O Apóstolo das Gentes

Ir.Clara Isabel Morazzani Arráiz,EP

A vocação é um dom concedido liberalmente por Deus. E, por vezes, compraz-se o Senhor em chamar alguém aparentemente contrário à missão para a qual Ele o destina, a fim de manifestar com maior fulgor o poder de Sua Graça e a gratuidade do Seu chamado. Nesses casos, apesar dos aparentes paradoxos e à revelia do próprio interessado, cujas aspirações parecem entrar em choque com os desígnios Divinos, o Senhor vai preparando os caminhos, servindo-Se até dos próprios obstáculos para fazer cumprir sua Santa Vontade.

Jovem fariseu de Tarso

Nada parecia indicar que aquele jovenzinho de rosto vivo e inteligente, de nome Saulo, viesse a transformar-se num intrépido defensor de Jesus Cristo. Nascido em Tarso, na Cilícia, no seio de uma família judaica, o pequeno Saulo esteve, desde muito cedo, sujeito a duas fortes influências que pesariam grandemente na formação de seu caráter.
De um lado, as convicções religiosas que aprendera de seus pais não tardaram em fazer dele um autêntico fariseu, apegado às tradições, anelante pela chegada de um Messias vitorioso e libertador do povo eleito, então submetido ao jugo estrangeiro, e zeloso cumpridor da Lei até em suas mínimas prescrições. De outro lado, o ambiente de sua cidade natal marcou profundamente a personalidade do jovem fariseu. Tarso — metrópole grega, súdita do Império Romano — tornara-se, por sua localização privilegiada, um dos centros de comércio mais importantes daquele tempo. Regurgitava de gente, proveniente das nações mais diversas, cujas línguas e costumes misturavam-se sob o fator preponderante da cultura helênica. A Providência começava a preparar o jovem fariseu para sua futura missão de Apóstolo das Gentes.

Discípulo de Gamaliel

Apenas saído da adolescência, Saulo abandonou sua pátria para instalar-se na cidade-berço da religião de seus antepassados: Jerusalém. Ali tornou-se assíduo estudioso das Escrituras, instruído pelo douto Gamaliel, um dos mais destacados membros do Sinédrio. Também aqui podemos notar a mão de Deus intervindo em sua vida, pois o conhecimento dos Livros Sagrados, que adquiriu ao longo desses anos, servir-lhe-ia mais tarde para abrir seus horizontes a respeito da realidade messiânica de Jesus Cristo.
Entretanto, se Saulo progredia a passos rápidos nas doutrinas farisaicas, sob o olhar vigilante de Gamaliel, em nada pareceu assimilar a prudência que caracterizava seu mestre, sempre cauto em seus juízos e comedido nas apreciações. Pelo contrário, o jovem aluno dava mostras de um exaltado fanatismo religioso, como ele mesmo confessaria em sua epístola aos Gálatas: “Avantajava-me no judaísmo a muitos dos meus companheiros de idade e nação, extremamente zeloso das tradições de meus pais” (Gl 1, 14).

No interior do discípulo de Gamaliel latejava um coração sincero, à procura da verdade. Buscava-a ardorosamente, desejoso de alcançar o pleno conhecimento dela. Não sabia que o termo desses seus anseios encontrava-se n’Aquele que, de Si mesmo, dissera: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida; ninguém vem ao Pai senão por Mim” (Jo 14, 6).

Sim, Saulo não poderia chegar ao Pai, Suprema Verdade, sem passar por Jesus, o Mediador entre Deus e os homens. A afirmação proferida pelo Divino Mestre, momentos antes de Sua Paixão, ele a veria cumprir-se em sua vida, ainda que contra a sua vontade e apesar de suas relutâncias. E a ocasião se haveria de apresentar justamente quando as convicções de Saulo, chocadas ante o Cristianismo que surgia, haviam-se convertido em ódio profundo contra este. Continue lendo

Ele veio para todos…

Ir. Clara María Morazzani, EP

Sábios e iletrados, ricos e pobres, reis e pastores têm seu lugar de dileção aos pés do Menino Jesus.

Quem se aproxima, em espírito, da manjedoura na Gruta de Belém, encontra um Menino tenro, mas cheio de vida e de luz. Contemplando-O com os olhos da fé, fica-se abismado ao considerar que ali está o próprio Deus feito homem. Sim, esse mesmo Menino mais tarde estará curando leprosos, devolvendo a vista a cegos, fazendo andar paralíticos, ressuscitando mortos ou acalmando tempestades. No final de sua vida, Ele será desprezado pelas multidões, injuriado, flagelado e pregado numa cruz. Mas ressuscitará ao terceiro dia de forma gloriosa, subirá aos céus e se sentará à direita do Pai como rei triunfante supremo. É assim que Ele deverá vir, pela segunda vez, no dia do Juízo Final, para julgar os vivos e os mortos.

Veio para os pobres…

Em sua primeira vinda, quis Jesus manifestar-Se aos homens revestido de nossa fraqueza, como débil e indefesa criança, padecendo fome, sede, frio e em tudo se assemelhando à nossa humana condição.

Junto ao presépio, encontraremos os pastores. Homens rudes e humildes, ocupados apenas na guarda noturna de seus rebanhos, viram-se, de repente, circundados por uma claridade divina que os encheu de grande temor. Mas logo, animados pelas tranquilizadoras palavras do anjo, correram para aquela feliz gruta onde, com grande reverência, aproximaram-se para adorar o Menino envolto em pobres panos e reclinado sobre míseras palhas.

… e para os ricos

Erroneamente, porém, poderia alguém pensar ter Ele vindo só para os simples pastores e as pessoas menos abastadas. Para desfazer essa ideia por demais simplificada e unilateral, bastaria permanecer mais alguns dias junto ao Menino e ser surpreendido por um séquito real cheio de cores, pompa e majestade.

De onde procedia aquela longa, misteriosa e rica caravana, composta de guerreiros fortes e audazes, de pajens vestidos de seda, avançando ao som de trombetas e ao rufar compassado dos tambores? O que significava essa “inundação de camelos e dromedários” (Is 60, 6) carregados de riquezas, previstos com tanta antecedência pelo profeta Isaías? Quem seriam esses três soberanos à procura do “Rei dos judeus que acabava de nascer”? (Mt 2, 2).

Chamavam-se Melquior, Gaspar e Baltazar e, segundo a tradição, representavam as três raças da família humana. O Evangelho nos conta serem eles provenientes do longínquo e enigmático Oriente, tendo viajado até a Judeia guiados por uma estrela.

E aqui nos aparece o primeiro traço do extraordinário chamado que lhes foi feito. Aos pastores se manifesta visivelmente um anjo de luz, revelando por palavras a grande alegria do nascimento do Salvador. Àqueles reis, porém, essa mesma notícia é comunicada pelo aparecimento de uma maravilhosa estrela acompanhada de uma voz interior a tocar suas almas. Assim no-lo explica São Tomás, citando o grande Papa Leão: “Além da imagem que estimulou o olhar corporal, o raio ainda mais luminoso da verdade instruiu até o fundo os seus corações no que concernia à iluminação da fé” 1.

Fé levada até o heroísmo

Bem se poderia aplicar neste caso o famoso ditado francês: noblesse oblige (a nobreza impõe obrigações). Daqueles Magos, até então mergulhados nas trevas do paganismo, a Providência exigiu um heroísmo de fé que não foi pedido aos pastores, herdeiros das promessas messiânicas do povo eleito. Quanto drama havia naquela viagem! Alertados pelo súbito fulgor de uma estrela, os Reis Magos abandonam sem hesitação a calma e o conforto de seus palácios para lançar-se em longa viagem cheia de fadigas e perigos, através de desertos e montanhas…

E tanto esforço, para quê? Para ir prostrar-se em adoração diante de um menino recém-nascido! A extrema pobreza na qual Se lhes apresentou Aquele a quem buscavam com santo afã, em nada abalou a sobrenatural certeza vincada em seus corações, de ser Ele o Rei dos reis. Afirma o Doutor Angélico: “Deve-se dizer como Crisóstomo diz: ‘Se os Magos tivessem vindo procurar um rei terrestre, teriam ficado decepcionados, por terem enfrentado sem motivo as dificuldades de um caminho tão longo’. E assim, nem O teriam adorado, nem Lhe teriam oferecido presentes. ‘Mas, porque procuravam o Rei do Céu, mesmo não vendo n’Ele nada da majestade real, O adoraram satisfeitos unicamente com o testemunho da estrela’. Viram um homem e nele reconheceram Deus. E ofereceram presentes adequados à dignidade de Cristo: ‘Ouro, como a um grande rei; incenso, utilizado nos sacrifícios divinos, como a Deus; e mirra, com a qual são embalsamados os corpos dos mortos, indicando que iria morrer pela salvação de todos’” 2.

