadores”.6 Também lhe demonstrava um de seus atributos, a paternalidade: “Oh! Se pudessem compreender que Eu sou para eles o melhor Pai, que por eles jorrou do meu Coração o Sangue e a Água como de uma fonte transbordante de misericórdia”.7

Imagem do Sagrado Coração de Jesus na igreja de Monte Carmelo

Imagem do Sagrado Coração de Jesus na igreja de Monte Carmelo

A muitas outras almas o Divino Coração de Jesus se revelou, entre elas à Soror Josefa Menéndez 8: “Pouco Me importam misérias, o que quero é o amor. Pouco Me importam fraquezas, o que quero é confiança”.9 Certa vez, manifestou a esta freira que não é o pecado que mais fere seu adorável Coração, por incrível que pareça; “o que O despedaça é não quererem as almas refugiar-se em Mim depois de o terem cometido”.10

Não há, pois, motivo para os homens ficarem desanimados e caírem no desespero. Nosso Senhor já conhece todas as nossas misérias e debilidades, e, mesmo assim, nunca diminuiu seu amor por ninguém, apesar das inúmeras ocasiões que Lhe dão motivo para isso.11 Bem afirmou Mons. João em certa ocasião:

Nós devemos ter em relação ao Sagrado Coração de Jesus uma inteira, completa e absoluta confiança, porque Ele nos ama com um amor insuperável! Ele nos ama com um amor que é divino e humano ao mesmo tempo. E, portanto, Ele se derrete de querer fazer bem a nós. E daí o fato de que, quando nós recorremos a Ele, e recorremos com confiança, é certo, certíssimo que Ele nos atende.12

1 MARTINS TERRA, João Evangelista apud CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Sagrado Coração de Jesus: tesouro de bondade e de amor. São Paulo: Parma, 2002, p. 4.
2 JOÃO EVANGELISTA MARTINS TERRA apud CLÁ DIAS, João S. Sagrado Coração de Jesus: tesouro de bondade e de amor. São Paulo: Parma, 2002, p. 4.
3 JOÃO PAULO II apud DUFOUR, GÉRARD. Na escola do Coração de Jesus com João Paulo II. [s.l.]: Loyola, 1990, p. 110.
4 Loc. cit.
5 KOWALSKA, Maria Faustina. Diário: a Misericórdia Divina na minha alma. Trad. Mariano Kawka. 41. ed. Curitiba: Apostolado da Divina Misericórdia, 2015, p. 428.
6 Ibid., p. 127.
7 Loc. cit.
8 Soror Josefa Menéndez foi uma religiosa espanhola do século XIX que recebeu várias aparições do Sagrado Coração de Jesus e de Nossa Senhora, dizendo-lhe de modo especial sobre a misericórdia. Ela as escreveu em um livro, chamado “Apelo ao Amor”.
9 MENÉNDEZ, Josefa. Apelo ao Amor. 3 ed. Rio de Janeiro: Rio-S. Paulo, [1952], p. 293.
10 Ibid., p. 291.
11 Cf. CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Manancial inesgotável de bondade. In: O inédito sobre os Evangelhos. Comentários aos Evangelhos dominicais — Ano C — Domingos do Advento, Natal, Quaresma e Páscoa. Città Del Vaticano: Libreria Editrice Vaticana; São Paulo: Lumen Sapientiae, 2012, v. V, p. 440.
12 Id. O amor do Sagrado Coração de Jesus: Conversa. São Paulo, 18 jun 2009. (Arquivo IFTE)

A dor, mistério do amor

Irmã Clara Isabel Morazzani Arráiz, EP

Era o Templo restaurado por Herodes. Embora “feito de belas pedras e recamado de ricos donativos” (Lc 21, 5), bem longe estava de possuir o esplendor e a magnificência do anterior, erigido segundo a capacidade e a sabedoria de Salomão.

Naquele dia, um casal, levando o mais belo de todos os meninos, atravessou os umbrais do recinto sagrado, com o intuito de cumprir as prescrições da Lei a respeito dos primogênitos. Na aparência, aquela cena nada tinha de extraordinário: com muita frequência as famílias israelitas, vindas das mais variadas cidades, chegavam a Jerusalém, trazendo seus filhos para apresenta-los ao Senhor e oferecer o sacrifício prescrito pela Lei: um par de rolas ou dois pombinhos (cf. Lc 2-24). Quase sempre as mães preferiam associar esta cerimônia àquela da sua própria purificação, à qual estavam obrigadas pelas rígidas normas do Levítico.

Entretanto, nessa ocasião, o ritual da apresentação revestia-se de dimensões verdadeiramente divinas e fora previsto com séculos de antecedência pelo profeta Ageu: “Encherei de minha glória este templo — diz o Senhor do universo. A prata e o ouro me pertencem — oráculo do Senhor do universo. O esplendor futuro deste templo será maior que o primeiro — oráculo do Senhor do universo. Neste lugar Eu darei a paz — diz o Senhor do universo” (Ag 2, 7b-10). E por Malaquias: “Logo chegará a seu templo o Dominador, que vós procurais, e o Anjo da Aliança, que vós desejais” (Ml 3, 1b).

