Do mar estrela…

Maria Clara Joice Silvino

2º Ano Ciências Religiosas

Uma terrível tempestade assalta o pequeno barco que navega em meio à escuridão da noite. Parece que a embarcação irá soçobrar devido as enormes ondas e o navegador já não consegue mais controlar o timão, que gira descontroladamente de um lado para o outro.

Mas uma certeza enche de confiança o experiente navegante: as estrelas continuam a cintilar no céu, e quando as nuvens se dispersarem, a estrela da manhã indicará o norte.

O mar é este mundo e nós somos os navegantes. Neste mar, os ventos das contradições são furiosos; bravas as ondas do sucesso; repentinos os assaltos dos piratas que querem roubar os nossos méritos; muitos são os que naufragam. Como é possível chegar ao porto da bem- aventurança? A resposta nos dá São Bernardo: “Olha a estrela, invoca Maria”[1].

“Nossa Senhora – comenta o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira – é chamada, muito a propósito, de Estrela luminosíssima. Incontáveis astros reluzem no firmamento, porém Ela é o mais resplandecente de todos: ou seja, Maria é a mais luminosa das criaturas.”

“E por que é simbolizada pela estrela? Porque é durante a noite que cintilam as estrelas, e esta vida é para o católico uma noite, um vale de lágrimas, uma época de provação, de perigo e de apreensões. Na eternidade teremos o dia brilhante, porém na vida terrena teremos o escuro da madrugada. E nesta noite existe uma estrela que nos guia, que é a consolação de quem caminha nas trevas, olhando para o céu: Maria Santíssima, a mais fulgurante de todas as estrelas!”[2]

Sob a luz luminosíssima desta estrela não pereceremos. Porém, Maria não é só a estrela que nos guia, mas também o porto seguro que nos abriga nas tempestades desta vida. Olhando para esta estrela, não nos desviaremos; refugiando-nos neste porto de bonança, não naufragaremos nas tormentas, até chegarmos um dia à eterna bem-aventurança, onde receberemos a recompensa demasiadamente grande: contemplar para todo o sempre a luz desta estrela inextinguível.

[1] BERNARDO. Obras Completas. Madri: BAC, 1953. Vol. I. p. 205.

[2] Cfr. CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Conferência em 24/8/1965. In: CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Pequeno Ofício da Imaculada Conceição Comentado. São Paulo: Ipsis, 2010, v1, p.47.

Diante do Divino Mestre

Bruna Almeida Piva

1º Ano Ciências Religiosas

Foram-lhe, então, apresentadas algumas criancinhas para que pusesse as mãos sobre elas e orasse por elas. Os discípulos, porém, as afastavam. Disse-lhes Jesus: Deixai vir a mim estas criancinhas e não as impeçais, porque o Reino dos céus é para aqueles que se lhes assemelham. E, depois de impor-lhes as mãos, continuou seu caminho.

Um jovem aproximou-se de Jesus e lhe perguntou: Mestre, que devo fazer de bom para ter a vida eterna? Disse-lhe Jesus: Por que me perguntas a respeito do que se deve fazer de bom? Só Deus é bom. Se queres entrar na vida, observa os mandamentos. Quais?, perguntou ele. Jesus respondeu: Não matarás, não cometerás adultério, não furtarás, não dirás falso testemunho, honra teu pai e tua mãe, amarás teu próximo como a ti mesmo. Disse-lhe o jovem: Tenho observado tudo isto desde a minha infância. Que me falta ainda? Respondeu Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende teus bens, dá-os aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me!

Ouvindo estas palavras, o jovem foi embora muito triste, porque possuía muitos bens. Jesus disse então aos seus discípulos: Em verdade vos declaro: é difícil para um rico entrar no Reino dos céus! Eu vos repito: é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus. A estas palavras seus discípulos, pasmados, perguntaram: Quem poderá então salvar-se? Jesus olhou para eles e disse: Aos homens isto é impossível, mas a Deus tudo é possível. (Mt 19, 13-26)

Nesta passagem do Evangelho, rica em significados, podemos notar duas interessantes disposições de alma: a das criancinhas e a do jovem rico. Aquelas aceitam e se deleitam com a divina influência do Salvador, e também Lhe dão alegria; este rejeita o convite para ser apóstolo, deixa Nosso Senhor, entristecendo-O. Nas duas ocasiões, Nosso Senhor demonstra uma bondade sem limites e um carinho comovente; porém, obtém duas reações opostas. Por quê?

Embora, aparentemente, os dois fatos nada tenham de comum entre si, analisando-os bem, vemos que decorrem de um só, mas fundamental, princípio de vida espiritual: a salvação não é fruto do esforço; não se santifica quem procura, diante de Deus, se apoiar em suas próprias obras e méritos. E é justamente esta a disposição de alma das criancinhas: “Quem é pequeno não se julga um colosso nem autossuficiente, mas dependente”.1 Tudo o que precisa, a criança pede aos pais; busca-os infalivelmente em suas dificuldades, não porque se julgue digna de ser atendida – porque não é capaz de nada sozinha –, mas porque só confia neles; não busca ser grande nem independente, mas somente amá-los, e ser por eles também amada; por mais que a castiguem, busca-os e os prefere entre todos os outros.

É o principal motivo pelo qual as criancinhas agradam tanto a Nosso Senhor: a confiança com que se aproximam d’Ele e a sua grande inocência, que as torna capazes de abandonar-se cegamente aos seus divinos cuidados.

Como terá sido o convívio do Redentor com aqueles pequeninos? Talvez Ele os tivesse abraçado, lhes imposto as mãos, concedendo saúde, força, sabedoria e graças incontáveis; e elas com sua vivacidade infantil, certamente fizeram um alvoroço em volta d’Ele…2

Eis, portanto, o que Ele nos quer dizer nesse Evangelho, quando afirma que se nos fizermos “como criancinhas” em nosso relacionamento com Deus, nosso Pai – e com Nossa Senhora, nossa Mãe –, somente assim, entraremos no Reino dos Céus.”

Bem outra, entretanto, foi a reação do moço rico ante o chamado do Divino Mestre. Vê-se que ele buscava se apoiar na prática dos Mandamentos, que dizia ter sempre observado: “Tenho observado tudo isto desde a minha infância”. Porém, isso não suficiente. Nosso Senhor queria dele algo mais, a única coisa que importa realmente: que ele Lhe entregasse o coração. A Infinita Misericórdia buscava não as boas obras somente, mas simplesmente o amor daquela alma. Algo tão natural e fácil para os pequeninos, mas que ele, tão “justo”, não soube dar.