Deste modo, os três Reis nos ensinaram quais os presentes mais agradáveis ao Menino-Deus, por ocasião da festa da Epifania: o ouro fino e puro das boas obras, praticadas com desinteresse e pureza de intenção; o incenso perfumado das orações feitas com sincera piedade e devoção; e a mirra dos sofrimentos e sacrifícios suportados ao longo de nossa vida com verdadeiro amor e alegre resignação.

Jesus está à espera de todos nós

Apresentemos, então, com os Magos, nossas modestas ofertas aos pés do berço onde dorme sereno o pequeno Rei vindo para nos redimir. Ele está à espera de todos nós, de todos os homens de boa vontade que queiram seguir seus passos. Esta é a lição que nos deu já no começo de sua existência terrena: “A salvação que Cristo iria trazer concernia a todo tipo de homens, pois, como diz a Carta aos Colossenses: ‘Em Cristo não há mais homem e mulher, grego e judeu, escravo e homem livre’, e assim quanto às outras diferenças. E para que isto estivesse prefigurado no próprio nascimento de Cristo, Ele se manifestou a homens de todas as condições. Pois, como diz Agostinho: ‘Os pastores eram israelitas, os magos pagãos; aqueles estavam perto, estes longe; uns e outros se encontraram na pedra angular’. Havia ainda entre eles outro tipo de diversidade: Os magos eram sábios e poderosos, os pastores, ignorantes e de condição humilde” 3.

E São Leão Magno exclama: “Que todos os povos representados pelos três Magos adorem o Criador do universo; e Deus não seja conhecido apenas na Judéia mas no mundo inteiro, a fim de que por toda parte ‘o seu nome seja grande em Israel!’ (Sl 75, 2)”4.

Se contemplarmos Jesus com olhar admirativo e cheio de fé, veremos que esse é o Menino dos contrários harmônicos. Ele veio para todos: pobres humildes, reis majestosos. Ele está à disposição de toda e qualquer classe social, de toda e qualquer cultura, de toda e qualquer raça. Ele veio para salvar a todos.

1) Suma Teológica III, q. 36, a. 5.
2 ) Idem, III, q. 36, a. 8.
3 ) Idem, III, q. 36, a. 3.
4 ) São Leão Magno, Sermo 3 in Epiphania Domini.

A criação: um dedo a apontar para o céu

Fahima Akram Salah Spielmann

Na criação, Deus muitas vezes se faz “pequeno” para que assim possamos alcançá-Lo, e compreendermos o verdadeiro sentido que as coisas possuem. Pois, entre todas as criaturas terrenas, o homem é o único capaz de pensar e, através do raciocínio, chegar a compreender a transcendência dos seres criados, o verdadeiro sentido que possuem. A esse respeito, já nos cursos filosóficos aprendemos como todo efeito possui uma causa, do mesmo modo remonta a algo superior de seu criador.

Para ajudar o homo viator a não se perder nesse caminho, Deus inscreveu em seu coração um desejo do sublime, o que constitui uma das mais altas dignidades do homem, como nos afirma a Gaudium et Spes1: “o aspecto mais sublime da dignidade humana está nessa vocação do homem à comunhão com Deus. Esse convite que Deus dirige ao homem, de dialogar com Ele, já começa com a existência humana” (GS 19).

Sendo assim, já no estado de inocência original, o homem, tendo suas potências submetidas à razão superior, com um simples olhar de apreensão subiria à causa e ao fim do criado, uma vez que existe na alma humana, por causa de sua natureza material e ao mesmo tempo espiritual, a necessidade de participar do invisível através do visível2.

Contudo, sabendo Deus da imensa dificuldade que teríamos em alcançar o sobrenatural, após o pecado original, deu-nos sensivelmente como que “elevadores”, que nos fizessem chegar até Ele, fim último de tudo. E esse ascensor é a criação que, como um dedo, nos aponta para Deus.

Aguia4Assim, por exemplo, ao vermos uma águia que sem nenhum temor bate suas asas, desafiando os ventos, e que, de repente, em um só lance agarra sua presa e a arrasa; com um olhar mais profundo podemos ver nisso uma analogia com a beleza de uma alma lutando por um ideal, sem deixar se abater pelos ventos contrários da dificuldade que sopram, continua o seu percurso, voando até alcançar sua meta. Personificando, chegamos a Deus, fonte e raiz de toda virtude.

De modo mais sublime podemos dizer da água, elemento tão banal aos nossos olhos, que, entretanto, teve como primeira causa de sua criação o Batismo 3 , regeneração espiritual que sem sua matéria não produziria o que opera.

Entre outros inumeráveis exemplos citemos no próprio ser humano a necessidade da alimentação que, como nos ensina Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias, foi imposta com vistas ao Sacramento da Eucaristia. Na mente divina primeiro estava o Pão da Vida e, por este motivo, foi criado no corpo humano o aparelho digestivo4.

Portanto, podemos concluir que com tudo o que existe sensivelmente pode-se fazer uma analogia com o sobrenatural; e como todo o criado, de modo direto ou indireto, ao ser formulado por Deus visava a união com Ele. E foi assim que agiu o Divino Pedagogo, ao fazer o corpo humano, para que este servisse de “metáfora” para o verdadeiro organismo, que é o Corpo Místico de Cristo.

O Corpo Místico de Cristo é a matriz primeira, o analogado primário, a arquetipia do corpo humano. E o Corpo Místico de Cristo, portanto, tem leis e maravilhas muito mais elevadas, muito mais ricas, muito mais profundas e mais amplas que o próprio corpo humano5.

O corpo humano, figura do Corpo Místico de Cristo

Inspirado pelo Espírito Santo, com o intuito de exprimir tal união, o Apóstolo usou várias imagens, tais como edifício, templo, família de Deus (Ef 2, 19-22), esposa de Cristo (Ef 5, 22-23), corpo de Cristo (Ef 1, 23; 2, 16; 3, 6; 4, 4. 12. 16; 5, 23), complemento de Cristo (Ef 1, 23), e em todas elas encontramos a singular expressão da necessidade de união com Cristo Jesus, de modo a viver por Ele, com Ele e n’Ele.

Igreja Tabor ArautosApesar de possuírem semelhantes significados, a que mais se destaca é a do corpo de Cristo, talvez por conter todas e melhor exprimi-las, como aludiu Pio XII em 1943, na sua encíclica Mystici Corporis.

Ao contrário dos outros, o termo “corpo de Cristo” parece ser da criação de São Paulo, referindo-se a ele várias vezes.

Discutem entre si os exegetas qual teria sido a origem deste termo usado pelo Apóstolo. Dizem alguns, o mais provável, que a ideia de Igreja Corpo de Cristo proceda do termo “esposa, corpo do marido”, muito corrente no Antigo Testamento, expressando, sob a figura de matrimônio, o vínculo de Deus com o povo da Aliança (Cf. Is 62, 4-5; Jer 3, 20; Ez 16, 8-29; Os 2, 19-22), portanto muito própria para transpor a imagem de Cristo e sua Igreja. A passagem mais explícita sobre essa apropriação encontramos em Efésios: “o marido é a cabeça da mulher, como Cristo é a Cabeça de seu Corpo, do qual Ele é o Salvador” (Ef 5, 23).