Com efeito, aquela arrebatadora criança, conduzida nos braços de sua Mãe para submeter-Se humildemente aos preceitos da Lei mosaica, era o próprio Dominador, o Filho Unigênito de Deus, nascido sob o domínio da Lei, para resgatar os que se encontravam sob o domínio da Lei (cf. Gl 4, 5).

Dia de gáudio e de glória aquele em que, por fim, as profecias atingiam sua realização e o Divino Menino começava a ser reconhecido pelos que “em Jerusalém esperavam a redenção” (Lc 2, 38).

“Uma espada transpassará a Tua alma”

Entrando no templo, Maria e José depararam-se com um ancião de venerável aspecto, que para lá se dirigira, cheio de esperança, sob a inspiração do Espírito Santo (cf. Lc 2, 27). Ao ver o Menino Jesus, Simeão, que poderia ser denominado o varão-esperança, logo começou a bendizer a Deus e a profetizar a respeito dEle, deixando admirados Seu pai e Sua mãe (cf. Lc 2, 33). Também Ana, a profetisa, que se encontrava no Templo, pôs-se a falar sobre Ele, tornando-se uma das primeiras anunciadoras da missão redentora de Jesus. Maria e José ouviam todas essas palavras, e Seus corações enchiam-se de gozo ao constatarem que o inefável mistério do qual ambos eram depositários, Deus Se dignara comunicá-lo também a outras almas, manifestando-lhes a presença de Cristo no mundo.

Simeão tomou o Menino nos braços e, após ter sido pago o imposto, entregou-O à Sua Mãe, dizendo-Lhe: “Uma espada transpassará a Tua alma” (Lc 2, 35).

Que contraste impressionante! Ali estava o casal princeps, duas criaturas escolhidas por Deus para servir de arquetipia à humanidade: Maria e José. Nesses momentos de consolação, nos quais a Luz descida do Céu para revelar-Se às nações começava a deitar seus primeiros raios, abria-se já, de maneira oficial, a “via dolorosa” que o Senhor apontava à Sua Santa Mãe. A alegria de Maria — de possuir um Filho que é Deus e de pertencer a um Deus que é Seu Filho — naquele instante transformou-se em tristeza. Auge de alegria e auge de tristeza conjugaram-se no coração da Virgem: quanta perplexidade nessa ocasião em que tudo deveria falar de júbilo e, entretanto… “uma espada transpassará a Tua alma”!

Pelo pecado, o sofrimento tornou-se inerente à condição humana

Por que quis Deus unir a dor à alegria num verdadeiro paradoxo, inevitável na vida humana? Todos nós, pelas inclinações da natureza, sempre propensa a buscar a felicidade e a fugir de qualquer sofrimento, somos incapazes de compreender essa maravilha, se não for por um especial auxílio da graça. Fora da filosofia cristã iluminada pela fé, o problema da dor tem sido sempre algo difícil de resolver. Enquanto alguns a concebem como um mal a ser evitado a todo custo, outros, passando ao extremo oposto, consideram-na imprescindível e chegam a fazer dela um prazer malsão e amargo, única saída para sua falta de esperança.

A Igreja, ao contrário, sempre tratou desse assunto de forma equilibrada. Em virtude do pecado original, o sofrimento tornou-se inerente à condição humana, e o homem deve utilizar-se dele para o serviço de Deus, transformando-o numa fonte de méritos e até de glória.

A respeito do modo de como os homens, tanto os bons quanto os maus, suportam as tribulações, assim escreve Santo Agostinho: “Embora justos e pecadores sofram um mesmo tormento, o resultado não é o mesmo. O mesmo fogo faz resplendecer o ouro, purificando-o, e a palha lançar fumaça; o mesmo trilho serve para limpar os grãos e quebrar as arestas… Assim também, uma mesma adversidade purifica e aperfeiçoa os bons, e destrói e aniquila os maus. Por conseguinte, numa mesma calamidade, os pecadores se revoltam e blasfemam contra Deus, enquanto os justos O glorificam e pedem misericórdia; a grande diferença de sentimentos não está na qualidade do mal que uns e outros padecem, mas na das pessoas que o sofrem. Sacudidos de um mesmo modo, o lodo exala um mau cheiro insuportável, e o bálsamo precioso um suavíssimo odor”.1

Cristo quis assumir a nossa carne em estado padecente

Para conhecermos a fundo todo o valor que se desprende da dor quando santamente aceita, bastanos observar que esta foi a via escolhida pela Providência para o próprio Homem-Deus e Sua Mãe Santíssima. Ao nos aproximarmos de um altar em qualquer igreja da terra, sempre o encontraremos presidido por um Crucifixo; e, aos pés dessa Cruz, indissociável do Filho, imaginamos uma Mãe que chora: Stabat Mater dolorosa, juxta crucem lacrimosa

Reza a teologia que, para resgatar o gênero humano, teria bastado Nosso Senhor Jesus Cristo oferecer a Deus Pai um simples gesto, uma curta palavra, ou até mesmo um piscar de olhos, por serem de valor infinito todos os Seus atos.2 Portanto, uma única gota de sangue derramada durante a Circuncisão seria suficiente para consumar a obra da Redenção.3