Aquele jovem infeliz pediu a vida eterna; no fundo, achava que esta lhe seria concedida porque observava os artigos do decálogo e era, portanto, bom. Não esperava na misericórdia divina, mas em seu próprio esforço. Porém, nenhum homem pode merecer o Céu, porque “aos homens até isto é impossível.”

Não é verdade que se ele fosse como as criancinhas e dissesse; “Senhor, eu não mereço nada, mas, por compaixão, dai-me a vida eterna!”, teria certamente alcançado o Reino de Deus? Não teria ele sido incomparavelmente mais feliz escolhendo a via do amor, a via dos pequeninos?

Portanto, clara está a resposta à pergunta dos Apóstolos: “Quem poderá, então, salvar-se?” Os que se fizerem como crianças e, livres de toda a riqueza, se jogarem nos braços de Nosso Senhor, que sem dúvida é o melhor de todos os pais e nos ama infinitamente mais do que todos eles.

1 CLÁ DIAS, EP, João Scognamiglio. A inocência, a eterna lei… In: O inédito sobre os Evangelhos. Città del Vaticano-São Paulo: LEV; Lumen Sapientiæ, 2014, v.IV, p.415.

2 Cf. Ibid., p.414.

O dom do Sagrado Coração de Jesus

Ir Camila Cordeiro da Fonseca, EP

No Evangelho escrito por São Marcos nos deparamos com o seguinte trecho: “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mc 8, 34).

À primeira vista, poderíamos ter um sobressalto com essa afirmação. De fato, absolutamente falando, abraçar o sofrimento e suportar as adversidades e provações não é fácil para ninguém. Há muitos cristãos que se transviam do caminho da virtude e desanimam… Entretanto, se confiassem no poder e na misericórdia infinitos do Sagrado Coração de Cristo Jesus, que possui tesouros incomensuráveis para distribuir a todos os homens, a prática da virtude seria mais estável e sólida. “Se a cruz de todos os dias lhes parece pesada, esquecem-se de que Jesus carregou primeiro a d’Ele, sem recuar, sem desfalecer, sem a largar à beira do caminho, mesmo quando caiu sob o peso dela…”1 Lemos ainda: “então O levaram para crucificá-lo [a Jesus Cristo]. Os soldados obrigaram alguém que lá passava voltando do campo, Simão de Cirene, […] a carregar a cruz” (Mc 15, 20-21).

Ora, “Jesus teve um Cireneu, que O ajudou a levar a cruz. Não nos esqueçamos de que nós temos um Divino Cireneu, que está disposto a todo o momento a nos ajudar a carregar a cruz: basta que lhe peçamos auxílio; basta ter confiança n’Ele”.2

Deste modo, exprimiu-se João Paulo II à humanidade, fazendo referência ao Sagrado Coração de Jesus: “Em seu Coração encontrará paz e descanso; ali, sua dúvida se transformará em certeza; a ânsia, em quietude; a tristeza, em alegria; a perturbação, em serenidade”.3 E prosseguiu: “Ali encontrará alívio para a dor, força para superar o medo, generosidade para não render-se ao envilecimento e para retomar o caminho da esperança”.4

Em uma das aparições a Santa Faustina Kowalska, Nosso Senhor lhe disse: “Fica sabendo, minha filha, que o meu Coração é a própria Misericórdia. Desse mar de misericórdia, derramam-se graças pelo mundo todo. Nenhuma alma que de Mim se tenha aproximado, saiu sem consolo”.5 E, em várias outras ocasiões, Jesus lhe transmitia palavras inundadas de amor: “Meu Coração está repleto de grande misericórdia para com as almas, e especialmente para com os pobres pecadores”.6 Também lhe demonstrava um de seus atributos, a paternalidade: “Oh! Se pudessem compreender que Eu sou para eles o melhor Pai, que por eles jorrou do meu Coração o Sangue e a Água como de uma fonte transbordante de misericórdia”.7

Imagem do Sagrado Coração de Jesus na igreja de Monte Carmelo

Imagem do Sagrado Coração de Jesus na igreja de Monte Carmelo

A muitas outras almas o Divino Coração de Jesus se revelou, entre elas à Soror Josefa Menéndez 8: “Pouco Me importam misérias, o que quero é o amor. Pouco Me importam fraquezas, o que quero é confiança”.9 Certa vez, manifestou a esta freira que não é o pecado que mais fere seu adorável Coração, por incrível que pareça; “o que O despedaça é não quererem as almas refugiar-se em Mim depois de o terem cometido”.10

Não há, pois, motivo para os homens ficarem desanimados e caírem no desespero. Nosso Senhor já conhece todas as nossas misérias e debilidades, e, mesmo assim, nunca diminuiu seu amor por ninguém, apesar das inúmeras ocasiões que Lhe dão motivo para isso.11 Bem afirmou Mons. João em certa ocasião:

Nós devemos ter em relação ao Sagrado Coração de Jesus uma inteira, completa e absoluta confiança, porque Ele nos ama com um amor insuperável! Ele nos ama com um amor que é divino e humano ao mesmo tempo. E, portanto, Ele se derrete de querer fazer bem a nós. E daí o fato de que, quando nós recorremos a Ele, e recorremos com confiança, é certo, certíssimo que Ele nos atende.12

1 MARTINS TERRA, João Evangelista apud CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Sagrado Coração de Jesus: tesouro de bondade e de amor. São Paulo: Parma, 2002, p. 4.
2 JOÃO EVANGELISTA MARTINS TERRA apud CLÁ DIAS, João S. Sagrado Coração de Jesus: tesouro de bondade e de amor. São Paulo: Parma, 2002, p. 4.
3 JOÃO PAULO II apud DUFOUR, GÉRARD. Na escola do Coração de Jesus com João Paulo II. [s.l.]: Loyola, 1990, p. 110.
4 Loc. cit.
5 KOWALSKA, Maria Faustina. Diário: a Misericórdia Divina na minha alma. Trad. Mariano Kawka. 41. ed. Curitiba: Apostolado da Divina Misericórdia, 2015, p. 428.
6 Ibid., p. 127.
7 Loc. cit.
8 Soror Josefa Menéndez foi uma religiosa espanhola do século XIX que recebeu várias aparições do Sagrado Coração de Jesus e de Nossa Senhora, dizendo-lhe de modo especial sobre a misericórdia. Ela as escreveu em um livro, chamado “Apelo ao Amor”.
9 MENÉNDEZ, Josefa. Apelo ao Amor. 3 ed. Rio de Janeiro: Rio-S. Paulo, [1952], p. 293.
10 Ibid., p. 291.
11 Cf. CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Manancial inesgotável de bondade. In: O inédito sobre os Evangelhos. Comentários aos Evangelhos dominicais — Ano C — Domingos do Advento, Natal, Quaresma e Páscoa. Città Del Vaticano: Libreria Editrice Vaticana; São Paulo: Lumen Sapientiae, 2012, v. V, p. 440.
12 Id. O amor do Sagrado Coração de Jesus: Conversa. São Paulo, 18 jun 2009. (Arquivo IFTE)

Até o deserto floresce!…

Fahima Spielmann

Se a alma confiar em Deus e perseverar, as areias se transformarão em formosas flores. E quanto mais longa tiver sido a aridez, tanto maior será a fecundidade.