Os leitores, para os quais se dirigiam estas palavras, entendiam-nas muito bem, pois o marido era a cabeça e a esposa, submissa a ele, era o corpo, da mesma forma como a Igreja a Cristo. Esse enlace entre os esposos servia de preparação para compreenderem o amor de Cristo pela Igreja (Ef 5, 33), que levado até as últimas consequências entregou-se inteiramente a Ela (Ef 5, 25).

Inspirou Deus ao apóstolo São Paulo a figura do corpo para simbolizar a união entre Cristo e a Igreja, à maneira da cabeça com o resto do corpo, por diversas razões.

Diz a Lumen Gentium que de sobremaneira quis Deus escolher esta figura, por projetar a intimidade de Cristo com a Igreja, e neste sentido cada cristão deve almejar o máximo de união, fazendo tudo por Ele, com Ele e n’Ele (LG 7).

Para melhor compreendermos essa profunda analogia, cabe a teologia ceder lugar à anatomia.

Ensina a medicina que o corpo, enquanto tal, só pode existir na junção de seus membros, os quais só desempenharão sua função em ligação com a cabeça, lugar mais complexo do corpo, onde residem os principais comandos nervosos e a quase totalidade dos órgãos dos sentidos, além das partes iniciais do aparelho digestivo e respiratório.

Desse modo, por ordem da cabeça, encontramos a suprarrenal enviando um hormônio chamado cortisol, que em dose exata regula o organismo para que ele desperte. Ou então, em meio à concentração do trabalho, sem precisar de uma contínua atenção nossa, o coração continua a pulsar. Paralelamente, o pulmão prossegue sua respiração sem nenhum lapso.

Toda essa ordenação do organismo é realizada pala hipófise, pequena glândula situada no cérebro6.

Com esta pequena amostra, vemos a íntima e essencial junção, dentro do organismo, e a primazia da cabeça em relação aos outros membros, os quais não seriam o que são sem a cabeça; que por sua vez não seria o que é sem os membros; e, com tal união, basta uma agulha perfurar o último dos artelhos, que em três segundos o cérebro receberá informações do ocorrido e com prontidão responderá em socorro, enviando o necessário para o restabelecimento.

Além disso, tudo é animado pela alma, a tal ponto que na separação desta do corpo se produz a morte.

Na ordem sobrenatural, “a comparação da Igreja com o corpo projeta uma luz sobre os laços íntimos entre a Igreja e Cristo. Ela não é somente congregada em torno d’Ele; é unificada n’Ele e em seu Corpo” (CCE 789).

Pungente é ver que sendo Cristo o Fundador da Igreja poderia designar-se sob outras imagens; mas preferiu a do Corpo, para nos atestar algo já contido no início da Revelação: “ossos de meus ossos e carne da minha carne” (Gn 2, 23). Ou seja, a Igreja, Esposa de Cristo à semelhança da criação de Eva, floresceu do costado de Nosso Senhor Jesus Cristo padecente na Cruz, donde com toda propriedade podia Cristo designar-se de seu Esposo (Mc 2, 19) e Cabeça (Ef 4, 15-16) de sua Igreja.

1 “La más alta razón de la dignidad humana consiste en la vocación del hombre a la comunión con Dios. Ya desde su nacimiento, el hombre está invitado al diálogo con Dios” (Para todas as referêcias da Gaudium et Spes, será usada a edição Epiconsa; Paulinas. Tradução da autora).
2 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Summa Theologiae. III, q. 61, a. 1.
3 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. As criaturas nos oferecem o que não podem dar! Só Deus é o rochedo! : Homilia. São Paulo, 4 dez. 2008. (Arquivo IFTE).
As matérias extraídas de exposições verbais – designadas neste trabalho, segundo sua índole, como “conferências”, “palestras”, “conversas” ou “homilias” – foram adaptadas para a linguagem escrita, sem revisão do autor.
4 Id. A manifestação do amor de Deus às criaturas: Conversa. Lisboa, 26 mar. 2008. (Arquivo IFTE).
5 Id. A humanidade de Jesus Cristo: Conferência. São Paulo, 12 set. 2007. (Arquivo IFTE).
6 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. A Igreja é una, Santa, Católica e Apostólica: Conferência. São Paulo, 1 ago. 2002 (Arquivo IFTE).

“Espírito Vivificante”: a alma do Corpo Místico

Pomba-300x224FAHIMA AKRAM SALAH SPIELMANN

Ao escolher a figura do corpo humano como uma imagem para seu Divino Organismo, Cristo elegeu também uma alma, que, ao contrário de outras, possui o inteiro domínio desse Corpo, além de ser seu elemento vivificador: o Espírito Santo.

A alma humana possui como característica principal ser a forma do corpo. Entretanto, ao dizermos ser o Espírito Santo a alma do Corpo Místico, usamos por apropriação essa expressão, dado que uma Pessoa Divina não pode ser a forma de nenhuma criatura.

Apesar do termo ser usado por apropriação, é inteiramente cabível ao Espírito Santo, uma vez que Ele habita e age a partir de dentro, como a alma. Nesse sentido, contestava o Apóstolo: “não sabeis que sois o templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós?” (1 Cor 3,16), “porventura não sabeis que os vossos membros são templos do Espírito Santo, que habita em vós” (1 Cor 6,19).

Sendo a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade a Alma do Corpo Místico, afirma-se, sobretudo, que é Ela quem anima e vivifica, analogamente como a alma humana. Encontram-se inúmeros trechos que alimentam a devoção dos fiéis, contudo, limitamos a narrar uma passagem de Santo Agostinho:

Se quereis ter o Espírito, irmãos, escutai: o espírito pelo qual vive o homem, se chama alma; nosso espírito, pelo qual vivemos cada homem se chama alma; e vede o que faz a alma com o corpo: vivifica todos os membros: com os olhos vê, com os ouvidos ouve, com as narinas olfatea, com a língua fala, com as mãos opera, com os pés anda. Está em todos os membros para que vivam; dá a vida a todos e a cada um o seu ofício […]. Os ofícios são diversos e a vida é comum. Assim sucede na Igreja: em uns santos faz milagres, a outros ensina a verdade… Cada um faz o que lhe é próprio, mas todos vivem igualmente. O que é a alma para o corpo é o Espírito Santo para Corpo de Cristo, que é a Igreja”.1

A sensibilidade e o movimento transmitido à cabeça dimanam da alma que os distribui para o corpo de maneira desigual à semelhança do Corpo de Cristo. O Espírito Santo não opera uniformemente em todos os membros, mas com graus diferentes nos bem-aventurados, nos justos, e inclusive nos que estão em estado de pecado e os que fazem parte desse Corpo somente em potência.2 A verdade é que “o Espírito Santo está em todos os que são membros de Cristo, desde os que recebem d’Ele a bem-aventurança da glória, até os que recebem a graça mais inicial e primitiva”.3

O Espírito Santo é um princípio vivo e vivificador. Operou na vinda de Cristo sobre a Terra, fecundando ativamente Maria, e interveio no nascimento da Igreja. O dia de Pentecostes foi o dia da proclamação oficial da sociedade estabelecida por Cristo”.4

Prometido por Nosso Senhor antes de sua partida: “vós sereis batizados no Espírito Santo daqui há poucos dias” (At 1, 5), a Igreja teve seu nascimento no batismo de Pentecostes, e, portanto, é n’Ele que somos batizados e recebemos o princípio vital da vida divina que nos faz filhos de Deus.5

De modo que dentro da diversidade dos membros se cumpre o pedido do Salvador: “que todos sejam um, assim como Tu, Pai, estás em mim e Eu em Ti, para que também eles estejam em nós” (Jo 17, 22).

Sabemos que o Pai, o Filho e o Espírito Santo comparados entre si, são distintos embora idênticos, sendo a ação que procede o Espírito Santo, a via de amor.

E elegendo o Espírito Santo para ser a alma da Igreja, o qual é denominado de “Amor”, podemos dizer que “Cristo deseja que a união que deve haver naqueles que formam o seu Corpo Místico seja o amor”.6 Assim a Igreja se unifica onde se unificam o Pai e o Filho, ou seja, no amor, na Terceira Pessoa.