Entretanto, decretou o Padre Eterno que Ele sofresse a Paixão e Morte de Cruz, pois não poderia permitir que a Seu Verbo — “efusão da luz eterna, espelho sem mancha da atividade de Deus, imagem de Sua bondade” (Sb 7, 26) — fosse negada uma glória em plenitude e esplendor. Foi por ilimitado amor ao Seu Unigênito que Deus permitiu as ignomínias da Flagelação, as humilhações do Ecce Homo, a exaustão da Via-Sacra e os tormentos da Crucifixão. O Filho, que por Sua natureza divina não era capaz de sofrer, quis assumir nossa carne em estado padecente, e não em corpo glorioso, como correspondia à Sua alma, a qual se encontrava na visão beatífica desde o primeiro instante da Encarnação.

Agindo desse modo, Deus não visou apenas operar a Redenção da forma mais esplêndida, mas quis propor aos homens de todos os tempos o Modelo perfeito a ser seguido. Assim se expressa a respeito deste tema o piedoso Pe. André Hamon: “Quando Deus, em Seus eternos decretos, decidiu a Encarnação do Verbo, propôs-Se apresentar aos olhos dos homens o modelo da vida nova que deveria salvá-los. Como homem, o Verbo Encarnado lhes mostraria o caminho; como Deus, lhes daria a garantia da perfeição do modelo. Suas virtudes seriam imitáveis, pois seriam a ação de um homem; e uma regra segura, já que seriam a ação de um Deus”.4

O mistério profundíssimo da Cruz

Ora, ao contemplarmos o Homem-Deus, deparamo-nos com esse profundo mistério: Ele, o Onipotente, o Senhor da Glória, a quem os Anjos adoram sem cessar, “fez-Se em tudo semelhante a nós, exceto no pecado” (Hb 4, 15), e sofreu as contingências da condição humana como fome, sede, sono, e fadiga. Para a mentalidade do homem moderno — pervadida pela ideia de um triunfalismo mal compreendido, da qual desapareceu quase completamente o verdadeiro sentido da dor —, a figura de Nosso Senhor Jesus Cristo cravado na Cruz, clamando ao Pai a magnitude de Seu abandono, aparece como a de um fracassado. “Em verdade, Ele tomou sobre Si nossas enfermidades, e carregou os nossos sofrimentos: e nós O reputávamos como um castigado, ferido por Deus e humilhado” (Is 53, 4).

Entretanto, devemos procurar discernir a sublime lição contida no Sacrifício do Calvário, cuja renovação incruenta se opera diariamente em todos os altares do mundo. Em seu poema O Triunfo da Cruz, assim canta São Luís Maria Grignion de Montfort: “É a Cruz, sobre a terra mistério profundíssimo, que não se conhece sem muitas luzes. Para compreendê-lo é necessário um espírito elevado. Entretanto, é preciso entendê-lo para que nos possamos salvar. […] A Cruz é necessária. É preciso sofrer sempre: ou subir ao Calvário ou perecer eternamente. E Santo Agostinho exclama que somos réprobos se Deus não nos castiga e nos prova”.5

Deus quis submeter o homem à prova

A vida no Paraíso Terrestre era isenta de qualquer incômodo. O homem estava mergulhado na felicidade: os vegetais se encontravam à sua disposição, os animais o serviam, não havia doenças nem cansaço, e, por um especial favor do Criador, a ameaça da morte não o atingia. Também sua alma vivia em paz, pois, graças ao dom da integridade, a carne e o espírito não entravam em conflito, e todas as paixões se ordenavam à luz da Fé.

Não obstante, em meio àquela agradável existência cheia de delícias, Deus quis que houvesse uma prova e, em consequência, uma pequena dor: “Não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal; porque no dia em que dele comeres, morrerás indubitavelmente” (Gn 2, 17).

Era conveniente que Deus, seriedade infinita, exigisse do homem um tributo de sua submissão, por meio do qual este demonstrasse a autenticidade dos louvores e das honras que prestava a seu Criador. A aceitação desta prova era uma renúncia magnífica e uma homenagem ímpar, que partia da humanidade logo em seu nascedouro e se elevava até o trono de Deus.

O pecado e suas consequências

Ora, Adão e Eva sucumbiram à tentação. Talvez lhes tenha sobrevindo a ideia, não explícita, de que não deveria existir a mais leve dor na ordem da criação, e perante a prova que Deus lhes impunha tomaram uma atitude de revolta interior, induzidos a roubar a própria honra de Deus.

Os nossos primeiros pais pecaram. E a queda trouxe o castigo, em sentença proferida pelo próprio Deus: “Multiplicarei teus sofrimentos […] maldita seja a terra por tua causa. Tirarás dela com trabalhos penosos o teu sustento todos os dias de tua vida” (Gn 3, 16-17).

O pecado produziu uma revolução nessa harmonia interior e exterior na qual antes viviam: o homem encontrou-se de repente cercado de mil perigos da natureza, os animais se lhe tornaram hostis, a terra produziu espinhos e abrolhos, e ele viu-se obrigado a comer o pão com o suor de seu rosto (cf. Gn 3, 18-19). Sua alma tornou-se vítima das más inclinações, sujeita ao erro e à rebeldia dos instintos contra os ditames da razão. E a História passou a registrar a peregrinação árdua e dolorosa de uma humanidade em guerra constante contra si mesma, conforme diz o Livro de Jó: “A vida do homem sobre a terra é uma luta” (Jó 7, 1).