Infecundidade, fastio, desolação, abandono, aridez, perigo… Interrompamos aqui esta lista de enfadonhos substantivos para qualificar uma obra tão emblemática saída das mãos de Deus: o deserto.

Talvez o leitor esteja se perguntando como pode ser possível encontrar alguma simpatia ou atração em tanto calor e areia. Para desvendar esta incógnita, comecemos por recordar que a criação não é fruto do acaso e se deitarmos um olhar menos superficial sobre o mundo em torno de nós, veremos que todas as coisas remetem a uma realidade mais alta.

Escolhido pelo Criador como cenário de peregrinação do povo judeu por quarenta anos, o deserto bem pode simbolizar uma situação pela qual todos devem passar, por desígnio da Providência, tendo em vista o próprio crescimento espiritual: a provação ou a aridez. Em quaisquer desses estados, a alma tem a impressão de serem infrutíferos todos os seus esforços; o avançar na virtude, que antes parecia ter asas, aos poucos vai se tornando mais lento; o caminhar se transforma num arrastar-se que parece sem proveito ou efeito algum. No panorama, nenhuma nuvem condescende em fazer-lhe sombra para protegê-la do sol causticante. Todas as lutas e obstáculos a enfrentar, que antes a entusiasmavam, agora se lhe afiguram como algo pesado e até insuportável! E quando desponta nesse deserto espiritual alguma expectativa de alívio, como um verdejante oásis na imensidão inóspita, ela logo se esvai, deixando na alma a sensação de encontrar-se em meio a uma tempestade, não de areia, mas de confusão interior.

Por mais absurda que possa parecer a afirmação, este é um dos mais belos momentos da vida de alguém! Pois se a alma confiar em Deus e perseverar, as areias se transformarão em formosas flores. E quanto mais longa tiver sido a aridez, tanto maior será a fecundidade quando aprouver à Divina Providência irrigar a alma, pois “as grandes esperas são exatamente o prelúdio dos grandes dons de Deus”.1

Isto se verifica em desertos como o do Atacama, no Chile, o de Sonora, na América do Norte, ou o do Kalahari, no Sul da África. Estéreis durante quase todo o ano, as raríssimas chuvas com as quais são beneficiados fazem desabrochar neles numerosas flores de singular beleza, cujas sementes jaziam sob o solo durante meses ou anos. Imagem da alma que, em meio às agruras da vida, oferece a Deus suas dificuldades, prossegue seu combate confiando contra todas as aparências, persevera com firmeza verdadeiramente cristã e se renova ao receber algumas gotas de graça.

Entretanto, as graças cairão em torrentes se para tal concorrer um simples querer d’Aquela que a piedade católica chama de Maria fons. Ela, mais do que uma fonte encontrada por um sedento no deserto, é a Medianeira do manancial das graças, Cristo Jesus, e deseja nos conceder a água viva por Ele prometida à samaritana: “O que beber da água que Eu lhe der jamais terá sede. A água que Eu lhe der virá a ser nele fonte de água, que jorrará até a vida eterna” (Jo 4, 14).

Saibamos recorrer a Ela em nossos momentos de aridez, sem jamais perder a esperança de que no areal das debilidades de nossa alma sempre poderão vicejar novos frutos de virtude. Ao longo de nosso peregrinar terreno rumo ao Jardim celeste, nunca nos esqueçamos desta consoladora verdade: pela intercessão de Maria, não só a boa semente produz cem por um em nossa seara, mas até o deserto floresce!…

1CORRÊA DE OLIVEIRA. Plinio. Conferência. São Paulo, 23 mar. 1970.

Confiança, a regra de ouro

Ir. Carmela Werner Ferreira, EP

As horas difíceis são também as horas da Divina Providência, nas quais Ela atua no fundo das almas e ali obra prodígios não menores que os narrados pelos Livros Sagrados ou pela História da Igreja.

Ergue-se na cidade de Petrópolis um edifício de harmoniosas proporções, conhecido pelo nome de Palácio Rio Negro. Célebre por ter servido como residência oficial de verão aos presidentes da República Velha, o prédio reassumiu em 1997 este honroso papel no panorama nacional. A distinção e o bom gosto de seus salões nos falam de recepções memoráveis, jantares de gala e negociações diplomáticas de alto interesse para o País.

Entretanto, pouco conhecida é a história de uma jovem que habitou essa mansão no final do século XIX: Francisca do Rio Negro, nona filha de Manuel Gomes de Carvalho Filho, Barão do Rio Negro, e de Emília Gabriela Teixeira Leite de Carvalho. A vida admirável desta aristocrata nascida nos anos de prodigalidade do ciclo do café contém lances dignos de figurar nas melhores páginas da hagiografia católica. Um desses episódios, comovente e rico em exemplos, cabe-nos hoje considerar.

Uma alma magnânima nascida em berço de ouro

Dada a importância social e a opulência de sua família, Francisca do Rio Negro veio ao mundo em berço de ouro. Possuía já nos primórdios o que para muitos constitui a ambição de toda a vida: fortuna, prestígio e beleza. Este ponto de partida deu-lhe a oportunidade de experimentar a grande verdade do Livro Sagrado: “Vi tudo quanto se faz debaixo do sol, e eis: tudo vaidade e vento que passa” (Ecl 1, 14). Como fruto de sua magnanimidade, sentia em si um apelo para elevados ideais e superiores dedicações, não podendo compreender uma existência empregada apenas a serviço de seus próprios interesses.

Assim, sob os auspícios do Papa São Pio X, deu início em Roma a uma Congregação religiosa feminina destinada a impetrar graças em favor do Sumo Pontífice e dos sacerdotes: a Companhia da Virgem. A missão de fundadora, para a qual Deus chama almas fortes, exigiu dela não pequena disposição de confiar contra todas as aparências de fracasso.

No seu horizonte interior não cabia a desconfiança

Madre Francisca de Jesus, como era chamada em religião, ainda não terminara de alicerçar a obra nascente quando se viu atingida pelo mal de Basedow. Tal enfermidade, da qual veio a falecer, prostrou-a por doze anos e minou-lhe a saúde a ponto de tornar impossível sua permanência à frente da comunidade.