Se é Ele quem governa e move aos membros do Corpo Místico de Cristo, quem os unifica, quem os vivifica; e se faz tudo isso a partir de dentro, inabitando em cada membro e em todo corpo, temos que terminar dizendo que desempenha autênticas funções de alma”.7

1“Si queréis tener el Espíritu, hermanos, escuchad: el espíritu por el que vive el hombre se llama alma; nuestro espíritu, por el que vivamos cada hombre, se llama alma; y vede qué hace el alma en el cuerpo: vivifica todos los miembros: con los ojos ve, con los oídos oye, con las narinas olfatea, con la lengua habla, con las manos opera, con los pies anda. Está en todos los miembros para que viva; da la vida a todos, y a cada uno su oficio. […] Los oficios son diversos y la vida es común. Así sucede en la Iglesia: en unos santo hace milagros, en otros enseña la verdad… Cada uno hace lo suyo propio, pero todos viven igualmente. Lo que es el alma al cuerpo del hombre es el Espíritu Santo al cuerpo de Cristo, que es la Iglesia” (SANTO AGOSTINHO, apud SAURAS, Emilio. Op. cit. p. 760. Tradução da autora).
2Convém esclarecer que a estes o Espírito Santo será a alma enquanto preparação para receber os princípios que dispõem ao sujeito para a perfeição dessa vivificação.
3“El Espírito Santo está en todos cuantos son miembros de Cristo, desde que reciben de El la bienaventuranza de la gloria, hasta los que reciben la gracia más inicial y primitiva” (SAURAS, Emilio. Op. cit. p. 739. Tradução da autora).
4“El Espírito es un principio vivo y vivificador. Intervino en la aparición de Cristo sobre la tierra, fecundando activamente a María, e interviene en el nacimiento da la Iglesia. El día de Pentecostés fue el de la proclamación oficial de la sociedad establecida por Cristo, y ese día aparecen en el nacimiento oficial de esta sociedad María y el Espírito Santo, como en el nacimiento de Cristo” (Ibid. p.766. Tradução da autora).
5Cf. Cabe relembrar o que diz São Paulo aos Romanos: “Ora, se Cristo está em vós, o corpo, em verdade, está morto pelo pecado, mas o Espírito vive pela justificação. Se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dos mortos habita em vós, ele, que ressuscitou Jesus Cristo dos mortos, também dará a vida aos vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que habita em vós. Portanto, irmãos, não somos devedores da carne, para que vivamos segundo a carne. De fato, se viverdes segundo a carne, haveis de morrer; mas, se pelo Espírito mortificardes as obras da carne, vivereis, pois todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. Porquanto não recebestes um espírito de escravidão para viverdes ainda no temor, mas recebestes o espírito de adoção pelo qual clamamos: Abbá! Oh Pai! O Espírito mesmo dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus” (Rm 8, 10-16).
6“Cristo desea que la unión que debe haber en quienes forman su Cuerpo Místico sea unión de amor” (SAURAS, Emilio. Op. cit. p. 767. Tradução da autora.).
7“Si Él es quien gobierna y mueve a los miembros del cuerpo místico de Cristo, quien los unifica, quien los vivifica; my se hace todo eso desde dentro, inhabitando en cada miembro y en todo cuerpo, hemos que terminar diciendo que desempeña autenticas funciones de alma” (Ibid. p.768. Tradução da autora).

O amor ao próximo: manifestação do amor a Deus

Jesus ensinandoEmelly Tainara Schnorr

O amor ao próximo é uma das mais belas manifestações do amor a Deus, através do qual, a lei atinge a sua plenitude, segundo ensina São Paulo: “Porque toda Lei se encerra num só preceito: Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Gl 5, 14). Também foi do agrado do Divino Redentor deixá-lo para nós como elemento para a prática da virtude. Assim Ele determina:

“O próximo, eis o meio que vos dei para praticardes e manifestardes a virtude que existe em vós. Como nada podeis fazer de útil para mim, deveis ser de utilidade ao homem. Esta é a prova de que estou presente em vós pela graça: se auxiliais os outros com orações numerosas e humildes, se desejais minha glória e a salvação dos homens. Quem se apaixona por Mim, jamais cessa de trabalhar pelos outros, de modo geral ou particular, com maior ou menor empenho, segundo as disposições do beneficiado e do benfeitor”.1

Pendor natural para o amor mútuo

Se analisarmos sob um prisma meramente natural, há na natureza humana um pendor para o amor mútuo, desejoso de prestar auxílio e socorro aos demais, quando necessário, embora, muitas vezes, careça de algum relacionamento específico, mesmo até de conhecimento. Isso pela única razão de semelhança de espécies, que causa no homem uma grande alegria.2 Confirma o Eclesiástico: “Todo ser vivo ama o seu semelhante, assim todo homem ama o seu próximo. Toda carne se une a outra carne de sua espécie, e todo homem se associa ao seu semelhante” (13, 19-20).

Entretanto, devido ao pecado original, é impossível ao homem praticar a virtude estavelmente, sem o auxílio da graça. Desta maneira, se tão só nos limitarmos ao campo natural, a prática do amor ao próximo encontrará dificuldades ao deparar-se com egoísmos, invejas, rivalidades e interesses próprios, tanto de si mesmo como dos outros.3

O amor sobrenatural ao próximo

A virtude sobrenatural da caridade é a que proporciona as forças suficientes para superar todos esses obstáculos e misérias humanas, resultando num amor puro pelos demais:

“A caridade é paciente, a caridade é bondosa. Não tem inveja. A caridade não é orgulhosa. Não é arrogante. Nem escandalosa. Não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1 Cor 13, 4-7).

Se lançarmos um olhar sobre a vida de Nosso Senhor Jesus Cristo, em diversas passagens do Evangelho, encontraremos n’Ele o modelo perfeitíssimo de caridade, dirigindo-se a Deus como Senhor e Pai, a Quem obedece e faz a vontade. Um tocante exemplo dá-se na Ceia derradeira, onde o Salvador faz uma oração ao Pai celeste, expressando o seu forte amor por Ele (Cf. Jo 17). Sua total aceitação em fazer a vontade do Pai está em sua súplica no Getsêmani: “Meu Pai, se é possível, afasta de mim este cálice! Todavia não se faça o que eu quero, mas sim o que tu queres” (Mt 26, 39). E no momento da Ressurreição, ainda diz: “Subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus” (Jo 20, 17).

Ora, este amor que Ele devotava ao Pai também se estendia aos pecadores, os quais eram também os seus próximos: “Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores” (Mt 9, 13). Jesus Cristo, portanto, assumindo todas as contingências de um corpo padecente, estava disposto a percorrer todas as cidades, aldeias e povoados em busca das almas que necessitavam de sua ajuda, beneficiando-as ao máximo. Não obstante entregou sua própria vida, de uma maneira ignominiosa, tendo como único objetivo nos resgatar e obter a nossa salvação eterna.

“Esse amor em Nosso Senhor Jesus Cristo é sobre todas as coisas. Porque Nosso Senhor Jesus Cristo amou o Pai e amou-nos até a morte de Cruz. Ele se entregou à morte, Ele se entregou à flagelação, Ele se entregou à Via Crucis, Ele se entregou à crucifixão por amor ao Pai e por amor a nós. Então, esta caridade, este amor não está à procura de nenhuma recompensa, de nada, é sobre todas as coisas e disposto a abandonar tudo!”4

Ademais, o Divino Redentor não se importou com todas as ingratidões e traições – sobretudo da parte dos mais íntimos – presentes ao longo de toda a sua vida pública. O que fizeram os Apóstolos no momento auge da Paixão? Fugiram (Cf. Mt 26, 56). Do mesmo modo, com que ingratidão São Pedro, São Tiago e São João responderam a Jesus na hora da agonia, no Horto das Oliveiras, por todo o bem que lhes havia feito? Com um sono profundo (Cf. Mt 26, 40), justo na hora em que Ele mais precisava de um apoio. Contudo, a atitude do Salvador foi a de aumentar ainda mais o seu amor por todos, a ponto de, no alto da Cruz, rogar a Deus que tivesse misericórdia de seus algozes: “Pai, perdoa-lhes; porque não sabem o que fazem” (Lc 23, 34).