A culpa de nossos primeiros pais atraiu sobre eles, e sobre sua posteridade, a maldição e a perda da amizade de Deus, reparável somente por meio do Batismo e da graça. Mas atingiu também a ordem do universo, da qual Adão fora feito rei: “Deste-lhe poder sobre as obras de Vossas mãos, Vós lhe submetestes todo o universo” (Sl 8, 7).

Afirma São Paulo: “A criação foi sujeita à vaidade (não voluntariamente, mas por vontade daquele que a sujeitou), todavia com a esperança de ser também ela libertada do cativeiro da corrupção, para participar da gloriosa liberdade dos filhos de Deus. Pois sabemos que toda a criação geme e sofre como que dores de parto até o presente dia” (Rm 8, 20-22).

Um Deus abraçado à Cruz

Apesar de ter maculado a Criação, o pecado não conseguiu frustrar os planos de Deus, como era intuito do demônio. Pelo contrário, determinou Ele, em Seus insondáveis desígnios de misericórdia, estabelecer uma ordem do universo ainda mais bela e esplendorosa, nascida da Encarnação e do sacrifício de seu Filho Unigênito.

Na harmonia dessa nova ordem, haveria de ser preponderante o papel da dor. Tendo sido mal correspondida a prova no Paraíso, a vida da graça, trazida pela Redenção, não poderia conceber-se sem sofrimento, de modo que os “degredados filhos de Eva” reparassem a falta de seus pais.

Era preciso que os homens adorassem um Deus abraçado à Cruz, o Vir dolorum previsto por Isaías, cravado sobre o madeiro do opróbrio e da ignomínia, e tivessem diante do Homem-Deus moribundo todas as ternuras e venerações de que o coração humano é capaz.

Ele desceu a esta terra de exílio, atravessando as brumas do pecado sem Se deixar tocar por ele, e, tomando sobre Si as nossas fraquezas, com elas subiu ao Gólgota para ali consumar Seu holocausto e restituir aos homens a paz e a felicidade que haviam perdido.

É bem verdade que, ao longo dos três anos de vida pública, teve Ele um período brilhante aos olhos do mundo, durante o qual as multidões iam à sua procura, sôfregas de ouvir Seus ensinamentos e beneficiar-se de Seus milagres. Quando de Sua entrada solene em Jerusalém, a multidão cantava “hosana ao Filho de Davi” (Mt 21, 9). Houve, inclusive, aqueles que quiseram proclamá-Lo rei (cf. Jo 6, 15). Mas, em meio a todos os êxitos, a pior das dores incrustava-se em Seu Coração, delineando Sua missão de Servo Sofredor e deitando uma sombra sobre o futuro que O esperava: era a brutal falta de correspondência daqueles que mais O deveriam reconhecer. “Veio para o que era Seu, mas os Seus não O receberam” (Jo 1, 11).

Se, em Sua trajetória terrena, Nosso Senhor tivesse recebido sempre todas as glorificações do Tabor e do Domingo de Ramos, algo da Sua benquerença pelos homens e da Sua disposição de entregar a vida por eles teria deixado de refulgir aos nossos olhos, e não compreenderíamos suficientemente o mistério de amor que se discerne na Cruz e no Santo Sepulcro. “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos” (Jo 15, 13).

Somos chamados a colaborar na obra da Redenção

Ora, movido por Seu ilimitado amor aos homens, Jesus quis também a participação deles na Sua dor. Ele não necessita de concurso humano algum para redimir-nos, uma vez que o Preciosíssimo Sangue derramado na Paixão bastaria para apagar os pecados de infinitas criaturas, mas deseja associar-nos a Seus sofrimentos e assim fazer-nos partícipes de Seus méritos e de Sua glória. É este o simbolismo da água que o sacerdote mistura ao vinho, na preparação do cálice para o Santo Sacrifício. Nossas dores, de si, valem menos até do que umas poucas gotas de água, pois, o mais das vezes, estão contaminadas por imperfeições e misérias; mas unidas ao “vinho que engendra virgens”, podem aquelas tornar-se uma “mesma e única bebida de salvação”.6

São Paulo mostrou ter penetrado a fundo nesse mistério, quando escreveu em sua epístola aos Colossenses: “ Agora me alegro nos sofrimentos suportados por vós. O que falta às tribulações de Cristo, completo na minha carne, por Seu corpo que é a Igreja” (Cl 1, 24).

Esta passagem é assim comentada por Tanquerey: “Certamente, esta Paixão é, não somente completa, mas abundante e superabundante. No entanto, como Jesus é a cabeça de um corpo místico, do qual todos nós somos os membros, a Paixão deste Cristo místico se completa cada dia em seus membros sofredores, e ela não estará terminada senão quando o último dos eleitos tiver sofrido sua parte das dores de Cristo. […] Então a dor terá um sentido, então seremos verdadeiramente os colaboradores do Divino Salvador na obra da salvação das almas”.7

Crisol onde Deus lança as almas muito amadas

Levando isto em consideração, o papel da dor na vida humana adquire uma perspectiva tão elevada que torna inteiramente fora de propósito qualquer queixa ou inconformidade de nossa parte em relação às cruzes que Deus tenha por bem nos enviar.