A esse estado de extrema debilidade — a doença abalou, inclusive, seu sistema nervoso —, somaram-se não poucas penúrias materiais que comprometeram seriamente a existência da recém-fundada Congregação. Muitas irmãs, desacoroçoadas pelo infortúnio, abandonavam a vocação, num triste cortejo de deserções. A cada dia o contingente do mosteiro diminuía, sem que a fundadora pudesse abandonar o leito para tomar medidas capazes de reverter o quadro.

Madre Francisca se encontrava imersa em aflitiva situação: além de enferma, via-se diante de uma comunidade depauperada e incapaz de levar às últimas consequências o ideal abraçado outrora com ânimo e fervor. Era a derrocada de seus santos anseios, o fracasso de anos inteiros de integral dedicação!

Sem perder a calma nem se levar pelo amor-próprio, ao qual não dava entrada em sua alma, permanecia ela em sua cela, perseverante na oração. À vista dos insucessos, seu fervor não esmoreceu, nem seu horizonte interior, habituado à contemplação dos mistérios divinos, foi tisnado por um só pensamento de desconfiança em relação ao Deus de Quem, em última análise, emanava a permissão para que tudo isso acontecesse.

De repente, abre-se uma avenida luminosa

Os sofrimentos de Madre Francisca foram particularmente atrozes no dia 28 de outubro de 1922, e quando ela se perguntava se ainda conseguiria suportá-los, lhe sobreveio a consideração dos padecimentos muitíssimo maiores do HomemDeus em Sua Paixão. Nesse momento — fato prodigioso! —, apareceu delineada na parede da cela a Sagrada Face de Nosso Senhor Jesus Cristo crucificado. Ato contínuo, ela se encontrou inundada de paz, acrescida da sobrenatural certeza de estar cumprindo em tudo os desígnios do Redentor e de sua Santa Mãe.

Essa maravilhosa manifestação da bondade divina infundiu na alma da fundadora um aumento de forças para prosseguir com resignação sua via de dores. E não só ela, mas também as demais freiras se sentiram robustecidas, a ponto de superarem o estado de penúria e prestarem naquele convento, por longos anos, muitos serviços à causa de Deus.

Grande e profícua fora a confiança de Madre Francisca, pois a situação que parecia encerrar-se num beco sem saída, abriu-se de repente numa avenida luminosa, de heroísmos, esperanças e realizações. O modo como isso se deu, porém, não consistiu numa sequência de ostensivos triunfos sobre as adversidades, mas em esforços e sacrifícios premiados pelas bênçãos de Deus. Muitas vezes, Ele Se compraz em não retirar por completo as agruras do caminho de seus filhos, mas em pedir deles um novo ato de confiança a cada passo.

Habituemo-nos a ver todas as coisas em Deus

Os cristãos fervorosos que, como Francisca do Rio Negro, se empenham em seguir muito de perto os passos do Cordeiro, oferecem à Igreja um eloquente testemunho do poder da graça sobre as almas. Embora não tenham experimentado a felicidade de contemplar a figura do Mestre caminhando pelas ruas de Cafarnaum, pregando na barca ou curando os enfermos, o intenso comércio com o sobrenatural modela o seu interior segundo a mais perfeita compreensão das palavras proferidas um dia por Jesus em Israel: “Não vos preocupeis com o que é preciso para a vossa vida” (Lc 12, 22), ou ainda: “Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados. Não temais” (Lc 12, 7).

Ao calor dessas divinas promessas, os justos adquirem a entranhada certeza de estarem orientando suas existências em função de uma realidade toda feita de predileção, mais elevada do que a terrena. Sabemse instrumentos para a exaltação do Criador, mesmo quando não alcançam vislumbrar de imediato a forma em que isso será realizado. Eles parecem repetir, pela alegre aceitação tanto das bonanças como das borrascas, as palavras que Madre Francisca escolheu por sua divisa: “Faça-se! Aleluia!”. 1

Atingir esse heroico grau de abandono à Providência Divina é privilégio de uns poucos, mas todos quantos se consideram discípulos do Bom Pastor devem ter certeza de que Ele nos conduz por caminho seguro (cf. Sl 22, 3), conhece nossas necessidades (cf. Lc 12, 30), e é incomparável nos desígnios a nosso respeito (cf. Sl 39, 6).

Daí que o padre Garrigou-Lagrange, eminente dominicano que foi diretor espiritual e biógrafo da Madre Francisca, nos convide a receber com ânimo generoso todos os acontecimentos da vida presente: “Habituemo-nos pouco a pouco a ver, na penumbra da fé, todas as coisas em Deus: os sucessos agradáveis, como sinal de Sua bondade; os acontecimentos adversos e imprevistos, como um apelo a subir mais alto, como graças ocultas, purificadoras, às vezes muito mais preciosas que as próprias consolações. São Pedro estava mais próximo de Deus quando estendia seus braços para ser crucificado, do que no cume do Tabor”. 2

O exemplo de São Pedro

Almas pode haver que não sintam em si essa generosa disposição interior. A elas cabe aplicar a justa admoestação que, com um timbre de voz perpassado de compaixão, Nosso Senhor fez a São Pedro: “Homem de pouca fé, por que duvidaste?” (Mt 14, 31).

Mas é importante lembrar-lhes também o quanto o Príncipe dos Apóstolos teve seus impulsos interiores transformados pela ação do Espírito Santo, depois de Pentecostes. Já não se turbava ante as maiores contrariedades, pregava com denodo no Templo (cf. At 3) e escrevia às ovelhas de seu rebanho: “Descarregai sobre Ele todas as vossas preocupações, porque Ele cuida de vós” (I Pd 5, 7).

Renovado pelo sopro do Paráclito, era ele impelido a não contemplar a realidade da vida presente com a pusilanimidade dos dias antigos, mas a descobrir a cada passo — até nos maiores sofrimentos — os desígnios que a benevolência de Cristo lhe reservara: “Se sois ultrajados por causa do nome de Cristo, bem-aventurados sois” (I Pd 4, 14).

Sob esse prisma sobrenatural, de confiança nos desígnios de Deus e na ação do Espírito Santo, a vida humana reveste-se de extraordinário significado, passando a ser como um turíbulo capaz de alçar incenso odorífico ao trono da Santíssima Trindade. E tanto mais alto chegará o sacrifício de louvor, quanto mais confiante for o “sim” da alma aos ditames da Providência: “É quanto exijo dos meus servidores; tal será a prova de que Me amam”, disse o Senhor a Santa Catarina de Sena. 3

Bondade inesgotável de Jesus

Abandonar-se nos braços da Providência constitui uma obra de amor, só realizável por aqueles que se deixam conquistar por Jesus. No decorrer de Sua vida pública, numerosos são os exemplos dos que passavam a esperar do Divino Mestre o rumo para seus destinos, apoiados na bondade inesgotável da qual Ele dava provas.