“Que todos sejam um”

E é a esta perfeição de amor ao próximo que Nosso Senhor nos convida, determinando o nível que a caridade deve atingir: “Para que todos sejam um, assim como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, para que também eles estejam em nós e o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 17, 21). Portanto, Ele deseja que em nós haja um amor e uma união análogos ao que há na Santíssima Trindade.

Desta forma, compreendemos que o amor ao próximo deve ser primeiramente coroado pelo amor a Deus, colocando-O no centro de todo e qualquer ato fraterno:

“Assim como a água verdadeiramente pura não é aquela que nasce nos vales sombrios, mas aquela que, saída do mais profundo das entranhas da terra, se eleva até o cume dos montes, de onde brota em veios cristalinos, assim também a verdadeira caridade não é o sentimento que tem sua origem nas afeições naturais, transitórias e caprichosas dos homens uns pelos outros, mas sim o amor que, saído do mais profundo do coração humano, se eleva a Deus, e de lá, em veio límpido e cristalino, desce, como do alto de uma montanha, sobre todas as criaturas.”5

Pela mesma razão, ainda podemos afirmar que quem não tem amor ao próximo, não possui verdadeiro amor a Deus, e quem não ama a Este não tem real amor àquele, pois ambos são indissociáveis entre si: “É impossível separar o amor sobrenatural ao próximo do amor de Deus, porque quem ama verdadeiramente a Deus, não pode deixar de amar o que Deus ama, e é sabido quanto Deus ama a todos os homens, a quem criou para o céu e a quem remiu com o preço de seu sangue”.6 São João, em uma de suas epístolas, também foi muito categórico ao asseverar esta verdade: “Se alguém disser: ‘Amo a Deus’, mas odeia seu irmão, é mentiroso. Porque aquele que não ama seu irmão, a quem vê, é incapaz de amar a Deus, a quem não vê. Temos de Deus este mandamento: o que amar a Deus, ame também o seu irmão” (1 Jo 4, 20-21).

E este amor aos irmãos deve ser desinteressado, isento de qualquer egoísmo, sem caprichos e apegos. Ou seja, por obrigação, o zelo fraterno tem de abarcar não só àqueles a quem se estima, mas também aos que se tem antipatias. Procurar, portanto, favorecer a todos e auxiliá-los na prática da virtude e da santidade, visando a sua salvação eterna.

Assim, a nossa atitude em relação aos demais deve ser de atenuar os defeitos alheios, perdoar todas as injúrias que nos são feitas e suprimir de nossas almas nossos próprios defeitos, os quais constituem empecilhos em nosso organismo espiritual, dificultando o bom progresso na prática da caridade fraterna.

“[…] Essa caridade deve ser praticada, eliminando os apegos, os amores estúpidos, humanos e egoístas, os amores-próprios, as ideias erradas que me levam a amar aquilo que não devo, etc. Tudo isto constitui obstáculos que eu preciso eliminar, que eu preciso pulverizar, que eu preciso tornar inteiramente inertes e anulados dentro da minha alma. Porque, sem tirar os obstáculos, esse amor não cresce em mim, os apegos me fazem diminuir nesse amor.”7

Ao progredir nesse amor fraterno, pode-se atingir píncaros inimagináveis, a ponto de operar naquele que o pratica uma disposição tal que, se for preciso, sacrifica a própria vida pelos outros, a exemplo de Nosso Senhor e que nos ensinou: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos” (Jo 15, 13).

1 SANTA CATARINA DE SENA. Op. cit. p. 39.
2 Cf. ROYO MARÍN, Antonio. Teología de la caridad. Op. cit. p. 363-364.
3 Loc. cit.
4 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Homilia do Domingo, da XXX Semana do Tempo Comum. Caieiras, 26 out. 2008. (Arquivo IFTE).
5 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. A verdadeira caridade. In: Revista Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei, n. 19, out. 1999. p. 12.
6 GONZALEZ Y GONZALEZ, Emílio. A perfeição cristã. Porto: Figueirinhas, [s.d.]. p 340-341.
7 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Homilia do Domingo, da XXX Semana do Tempo Comum. Op. cit.

A caridade segundo São João Crisóstomo

S.Joao_crisostomo

Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver caridade, sou um bronze que soa, ou como um címbalo que tine. E ainda que eu tivesse […] toda a fé a ponto de transportar montanhas, se não tivesse caridade, não seria nada” (1 Cor 13, 2-3).

Essa magna e excelentíssima virtude, fundamento de toda a vida espiritual, “a mais excelente das virtudes”1, foi vivida e transmitida nas pregações e obras do grande Padre da Igreja Oriental, São João Crisóstomo. Sua existência centrou-se num contínuo viver de amor pela Igreja e pelo próximo.

Natural de Antioquia, nascido por volta do ano 347 numa família cristã, estudou, na escola de Libânio, filosofia e retórica, na qual teve grande êxito, sendo considerado um dos maiores oradores, não somente por sua ilustre cultura, mas, principalmente, por serem suas palavras embebidas de intensa piedade e ardente amor evangélico.2 Compôs várias obras e estas se tornaram de tal maneira apreciadas que o próprio São Tomás de Aquino, Doutor Angélico, desejava lê-las.

Conta-se que em certa ocasião, voltando de Saint Denis juntamente com alguns frades de sua ordem, São Tomás viu de longe a imensa cidade de Paris. Um de seus companheiros comentou como seria de grande proveito para a obra de São Domingos serem possuidores da cidade de Paris. O Doutor Angélico, atônito, perguntou-lhe, então, o que haveriam de fazer com ela. O frade deu-lhe a idéia de vendê-la ao Rei da França e, com o dinheiro, mandar construir mosteiros para que a Ordem pudesse receber mais vocações. Porém, para o espanto do frade, São Tomás respondeu-lhe que preferia antes os comentários de São João Crisóstomo sobre o evangelho de São Mateus, por serem eles de grande valor teológico e de enorme benefício às almas.3

O amor pelas coisas sagradas já se fazia sentir quando São João Crisóstomo era muito jovem, possuindo grande apreço pelas Sagradas Escrituras, aprofundando seus estudos de teologia junto a Diodoro de Tarso, na mesma cidade de Antioquia.

Após algum tempo, quis buscar algo mais excelente para sua vida espiritual. No pleno ardor de sua juventude, marchou rumo aos montes vizinhos. Ali, pôs-se sob orientação de um ancião virtuoso, disposto a imitar sua austeridade de vida.

Durante dois anos, recebeu ensinamentos de seu mestre. Ao cabo desse período de intenso estudo, resolveu isolar-se numa gruta, vivendo um rigoroso ascetismo e dedicando a maior parte do tempo à contemplação e à oração. Entretanto, devido ao rigor de suas penitências, caiu gravemente enfermo, sendo obrigado a voltar à vida comum.4

A sua volta foi, sem dúvida, providencial. Após o regresso, foi ordenado e logo lhe mandaram fazer pregações na principal igreja da cidade. Este foi o período mais fecundo de sua vida, proferindo as homilias mais excelentes que lhe valeram o qualitativo que passou a fazer parte do seu nome: Crisóstomo, isto é, Boca de Ouro.1

Entre suas inúmeras homilias encontra-se uma sobre o amor de Cristo na célebre afirmação de São Paulo: “Eis por que sinto alegria nas fraquezas, nas afrontas, nas necessidades, nas perseguições, no profundo desgosto sofrido por amor de Cristo” (2 Cor 12,10).