Na aceitação inteira da vontade divina encontramos o melhor meio de restituir ao Criador a glória que Lhe foi negada pela primitiva desobediência, manifestando-Lhe, por um ato de conformidade com Seus desígnios, nosso tributo de amor e de reparação à Sua Majestade ofendida.

Ao mesmo tempo, se encetarmos as veredas da dor com ânimo resoluto, é-nos oferecida a ocasião de alcançar preciosos benefícios para o progresso de nossa vida sobrenatural. Dada a tendência natural do homem para o egoísmo, facilmente ele se esquece de Deus quando a felicidade e o sucesso parecem seguir seus empreendimentos. A adversidade é, pois, um poderoso auxílio para purificar a alma do apego excessivo às criaturas, obrigando-a a considerar a inanidade dos bens passageiros e voltar-se só para Deus, único Bem do qual tudo se pode esperar.

Tais disposições perante o sofrimento conferem um caráter respeitável àquele sobre o qual este se abate, tornando-o digno de admiração.

Nos dias de hoje, o sentido cristão da palavra “admirável” vai-se perdendo, dando lugar a conceitos deturpados, segundo os quais o homem, para alcançar a plena realização de sua personalidade, deve ser bem sucedido na vida, correr de vitória em vitória, sem jamais ser incomodado por qualquer revés ou dificuldade; só assim se tornará merecedor do aplauso e da aceitação dos demais. A experiência histórica, porém, nos revela o contrário: os homens sofredores, que ao longo de sua existência tiveram de enfrentar perigos, angústias, incompreensões e até mesmo aparentes catástrofes, mas, fortalecidos pela graça divina, acabaram vencendo, esses sim são verdadeiramente dignos da aprovação dos demais homens e do beneplácito de Deus.

A dor é, pois, o crisol onde a Providência lança as almas muito amadas, sobre as quais repousa uma especial predileção de Sua parte, para delas recolher apenas a prata finíssima, livre de qualquer impureza. O Livro do Eclesiástico deita uma luz sobre essa atraente temática: “Meu filho, se entrares para o serviço de Deus, permanece firme na justiça e no temor, e prepara a tua alma para a provação; humilha teu coração, espera com paciência, dá ouvidos e acolhe as palavras de sabedoria; não te perturbes no tempo da infelicidade, sofre as demoras de Deus; dedica-te a Deus, espera com paciência, a fim de que no derradeiro momento tua vida se enriqueça. Aceita tudo o que te acontecer. Na dor, permanece firme; na humilhação, tem paciência. Pois é pelo fogo que se experimentam o ouro e a prata, e os homens agradáveis a Deus, pelo cadinho da humilhação” (Eclo 2, 1-5).

Duas atitudes perante a tragédia

Recebida com resignação, ou com sobrenatural entusiasmo, a dor enaltece o homem e o convida a uma doação generosa de si mesmo, da qual, na prosperidade, talvez ele não se julgasse capaz. Assim, pode haver circunstâncias infelizes que, de modo inesperado, reduzam à derrota alguém anteriormente coroado de êxito. Colocado diante de sua própria tragédia, ele poderá chorar, lamentando seu fracasso, e afundar-se no abatimento e na revolta contra Deus; ou então ele se erguerá com uma grandeza de alma triunfal, compreendendo a beleza de seu infortúnio, já que este o aproxima mais da Divina Vítima do Calvário.

Em palavras dirigidas aos peregrinos reunidos na Praça de São Pedro, assim se exprimia o hoje Papa Emérito Bento XVI: “Jesus sofre e morre na Cruz por amor. Deste modo, considerando bem, deu sentido ao nosso sofrimento, um sentido que muitos homens e mulheres de todas as épocas compreenderam e fizeram seu, experimentando uma profunda serenidade também na amargura de árduas provas físicas e morais”.8

No instante em que o homem se abraça à Cruz e a toma como um presente da munificência divina, manifesta-se todo o poder sublime e ao mesmo tempo misterioso do holocausto. Sua dor torna-se fecunda e profícua, mais eficaz na ordem da Comunhão dos Santos e na realização dos desígnios de Deus do que seus esforços naturais ou suas demais obras apostólicas. Oferecido o sacrifício, algo na alma germina, nasce e gera frutos, elevando-se diante de Deus como oblação grata e imaculada, e dando ao homem uma alegria e uma paz interior que todas as riquezas e glórias do mundo jamais poderão proporcionar-lhe.

Nos dias cheios dos imponderáveis sérios e graves da Semana Santa, acheguemo-nos aos pés da Cruz onde pende o Salvador, abandonado por quase todos — sobretudo neste século em que tantos e tantos homens só procuram o prazer e bem-estar pessoal — e coloquemos nas mãos da Mater Dolorosa, cuja alma foi transpassada pelo gládio da dor, toda a nossa entrega e disposição de padecer por Cristo e por Sua Igreja. As lágrimas de Maria purificarão nossa oferta das eventuais misérias das quais possa estar manchada e a tornarão útil para a edificação de Seu Reino e o triunfo de Seu Imaculado Coração.