Ao paralítico estendido no leito, Nosso Senhor deitou um olhar cheio de comiseração, e disse: “Filho, tem confiança, são-te perdoados os pecados” (Mt 9, 2). E em seguida o curou. À mulher enferma, impelida por sua fé a tocar-Lhe a orla do manto, exclamou: “Tem confiança, filha, a tua fé te salvou” (Mt 9, 22).

Também as criancinhas, conduzidas por suas mães, lançam-se nos braços de Cristo e auscultam as pulsações daquele Coração cujas delícias consistem em estar com os filhos dos homens. Mais adiante, encontramos Zaqueu em cima da árvore, disposto a trocar os lucros ilícitos pela amizade de Cristo. E nem sequer os gregos estão alheios a essa presença arrebatadora, pois eles se aproximam de Filipe e lhe imploram: “Queremos ver Jesus!” (Jo 12, 21).

Todos recebem a cura do corpo e do espírito, sentindo-se alvo de uma ternura desconhecida, que dissipa as trevas e afugenta as angústias. Mais ainda, o ímpeto de um amor tão excelente transforma os critérios daquelas almas, trocando a figura de um Senhor ao Qual se serve, pela de um Pai a Quem se ama: “Pai nosso que estais no Céu” (Mt 6, 9).

Pois bem, quem hoje assim se apresenta diante do Redentor, também tem abertas diante de si as portas do seu Coração. Como quando vivia sobre a terra, Ele Se debruça sobre as nossas debilidades e nos trata com essa indizível misericórdia, dando-nos motivo para d’Ele esperar tudo quanto necessitamos, certos de que Quem por nós ofereceu Sua própria vida nada nos negará.

As “armas da luz”

Muitas são as razões para incentivar-nos à confiança. A Eucaristia constitui, certamente, a maior delas, por ser “fonte e centro de toda a vida cristã”, 4 alimento da vida sobrenatural no mundo. Onde houver um tabernáculo, ali estará a origem de toda alegria, a solução de todos os males, a luz para qualquer caminho obscuro.

Quem se aproxima do Santíssimo Sacramento e, mais ainda, quem comunga, recebe uma força espiritual superior às energias humanas, prefigurada pelo pão levado por um Anjo ao profeta, no deserto: “Elias levantou-se, comeu e bebeu e, com o vigor daquela comida, andou quarenta dias e quarenta noites, até Horeb, a montanha de Deus” (I Rs 19, 8). Não sem razão, afirma São Pedro Julião Eymard: “A virtude característica da contemplação da Eucaristia e da Comunhão — união perfeita a Jesus — é a força”. 5

Apesar desse auxílio, a debilidade ainda pode persistir na nossa natureza decaída. Daí que hereges como os albigenses e os jansenistas tenham difundido um sentimento de desespero, dedicando-se a espalhar a crença de ser o pecado um mal irremediável, próprio a nos afastar definitivamente de Deus. Nada mais enganoso! Quem pode sustentar que o Preciosíssimo Sangue derramado no madeiro não é suficiente para expiar todas as nossas faltas?

Na penumbra do confessionário, quando o penitente declina suas culpas ao ministro de Cristo e recebe a absolvição, derramam-se sobre ele, uma vez mais, os méritos do Sacrifício do Mártir do Gólgota, restituindo-lhe a graça, os dons e virtudes tal como ele os possuía no dia do Batismo. Uma paz suave e difícil de ser descrita se segue ao perdão. Tudo foi apagado!

Compadecido ainda da nossa orfandade, e desejando revelar-nos o lado materno de Sua Divindade, o Senhor nos ofereceu o tesouro que Lhe era mais caro: Maria, sua Mãe, cujo poder de intercessão foi assim exaltado por São Bernardo: “Se A segues, não te desviarás; se recorres a Ela, não te desesperarás. Se d’Ela te lembrares, não cairás no erro. Se Ela te sustenta, não te precipitarás. Nada temerás se te protege; se te deixas levar por Ela, não te fatigarás; com seu favor, chegarás a porto”. 6

As “armas da luz” (Rm 13, 12), das quais São Paulo nos recomenda fazer uso, não são apenas essas aqui enunciadas. Enumerá-las é quase impossível; escapam a qualquer cálculo, pertencem à “multiforme graça de Deus” (I Pd 4, 10). Cumprenos, isto sim, recebê-las com proveito e nelas confiar, agradecidos pelo fato de Deus nos conceder muito mais do que pedimos e merecemos: “Exorto-vos a não receberdes a graça de Deus em vão” (II Cor 6, 1).

Regra de ouro nos nossos dias

Atravessamos dias obscuros, inegavelmente. Onde caem nossos olhos, ali pairam o erro, a violência, o egoísmo e o pecado, na maioria das vezes em situações tão complexas a ponto de redundarem em fracasso as melhores iniciativas para revertê-las.

Esta realidade não impede nem dessora a atuação da graça. Pelo contrário, devemos lembrar-nos de que as horas difíceis são também as horas da Divina Providência, nas quais Ela atua no fundo das almas e ali obra prodígios não menores que os narrados pelos Livros Sagrados ou pelos apaixonantes volumes da História da Igreja.

Nos nossos dias, a confiança tende a se afirmar cada vez mais como a regra de ouro, o farol das almas fiéis que não negam seu testemunho de ufania, mas empenham-se em transmitir ao homem de hoje a certeza da bondade de Nosso Senhor. E, junto com ela, a palavra com a qual o Mestre instruiu seus mais íntimos amigos: “Tende confiança! Eu venci o mundo!” (Jo 16, 33).

1GARRIGOU-LAGRANGE, OP, Réginald. Madre Francisca de Jesus. São Paulo: Tipografia Beneditina Santa Maria, 1940, p.32.
2GARRIGOU-LAGRANGE, OP, Réginald. La Providencia y la confianza en Dios. 2.ed. Buenos Aires: Desclée de Brouwer, 1942, p.133.
3SANTA CATARINA DE SENA. Diálogo sobre a Divina Providência. 8.ed. São Paulo: Paulus, 2004, p.222.
4 Lumen Gentium, n.11.
5 SÃO PEDRO JULIãO EYMARD. A Divina Eucaristia. São Paulo: Loyola, 2002, v.I, p.97.
6 SÃO BERNARDO DE CLARAVAL. Sermo II in Laudibus Virginis Matris. In: Obras Completas. 2.ed. Madrid: BAC, 1994, v.II, p.639.

Considerai os lírios do campo…

Ana Ximena del Rosario Fernández Granados

Qualquer um dos seres criados, ao ser mencionado pelos divinos lábios do Salvador, passou a desfrutar de uma especial distinção e grandeza.