Sendo a caridade a virtude teologal por excelência, mestra das demais virtudes como afirma o padre Royo Marín: ela “é a rainha de todas as virtudes, a mais excelente, a forma de todas as demais. Todas as outras virtudes – inclusive a fé a esperança – estão ao serviço dela e tem a missão de defendê-la e robustecê-la”6, asseverava que o Apóstolo “só se alegrava no amor de Cristo, que era para ele o maior de todos os bens; com isto julgava-se o mais feliz dos homens”.7

Como Santa Teresinha que através do “amor misericordioso” satisfez todos os seus anseios:

A caridade deu-me a chave de minha vocação. (…) Compreendi que só o Amor encerra todas as vocações, que o Amor é tudo, que abraça todos os tempos e lugares… Numa palavra, ele é eterno!… Então, no auge da minha alegria delirante, exclamei: Oh, Jesus, meu Amor…Encontrei, enfim, minha vocação; minha vocação é o Amor!… Sim, encontrei meu lugar na Igreja, e este lugar, oh meu Deus, fostes vós que mo destes…No Coração da Igreja, minha Mãe, serei o Amor…8

Aquele cuja alma está interiormente tomada por esse amor, a ponto de desprezar por causa de Deus a si mesmo e tudo o que possui, este é perfeito”.9 Movido assim, São Paulo desprezava seu instinto de sociabilidade para ser amado por Cristo. A ver-se privado desse amor e bem visto pelos homens “preferia ser o último de todos, isto é, ser contado entre os réprobos, do que encontrar-se no meio de homens famosos, mas privados do amor de Cristo”.10

E São João Crisóstomo acrescenta:
Tal é, com efeito, [o amor] que não deixa em nós nenhum desejo do terreno e nos transporta ao outro amor. Aquele que por este amor está possuído, por mais que tenha que renunciar os seus bens, rir-se da glória, ou ainda entregar sua própria vida, tudo faz com suma facilidade11

E é amando que a pessoa chega a praticar atos heróicos de despretensão, como bem afirma o padre Royo Marín 12: “O amor é a alavanca da vida espiritual, o procedimento mais rápido para chegar ao heroísmo”.

Para o Apóstolo, continua São João, “gozar do amor de Cristo era a vida, o mundo, o anjo, o presente, o futuro, o reino, a promessa, enfim, todos os bens. Fora disto nada tinha por triste ou alegre”. Ó mistério do amor!

“Quem poderá explicar o amor de Cristo?… Calem-se os homens, calem-se as criaturas… Calemos a tudo, para que no silêncio ouçamos os sussurros do Amor, do Amor humilde, do Amor paciente, do Amor imenso, infinito que nos oferece Jesus com seus braços abertos na Cruz”.13.

São João Crisóstomo viveu, também, inteiramente abrasado de amor, e pelo poder da caridade alcançou a mais plena união com Deus, pois “a grandeza de uma vida é medida pelo amor” e é ele que faz heróis e santos.14

1 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica, II-II, q.23, a.6
2 LLORCA B.; VILLOSLADA, R.G; LABOA, J.M. Historia de la Iglesia. Madrid: BAC, 2005.
Teresinha. São Paulo: Paulus, 2002.
3 CRISÓSTOMO. Homilías sobre el Evangelio de San Mateo. Texto griego, version española y notas de Daniel Ruiz Bueno. 2.ed. Madrid: BAC, 2007.
4 COLOMBAS, G. M. El monacato primitivo. 2.ed. Madrid: BAC, 1998.
5 CRISÓSTOMO, S.J. Vida e obras. Disponível em Acesso em 05 out. 2010.
6 ROYO MARÍN, A. Los grandes maestros de la vida espiritual. Madrid: BAC, 2002. p. 369
7 Cf CRISÓSTOMO. Homilías sobre el Evangelio de San Mateo. p. 1208
8 LISIEUX, T.. Obras Completas de Santa Teresa do Menino Jesus e da Santa Face. Tradução das. Monjas do Carmelo do Imaculado Coração de Maria e Santa.
9 TORREL, J-P. Santo Tomás de Aquino. Tradução de J. Pereira. 2.ed. São Paulo: Loyola, 2008. p. 424
10 Cf CRISÓSTOMO. Homilías sobre el Evangelio de San Mateo p. 1209
11 Loc.cit. p.115
12 Cf ROYO MARÍN, A. Op. cit p. 368
13 ARNÁIZ BARÓN, R. Obras Completas. 4. ed. Burgos: Monte Carmelo, 2002. p. 869
14 PHILIPON, M. O sentido do eterno. Tradução de Maria Cecília de M. Duprat. São Paulo: Flamboyant, 1964. p. 49

Confiar e abandonar-se nas mãos Deus

divina_prov

Fahima Akram Salah Spielmann

A existência de Deus é a primeira entre todas as verdades nas quais os fiéis devem acreditar: “Creio em Deus Pai todo-poderoso”, rezamos no início do Credo. Essa verdade de Fé pode ser comprovada todas as vezes que contemplamos a ordem e as leis que regem a natureza e o universo. Ninguém é tão insensato para imaginar que toda essa harmonia é fruto do mero acaso.

Conforme nos ensina o Catecismo “Deus criou o universo livremente, com sabedoria e amor. O mundo não é o produto duma necessidade, dum destino cego ou do acaso” (Catecismo, 54). Assim, “tudo o que Deus criou Ele o governa e cuida pela sua Providência”, afirma o Concílio Vaticano I. Mas, em que consiste a Providência Divina?

A criação não saiu totalmente acabada das mãos de Deus. Foi criada in statu viae, ou seja, em estado de caminhada para uma perfeição maior a ser atingida. A disposição pela qual Deus conduz a sua criação em ordem a essa perfeição chama-se Providência Divina (cf. Catecismo, 302).

Embora a Providência dirija todas as criaturas para o fim que lhe convém pelos meios adotados a esse fim, Ela se ocupa mais especialmente da criatura humana, a quem redimiu pelo Preciosissímo Sangue de seu Filho. “Entregai todas as vossas solicitudes ao Senhor, pois ele cuida de vós” (1P 5,7).

Nosso Senhor Jesus Cristo pede-nos um abandono filial à Providência do Pai Celeste, que cuida das menores necessidades dos seus filhos: “Não vos inquieteis, dizendo: Que havemos de comer? Que havemos de beber? […] Bem sabe o vosso Pai celeste que precisais de tudo isso. Procurai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça e tudo o mais vos será dado por acréscimo” (Mt 6, 31-33).

E por mais que o homem se levante contra essas mãos que o tiraram do nada, a Providência Divina nunca o abandona, como vemos de modo paradigmático no Livro da Sabedoria (Sb 14,1-6), a exemplo de um homem que quer navegar movido pela cobiça e se lança ao mar em um navio feito de madeira de péssima qualidade, e só não perece porque a Providência abre caminho no mar e conduz o timão. Assim Ela faz conosco, dirigindo-nos com fortaleza e suavidade, porque respeita a natureza e as inclinações de cada um dos seres, sem os violentar, operando no fundo da sua substância como se agissem sozinhos.

Contudo, muitas vezes o Divino Governo se manifesta por caminhos inescrutáveis, sobretudo em certas sendas, que talvez por seu esplendor, são obscuras aos nossos olhos. Deus pode na sua onipotente Providência tirar um bem das consequências dum mal (mesmo moral), causado pelas criaturas. É a história de José que foi vendido como escravo pelos irmãos: “Não, não fostes vós — disse José a seus irmãos — que me fizestes vir para aqui. Foi Deus. […] Premeditastes contra mim o mal: o desígnio de Deus aproveitou-o para o bem […] e um povo numeroso foi salvo” (Gn, 45, 8; 50, 20).

Apesar de crermos firmemente que Deus é o Senhor do mundo e da história, muitas vezes, porém, os caminhos da sua Providência são-nos desconhecidos. Só no fim, quando acabar o nosso conhecimento parcial e virmos Deus “face a face” (1 Cor 13, 12), é que nos serão plenamente conhecidos os caminhos pelos quais, mesmo através do mal e do pecado, Deus terá conduzido a criação ao seu fim último. Portanto, cabe ao homem diante das circunstâncias adversas confiar e abandonar-se nas mãos Deus, exercitando algumas virtudes: a penitência, a humildade, adquirida depois da queda; o reconhecimento que se faz mais intenso e mais vivo porque o perdão foi imenso, etc. Lê-se no Livro dos Salmos: “Pois não ouvirá quem fez o ouvido? O que formou o olho não verá? Aquele que dá lições aos povos não há de punir, ele que ensina ao homem o saber… O Senhor conhece os pensamentos dos homens” (Sl 93, 9-11).