1 AGOSTINHO, Santo. A Cidade de Deus. l. 1, c. 8.
2 Cf. ROYO MARÍN, OP, Fr. Antonio. Jesucristo y la vida cristiana. Madrid: BAC, 1961, p. 324.
3 Cf. DENZINGER, H.. HÜNEMANN, P. Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral. São Paulo: Loyola; Paulinas, 2007, p. 328, n. 1.025.
4 HAMON, M. André-Jean-Marie. Méditations. Paris: Lecoffre, 1933, v I, p. 55-56.
5 MONTFORT, São Luís Maria de. Carta-circular aos amigos da Cruz. Cântico “O Triunfo da Cruz”. Trad. Maria Helena Montezuma Pohle. Rio de Janeiro: Santa Maria, 1954, p. 67-68.
6 Cf. CANTALAMESSA, OFMCap, Raniero. Obediencia. Trad. Ricardo M. Lázaro Barceló. 3. ed. Valencia: Edicep, 2002, p. 71. TANQUEREY, Adolphe. La divinisation de la souffrance. Paris-Tournai-Rome: Desclée de Brouwer, 1931, p. IX-X. Ângelus, 01/02/2009.
7 TANQUEREY, Adolphe. La divinisation de la souffrance. Paris-Tournai- Rome: Desclée de Brouwer, 1931, p. IX-X.
8 Ângelus, 01/02/2009.

A princesa africana

S Teresa JulianaIrmã Lucía Ordoñez Cebolla, EP

“Morreu tendo vivido setenta e dois anos sem mancha de pecado mortal”. Esse magnífico epitáfio resume a vida de uma africana, nobre por seu sangue, mas muito mais pela virtude de sua alma.
Era o ano de 1676, quando os olhos de Tshikaba contemplaram pela primeira vez a luz deste mundo. Nascida na África Ocidental, às margens do Golfo da Guiné, era a última dos quatro filhos de uma família de reis. Bem cedo, demonstrara inteligência incomum e, por isso, comentava-se ser ela quem governaria após a morte de seus pais.

O reino de Tshikaba era pagão e seus habitantes adoravam o Sol. Ansiosos, aguardavam as primeiras luzes do alvorecer para saírem ao encontro do astro-rei com cantos e aclamações rituais. Mas Tshikaba era uma menina diferente das outras. Reflexiva e contemplativa, indagava o sentido de todas as coisas ao seu redor, procurando responder à pergunta que surgia invariavelmente no seu interior: quem comanda e mantém esta natureza tão exuberante e repleta de beleza? Sem ela perceber, a sede insaciável do Absoluto brotava do mais profundo de sua alma inocente.

Angustiada em seu pueril intelecto, foi interrogar seu irmão, o qual apenas soube lhe dizer que a “Estrela da Manhã” era, indiscutivelmente, a grande divindade à qual era preciso adorar. Insatisfeita e cheia de perplexidades, foi interrogar o rei:

— Papai, o astro que cultuamos está no céu como todos os outros. Nada o diferencia, a não ser seu brilho. Alguém o pôs lá; e esse alguém tem de ser muito mais poderoso do que o Sol. É esse Ser misterioso que procuro e desejo conhecer, porque só Ele deve ser adorado!

O pai não teve resposta para dar à menina, inspirada pelo sopro da graça.

Um propósito aos nove anos

Tshikaba gostava de caminhar pelo campo entregando-se às suas meditações. Em um dos seus passeios, sentou-se para descansar um pouco, perto da nascente de um rio. Ao contemplá-la, perguntava-se: “Quem será esse Ser desconhecido que colocou aqui esta fonte?”.

De repente, a menina levantou os olhos e viu, extasiada, ao lado do manancial, uma Senhora de pele alva como a neve, carregando nos braços um belíssimo Menino que, sorrindo, acariciava a cabeça da princesa moreninha. Ali, por fim, o Divino Infante — o verdadeiro Deus tão almejado — lhe revelou Seus segredos e Sua Mãe Santíssima lhe falou a respeito de Sua vida. Que terão dito? Tshikaba preferiu manter silêncio, mas a partir desse encontro sua vida mudou completamente.

Mais tarde, seu irmão Juachipiter lhe disse terem decidido seus pais que seria ela quem os sucederia no governo, ao que a pequena respondeu: “Saiba que não irei me casar com ninguém deste mundo. Eu só quero saber de um Menino branco que conheci!”.

Tshikaba tinha apenas nove anos de idade.

Seqüestrada providencialmente

Algum tempo depois, saiu ela novamente a passear pelo campo. Nesse dia, porém, decidiu fazer outros caminhos, a fim de conhecer novas paisagens. Andando sem rumo, acabou por se perder, e nada do que via lhe era conhecido. Por fim, sentou-se junto a uma árvore, de onde podia avistar o mar.