Quem ousaria dizer que houve, em toda a história, orador mais hábil e envolvente que Nosso Senhor Jesus Cristo? Isto, sem mencionar o aspecto da graça, que foge a qualquer termo possível de comparação.

Nos três anos de sua vida pública, Ele procurou, em Suas parábolas, usar figuras comuns e acessíveis às pessoas de então. Entre Seus ouvintes, misturavam-se fariseus, romanos, pescadores e camponeses. Pessoas cosmopolitas como os habitantes de Jerusalém, ou acanhados e simples, como os galileus do norte de Israel. Ricos comerciantes, ou paupérrimos pedintes das portas do Templo.

Falando a um público tão heterogêneo, como atingir a todos? Para se fazer entender, ora usava, o Divino Mestre, exemplos de ofícios como o de pescador, lavrador e soldado; ora recorria aos pequenos problemas comerciais ou domésticos, mencionando juros, dívidas e falências, questões sempre familiares a toda gente.

Também empregava as figuras dos animais: a águia, a pomba, a serpente e até a trivial galinha entraram em cena nas parábolas evangélicas. E por fim, o reino vegetal se apresentou, nas palavras do Salvador: a figueira estéril foi condenada, as uvas e as vinhas apareceram diversas vezes, e a expressão “pelos frutos conhecereis a árvore” (cf. Mt 12, 33) tornou-se tão corrente que até ateus a empregam hoje.

E são justamente as simples plantas que oferecem um dos mais belos e poéticos trechos das Escrituras, no sexto capítulo de São Mateus:

“Considerai como crescem os lírios do campo; não trabalham nem fiam. Entretanto, eu vos digo que o próprio Salomão no auge de sua glória não se vestiu como um deles” (Mt 6, 28-30 Lc 12, 27-31).

Se Deus veste assim a erva dos campos, que hoje cresce e amanhã será lançada ao fogo, quanto mais a vós, homens de pouca fé? Não vos aflijais, nem digais: Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos?

São os pagãos que se preocupam com tudo isso. Ora, vosso Pai celeste sabe que necessitais de tudo isso. “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo” (Mt 6, 33)

Qualquer um dos seres criados, ao ser mencionado pelos divinos lábios do Salvador, passou a desfrutar de uma especial distinção e grandeza. As raposas eram diferente até Ele ter dito: “As raposas têm suas tocas … mas o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça” (Mt 8, 20). Depois disso, passaram a ser outras.

Também as flores em geral — e os lírios em particular — ficaram engrandecidos pela menção que lhes fez Nosso Senhor. Depois daquele dia, num campo da Judéia, ficará difícil a uma pessoa de fé contemplar a beleza das flores sem se lembrar do Reino de Deus.

Luz que serena e fortifica

Fahima Spielmann

“Quando o calor do Sol e o peso da vida te parecerem por demais duros, vem repousar sob minha luz tamisada pelos coloridos da graça!”

Como não ficar tomado de enlevo ao contemplar um magnífico panorama marítimo? Ou o delinear de um arco-íris após uma tempestade? Ou mesmo o simples desabrochar de uma flor salpicada de orvalho e iluminada pelo Sol?

As criaturas, poderíamos dizer, não conseguem manter-se fechadas em si, mas cantam com muda loquacidade a glória de seu Criador, glorificando-O com suas excelências e restituindo-Lhe, desse modo, o bem que d’Ele receberam.

Contudo, assim como o Divino Artífice concedeu à natureza a faculdade de revelar de algum modo sua suprema beleza, quis outorgar ao ser humano a capacidade de elaborar maravilhas ainda maiores, partindo dos seres inanimados. Pensemos, por exemplo, na diferença entre um diamante em estado bruto e a gema de extraordinária formosura saída das mãos de hábil lapidador. Ou nas finas sedas tecidas a partir de prosaicos casulos de lagarta.

Os exemplos poderiam se multiplicar. Dado o insaciável desejo de perfeição posto por Deus no espírito humano, poder-se-ia traçar, percorrendo os séculos, um capítulo da história intitulado “A procura do Belo”. E nele veríamos que quanto mais uma civilização está próxima de Deus, melhor consegue refletir nas suas obras as sublimidades celestiais. Razão pela qual o melhor do patrimônio cultural e artístico legado a nós pelo passado foi edificado nas eras de maior fervor cristão. Uma pequena amostra disso são os vitrais, surgidos na época áurea da Idade Média. Fruto de mãos e corações amantes de Deus, têm eles a virtude de transformar a luz material numa feeria de cores que, com a ajuda da graça, nos transporta para o mundo sobrenatural. Quando a luz do Sol os atravessa, matéria e espírito como que se osculam, criando uma atmosfera própria a apaziguar o coração de quem se detém para os contemplar.

Assim, podemos imaginar uma alma especialmente aflita, tomada por angústias e dificuldades da vida, entrando numa bela catedral e voltando os olhos, de modo instintivo, para a origem da policromia luminosa que enfeita suas paredes. Ao se deparar com a figura desenhada no vitral, vai ela sendo tomada aos poucos por uma consolação que enche sua alma de equilíbrio e a leva a recolher-se e rezar. Representada no vidro em esplêndidas cores, vemos Maria Santíssima com seu Divino Filho nos braços, num gesto de terna súplica, parecendo pedir clemência por um pecador. Dulcificada e serenada por tal luz e fortificada pela oração que imperceptivelmente fizera, a pessoa sai do templo consolada e cheia de confiança. Sente como se uma voz sobrenatural lhe tivesse sussurrado: “quando o calor do Sol e o peso da vida te parecerem por demais duros, vem repousar sob a minha luz tamisada pelos coloridos da graça!”.

Entretanto, se por vezes esta luz se eclipsar, como ocorre à noite com o vitral, jamais percamos a confiança. Ao raiar da aurora, aquele raio de luz voltará a reluzir ainda com maior fulgor!

Confiar e abandonar-se nas mãos Deus

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Fahima Akram Salah Spielmann

A existência de Deus é a primeira entre todas as verdades nas quais os fiéis devem acreditar: “Creio em Deus Pai todo-poderoso”, rezamos no início do Credo. Essa verdade de Fé pode ser comprovada todas as vezes que contemplamos a ordem e as leis que regem a natureza e o universo. Ninguém é tão insensato para imaginar que toda essa harmonia é fruto do mero acaso.

Conforme nos ensina o Catecismo “Deus criou o universo livremente, com sabedoria e amor. O mundo não é o produto duma necessidade, dum destino cego ou do acaso” (Catecismo, 54). Assim, “tudo o que Deus criou Ele o governa e cuida pela sua Providência”, afirma o Concílio Vaticano I. Mas, em que consiste a Providência Divina?