Sendo Deus o Senhor soberano dos seus planos serve-Se, para a realização dos mesmos, do concurso das criaturas. Isto não é um sinal de fraqueza, mas da grandeza e bondade de Deus onipotente. É que Ele não só permite às suas criaturas que existam, mas confere-lhes a dignidade de agirem por si mesmas, de serem causa e princípio umas das outras e de cooperarem, assim, na realização do seu desígnio.

Podemos citar o grande Apóstolo dos Gentios, São Paulo: de perseguidor dos cristãos a pregador de Cristo. De tal maneira, ele se deixou levar pela Providência Divina para realizar os desígnios de Deus que dizia: “Porque quando me sinto fraco, então é que sou forte” (2 Cor 12,10), ou seja, ele possuía a clara noção de que o governo divino ordena tudo para um bem superior. “O sumo abandono nas mãos de Deus é sentir-se miserável, sentir-se quebrado, sentir-se arrasado e nessa hora dizer: ‘ Ah! Afinal, agora eu posso dizer que sou mais forte do que nunca!” 1
Saibamos compreender que as criaturas nada podem sem o seu Criador e muito menos atingir o seu fim último, sem a ajuda da Divina Providência.

1 CLÁ DIAS, João. Homilia da XI Semana do Tempo Comum. São Paulo: Mairiporã, 23 Jun. 2007. (Arquivo IFTE).

Abba e a filiação divina

Irmã Clarissa Ribeiro de Sena, EP

“Aproximemo-nos da manjedoura na gruta em Belém e contemplemos um Menino reluzente de vitalidade, sabedoria e graça. A diplomacia divina não podia haver elaborado melhor forma para remediar todos os males trazidos pelo pecado. Um Homem-Deus… […] Ali está Quem não só nos abriu as portas do Céu, mas também nos elevou à categoria de filhos de Deus”(CLÁ DIAS).
NSJC1
Pela Encarnação e Redenção, não apenas foi reparado o pecado de nossos primeiros pais em que amizade com Deus tinha sido abalada, mas o homem foi reintegrado à ordem sobrenatural, e elevado ao mais alto grau de união com Deus a que pode chegar uma criatura: a filiação divina.

Este novo relacionamento entre Deus e os homens encontra-se bem caracterizado em um sugestivo termo utilizado por escritores sagrados: Abba. Qual é a sua vinculação com a filiação divina?

Muito decidora é a passagem em que os discípulos pedem a Jesus que lhes ensine a rezar. Como observa Von Balthasar, por muito particular que fosse a intimidade de Nosso Senhor com o Pai, Ele não ensina seus discípulos a rezarem de maneira distinta à que Ele mesmo faz; ao contrário, instrui-os a invocá-lo como Pai ― Ἀββά.

O vocábulo ἁββά ― um semitismo lexical ― é usado apenas três vezes no Novo Testamento: em Mc 14,36; Rm 8,15 e Gl 4,615.

Nas três ocorrências, Ἀββά aparece na função de vocativo, indicando uma interpelação a Deus. Seu uso, com esta finalidade, não é registrado em nenhuma passagem do Antigo Testamento, nem nos textos extra-bíblicos. Os autores atribuem este silêncio a um fator linguístico: a origem da palavra ἁββά.

Em aramaico, ἁββά, é originário do linguajar infantil, com o significado de “papai”. No período pré-cristão, recebeu um sentido mais amplo, sendo utilizado também pelos filhos e filhas adultos. Chegou a substituir, nos textos hebraicos, a expressão “meu pai”, significando também “seu pai” e “nosso pai”; suplantou, ademais, a forma determinada do substantivo “pai”. Contudo, apesar destes desenvolvimentos, não se olvidou sua procedência de um balbucio infantil. Assim, aplicar a Deus um termo tão corriqueiro e familiar, talvez tenha soado um tanto desrespeitoso aos compatrícios de Jesus. O mesmo não ocorreu com São Marcos, que não hesitou em colocá-lo nos lábios do Divino Mestre.

horto 150Nos Evangelhos, a invocação Ἀββά, está atestada expressamente somente na perícope da Oração no Horto que nos oferece São Marcos. Contudo, afirmam vários autores que é a palavra aramaica Ἀββά, que subjaz nas várias versões gregas da palavra “Pai”, usada por Jesus ― segundo o testemunho unânime dos Evangelhos ― para dirigir-se a Deus em todas as suas orações. Portanto, “quando Jesus se dirigia a Deus chamando-o “Pai”, utilizava o termo arameu Abba”.

Os exegetas fundamentam esta afirmação na oscilação das formas da interpelação a Deus como Pai apresentadas pela tradição: “Encontramos, de um lado, a forma grega correta do vocativo πάτερ , acompanhado de pronome pessoal em Mateus (πάτερ μον), e, do outro lado, o nominativo com artigo (ὁ πάτερ) como vocativo. Chama especial atenção que numa só e mesma oração encontramos lado a lado πάτερ e ὁ πάτερ vocativo, a saber em Mt 11.25s par. Lc 10.21”.
Esta variação aponta para um Ἀββά, subjacente que, como visto anteriormente, era usado tanto como interpelação, quanto como o estado determinado “o pai”, ou como a forma com o sufixo da primeira pessoa (“meu pai”, “nosso pai”).

Outro fato reforça esta hipótese: o testemunho de Rm 8,15 e Gl 4,6 que revela o uso de Ἀββά, nas comunidades cristãs primitivas, costume pressuposto por São Paulo tanto em suas próprias comunidades (Gálatas), quanto naquelas não fundadas por ele (Romanos). Para Kittel, o Ἀββά ὁ Πάτερ presente nas duas epístolas, evoca uma reminiscência litúrgica, possivelmente o início do “Pai-Nosso”. Tal proposição é corroborada pelo verbo χράζω que, segundo Kuhn, tem o “sentido de clamor extático na assembléia da comunidade”. Este uso litúrgico justificaria a familiaridade com a palavra Ἀββά em regiões tão distantes da Palestina. De qualquer forma, a subsistência de um termo de origem aramaica em ambientes estranhos a esta língua, parece indicar ser este um eco da voz do próprio Jesus.

Este é um termo que expressa a peculiar, afetuosa e entranhada relação entre Jesus e o Pai. E é deste invulgar relacionamento, que o Salvador quis fazer partícipes os seus.

O uso de Ἀββά nas cartas paulinas também denota uma experiência, por parte dos primeiros cristãos, da familiaridade com o Pai proclamada e vivida por Jesus; nas duas epístolas, Ἀββά ὁ Πατήρ é mencionado como manifestação do relacionamento filial dos romanos e gálatas com Deus.

Ἀββά! Em uma simples palavra, encontra-se contida tão insigne realidade: pelos méritos de Cristo, somos filhos de Deus! Não nos esqueçamos, porém, de que noblesse oblige. Se Deus assim nos convida a tal intimidade consigo, cabe, de nossa parte, uma resposta à altura. Que esta não seja como a de Adão e Eva no Paraíso; mas semelhante à de Jesus no Horto das Oliveiras ― que antepõe a vontade do Pai à sua ― e a dos discípulos de Roma e da Galácia, convocados por Paulo a viver segundo a fé em Jesus Cristo. Desta forma, poderemos unirmo-nos a eles, e dizer com toda propriedade: Ἀββά ὁ Πατήρ!

O primeiro mártir apologeta

Adelina Maria Ribeiro Matos

A Obra da Criação estará completa? Sendo Deus a Perfeição, poderia criar algo incompleto ou para ser completado?

É necessário considerar o seguinte: Deus é mais glorificado pelas criaturas mais excelentes, isto é, pelos seres inteligentes, feitos à Sua imagem e semelhança: os Anjos e os Homens.

Quando o homem é fiel à sua inocência e encaminha bem os primeiros princípios, tende com maior veêmencia à procura do mais perfeito, do Absoluto que é Deus. O homem medieval se deixou levar por esse processo e chegou a realizar obras que, por assim dizer, completavam as do seu Criador. paris-notre-dameProduziu deste modo, segundo a expressão de Dante Alighieri, novas netas de Deus, pois constituem uma como segunda geração, nascida da matéria que saiu diretamente das mãos de Deus.A catedral de Notre Dame de Paris ou a Sainte Chapelle, por exemplo, são inteiramente harmônicas com a natureza e podem oferecer uma digna morada ao seu Criador, oculto na Eucaristia.
Mas, poderá o homem completar a Paixão de seu Redentor?