Contemplando a vastidão do panorama, percebeu não muito longe a silhueta de um barco se aproximando. Era um navio espanhol. Imersa em sua constante preocupação, sentiu, de repente, que alguém a agarrava pelo braço. Um jovem desconhecido, sem dizer palavra alguma, a obrigava a segui-lo. Ela, dócil como toda criança, acompanhou-o, pensando que talvez ele pudesse ajudá-la a resolver o enigma que a atormentava.

O estranho visitante a conduzia cada vez para mais perto da costa. Quando quis perguntar-lhe quais eram suas intenções, não pode fazê-lo: tinha desaparecido. Assustada, olhou para frente e notou que o navio acabava de aportar. Tshikaba queria correr, mas suas pernas não lhe obedeciam. A tripulação, ao vê-la adornada com jóias e braceletes, logo percebeu tratar-se de uma menina com sangue real. E aqueles homens do mar a levaram para a nave, que logo retomou sua rota em direção à Espanha.

A pequena princesa, vendo sua terra natal se distanciar aos poucos, sentiu vontade de jogar-se nas águas, mas a Senhora do manancial apareceu a seu lado, dando-lhe consolo e coragem. Tshikaba tinha sido levada por um desígnio de Deus!

No percurso, ao passar pela cidade de São Tomé, os próprios marinheiros a batizaram, dando-lhe o nome de Teresa. Isto não lhe causou estranheza, pois, já na fonte, a alvíssima Senhora assim a chamara. O batismo era, no fundo, uma confirmação das promessas que Ela lhe fizera.

Assim, terminada a viagem, aos dez anos de idade, Teresa chegava ao porto de Sevilha.

Escalando a sagrada montanha do sofrimento

Da capital andaluza levaram-na a Madri, pois, sendo uma princesa, tinha de ser apresentada primeiramente ao rei. Carlos II acolheu-a com benignidade, e entregou- a aos cuidados do Marquês de Mancera, outrora vice-rei do México, com o encargo de lhe dar formação esmerada, começando por evangelizá-la.

No continente europeu, iniciou-se para Teresa outra etapa de sua vida: a cruz e o sofrimento seriam doravante seus companheiros inseparáveis, como o foram para Nosso Senhor, o Menino branco que a cativara e que ela já adorava como Deus.

Os nobres da casa de Mancera tratavam a pequena africana como a uma verdadeira filha, mas logo isso despertou inveja em toda a criadagem. Não foram poucos os maus-tratos e humilhações que Teresa teve de enfrentar. Mas ela tudo suportava com mansidão e paciência, indo se refugiar aos pés de uma comovedora imagem do Ecce Homo que havia num pequeno oratório do jardim. Ali, o próprio Cristo, chagado e ultrajado, Se encarregava de lhe mostrar as belezas incomparáveis do sofrimento, e ela compreendeu que no contato com a Cruz de Nosso Senhor a alma se purifica, as fraquezas são vencidas e se encontram forças para prosseguir na via da perfeição.

Por essa época, a jovenzinha manifestava forte entusiasmo pela vida religiosa, e revelou seu anseio aos marqueses. Sem colocarem oposição alguma, eles designaram o cavaleiro Diego Gamarra para encontrar um mosteiro no qual Teresa pudesse cumprir sua vocação. Este percorreu inúmeros conventos, porém sempre encontrava dificuldades e reticências para fazer admitir a pequena princesa, vinda de tão longínquas terras. Ela redobrou suas orações e penitências, implorando a Deus que, se realmente Ele a quisesse para Si, derrubasse todos os obstáculos que contra isso se levantavam.

Finalmente a Providência compadeceu-se de Teresa e Diego Gamarra conseguiu seu ingresso no Convento de Santa Maria Madalena, das Dominicanas da Penitência, em Salamanca; porém, apenas como terciária da ordem e servente da comunidade. Contente, ela abraçou essa humilhação na paz de espírito e na mansidão, conformada em nunca chegar a ser uma autêntica religiosa.

Serviço incondicional

Disposta a tudo, Teresa entrou no mosteiro para servir incondicionalmente às suas irmãs. Mas, em determinado momento, foi tomada por uma terrível provação: será que Deus realmente a queria ali? Não seria melhor voltar para a África e, como rainha, ser propulsora da fé cristã? A madre superiora, pessoa muito virtuosa, logo percebeu o estado espiritual de Teresa. Quando se lhe apresentou a oportunidade, interrogou-a. Vendo a bondade e o carinho da madre, a adolescente abriu-lhe a alma, reafirmando seu mais firme propósito de ser uma verdadeira religiosa.

Oito meses depois, o bispo de Salamanca autorizava Teresa a pronunciar os votos solenes, numa cerimônia que ele mesmo presidiria. Assim, no dia 29 de junho de 1704, aos 28 anos de idade, Teresa Juliana de São Domingos — confirmada para sempre na sua vocação — professava como terciária da Ordem Dominicana.

Acabada a cerimônia, Irmã Teresa caiu de joelhos ante o sacrário, transbordante de contentamento. Em meio às lágrimas de consolação, apareceu-lhe São Domingos de Gusmão, seguido de uma celestial comitiva, convidando-a a fazer os votos em suas próprias mãos! Após esta “profissão celeste”, seu Pai e Fundador a abençoou e desapareceu. As promessas da Senhora do manancial se cumpriam de forma total e completa!