A criação não saiu totalmente acabada das mãos de Deus. Foi criada in statu viae, ou seja, em estado de caminhada para uma perfeição maior a ser atingida. A disposição pela qual Deus conduz a sua criação em ordem a essa perfeição chama-se Providência Divina (cf. Catecismo, 302).

Embora a Providência dirija todas as criaturas para o fim que lhe convém pelos meios adotados a esse fim, Ela se ocupa mais especialmente da criatura humana, a quem redimiu pelo Preciosissímo Sangue de seu Filho. “Entregai todas as vossas solicitudes ao Senhor, pois ele cuida de vós” (1P 5,7).

Nosso Senhor Jesus Cristo pede-nos um abandono filial à Providência do Pai Celeste, que cuida das menores necessidades dos seus filhos: “Não vos inquieteis, dizendo: Que havemos de comer? Que havemos de beber? […] Bem sabe o vosso Pai celeste que precisais de tudo isso. Procurai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça e tudo o mais vos será dado por acréscimo” (Mt 6, 31-33).

E por mais que o homem se levante contra essas mãos que o tiraram do nada, a Providência Divina nunca o abandona, como vemos de modo paradigmático no Livro da Sabedoria (Sb 14,1-6), a exemplo de um homem que quer navegar movido pela cobiça e se lança ao mar em um navio feito de madeira de péssima qualidade, e só não perece porque a Providência abre caminho no mar e conduz o timão. Assim Ela faz conosco, dirigindo-nos com fortaleza e suavidade, porque respeita a natureza e as inclinações de cada um dos seres, sem os violentar, operando no fundo da sua substância como se agissem sozinhos.

Contudo, muitas vezes o Divino Governo se manifesta por caminhos inescrutáveis, sobretudo em certas sendas, que talvez por seu esplendor, são obscuras aos nossos olhos. Deus pode na sua onipotente Providência tirar um bem das consequências dum mal (mesmo moral), causado pelas criaturas. É a história de José que foi vendido como escravo pelos irmãos: “Não, não fostes vós — disse José a seus irmãos — que me fizestes vir para aqui. Foi Deus. […] Premeditastes contra mim o mal: o desígnio de Deus aproveitou-o para o bem […] e um povo numeroso foi salvo” (Gn, 45, 8; 50, 20).

Apesar de crermos firmemente que Deus é o Senhor do mundo e da história, muitas vezes, porém, os caminhos da sua Providência são-nos desconhecidos. Só no fim, quando acabar o nosso conhecimento parcial e virmos Deus “face a face” (1 Cor 13, 12), é que nos serão plenamente conhecidos os caminhos pelos quais, mesmo através do mal e do pecado, Deus terá conduzido a criação ao seu fim último. Portanto, cabe ao homem diante das circunstâncias adversas confiar e abandonar-se nas mãos Deus, exercitando algumas virtudes: a penitência, a humildade, adquirida depois da queda; o reconhecimento que se faz mais intenso e mais vivo porque o perdão foi imenso, etc. Lê-se no Livro dos Salmos: “Pois não ouvirá quem fez o ouvido? O que formou o olho não verá? Aquele que dá lições aos povos não há de punir, ele que ensina ao homem o saber… O Senhor conhece os pensamentos dos homens” (Sl 93, 9-11).

Sendo Deus o Senhor soberano dos seus planos serve-Se, para a realização dos mesmos, do concurso das criaturas. Isto não é um sinal de fraqueza, mas da grandeza e bondade de Deus onipotente. É que Ele não só permite às suas criaturas que existam, mas confere-lhes a dignidade de agirem por si mesmas, de serem causa e princípio umas das outras e de cooperarem, assim, na realização do seu desígnio.

Podemos citar o grande Apóstolo dos Gentios, São Paulo: de perseguidor dos cristãos a pregador de Cristo. De tal maneira, ele se deixou levar pela Providência Divina para realizar os desígnios de Deus que dizia: “Porque quando me sinto fraco, então é que sou forte” (2 Cor 12,10), ou seja, ele possuía a clara noção de que o governo divino ordena tudo para um bem superior. “O sumo abandono nas mãos de Deus é sentir-se miserável, sentir-se quebrado, sentir-se arrasado e nessa hora dizer: ‘ Ah! Afinal, agora eu posso dizer que sou mais forte do que nunca!” 1
Saibamos compreender que as criaturas nada podem sem o seu Criador e muito menos atingir o seu fim último, sem a ajuda da Divina Providência.

1 CLÁ DIAS, João. Homilia da XI Semana do Tempo Comum. São Paulo: Mairiporã, 23 Jun. 2007. (Arquivo IFTE).

Pobre por amar os pobres, mas rico em santidade

Irmã Clara Isabel Morazzani, EP

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São José Benedito Cottolengo

“Tereis sempre pobres entre vós” (Mt 26, 11). São José Cottolengo abraçou avidamente essa preciosa herança deixada por Jesus à sua Igreja e a eles dedicou toda a sua existência.

A santidade não provém de um puro esforço feito pelo homem, mas sim de uma singular graça concedida por Deus. Ora, Jesus, Homem-Deus, sendo o Criador e, ao mesmo tempo, o escrínio de todas as graças, pode e quer dispensá-las a todos que delas necessitem e as desejem. O heroísmo na prática das virtudes, como se pode definir a santidade, é, pois, uma graça participativa dessa maravilhosa plenitude que habita em Nosso Senhor e é liberalmente outorgada por Ele. Um desses privilegiados foi José Benedito Cottolengo, suscitado por Deus na conjuntura dos séculos XVIII e XIX.

Atraído pela compaixão de Jesus para com os pequeninos

Sem deixar de ver a Deus na sua totalidade, cada santo põe um acento todo especial na contemplação de algum aspecto pelo qual é particularmente cativado e convidado a ser reflexo. Em concreto, José Cottolengo sentiu-se atraído pela bondade e compaixão de Jesus em relação aos pequeninos, aos pobres e doentes. Compreendeu em profundidade as riquezas de amor do Coração de um Deus por aqueles a quem denominou como os “menores de meus irmãos” (Mt 25, 40).

No alto da Cruz, o Salvador obteve por seu Sangue a filiação divina e a filiação de Maria para toda a humanidade. Por esta dupla dádiva, tornou-Se Ele mesmo nosso verdadeiro irmão. Quanta união, quanto embricamento de afeto há entre os filhos nascidos de uma mesma família! E, entretanto, esses laços de sangue são apenas pálidas imagens do insuperável amor fraterno que Jesus nutre por todos nós! São José Benedito Cottolengo penetrou nesse mistério e procurou manifestá-lo em sua vida, dedicando-se com total desinteresse àqueles que se acham na orfandade natural e espiritual, aliviando-lhes não só as dores corporais mas também as enfermidades de alma.