São Paulo ousa afirmar em sua carta aos Colossenses: “ Agora alegro-me com os sofrimentos suportados por vós. O que falta às tribulações de Cristo, completo na minha carne, por seu corpo que é a Igreja (Col 1,24). Assim, podemos dizer que os mártires completam a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Os judeus, após terem imolado o próprio Deus, o Cordeiro sem mancha, maquinaram um ataque para fazer desaparecer um de Seus discípulos que fazia-lhes suspeitar que a doutrina e o “modo de viver” do “Galileu” não tinham desaparecido com sua morte, mas estavam ainda mais vivos e contundentes do que nunca. Eliminando Estevão, muito estimado e admirado na comunidade cristã, e o primeiro na lista dos diáconos, pretendiam desferir um golpe fatal na ‘seita’ crescente.

“Helenista, talvez mesmo alexandrino de origem, conhecedor das doutrinas filosóficas dos gregos tanto quanto das tradições hebraicas, esse homem encarna maravilhosamente esse espírito novo, voltado para a conquista e resolutamente disposto a enfrentar as necessárias rupturas. Ele sabe falar às pessoas de fora, mas também poupa muito menos a susceptibilidade dos velhos crentes do Torah. São Pedro, ao ensinar as multidões de Jerusalém,procurava sobretudo mostrar que Jesus fora o Messias, o último remate de Israel. Estevão, porém, reteve especialmente aquelas frases em que se diz que não se deita vinho novo em odres velhos, nem se cose um remendo novo num pano velho” (ROPS 1988,p.37)

“ Estevão, cheio de graça e fortaleza, fazia grandes prodígios e milagres entre o povo (At 6,8). Ele estava em pleno vigor, não apenas de ânimo, por estar na flor da juventude, mas da graça que atuava nele, e por isso, arrastava as multidões. Então, alguns da sinagoga, chamada dos libertos, dos Cirenenses, dos Alexandrinos e dos que eram da Silicia e da Ásia, levantaram-se a diputar com Estevão. Estes, por viverem em meio aos pagãos, haviam relativizado os costumes da lei mosaica e até haviam se esquecido da missão específica do povo de Israel. “Em algumas orações judaico-helenísticas encontra-se o desejo da reconciliação da terra inteira e de todos os povos no seio de Deus” (ROPS 1988,p.34)

Nas discussões, não conseguiam vencê-lo porque Estevão falava cheio do Espírito Santo, confundindo os interlocutores e deixando-os sem palavras para retorquir. E eles que odiavam os milagres, odiaram ainda mais seus argumentos. “Então subornaram alguns indivíduos para que dissessem que o tinham ouvido proferir palavras de blasfêmia contra Moisés e contra Deus. Amotinaram assim o povo, os anciãos e os escribas e, investindo contra ele, agarraram-no e o levaram ao Grande Conselho” (At 6,11-12).

Diante do Sinédrio “apresentaram falsas testemunhas que diziam: Esse homem não cessa de proferir palavras contra o lugar santo e contra a lei. Nós o ouvimos dizer que Jesus de Nazaré há de destruir este lugar e há de mudar as tradições que Moisés nos legou” (At 6,13-14). Passados três anos da morte de Nosso Senhor Jesus Cristo, os judeus repetem as mesmas acusações para condenar Estevão. Mataram o Divino General e agora querem matar seu fiel soldado. “O servo não é maior do que o seu senhor. Se me perseguiram, também vos hão de perseguir” (Jo 15,21). Essa profecia do Divino Mestre não tardaria a se cumprir plenamente na pessoa de Estevão.

Existe, entretanto, uma notável diferença. Quando Nosso Senhor compareceu diante de Caifás para ser julgado “Jesus, no entanto, permanecia calado” (Mt 26,63). Não convém ao Superior defender sua própria causa, por isso, o silêncio. Mas Santo Estevão não podia permanecer em silêncio diante de seus acusadores: abriu a boca, sim, não para justificar-se, mas para defender o Seu Senhor.

Todos têm os olhos postos nele e veêm seu rosto resplandecer como o de um Anjo. Fenômeno que deixa os sinedritas pertubados. O Sumo Sacerdote pergunta-lhe se os crimes que lhe haviam sido imputados eram reais. Ele, resumindo a história de Israel e mostrando-se fiel à Aliança, qualifica-os de “homens de dura cerviz, e de corações e ouvidos incircuncisos! Vós sempre resistis ao Espírito Santo. Como procederam os vossos pais, assim procedeis vós também!” (At 7,51)

Analisemos esta cena. O erro do Sinédrio consistia em seu apego à Lei Antiga. O Messias veio para dar pleno cumprimento e realização ao que a Lei mosaica ensinava. E eles não aceitaram. Mas, por que não aceitaram? Porque sua fidelidade à Lei mosaica havia se concentrado na exigência escrupulosa de certas práticas concretas, meras exterioridades, desprovidas de todo sentido espiritual. Preocupados com “o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e desprezais os preceitos mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia, a fidelidade. Eis o que era preciso praticar em primeiro lugar, sem contudo deixar o restante” (Mt 23,23). Detiveram-se no superficial olvidando-se da substância. A esse respeito diz São Paulo: “a verdadeira circuncisão é a do coração, segundo o espírito da lei, e não segundo a letra. Tal judeu recebe o louvor não dos homens, e sim de Deus (Rm 2,29). Eles se apegaram aos símbolos que não faziam mais sentido, uma vez que Nosso senhor, o simbolizado, já se encarnara.

Santo Estevão prossegue: “Vós sempre resistis ao Espírito Santo. A qual dos profetas não perseguiram os vossos pais? Mataram os que prediziam a vinda do Justo, do qual vós agora tendes sido traidores e homicidas. Vós que recebestes a lei pelo ministério dos anjos e não a guardastes…” (At 7,52-53)

Suas palavras foram cheias de sabedoria e sua atitude apostólica. Procurou tocar aqueles corações e iluminar aquelas inteligências, mas não quiseram abrir suas almas ao efeito salutar da santa vítima. Então, rangeram os dentes contra Estevão. Mas, como estava cheio do Espírito Santo, “Estêvão fitou o céu e viu a glória de Deus e Jesus de pé à direita de Deus” ( At 7,55).
Santo Ambrósio pergunta-se porque Santo Estêvão viu Jesus stantem, em pé. “Jesus põe-se de pé para contemplar o combate de seu atleta aguerrido; levanta-se de Seu trono para ver a vitória do ‘adalid’ cuja vitória é sua própria vitória; ergue-se e se inclina à terra por estar mais disposto a coroar o herói” (apud RIBER apud ECHEVERRÍA; LLORCA; BETES, 2006, p.654, tradução nossa).

martírio Santo Estevão
“Levantaram então um grande clamor, taparam os ouvidos e todos juntos se atiraram furiosos contra ele. Lançaram-no fora da cidade e começaram a apedrejá-lo” (At 7,57-58).

“ Vemos, nesta cena, o quanto há uma luta entre o bem e o mal. O bem é perseguido pelo mal lutando com armas invisíveis e o mal lutando com pedra e ódio. Essas armas visíveis do mal, muitas vezes, assustam aqueles que não têm uma fé inteiramente feita de chama e de ardor. A fé ardente leva a compreender que as forças do mal são insuficientes, e mais do que isso, pífias. As forças do mal, por mais que tenham poder, universalidade, manifestação de impulso e de violência, não querem dizer nada. Nosso Senhor nos ensina que não devemos temer aqueles que podem nos tirar a vida, mas sim Aquele que pode nos lançar no inferno” (CLÁ DIAS, 2007,s.p.).

O bem unido a Deus jamais é derrotado. As investidas dos adversários contra o bem não fazem senão aumentar-lhe a força, o brilho e a grandeza. O bem é imortal porque Deus é imortal!