Fazendo frente às bombas, pela devoção a São Vicente

Seria no quotidiano da vida monacal que aquela mítica princesa de um reino distante daria as melhores demonstrações de acrisolada virtude. Encarregaram-na de cuidar dos enfermos com as doenças mais repugnantes e aconselhar os atribulados, o que ela fazia com sobrenatural disposição. Tinha, ademais, o dom místico de discernir, pelo odor, as pessoas impuras, e isto a levava a mortificar seu próprio corpo, implorando a Deus que elas rompessem com o pecado. Era em extremo obediente, e sua vida de perfeição era exigida pelo próprio Céu: cada vez que cometia uma falta, apareciam Maria e Jesus para repreendê-la.

Sua fama de santidade espalhou-se rapidamente pela cidade inteira. Incontáveis salmantinos acudiam ao locutório do convento para expor-lhe seus problemas. Ela a todos recebia cheia de amabilidade, aconselhando a uns, obtendo por suas preces a saúde de outros, e até prevendo perigos ameaçadores.

Certa vez foi protagonista de um fato portentoso. Durante a Guerra de Sucessão, que naquela época sacudia a Espanha, a cidade de Salamanca estava sendo bombardeada. Irmã Teresa apressou-se a pôr numa janela do mosteiro uma estampa de São Vicente Ferrer, do qual era grande devota, para dele obter protecção contra qualquer ataque. E o resultado foi tão feliz que não só preservou seu mosteiro de todo dano, mas também, em breves minutos, espalhou-se a paz na cidade inteira.

Voando rumo à Pátria Celestial

Fazia já algum tempo que Irmã Teresa Juliana de São Domingos padecia de um tumor no joelho, quando, no outono de 1748, sofreu um forte ataque de paralisia. Estava ferida de morte, e a Providência lhe reservara para o período derradeiro a glória das grandes provações. Incertezas, dúvidas, aflições e o abandono dos homens tomaram-na inteiramente. Assim transcorreram seus últimos dias nesta terra, até que em 6 de Dezembro de 1748 recebeu os Sacramentos e entregou sua bela alma ao Redentor.

No dia seguinte, os sinos do convento de Santa Maria Madalena anunciavam o seu falecimento. Contam testemunhas de sua morte que, no momento de partir para a eternidade, sua pele ficou por alguns momentos alva como a neve. Ao mesmo tempo, seu corpo exalava um excepcional perfume.

Assim, a princesa africana — conhecida por todos com o carinhoso nome de La Negrita —, após ter escalado na terra os altos cumes da virtude, era elevada aos píncaros da perfeita união com Deus.

Beati mortui qui in Domino moriuntur. Admirável é a morte dos justos na presença do Senhor!

0 sofrimento, sinal de dileção

Lucia Nga Thi Vu

jesus gran poder

Em uma de suas homilias quando esteve no Brasil, o Papa João Paulo II afirmou: “A cruz, símbolo da fé, é também símbolo do sofrimento que conduz à glória e da paixão que conduz à Ressurreição. ‘Per crucem ad lucem’, pela cruz, chega-se à luz: este provérbio, profundamente evangélico, nos diz que, vivida em seu verdadeiro significado, a cruz do cristão é sempre uma cruz pascal” (Hom. Rio de Janeiro, 30/6/1980).

Segundo São Tomás, após o pecado original, estabeleceu-se na alma humana a necessidade do sofrimento para lhe facilitar a aceitação de seu estado de contingência e, assim, levá-la a recorrer ao auxílio sobrenatural. Sem esse poderoso auxílio, acentuar-se-ia no homem a tendência de fechar-se sobre si mesmo e constituir-se em centro do universo. A dor obriga-o a juntar as mãos em atitude de oração e a implorar a proteção de Deus.

A cruz é uma honra que Nosso Senhor dá para aqueles a quem ama. Por isso, Garrigou — Lagrange assinala: “Que maior prova de amor pode dar Deus a uma alma do que fazer dela uma vítima de amor, em união com o Crucificado?” (LAGRANGE, 1999, p.31 O).

O aceitar com resignação todos os sofrimentos e cruzes que, ao longo da vida, tem-se de carregar é de suma importância para todos aqueles que, por amor a Deus, resolvem trilhar as vias da virtude. Nosso Senhor Jesus Cristo deu-nos esse exemplo, ao submeter-se a dores atrozes, físicas e morais, no cumprimento de Sua missão redentora da humanidade.

Porém, a compaixão de Jesus para com todos aqueles que sofrem é tão grande que Ele se identifica com eles: “Estive doente e me visitastes” (Mt 25,36). Deste modo, cumpri-se de modo perfeito a profecia de Isaias: “Tomou nossas enfermidades e sobrecarregou-se dos nossos males” (Is 53,4).

Esse amor de predileção, por todos nós, alivia-nos os sofrimentos e ajuda-nos a encará-los como o Apóstolo Paulo: “Tenho para mim que os sofrimentos da presente vida não têm proporção alguma com a glória futura que nos deve ser manifestada” (Rm 8, 18).