Primeiros passos na vocação

José Benedito Cottolengo nasceu em Bra, no Piemonte, em maio de 1786. Desde a infância deu provas de sua vocação, sendo encontrado um dia medindo um dos quartos de sua casa com o objetivo de saber quantas camas caberiam ali para receber doentes.

Terminados os estudos, dos quais saiu-se brilhantemente graças à intercessão de São Tomás de Aquino, foi ordenado sacerdote e mais tarde, em 1818, eleito cônego do cabido de Corpus Domini em Turim.

Em 1827 deu início à sua obra, fundando a “Pequena Casa da Divina Providência”, onde acolheu inúmeros enfermos e abandonados. Para o cuidado destes, criou primeiro um instituto de religiosas chamado “Filhas de São Vicente” e, alguns anos depois, outro, denominado “Irmãos de São Vicente de Paulo”.

Confiança cega na Providência

As dificuldades para a realização de seus desígnios não foram pequenas. Muitos outros dotados de uma fé robusta, mas não cega como a sua, teriam desanimado na metade do caminho. Continuamente achava-se sem recursos e acossado por credores incompreensivos exigindo o pagamento das dívidas. Por outro lado, via crescer todo dia o número de seus protegidos que acorriam à “Pequena Casa”, atraídos, não só pelas necessidades de saúde, mas, sobretudo, pela fama de sua bondade sem limites.

Quem conhecesse a atividade incessante dessa obra, acreditaria ser seu fundador um homem inquieto e preocupado, metido nos assuntos materiais, desejoso de tudo vigiar e governar. Nenhum juízo poderia ser tão falso a seu respeito: São José Benedito era um varão essencialmente contemplativo e desapegado das coisas terrenas. A característica preponderante de sua santidade e de sua missão era a inteira confiança na Divina Providência. Poder-se-ia dizer que toda a sua espiritualidade sintetizava-se nesta frase do Evangelho: “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas por acréscimo” (Mt 6, 33).

Com freqüência costumava dizer aos seus: “Estai certos de que a Divina Providência nunca falta; poderão faltar as famílias, os homens, mas a Providência não nos faltará. Isso é de fé. Portanto, se em alguma ocasião faltar algo, isso só poderá ser atribuído à nossa falta de confiança. É necessário confiar sempre em Deus; e, se Deus responde com sua Divina Providência à confiança ordinária, proverá extraordinariamente a quem extraordinariamente confiar”.

“Por que vos inquietais por tão pouco?”

Uma fé assim levada a grau tão heróico só poderia obter resultados miraculosos, e estes foram abundantes ao longo da existência de nosso santo. Em certa ocasião, a religiosa encarregada da cozinha veio anunciar-lhe:
— Nada resta de farinha na casa… Amanhã não haverá pão para alimentar os indigentes!

— Por que vos inquietais por tão pouco? Bem vedes como a chuva cai às torrentes e é impossível mandar alguém sair neste momento — respondeu ele.

A boa irmã, que não atingira na perfeição aquele santo abandono de seu Fundador, retirou-se muito descontente com a resposta. Alguns instantes depois, Cottolengo entrou no refeitório e — imaginando-se só, sem desconfiar que outra irmã o espiava pelo buraco da fechadura — ajoelhou-se diante da imagem da Santíssima Virgem e orou fervorosamente com os braços em cruz.

Passaram-se apenas alguns minutos e um homem, conduzindo uma carroça, apresentou-se à porta do estabelecimento. Sem querer informar de onde vinha nem por quem fora enviado, declarou ter o encargo de depositar na “Pequena Casa” toda a farinha que trazia em seu veículo. As freiras logo acorreram, alvoroçadas, para contar tudo ao santo cônego. Este acolheu a notícia sem manifestar a menor surpresa e tranqüilamente lhes deu ordem de fazer o pão.

O dinheiro apareceu no bolso

Em outra ocasião, São José Benedito viu-se diante de uma situação ainda mais apertada. Um de seus credores chegou a ameaçá-lo de morte caso não lhe pagasse a dívida naquele mesmo instante. Ele desculpou-se, pediu-lhe para ter um pouco mais de paciência, prometendo fazê-lo tão logo fosse possível. Mas o homem mostrou-se inflexível e, sem mais, tirou de dentro de sua vestimenta uma arma com a qual se dispunha a acabar com a vida do santo. Num gesto maquinal, este levou a mão ao bolso e, para sua grande surpresa, encontrou um rolo contendo exatamente a soma reclamada. Entregou-a logo ao credor e este partiu dali confuso por sua atitude violenta, e impressionado diante do milagre e do exemplo de serena confiança que acabava de presenciar.

Abandono à vontade de Deus

Seu desejo de fazer o bem a todos quantos dele se aproximavam não conhecia restrições nem obstáculos: chegava ao extremo de prodigalizar os cuidados mais humildes aos doentes e de entrar nos jogos dos débeis mentais, com o intuito de distraí-los. Não considerava isto uma humilhação, pois analisava tudo com vistas sobrenaturais, sabendo que o importante não está em fazer grandes obras ou realizar prodígios estupendos, mas sim em ser aos olhos de Deus aquilo que Ele quer de nós. Dessa elevada concepção da vida, que impregnava todos os seus atos, decorria o alegre desprendimento com o qual se abandonava à vontade de Deus, repetindo sempre: “Por que ficais angustiados pelo dia de amanhã? A Providência não pensará nisso, pois já pensastes vós. Não arruineis, portanto a sua obra e deixai-a agir. Embora nos seja permitido pedir um bem temporal determinado, entretanto, quanto ao que a mim se refere, temeria cometer uma falta se pedisse algo nesse sentido”.

Em 1842 faleceu José Benedito Cottolengo. Durante sua permanência neste mundo, os anseios de seu coração e a vida de sua alma estiveram voltados unicamente para a glória de Deus. Por isso deixou atrás de si uma obra monumental de Caridade para com próximo, que hoje está presente em quatro continentes, como prova irrefutável da veracidade da promessa de Jesus Cristo. Ele só procurara o Reino de Deus e sua justiça, Nosso Senhor lhe concedera tudo por acréscimo.

Um lugar de honra lhe está reservado entre os cordeiros da direita naquele dia supremo, quando o justo Juiz dirá: “Vinde, benditos de meu Pai! Recebei como herança o Reino que meu Pai vos preparou desde a criação do mundo! Pois Eu estava com fome e Me destes de comer; estava com sede e Me destes de beber; era estrangeiro e Me recebestes em casa; estava nu e Me vestistes; estava doente e cuidastes de Mim; estava n prisão e fostes Me visitar (,..)

Em verdade Eu vos digo que todas as vezes que fizestes isso a um dos menores de meus irmãos, foi a Mim que o fizestes!” (Mt 25,34-36 e 40)